outubro 26, 2007

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A DESAPARECIDA DA AJUDA
(publicado no Diário Meia Hora de Quarta Feira 24 de Outubro)

Uma das primeiras pessoas a ter o documento único de identificação, tirado nos Açores, voltou ao Continente e constatou que ele aqui não serve de nada – li este relato nos jornais de há umas semanas atrás. Este facto singelo é o retrato do país simplex de Sócrates: as cerimónias de comunicação são muitas e vistosas mas depois as coisas não funcionam.

As coisas são assim por todo o lado: ontem à noite entrei no site do Ministério da Cultura e fui ver a área de notícias. A mais recente datava de 15 de Junho passado (há quatro meses) e referia-se à inauguração de uma exposição no estrangeiro, que contou com a presença da Ministra.

Este facto, também singelo, é o retrato da acção do Ministério da Cultura: Isabel Pires de Lima parece uma zombie saída de um filme de série B – não se sabe o que faz, não se conhece a estratégia que propõe para a Cultura, não se sabe qual é a sua prioridade, não se sabe qual é o seu plano de acção até ao fim da legislatura.

Desautorizada pelo Primeiro Ministro no caso da ocupação do CCB pela Colecção Berardo, Isabel Pires de Lima fez uma anedótica reestruturação orgânica dos serviços do Ministério cujos efeitos nocivos se começam a perceber e preferiu premiar nos museus o servilismo burocrático. Não tem um programa que seja bandeira de uma política, não se lhe conhece uma ideia nova, não se lhe conhece uma acção continuada. Não se percebe sequer o que faz durante o dia já que nada se vê da sua actividade – nem sequer no site do seu Ministério. Isabel Pires de Lima merece ser conhecida como a desaparecida do Palácio da Ajuda..

Ausente por completo da fulcral questão do audiovisual – o território contemporâneo da defesa da língua e da cultura – Isabel Pires de Lima ajoelha-se nesta matéria face a Augusto Santos Silva que mais não faz do que defender os interesses instalados e trocar privilégios aos operadores existentes por uma informação que não seja demasiado incómoda face ao descalabro reinante dos seus pares no Governo.

Da Ministra da Cultura não se ouve uma palavra – está desaparecida sem sequer ser em combate.
A DESAPARECIDA DA AJUDA
(publicado no Diário Meia Hora de Quarta Feira 24 de Outubro)

Uma das primeiras pessoas a ter o documento único de identificação, tirado nos Açores, voltou ao Continente e constatou que ele aqui não serve de nada – li este relato nos jornais de há umas semanas atrás. Este facto singelo é o retrato do país simplex de Sócrates: as cerimónias de comunicação são muitas e vistosas mas depois as coisas não funcionam.

As coisas são assim por todo o lado: ontem à noite entrei no site do Ministério da Cultura e fui ver a área de notícias. A mais recente datava de 15 de Junho passado (há quatro meses) e referia-se à inauguração de uma exposição no estrangeiro, que contou com a presença da Ministra.

Este facto, também singelo, é o retrato da acção do Ministério da Cultura: Isabel Pires de Lima parece uma zombie saída de um filme de série B – não se sabe o que faz, não se conhece a estratégia que propõe para a Cultura, não se sabe qual é a sua prioridade, não se sabe qual é o seu plano de acção até ao fim da legislatura.

Desautorizada pelo Primeiro Ministro no caso da ocupação do CCB pela Colecção Berardo, Isabel Pires de Lima fez uma anedótica reestruturação orgânica dos serviços do Ministério cujos efeitos nocivos se começam a perceber e preferiu premiar nos museus o servilismo burocrático. Não tem um programa que seja bandeira de uma política, não se lhe conhece uma ideia nova, não se lhe conhece uma acção continuada. Não se percebe sequer o que faz durante o dia já que nada se vê da sua actividade – nem sequer no site do seu Ministério. Isabel Pires de Lima merece ser conhecida como a desaparecida do Palácio da Ajuda..

Ausente por completo da fulcral questão do audiovisual – o território contemporâneo da defesa da língua e da cultura – Isabel Pires de Lima ajoelha-se nesta matéria face a Augusto Santos Silva que mais não faz do que defender os interesses instalados e trocar privilégios aos operadores existentes por uma informação que não seja demasiado incómoda face ao descalabro reinante dos seus pares no Governo.

Da Ministra da Cultura não se ouve uma palavra – está desaparecida sem sequer ser em combate.

outubro 22, 2007

BOM - O artigo estreia de Augusto M. Seabra no site www.artecapital.net, sobre a política cultural destes dias que correm. Intitulado « O caso MNAA ou o servilismo exemplar», o artigo – que assinala o regresso do autor à análise da realidade cultural portuguesa depois do processo que o levou a sair do «Público», mostra como a sua voz continua atenta e coerente. Seabra é dos jornalistas que há mais anos segue a política e a actividade cultural e é certeiro para com a actual Ministra, como se constata nesta citação: «Mas não se menospreze em Isabel Pires de Lima a figura da parola incompetente que tão indubitavelmente é. Ela não deixa de ser o poder, e para mais saíu-nos na rifa com este poder do PS a estranha ironia dos responsáveis da Cultura serem ex-comunistas com estruturas mentais em que todavia ainda não ruíu o muro de Berlim». Felizmente a artecapital.net abriu-lhe as portas e agora poderemos lê-lo de novo, numa colaboração mensal.


MAU– O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, comentando o facto de as polícias estarem a ser equipadas com as pistolas «Glock» achou por bem dizer que «estão de parabéns todos os cidadãos». Presumo que a afirmação se dirija aos cidadãos que todos os anos são alvejados por polícias à civil, fora de funções, por razões passionais ou outras – Portugal é recordista na utilização de armas de fogo por agentes policiais fora de funções.


PESADELO – Os reality shows chegaram à política: Hugo Chávez fez uma emissão em directo do seu programa semanal de propaganda televisiva, em directo de Cuba, com imagens de Fidel e longos salmos a Che Guevara. O amigo venezuelano de Mário Soares especializou-se em criar factos destes que depois multiplicam a sua imagem pelos telejornais de televisões de todo o mundo. Um verdadeiro artista.


PETISCAR – A utilização do nome Chiado para designar uma parte antiga de Lisboa foi fixada no século XVII, para alguns com origem no poeta quinhentista António Ribeiro Chiado, para outros porque o local identificava a existência de um estabelecimento de bebidas e petiscos pertencente a um galego com esse nome. No Chiado há muito onde petiscar e hoje e amanhã são os últimos dias da «festa no Chiado», organizada pelo Centro Nacional de Cultura.


LER 1 – A estrevista a Ridley Scott publicada na edição da revista «Wired» de Outubro, a propósito da nova versão de «Blade Runner», entrevista acompanhada de um excelente artigo sobre o filme. Um belo dossier sobre o etanol como combustível luíquido e a história do jogo «Guitar Heroes» são outros pontos de interesse na revista.


LER 2 – A revista mensal editada pelo Lux está cada vez melhor e é cada vez mais indispensável para quem gosta de música e de seguir as novas tendências. Os destaques da revista deste mês são a entrevista a José Pedro Moura, o segundo artigo de Isilda Sanches sobre «Música & Política» e as fotografias de António Júlio Duarte. O grafismo continua excelente – e a este propósito merece atenção o artigo (e a capa falsa) a propósito do trabalho do ilsutrador David Shrigley (distribuição gratuita no Lux e na Bica do Sapato).


OUVIR – Patti Smith tornou-se conhecida pela intensidade poética de discos de originais como «Raio Ethiopia» ou «Horses». Embora nos seus concertos de finais dos anos 70 e início dos anos 80 fosse frequente vê-la a fazer interpretações surpreendentes de temas de outros autores, ela nunca havia gravado um disco de versões. Este «Twelve», editado na primeira metade deste ano, é integralmente composto por versões de temas de nomes que vão de Jimi Hendrix aos Doors, passando pelos Tears For Fears, Rolling Stones ou Greg Allman. Destaque precisamente para «Midnight Rider», para «Gimme Shelter» ou «Changing Of The Guard» de Dylan. O disco é surpreendente, a banda que a aocmpnha é o seu grupo de músicos da melhor fase da sua carreira e há convidados como Tom Verlaine. (CD Sony/BMG).


VER 1 – Na galeria Ratton, Teresa Ramos expõe «Vasos Comunicantes», peças de olaria nada tradicionais, a meio caminho entre o ornamento e a escultura. A escala dos objectos é curiosa – pequenos, para casas pequenas, mas com uma presença visual muito forte. A Ratton é na Rua da Academia das Ciências 2C e esta exposição fica até dia 30 de Novembro.


VER 2 – Trabalhos recentes de João Vieira na Galeria Valbom, Av Conde de Valbom 89-A. Com o título «Expressionismos», esta exposição do pintor tem um conjunto de obras, no primeiro andar da galeria, os «caretos», que explora novos caminhos em relação ao que tem sido o trabalho de João Vieira. Av: Conde de Valbom 89-A, das 13h00 às 19h00.


PERGUNTANDO… Quando é que o Governo vai vigiar e controlar o que o Fisco faz em matéria de erros de automatismo, abusos de poder e interpretações polémicas da Lei, sempre contra os contribuintes?


BACK TO BASICS – «Este orçamento é um saque ao contribuinte» - Paulo Portas.

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BOM - O artigo estreia de Augusto M. Seabra no site www.artecapital.net, sobre a política cultural destes dias que correm. Intitulado « O caso MNAA ou o servilismo exemplar», o artigo – que assinala o regresso do autor à análise da realidade cultural portuguesa depois do processo que o levou a sair do «Público», mostra como a sua voz continua atenta e coerente. Seabra é dos jornalistas que há mais anos segue a política e a actividade cultural e é certeiro para com a actual Ministra, como se constata nesta citação: «Mas não se menospreze em Isabel Pires de Lima a figura da parola incompetente que tão indubitavelmente é. Ela não deixa de ser o poder, e para mais saíu-nos na rifa com este poder do PS a estranha ironia dos responsáveis da Cultura serem ex-comunistas com estruturas mentais em que todavia ainda não ruíu o muro de Berlim». Felizmente a artecapital.net abriu-lhe as portas e agora poderemos lê-lo de novo, numa colaboração mensal.


MAU– O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, comentando o facto de as polícias estarem a ser equipadas com as pistolas «Glock» achou por bem dizer que «estão de parabéns todos os cidadãos». Presumo que a afirmação se dirija aos cidadãos que todos os anos são alvejados por polícias à civil, fora de funções, por razões passionais ou outras – Portugal é recordista na utilização de armas de fogo por agentes policiais fora de funções.


PESADELO – Os reality shows chegaram à política: Hugo Chávez fez uma emissão em directo do seu programa semanal de propaganda televisiva, em directo de Cuba, com imagens de Fidel e longos salmos a Che Guevara. O amigo venezuelano de Mário Soares especializou-se em criar factos destes que depois multiplicam a sua imagem pelos telejornais de televisões de todo o mundo. Um verdadeiro artista.


PETISCAR – A utilização do nome Chiado para designar uma parte antiga de Lisboa foi fixada no século XVII, para alguns com origem no poeta quinhentista António Ribeiro Chiado, para outros porque o local identificava a existência de um estabelecimento de bebidas e petiscos pertencente a um galego com esse nome. No Chiado há muito onde petiscar e hoje e amanhã são os últimos dias da «festa no Chiado», organizada pelo Centro Nacional de Cultura.


LER 1 – A estrevista a Ridley Scott publicada na edição da revista «Wired» de Outubro, a propósito da nova versão de «Blade Runner», entrevista acompanhada de um excelente artigo sobre o filme. Um belo dossier sobre o etanol como combustível luíquido e a história do jogo «Guitar Heroes» são outros pontos de interesse na revista.


LER 2 – A revista mensal editada pelo Lux está cada vez melhor e é cada vez mais indispensável para quem gosta de música e de seguir as novas tendências. Os destaques da revista deste mês são a entrevista a José Pedro Moura, o segundo artigo de Isilda Sanches sobre «Música & Política» e as fotografias de António Júlio Duarte. O grafismo continua excelente – e a este propósito merece atenção o artigo (e a capa falsa) a propósito do trabalho do ilsutrador David Shrigley (distribuição gratuita no Lux e na Bica do Sapato).


