novembro 29, 2025

SOBRE OS USOS DA FISGA

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Um dos meus desejos de criança era ter uma fisga. Providencialmente, um tio com quem costumava passar parte das férias de verão resolvia esse meu desejo, fazendo fisgas a partir de pedaços de árvore com a necessária forma de forquilha, fundamental para o efeito, Para completar a fisga, à madeira juntavam-se retalhos de câmaras de ar de automóvel e um pedaço de cabedal de proveniência incerta. Assim, durante um tempo, todos os anos, à minha chegada a sua casa, no Alto Alentejo, levava-me à pequena oficina onde se entretinha a fazer arranjos e dava-me a fisga desse verão. Ao longo do tempo foi aperfeiçoando o fabrico e eu fui aperfeiçoando a pontaria. Durante os meses que lá estava, andava sempre com uma fisga pendurada do bolso, primeiro dos calções e, depois, das calças. Mas por muito que aperfeiçoasse a pontaria nunca consegui acertar em nada que se movesse. Em contrapartida acertava razoavelmente em garrafas vazias dispostas num muro a uns metros de distância. Era um remake daquelas cenas de westerns em que um cowboy acerta em latas velhas com um Colt 45. Mas esse tempo passou e, da utilização da fisga, passei a explorar o potencial do verbo fisgar, no sentido de cativar ou seduzir alguém -  todo um outro treino de uma outra pontaria. Poucas vezes acertei, diga-se, mas diverti-me bastante e adquiri úteis conhecimentos de persuasão. Um outro significado possível de fisgar, que me foi bastante útil ao longo da vida, foi conseguir perceber as intenções de alguém, sobretudo aquelas, digamos, mais maldosas. Lembrei-me de tudo isto quando, passeando numa feira, dei com estas fisgas fabricadas em série, umas pintalgadas e outras apenas com a palavra Portugal estampada. Fisgas modernas é o que é, sinal do espírito de inovação que varre o discurso dos governantes. Como diz o outro, já os fisguei.


 

novembro 28, 2025

NOTÍCIAS DO DIA E SUGESTÕES AVULSAS

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O QUE VEMOS, OUVIMOS E LEMOS? Acompanhar a evolução da paisagem da comunicação, a alteração dos hábitos e comportamentos das pessoas, é sentir o pulso às mudanças acontecidas na sociedade e que moldarão mais à frente a forma como vivemos e interagimos. Peguemos na televisão: hoje em dia 60% dos espectadores seguem os seus gostos pessoais na escolha do que vêem e não aquilo que os directores dos canais generalistas (RTP1 e 2, SIC e TVI) lhes querem impôr. Em números redondos, destes 60%,  40% destes espectadores  estão nos canais de cabo e 20% nas plataformas de streaming. Nos canais de cabo os líderes têm sido este ano o Correio da Manhã TV com 6,2% de share de audiência, a CNN com 2,5%, a SIC Notícias com 2,1%, o Star Channel com 1,8%, a Globo com 1,7% e o NOW, que em escasso ano e meio já alcançou 1,6%, bem à frente da RTP Informação que transmite em TDT e cabo e regista 1,1%. Já agora fiquem a saber que o share médio deste ano da TVI é 14,4%, da SIC é 14.1%, da RTP1 é 10,7% e da RTP2 é 0,7%. E nas plataformas de streaming a preferida é a Netflix, seguida da Disney+ e da HBO Max. Deixemos agora a televisão e passemos ao mundo digital. O que está em alta este ano são os podcasts - segundo a Marktest só no mês de Outubro foram feitos 16,5 milhões de downloads de podcasts. Ainda segundo a Marktest três em cada quatro portugueses vêem videos on line, o que representa um crescimento assinalável em relação ao ano passado. Os hábitos digitais estão estabelecidos: 86,1% das pessoas que vivem em Portugal  utilizam  internet e o telemóvel é o meio mais usado para aceder. O maior crescimento da Internet este ano verifica-se no grupo etário 55-64 anos.Para se manterem informados 6,7 milhões de pessoas lêem regularmente notícias on-line, hábito que é seguido por 97% das pessoas entre os 35 e 44 anos. Em contrapartida as tiragens dos jornais estão, na maior parte dos casos, em queda contínua e os jornais regionais estão em processo de extinção, o que significa menos informação disponível sobre o que se passa em muitas regiões do país. 


 


SEMANADA - Um estudo recente mostra que a percentagem de cidadãos que conseguem pagar as suas contas dentro dos prazos caiu de 85% em 2024 para 77% em 2025; entre 1 de janeiro e 13 de novembro ocorreram 125.621 acidentes rodoviários, mais 3.730 do que em igual período do ano anterior, morreram 379 pessoas, registaram-se 2.451 feridos graves e 39.316 feridos ligeiros; entre 2020 e 2024 os portugueses consumiram uma média diária de 4079 calorias, o dobro do que é recomendado para um adulto; dois anos após as buscas que levaram à demissão de António Costa há computadores e telemóveis que foram então apreendidos que ainda não foram devolvidos e há três arguidos que ainda não foram ouvidos; os Açores, a Madeira, o Alentejo e o Algarve são as regiões portuguesas com taxas de mortalidade mais elevadas; nas prisões portuguesas morreram no ano passado 65 detidos, nove dos quais vítimas de suicídio; segundo a Marktest 30.3% dos utilizadores de redes sociais em Portugal  diz já ter realizado compras diretamente nestas plataformas;  nas últimas três semanas cinco bebés nasceram fora dos hospitais, dos quais três em habitações, um numa ambulância do INEM e outro no interior de um carro em andamento na A22.


 


O ARCO DA VELHA - Vai haver um espectáculo musical sobre a vida de José Sócrates, com estreia em Abril no Teatro Tivoli, e que se chama “Sr. Engenheiro”. Ficou pronta mais cedo a peça do que o julgamento. O orçamento previsto ronda os 600 mil euros.


 


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UMA COLECÇÃO - No MACAM podem ser vistas até 1 de Junho de 2026 obras da Coleção José Carlos Santana Pinto, construída ao longo de quatro décadas e que reúne trabalhos de artistas portugueses e internacionais de diversas gerações como Joseph Kosuth, Julião Sarmento (na imagem), Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Carla Filipe, João Onofre,  Rui Chafes, On Kawara, Dora Garcia, Alfredo Jaar, entre outros.  Com curadoria de Adelaide Ginga, esta exposição assinala o início a um ciclo de colaborações que, a par da Coleção Armando Martins, visa dar visibilidade a outros acervos privados sem espaço público de apresentação, reforçando o papel do Museu como um espaço aberto para a divulgação do património artístico contemporâneo. Ainda no MACAM abriu também “O eu como múltiplo”, com curadoria de Carolina Quintela, a terceira exposição temporária com obras de artistas nacionais e internacionais da Colecção Armando Martins e que reúne até ao início de Maio trabalhos de artistas como Ana Vieira, Helena Almeida, Horácio Frutuoso, John Baldessari, José Pedro Croft, Juan Muñoz, Júlia Ventura, Vik Muniz e Yu Nishimura, entre outros.


 


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ROTEIRO - Começo por uma exposição que abriu sábado na Galeria Arte Periférica, no CCB, ao lado de uma bem fornecida loja de materiais de pintura e desenho. A exposição é de uma artista portuguesa pouco conhecida,  que expõe irregularmente desde 2002 e, de forma mais frequente, desde 2019. No seu site, penelopeclarinha.com intitula-se “artista de variedades” e mostra o seu trabalho numa galeria de imagens que surpreendem. Também esta exposição da Arte Periférica (na imagem) tem o mesmo efeito. É intitulada “Nada a Declarar”, e nasce da constatação de que “ninguém tem nada a dizer porque, na verdade, ninguém sabe o que está a acontecer”. No Porto a Galeria Quadrado Azul inaugurou o seu novo espaço na Rua Miguel Bombarda 435 e apresenta até final de Dezembro uma colectiva com obras de Isabel Carvalho, Paulo Nozolino, Pedro Tropa, Fernando Lanhas, Filipe Braga e Francisco Tropa. Também no Porto e bem próximo (Rua Miguel Bombarda 526) a Galeria Fernando Santos apresenta até 10 de Janeiro a exposição esculturas recentes, com trabalhos em pedra de de Manuel Rosa e prossegue também com a exposição de fotografia “Endscape”, de Luís Campos, já aqui recomendada. No Espaço Cubo, da mesma galeria, Inês Amorim apresenta “Traces of A New Dawn” Outras exposições: no Pavilhão Branco, no Campo Grande, Paula Prates e Rita Gaspar Vieira apresentam até 15 de Março “O tempo maior que o tempo”, com curadoria de Ana Anacleto. E, na Galeria Foco Rua Antero de Quental 55A) , até 20 de Dezembro, pode ver a nova exposição de Nádia Duvall, “Mermaids of a Restless Sea” ​​.


 


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FOTOGRAFAR É GUARDAR O QUE SE VÊ - Gosto de ver e folhear, livros de fotografia. Um livro de fotografia, se fôr bem feito, é como uma exposição que se tem na estante e se visita quando se quer. Tenho alguns livros de fotografia de autores que nunca tive oportunidade de ver expostos numa galeria ou num museu. Nalguns casos, em que vi exposições e livros do mesmo autor, gosto por vezes até mais do livro do que de ver a fotografia exposta. Em Portugal temos a sorte de ter, através da Imprensa Nacional, uma colecção  que nos permite este prazer de ver fotografia. Chama-se Ph., é dirigida por Cláudio Garrudo e tem já mais de uma dezena de livros editados de alguns dos grandes nomes da fotografia portuguesa. Esta semana chegou-me às mãos uma edição recente que mostra a obra de Gérard Castello-Lopes, simbolicamente no ano do seu centenário, que reflecte várias décadas da sua atividade fotográfica e que inclui diversas obras inéditas  Além de fotografias da sua fase mais conhecida, o final dos anos 50, são também mostradas imagens pouco conhecidas de trabalhos que fez nos anos 80, 90 e até no início deste século, sempre a preto e branco. O livro inclui um texto, desnecessariamente longo, de Pedro Mexia, “A Linha do Olhar”, onde o autor elabora o que sentiu sobre dez das fotografias de Castello-Lopes. É pena que esta edição não forneça pistas sobre a importância e o papel do fotógrafo na fotografia portuguesa, e em especial a sua relação com outros contemporâneos. Tirando isso é uma bela forma de dar a conhecer a obra de Gérard Castello-Lopes.


