abril 30, 2026

COMO CONTORNAR A CENSURA

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INFORMAÇÃO E PROPAGANDA - Em Lisboa, num dos pavilhões da Mitra, está patente a exposição “Armas de Papel”, dedicada à imprensa e publicações clandestinas do período entre 1926 e 1974, ou seja todo o tempo que durou a ditadura do Estado Novo. Algumas pessoas poderão querer reduzir os materiais expostos a exemplos de propaganda oposicionista e partidária e até poderão argumentar que não havia falta de jornais legais nessa época: em Abril de 1974 existiam mais de uma dezena de jornais diários em Lisboa e no Porto, outros tantos periódicos por todo o país (entre eles o mais antigo jornal português, fundado em 1835, o Açoriano Oriental, um dos dez mais antigos do mundo). E havia uma dezena de estações de rádio, entre as do Estado, da Igreja e as próximas do regime, mas apenas um canal de televisão, também do Estado. O problema é que mesmo os jornais diários e publicações semanais mais ligados à ala liberal do regime no tempo do Marcelismo (como o Expresso)  ou à oposição (como o República), só eram publicados depois de serem visados pela censura e com os cortes que o lápis azul dos censores impunha. Isto aplicava-se também aos noticiários da rádio e da televisão, às canções que podiam passar ou aos filmes exibidos. Ou seja, apenas circulava a informação que o regime considerava inofensiva, o que desde logo eliminava notícias sobre greves, protestos, presos políticos, manifestações, protestos estudantis, a guerra colonial ou até catástrofes como as cheias de 1967. A censura não se limitava a cortar texto, afiava a sua tesoura em cima de fotografias que de algum modo pudessem pôr em causa o regime - como aconteceu nas campanhas eleitorais de Norton de Matos, Humberto Delgado e, depois, nas campanhas eleitorais de 1969 e 1972 ou no funeral do estudante Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE em Outubro de 1972 dentro de instalações universitárias. A imprensa e as publicações clandestinas tinham um papel importante: não se limitavam a divulgar ideologia ou manifestos políticos, eram a forma de dar nota do que se passava no país e não era mostrado, davam sinal da existência de oposição, relatavam, sobretudo nas publicações feitas na emigração, a realidade sobre a guerra colonial. Muitas vezes eram feitas de forma rudimentar - e esta exposição “Armas de Papel”, promovida pelo Arquivo Ephemera, mostra exemplos de aparelhos utilizados para imprimir jornais e panfletos, relata formas de distribuição usadas e dá uma boa ideia sobre a maneira como em circunstâncias difíceis, e muitas vezes arriscadas, se mostrava o que o regime queria esconder. Até 30 de Junho, na Mitra, de sexta a domingo entre as 10 e as 18.


 


SEMANADA - Entre 2021 e 2025, morreram 328 doentes enquanto aguardavam por cirurgia cardíaca; no final do primeiro trimestre mais de 2800 pessoas estavam internadas nos hospitais sem razão clínica, ocupando quase 14% do total de camas; estes internamentos indevidos custam mais de 350 milhões de euros por ano ao SNS; em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos cresceu respectivamente 82% e 72%; em 2025 foram dispensadas por dia, em Portugal continental, cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos, totalizando quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década, com encargos do SNS a rondar os 152 milhões de euros; há acusações de violência doméstica paradas há mais de um ano nos tribunais sem serem investigadas e julgadas; segundo a Comissão Europeia os portugueses afirmam poupar mensalmente 9,5 horas a executar tarefas profissionais graças à utilização de ferramentas de IA e a média da UE é de 7,4 horas; a Entidade para a Transparência só fiscalizou 10% das declarações de políticos entregues até 2026, apenas 883 das 8620 declarações de rendimentos, património e incompatibilidades recebidas entre 2024 e 2025; o Ministério Público só conseguiu analisar 1,6% das comunicações sobre suspeitas de branqueamento de capitais que recebeu.


 


O ARCO DA VELHA - Cerca de 20 mil clientes ainda estão sem serviços fixos de comunicações, três meses após a depressão ‘Kristin’ ter atingido o País, revelou a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) à Lusa. 


 


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UM CRIME NO FIORDE - Os policiais da islandesa Yrsa Sigurdardóttir são tão apaixonantes quanto retorcidos e este seu novo livro, “Não Podes Fugir, Não Podes Esconder-te” é dos mais intrincados mistérios que tenho lido desta autora. A história arrepia desde o início: numa fria noite de inverno, num remoto e isolado fiorde islandês, um vizinho vai a casa de uma família que não é vista há uma semana. Ninguém atende quando ele bate à porta. Quando consegue entrar à força pela porta das traseiras depara-se com uma cena macabra - toda a gente morta de forma particularmente violenta. À medida que a investigação avança descobrem-se segredos cada vez mais perturbadores sobre a família que tinha acabado de se fixar naquele lugar isolado depois de vender a sua empresa de IA por milhões de dólares. Sigurðardóttir alterna capítulos entre o presente e acontecimentos do passado, descreve personagens sinistras, alimenta suspeitas, relata incidentes perturbadores. A busca pelo assassino é longa, as pistas apontam em várias direcções. Pelo meio há uma fortuna desaparecida, a suspeita de que foi transformada em criptomoedas e a descoberta do autor dos crimes acaba por acontecer no meio de um novelo de pistas cruzadas. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - Tristan Gooley é um explorador que participa em expedições por todo o mundo e dedica a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza. Em  “Como Ler Uma Árvore”, o autor explica que  cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa planta e a paisagem onde vive. A BBC chamou a Tristan Gooley “ o Sherlock Holmes da natureza” e este seu livro permite entrar na arte de interpretar os sinais da natureza. (Edição Pergaminho). Outro livro revelador sobre o mundo que nos rodeia é “A Árvore da Vida”, de Max Telford. O autor leva os leitores por uma viagem de quatro mil milhões de anos pela evolução do nosso planeta e conta a história da gigantesca árvore genealógica que regista as relações entre todos os seres vivos: dos humanos, dos peixes e das borboletas até aos carvalhos, aos cogumelos e às bactérias. Ajuda a compreender como surgiu a diversidade da vida na Terra, desde os primeiros esboços de Darwin até aos diagramas gerados por computador que os cientistas constroem na atualidade. (Edição Temas & Debates).


 


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SAXOFONE - O trio de saxofone tenor, baixo e bateria é uma das formações clássicas do jazz, explorada por nomes como Sonny Rollins ou Joe Henderson. Em 2018 Walter Smith III, um saxofonista norte-americano, lançou o primeiro volume de “Twio”. Surge agora o segundo volume e ao lado de Smith estão o baixista Joe Sanders e o baterista Kendrick Scott, com participações nalgumas faixas do baixista Ron Carter e do saxofonista Branford Marsalis. O álbum tem dez temas, e, como o próprio Walter Smith III afirma, escolheu standards pouco conhecidos, preferindo a aventura da descoberta à rotina de revisitar evidências. Destaque para”My Ideal”, uma versão instrumental de uma balada cantada por Chet Baker, para o solo de Ron Carter em “Casual-Lee” , a interpretação de Smith no tema “Isfahan” de Billy Strayhorn and Duke Ellington  ou ainda a forma como os saxofones de Smith e Marsalis se cruzam num tema composto por este último, “Swingin’At The Haven”. O resultado é um álbum apaixonante, uma harmonia perfeita dos músicos e um swing contagiante. Edição Blue Note disponível em streaming.


 


IMG_0681.jpegO MUZEU DE BRAGA - Desde a semana passada a cidade de Barga, que já tem uma actividade cultural intensa, passou a ter um espaço dedicado à arte contemporânea, cujo custo, de 40 milhões de euros, foi inteiramente assumido pela DST, uma das grandes empresas da cidade, dirigida por José Teixeira. Ao longo de 40 anos reuniu uma colecção com 1500 obras de arte de 250 artistas nacionais e estrangeiros. O novo equipamento chama-se Muzeu e está instalado no centro da cidade, num antigo Tribunal, recuperado com um projecto do arquitecto José Carvalho de Araújo. Uma das atracções do Muzeu é uma sala dedicada a Anselm Kiefer e, na fotografia desta página está “Sol Invictus”, uma evocação de Van Gogh, frequente no trabalho de Kiefer. Esta sala mostra  outras quatro pinturas, duas esculturas e uma fotografia do artista, que até aqui estava ausente com esta dimensão de colecções portuguesas. Nos portugueses há uma nova série de 18 obras de Pedro Cabrita Reis, “After Velásquez & Maybee Bacon”, além de obras de José Pedro Croft, Rui Chafes, Paula Rego, Alberto Carneiro, Lourdes Castro, Miguel Palma, René Bertholo, Ângelo de Sousa, Álvaro Lapa, Helena Almeida, Ângela Ferreira e Sandra Baía. Nos internacionais, além de Kiefer, há trabalhos de Julian Opie, Nan Goldin, Candida Höfer, Andre Butzer, Jason Martin, Miguel Rio Branco, Richard Long ou Alex Katz, entre outros. Esta exposição inaugural do Muzeu, concebida pela sua directora, Helena Mendes Pereira, ocupa quatro pisos expositivos, soma mais de cem obras de 96 artistas — 40 portugueses e 56 internacionais — e ficará patente até 23 de outubro de 2027. 


 


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O PORTUGAL DE TODD WEBB - Um dos grandes fotógrafos norte-americanos, Todd Webb (1905-2000), visitou Portugal em três ocasiões entre 1972 e 1982. Recentemente, o Todd Webb Archive doou o espólio português do fotógrafo à Fundação Gulbenkian, que agora mostra essas imagens na Galeria do Piso Inferior da Fundação até 27 de Julho. A exposição – a primeira de Webb  em Portugal, inclui a totalidade das suas fotografias portuguesas, acompanhada de dois pequenos núcleos dos seus trabalhos sobre Nova Iorque e a África subsaariana. As sessenta e uma provas fotográficas doadas, cobrem Portugal de Sul a Norte. Jorge Calado, que fez a  curadoria da exposição e que ao longo dos anos foi acompanhando o trabalho de Webb. Calado foi ainda decisivo na doação das fotografias portuguesas de Webb à Gulbenkian e no catálogo da exposição sublinha: “Webb era um fotógrafo humanista, implicado na humanidade de tudo o que observava”, destacando a atracção do fotógrafo pela arquitectura, traduzida pela “sua quase obsessão com ruas estreitas e afuniladas e com arcos, arcadas e portas” que fotografou em Portugal. 


 


DIXIT - “A Democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas” - António Barreto, no Público.


 


BACK TO BASICS - “É fácil ser-se corajoso mantendo uma distância segura” - Ésopo.


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




abril 25, 2026

SOBRE AS CORES COMO FORMA DE EXPRESSÃO 

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Quando dizemos que todas as terras, países e continentes são diferentes não falamos apenas das paisagens, das pessoas que os habitam, das árvores, plantas e animais que fazem parte da natureza em cada local. Uma das coisas que muda de forma evidente está bem à vista de todos: as cores são diferentes, a sua intensidade e brilho são diferentes, o modo como se conjugam nas mais comuns coisas do dia a dia mudam de sítio para sítio. Eu gosto de ver as mudanças de cor, de como se passa de uma terra cinzenta para uma explosão de tonalidades. Fico a pensar se estas explosões de cor não serão manchas de compensação pela monotonia das vidas, pelas paisagens desertas, pelos tons uniformes dos edifícios. Estas cores intensas serão talvez o escape da vida sempre igual, mas tornam se elas próprias monótonas. Podem surpreender o visitante ocasional mas são o cenário constante de quem vive rodeado por elas. Será que quem as vive diariamente nota a diferença de civilizações que as cores explosivas testemunham? Darão aos jogos geométricos desenhados pelas cores a mesma atenção que os forasteiros lhes consagram? Nunca saberei responder a estas questões mas sou capaz de observar que a intensidade das cores é acompanhada muitas vezes nestas terras do norte de África pela intensidade e volume das vozes. Aqui parece que se grita como forma de vida. O excesso faz parte da vida e aqui ele tem vários expoentes. Quem terá mais razão- os cinzentos e silenciosos ou os policromáticos ruidosos?


 


Os pensamentos são publicados semanalmente em sapo.pt)




abril 24, 2026

FICAR CALADO NÃO É SOLUÇÃO

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A POLÍTICA DO LUME BRANDO - Quando se coloca uma panela cheia de água com um sapo lá dentro, em lume brando, o animal não dá pelo aumento da temperatura até ser demasiado tarde. É exactamente o que está a acontecer um pouco por todo o mundo em termos políticos. Aproveitando a democracia liberal, desenvolveu-se e cresceu uma geração de políticos iliberais que todos os dias dão mostras de fazer uma revisão da história e querer tomar o poder para subverterem e limitarem a democracia que os acolheu. A história é conhecida. Depois da derrota do nazismo o pastor luterano alemão Martin Niemöller fez uma série de palestras nas quais confessou publicamente a sua inação e indiferença perante o destino de muitas das vítimas dos nazis. Nessas palestras explicou que, nos primeiros anos do regime de Hitler, permaneceu em silêncio enquanto os nazis perseguiam outros alemães, muitos deles membros de movimentos políticos de esquerda, a cuja ideologia Niemöller se opunha - até que ele próprio foi preso e detido em campos de concentração onde esteve entre 1937 e 1945. Uma das suas palestras mais conhecidas é esta: “Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Em seguida, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender." As palavras de Niemöller merecem ser lembradas porque chamam a atenção para a necessidade de resistir, denunciar, não pactuar com quem quer perseguir etnias, impor a sua verdade acima das outras, condicionar o pensamento e perseguir e insultar quem a eles se opõe. É certo que o dramaturgo britânico George Bernard Shaw alertou para os perigos de lutas com javardos:  “nunca lutes com um porco, ficas todo sujo e o porco gosta”. Mas mais vale ficar sujo numa luta do que ficar calado e encolher os ombros face ao que se passa à nossa volta. E termino com palavras de Bob Dylan: “Para mim um herói é alguém que compreende o grau de responsabilidade que acompanha a sua própria liberdade.” 


 


SEMANADA - A linha nacional de prevenção de suicídios já atendeu mais de 14 mil chamadas desde que começou a funcionar, em 10 de Setembro, de 2025, a maior parte delas feitas por jovens entre os 18 e 29 anos e mulheres; No primeiro trimestre deste ano estavam a funcionar 482 salas de cinema em Portugal, uma redução de perto de uma centena face a 2025; na época 24-25 os clubes de futebol gastaram 17,4 milhões de euros na segurança dos jogos nos seus estádios; o valor da água que é anualmente desperdiçada em Portugal devido a rupturas, fugas ou avarias é de cerca de 158 milhões de euros por ano; segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária 137 pessoas morreram entre 1 de janeiro e 9 de abril, mais 36% do que no período homólogo de 2025;  no mesmo período ocorreram 42 212 sinistros, mais 14,4% do que no ano passado; no final de 2025 havia 731 pessoas presas por crimes rodoviários;  as viaturas de emergência médica estiveram paradas mais de dez mil horas por falta de médicos, um aumento de 32% em relação ao ano anterior; só 17% das instituições superiores que usam IA no ensino definiram regras claras sobre a sua utilização em contexto escolar.


 


O ARCO DA VELHA - A estátua da escritora e deputada do PSD  Natália Correia, na Graça, em Lisboa, foi vandalizada com cruzes suásticas pintadas sobre a cara da poeta.


 


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FOTOGRAFIAS E HISTÓRIAS  - João Miguel Barros, advogado, fotógrafo, fundador da galeria Ochre, editor, organizador de exposições e divulgador da fotografia japonesa e chinesa em Portugal, e da portuguesa em Macau e na China, apresenta na galeria Lumina, “À Distância de Um Braço”, um conjunto de trabalhos organizado em curtas narrativas fotográficas e que percorrem várias áreas e épocas da sua fotografia. No texto que escrevi para esta exposição sublinho que “o trabalho fotográfico de João Miguel Barros não é fruto do improviso, nem obra do momento. Surge na sequência de um cuidado processo de estudo e compreensão dos temas, lugares e circunstâncias que quer fotografar, depois de ter escolhido o assunto. João Miguel Barros não encena as fotografias, mas prepara o seu olhar, documentando-se sobre o que deseja ver e como o quer mostrar, quer recolhendo informação, quer quase pré-visualizando o que depois vai fotografar. Na realidade ele não faz fotografias isoladas, conta histórias através da fotografia”. E, mais adiante:”desde as imagens mais cruas às mais introspectivas, há um ponto comum que é um mesmo olhar, uma mesma forma de mostrar, evidente na escolha dos enquadramentos, no preto e branco intenso e, no caso desta exposição, no cuidado colocado na apresentação e colocação das fotografias”. De facto a montagem é invulgar, cenografada, não se limitando a colocar imagens na parede mas fazendo da parede parte da exposição. Em simultâneo a Lumina apresenta “Arquitectura de Uma Flor”, esculturas de Paulo Canilhas. ( Aberto de quarta a sábado, das 15 às 19. Rua Actor Vale 53A)


 


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ROTEIRO - Sob o tema “Segurar, dar, receber (To hold, to give, to receive)”, a bienal Anozero de 2026, decorre em Coimbra até 5 de Julho, sempre com entrada gratuita, em vários espaços como o Edifício Chiado, a Sala da Cidade, o Convento São Francisco e o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que volta a assumir-se como o seu núcleo central. Estão patentes obras de artistas como Nan Goldin, Mário Macilau (na imagem uma fotografia de sua autoria), Chantal Akerman, Lina Bo Bardi, Rui Chafes,  Shilpa Gupta e João Salema, entre outros. A escolha das exposições foi feita pelos curadores Hans Ibelings e John Zeppetelli e pelo curador assistente Daniel Madeira. Em Lisboa, no Arquivo Fotográfico Municipal, três novas exposições até 19 de Setembro: uma delas assinala o centenário de Gérard Castello Lopes e mostra trabalhos seus feitos entre 1956 e 2005, representativos das diversas etapas do seu percurso artístico;  outra exposição no mesmo local  apresenta 50 provas de época de fotografias de Lisboa por George Dassaud feitas em 1985, 1993 e 2002, sob o título “de Lisboa para ti”; finalmente, também no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246), é apresentada uma nova exposição de Rita Barros, “Hyperosmic”, com uma série fotográfica inédita e um livro de artista sobre como os estímulos ambientais interferem na memória, no corpo e na relação com o espaço.


 


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UMA HISTÓRIA DE VIDA - “Pão de Anjos” é o novo livro de Patti Smith, originalmente editado em 2025 sob o título “Bread  Of Angels”,  apresentado como uma viagem pelas suas memórias. Não é a primeira vez que Patti Smith revisita o seu passado:  “Just Kids”, de 2010, igualmente editado em Portugal sob o título “Apenas Miúdos”, estava centrado sobretudo na relação que a cantora teve com Robert Mapplethorpe e o seu círculo de amizades e cumplicidades de então. Mas neste “Pão de Anjos” Patti Smith vai até às memórias com a sua família na infância e juventude e sobretudo na sua vida com Freddy “Sonic” Smith, o lendário guitarrista dos MC5, uma banda histórica de Detroit, morto precocemente aos 46 anos, com quem se casou e teve dois filhos. O livro, muito intimista, é marcado pelas mortes dos mais próximos:«Todos estão mortos, tudo foi esquecido, ecoa uma voz. Inventario os que ainda me acompanham». Mas lança uma luz sobre a sua adolescência, quando descobriu a poesia de Rimbaud e, mais tarde, a obra de Bob Dylan. “Pão de Anjos” (que tem uma magnífica tradução de João Pedro Vala) acompanha o percurso musical e artístico de Patti Smith, evocando as suas canções, os concertos que lhe deixaram uma marca e a mais recente fase da sua carreira, com novas digressões, lugares que vai descobrindo e releituras que realiza, como a de James Joyce. O livro está cheio de fotografias, intercaladas no texto - a fotografia tem aliás marcado a sua vida, através das polaroids que foi fazendo desde 1996 e que são como que um diário. Há uma frase, já no final do livro, que sintetiza a Patti Smith de hoje e a forma como ela vê o mundo: “Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial”. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - O novo livro de Rui Couceiro, “A Mais Bela Maldição, Histórias de Gente Apaixonada por Livros” é um mapa de personagens fascinantes, desde um livreiro da medina de Rabat, a um ex-recluso norte-americano que criou mais de quinhentas bibliotecas em prisões, um pastor alemão que salvou de uma lixeira na antiga RDA cerca de 80 mil livros e guardou-os na paróquia que dirigia, passando pela italiana que abriu uma livraria numa aldeia de 180 habitantes que entretanto se tornou num pólo de atracção ou o advogado brasileiro que construiu o seu próprio museu pessoano. São duzentas páginas de dez histórias fascinantes que fazem crescer ainda mais o amor pelos livros, pela mão da Porto Editora. E por falar nisso outra obra que vem a calhar, foi agora oportunamente editada pela Guerra & Paz: “Elogio da Leitura”, um texto escrito por Marcel Proust como prefácio à sua própria tradução de um livro de John Ruskin,  “Sesame and Lilies”, em 1906. Na realidade este é um ensaio sobre o valor da leitura e o papel transformador que os livros podem ter e é considerado um dos mais belos textos de Proust e descreve as alegrias e desafios que a literatura oferece, assim como o poder que um livro tem de moldar a nossa visão de nós mesmos, dos outros e do mundo.


 


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DISCO DA SEMANA -Natascia Gazzana no violino e Raffaela Gazzana no piano têm construído uma sólida reputação como intérpretes, através do seu Duo Gazzana. Depois de terem trabalhado obras de Robert Schumann, Edvard Grieg e Tõnu Kõrvits, as duas irmãs italianas dedicaram-se agora à música de Sergei Prokofiev, Arvo Pärt e Alfred Schnittke, criando um espaço musical e uma sonoridade invulgar através das interpretações que fazem. De Prokofiev escolheram a Sonata no.1, op.80 e as Five Melodies op.35a; de Arvo Part”Spiegel im Spiegel” e de Schnittke a peça “Gratulationsrondo “. Edição ECM.


DIXIT - “A questão de defrontar directamente os adversários só tem sentido quando se está numa fase de crescimento de partidos e movimentos hostis à democracia e não quando já tomaram o poder. Nessa altura a resposta a dar é de outra natureza.” - José Pacheco Pereira , no Público 


BACK TO BASICS -   “A liberdade é algo de valor inestimável” - Cícero 


 


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abril 18, 2026

OS CONTENTORES

 


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Ali ao fundo, depois dos mastros dos veleiros, os contentores dominam o horizonte. Imagino que tenha sido num passeio por uma paisagem destas que os Xutos & Pontapés tenham criado um dos seus hinos, “Contentores”, uma canção do disco “Circo de Feras”, de 1987. A canção começa assim, deixando entendido que nos contentores em causa a carga não é a habitual: “A carga pronta metida nos contentores/Adeus oh meus amores que me vou/P'ra outro mundo”. E logo a seguir a explicação da viagem, o porquê da decisão: “É uma escolha que se faz


O passado foi lá atrás”. Ou seja, uma canção de mudar de vida. Os portos são sempre pontos de passagem, locais de embarque e desembarque, não há como enganar. Quando se sai de um porto que acontece? “Mudarão todas as cores/Rugem baixinho os motores/E numa força invencível/Deixo a cidade natal”. A canção dos Xutos ganhou força por causa do ritmo da música, mas também pela intensidade das  palavras, por esta força invencível que nos leva a querer partir e  mudar o mundo, ou, também, mudar de mundo. Talvez por isso tornou-se o hino de uma geração, uma declaração de princípios. A canção não é sobre o facto de os contentores marítimos serem fundamentais para o comércio global, movimentando cerca de 80-90% das mercadorias mundiais. A canção é sobre largarmos bagagem, sairmos do conforto e procurarmos a mudança, arriscar viver outra vida. Fico a olhar para a imagem do porto, os contentores lá ao fundo, e a ouvir a canção. E, como tantas vezes acontece com as grandes canções, esta é também o retrato de um tempo.


(Pensamentos Ociosos em sapo.pt)


 

abril 17, 2026

QUANDO O PODER TEM A TENTAÇÃO DE ESCONDER

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NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA - Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara de Coimbra, tinha construído um perfil político simpático, mostrou competência em diversos assuntos e aparentemente não se esquivava a um debate - veja-se o bate-boca com um Ministro depois das tempestades do início deste ano. Na semana passada deitou tudo a perder quando proclamou publicamente que retirava a confiança a um jornalista da Lusa que havia feito uma notícia desfavorável para a Câmara a que ela preside.  O comportamento de Abrunhosa reflecte aquilo a que infelizmente se tem assistido, cada vez com maior frequência, por parte de responsáveis políticos na sua relação com os media. A autarca incomodou-se com o facto de uma notícia ter sido divulgada sem a posição da Câmara - mas esqueceu-se que, interrogados pelo jornalista, os serviços da autarquia não responderam durante uma série de dias e foram dizendo que mais à frente responderiam, não o tendo feito em tempo útil. O jornalista publicou a notícia e informou que a autarquia, contactada, não tinha respondido, o que é verdade. Na realidade Ana Abrunhosa entende que pode controlar o timing de publicação da notícia e que, no seu entender, as notícias deviam esperar pelo seu aval. Cada vez mais frequentemente muitos políticos, a começar pelos membros do Governo e em particular o Primeiro Ministro, mas também líderes da oposição, querem usar os jornalistas como meros amplificadores das suas palavras. A proliferação de conferências de imprensa e declarações sem direito a perguntas tem vindo a acentuar-se, e é uma prova do receio de que questões incómodas possam estragar a declaração cuidadosamente preparada para transmitir uma impressão positiva. E Leitão Amaro até se propõe, disfarçadamente, rastrear a actividade de jornalistas incómodos para o Governo. O comportamento de Ana Abrunhosa é semelhante: gostaria de não ter perguntas incómodas a que responder. Abrunhosa, ex-Ministra de Costa e eleita pelo PS em Coimbra, tem esta atitude bizarra de “retirar a confiança” a um jornalista da Lusa precisamente quando o futuro da governação da Agência de Notícias é tema de divergência entre o PSD e o PS. Os socialistas temem uma instrumentalização do noticiário da agência pelo Governo, mas uma sua destacada militante pretende fazer isso mesmo na sua esfera local, pretendendo ser ela a ditar a forma de proceder dos jornalistas. Informar, por muito que custe, é relatar o que se passa, quer o que se passa bem, quer o que se passa mal. Há quem não goste disto, talvez qualquer dia fiquem a falar sozinhos para cadeiras vazias -  e é bem feito!


SEMANADA - Em 2025 as fraudes com criptomoedas atingiram quase 15 milhões de euros; 17% dos jovens entre 15 e 34 anos desempenham funções fora da sua área de formação, a segunda maior percentagem na UE; os crimes de natureza sexual contra menores subiram 85% entre 2022 e 2025; um quinto dos arguidos por violação tem menos de 20 anos; entre 27 de Março e 6 de Abril, no período da Páscoa, foram registadas pela PSP 430 ocorrências de violência doméstica e detidos 19 suspeitos da prática desse crime; no ano passado os portugueses apostaram 3.143 milhões de euros em jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma média de 8,6 milhões por dia; a “raspadinha” já representa 60% das vendas brutas de jogo da Santa Casa; os dados divulgados no Portal da Transparência do SNS mostram que no final de janeiro havia 10 746 324 inscritos nos cuidados de saúde primários, mais 231 404 que em janeiro de 2025; no ano passado quase metade da população residente em Portugal com 16 ou mais anos afirmou ter uma doença crónica ou problema de saúde prolongado, o que coloca Portugal, neste índice, como o terceiro pior entre os 27 países da União Europeia; a urgência do Hospital Amadora Sintra perdeu metade dos médicos desde o ano passado;


O ARCO DA VELHA - O fisco pretende que as indemnizações às vítimas de abusos sexuais praticados por membros da Igreja Católica estejam sujeitas a IRS.


 


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ARTES & MODAS - Até 21 de Junho, na Galeria principal do Museu Calouste Gulbenkian, criações de moda de grandes estilistas estão em confronto com obras da Colecção Gulbenkian. Ao longo da exposição, uma selecção de obras de arte, do Antigo Egito ao século XX, surge lado a lado com peças assinadas por Dior, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Versace, Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Hubert de Givenchy, Azzedine Alaïa e, no panorama nacional, por criadores como Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar. Assim se cruzam a pintura clássica com o design contemporâneo e o vestuário, permitindo encontrar paralelos e evoluções. A exposição Arte & Moda tem curadoria de Eloy Martínez de la Pera Celada e integra as comemorações do 70.º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian. Na imagem, uma fotografia de Jon Cazenave, mostra uma Cómoda da autoria de Jean Deforges, do século XVIII, em carvalho e ébano, laca japonesa, bronze e mármore junto a um vestido de Nuno Baltazar, em tule e malha de fibra artificial e lantejoulas, da colecção do Museu do Traje, de Lisboa.


 


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ROTEIRO - No Museu do Caramulo pode ser vista a exposição “White Box #1: Intervalos”, que assinala a  conclusão da primeira de três residências artísticas que compõem o ciclo White Box, um programa de criação contemporânea que se estenderá até 2028. Com curadoria de José Maçãs de Carvalho, artista e director do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, a exposição reúne obras originais de Daniela Krtsch (na imagem), João Fonte Santa, Fabrizio Matos e Catarina Leitão. Os artistas trabalharam localmente na Serra do Caramulo, junto das  colecções do museu com o objectivo de criar obras que estabelecem novas leituras sobre o acervo existente na instituição. No Porto, no Centro Português de Fotografia, podem ser vistas três exposições: uma antologia da fotógrafa norte-americana Vivian Maier, uma retrospectiva do trabalho de Louise Samson sobre a presença cigana em Portugal, entre 1983 e 2023 e “África Vista Por Duas Gerações”, de Ernst Schade e Carol Alexander Schade. Em Lisboa, na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Bárbara Faden apresenta desenhos e pinturas sob o título “Solta Azul, Céu da Boca”. No Linhó, perto de Sintra, a Albuquerque Foundation apresenta, além da sua colecção permanente,  “Nature Boy”, que reúne pinturas e cerâmicas de Phoebe Collings‑James.


 


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MEMÓRIAS LISBOETAS  - Depois de ter recordado a Lisboa dos anos 60, 70 e 80, Joana Stichini Vilela mergulhou agora na Lisboa dos anos 90, mais uma vez em colaboração com Pedro Fernandes. Como em edições anteriores, Joana Stichini Vilela faz a investigação e escreve e Pedro Fernandes cria o grafismo e combina as imagens que acompanham o texto. Cada livro é um trabalho a quatro mãos que consegue transformar um puzzle de informação dispersa num objecto de leitura com pés e cabeça.  "LX 90- A Lisboa Em Que Tudo É Posível" começa com o lançamento do diário “Público” e termina com os receios do Bug do Milénio, o caos anunciado na transição do século XX para o XXI. Pelo meio ficam a morte de Amália Rodrigues, o caso da Universidade Moderna, a Expo 98, o Lux Frágil, a feijoada de inauguração da Ponte Vasco da Gama, os Governos de Cavaco e de Guterres, o bloqueio da Ponte 25 de Abril, a Lisboa Capital Cultural, em 94, a música dos Excesso e o explodir de Pedro Abrunhosa, os telefones Nokia, o Centro Comercial Colombo, o CCB e a presidência portuguesa da União Europeia, o nascimento da televisão privada, a campanha de solidariedade com Timor e o barco Lusitânia Expresso, a chegada da McDonald’s, a estreia de “Passa Por Mim no Rossio” no Teatro Nacional, os primeiros filmes de Pedro Costa e de Teresa Villaverde, o Alcântara-Mar e o Johnny Guitar, a revista Kapa e os Rolling Stones em Alvalade. 280 páginas de memórias bem lembradas em texto, grafismo e imagem. Edição D. Quixote.


 


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MESA DE CABECEIRA -A recente missão da Artemis I  à volta da Lua é um bom pretexto para ler “A Teoria de Tudo”, de Stephen Hawking, uma viagem pelo universo e pelos limites do conhecimento humano. Hawking, o  físico que desvendou os segredos dos buracos negros e da origem do universo,  tem a capacidade rara de transformar conceitos complexos em descobertas acessíveis. O livro começa pela história das teorias do universo de Aristóteles, que afirmou que a Terra era redonda, e prossegue até à descoberta de Hubble de que o universo se encontra em expansão. Como começou tudo? - esta é a pergunta a que Hawking tenta responder nesta obra, uma edição Gradiva. Outro autor, Tristan Gooley, apelidado de Sherlock Holmes da natureza, escreveu o magnífico “Como Ler Uma Árvore”. Segundo o autor, cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa árvore e a paisagem em que nos encontramos. “Como Ler Uma Árvore” revela os princípios simples que explicam as formas e os padrões que podemos encontrar nas árvores e o seu significado. Tristan Gooley dedicou a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza e, depois de aprender a ver as pistas que a natureza lhe dá, nunca mais vai olhar para uma árvore da mesma maneira. Uma  edição Pergaminho.


 


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TRIO INVULGAR - O primeiro disco do trio composto por Craig Taborn no piano, Tomeka Reid, Tomeka Reid no violoncelo e Ches Smith na percussão e bateria chama-se “Dream Archives” e percorre numerosos ambientes sonoros que vão desde ritmos de dança a melodias suaves, numa mistura arriscada de jazz contemporâneo, música de câmara e electrónica, num trabalho de arranjos invulgar. Com quatro originais compostos por Taborn e versões de “Mumbo Jumbo” de Paul Motian e de “When Kabuya Dances”, de Geri Allen, esta última a merecer destaque especial. A forma como o violoncelo é tocado, para formar a secção rítmica com a percussão, é invulgar e merece uma audição atenta. Edição ECM disponível em streaming.


ALMANAQUE - Na Fundação Louis Vuitton, em Paris, poderá ver até 16 de Agosto uma grande exposição dedicada à obra de Alexander Calder, o autor quer de esculturas monumentais, quer de pequenas peças abstractas que exploram  possibilidades de movimento. Com cerca de 300 obras, “Calder, Rêver en Equilibre” é a maior exposição do seu legado.


DIXIT - “Esta guerra está a ser travada dentro do ambiente mediático mais tóxico de que há memória e que ninguém consegue, ou deseja, travar” - Clara Ferreira Alves, no Expresso


BACK TO BASICS -  “Nunca anunciei o inferno, apenas falei verdade e acharam que eu estava a falar do inferno” - Harry S. Truman



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abril 11, 2026

O ENCANTO DO ESMALTE

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Confesso-me devoto de utensílios de cozinha. Percorro deliciado lojas com esse material e nas feiras demoro-me nas bancas que os apresentam como velharias. Muitos estão em óptimo estado e só me apetece levá-los para casa. Vejam este conjunto de três peças de esmalte, uma concha de sopa, um escorredor e um coador, cores vivas, branco e encarnado, feitos de um material fantástico, entretanto caído em desuso, que é o esmalte. Foram encontrados numa feira de velharias.Nas lojas de utensílios novos não se vêem cores assim - abunda o metal nu, o plástico cinzento, coisas que tiram brilho às cozinhas. A verdade verdadinha é que prefiro uma colher de pau a uma colher de plástico. As colheres de pau não se destinam apenas a mexer o cozinhado, na verdade são objectos multifunções, servem para as mais variadas coisas, basta deixar correr a imaginação. Na cozinha defendo-as e, pensem o que quiserem, mas prefiro trabalhar um ovo mexido com uma colher de pau do que com uma espátula de plástico. Nos mercados tradicionais ainda é possível encontrar esmaltes, colheres de pau, almofarizes de madeira, assadeiras de barro e um sem número de outros utensílios pré-bimby e micro-ondas. Coisas verdadeiras para fazer cozinhados autênticos. Alguma razão há-de haver para a caríssima panela Le Creuset ser ferro coberto a esmalte. Alguma razão deve haver para as frigideiras de ferro e esmalte serem um dos melhores utensílios para fazer cozinhados que precisam de ir ao forno depois de estarem ao lume. Tenho utensílios de cozinha que têm dezenas de anos e não me consigo separar deles, por mais gastos e usados que estejam. Não consigo entender como alguém trocou estas peças de esmalte por bugiganga plástica.


(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)




abril 10, 2026

PONTO DE SITUAÇÃO EM AUDIÊNCIAS E PUBLICIDADE

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AUDIÊNCIAS E PUBLICIDADE - Com o primeiro trimestre do ano concluído, como vão as audiências de televisão? A TVI liderou no mês de Janeiro, a SIC liderou no mês de Fevereiro e os dois canais estiveram praticamente empatados em Março. A RTP1 ficou em terceiro lugar com 11,2% de share de audiências, que compara com 14,3% da TVI e SIC. Nas 13 semanas deste trimestre a SIC liderou em oito e a TVI em cinco. Os programas mais vistos do ano até agora foram as transmissões de jogos da Taça de Portugal pela RTP1, seguidos por “Secret Story”, a final do Euro de Futsal entre Portugal e a Espanha, “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” e “O Preço Certo”. A noite eleitoral da primeira volta das presidenciais ficou num modesto 23º lugar da lista dos 50 mais vistos dos canais generalistas. Na lista dos 50 programas mais vistos do cabo há uma curiosidade: 49 foram transmitidos pela CMTV e um pela CNN. Se olharmos para os canais de cabo, a liderança é do CMTV, seguido pela CNN, SIC Notícias, NOW e Globo empatados, e só depois a RTP Notícias. De audiências estamos conversados. E, de mercado publicitário, essa consequência directa das audiências, como vão  as coisas? Falando apenas de televisão, em 2025 voltou a registar-se uma ligeira queda do volume de investimento dos anunciantes. Os canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) captaram quase 33 % do total do investimento dos anunciantes e os canais de cabo cerca de 13%. Em termos de comparação, o digital significou cerca de 31% e foi o segundo meio mais procurado. A seguir vieram o outdoor com quase 16%, rádio com mais de 5% e a imprensa, que em tempos era o segundo meio mais procurado pelos anunciantes, com apenas 1,4% do total. Em 2025 o investimento publicitário do mercado português cresceu 4%. Vamos ver como evolui este ano com a instabilidade internacional - mas no final de Fevereiro, antes de começar a guerra no Irão, os anunciantes já tinham colocado mais 10% do investimento que colocaram no mesmo período do ano passado.


 


SEMANADA - Na semana antes da Páscoa a ASAE desmantelou dois matadouros clandestinos com ligações a estabelecimentos de restauração e de comércio de carnes e apreendeu 2,200 quilos de carcaças de animais, maioritariamente ovinos e caprinos;  Portugal vai ter um corte de 12% no próximo orçamento da União Europeia; 70% dos dividendos entregues por empresas cotadas na Bolsa nacional vão para fora de Portugal; a linha de prevenção do suicídio teve 12 mil chamadas em seis meses; em 2025 passaram na ponte 25 de Abril mais de 54 milhões de veículos, o valor mais alto da última década; segundo a comissão europeia a habitação está sobrevalorizada em  35% em Portgal; os crimes graves desceram nas três maiores cidades do país mas cresceram no interior, em 11 dos 18 distritos; os cigarros mal apagados estiveram na origem de quase um quinto da área ardida em Portugal em 2025, o valor mais elevado dos últimos 15 anos, tendo dado origem a 281 incêndios florestais, que destruíram mais de 47 mil hectares de floresta e zonas rurais; nas cadeias portuguesas, em dezembro de 2025, havia 2374 reclusos de 86 nacionalidades diferentes; na Operação Páscoa foram registados  cerca de 2.300 acidentes, dos quais resultaram 18 vítimas mortais e perto de 800 feridos; a PSP e a GNR detectaram mais de 630 condutores com excesso de alcool, 294 com falta de carta de condução e 1480 em excesso de velocidade; as vendas de carros eletrificados em Portugal dispararam 27,5% em março e 35% no primeiro trimestre, num contexto em que os preços dos combustíveis estão em alta devido à guerra no Irão.


 


O ARCO DA VELHA - Em dois anos 81% dos cibercrimes reportados acabaram arquivados devido à inexistência de recursos técnicos e humanos para a sua investigação.


 


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UM OLHAR TRABALHADO   - “Fernando Lemos: a Luz do Olhar” é o título de uma exposição que evoca o centenário de Fernando Lemos e que está patente até 8 de Novembro em Évora, no Centro de Arte e  Cultura da Fundação Eugénio de Almeida (Largo do Conde de Vila Flor). Esta exposição apresenta exclusivamente fotografias da coleção da Fundação Cupertino de Miranda, realizadas entre 1949 e 1952, um período decisivo e fundador da obra artística de Fernando Lemos,  e que constitui um dos núcleos mais  importantes da fotografia portuguesa do Século XX.  Este núcleo fotográfico desenvolveu-se paralelamente à intensa participação de Fernando Lemos no movimento surrealista português, nomeadamente no período que antecedeu a exposição de 1952, com Vespeira e Azevedo na Casa Jalco, e a sua partida para o Brasil, em 1953. Fernando Lemos foi uma figura incontornável da Arte Portuguesa do século XX, viveu entre 1926 e 2019, ano em que morreu em São Paulo. As fotografias de Fernando Lemos fogem à lógica do registo de momentos e são fruto de”encenações do inconsciente e do desejo, lugares onde a luz e a sombra se tornam instrumentos de pensamento.”, Estas imagens, sublinha-se no texto que acompanha a exposição, comissariada por Marlene Oliveira,  “resultam de um equilíbrio subtil entre o impulso e o controlo, entre o inconsciente e a consciência crítica.”


 


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ROTEIRO - Inês Moura (Prémio BES Revelação 2009), combina a fotografia, o desenho, a escrita, a colagem ou a escultura nos seus trabalhos. Nesta exposição “Carvão”, parte de um pequeno resíduo carbonizado de madeira (na imagem) para mostrar o que pode extrair em forma de imagem - sobretudo com recurso a fotografia e desenho. A ligação à natureza é um dado constante da sua obra e volta a ser o ponto central desta nova exposição que fica na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) até final de Maio, juntamente com uma instalação “Começo, meio e começo”, de Ânia Pais, que de alguma forma se cruza com o trabalho de Inês Moura. No Museu Nacional de Arte Contemporânea pode ser visitada até 26 de Abril “Oferta”, a primeira exposição individual de Jaime Welsh num museu. A partir da arquitetura monumental do Estado Novo, marcada por uma forte carga política e por uma linguagem formal rigorosa, Welsh abordou com as suas fotografias encenadas e construídas, três edifícios centrais do modernismo em Portugal: o Banco Nacional Ultramarino, a Reitoria da Universidade de Lisboa e a Biblioteca Nacional de Portugal. 


 


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UMA LIÇÃO SOBRE A ARTE - “Toda A  Beleza do Mundo” é dos mais  fascinantes livros que recentemente me passaram pelas mãos. O autor, Patrick Bringley, trabalhou na área de eventos da revista “The New Yorker” e quando o irmão mais velho morreu, aos 26 anos, decidiu largar tudo e começar uma nova vida. Essa vida foi a de vigilante no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque , onde esteve durante dez anos. Foi para lá propositadamente porque queria estar rodeado de coisas bonitas. Muito bem escrito, o livro tem sido um sucesso editorial em todo o mundo e o Sunday Times considerou-o ”o livro de arte mais notável do ano” quando foi editado, em 2023. Bringley leva-nos por todos os recantos dos museus, apresenta-nos algumas das maiores obras de arte do mundo, relata conversas com visitantes, lembra perguntas que lhe faziam. Já no fim do livro, ele deixa este recado aos visitantes: “se possível venha de manhã, quando o museu está mais calmo e, no início, não diga nada a ninguém, nem mesmo a um vigilante. Olhe para as obras de arte com os olhos abertos, pacientes e receptivos, e dê tempo a si próprio para descobrir os seus pormenores, bem como a sua presença global, a sua totalidade. Poderá não ter palavras para descrever as suas sensações, mas tente reparar nelas na mesma. Esperemos que, no silêncio e na quietude, experimente algo de invulgar ou inesperado. Aprenda tudo o que conseguir sobre o criador, a cultura e o significado pretendido de um objecto - normalmente um processo que nos torna mais humildes”. Edição Minotauro.


 


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MESA DE CABECEIRA - Patrícia Reis pôs-se à conversa com o arquitecto Álvaro Siza Vieira e o resultado é  o livro “A Última Lição de Álvaro Siza Vieira”. Este trabalho é o resultado de várias conversas onde Siza fala das suas origens, de como se apaixonou pela arquitectura, a sua  paixão pelo desenho e a escultura,  o gosto que tem em ensinar, a vida familiar, o impacto da tecnologia na sua profissão, a religião e a política. Pelo meio fala do seu plano de reconstrução do Chiado depois do Incêndio e também do trabalho que fez para a Expo 98 e do Pavilhão de Portugal e confessa que não se revê no que a Reitoria da Universidade de Lisboa fez ao edifício. É uma bela conversa, na colecção “A Última Lição”, da editora Contraponto. A vida de Marie Curie é o tema de um outro livro, escrito por Dava Sobel, uma jornalista que se especializou em temas científicos. “Os Elementos de Marie Curie” foi considerado um dos melhores livros de ciência do ano pelo jornal britânico The Guardian em 2024 e permite traçar um bom retrato de Marie Curie, a única laureada com o Prémio Nobel em duas áreas científicas distintas: Física, em 1903, com o seu marido, Pierre, e Química, sozinha, em 1911. De professora na Sorbonne, a operadora de Raios X na linha da frente da Primeira Guerra Mundial, amiga de Albert Einstein, Marie Curie inspirou gerações de jovens mulheres em todo o mundo a dedicarem as suas vidas à ciência. Edição Temas  & Debates.


 


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OUVIR - O compositor e baixista Miroslav Vitous, um dos fundadores dos Weather Report em 1970, afastou-se quando a banda abandonou o conceito inicial. Passou a tocar ao lado de nomes como Miles Davis, Chick Corea,  Jan Garbarek ou Jack de Johnette, entre outros.  Aos 78 anos o seu novo disco, “Mountain Call” é o reflexo de uma vida passada a encontrar pontos de contacto entre o jazz e a música clássica. No disco Vitous faz duetos improvisados com Jack  DeJohnette (que morreu em Outubro passado),  Esperanza Spalding, o saxofonista Bob Mintzer e o clarinetista francês Michel Portal, que morreu em Fevereiro . Edição ECM, disponível em streaming.






ALMANAQUE - “In Plain View” é o título de uma exposição de fotografias de Martin Parr, que inaugura a nova galeria e livraria da agência Magnum em Paris, no número 2 do Impasse Delaunay. Esta exposição de Martin Parr, um dos grandes fotógrafos da Magnum que morreu em Dezembro passado, pode ser vista até 6 de Junho.


 


DIXIT - “Se o PSD ceder (na revisão constitucional) no que seria a sua maior derrota, o recado fica dado aos eleitores: é melhor votar directamente no Chega e não por procuração no PSD - António Barreto, Público


 


BACK TO BASICS -  “A ignorância é a maior arma contra  a lógica” - Laurence J. Peter.



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abril 03, 2026

SINAIS PASCAIS

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Como é que se percebe que estamos à beira da Páscoa? Vários sinais contemporâneos bem evidentes: diminui o trânsito por causa das férias escolares; o cabrito  vai-se tornando um bem escasso em talhos e supermercados; multiplicam-se os formatos de folares de Páscoa; dá-se o milagre dos ovos, que em vez de saírem das galinhas andam em escaparates das mais diversas formas e feitios, sempre de chocolate; e finalmente proliferam os coelhos, por vezes espécie rara de encontrar, e que nesta altura do ano são de toda a forma, cor e feitio e também de chocolate, um produto em alta nesta época. Pergunto ao Chat CPT a razão de ser de tanta fartura e a resposta é célere: “ Os ovos e coelhos de chocolate na Páscoa simbolizam a vida, fertilidade e renascimento, fundindo tradições pagãs de primavera com a celebração cristã da ressurreição de Jesus. O coelho representa a fertilidade, enquanto o ovo representa o início da vida e a nova vida da ressurreição, com o chocolate tornando-se popular no séc. XIX.” Constato que, como acontece frequentemente, as tradições pagãs andam de braço dado com as católicas. E também observo como as festas religiosas estão, tão frequentemente ligadas à comida. Vejamos: no Natal sai o bacalhau e o perú, por vezes o leitão; na Páscoa é o cabrito, tudo acompanhado por sobremesas das respectivas épocas. É um pouco paradoxal que quer o nascimento de Jesus, quer a sua morte, sejam momentos, na religião católica, tão intimamente associados a comida e a excessos gastronómicos. A seguir virão inevitavelmente dietas, o purgatório dos comilões. Boas Páscoas.




abril 02, 2026

OS NÚMEROS DO AUDIOVISUAL EUROPEU

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EUROPA TV - Segundo o  relatório mais recente do Observatório Europeu do Audiovisual, o sector audiovisual europeu gerou cerca de 124 mil milhões de euros em 2024. Os gastos dos consumidores, incluindo assinaturas de plataformas de streaming, serviços de pay-TV, bilhetes de cinema e home video significaram cerca de metade deste valor, ou seja 72 mil milhões de euros. Apesar destes números e do crescimento do sector, a Europa representa apenas 12% das receitas das maiores produtoras internacionais. O volume de produção na Europa atingiu nesse ano um novo recorde, com 2523 filmes de ficção e documentários produzidos em 36 mercados, verificando-se um aumento dos orçamentos de produção na maior parte dos países. Analisando o comportamento dos públicos, verifica-se que a maioria das audiências europeias prefere séries a filmes - o relatório indica  que 78% preferem séries, o que compara com 22% que preferem filmes. Estes números confirmam como as séries são o pilar básico das receitas do streaming. Um dado a reter é que as plataformas de streaming estão cada vez mais a investir em conteúdos europeus. O investimento em produções europeias subiu de 8% em 2020 para 24% em 2024, o que se deve quer aos incentivos oficiais, quer ao interesse por histórias locais. Já este ano Alemanha criou novas regulamentações que obrigam a que as plataformas internacionais de streaming, mas também os operadores alemães, dediquem um mínimo de 8% das receitas obtidas na Alemanha a investimentos em produções locais e aqueles que investirem 12% das receitas ou mais terão incentivos e poderão beneficiar de medidas especiais de apoio. A Alemanha juntou-se assim a pelo menos 12 outros países europeus, que obrigam as plataformas de streaming a investir em produções locais. Já agora, segundo dados de inícios de 2026, mais de metade dos portugueses (cerca de 53,3% ) já utilizam plataformas de streaming, O consumo de vídeo on demand tornou-se o principal meio audiovisual em Portugal, superando a televisão tradicional, e as plataformas com mais utilizadores são Netflix, Disney+ e HBO.


 


SEMANADA - O preço da habitação em Portugal em 2025 aumentou 17,6%, o crescimento mais acentuado desde que há registo; na Grande Lisboa os salários aumentaram 47% numa década e o preço das casas mais que triplicou; a venda de casas no centro do país duplicou desde 2009; só estão aprovados 10% dos pedidos para recuperar casas afectadas pela tempestade Kristin; o preço médio da venda de habitação na Grande Lisboa teve um aumento de 136% em relaçao a 2009; durante 2025 o valor médio diário em jogos e apostas online em portugal foi de 63 milhões de euros; a venda de ouro em barras cresceu cerca de 50% desde o início do ano e as mais procuradas são as de 10 gramas, com um valor de cerca de 1400 euros; o nível de vida em Portugal caíu face à Europa e o PIB per capita em paridades de poder de compra recuou para 81% da média da União Europeia; na semana passada o preço do cabaz alimentar, constituído por 63 produtos essenciais monitorizados pela Deco, chegou aos 254,40 euros, um novo máximo histórico; Portugal vai ter um corte de 12% no próximo orçamento da União Europeia.


 


O ARCO DA VELHA - Com o segundo período escolar a terminar, o Ministério da Educação ainda não tem dados sobre o número de alunos sem aulas.


 


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UM MISTÉRIO ORIENTAL - Fiquei fascinado com “O Caso da Estação de Kamata”, um romance policial do japonês Seicho Matsumoto, publicado originalmente nos anos 60 e agora editado entre nós. A história desenvolve-se em torno do inspector Imanishi e do seu ajudante Yoshimura na investigação de um homicídio misterioso em Tóquio, ocorrido numa estação de comboio. O livro é uma viagem às tradições e à vida quotidiana no Japão daquela época e somos levados a conhecer hábitos, a acompanhar a cuidada e quase cerimoniosa forma de relacionamento entre as pessoas, a nível familiar e profissional. Matsumoto relata minuciosamente o método de investigação do inspector Imanishi e leva-nos a acompanhar o seu raciocínio, os avanços e recuos da investigação. Ao mesmo tempo proporciona-nos a descoberta de costumes regionais, já que a investigação se desenrola em vários locais. Assim descobrimos os dialectos,  os artesanatos, os costumes, numa sociedade em rápida transformação. A investigação tem como pano de fundo a transformação da sociedade japonesa no pós-guerra, a reconstrução de cidades devastadas e  o surgimento de novas tendências culturais e artísticas, em contraste com antigas actividades tradicionais e artesanais. Nem sequer falta um pouco de intriga política para apimentar o caso. A investigação dá muitas voltas e tem um final inesperado e surpreendente, depois de meses de pistas falsas e interrogatórios infrutíferos. Seicho Matsumoto é também autor de um outro policial, ”Tóquio Express”, igualmente arrebatador, e também já editado entre nós pela Editorial Presença.


 


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MESA DE CABECEIRA - “O Espectáculo do Poder” foi o título de uma belíssima exposição realizada no Padrão dos Descobrimentos em 2023, que documentava as exposições políticas realizadas pelo governo português entre 1934 e 1940, incluindo os pavilhões nacionais apresentados nos certames internacionais como o de Paris em 1937 e  de Nova Iorque, em 1939. E, claro, também a Exposição do Mundo Português em 1940. Comissariada por Annarita Gori, esta exposição do Padrão dos Descobrimentos deu origem a um livro, editado em finais de 2025, onde se reúne extensa documentação e muitas fotografias. O livro testemunha o esforço de propaganda do Estado Novo, que procurava dar uma imagem moderna de um país tradicional que vivia sob um regime onde liberdade de expressão e vida democrática eram inexistentes. Este livro está muito bem organizado e merece ser conhecido nestes conturbados tempos onde a amnésia bate forte nos políticos de serviço. Está disponível no Padrão dos Descobrimentos e nas livrarias municipais. Outro livro que encaixa bem no tempo presente é “A Mente Criminosa - As origens da violência, do engano e do crime”, de Paulo Finuras, sociólogo, doutorado em Ciência Política. O autor aborda temas como a natureza do crime, a arquitectura da agressão e violência, o crime sexual, o roubo e a fraude e analisa a ecologia social do crime, a evolução das instituições e como tentam controlar e prevenir o crime. Edição Sílabo.


 


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CORES FORTES, IMAGENS MARCANTES - Na galeria Cristina Guerra Contemporary Art a artista alemã Tatjana Doll apresenta “Come In”, uma exposição com 12 pinturas, a maior parte de grandes dimensões, mostrando representações de objectos reais, como automóveis neste caso, que convivem com a evocação de selos postais ou banda desenhada. A exposição organiza-se a partir de uma viatura de socorro médico acidentada, ponto de partida para uma explosão de cores, próxima por vezes da pop art e com evocações de Roy Lichtenstein. Ulrich Loock, autor da folha de sala da exposição, sublinha que “as fontes de Doll estendem-se, por isso, do pessoal ao público, articulam alta e baixa cultura, alternam entre a esfera da necessidade banal e a do luxo, até que as próprias distinções se esbatem. Ao pintar a partir de imagens preexistentes, a "ordem das coisas" instituída perde a sua força vinculativa; as separações categóricas deixam de ser nítidas.”  Esta é a terceira exposição de Tatjana Doll na Galeria Cristina Guerra e pode ser vista até 16 de Maio. (Rua de Santo António à Estrela 33).


 


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ROTEIRO - Daniel Blaufuks tem uma nova exposição na Galeria Vera Cortês, “(Ainda) À Espera de Godot”, que junta fotografias de várias dimensões, a cor e a preto e branco (na imagem). O cuidado colocado na luz que escolhe para fotografar transforma o que podiam ser imagens banais, levando-as a uma outra dimensão. Como tem sido frequente na obra de Blaufuks, as suas séries fotográficas surgem como diários do que vê à sua volta, um olhar sobre o quotidiano e a intimidade dos locais que mostra. Na Sociedade Nacional de Belas Artes está patente até 16 de Maio uma exposição sobre a obra de Lourdes Castro, que reúne um conjunto significativo de obras e documentos que permitem revisitar o percurso singular da artista, que viveu entre 1930 e 2022. A exposição mostra um vasto acervo documental proveniente maioritariamente do acervo particular da artista, que ajuda a localizar a sua obra marcada pela investigação em torno da sombra, da luz, da memória e da natureza. E na Galeria Ratton  (Rua da Academia das Ciências 2) Pedro Proença mostra os painéis de azulejo que fez para o futuro Hotel Trafaria.


 


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ROCK & JAZZ - Flea tem tido uma vida dupla nos últimos dois anos. De noite tocava baixo com os Red Hot Chilli Peppers, de que foi fundador,  nas suas digressões. E durante o dia estudava e praticava trompete, redescobrindo um instrumento que foi o primeiro que aprendeu a tocar, em miúdo, e o seu primeiro amor, que foi o jazz. O resultado desta aventura com trompete é “Honora”, um álbum, maioritariamente instrumental, com dez temas, das quais seis compostas por Flea e interpretações de “Thinkin’Bout You” de Frank Ocean e Shea Taylor, “Maggot Brain” de George Clinton e Eddie Hazel, “Wichita Lineman” de Jimmy Webb e “Willow Weep for Me” de Ann Ronell. No disco Flea toca trompete e baixo e é acompanhado pelo saxofonista Josh Johnson, o guitarrista Jeff Parker, a baixista Anna Butterss e o baterista Deantoni Parks. Participam também,  com atuações vocais especiais,  Thom Yorke em “Traffic Lights” e Nick Cave em “Wichita Lineman”, que destaco por ser uma interpretação extraordinária e pelo diálogo entre o trompete de Flea e a voz de Cave.  John Lurie, que também participa na aventura, sintetiza a coisa: “isto não é rock, não é jazz, é música”. Edição Nonesuch, disponível nas plataformas de streaming.



ALMANAQUE -  Em Madrid, na Fundação Canal, está patente a exposição  “Arte urbano. De los orígenes a Banksy”, que narra a evolução da arte urbana desde o seu nascimento nos anos 60 até à actualidade. São apresentadas seis dezenas de obras de nomes como Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Crash, Seen, Blek le Rat ou Vhils, passando pelos espanhóis SUSO33, El Xupet Negre e PichiAvo,



DIXIT -  “Estamos perante um início, um vulto de crise das instituições. A causa está no Parlamento, que não cumpre os seus deveres. A responsabilidade está nos partidos, que não desempenham com lealdade as suas funções”. - António Barreto, no Público.


 


BACK TO BASICS - A imaginação é a única grande arma na guerra contra a realidade - Jules de Gaultier.





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