setembro 12, 2009

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RESUMO DA SEMANA – A Ministra da Saúde inaugurou um hospital em Seia mas as camas dos doentes da unidade de cuidados continuados foram retiradas no dia seguinte porque eram apenas cenário para a fotos e tv; o preço do petróleo varia sempre mais que o respectivo reflexo no preço dos combustíveis; a política fiscal do Governo continua a privilegiar aumentar impostos a quem trabalha por conta de outrem em vez de combater a grande evasão fiscal; multiplicam-se nos últimos dias incidentes de espancamentos violentos e assassinatos em diversos pontos do país; a investigação do caso Freeport foi suspensa até às eleições; o caso Casa Pia continua sem evoluir.  


 


DEBATES - Alguma coisa está mal nos debates políticos pré-eleitorais na TV. As negociações são tão apertadas, os temas a abordar são tão escrutinados e acordados que se perde muita espontaneidade. Nem vou falar do facto de o cenário ser sempre igual em todos os cenários – por si só isso é uma coisa impositiva, autoritária – um «diktat» visual que formata tudo por igual – os canais perdem identidade e é sublinhado o estatuto de suprema autoridade dos partidos. Este é um mau método, que tem provocado debates tristes e pobres, pouco mais que maratonas de promessas e chicanas de argumentos, mas pouca discussão de ideias. Na verdade o processo que levou a estes debates é um espelho do mau funcionamento do actual sistema político e da distância dos partidos em relação à sociedade. Construíram um altar cercado por espelhos e só gostam de se ver nessa posição. 


 


TVI - O que se passou na TVI mostra duas coisas: o Primeiro-Ministro gastou bastante tempo, durante os últimos meses, a atacar a informação da TVI e sobretudo o Jornal Nacional de sexta e as suas queixas acabaram por dar efeito. Quando a dona da estação, uma empresa espanhola historicamente conotada com o PSOE, interveio exactamente nos pontos que eram a queixa principal de José Sócrates, é legítimo pensar em condicionamento político grave da informação. O resto é paisagem e o facto de o PS se querer armar em vítima de conspirações neste caso pode apenas ser entendido como a repetição das justificações, métodos e argumentos de Hugo Chávez em relação à Comunicação na Venezuela. 


 


CITAÇÃO DA SEMANA - Mário Soares continua a manter, um pouco para além do normal prazo de validade que o bom senso recomenda existir, a sua prática de opinar sobre o país. A citação da semana pertence-lhe: «José Sócartes aprendeu muito com a crise, está mais socialista». 


 


EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO - A um mês de eleições autárquicas o executivo de António Costa agendou uma maratona de votações sobre questões estratégicas para o futuro da cidade, do Parque Mayer a Alcântara. Das 32 propostas apresentadas 19 eram assinadas por Manuel Salgado, e, destas, 15, continham alterações urbanísticas importantes. Chegar a um mês de eleições com tantos projectos para apreciar e votar à pressa é muito mau sinal, numa altura em que o bom senso ético recomendaria que o executivo camarário se remetesse à gestão corrente dos assuntos da autarquia. Mas dois anos sem obra feita acabam por levar a que este episódio tenha uma sensação de desesperada procura do tempo perdido.  


 


ESTACIONAR - A EMEL, a empresa que persegue os lisboetas sem conseguir resolver os estacionamentos em segunda fila, e que se tornou um caso relevante de arrogância e ineficácia na relação com os munícipes, resolveu fazer uma campanha publicitária para assinalar os seus 15 anos de vida. O slogan, certamente criado por um humorista frustrado, é: «há 15 anos que a EMEL trabalha para que ninguém estacione a sua vida». Qualquer habitante de Lisboa, automobilista, sabe que isto não é verdade. E deixo aqui um desafio à EMEL: que consiga atingir um padrão de qualidade que garanta que no prazo máximo de 30 minutos sobre a recepção do pedido de desbloqueamento, o consiga concretizar ou indicar a hora a que poderá ser feito. É que casos de duas e mais horas de espera são vários, com um call-center ineficaz que não dá respostas aos utentes e equipas de rua que são o espelho da empresa: prepotentes e arrogantes.  


 


VISITAR - Já aqui tenho sido crítico de muitas actuações do Ministério da Cultura, mas esta semana destaco uma boa medida – a criação do Portal da Cultura (www.culturaonline.pt). Espero que mantenha a qualidade dos dias de estreia, que mantenha a informação diversificada e actualizada e, já agora, espero que os seus responsáveis saibam que não basta fazer um portal assim – é preciso fazer a sua divulgação, publicitá-lo, garantir que existam links noutros sites, e, sobretudo, utilizar a publicidade digital para chegar aos potenciais utilizadores desta boa fonte de informação. Se assim não fôr ficará pelas notícias de inauguração e perderá a oportunidade de se tornar num sítio de referência da internet em relação à agenda e notícias da área cultural. 


 


AGITAR - O pintor João Vieira, um dos nomes grandes das artes plásticas portuguesas, morreu na semana passada. Chocou-me o pouco destaque dado à notícia da sua morte nos principais jornais. João Vieira integrou , em Paris, no final da década de 50 e início da de 60, o grupo KWY, que além de alguns outros portugueses como Lourdes Castro, René Bertholo, Gonçalo Duarte e José Escada, juntava Jan Voss e Christo, o artista que nas duas últimas décadas se distinguiu por algumas instalações gigantes um pouco por todo o mundo. Mas João Vieira tinha uma outra faceta escondida que felizmente registou em 2008 – apreciador de música gravou o disco «La Vida Es Un Bolero», uma deliciosa e divertida gravação que auto-editou e distribuía pelos amigos. Há uns anos tive ocasião de o conhecer melhor e entrevistar para um documentário, «Pinto Quadros Por Letras», que dirigi e que a RTP 2 re-exibiu no dia da sua morte. Desde aí íamos mantendo algum contacto, às vezes com amigos comuns. Há uns três meses fomos almoçar, ele ofereceu-me um desses discos e, no meio de algum desgosto por não conseguir montar em Lisboa uma retrospectiva da sua obra, deu-me conta de um projecto em que andava a matutar: lançar pelas águas, aqui em Lisboa, as três letras, gigantes, da palavra MAR, que tinha em tempos feito. Como sempre, o João queria continuar a agitar as águas e permanecia deliciosamente irrequieto. 


 


BACK TO BASICS – O primeiro passo no progresso de um homem ou de uma nação é o descontentamento - Oscar Wilde

setembro 10, 2009

DOIS ANOS PERDIDOS

(Publicado no diário «Metro» de 9 de Setembro)


Quando olho para o que se passa em Lisboa desde que António Costa é Presidente da Câmara sinto uma sensação de tempo perdido, dois anos para ser exacto. Sob a desculpa de arrumar a casa, muito pura e simplesmente deixou-se a cidade ao abandono. Sob o pretexto das dificuldades financeiras deixou-se degradar a limpeza e o arranjo das ruas da cidade – mas verbas importantes foram desviadas para outros projectos, menos prioritários. Passeios sujos, asfalto com buracos, obras sem controlo que se arrastam (como na Fontes Pereira de Melo), desinvestimento nos apoios sociais aos mais idosos – este é o resumo destes últimos dois anos em Lisboa.


Para os que vivem e trabalham em Lisboa a vida está pior, mais desconfortável, mais difícil. As medidas anunciadas – a tolerância zero no estacionamento, por exemplo – ficaram no papel e não se concretizaram. O Terreiro do Paço assemelha-se a um pesadelo, num projecto sem nexo, o trânsito na baixa foi transformado num caos, com placas de indicação de sentido e direcção desactualizadas.


Largas somas foram aplicadas em obras de duvidosa prioridade e utilidade, como as ciclovias - veremos qual a utilização real que elas vão ter, porque para já é bem reduzida.


Mas em contrapartida os espaços públicos – como o jardim do Campo Grande – continuam a degradar-se e os cemitérios estão cada vez mais maltratados – sujos, descuidados.


Nestes dois anos não houve reestruturação dos serviços da Câmara, aproximação aos munícipes, diminuição da burocracia. Pelo contrário, por exemplo, a EMEL piorou a sua actuação e arrogância, e é, claramente, um caso a merecer atenção no futuro.


A qualidade de vida e o conforto de uma cidade é medido, em primeiro lugar, pelos seus habitantes – devem ser eles os destinatários da governação camarária. Mas na realidade é bem difícil encontrar o que foi feito por António Costa e pela sua equipa, mais entretidos em jogos políticos do que em servir os lisboetas. A cidade, na realidade, está mais desarrumada.

setembro 07, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios) de 4 de Setembro

RESUMO DA SEMANA – Na Universidade de Verão do PSD sucederam-se declarações críticas a Ferreira Leite; dois distintos militantes socialistas, Pina Moura e Henrique Neto, resolveram elogiar o programa do PSD em comparação com o do PS; notáveis do PSD apareceram a elogiar as vantagens do Bloco Central. E na manhã seguinte à entrevista a José Sócrates a RTP 1 conseguiu reduzir o noticiário político de véspera a três repetições, no espaço de uma hora, da peça-resumo dessa entrevista. 

 


 


BATOTA – Caroços à parte, um partido que escolhe para mandatária da juventude uma jovem que admite fazer batota para ganhar está a dar um sinal a todos. Tratar a política como uma campanha publicitária dá resultados destes. A culpa, no entanto, não é de Carolina Patrocínio, igual a si própria: é de quem a escolheu para uma função política apenas pelas formas e popularidade. Deve ser uma das tais expressões de modernidade de que Sócrates gosta de se gabar. 

 


 


METRO – A maneira como o Metropolitano trata Lisboa é um escândalo, já se sabe. Durante meia dúzia de anos, no Saldanha, esventrou o coração da cidade, desprezou residentes e comerciantes. Anuncia mais ligações futuras à periferia sem cuidar de pensar nas ligações dentro da cidade, por exemplo a ocidente ou nas novas zonas habitacionais. Quanto às estações novas, nomeadamente S. Sebastião, fica uma nota: estações enormes, muito em profundidade – mas com poucas escadas rolantes, em contraste com o que acontece noutras situações semelhantes no estrangeiro. Já na Baixa-Chiado é a mesma coisa e, em muitos casos, as escadas rolantes estão avariadas – sempre as que sobem, claro. Ora isto leva-me a perguntar: porque é que não há alguém que, quando a escada de subida avaria, se responsabilize por inverter a de descida – é que sempre é mais fácil descer que subir. No meio do enorme preço das estações não se poderá investir um pouco mais em conforto e comodidade para os utentes? 

 


 


TV – Na última semana de Agosto os três canais comerciais (RTP 1, SIC e TVI) ficaram separados por um intervalo de apenas cinco pontos entre o mais visto (TVI) e o menos visto (SIC). A guerra de audiências no último trimestre promete, ainda por cima com as mudanças entretanto verificadas na TVI. Mas o dado mais significativo vem do constante crescimento do universo do Cabo – que continua a aumentar o número de espectadores, agora já nos 20 por cento de forma estabilizada. Mais cedo ou mais tarde isto vai ter efeitos no mercado publicitário. Uma nota: em Espanha, esta semana, a TVE deixou de vender publicidade. É outra lógica de serviço público. 

 


 


OUVIR – Neste regresso de férias convém manter no ar o espírito de Verão. Um disco que tem feito as minhas delícias é a compilação de canções pop portuguesas dos anos 50 e 60, da responsabilidade do Real Combo Lisbonense, um projecto dirigido por João Paulo Feliciano e que faz parte da colecção de discos da operadora telefónica Optimus. São sete temas, uma versão de um êxito internacional da época («Oh» de Byron Gay e Arnold Johnson) e seis bem portugueses e lisboetas: «A Borracha do Rocha» do Conjunto de Mário Simões, «Sensatez» de Carlos Canelhas e António José, «Pepe Fado» de Eugénio Pepe e Francisco Nicholson, «O Fado É Bom P’ra Xuxu» de Frederico Valério e Amadeu do Vale e «Dois Estranhos» de Artur Ribeiro e Cazal Ribeiro. Nestas novas versões brilham as vozes de Mário Feliciano, Ana Brandão, Márcia Santos e Ian Mucznik, onde antes estavam Mafalda Sofia, o Thilo’s Combo, Simone ou Olivinha Carvalho, entre outros. A produção é exemplar na reconstituição do som da época e as novas interpretações são deliciosas. CD à venda na FNAC, ainda por cima a menos de cinco euros. 