 


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MESA DE CABECEIRA - “Contos Completos” é uma compilação com perto de oitenta histórias breves escritas por Ernest Hemingway. Além de títulos famosos que escreveu ao longo da sua vida são incluídos nesta edição mais de três dezenas de contos até agora inéditos em Portugal, alguns dos quais publicados apenas postumamente. É uma edição Livros do Brasil. O outro livro que me deliciou foi “E Se Einstein Soubesse”, escrito por Alain Aspect, prémio nobel da física, onde se aborda o debate entre dois gigantes da física — Niels Bohr e Albert Einstein — sobre a interpretação da mecânica quântica. Aspect mostra como a controvérsia quase filosófica que Einstein travou com Niels Bohr levou a experiências muito reais e à invenção de novas tecnologias quânticas e explica como conseguiu destacar uma das propriedades mais extraordinárias do entrelaçamento quântico, e tenta imaginar a reação de Einstein aos seus resultados experimentais. “E se ele soubesse?” Edição Bertrand.





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O FADO EM DUETO - O que é que acontece quando um piano português namora uma guitarra portuguesa? Para o descobrirem ouçam o novo disco do pianista Júlio Resende com o guitarrista Bruno Chaveiro, o primeiro disco que grava em dueto e que nasce da experiência de ambos no Fado Jazz Ensemble. Os dois músicos reinterpretam clássicos como “Rua do Capelão”, “Barco Negro”, “Estranha Forma de Vida”, “Amor de Mel, Amor de Fel” ou “Noite de Santo António”, entre outros. Ao todo há oito temas e nem todos nascem do fado. Por exemplo, “Carolina (à la fado)”  pertence ao cancioneiro de Chico Buarque  e ‘Uma Espécie de Ó Bernard - Para a Minha Família Africana é uma revisitação de um tema popular cabo-verdiano. O disco, intitulado “Piano Português Namora Guitarra Portuguesa” está disponível nas plataformas de streaming.





ALMANAQUE - Esta semana recomendo uma das mais divertidas séries de televisão que vi recentemente. Chama-se “A Nova Força” e é sobre a primeira equipa de mulheres polícias em Estocolmo, nos anos 50,  a maneira como foram recebidas pelos seus colegas homens nas esquadras, como a população as encarou e o que tiveram de fazer para serem aceites e respeitadas. A reconstituição de época é muito boa, do guarda-roupa aos cenários e aos carros utilizados. São seis episódios e está na Netflix.





DIXIT - “E a justiça, senhores candidatos, a justiça? Os candidatos a Presidente da República têm-se revelado muito activos. No entanto, relativamente à justiça, o silêncio é absoluto. Dir-se-ia que não sabem. Ou não querem. Pior ainda: que têm receio.” -  António Barreto, no Público


 


BACK TO BASICS -  “É na justiça que se fundamenta a ordem da sociedade” - Artistóteles





A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS







novembro 22, 2025

O QUE ME FAZEM LEMBRAR AS FOLHAS CAÍDAS?

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Quando nestes dias de Outono ando nas ruas e olho para o chão fico sempre com uma dúvida: são as folhas que se sentem despejadas e mal-queridas nas árvores de onde caíram, ou são as árvores que se sentem abandonadas e nuas? Nos dias de vento tudo se agita ainda mais, as folhas rodopiam, esvoaçam, os ramos nus agitam-se, como se as quisessem ainda segurar. Andar em certas ruas nesta altura do ano é como passear  no meio de uma multidão que se despe e vai largando as roupas pelo chão. Já imaginaram o que seria um cenário assim, corpos nus, das mais variadas formas e cores, todos de pé, uns mais direitos, outros mais tortos,  sem sequer uma folha de árvore para os cobrir, como se fantasia que terá acontecido em tempos idos na origem do mundo? Pensar nisso aproxima-se mais de um pesadelo do que de um paraíso, digo eu. Há dias parei frente a uma árvore já despida, as suas folhas ali no chão à minha frente, e pensei que deve ter sido no ciclo das árvores que os desenhadores de moda se inspiraram para criar novas colecções conforme as estações. Tal como as montras das lojas também as árvores se vão vestindo de novas roupas ao longo do ano: depois de ficarem reduzidas aos ramos, começam a brotar rebentos e a ganhar de novo volume, para depois ficarem exuberantes, floridas, coloridas, cheias. Todos os anos recomeça este ciclo pelos campos fora e pelas ruas da cidade. Daqui a algum tempo havemos de estar a ouvir  falar do recorrente encanto que os jacarandás anualmente desencadeiam quando rebentam floridos, mas agora a paisagem é feita das cores quentes do Outono no chão e dos ramos desenhados no horizonte.




novembro 21, 2025

OS TEMPOS FORAM MUDANDO...

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A NOVA POLÍTICA - Em 1964 Bob Dylan escreveu um dos seus grandes clássicos - The Times They Are A-Changin’. Dylan relatava como tudo mudava cada vez mais depressa. Se isto já  era verdade há 61 anos, agora ainda é mais certo e tudo se altera de forma cada vez mais rápida. O primeiro iPhone foi apresentado por Steve Jobs há 18 anos com a promessa de que iria mudar a forma como comunicamos e vivemos. A promessa cumpriu-se e hoje as pessoas de 18 anos que irão votar nas próximas presidenciais pertencem à chamada geração Z, nascidos entre 1997 e 2012  já cresceram com smartphones, redes sociais, acesso instantâneo à informação e, também, à desinformação. Desde muito novos vivem num universo de vários ecrãs que muitas vezes utilizam em simultâneo. Em Portugal a geração Z representa, segundo o Censos de 2021, mais de 1,6 milhões de pessoas, ou seja cerca de 17% do total de eleitores inscritos. As suas escolhas entre a multidão de candidatos que se apresenta nestas presidenciais pesará muito e vão reflectir-se no resultado final. Daniel Agis é um professor e consultor catalão,  especialista em comunicação e marketing. Escreveu recentemente um artigo sobre a campanha que deu a vitória a Zohran Mamdani nas eleições em Nova Iorque. Nesse artigo Agis classifica como brilhante o fenómeno mediático criado em torno do vencedor e afirma, sem subterfúgios: Mamdani não é um ideólogo: é uma construção. Um artefacto visual desenhado com precisão por uma equipa que entende a psicologia do espectador contemporâneo.” Agis sublinha o impacto visual da campanha que fugiu aos grafismos e cores habituais nas campanhas políticas americanas e adoptou “a estética dos letreiros das mercearias de bairro: tipografia irregular, cor saturada, textura de comércio de rua”. Em vez de programa há iconografia, os vídeos utilizados, criados com o ritmo e impacto dos videoclipes dos artistas mais conhecidos, exploraram temas como rendas de casa altas, transportes públicos deficientes, falta de apoio a cuidados infantis. Na campanha Mamdani conversou com taxistas, fez comícios relâmpago no meio da rua junto a quiosques, tudo a parecer improviso, mas na realidade cumprindo um guião bem elaborado. O resultado é o que se conhece, seguidores que criaram conteúdos próprios favoráveis a Mamdani, uma comunidade que se alargou e que não seguia apenas o candidato, mas sobretudo a personagem criada. Conseguiu surgir não como um político tradicional, mas como uma marca, “recorrendo a uma estética replicável, tal qual um meme vivo, uma figura TikTok: breve, contundente, reconhecível, viral.” A história de Mamdani não é a de um desprotegido como por vezes se insinuava:”filho de intelectuais, educado em colégios caros, casado com uma designer síria, Mamdani move-se na cultura da comunicação como no seu elemento natural”, sublinha Agis, ao mesmo tempo que deixa um recado: “a política de hoje, líquida e volátil, vence-se não com ideias, mas com "vibes". Zohran Mamdani entendeu isso como poucos: na era do scroll infinito, a ideologia já não se vota. Consome-se” . Dá que pensar, não dá?


 


SEMANADA - Os hospitais da Grande Lisboa e do  Vale do Tejo têm mais de  340 camas fechadas por falta de enfermeiros; o número de utentes que ligam para a Linha SNS 24 e ficam sem resposta tem vindo a aumentar; de Janeiro a Setembro deste ano, a linha recebeu 5,8 milhões de chamadas, mas 1,46 milhões (25,1%) não foram atendidas; as urgências do SNS registaram quase 16 milhões de atendimentos entre 2022 e junho de 2024, mais do dobro da média da OCDE; até ao final de outubro, segundo dados do Ministério da Saúde, registaram-se 154 nascimentos fora de unidades hospitalares: já houve bebés a nascer em casa, em ambulâncias, na rua, em espaços comerciais, em áreas de serviço de auto-estradas e até num TVDE;  no total, desde 2022, já são quase 700 os bebés que nasceram fora de uma maternidade; os partos fora de unidades de saúde levaram o jornal espanhol El País a fazer uma reporatgem com os Bombeiros da Moita, que são os recordistas em assistência a partos em ambulâncias durante o transporte de parturientes; de acordo com o último relatório da Eurostat, Portugal está ao nível da Grécia e de países de Leste no que toca à distância que os utentes têm de percorrer até chegar a uma unidade de saúde hospitalar; quase metade dos médicos fazem trabalho à tarefa; um estudo recente indica que mais de metade dos idosos que estão em lares têm défice cognitivo, 28% nunca vêem os filhos e 75% dos idosos com demência não saem à rua; Portugal é dos países com menos camas e pessoal para tratar dos mais idosos; mais de 2000 pessoas pediram apoio através da nova linha telefónica para a prevenção do suicídio no primeiro mês de funcionamento.


 


O ARCO DA VELHA - Mais de três mil alunos do primeiro ciclo continuam nesta altura do ano sem professor e 25% dos alunos do 2º ano lêem com dificuldade.


