O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
agosto 17, 2009
(publicado no Jornal de Negócios de 14 de Agosto)
agosto 12, 2009
(publicado no Jornal de Negócios de 7 de Agosto)
agosto 03, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 31 de Julho)
POLÍTICA – À medida que a campanha eleitoral avança começa a perceber-se que, com elevada probabilidade, não vai existir nenhuma maioria natural nas legislativas. Portanto vai ser preciso fazer alianças, compromissos, negociações. Não deixa de ser curioso, neste contexto, verificar que António Capucho, Conselheiro de Estado, disse há dias, preto no branco, que «o bloco central não tem nada de pecaminoso». E não deixa de ser também curioso ver que Morais Sarmento é o número 2 da lista de Lisboa do PSD. No cenário de serem chamados ao Governo outras figuras que não os líderes partidários em exercício, é uma nomeação interessante.
LISBOA, CONTAS – A questão das contas de Lisboa tem um pano de fundo que convém reter – com as receitas fiscais da autarquia a caírem (por numerosas razões), falar de deficit é pura demagogia. Só por ser a capital do país, Lisboa tem custos estruturais – até aqueles que advêem da entrada de milhares de pessoas/dia na cidade, vindas da periferia – superiores ao de outras autarquias. É urgente uma revisão do Código Administrativo que coloque a gestão da capital numa perspectiva realista. A Câmara Municipal de Lisboa não pode ser penalizada e é-o há anos. É de soluções de futuro que interessa falar e não apenas de problemas do passado, que aliás tocam a todos. Para termos uma cidade diferente é necessário uma atitude diferente. Velhos do Restelo nunca trouxeram nada de bom.
LISBOA, TRÂNSITO – As decisões sobre o trânsito de Lisboa não podem andar ao sabor dos caprichos nem podem ter variações estratégicas súbitas, sob pena de causarem um enorme desconforto à cidade. Vejamos: há cerca de dez anos, João Soares, face à Expo e aos planos para Alcântara, resolveu, e provavelmente bem, que a ligação Expo-centro-Alcântara, era uma prioridade se existia a intenção de tornar a parte oriental de Lisboa num novo pólo de urbanização. Uma década depois não é justo que António Costa penalize quem lá comprou casa, impondo severas limitações ao acesso ao centro e à zona ocidental de Lisboa. Recordo: João Soares, com o apoio de Mega Ferreira na Expo, construíu uma avenida ribeirinha larga, com viadutos, que fez dinamizar toda a zona de Santa Aoplónia, Beato e Expo. António Costa, agora, estrangula tudo na Ribeira das Naus, tornando um martírio a circulação nesse eixo antes considerado prioritário. Ainda por cima passou o trânsito dos autocarros para um dos topos, o norte, do Terreiro do Paço, comprometendo a única esplanada fixa que existe na praça e que de repente ficou num corredor de «Bus» – o Martinho da Arcada. No meio disto o responsável do trânsito da Câmara diz que não fazia ideia do número de autocarros que, por via das alterações, ali iria começar a circular. Isto não é sério, nem decente e muito menos agradável para quem vive em Lisboa. Ao contrário do que se apregoa o estrangulamento atinge quem vive na cidade e não quem vem de fora.
COMIDAS – Alguns chefes de cozinha portugueses parece que perdem a mão quando acham que já ganharam o estatuto de estrelas. Não sei se é por atingirem o Princípio de Peter, se é por se atirarem para voos e diversificações que não controlam, a verdade é que de repente as coisas começam a não correr bem. Luís Suspiro, que tem alguns pergaminhos no activo, começou em forma no Campo Pequeno, no petisqueiro «Torricado», mas das últimas vezes que lá tenho ido senti que a coisa estava a piorar. Na semana passada experimentei outro restaurante dele, que abriu no mesmo local, e a coisa correu mal. O serviço é desatento e isso é logo aflitivo – quando é que estes chefes da moda se convencem que o bom serviço, atento, é fundamental? Depois a qualidade do que se comeu não correspondeu à expectativa – na lista estavam pastéis de massa tenra acompanhados por migas e a desilusão foi grande: as migas tinham uma consistência estranha, de papa; e os pastéis de massa tenra tinha uma dose de criatividade desnecessária no recheio – tempero a mais, paladar a menos, gosto final desagradável – nada a ver com as melhores receitas tradicionais. Em resumo: tão cedo não me apanham em nenhum dos restaurantes de Luís Suspiro no Campo Pequeno. Portucalidade, Praça de Touros do Campo Pequeno, Loja 66.
OUVIR – Regina Spektor é uma cantora russa (nascida em Moscovo em 1980), há 20 anos radicada nos Estados Unidos. Estudou música clássica, piano principalmente, e no final da adolescência começou a interessar-se pela música contemporânea, com o hip hop, o jazz e a folk no centro das preferências. Descendente de uma família judia também se interessou pela música judaica. É deste caldeirão de interesses e de formações diversas que nasceu a sua faceta de compositora, no sentido de «songwriter» – e não é exagero dizer-se que ela é actualmente das melhores autoras de canções. O seu novo disco, «Far», o quinto editado, é o mais maduro do ponto de vista musical, o mais cuidado em produção (Mike Elizondo), mas absolutamente cheio de vitalidade na força e envolvimento de canções como «The Calculation», «Blue Lips», «One More Time With Feeling» ou o divertido «Dance Anthem Of The 80’s». Este é um daqueles registos em que se percebe logo a diferença na qualidade das canções, do seu conteúdo, mas também o grande talento e criatividade, quer musical, quer vocal, de Regina Spektor. E é candidato à lista dos melhores do ano. CD «Far», Regina Spektor, Sire Records.
LER – Um dos melhores artigos sobre os bastidores da política que li nos últimos anos está na edição desta semana da revista «Time», que tem a foto de George Bush e de Dick Cheney na capa. Se não a encontrarem é fácil ver o artigo na edição on line (www.time.com). Trata-se de uma investigação, feita por dois grandes jornalistas da revista, sobre a tensão crescente nos últimos dias do final do mandato entre o Presidente Goeorge Bush e o seu vice-Presidente, George Cheney. Por detrás da progressiva ruptura entre os dois homens estava a forma como Bush encarava a revisão do precesso de Scooter Libby, que tinha sido chefe de gabinete de Cheney até ser condenado por obstruir uma investigação sobre a revelação da identidade de um agente da CIA por parte de responsáveis da Casa Branca. É um artigo revelador dos jogos de poder, dos mecanimos de influência e do funcionamento do sistema político e judicial. Exemplar.
BACK TO BASICS – O homem que olha para o seu passado não merece ter futuro a esperar, Oscar Wilde.
julho 29, 2009
(Publicado no Jornasl de Negócios de 24 de Julho)
CULTURA – Têm razão aqueles que dizem que uma boa definição, de cada partido, em relação às questões de política cultural, seria uma boa forma de ajudar muita gente a definir o seu voto. Considerada sempre como uma área menor onde não vale a pena investir nem tempo, nem dinheiro, a área das indústrias culturais e criativas é hoje encarada não só como relevante do ponto de vista económico, como importante para ajudar a decidir uma opção eleitoral. Se há coisa que, nalguns momentos, o actual Governo fez bem, foi, pela mão de Manuel Pinho, conseguir encontrar pontos de ligação entre o turismo e a cultura e desenvolver programas comuns – numa legislatura onde a Cultura foi genericamente mal tratada essa foi uma experiência a reter para o futuro, aliás quer em termos de Governo, quer em termos de autarquias. À oposição falta dar uma resposta nesta área.
