O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
julho 01, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 26 de Junho)
UM CHEIRO A PODRIDÃO NO TERREIRO DO PAÇO
junho 22, 2009
(publicado no Jornal de Negócios de 19 de junho)
BOTOX – O PS está a fazer uma operação de recuperação estética acelerada. Primeiro Sócrates reaproxima-se de Alegre, depois decide-se a ouvir vozes divergentes, por fim admite que a maioria absoluta deixou de ser um objectivo. Preparam-se os tempos do diálogo e a nomeação de João Tiago Silveira, uma das poucas vozes sensatas do Governo, é um sinal de que a pesporrência de Vitalino Canas e a arrogância de Santos Silva estão provisoriamente guardadas debaixo do tapete. Contra ele João Silveira tem o facto de estar no Ministério da Justiça, um dos sectores onde o Governo quase nada fez, ainda por cima sendo a Justiça uma das zonas mais degradadas, ineficazes e profundamente injustas da sociedade portuguesa. Mas no meio deste face-lift acelerado fica um gato escondido com o rabo de fora – ao nomear António Vitorino para coordenador do programa eleitoral, espera-se agora que haja o bom senso de a RTP o despedir de comentador, de tão envolvido que está na principal peça que vai modular a propaganda do próximo ciclo eleitoral. Os sorrisos agora beatíficos de José Sócrates são produto de uma pesada derrota eleitoral – e nestas coisas da política, como dos tratamentos estéticos, é bom não esquecer que o botox tem duração limitada e que quando o seu efeito desaparece os defeitos ainda se acentuam mais.
TGV – Perder o foco num debate é o pior que pode haver e na questão do TGV convém separar o essencial do acessório. O essencial é garantir que Portugal não fique isolado da rede europeia, que Lisboa fique ligada a outras capitais por uma linha de alta velocidade, nomeadamente a Madrid e a Paris e, daí, a várias outras. É uma obra cara e de retorno difícil – pois é, mas é estratégica e deve avançar. É um investimento público importante para garantir que a fronteira terrestre do país não se transforme num muro. Já outra coisa são as negociatas de política local ou de empreiteiros habilidosos que querem fazer ramais de TGV com paragens de 100 em 100 quilómetros, muitas pontes, viadutos e túneis. Estas são desnecessárias, completamente inúteis e não há razão para que as ligações Lisboa-Porto ou ao novo Aeroporto não sejam feitas por outros sistemas ferroviários rápidos modernos, mais adequados às distâncias entre cada paragem.
VER – Maria Beatriz faz parte da geração de artistas portugueses que no final da década de 60 optou por trabalhar no estrangeiro. Uns voltaram após 1974, outros foram ficando nos países que escolheram – ela escolheu a Holanda e desde então tem vivido em Amesterdão. Em Portugal tem exposto com periodicidade irregular e esta semana abriu na Galeria Ratton uma exposição de obras inéditas, «Oisive Jeunesse, à tout asservie», uma citação de Rimbaud que dá o nome a esta série cuja preparação começou em 2007 e que integra desenhos, pinturas e azulejos, todas em torno do corpo feminino. Para além da galeria, o site da artista também merece uma visita: www.mariabeatriz.nl . A Ratton fica na Rua da Academia das Ciências 2C, junto à rua do Século.
IR – Se têm seguido a polémica sobre a destruição do Museu de Arte Popular talvez achem interessante a proposta de uma «visita guiada» ao museu encerrado, que sob o título «O Museu Essencial E Incómodo» junta sábado dia 20, Raquel Henriques da Silva, João Leal, Rui Afonso Santos, Vera Marques Alves e Alexandre Pomar, no edifício do Museu, em Belém, pelas 16h00.
CELEBRAR – A Bica do Sapato faz dez anos por estes dias, dos quais os primeiros foram de afirmação e resistência (no início a vida foi difícil) e estes últimos de consolidação. A Bica é daqueles restaurantes que oferecem mais que a comida (boa, óptima, diga-se): a decoração do espaço, a localização junto ao rio, a qualidade da garrafeira e das sugestões de vinhos do Chefe de Sala, o ambiente – tudo torna o local num espaço especial, que resiste a modas, simultaneamente íntimo e acolhedor para os frequentadores habituais e inusitado e excitante para quem lá vai pela primeira vez. Quanto à cozinha a inspiração é a gastronomia portuguesa, com uma interpretação contemporânea - dez anos na vida de um restaurante assim, sempre mantendo a qualidade, é uma data que merece aplauso – e é do melhor que Lisboa tem a oferecer a quem visita a cidade. Telefone 218 810 320, Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Cais da Pedra, a Santa Apolónia.
OUVIR - «White Works», o novo disco do pianista de jazz João Paulo, é baseado em composições de Carlos Bica e é de um despojamento e contenção notáveis. A solo, no piano, ele consegue aquele exercício extraordinário que é partilhar a solidão. (CD Universal).
RECORDAR I – Morreu em Maputo Ricardo Rangel, um dos mais importantes fotógrafos de língua portuguesa. A sua obra, nomeadamente a que foi feita entre os finais dos anos 50 e o princípio deste século, mostra um trabalho baseado no fotojornalismo e numa minuciosa interpretação da realidade, mas sempre com um olhar próprio. Trabalhou nas mais importantes revistas e jornais de Moçambique na fase anterior à independência, aliando a reportagem ao ensaio fotográfico. A pesquisa do seu nome no Google remete para uma série de sites, com destaque para os que mostram um dos seus mais importantes testemunhos, a exposição «Iluminando Vidas», que passou por Portugal. Nos últimos anos dedicou-se ao Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que fundou e dirigiu.