 


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COMPREENDER UM PAÍS - “Complexo Brasil”, na Gulbenkian, é uma exposição que vale mesmo a pena ver. Traça um retrato do Brasil em múltiplas componentes, mostrando diversas formas de arte, mas indo muito para além da arte e mostrando o quadro dos problemas sociais e políticos  que atravessam e marcam o país. Através de vídeos, fotografias, música, pintura, escultura, arte popular e artesanato mostra-se a diversidade e criatividade do Brasil. Os vídeos, curtos, incisivos, muito bem produzidos, ajudam a perceber o que se passa e porque se passa, quer nas cidades, quer na Amazónia. Destaco o vídeo sobre a construção de Brasília e o texto, magnífico, de Clarice Lispector, lido por Adriana Calcanhoto e que é também uma das chaves para compreender os contrastes e diferenças. Há uma das frases desse texto que diz tudo: “Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado“. Ao percorrer a exposição é mais fácil perceber como Bolsonaro ou Lula chegaram ao poder. E entende-se como o poder se mistura com a corrupção, que por sua vez se mistura com o crime, como tudo convive com as religiões ancestrais, tradicionais e modernas. Percebe-se, sobretudo, como o Brasil é um país de excessos, que parece estar sempre a recomeçar do zero e em que a cultura popular faz o papel de eixo de ligação entre tudo o resto. É, também, uma exposição sobre as relações históricas entre Brasil e Portugal, mais do que sobre as actuais. Projetada por Daniela Thomas e com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a exposição, patente até 17 de Fevereiro, ocupa as duas galerias do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, e é acompanhada por um programa de actividades paralelas que pode ser consultado on line, por um bom catálogo que reúne textos e ensaios, além de toda a informação sobre a mostra e uma edição especial da revista Colóquio, da Gulbenkian, “Este Brasil”. Na imagem estão duas peças marcantes da exposição: “Bandeira 2011”, tinta acrílica sobre chapas de alumínio, de Emmanuel Nassar, e “Satélite Baldio 2006”, baldes e parafusos, de Marepe. 


 


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ROTEIRO - A Galeria Belo-Galsterer assinala o seu 13º aniversário com a exposição “Lost In Translation”, que reúne obras de 13 artistas, como Cristina Ataíde, Cecília Costa (na imagem), Claudia Fischer, Daniela Krtsch, Jorge Molder, Inês Moura, Maria Sassetti, Gwendolyn van der Velden e Mané Pacheco, entre outros. A curadoria é de Alda Galsterer e Alexia Alexandropolou e ficará patente até 24 de Janeiro (Rua Castilho 71, r/c). No Centro Cultural de Cascais está patente até 18 de Janeiro a exposição “A Deslocação do Olhar”  que apresenta uma seleção da Coleção de Arte Contemporânea Américo Marques, que reúne obras de mais de duas dezenas de artistas portugueses, entre eles  Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Eduardo Batarda, Pedro Casqueiro e Michael Biberstein, entre outros. A Galeria Zet, de Braga, inaugurou um espaço em Lisboa, na Rua da Prata 176, com fotografias de Alfredo Cunha, da sua recente série “Cartografia do Desejo”. E na Galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72), Ana Malta apresenta novas obras sob o título “Impermanentia”.


 


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OBSERVAÇÕES - “Relato de Certos Factos” é um dos melhores  títulos que conheço para um livro que mistura relatos de casos de justiça com observações e memórias pessoais de quem escreve. E quem escreve é Yasmina Reza, uma dramaturga, argumentista e escritora francesa que juntou nas 240 páginas deste livro 53 curtos textos, sobre os mais variados assuntos, uns que são relatos de sessões de tribunais, outros que contam episódios vividos ou conhecidos pela própria e que vão de encontros com actores como Bruno Ganz a descrições do que vê à sua frente e meditações provocadas por tudo isto. O livro começa logo com uma dessas descrições: “Quando estou em Veneza, fotografo velhos de costas. quero dizer, velhos casais. Pessoas que nunca vi em lado nenhum”. Logo a seguir conta  o caso da auxiliar de enfermagem que  matou o marido com um tiro de carabina e o que se passou no tribunal. Pelo meio evoca ter ficado trancada dentro de uma casa de banho e elabora sobre a semelhança entre filmes de gangsters e a vida real de criminosos que estão a ser julgados. Os textos são pequenos, a maioria de meia dúzia de páginas, outros até menos. O ritmo de escrita cativa e leva-nos a querer saber mais, como Yasmina Reza pensa, o que observa e como olha para o mundo à sua volta. Fascinante. Edição Quetzal


 


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DUETO - “Memories Of Home” é o título do primeiro registo conjunto do guitarrista John Scofield e do baixista Dave Holland. Com temas antigos e recentes compostos por ambos, o álbum foi gravado no ano passado em Nova Iorque após uma longa digressão do dueto. O nome do álbum é de um tema original de Holland, a sonoridade do disco deve muito aos blues  e é um espelho das referências e preferências dos dois músicos. Edição ECM disponível em streaming.


 


ALMANAQUE - Até 15 de Fevereiro a Tate Britain de Londres apresenta a maior exposição dedicada à obra da fotógrafa Lee Miller, desde a sua ligação aos  surrealistas parisienses aos seus trabalhos de fotografia de moda e fotografia de guerra, ao longo de 250 fotografias, entre provas de época e alguns inéditos nunca antes expostos.


 


DIXIT - “A pátria não consegue colocar professores nas salas de aulas nem grávidas nas salas de parto. Mas vai liderar a IA a nível mundial. Só mesmo quem acredita em unicórnios pode engolir uma treta destas”. João Miguel Tavares , no Público 


 


BACK TO BASICS -  Diz-me a experiência que aquelas pessoas que não têm vícios têm muito poucas virtudes - Abraham Lincoln


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




novembro 16, 2025

ONDE ESTÁ O CONSUMIDOR?

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VOZES PELA COMUNICAÇÃO é o título do livro promovido pelo ISCTE Executive Education que reúne artigos de outros tantos especialistas para debater o futuro da comunicação e as grandes questões que se colocam nessa área. O meu artigo aborda a relação entre marcas e consumidores. A tecnologia leva a alterações cada vez mais frequentes nos mídia e a que os ciclos de comportamento dos consumidores mudem de forma cada vez mais acelerada.


 ONDE ESTÁ O CONSUMIDOR?


Um dos livros a que volta e meia regresso é “Publicidade Sem Espinhas”, um relato de episódios de vida e reflexões desse grande publicitário português que foi António da Silva Gomes. No seu livro, escrito com imenso humor, ele diz que quem inventou a publicidade foram os vendedores ambulantes e os pregoeiros, criativos na forma como anunciavam, o que vendiam, como o “esquimó fresquinho” dos vendedores de gelados, e peritos no contacto directo com o consumidor, hoje em dia tão desejado. Mas a parte mais estimulante do livro é sobre a relação com os clientes. Conta, por exemplo, que era frequente perguntarem-lhe se a agência que dirigia punha reclames na televisão. E recorda que volta e meia aparecia um eventual cliente com uma publicidade já feita por um amigo jeitoso - um deles, depois de saber que podia fazer reclames na televisão, enviou-lhe uma zincogravura com a nota “É para sair amanhã no telejornal…” . É de Silva Gomes esta pergunta ainda hoje em dia tão actual: ”Se nós, publicitários, não fazemos projectos de engenharia, porque é que há tanto engenheiro no quadro dos anunciantes a retalhar textos e a fazer maquetas?”. 


 


 


Desde a altura em que este livro foi publicado, 2003, e os dias de hoje muita coisa mudou - na mídia, nas agências, nos clientes. Mas persiste ainda por vezes a ideia de que, tal como há treinadores de bancada e médicos de google, também há publicitários de aviário. Sobretudo neste século XXI o mundo da publicidade, em termos gerais, sofisticou-se imenso, o conhecimento sobre o comportamento dos consumidores aumentou, os dados sobre audiências tornaram-se muito rigorosos e o digital veio trazer uma complexidade enorme que só equipas técnicas muito preparadas, em talento humano e em tecnologia, podem assegurar. A publicidade precisa de criatividade mas não é um lugar para amadores, sobretudo quando se chega à fase mais decisiva, que é conseguir contactar e impactar o consumidor pretendido para cada produto.


Uma das maiores mudanças tem a ver com aquilo a que podemos chamar “a jornada do consumidor”. Até ao final da primeira década deste século as coisas, tendo já algumas alterações, ainda eram pacíficas. Mas com o advento dos smartphones, no caso o primeiro iPhone, em 2007, tudo mudou de uma forma muito rápida. Na antiguidade da comunicação contemporânea as pessoas ouviam rádio de manhã no carro, liam um jornal algures durante o dia, voltavam a ouvir rádio no regresso a casa e depois viam um dos poucos canais de televisão que então existiam. De repente os jornais impressos começaram a decair, substituídos pelas aplicações que tinham as suas edições digitais, nos carros começou a entrar o streaming de aplicações como o Spotify e, mais recentemente, os podcasts; a rádio passou a ser consumida ao longo do dia, também nas horas de trabalho, graças às suas emissões online enquanto a TV se fragmentou em dezenas e dezenas de canais e nas plataformas de streaming, graças à crescente penetração da fibra óptica. No final de 2024 em Portugal, 92 em cada 100 famílias  tinham banda larga fixa, e dessas cerca de 68% eram de fibra óptica, que continua a crescer. Tudo isto provoca alterações enormes nos hábitos dos consumidores, de qualquer idade e estatuto social. Hoje em dia a arte - cada vez mais científica e menos intuitiva -  está em descobrir quais os pontos de contacto ideais para que cada produto possa eficazmente atingir os seus potenciais consumidores. Não é tarefa fácil entre as solicitações das redes sociais, dos canais de cabo e convencionais e dos websites mais visitados.


Vamos a dados: actualmente os canais FTA (Free To Air, RTP1 , RTP2, SIC e TVI), alcançam em média, no conjunto, 40% do total de espectadores de televisão, enquanto o conjunto dos canais de cabo alcança 40% e as plataformas de streaming outros 20%. Ou seja, 60% dos espectadores não frequentam os canais generalistas, FTA, quando há não muitos anos eles valiam mais de 60% do universo - e a tendência natural é que continuem a perder audiência. Isto tem repercussões na distribuição do investimento publicitário. Se pegarmos nos últimos números disponíveis as televisões FTA têm 33% do investimento publicitário total e estão em queda (chegaram a ultrapassar os 60%), o conjunto dos canais de cabo têm 13% e estão a subir, a imprensa no seu todo tem 1,6% quando chegou a ser o segundo meio em valor de investimento captado, a rádio, tem cerca de 5,6%, o OOH (outdoor, publicidade de rua) tem 16% e tem vindo a subir, a publicidade em salas de cinema vale 0,5% do investimento publicitário total do mercado português e o Digital já passa ligeiramente os 30% e continua aos poucos a crescer. Quanto ao digital convém dizer que há um volume apreciável que não entra nas contas do mercado português porque, apesar de se dirigir aos consumidores portugueses, é comprado junto das grandes operações, Google- Alphabet e Meta- Facebook, nas suas sedes europeias, nomeadamente na Irlanda. 