 


 


SUGESTÃO  – Já que estamos nesta onda musical aqui fica uma sugestão para hoje à noite, sexta-feira dia 4 : os Irmãos Catita actuam no Cabaret Maxime pelas 23h30 (Praça da Alegria), sob a batuta de Lello Marmello, aliás Manuel João Vieira. Reservas de mesa pelo telefone 213467090, entrada a 10€. 

 


 


LER – A edição de Setembro da «Vanity Fair» vem com duas capas alternativas – Michael Jackson está numa, Farrah Fawcett noutra: Fallen King no título da primeira, Fallen Angel no título da segunda. Já se sabe que as edições de Setembro das grandes revistas são sempre apostas fortes da publicidade das grandes marcas, mas em ano de crise temia-se uma alteração à tradição – depois de um início do ano mais fraco, esta «Vanity Fair» vem recheada de publicidade, ela própria graficamente aliciante – destaco as páginas da Chanel, David Yurman, Moncler (com Bruce Weber), Calvin Klein Jeans e Guess – esta última marca estrategicamente colocada no início da tradicional lista dos mais bem vestidos em diversas áreas (muitos espanhóis referenciados a começar pela Princesa Letícia), sempre publicada na edição de Setembro. Um atractivo suplementar é uma divertida ficção de Tom Wolfe sobre as angústias dos ricos financeiros que deixaram de poder viajar em jactos privados. Delicioso. 

 


 


VER – O número de Setembro da edição britânica da revista «Esquire» é verdadeiramente um artigo de colecção que merece ser manuseado, folheado, visto por todos os ângulos. Dedicado integralmente ao tema do fato clássico para homem, tem uma capa dura, lombada de tecido e papel especial. Na capa está Quentin Tarantino e no interior numerosos artigos e, felizmente muita publicidade – como já não se via há alguns meses, um sinal de alguma retoma nestas edições da rentrée. O tema do fato de homem – a sua evolução ao longo da história e os melhores acessórios, por exemplo, ocupam boa parte da edição. O prato forte é uma entrevista com Paul Smith, o homem que reinventou a roupa de homem na Grã-Bretanha há uns anos e que é uma referência incontornável no design de moda. 

 


 


PETISCAR – Algo me diz que o Spot S. Luiz, o restaurante do Teatro S. Luiz, vai marcar esta rentrée – ao almoço está cada vez mais animado, tem agora uma pequena esplanada, um inovador hamburguer com ovo escalfado, clientela animada e a presença de Sofia Aparício na equipa da casa. A direcção culinária é do chefe Fausto Airoldi. Telefone 213430253 . 

 


 


BACK TO BASICS – «Só há um forma de saber se um homem é honesto... pergunte-o. Se ele disser 'sim', então você sabe que ele é corrupto» - Groucho Marx 

 

setembro 01, 2009

GOSTAM DA ARRUMAÇÃO FEITA EM LISBOA?

 


(Publicado no diário «Metro» de 1 de Setembro)

 

No início desta colaboração com o «Metro» gostaria de deixar claro algumas circunstâncias: sou candidato à Presidência da Assembleia Municipal de Lisboa na lista proposta por Pedro Santana Lopes; não tenho partido, não sou republicano, acho que o Estado age com excessiva frequência contra os cidadãos e entendo que o fisco comete demasiados abusos para poder ser encarado como uma entidade séria e justa.

Dito isto, e como sempre achei que a música ajuda a entender as pessoas, devo declarar que a minha pessoalíssima banda sonora deste verão foi constituída pelos mais recentes discos de Ben Harper, Sonic Youth, Regina Spektor, Nouvelle Vague e Rokia Traoré. O australiano Peter Carey é o meu escritor favorito do momento e o próximo filme que hei-de ver é «Sacanas Sem Lei!» de Quentin Tarentino. Não gosto de usar gravata, tenho 55 anos, nasci e fui criado em Lisboa, gosto desta terra, gosto desta cidade, comovo-me cada vez que regresso e irrita-me que ela esteja a ser tão maltratada como ultimamente tem sido. Se pudesse, andava sempre de «Vespa». Pronto, está feito o meu retrato.

Estou na lista da coligação «Lisboa Com Sentido» porque acho mesmo que esta cidade precisa de levar uma volta. Prefiro um candidato que queira mudar e melhorar a cidade, a outro que apenas queira ter as coisas arrumadinhas. Sobretudo, quero um Presidente da Câmara que pense mais nos munícipes que nos interesses do Governo, alguém que se preocupe mais com Lisboa do que com o seu partido, que esteja interessado em conseguir repovoar a cidade, torná-la mais confortável e agradável para quem cá vive. Quero alguém que prefira uma política de recuperação a uma política de demolição, quero alguém que melhore o Terreiro do Paço e não que o transforme numa palhaçada, quero alguém que devolva o rio à cidade, em vez de o entregar às empresas de contentores.

Se estão contentes com o estado da cidade, a sua limpeza, o estado dos seus jardins e os buracos por todo o lado, já sabem que devem votar no arrumadinho. Eu espero que prefiram mudar.

 

agosto 31, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 28 de Agosto)

ROTUNDAS – Durante as viagens de férias constatei a súbita proliferação de rotundas em vias de conclusão ou de obra recente. A rotundomania domina o país, o grande problema é que muitas das rotundas não têm indicações de direcção claras e quem não conhece os locais anda autenticamente às voltas, perdendo-se com frequência. Assim as rotundas servem para confundir e baralhar e não simplificam – a não ser para os partidos políticos: é que as rotundas parecem mesmo ser o local ideal para afixar os cartazes de propaganda eleitoral. Nos tempos que correm esta é a sua mais imediata utilidade. 

 


 


PORTUGAL – O despudor com que o Governo se desdobra em acções de propaganda não tem precedentes próximos em Portugal – todos os dias se vêem exemplos de anúncios de iniciativas ainda não concluídas, sugestões de obras futuras, tudo com um despudor inacreditável. A demagogia moderna é isto: mostrar o que ainda não existe como se estivesse feito, dizer que se vai fazer o que já se sabe ser impossível concretizar. Nesta matéria José Sócrates é de facto campeão.  

 


 


LISBOA – Regresso de férias – recomeçam os problemas no trânsito, continuam as obras de Metro do Saldanha, atrasadas quase dois anos, as avenidas novas permanecem bem sujas (parece não verem água há meses), a Fontes Pereira de Melo ainda continua com faixas reduzidas, o Campo Grande lá está triste e degradado. Ao contrário do que diz a propaganda, a casa não está arrumada, está mesmo muito desarrumada. 

 


 


DESCOBRIR – A programação Allgarve incluía este ano uma área dedicada à arte contemporânea, intitulada Art Algarve, que se espalhava por vários locais. O meu destaque vai para as exposições existentes em Loulé e, destas, sobretudo para as fotografias de Patrícia Almeida (uma das nomeadas para a próxima edição do BES Photo). Mas verdadeiramente o que achei mais interessante foi o facto de a Art Algarve ter conseguido colocar as exposições em locais como o Convento de Santo António ou na maravilhosa descoberta que é a Quinta da Fonte da Pipa, ambas em Loulé. Só para conhecer estes locais e ver como eles convivem com arte contemporânea, valeu a pena a deslocação. Destaque ainda para as exposições de Faro, quer no Museu Municipal, quer na Galeria Arco. Todas as exposições aqui referidas podem ser vistas até 27 de Setembro e estão garantidas duas tardes bem passadas. Informações complementares em www.allgarve.pt. Atenção – a sinalização dos locais por vezes é deficiente, os números de telefone indicados nalguns casos estão errados ou não dão sinal e os horários, sobretudo de abertura, são inconstantes.  


 


 


OUVIR – A formação é pouco usual: um quinteto liderado por um trompetista e que inclui ainda tuba, trombone, trompa e bateria. O grupo chama-se Brass Ecstasy e é liderado pelo trompetista Dave Douglas, um seguidor de Lester Bowie.. O resultado é invulgar, baseado no jazz mas a meio caminho entre a soul e a pop, e inclui versões de temas de Rufus Wainwright (“This Love Affair”), de Otis Redding (“Mr Pitiful”) ou de Hank Williams (“I’m So Lonesome I Could Cry”). As versões são extraordinárias, a começar pela de Wainwright, que inicia o disco, com uma sonoridade roubada às ruas de New Orleans. Noutra faixa, «Fats», Dave Douglas homenageia Fats Navarro num tema cheio de swing. Mas há originais, como «The View Of The Blue Mountains», que provam o talento de Dave Douglas naquele que é considerado um dos seus melhores trabalhos na já extensa discografia – este «Spirit Moves», agora editado entre nós pela Universal. 

 


 


LER – A edição de Setembro da Monocle» dedica 15 páginas a uma reportagem e ensaio fotográfico sobre os Jogos da Lusofonia, que decorreram em Lisboa entre 11 e 19 de Julho passado. O trabalho da revista mostra a importância que pode ter para Lisboa um papel de acolhimento de eventos que potenciem a cultura e o entretenimento populares dos vários países lusófonos, nas suas várias componentes – das quais faz parte o desporto. Independentemente do apoio que pode ser dado a opções criativas mais experimentalistas, como as que são actualmente defendidas no caso de África por este Governo, são eventos abrangentes e populares que nos permitem ganhar notoriedade e posicionamento europeu enquanto local de excelência para uma plataforma multicultural – como este exemplo da «Monocle» bem demonstra. Destaque para as fotos que John Balson fez dos Jogos e dos atletas. 

 


 


PETISCO – Nada como um bom azeite e um bom pão para iniciar uma refeição. Recentemente experimentei alguma da produção da Azal (Azeites do Alentejo) e fiquei conquistado sobretudo pelo Azal Terra e pelo Azal DOP. O primeiro foi feito através de modos de produção biológicos e o segundo é da região do norte alentejano – ambos foram já premiados e têm uma qualidade verdadeiramente invulgar. Sediada no Redondo, mas a trabalhar a partir de azeitonas recolhidas em diversas zonas do Alentejo, a Azal criou também uma Academia do Olival, que continuamente procura aconselhar o aperfeiçoamento dos olivais. 

 


 


PROVAR – O local tem vasta fama e boa reputação desde 1996. Situado perto de Albufeira e de Olhos de Água, numa pequena estrada interior, o «Retiro do Isca» é o exemplo de cozinha regional bem pensada, séria, sem truques fáceis e apego à tradição. No centro da operação está uma grande grelha a carvão, manuseada com mestria. O peixe é fresco e de qualidade como se esperaria no local, mas se a opção fôr para umas lulas grelhadas a surpresa vem do cuidado posto na sua apresentação e tempero, feito depois de saída da grelha. Na realidade estas foram, em frescura, textura e sabor, as melhores lulas grelhadas de que tenho memória desde há anos. Do outro lado da mesa estava um sério linguado, tudo aprimorado com legumes e saladas como deve ser. A rematar uma tarte de alfarroba deliciosa, acompanhada a pedido com uma especialidade local em matéria de digestivos. Preço razoável e honesto, serviço atento e simpático. A casa tem boa fama, reservar é mesmo necessário – Retiro do Isca, Vale Carro, Tel. 289502668.


 


BACK TO BASICS – Tudo o que peço aos políticos é que se contentem em mudar o mundo sem começar por mudar a verdade (Jean Paulhan) 

 

agosto 24, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 21 de Agosto)

REGISTO DE INTERESSE – Sou cabeça da lista para a Assembleias Municipal de Lisboa proposta por Pedro Santana Lopes. Espero que a coligação «Lisboa Com Sentido» vença estas eleições, na Câmara, na Assembleia Municipal e nas Juntas de Freguesia. Dito isto, se o Director quiser, continuarei a falar do que aqui sempre tenho falado – a ERC não tem muito que se lamuriar – quer Baptista-Bastos, quer Leonel Moura são rapazes para me fazerem boa oposição e alto contraditório.  