RECORDAR II – Morreu em Lisboa João Bafo, que fez parte de um núcleo restrito de fotojornalistas portugueses que na década de 70 se empenharam numa nova forma de fazer fotografia «contra a fotografia de salão, concurseira, contra o estilo neo-realista», como recorda outro contemporâneo, Luiz Carvalho, no seu blog. Esse núcleo fez escola e influenciou a edição fotográfica na imprensa nas décadas seguintes. Tive o prazer de trabalhar com ele quando estive no «Se7e», que nessa altura o João também ajudou a mudar. O seu trabalho era verdadeiramente bom, mas nos últimos anos estava afastado da imprensa, em boa parte porque se fartou da forma como as chefias de redacção tratavam a fotografia – foi esse o tema da nossa última conversa, há uns anos. As suas imagens de Portugal na década de 70 e 80 mereciam ser de novo mostradas – aliás é miserável a maneira como matamos a memória do nosso próprio tempo.
BACK TO BASICS – A fotografia serve para ajudar as pessoas a ver – Berenice Abbott
À PROCURA DE DIRECÇÃO
(Publicado no diário Meia Hora de 16 de Junho)
Apesar do título, hoje não vou falar do estado em que se encontra o PS após os resultados das eleições europeias. O assunto da conversa é bem mais prosaico e tem a ver com a maneira como está organizada a sinalética indicativa de direcções nas estradas portuguesas, sobretudo na saída das cidades.
O principal problema que surge é o de a sinalização ser feita, não em torno da direcção principal, mas de destinos secundários, certamente importantes a nível local, mas absolutamente ineficientes para visitantes que desconheçam o local e estejam de passagem. Cá para mim a resolução do problema nem é complicada e devia-se organizar, em cada região, em duas ou três direcções principais repetidas em todos os cruzamentos principais e rotundas, por forma a que ninguém se perca inadvertidamente. E se mesmo um português tem dificuldade em se orientar no puzzle de direcções das inevitáveis rotundas que cercam as nossas cidades e vilas, que dizer de um estrangeiro?
O problema agrava-se se entrarmos dentro das vilas ou cidades em vez de nos ficarmos pelas circulares. Às vezes nem no centro existem indicações concretas da forma de sair.
Nunca percebi porque é que, nas principais cidades e nós rodoviárias, não existe uma sinaléctica principal que indique a direcção sul ou norte, ou, se quisermos, Lisboa e Porto ou Lisboa e Faro. O mais frequente é encontrar uma placa, por exemplo, em Leiria, que diga Lisboa e que depois durante duas ou três rotundas deixa de aparecer, substituída por umas placas de destinos locais – é preciso ter o mapa de Portugal bem metido na cabeça para descobrir quais dos destinos assinalados se encaixam na direcção de Lisboa e quais se encaixam na direcção Porto. Também é muito frequente encontrar placas de auto-estradas – tipo A 24, sem que há indicação de qual o trajecto – o destino – que proporcionam.
Aqui há uns meses estiva no belíssimo Quinta das Lágrimas, em Coimbra, e vi-me aflito para sair de lá, de regresso a Lisboa, para apanhar a trivial A1, tal o emaranhado de indicações e ausência de direcções principais que Coimbra infelizmente apresenta.
Bem sei que estamos na época em que o GPS se tornou uma acessório trivial, mas para aqueles que o não possuem, a saída de uma cidade portuguesa – Lisboa incluída – é um verdadeiro quebra cabeças. Imagino o que será um estrangeiro a amaldiçoar o dia em que decidiu ser um turista automobilista em Portugal…
junho 15, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Junho)
junho 05, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Junho)
ELEIÇÕES – Domingo 7 de Junho arranca o ciclo eleitoral deste ano, com as Europeias. Mais à frente, depois do Verão, vêm as Autárquicas e as Legislativas. A Lei Eleitoral, na sua essência, tem mais de 30 anos e não contempla nem os meios de comunicação electrónicos nem as possibilidades de participação política on-line, é uma lei analógica e manual, num mundo digital e automático. Cada vez mais se sente que os partidos políticos são estruturas esclerosadas, afastadas dos cidadãos durante todo o período não eleitoral, que fazem listas de candidatos que depois não vão ocupar os seus lugares. Enquanto isto não mudar é muito difícil que novos eleitores se mobilizem, que a abstenção diminua – na realidade a culpa do afastamento da participação cívica não é dos cidadãos, é dos políticos e dirigentes partidários. Por exemplo, no caso da Europa, por não quererem referendar o Tratado de Lisboa (que entretanto ficou esquecido…) e por preferirem pedir votos numas eleições onde, de facto, a discussão europeia quase não existe.
PORTUGAL - As promessas eram muitas e saíram ao contrário – desde as reformas, aos impostos, a realidade é dura: no final destes anos de Governo do PS, Portugal tem a maior dívida externa de sempre, a maior taxa de desemprego dos últimos 25 anos e um deficit inédito. O balanço da eficácia de Sócrates é terrível e parece um cutelo sobre a cabeça dos portugueses. Da mesma maneira que a recompensa aos gestores não pode premiar o falhanço, o voto nas eleições não deve beneficiar os maus resultados dos políticos no poder.
LISBOA – Que está a acontecer à minha cidade? Nestes dias de calor as ruas já cheiram mal, o estacionamento continua a ser desordenado, as ruas continuam estranguladas, os semáforos descomandados, as obras surgem por todo o lado e alteram o dia a dia das pessoas. Sabe-se que o Tribunal de Contas considerou o contrato da EMEL com a Street Park ilegal, mas o Presidente da EMEl diz que não. Os agentes da EMEL provocam e brincam com as pessoas, são rapidíssimos e abusadores a bloquear e lentíssimos e indiferentes a desbloquear. No meio disto tudo Lisboa não tem um Provedor do Munícipe, alguém a quem os alfacinhas se possam queixar dos abusos e atropelos da Câmara ou de empresas municipais. Desde que me lembro, nunca viver em Lisboa foi tão desagradável.