O crescimento do outdoor, que tem sido impressionante nos anos mais recentes, reflecte precisamente a tentativa de contornar a fragmentação das audiências na televisão e no digital. O racional é que a publicidade de rua pode ser vista por toda a gente, os consumidores que estão dispersos pelos canais de cabo, plataformas de streaming ou sites e aplicações da internet. Outra novidade vem da utilização frequente de influenciadores. Eles existem há muitos anos mas as redes sociais proporcionou  o seu crescimento exponencial nos anos mais recentes. Mas a aferição dos resultados que obtêm é difícil e os resultados práticos nas vendas  são ainda muitas vezes uma incógnita.


Um estudo recente, Influencer Trust Index, da National Advertising Division norte-americana, indica, em relação ao marketing de influência, que apenas 5% dos consumidores inquiridos confia plenamente em influenciadores, 26% dizem que não confiam de todo e 69% admitem confiar de alguma forma. O contraste com os números da publicidade tradicional, incluído no mesmo estudo, mostra as diferenças:  87% dos consumidores inquiridos dizem confiar na publicidade que vêem, e 13 % dizem que não confiam. Os consumidores entre os 25 e os 34 anos são os que menos confiam na publicidade.


Este panorama obriga a voltar à questão do processo de elaboração de uma campanha de publicidade, que, de forma genérica, se divide em duas grandes áreas: a criatividade (que imagina, elabora e produz a publicidade, seja gráfica, digital ou audiovisual); e o planeamento de meios, a estratégia de comunicação integrada, que estuda a melhor forma de conseguir que uma campanha de publicidade atinja os alvos pretendidos em termos de consumidor. Num mundo ideal o cliente podia pedir à sua agência de meios para estudar quais devem ser os meios a utilizar para alcançar os seus objetivos. E a criatividade deveria criar os conteúdos publicitários para os meios escolhidos. Mas isto raramente acontece porque na cabeça de muitos clientes continua a haver um criativo de bancada. O resultado é que muitas vezes surgem conteúdos desadequados à estratégia de meios ideal até porque, a sobrevivência obriga , as agências criativas muitas vezes preferem produzir o que lhes dá maior margem. A luta de classes na publicidade está sempre entre estes dois pólos. a criatividade e o planeamento. Continuo a achar que ver primeiro o mapa para se saber onde quer chegar é mais eficiente do que escolher o veículo em que se faz a viagem Essa continua a ser a grande s questão, cada vez mais decisiva, à medida  que a fragmentação aumenta, a tecnologia avança e os ciclos de comportamento dos consumidores mudam cada vez de forma mais rápida.  e saber onde eles andam e qual o mix ideal que deve ser usado na comunicação para os impactar com a mensagem é o grande desafio.


Manuel Falcão, Consultor de Estratégias de Mídia


 


 


 


 


 


 


 


 

novembro 15, 2025

PERDIDOS & ACHADOS

 


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Foi bonita a festa. Havia quem falasse, houve quem cantasse e tocasse. A sala estava cheia e o dia cinzento convidava a um agasalho. Quando a sala se esvaziou e as pessoas se dirigiram para o local onde estavam a ser servidos aperitivos, ficou perdido numa cadeira este casaco. Onde estaria o seu dono? Se os objectos falassem talvez se ouvisse ali, naquela sala agora vazia, a pergunta: onde está o meu dono que me deixou aqui abandonado? Às vezes acontece isto: encontra-se alguém conhecido, que há muito não se vê, e deixamos para trás alguma coisa que trazíamos quando chegámos. Foi, se calhar, assim: trocámos o que tínhamos por uma conversa que desejávamos. E como uma conversa puxa outra e uma cara conhecida nunca vem só, acaba o objecto por ficar sozinho, a quebrar o vazio das cadeiras de uma sala. Ali perto o seu dono envolve-se cada vez mais em palavras e olhares. Os encontros desejados que demoram tempo a ser alcançados, quando se concretizam finalmente, ocupam o espaço da atenção disponível. Não se pensa em mais nada do que dizer o que antes ficou por falar, na esperança que a conversa retomada possa trazer de volta a emoção que antes se sentira e nunca mais se repetira. E o casaco perdido fica ali solitário, no frio da sala vazia, enquanto a conversa que o substituíu envolve quem o deixou para trás. A vida é isto - perdem-se umas coisas quando se encontram outras.


 


 


 

novembro 14, 2025

UM PAÍS ENTREGUE AOS BICHOS

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A POLÉMICA DOS ELEFANTES NO ALENTEJO - Na semana passada surgiu a notícia de que numa herdade alentejana, nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, vai ser criado, em cerca de 400 hectares de montado, um espaço que  se intitula como “o maior refúgio” de elefantes reformados da Europa, estando previsto que venha a acolher 24 paquidermes vindos de circos e zoos de vários países europeus, já a partir de 2026. A iniciativa é de uma organização criada no Reino Unido, Pangea. Na cerimónia de apresentação foi anunciado o apoio das Câmaras Municipais de Vila Viçosa e Alandroal, assim como da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. A escritora António Ruivo entrou no debate sobre esta iniciativa e partilhou alguns dados que dão que pensar. Antónia Ruivo sublinha que o  montado é um ecossistema produtivo e frágil e os elefantes adultos, cada um com um peso da ordem das quatro toneladas, comprimem o solo, quando os animais repetirem o mesmo trilho todos os dias. “O solo comprimido no Alentejo é solo que não embebe a água, e solo que não embebe será a sentença de morte para o sobreiro. A perda de renascimento natural será uma ferida ecológica que perdurará por décadas.”, afirma Antónia Ruivo. E mais:  “a isto acrescentamos o embate direto sobre a fauna e a flora locais já que o trânsito constante de megafauna altera corredores ecológicos, destrói sub-bosques essenciais à reabilitação, afugenta aves nidificantes e força espécies residentes a competir pela água em períodos de seca extrema” . Um elefante adulto bebe 150 a 200 litros de água por dia, podendo chegar aos 250 litros em alturas de grande calor, muito mais que as espécies animais habituais na região. Sublinha também: “A flora mediterrânica adaptada ao Montado não suporta pisoteio continuado. A fauna local não compete com elefantes em contexto de escassez. O resultado previsível é a perda gradual de biodiversidade e a aceleração dos processos de desertificação.” São também de Antónia Ruivo estas palavras: “É preciso que alguém o diga, sem medo de ser classificado como inimigo da fauna ou da piedade universal: o projeto do santuário de elefantes no Alentejo não é um acto de nobreza ética, é um monumento à impulsividade política e um risco”. Resta saber o que dizem de tudo isto as autoridades ambientais e agronómicas locais responsáveis pela defesa do montado.



SEMANADA - No sábado da semana passada o tempo médio de espera para doentes urgentes no Hospital Amadora-Sintra ultrapassou as dez horas e mais de 15 horas para doentes pouco urgentes; a 30 de junho deste ano  havia um milhão de pessoas à espera da primeira consulta de especialidade no SNS, mais 20% que um ano antes; milhão e meio de pessoas continuam sem médico de família; o Conselho de Finanças Públicas alertou que não foi dada fundamentação cabal para a redução projectada nas despesas com Saúde no Orçamento de Estado  para 2026; 60% dos alunos das quatro escolas de medicina dentária do país são estrangeiros; os cursos de português para obtenção de nacionalidade estão esgotados e há imigrantes que têm de fazer os exames noutros países; a dívida pública portuguesa está a aumentar há três trimestres seguidos; os partidos apresentaram 2176 propostas de alteração ao Orçamento de Estado, um novo recorde; em semana da Web Summit vale a pena recordar que em cinco anos, foram concedidas apenas 490 autorizações pelo regime especial criado para atrair imigrantes empreendedores e fundadores de startups.


 


O ARCO DA VELHA - A organização da Web Summit montou uma barraca debaixo da pala do Pavilhão de Portugal, um edifício desenhado por Siza Vieira e classificado como Monumento de Interesse Público. A barraca foi autorizada pela Câmara Municipal e pela Reitoria da Universidade de Lisboa, que gere o espaço.


 


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MESA DE CABECEIRA - “A Corte das Mulheres”, de André Canhoto Costa, relata a presença de influentes mulheres na corte portuguesa entre 1495 e 1578, período que abrange os reinados de D. Manuel I e D. Sebastião. Foram amantes de livros, apaixonadas pela improvisação poética, cantoras afeiçoadas aos bailes, exímias dançarinas, rodopiando em salas, tocando alaúde, improvisando versos, dando conselhos a ministros e embaixadores, argumentando diante dos doutores. Na Corte das Mulheres brilharam nomes como Joana Vaz, Públia Hortênsia de Castro, Luísa Sigeia, Paula Vicente ou Francisca de Aragão, entre outras. Edição Quetzal. “Construtoras de Impérios” é outro livro sobre a presença das mulheres na nossa História e mostra o seu protagonismo na construção do império colonial português.  Esta obra mostra que a expansão ultramarina portuguesa não foi uma mera história feita por homens, foi também obra de mulheres, portuguesas e autóctones, com papel activo na política, na economia e na sociedade - em Portugal e em espaços ultramarinos. O livro baseia-se na investigação de um grupo de autores, coordenados por Amélia Polónia. Edição Temas e Debates.


 


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PENSAMENTO - A Presses Universitaires de France (PUF) confiou a três prestigiados académicos franceses, Emmanuelle Hénin, Xavier-Laurent Salvador e Pierre Vermeren a coordenação de uma obra sobre os excessos do wokismo, no quadro de um debate intelectual consistente. Assim nasceu o livro  “Face ao Obscurantismo Woke”. Os três coordenadores convidaram mais de duas dezenas de cientistas, filósofos, historiadores, engenheiros, e médicos que se debruçaram sobre o mecanismo religioso e fanático que marca a pseudociência woke. Quando começaram a circular informações sobre o livro uma violenta campanha de imprensa acusou as PUF de estarem ao serviço da extrema direita e desta obra ser financiada por esse sector político. A edição chegou a estar suspensa até que se provou a seriedade e independência do trabalho, ultrapassando a censura e pressões políticas e intelectuais que pretendiam silenciar este livro - nada que surpreenda nos defensores do wokismo. Nascida nos departamentos de ciências humanas, a pseudociência militante woke  invade a medicina e as ciências exactas, pretendendo impor-se através da intimidação e rejeitando qualquer crítica. O livro mostra como o wokismo representa hoje um profundo recuo da racionalidade e do universalismo. Edição Guerra & Paz.