OUVIR – Patti Smith tornou-se conhecida pela intensidade poética de discos de originais como «Raio Ethiopia» ou «Horses». Embora nos seus concertos de finais dos anos 70 e início dos anos 80 fosse frequente vê-la a fazer interpretações surpreendentes de temas de outros autores, ela nunca havia gravado um disco de versões. Este «Twelve», editado na primeira metade deste ano, é integralmente composto por versões de temas de nomes que vão de Jimi Hendrix aos Doors, passando pelos Tears For Fears, Rolling Stones ou Greg Allman. Destaque precisamente para «Midnight Rider», para «Gimme Shelter» ou «Changing Of The Guard» de Dylan. O disco é surpreendente, a banda que a aocmpnha é o seu grupo de músicos da melhor fase da sua carreira e há convidados como Tom Verlaine. (CD Sony/BMG).


VER 1 – Na galeria Ratton, Teresa Ramos expõe «Vasos Comunicantes», peças de olaria nada tradicionais, a meio caminho entre o ornamento e a escultura. A escala dos objectos é curiosa – pequenos, para casas pequenas, mas com uma presença visual muito forte. A Ratton é na Rua da Academia das Ciências 2C e esta exposição fica até dia 30 de Novembro.


VER 2 – Trabalhos recentes de João Vieira na Galeria Valbom, Av Conde de Valbom 89-A. Com o título «Expressionismos», esta exposição do pintor tem um conjunto de obras, no primeiro andar da galeria, os «caretos», que explora novos caminhos em relação ao que tem sido o trabalho de João Vieira. Av: Conde de Valbom 89-A, das 13h00 às 19h00.


PERGUNTANDO… Quando é que o Governo vai vigiar e controlar o que o Fisco faz em matéria de erros de automatismo, abusos de poder e interpretações polémicas da Lei, sempre contra os contribuintes?


BACK TO BASICS – «Este orçamento é um saque ao contribuinte» - Paulo Portas.

outubro 18, 2007

O ESTADO DA ARTE
Augusto M. Seabra voltou a escrever sobre política cultural e critica a gestão de Isabel Pires de Lima neste artigo do site artecapital onde passará a escrever mensalmente.

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O ESTADO DA ARTE
Augusto M. Seabra voltou a escrever sobre política cultural e critica a gestão de Isabel Pires de Lima neste artigo do site artecapital onde passará a escrever mensalmente.

outubro 15, 2007

BOM – O artigo de Rui Ramos na edição de Outubro da revista «Atlântico» sobre Che Guevara. No meio da propaganda romântica toda que tem surgido nos últimos dias, Rui Ramos explica «como é que da colecção de fuzilamentos e fracassos acumulados por Che se chegou ao sucesso da t-shirt». Aliciante.


MAU – Alguém anda a dar instruções à polícia para vigiar mais as manifestações – bem sei que o Ministro da Administração Interna vem de um serviço de informações, de uma polícia secreta, mas não me parece que esta seja uma boa maneira de garantir a coexistência do exercício do poder com o exercício das liberdades individuais.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – O PSD meteu-se numa confusão interna, com ameaças e perseguições, que replica dentro daquele partido o clima que o PS está a criar no país. Alguma coisa está errada nisto tudo.


DESCOBRIR – Uma nova galeria, exclusivamente dedicada à fotografia, a Potássio Quatro (P4Photography). A exposição inaugural chama-se «Atlas» e reúne trabalhos de Carlos M. Fernandes, João Mariano e Rui Fonseca. Foi feito um livro de edição limitada (50 exemplares) com os trabalhos expostos, também à venda na galeria, Rua dos Navegantes 16, na Lapa, em Lisboa.


VER – A exposição de João Fonte Santa na VPFCream Arte – pintura que vive num universo nascido na banda desenhada e em paisagens urbanas um pouco caóticas e inesperadas. Se tem curiosidade visite o site da galeria onde pode ter uma ideia das obras, mas o melhor é mesmo ir lá – Rua da Boavista 84, 2º, Sala 2, de terça a sábado, das 14h00 às 19h30, até 3 de Novembro, ou então www.vpfcreamarte.com . Mesmo por cima fica a Plataforma Revólver onde está uma sonora instalação, «Remote Control», que explora as possibilidades de cruzamento entre a música e as artes plásticas com nomes como António Olaio, Nuno Rebelo, Graça Sarsfield ou Pedro Tudela, entre outros.


PETISCAR – Confesso que este é um daqueles sítios onde almoço muitas vezes – a localização é-me cómoda e gosto do ambiente. Às vezes apetecia-me jantar lá, mas a casa encerrava por volta das oito. Desde o passado dia 1 de Outubro o horário foi alargado de segunda a sexta até às 24h00 e ao sábado até à uma da manhã. Estou a falar do City Café, onde os pratos do dia são frequentemente uma boa surpresa e onde os bifes, as saladas e as pastas são sempre boas sugestões. Fica na Avenida Miguel Bombarda 133 B, tel. 213 155 282.


LER – David Lynch fez nome no cinema, mas volta e meia faz umas incursões pela escrita. A mais recente chama-se «Catching The Big Fish», é de 2006 e consta de cerca de oito dezenas de curtas reflexões sobre temas do quotidiano, desde a música aos filmes, passando por pessoas, observações de circunstância ou meras reflexões pessoais. Na introdução Lynch afirma que as ideias são como os peixes: se queremos um peixe pequeno podemos andar a pescar em riachos, mas se queremos peixes maiores teremos que ir para águas mais profundas. O livro tem como subtítulos as palavras «meditation, consciousness and creativity» e é de leitura apaixonante. A edição é inglesa, da Penguin e comprei o meu exemplar na livraria Pó dos Livros, Avenida Marquês de Tomar 89-A.


OUVIR – O novo disco de Bruce Springsteen, «Magic», é um regresso aos seus melhores tempos de um rock intenso, com um som forte e um pouco áspero, com baladas tocantes. Aqui está ele de novo ao lado da sua E Street Band, numa produção verdadeiramente fiel ao som inicial do grupo, assinada por Brendan O’Brien. É um disco um bocado fora de tempo e fora de época e é daqueles casos em que se pode dizer que «primeiro estranha-se, depois entranaha-se». É o que me tem acontecido: quanto mais vezes o ouço, mais me sinto enrolado nas suas canções – entre todas destaco uma que repito muitas vezes, «I’ll Work For Your Love». CD Sony/BMG


IR – A partir de sábado dia 13 e até 20 de Outubro decorre a 11ª edição da Festa do Chiado, uma ideia do Centro Nacional de Cultura. Desde uma feira de alfarrabistas até exposições, conferências e passeios, de tudo se encontra no programa que pode ser consultado em www.cnc.pt . Esta é a semana em que todos os pretextos são bons para se dar uma passeata de fim de tarde no Chiado – ainda para mais o tempo parace que vai estar convidativo. Podem ver montras magníficas (a actual da Hermes é extraordinária) e descobrir como aquele é um dos melhores locais desta nossa Lisboa.


BACK TO BASICS – « A RTP não pode ser vista como uma empresa como qualquer outra, pelo simples facto de a sua cadeia de poder começar em José Sócrates, Primeiro-ministro e continuar em Augusto Santos Silva, Ministro da tutela (palavra bem significativa), na Administração da RTP e por fim em toda uma série de chefias por ela nomeadas» - José Pacheco Pereira, Abrupto.

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BOM – O artigo de Rui Ramos na edição de Outubro da revista «Atlântico» sobre Che Guevara. No meio da propaganda romântica toda que tem surgido nos últimos dias, Rui Ramos explica «como é que da colecção de fuzilamentos e fracassos acumulados por Che se chegou ao sucesso da t-shirt». Aliciante.


MAU – Alguém anda a dar instruções à polícia para vigiar mais as manifestações – bem sei que o Ministro da Administração Interna vem de um serviço de informações, de uma polícia secreta, mas não me parece que esta seja uma boa maneira de garantir a coexistência do exercício do poder com o exercício das liberdades individuais.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – O PSD meteu-se numa confusão interna, com ameaças e perseguições, que replica dentro daquele partido o clima que o PS está a criar no país. Alguma coisa está errada nisto tudo.


DESCOBRIR – Uma nova galeria, exclusivamente dedicada à fotografia, a Potássio Quatro (P4Photography). A exposição inaugural chama-se «Atlas» e reúne trabalhos de Carlos M. Fernandes, João Mariano e Rui Fonseca. Foi feito um livro de edição limitada (50 exemplares) com os trabalhos expostos, também à venda na galeria, Rua dos Navegantes 16, na Lapa, em Lisboa.


VER – A exposição de João Fonte Santa na VPFCream Arte – pintura que vive num universo nascido na banda desenhada e em paisagens urbanas um pouco caóticas e inesperadas. Se tem curiosidade visite o site da galeria onde pode ter uma ideia das obras, mas o melhor é mesmo ir lá – Rua da Boavista 84, 2º, Sala 2, de terça a sábado, das 14h00 às 19h30, até 3 de Novembro, ou então www.vpfcreamarte.com . Mesmo por cima fica a Plataforma Revólver onde está uma sonora instalação, «Remote Control», que explora as possibilidades de cruzamento entre a música e as artes plásticas com nomes como António Olaio, Nuno Rebelo, Graça Sarsfield ou Pedro Tudela, entre outros.


PETISCAR – Confesso que este é um daqueles sítios onde almoço muitas vezes – a localização é-me cómoda e gosto do ambiente. Às vezes apetecia-me jantar lá, mas a casa encerrava por volta das oito. Desde o passado dia 1 de Outubro o horário foi alargado de segunda a sexta até às 24h00 e ao sábado até à uma da manhã. Estou a falar do City Café, onde os pratos do dia são frequentemente uma boa surpresa e onde os bifes, as saladas e as pastas são sempre boas sugestões. Fica na Avenida Miguel Bombarda 133 B, tel. 213 155 282.


LER – David Lynch fez nome no cinema, mas volta e meia faz umas incursões pela escrita. A mais recente chama-se «Catching The Big Fish», é de 2006 e consta de cerca de oito dezenas de curtas reflexões sobre temas do quotidiano, desde a música aos filmes, passando por pessoas, observações de circunstância ou meras reflexões pessoais. Na introdução Lynch afirma que as ideias são como os peixes: se queremos um peixe pequeno podemos andar a pescar em riachos, mas se queremos peixes maiores teremos que ir para águas mais profundas. O livro tem como subtítulos as palavras «meditation, consciousness and creativity» e é de leitura apaixonante. A edição é inglesa, da Penguin e comprei o meu exemplar na livraria Pó dos Livros, Avenida Marquês de Tomar 89-A.


OUVIR – O novo disco de Bruce Springsteen, «Magic», é um regresso aos seus melhores tempos de um rock intenso, com um som forte e um pouco áspero, com baladas tocantes. Aqui está ele de novo ao lado da sua E Street Band, numa produção verdadeiramente fiel ao som inicial do grupo, assinada por Brendan O’Brien. É um disco um bocado fora de tempo e fora de época e é daqueles casos em que se pode dizer que «primeiro estranha-se, depois entranaha-se». É o que me tem acontecido: quanto mais vezes o ouço, mais me sinto enrolado nas suas canções – entre todas destaco uma que repito muitas vezes, «I’ll Work For Your Love». CD Sony/BMG


IR – A partir de sábado dia 13 e até 20 de Outubro decorre a 11ª edição da Festa do Chiado, uma ideia do Centro Nacional de Cultura. Desde uma feira de alfarrabistas até exposições, conferências e passeios, de tudo se encontra no programa que pode ser consultado em www.cnc.pt . Esta é a semana em que todos os pretextos são bons para se dar uma passeata de fim de tarde no Chiado – ainda para mais o tempo parace que vai estar convidativo. Podem ver montras magníficas (a actual da Hermes é extraordinária) e descobrir como aquele é um dos melhores locais desta nossa Lisboa.