VER – A exposição «Photo España 2009» no Museu Colecção Berardo mostra trabalhos de Mabel Palacín e de Cristóbal Hara, este último verdadeiramente surpreendente na sua interpretação dos ritos quotidianos, na forma como trabalha a cor, nos enquadramentos rigorosos, na capacidade de captar momentos únicos, na maneira de utilizar a fotografia enquanto veículo para uma interpretação da realidade. A exposição fica até 26 de Julho e é uma das boas mostras de fotografia, comissariada por Sérgio Mah, repescado por Madrid, depois de Lisboa ter deitado para o lixo o seu mês da fotografia.
OUVIR – O novo disco de Caetano Veloso «Zii e Zie» evidencia o regresso de Caetano à sua melhor forma depois de um período de alguma confusão e banalidade. Sonoridades fortes, uma banda bem eléctrica com arranjos ousados, ritmos inesperados, canções que agarram com textos bem humorados e irónicos, como nos melhores tempos do artista. Fica feita a minha reconciliação com Caetano Veloso – agora de novo em fase bem inspirada.
LER – Já se sabe que não perco oportunidade para recomendar a revista «Monocle» - uma revista mensal que curiosamente parece ser a grande inspiradora em termos editoriais e gráficos de um jornal diário, o «i». Na «Monocle» de Junho muitos motivos de interesse, mas permito-me sublinhar dois, do burgo: um, o destaque para os divertidos cadernos de notas da portuguesíssima Editora Serrote (eu descobri-os há uns tempos na livraria Pó dos Livros, Av. Marquês de Tomar – www.serrote.com); outro para a zona de Lisboa que a «Monocle» resolveu eleger – o Príncipe Real e a D. Pedro V, com sugestões de lojas e locais, um toque cosmopolita na variedade de nacionalidades que estão nesses locais, não esquecendo o mercado semanal do Princípe Real (Tyler Brulé, director da revista, defende que as autoridades deviam proteger e dar boas condições de instalação a estes mercados de produtos naturais). Na próxima edição a «Monocle» promete elaborar uma lista de questões urbanísticas essenciais para tornar uma cidade interessante.
NOITES – A LX Factory, em Alcântara, onde dantes eram as instalações da Gráfica Mirandela, é agora um dos locais mais animados de Lisboa. A enorme área, onde ainda estão restos de algumas das rotativas que imprimiram gerações de jornais portugueses, é um verdadeiro oásis criativo, uma aldeia urbana movimentada com pequenas e menos pequenas agências de publicidade, gabinetes de design, ateliers de arquitectura, lojas, mas também bares, restaurantes, uma galeria de arte contemporânea e a livraria Ler Devagar. Um dos bares, Lollypop, com um terraço frente ao Tejo, ameaça tornar-se num ponto incontornável da noite lisboeta deste Verão. Antes de subir ao terraço pode sempre comer qualquer coisa na Cantina (serviço simpático) onde o espaço marcadamente industrial está ainda bem à vista. Resta saber o que irá acontecer a esta ilha de criatividade quando o plano Alcântara XXI fôr para a frente. Enquanto dura, é aproveitar – esclareça-se desde já a populaça que a transformação do local neste pólo de animação é de responsabilidade privada, do grupo imobiliário Mainside, que adquiriu os 23.000 metros quadrados da antiga instalação industrial.
BACK TO BASICS - Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política – Conceição Pequito.
junho 03, 2009
UMA FARSA ELEITORAL
(Publicado no diário Meia Hora de 2 de Junho)
Começo por dizer que não sou um fanático da ideia da Europa, sou crítico em relação ao funcionamento da Comunidade e tenho sérias reservas sobre o comportamento do Banco Central Europeu nos primórdios da crise. Em geral acho que um grupo restrito de grandes países condicionam políticas importantes, como a agrícola, forçando modelos que liquidam pequenos países periféricos, como Portugal. Pessoalmente acho o Parlamento Europeu um exemplo de uma instituição irrelevante que verdadeiramente ninguém leva a sério. Mas, no entanto, ele existe e vai a votos para determinar quem lá está – coisa que acontece dentro de dias.
Os partidos políticos também não fazem muito para ajudar: não sei se já repararam, mas na realidade, nestas eleições, os candidatos falam de política interna (ou de politiquice rasteira no caso de Vital Moreira), e não se lembram de falar sobre a Europa, sobre a necessidade de Portugal se bater por objectivos concretos na política agrícola, ou na política das pescas, ou ainda em apoios específicos em determinadas áreas tradicionais de actividade artesanal ou industrial.
A coisa vai a tal ponto que ainda não vi nenhum candidato falar sobre esse milagreiro Tratado de Lisboa, que foi cavalo de batalha e arma de propaganda de Sócrates na primeira metade da legislatura, e que agora está dado como desaparecido – nem o seu autor o evoca não se vá dar o caso de alguém se lembrar que ele se gabou de fazer uma coisa que afinal não foi concretizada….
Mas nestas eleições há coisas que me fazem muita confusão: se o PS permanentemente diz que é o partido mais europeísta de todos os partidos, porque é que nos lugares elegíveis para o Parlamento Europeu coloca em simultâneo duas candidatas autárquicas, a cidades tão importantes como o Porto e Sintra? Uma vez que têm eleição certa candidatam-se apenas para, depois, desistirem e cumprirem a quota da presença feminina nestas listas? Ou uma vez eleitas deixam de querer ser autarcas? Em qualquer dos casos esta dupla candidatura é uma demonstração de enorme desprezo pelo eleitorado e assemelha-se a uma farsa de mau gosto.
Num livro recente uma Professora de Ciência Política, Conceição Pequito, faz uma afirmação incontornável: «Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política». O que se passa nestas eleições é a prova disto mesmo.
junho 02, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 29 de Maio)
IMPOSTOS – A mais extraordinária proposta deste ciclo eleitoral veio de Vital Moreira, que defende um novo Imposto Europeu, que permita aumentar as receitas fiscais da Comunidade para fazer face ao aumento das despesas. Vai-se a ver e este replicante eleitoral do Avô Cantigas metamorfoseou-se num cobrador de impostos transformista. Mas a coisa tem uma vantagem, a da clareza: o programa eleitoral do PS é aumentar impostos, pelo menos isso ficou claro.
EUROPA – Nestas Europeias faz falta, faz muita falta mesmo, um partido anti-europeísta, alguém que contrarie a doutrina da construção europeia – até o Bloco de Esquerda agora já se instalou em Bruxelas e por lá pretende permanecer. E faz falta, sobretudo, um debate sério sobre o papel da Europa na reacção à crise, uma análise do comportamento do Banco Central Europeu, um balanço sério do que tem sido a construção europeia e o funcionamento das suas instituições. Isso é que não vejo ninguém a fazer e, sinceramente, isso era o mínimo dos mínimos.
POLÍTICA – Num recente debate na TVI 24, Nuno Morais Sarmento pôs o dedo na ferida, acentuando ainda mais o que tem sido a preocupação de muita gente sobre o funcionamento do sistema político português. Resumidamente, a tese defendida por Morais Sarmento é a de que a organização política regulamentada no pós 25 de Abril, desde o funcionamento partidário até aos processos eleitorais, foi legislada há mais de 30 anos e neste tempo tudo mudou radicalmente no que toca à forma de mobilização das pessoas, à sua participação na sociedade, passando pelas transformações na comunicação e o próprio funcionamento das instituições.. O tema é actualíssimo se queremos diminuir a abstenção, aumentar a participação no debate de ideias, tornar as instituições mais próximas dos cidadãos, conseguir mobilizar mais gente, e, sobretudo, se queremos que os mais novos participem no processo, discutam os problemas, tomem posição e votem. Não querer ver a necessidade de fazer reformas radicais no sistema político e no sistema partidário é pura cegueira – ou então é intencional para que cada vez existam menos votantes.
POLÍCIA - De há uns tempos para cá, aproveitando um vazio legal, alguns responsáveis da PSP têm interferido na organização de concertos, fiscalizando e até detendo quem está a controlar bilhetes e acessos. Nalguns casos - como no concerto de Lenny Kravitz - a coisa tem contornos de abuso de poder. Era bom que o secretário de Estado da Administração Interna, José Magalhães, averiguasse se algum responsável das polícias, mais sensível aos lobbies das empresas de segurança, não estará a extravasar das suas competências e funções. É que as empresas de segurança reivindicam, com a prestável e talvez abusiva ajuda da PSP, esta área de negócio, mas não têm competências nem formação em áreas como controlo de multidões e encaminhamento de espectadores. Na realidade sei de casos em que, chamadas a fazer este serviço, usam vigilantes de portaria indiferenciados para estas tarefas, pessoas sem o mínimo de formação ou sensibilidade. O Governo fazia bem em prevenir estes abusos policiais, este apadrinhamento pela PSP de reivindicações privadas - qualquer dia a falta de pessoal especializado pode provocar algum acidente e depois estou para ver quem se responsabiliza - talvez a PSP...
FILM COMMISSION – Como todos sabem Nova Orleães foi vítima, em 2005, de uma violenta tempestade que arrasou a cidade e colocou em causa a até o seu equilíbrio financeiro. Passados estes anos a cidade criou forma de captar investimento da produção audiovisual norte-americana, graças a um conjunto de incentivos locais, investimento em infra-estruturas (estúdios) e um bom trabalho de apoio às produções graças à Film Commision local. Em 2005 a cidade havia atraído nove projectos de produção para cinema e televisão, e em 2008 já atraíu 21, que injectaram directamente 230 milhões de dólares na economia local. Numa altura em que este assunto volta a ser falado em Portugal – mas em que a maior parte dos projectos continua quase parado, talvez valha a pena estudar estes exemplos e, sobretudo, perceber de uma vez por todas que as Film Commissions não são departamentos turísticos que mostram bonitas paisagens e gabam a luz e o sol – são unidades de negócio que se baseiam na existência de incentivos fiscais e na disponibilização de infra-estruturas. Sem isso, tudo o resto é fantasia.
NÃO COMER – Como o sol finalmente voltou esta semana a dar um ar da sua graça, resolvi um dia destes ir almoçar à esplanada do largo frente ao Teatro de São Carlos. A experiência correu muito mal: o serviço é insuportavelmente desatento, mas o pior é a falta de qualidade na confecção da comida. Para os preços praticados a oferta é fraca, muito fraca mesmo. Provou-se uma massa com salmão sem graça nem história e um risotto fora de ponto, sensaborão, que parecia banhado em corante, acompanhado por três raquíticas gambas que nem semi descascadas estavam e com uma maçã passada e disforme como ornamento. O vinho branco, pedido a copo, foi servido fora da vista dos clientes e não estava à temperatura adequada. No fim, a conta veio enganada, com uma parcela a mais, naquele velho truque de ver se ninguém repara. No meio da refeição, por duas vezes, voaram chapéus de sol com o vento – pelos vistos não estão presos com segurança. De facto deve existir uma maldição nas esplanadas lisboetas que dificulta o seu funcionamento – o Teatro de São Carlos faria bem em mudar de concessionário, o local merecia melhor.
OUVIR – Se gostam de jazz, do piano de Bill Evans e da voz de Tony Bennett não podem perder uma reedição histórica acabada de lançar pela Fantasy/ Universal: «The Complete Tony Bennett/ Bill Evans Recordings». Neste duplo CD estão agrupados os dois discos gravados em 1975 e 1976 com uma cuidada selecção de standards norte-americanos e ainda registos inéditos das sessões de gravação e misturas alternativas dos mesmos tempos registadas na época. Mas só o facto de serem reeditados os discos «The Tony Bennett/ Bill Evans Álbum» (1975) e «Together Again» (1976), possibilitando que muitos os agora descubram, é por si só razão mais que suficiente para elogiar esta edição.
BACK TO BASICS - Prefiro ter jornais e não ter o Governo, a ter o Governo num país onde não existam jornais - Thomas Fefferson
maio 27, 2009
ELEIÇÕES, JUSTIÇA E VISTORIAS
maio 25, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de maio)
MUDE – O Museu do Design e da Moda abriu ontem com grande propaganda. Acontece que o que foi inaugurado é uma mostra provisória da colecção, que ficará estrategicamente exposta apenas até Outubro, coincidindo portanto com o período eleitoral. O edifício da Rua Augusta que vai acolher a colecção ainda não teve obras, há-de ter depois, e o Museu propriamente dito é apenas uma intenção por enquanto – mas já se percebeu que as coisas foram feitas tão à pressa que não está seguro qual será o programa de utilização total do edifício, ex-BNU, e da sua divisão por várias entidades – na realidade até já vieram a lume umas disputas. A exposição esta semana inaugurada foi apenas um pretexto de propaganda eleitoral de António Costa que, na realidade, não teve nenhum papel na aquisição das colecções Capelo, mas de cujo usufruto mediático rapidamente se apropriou. Os festejos incluíram a edição de uma revista de 266 páginas, distribuída em banca, e com uma tiragem de 25.000 exemplares, e que em tudo surge como umas edição essencialmente propagandística e eleiçoeira. Adiante se saberá quanto custou esta acção e quantos exemplares se venderam – que é para depois se medir o efeito prático, comunicacional, efectivo, da acção. A publicação resume-se a um catálogo das colecções marcado por dois textos – um auto-propagandístico de António Costa e outro panegírico em relação ao mesmo Costa, escrito por Francisco Capelo, o próprio. Ambos deixam de lado um pormenor histórico – que foi o de esta colecção pertencer agora à cidade de Lisboa porque em 2003 houve uma decisão nesse sentido por parte do Presidente da Câmara da época, Pedro Santana Lopes, que não aparece citado em lado algum. Recordo que ele tomou essa decisão – polémica na época - perante a intenção manifestada por Capelo de querer levar a colecção para fora do país. Reescrever a história, apagando nomes e factos, é uma atitude pouco digna e nada séria.
PARLAMENTO – Para memória futura: no espaço de apenas uma semana o PS quis impedir que o Parlamento ouvisse declarações do polémico Presidente do Eurojust, Lopes da Mota, e de Francisco Marcelino, o ilusionista que dirige o Instituto de Emprego e Formação Profissional e que tem artes de fazer diminuir o número de empregados graças a oportunos lapsos informáticos e metodológicos.
SINTOMÁTICO – Num panorama destes, Manuel Alegre decidiu reformar-se do Parlamento e desistiu de ir a votos, não integrando as próximas listas do PS. Todos aqueles que diziam que ele vale um milhão de votos ficarão agora na dúvida do peso eleitoral que ele possa de facto ter – fora da tribuna parlamentar onde durante décadas se baseou para a sua acção política, Manuel Alegre fica reduzido a bem pouco. A dúvida está em saber se saiu das listas do PS para intensificar tomadas de posição críticas, ou se perde palco e protagonismo.
POPULAR – O fim do Museu de Arte Popular, decidido na semana passada em Conselho de Ministros, mostra como o Estado subalterniza a produção artística e artesanal de origem popular, subalternizando o seu estatuto cultural. Além da colecção e do edifício, perde-se a oportunidade de ter junto ao rio um pólo de atracção turística, que será substituído por um «Museu da Língua» que ninguém sabe bem o que será, mas que é copiado de uma instituição que alguns governantes de Sócrates viram no Brasil e acharam tecnologicamente muito interessante. Para assegurar que a delapidação do património avance chamou-se, como vem sendo hábito quando se trata de estragar a cidade, a Sociedade da Frente Ribeirinha do Tejo, igualmente incumbida por este Governo dos desmandos do Museu dos Coches e da Praça do Comércio. Disto – que afecta, e bastante, Lisboa – nada diz António Costa.
FOTOGRAFIA – Semana rica em exposições de boa fotografia: Inês Gonçalves e Kiluange Liberdade mostram S. Tomé e Príncipe na Galeria Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes, às Amoreiras) e uma visão diferente de Luanda, esta na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-3º); na P4Photography (Rua dos Navegantes 16), o moçambicano José Cabral merece ser descoberto com a inesperada exposição «Urban Angels»; e por fim, num outro registo, Pedro Tropa, na Quadrado Azul (Largo Stephens 4) mostra os seus desenhos e fotografias sob a designação «Cahier de Cent Dessins» numa instalação intimista.
LER – Tanta fotografia – e tanta polémica em torno da fotografia e dos critérios do prémio BES – tornam muito oportuno ler a reedição de «A Câmara Clara», de Roland Barthes, agora feita pelas edições 70. É obviamente um texto datado mas as reflexões de Barthes sobre a imagem fotográfica continuam oportunas, certeiras e sagazes – muito mais quando hoje assistimos a alguma estética baseada em verdadeiras mistificações, que ele bem localizou.
VER – A instalação de Fernanda Fragateiro «Construir É Destruir É Construir», no Museu da Electricidade, em Lisboa é baseada em três momentos diversos, todos evocando formas de sentir paisagens, sintetizadas na frase-manifesto pintado em mural no exterior - «A Paisagem Não Tem Dono».