 


 


CAMPANHA – António Costa é que devia ligar um pouco às recomendações pluralistas básicas da ética republicana – pegou em 1,6 milhões de euros do orçamento camarário e montou uma festa permanente no Parque Mayer, que é uma bela oportunidade de auto-propaganda. Por um daqueles acasos do destino o programa da propaganda festeira vai exactamente até 11 de Outubro, o dia das autárquicas. Mais conveniente era difícil. 

 


 


 


DARTH VADER – A invasão da política portuguesa pela saga da Guerra das Estrelas e pela figura de Darth Vader é o caso do Verão – uma acção bem humorada, com base numa das mais activas e antigas equipa de bloggers – do 31 da Armada - conseguiu fazer com que o vereador Manuel Salgado se metesse numa embrulhada sobre a segurança, ridicularizou o aparelho da Câmara, que se apressou a chamar a polícia para prender os inssurectos  quando estes foram devolver, limpa e arranjada, a bandeira da autarquia, que havia sido substituída no varandim dos Paços do Concelho pela bandeira monárquica azul e branca –  uma outra forma de assinalar o centenário da República, mais divertida, inofensiva e barata que os atropelos cometidos no Terreiro do Paço. Para cúmulo do ridículo a máscara de Darth Vader foi apreendida pelos investigadores como importante prova do processo – a gastar energias e recursos com casos de humor, como hão-de as polícias conseguir combater os casos de crime ? 

 


 


SILLY SEASON I– Este ano PS e PSD resolveram fazer blogues partidários com as próximas legislativas na mira. Os nomes são bem humorados – «Simplex» do lado do PS (www.simplex.blogs.sapo.pt)  ,«Jamais» do lado do PSD (www.jamais.blogs.sapo.pt). Ambos reúnem nomes sonantes de um e outro lado, com José Pacheco Pereira no «Jamais» a comentar a actualidade política como há algum tempo não fazia no seu »Abrupto». De certa forma estas são as versões modernas, mais livres e desabridas, do «Acção Socialista» e do «Povo Livre» - infelizmente bastante previsíveis portanto – um diz mal do outro e por aí adiante. Tudo estava assim quando João Galamba, do «Simplex» insultou em vérnaculo puro e duro João Gonçalves do «Jamais» - o que parace comprovar que do lado do PS o exemplo do argumento chifrudo de Manuel Pinho na Assembleia da República ganhou novos adeptos. Cada um fica com os actos que pratica e ao PS já ninguém tira a fama de perder as estribeiras com facilidade. 

 


 


 


SILLY SEASON II – Sócrates reduziu a actividade política a visitar, anunciar, inaugurar e intrigar. Governar deixou de existir. Até às eleições isto promete… 

 


 


EXEMPLAR  - O New York Times dedicou um extenso artigo na sua edição de terça-feira passada às investigações de uma equipa da Universidade do Minho, liderada por Nuno de Sousa, sobre o stress e as alterações de comportamento que ele induz. O artigo do diário norte-americano reproduzia excertos do artigo de Nuno de Sousa para a revista «Science». Se quiserem ler o New York Times vão aqui: http://bit.ly/3C3Kv5 . 

 


 


PETISCAR – Quando se vai à praia o objectivo, regra geral, é descontrair e descansar. Não há portanto razão para que uma ida a um bar ou restaurante de praia seja uma canseira; não há razão, mas muita vez isso acontece mesmo. Felizmente não é o que se passa em Alfarim no restaurante Onda Azul. O Onda Azul é injustamente subalternizado pelo mais conhecido Bar do Peixe, mas cá para mim até anda melhor, sobretudo no petisco. A salada de polvo é muito melhor no Onda Azul e umas cadelinhas e uns mexilhões que experimentei estavam absolutamente irrepreensíveis. Serviço rápido., simpático, um óptimo pão de uma localidade ali perto, Caixas, bem cozido, estaladiço, miolo denso, bom para ensopar no molho dos mexilhões. Ainda por cima preços comedidos e imperial bem fresca. 

 


 


OUVIR – Banda sonora oficial do verão (ainda válida até finais de Setembro) – a nova colectânea «!Salsa! » da Putumayo, uma editora especializada em World Music dançável, assumidamente pop e divertida. Aqui estão alguns clássicos interpretados por grupos como o do colombiano Diego Galé, do mexicano Poncho Sanchez, do cubano Chico Alvarez ou do americano Eddie Palmieri, entre outros. As capas da Putumayo são sempre fantásticas e coloridas, os alinhamentos são pensados para divertir quem ouve – esta é das minhas editoras preferidas, felizmente a FNAC tem geralmente uma boa selecção das suas edições. 

 


 


LER – De Peter Carey havia lido há pouco um genial relato de uma viagem ao Japão, «O Japão é Um Lugar Estranho». Quando este novo livro apareceu aí fui eu comprá-lo e dou por muito empregue o dinheiro que paguei por  «Roubo – Uma História de Amor». A escrita de Carey, já sabia, é arrebatadora; mas um romance é muito diferente de um relato de viagem, e aqui Carey dá largas à sua imaginação delirante, com um enredo onde as situações inesperadas se sucedem. «Roubo – Uma História de Amor» é um romance divertido, com a acção a decorrer a um ritmo empolgante, com situações francamente inesperadas que se sucedem . É irresistível e prende a atenção do princípio ao fim das suas 300 e poucas páginas. 

 


 


BACK TO BASICS – A verdadeira vida de uma pessoa é, frequentemente, a que ela não comanda (Oscar Wilde). 

 

agosto 17, 2009

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Gosto de estar na lista «Lisboa Com Sentido». Porquê.? http://bit.ly/4bapyV

VOTO SANTANA LOPES

(Publicado no «i» de 15 de Agosto)


Começo por dizer que simpatizo com António Costa, mas acho que é daqueles políticos à antiga - bela retórica, práticas fracas, falta de decisão, resultados instáveis.

Por outro lado confesso-me sem partido há muitos anos e esclareço que trabalhei em diversas ocasiões com Pedro Santana Lopes – tivemos bons e maus momentos, mas o balanço é positivo e reconheço-lhe ser apaixonado pelas causas em que se mete, ter rasgo e visão e querer resultados.

Mas passemos a Lisboa e comecemos, sem receios, pela questão dos dinheiros. Quando António Costa chegou à Câmara Municipal de Lisboa, tudo somado, o passivo desta era de 1200 milhões de euros e, agora, é de 1700 milhões de euros. Ele não é mais poupado que os outros, nem melhor gestor. E, apesar deste aumento, fez menos obra. Tem tomado medidas erráticas como aconteceu no Terreiro do Paço e na Ribeira das Naus e não se opõe nem a imposições do Governo, nem a caprichos caros da sua equipa - como mostra o folclore da caríssima e, no fundo, inútil plantação de girassóis em Campolide, só para satisfazer uma mania de Sá Fernandes, o mesmo que deixa os jardins degradarem-se. Por exemplo, não teria sido melhor usar esse dinheiro na manutenção dos cemitérios, vergonhosamente degradados?

Comparemos algumas coisas: o que tem maior impacto na qualidade de vida da cidade? - A recuperação de Monsanto, que Santana Lopes fez, a sua política de recuperação urbana, o túnel do Marquês, ou as duvidosas e caríssimas ciclovias de Costa?

Depois de ter visto a sua equipa inicial desagregar-se, a nova lista de candidatos de Costa é um arranjo de conveniência em que vários protagonistas pensam coisas bem diferentes sobre aspectos decisivos do governo de uma cidade – uma garantia de paralisia certa. António Costa parece um Presidente ausente, que aparenta assumir o cargo com sacrifício e pouco entusiasmo, talvez porque a sua ambição não esteja na cidade e sim no evoluir da situação do PS e no que se passará se Sócrates sair de cena.

Pedro Santana Lopes está focado em Lisboa, vai preocupar-se com as questões que têm a ver com a qualidade de vida na capital: garantir uma cidade mais limpa (Lisboa está sujíssima), maior atenção ao trânsito e estacionamento, mas, também, maior atenção às políticas sociais que quase desapareceram com António Costa (veja-se o aumento dos sem- abrigo), e à optimização da conjugação entre a política cultural local e nacional, de forma articulada com a promoção turística de Lisboa.

Governar Lisboa é ter as pessoas em conta, combater interesses estabelecidos, bater o pé ao poder central, tornar a vida fácil a quem cá vive, conseguir trazer mais moradores para a cidade e não penalizar quem aqui paga impostos. Comparando o exercício dos mandatos, Santana Lopes fará melhor trabalho.

 

 

(publicado no Jornal de Negócios de 14 de Agosto)

 


 

TELEVISÃO – Numa só semana mudou o panorama da televisão em Portugal – José Eduardo Moniz saíu da TVI , o Cabo tem ultrapassado os 20% de share de forma regular,  e os três canais comerciais estão separados uns dos outros por poucas décimas nesta semana. Nos próximos tempos muitas mais coisas vão mudar e a saída de Moniz da TVI talvez contribua para acelerar a decadência inevitável dos canais gratuitos face à oferta e à procura. O que os números dizem é que o poder de atracção dos vários canais de Cabo já anda próximo do share médio dos canais comerciais (RTP1, SIC e TVI) e que, nas regiões onde o Cabo é predominante no país já há mais gente a ver canais alternativos que os canais abertos. A televisão digital terrestre e alguns pós de per-lim-pim-pim tecnológicos vão fazer o resto. Em cinco anos o mundo da televisão vai deixar de ser como o conhecemos e o valor das empresas de media que hoje conhecemos vai sofrer radicalmente com as transformações que estão em curso.

 

MEDIA – A propósito das directivas sobre a presença nos media das várias tendências políticas que disputam eleições, seria bom que os nossos reguladores avaliassem o que se passa nas democracias mais antigas e avançadas. Dito isto e para não lhes chamar burros, ignorantes e incompetentes, e não arriscar algum processo, resta-me dizer que se a ERC não fosse de facto perigosa em termos políticos, seria apenas ridícula. Tristemente ridícula.

 

ANIVERSÁRIO – O caso BPP leva quase um ano, os depositantes viram esta semana os seus dinheiros continuarem congelados até Dezembro e a entidade reguladora rejeitou todos os planos apresentados, quer por privados, quer pela administração que o próprio regulador nomeou e que, entretanto, farta da fantochada, se demitiu. Este é um caso para a História: como a política interfere na esfera privada e trama os pequenos investidores com a conivência do Ministério das Finanças e o seu pau mandado Banco de Portugal.

 

BANDEIRA - O facto de a Câmara Municipal de Lisboa querer processar os defensores da Monarquia, agindo em defesa da República, é um bom sinal da incongruência de quem manda nos Paços do Concelho. A acção dos bloguistas do «31 da Armada» é um exemplo da conjuugação da acção política radical tradicional com as potencialidades da blogosfera – coisa que António Costa não aguenta nem suporta. Dantes perseguia-se quem deitava panfletos ao ar; agora , persegue-se quem bloga o inconveniente É este o choque tecnológico,  republicano e fartamente corrupto – características associadas dos tempos que correm (mas podia não ser assim…)

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GIRASSÒIS – Esta semana ficámos a saber que o Zé (Sá Fernandes) Que Não Faz Falta,  gastou mais de 50.000 euros a preparar uma plantação de girassóis, aparentemente mal cuidada, que nem sabia para que serviam, no meio de Campolide. O episódio merece ser investigado e o bucólico Zé devia prestar contas pelos dislates que pratica.