 


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PINTURA E IRONIA - Pedro Casqueiro é um pintor português contemporâneo com obra em algumas das mais importantes colecções institucionais e privadas e integrou um dos vários grupos informais de artistas que frequentaram a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa nos anos 80. São dele estas palavras numa entrevista ao jornal “Público”: “Durante muitos anos não houve pintores e em certas alturas a pintura foi esquecida. É um trabalho mais solitário e demorado e talvez muitos artistas não estejam à altura ou talvez estejam todos fartos de pintar”. Casqueiro não está farto, este ano mostrou novos trabalhos na Galeria Miguel Nabinho e agora, até dia 6 de Abril, o MAAT apresenta,no edifício da antiga Central eléctrica, uma exposição antológica , “Detour”,  com cerca de 80 obras que  percorrem o percurso artístico de Casqueiro entre 1985 e 2025, entre as quais este “Sweater”, de 2018 que aqui se reproduz. João Pinharanda, que comissaria a exposição, sublinha que os trabalhos expostos mostram a grande variedade da sua produção, o uso da cor, a figuração e não figuração e a utilização da palavra pintada. A obra de Casqueiro tem frequentemente uma inspiração arquitectónica, noutras utiliza formas geométricas, por vezes evoca a banda desenhada e algum imaginário da pop art, com uma presença de humor e ironia que são também uma das suas imagens de marca. 


 


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ROTEIRO - Na Galeria Fernando Santos, no Porto, inaugura dia 15 “Endscape”, uma exposição de fotografia de Luís Campos, de grande formato, a preto e branco, As fotografias antecipam um mundo depois do fim, paisagens sem humanos, sem animais, apenas com vestígios da natureza (na imagem). Restam rochas, desertos, árvores queimadas ou fossilizadas, glaciares em dissolução e vestígios da nossa passagem soterrados na areia, imagens de uma destruição que ameaça a nossa extinção enquanto espécie. A exposição fica até 11 de Janeiro, na Galeria Fernando Santos, Rua Miguel Bombarda 526, Porto. No Centro de Artes Villa Portela, em Leiria, está patente até 28 de Fevereiro uma nova exposição individual de João Paulo Feliciano, resultado da coleção da Fundação de Serralves. “Subir ao Palco/Back Home”, tem curadoria de Joana Valsassina, reúne obras de João Paulo Feliciano desde os anos 90 até 2025. E em Lisboa a Galeria Diferença mostra uma exposição de pintura de Bettina Vaz Guimarães com o título “Cartografia do Olhar” e outra de escultura, de Maria Ribeiro, “Argamassa”. A Diferença fica na Rua de S. Filipe Nery 42, ao Rato.


 


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UM DISCO A NÃO PERDER - Com “Lux”, o novo álbum da espanhola Rosalia, a cantora atinge um novo patamar graças a uma produção cuidada, ao leque de colaborações que conseguiu juntar e, sobretudo, ao seu trabalho de composição. As edições físicas do disco têm 18 temas, as digitais, em streaming, apenas 15. No disco colaboram nomes como, Bjork, a portuguesa Carminho, Estrella Morente, Sílvia Perez Cruz, Yahritza y su Esencia e também Yves Tumor. Composto ao longo de dois anos, as letras foram escritas por Rosalia em 14 idiomas diferentes - além do catalão e do castelhano que são as línguas nativas da cantora, há canções em  árabe, inglês, francês, alemão, italiano, hebraico, japonês, latim, mandarim, português, siciliano e ucraniano. Trabalho profundamente místico, em que Rosalia canta os seus amores e a sua relação com a religião, cada idioma foi escolhido para evocar a vida de uma santa distinta. Rosalia assegurou que todas as letras fossem revistas para não conterem erros e aprendeu a cantá-las nesses idiomas, com as pronúncias e técnicas vocais necessárias para cantar em cada língua. O tema interpretado por Rosalia e Carminho, “Memória”, conta com a participação do Coro de Cambra del Palau de la Musica Catalana e da Escolania de Montserrat.e à semelhança de todo o álbum foi gravado com a Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Daniel Bjarnason. “Lux”, o quarto álbum de Rosalia, é o mais surpreendente dos seus trabalhos. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Os partidos populistas aparecem quando os partidos tradicionais deixam de fazer o que lhes compete na segurança, na imigração, na corrupção” - João Pereira Coutinho, no Correio da Manhã.


 


BACK TO BASICS -  “Competição não rima com arte” - Maria João Pires


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS







novembro 08, 2025

AS NOZES DE OUTONO

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Nesta altura do ano sonho com o barulho das cascas das nozes a estalar, quando, ao abrirem-se, desnudam aquelas asas deliciosas que sinalizam o Outono. Esta é também a estação do ano dos sabores únicos e frescos dos sedutores bagos de romã, da excitante marmelada recém cozinhada, das castanhas assadas a fumegar na rua. Uma prova da perfeição da natureza é perceber como estes sabores e odores se completam na perfeição. Posso imaginar-me a partir nozes durante uma tarde, com cuidado, sem as esmigalhar, enquanto intercalo com um pedaço de marmelada. Com sorte incluo neste bacanal outonal umas castanhas assadas, ainda mornas, abertas ao meio e com uma leve camada de manteiga dos Açores, da boa. E remato tudo com uns bagos de romã que trinco com volúpia. O verdadeiro e simples prazer das coisas do campo encontra-se na sua melhor forma nesta estação do ano. Nas outras há boas frutas, mas talvez seja o Outono aquela estação que tem em si o conjunto mais rico e explosivo para as nossas papilas gustativas. O mais curioso de tudo é que estas delícias, sendo boas por si sós, são tão ricas que partilham o que de melhor têm quando são misturadas com outras delícias numa salada, assadas no forno ao lado de uma peça de carne, ou servindo de companhia a um queijo bem curado. E não me esqueço das romãs, essas pérolas de prazer que alma gentil me descasca, salvaguardando-as num frasco de vidro que fica no frigorífico para eu ir assaltando ou para começar o dia da melhor forma, misturando-as no meu iogurte matinal. A vida feita de coisas simples pode ser boa. Nós é que muitas vezes a complicamos.


(estes pensamentos estão semanalmente em sapo.pt)

novembro 07, 2025

FUGIR À REALIDADE - ESTRATÉGIA DE GOVERNAÇÂO

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ESTE PAÍS - Na edição desta semana do semanário “Sol”, o jornalista José Cabrita Saraiva fez uma entrevista com um guarda prisional da penitenciária da Carregueira. Vou citar um excerto dessa entrevista: “No caso da Carregueira estamos a falar de uma prisão que foi planeada para 500 reclusos e já vai nos 800. O que era uma cela para 4 pessoas passou a ser para 5, 6 ou 8. (...) É como se fosse uma cidade que está a ficar sobrepovoada. Você não tem uma enfermaria maior, não tem um pátio maior, não tem um refeitório maior, não tem nada maior. Mas tem mais reclusos. Menos guardas e mais reclusos.” Leio estas linhas e é impossível não pensar que este é também o retrato do nosso país hoje em dia. Temos mais gente mas no funcionamento do Estado tudo diminui: faltam professores, faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam políticas eficazes de habitação. A culpa não é só deste Governo, bem entendido: é de uma sucessão de anos de má governação em que ninguém olhou para a realidade que se desenhava e que inevitavelmente produziria este resultado, apesar de muitos avisos terem sido feitos. O que na realidade acontece é que o Estado tem obrigação de assegurar que áreas cruciais como a saúde e a educação funcionem e deve desenvolver políticas que estimulem a habitação social. Nada disto está a ser feito e o novo Orçamento de Estado prevê mais cortes que vão piorar ainda mais a situação nestas áreas. Não se trata de seguir a conversa, que está na moda, de os portugueses se sentirem estrangeiros no seu país. É mais ao contrário: temos um Estado desligado do país e de quem cá vive.


 


SEMANADA - Segundo o bastonário da ordem dos médicos todos os anos saem 800 médicos de Portugal; quatro milhões de portugueses têm seguros de saúde; as famílias portuguesas gastam 20 milhões de euros por dia em despesas relacionadas com a saúde; o Governo deixou cair do PRR o novo Hospital Oriental de Lisboa, 18 centros de saúde, 3550 camas na rede de cuidados continuados e paliativos; na área da Cultura foram retirados 15 milhões de euros do PRR que se destinava a livrarias, apoios à tradução e edição de de obras literárias e digitalização de arquivos audiovisuais; o reforço e alargamento da cobertura das escolas com redes de wi-fi também foi retirado do PRR; trabalham hoje em Portugal 5,624 milhões de pessoas, o valor mais alto desde 1998; segundo promotores imobiliários a aprovação de novos empreendimentos é mais ágil no Porto do que em Lisboa, o que leva à fuga de investimentos na capital na área da habitação; os bancos portugueses concederam 18 mil milhões de empréstimos para a compra de casa nos primeiro oito meses do ano, um valor sem precedentes; os impostos sobre a habitação representam 80% da receita fiscal das autarquias; as exportações portuguesas caíram 0,1% no terceiro trimestre e as importações cresceram 5.2%; a dívida pública atingiu um novo máximo histórico de 294,3 mil milhões, ou seja cerca de 27 mil euros por habitante; há mais de 1200 horários ainda por preencher nas escolas; as polícias portuguesas apreenderam dez toneladas de cocaína em seis meses, o valor mais alto de sempre.


 


O ARCO DA VELHA - Mais de 30% da violência doméstica registada pela PSP no primeiro semestre é de filhos contra pais.


 


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A SEDUÇÃO DA MONOTIPIA - A nova exposição de Ana Jotta e Jorge Nesbitt, que já têm um histórico de colaboração, tem um título baseado na música de Robert Wyatt, “Black Pudding”. Na realidade a exposição, que está patente na Galeria Miguel Nabinho, tem três momentos. O primeiro, e que está exposto (na foto), é constituído por um mural em rolo de papel, com a dimensão de 14 metros, no qual os artistas imprimiram monotipias a partir de linóleos previamente usados noutras circunstâncias. O segundo momento é uma série de 13 trabalhos feitos em papel japonês, também com monotipias e marcador com dimensões aproximadas de um metro por 1,60 m. E o terceiro é um conjunto de duas dezenas de livros de artista, com capa em serigrafia, reproduzindo um poema de um monge irlandês do século IX, e cada um tem dentro um desdobrável, prova única de monotipia e marcador em papel japonês, com 30 cm x 1,75 m. O grande mural exposto está concebido (e marcado) para poder ser vendido em segmentos de um metro. A exposição fica patente até final de Novembro na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão 18.


 


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AMORES CRUZADOS - Can Xue é considerada a maior escritora chinesa contemporânea, tem um novo romance editado em Portugal - “A Última Amante”, uma história de amores cruzados repleta de ironia. No romance desfila um conjunto de maridos, esposas e amantes, entrelaçados em relações complicadas. As personagens envolvem-se nas fantasias umas das outras, mantendo conversas que são autênticos jogos de adivinhação. Can Xue escreve sobre o desejo humano colocando as personagens em bares decadentes e ruas escondidas.  O romance está repleto de personagens fabulosas, como Joe, vendedor de uma empresa de vestuário num país ocidental desconhecido, e a sua mulher, Maria, que realiza experiências místicas com os gatos e as roseiras da casa. Reagan, cliente de Joe, tem um caso com Ida, uma funcionária da sua plantação de borracha, enquanto Vincent, dono de uma loja de roupa, foge da mulher em busca de uma mulher de negro que desaparece sucessivamente. É no fundo um romance sobre a busca pelo amor, às vezes ingénua, outras desamparada. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - Os dois livros que destaco esta semana têm ambos um prefácio de Paulo Portas. Começo por “Algoritmo Cracia”, de Adolfo Mesquita Nunes. O subtítulo é “Como a IA está a transformar as nossas democracias” e Paulo Portas afirma que “este é um livro essencial para quem quer perceber a política dos nossos dias”. Mesquita Nunes é um advogado que tem estudado e trabalhado nos desafios jurídicos que as novas tecnologias e em particular a IA colocam. O autor sublinha que a Inteligência Artificial não é apenas uma inovação tecnológica, mas um dos maiores desafios à sobrevivência das democracias liberais” (edição D. Quixote). O outro livro é uma segunda edição, actualizada e aumentada, que conta o percurso de Rui Pedro Bairrada, “De Estafeta a CEO e de CEO a Chairman”, fundador da Doutor Finanças, uma empresa de intermediação de crédito que promove a literacia financeira. No seu prefácio Paulo Portas destaca três atitudes de Rui Pedro Bairrada que o impressionaram:” a disposição para mudar profissionalmente, a disposição para fazer uma introspecção com humanismo terapêutico e a disposição para partilhar experiências e vivências” (edição Contraponto)


 


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NOVAS DESCOBERTAS DE DYLAN - “Through the Open Window” é a 18ª edição de gravações inéditas e piratas de Bob Dylan, conhecida por “The Bootleg Series”. Neste caso grande parte são gravações efetuadas quando Dylan tinha apenas 20 anos, pouco depois de chegar a Nova Iorque. A edição é uma caixa com oito discos baseada nas sessões de estúdio feitas em finais de 1961 para gravação do seu primeiro disco, com o produtor John Hammond. Ali estão gravações não aproveitadas dessas sessões, entre elas uma versão desconhecida do tradicional “Man of Constant Sorrow”, que Dylan tinha ouvido na voz de Judy Collins. Mas este conjunto de gravações vai mais longe e abarca o período entre 1956 e 1963, incluindo a primeira gravação conhecida de Robert Zimmerman, feita numa loja de música, uma versão de “Let The Good Times Roll”. Na realidade este conjunto de discos ajuda a seguir o percurso de Dylan, do Midwest até Nova Iorque, com registos efectuados em pequenos clubes, em casa de amigos e até em manifestações, cantando temas de Woody Guthrie. Ao todo há 48 faixas completamente inéditas, incluindo gravações da sua actuação no Gerde’s Folk City em 1961, o local onde um crítico do New York Times o ouviu e depois escreveu um texto que lançou a carreira de Dylan. A caixa, compilada por Steve Berkowitz e Sean Wilentz, encerra  com a gravação integral do seu concerto no Carnegie Hall. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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ALMANAQUE - Esta semana o destaque vai para o leilão que a Cabral Moncada realiza em Lisboa no dia 10 de Novembro e que tem 217 obras de referência, 86 das quais provenientes da Colecção João Esteves de Oliveira. Coleccionador, galerista, mecenas, amante das artes e das letras, João Esteves de Oliveira (1946-2023) nasceu no Porto, estudou Economia e teve uma longa carreira na Banca internacional antes de se tornar um galerista de referência e uma figura incontornável no mercado Português de Arte Moderna e Contemporânea. Durante os tempos em que trabalhou na Banca, viveu em Londres e Paris, visitou galerias, museus e antiquários e criou relações de amizade com vários artistas, nomeadamente Júlio Pomar e Jorge Martins que, mais tarde, tiveram um papel relevante na galeria. Na sequência da reestruturação do sistema financeiro em Portugal, abandonou a Banca, e abriu a sua galeria “João Esteves de Oliveira Trabalhos sobre papel, Arte Moderna e Contemporânea”. A sua missão era promover as obras sobre papel, independentemente das técnicas utilizadas nesse suporte, o que era inédito no panorama artístico português da época. No texto que escreveu para o catálogo do leilão, Isabel Andrade Dias, que trabalhou com o galerista durante quase duas décadas, sublinha que “a atividade de João Esteves de Oliveira foi determinante para a valorização do trabalho sobre papel, conferindo-lhe uma visibilidade e um reconhecimento que até então lhe haviam sido recusados”. E prossegue: “segundo Pedro Cabrita Reis, pela mão de JEO o desenho deixou de estar guardado nas pastas dos ateliers dos artistas e ganhou autonomia e identidade”. Da sua colecção sobressaem obras de artistas com carreiras relevantes na arte contemporânea: Ana Jotta, José Loureiro, José Pedro Croft, Julião Sarmento (na imagem está a sua obra que vai a leilão), Pedro Cabrita Reis, Jorge Queiroz, Jorge Pinheiro, Fernando Calhau, António Sena, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa,  Joaquim Bravo, Manuel Caldeira, Jorge Nesbitt, Marco Pires e Vasco Futscher, entre outros. O leilão, presencial, decorre na sede da Cabral Moncada, Rua MIguel Lupi 12D, no dia 10 pelas 18h00.



DIXIT - Cada vez há menos portugueses a acreditar que os dirigentes do PS não soubessem nada sobre o modo como Sócrates exercia o poder e beneficiava dele” - João Marques de Almeida, no “Sol”.


 


BACK TO BASICS -  “Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina” -  Nelson Rodrigues.


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 





outubro 31, 2025

TODOS OS PATINHOS SABEM BEM NADAR

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Há um ditado popular que volta e meia  me vem à memória quando sou defrontado com uma coisa inesperada: “quem não tem cão, caça com gato”.  Foi isso mesmo que pensei quando me deparei com este pequeno lago no meio de Amieira do Tejo, uma aldeia do concelho de Nisa. Nesse lago as figuras principais, que me atraíram o olhar, são estes patos de plástico. Foi a solução possível para o lago ser habitado e não ficar ali vazio, só com a água e os limos que sempre vão crescendo. Lembrei-me de perguntar à Inteligência Artificial de onde vem este ditado popular e que quer ele dizer. A resposta veio pronta, e aqui a reproduzo: “A expressão "quem não tem cão caça com gato" significa usar meios alternativos quando não se tem o ideal para atingir um objetivo. Há uma outra versão, que usa a expressão "caça como gato",  uma invenção recente que, embora faça sentido por valorizar a astúcia do gato, não é a forma histórica. A forma "com gato" está atestada em textos do século XIX, incluindo obras de Machado de Assis, enquanto a versão "como gato" só apareceu muito mais tarde. E assim, olhando para o pequeno lago, vendo os seus patos plásticos, acabei por descobrir que o grande Machado de Assis, esse expoente da literatura brasileira do século XIX também se viu levado a pensar no gato. Eu por mim, depois de ficar ali um bocado a namorar o lago, saí a trautear “todos os patinhos sabem bem nadar”....


 


os pensamentos estão ás sextas em sapo.pt




O CAMINHO PARA A INVISIBILIDADE CULTURAL


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UM PAÍS INVISÍVEL - Uma das questões mais graves da política cultural portuguesa é a fraca visibilidade no estrangeiro dos nossos artistas e das suas obras, excepção feita aos esforços de entidades privadas que asseguram presença em festivais de cinema, feiras de arte contemporânea ou festivais literários. Ao contrário de outros países, as embaixadas portuguesas têm muito pouca actividade nesta área cultural, resultado de um misto de esclerose do Instituto Camões com  falta de verba, falta de dinamismo e criatividade por parte dos embaixadores e dos adidos culturais. Há excepções, Paris é uma delas, Madrid também, mas pouco mais. Ou seja, a divulgação da criação artística portuguesa no exterior não é uma preocupação e uma prioridade, é fruto das circunstâncias e de vontades individuais esporádicas. O mesmo se pode dizer em relação à actividade do serviço público audiovisual nesta área, mais vocacionado para as estrelas fugazes do que para a criação de um acervo que testemunhe o presente para gerações futuras. A criação de documentários sobre grandes nomes da cultura portuguesa é praticamente inexistente, o que tem reflexos nas iniciativas possíveis de dinamizar no exterior. Há uma linha comum nisto tudo: a inexistência de uma política cultural com objetivos e rumo conhecidos. Há iniciativas pontuais, muito fogo de artifício mas pouco trabalho consistente e continuado. A presença cultural de um país no exterior é um barómetro daquilo que os respectivos governos fazem dentro de portas. Se preferem fogachos a um trabalho sério e consistente os resultados não são bons nem interna nem externamente. O que falta na política cultural em Portugal é um desígnio, uma estratégia que sirva o país e que permita desenvolver a percepção da nossa imagem em termos internacionais. Hoje em dia um país sem uma política pública que dinamize uma produção audiovisual que espelhe a sua realidade criativa não existe neste novo mundo digital. Nesta matéria, infelizmente, caminhamos para a invisibilidade. Esta ausência de desígnio e de estratégia é o mal maior da situação da Cultura em Portugal.