FINANÇAS – Teixeira dos Santos não foi uma figura muito simpática, cultivou alguma arrogância contra os contribuintes e, em termos políticos, não foi mais que um zeloso cumpridor de orientações. Enquanto a crise não apareceu lá foi conseguindo iludir as aparências, mas agora a falta de eficácia das suas políticas surgiu por completo. Já é impossível esconder que a despesa pública está a aumentar (pelas más razões), e tornou-se evidente que as medidas tomadas em época de crise não evitaram a brutal quebra de receitas do Estado, provocada pela enorme queda de actividade económica e do consumo. Com a despesa a subir e as receitas a cair Teixeira dos Santos vai fazer um triste fim de mandato, com resultados muito, muito fracos, que marcam o falhanço do PS na gestão das finanças públicas – uma das áreas onde Sócrates mais promessas fazia, recorde-se.
LISBOA – Fiquei muito surpreendido por uma entrevista de Manuel Alegre onde ele, liricamente, se congratulava pelo acordo Roseta-Costa em Lisboa, dizendo estar muito satisfeito por ter sido conseguida a união da esquerda na capital. A sua megalomania habitual leva-o a considerar-se, a ele e aos seus apoiantes, como a esquerda que faltava ao PS, obviamente esquecendo que quer o Bloco, quer o PC concorrem contra a lista que ele apoia. Na realidade a lista de Costa é apenas uma lista onde se juntam as várias gerações do PS, o que como se sabe é muito diferente de ser uma lista de esquerda. Vai ser curioso ver o efectivo reflexo eleitoral de Roseta, agora que abdicou da sua independência em relação ao PS e ao resto da esquerda.
SOCIALISTAS – Bernard-Henri Lévy deu uma curiosa entrevista sobre o estado do PS francês, mas que se aplica que nem uma luva aos partidos socialistas que por essa Europa fora seguiram a célebre terceira via de Blair, Sócrates incluído. A tese do filósofo francês é simples: o PS já não encarna a esperança, está numa situação semelhante à dos PC’s de finais dos anos 70, meados dos 80. Vai mais longe: a crise dos socialistas começou com o declínio comunista, porque os partidos socialistas sempre se posicionaram e construíram em demarcação aos partidos comunistas: quando estes se começaram a apagar perdeu-se o referencial e o PS desorientou-se e deixou-se infiltrar por ideologias reaccionárias – palavras de Lévy.
LISTAS – A procissão das listas partidárias ainda vai no adro e já há muito burburinho – a coisa deve aumentar certamente nas próximas semanas. O principal problema tem a ver com a forma como as listas são constituídas, por jogos de influência e em resultado da relação de forças aparelhísticas dentro de cada partido. O resultado é que em muitos casos as listas são distantes do eleitorado e até dos simpatizantes de cada partido, o que é bem diferente de militantes encartados. Também esta situação contribui para a degradação do sistema político e para o alheamento da participação cívica nos processos eleitorais. Cada vez me convenço mais que devia existir um sistema próximo das primárias americanas, aplicado às legislativas, em que fora do estrito círculo das sedes bafientas dos partidos se pudessem escolher e indicar nomes para cada lista, distrito a distrito.
PERGUNTA – O relatório do Tribunal de Contas sobre o negócio da Liscont não deveria levar a que fosse responsabilizado quem prejudicou da forma descrita o erário público?
OUVIR – Originária do Mali, Rokia Traoré é uma das novas figuras de destaque no panorama da world music. Acompanhada pela sua guitarra, canta as suas próprias composições, acompanhada por um grupo de excelentes músicos africanos. «Tchamantché», o seu quarto disco, agrupa canções intensas, orgulhosamente africanas, envolventes e ritmadas, de tal maneira que ganhou o prémio de melhor artista na primeira edição dos prémios da revista britânica de world music «Songlines». CD Tama/Universal.
LER – Óscar Wilde é um dos mais fascinantes escritores que conheço e, das suas obras,retiram-se algumas das mais iluminadas citações que podem ser utilizadas em várias ocasiões. Loureiro Neves compilou citações de Óscar Wilde e editou-as agora na «Casa das Letras» sob o título «A Sabedoria e o Humor de Oscar Wilde» - 140 deliciosas páginas que se juntam a outras edições de citações da mesma editora.
PROVAR – O Castas & Pratos é um bom exemplo de um restaurante simpático, de boa comida e bom serviço, num velho edifício bem recuperado, um dos armazéns da estação de caminho de ferro da Régua. Por baixo fica um wine bar onde há uma boa escolha de vinhos da região a copo e também tapas diversas. No restaurante, numa noite luminosa, a escolha nas entradas foi laminado de presunto bísaro e crepes recheado com brunesa de legumes ; a seguir vieram um medalhão de vitela com risotto de cogumelos e uma espiral de polvo com batata grelhada recheada de grelos. A acompanhar vinhos a copo propostos pelo escanção. Para sobremesa um delicioso pudim de vinho do Porto. O restaurante, no primeiro andar, por cima do wine bar, é confortável, bom serviço e preço decente. Castas & Pratos, Rua José Vasques Osório, Estação da CP Peso da Régua, tel. 254 3232 90, www.castasepratos.com.
BACK TO BASICS - O progresso é a realização de utopias, Oscar Wilde
julho 21, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Julho)
IMPOSTOS – Há uns meses recebi a indicação de que o fisco tinha a intenção de me penhorar por uma pequena dívida atrasada; feito o pagamento, julguei que estaria tudo resolvido. Pois esta semana a Directora Financeira da empresa onde trabalho veio dizer-me, com um ar um pouco pesaroso, que tinha recebido uma notificação do fisco para me penhorar o salário por dívidas fiscais que, verifiquei depois, eram daquela verba que já estava paga – fui conferir, o número do processo era o mesmo, a quantia era a mesma, tinha o comprovativo do pagamento, no site das Finanças o Fisco assegura-me que eu não lhe devo nada – mas mesmo assim há alguém na máquina fiscal que me quer penhorar o ordenado por algo que já está pago. Como há-de uma pessoa gostar deste Estado malfeitor ou acreditar na eficiência dos serviços?
ROSETA – Helena Roseta decidiu deixar de continuar independente, e voltou a estar numa lista do PS. Já é público que, mais do que questões de princípio, o que Helena Roseta pretendeu garantir foram questões de poder – lugares e posicionamento nas listas, competências eventualmente a assumir. É legítimo verificar que o eventual apoio dela a António Costa não foi desinteressado, movido por um desejo de eventualmente contribuir para o resultado eleitoral, mas apenas para garantir a sua sobrevivência política dando-lhe palco e notoriedade. A notoriedade está conseguida com o segundo lugar da lista – é uma vitória para Roseta e uma considerável derrota para Manuel Salgado, sinal de alguma desagregação entre o núcleo duro de António Costa. É sempre difícil avaliar num cenário de compromissos eleitorais como reagirá o eleitorado que anteriormente votou, na prática, contra os partidos, acreditando então na bondade da ideia da independência que agora se desmorona. Será curioso ver qual a mais valia real que Roseta traz a Costa – até porque quando a campanha começar há-de ser natural que se recorde como a experiência dela enquanto Presidente da Câmara de Cascais foi um enorme falhanço. Na realidade, em matéria autárquica, estes dois anos de Lisboa incluídos, o currículo de Helena Roseta está longe de ser uma mais valia.
ASAE – Agora que a inconstitucionalidade da ASAE está cada vez mais a ser posta em causa conviria ver se o mesmo não se passa por exemplo em relação aos poderes atribuídos à EMEL, essa vergonha de Lisboa, da responsabilidade de vários executivos camarários. Além das dúvidas sobre a legalidade de actuação da EMEL, o seu relacionamento com os munícipes e a forma como responde a reclamações é um exemplo de más práticas e de prepotência. Pôr a EMEL na ordem devia ser uma prioridade para quem quer que ganhe as próximas eleições.
REPÚBLICA – Continuo sem perceber porque é que as comemorações do centenário da implantação da República são o pretexto para algumas das malfeitorias que se querem fazer em Lisboa, a começar pelo Terreiro do Paço. Por mais que me esforce não vejo porque se quer apressar tudo para celebrar um século de um regime que, em mais de metade do tempo, foi preenchido por ditaduras e autoritarismos diversos, e que, no geral, tem como cartão de visita o agravar da corrupção.
LER – Já muita gente falou disto, mas o novo livro de José Eduardo Agualusa merece elogios – na forma, na história e no conteúdo. A proposta é uma aventura passada numa Luanda situada no futuro, num país onde os interesses do Estado se confundem com interesses particulares, no meio de arranha-céus desertificados, com estrelas pop pelo meio e tráficos diversos por pano de fundo. Em conversa, recente, Fernando Sobral dizia-me que o livro tinha pontos que fazia pensar um «Blade Runner» passado em Luanda, e tem razão na analogia. Mas a escrita compassada de Agualusa ultrapassa esse enquadramento e faz um retrato do que é Angola, falando no futuro mas fazendo-nos constantemente pensar no presente. Essa dualidade, entre os tempos da acção e a realidade da nossa percepção, é um dos encantos maiores de um livro que confirma o autor como um dos grandes escritores da língua portuguesa. (Edição Dom Quixote, 342 páginas).
VER – Aqui há uns anos, quando dirigi o canal 2: na RTP, cheguei a seguir uma proposta de um documentário sobre o papel precursor dos portugueses na globalização. A proposta era de um historiador inglês e baseava-se em investigações e ensaios universitários, então recentes. Não havia orçamento, a produção não avançou. Não é por isso de estranhar que a ideia da exposição «Encompassing The Globe – Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII» tenha partido de um norte-americano, Jay Levinson, que criou o conceito da exposição e a concretizou no Smithsonian, em Washington. Desenganem-se pois os que julgam que a exposição foi criada por iniciativa portuguesa – nada disso é verdade; mas é verdade que o facto de investigadores internacionais se preocuparem mais com a nossa história e património que nós próprios é uma prova de que, na realidade, tivemos um papel globalizante em determinada altura da História. Dito isto ainda bem que a exposição veio a Portugal, embora em versão mais reduzida que a original, ficando no Museu Nacional de Arte Antiga até 11 de Outubro.
OUVIR – Nestas tardes de Verão, quando se chega a casa, enquanto o sol se põe, proponho que ouçam o novo disco dos Nouvelle Vague, «NV3», o terceiro álbum desta banda de origem francesa que foi buscar o seu nome ao universo do cinema francês dos anos 60. Filmes à parte os Nouvelle Vague têm no seu repertório temas marcantes como «This Is Not A Love Song» e uma série de versões de temas bem conhecidos dos Dead Kennedys, Billy Idol, Clash, Bauhaus ou Depeche Mode (com quem eram supostos ter partilhado o palco do Super Bock- Super Rock no Porto). No novo álbum surgem participações de Martin Gore dos Depeche Mode, de Ian McCulloch dos Echo And The Bunnymen e Terry Hall dos Specials. No disco, para além de vários originais, há versões envolventes de temas como «Master And Servant», «Road To Nowhere», «Parade» ou «Our Lips Are Sealed», entre outros. Em comparação com os anteriores o ambiente é, digamos, menos bossa nova e mais rock, por vezes com clara inspiração na «country» norte-americana. Não torçam o nariz, o disco vale a pena mesmo.
BACK TO BASICS - O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade - Aristóteles
julho 14, 2009
UMA PROMISCUIDADE REVELADORA
(Publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Julho)
António Costa escolheu estes últimos dias para dar o pontapé de saída na sua recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa: assinou no Domingo um acordo com José Sá Fernandes, na sexta havia indicado apoiantes e mandatários, e na segunda-feira fez a apresentação formal da candidatura. São tudo actividades normais em processo eleitoral. Claramente António Costa escolheu estes quatro dias, de sexta a segunda, para marcar a agenda mediática e ganhar espaço nos «media».
No entanto António Costa não fez só isto e, de uma forma pouco elegante, no mesmo espaço de tempo, misturou por duas vezes a sua recandidatura privada e partidária com actividades da Câmara Municipal de Lisboa : sexta-feira, horas antes de José Saramago ter declarado o seu apoio a Costa, a Câmara Municipal de Lisboa, directamente pela mão do seu presidente, concedeu um subsídio de 30.000 € ao documentário "União Ibérica", sobre a relação entre Saramago e a mulher, Pilar del Rio; a seguir António Costa promoveu a publicação e distribuição, na edição de Domingo de um jornal diário, de um folheto de propaganda municipal, com 16 páginas, das quais as duas iniciais são preenchidas por um texto seu, com respectiva fotografia pessoal.
A política audiovisual de António Costa começou há poucos dias quando decidiu financiar mais um filme de João Botelho sobre Fernando Pessoa; logo a seguir surge este subsídio para um documentário sobre Saramago. O financiamento de produções audiovisuais pela autarquia surge assim de forma casuística - mais valia que as verbas envolvidas fomentassem a criação de uma Film Commission para Lisboa. Mas, sobretudo, convinha que, nos dois últimos casos, o de Botelho e Saramago, a coisa não parecesse um estender de mão eleitoral.
O segundo caso é pior – toda a história da Carta Estratégica de Lisboa, por melhores intenções que os intervenientes tenham, serve objectivamente apenas para uma acção propagandística e de levantamento de ideias a apoios para o Programa Eleitoral de António Costa. Esta é uma daquelas iniciativas que faz sentido fazer-se logo no início de mandato, mas que em período já pré-eleitoral fica apenas como uma manobra de propaganda eticamente muito discutível.
Nestes dois temas nem falo da utilização de dinheiros públicos, sobretudo revolta-me a falta de ética política e a promiscuidade que a mistura e a coincidência entre actos partidários e actos institucionais revela.
julho 13, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Julho)
INVESTIGAÇÕES – Um dos problemas, graves, que existe na justiça portuguesa é a forma como investigações da Polícia Judiciária se tornam muito rapidamente armas de arremesso político ou social. Os anos recentes estão cheios de casos destes – em que as fontes que tornam públicas investigações partem de dentro da própria polícia, como forma de provocar julgamentos na praça pública, que muitas vezes nem chegam a tribunal. O histórico da Polícia Judiciária no sucesso de investigações complexas, na resolução de crimes ou no desmantelamento de redes criminosas é muito pequeno, quando comparado com a forma como em casos políticos se deixa manipular e como é utilizada como elemento central de campanhas de opinião pública. Algo vai muito mal no funcionamento da Polícia Judiciária - e a sua reforma é uma peça essencial para que a Justiça possa melhorar.
DÚVIDA – Às vezes fico um bocado espantado sobre a forma de comportamento dos porta-vozes partidários. Eu acho que o natural seria que um porta-voz tentasse alargar o raio de comunicação do seu partido, que falasse para os eleitores que estão nas margens, para conseguir captar eleitorado, neutralizar quem antipatiza com esse partido e sobretudo conseguir dar bons argumentos para que os militantes e simpatizantes consigam eles próprios exercer influência nos círculos onde se movem. Mas em vez disso os porta-vozes, com raras excepções, falam para dentro, para o núcleo duro, reproduzem argumentos frequentemente de forma dogmática, e parecem mais obstinados em fornecer argumentos para confrontos do que em comunicar no sentido básico do termo – fazer chegar uma mensagem a quem à partida não estaria predisposto a ouvi-la. Olhem para o espectro partidário e analisem como actuam os porta-vozes – raros ultrapassam o nível de um propagandista, teimoso mas inábil, em início de carreira.
RESUMO DA SEMANA – A Comissão de Inquérito da Assembleia da República ao caso BPN achou que o Banco de Portugal agiu bem na fiscalização daquele banco; Cristiano Ronaldo em Madrid foi o assunto central da semana nacional; já existem três manifestos sobre obras públicas, mais uma conferência de imprensa de Jorge Coelho; dizer um palavrão na Assembleia da República não tem consequências mas exprimi-lo gestualmente dá demissão – é aquilo a que se chama o poder da imagem.
PERGUNTA INDISCRETA – Agora que Manuel Pinho se foi embora, quem é que vai tratar dos assuntos da Cultura no Governo?
VER – Senti o cheiro das rotativas e a emoção de ver uma história publicada, o caos das redacções e o zig-zaguear do desenvolvimento de uma reportagem em «Ligações Perigosas», um filme de Kevin Macdonald sobre a investigação jornalística da morte da amante de um político que andava a investigar negócios pouco claros na área militar. O «thriller» é bem construído, o argumento é muito bom e a interpretação de Russell Crowe é superior.
LER – Confesso-me um leitor devoto de policiais e confesso-me amigo do Fernando Sobral, que também escreve nas páginas deste jornal. Gosto de o ler diariamente no seu certeiro «Pulo do Gato» ou nas notas sobre a semana ou sobre livros que ele publica aqui neste «Weekend». Feitas estas declarações tenho a dizer que «L.Ville», o novo livro do Fernando Sobral, um policial, é uma história fascinante de um detective que, na cidade de Lisboa, se confronta com um caso de homicídio. Não vou contar a história – que é daquelas que não se consegue parar de ler – mas direi que é um retrato contemporâneo de locais, comportamentos e atitudes. Eu li-o de seguida, a imaginar sítios, a ouvir as canções que são citadas, a sentir cheiros e aromas. «L.Ville» é um dos melhores policiais que tenho lido ultimamente e que, ainda por cima, tem a particularidade de ter frases absolutamente geniais, como esta: «Podemos ensinar tudo; mas devemos ficar sempre com o truque definitivo». (Edição Quetzal)
OUVIR – Ao fim de duas décadas e de uma quinzena de discos ainda há lugar para surpresas numa banda que em 1988 ganhou fama e notoriedade com o disco «Daydream Nation», que se afirmou com uma sonoridade própria na Nova York dos anos 90? Estou a falar dos Sonic Youth, esse quarteto que fez fama com canções que reproduziam os ruídos, as sensações e a criatividade dessa cidade. Ironicamente intitulado «The Eternal», o novo disco dos Sonic Youth, uma nova explosão de energia, misturada com pequenas provocações que salpicam as canções. Os Sonic Youth, que há três anos não lançavam disco novo, não inventam aqui nada – mas aperfeiçoam o seu estilo, e surpreendem pela coerência, num tempo em que esta música podia ser mais difícil para atrair novos públicos. Destaque para a forma como Kim Gordon canta, e sobretudo para a última canção do disco, verdadeiramente impressionante, «Massage The History». CD Matador.
PROVAR – As coisas mais simples e mais tradicionais são muitas vezes as melhores. De repente um regresso a um restaurante onde já não se ía há uns tempos faz recordar a importância da boa escolha de produtos, a boa confecção, o tempero cuidado, a atenção ao pormenor – por exemplo a qualidade da preparação das azeitonas e do pão que se servem – um dos «couverts» mais simples, que ou corre muito bem ou é para esquecer. Pois correu muito bem num regresso ao «Apuradinho», em Campolide, uma noite destas onde o objectivo era comer bem, com calma, sossegado. A escolha da noite recaiu numas lulas recheadas acompanhadas de puré de batata – aqui está um prato que pode ser um desastre, mas felizmente no «Apuradinho» é um sucesso – lulas perfeitas, tenras, recheio muito bom, um puré de batata natural muito bem condimentado. A terminar, cerejas magníficas, absolutamente excepcionais – num ano, aliás, que tem sido bom em matéria de cerejas. Resumo da noite: porque é que não vou mais vezes ao «Apuradinho» - aos seus pastéis de bacalhau levíssimos, ao estufado de pivetes (rabo de boi) ou ao cozido, sempre superior? «Apuradinho», Rua de Campolide 209 A, telefone 213 880 501.
BACK TO BASICS - A História é pouco mais do que uma sucessão de crimes e de infortúnios - Voltaire
julho 07, 2009
UMA CIDADE PERDULÁRIA
(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Julho)
COSTA - A campanha eleitoral de António Costa já começou, com uns cartazes que dizem «Arrumámos, a Casa». O meu palpite é que eles devem ser dirigidos para quem vive fora de Lisboa e está de passagem na Capital – é que quem cá vive fica com os cabelos em pé com estes dois anos de Costa – ruas mais sujas, cidade mais esburacada, trânsito ainda mais caótico. Na verdade o mandato de Costa é feito de desarrumação, a cidade está pior e não há obra feita nem rasto de inovação. Até na relação com o Governo a Capital está a perder – vejam-se as tropelias feitas na zona ribeirinha. António Costa na Câmara pode servir bem os interesses do Governo, mas é seguro que tem feito muito pouco por Lisboa.
ASAE - Depois de meses de acalmia a ASAE voltou a fazer das suas, desta feita em Serralves. O motivo foi a apreensão de jóias de novos desenhadores, que estavam expostas na loja do museu – as jóias, de prata não tinham o contraste de Lei e a apreensão terá sido feita por denúncia. Independentemente da questão do contraste, a verdade é que tudo isto se baseia numa Lei com décadas, em grande parte hoje em dia contrária ao Direito Comunitário, e que proíbe a venda de jóias ou peças de metais preciosos, mesmo contrastadas, fora de ourivesarias. É por isso que algumas lojas de grandes marcas internacionais não podem vender nas suas lojas peças contrastadas, de ouro ou prata, mesmo que inteiramente legais e é por isso que elas são seladas pela ASAE – que depois demora infindáveis meses a resolver o processo, criando grandes prejuízos. Mas como se sabe a missão da ASAE é criar dificuldades e prejuízos em diversas áreas da actividade económica – a novidade é que agora invadiu a esfera das artes e da criatividade (esta ida à Fundação do Porto foi a segunda num espaço de pouco tempo já que os diligentes agentes da ASAE andaram por lá no dia da Festa anual de Serralves a ver se se fumava ….). O exagero tira a razão – e a falta de bom senso é o grande pecado da ASAE.
LER – A edição de Julho/Agosto da revista internacional «Monocle» devia ser lida por todos os candidatos autárquicos de grandes e médias cidades. É o número anual que faz o ponto de situação dos locais com melhor qualidade de vida, ordena as cidades com base nesse critério e tem uma série de artigos, opiniões e sugestões de especialistas de diversas áreas, do urbanismo ao comércio e indústria, passando pela música ou a animação de rua. No índex anual das 25 melhores cidades para viver Lisboa caíu para a última posição, o que não é estranho se percebermos como a cidade tem ficado mais caótica nestes últimos tempos. Ao longo das páginas descobrem-se evidências há muito esquecidas em Portugal – a importância do comércio de rua, de as cidades acolherem pequenas indústrias, artesanatos, de privilegiarem a recuperação em vez da nova construção, de dignificarem e aproveitarem os espaços ao ar livre. Todo um programa de bom senso.
OUVIR – Bem Harper faz quarenta anos em Outubro próximo e este seu novo disco, «White Lies For Dark Times» é o seu trabalho mais maduro, surpreendente e conseguido – e absolutamente nada chato. Com uma enorme influência dos blues, apresentando em estreia a banda texana Relentless 7 ao lado de Harper, a produção garante sólidas e frescas sonoridades. Na realidade este é um Ben Harper para quem gosta de rock, nalguns momentos com citações que parecem pescadas de Jimi Hendrix ou de Neil Young, um disco bem ritmado, a fugir a alguma monotonia demasiado presente em outros trabalhos recentes do cantor. Mas além das influências bluesy, aqui também se percebe como Ben Harper gosta de se inspirar na folk music ou no funk. Um discão.
IR – O Estoril Jazz 2009 termina este fim de semana. Hoje, sexta dia 3, é a vez do quarteto do saxofonista David Murray; amanhã, sábado dia 4, a homenagem a Charly Mingus pelo septeto Mingus Dinasty; e Domingo, dia 5, toca o quinteto do contrabaixista Christian McBride – sexta e sábado às 21h30, Domingo às 19h00, sempre no Centro de Congressos do Estoril, no Festival que regularmente proporciona alguns dos melhores concertos de jazz que por cá se podem ver ao longo do ano.
DESCOBRIR – O Douro é certamente das regiões de Portugal onde vale a pena voltar sempre. Nos últimos anos as transformações, para melhor, são grandes – desde as grandes vinhas até aos museus locais, passando pela recuperação dos passeios de barco e, sobretudo por uma oferta de hotelaria e restauração que colocam a zona, em termos de qualidade, entre as melhores do país. Vem isto a propósito daquele que hoje em dia é certamente um dos melhores restaurantes de Portugal, quer em termos de espaço, quer de serviço, quer de qualidade e confecção da comida. Trata-se do DOC, situado precisamente no Douro, a meio caminho entre a Régua e o Pinhão, precisamente em Folgosa. Comecemos pelo local – construído em cima do rio, num edifício concebido para o efeito, com uma esplanada fabulosa, uma sala espaçosa, boas mesas, confortáveis cadeiras, um ecrã que mostra o que se passa dentro da cozinha. Depois, o serviço – eficaz, simpático, atento, bom conhecimento da carta, conselhos acertados e não especulativos sobre vinhos. Finalmente a comida – múltiplas escolhas, comida de inspiração regional com um toque de frescura, muito boa qualidade dos produtos, confecção absolutamente impecável, quer nos peixes, quer nas carnes. Destaques, nas entradas, para as chamuças de moura e de alheira, nos peixes para os milhos de moluscos com algas do mar e rodovalho e o cherne com ratatouille de legumes, e nas carnes para as propostas de porco bísaro, cordeiro e cabritinho. Há a possibilidade de Menu Degustação. A responsabilidade de tudo correr assim é do proprietário e Chefe, Rui Paula, que trabalhou alguns anos em Londres e que tem um belo livro editado, «Uma Cozinha no Douro». O preço é alto, mas aceitável para a qualidade. É uma pena que em Lisboa, numa cidade á beira de um rio, não exista um restaurante assim, quer em conforto, quer em qaulidade. Uma experiência absolutamente a reter. Podem antever o DOC em www.restaurantedoc.com , reservas (absolutamente indispensáveis) para o telefone 254 858 123 ou 919 314 395.
PROVAR – Bebida do verão, a meio da tarde – um Nespresso Lungo em copo largo, com três pedras de gelo. Delicioso.
BACK TO BASICS - Homens de bom senso aprendem sempre alguma coisa com os seus inimigos – Aristófanes.
julho 01, 2009
A TÁCTICA DO VALE TUDO
(Publicado no diário Meia Hora de dia 30 de Junho)
SE NÃO ESTRAGAREM, PODE SER NEGÓCIO
(Publicado no «i» de 26 de Junho
No futuro como vai ser a televisão? Um bom bocado diferente daquilo que hoje conhecemos, de certeza. O ecrã tradicional vai progressivamente ser deixado de lado, substituído pelo ecrã do computador ou de vários outros dispositivos (ainda) mais móveis que um laptop. A forma de organização da programação também vai mudar – progressivamente as pessoas vão ter tendência a verem os programas que querem à hora a que estiverem disponíveis, e não à hora a que as estações os colocam em grelha de programas. A própria publicidade terá que se adaptar a estas mudanças.
Num tempo já próximo a televisão digital terrestre vai proporcionar uma experiência bem diferente daquela que temos hoje; a distribuição de sinal de televisão por fibra óptima vai complementar a oferta com uma diversidade e possibilidades de interacção que ainda nem sequer estão bem estimadas; a futura geração de telemóveis e novas redes de comunicações móveis tornarão mais fácil e acessível ver conteúdos vídeos on-demand ou simples emissões regulares de operadores de televisão. No centro de tudo isto estão os operadores de redes de comunicações: com diferenças tecnológicas quase inexistentes, com diferenças de preço mínimas, o principal critério de escolha dos clientes vai passar pelos conteúdos disponibilizados – e aqui o desporto, nomeadamente o futebol, desempenhará um papel fundamental.
É por isso que, depois de assegurar a TDT e de ter lançado o MEO, a PT voltou à necessidade de ter conteúdos audiovisuais e direitos de emissão, de preferência exclusivos, para os seus clientes. E é por isso que ter uma posição numa estação líder, que ainda por cima tem uma «fábrica» de produção própria, pode fazer sentido. Em termos de actividade e de negócio, o racional é perfeito; o pior será se a estação líder deixar de o ser, se existir a tentação de colocar interesses políticos à frente de critérios empresariais e se as mudanças efectuadas diminuírem as audiências e a qualidade dos conteúdos.
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Junho)
UM CHEIRO A PODRIDÃO NO TERREIRO DO PAÇO
junho 22, 2009
(publicado no Jornal de Negócios de 19 de junho)
BOTOX – O PS está a fazer uma operação de recuperação estética acelerada. Primeiro Sócrates reaproxima-se de Alegre, depois decide-se a ouvir vozes divergentes, por fim admite que a maioria absoluta deixou de ser um objectivo. Preparam-se os tempos do diálogo e a nomeação de João Tiago Silveira, uma das poucas vozes sensatas do Governo, é um sinal de que a pesporrência de Vitalino Canas e a arrogância de Santos Silva estão provisoriamente guardadas debaixo do tapete. Contra ele João Silveira tem o facto de estar no Ministério da Justiça, um dos sectores onde o Governo quase nada fez, ainda por cima sendo a Justiça uma das zonas mais degradadas, ineficazes e profundamente injustas da sociedade portuguesa. Mas no meio deste face-lift acelerado fica um gato escondido com o rabo de fora – ao nomear António Vitorino para coordenador do programa eleitoral, espera-se agora que haja o bom senso de a RTP o despedir de comentador, de tão envolvido que está na principal peça que vai modular a propaganda do próximo ciclo eleitoral. Os sorrisos agora beatíficos de José Sócrates são produto de uma pesada derrota eleitoral – e nestas coisas da política, como dos tratamentos estéticos, é bom não esquecer que o botox tem duração limitada e que quando o seu efeito desaparece os defeitos ainda se acentuam mais.
TGV – Perder o foco num debate é o pior que pode haver e na questão do TGV convém separar o essencial do acessório. O essencial é garantir que Portugal não fique isolado da rede europeia, que Lisboa fique ligada a outras capitais por uma linha de alta velocidade, nomeadamente a Madrid e a Paris e, daí, a várias outras. É uma obra cara e de retorno difícil – pois é, mas é estratégica e deve avançar. É um investimento público importante para garantir que a fronteira terrestre do país não se transforme num muro. Já outra coisa são as negociatas de política local ou de empreiteiros habilidosos que querem fazer ramais de TGV com paragens de 100 em 100 quilómetros, muitas pontes, viadutos e túneis. Estas são desnecessárias, completamente inúteis e não há razão para que as ligações Lisboa-Porto ou ao novo Aeroporto não sejam feitas por outros sistemas ferroviários rápidos modernos, mais adequados às distâncias entre cada paragem.
VER – Maria Beatriz faz parte da geração de artistas portugueses que no final da década de 60 optou por trabalhar no estrangeiro. Uns voltaram após 1974, outros foram ficando nos países que escolheram – ela escolheu a Holanda e desde então tem vivido em Amesterdão. Em Portugal tem exposto com periodicidade irregular e esta semana abriu na Galeria Ratton uma exposição de obras inéditas, «Oisive Jeunesse, à tout asservie», uma citação de Rimbaud que dá o nome a esta série cuja preparação começou em 2007 e que integra desenhos, pinturas e azulejos, todas em torno do corpo feminino. Para além da galeria, o site da artista também merece uma visita: www.mariabeatriz.nl . A Ratton fica na Rua da Academia das Ciências 2C, junto à rua do Século.
IR – Se têm seguido a polémica sobre a destruição do Museu de Arte Popular talvez achem interessante a proposta de uma «visita guiada» ao museu encerrado, que sob o título «O Museu Essencial E Incómodo» junta sábado dia 20, Raquel Henriques da Silva, João Leal, Rui Afonso Santos, Vera Marques Alves e Alexandre Pomar, no edifício do Museu, em Belém, pelas 16h00.
CELEBRAR – A Bica do Sapato faz dez anos por estes dias, dos quais os primeiros foram de afirmação e resistência (no início a vida foi difícil) e estes últimos de consolidação. A Bica é daqueles restaurantes que oferecem mais que a comida (boa, óptima, diga-se): a decoração do espaço, a localização junto ao rio, a qualidade da garrafeira e das sugestões de vinhos do Chefe de Sala, o ambiente – tudo torna o local num espaço especial, que resiste a modas, simultaneamente íntimo e acolhedor para os frequentadores habituais e inusitado e excitante para quem lá vai pela primeira vez. Quanto à cozinha a inspiração é a gastronomia portuguesa, com uma interpretação contemporânea - dez anos na vida de um restaurante assim, sempre mantendo a qualidade, é uma data que merece aplauso – e é do melhor que Lisboa tem a oferecer a quem visita a cidade. Telefone 218 810 320, Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Cais da Pedra, a Santa Apolónia.
OUVIR - «White Works», o novo disco do pianista de jazz João Paulo, é baseado em composições de Carlos Bica e é de um despojamento e contenção notáveis. A solo, no piano, ele consegue aquele exercício extraordinário que é partilhar a solidão. (CD Universal).
RECORDAR I – Morreu em Maputo Ricardo Rangel, um dos mais importantes fotógrafos de língua portuguesa. A sua obra, nomeadamente a que foi feita entre os finais dos anos 50 e o princípio deste século, mostra um trabalho baseado no fotojornalismo e numa minuciosa interpretação da realidade, mas sempre com um olhar próprio. Trabalhou nas mais importantes revistas e jornais de Moçambique na fase anterior à independência, aliando a reportagem ao ensaio fotográfico. A pesquisa do seu nome no Google remete para uma série de sites, com destaque para os que mostram um dos seus mais importantes testemunhos, a exposição «Iluminando Vidas», que passou por Portugal. Nos últimos anos dedicou-se ao Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que fundou e dirigiu.
RECORDAR II – Morreu em Lisboa João Bafo, que fez parte de um núcleo restrito de fotojornalistas portugueses que na década de 70 se empenharam numa nova forma de fazer fotografia «contra a fotografia de salão, concurseira, contra o estilo neo-realista», como recorda outro contemporâneo, Luiz Carvalho, no seu blog. Esse núcleo fez escola e influenciou a edição fotográfica na imprensa nas décadas seguintes. Tive o prazer de trabalhar com ele quando estive no «Se7e», que nessa altura o João também ajudou a mudar. O seu trabalho era verdadeiramente bom, mas nos últimos anos estava afastado da imprensa, em boa parte porque se fartou da forma como as chefias de redacção tratavam a fotografia – foi esse o tema da nossa última conversa, há uns anos. As suas imagens de Portugal na década de 70 e 80 mereciam ser de novo mostradas – aliás é miserável a maneira como matamos a memória do nosso próprio tempo.
BACK TO BASICS – A fotografia serve para ajudar as pessoas a ver – Berenice Abbott
À PROCURA DE DIRECÇÃO
(Publicado no diário Meia Hora de 16 de Junho)
Apesar do título, hoje não vou falar do estado em que se encontra o PS após os resultados das eleições europeias. O assunto da conversa é bem mais prosaico e tem a ver com a maneira como está organizada a sinalética indicativa de direcções nas estradas portuguesas, sobretudo na saída das cidades.
O principal problema que surge é o de a sinalização ser feita, não em torno da direcção principal, mas de destinos secundários, certamente importantes a nível local, mas absolutamente ineficientes para visitantes que desconheçam o local e estejam de passagem. Cá para mim a resolução do problema nem é complicada e devia-se organizar, em cada região, em duas ou três direcções principais repetidas em todos os cruzamentos principais e rotundas, por forma a que ninguém se perca inadvertidamente. E se mesmo um português tem dificuldade em se orientar no puzzle de direcções das inevitáveis rotundas que cercam as nossas cidades e vilas, que dizer de um estrangeiro?
O problema agrava-se se entrarmos dentro das vilas ou cidades em vez de nos ficarmos pelas circulares. Às vezes nem no centro existem indicações concretas da forma de sair.
Nunca percebi porque é que, nas principais cidades e nós rodoviárias, não existe uma sinaléctica principal que indique a direcção sul ou norte, ou, se quisermos, Lisboa e Porto ou Lisboa e Faro. O mais frequente é encontrar uma placa, por exemplo, em Leiria, que diga Lisboa e que depois durante duas ou três rotundas deixa de aparecer, substituída por umas placas de destinos locais – é preciso ter o mapa de Portugal bem metido na cabeça para descobrir quais dos destinos assinalados se encaixam na direcção de Lisboa e quais se encaixam na direcção Porto. Também é muito frequente encontrar placas de auto-estradas – tipo A 24, sem que há indicação de qual o trajecto – o destino – que proporcionam.
Aqui há uns meses estiva no belíssimo Quinta das Lágrimas, em Coimbra, e vi-me aflito para sair de lá, de regresso a Lisboa, para apanhar a trivial A1, tal o emaranhado de indicações e ausência de direcções principais que Coimbra infelizmente apresenta.
Bem sei que estamos na época em que o GPS se tornou uma acessório trivial, mas para aqueles que o não possuem, a saída de uma cidade portuguesa – Lisboa incluída – é um verdadeiro quebra cabeças. Imagino o que será um estrangeiro a amaldiçoar o dia em que decidiu ser um turista automobilista em Portugal…
junho 15, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Junho)
junho 05, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Junho)
ELEIÇÕES – Domingo 7 de Junho arranca o ciclo eleitoral deste ano, com as Europeias. Mais à frente, depois do Verão, vêm as Autárquicas e as Legislativas. A Lei Eleitoral, na sua essência, tem mais de 30 anos e não contempla nem os meios de comunicação electrónicos nem as possibilidades de participação política on-line, é uma lei analógica e manual, num mundo digital e automático. Cada vez mais se sente que os partidos políticos são estruturas esclerosadas, afastadas dos cidadãos durante todo o período não eleitoral, que fazem listas de candidatos que depois não vão ocupar os seus lugares. Enquanto isto não mudar é muito difícil que novos eleitores se mobilizem, que a abstenção diminua – na realidade a culpa do afastamento da participação cívica não é dos cidadãos, é dos políticos e dirigentes partidários. Por exemplo, no caso da Europa, por não quererem referendar o Tratado de Lisboa (que entretanto ficou esquecido…) e por preferirem pedir votos numas eleições onde, de facto, a discussão europeia quase não existe.
PORTUGAL - As promessas eram muitas e saíram ao contrário – desde as reformas, aos impostos, a realidade é dura: no final destes anos de Governo do PS, Portugal tem a maior dívida externa de sempre, a maior taxa de desemprego dos últimos 25 anos e um deficit inédito. O balanço da eficácia de Sócrates é terrível e parece um cutelo sobre a cabeça dos portugueses. Da mesma maneira que a recompensa aos gestores não pode premiar o falhanço, o voto nas eleições não deve beneficiar os maus resultados dos políticos no poder.
LISBOA – Que está a acontecer à minha cidade? Nestes dias de calor as ruas já cheiram mal, o estacionamento continua a ser desordenado, as ruas continuam estranguladas, os semáforos descomandados, as obras surgem por todo o lado e alteram o dia a dia das pessoas. Sabe-se que o Tribunal de Contas considerou o contrato da EMEL com a Street Park ilegal, mas o Presidente da EMEl diz que não. Os agentes da EMEL provocam e brincam com as pessoas, são rapidíssimos e abusadores a bloquear e lentíssimos e indiferentes a desbloquear. No meio disto tudo Lisboa não tem um Provedor do Munícipe, alguém a quem os alfacinhas se possam queixar dos abusos e atropelos da Câmara ou de empresas municipais. Desde que me lembro, nunca viver em Lisboa foi tão desagradável.
VER – A exposição «Photo España 2009» no Museu Colecção Berardo mostra trabalhos de Mabel Palacín e de Cristóbal Hara, este último verdadeiramente surpreendente na sua interpretação dos ritos quotidianos, na forma como trabalha a cor, nos enquadramentos rigorosos, na capacidade de captar momentos únicos, na maneira de utilizar a fotografia enquanto veículo para uma interpretação da realidade. A exposição fica até 26 de Julho e é uma das boas mostras de fotografia, comissariada por Sérgio Mah, repescado por Madrid, depois de Lisboa ter deitado para o lixo o seu mês da fotografia.
OUVIR – O novo disco de Caetano Veloso «Zii e Zie» evidencia o regresso de Caetano à sua melhor forma depois de um período de alguma confusão e banalidade. Sonoridades fortes, uma banda bem eléctrica com arranjos ousados, ritmos inesperados, canções que agarram com textos bem humorados e irónicos, como nos melhores tempos do artista. Fica feita a minha reconciliação com Caetano Veloso – agora de novo em fase bem inspirada.
LER – Já se sabe que não perco oportunidade para recomendar a revista «Monocle» - uma revista mensal que curiosamente parece ser a grande inspiradora em termos editoriais e gráficos de um jornal diário, o «i». Na «Monocle» de Junho muitos motivos de interesse, mas permito-me sublinhar dois, do burgo: um, o destaque para os divertidos cadernos de notas da portuguesíssima Editora Serrote (eu descobri-os há uns tempos na livraria Pó dos Livros, Av. Marquês de Tomar – www.serrote.com); outro para a zona de Lisboa que a «Monocle» resolveu eleger – o Príncipe Real e a D. Pedro V, com sugestões de lojas e locais, um toque cosmopolita na variedade de nacionalidades que estão nesses locais, não esquecendo o mercado semanal do Princípe Real (Tyler Brulé, director da revista, defende que as autoridades deviam proteger e dar boas condições de instalação a estes mercados de produtos naturais). Na próxima edição a «Monocle» promete elaborar uma lista de questões urbanísticas essenciais para tornar uma cidade interessante.
NOITES – A LX Factory, em Alcântara, onde dantes eram as instalações da Gráfica Mirandela, é agora um dos locais mais animados de Lisboa. A enorme área, onde ainda estão restos de algumas das rotativas que imprimiram gerações de jornais portugueses, é um verdadeiro oásis criativo, uma aldeia urbana movimentada com pequenas e menos pequenas agências de publicidade, gabinetes de design, ateliers de arquitectura, lojas, mas também bares, restaurantes, uma galeria de arte contemporânea e a livraria Ler Devagar. Um dos bares, Lollypop, com um terraço frente ao Tejo, ameaça tornar-se num ponto incontornável da noite lisboeta deste Verão. Antes de subir ao terraço pode sempre comer qualquer coisa na Cantina (serviço simpático) onde o espaço marcadamente industrial está ainda bem à vista. Resta saber o que irá acontecer a esta ilha de criatividade quando o plano Alcântara XXI fôr para a frente. Enquanto dura, é aproveitar – esclareça-se desde já a populaça que a transformação do local neste pólo de animação é de responsabilidade privada, do grupo imobiliário Mainside, que adquiriu os 23.000 metros quadrados da antiga instalação industrial.
BACK TO BASICS - Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política – Conceição Pequito.
junho 03, 2009
UMA FARSA ELEITORAL
(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Junho)
Começo por dizer que não sou um fanático da ideia da Europa, sou crítico em relação ao funcionamento da Comunidade e tenho sérias reservas sobre o comportamento do Banco Central Europeu nos primórdios da crise. Em geral acho que um grupo restrito de grandes países condicionam políticas importantes, como a agrícola, forçando modelos que liquidam pequenos países periféricos, como Portugal. Pessoalmente acho o Parlamento Europeu um exemplo de uma instituição irrelevante que verdadeiramente ninguém leva a sério. Mas, no entanto, ele existe e vai a votos para determinar quem lá está – coisa que acontece dentro de dias.
Os partidos políticos também não fazem muito para ajudar: não sei se já repararam, mas na realidade, nestas eleições, os candidatos falam de política interna (ou de politiquice rasteira no caso de Vital Moreira), e não se lembram de falar sobre a Europa, sobre a necessidade de Portugal se bater por objectivos concretos na política agrícola, ou na política das pescas, ou ainda em apoios específicos em determinadas áreas tradicionais de actividade artesanal ou industrial.
A coisa vai a tal ponto que ainda não vi nenhum candidato falar sobre esse milagreiro Tratado de Lisboa, que foi cavalo de batalha e arma de propaganda de Sócrates na primeira metade da legislatura, e que agora está dado como desaparecido – nem o seu autor o evoca não se vá dar o caso de alguém se lembrar que ele se gabou de fazer uma coisa que afinal não foi concretizada….
Mas nestas eleições há coisas que me fazem muita confusão: se o PS permanentemente diz que é o partido mais europeísta de todos os partidos, porque é que nos lugares elegíveis para o Parlamento Europeu coloca em simultâneo duas candidatas autárquicas, a cidades tão importantes como o Porto e Sintra? Uma vez que têm eleição certa candidatam-se apenas para, depois, desistirem e cumprirem a quota da presença feminina nestas listas? Ou uma vez eleitas deixam de querer ser autarcas? Em qualquer dos casos esta dupla candidatura é uma demonstração de enorme desprezo pelo eleitorado e assemelha-se a uma farsa de mau gosto.
Num livro recente uma Professora de Ciência Política, Conceição Pequito, faz uma afirmação incontornável: «Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política». O que se passa nestas eleições é a prova disto mesmo.
junho 02, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 29 de Maio)
IMPOSTOS – A mais extraordinária proposta deste ciclo eleitoral veio de Vital Moreira, que defende um novo Imposto Europeu, que permita aumentar as receitas fiscais da Comunidade para fazer face ao aumento das despesas. Vai-se a ver e este replicante eleitoral do Avô Cantigas metamorfoseou-se num cobrador de impostos transformista. Mas a coisa tem uma vantagem, a da clareza: o programa eleitoral do PS é aumentar impostos, pelo menos isso ficou claro.
EUROPA – Nestas Europeias faz falta, faz muita falta mesmo, um partido anti-europeísta, alguém que contrarie a doutrina da construção europeia – até o Bloco de Esquerda agora já se instalou em Bruxelas e por lá pretende permanecer. E faz falta, sobretudo, um debate sério sobre o papel da Europa na reacção à crise, uma análise do comportamento do Banco Central Europeu, um balanço sério do que tem sido a construção europeia e o funcionamento das suas instituições. Isso é que não vejo ninguém a fazer e, sinceramente, isso era o mínimo dos mínimos.
POLÍTICA – Num recente debate na TVI 24, Nuno Morais Sarmento pôs o dedo na ferida, acentuando ainda mais o que tem sido a preocupação de muita gente sobre o funcionamento do sistema político português. Resumidamente, a tese defendida por Morais Sarmento é a de que a organização política regulamentada no pós 25 de Abril, desde o funcionamento partidário até aos processos eleitorais, foi legislada há mais de 30 anos e neste tempo tudo mudou radicalmente no que toca à forma de mobilização das pessoas, à sua participação na sociedade, passando pelas transformações na comunicação e o próprio funcionamento das instituições.. O tema é actualíssimo se queremos diminuir a abstenção, aumentar a participação no debate de ideias, tornar as instituições mais próximas dos cidadãos, conseguir mobilizar mais gente, e, sobretudo, se queremos que os mais novos participem no processo, discutam os problemas, tomem posição e votem. Não querer ver a necessidade de fazer reformas radicais no sistema político e no sistema partidário é pura cegueira – ou então é intencional para que cada vez existam menos votantes.
POLÍCIA - De há uns tempos para cá, aproveitando um vazio legal, alguns responsáveis da PSP têm interferido na organização de concertos, fiscalizando e até detendo quem está a controlar bilhetes e acessos. Nalguns casos - como no concerto de Lenny Kravitz - a coisa tem contornos de abuso de poder. Era bom que o secretário de Estado da Administração Interna, José Magalhães, averiguasse se algum responsável das polícias, mais sensível aos lobbies das empresas de segurança, não estará a extravasar das suas competências e funções. É que as empresas de segurança reivindicam, com a prestável e talvez abusiva ajuda da PSP, esta área de negócio, mas não têm competências nem formação em áreas como controlo de multidões e encaminhamento de espectadores. Na realidade sei de casos em que, chamadas a fazer este serviço, usam vigilantes de portaria indiferenciados para estas tarefas, pessoas sem o mínimo de formação ou sensibilidade. O Governo fazia bem em prevenir estes abusos policiais, este apadrinhamento pela PSP de reivindicações privadas - qualquer dia a falta de pessoal especializado pode provocar algum acidente e depois estou para ver quem se responsabiliza - talvez a PSP...
FILM COMMISSION – Como todos sabem Nova Orleães foi vítima, em 2005, de uma violenta tempestade que arrasou a cidade e colocou em causa a até o seu equilíbrio financeiro. Passados estes anos a cidade criou forma de captar investimento da produção audiovisual norte-americana, graças a um conjunto de incentivos locais, investimento em infra-estruturas (estúdios) e um bom trabalho de apoio às produções graças à Film Commision local. Em 2005 a cidade havia atraído nove projectos de produção para cinema e televisão, e em 2008 já atraíu 21, que injectaram directamente 230 milhões de dólares na economia local. Numa altura em que este assunto volta a ser falado em Portugal – mas em que a maior parte dos projectos continua quase parado, talvez valha a pena estudar estes exemplos e, sobretudo, perceber de uma vez por todas que as Film Commissions não são departamentos turísticos que mostram bonitas paisagens e gabam a luz e o sol – são unidades de negócio que se baseiam na existência de incentivos fiscais e na disponibilização de infra-estruturas. Sem isso, tudo o resto é fantasia.
NÃO COMER – Como o sol finalmente voltou esta semana a dar um ar da sua graça, resolvi um dia destes ir almoçar à esplanada do largo frente ao Teatro de São Carlos. A experiência correu muito mal: o serviço é insuportavelmente desatento, mas o pior é a falta de qualidade na confecção da comida. Para os preços praticados a oferta é fraca, muito fraca mesmo. Provou-se uma massa com salmão sem graça nem história e um risotto fora de ponto, sensaborão, que parecia banhado em corante, acompanhado por três raquíticas gambas que nem semi descascadas estavam e com uma maçã passada e disforme como ornamento. O vinho branco, pedido a copo, foi servido fora da vista dos clientes e não estava à temperatura adequada. No fim, a conta veio enganada, com uma parcela a mais, naquele velho truque de ver se ninguém repara. No meio da refeição, por duas vezes, voaram chapéus de sol com o vento – pelos vistos não estão presos com segurança. De facto deve existir uma maldição nas esplanadas lisboetas que dificulta o seu funcionamento – o Teatro de São Carlos faria bem em mudar de concessionário, o local merecia melhor.
OUVIR – Se gostam de jazz, do piano de Bill Evans e da voz de Tony Bennett não podem perder uma reedição histórica acabada de lançar pela Fantasy/ Universal: «The Complete Tony Bennett/ Bill Evans Recordings». Neste duplo CD estão agrupados os dois discos gravados em 1975 e 1976 com uma cuidada selecção de standards norte-americanos e ainda registos inéditos das sessões de gravação e misturas alternativas dos mesmos tempos registadas na época. Mas só o facto de serem reeditados os discos «The Tony Bennett/ Bill Evans Álbum» (1975) e «Together Again» (1976), possibilitando que muitos os agora descubram, é por si só razão mais que suficiente para elogiar esta edição.
BACK TO BASICS - Prefiro ter jornais e não ter o Governo, a ter o Governo num país onde não existam jornais - Thomas Fefferson