BACK TO BASICS – « A RTP não pode ser vista como uma empresa como qualquer outra, pelo simples facto de a sua cadeia de poder começar em José Sócrates, Primeiro-ministro e continuar em Augusto Santos Silva, Ministro da tutela (palavra bem significativa), na Administração da RTP e por fim em toda uma série de chefias por ela nomeadas» - José Pacheco Pereira, Abrupto.

outubro 11, 2007

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A GRANDE MUDANÇA
(Publicado na edição de Quarta-Feira 10 de Outubro do diário «Meia Hora»)

No distante ano de 1992, somente há 15 anos, em Portugal havia apenas dois canais de televisão, ambos do Estado. A possibilidade de escolha do telespectador era quase zero. Proponho situar as coisas no tempo: em 1992 foi assinado o Tratado de Maastricht, que mudou a face da Comunidade Europeia, António Guterres tornou-se Secretário Geral do PS, a EuroDisney abriu em Paris, a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença e Madonna lançou o seu polémico álbum «Erótica». Lembravam-se disto?

Pode parecer estranho, mas nessa altura, a menos que se tivesse uma parabólica – então um objecto caro e incómodo – o universo televisivo estava reduzido aos dois canais da RTP. A entrada da SIC no mercado, em Outubro de 92, foi de facto uma lufada de ar fresco – três anos depois, a meio de 1995, a SIC ultrapassava pela primeira vez as audiências da RTP; em 1997 a SIC atingia 49,3% de share e a RTP tinha caído para 33% (perdendo dois terços da sua audiência em apenas cinco anos). O cabo era um mundo ainda desconhecido, mas em 1998, começava a sua ascensão meteórica: dos 5,2% de share que representava nesse ano passou para os 15% actuais.

A entrada no novo milénio trouxe um realinhamento das estações: a SIC começou a perder audiência e a TVI subiu meteoricamente graças aos reality shows e à ficção produzida em Portugal. Hoje em dia a distribuição de audiências pelos três canais é muito mais equilibrada que na segunda metade dos anos 90: nos primeiros nove meses deste ano a audiência média da RTP foi de 25%, a da SIC de 25,4% e a da TVI 29%.

Mas, mais importante que tudo isto, o início da televisão privada em Portugal provocou o desenvolvimento de uma indústria audiovisual, e a possibilidade de carreiras para técnicos, argumentistas, produtores e actores. O emprego gerado pela actividade dos privados é na ordem dos milhares de postos de trabalho (directa e indirectamente) e o impacto do audiovisual na economia passou a ser assinalável. Como vai o Estado deixar o sector desenvolver-se nos próximos 15 anos, agora que já tem dados para comprovar a importância dos privados na dinamização do mercado audiovisual?
A GRANDE MUDANÇA
(Publicado na edição de Quarta-Feira 10 de Outubro do diário «Meia Hora»)

No distante ano de 1992, somente há 15 anos, em Portugal havia apenas dois canais de televisão, ambos do Estado. A possibilidade de escolha do telespectador era quase zero. Proponho situar as coisas no tempo: em 1992 foi assinado o Tratado de Maastricht, que mudou a face da Comunidade Europeia, António Guterres tornou-se Secretário Geral do PS, a EuroDisney abriu em Paris, a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença e Madonna lançou o seu polémico álbum «Erótica». Lembravam-se disto?

Pode parecer estranho, mas nessa altura, a menos que se tivesse uma parabólica – então um objecto caro e incómodo – o universo televisivo estava reduzido aos dois canais da RTP. A entrada da SIC no mercado, em Outubro de 92, foi de facto uma lufada de ar fresco – três anos depois, a meio de 1995, a SIC ultrapassava pela primeira vez as audiências da RTP; em 1997 a SIC atingia 49,3% de share e a RTP tinha caído para 33% (perdendo dois terços da sua audiência em apenas cinco anos). O cabo era um mundo ainda desconhecido, mas em 1998, começava a sua ascensão meteórica: dos 5,2% de share que representava nesse ano passou para os 15% actuais.

A entrada no novo milénio trouxe um realinhamento das estações: a SIC começou a perder audiência e a TVI subiu meteoricamente graças aos reality shows e à ficção produzida em Portugal. Hoje em dia a distribuição de audiências pelos três canais é muito mais equilibrada que na segunda metade dos anos 90: nos primeiros nove meses deste ano a audiência média da RTP foi de 25%, a da SIC de 25,4% e a da TVI 29%.

Mas, mais importante que tudo isto, o início da televisão privada em Portugal provocou o desenvolvimento de uma indústria audiovisual, e a possibilidade de carreiras para técnicos, argumentistas, produtores e actores. O emprego gerado pela actividade dos privados é na ordem dos milhares de postos de trabalho (directa e indirectamente) e o impacto do audiovisual na economia passou a ser assinalável. Como vai o Estado deixar o sector desenvolver-se nos próximos 15 anos, agora que já tem dados para comprovar a importância dos privados na dinamização do mercado audiovisual?

outubro 10, 2007

O ESTADO NA TELEVISÃO
(Artigo publicado na edição de Outubro da revista «Atlântico» - não percam nesta edição o magnífico artigo de Rui Ramos sobre Che Guevara.

No segundo trimestre de 2008, se os prazos não forem furados, estarão resolvidos os concursos que irão decidir como funcionará em Portugal a televisão digital terrestre. Uma parte importante destes concursos tem a ver com a possibilidade de existência de novos canais gratuitos e generalistas de distribuição nacional, um factor absolutamente decisivo para o desenvolvimento da paisagem audiovisual portuguesa, para o desenvolvimento da produção independente e para a existência de novas plataformas de distribuição de conteúdos portugueses. E, claro, para a existência de maior e melhor oferta aos espectadores.

Estes concursos trazem também a necessidade de definições claras do Estado em relação ao serviço público de televisão, pelo menos a três níveis:

- definição e operacionalização de um modelo de serviço público não concorrencial com os privados;

- saída do operador de serviço público do mercado publicitário, libertando a fatia (cerca de 22%) que agora retém para os novos canais privados, permitindo alargar o mercado e fomentar a viabilidade do surgimento de novos operadores;

- e, finalmente, a indicação de uma posição clara do accionista Estado à administração da RTP sobre os moldes e limites da sua participação na Televisão Digital Terrestre, por forma a não introduzir novos factores de distorção da concorrência.

Muito do que foi recomendado no Relatório do Grupo de Trabalho Sobre o Serviço Público, de 2002, continua por aplicar e, inclusivamente, nestes últimos anos a RTP tem reforçado a sua componente comercial (só este ano as receitas publicitárias aumentaram 14 a 15%) . É claro que isto acontece porque a RTP tem vindo a aumentar a sua agressividade em conteúdos concorrenciais – a RTP 1 pode chegar ao fim do ano em segundo lugar de audiências - obviamente graças a uma interpretação muito sui-generis do que deve ser serviço público de televisão. Este é um tema que merece estar em permanente discussão até porque – como muita gente bem lembra – somos todos nós que pagamos o grosso do funcionamento da RTP, quer através dos impostos, quer na factura de electricidade.

Eu continuo a achar que se justifica um serviço público de televisão, em dois canais abertos de cobertura nacional, de características diferentes, ambos sem publicidade; este serviço público deve garantir ainda um canal internacional que transmita uma imagem contemporânea do país e da sua produção audiovisual. E sim, tudo isto deve ser pago pelo Estado, mas não pelo mercado publicitário, precisamente para evitar uma distorção da sua missão e não entrar em concorrência com os privados. Ao contrário do que alguns acharão isto não é uma utopia – existe em numerosos países da Comunidade Europeia e em todos eles tem um importante papel estratégico na defesa da língua e cultura nacionais no único espaço onde essa defesa faz sentido hoje em dia e que é precisamente no audiovisual.

Por isso mesmo, quando estamos à beira de entrar na época da Televisão Digital, faz sentido relançar um debate sobre o que deve ser o Serviço Público nesta nova era. Se o papel e limites do Serviço Público não forem modificados e não ficarem bem definidos começaremos mal e, mais uma vez, o Estado cederá à tentação de ter um canal que disputa audiências com o único propósito de garantir um número razoável de espectadores para um serviço noticioso historicamente manipulado e ao serviço dos interesses políticos do momento. Se nesta fase não nascerem novas normas e fronteiras de actuação do Serviço Público, então o melhor é dar razão ao que defendem a sua extinção, porque, tal como está, acabará por ser apenas um empecilho ao desenvolvimento livre e saudável do mercado audiovisual.



PENSAMENTOS OCIOSOS I

Quer-me parecer que a actual barragem de informações sobre custos do serviço público faz já parte de uma campanha de preparação da opinião pública para a substituição, provavelmente inevitável, da actual administração da RTP. É preciso dizer-se que esta foi a melhor administração que passou por aquela casa nos últimos anos: renegociou (bem) a dívida, conteve custos, conseguiu fundir a RTP e a RDP, alienou o que não era estratégico, passou a pagar a fornecedores em prazos normais e instalou tudo num único edifício com melhores condições que existiam antes. Isto foram as coisas boas. No rol do que não correu bem tem que se incluir a deriva concorrencial e comercial, a participação na guerra das audiências, a criação de um modelo de serviço público desfocado e qualitativamente polémico, a continuação da instrumentalização da informação ao poder político e, sobretudo, um enorme falhanço na mudança da cultura de empresa, na lógica de funcionamento interno e na burocracia existente, que provavelmente se agravou em vez de melhorar. Quem suceder à actual administração recebe uma fasquia alta, mas ainda muitos problemas por resolver: o mais grave provavelmente é fazer melhor serviço público e deixar a concorrência com as estações privadas, ainda para mais no início da Televisão Digital Terrestre.


PENSAMENTOS OCIOSOS II

Muito se tem falado sobre as obrigações do Serviço Público em relação ao Desporto, a propósito do Mundial de Râguebi. Um elevado número de pessoas apareceu a dizer que eles deveriam passar na RTP a qualquer custo. Vamos por partes: quando se atribuem licenças de emissão de canais temáticos dedicados ao desporto, em regime de assinatura paga, estes canais só podem viver se garantirem direitos exclusivos que sejam aliciantes para os espectadores subscreverem o seu serviço. Eu acho que entre as vocações do serviço público não está transmitir competições desportivas que têm uma elevada componente comercial, como é o caso do mundial do râguebi, apesar do carácter amador da brilhante e brava selecção portuguesa. Se um Estado aceita a existência de canais pagos especializados em Desporto, não pode depois fazer-lhes concorrência no serviço público com conteúdos gratuitos do mesmo género – é uma questão básica. Sou dos que acha que o serviço público português tem desporto a mais e só por isso é que a RTP se pôs a jeito ao fazer sistemáticas transmissões – pagas – de campeonatos de futebol estrangeiros, ao mesmo tempo que não quis abrir os cordões à bolsa na compra dos direitos do campeonato de râguebi. Mas a questão de fundo continua a mesma: deve o serviço público fazer concorrência com conteúdos comerciais que estão no core-business dos canais privados? Custa-me muito perceber porque é que os defensores do bom funcionamento do mercado abrem excepções em matéria de televisão e de desporto…

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O ESTADO NA TELEVISÃO
(Artigo publicado na edição de Outubro da revista «Atlântico» - não percam nesta edição o magnífico artigo de Rui Ramos sobre Che Guevara.

No segundo trimestre de 2008, se os prazos não forem furados, estarão resolvidos os concursos que irão decidir como funcionará em Portugal a televisão digital terrestre. Uma parte importante destes concursos tem a ver com a possibilidade de existência de novos canais gratuitos e generalistas de distribuição nacional, um factor absolutamente decisivo para o desenvolvimento da paisagem audiovisual portuguesa, para o desenvolvimento da produção independente e para a existência de novas plataformas de distribuição de conteúdos portugueses. E, claro, para a existência de maior e melhor oferta aos espectadores.

Estes concursos trazem também a necessidade de definições claras do Estado em relação ao serviço público de televisão, pelo menos a três níveis:

- definição e operacionalização de um modelo de serviço público não concorrencial com os privados;

- saída do operador de serviço público do mercado publicitário, libertando a fatia (cerca de 22%) que agora retém para os novos canais privados, permitindo alargar o mercado e fomentar a viabilidade do surgimento de novos operadores;

- e, finalmente, a indicação de uma posição clara do accionista Estado à administração da RTP sobre os moldes e limites da sua participação na Televisão Digital Terrestre, por forma a não introduzir novos factores de distorção da concorrência.

Muito do que foi recomendado no Relatório do Grupo de Trabalho Sobre o Serviço Público, de 2002, continua por aplicar e, inclusivamente, nestes últimos anos a RTP tem reforçado a sua componente comercial (só este ano as receitas publicitárias aumentaram 14 a 15%) . É claro que isto acontece porque a RTP tem vindo a aumentar a sua agressividade em conteúdos concorrenciais – a RTP 1 pode chegar ao fim do ano em segundo lugar de audiências - obviamente graças a uma interpretação muito sui-generis do que deve ser serviço público de televisão. Este é um tema que merece estar em permanente discussão até porque – como muita gente bem lembra – somos todos nós que pagamos o grosso do funcionamento da RTP, quer através dos impostos, quer na factura de electricidade.

Eu continuo a achar que se justifica um serviço público de televisão, em dois canais abertos de cobertura nacional, de características diferentes, ambos sem publicidade; este serviço público deve garantir ainda um canal internacional que transmita uma imagem contemporânea do país e da sua produção audiovisual. E sim, tudo isto deve ser pago pelo Estado, mas não pelo mercado publicitário, precisamente para evitar uma distorção da sua missão e não entrar em concorrência com os privados. Ao contrário do que alguns acharão isto não é uma utopia – existe em numerosos países da Comunidade Europeia e em todos eles tem um importante papel estratégico na defesa da língua e cultura nacionais no único espaço onde essa defesa faz sentido hoje em dia e que é precisamente no audiovisual.

Por isso mesmo, quando estamos à beira de entrar na época da Televisão Digital, faz sentido relançar um debate sobre o que deve ser o Serviço Público nesta nova era. Se o papel e limites do Serviço Público não forem modificados e não ficarem bem definidos começaremos mal e, mais uma vez, o Estado cederá à tentação de ter um canal que disputa audiências com o único propósito de garantir um número razoável de espectadores para um serviço noticioso historicamente manipulado e ao serviço dos interesses políticos do momento. Se nesta fase não nascerem novas normas e fronteiras de actuação do Serviço Público, então o melhor é dar razão ao que defendem a sua extinção, porque, tal como está, acabará por ser apenas um empecilho ao desenvolvimento livre e saudável do mercado audiovisual.



PENSAMENTOS OCIOSOS I

Quer-me parecer que a actual barragem de informações sobre custos do serviço público faz já parte de uma campanha de preparação da opinião pública para a substituição, provavelmente inevitável, da actual administração da RTP. É preciso dizer-se que esta foi a melhor administração que passou por aquela casa nos últimos anos: renegociou (bem) a dívida, conteve custos, conseguiu fundir a RTP e a RDP, alienou o que não era estratégico, passou a pagar a fornecedores em prazos normais e instalou tudo num único edifício com melhores condições que existiam antes. Isto foram as coisas boas. No rol do que não correu bem tem que se incluir a deriva concorrencial e comercial, a participação na guerra das audiências, a criação de um modelo de serviço público desfocado e qualitativamente polémico, a continuação da instrumentalização da informação ao poder político e, sobretudo, um enorme falhanço na mudança da cultura de empresa, na lógica de funcionamento interno e na burocracia existente, que provavelmente se agravou em vez de melhorar. Quem suceder à actual administração recebe uma fasquia alta, mas ainda muitos problemas por resolver: o mais grave provavelmente é fazer melhor serviço público e deixar a concorrência com as estações privadas, ainda para mais no início da Televisão Digital Terrestre.


PENSAMENTOS OCIOSOS II

Muito se tem falado sobre as obrigações do Serviço Público em relação ao Desporto, a propósito do Mundial de Râguebi. Um elevado número de pessoas apareceu a dizer que eles deveriam passar na RTP a qualquer custo. Vamos por partes: quando se atribuem licenças de emissão de canais temáticos dedicados ao desporto, em regime de assinatura paga, estes canais só podem viver se garantirem direitos exclusivos que sejam aliciantes para os espectadores subscreverem o seu serviço. Eu acho que entre as vocações do serviço público não está transmitir competições desportivas que têm uma elevada componente comercial, como é o caso do mundial do râguebi, apesar do carácter amador da brilhante e brava selecção portuguesa. Se um Estado aceita a existência de canais pagos especializados em Desporto, não pode depois fazer-lhes concorrência no serviço público com conteúdos gratuitos do mesmo género – é uma questão básica. Sou dos que acha que o serviço público português tem desporto a mais e só por isso é que a RTP se pôs a jeito ao fazer sistemáticas transmissões – pagas – de campeonatos de futebol estrangeiros, ao mesmo tempo que não quis abrir os cordões à bolsa na compra dos direitos do campeonato de râguebi. Mas a questão de fundo continua a mesma: deve o serviço público fazer concorrência com conteúdos comerciais que estão no core-business dos canais privados? Custa-me muito perceber porque é que os defensores do bom funcionamento do mercado abrem excepções em matéria de televisão e de desporto…
BOM – Fiquei a saber, pela voz informada de José António Salvador, que a casta de uvas Touriga Nacional está a ser estudada por Universidades norte-americanas que a consideram particularmente interessante. Desejaria que o mesmo estivesse a acontecer em algumas Universidades portuguesas - senão qualquer dia estamos nós a produzir Syrahs e Cabernets Sauvignons e os americanos e neo-zelandeses a exportar Touriga Nacional – que como Salvador não hesita em dizer, «é a melhor casta do mundo».


MAU – Os notáveis do PSD davam como certa a eleição de Marques Mendes – o pior cego é o que não quer ver e toma os seus desejos por realidades. É espantoso como tanta gente, que parece ser tão brilhante, se surpreendeu com o que estava à vista: havia um enorme descontentamento para com a liderança partidária de Marques Mendes.


PÉSSIMO – As escutas reveladas pelo semanário «Sol» mostram como Rui Pereira, Ministro da Administração Interna, é um adepto e praticante do tráfico de influências. Noutros países ele já se teria demitido depois do que veio a lume sobre os seus esforços para encontrar uma sinecurazinha influente antes de se tornar Ministro.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Parece que o PSD vai virar à esquerda com Luís Filipe Menezes – mais Estado, mais obras públicas, menos sociedade civil, menos liberalismo. O bloco central virado de pernas para o ar?


INDEFESOS – O Presidente da Câmara de Lisboa, ex-Ministro da Administração Interna, chamou aos Paços do Concelho, para uma recepção, os seus ex-colegas europeus, que estavam na cidade numa iniciativa da Presidência da Comunidade, precisamente à hora em que decorria uma manifestação de polícias. Deve ter sido para os proteger.


DÚVIDA – Onde anda a retórica de José Sá Fernandes?


PETISCAR – Tenho, dos passarinhos fritos, uma imagem de um petisco, comido ao lanche, nos tempos de infância, a meio das férias grandes, no Alentejo. Há anos que não me deliciava com o assunto, até ter dado esta semana com o Solar do Kadete, ao Cais do Sodré. Para além de passarinhos fritos bem pequeninos e deliciosos (a um euro a unidade), aqui se podem comer belas moelas, morcelas, pica pau e petiscos variados. Experimente chegar lá ao fim do dia e pedir meia dúzia de passarinhos fritos com uma imperial. Ele há vidas bem piores… Solar do Kadete, Cais do Sodré 2, tel 21 342 72 55.


LER – Philip Roth é um dos mais importantes romancistas contemporâneos, um dos mais universais em termos das preocupações e obsessões que explora (o amor, a solidão, a perda, as recordações de infância, a morte), um autor que centra no homem e nas suas circunstâncias toda a sua obra. O seu romance deste ano (que é já o quinto deste século), chama-se «Everyman» e foi traduzido para português como «Todo-O-Mundo». Francisco José Viegas, que defende que Roth devia ser o próximo Nobel da Literatura, diz que este livro é «um curtíssimo relato, rigoroso e desesperado» e ao mesmo tempo «um fantástico exemplo de simplicidade narrativa e de humanidade». Não tenho nada a acrescentar. A edição portuguesa, bem traduzida, é da Dom Quixote.


OUVIR – Mesmo podendo ser música «de domingos à tarde», Diana Krall tem uma capacidade de interpretação (em parte porque é contida e felizmente pouco teatral), que faz dela uma referência no jazz vocal. «The Very Best Of Diana Krall» é uma nova colectânea que reúne algumas das suas melhores gravações dos grandes standards americanos e a curiosidade de três registos inéditos, interpretações de Krall dos temas «Only The Lonely» de Frank Sinatra, «You Go To My Head» de Billie Holiday e uma inesperada interpretação de «The Heart Of Saturday Night» de Tom Waits. A edição especial junta ao CD um DVD com diverso material, entre o qual versões ao vivo de «Fly Me To The Moon» ou «Let’s Face The Music And Dance». CD/DVD Verve, distribuição Universal Music.



PERGUNTANDO… Porque é que não aumentam o tamanho das balizas de futebol para ver se há mais golos? Uma das coisas mais irritantes no futebol é que é o desporto onde há mais jogos que acabam empatados. Tem mesmo que ser assim?


BACK TO BASICS – «O problema do país é a ASAE não cumprir devidamente o seu papel. Há por aí muitos políticos e quadros dirigentes que já ultrapassaram largamente o prazo de validade» , Bartoon, de Luís Afonso.

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BOM – Fiquei a saber, pela voz informada de José António Salvador, que a casta de uvas Touriga Nacional está a ser estudada por Universidades norte-americanas que a consideram particularmente interessante. Desejaria que o mesmo estivesse a acontecer em algumas Universidades portuguesas - senão qualquer dia estamos nós a produzir Syrahs e Cabernets Sauvignons e os americanos e neo-zelandeses a exportar Touriga Nacional – que como Salvador não hesita em dizer, «é a melhor casta do mundo».


MAU – Os notáveis do PSD davam como certa a eleição de Marques Mendes – o pior cego é o que não quer ver e toma os seus desejos por realidades. É espantoso como tanta gente, que parece ser tão brilhante, se surpreendeu com o que estava à vista: havia um enorme descontentamento para com a liderança partidária de Marques Mendes.


PÉSSIMO – As escutas reveladas pelo semanário «Sol» mostram como Rui Pereira, Ministro da Administração Interna, é um adepto e praticante do tráfico de influências. Noutros países ele já se teria demitido depois do que veio a lume sobre os seus esforços para encontrar uma sinecurazinha influente antes de se tornar Ministro.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Parece que o PSD vai virar à esquerda com Luís Filipe Menezes – mais Estado, mais obras públicas, menos sociedade civil, menos liberalismo. O bloco central virado de pernas para o ar?


INDEFESOS – O Presidente da Câmara de Lisboa, ex-Ministro da Administração Interna, chamou aos Paços do Concelho, para uma recepção, os seus ex-colegas europeus, que estavam na cidade numa iniciativa da Presidência da Comunidade, precisamente à hora em que decorria uma manifestação de polícias. Deve ter sido para os proteger.


DÚVIDA – Onde anda a retórica de José Sá Fernandes?


PETISCAR – Tenho, dos passarinhos fritos, uma imagem de um petisco, comido ao lanche, nos tempos de infância, a meio das férias grandes, no Alentejo. Há anos que não me deliciava com o assunto, até ter dado esta semana com o Solar do Kadete, ao Cais do Sodré. Para além de passarinhos fritos bem pequeninos e deliciosos (a um euro a unidade), aqui se podem comer belas moelas, morcelas, pica pau e petiscos variados. Experimente chegar lá ao fim do dia e pedir meia dúzia de passarinhos fritos com uma imperial. Ele há vidas bem piores… Solar do Kadete, Cais do Sodré 2, tel 21 342 72 55.


LER – Philip Roth é um dos mais importantes romancistas contemporâneos, um dos mais universais em termos das preocupações e obsessões que explora (o amor, a solidão, a perda, as recordações de infância, a morte), um autor que centra no homem e nas suas circunstâncias toda a sua obra. O seu romance deste ano (que é já o quinto deste século), chama-se «Everyman» e foi traduzido para português como «Todo-O-Mundo». Francisco José Viegas, que defende que Roth devia ser o próximo Nobel da Literatura, diz que este livro é «um curtíssimo relato, rigoroso e desesperado» e ao mesmo tempo «um fantástico exemplo de simplicidade narrativa e de humanidade». Não tenho nada a acrescentar. A edição portuguesa, bem traduzida, é da Dom Quixote.


OUVIR – Mesmo podendo ser música «de domingos à tarde», Diana Krall tem uma capacidade de interpretação (em parte porque é contida e felizmente pouco teatral), que faz dela uma referência no jazz vocal. «The Very Best Of Diana Krall» é uma nova colectânea que reúne algumas das suas melhores gravações dos grandes standards americanos e a curiosidade de três registos inéditos, interpretações de Krall dos temas «Only The Lonely» de Frank Sinatra, «You Go To My Head» de Billie Holiday e uma inesperada interpretação de «The Heart Of Saturday Night» de Tom Waits. A edição especial junta ao CD um DVD com diverso material, entre o qual versões ao vivo de «Fly Me To The Moon» ou «Let’s Face The Music And Dance». CD/DVD Verve, distribuição Universal Music.



PERGUNTANDO… Porque é que não aumentam o tamanho das balizas de futebol para ver se há mais golos? Uma das coisas mais irritantes no futebol é que é o desporto onde há mais jogos que acabam empatados. Tem mesmo que ser assim?


BACK TO BASICS – «O problema do país é a ASAE não cumprir devidamente o seu papel. Há por aí muitos políticos e quadros dirigentes que já ultrapassaram largamente o prazo de validade» , Bartoon, de Luís Afonso.

outubro 03, 2007

O ESTADO E A TV
(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 3 de Outubro de 2007)

Daqui a cerca de quatro anos o panorama da televisão vai mudar substancialmente, com a televisão digital terrestre. Para o telespectador há duas consequências imediatas: em primeiro lugar melhor qualidade de recepção, de imagem e de som; e, em segundo lugar, uma maior oferta de canais sem necessidade de subscrever serviços de cabo. À partida, em vez dos quatro canais actuais (RTP 1, RTP 2, SIC e TVI) poderão (deverão) existir pelo menos oito canais.

Actualmente decorre a fase inicial de todo este processo – primeiro com a escolha da plataforma técnica (que de alguma forma condiciona os canais disponíveis no futuro) e do operador de telecomunicações que escolherá a nova rede e, numa segunda fase, com a escolha dos operadores de televisão que terão acesso aos novos canais e com a definição dos seus conteúdos.

Neste processo, o mais importante é anunciar qual a forma como os novos canais serão distribuídos, por forma a saber se o Estado permite maior concorrência no sector e se dá uma oportunidade para que novos grupos de media entrem no processo, como tem acontecido em toda a Europa – a começar pela vizinha Espanha.

Um dos factores cruciais para que isto possa acontecer tem a ver com o Estado, que é o accionista da RTP. Mandam as regras da transparência que o Estado diga publicamente, e o mais rápido possível, qual é a orientação que vai transmitir à RTP sobre esta matéria: se manter os mesmos dois canais nacionais e libertar frequências para novos operadores, ou se reforçar a presença, com a criação de outros canais, como já se falou.

Esta é uma daquelas decisões que deve ser tomada pelo accionista e é bom que seja pública e transparente porque, na essência, tem a ver com saber o que o Estado (e o Governo) pretendem: se um serviço público de referência e não submetido a imperativos comerciais, se um operador financiado por dinheiros públicos e taxas aplicadas aos consumidores de electricidade, que entra em concorrência no mercado publicitário e faz uma programação concorrencial com os canais privados.

O concurso para a televisão digital terrestre é um desafio ao Estado e ao Governo: querem manter e reforçar o papel comercial da RTP ou querem dinamizar a indústria do audiovisual e o sector privado de operadores de televisão em Portugal?

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O ESTADO E A TV
(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 3 de Outubro de 2007)

Daqui a cerca de quatro anos o panorama da televisão vai mudar substancialmente, com a televisão digital terrestre. Para o telespectador há duas consequências imediatas: em primeiro lugar melhor qualidade de recepção, de imagem e de som; e, em segundo lugar, uma maior oferta de canais sem necessidade de subscrever serviços de cabo. À partida, em vez dos quatro canais actuais (RTP 1, RTP 2, SIC e TVI) poderão (deverão) existir pelo menos oito canais.

Actualmente decorre a fase inicial de todo este processo – primeiro com a escolha da plataforma técnica (que de alguma forma condiciona os canais disponíveis no futuro) e do operador de telecomunicações que escolherá a nova rede e, numa segunda fase, com a escolha dos operadores de televisão que terão acesso aos novos canais e com a definição dos seus conteúdos.

Neste processo, o mais importante é anunciar qual a forma como os novos canais serão distribuídos, por forma a saber se o Estado permite maior concorrência no sector e se dá uma oportunidade para que novos grupos de media entrem no processo, como tem acontecido em toda a Europa – a começar pela vizinha Espanha.

Um dos factores cruciais para que isto possa acontecer tem a ver com o Estado, que é o accionista da RTP. Mandam as regras da transparência que o Estado diga publicamente, e o mais rápido possível, qual é a orientação que vai transmitir à RTP sobre esta matéria: se manter os mesmos dois canais nacionais e libertar frequências para novos operadores, ou se reforçar a presença, com a criação de outros canais, como já se falou.

Esta é uma daquelas decisões que deve ser tomada pelo accionista e é bom que seja pública e transparente porque, na essência, tem a ver com saber o que o Estado (e o Governo) pretendem: se um serviço público de referência e não submetido a imperativos comerciais, se um operador financiado por dinheiros públicos e taxas aplicadas aos consumidores de electricidade, que entra em concorrência no mercado publicitário e faz uma programação concorrencial com os canais privados.

O concurso para a televisão digital terrestre é um desafio ao Estado e ao Governo: querem manter e reforçar o papel comercial da RTP ou querem dinamizar a indústria do audiovisual e o sector privado de operadores de televisão em Portugal?

outubro 02, 2007

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BOM – O surgimento da edição portuguesa da revista «Time Out». Aqui está um guia que faltava, completo e transversal, que fazia falta desde que o «Se7e» acabou, um guia melhor que qualquer dos roteiros e suplementos que os diários generalistas publicam. Se os críticos das diversas áreas forem um bocadinho mais acutilantes e menos consensualistas os leitores ficarão ainda mais a ganhar.


MAU – O aumento da carga fiscal em Lisboa – que já é a cidade mais penalizada do país. Ser habitante de Lisboa quer dizer sofre muito, pagar e calar para se ter muito pouco em troca. A Câmara nem presta em condições os serviços mínimos que devia e agora António Costa adoptou a típica medida socialista: aumentar os impostos. Daqui a dois anos vamos ver quanto cortou na despesa e quanto aumentou na receita dos cidadãos. Contra isto é que não vejo o ex-activíssimo José Sá Fernandes insurgir-se e defender os direitos dos cidadãos, como tanto gosta de apregoar.


PÉSSIMO – Por mais que se queira entender, o programa de troca de seringas dentro das cadeias é o legitimar do tráfico de droga em estabelecimentos prisionais, debaixo do olhar dos guardas, num local onde o crime é suposto ser punido. Em vez de recuperação, a permissividade – eu sei, é mais fácil.


DESILUSÃO – O filme «O Capacete Dourado» de Jorge Cramez, mais uma oportunidade falhada no cinema português – à partida parecia haver tudo para funcionar – depois a narrativa perde-se, o argumento titubeia, os diálogos são desesperantes. Salva-se a interpretação de Eduardo Frazão no papel principal, mas o desempenho de Ana Moreira reforça a ideia de que é uma actriz demasiado repetitiva e sem capacidade de criação de personagens.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Eu achava que quando se deita uma moeda num parquímetro se estava a pagar à EMEL e à cidade, e não a uma rua em particular. Engano – detentor de de um bilhete válido por mais meia hora, coloquei o carro num outro local que não aquele onde tinha tirado o bilhete (ainda em validade de tempo) e eis que um pressuroso agente da EMEL me diz que tinha de pagar mais porque estava noutra zona. O dinheiro não vai para o mesmo cofre? Por acaso saí da cidade? Se isto não é roubo à mão armada, o que é?


PESADELO – Mário Soares elogia Hugo Chávez; Mário Soares revela-se intermediário de negócios petrolíferos da Galp com a Venezuela; Mário Soares é recebido por Cavaco Silva na companhia do Presidente da Galp. Tal está a molenga…


PETISCAR – Já aqui falei do tema, mas nunca é demais voltar ao convívio dos petiscos goeses do tradicional Sebastião (o homem do «Cantinho da Paz» e, desde há 35 anos, um pioneiro da boa comida indiana em Portugal), agora no Restaurante Casa de Goa, que fica na Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. A sala é boa, o serviço é atento, a qualidade e o tempero da comida são irrepreensíveis. Ainda por cima a Casa de Goa dispõe de estacionamento próprio, não há preocupações com parquímetros nem reboques, um alívio nesta cidade escravizada pela EMEL. Telefone 21 393 01 71.


LER – Isto nem é bem um livro, é mais um opúsculo, mas é delicioso. Reúne contos curtíssimos e divertidíssimos (além de muito bem escritos), da autoria de J. P. Simões, com desenhos deliciosos de André Carrilho. São 60 páginas de puro prazer, estas que compõem «O Vírus da Vida», uma edição da Sextante. J.P. Simões, recorda-se, é homem de vários talentos e foi a voz dos Bellechase Hotel antes de iniciar uma carreira a solo.


FOLHEAR – A edição de Setembro da revista «Egoísta» é dedicada ao sexo. Assim mesmo, sem rodeios. E embora não perceba porque é que uma edição com este tema abre com um escrito de Inês Pedrosa, tem que se reconhecer que as fotografias de Pedro Cláudio, Augusto Brázio, Luís de Barros, Sandra Rocha e sobretudo João Carvalho merecem bem ser vistas. Tal como merecem ser lidos o diálogo imaginado de Camilo a Eça urdido por Vasco da Graça Moura, os textos de José Eduardo Agualusa e de Hélia Correia e o belíssimo momento de Nelson Rodrigues.


OUVIR – As sonatas para piano nº 28, Opus 101, e nº 29, Opus 106, de Beethoven, na interpretação de Mitsuko Uchida, verdadeiramente arrebatadora. O «The Independent On Sunday» dizia que esta interpretação da pianista japonesa «é tão deslumbrante que parece que se estão a ouvir estas obras pela primeira vez». CD Philips, Universal Music.



PERGUNTANDO… O Dr. António Costa saberá quantas faixas de circulação úteis existem rotineiramente na Avenida João Crisóstomo? Já desistiu de pôr ordem no estacionamento caótico ou era apenas fogacho de início de mandato?


BACK TO BASICS – «Quando a investigação é mal feita ou os investigadores estão num beco sem saída, então todos os dias e a todas as horas aparecem informações ciurúrgicas, sempre absolvendo os investigadores (de incompetência, de ineficácia, de negligência) e quase sempre apontando a dedo os culpados de ocasião.» (António Marinho e Pinto, advogado).
BOM – O surgimento da edição portuguesa da revista «Time Out». Aqui está um guia que faltava, completo e transversal, que fazia falta desde que o «Se7e» acabou, um guia melhor que qualquer dos roteiros e suplementos que os diários generalistas publicam. Se os críticos das diversas áreas forem um bocadinho mais acutilantes e menos consensualistas os leitores ficarão ainda mais a ganhar.


MAU – O aumento da carga fiscal em Lisboa – que já é a cidade mais penalizada do país. Ser habitante de Lisboa quer dizer sofre muito, pagar e calar para se ter muito pouco em troca. A Câmara nem presta em condições os serviços mínimos que devia e agora António Costa adoptou a típica medida socialista: aumentar os impostos. Daqui a dois anos vamos ver quanto cortou na despesa e quanto aumentou na receita dos cidadãos. Contra isto é que não vejo o ex-activíssimo José Sá Fernandes insurgir-se e defender os direitos dos cidadãos, como tanto gosta de apregoar.


PÉSSIMO – Por mais que se queira entender, o programa de troca de seringas dentro das cadeias é o legitimar do tráfico de droga em estabelecimentos prisionais, debaixo do olhar dos guardas, num local onde o crime é suposto ser punido. Em vez de recuperação, a permissividade – eu sei, é mais fácil.


DESILUSÃO – O filme «O Capacete Dourado» de Jorge Cramez, mais uma oportunidade falhada no cinema português – à partida parecia haver tudo para funcionar – depois a narrativa perde-se, o argumento titubeia, os diálogos são desesperantes. Salva-se a interpretação de Eduardo Frazão no papel principal, mas o desempenho de Ana Moreira reforça a ideia de que é uma actriz demasiado repetitiva e sem capacidade de criação de personagens.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Eu achava que quando se deita uma moeda num parquímetro se estava a pagar à EMEL e à cidade, e não a uma rua em particular. Engano – detentor de de um bilhete válido por mais meia hora, coloquei o carro num outro local que não aquele onde tinha tirado o bilhete (ainda em validade de tempo) e eis que um pressuroso agente da EMEL me diz que tinha de pagar mais porque estava noutra zona. O dinheiro não vai para o mesmo cofre? Por acaso saí da cidade? Se isto não é roubo à mão armada, o que é?


PESADELO – Mário Soares elogia Hugo Chávez; Mário Soares revela-se intermediário de negócios petrolíferos da Galp com a Venezuela; Mário Soares é recebido por Cavaco Silva na companhia do Presidente da Galp. Tal está a molenga…


PETISCAR – Já aqui falei do tema, mas nunca é demais voltar ao convívio dos petiscos goeses do tradicional Sebastião (o homem do «Cantinho da Paz» e, desde há 35 anos, um pioneiro da boa comida indiana em Portugal), agora no Restaurante Casa de Goa, que fica na Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. A sala é boa, o serviço é atento, a qualidade e o tempero da comida são irrepreensíveis. Ainda por cima a Casa de Goa dispõe de estacionamento próprio, não há preocupações com parquímetros nem reboques, um alívio nesta cidade escravizada pela EMEL. Telefone 21 393 01 71.


LER – Isto nem é bem um livro, é mais um opúsculo, mas é delicioso. Reúne contos curtíssimos e divertidíssimos (além de muito bem escritos), da autoria de J. P. Simões, com desenhos deliciosos de André Carrilho. São 60 páginas de puro prazer, estas que compõem «O Vírus da Vida», uma edição da Sextante. J.P. Simões, recorda-se, é homem de vários talentos e foi a voz dos Bellechase Hotel antes de iniciar uma carreira a solo.


FOLHEAR – A edição de Setembro da revista «Egoísta» é dedicada ao sexo. Assim mesmo, sem rodeios. E embora não perceba porque é que uma edição com este tema abre com um escrito de Inês Pedrosa, tem que se reconhecer que as fotografias de Pedro Cláudio, Augusto Brázio, Luís de Barros, Sandra Rocha e sobretudo João Carvalho merecem bem ser vistas. Tal como merecem ser lidos o diálogo imaginado de Camilo a Eça urdido por Vasco da Graça Moura, os textos de José Eduardo Agualusa e de Hélia Correia e o belíssimo momento de Nelson Rodrigues.


OUVIR – As sonatas para piano nº 28, Opus 101, e nº 29, Opus 106, de Beethoven, na interpretação de Mitsuko Uchida, verdadeiramente arrebatadora. O «The Independent On Sunday» dizia que esta interpretação da pianista japonesa «é tão deslumbrante que parece que se estão a ouvir estas obras pela primeira vez». CD Philips, Universal Music.



PERGUNTANDO… O Dr. António Costa saberá quantas faixas de circulação úteis existem rotineiramente na Avenida João Crisóstomo? Já desistiu de pôr ordem no estacionamento caótico ou era apenas fogacho de início de mandato?


BACK TO BASICS – «Quando a investigação é mal feita ou os investigadores estão num beco sem saída, então todos os dias e a todas as horas aparecem informações ciurúrgicas, sempre absolvendo os investigadores (de incompetência, de ineficácia, de negligência) e quase sempre apontando a dedo os culpados de ocasião.» (António Marinho e Pinto, advogado).

setembro 28, 2007

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O CRITÉRIO EDITORIAL
A questão básica colocada pela atitude de Santana Lopes na SIC Notícias, na noite de quarta-feira, tem a ver exactamente com os termos em que se define a linha editorial de uma meio de comunicação que se apresenta como fazendo informação de referência.
Que Santana Lopes esteve bem é uma evidência - mas era bom que o assunto não ficasse esquecido e se debatesse o essencial da questão, que é o valor dos directos, a forma como são utilizados e o efeito que têm na informação.
Nos últimos anos a utilização de directos vulgarizou-se e isso não é bom. Pode dar muita imagem em movimento, mas é perigoso - um directo é uma possibilidade de manipular a informação e a opinião pública e não de fazer informação credível.
Vamos por partes - o jornalismo é basicamente intermediação. A evidência interessa pouco - é mais importante um relato que separe o trigo do joio, uma análise cuidada das forças em presença, a possibilidade de ouvir várias pesoas, qualificadas, sobre o mesmo tema. Os actuais directos não têm intgermediação - ou se têm é apenas electrónica, entre a câmara que capta e o receptor que recebe a imagem. E isto , por muito que custe a quem se mete nestas aventuras, não é jornalismo.
A mania dos directos é aliás responsável por essa anormalidade da vida mediática portuguesa que são as conferências de imprensa às oito da noite, para passarem em directo no Telejornal, ainda por cima estranhas conferências de imprensa - muitas delas anunciadas como sem direito a perguntas. Ou seja, trata-se de utilização de tempo de antena - sem querer exagerar é o mesmo comportamento de Hugo Chávez - quer falar sem ser interrompido, quando lhe dá mais jeito.
A opção de Santana Lopes, ao suspender a entrevista que estava a dar sobre a crise no PSD e o sistema partidário vem chamar a atenção para isto - o abuso dos directos irrelevantes, a prevalência do imediatismo sobre a reportagem, a apetência de muita comunicação pelo espectáculo, mesmo que seja vazio.
Um directo, infelizmente, não é uma reportagem na maior parte das vezes. De facto, é-o raramente. E o bom senso manda que a menos que haja uma catástrofe relevante, não se interrompa uma conversa sobre um tema sério. Não é só uma falta de respeito para com o entrevistado. É sobretudo uma enorme falta de respeito perante todos quantos estavam a seguir a emissão e queriam ouvir a entrevista. Nenhuma linha editorial deve violar a expectativa dos destinatários da mensagem, nem forçar uns temas por cima dos outros.
Mas isto é uma herança da prática «vamos até ao fim da rua, vamos até ao fim do mundo», que anda bem distante do jornalismo.
O CRITÉRIO EDITORIAL
A questão básica colocada pela atitude de Santana Lopes na SIC Notícias, na noite de quarta-feira, tem a ver exactamente com os termos em que se define a linha editorial de uma meio de comunicação que se apresenta como fazendo informação de referência.
Que Santana Lopes esteve bem é uma evidência - mas era bom que o assunto não ficasse esquecido e se debatesse o essencial da questão, que é o valor dos directos, a forma como são utilizados e o efeito que têm na informação.
Nos últimos anos a utilização de directos vulgarizou-se e isso não é bom. Pode dar muita imagem em movimento, mas é perigoso - um directo é uma possibilidade de manipular a informação e a opinião pública e não de fazer informação credível.
Vamos por partes - o jornalismo é basicamente intermediação. A evidência interessa pouco - é mais importante um relato que separe o trigo do joio, uma análise cuidada das forças em presença, a possibilidade de ouvir várias pesoas, qualificadas, sobre o mesmo tema. Os actuais directos não têm intgermediação - ou se têm é apenas electrónica, entre a câmara que capta e o receptor que recebe a imagem. E isto , por muito que custe a quem se mete nestas aventuras, não é jornalismo.
A mania dos directos é aliás responsável por essa anormalidade da vida mediática portuguesa que são as conferências de imprensa às oito da noite, para passarem em directo no Telejornal, ainda por cima estranhas conferências de imprensa - muitas delas anunciadas como sem direito a perguntas. Ou seja, trata-se de utilização de tempo de antena - sem querer exagerar é o mesmo comportamento de Hugo Chávez - quer falar sem ser interrompido, quando lhe dá mais jeito.
A opção de Santana Lopes, ao suspender a entrevista que estava a dar sobre a crise no PSD e o sistema partidário vem chamar a atenção para isto - o abuso dos directos irrelevantes, a prevalência do imediatismo sobre a reportagem, a apetência de muita comunicação pelo espectáculo, mesmo que seja vazio.
Um directo, infelizmente, não é uma reportagem na maior parte das vezes. De facto, é-o raramente. E o bom senso manda que a menos que haja uma catástrofe relevante, não se interrompa uma conversa sobre um tema sério. Não é só uma falta de respeito para com o entrevistado. É sobretudo uma enorme falta de respeito perante todos quantos estavam a seguir a emissão e queriam ouvir a entrevista. Nenhuma linha editorial deve violar a expectativa dos destinatários da mensagem, nem forçar uns temas por cima dos outros.
Mas isto é uma herança da prática «vamos até ao fim da rua, vamos até ao fim do mundo», que anda bem distante do jornalismo.

setembro 27, 2007

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DESFADOS
(publicado na edição de 26 de Setembro do diário «Meia Hora»

Anda por aí um grande alarido em torno de uma coisa chamada «Fados», uma operação propagandística impulsionada e protagonizada por Carlos do Carmo, que logrou um inusitado investimento público, à revelia de todas as regras vigentes em matéria de financiamento ao audiovisual, para conseguir um filme onde ele próprio brilhasse no papel de inspirador da obra. Para dar um ar cosmopolita à coisa arregimentou o sempre disponível Carlos Saura, que nos últimos anos se especializou em fazer bilhetes postais em torno de géneros musicais – primeiro o flamenco, depois o tango e, agora o fado. Claro que estes filmes não foram nem grátis nem rentáveis e claro que houve sempre vários poderes a pagar a factura, o que faz sentido por que na realidade eles foram usados essencialmente como peças propangandísticas. Pena é que o resultado final tenha sido sempre mais favorável a Saura e aos produtores que foram buscar os dinheiros públicos, do que aos países que financiaram a operação, e sobretudo, na realidade pouco fizeram a médio-longo prazo pelos géneros musicais cuja imagem no mundo se dizia irem exponenciar.

O mentor e os produtores do filme gabam-se de que ele estará colocado em duas dezenas de mercados e sublinham o enorme valor que isto tem para a divulgação da cultura portuguesa. Vamos por partes: primeiro é preciso ver que mercados são estes, em que circunstâncias vai o filme aparecer (para que audiências, em que circuitos, se estamos a falar de redes de salas de estreia, se salas e circuitos de filmes de autor, ou se de canais de televisão abertos; depois, é fundamental ver bem o que o filme é – e a esse nível as primeiras notícias são alarmantes na descaracterização, na falta de rigor, no facilitismo e até no pirosismo a que se recorreu.

No fundo a questão aqui é perceber se os tais imensos mercados onde dizem que o filme vai passar são relevantes em termos de audiência e, depois, se o produto e o seu conteúdo contribuem para afirmar a marca de Portugal e a sua cultura ou se apenas aumentam a confusão e a descaracterização. Do que li e ouvi, aposto que este é mais um caso de dinheiros públicos deitado à rua para satisfação de umas quantas vaidades e interesses pessoais.
DESFADOS
(publicado na edição de 26 de Setembro do diário «Meia Hora»

Anda por aí um grande alarido em torno de uma coisa chamada «Fados», uma operação propagandística impulsionada e protagonizada por Carlos do Carmo, que logrou um inusitado investimento público, à revelia de todas as regras vigentes em matéria de financiamento ao audiovisual, para conseguir um filme onde ele próprio brilhasse no papel de inspirador da obra. Para dar um ar cosmopolita à coisa arregimentou o sempre disponível Carlos Saura, que nos últimos anos se especializou em fazer bilhetes postais em torno de géneros musicais – primeiro o flamenco, depois o tango e, agora o fado. Claro que estes filmes não foram nem grátis nem rentáveis e claro que houve sempre vários poderes a pagar a factura, o que faz sentido por que na realidade eles foram usados essencialmente como peças propangandísticas. Pena é que o resultado final tenha sido sempre mais favorável a Saura e aos produtores que foram buscar os dinheiros públicos, do que aos países que financiaram a operação, e sobretudo, na realidade pouco fizeram a médio-longo prazo pelos géneros musicais cuja imagem no mundo se dizia irem exponenciar.