 

1969 – O Verão de 1969, há 40 anos, foi dos mais marcantes na minha memória: os Beatles finalizavam o seu 12º e penúltimo álbum de originais, «Abbey Road»; na Iralanda do Norte os confrontos agravavam-se e o exército inglês enviou tropas em força; em Paris Henry Kissinger começava conversações secretas com responsáveis vietnamitas para tentar acordar o fim da guerra – e não conseguiu; perto de Nova Iorque realizava-se o festival de Woodstock; o homem tinha acabado de chegar à Lua na Apollo 11; a seita liderada por Charles Manson fez uma série de assassínios, entre os quais o de Sharon Tate; o furacão Camille matou 248 pessoas no Mississipi; o movimento gay norte-americano começa depois dos incidentes no bar Stonewall Inn em Nova Iorque; estreiam os filmes Midnight Cowboy e Easy Rider; Ghadaffi assumiu o poder na Líbia; Brian Jones, um dos fundadores dos Stones morreu; nas revistas, Norman Mailer era capa da «Life», Jerry Garcia na «Rolling Stone», John Wayne na «Time». Em Portugal preparavam-se as eleições do Outono de 1969, depois da agitada final da Taça entre o Benfica e a Académica – o país estava a mudar e isso sentia-se em todo o lado.

 

DISCO – Neste fim de semana faz 40 anos , entre 15 e 18 de Agosto, que a ideia dos grandes festivais rock e pop nasceu com Woodstock, uma quinta em Bethel, uma cidade próxima de Nova Iorque, propriedade de um Max Yasgur que ganhou fama nas gravações do evento. O Festival do Sudoeste não é muito mais longe de Lisboa, que Bethel de Nova Iorque. Nesse Agosto de 1969 juntaram-se, em três dias de chuva, lama, calor e pó, cerca de duas dezenas de bandas e artistas que eram uma boa amostra do que de melhor existia na música popular dessa época. Com meio milhão de espectadores pela frente, o festival foi um marco – na época e na música – foi aí que Jimi Hendrix verdadeiramente conquistou o espírito dos americanos com a sua versão iconoclasta de «Star Spangled Bannner», o hino dos Estados Unidos, numa versão em solo de guitarra eléctrica que é também uma prova da genialidade de Hendrix. Mas Woodstock foi sobretudo o símbolo vivo do amor livre e do poder emergente da música pop, que se havia de tornar avassalador na cultura popular das décadas seguintes. Para mim, que em Lisboa, no Bairro de S. Miguel, folheava páginas da «Life» e do «Paris Match» com as fotografias do acontecimento, o grande testemunho do festival sempre foi a edição original de três LP’s, obviamente de vinyl, muito mais interessante que os filmes ou colectâneas posteriormente editadas. Para assinalar os 40 anos de Woodstock foi feita uma edição digitalizada a partir das fitas magnéticas analógicas originais, num duplo CD que eu comprei na Amazon e que me tem acompanhado nestes dias de férias – sobretudo as actuações dos Canned Heat, Country Joe McDonald & The Fish, Crosby, Stills and Nash, os Who, Joe Cocker, Santana, Ten Years After, Jefferson Airplane, e claro, Sly & The Family Stone e The (Paul) Butterfield Blues Band.. Jimi Hendrix, que nem era para estar presente, fez uma aparição supresa no último dia e encerra esta compilação.

 

SABOR – Neste Verão de 2009 o mix ideal para cocktails frescos com Rum branco ou Vodka e muito gel é o novo Compal Vital de Romã e Chá Verde. Eu chamo-lhe o Arrabidense, em homenagem a estas minhas sossegadas férias na Arrábida.

 

BACK TO BASICS – Os deputados não suportam ouvir falar de política. Aguentam prolongados debates parlamentares porque não ouvem os seus colegas – Óscar Wilde

 

agosto 12, 2009

(publicado no Jornal de Negócios de 7 de Agosto)

 


 

REVANCHISMO -. Os responsáveis políticos do PSD dizem que a opção de constituição das listas de deputados foi feita com base em critérios exclusivamente políticos. Têm toda a razão – o revanchismo é uma atitude política e foi a prevalecente neste caso. Até aqui o revanchismo, a prepotência e a arrogância tinham sido pecados políticos do PS de Sócrates; depois desta semana passam a ser também património do PSD de Aguiar Branco e Ferreira Leite. Particularmente revoltante foi o cinismo pesporrento de Aguiar Branco que, bem interrogado por uma jornalista sobre a exclusão proposta de Passos Coelho e Miguel Relvas das listas de candidatos a deputados, respondeu com os resultados de exploração das contas do PSD. Em matéria de desprezo pelos eleitores este é um caso exemplar – depois dessa resposta que merecia ser excluído das listas era Aguiar Branco, mas como parece ser ele a mandar em Ferreira Leite esse cenário ficará difícil. As listas de candidatos dos partidos, mais do que indicarem as escolhas políticas, indiciam os «progrom» internos. No arco do Bloco Central os dois partidos estão bem um para o outro nesta matéria.

 

PROGRAMAS – O meu conselho aos eleitores é votarem com base nas acções passadas e não nos programas futuros. Todos os programas de eleições são magníficos – dentro da perspectiva de que é politiquês a falar politiquês para politiqueses. Mas quando chega a hora da verdade os programas vão logo às urtigas. Basta pensar naquilo que Sócrates fez em matéria de emprego, saúde, educação e justiça. A demagogia contemporânea tem pouco a ver com dotes de oratória e muito a ver com promessas eleitorais que não são supostas serem cumpridas. Estes nossos membros da classe política acham-se uns aliens superiormente inteligentes que não têm que obedecer a regras nem aparentar vergonha.

 

TVI – Que se tem passado na TVI? Entre negociações com potenciais interessados e uma história muito mal contada de pressões de José Sócrates, o desfecho deu-se esta semana. Como Sócrates desejava, José Eduardo Moniz saiu da TVI. Convém lembrar que, quando José Eduardo Moniz entrou na TVI, foi para uma estação sem dinheiro, em dificuldades financeiras, num processo complexo: Carlos Monjardino tinha falhado com estrondo, Belmiro de Azevedo veio a seguir - e foi nessa altura que Moniz foi para a TVI – mas o patrão da SONAE rapidamente saiu da operação e Miguel Pais do Amaral acabou por ser o homem que reestruturou a estação, o seu passivo e moldou o novo modelo de negócio. Nessa altura eu era administrador da Valentim de Carvalho, com o pelouro do audiovisual, e recordo-me da forma como Moniz tinha ideias claras quando encomendava programas, de muito baixo orçamento, mas que ajudaram a TVI, pouco a pouco, a sair do limbo de audiências em que estava. O processo dos primeiros anos de Moniz na TVI é um case-study daquilo que a criatividade, uma análise rigorosa de objectivos e uma gestão espartana dos recursos podem produzir.

Cá para mim este caso ainda não está encerrado – José Eduardo Moniz era um valor seguro do ponto de vista accionista, como a bolsa portuguesa mostrou logo no dia em que a notícia da sua saída foi conhecida. Sabe-se que, em Espanha, a Prisa é aliada histórica dos socialistas e que se permite moldar editorialmente os meios que controla por forma a favorecer o PSOE; em Portugal, da fama não se livra. José Eduardo Moniz saiu antes de as eleições começarem e as suas palavras de despedida não têm duas leituras possíveis: «Faço votos para que … se preserve o espírito livre, inconformista e batalhador desta Empresa, imbuída de uma cultura de independência perante os Poderes que representa um dos seus activos mais importantes».

 

COMIDAS – O verão lisbonense traz algumas coisas estranhas – este ano foi montada uma espécie de praia artificial perto de Alcântara, junto ao Kubo. A tal praia serve para beber uns copos e comer umas coisas com os pés na areia, a fazer de conta que Lisboa é como a Costa da Caparica. A grande diferença é que na Costa da Caparica há sítios onde se come bem e no Urban Beach em Lisboa se come péssimo e, ainda por cima, a um preço abusivo. Experimentem a especialidade de pastelaria da casa – uma cataplana que leva natas, tal e qual um bolo e que, obviamente é um desastre total. Será que confundiram a função de cozinheiro com a de pasteleiro quando fizeram a selecção de pessoal para a casa? De qualquer forma o resultado é mau, o preço não justifica e ainda por cima há demaisada gente horrível e feia à volta. A «Urban Beach» é um local a esquecer.

 

OUVIR –.Portugal tem destas coisas: um compositor fora de série que faz canções extraordinárias e que tem a capacidade de juntar à sua volta talentos raros, como, aqui, Stuart Staples, dos Tindersticks, entre outros. O compositor e intérprete de que falo é Rodrigo Leão, ex-Sétima Legião, ex- Madredeus, um dos músicos portugueses contemporâneos com maior sucesso além-fronteiras, sem necessidade de subsídios, apoios ou benesses estatais. Rodrigo Leão venceu sozinho em mercados difíceis e leva mais longe as nossas sonoridades. Fora de politiquices, do Estado, fora das modas, fora de «lobbies», fora de ministérios e do poder, inteiramente por mérito próprio e privado, Rodrigo Leão é um caso raro de integridade musical e este disco é a prova disso – quanto mais não seja porque quando ele faz trabalhos de encomenda , como as canções da banda sonora de «Equador», elas são tão boas como se fossem feitas para nós e não para a televisão. O CD «Mãe» é um das grandes peças da carreira de Rodrigo Leão, um grito contra o conformismo e o marasmo e ao mesmo tempo, uma obra de comunicação musical baseada na nossa identidade nacional.

 

LER – Em tempo de férias, nada como um livro proibido pelos supermercados Auchan: «A Casa dos Budas Ditosos», de João Ubaldo Ribeiro. Se é certo que não o encontram entre detergentes e compotas, também é verdade que pode ser descoberto nas livrarias, que felizmente ainda não fazem censura, ao contrário daquela cadeia de mercearias agigantada. O original tem dez anos, as Edições Nelson de Matos em boa hora se lembraram de o reeditar. (Se gostam de livros tenham uma atitude de cidadania e não os comprem onde eles são censurados, como na Auchan).

 

BACK TO BASICS – O pior lugar dos infernos está reservado para aqueles que, em tempo de grande conflito moral, permanecem neutrais – Martin Luther King

 

agosto 03, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Julho)

POLÍTICA – À medida que a campanha eleitoral avança começa a perceber-se que, com elevada probabilidade, não vai existir nenhuma maioria natural nas legislativas. Portanto vai ser preciso fazer alianças, compromissos, negociações. Não deixa de ser curioso, neste contexto, verificar que António Capucho,  Conselheiro de Estado, disse há dias, preto no branco, que «o bloco central não tem nada de pecaminoso». E não deixa de ser também curioso ver que Morais Sarmento é o número 2 da lista de Lisboa do PSD. No cenário de serem chamados ao Governo outras figuras que não os líderes partidários em exercício, é uma nomeação interessante. 

 


 


LISBOA, CONTAS – A questão das contas de Lisboa tem um pano de fundo que convém reter – com as receitas fiscais da autarquia a caírem (por numerosas razões), falar de deficit é pura demagogia. Só por ser a capital do país, Lisboa tem custos estruturais – até aqueles que advêem da entrada de milhares de pessoas/dia na cidade, vindas da periferia – superiores ao de outras autarquias. É urgente uma revisão do Código Administrativo que coloque a gestão da capital numa perspectiva realista. A Câmara Municipal de Lisboa não pode ser penalizada e é-o há anos. É de soluções de futuro que interessa falar e não apenas de problemas do passado, que aliás tocam a todos. Para termos uma cidade diferente é necessário uma atitude diferente. Velhos do Restelo nunca trouxeram nada de bom. 