PETISCAR – A Loja dos Açores abriu recentemente em Lisboa, na Avenida Elias Garcia 57, e, além de alguns produtos de artesanato oferece a possibilidade de se fazer uma petisqueira só com produtos do arquipélago – desde queijos a enchidos (como as reputadas morcelas) ou fumados, passando por doces (como o doce de Capuchos), até à carne dos afamados bovinos locais, os licores florais e até biscoitos.
OUVIR – O novo disco da cabo-verdeana Lura, «Eclipse», mistura uma produção mais ao gosto internacional com repertório tradicional e contemporâneo de Cabo Verde, composições de B.Leza , Toy Vieira ou Orlando Pantera. Menos tropical que discos anteriores, inesperadamente surpreendente como em «Tabanka» ou «Canta um Tango», este «Eclipse» surge como um curioso ponto de redefinição na direcção da carreira de Lura. (CD Lusafrica)
BACK TO BASICS - As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam, Almada Negreiros
maio 19, 2009
A ARTE POPULAR
(Publicado no diário «Meia Hora» de 19 de Maio
O Museu de Arte Popular, em Belém, está encerrado há cerca de três anos e o seu espólio foi transportado em caixotes para o Museu de Etnologia, onde permanece fechado em caixotes e inacessível do público. O edifício original, o único que restou da Exposição do Mundo Português, está agora ameaçado por um projecto de adaptação que o ameaça tornar irreconhecível. Inaugurado em Julho de 1948, foi projectado por Jorge Segurado e no seu interior e nas suas paredes tinha frescos e obras de nomes como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira. Durante anos reuniu uma colecção única de artesanato e arte popular que inspirou gerações de artistas e que atraía milhares de pessoas.
Apesar de tudo isto, na semana passada o Conselho de Ministros aprovou naquele local a instalação do Museu da Língua e o processo de concretização desta transformação foi entregue à Sociedade Frente do Tejo SA, uma entidade que parece estar destinada a ficar para a História como coveira de Lisboa – veja-se o caso dos contentores, da renovação da Praça do Comércio, do estapafúrdio novo Museu dos Coches e agora da destruição do Museu de Arte Popular.
A ideia do Museu da Língua, que é uma espécie de bandeira da muito coxa política cultural deste Governo, não é uma criação original – na realidade trata-se de uma cópia de um museu, muito tecnológico, com o mesmo nome que uns membros do actual governo português viram há tempos em S.Paulo e acharam muito engraçado. O facto resume uma maneira de pensar política e cultura: para fazer obra nova copia-se alguma coisa que se viu lá fora e destrói-se algo de original e nacional e que era único. Na dinamização do Museu de Arte Popular não se quis investir, mas na sua destruição e na construção do novo Museu da Língua o Estado vai colocar 2,5 milhões de euros. Isto diz tudo.
A atitude do Governo espelha o entendimento dominante dos políticos sobre a Cultura: o que é popular na origem e consegue ter público não tem estatuto. Esta forma de estar contamina tudo e prejudica o desenvolvimento de formas de expressão contemporâneas e populares. Em Portugal, ao contrário de muitos outros locais com uma criação artística florescente, a cultura popular é considerada menor. Infelizmente, a relação do Estado com a cultura popular está exemplarmente demonstrada nesta liquidação do Museu de Arte Popular. Melhor seria que quem nos governa admitisse o erro e voltasse atrás neste disparate. Para mais informações e formas de protesto vejam o blog www.museuartepopular.blogspot.
maio 18, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios do dia 15 de Maio)
DESNECESSÁRIO - Ao fim destes dois anos de mandato o tal Zé que o Bloco de Esquerda dizia que fazia falta revelou-se, politicamente, uma barriga de aluguer. A sempre errática actuação de José Sá Fernandes oscila entre ceder praças da cidade para serem montras publicitárias e proibir os partidos de aí colocarem cartazes políticos. Na realidade ele tornou-se no exemplo acabado do género de troca tintas que não fazem falta nenhuma na política.
maio 13, 2009
O COSTA DA CULTURA
(Publicado no diário Meia Hora de 12 de Maio)
Esta semana li, algo surpreendido, um texto de propaganda sobre o que seria a política cultural da Câmara Municipal de Lisboa, protagonizada por António Costa. Publicada no sábado no «Público», a reportagem mostra um António Costa – pela primeira vez no seu mandato – preocupado com as questões da política cultural.
Presidente de uma vereação onde a Cultura é actividade acessória, confinada a estudos estratégicos de programa pré-definido e universo estreito, António Costa pouco mais fez do que mostrar como é presa de preconceitos e de lugares comuns, evitando falar de coisas concretas.
A estratégia de António Costa nesta matéria é curiosa: em vez de fazer uma política para a cidade, fez uma política e desenvolveu uma estratégia para querer seduzir pessoas, organizações e instituições ligadas às actividades culturais, dentro de um círculo razoavelmente restrito e com elevada dose de fidelidade política – na prática desprezou os públicos. O resultado é que a cidade perdeu aura, embora algumas pessoas tenham ganho ocupação subsidiada.
As iniciativas populares e o entretenimento – áreas marcantes da cultura popular contemporânea – têm-lhe merecido desprezo, substituídas por apoios avulsos a iniciativas muito especializadas e demasiado sectoriais. Mesmo num dos seus cavalos de batalha – a multiculturalidade, o seu mandato fica marcado pela extinção do África Festival, substituído por uma África.cont. que ainda ninguém sabe bem o que será e que, a bem dizer, não existe além do papel.
Mas o pior do curto mandato de António Costa em Lisboa tem sido a sua submissão ao Governo: foi assim com a Colecção Berardo, em que a Câmara devia ter imposto a solução do pavilhão de Portugal, na Expo, como equipamento receptor; foi assim no caso do inconcebível projecto do Museu dos Coches; foi assim na discutível transformação do Pavilhão dos Desportos num Museu do Desporto que ninguém sabe bem o que será e para que servirá.
O facto de em Lisboa conviverem instituições culturais nacionais com locais faz com que a Câmara deva ter voz activa nos equipamentos que estão na cidade. Mas como António Costa se demitiu desse assunto para não afrontar o Governo, Lisboa está no marasmo em que se encontra – à procura da fonte milagreira de onde brote o elixir que num instante transforme Lisboa numa cidade criativa – difícil quando se quer regulamentar e planificar a criatividade em vez de a deixar fluir.
maio 11, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Maio)
maio 07, 2009
UMA OUTRA FRENTE
(Publicado no diário Meia Hora de 5 de Maio)
maio 04, 2009
(publicado no Jornal de Negócios de 30 de Abril
abril 27, 2009
Publicado no «Jornal de Negócios» de 24 de Abril 2009
ALERTA – Espera-se que em relação aos polémicos investimentos públicos previstos, e contestados pela maioria dos economistas de referência da área do PS, não sejam assinados à pressa contratos que comprometam o futuro, a seis meses de eleições. O problema é que o caso Freeport chegou onde chegou porque, no mínimo, os timings em que foi aprovado proporcionam que surjam suspeitas.
ENTREVISTA – O discurso do Primeiro-Ministro transmitido pela RTP na passada terça-feira resumiu-se a um exercício de propaganda em matéria política e económica e à afirmação de ameaças relativamente ao caso Freeport. Pelo meio ficaram verdadeiras pérolas, como a de considerar como absolutamente normal tratar as opiniões de jornalistas como calúnias passíveis de perseguição criminal. É verdade que existe uma campanha negra em Portugal – mas é a que o Primeiro-Ministro move contra quem o critica, é a campanha negra do Governo contra a liberdade de expressão e de informação, que foi levada ao extremo quando José Sócrates, no exercício do cargo de Primeiro-Ministro se armou em crítico de televisão e analista de comunicação e atacou os noticiários de um canal de televisão pelo simples facto de reportar factos que lhe são pessoalmente incómodos. Nos tempos que correm temos um Primeiro-Ministro que persegue notícias e opiniões publicadas na imprensa e persegue os seus autores, ao mesmo tempo que se veste de vítima. Hugo Chávez, com quem Sócrates tem uma boa relação, também se incomodava com uma estação de televisão e, para resolver o problema, mandou encerrá-la. A cobardia política anda sempre de mãos dadas com a intolerância.
LISBOA – A Frente que quer a união à esquerda nas eleições autárquicas da capital procura apenas a junção de interesses espúrios, de circunstância e conveniência, suficientes para assegurar a vitória duvidosa de uma esquerda sem ideias e com uma prática de direita – os dois anos que António Costa leva como Presidente da Câmara são prova disso. Curioso é que esse período de dois anos seja exactamente o mesmo tempo que Santana Lopes levou no exercício efectivo do mesmo cargo, em Lisboa. Basta comparar o que foi feito, em igual tempo, por um e por outro. Costa claramente sai a perder. A sua herança é uma cidade suja, descuidada, agreste para quem a habita.
PERGUNTA – O que é feito do processo da Casa Pia que de repente não se ouve falar do caso? Não é estranha a forma como a justiça funciona, ao arrastar casos durante anos até que venham a cair no esquecimento?
DESCOBRIR – Se forem ao You Tube e procurarem na barra de canais o da educação poderão aí encontrar gravações vídeos de palestras e aulas de distintos professores de Universidades tão prestigiadas como Harvard, Yale, Carnegie Mellon ou Stanford. Outro bom sítio para procurar apresentações interessantes do ponto de vista profissional e científico é o www.ted.com , neste caso divididas em áreas que vão do entretenimento ao design, passando por tecnologia ou negócios.
OUVIR – Ida Maria é uma norueguesa de 24 anos que canta com raiva e energia, que canta o que lhe vai no espírito sem atender a conveniências. Seguidora dos Pogues no que toca à quantidade de álcool que ingere antes de actuar, do punk no que toca às palavras e ao estilo, e da new wave no que toca a arranjos e produção – o resultado é aliciante e diferente de tudo o que tem surgido nos últimos anos. É fresco, incómodo como só a boa música o é, e perturbante como as belas canções sabem ser. Ouçam «Oh My God», «Louie» ou «I Like You So Much Better When You Are Naked», três das canções que fazerm de «Fortress Round My Heart» um dos albums a reter para o balance deste ano. Comprado na Amazon.
VER – Uma recomendação no Porto: na Galeria Quase (Rua do Vilar 54), desenhos, fotografias e esculturas de Cristina Ataíde. Os desenhos combinam a grafite com o guache e criam ambientes que se prolongam nas esculturas, que combinam árvores, tecido e chumbo. Algumas fotografias completam a visão de Cristina Ataíde, que persistentemente tem operado nesta diversidade de meios, unidos por um fio condutor balizado pela observação, como se fosse a intervenção deliciosa de um voyeur anarquista sobre o que está à sua volta.
FOLHEAR – A revista norte-americana «Rolling Stone» diminuíu de formato e perdeu aquele tamanho invulgar que a caracterizava. Passou a gora ao formato típico das revistas americanas – provavelmente porque o seu público tradicional foi envelhecendo e já não consegue abrir os braços o suficiente para o percorrer as páginas do tamanho antigo. Seja como for, tamanhos à parte, a Rolling Stone lá vai dando conta do recado embora com um tom mais cinzento e conformista do que há uns anos atrás. A publicação ainda é boa para ir vendo o que acontece, mas deixou de ser um guia de tendências.