SEMANADA - Na habitação o preço por metro quadrado pago por estrangeiros em Lisboa é 60% superior ao que é pago por compradores com domicílio fiscal em Portugal; a AIMA atribuiu 386.463 autorizações de residência até 22 de outubro deste ano, mais 60% do que no mesmo período de 2024;  os portugueses continuam a não conseguir poupar e 64% afirmam conseguir guardar menos de 10% do seu salário líquido enquanto 36% dizem não conseguir poupar sequer 5% do que recebem; segundo a Marktest 3,7 milhões de pessoas apostaram na lotaria ou outros jogos de sorte nos últimos 12 meses, o que representa 49,8% dos residentes em Portugal; os estudantes portugueses de 15 e 16 anos consomem menos álcool, tabaco e substâncias ilícitas que a média dos seus congéneres europeus, mas envolvem-se mais em jogos de apostas a dinheiro; os crimes contra idosos aumentaram 26% entre 2020 e 2024, ano em que 42.313 pessoas com 65 ou mais anos foram vítimas; mais de vinte viaturas são roubadas todos os dias em Portugal; segundo a Marktest a rede social X/Twitter foi a mais abandonada no último ano pelos portugueses que utilizam redes sociais, na segunda posição ficou o Snapchat e na terceira o Facebook;  o mesmo estudo revela  que quase 24% dos utilizadores destas plataformas em Portugal abandonaram pelo menos uma rede no último ano.


 


O ARCO DA VELHA - Meia centena de bebés foram abandonados à nascença ou nos primeiros seis meses de vida entre 2019 e 2024.


 


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IMAGENS QUE MARCAM - Até 29 de Novembro pode ser vista em Lisboa, na galeria Ochre Space, a obra de um dos maiores fotógrafos contemporâneos, o chinês Lu Nan, que integra a prestigiada agência Magnum e vive em Pequim. O seu trabalho resulta de observações prolongadas dos temas que aborda.  Nesta exposição pode ser vista a série que realizou sobre as prisões e condições de detenção no norte da Birmânia, realizada ao longo de três meses em 2006. Estão expostas 63 fotografias, imagens duras, por vezes quase chocantes, mas incontornáveis e que permitem documentar a realidade que se vive nesses locais. Ao mesmo tempo a galeria projecta num vídeo de 28 minutos a totalidade das imagens do seu trabalho mais conhecido, “Trilogy”, que engloba as séries “the Forgotten people”, 56 fotografias sobre a doença mental na China, “On the Road” , 60 fotografias sobre a presença da igreja católica na China e “Four Seasons”, 109 fotografias sobre a vida diária dos camponeses tibetanos. Estas fotografias foram realizadas entre 1989 e 2004, ao longo de um intenso trabalho de 15 anos focado na condição humana. “Trilogy” está editado num livro que inclui as três séries e que está disponível na galeria. João Miguel Barros, que dirige a Ochre Space e fez a curadoria desta exposição, sublinha que a obra de Lu Nan “é uma síntese rara entre ética, estética e espiritualidade.” Lu Nan, prossegue” não nos oferece imagens para consumir - oferece-nos imagens para contemplar, para escutar, para encontrar”. A Ochre Space, fica na Rua da Bica do Marquês 31A, à Calçada da Ajuda, e está aberta quartas e sábados das 15h00 às 18h30.


 


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MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago dois livros que nos permitem conhecer melhor o planeta e a sua História. “A Rota do Ouro -  Como a Índia Antiga transformou o mundo” relata como durante um milénio e meio, a Índia exportou a sua civilização diversificada e criou à sua volta um vasto império de ideias. A arte indiana, as religiões, a tecnologia, a astronomia, a música, a dança, a literatura, a matemática e a mitologia cruzaram o mundo ao longo de uma Rota do Ouro, que se estendia do Mar Vermelho ao Oceano Pacífico. O jornalista  norte americano William Dalrymple recorda a posição da Índia enquanto coração da antiga Eurásia. Relata como a Índia  transformou de facto o mundo, do maior templo hindu em Angkor Wat ao budismo da China, do comércio que ajudou a financiar o Império Romano à invenção dos números que usamos na atualidade (incluindo o zero). O autor mostra que a Índia  marcou a cultura e a tecnologia não só do mundo antigo, como também do mundo de hoje. Edição D. Quixote. O outro livro, “Pólo Norte, história de uma obsessão” , é escrito por Erling Kagge, um explorador norueguês e a primeira pessoa a ter conseguido atingir os três pólos: o Pólo Norte, o Pólo Sul e o pico do Evereste. O Pólo Norte foi durante séculos um mistério e só há uma centena de anos começou de facto a ser melhor conhecido. Ali, no limite setentrional do planeta, há um único nascer do sol por ano, e o dia dura seis meses; depois, o sol põe-se, e a noite dura outros seis. Erling Kagge fez a sua primeira expedição ao Ártico em 1990, com Børge Ousland e a mais recente ocorreu em 2023 e permite-nos conhecer melhor a natureza no lugar que é considerado o mais inóspito do planeta. O livro tem uma enorme actualidade , já que nunca como hoje o Ártico, a Gronelândia e o Pólo norte  estiveram nas primeiras páginas dos jornais e nos grandes debates de geopolítica. Edição Quetzal.


 


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ROTEIRO - A Galeria Ratton apresenta até final de Dezembro a exposição “Correspondências”, que assinala os 38 anos da Galeria Ratton, celebrando azulejos criados por Menez, Graça Morais, Virgínia Fróis e Júlio Pomar. A Ratton tem uma actividade centrada no azulejo e tem trabalhado regularmente com alguns dos maiores artistas portugueses. Na imagem um painel com quatro azulejos de Júlio Pomar. Na galeria pode ainda ver, além desta exposição, algumas obras do seu extenso e importante acervo. No grande hall do MACAM está patente “Juliet and Juliet”, de Isabel Cordovil, a segunda parte do projecto Murmur que integra o programa de exposições temporárias do museu com a apresentação de obras de artistas portugueses e estrangeiros concebidas especialmente para aquele local. Isabel Cordovil apresenta uma instalação em torno da identidade, entre a herdada e a desejada, com curadoria de Carolina Quintela.


 


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OS BLUES, SEMPRE - O saxofonista Charles Lloyd tem um novo disco, “figure in blue, memories of duke” , um dos seus melhores registos recentes. Acompanhado por Jason Moran no piano e por Marvin Sewell na guitarra, Lloyd apresenta 14 temas, predominantemente influenciados pelos blues, ao longo de hora e meia. Entre baladas como “Hina Hanta, the way of peace”  e a sonoridade própria dos blues do delta do Mississipi, como Chulahoma”, o disco é uma homenagem a Duke Ellington, em temas como “Black Butterfly” and “Heaven.” e inclui originais de Lloyd além de versões de temas clássicos do jazz e dos blues como em “Blues for Langston”, “Abide for Me”. A forma de tocar guitarra de Sewell, recorrendo ao uso de bottleneck, um clássico dos blues do Mississipi, é uma preciosa contribuição para este disco e o piano de Jason Moran completa o trabalho do trio. A  última faixa do disco é “Somewhere”, um tema de Leonard Bernstein para “West Side Story” , aqui numa versão notável. Este é o 12º disco de Charles Lloyd para a editora Blue Note e está disponível nas plataformas de streaming. 





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ALMANAQUE - Até dia 31 de Janeiro está patente na Lisboa Social Mitra, ao Beato, a exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia Portuguesa”, organizada pela Associação Cultural Ephemera, com curadoria e textos de José Pacheco Pereira. A exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira, das 14 às 18 horas, e aos sábados, domingos e feriados das 10 às 18 horas. Ali podemos seguir o que foi a vida pública de Francisco Sá Carneiro com três grandes núcleos temporais e documentais: antes do 25 de Abril, do período revolucionário até à consolidação do regime democrático e, por fim, o legado político do fundador do PPD. São também apresentados documentos inéditos pertencentes ao Arquivo Ephemera e um dos pontos altos é o espólio de Sá Carneiro, guardado pela sua secretária pessoal, Conceição Monteiro, que conservou grande parte dos documentos, pela primeira vez agora revelados ao público. 



DIXIT - Todos os fundadores (do PPD) consideravam uma questão de fronteira, uma “linha vermelha” como agora se diz, o seu partido não ser um partido de direita, mas um partido de centro-esquerda (…) como Sá Carneiro sempre repetiu até à morte” - José Pacheco Pereira, no Público.


 


BACK TO BASICS -  “A liberdade é importante, mas tão importante quanto a liberdade são a solidariedade e sermos capazes de lutar pela igualdade” - Francisco Pinto Balsemão


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 





outubro 25, 2025

CHUVINHA OUTONAL

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Amada por uns, temida por outros e odiada por mais uns tantos, a chuvinha voltou a entrar nas nossas vidas, um mês depois de o Outono se ter manifestado. Foi para já uma chuva tímida, a preparar as mentes para o inverno que ainda está a meio do seu sono. Um bom dia para ir a um restaurante de bairro, ao lado de casa, onde servem umas febras como eu gosto, finas, grelhadas e estaladiças, acompanhadas por umas batatas fritas naturais sem vestígio de congelador. É meio dia e meia e a casa já está cheia. Estão televisões ligadas num canal de notícias nas duas pontas da sala: enquanto duram as notícias de futebol a atenção dos comensais está mais nos ecrãs que nas bochechas estufadas, que eram o prato do dia. Desaparece o futebol retomam as conversas. De Paris vêm duas notícias: a prisão de Sarkozy com uma Carla Bruni chorosa a dizer-lhe adeus; e logo depois o relato de um tufão que deixou um rasto de destruição em Paris. Sobre a primeira notícia na mesa ao lado ouvi duas raparigas a exclamar “coitada, e tão gira ainda, olhem que cinco anos preso é muito tempo”; e, sobre a outra notícia, ouço apenas um desabafo, masculino por sinal: “já não se pode confiar no tempo, está tudo a mudar, por este andar, depois desta chuvinha de hoje ainda vem para aí um nevão”. Lá fora estavam 21 graus. Tomo o meu café e saio para a rua. Debaixo do toldo do restaurante duas freguesas fumam daqueles cigarros modernos que deitam enormes nuvens de vapor perfumado a tabaco. Fujo dali, escapei ao cheiro da fritura das batatas, não me apetece levar com este em cima. A chuva é pouca, daquela que molha parvos. Assumo a minha humilde condição e lá vou molhar-me.




outubro 24, 2025

CIDADES EXEMPLARES E SUGESTÕES AVULSAS

 


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EXEMPLOS AUTÁRQUICOS - Agora, depois das autárquicas, em que os eleitores escolheram quem querem a governar as suas terra é tempo de deitar mãos à obra, estudar para além dos seus genéricos programas eleitorais e procurar bons exemplos. Trago dois exemplos: uma grande cidade, capital de um país, e outra mais pequena, de outro país, também da Europa, mas mais a sul. A primeira cidade é Copenhaga, a capital da Dinamarca. A segunda é Montpellier, no sul de França, a uma escassa dezena de quilómetros do mar mediterrânico. Copenhaga foi nomeada em Junho como a cidade mais habitável do mundo, num ranking do Global Liveability Ranking, da revista The Economist, que analisou 173 cidades. Copenhaga teve pontuação alta em estabilidade, educação, infraestruturas, saúde, cultura e meio ambiente. O estudo sublinha que Copenhaga conseguiu a “harmonia entre o bem-estar dos cidadãos e o desenvolvimento urbano”. Estatísticas oficiais dinamarquesas indicam que mais de um terço dos edifícios habitacionais de Copenhaga pertencem a cooperativas e a evolução dos seus preços tem um efeito regulador sobre o resto do mercado, travando a especulação imobiliária. Este modelo permite ainda que as cooperativas proprietárias dos edifícios impeçam a sua utilização por alojamentos locais turísticos. Ao mesmo tempo as autoridades municipais estimularam a criação de apartamentos para a terceira idade em regime de de utilização comum, o “senior cohousing”. Em Montpellier, uma cidade da província, o número de habitantes cresce e a economia desenvolve-se. Michel Delafosse, o Presidente da Câmara, tem 48 anos, é considerado um potencial candidato presidencial em França e tem sido o responsável pela transformação da cidade, que hoje em dia é um exemplo de urbanismo de vanguarda, com uma nova zona de crescimento económico,  a Cidade Criativa, que ficará pronta  em 2027. Numas antigas instalações militares, agora desocupadas, disponibilizou 10.000 metros quadrados para estúdios de artistas e áreas de exposição e cosntruíu 2500 novas casas, um terço das quais destinadas a habitação social. E certamente existirão mais exemplos além destas duas cidades. Basta investigar, aprender com os melhores. E fazer de facto, em vez de dizer que se quer fazer.


 


SEMANADA - Os estudantes do Ensino Superior falharam o pagamento de mais de 36 milhões de euros em propinas às principais universidades e politécnicos públicos, um valor acumulado dos últimos três anos lectivos; 20% dos estudantes do ensino superior frequentam instituições privadas; entre 2019 e 2024 os preços de restauração e alojamento em Portugal subiram 31,4%, bem acima da média de 19,7% dos principais países da europa do sul;  dois em cada cinco residentes em Lisboa são estrangeiros; no final de 2024 residiam em Portugal milhão e meio de estrangeiros, 85% dos quais em idade activa;  os imigrantes são 17% da força de trabalho; o índice de preços na habitação disparou 22,8% no espaço de um ano e 6.9% face ao trimestre anterior; vários bancos consideram que o crescimento dos preços da habitação, que mais que duplicaram nos últimos dez anos, pode não ser sustentável e constitui um risco de crédito; cada português produziu 519 quilos de lixo em 2024; a potência eléctrica pedida pelos centros de dados que estão em projecto supera toda a capacidade de produção de energia eléctrica actual em Portugal; mais de metade dos docentes portugueses tem mais de 50 anos; o número de alunos nas escolas portuguesas aumentou 30% nos últimos cinco anos; um estudo da Universidade da Beira Interior indica que mais de metade do país corre o risco de ficar sem cobertura jornalística e indica que cresce o número de concelhos sem órgãos de comunicação social que acompanhem a realidade local.


 


O ARCO DA VELHA - Na proposta de Orçamento de Estado para 2026 o peso dos impostos indirectos na receita fiscal atinge 53,5% , o valor máximo da década.


 


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UM POLICIAL COMO DEVE SER - O título deste romance policial é todo um programa: “A Solidão do Manager”. Trata-se do oitavo livro publicado por Manuel Vásquez Montalbán, em 1977, a época da transição da Espanha do regime franquista para a democracia. É, claro, uma investigação do detective Pepe Carvalho, o personagem criando por Montalbán, um nativo de Barcelona, que mistura ter pertencido ao partido comunista, ter sido agente da CIA e assumidamente ser um gastrónomo que nos deixa as receitas dos petiscos que cozinha noite fora enquanto matuta na investigação que está a fazer naquela altura. A sua escrita é irónica, reflecte os ventos políticos dessa época em Espanha,  sobretudo na Catalunha. Neste livro Carvalho e o seu indispensável ajudante Biscuter procuram esclarecer o assassinato de um gestor, catalão, de uma multinacional, depois de ter descoberto que nas contas da empresa falatavam 200 milhões de pesetas - ainda não havia euro na época. Foi encontrado morto com umas cuecas femininas no bolso. Não vou contar a história, mas se querem um policial sério ponham-se na pista do grande Pepe Carvalho, das ruas mal afamadas que frequenta, dos petiscos que devora e das aventuras em que se mete. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - Esta semana, duas leituras que acabam por estar ligadas entre si. Em “As Teorias da Conspiração” (edição Guerra & Paz), o filósofo e historiador Pierre-André Taguieff explica como podem surgir essas teorias, apontando a sua autoria a um ou vários grupos secretos compostos por conspiradores que encontram nas redes sociais um palco privilegiado para a sua actividade, amplificando-a. Em “Teorias da Conspiração”, Taguieff afirma que o conspiracionismo é a resposta a uma procura social por sentido e coerência, e defende que para enquadrar o caos deste mundo nada é melhor do que formular a hipótese de um inimigo invisível e diabólico que explica todos os males da humanidade. O outro livro, “O Clube de Leitura da CIA”  (edição Casa das Letras) revela a história verídica de um programa secreto da espionagem norte-americana  que conseguiu contrabandear dez milhões de volumes através da vastíssima e fortemente vigiada Cortina de Ferro. A missão visava minar diretamente a censura imposta pelo regime soviético e levar visões políticas e culturais alternativas a um povo privado de acesso à informação livre.  Liderado por George Minden a partir dos escritórios da CIA em Manhattan, um homem nascido em Bucareste que compreendia profundamente as realidades e necessidades culturais do Leste, o programa enviava uma diversificada seleção de literatura para a Europa de Leste , desde clássicos  de George Orwell a autores populares como Agatha Christie. Estes livros, que funcionavam como faróis de esperança e ar fresco intelectual, eram transportados através de todos os meios imagináveis de contrabando: a bordo de camiões e iates, enviados por balões, escondidos em compartimentos secretos de comboios, ou dissimulados na bagagem de viajantes comuns. Esta  história real  é narrada pelo jornalista Charlie English e mostra como o impacto desta torrente clandestina de literatura foi particularmente forte na Polónia, onde os livros circularam avidamente contribuindo para o colapso da censura naquele país no final dos anos 80.


 


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OS CICLOS DO OLHAR -    Maria Condado utiliza a pintura para combinar a maneira como olha em seu redor com a forma como encara o mundo actual repleto de tensões e conflitos. O título da sua actual exposição na Galeria Carlos Carvalho é “turn, turn,turn”, nome roubado a uma canção de Peter Seeger, popularizada pelos Byrds em 1965. A canção relembra que todas as coisas têm o seu tempo e que se repetem ciclicamente. A exposição está dividida em duas partes - na sala principal da galeria o conjunto de novas pinturas (na imagem) e na sala lateral é apresentada uma projecção de 80 dispositivos em projecção contínua que mostram os ciclos que se sucedem durante os meses de preparação de uma exposição , combinando o tempo da criatividade com a realidade do caos dos dias de hoje. A exposição fica patente até 6 de Dezembro na Galeria Carlos Carvalho, Rua Joly Braga Santos Lote F.


 


Image-3.jpgROTEIRO - Com uma carreira assinalável na área de restauro de obras de arte antigas, Nazaré Tojal apresenta nesta exposição na Galeria Sá da Costa obras suas, novas, que reflectem a sua atracção pela criação de novas formas a partir da recuperação das memórias e de um cuidadoso trabalhar dos materiais diversos onde aplica várias técnicas. “Criaturas Sem Sombra” é o título desta exposição (na imagem) que  pode ser visitada até dia 13 de Novembro, de segunda a sábado, entre as 14h30 e as 19h, na Rua Serpa Pinto 19. Na “Pequena Galeria” (Avenida 24 de Julho 4C) o fotógrafo espanhol Antonio Sánchez-Barriga apresenta até 8 de Novembro a exposição “Aberto a Portugal”, que mostra a sua visão sobre o país. Mas o ponto alto da semana é a oitava edição da Drawing Room, uma feira de arte dedicada ao desenho contemporâneo, que decorre  na Sociedade Nacional de Belas Artes até domingo, 26 de Outubro. Esta edição reúne obras de mais de 60 artistas nacionais e estrangeiros apresentadas por 23 galerias. A feira acolhe ainda os trabalhos dos finalistas do Prémio FLAD Drawing Room.


 


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QUEBRAR O SILÊNCIO  - Este ano Brian Eno já nos tinha brindado com dois trabalhos, “Lateral” e “Luminal”, os dois primeiros passos de uma trilogia que agora se completa com “Liminal”. Todos estes álbuns foram feitos em parceria com Beatie Wolfe, uma artista norte-americana considerada uma das mais inovadoras criadoras na área da música produzida através de recursos digitais. Para algumas pessoas, Eno é hoje em dia pouco mais que  um fazedor de música ambiente destinada apenas a ocupar o silêncio. No entanto seria interessante que ouvissem estes trabalhos, todos disponíveis nas plataformas de streaming, e sobretudo este último onde evidencia o facto de ser um compositor capaz de escrever música que vai para além do imediato. Temas como “Corona” ou “Shudder Like Crows” são prova disso mesmo, do talento em conjugar harmonias com a voz e sons dos instrumentos que os dois músicos utilizam. Todos os discos da trilogia, editados pela Verve, estão disponíveis nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Recentemente, alguns activistas foram notícia por rasgar exemplares do livro do Henrique Cymerman (...) Não se defende a liberdade, nem as ideias contrárias às nossas, com censura ou proibição, queima ou rasgar de livros” - Vicente Ferreira da Silva, no Observador.


 


BACK TO BASICS -  “Pintar é apenas outra forma de manter um diário” - Pablo Picasso.


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS