
SOBRE A CULTURA EM BELÉM - Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro Presidente da República civil que, não oriundo de um partido de esquerda, marcou os dez anos dos seus dois mandatos com uma atenção especial à cultura, sector em que usou de forma hábil a sua magistratura de influência. Promoveu nos jardins de Belém a Festa do Livro, no Dia Mundial do Teatro enalteceu as artes de palco e defendeu para elas um “financiamento claro e justo”, sublinhando que o teatro “é um sítio de inquietação, de prazer e de espírito comunitário”. Manteve uma relação constante com a Academia Portuguesa de Cinema, fazendo em Belém recepções anuais para os vencedores dos prémios SOPHIA. Promoveu conferências, realizou em Belém ciclos de conversas com criadores das mais diversas áreas, fez do palácio presidencial um local de acolhimento de artistas, das suas ideias e das suas obras. Mais: trouxe alunos de escolas e deu-lhes oportunidade para falarem cara a cara com escritores, atores, artistas e, claro, o próprio Presidente, sempre parte desses diálogos. Muitas vezes foi, sem protocolos, assistir a concertos como aconteceu recentemente com o dos Capitão Fausto no Pavilhão Atlântico. Visitou sozinho, sem avisar, exposições (como no ano passado em “Atelier” de Pedro Cabrita Reis, na Mitra onde apareceu num fim de semana sem ninguém o esperar). Condecorou muitos nomes das mais diversas áreas da cultura e do espectáculo e o seu último destes gestos foi para com António Lobo Antunes: em 2022 já lhe tinha atribuído a Grã-Cruz da Ordem de Camões e no funeral, depositou junto do escritor o grande colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa. Nos últimos dias do seu mandato soube-se que tinha escolhido Vhils, aliás Alexandre Farto, para lhe fazer o retrato oficial, naquilo que considerou “a ideia mais louca em 10 anos de mandato”. Com Marcelo, a Presidência foi um porto seguro para a cultura portuguesa. Agora, em Belém, já está o novo Presidente, António José Seguro, que continuará a viver nas Caldas da Rainha, berço do Zé Povinho. Os meus votos vão para que o novo Presidente mantenha os bons hábitos que Belém ganhou e que aproveite o sentido crítico de Bordalo Pinheiro a olhar para o país. E que não se esqueça que a política cultural, tão sujeita a malfeitorias, também precisa do escrutínio, atenção e magistratura de influência do Presidente da República.
SEMANADA - Segundo a Deco Proteste, o bacalhau teve um aumento de 63% em quatro anos e o preço por quilo passou nesse espaço de tempo de 10,60 para os 17,28 euros; ainda segundo a Deco Proteste o custo do cabaz alimentar, com 63 produtos considerados essenciais, já aumentou desde o início do ano 9,64 euros e face a março do ano passado, subiu 13,76 euros; na região da Bairrada são assados 3000 leitões por dia, o que significa cerca de 1,3 milhões por ano, num negócio que movimenta anualmente em toda a região cerca de 260 milhões de euros; o valor das exportações portuguesas de frutas, legumes e flores em 2025 foi de 2,6 milhões de euros, um novo recorde; segundo o Banco de Portugal a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; os 37 novos gestores públicos das cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional vão custar, durante o mandato de quatro anos, quase 17 milhões de euros em salários e despesas de representação; entre 22 e 24 mais de cinco mil doentes referenciados para cuidados paliativos não encontraram vaga no SNS; a livraria Lello, no Porto, recebe diariamente 3500 visitantes; nos últimos dois anos mais de 40 mil casas já licenciadas ficaram por construir; nos últimos dez anos a PSP registou mais de 2600 desaparecimentos de idosos, dos quais 140 continuam por encontrar; só no último ano registaram-se 241 casos, cerca de 20 desaparecimentos por mês; no ano passado registaram-se 531 acidentes com trotinetes, que provocaram, além de mais de quatro centenas de feridos ligeiros, 20 feridos graves e um morto.
O ARCO DA VELHA - Seis meses após a tragédia do elevador da Glória ainda não se sabe exactamente o que correu mal, a Carris continua a fazer um inquérito interno e o relatório de peritos continua sem estar concluído.

DEPOIS DE PARA SEMPRE - O Pavilhão Julião Sarmento, na Avenida da Índia, acolhe a colecção pessoal de Julião Sarmento (1948-2021), tem uma programação multidisciplinar em que se cruzam linguagens das artes plásticas, do cinema ou da performance, entre outras, desenhada pela directora, Isabel Carlos, e guiada pelas palavras de Sarmento: “Uma obra de arte deve sobretudo interrogar mais do que fazer afirmações.” Vale a pena conhecer este Pavilhão onde, além da exposição inaugural, “TAKE 1”, que apresenta uma seleção de obras da coleção de Julião Sarmento e tem como referência a acção cinematográfica, foi inaugurada na semana passada “Depois de Para Sempre”, que reúne 33 obras e coloca em diálogo Fernando Calhau (1948-2002) e Rui Chafes, dois dos artistas mais representados nessa colecção. O título é tirado de um trabalho de Rui Chafes, a exposição ficará patente até 14 de Junho e foca-se sobretudo nas obras de Calhau (na imagem), acompanhando o seu percurso artístico, desde o início num registo pop e figurativo, até ao conceptualismo e ao minimalismo que se tornaram a sua marca.

ROTEIRO - Um dos destaques desta semana vai para a exposição “Turn Around: um, olhar sobre a colecção de Arte da Fundação EDP”, que está no MAAT até final de Janeiro do próximo ano. A colecção tem 2500 obras de 340 artistas e esta exposição decorre em dois momentos complementares - o primeiro já pode ser visitado e o segundo abre ao público a 29 de abril. Em conjunto, são uma das maiores apresentações públicas da Coleção de Arte da Fundação EDP até à data, apresentando 100 obras. A curadoria é de João Pinharanda, Margarida Chantre e Sérgio Mah. O outro é para a exposição “Olá Vasco Granja”, que está na Sociedade Nacional de Belas Artes até 4 de Abril, numa parceria com o MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa (na imagem). Vasco Granja foi o grande divulgador do cinema de animação em Portugal e marcou gerações através do seu programa na RTP. Mais do que apresentar “desenhos animados”, foi um pedagogo divulgando as vanguardas canadianas, a produção da Europa de Leste e os clássicos norte-americanos. A exposição reúne um conjunto significativo do seu espólio pessoal, resultado de amizades e encontros com nomes maiores da animação. No Mercado da Ribeira, Fernando Negreira apresenta uma série de fotografias, impressas em telões pendurados do tecto, sob o título “Dois Temas, Um Olhar”, com fotografias dos mercados e profissões de Lisboa nos anos 70 e 80, numa iniciativa do colectivo CC11.

UM CLÁSSICO NA MESA DE CABECEIRA - Começou agora a ser editada pela Quetzal uma nova colecção intitulada A Biblioteca de Alexandria, que evoca a grande biblioteca fundada no século III a.c. com o objectivo de preservar o conhecimento, o saber e a literatura. O primeiro livro desta nova colecção é um clássico: “A Vida de Lazarillo de Tormes e Suas Fortunas e Adversidades”, originalmente publicado no ano de 1554, por autor anónimo, numa tradução de Margarida Amado Acosta. Esta obra é considerada como o primeiro romance moderno em língua espanhola e conta uma história de engenho, fome e sobrevivência. O protagonista é Lázaro, um menino pobre que, levado pela necessidade, serve vários senhores e aprende a sobreviver numa sociedade dura e hipócrita. Com humor e ironia o livro é uma crítica aos valores da sua época e um retrato da alma humana. Ao longo de mais de quatro séculos, este romance fascinou leitores e escritores e terá inspirado obras como o “Dom Quixote”, de Cervantes. O narrador é um malandro e tudo é gente comum, pobre ou remediada, falsa e vingativa, mentirosa e com maus instintos. O livro conta como Lazarillo entrou na marginalidade desde cedo, para sobreviver à miséria numa Espanha degradada do ponto de vista económico, social e moral. O segundo livro desta colecção é outro clássico: “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, originalmente publicado em Inglaterra em 1719. Edições Quetzal.

JAZZ COM VIOLONCELO - Não é muito frequente ser uma violoncelista a liderar um quarteto de jazz. Mas é isso que acontece com Tomeka Reid, que acabou de lançar o seu quarto disco, acompanhada pela guitarrista Mary Halvorson, o baixista Jason Roebke e o baterista Tomas FujiWara. “Tomeka Reid: Dance! Skip! Hop!” inclui cinco temas inéditos e o Guardian não hesitou em classificá-lo como um candidato sério a disco de jazz deste ano. São quase 50 minutos de música que percorre vários géneros, desde sonoridades do be-bop logo na faixa título, ao swing bem ritmado, passando ao jazz latino ou apontamentos do hip hop. Desde o início percebe-se o papel do violoncelo na gravação, que ganha relevo nos diálogos entre a guitarra e o violoncelo como em “A(ways)” , “OoLong!” ou “Under the Aurora Sky”. A última faixa “Silver Spring Fig Tree”, deixa no ar uma melodia que se envolve com o trabalho marcante do baterista. Disponível nas plataformas de streaming.

AGENDA DE INAUGURAÇÕES - Não há mãos a medir, o fim de semana está cheio de inaugurações de exposições. Na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos Lote F), Luís Campos apresenta a partir das 17h00 a sua nova exposição de fotografia, “Endscape” que retrata paisagens desabitadas em que a natureza viva se tornou vestígio (na imagem). No sábado recomenda-se uma ida pelas 17h00 à Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101), onde será feita uma visita guiada à exposição 0.2=40, com Manuel Sampayo, Álvaro Rosendo e Beatriz Lamego. A exposição evoca o 40º aniversário da Monumental e homenageia os fundadores do projecto. Na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Nery 42, ao Rato) Carolina Lino apresenta no espaço Triângulo trabalhos em fotografia sob o título “Rosto Mão Coração” e Nim Teresa Castanheira apresenta no espaço quadrado “Matrizes” , trabalhos em gravura e técnica mista.
DIXIT - “ O ambiente de crise reside na falta de maioria parlamentar e na aparência de eleições permanentes. Traduz-se na impressão de que a democracia é inútil. Mora nos agentes políticos, nos três principais partidos e nos seus dirigentes, nos deputados e nos governantes.” - António Barreto
BACK TO BASICS - É através dos outros que vou alcançar a minha felicidade. Não posso fazê-lo sózinho” - Nuno Morais Sarmento.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS