A PAISAGEM DEVASTADA - O PSD foi a Congresso uns dias depois de Hugo Soares ter anunciado que metera o Chega no bolso e um dia depois de o Chega o ter desmentido. Este é o estado do país que temos, mas, pior um pouco, o retrato do partido que nos governa, dividido entre a participação do estado em empresas privadas e reformas por fazer em sectores cruciais como justiça, saúde ou educação. Este PSD, tem no comando descendentes e cúmplices de Rui Rio, gente que andou anos a manipular votos partidários e cujo programa é apenas tomar o poder, conservá-lo e distribuir prebendas. As medidas que tomam são pensadas em termos de captação de eleitores, não há uma estratégia para o país. Na semana passada Montenegro anunciou num discurso em Aljustrel que a saúde financeira de Portugal faz com que outros países da União Europeia fiquem verdes de inveja. Não mencionou o facto de o poder de compra das famílias portuguesas ser o 6º mais reduzido da UE ou de o PIB per capita português em 2025 ter sido inferior ao de países como a Eslovénia, Chéquia, Estónia e Lituânia e menos de metade do PIB per capita da Dinamarca e Países Baixos. Também não referiu que a inflação já vai a 3,3% e que os custos de energia e de comida estão respectivamente 13,1% e 36% acima dos valores de 2022. Esqueceu-se de dizer que o custo da habitação mais que duplicou na maior parte das cidades portuguesas desde 2017 e que Lisboa é a capital de um país da União Europeia onde o custo da habitação ocupa a maior fatia do rendimento dos arrendatários com um salário médio. Também não refere que um em cada três portugueses está abaixo do limiar da pobreza quando se consideram os custos de habitação. Não recorda que os excedentes orçamentais se devem à política de cortes nos serviços públicos iniciada por Centeno no Governo do PS e que este PSD tem mantido, até ao ponto de se passar o que conhecemos no funcionamento da administração e serviços públicos. Vista de cima a economia parece uma linda paisagem, mas quando se desce à terra e se tem de viver com salários baixos essa paisagem fica devastada.
SEMANADA - Em 2025, a produtividade por hora foi 66,8% da média europeia, um valor abaixo do obtido em 2024; actualmente a esperança de vida à nascença em Portugal é de 81,8 anos, um aumento de 1,28 anos na última década; 58% das crianças até aos 3 anos estão em creches e amas, muito acima da média europeia, que é de 40,5%, passando muito menos tempo com os pais do que em outros países da UE; famílias sobre endividadas estão a pedir cada vez mais crédito pessoal para fazer face as despesas básicas; este ano já morreram quatro crianças vítimas de violência doméstica; segundo o INE, em final de 2025 havia 11,4 milhões de residentes em Portugal, 14% dos quais estrangeiros e a idade mediana da população aumentou para 45,8 anos; no aeroporto de Lisboa o número de passageiros que entram no país de origens não Schengen é já superior ao total de passageiros de cidadãos que vêem do espaço Schengen; até ao passado dia 10 de junho o filme português mais visto do ano foi ‘Projecto Global’ de Ivo M. Ferreira, com 9600 espectadores desde a estreia no final de Abril; os 29 filmes portugueses que já passaram pelas salas em 2026 conseguiram um total de 51 655 espectadores; as receitas de jogo online cresceram 13,7% no primeiro trimestre para 323,7 milhões de euros; o número de reclamações sobre o funcionamento de TVDE’s e táxis em 2025 aumentou 25% em relação ao ano anterior; no Algarve vão abrir 13 novos hotéis de luxo nos próximos três anos; o valor médio do crédito à habitação duplicou nos últimos dez anos.
O ARCO DA VELHA - Os adolescentes portugueses estão entre os que mais tempo gastam na União Europeia à frente de ecrãs durante o fim de semana, acima das seis horas.
A FORÇA DA PALAVRA - Jenny Holzer é uma artista americana que usa a linguagem - as letras e as palavras - como suporte das suas obras que surgem quase como slogans. O seu percurso artístico data de finais dos anos 70, ganhou notoriedade nos anos 80 e é centrado em encontrar formas de difusão das suas frases em ambiente público que levem quem as vê a pensar no significado que podem ter. Distinguiu-se por usar suportes normalmente associados à publicidade, como cartazes de rua, inscrições electrónicas em ecrãs LED, sites da internet, inscrições em pedra ou bronze e projecções de grande dimensão. Mas também colocou as suas palavras na Internet, em t-shirts do actor Will Smith e até num automóvel de competição da BMW, a pedido da marca. A obra de Jenny Holzer é apresentada pela primeira vez em Serralves com a exposição “Wrong Answers”, que vai estar patente até 1 de Novembro, e que teve curadoria de Philippe Vergne, o Director do Museu de Serralves que está de saída para o Bass Museum of Art em Miami. “Wrong Answers” percorre a trajetória da carreira de Holzer, desde as primeiras séries de textos, como “Inflammatory Essays”, até às explorações mais recentes usando diversos materiais e formas, A exposição inclui duas colaborações com o artista de graffiti portuense Kilos, que trabalhou sobre os cartazes de “Truism,” a obra que marcou o início da carreira artística de Holzer de 1977 a 1979. Utilizando preferencialmente letras maiúsculas e frases curtas, Holzer demonstra como as palavras podem amplificar percepções e atitudes, mas também perder o seu valor e impacto quando se vulgarizam. A exposição apresenta algumas das séries mais famosas de Holzer como as já citadas “Truisms”, e “Inflammatory Essays” e outras mais recentes como “Living”, “Survival” ou “Laments”.
ROTEIRO - No Palácio Duques de Cadaval, em Évora, está patente a exposição “Índia”, que apresenta 90 obras, de mais de 20 artistas indianos contemporâneos provenientes dos mais diversos contextos culturais e que pode ser vista até 25 de Outubro. Na imagem está uma obra de T. Venkanna, “Fruitless”, de 2019. Com curadoria de Hervé Perdriolle, a exposição leva até ao Palácio Duques de Cadaval um diálogo entre culturas e teve o apoio, de entre outras entidades, da Kalhath Foundation, da Embaixada da Índia em Portugal e da Embaixada de Portugal na Índia. A exposição pode ser visitada até 25 de Novembro no Palácio Duques de Cadaval, Rua Augusto Filipe Simões, Évora, de terça a domingo entre as 10 e as 18h. Em Lisboa a galeria Narrativa (Rua Doutor Gama Barros 60, junto à Avenida de Roma) apresenta até 1 de Agosto a exposição de fotografia “Maputo Diary” , um testemunho sobre o dia a dia na capital moçambicana feito ao longo de duas décadas pela pela fotógrafa e cineasta dinamarquesa Ditte Haarløv Johnsen.
UM GUIA DO MUNDO - Este é um dos mais deliciosos livros que li nos últimos tempos e um dos que me mais me ensinou. Chama-se “Atlas de Lugares em Extinção” e leva-nos a conhecer, com textos, mapas e ilustrações, cidades soterradas sob a poeira de terras ou submersas em rios e mares que alteraram a paisagem ao seu redor, por lugares que aparentemente desapareceram, sem deixar vestígios, depois de uma catástrofe natural, de uma guerra ou da erosão natural do tempo e da demografia. O livro está dividido em várias secções: “Cidades Antigas” evoca por exemplo Xanadu, na Mongólia, nas “Terras Esquecidas” está a Cidade dos leões, na China, em “Locais Em Contracção” está o Rio Danúbio, na Europa e em “Mundos Ameaçados” surge Veneza e a Grande Muralha da China. Ao todo são descritos 37 locais que nos apetece conhecer à medida que se lê este livro. “Atlas de Lugares Em Extinção” foi Vencedor do Prémio de Livro Ilustrado do Ano pelo Edward Stanford Travel Writing Awards 2020 e o seu autor, Travis Elborough, um escritor britânico, mostra esses locais como eles eram antigamente e como eles se revelam hoje: um guia fascinante de terras perdidas que nos fala sobre a fragilidade da nossa relação com o mundo e a história. Com o autor visitamos cidades antigas – entre elas Alexandria, um dos berços da humanidade, a cidade maia de Palenque, um centro de civilização e poder, ou Petra, na Jordânia, que John William Burgon descreveu como «uma cidade rosa e vermelha tão velha quanto o tempo» – mergulhamos em mistérios como o de uma ilha japonesa desaparecida e exploramos terras esquecidas como Port Royal, na Jamaica, a «Cidade Mais Perversa do Mundo». Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA -Dois momentos e duas visões bem diversas de europas, elas próprias bem diferentes. Jaime Nogueira Pinto propõe no seu novo livro, “Valores Europeus”, uma revisitação de três milénios de percurso europeu para tentar responder a uma questão que é cada vez mais enigmática: o que são hoje os muito invocados valores europeus? O ensaísta passa pela mitologia, o império Romano, a idade média, o pensamento de nomes como Maquiavel, Shakespeare, Cervantes e Camões, a revolução francesa, o fascismo, o comunismo, as batalhas actuais entre soberanistas e globalistas, populistas e tecnocratas, a tensão entre a fé, pertença e liberdade individual, percorrendo as referências que fizeram da Europa um espaço único. Edição D. Quixote. O outro livro aborda uma época da História da Europa, o conflito entre Cartago e o Império Romano. Eve Mac Donald, Professora de História Antiga em Cardiff escreveu “Cartago, O Império Que Desafiou Roma”. A autora defende que sem Cartago, reino do Norte de África, Roma não teria existido com o poder que teve. O livro ajuda a perceber como era Cartago, uma civilização injustamente esquecida, e guia-nos com informações sobre a sua significação política, económica e cultural. A vitória de Roma apagou a história dos cartagineses, essa civilização, defende a autora, injustamente esquecida. Um livro Bertrand editora.
ALMANAQUE - Até 27 de Setembro, se for a Madrid, não deixe de visitar “Prado, Siglo XXI”, a exposição criada para mostrar o que o célebre museu fez nos últimos 25 anos, desde novas obras que adquiriu até à evolução permanente evidenciada através das suas exposições. A mostra está centrada em apresentar o progresso que o Prado fez desde que em 2003 foi aprovada a sua autonomia de funcionamento. Um bom exemplo que há muito se reivindica que seja seguido em Portugal.
DIXIT - “Futebol e língua estão ligados pela combinação de um falso patriotismo que contém apenas a boçalidade do momento, e que se extingue quando se perde um jogo” - José Pacheco Pereira
BACK TO BASICS - “Se a vida nos dá limões, o melhor é aprendermos a fazer limonada” - provérbio cubano, citado pelo escritor Leonardo Padura no seu livro “Morrer na Praia”.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
