Quando percorro devagar as estradas estreitas do interior gosto de ver a paisagem, a linha do horizonte desenhada pelas árvores, pelos desníveis do terreno, pelos arbustos e folhagens, pelas mil e uma coisas que existem à nossa volta e que muitas vezes não vemos. Aqui e ali saltam pedras que marcam a terra de forma única. Volta e meia páro para as ver mais de perto. Quando se olha com atenção para pedras de grandes dimensões, como esta, tem-se a sensação de que elas têm dentro de si a sabedoria do mundo. São testemunhas do passar do tempo. À sua volta tudo muda, mas elas continuam a marcar o espaço, a sinalizar o território. São como faróis, dão-nos um ponto de referência, obrigam a estrada a contorná-las, ficam ali vigilantes. Sócrates, o filósofo grego e não qualquer outro, dizia que nós, em vez de tropeçarmos nas pedras que aparecem no caminho, as devíamos usar para construir escadas que nos levem onde desejamos. O filósofo está pois sintonizado com aqueles que dizem que as pedras simbolizam resistência e superação dos obstáculos. Existe nas pedras uma beleza selvagem, quer estejam em bruto quer depois, quando são trabalhadas, e são parte de algo de novo. Há uma frase, frequentemente citada, que resume a situação: “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo".
(os pensamentos ociosos estão semanalmente em sapo.pt)