 


 


LISBOA, TRÂNSITO – As decisões sobre o trânsito de Lisboa não podem andar ao sabor dos caprichos nem podem ter variações estratégicas súbitas, sob pena de causarem um enorme desconforto à cidade. Vejamos: há cerca de dez anos, João Soares, face à Expo e aos planos para Alcântara, resolveu, e provavelmente bem, que a ligação Expo-centro-Alcântara, era uma prioridade se existia a intenção de tornar a parte oriental de Lisboa num novo pólo de urbanização. Uma década depois não é justo que António Costa penalize quem lá comprou casa, impondo severas limitações ao acesso ao centro e à zona ocidental de Lisboa. Recordo: João Soares, com o apoio de Mega Ferreira na Expo, construíu uma avenida ribeirinha larga, com viadutos, que fez dinamizar toda a zona de Santa Aoplónia, Beato e Expo. António Costa, agora, estrangula tudo na Ribeira das Naus, tornando um martírio a circulação nesse eixo antes considerado prioritário. Ainda por cima passou o trânsito dos autocarros para um dos topos, o norte, do Terreiro do Paço, comprometendo a única esplanada fixa que existe na praça e que de repente ficou num corredor de «Bus» – o Martinho da Arcada. No meio disto o responsável do trânsito da Câmara diz que não fazia ideia do número de autocarros que, por via das alterações, ali iria começar a circular. Isto não é sério, nem decente e muito menos agradável para quem vive em Lisboa. Ao contrário do que se apregoa o estrangulamento atinge quem vive na cidade e não quem vem de fora. 

 


 


COMIDAS – Alguns chefes de cozinha portugueses parece que perdem a mão quando acham que já ganharam o estatuto de estrelas. Não sei se é por atingirem o Princípio de Peter, se é por se atirarem para voos e diversificações que não controlam, a verdade é que de repente as coisas começam a não correr bem. Luís Suspiro, que tem alguns pergaminhos no activo, começou em forma no Campo Pequeno, no petisqueiro «Torricado», mas das últimas vezes que lá tenho ido senti que a coisa estava a piorar. Na semana passada experimentei outro restaurante dele, que abriu no mesmo local, e a coisa correu mal. O serviço é desatento e isso é logo aflitivo – quando é que estes chefes da moda se convencem que o bom serviço, atento, é fundamental? Depois a qualidade do que se comeu não correspondeu à expectativa – na lista estavam pastéis de massa tenra acompanhados por migas e a desilusão foi grande: as migas tinham uma consistência estranha, de papa; e os pastéis de massa tenra tinha uma dose de criatividade desnecessária no recheio – tempero a mais, paladar a menos, gosto final desagradável – nada a ver com as melhores receitas tradicionais. Em resumo: tão cedo não me apanham em nenhum dos restaurantes de Luís Suspiro no Campo Pequeno. Portucalidade, Praça de Touros do Campo Pequeno, Loja 66. 

 


 


OUVIR – Regina Spektor é uma cantora russa (nascida em Moscovo em 1980), há 20  anos radicada nos Estados Unidos. Estudou música clássica, piano principalmente, e no final da adolescência começou a interessar-se pela música contemporânea, com o hip hop, o jazz e a folk no centro das preferências. Descendente de uma família judia também se interessou pela música judaica. É deste caldeirão de interesses e de formações diversas que nasceu a sua faceta de compositora, no sentido de «songwriter» – e não é exagero dizer-se que ela é actualmente das melhores autoras de canções. O seu novo disco, «Far», o quinto editado, é o mais maduro do ponto de vista musical, o mais cuidado em produção (Mike Elizondo), mas absolutamente cheio de vitalidade na força e envolvimento de canções como «The Calculation», «Blue Lips», «One More Time With Feeling» ou o divertido «Dance Anthem Of The 80’s». Este é um daqueles registos em que se percebe logo a diferença na qualidade das canções, do seu conteúdo, mas também o grande talento e criatividade, quer musical, quer vocal, de Regina Spektor. E é candidato à lista dos melhores do ano. CD «Far», Regina Spektor, Sire Records. 

 


LER – Um dos melhores artigos sobre os bastidores da política que li nos últimos anos está na edição desta semana da revista «Time», que tem a foto de George Bush e de Dick Cheney na capa. Se não a encontrarem é fácil ver o artigo na edição on line (www.time.com). Trata-se de uma investigação, feita por dois grandes jornalistas da revista, sobre a tensão crescente nos últimos dias do final do mandato  entre o Presidente Goeorge Bush e o seu vice-Presidente, George Cheney. Por detrás da progressiva ruptura entre os dois homens estava a forma como Bush encarava a revisão do precesso de Scooter Libby, que tinha sido chefe de gabinete de Cheney até ser condenado por obstruir uma investigação sobre a revelação da identidade de um agente da CIA por parte de responsáveis da Casa Branca. É um artigo revelador dos jogos de poder, dos mecanimos de influência e do funcionamento do sistema político e judicial. Exemplar. 

 


 


BACK TO BASICS – O homem que olha para o seu passado não merece ter futuro a esperar, Oscar Wilde. 

 

julho 29, 2009

(Publicado no Jornasl de Negócios de 24 de Julho)

CULTURA – Têm razão aqueles que dizem que uma boa definição, de cada partido, em relação às questões de política cultural, seria uma boa forma de ajudar muita gente a definir o seu voto. Considerada sempre como uma área menor onde não vale a pena investir nem tempo, nem dinheiro, a área das indústrias culturais e criativas é hoje encarada não só como relevante do ponto de vista económico, como importante para ajudar a decidir uma opção eleitoral. Se há coisa que, nalguns momentos, o actual Governo fez bem, foi, pela mão de Manuel Pinho, conseguir encontrar pontos de ligação entre o turismo e a cultura e desenvolver programas comuns – numa legislatura onde a Cultura foi genericamente mal tratada essa foi uma experiência a reter para o futuro, aliás quer em termos de Governo, quer em termos de autarquias. À oposição falta dar uma resposta nesta área. 

 


 


FINANÇAS – Teixeira dos Santos não foi uma figura muito simpática, cultivou alguma arrogância contra os contribuintes e, em termos políticos, não foi mais que um zeloso cumpridor de orientações. Enquanto a crise não apareceu lá foi conseguindo iludir as aparências, mas agora a falta de eficácia das suas políticas surgiu por completo. Já é impossível esconder que a despesa pública está a aumentar (pelas más razões), e tornou-se evidente que as medidas tomadas em época de crise não evitaram a brutal quebra de receitas do Estado, provocada pela enorme queda de actividade económica e do consumo. Com a despesa a subir e as receitas a cair Teixeira dos Santos vai fazer um triste fim de mandato, com resultados muito, muito fracos, que marcam o falhanço do PS na gestão das finanças públicas – uma das áreas onde Sócrates mais promessas fazia, recorde-se. 

 


 


LISBOA – Fiquei muito surpreendido por uma entrevista de Manuel Alegre onde ele, liricamente, se congratulava pelo acordo Roseta-Costa em Lisboa, dizendo estar muito satisfeito por ter sido conseguida a união da esquerda na capital. A sua megalomania habitual leva-o a considerar-se, a ele e aos seus apoiantes, como a esquerda que faltava ao PS, obviamente esquecendo que quer o Bloco, quer o PC concorrem contra a lista que ele apoia. Na realidade a lista de Costa é apenas uma lista onde se juntam as várias gerações do PS, o que como se sabe é muito diferente de ser uma lista de esquerda. Vai ser curioso ver o efectivo reflexo eleitoral de Roseta, agora que abdicou da sua independência em relação ao PS e ao resto da esquerda. 

 


 


SOCIALISTAS – Bernard-Henri Lévy deu uma curiosa entrevista sobre o estado do PS francês, mas que se aplica que nem uma luva aos partidos socialistas que por essa Europa fora seguiram a célebre terceira via de Blair, Sócrates incluído. A tese do filósofo francês é simples: o PS já não encarna a esperança, está numa situação semelhante à dos PC’s de finais dos anos 70, meados dos 80. Vai mais longe: a crise dos socialistas começou com o declínio comunista, porque os partidos socialistas sempre se posicionaram e construíram em demarcação aos partidos comunistas: quando estes se começaram a apagar perdeu-se o referencial e o PS desorientou-se e deixou-se infiltrar por ideologias reaccionárias – palavras de Lévy. 

 


 


LISTAS – A procissão das listas partidárias ainda vai no adro e já há muito burburinho – a coisa deve aumentar certamente nas próximas semanas. O principal problema tem a ver com a forma como as listas são constituídas, por jogos de influência e em resultado da relação de forças aparelhísticas dentro de cada partido. O resultado é que em muitos casos as listas são distantes do eleitorado e até dos simpatizantes de cada partido, o que é bem diferente de militantes encartados. Também esta situação contribui para a degradação do sistema político e para o alheamento da participação cívica nos processos eleitorais. Cada vez me convenço mais que devia existir um sistema próximo das primárias americanas, aplicado às legislativas, em que fora do estrito círculo das sedes bafientas dos partidos se pudessem escolher e indicar nomes para cada lista, distrito a distrito. 

 


 


PERGUNTA – O relatório do Tribunal de Contas sobre o negócio da Liscont não deveria levar a que fosse responsabilizado quem prejudicou da forma descrita o erário público? 

 


 


OUVIR – Originária do Mali, Rokia Traoré é uma das novas figuras de destaque no panorama da world music. Acompanhada pela sua guitarra, canta as suas próprias composições, acompanhada por um grupo de excelentes músicos africanos. «Tchamantché», o seu quarto disco, agrupa canções intensas, orgulhosamente africanas, envolventes e ritmadas, de tal maneira que ganhou o prémio de melhor artista na primeira edição dos prémios da revista britânica de world music «Songlines». CD Tama/Universal. 

 


 


LER – Óscar Wilde é um dos mais fascinantes escritores que conheço e, das suas obras,retiram-se algumas das mais iluminadas citações que podem ser utilizadas em várias ocasiões. Loureiro Neves compilou citações de Óscar Wilde e editou-as agora na «Casa das Letras» sob o título «A Sabedoria e o Humor de Oscar Wilde» - 140 deliciosas páginas que se juntam a outras edições de citações da mesma editora. 

 


 


PROVAR – O Castas & Pratos é um bom exemplo de um restaurante simpático, de boa comida e bom serviço, num velho edifício bem recuperado, um dos armazéns da estação de caminho de ferro da Régua. Por baixo fica um wine bar onde há uma boa escolha de vinhos da região a copo e também tapas diversas. No restaurante, numa noite luminosa, a escolha nas entradas foi laminado de presunto bísaro e crepes recheado com brunesa de legumes ; a seguir vieram um medalhão de vitela com risotto de cogumelos e uma espiral de polvo com batata grelhada recheada de grelos. A acompanhar vinhos a copo propostos pelo escanção. Para sobremesa um delicioso pudim de vinho do Porto. O restaurante, no primeiro andar, por cima do wine bar, é confortável, bom serviço e preço decente. Castas & Pratos, Rua José Vasques Osório, Estação da CP Peso da Régua, tel. 254 3232 90, www.castasepratos.com. 

 


 


BACK TO BASICS -   O progresso é a realização de utopias, Oscar Wilde 

 

julho 21, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Julho)

IMPOSTOS – Há uns meses recebi a indicação de que o fisco tinha a intenção de me penhorar por uma pequena dívida atrasada; feito o pagamento, julguei que estaria tudo resolvido. Pois esta semana a Directora Financeira da empresa onde trabalho veio dizer-me, com um ar um pouco pesaroso, que tinha recebido uma notificação do fisco para me penhorar o salário por dívidas fiscais que, verifiquei depois, eram daquela verba que já estava paga – fui conferir, o número do processo era o mesmo, a quantia era a mesma, tinha o comprovativo do pagamento, no site das Finanças o Fisco assegura-me que eu não lhe devo nada – mas mesmo assim há alguém na máquina fiscal que me quer penhorar o ordenado por algo que já está pago. Como há-de uma pessoa gostar deste Estado malfeitor ou acreditar na eficiência dos serviços? 

 


 


ROSETA – Helena Roseta decidiu deixar de continuar independente, e voltou a estar numa lista do PS. Já é público que, mais do que questões de princípio, o que Helena Roseta pretendeu garantir foram questões de poder – lugares e posicionamento nas listas, competências eventualmente a assumir. É legítimo verificar que o eventual apoio dela a António Costa não foi desinteressado, movido por um desejo de eventualmente contribuir para o resultado eleitoral, mas apenas para garantir a sua sobrevivência política dando-lhe palco e notoriedade. A notoriedade está conseguida com o segundo lugar da lista – é uma vitória para Roseta e uma considerável derrota para Manuel Salgado, sinal de alguma desagregação entre o núcleo duro de António Costa. É sempre difícil avaliar num cenário de compromissos eleitorais como reagirá o eleitorado que anteriormente votou, na prática, contra os partidos, acreditando então na bondade da ideia da independência que agora se desmorona. Será curioso ver qual a mais valia real que Roseta traz a Costa – até porque quando a campanha começar há-de ser natural que se recorde como a experiência dela enquanto Presidente da Câmara de Cascais foi um enorme falhanço. Na realidade, em matéria autárquica, estes dois anos de Lisboa incluídos, o currículo de Helena Roseta está longe de ser uma mais valia. 

 


 


ASAE – Agora que a inconstitucionalidade da ASAE está cada vez mais a ser posta em causa conviria ver se o mesmo não se passa por exemplo em relação aos poderes atribuídos à EMEL, essa vergonha de Lisboa, da responsabilidade de vários executivos camarários. Além das dúvidas sobre a legalidade de actuação da EMEL, o seu relacionamento com os munícipes e a forma como responde a reclamações é um exemplo de más práticas e de prepotência. Pôr a EMEL na ordem devia ser uma prioridade para quem quer que ganhe as próximas eleições.


 


REPÚBLICA – Continuo sem perceber porque é que as comemorações do centenário da implantação da República são o pretexto para algumas das malfeitorias que se querem fazer em Lisboa, a começar pelo Terreiro do Paço. Por mais que me esforce não vejo porque se quer apressar tudo para celebrar um século de um regime que, em mais de metade do tempo, foi preenchido por ditaduras e autoritarismos diversos, e que, no geral, tem como cartão de visita o agravar da corrupção. 

 


 


LER – Já muita gente falou disto, mas o novo livro de José Eduardo Agualusa merece elogios – na forma, na história e no conteúdo. A proposta é uma aventura passada numa Luanda situada no futuro, num país onde os interesses do Estado se confundem com interesses particulares, no meio de arranha-céus desertificados, com estrelas pop pelo meio e tráficos diversos por pano de fundo. Em conversa, recente, Fernando Sobral dizia-me que o livro tinha pontos que fazia pensar um «Blade Runner» passado em Luanda, e tem razão na analogia. Mas a escrita compassada de Agualusa ultrapassa esse enquadramento e faz um retrato do que é Angola, falando no futuro mas fazendo-nos constantemente pensar no presente. Essa dualidade, entre os tempos da acção e a realidade da nossa percepção, é um dos encantos maiores de um livro que confirma o autor como um dos grandes escritores da língua portuguesa. (Edição Dom Quixote, 342 páginas). 

 


 


VER – Aqui há uns anos, quando dirigi o canal 2: na RTP, cheguei a seguir uma proposta de um documentário sobre o papel precursor dos portugueses na globalização. A proposta era de um historiador inglês e baseava-se em investigações e ensaios universitários, então recentes. Não havia orçamento, a produção não avançou. Não é por isso de estranhar que a ideia da exposição «Encompassing The Globe – Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII» tenha partido de um norte-americano, Jay Levinson, que criou o conceito da exposição e a concretizou no Smithsonian, em Washington. Desenganem-se pois os que julgam que a exposição foi criada por iniciativa portuguesa – nada disso é verdade; mas é verdade que o facto de investigadores internacionais se preocuparem mais com a nossa história e património que nós próprios é uma prova de que, na realidade, tivemos um papel globalizante em determinada altura da História. Dito isto ainda bem que a exposição veio a Portugal, embora em versão mais reduzida que a original, ficando no Museu Nacional de Arte Antiga até 11 de Outubro. 

 


 


OUVIR – Nestas tardes de Verão, quando se chega a casa, enquanto o sol se põe, proponho que ouçam o novo disco dos Nouvelle Vague, «NV3», o terceiro álbum desta banda de origem francesa que foi buscar o seu nome ao universo do cinema francês dos anos 60. Filmes à parte os Nouvelle Vague têm no seu repertório temas marcantes como «This Is Not A Love Song» e uma série de versões de temas bem conhecidos dos Dead Kennedys, Billy Idol, Clash, Bauhaus ou Depeche Mode (com quem eram supostos ter partilhado o palco do Super Bock- Super Rock no Porto). No novo álbum surgem participações de Martin Gore dos Depeche Mode, de Ian McCulloch dos Echo And The Bunnymen e Terry Hall dos Specials. No disco, para além de vários originais, há versões envolventes de temas como «Master And Servant», «Road To Nowhere», «Parade» ou «Our Lips Are Sealed», entre outros. Em comparação com os anteriores o ambiente é, digamos, menos bossa nova e mais rock, por vezes com clara inspiração na «country» norte-americana. Não torçam o nariz, o disco vale a pena mesmo. 

 


 


BACK TO BASICS -   O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade - Aristóteles 

 

julho 14, 2009

UMA PROMISCUIDADE REVELADORA

(Publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Julho)

 


António Costa escolheu estes últimos dias para dar o pontapé de saída na sua recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa: assinou no Domingo um acordo com José Sá Fernandes, na sexta havia indicado apoiantes e mandatários, e na segunda-feira fez a apresentação formal da candidatura. São tudo actividades normais em processo eleitoral. Claramente António Costa escolheu estes quatro dias, de sexta a segunda, para marcar a agenda mediática e ganhar espaço nos «media».


No entanto António Costa não fez só isto e, de uma forma pouco elegante, no mesmo espaço de tempo, misturou por duas vezes a sua recandidatura privada e partidária com actividades da Câmara Municipal de Lisboa : sexta-feira, horas antes de José Saramago ter declarado o seu apoio a Costa, a Câmara Municipal de Lisboa, directamente pela mão do seu presidente, concedeu um subsídio de 30.000 € ao documentário "União Ibérica", sobre a relação entre Saramago e a mulher, Pilar del Rio; a seguir António Costa promoveu a publicação e distribuição, na edição de Domingo de um jornal diário, de um folheto de propaganda municipal, com 16 páginas, das quais as duas iniciais são preenchidas por um texto seu, com respectiva fotografia pessoal.


A política audiovisual de António Costa começou há poucos dias quando decidiu financiar mais um filme de João Botelho sobre Fernando Pessoa; logo a seguir surge este subsídio para um documentário sobre Saramago. O financiamento de produções audiovisuais pela autarquia surge assim de forma casuística -  mais valia que as verbas envolvidas fomentassem a criação de uma Film Commission para Lisboa. Mas, sobretudo, convinha que, nos dois últimos casos, o de Botelho e Saramago, a coisa não parecesse um estender de mão eleitoral.


O segundo caso é pior – toda a história da Carta Estratégica de Lisboa, por melhores intenções que os intervenientes tenham, serve objectivamente apenas para uma acção propagandística e de levantamento de ideias a apoios para o Programa Eleitoral de António Costa. Esta é uma daquelas iniciativas que faz sentido fazer-se logo no início de mandato, mas que em período já pré-eleitoral fica apenas como uma manobra de propaganda eticamente muito discutível.


Nestes dois temas nem falo da utilização de dinheiros públicos, sobretudo revolta-me a falta de ética política e a promiscuidade que a mistura e a coincidência entre actos partidários e actos institucionais revela. 

 

julho 13, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Julho)

INVESTIGAÇÕES – Um dos problemas, graves, que existe na justiça portuguesa é a forma como investigações da Polícia Judiciária se tornam muito rapidamente armas de arremesso político ou social. Os anos recentes estão cheios de casos destes – em que as fontes que tornam públicas investigações partem de dentro da própria polícia, como forma de provocar julgamentos na praça pública, que muitas vezes nem chegam a tribunal. O histórico da Polícia Judiciária no sucesso de investigações complexas, na resolução de crimes ou no desmantelamento de redes criminosas é muito pequeno, quando comparado com a forma como em casos políticos se deixa manipular e como é utilizada como elemento central de campanhas de opinião pública. Algo vai muito mal no funcionamento da Polícia Judiciária - e a sua reforma é uma peça essencial para que a Justiça possa melhorar. 

 


 


DÚVIDA – Às vezes fico um bocado espantado sobre a forma de comportamento dos porta-vozes partidários. Eu acho que o natural seria que um porta-voz tentasse alargar o raio de comunicação do seu partido, que falasse para os eleitores que estão nas margens, para conseguir captar eleitorado, neutralizar quem antipatiza com esse partido e sobretudo conseguir dar bons argumentos para que os militantes e simpatizantes consigam eles próprios exercer influência nos círculos onde se movem. Mas em vez disso os porta-vozes, com raras excepções, falam para dentro, para o núcleo duro, reproduzem argumentos frequentemente de forma dogmática, e parecem mais obstinados em fornecer argumentos para confrontos do que em comunicar no sentido básico do termo – fazer chegar uma mensagem a quem à partida não estaria predisposto a ouvi-la. Olhem para o espectro partidário e analisem como actuam os porta-vozes – raros ultrapassam o nível de um propagandista, teimoso mas inábil, em início de carreira. 

 


 


 


 


RESUMO DA SEMANA – A Comissão de Inquérito da Assembleia da República ao caso BPN achou que o Banco de Portugal agiu bem na fiscalização daquele banco; Cristiano Ronaldo em Madrid foi o assunto central da semana nacional; já existem três manifestos sobre obras públicas, mais uma conferência de imprensa de Jorge Coelho; dizer um palavrão na Assembleia da República não tem consequências mas exprimi-lo gestualmente dá demissão – é aquilo a que se chama o poder da imagem. 

 


 


PERGUNTA INDISCRETA – Agora que Manuel Pinho se foi embora, quem é que vai tratar dos assuntos da Cultura no Governo? 

 


 


VER – Senti o cheiro das rotativas e a emoção de ver uma história publicada, o caos das redacções e o zig-zaguear do desenvolvimento de uma reportagem em «Ligações Perigosas», um filme de Kevin Macdonald sobre a investigação jornalística da morte da amante de um político que andava a investigar negócios pouco claros na área militar. O «thriller» é bem construído, o argumento é muito bom e a interpretação de Russell Crowe é superior. 

 


 


LER – Confesso-me um leitor devoto de policiais e confesso-me amigo do Fernando Sobral, que também escreve nas páginas deste jornal. Gosto de o ler diariamente no seu certeiro «Pulo do Gato» ou nas notas sobre a semana ou sobre livros que ele publica aqui neste «Weekend». Feitas estas declarações tenho a dizer que «L.Ville», o novo livro do Fernando Sobral, um policial, é uma história fascinante de um detective que, na cidade de Lisboa, se confronta com um caso de homicídio. Não vou contar a história – que é daquelas que não se consegue parar de ler – mas direi que é um retrato contemporâneo de locais, comportamentos e atitudes. Eu li-o de seguida, a imaginar sítios, a ouvir as canções que são citadas, a sentir cheiros e aromas. «L.Ville» é um dos melhores policiais que tenho lido ultimamente e que, ainda por cima, tem a particularidade de ter frases absolutamente  geniais, como esta: «Podemos ensinar tudo; mas devemos ficar sempre com o truque definitivo». (Edição Quetzal) 

 


 


OUVIR – Ao fim de duas décadas e de uma quinzena de discos ainda há lugar para surpresas numa banda que em 1988 ganhou fama e notoriedade com o disco «Daydream Nation», que se afirmou com uma sonoridade própria na Nova York dos anos 90? Estou a falar dos Sonic Youth, esse quarteto que fez fama com canções que reproduziam os ruídos, as sensações e a criatividade dessa cidade. Ironicamente intitulado «The Eternal», o novo disco dos Sonic Youth, uma nova explosão de energia, misturada com pequenas provocações que salpicam as canções. Os Sonic Youth, que há três anos não lançavam disco novo, não inventam aqui nada – mas aperfeiçoam o seu estilo, e surpreendem pela coerência, num tempo em que esta música podia ser mais difícil para atrair novos públicos. Destaque para a forma como Kim Gordon canta, e sobretudo para a última canção do disco, verdadeiramente impressionante, «Massage The History». CD Matador. 