EXPERIMENTAR – Sabores orientais no New Wok; Rua Capelo 24, exactamente na esquina com a Rua Anchieta, frente ao Governo Civil. Não é a melhor das vizinhanças mas a qualidade dos noodles e a diversidade de propostas, assim como a simpatia do serviço, a decoração do local e o atrevimento de algumas combinações inesperadas tornam o New Wok num sítio a conhecer se tiver vontade de experimentar um dos restaurantes de inspiração asiática mais conseguidos de Lisboa. Experimentem o gelado de sésamo na parte das sobremeses. Telefone 213477189.
DESCONTRAIR – Este fim de semana o CCB propõe os seus Dias da Música, este ano dedicados a Bach, com algumas incursões na obra do compositor por músicos de outras áreas, como é o caso de Bernardo Sassetti. É uma programação rica e diversificada, prova provada da falta de razão dos velhos do Restelo que se puseram aos uivos quando a velha «Festa da Música», importada de Nantes e da habilidade comercial de René Martin, foi em boa hora abandonada por Mega Ferreira que preferiu investir numa programação própria.
BACK TO BASICS - Bota-Abaixismo é o que o Governo tem andado a fazer ao país – ouvido na rua.
abril 21, 2009
UMA FRENTE SEM SENTIDO
(Publicado no Diário Meia Hora de 21 de Abril)
Na semana passada surgiu o apelo para que em Lisboa se constitua uma frente única de forças políticas de esquerda com o objectivo de evitar o regresso da direita ao poder na cidade, nas próximas autárquicas e para que António Costa continue Presidente. Valerá a pena?
Comecemos por recordar alguns factos. Após um longo período em que Lisboa foi governada pelo PS em coligação com o PCP, primeiro por Jorge Sampaio e depois por João Soares, no final de 2001 o PSD venceu as eleições e Pedro Santana Lopes exerceu a Presidência da Câmara durante perto de dois anos e meio, até ser indicado Primeiro Ministro, no Verão de 2004. Por força da queda política de Carmona Rodrigues, que venceu as eleições de 2005, foram realizadas intercalares autárquicas em Lisboa em Julho de 2007, das quais saiu vencedor António Costa, que concluirá o seu mandato no final do ano, com praticamente o mesmo tempo de exercício de poder, enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, que Pedro Santana Lopes. Portanto, ambos terão tido teoricamente as mesmas possibilidades – até porque, convém recordar, o estado das Finanças da Câmara deixado por Jorge Sampaio e João Soares não era melhor do que aquele encontrado por António Costa. O PS gosta de iludir este pormenor mas o facto é bem real.
Na verdade o balanço comparado dos mandatos de Pedro Santana Lopes e de António Costa não podia ser mais elucidativo: Lisboa agora está sem rumo, faz muitos estudos mas pouca obra, a cidade voltou a estar suja, esburacada, os problemas no urbanismo aumentam, as cedências ao Governo (como na Frente Ribeirinha e nos contentores) aumentam, a reforma do funcionamento do Município parou, a recuperação da Baixa-Chiado desapareceu das conversas, o trânsito está mais caótico e não foi lançada uma única obra infra-estruturante importante.
Para além disso convém recordar que a política de apoio social enquanto Santana Lopes foi Presidente da Câmara foi objectivamente mais à esquerda que a de António Costa e que em matéria de ambiente, cultura e recuperação urbana se fez mais do que se tem feito agora.
Por isso esta Frente é surpreendente: uma Frente que quer juntar pessoas que não conseguem fazer um plano comum, que não conseguem implementar políticas de esquerda quando chegam ao poder, e que deixam a cidade apodrecer, serve para quê?
abril 20, 2009
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 17 de Abril)
abril 15, 2009
UM CAMBÃO VISUAL
(publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Abril)
As eleições para o Parlamento Europeu estão a revelar-se palco de um campeonato bem mais divertido que a Liga de Futebol: o campeonato do Cartaz Eleitoral Mais Feio. Para já, neste primeiro «round» pré-eleitoral, o PSD, o PS e o MEP estão notoriamente bem colocados para obterem a vitória. Olhando para os cartazes sou levado a pensar que deve ter havido algum conluio entre os mais altos dirigentes de cada partido para promoverem uma espécie de cambão visual – acertaram entre eles apostar na falta de imaginação, de gosto, na má escolha de cores. PS, PSD e MEP estão de facto conjugados e apostados em conseguir dar nas vistas pela má imagem.
Eu por mim até posso achar querido que tenham desistido de fazer cartazes apelativos – assim o pessoal fica mesmo horrorizado com a ideia de ir votar nas eleições Europeias e resolve-se de vez o problema da abstenção: há-de continuar a aumentar. O pior, já se sabe, é a poluição visual que estes cartazes provocam – deve ter sido para nos poupar a tão más vistas que o vereador Sá Fernandes os proibiu no Marquês do Pombal – é que não me passa pela cabeça que ele tivesse outras intenções, sendo uma pessoa tão dedicada a fazer jogo limpo, a não misturar justiça com política, a evitar manobras e malandrices. A sorte dele é que o combate aos cartazes feios ainda não tinha começado quando foi candidato…
Eu percebo a angústia dos departamentos de propaganda dos partidos: com tanta eleição este ano logo, se havia de começar pela menos interessante de todas – assim, em vez de gastarem energias e baterias para mandar uns quantos para Bruxelas e Estrasburgo, fazem a coisa pelo simples e adoptam o estilo «Quanto Pior, Melhor».
A minha curiosidade agora recai no cartaz do PP – saber como podem eles entrar neste campeonato com a equipa de candidatos que têm – todos muito mais apelativos visualmente que qualquer dos apresentados por outros partidos, todos mais elegantes e com melhores cores. Por outro lado, sei, de fonte segura, que no PSD a equipa de imagem está a fazer figas para que o candidato escolhido para o Parlamento Europeu não seja Marques Mendes – é que existe o receio de que seja adoptado o slogan « Ò tempo volta p’ra trás»…
abril 13, 2009
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 9 de Abril)