O mentor e os produtores do filme gabam-se de que ele estará colocado em duas dezenas de mercados e sublinham o enorme valor que isto tem para a divulgação da cultura portuguesa. Vamos por partes: primeiro é preciso ver que mercados são estes, em que circunstâncias vai o filme aparecer (para que audiências, em que circuitos, se estamos a falar de redes de salas de estreia, se salas e circuitos de filmes de autor, ou se de canais de televisão abertos; depois, é fundamental ver bem o que o filme é – e a esse nível as primeiras notícias são alarmantes na descaracterização, na falta de rigor, no facilitismo e até no pirosismo a que se recorreu.

No fundo a questão aqui é perceber se os tais imensos mercados onde dizem que o filme vai passar são relevantes em termos de audiência e, depois, se o produto e o seu conteúdo contribuem para afirmar a marca de Portugal e a sua cultura ou se apenas aumentam a confusão e a descaracterização. Do que li e ouvi, aposto que este é mais um caso de dinheiros públicos deitado à rua para satisfação de umas quantas vaidades e interesses pessoais.

setembro 24, 2007

BOM – O «New York Times» destacou esta semana um vinho português, o tinto «Padre Pedro» de 2002, da Casa Cadaval, considerando-o uma das cinco boas oportunidades do ano.


MAU – O fim da presença de António Sérgio na rádio e a extinção do seu programa «A Hora do Lobo», que passava na Comercial. É o terminar de um dos derradeiros programas de autor da rádio portuguesa, é o fim do tempo em que se podia ouvir um descobridor de sons e de músicas – o papel que o António Sérgio melhor cumpre. O serviço público de rádio encontraria um bocadinho de justificação para a sua existência (e para a cobrança de taxas na factura de electricidade), se desse aos ouvintes de António Sérgio a possibilidade de o poderem continuar a ouvir na rádio.


PÉSSIMO – Em vésperas de início efectivo do processo da Televisão Digital Terrestre o accionista Estado ainda não esclareceu que papel entende que a RTP deva desempenhar em tudo isto. E isso levanta as maiores suspeitas sobre a vontade de diminuir o peso do Estado na televisão do futuro e sobre a possibilidade de novos operadores entrarem em cena. O Ministro Santos Silva faria bem em esclarecer se acha que a RTP deve ter mais canais, os mesmos canais ou menos canais. E se o Governo tenciona permitir uma maior concorrência no sector.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Agentes da polícia a servirem de arrumadores de carros no anárquico largo do Tribunal da Boa Hora e a ficarem com as respectivas chaves, como se de um serviço de valet parking se tratasse.


PESADELO – Voar na TAP está a transformar-se num pesadelo. Esta semana calhou-me, num avião cheio, uma cadeira com um autêntico buraco no assento, que me fazia ficar inclinado e desconfortável. A sanduíche que foi servida era de fiambrino, um plastificado sucedâneo de fiambre, em pão elaborado numa fábrica de borracha. Mais valia não servirem nada e diminuírem o preço dos bilhetes para valores decentes.


PETISCAR – A La Gôndola é uma das mais antigas fábricas de conservas portuguesa, que data dos anos 40 do século passado. Situada em Perafita, Matosinhos, usa o método tradicional denominado “pré-cozido”, exclusivamente com peixe fresco, capturado nas épocas em que melhor realça o sabor e qualidade. Não é fácil encontrar, grande parte da produção vai para exportação (encontrei no google sites de Barcelona e dos Estados Unidos com elogiosas referências à marca). Nas boas lojas gourmet conseguem encontrar-se. As embalagens são só por si uma tentação – mas quando abrirem uma lata de petingas em azeite poderão perceber o que na verdade é um petisco.


LER – Não é muito frequente surgirem livros de poesia, de autores portugueses, que em cada página tragam uma revelação, que nos forcem a avançar de página para página, embrenhados no ritmo e nas palavras. «Senhor Fantasma», de Pedro Mexia, é um livro assim. É um livro de poesia que apetece devorar e, depois, ler e reler. Fica. Deixa marca. (edição Oceanos, 2007).


OUVIR – Maria Malibran foi uma das mais célebres cantoras de ópera da primeira metade do século XIX, aparentemente a mezzo-soprana preferida de Rossini para as suas óperas. De oridem espanholam, viveu uma vida agitada, encantou audiências de teatros em Londres, Filadélfia, Paris e por toda a Itália, fez escândalo e foi uma estrela da época. A sua carreira foi breve, uns dez anos – morreu cedo, no auge do talento. Muitos compositores escreveram para ela, aproveitando o potencial da sua voz, que alcançava uma extensão de praticamente três oitavas. Curiosamente uma das óperas que contribuíu para a sua fama foi expressamente escrita por ela por Giuseppe Persiani e conta a história de Inez de Castro. Cecília Bartoli é uma admiradora entusiasta de Maria Malibran e, a partir de partituras originais, reconstituíu algumas das árias que lhe deram maior fama e gravou-as com a Orchestra La Scintilla, dirigida por Adam Fischer. O registo está disponível em edições especiais – um livro sobre a história de Maria Malibran que inclui o CD e uma edição especial de grande formato, com reprroduções de documentos da época e que para além do CD integral inclui um DVD com um documentário sobre Bartoli e Malibran. (Edição Decca, 2007)



PERGUNTANDO… Que terá passado na cabeça de José Sócrates quando ouviu Bush elogiar e agradecer o apoio de Portugal aos Estados Unidos na invasão do Iraque?


BACK TO BASICS – «Em Portugal a justiça é uma máquina anquilosada, lenta e inconclusiva, incapaz de produzir provas e julgar em tempo útil, mais apropriada para triturar a paciência de um credor e a reputação de um inocente do que para fazer cumprir as obrigações e identificar responsáveis» - Carlos Pinto de Abreu, advogado, candidato à Presidência do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados.

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BOM – O «New York Times» destacou esta semana um vinho português, o tinto «Padre Pedro» de 2002, da Casa Cadaval, considerando-o uma das cinco boas oportunidades do ano.


MAU – O fim da presença de António Sérgio na rádio e a extinção do seu programa «A Hora do Lobo», que passava na Comercial. É o terminar de um dos derradeiros programas de autor da rádio portuguesa, é o fim do tempo em que se podia ouvir um descobridor de sons e de músicas – o papel que o António Sérgio melhor cumpre. O serviço público de rádio encontraria um bocadinho de justificação para a sua existência (e para a cobrança de taxas na factura de electricidade), se desse aos ouvintes de António Sérgio a possibilidade de o poderem continuar a ouvir na rádio.


PÉSSIMO – Em vésperas de início efectivo do processo da Televisão Digital Terrestre o accionista Estado ainda não esclareceu que papel entende que a RTP deva desempenhar em tudo isto. E isso levanta as maiores suspeitas sobre a vontade de diminuir o peso do Estado na televisão do futuro e sobre a possibilidade de novos operadores entrarem em cena. O Ministro Santos Silva faria bem em esclarecer se acha que a RTP deve ter mais canais, os mesmos canais ou menos canais. E se o Governo tenciona permitir uma maior concorrência no sector.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Agentes da polícia a servirem de arrumadores de carros no anárquico largo do Tribunal da Boa Hora e a ficarem com as respectivas chaves, como se de um serviço de valet parking se tratasse.


PESADELO – Voar na TAP está a transformar-se num pesadelo. Esta semana calhou-me, num avião cheio, uma cadeira com um autêntico buraco no assento, que me fazia ficar inclinado e desconfortável. A sanduíche que foi servida era de fiambrino, um plastificado sucedâneo de fiambre, em pão elaborado numa fábrica de borracha. Mais valia não servirem nada e diminuírem o preço dos bilhetes para valores decentes.


PETISCAR – A La Gôndola é uma das mais antigas fábricas de conservas portuguesa, que data dos anos 40 do século passado. Situada em Perafita, Matosinhos, usa o método tradicional denominado “pré-cozido”, exclusivamente com peixe fresco, capturado nas épocas em que melhor realça o sabor e qualidade. Não é fácil encontrar, grande parte da produção vai para exportação (encontrei no google sites de Barcelona e dos Estados Unidos com elogiosas referências à marca). Nas boas lojas gourmet conseguem encontrar-se. As embalagens são só por si uma tentação – mas quando abrirem uma lata de petingas em azeite poderão perceber o que na verdade é um petisco.


LER – Não é muito frequente surgirem livros de poesia, de autores portugueses, que em cada página tragam uma revelação, que nos forcem a avançar de página para página, embrenhados no ritmo e nas palavras. «Senhor Fantasma», de Pedro Mexia, é um livro assim. É um livro de poesia que apetece devorar e, depois, ler e reler. Fica. Deixa marca. (edição Oceanos, 2007).


OUVIR – Maria Malibran foi uma das mais célebres cantoras de ópera da primeira metade do século XIX, aparentemente a mezzo-soprana preferida de Rossini para as suas óperas. De oridem espanholam, viveu uma vida agitada, encantou audiências de teatros em Londres, Filadélfia, Paris e por toda a Itália, fez escândalo e foi uma estrela da época. A sua carreira foi breve, uns dez anos – morreu cedo, no auge do talento. Muitos compositores escreveram para ela, aproveitando o potencial da sua voz, que alcançava uma extensão de praticamente três oitavas. Curiosamente uma das óperas que contribuíu para a sua fama foi expressamente escrita por ela por Giuseppe Persiani e conta a história de Inez de Castro. Cecília Bartoli é uma admiradora entusiasta de Maria Malibran e, a partir de partituras originais, reconstituíu algumas das árias que lhe deram maior fama e gravou-as com a Orchestra La Scintilla, dirigida por Adam Fischer. O registo está disponível em edições especiais – um livro sobre a história de Maria Malibran que inclui o CD e uma edição especial de grande formato, com reprroduções de documentos da época e que para além do CD integral inclui um DVD com um documentário sobre Bartoli e Malibran. (Edição Decca, 2007)



PERGUNTANDO… Que terá passado na cabeça de José Sócrates quando ouviu Bush elogiar e agradecer o apoio de Portugal aos Estados Unidos na invasão do Iraque?


BACK TO BASICS – «Em Portugal a justiça é uma máquina anquilosada, lenta e inconclusiva, incapaz de produzir provas e julgar em tempo útil, mais apropriada para triturar a paciência de um credor e a reputação de um inocente do que para fazer cumprir as obrigações e identificar responsáveis» - Carlos Pinto de Abreu, advogado, candidato à Presidência do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados.

setembro 20, 2007

RECORDISTAS
(publicado do diário gratuto «Meia Hora» em 19 de Setembro)


Este ano Portugal corre o sério risco de se tornar o país da Comunidade Europeia com maior número de partos ocorridos em ambulâncias – é rara a semana em que não se tem notícia de mais um nascimento a meio de uma qualquer estrada entre uma terra onde antes existia uma maternidade, entretanto encerrada pelos diligentes serviços do Ministério da Saúde, e o hospital de destino.

Os mesmos diligentes serviços começaram agora a seguir a prática de contrariar as prescrições de médicos, quando lhes parece que os medicamentos receitados são de custo elevado. Na semana passada soube-se que os serviços administrativos de um Hospital haviam rejeitado uma recomendação médica sobre a utilização de um novo medicamento num paciente com cancro. Aqui há uns meses descobriu-se, da pior forma, que as juntas médicas eram dominadas por burocratas que nada sabiam de medicina e que ultrapassavam as recomendações médicas – o escândalo foi tal que o Governo teve de intervir. A predominância dos burocratas sobre os médicos no sistema de saúde do Estado arrisca-se a constituir outro triste recorde lusitano.

Mas estes diligentes serviços do Estado encontram muita ajuda dentro do sistema quando se trata de maltratar a vida e a saúde dos contribuintes. Há poucos dias atrás os familiares de um doente em estado grave chamaram a atenção para outro caso: a ambulância em que um doente seguia, aparentemente com uma ataque cardíaco, foi parada pela Brigada de Trânsito da GNR, que a terá imobilizado cerca de um quarto de hora fazendo uma fiscalização formal, apesar de avisada de que estava a ser transportado um doente em estado grave e situação de urgência. O doente veio a falecer à chegada ao hospital, o coração não resistiu e os seus familiares colocam a questão de saber se, caso a GNR não tivesse agido como agiu, se poderia ter salvo uma vida. Parece que a GNR queria confirmar se estava a ser feita uma utilização abusiva das luzes de emergência – e em vez de ter escoltado a ambulância ao hospital de destino e aí ter tirado as dúvidas, resolveu averiguar se o doente estava mesmo doente, ali no meio da estrada.

Eu, por mim, gostava que os inquéritos que devem ser levantados a casos destes tivessem conclusões rápidas publicamente divulgadas e culpados apontados a dedo e castigados. Mas Portugal também é o país recordista de inquéritos inconclusivos…

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RECORDISTAS
(publicado do diário gratuto «Meia Hora» em 19 de Setembro)


Este ano Portugal corre o sério risco de se tornar o país da Comunidade Europeia com maior número de partos ocorridos em ambulâncias – é rara a semana em que não se tem notícia de mais um nascimento a meio de uma qualquer estrada entre uma terra onde antes existia uma maternidade, entretanto encerrada pelos diligentes serviços do Ministério da Saúde, e o hospital de destino.

Os mesmos diligentes serviços começaram agora a seguir a prática de contrariar as prescrições de médicos, quando lhes parece que os medicamentos receitados são de custo elevado. Na semana passada soube-se que os serviços administrativos de um Hospital haviam rejeitado uma recomendação médica sobre a utilização de um novo medicamento num paciente com cancro. Aqui há uns meses descobriu-se, da pior forma, que as juntas médicas eram dominadas por burocratas que nada sabiam de medicina e que ultrapassavam as recomendações médicas – o escândalo foi tal que o Governo teve de intervir. A predominância dos burocratas sobre os médicos no sistema de saúde do Estado arrisca-se a constituir outro triste recorde lusitano.

Mas estes diligentes serviços do Estado encontram muita ajuda dentro do sistema quando se trata de maltratar a vida e a saúde dos contribuintes. Há poucos dias atrás os familiares de um doente em estado grave chamaram a atenção para outro caso: a ambulância em que um doente seguia, aparentemente com uma ataque cardíaco, foi parada pela Brigada de Trânsito da GNR, que a terá imobilizado cerca de um quarto de hora fazendo uma fiscalização formal, apesar de avisada de que estava a ser transportado um doente em estado grave e situação de urgência. O doente veio a falecer à chegada ao hospital, o coração não resistiu e os seus familiares colocam a questão de saber se, caso a GNR não tivesse agido como agiu, se poderia ter salvo uma vida. Parece que a GNR queria confirmar se estava a ser feita uma utilização abusiva das luzes de emergência – e em vez de ter escoltado a ambulância ao hospital de destino e aí ter tirado as dúvidas, resolveu averiguar se o doente estava mesmo doente, ali no meio da estrada.

Eu, por mim, gostava que os inquéritos que devem ser levantados a casos destes tivessem conclusões rápidas publicamente divulgadas e culpados apontados a dedo e castigados. Mas Portugal também é o país recordista de inquéritos inconclusivos…

setembro 17, 2007

BOM – A abertura de uma boa livraria no centro de Lisboa é sempre motivo de festa. Aqui se assinala a inauguração da «Pó dos Livros», no nº98 da Avenida Marquês de Tomar, um espaço amplo, bem arrumado, agradável e bem iluminado, com novidades editoriais portuguesas e também novidades importadas. Boa secção de fotografia e de banda desenhada.


MAU – Alguma coisa não funciona quando o próprio Ministro da Administração Interna é enganado pelas polícias, como aconteceu no caso do assalto à ourivesaria de Viana do Castelo.


PÉSSIMO – A habitual pantominice de Scolari deixou-se vencer pelos seus instintos mais básicos – agora pode fazer conferências sobre como dirigir homens ao estalo.


LISBOA – A Câmara Municipal devia garantir que os cidadãos que vivem e têm domicílio fiscal em Lisboa e que aí pagam imposto de circulação automóvel tivessem estacionamento gratuito à superfície em qualquer ponto da cidade que financiam; em contrapartida os não residentes deviam pagar, até mais do que agora se paga. Aqui estaria uma medida que defenderia os munícipes e que penalizaria a deslocação de veículos para a cidade, sem necessidade de evitar portagens. Dr. Costa, tem coragem para tanto?


PERGUNTANDO – Porque é que José Sócrates teve tanto empenho em receber o rocker reformado Bob Geldof e o seu Governo se esforçou por evitar o Dalai Lama?


O MUNDO AO CONTRÁRIO - O disco «A Música e a Guitarra», de Mário Pacheco, foi considerado pela revista britânica «Songlines» entre as dez melhores edições de world music de 2006. Esta semana tentei, sem sucesso, comprá-lo no «El Corte Inglês» e na FNAC do Chiado, as duas maiores discotecas de Lisboa. Não existia em nenhuma nem me sabiam dizer quando seria reposto. Fui à Amazon inglesa e lá estava o disco. Conclusão: para se comprar um disco português premiado o melhor é encomendá-lo do estrangeiro.


PETISCAR – Um bom prato de iscas à portuguesa (com elas) é das melhores coisas que me podem dar. Esta semana recordei como são excelentes no «Coelho da Rocha», em Campo de Ourique. São especiais: corte muito fino (como deve ser), mas depois disso cortadas em pedaços pequenos, quase farripas, bem temperadas e avinagradas no ponto certo. As «elas» são neste caso umas batatas fritas às rodelas de espessura média, mal passadas sem estarem cruas nem farinhentas. Uma delícia. Rua Coelho da Rocha nº104, Tel. 213900831.


LER – Shantideva foi um monge budista indiano do século VII, um príncipe que renunciou à coroa e entrou para a universidade budista de Nalanda onde por diversas razões se tornou motivo de chacota pelos seus pares. Para encurtar a história, os seus pares, que o julgavam incapaz, fizeram-lhe um desafio, convictos que Shantideva se iria ridicularizar. Em vez disso declamou-lhes um poema repleto de reflexão e ensinamentos e que havia de se afirmar um dos textos de referência do budismo, conhecido em português como «A Via do Bodhisattva». Por ocasião da visita do Dalai Lama a Portugal, acaba de ser editado pela Ésquilo, numa tradução de Paulo Borges e Rui Lopo, a partir da versão oficial inglesa do original em tibetano. Uma das citações mais conhecidas da obra é a estrofe 34, do capítulo IX, «Sabedoria»: «Quando algo e a sua não existência estão ambos ausentes da mente, nenhuma outra opção tem esta: chega a um perfeito repouso, livre de conceitos» - ou seja, há que deixar a mente tal como ela é, livre e sem entraves, solta do dogma da verdade única.


OUVIR – Volta e meia apetece-me voltar a ouvir alguns discos. Nestas últimas semanas tenho repetidamente posto a tocar «The Intimate Ella», um registo de gravações de Ella Fitzgerald em que a cantora é apenas acompanhada pelo piano de Paul Smith. Originalmente gravadas em 1960 e editadas como banda sonora do filme «Let No Man Write My Epitaph» (um filme menor, que não fez história, sobre o mundo da droga e a corrupção), estas 13 canções são interpretações invulgarmente intimistas, muitas vezes melancólicas até. Estes temas foram editados em CD sob a designação «The Intimate Ella» em 1990 e entre eles estão grandes clássicos como «Angel Eyes», «I Cant’t Give You Anything But Love, Baby», «My Melancholy baby», «Misty», «September Song» e «Reach For Tomorrow», entre outras. Por curiosidade o ano original de edição do disco, que na altura passou despercebido, é o mesmo do célebre «Ela In Berlin», uma gravação ao vivo que recebeu dois Grammies e em que Paul Smith também acompanha Ella. CD Verve, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – Toda a alegria que o mundo contém / Veio por desejar felicidade para os outros. / Toda a aflição que o mundo contém / Veio por querer o prazer para si mesmo. (Shantideva)

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BOM – A abertura de uma boa livraria no centro de Lisboa é sempre motivo de festa. Aqui se assinala a inauguração da «Pó dos Livros», no nº98 da Avenida Marquês de Tomar, um espaço amplo, bem arrumado, agradável e bem iluminado, com novidades editoriais portuguesas e também novidades importadas. Boa secção de fotografia e de banda desenhada.


MAU – Alguma coisa não funciona quando o próprio Ministro da Administração Interna é enganado pelas polícias, como aconteceu no caso do assalto à ourivesaria de Viana do Castelo.


PÉSSIMO – A habitual pantominice de Scolari deixou-se vencer pelos seus instintos mais básicos – agora pode fazer conferências sobre como dirigir homens ao estalo.


LISBOA – A Câmara Municipal devia garantir que os cidadãos que vivem e têm domicílio fiscal em Lisboa e que aí pagam imposto de circulação automóvel tivessem estacionamento gratuito à superfície em qualquer ponto da cidade que financiam; em contrapartida os não residentes deviam pagar, até mais do que agora se paga. Aqui estaria uma medida que defenderia os munícipes e que penalizaria a deslocação de veículos para a cidade, sem necessidade de evitar portagens. Dr. Costa, tem coragem para tanto?


PERGUNTANDO – Porque é que José Sócrates teve tanto empenho em receber o rocker reformado Bob Geldof e o seu Governo se esforçou por evitar o Dalai Lama?


O MUNDO AO CONTRÁRIO - O disco «A Música e a Guitarra», de Mário Pacheco, foi considerado pela revista britânica «Songlines» entre as dez melhores edições de world music de 2006. Esta semana tentei, sem sucesso, comprá-lo no «El Corte Inglês» e na FNAC do Chiado, as duas maiores discotecas de Lisboa. Não existia em nenhuma nem me sabiam dizer quando seria reposto. Fui à Amazon inglesa e lá estava o disco. Conclusão: para se comprar um disco português premiado o melhor é encomendá-lo do estrangeiro.


PETISCAR – Um bom prato de iscas à portuguesa (com elas) é das melhores coisas que me podem dar. Esta semana recordei como são excelentes no «Coelho da Rocha», em Campo de Ourique. São especiais: corte muito fino (como deve ser), mas depois disso cortadas em pedaços pequenos, quase farripas, bem temperadas e avinagradas no ponto certo. As «elas» são neste caso umas batatas fritas às rodelas de espessura média, mal passadas sem estarem cruas nem farinhentas. Uma delícia. Rua Coelho da Rocha nº104, Tel. 213900831.


LER – Shantideva foi um monge budista indiano do século VII, um príncipe que renunciou à coroa e entrou para a universidade budista de Nalanda onde por diversas razões se tornou motivo de chacota pelos seus pares. Para encurtar a história, os seus pares, que o julgavam incapaz, fizeram-lhe um desafio, convictos que Shantideva se iria ridicularizar. Em vez disso declamou-lhes um poema repleto de reflexão e ensinamentos e que havia de se afirmar um dos textos de referência do budismo, conhecido em português como «A Via do Bodhisattva». Por ocasião da visita do Dalai Lama a Portugal, acaba de ser editado pela Ésquilo, numa tradução de Paulo Borges e Rui Lopo, a partir da versão oficial inglesa do original em tibetano. Uma das citações mais conhecidas da obra é a estrofe 34, do capítulo IX, «Sabedoria»: «Quando algo e a sua não existência estão ambos ausentes da mente, nenhuma outra opção tem esta: chega a um perfeito repouso, livre de conceitos» - ou seja, há que deixar a mente tal como ela é, livre e sem entraves, solta do dogma da verdade única.


OUVIR – Volta e meia apetece-me voltar a ouvir alguns discos. Nestas últimas semanas tenho repetidamente posto a tocar «The Intimate Ella», um registo de gravações de Ella Fitzgerald em que a cantora é apenas acompanhada pelo piano de Paul Smith. Originalmente gravadas em 1960 e editadas como banda sonora do filme «Let No Man Write My Epitaph» (um filme menor, que não fez história, sobre o mundo da droga e a corrupção), estas 13 canções são interpretações invulgarmente intimistas, muitas vezes melancólicas até. Estes temas foram editados em CD sob a designação «The Intimate Ella» em 1990 e entre eles estão grandes clássicos como «Angel Eyes», «I Cant’t Give You Anything But Love, Baby», «My Melancholy baby», «Misty», «September Song» e «Reach For Tomorrow», entre outras. Por curiosidade o ano original de edição do disco, que na altura passou despercebido, é o mesmo do célebre «Ela In Berlin», uma gravação ao vivo que recebeu dois Grammies e em que Paul Smith também acompanha Ella. CD Verve, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – Toda a alegria que o mundo contém / Veio por desejar felicidade para os outros. / Toda a aflição que o mundo contém / Veio por querer o prazer para si mesmo. (Shantideva)