 


 


PROVAR – As coisas mais simples e mais tradicionais são muitas vezes as melhores. De repente um regresso a um restaurante onde já não se ía há uns tempos faz recordar a importância da boa escolha de produtos, a boa confecção, o tempero cuidado, a atenção ao pormenor – por exemplo a qualidade da preparação das azeitonas e do pão que se servem – um dos «couverts» mais simples, que ou corre muito bem ou é para esquecer. Pois correu muito bem num regresso ao «Apuradinho», em Campolide, uma noite destas onde o objectivo era comer bem, com calma, sossegado. A escolha da noite recaiu numas lulas recheadas acompanhadas de puré de batata – aqui está um prato que pode ser um desastre, mas felizmente no «Apuradinho» é um sucesso – lulas perfeitas, tenras, recheio muito bom, um puré de batata natural muito bem condimentado. A terminar, cerejas magníficas, absolutamente excepcionais – num ano, aliás, que tem sido bom em matéria de cerejas. Resumo da noite: porque é que não vou mais vezes ao «Apuradinho» - aos seus pastéis de bacalhau levíssimos, ao estufado de pivetes (rabo de boi) ou ao cozido, sempre superior? «Apuradinho», Rua de Campolide 209 A, telefone 213 880 501. 

 


 


BACK TO BASICS -  A História é pouco mais do que uma sucessão de crimes e de infortúnios - Voltaire 

 

julho 07, 2009

UMA CIDADE PERDULÁRIA

 


(Publicado no diário Meia Hora de 7 de Julho)

 

Desde há 43 anos o festival de jazz de Montreux, na Suíça, é um marco incontornável do mês de Julho – nas quase duas semanas em que decorre atrai à cidade cerca de 200.000 visitantes. Ao longo dos anos o Festival abriu-se a outras músicas para além do jazz e teve, nomeadamente, uma enorme importância no reconhecimento de uma geração de músicos brasileiros na Europa. Montreux conseguiu, com o Festival, que uma cidade Suíça, antes conhecida apenas pelo seu lago e pelo casino, se tornasse numa das capitais da música do Verão Europeu – e a organização criou receitas com gravações, discos e programas de televisão. É uma operação exemplar.

Em tempos sonhei que Lisboa podia ter, se houvesse persistência e apoio, uma iniciativa que, com o tempo, fosse semelhante. Aquilo que eu defendia que se fizesse, e que ainda aconteceu curtos anos, era a criação de um Festival, em Lisboa, que fosse o pólo de divulgação e cruzamento da música de África com a Europeia e de outros continentes, e que, ao longo dos anos permitisse afirmar Lisboa como uma verdadeira plataforma multicultural. A estratégia era basear numa primeira fase a actividade no cruzamento com a música dos países lusófonos de África com a portuguesa, utilizando o palco da música (em Monsanto, na época reabilitado) e desenvolvendo complementarmente iniciativas no campo das artes plásticas, literatura e cinema, entre outras. Foi assim que nasceu o Afrika Festival.

Infelizmente a experiência demorou demasiado pouco tempo e a actual Câmara Municipal de Lisboa acabou com o palco da música e manteve apenas as actividades complementares, o que destruíu completamente a ideia existente. Resta sublinhar que nos anos em que o Afrika Festival se manteve, as citações sobre Lisboa na imprensa internacional ultrapassaram as de outros Festivais musicais cá realizados.

O caso infelizmente não é único : vale a pena dizer que o que aconteceu, a outro nível, com a extinção da Lisboa Photo teve exactamente os mesmos efeitos – só que Sérgio Mah, o Comissário da iniciativa, acabou por ver o seu talento reconhecido em Madrid, que o convidou para dirigir o Photo España.

Estas duas iniciativas – Afrika Festival e Lisboa Photo – podiam ser alicerces para a imagem de Lisboa, enquanto cidade aberta à modernidade e ao encontro entre culturas. Nem vou referir que, a médio prazo, o retorno do investimento, em capacidade de atracção turística, seria interessante. Mas registo que foi esta Câmara que acabou com estes projectos, que tinham público e notoriedade. É o que se chama uma política perdulária, a que nem as operações cosméticas de «cartas estratégicas» feitas por encomenda eleitoral chegam para dar qualquer sentido ou consistência. 

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Julho)

COSTA - A campanha eleitoral de António Costa já começou, com uns cartazes que dizem «Arrumámos, a Casa». O meu palpite é que eles devem ser dirigidos para quem vive fora de Lisboa e está de passagem na Capital – é que quem cá vive fica com os cabelos em pé com estes dois anos de Costa – ruas mais sujas, cidade mais esburacada, trânsito ainda mais caótico. Na verdade o mandato de Costa é feito de desarrumação, a cidade está pior e não há obra feita nem rasto de inovação. Até na relação com o Governo a Capital está a perder – vejam-se as tropelias feitas na zona ribeirinha. António Costa na Câmara pode servir bem os interesses do Governo, mas é seguro que tem feito muito pouco por Lisboa. 

 


 


ASAE - Depois de meses de acalmia a ASAE voltou a fazer das suas, desta feita em Serralves. O motivo foi a apreensão de jóias de novos desenhadores, que estavam expostas na loja do museu – as jóias, de prata não tinham o contraste de Lei e a apreensão terá sido feita por denúncia. Independentemente da questão do contraste, a verdade é que tudo isto se baseia numa Lei com décadas, em grande parte hoje em dia contrária ao Direito Comunitário, e que proíbe a venda de jóias ou peças de metais preciosos, mesmo contrastadas, fora de ourivesarias. É por isso que algumas lojas de grandes marcas internacionais não podem vender nas suas lojas peças contrastadas, de ouro ou prata, mesmo que inteiramente legais e é por isso que elas são seladas pela ASAE – que depois demora infindáveis meses a resolver o processo, criando grandes prejuízos. Mas como se sabe a missão da ASAE é criar dificuldades e prejuízos em diversas áreas da actividade económica – a novidade é que agora invadiu a esfera das artes e da criatividade (esta ida à Fundação do Porto foi a segunda num espaço de pouco tempo já que os diligentes agentes da ASAE andaram por lá no dia da Festa anual de Serralves a ver se se fumava ….). O exagero tira a razão – e a falta de bom senso é o grande pecado da ASAE. 

 


 


LER – A edição de Julho/Agosto da revista internacional «Monocle» devia ser lida por todos os candidatos autárquicos de grandes e médias cidades. É o número anual que faz o ponto de situação dos locais com melhor qualidade de vida, ordena as cidades com base nesse critério e tem uma série de artigos, opiniões e sugestões de especialistas de diversas áreas, do urbanismo ao comércio e indústria, passando pela música ou a animação de rua. No índex anual das 25 melhores cidades para viver Lisboa caíu para a última posição, o que não é estranho se percebermos como a cidade tem ficado mais caótica nestes últimos tempos. Ao longo das páginas descobrem-se evidências há muito esquecidas em Portugal – a importância do comércio de rua, de as cidades acolherem pequenas indústrias, artesanatos, de privilegiarem a recuperação em vez da nova construção, de dignificarem e aproveitarem os espaços ao ar livre. Todo um programa de bom senso. 

 


 


 


OUVIR – Bem Harper faz quarenta anos em Outubro próximo e este seu novo disco, «White Lies For Dark Times» é o seu trabalho mais maduro, surpreendente e conseguido – e absolutamente nada chato. Com uma enorme influência dos blues, apresentando em  estreia a banda texana Relentless 7 ao lado de Harper, a produção garante sólidas e frescas sonoridades. Na realidade este é um Ben Harper para quem gosta de rock, nalguns momentos com citações que parecem pescadas de Jimi Hendrix ou de Neil Young, um disco bem ritmado, a fugir a alguma monotonia demasiado presente em outros trabalhos recentes do cantor. Mas além das influências bluesy, aqui também se percebe como Ben Harper gosta de se inspirar na folk music ou no funk. Um discão. 

 


 


IR – O Estoril Jazz 2009 termina este fim de semana. Hoje, sexta dia 3, é a vez do quarteto do saxofonista David Murray; amanhã, sábado dia 4, a homenagem a Charly Mingus pelo septeto Mingus Dinasty; e  Domingo, dia 5, toca o quinteto do contrabaixista Christian McBride – sexta e sábado às 21h30, Domingo às 19h00, sempre no Centro de Congressos do Estoril, no Festival que regularmente proporciona alguns dos melhores concertos de jazz que por cá se podem ver ao longo do ano. 

 


 


DESCOBRIR – O Douro é certamente das regiões de Portugal onde vale a pena voltar sempre. Nos últimos anos as transformações, para melhor, são grandes – desde as grandes vinhas até aos museus locais, passando pela recuperação dos passeios de barco e, sobretudo por uma oferta de hotelaria e restauração que colocam a zona, em termos de qualidade, entre as melhores do país. Vem isto a propósito daquele que hoje em dia é certamente um dos melhores restaurantes de Portugal, quer em termos de espaço, quer de serviço, quer de qualidade e confecção da comida. Trata-se do DOC, situado precisamente no Douro, a meio caminho entre a Régua e o Pinhão, precisamente em Folgosa. Comecemos pelo local – construído em cima do rio, num edifício concebido para o efeito, com uma esplanada fabulosa, uma sala espaçosa, boas mesas, confortáveis cadeiras, um ecrã que mostra o que se passa dentro da cozinha. Depois, o serviço – eficaz, simpático, atento, bom conhecimento da carta, conselhos acertados e não especulativos sobre vinhos. Finalmente a comida – múltiplas escolhas, comida de inspiração regional com um toque de frescura, muito boa qualidade dos produtos, confecção absolutamente impecável, quer nos peixes, quer nas carnes. Destaques, nas entradas, para as chamuças de moura e de alheira, nos peixes para os milhos de moluscos com algas do mar e rodovalho e o cherne com ratatouille de legumes, e nas carnes para as propostas de porco bísaro, cordeiro e cabritinho. Há a possibilidade de Menu Degustação. A responsabilidade de tudo correr assim é do proprietário e Chefe, Rui Paula, que trabalhou alguns anos em Londres e que tem um belo livro editado, «Uma Cozinha no Douro». O preço é alto, mas aceitável para a qualidade. É uma pena que em Lisboa, numa cidade á beira de um rio, não exista um restaurante assim, quer em conforto, quer em qaulidade. Uma experiência absolutamente a reter. Podem antever o DOC em www.restaurantedoc.com , reservas (absolutamente indispensáveis) para o telefone 254 858 123 ou 919 314 395. 

 


 


PROVAR – Bebida do verão, a meio da tarde – um Nespresso Lungo em copo largo, com três pedras de gelo. Delicioso. 

 


 


BACK TO BASICS -   Homens de bom senso aprendem sempre alguma coisa com os seus inimigos – Aristófanes. 

 

julho 01, 2009

A TÁCTICA DO VALE TUDO

(Publicado no diário Meia Hora de dia 30 de Junho)


 

A seguir às eleições europeias todos os quadrantes políticos, a começar pelo do Governo, mostraram preocupações com o aumento da abstenção e todos garantiram que o combate ao abstencionismo era uma prioridade. Falou-se muito na necessidade de dignificar a acção política. Num repente, que lhe passou rápido, o Primeiro Ministro até deu sinal de querer mudar de estilo. Foi sol de pouca dura, escassos oito depois voltou aos seus comportamentos habituais.

O que aconteceu na semana passada foi mais um empurrão para os abstencionistas e para os votos brancos e nulos – a verdade é que o folhetim da PT-TVI foi um manual sobre a utilização da ilusão e da mentira em política, um manual de desprezo pelos accionistas de empresas privadas em nome de interesses partidários.

Nos últimos dias todos ficámos a saber pelos jornais que aquilo que um Primeiro Ministro diz no Parlamento não tem que ser verdade, que os bastidores estão cheios de arranjos e combinações, que a falsidade na política é uma forma de estar que até parece natural. Com o comportamento assumido na semana passada no caso da PT-TVI o Primeiro Ministro e o Governo deram um mau exemplo que deve ter levado muita gente a pensar que mais vale uma abstenção do que um voto numa mentira.

Ainda o assunto não tinha esfriado e logo uma fonte do PS anunciou que tinha havido uma reunião para garantir apoios de nomes de centro-direita a José Sócrates nas próximas eleições. Nem 24 horas eram corridas e soube-se que os nomes propagandeados foram não a uma iniciativa partidária, mas a um jantar privado em casa do Ministro da Economia, que convidou vários convivas para trocar impressões, e não para manifestarem apoios ou desapoios. Um dos convivas, António Carrapatoso, deu-se mesmo ao trabalho de emitir um comunicado a distanciar-se das notícias veiculadas - e imagino que alguns outros o não tenham feito porque estão em cargos de nomeação governamental. Seja como fôr, o que aqui está em causa é de novo o paradigma da mentira como forma de actuação política, pelos vistos um comportamento recorrente nos círculos próximos de Sócrates.

Se isto continuar assim as campanhas eleitorais que estão a começar e que vão durar até meados de Outubro – quatro meses – prometem ser um manual de más práticas. Está instalado no Governo o espírito do vale tudo, de não olhar a meios para atingir fins. Quando a coisa chega a este ponto o resultado não pode ser bom.

SE NÃO ESTRAGAREM, PODE SER NEGÓCIO

 (Publicado no «i» de 26 de Junho

 


No futuro como vai ser a televisão? Um bom bocado diferente daquilo que hoje conhecemos, de certeza. O ecrã tradicional vai progressivamente ser deixado de lado, substituído pelo ecrã do computador ou de vários outros dispositivos (ainda) mais móveis que um laptop. A forma de organização da programação também vai mudar – progressivamente as pessoas vão ter tendência a verem os programas que querem à hora a que estiverem disponíveis, e não à hora a que as estações os colocam em grelha de programas. A própria publicidade terá que se adaptar a estas mudanças.


Num tempo já próximo a televisão digital terrestre vai proporcionar uma experiência bem diferente daquela que temos hoje; a distribuição de sinal de televisão por fibra óptima vai complementar a oferta com uma diversidade e possibilidades de interacção que ainda nem sequer estão bem estimadas; a futura geração de telemóveis e novas redes de comunicações móveis tornarão mais fácil e acessível ver conteúdos vídeos on-demand ou simples emissões regulares de operadores de televisão. No centro de tudo isto estão os operadores de redes de comunicações: com diferenças tecnológicas quase inexistentes, com diferenças de preço mínimas, o principal critério de escolha dos clientes vai passar pelos conteúdos disponibilizados – e aqui o desporto, nomeadamente o futebol, desempenhará um papel fundamental.


É por isso que, depois de assegurar a TDT e de ter lançado o MEO, a PT voltou à necessidade de ter conteúdos audiovisuais e direitos de emissão, de preferência exclusivos, para os seus clientes. E é por isso que ter uma posição numa estação líder, que ainda por cima tem uma «fábrica» de produção própria, pode fazer sentido. Em termos de actividade e de negócio, o racional é perfeito; o pior será se a estação líder deixar de o ser, se existir a tentação de colocar interesses políticos à frente de critérios empresariais e se as mudanças efectuadas diminuírem as audiências e a qualidade dos conteúdos.  

 

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Junho)

 


TELEVISÃO - Politiquices sócratinianas à parte, o regresso da PT à área dos conteúdos só faz sentido – cada vez se torna mais claro que a chave do sucesso na exploração de novas plataformas tecnológicas tem a ver com a capacidade de garantir conteúdos, alguns em exclusivo de preferência, para garantir tráfego e gerar receitas. Não é preciso ser vidente para saber que a introdução da televisão digital terrestre, a próxima geração de telemóveis e a proliferação da fibra óptica vão alterar a forma como todos nos relacionamos com programas de televisão e com conteúdos audiovisuais. Se juntarmos a isto a importante questão da exploração dos direitos de transmissão do futebol (cada vez mais determinantes na criação de receitas directas e indirectas em televisão) estamos perante um cenário em que a PT ou abdicava de crescer ou arriscava voltar a uma área onde, no início da década, recorde-se, Zeinal Bava deu cartas e mostrou uma grande capacidade de visão. Do cenário politiqueiro, incontornável, é certo, espera-se que a tentação do poder e de exercer controlo editorial não estraguem uma estação de televisão que tem sido gerida com as audiências e a rentabilidade sempre em primeiro plano. E que, por acaso também, tem sido a que mais ficção nacional tem produzido, dando cartas ao serviço público em várias áreas.

 

ELEIÇÕES - Quando escrevo esta coluna ainda não se sabe qual a decisão presidencial quanto à data das eleições legislativas. Mas, seja qual for o calendário, é certo que tudo indica que o resultado eleitoral irá obrigar a coligações e acordos; se não for possível chegar a um acordo estável, e a probabilidade é grande, aumenta o número dos que propõem um Governo de iniciativa presidencial. O recente manifesto dos 28 contra as grandes obras públicas mostra já como alguns sectores das elites se posicionam, a marcar terreno. Apelos complementares a uma revisão constitucional – ainda por cima necessária face ao total desajustamento do sistema eleitoral e político face à realidade actual, criam campo para que o Presidente utilize os seus poderes até ao máximo. Será curioso ver quem se irá colocar em bicos dos pés nos próximos compassos desta dança.

 

CULTURA - No seu acto de contrição público transmitido pela televisão, Sócrates reconheceu que tinha errado na Cultura e que esta é uma área que precisaria de mais dinheiro. Está na cara que este será um dos sectores onde o PS vai investir – é que, com relativamente pouco dinheiro, será possível captar uma corrente de opinião de esquerda e de centro esquerda sensível a estas questões, crucial para o PS nas próximas eleições. Resta a curiosidade de ver quem o PS irá utilizar para dar corpo a esta nova política na área da cultura, já que o actual Ministro sempre disse que não era preicos mais dinheiro.... No entretanto a pobreza da direita e do centro direita em relação às questões de política cultural continua, infelizmente, a ser confrangedora – enquanto o PS tratou o assunto com os pés a coisa não se notou tanto, agora que a conjuntura eleitoral obriga Sócrates a ter mais cuidado, a diferença vai ser mais patente – e prejudicial – a menos que entretanto alguém tenha o bom senso de romper com o monopólio político da esquerda na cultura.

 

ELOGIO - É altura de aqui reconhecer que o trabalho realizado no Museu Colecção Berardo, no CCB, por Jean-François Chougnet, o director que tem sabido organizar um programa de exposições temporárias que faz descobrir áreas pouco visíveis, que possibilita que Portugal descubra a obra pouco divulgada de portugueses como Pancho Guedes, ou que tenha possibilidade de ver obras pouco divulgadas, como a de Dan Flavin. Esta semana o Museu inaugurou uma mostra sobre Art Déco e outra sobre paisagens, ao mesmo tempo que ainda se pode ver uma importação da Photoespaña ou a curiosa «Arriscar o Real», a partir de obras da própria Colecção Berardo.

 

VER - Semana grande em Coimbra – o Centro de Artes Visuais ~(CAV) inaugura dia 27, sábado, três exposições: «Notas Sobre Um Problema de Método», de Pedro Calapez; «The Night Walker And Other Works» um projecto de Ra Di Martino; e uma exposição, «Paisagem», dedicada à obra do arquitecto Carrilho da Graça com fotografias de Augusto Brázio, Edgar Martins e Frederic Bellay.

 

IR – Este é o primeiro fim-de-semana do «Estoril Jazz», numa nova «casa», o Centro de Congressos do Estoril. Sexta-feira dia 26, 21h30, o destaque vai para o quinteto James Carter; Sábado à tarde uma curiosa experiência de jovens músicos portugueses que adaptaram para português standards norte-americanos no colectivo «Jazz em Miúdos, às 16h00; à noite, ainda sábado, a voz de Roseanna Vitro (um dos novos valores do jazz vocal), com um trio que inclui o pianista Kenny Werner; finalmente no Domingo às 19 e 21 horas, em duas sessões um concerto a solo do pianista Chick Corea, sem dúvida o ponto alto destes primeiros três dias – para a semana há mais.

 

REGISTO - Mayra Andrade é uma cabo-verdeana com uma voz extraordinária e uma grande presença em palco, mas infelizmente o seu disco «stória, stória» sofre de um mal que nos últimos tempos contribui para descaracterizar e tornar pouco interessantes as gravações de intérpretes de Cabo Verde: uma produção, arranjos e músicos abrasileirados tornam tudo numa massa sonora incaracterística e pobre Resta a riqueza da voz de Mayra, infelizmente também a adoptar uma pronúncia mais brasileira que africana. A ideia será a de assegurar uma maior capacidade de internacionalização – mas o resultado é pobre e grotesco em termos musicais. CD Sony.

 

LER – Em 1973 foi feita a primeira edição de «O Mundo É A Nossa Casa», com base num texto de Júlio Moreira e em desenhos, ilustrações e grafismo de Sena da Silva, Cristina Reis e Margarida d’Orey. O livro, dedicado sobretudo às crianças, teve várias edições mas há uns anos que se encontrava esgotado. Pela mão da Guimarães Editores foi agora reeditado, numa versão actualizada que nos permite descobrir uma das obras mais interessantes sobre a nossa sociedade e o nosso planeta que se pode oferecer aos mais novos.

 

LUGAR – A esplanada da nova cafetaria do Hotel Altis Belém tem bom serviço, boa cozinha, uma grande vista e boas propostas, leves e frescas, para estes dias mais quentes. Telef. 210 400 200

  

BACK TO BASICS -  Uma obra exposta num museu ouve mais opiniões ridículas do que qualquer outra coisa no mundo – Edmond de Goncourt

 

UM CHEIRO A PODRIDÃO NO TERREIRO DO PAÇO

 


(Publicado no Diário Meia Hora de dia 23 de Junho)

 

Num destes dias passei pela primeira vez, desde que o trânsito ali reabriu, num taxi, frente ao Terreiro do Paço, a caminho do Cais do Sodré. Nem queria acreditar no que estava a ver – um misto de desolação com uns bocados de plástico pacóvios pelo meio. A coisa é indescritível - no meio das obras há uma instalação, que se situa visualmente a meio caminho entre carrinhos de choque das feiras e contentores para recolha de recicláveis, com uns arbustos de árvores raquíticos a saírem lá de dentro – numa referência ecológica bacoca. As peças, muito coloridas, estão dispersas em dois ou três sítios, sem lógica, sem dimensão para todo aquele espaço. Parecem apenas ridículas, na provocação gratuita, na ausência de sentido ou contextualização. Parece que esta intervenção terá custado 70 mil euros, pelo menos é o que leio na imprensa, a mesma onde também leio que esse o arco da Rua Augusta se degrada aceleradamente por falta de verbas para a sua recuperação.

Quando o táxi avança um bocadinho entra numa espécie de slalom entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, com faixas estreitas, na Ribeira das Naus, num traçado incompreensível, que vai de certeza dar muitos problemas – a razão do desvario e da estreiteza das faixas é o alargamento desproporcional dos jardins existentes. O taxista que me conduzia abanava a cabeça em ar de reprovação, todas as pessoas com quem tenho falado não entendem o que ali se passa, nem o seu significado, tão pouco o objectivo.

 

Para além da verborreia demagógica contra o trânsito automóvel (duplamente demagógica porque o município cobra uma bela colecta em impostos aos automobilistas que vivem na cidade), o que está a ser feito na Ribeira das Naus e no Terreiro do Paço é um espelho do poder arbitrário, da falta de bom senso e, estou em crer, de uma grande dose de incompetência.

 

Uma zona nobre da cidade de Lisboa está entregue a pinderiquices, a projectos de intervenção que causam polémica generalizada, tudo feito por obra e graça de uma Sociedade Frente do Tejo, criada pelo Governo perante a passividade de António Costa, e que, muito curiosamente, vai poder contratar empreitadas e adquirir bens e serviços por ajuste directo, sem concurso público, até 5,120 milhões de euros, um valor cinco vezes superior ao limite máximo previsto no Código dos Contratos Públicos. Não há um cheiro a podridão em tudo isto?