agosto 25, 2023

A POLÍTICA A BRINCAR AOS CASTELOS DE AREIA

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REENTRADA  - Daqui a pouco tempo o espírito de férias na política desvaneceu-se: acabam as fotografias dos políticos à beira mar, a comer bolas de berlim ou simplesmente a passear no areal. Imagino que para alguns jornalistas seja um alívio deixar de perseguir notícias e reacções, de microfone em punho, eles razoavelmente vestidos, os entrevistados bastante despidos, em dias quentes, com o oceano como cenário de fundo. Este ano o ridículo da caça à notícia no meio da praia excedeu tudo o que é razoável. Até parece que alguns políticos, nos mais elevados cargos, não tiraram férias, apenas mudaram o cenário das conferências de imprensa. A coisa não correu bem - a política pode ser informal mas quando se vulgariza perde dignidade. Quando tudo se banaliza deixa de haver notícia, passa apenas a fazer-se o relato de ocorrências e tudo se consome de forma apressada como as páginas das antigas gazetas sobre casos de polícia, casamentos e necrologia. Passar as divergências e o confronto cada vez maior entre Governo e Presidente da República para o areal equivale a transformar Parlamento e Palácio de Belém em castelos de areia. A ver vamos como corre a reentrada política entre as eleições regionais da Madeira no final de Setembro, a preparação do Orçamento de Estado - com o cenário de reduções de impostos no horizonte - e a actuação de um Governo de maioria absoluta que bem precisa de um impulso reformista e de uma remodelação. Estes dois pontos, no entanto, dependem de uma única pessoa: António Costa. Que legado quererá ele deixar? Manter Portugal na cauda da Europa? Destruir a classe média? E como é que os próximos meses vão impactar nas guerras internas do PS pela sucessão do líder actual? Vão ser uns meses curiosos de seguir.


 


SEMANADA -  Nesta sessão legislativa o PS chumbou 74 pedidos de audição parlamentar a ministros, 11 deles a Medina; Portugal é o oitavo país da União Europeia onde o IVA mais pesa; desde que António Costa é primeiro-ministro a receita fiscal aumentou 25 mil milhões de euros; Portugal já recebeu quase um terço dos 16,6 mil milhões previstos no PRR, ou seja um pouco mais de 5,5 mil milhões, mas até agora só pagou menos de metade  a projectos apresentados, 2,4 mil milhões; Portugal perdeu num ano 200 explorações agrícolas e os agricultores com menos de 40 anos são menos de 4% do total; no ano passado as Forças Armadas perderam 7,2% dos efectivos e faltam 7732 militares, havendo actualmente 1,7 oficiais e sargentos por cada praça; mais de metade dos portugueses até aos 34 anos vive com os pais; a prestação média do crédito à habitação subiu 40% entre julho do ano passado e o mesmo mês deste ano; o primeiro semestre de 2023 teve mais nascimentos e menos mortes que no período homólogo de 2022; a corrupção no Ministério da Defesa terá lesado o Estado em pelo menos um milhão de euros e o Ministério Público acusou 73 pessoas e empresas; o número de desempregados aumentou cerca de 2,5% no final de julho, face ao período homólogo, e a maior subida deu-se na região Centro, com um agravamento de 8,7%; o aumento dos juros dos empréstimos de habitação está a levar os portugueses a diminuir despesas correntes e, segundo uma sondagem recente, as maiores reduções foram em restaurantes, férias e roupa; os contratos a termo representavam 13,2% dos postos de trabalho na Administração Central no final de 2015, altura do início da governação do PS de António Costa e em junho deste ano, esse número atingia os 15,2%, o que signfica um aumento do trabalho precário no Estado sob a governação da geringonça e PS.


 


 O ARCO DA VELHA - No serviço nacional de saúde ainda há aparelhos de radiologia antigos, que trabalham com película, cada vez mais escassa no mercado desde a conversão ao digital, impossibilitando a realização de muitos exames.


 


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O HOMEM DA VITÓRIA - Churchill é uma das personalidades políticas mais conhecidas e estimadas graças ao papel que teve no combate aos nazis e na defesa da democracia no Reino Unido e na Europa. Mas como foi a vida de Churchill fora do período da segunda grande guerra? Onde estava ele antes e o que já tinha feito? E no fim da guerra, que aconteceu? Em menos de centena e meia de páginas Sophie Doudet, uma autora de romances históricos e de biografias, escreveu de forma divertida sobre a vida de Churchill. O livro chama-se “Churchill na praia - o velho leão na toalha e na areia”.  A autora consegue oferecer ao grande público, com base em elementos biográficos, e de forma rigorosa e acessível, o relato da extraordinária carreira deste homem, considerado um visionário e um dos grandes nomes da História do século XX. Pode ler excertos dos seus grandes discursos, a forma como tomou decisões geniais e também um relato do que foram as suas maiores fraquezas. O livro descreve como Churchill foi um conquistador e um herói, cujo espírito combativo e o desejo de fazer História mudaram o mundo, popularizando o seu gesto de dois dedos a fazerem o V da vitória dos aliados sobre os nazis. Célebre primeiro-ministro de Inglaterra no momento mais crítico da História, os dias sombrios da II Guerra Mundial, deixou ainda a sua marca como jornalista, militar, historiador, Prémio Nobel da Literatura e, por fim, pintor até. Edição Guerra & Paz.


 


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CESARINY - Em Alfama, na Rua das Escolas Gerais, existe uma galeria de arte que se tem dedicado aos surrealistas portugueses, construindo uma importante colecção de artistas portugueses ligados a esse movimento. A Perve Galeria teve há cerca de uma década a iniciativa de, mesmo junto às suas instalações, criar um espaço a que deu o  nome de “Casa da Liberdade”, dedicado à obra de Mário Cesariny, cuja fase inicial foi ainda acompanhada na vida do artista. Agora, assinalando o centenário de nascimento de Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), a  Casa da Liberdade e a Perve Galeria apresentam “Primeira Pessoa” e “... e os seus contemporâneos”, duas exposições que celebram a extraordinária vida e o profundo legado daquele que é uma das personalidades maiores das artes e da poesia em Portugal. Na Casa da Liberdade está o núcleo “Primeira Pessoa”, mostrando o seu universo criativo sem barreiras e livre. A  exposição, entre uma parte significativa de material inédito, apresenta centenas de documentos, fotografias, textos e obras de arte (na imagem), de Cesariny e de vários autores seus contemporâneos e mostra, pela primeira vez, um núcleo de obras e documentação das décadas de 1940 e 1950, proveniente do recém-doado espólio de João Artur da Silva.  No espaço da Perve Galeria são destacadas as relações estabelecidas entre Mário Cesariny “... e os seus contemporâneos” de várias décadas, apresentando perto de duzentas obras de artistas nacionais e internacionais, muitos deles tendo coincidindo com o autor nas múltiplas exposições em que participou entre 2000 e 2006. A exposição, através, da apresentação de correspondência, fotografias e obras visuais podem ser vistas as colaborações de Cesariny com surrealistas portugueses e internacionais, e a sua relação crítica com alguma da tradição nacional. As duas exposições, que ficarão abertas até 26 de Novembro, têm curadoria de Carlos Cabral Nunes, director da Perve Galeria, que começou a trabalhar com Cesariny em 2020, até à sua morte seis anos mais tarde. Rua das Escolas Gerais 13, 17 e 19.


 


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UM DISCO INESPERADO - Incorporar a tradição da música negra dos Estados Unidos com a folk e a country norte-americanos é um desafio conseguido por Rhiannon Giddens, uma contadora de histórias com uma interpretação vocal e instrumental muito próprias. Virtuosa e eclética, Giddens tem percorrido vários estilos até chegar a este seu primeiro álbum de originais que ela própria compôs, “You’re The One” . São muitas as influências musicais que se encontram ao longo dos 12 temas do álbum desde sonoridades zydeco da música Cajun de “You Louisiana Man”, os blues com influência country em “Way Over Yonder” (escrita em parceria com Keb’Mo), a percussão forte a acompanhar palavras certeiras em “Hen In The Foxhouse”, o tom  soul envolvente de “Who Are You Dreaming Of”, o jazzy de “You Put The Sugar In My Bowl” e a energia contagiante de “Wrong Kind Of Right” ou de “Yet To Be” num dueto imparável com Jason Isbell, dos 400 Unit, o relato de uma história de amor entre uma mulher negra e um homem irlandês. Dois destaques mais - para “You’re The One”, que dá o título ao álbum e à faixa final, a divertida e contagiante “Good Ol’ Cider”. Um disco absolutamente irresistível. Só para terem uma ideia da versatilidade de Giddens, em 2019 ela gravou, com o músico de jazz Francesco Turizzi o álbum “There Is No Other”, por onde passam evocações de ópera, bluegrass, gospel e músicas tradicionais americanas. Mas este novo “You’re The One” mostra bem, além da versatilidade e virtuosismo, o seu talento de compositora. Disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCARIA ENTRE MURALHAS  - E se ao fim da tarde rumasse a um castelo, se sentasse numa esplanada que de um lado permite vislumbrar Lisboa e do outro a foz do Sado e o mar? O sítio existe e é o Castelo de Palmela. Lá em cima, entre muralhas e ameias, fica O Bobo da Corte, bar e restaurante de petiscos, aberto ao almoço de quarta a domingo e nas noites de sexta e sábado. A casa é uma petiscaria, e não pretende ser mais que isso, mas usa boa matéria prima: queijo de azeitão, pão da região, chouriço assado cortado em rodelas finas, pasta de atum regular e pasta de farinheira superior. Pode pedir uma tábua de presunto e queijos, uma espetada de enchidos ou uma alheira de caça e convém sempre ver qual o prato do dia. Boas opções são o pica-pau, bem temperado e com boa carne e o frango à passarinho, acompanhado de batata doce frita às rodelas. Numa visita recente foi também provado um bom aveludado de melão com hortelã. O vinho da casa, em jarro, tinto ou branco, é honesto e da região e há sangria - que pode ser de moscatel, a pedido. O largo frente à esplanada convida a passear de copo na mão no intervalo dos petiscos. O local é muito procurado por grupos em festa, por isso se quiser ir na noite de sexta ou sábado convém fazer a reserva com antecedência. O Bobo da Corte, Castelo de Palmela, telefone 935 205 936.


 


DIXIT - “Toda a gente sabe que pelo menos meia dúzia de ministros e mais ainda secretários de Estado não estão à altura”- António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Um bom livro diz-nos a verdade sobre os personagens, um mau livro mostra-nos a verdade sobre o seu autor” - G.K Chesterton





agosto 18, 2023

SOBRE A PROPAGANDA E A REALIDADE

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PALAVRAS DE ORDEM - Em 1974, logo a seguir ao 25 de Abril, as palavras de ordem mais enunciadas eram “pão”, “saúde”, “educação” e “habitação” - e , também, “paz”, relativamente à guerra colonial.  Hoje, em vez de paz, devia reivindicar-se melhor justiça, um dos cancros da nossa sociedade. O pão, a saúde, a educação e a habitação resumem aquilo que é a aspiração natural a uma vida melhor e mais digna. De uma forma ou outra, ao longo destes 49 anos, todos os partidos têm incluído nos seus programas eleitorais estas aspirações - mas muito está ainda por fazer. António Costa percebeu que a chave para conseguir vencer estava em garantir melhores salários, mas como o dinheiro não dá para tudo, ao mesmo tempo lançou mais taxas e impostos. Na realidade Costa aproveitou as medidas de austeridade provocadas pelo descalabro da governação de Sócrates e exigidas pela troika, para nalguns casos ir ainda mais além, com o seu eterno sorriso bonacheirão. E assim conseguiu receitas fiscais nunca antes vistas, o que lhe permitiu folga orçamental. Injectou dinheiro no sistema de Saúde, mas não melhorou a sua gestão e é claro que a ruptura começa a ficar à vista. O mesmo se passa na educação - com os professores a reclamarem a recuperação do poder de compra que tinham há alguns anos. De uma forma geral Costa seguiu o princípio de aumentar o salário mínimo e as pensões e de não mexer no resto. O resultado foi mais uma cacetada na classe média, que já vinha bem combalida dos anos anteriores e que tem empobrecido nas últimas duas décadas. Se a saúde e a educação são casos de má gestão, a questão da habitação é mais delicada. Centrando a recuperação da economia no turismo, o Governo abriu as portas à especulação imobiliária e à gentrificação das cidades.  A questão volta sempre ao mesmo ponto: como fazer crescer a economia e garantir melhor qualidade de vida às pessoas? Não é com impostos altos sobre o trabalho e sobre a actividade das empresas que isso se consegue. As pessoas gostariam que a oposição explicasse como alcançar aquilo que Costa prometeu e não alcançou: maior qualidade de vida para os portugueses. Resta saber se a oposição que temos consegue fazê-lo. Depois dos primeiros ecos da rentrée política, tenho as maiores dúvidas.


 


SEMANADA - Os aumentos salariais verificados nos últimos dois anos ainda não compensam a subida de preços verificada no mesmo espaço de tempo; as exportações de alta tecnologia portuguesa atingiram em 2022 o valor mais alto desde 2013; o valor total das exportações portuguesas caíu em Junho pelo terceiro mês consecutivo; no total, entre janeiro e junho, os visitantes estrangeiros gastaram em Portugal cerca de três mil milhões de euros, mais 31,3% face ao ano anterior; em Junho o sector do alojamento turístico registou 2,9 milhões de hóspedes e 7,4 milhões de dormidas correspondendo a 622,1 milhões de euros de receita, mais 14% que no mesmo mês do ano anterior; segundo o INE os não nacionais representam 70% das receitas do Turismo e gastaram mais de dois mil milhões de euros no primeiro semestre; até final de Junho os aeroportos portugueses registaram 31 milhões de passageiros, um aumento de 28,4% face ao ano anterior; a economia paralela atingiu em 2022 um novo recorde histórico alcançando 34% do PIB e especialistas fiscais indicam que a carga fiscal alta é a principal razão; a violência doméstica já fez 12 mortes este ano; nos últimos cinco anos 154 menores mudaram de nome e de género; quase 17% dos bebés nascidos em Portugal em 2022 são filhos de mães estrangeiras; quase 20% das freguesias do país estão a ficar despovoadas, com popuação envelhecida e sem oportunidades de trabalho para os  mais novos; num ano Portugal perdeu 128 mil trabalhadores com ensino superior e o aumento de emprego no segundo trimestre deste ano foi feito com trabalhadores menos qualificados.


 


O ARCO DA VELHA - Portugal foi o único país da União Europeia que aumentou o custo do registo de patentes de invenções e inovações industriais.


 


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PINTURA, DESENHO E FOTOGRAFIA  - Se estiver em Chaves não perca a exposição de Pedro Calapez, no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso. Intitulada “Deste Espaço Luminoso e Obscuro”,  tem curadoria de Joana Valsassina e apresenta até 28 de Janeiro, um conjunto de obras de Pedro Calapez da colecção de Serralves e da colecção do artista, mostrando a relação entre a pintura e o desenho, desde final da década de 70 (na imagem). Neste sábado 19 decorre uma visita orientada pelo próprio artista e pelo historiador de arte e curador Oscar Faria. Outros destaques: dia 19 de Agosto assinala-se o Dia Mundial da Fotografia e o Centro Português de Fotografia, no Porto, inaugura “Mãe d´Água", a partir de imagens da sua colecção. E no Carvalhal, no âmbito das primeiras iniciativas da Terra Foundation, lançada por Guta Moura Guedes, pode ver o projecto fotográfico “O Dia Abre Os Meus Olhos”, resultante de uma residência do fotógrafo Rafael de Oliveira e da sua visão do ecossistema  da região da Comporta, com curadoria de José Cabaço. Ao todo são apresentadas 345 fotografias em formato postal e 24 nos tamanhos A1 e A2. A exposição, com uma bem pensada montagem, decorre no espaço de um antigo café, na Avenida 18 de Dezembro nº5, no Carvalhal, até 27 de Agosto.


 


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PERGUNTAS DIFÍCEIS - Sou fascinado por pessoas que conseguem transmitir conhecimentos complexos de forma fácil. Por cá temos entre outros,  Carlos Fiolhais e  Jorge Calado. Saber comunicar bem temas científicos é importante e Sabine Hossenfelder, uma cientista, na área da Física, investigadora no Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt, sabe fazê-lo. O seu novo livro, “A Física E As Grandes Questões da Vida” é disso um bom exemplo. Ela coloca perguntas como: “Existem cópias de nós mesmos? O Universo pensa? A consciência é computável? Afinal, qual é o propósito do que quer que seja?”.  “A Física e as Grandes Questões da Vida” baseia-se nas mais recentes pesquisas em mecânica quântica, buracos negros, teoria das cordas e física de partículas e Sabine Hossenfelder explica o que a física moderna nos pode dizer acerca das grandes questões da humanidade: De onde viemos? Para onde vamos? O que está ao nosso alcance conhecermos?  O  livro inclui entrevistas com outros cientistas de renome e Sabine Hossenfelder mostra o caminho que falta percorrer para que os físicos consigam responder àquelas questões, indica os limites atuais do conhecimento e aponta as perguntas que podem ficar sem resposta para sempre. «Sim, somos uns sacos de átomos rastejando sobre um ponto azul-pálido no braço espiral externo de uma galáxia notavelmente pouco digna de nota. E ainda assim, somos muito mais do que isso.» Fascinante, sobretudo por um apaixonado por física, como eu.


 


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GUITARRA MÁGICA -  Pat Metheny agarrou em algumas gravações suas a solo, dispersas e inéditas, efetuadas nos intervalos de uma série de digressões, em quartos de hotel, ou durante ensaios. A partir daí fez um novo álbum, intitulado  “Dream Box”. Aos 68 anos Pat Metheny continua uma referência para todos que gostam de ouvir uma guitarra tocada a solo e aqui ao longo de quase uma hora estão nove temas que mostram a capacidade criativa do músico, que apresenta versões de clássicos como “Never Was Love”, expurgando-os das palavras que integravam as canções e deixando só a voz da guitarra eléctrica. O disco combina versões de canções, de standards de jazz, mas também novas composições que lhe surgiam no momento em torno de melodias que ía construindo. Metheny é sempre surpreendente pelos caminhos que escolhe e este disco permite perceber o seu processo criativo. Aqui está um álbum que nasceu por acaso, a partir de retalhos, improvisações, devaneios melódicos tardios. Cruzam-se géneros, como a evocação das sonoridades dos blues em “From The Mountains” ou da bossa nova em “Morning Of The Carnival”, um clássico de 1959, composto por Luis Bonfá e António Maria e que se tornou popular por exemplo nas versões de Astrud Gilberto e de  Nara Leão e de músicos de jazz como Gerry Mulligan. Mas esta interpretação de Metheny é ao mesmo tempo saudosista e inovadora. O disco está disponível nas plataformas de streaming.


 


EXPERIÊNCIA SADINA - Uma das coisas que qualquer restaurante deseja é ser reconhecido. Se o reconhecimento vier do BIB Gourmand, o patamar de entrada na constelação das estrelas do Guia Michelin, melhor ainda. Há uns anos atrás Rute Marques decidiu que o seu objectivo era criar um restaurante diferente em Setúbal e inventou o Xtoria. Chamou para o seu lado um jovem Chef, Rafael Portasio, que já tinha experiência em alguns bons restaurantes. Localizado em Setúbal, junto ao Porto de Pesca, o Xtoria é referenciado na lista do  BIB Gourmand de Portugal pelo segundo ano consecutivo. Nota-se o empenho do proprietário, do Chef, e da equipa de sala em seguir à risca os preceitos que são capazes de seduzir o célebre guia, desde a atenção aos produtos locais, a novas técnicas gastronómicas. A decoração é confortável, o serviço é exemplar, os preços são honestos e há até um menu de almoço simpático. No menu normal, nas entradas deixei para uma próxima visita as moelas glaciadas com sésamo e aneto e as enguias fritas de Alcácer. Mas a minha escolha foi para as ostras da região - que podem vir ao natural ou criativas, estas temperadas ao sabor da inspiração do Chef no momento. Arrependi-me de não ter escolhido as ostras ao natural. Na lista há peixe da lota de Setúbal e um  bacalhau em tempura mas eu fiquei  pelas lulas recheadas com arroz, cogumelos, toucinho e coentros. Não me arrependi. Nas carnes havia pato em brioche e vaca Mertolenga. Do outro lado da mesa a opção foi por duas entradas: a primeira foi choco, ponzu, batata negra, maionese de Sriracha, e caviar de lumpo, que foi apreciada. A seguir veio ovo panado com creme de ervilhas e hortelã pimenta, espargos marinados, e chouriço frito. A sobremesa, dividida, e que agradou, foi cremoso de cardamomo com cookie de gengibre. A acompanhar o repasto uma vinho surpreendente, pela relação qualidade-preço, o branco da Quinta da Invejosa, de Palmela, feito a partir das castas Fernão Pires e Verdelho. O Xtoria fica na Rua Guilherme Gomes Fernandes 17, Setúbal,  telefone 961284144.


 


DIXIT - “Portugal não pode ser só o país das casas para estrangeiros e dos hotéis para turistas” - Sónia Sapage.


 


BACK TO BASICS - “Tenham sempre presente que querer obter sucesso é mais importante que qualquer outra coisa para efectivamente terem êxito” - Abraham Lincoln.





 




agosto 11, 2023

UM CARACOL PODE EMPATAR A VIDA A MUITA GENTE

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PARA MEMÓRIA FUTURA - Como a memória é curta convém recordar como as coisas se passaram. As eleições autárquicas foram há menos de dois anos e quando Carlos Moedas iniciou funções o novo executivo da Câmara Municipal de Lisboa percebeu que a preparação das Jornadas Mundiais da Juventude estava muito atrasada. Em Julho de 2021 António Costa tinha nomeado José Sá Fernandes  para coordenar o grupo de projeto que iria assegurar o acompanhamento dos trabalhos de preparação das Jornadas Mundiais da Juventude. Sá Fernandes teve desde a derrota do PS na autarquia lisboeta uma relação difícil com o novo executivo e era patente que o trabalho que tinha entre mãos andava mal e devagar, a passo de caracol. No final de Janeiro deste ano, face aos atrasos e divergências e com o risco de o evento ter sérios problemas, Carlos Moedas decidiu que a CML passaria a articular directamente com a Igreja a organização, excluindo Sá Fernandes do processo. Nessa altura, Filipe Anacoreta Correia, vice-presidente da autarquia lisboeta com a responsabilidade executiva do evento, afirmou que a Câmara não aceitava mais “pretensos coordenadores que não fazem nada e que não ajudam a resolver nada” e que iria tomar o processo em mãos, a seis meses do evento. Na altura , face aos atrasos verificados, parecia impossível. Mas a verdade é que a equipa montada pela autarquia lisboeta, em conjugação com outras autarquias e a Igreja, conseguiu ter tudo pronto, para além até dos planos iniciais, em termos de localização das várias acções. O papel de Sá Fernandes acabou por ser quase nulo. Foi por isso com espanto que se assistiu, a seguir à JMJ, a uma entrevista a Sá Fernandes, na SIC, em que ele se apresentava como o grande obreiro de tudo e mais alguma coisa. Se dúvidas houvesse, depois do onanismo verbal praticado na televisão sobre a JMJ, ficou provado que José Sá Fernandes é das mais desprezíveis figuras da política portuguesa, um lunático encartado com um umbigo descomunal e vendas nos olhos que só lhe permitem ver numa direção. A realidade, para memória futura, é que sem o trabalho de autarcas como Carlos Moedas a festa tinha corrido mal, de atrasada e desorganizada que estava. Verdade seja dita que as culpas do que estava mal não eram só de Sá Fernandes - quem o escolheu, António Costa tem também culpas no cartório - foi mais uma má escolha na sucessão de más escolhas que tem caracterizado a sua acção como Primeiro Ministro.



SEMANADA - Os  pedidos de asilo em Portugal aumentaram 30% no ano passado; desde 2011 foram destruídos 89 mil ninhos de vespa asiática em Portugal; há 30 mil crianças estrangeiras inscritas para entrar no primeiro ciclo e no ensino pré escolar; só este ano cerca de sete mil cabo-verdianos já pediram vistos de longa duração para Portugal; o número de pessoas singulares e colectivas que pediram insolvência na primeira metade de 2023 subiu 19,2% face ao período homólogo de 2022, num total de 2482; a linha nacional de Emergência Social recebeu 2372 pedidos de ajuda por perda de habitação nos primeiros seis meses deste ano; taxas e multas cobradas no primeiro semestre somam recorde de dois mil milhões de euros, um aumento de 11% em relação ao mesmo período do ano passado; os preços dos quartos para estudantes em Lisboa aumentam 19%; a taxa de desemprego jovem em Portugal é de 17,2%, acima da média de desemprego móvel na UE, que é de 14%; o salário dos jovens em Portugal é o segundo mais baixo da UE, logo atrás da Grécia; seis mil alunos de cursos superiores perderam este ano as suas bolsas de estudo por falta de aproveitamento; dos 230 deputados, 37 exercem cinco ou mais cargos além do mandato parlamentar na Assembelia da República e desses, 34 são do PS e PSD; as salas de cinema portuguesas tiveram em Julho o melhor mês desde 2004, com um total de 1,7 milhões de espectadores e 10,5 milhões de euros de receita, um aumento de 64,5% em relação ao mesmo mês do ano passado; os canais generalistas e os de informação no cabo fizeram 278 horas de emissão sobre a JMJ; 


 


O ARCO DA VELHA - O programa Ferrovia 2020 , lançado por Pedro Nuno Santos, devia ter ficado concluído em 2021 mas a execução está atrasada e não há ainda previsão da conclusão dos trabalhos previstos nem do custo final das obras.


 


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UM CLÁSSICO EM LISBOA - Hoje sugiro uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga para visitar a obra convidada, neste caso pinturas de Albrecht Durer. O primeiro é um clássico do artista alemão, o retrato de Jakob Muffel, que foi presidente da cidade de Nuremberga, datado de 1526. A obra (na imagem) mostra como Durer foi um dos grandes retratistas do Renascimento e foi cedida ao MNAA até 24 de Setembro pela Gemaldegalerie de Berlim. O segundo retrato é do rosto de um português, desenhado por Durer em 1521,  que se supõe ser de  João Brandão, que era feitor português em Antuérpia. Outra sugestão é a exposição “Vita Prima, Santo António em Portugal”, que está no Museu da Cidade, Palácio Pimenta, até 31 de Dezembro. A exposição é uma viagem pela vida de Santo António enquanto jovem, durante o tempo em que viveu em Portugal antes de ingressar na Ordem dos Frades Menores e ter ido viver para França e Itália. Fora de Lisboa, a norte, “Poeta Chama Poeta”  é uma exposição realizada a partir de obras de Ana Hatherly da Coleção de Serralves,  que  fica até 1 de Outubro na Galeria Solar da Porta dos Figos - Casa do Artista, em Lamego. Por fim, se estiver nos Açores, pode visitar, na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada (Rua Dr. Guilherme Poças Falcão) a exposição “1,2,3 O Prado Infinito” de João Miguel Ramos.


 


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UMA VIAGEM IMPRESSIONANTE - No final do século XIX, em 1887, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, também conhecido por Conde de Arnoso, esteve durante nove meses em viagem, de Marselha até Pequim, no coração da China, onde se deslocara para a assinatura do tratado sobre a tutela portuguesa de Macau. Pelo meio visitou lugares do colonialismo europeu, do Mediterrâneo e de Suez, a Hong Kong ou a Singapura. O livro que escreveu com o relato dessa viagem levou o nome de “Jornadas Pelo Mundo”, publicado pela primeira vez em 1895. Bernardo Pinheiro Correia de Melo, mais conhecido por Conde de Arnoso, nasceu em Guimarães, em maio de 1855. Estudou matemáticas e engenharia, foi oficial do exército e secretário pessoal do rei D. Carlos, que lhe atribuiu o título em 1895. Membro dos Vencidos da Vida, como autor usou também o pseudónimo literário Bernardo Pindela (era filho do visconde de Pindela), publicou vários livros e deixou vasta colaboração na imprensa da época. Cito excertos da introdução de Francisco José Viegas à nova edição de “jornadas Pelo Mundo”: «O Conde de Arnoso devia ser também assim: um dos elegantes do reino, cultíssimo, afável, naïve, cheio de monde, de curiosidade, de uma toillete adequada, dos pecados da época e de vontade de literatura.» Podia ser uma personagem de Eça de Queirós, escreve também Francisco José Viegas: «Os seus olhos são os de um ocidental vagamente emprestado ao exotismo.» O relato desta grande viagem mostra como os portugueses de então viam o mundo, numa altura em que o conhecimento que as elites europeias tinham da China era quase nulo. Interessam-no as personagens notáveis, os negociadores, o cerimonial, os vasos de porcelana, os templos, a presença cristã portuguesa. Confrontado com o prodigioso passado da China (as termas do imperador Qianlong, os túmulos Ming ou a Grande Muralha) e com as vicissitudes que o Império do Meio atravessava na época, Arnoso nunca abandona o seu olhar cosmopolita, minucioso, chocado diante da penúria, atento aos pormenores, assombrado perante as ruínas ou a promessa do futuro. Edição da Quetzal, na colecção “Terra Incógnita”, com prefácio e notas de Francisco José Viegas. 


 


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A DANÇA DA BARBIE - A Rolling Stone diz que a banda sonora de “Barbie” é como uma noite numa discoteca em que a música não deixa ninguém parar e quem lá está não quer que a noite acabe. Nicki Minaj, Dua Lipa, Karol G, Lizzo, Billie Eilish, e vários outros estão nas 16 faixas que integram o CD com a banda sonora do filme que está a bater recordes de bilheteira e que em Portugal já teve mais de 500 mil espectadores nas salas de cinema. Com produção do veterano Mark Ronson, “Barbie - The Album” captura em música a história que o filme conta. Vejam bem: Ryan Gosling, uma das estrelas do filme,  canta “I’m Just Ken”, com arranjos e produção que parecem evocar Meat Loaf - um achado. Logo na primeira faixa, “Pink”, Lizzo começa por contar que gosta de acordar no seu mundo cor de rosa, mas reconhece que a vida é mais dura que os sonhos. E a seguir Dua Lipa canta “Dance The Night”, mais à frente Billie Eilish canta “What Was I Made For”. O álbum mistura temas inéditos com canções que evocam memórias e inclui estrelas pop já citadas como Dua Lipa e Lizzo, fenómenos globais como o cantor de reggaeton Karaol Gand ou o grupo feminino Fifty-Fifty e até Tame Impala, um grupo australiano meio psicadélico ou a cantora britânica Charli XCX. E, claro, não falta Sam Smith com o seu hino de dança “Man I Am”, uma pequena provocação no meio do álbum. Disponível nas plataformas de streaming.



PETISCO NO PÃO - Uma das minhas descobertas deste verão é a sanduíche de tomate. Vi a receita numa newsletter norte-americana e lancei mão da adaptação possível em Portugal. Comecei por procurar num comércio local tomate coração de boi bem maduro. Depois fui à procura de pão de crnteio de boa consistência. Tenho grande confiança no que é feito pelo Museu do Pão e que se vende já fatiado. A seguir peguei na minha maionese preferida e coloquei numa tigela duas colheres de sopa, que temperei com pimentão doce fumado, mexendo tudo muito bem. Barrei duas fatias de pão de centeio com esta maionese temperada e, depois, dispus as rodelas de tomate, não demasiado grossas, nem demasiado finas, por cima de uma das fatias. Temperei o tomate com uma pitada de sal, e algumas folhas de manjericão, tapei com a outra fatia de pão, cortei ao meio em dois pedaços. Entretanto para entrada tinha preparado uns figos pingo de mel, partidos ao meio e acompanhados por umas farripas de presunto. Juntei num tabuleiro os figos à sanduíche e sentei-me ao ar livre com um copo de cerveja bem fresca. Um petisco.


DIXIT - “Portugal não é bem um país, é uma sala de espera” - Ricardo Araújo Pereira.


BACK TO BASICS - “Não vale a pena ir por caminhos já percorridos, é preferível abrir um trilho novo e deixar uma marca” - Ralph Waldo Emerson





agosto 04, 2023

E PENSAR OUTRA FORMA DE FAZER POLÍTICA?

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SEM RÓTULOS  - A situação criada pelas eleições espanholas é um bom pretexto para pensarmos na necessidade de rever o modo como os maiores partidos fazem as suas alianças. Tradicionalmente o que acontece é que replicam blocos à esquerda e à direita, em vez de procurarem entendimentos que garantam estabilidade e possam permitir reformas profundas. Privilegiam a rivalidade à avaliação da competência. Ainda por cima, em nome de uma superioridade moral que há muito deixou de existir, a esquerda impõe regras de alianças à direita que ela própria rejeita. Ao maior partido da esquerda é permitido aliar-se com extremistas do seu lado político, alguns deles com uma história de desprezo pela democracia, mas qualquer aliança à direita é logo apelidada de pecado. Durante as eleições espanholas Alberto Feijóo, líder do Partido Popular, o mais votado no acto eleitoral, propôs a Pedro Sánchez que ambos procurassem uma plataforma comum de entendimento para o Governo, com uma larga base de apoio. Tal como Costa fez há uns anos por cá, Sánchez escolheu aliar-se a extremistas, incluindo partidos saídos de organizações terroristas e separatistas. O mais absurdo é que este comportamento da esquerda mostra que existe um esforço de apagamento de um facto: na Europa, nos últimos 50 anos, foram mortas mais pessoas por organizações que se reclamam de esquerda do que de qualquer outro espectro político. A instabilidade dos sistemas de rivalidade entre dois blocos não é só um problema da Europa. Nestes dias li notícia de criação, nos Estados Unidos, de um movimento que reflecte sobre a necessidade de criar plataformas de entendimento alargadas. O nome é bem achado, No Labels, Sem Rótulos numa tradução livre, mostrando logo que rejeitam catalogações. Inclui destacados membros do Partido Democrático e do Partido Repúblicano. O movimento já divulgou um manifesto e organizou e está a realizar debates em vários Estados. Está em cima da mesa a possibilidade de o No Labels se apresentar a actos eleitorais e uma sondagem feita por uma Universidade indica que um quinto dos eleitores registados votariam por um partido de ”fusão”, como o New York Times classifica o No Labels. No fundo, a proposta é colocar a competência das pessoas à frente das rivalidades partidárias e garantir uma alargada base de apoio. A mim parece-me uma boa ideia, até agora a melhor para que a Democracia recupere dinamismo e o sistema político e partidário se regenere. E isto seria um bom ponto de partida para a criação de um Think Tank, sem rótulos.


 


SEMANADA - Os juros variáveis do crédito à habitação subiram 80% para dois milhões de famílias; na última década uma em cada cinco casas construídas é para férias e outras utilizações que não habitação permanente;  um estudo da Pordata sobre os jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos conclui que 95% deles vive com os pais (em 2004, eram 86%) e 60% tem um vínculo de trabalho precário; segundo o mesmo estudo, Portugal é o sétimo país da UE com maior desemprego jovem; as estimativas demográficas do INE para 2022 indicam que, em Portugal há 1 083 445 pessoas com idade entre os 15 e os 24 anos, 10.4% da população total; nos últimos 31 anos, Portugal perdeu 527 mil jovens nesta faixa etária, passando de um total de 1,6 milhões em 1991 para os atuais um milhão; apenas um terço dos 56% dos jovens entre os 14 e os 30 anos dizem-se religiosos,e apenas um terço é praticante; o número de candidatos ao ensino superior cresceu face ao ano passado; o número de reclamações dirigidas ao Ministério da Educação aumentou 285% entre janeiro e julho deste ano, em relação ao mesmo período de 2022; em termos médios 75% da prestação da casa são juros pagos aos bancos; os cinco maiores bancos lucraram onze milhões de euros por dia no primeiro semestre deste ano; o preço médio de venda da gasolina 95 simples em Portugal foi no segundo trimestre superior em 4,7 cêntimos por litro aos valores médios na UE; segundo a Netsonda, 98% dos portugueses estão sempre, ou quase sempre, atentos a descontos e promoções na compra de produtos alimentares em supermercados; a economia portuguesa estagnou no segundo trimestre face aos primeiros três meses do ano. 


 


O ARCO DA VELHA - Por dia há quase 900 multas por excesso de velocidade em Lisboa.


 


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A MAGIA DA PINTURA - Ruy Leitão , um artista precocemente desaparecido, ainda antes dos 30 anos, no final da década de 70 do século passado, deixou uma obra significativa. O Centro de Artes Manuel de Brito, que fica no nº 113 do Campo Grande, onde nasceu a Galeria 111, tem até final do ano uma exposição (na imagem) com dezenas das suas obras, que lhe é dedicada - “Ruy Leitão, Com Alegria”. Por ocasião de uma exposição realizada em 1994, Maria Filomena Molder escreveu estas palavras: “Encontramos nas suas obras, e justamente devido à exatidão, à mestria com que se domina o afeiçoamento de cada um dos materiais e técnicas utilizados e os movimentos da mão, um poder mágico, uma eficácia sensível imediata, que determina a transformação do objeto de arte em caminho redentor”. Outros destaques: em Coimbra, no Centro de Artes Visuais (CAV), pode ver até 10 de setembro uma exposição baseada na colecção desenvolvida pelos Encontros de Fotografia de Coimbra e que inclui nove dezenas de fotografias de nomes como Horst P. Horst, Debbie Fleming Caffery, Walker Evans, Weegee, Raymond Pettibon, Lyalya Kuznetsova ou Marianne Mueller, entre outros, numa mostra que se centra na auto-representação e no retrato, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, responsável pela programação do Centro de Artes Visuais durante os próximos quatro anos. Em “auto & retrato”, é possível acompanhar o caminho que a fotografia foi fazendo ao longo do tempo, numa exposição que põe em diálogo artistas nacionais e internacionais e fotógrafos de diferentes períodos; e no Museu do Neorealismo, Vila Franca de Xira, apresenta “Uma Poética Neo Realista”, exposição dedicada à obra de Querubim Lapa. Finalmente no Porto e até 9 de Setembro, a Galeria Fernando Santos apresenta uma colectiva com nomes que vão de Álvaro Lapa e Costa Pinheiro a Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Ana Vidigal, Bertholo, Rui Sanches, Sandra Baía ou José Loureiro, entre outros.


 


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AS ÚLTIMAS COISAS - Geoff Dyer escreveu, usando as suas próprias palavras, um  livro “sobre as últimas coisas”, ou seja um livro sobre aquilo que podíamos não ter lido ou experimentado antes de morrer. O livro chama-se “Os Últimos Dias de Roger Federer E Outros Finais”, tem uma tradução de Bruno Vieira do Amaral e, recorrendo mais uma vez às palavras de Dyer: «Haverá alguma vez um exemplo mais angustiante do que Roger a servir na final de 2019 em Wimbledon contra Djokovic com 8-7 no quinto set? […] Foi uma derrota particularmente difícil e pesada.» Geoff Dyer explora os últimos dias, as últimas obras ou as obras tardias de escritores, pintores, músicos, cineastas e estrelas do desporto que marcaram a nossa memória. Com charme, ironia e inteligência, revê o colapso de Friedrich Nietzsche em Turim, as reinvenções de antigas canções de Bob Dylan, a pintura de Turner com a sua abstração harmoniosa, a ressurreição tardia de Jean Rhys, as derradeiras melodias de John Coltrane, mas também os últimos quartetos de Beethoven, os poemas finais de Larkin ou as últimas canções dos The Doors, o último sopro criativo de Walter Scott, Joyce, Updike ou David Foster Wallace. O livro percorre um vasto catálogo dos tópicos preferidos de Dyer, que vão do rock à história militar.


 


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GUITARRADA - O disco que hoje recomendo é para os amantes da guitarra. Neste disco há dois instrumentos: a guitarra e as mãos de quem a toca, Ralph Tower. O álbum chama-se “At First Light” e é um disco maravilhosamente simples, um solo de guitarra acústica tocada por um dos grandes nomes do jazz. Towner começou a gravar em 1970 para a ECM, a editora fundada por Manfred Eicher, que desde o início tem um compromisso com a qualidade técnica das suas gravações. Os padrões de qualidade, desde a gravação, à edição, passando pelas capas, têm-se mantido ao longo dos anos e Towner, hoje com 83 anos, continua a seguir a cartilha que o trouxe a esta editora. “At First Light” inclui 11 temas, todos originais de Towner, à excepção de três - o tradicional “Danny Boy”, o clássico standard de Jule Styne “Make Someone Happy” e “Little Old Lady”, de Hoagy Carmichael. Nas notas da capa do disco Towner explica que estes temas o influenciaram quando começou a tocar guitarra. De entre os temas originais destaque para “Fat Foot”, “At First Light” e “Flow”. Editado pela ECM, disponível nas plataformas de streaming.


 


BARES - Há uma tradição portuguesa de fazer longos almoços sob o pretexto de uma conversa. Eu gosto muitas vezes de almoçar sozinho, ganhando um tempo de equilíbrio a meio do dia; e agrada-me a ideia de desafiar um amigo para uma conversa de fim de tarde num bar de hotel - pouco barulho, competência no acolhimento e na execução dos pedidos.  Estou a falar de hotéis com bares onde existam barmen que sabem o que fazem. Há pouco tempo estive na cavaqueira amigável no balcão do bar do recente Hotel das Amoreiras, no jardim homónimo, e fiquei agradado com o cuidado posto pelo barman na preparação de um dry martini - com todos os preceitos e segundo as melhores práticas. Um bar de hotel é um sítio pensado para se estar sossegado - pode usufruir-se do conforto de um grande hotel sem ter que lá dormir. Uns tempos antes tinha estado num fim de tarde no bar do Sheraton, onde pedir uma flûte de Murganheira bruto é um pedido recolhido com atenção e competência e onde também se pode petiscar alguma coisa a acompanhar. E há uns anos era frequente marcar reuniões no bar do Ritz - onde aliás numerosas figuras da política e negócios passavam a tarde, como se de um escritório se tratasse, a receber pessoas para conversas sabe-se lá de quê, umas atrás das outras. Se os bares dos hotéis falassem…



DIXIT - “Entre greves, inoperância e burocracia, os tribunais mostram-se cada vez mais incapazes de assegurar níveis aceitáveis de justiça” - António Barreto.


BACK TO BASICS - “Dizer o que pensamos é como cavar a própria sepultura” - Sinead O’Connor




julho 28, 2023

O ARTISTA COSTA PROTAGONIZA NOVA TELENOVELA

 


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FIM DE TEMPORADA  - Esta semana nasceu um novo folhetim: um Conselho de Estado em episódios. No primeiro episódio um dos protagonistas, António Costa, chegou tarde e já tinha avisado que teria de sair cedo, já que teria de apanhar o avião para ir ver um jogo de futebol à Nova Zelândia, no caso a estreia da Selecção portuguesa de futebol feminino no Campeonato do Mundo. Simpatizo com a ideia de o Governo acompanhar as selecções nacionais - mas não bastaria o Secretário de Estado da Juventude e Desportos para representar o país? Fica a parecer que o Primeiro-Ministro aproveitou o pretexto para não ter que dar a atenção devida ao Conselho de Estado, onde várias vozes iriam criticar a acção do seu Governo. O resultado é que face à pressa de António Costa, Marcelo Rebello de Sousa adiou a sua própria intervenção, para a qual, rezam as notícias entretanto surgidas, desejava uma resposta desenvolvida de António Costa e agendou novo episódio do Conselho de Estado para Setembro, colocando em banho maria um debate sobre o estado da nação mais sério, e menos demagógico, do que aquele que Costa protagonizou no Parlamento, perante a fraqueza das oposições. Costa, já se sabe, é bom orador, bom tribuno, e não hesita em torcer a verdade e os factos por forma a que tudo pareça estar pelo melhor. Mas arranjou forma de se escapulir quando tinha pela frente uma mesa onde estavam analistas e políticos com experiência. O Conselho de Estado tinha sido marcado pelo Presidente da República numa data posterior ao debate sobre o Estado da Nação, não certamente por acaso. O súbito interesse de António Costa pelo futebol feminino veio baralhar as coisas e esvaziar o que Marcelo pretendia. Um artista.


 


SEMANADA - Rui Rio disse que não abriu a porta à PJ porque dorme com tampões nos ouvidos e não ouviu nada; a filha diz que ouviu, mas não abriu a porta porque não permite a entrada a estranhos; as subvenções aos grupos parlamentares aumentaram 16% nas últimas cinco legislaturas; um sondagem do DN indica que 54% dos jovens portugueses admite sair do país num futuro próximo por falta de perspectivas de trabalho, a maioria não participa em actividades de partidos ou sindicatos e não faz voluntariado; a Presidência da República ainda não criou um inventário único de bens como recomendado pelo tribunal de contas desde 2019; 255 pessoas fizeram cirurgias para mudança de sexo nos últimos cinco anos e em Coimbra a lista de espera para essa intervenção ultrapassa 18 meses; 36% do solo em Portugal continental, cerca de três milhões de hectares, é ocupado por floresta; o PIB per capita de Portugal é o oitavo mais baixo da Europa e já está atrás da Lituânia, Estónia e Roménia; O filme “Barbie”, de Greta Gerwig, foi o mais visto em Portugal no fim de semana de estreia, com 189.709 espectadores e mais de 1,1 milhões de euros de bilheteira, revelou o Instituto do Cinema e Audiovisual; o endividamento de Portugal atingiu o valor mais alto de sempre, 804,4 mil milhões de euros o que significa que cada português deve em média mais de 77 mil euros; em junho a procura por Certificados de Aforro caíu 70% depois da diminuição das taxas de juros; em 2022, no hospital de S. José, foram tratados 995 feridos em acidentes com trotinetas.


 


O ARCO DA VELHA - As contas dos partidos e dos grupos parlamentares não são fiscalizadas desde 2018.


 


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VISÕES DE FOTOGRAFIA - Até Janeiro, no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, MACE, está patente a segunda parte de “Contravisões”, a mostra das obras de fotografia na colecção de António Cachola: A exposição tem curadoria de Sérgio Mah, que, num texto sobre a exposição, assinala a importância do núcleo de fotografia da colecção, “que cobre diversos géneros e tipologias, e onde coexistem predisposições que apontam para um campo mais estritamente fotográfico com inúmeros exemplos de articulação e de hibridação da fotografia com outras artes visuais”. Ao todo, nas duas partes de “Contravisões” estão representados cerca de 50 artistas. Nesta segunda parte existem obras de, entre outros,  André Gomes, André Romão, António Júlio Duarte, Augusto Alves da Silva, Cristina Ataíde, Edgar Martins, Gabriel Abrantes, Henrique Pavão, Igor Jesus, João Tabarra, Jorge Molder, Julião Sarmento, Luís Palma, Manuel Botelho, Paulo Catrica, Rita GT, Rui Toscano e Mónica De Miranda, que aliás é a autora da imagem aqui reproduzida,Twins”, da série Cinema Karl Marx, 2017. Entretanto a primeira parte de “Contravisões”, pode ser vista até 29 de Setembro no átrio principal do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos em Lisboa e inclui obras de André Cepeda, Nuno Cera, João Paulo Serafim, Daniel Blaufuks, Patrícia Garrido, José Maçãs de Carvalho ou Salomé Lamas entre outros. Ainda em Elvas, na Cisterna, e no âmbito das actividades do MACE, podem ser vistas até 30 de Setembro duas obras de Rui Sanches, uma de 2016 e outra de 2018. Permanecendo no Alentejo,  em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida pode ver até final de Dezembro, fotografias e videos de Paulo Catrica, Rita Barros e Virgílio Ferreira na exposição “No Tempo dos Dias Lentos”.


 


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RIVALIDADES PERIGOSAS - Bem sei que não está muito calor ainda, mas venho recomendar uma leitura gelada. Melhor dizendo, o relato de uma disputa passada numa região rural da Suécia, entre duas aldeias separadas por uma floresta e por uma rivalidade feroz entre as respectivas equipas de hóquei no gelo, Björnstad e Hed. “Nós Contra os Outros” é uma história que envolve as dificuldades das regiões do interior, a ameaça de encerramento de uma fábrica com as consequentes repercussões na economia local, as ligações que se tecem entre a política, o desporto e as empresas. Mas também a forma como as populações reagem a quem foge à norma, como reagem a que uma equipa de hóquei no gelo masculina seja treinada por uma mulher, o que acontece quando descobrem que o capitão da equipa e um dos seus melhores jogadores  é homossexual. Pelo meio há ameaças, agressões, mortes, sempre com o hóquei no gelo como pano de fundo. Há frases ao longo do livro que são lições de vida: “o poder é a capacidade de levar os outros a fazer aquilo que queremos”; ou, “ser líder é tomar decisões difíceis, desagradáveis e impopulares”; e também: “o problema, tanto com as pessoas boas como as más, é que a maior parte de nós é as duas coisas ao mesmo tempo”. E esta, na última página do livro e que resume o que é o hóquei no gelo: “ é um jogo simples se tirarmos todas as porcarias que o rodeiam e guardarmos apenas aquilo que nos faz amá-lo ao princípio. Toda a gente tem um stick. Duas balizas. Duas equipas. Nós contra os outros”.  Fredrik Beckman, o autor, escreveu já sete romances, duas novelas e um livro de não ficção. É o autor de “Um Homem Chamado Ove”, que já elogiei nestas páginas e ao todo as suas obras já venderam mais de 19 milhões de exemplares, traduzidos em 46 línguas. “Nós Contra os Outros” foi publicado pela Porto Editora.


 


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NINA AO VIVO - Sabem quem é Eunice Kathleen Waymon? Este nome não vos dirá nada, mas se souberem que se tornou conhecida sob o nome artístico de Nina Simone o caso mudará de figura. Nascida em 1933, tornou-se uma das grandes cantoras da América e o seu repertório passeou-se entre os blues e o jazz, com incursões na soul e no gospel. Pianista, compositora, cantora, o nome Simone veio da sua admiração pela actriz francesa Simone Signoret. O seu primeiro álbum data de 1958, “Little Girl Blue” e o derradeiro “A Single Blue”, de 1993. Morreu em 2003 e, de então para cá, têm sido reeditados vários dos seus êxitos. Ao todo gravou quatro dezenas de álbuns e deu material para dezenas de colectâneas. Interpretou temas seus e de outros compositores. Pelo meio foram também descobertas várias das suas gravações ao vivo, a mais recente das quais, editada pela primeira vez, é um registo inédito de uma actuação no Festival de Newport em Julho de 1966, um momento alto da sua carreira. “You’ve Got To Learn - Live” é o nome desse disco, que inclui seis temas gravados ao vivo nessa ocasião: “You’ve Got To Learn”, “I Love You Porgy”, “Blues For Mama”, “Be My Husband”, “Mississippi Goddam” e “Music For Lovers”. O organizador do festival de Newport, George Wein, doou as fitas da gravação do concerto de Nina Simone à Library Of Congress dos Estados Unidos, onde estiveram esquecidas até há pouco tempo, tendo sido descobertas por uma das pessoas que se têm estudado a carreira de Nina Simone,  Nadine Cohodas. Nestas gravações, com boa qualidade, Nina Simone é acompanhada pelo guitarrista Rudy Stevenson, o baixista Lisle Atkinson e o baterista Bobby Hamilton. O disco está disponível nas plataformas de streaming e constitui uma homenagem editada este ano, quando Nina Simone completaria 90 anos.


 


PROVAR - Em Alfarim, quase a chegar a Aldeia do Meco, na Avenida José Carlos Ezequiel, junto ao largo da Igreja, encontra-se uma bela esplanada, colorida e festiva que dá pelo nome de “Muito Espalhafato”. Trata-se de uma petiscaria onde também se pode agora pedir algo mais substancial que as tábuas de queijo e enchidos que têm feito a fama da casa. No comando das operações está um casal que é uma garantia de hospitalidade: a Lai e o Francisco Completo. Antes de entrar nas comidas deixem-me dizer que para além da esplanada o interior oferece um mundo de artigos de decoração, móveis e até roupa. Nas refeições têm feito sucesso as bochechas de porco preto, tenríssimas, e o pica pau de lombo. Por vezes há ostras, por vezes há peixinhos da horta, quase sempre a entrada pode ser um cogumelo portobello de bom porte recheado de alheira e doce de abóbora ou um carpaccio temperado com maracujá. Enquanto a comida chega há pão da região com um azeite delicado de Proença-A-Nova, de onde vem também, na época apropriada, um bucho de alta qualidade. Numa recente visita a mesa experimentou, além das entradas, um tártaro de atum fresco envolvido em abacate e um vol au vent de pato confitado, acompanhado de endívia aos pedaços. Para o fim veio um arroz doce de tangerina e uma boa sobremesa de chocolate. Quanto ao vinho, deixem a escolha na mão do Francisco que as suas recomendações são boas e honestas no preço - no caso foi um branco Sem Segredos, do Douro. Reservas e Informações, ligue 962 902 234


 


DIXIT - “Saíram 13, por mim tinham saído mais” - Carlos César, Presidente do PS, sobre o número de membros do Governo que já se demitiram.


 


BACK TO BASICS - “O mistério de qualquer Governo não é saber como funciona e sim como se pode parar” - P. J. O’Rourke





julho 21, 2023

ISTO ESTÁ TUDO EMARANHADO

 


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A NUDEZ DO REI - Este rectângulo à beira mar plantado é um emaranhado de casos insólitos, onde a realidade ultrapassa a ficção e a responsabilidade e a coerência são inexistências. Confrontado com indícios de corrupção no Ministério da Defesa, António Costa disse que essa não era a preocupação principal das pessoas. Seguiu-se uma pequena tempestade, obviamente urdida na “bolha político-mediática”, que hoje em dia é a mãe de todos os males: curiosa situação esta em que os factos não são assumidos como a causa dos problemas,  mas as reacções a esses factos são consideradas malfeitorias.  A propósito ocorreu-me isto: a política só é lugar de crime quando quem a pratica comete crimes, mas não vejo ninguém na direcção dos partidos reconhecer esta evidência. O ladino Ministro da Cultura, Adão e Silva, agora investido em amplificador das palavras de Costa, empinou-se a criticar a bolha e rezou a lengalenga  dos casos e casinhos, jurando sempre as boas intenções do Governo. E António Costa, tal vestal a caminhar para o sacrifício de algum cargo internacional, declarou-se incompreendido no que queria ter dito. Sucessivamente incompreendido, digo eu, já que, tantas vezes, o que diz não corresponde ao que se passa - ou que ele imagina que pensou. Mas o insólito não é acolhido só no PS. Do lado do PSD constata-se, por escutas gravadas numa investigação policial, que um deputado, no exercício de anteriores funções de autarca, estabelecia o módico valor de 25 mil euros por cada acto de favorecimento que cometesse. E o facilitador lá tem estado ainda sentado no Parlamento, dois meses depois de tudo isto se saber, com o líder do PSD a confessar-se impotente para resolver a situação.  Cereja no topo do bolo: a corte política de múltiplos sectores do regime uniu-se em torno da justeza de utilização de verbas parlamentares para desígnios partidários e insurgiu-se contra quem acha estranha a coisa, que, sendo prática corrente, não será legal. Como escreveu Susana Peralta, a propósito de Rui Rio, "para uma pessoa que nos prometeu um banho de ética, é curioso que não perceba que uma prática ser comum não a torna aceitável; pelo contrário: só piora a gravidade dos factos.” Não é o rei que vai nu, é o regime.


 


SEMANADA - O Conselho de Finanças Públicas alertou para o facto de a execução do PRR estar muito abaixo do previsto e em 2022 o Orçamento de Estado gastou apenas um quarto das verbas da bazuca que estavam inscritas; o secretário geral da CAP alertou para o facto de o PRR não contemplar investimentos na área da eficiência hídrica, nomeadamente em relação à agricultura; as obras na linha circular do Metro de Lisboa têm um atraso de 30 meses em relação ao previsto, confirmou o presidente da empresa; as exportações portuguesas tiveram um recuo de 6,9% em Maio, em comparação com o mesmo mês do ano anterior; o crescimento de vendas da Porsche em Portugal no 1º semestre foi de 34,1%, número que compara com os 15% de aumento que a marca registou a nível global; em 2022 foram feitas 168.000 transações imobiliárias, um novo recorde; os pedidos de despejo aumentaram mais de 20% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado; há dez anos que a média a matemática do exame do 9º ano não era tão baixa e este ano quase 60% dos alunos não chegaram à nota positiva; mais de 40% dos atropelamentos registados em Portugal ocorrem em passadeiras e Portugal é o país da Europa com mais mortes de peões; os bancos e financeiras emprestaram quase 3,2 mil milhões de euros com a finalidade de consumo nos cinco primeiros meses do ano, o que representa o valor mais elevado desde 2013; 3400 professores aposentaram-se no ano lectivo passado; no primeiro semestre de 2023 em Portugal, verificou-se um aumento de 6% no número de nascimentos, em comparação com o período homólogo.


 


O ARCO DA VELHA - Notícias da justiça: um processo judicial considerado simples arrastou-se durante 11 anos, arruinou uma firma familiar do Cartaxo e provocou três dezenas de despedimentos.


 


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PINTURA E FOTOGRAFIA - Na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art pode ser vista até 2 de Setembro uma das mais interessantes exposições patentes em Lisboa. Trata-se de “Neo-Pós-Neo”, de Mariana Gomes, um conjunto de nove obras de pintura, inesperadas, marcantes, com cores vivas, formas soltas, como se cada uma tivesse vida própria. E, no entanto, elas estão no espaço de uma tela, inequivocamente fruto de um trabalho diligente e criativo de pintura, que não é frequente encontrar hoje em dia. Passando da pintura para a fotografia, há várias sugestões. Começo por aquela que mais me marcou - “Volterra, Portraits of Local People”, de Eurico Lino do Vale, uma série realizada em 1997 na Toscânia e que agora é exposta, até 16 de Setembro, pela primeira vez na Galeria Belard, um espaço recente localizado na Rua Rodrigo da Fonseca 103. Como escreveu João Pinharanda, “as fotografias de Eurico Lino do Vale ocupam-se de personagens, e não de cenários” e o resultado é marcante. A seguir sugiro “Interior”, de Ricardo Lopes, um ensaio fotográfico sobre o despovoamento da Região Centro, uma visão da ruralidade portuguesa.  O trabalho recebeu a Bolsa Estação Imagem em 2020, além de ter sido distinguido internacionalmente no LensCulture Portrait Awards. Está na Casa da Imprensa até 28 de Julho (Rua da Horta Seca 20). “Fading”,  de Luís Campos, é uma exposição sobre a memória e o desaparecimento. Trata-se de um conjunto de fotografias de animais selvagens no seu habitat natural, tiradas ao longo de 12 anos em 14 países. São fotografias a preto e branco, com uma elipse preta esbatida à volta de uma imagem central, que alude a um processo cinematográfico de desaparecimento da imagem. Até 16 de setembro na Galeria Carlos Carvalho (R. Joly Braga Santos, Lote F).


 


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 LER PORTUGUÊS - Quem gosta de livros gostará desta síntese das principais obras e autores desde o início da escrita em língua portuguesa até aos anos 70 do século XX. Originalmente escrito em 1971, “Literatura Portuguesa - Das Cantigas de Amigo às Vanguardas do Século XX” é um ensaio escrito por Jorge de Sena em 1971 para a 15ª edição da Enciclopédia Britânica. O texto original é agora publicado em edição autónoma pela Guerra & Paz e o editor considera-a “a mais justa, a mais inteligente, a mais exaltante história já escrita da nossa literatura”. São cerca de cem páginas que deveriam ser matéria de conhecimento geral para todos. São de Jorge de Sena estas palavras: “O século XVI, durante o qual Portugal atingiu o seu máximo em poder imperial, foi uma Idade de Ouro na Literatura Portuguesa, e muitos autores e obras foram na altura importantes no desenvolvimento das literaturas ocidentais. Mas desde cerca de 1200 até 1350 já Portugal tinha criado um dos mais importantes corpus de poesia lírica e satírica da Idade Média numa língua que se tornou quase universalmente aceite na Península Ibérica como o veículo literário das composições líricas de quase três décadas”. Na parte final do ensaio surgem nomes como Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Herberto Hélder e Luis de Sttau Monteiro. O livro aborda ainda, num capítulo separado, outra literatura escrita em português - a brasileira, lembrando a importância de nomes como Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Sérgio Buarque de Holanda, Erico Veríssimo, Vinicius de Moraes e Jorge Amado. 


 


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MÚSICA MELOSA - Jaime Fernandes, um dos grandes radialistas portugueses, tinha em tempos um programa dedicado à country music e foi aí que aprendi a gostar deste género musical.  Lembrei-me disto ao ouvir “One Thing At A Time”, o terceiro álbum de Morgan Wallen, um músico country que está a ser um caso de sucesso. “Last Night”, um dos temas deste disco,  ocupou o primeiro lugar do Hot 100 chart do Billboard durante 13 semanas, algo que é uma raridade - desde que  a tabela existe, apenas 15 canções conseguiram essa proeza. O álbum, pelo seu lado,  esteve durante 15 semanas à frente da tabela de vendas de discos da revista Billboard, desde que foi editado em Março passado. Wallen mostra que existe um ressurgimento na música country, depois de um progressivo apagamento ao longo dos últimos anos. O consumo de música country nas plataformas de streaming cresceu 20 por cento desde o início deste ano. O álbum de Wallen tem 36 canções  - o seu disco anterior tinha 30. Os temas das canções são recorrentes: engates, copos, noitadas, paixonetas variadas. O novo disco tem duas horas disto,  canções sentimentalonas, alegres, de festa, choramingas, de abandono, doridas, de ressaca. Disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCO - Gostam de comer moluscos cefalópodes cozidos com ervas aromáticas? Não torçam o nariz - são apenas caracóis, biologicamente ainda aparentados com as lesmas. As suas conchas, que atacamos de palito em punho, são o seu esqueleto externo. Se olharem para a cabeça dos caracóis quando os estão a comer verão os olhos na ponta dos corninhos e saibam que ao lado da boca fica o aparelho genital - atenção que são hermafroditas e para fecundar formam casais e copulam em média 4 vezes por ano num acto que pode durar até dez horas. Não comecem agora com más ideias e limitem-se à iguaria que, nesta altura do ano, é um pratinho de caracóis cozidos e temperados como deve ser. A maioria destes petiscos que comemos ao longo do verão são oriundos de Marrocos. A boa maneira de os cozinhar, depois de muito bem lavados durante uns 20 minutos, é colocá-los numa panela e tapá-los com água. Devem cozer em lume brando por uns dez minutos. Ao fim deste tempo pode adicionar sal, azeite, dentes de alho esmagados, cebola picada, folha de louro, orégãos e, em querendo, piripiri. Suba o lume e quando levantar fervura deixe estar cinco minutos e depois desligue e deixe arrefecer uns 15 minutos para que ganhem bem o gosto do tempero. Em Lisboa, para além do Menino Júlio dos Caracóis, uma casa de referência, sportinguista, é o Lutador, perto de Alcântara, Rua da Junqueira nº1, com uma bela esplanada. Ou então o Pomar de Alvalade, na rua Marquesa de Alorna. Acompanhamento? Uma imperial bem tirada. Às vezes remata-se com um prego no pão. Aqui está a happy hour lisboeta de verão por excelência.



DIXIT - “Há problemas que a democracia não pode e não sabe resolver. Um deles é a corrupção partidária. Outro é a crise da justiça” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Numa altura em que a desilusão prolifera, dizer a verdade é um acto revolucionário” - George Orwell







julho 14, 2023

O REALITY SHOW DE PEDRO ADÃO E SILVA

 


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EQUÍVOCOS DEMOCRÁTICOS - A  autora do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP, a deputada do PS Ana Paula Bernardo,  é uma séria candidata ao prémio de ficção do ano, uma especialista em não contar o que se passou, em não descrever aquilo a que assistiu, em ocultar factos e manipulá-los. O mais chocante é que a senhora não teve hesitações em alterar a realidade e criar a fantasia que mais lhe interessava para agradar aos seus superiores. A sua atitude é, além do mais, um insulto a todos quantos seguiram as audiências daquela Comissão Parlamentar e sabem o que de facto se passou. E é um insulto aos deputados que na Comissão trabalharam para esclarecer as pouco edificantes cenas recentes que  cresceram à volta da Tap, de Pedro Nuno Santos, de Alexandra Reis, de Fernando Medina e de João Galamba. Até do próprio PS vieram protestos pela forma como o relatório está escrito. Este é mais um daqueles casos em que se percebe o perigo manifesto da maioria absoluta quando mal utilizada. Mas eis que, face aos protestos vindos de membros de todos os partidos, sem excepção, apareceu o ex comentador desportivo e propagandista político do PS, actualmente a desempenhar o papel de Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, a acusar os deputados daquela Comissão de serem eles os protagonistas de um filme de fraca categoria. Perante a reacção de figuras do PS, como o Presidente da Comissão, António Lacerda Sales, o dito comentador desencadeou nova série de ataques tornando-se assim ele próprio o protagonista de um reality show que acusou outros de fazerem. Como disse um deputado do PS, Adão e Silva desempenha agora o papel que Santos Silva teve durante uns anos e que agora já não pode fazer. Ambos são um equívoco da democracia. Encaixam bem num primeiro-ministro que, perante mais uma demissão do governo, insinuou que para os portugueses a corrupção na política é um tema sem interesse.


 


SEMANADA - Quase metade dos reclusos em Portugal estão em cadeias sobrelotadas; os turistas vindos dos EUA representam 42% do aumento de turistas entre Janeiro e Maio; este ano o sector do Turismo poderá contribuir com 16,8% do PIB, representando 40,4 mil milhões de euros; em metade dos dias do primeiro semestre deste ano houve greve da CP; de janeiro a maio foram comunicados 754 pré-avisos de greve no país, o equivalente a 70% do total de greves do ano passado; a taxa de juro média de novos empréstimos à habitação alcançou 4%, o maior valor desde 2012; em 2022 foram criadas em Portugal 3080 startups, mais do dobro face a 2013; dos 3.940 incêndios rurais registados entre Janeiro e Junho, apenas 1% se deveram a causas naturais; em 2022 foram enviados a partir de Portugal 7400 milhões de euros para paraísos fiscais, o valor mais alto em quatro anos; há 7802 pedidos de vistos Gold à espera de aprovação; o ministro Galamba desclassificou 101 dos 105 documentos que há semanas atrás apontou como segredos de Estado, dizendo que o seu conteúdo não justifica que assim sejam considerados; o investimento publicitário em Portugal teve um aumento de 8% entre Janeiro e Maio, digital e publicidade exterior foram as áreas com maior subida e televisão generalista e rádio as que mais desceram; nas últimas duas décadas e meia, Portugal foi dos países da União Europeia que mais aumentaram as taxas máximas do imposto sobre o rendimento; a Iniciativa Liberal vai apresentar no Parlamento uma proposta de alteração à Lei Eleitoral, que cria um círculo de compensação, destinado a minorar os efeitos dos quase 700 mil votos desperdiçados nas mais recentes eleições; segundo o INE um quarto da população portuguesa tem mais de 65 anos.


 


O ARCO DA VELHA -A  Entidade para a Transparência tomou posse há cinco meses e as instalações que lhe foram atribuídas pelo Governo, em Coimbra, ainda não têm água, luz, internet nem cadeiras.


 


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A HISTÓRIA DE UM GÉNIO MUSICAL - Hoje, em vez de falar de um disco, venho falar de um livro sobre música. Trata-se de “A Vida de Beethoven”, de Romain Rolland. Publicado em 1903, este livro constitui uma belíssima descrição da vida e obra de Beethoven escrita com uma visão crítica dos factos,  que enfatiza a empatia e a resistência do biografado. Para Rolland, Beethoven previu o futuro e assombrou o mundo com o seu talento, mas foi também um «homem forte e puro» envolto em sofrimento. Romain Rolland  reconstitui os passos de Beethoven a partir de fontes primárias e testemunhos dos amigos do grande compositor, desde a infância na cidade de Bonn, onde nasceu em 1770, infância marcada pela educação severa imposta pelo pai, até à sua morte, em 1827, durante um temporal. Pelo meio estão episódios riquíssimos, descritos por Rolland como se de um romance se tratasse. O ouvido absoluto, que nem mesmo a surdez lhe roubou em definitivo, a morte da mãe, o alcoolismo do pai, a oportunidade que Joseph Haydn lhe deu de estudar em Viena, o processo de ensurdecimento, a composição das míticas nove sinfonias, o desgosto amoroso que Therese Brunswick lhe provocou, a degradação da sua saúde, mas também «do seu aspecto e dos seus modos», e, claro, o momento em que, a 7 de Maio de 1824, em Viena, surpreendendo tudo e todos, conseguiu dirigir a primeira audição da Missa em Ré e da Nona Sinfonia completamente surdo. A obra é complementada por uma selecção da correspondência de Beethoven e por algumas das suas citações mais famosas.  Esta nova edição, da Guerra & Paz, tem tradução de Isabel Ferreira da Silva.


 


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IMAGENS DE VIAJANTE - Cristina Ataíde continua a manifestar a sua preocupação com a acção dos homens sobre o planeta e esse é o tema central da exposição/instalação que apresenta, até 17 de Setembro, no Museu de Arte Contemporânea do Chiado, sob o título “A Terra Ainda É Redonda?”. No texto que escreveu para a exposição, o seu curador, David Barro, sublinha que “Cristina Ataíde ausculta as diferentes dimensões da alteração da matéria”, através de “obras de uma marcada presença escultórica”. E prossegue: “ São obras que se baseiam na transformação, capazes de poetisar o tempo e suas circunstâncias, mas também de questionar criticamente o nosso lugar no mundo”. Para o espectador é difícil isolar uma só peça desta exposição, tal a relação que elas naturalmente estabelecem entre si, relação que é potenciada pela montagem, que cria uma narrativa visual ao longo do espaço onde as obras foram colocadas. Existe como que um percurso incontornável, que vai em crescendo, explorando formas diversas mas complementares e que obriga a percorrer tecto, chão e paredes, a visitar recantos e a descobrir perspectivas. São 20 obras, todas datadas de 2023, cada uma com uma origem geográfica diferente que identifica a artista como uma viajante a explorar o seu universo.


 


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O SALTO - Alexandre Melo, que se tornou conhecido como crítico, ensaísta, curador e professor de sociologia da arte e cultura, deu o salto para o outro lado e expôs-se na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12), onde mostra, até 16 de Setembro, “Alexandria”, um conjunto de quase duas dezenas de obras recentes, todas baseadas na recuperação de memórias vividas, temperadas com uma boa dose de imaginação na sua apresentação. Na realidade, trata-se da reprodução de colagens que fez a partir de recortes de notícias e imagens de jornais e revistas, de programas de espectáculos, de fotogramas de filmes, anúncios e cartazes, folhetos, rótulos, fotografias de alimentos, embalagens e por aí fora. Em muitas há a evocação de locais - os Estados Unidos, Itália, França, Inglaterra e ocasionalmente também Portugal. É a mistura de todas estas imagens  - procurando em cada uma das colagens traçar encontros e sublinhar pontos comuns - que torna estas obras uma descoberta. Percorrer estes trabalhos é como folhear um livro de banda desenhada e deixar que a cada nova revisitação da página se descubram novos pormenores - é o que acontece quando se volta a percorrer a exposição. As obras apresentadas são fotografias únicas das colagens originais, impressões produzidas em 2023 de 18 trabalhos, seleccionados de um conjunto de 63, realizados em 2003 e em 2021/2022, “recorrendo a uma colecção de papéis impressos e materiais afins reunidos ao longo das últimas seis décadas”, para usar as palavras do autor. Na realidade não é a primeira vez que Alexandre Melo expõe,  teve uma outra apresentação, menor, e no meio de uma mostra de que foi curador, no início deste século, na Galeria Cómicos, de Luís Serpa.


 


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UMA DÉCADA - No Atelier Museu Júlio Pomar abriu na semana passada uma exposição que assinala os 10 anos de existência do espaço e que aproveita a oportunidade para apresentar obras e séries de trabalhos de Pomar que fazem parte do acervo do Museu, e também peças expostas pela primeira vez e que fazem parte do espólio da Fundação Júlio Pomar e dos herdeiros do artista. Destaque ainda para um conjunto de estudos e documentos alusivos às pinturas murais que Júlio Pomar fez no Cinema Batalha, no Porto, e que foram recuperadas no ano passado. Outro núcleo inclui retratos e autorretratos e também um conjunto de retratos do próprio Pomar feitos por amigos como Menez, Luísa Correia Pereira, Eduardo Luís ou Álvaro Siza Vieira. A exposição mostra ainda um bestiário de animais mais ou menos estranhos, um conjunto de quadros que partem de obras literárias que sempre foram uma fonte de trabalho para o artista, e de que dois bons exemplos, agora expostos, são “Cartilha do Marialva”  e “Navio Negreiro”. Um outro núcleo mostra a abordagem de Pomar ao erotismo e os curadores, Sara Matos e Pedro Faro, sublinham que”nas obras agora expostas percebe-se como Pomar funde corpos e objetos estranhos, numa experiência absolutamente inovadora no seu percurso, que deixa de lado géneros, posições de força ou a natureza das relações”. Finalmente, em duas vitrines são mostradas fotografias de Pomar em momentos importantes da sua carreira e outros testemunhos, desde os cadernos com desenhos feitos na sua infância até documentos relativos à censura que foi exercida antes de 1974 sobre a sua obra. A exposição, que fica no Atelier Museu até 14 de Janeiro, tem um excelente cartaz, aqui reproduzido, da autoria de Joana Machado.


 


DIXIT - “ Confirma-se que a função do deputado é a de votar o que o seu grupo entende. E este, aprovar o que pretende o partido. E este último o que deseja o Governo” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Eis ao que leva o intervencionismo do Estado. o povo converte-se em carne e massa que alimenta o simples artefacto que é o Estado” - Ortega Y Gasset


 




julho 07, 2023

SOBRE UM PENSAMENTO NEFASTO

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OS EFEITOS DO WOKISMO  - Nos últimos tempos, em vários países europeus, a esquerda tem sido eleitoralmente derrotada ou tem sofrido forte erosão. Recentemente uma filósofa meio alemã, meio canadiana, Susan Neiman, que se posiciona à esquerda, publicou um livro que está a causar alguma polémica: “Left Is Not Woke”. O livro nasce de uma conferência que Neiman realizou em Cambridge em 2022 e na qual defendeu que a esquerda abandonou as ideias que são necessárias para resistir à ofensiva da direita e o seu declínio reside nesse abandono. Para Neiman a ideia de que, se alguém é pro-woke deve ser de esquerda e, se se é de esquerda, então deve ser pró woke, é um erro fatal. Para a autora, o wokismo  está focado nas desigualdades do poder em vez de procurar garantir a justiça. Diz ainda que o  wokismo, ao mesmo tempo que acusa a História de estar semeada de crimes contra  a humanidade, percorre o caminho errado quando apresenta toda a História como um repositório de crimes. Para Neiman, as raízes intelectuais do wokismo contradizem as ideias que guiaram a esquerda há mais de 200 anos: a defesa do universalismo, uma clara distinção entre justiça e poder e a crença na possibilidade do progresso. Numa recente entrevista Neiman mostrou-se convicta que a adopção do modelo woke está na raíz das quebras eleitorais da esquerda, que aparece mais focada muitas vezes em causas marginais do que no bem estar das pessoas. A sua posição é polémica e como a própria afirma, o pensamento woke procura justificar-se nas ideias, malignas, de dois pensadores do século XX - Michel Foucault e Carl Schmitt que, segundo ela minaram as ideias do progresso e justiça e transformaram a visão da sociedade numa luta permanente “de nós contra eles”. Pelos vistos o sistema levou a um beco sem saída no qual a tradicional solidariedade social da esquerda se perdeu. O livro é uma tentativa de realinhar essas ideias. 


 


SEMANADA - Em dois meses a subida do Euribor quase duplicou a prestação do empréstimo de 150 mil euros para compra de casa; o risco de crédito às famílias cresceu no primeiro trimestre; a execução do Programa de Recapitalização Estratégica, para as empresas afectadas pela pandemia, é inferior a 10%; um estudo da SEDES diz que a carga fiscal alta castra o crescimento das empresas, gera endividamento, déficit concorrencial e provoca salários baixos; a oferta de casas para arrendar caíu 9% entre Março e Maio, na sequência da apresentação do programa Mais Habitação pelo Governo; o sector do turismo tem falta de 45 mil trabalhadores; apenas 12% das câmaras têm o Plano Director Municipal actualizado; em 2020 e 2021 registaram-se 286 mortes por afogamento de crianças e jovens; a direção do Canal Parlamento, com um deputado indicado por cada grupo parlamentar, ainda não reuniu nesta legislatura, desde que tomou posse em Março do ano passado; na primeira metade do ano foram matriculados mais 40% de veículos automóveis que em igual período do ano passado; face ao envelhecimento da frota automóvel usada para a fiscalização ou licenciamento nas áreas de energia e minas, o Director Geral da Energia pediu ironicamente aos funcionários donativos para comprar um novo veículo já que o mais recente dos que estão ao serviço foi adquirido em 1999; atendendo aos dados da inflação, as rendas habitacionais poderão ter um aumento superior a 7% no próximo ano; um estudo da Marktest indica que o número de lares que possuem ar condicionado quase duplicou nos últimos dez anos; Pedro Nuno Santos regressou ao Parlamento e retomou o seu lugar de deputado, sentando-se na última fila do hemiciclo e declarando não ser candidato a nada.


 


O ARCO DA VELHA - O actual secretário de Estado da Defesa, Capitão Ferreira, realizou em 2019, antes de ir para o Governo, um trabalho de assessoria para o seu actual Ministério, pelo qual recebeu 12 mil euros por dia durante cinco dias.


 


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AS CORES DO LEVANTE - Manuel Baptista, que morreu este ano,  integrava o chamado grupo de pintores do levante algarvio. Baptista tem o seu nome e boa parte da sua obra com ligações à cidade de Faro onde viveu e trabalhou e onde, durante alguns anos, dirigiu uma galeria municipal. No fim de semana passado, no Museu Municipal de Faro, abriu a exposição “Natureza Paralela”, que agrupa obras do artista feitas entre 1962 e 2022 e que se desenvolve entre vários espaços do museu e a antiga galeria Trem, agora rebatizada Galeria Manuel Baptista. A viagem à obra começa logo na capela, no piso térreo do museu (na imagem), onde coexistem esculturas, desenhos e pinturas, como aliás ao longo de toda a exposição.  Em algumas obras é patente uma ligação ao universo da pop art, bem evidenciado nas esculturas em acrílico e nos néons, assim como à banda desenhada, que fascinava Manuel Baptista, fascínio evidente em vários dos seus desenhos. A exposição foi ainda construída em vida do artista, comissariada por João Pinharanda, e termina, na Galeria Trem com os derradeiros trabalhos produzidos no final do ano passado. Como sublinhou Pinharanda, “as suas obras são sempre determinadas pela alegria das cores, pela diversidade dos materiais, por complexidades formais barrocas, pela recuperação do lado mais exaltante da vocação decorativa da arte, por um certo humor nostálgico” - talvez a melhor descrição que se pode fazer de Manuel Baptista. A terminar uma sugestão em Lisboa: na Galeria Brotéria (Rua de São Pedro de Alcântara 3) está patente, até 28 de Julho, a exposição “Disturbance In The Nile”, que agrupa obras de nove pintores sudaneses, com curadoria de António Pinto Ribeiro e Rahim Shadad.


 


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UMA AVENTURA NA CULTURA - “Vamos Correr Riscos” é uma recolha de textos escolhidos de Madalena de Azeredo Perdigão, alguns inéditos, outros que até aqui eram de difícil acesso. O livro mostra o legado de uma mulher que depois de ter concluído o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional de Lisboa se licenciou em matemática na Universidade de Coimbra. Em 1958 iniciou a sua colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, primeiro como chefe da Secção de Música, depois na criação e direção do Serviço de Música. Há quem diga que ela trocou uma carreira artística como pianista, que ambicionava, por uma dedicação ao serviço público nas artes. Da música passou, em meados dos anos 80, para a criação e direcção do Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte – ACARTE,  inaugurado em 1983, deixando aí uma obra notável. Madalena de Azeredo Perdigão contribuiu para a fundação da educação artística em Portugal e os coordenadores do livro sublinham que ela não era propriamente uma ensaísta para quem a reflexão, por si mesma, fosse um objectivo: a sua escrita está sempre ligada ao combate no terreno pelas causas em que acreditava. As suas ideias estão plasmadas nas propostas das actividades que desencadeou, nos projectos de lei que coordenou, e em artigos de opinião e entrevistas  no panorama global das artes e da educação em Portugal. O texto introdutório de Rui Vieira Nery destaca a missão de serviço público dedicado à gestão cultural e sublinha que Madalena Azeredo Perdigão continuou até ao fim a “fazer, em cada momento, o que faz falta à cultura do seu país”. O outro texto introdutório, de Inês Thomas de Almeida, permite perceber melhor quem foi Madalena Azeredo Perdigão, como chegou à Fundação Gulbenkian e como a Fundação se tornou a sua vida. “Vamos Correr Riscos - Textos escolhidos de Madalena Azeredo Perdigão” é uma edição Tinta da China.


 


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UM DESAFIO PARA PIANO - Em Maio de 1994 Keith Jarrett fechou-se no seu estúdio próprio, o Cavelight, e gravou uma versão das Württemberg Sonatas de Carl Philipp Emanuel Bach, o segundo filho de Johann Sebastian Bach. Ao longo dos anos Jarrett tem visitado a obra de Johann Bach (como as variações Goldberg). Porque se virou a certa altura para esta obra do filho?  É ele que explica, agora, como nasceu esta gravação feita em 1994: “Ouvi várias versões das sonatas tocadas por cravistas e pensei que havia espaço para uma versão tocada ao piano”. As sonatas tinham sido elogiadas na época por grandes nomes da música como Haydn ou Mozart. Originalmente compostas para clavicórdio, elas foram frequentemente tocadas em cravo. Jarrett não foi o primeiro a interpretar as sonatas ao piano, mas esta versão, ignorada durante três décadas, proporciona uma visão diferente do trabalho de um compositor que fez a transição do barroco para a época clássica do século XVIII. Jarrett executa as 18 sonatas, de forma sensível, respeitando a partitura mas interpretando as variações de ritmo de forma mais solta. Este é um bom exemplo de como Jarrett consegue fazer a adaptação criativa dos temas clássicos para uma audiência contemporânea. “Carl Philip Emanuel Bach”, de Keith Jarrett, é uma edição ECM disponível em CD, LP e nas plataformas de streaming.


 


FIM DE TARDE - Ao contrário de outros países, o fim de tarde é uma área de convívio pouco praticado nas grandes cidades. E, no entanto, basta ir aqui ao lado a Espanha para ver como as esplanadas e ruas se animam. E nas esplanadas há o bom hábito de tomar um bocadito e uma copa com amigos. Aqui, no verão, ainda se vê quem pratique uma imperial com uns caracóis ou uns tremoços,  mas pouco se passa disso. O fim da tarde lisboeta é fraco de oferta na rua e não é um hábito. Em vez disso, toda a gente se mete no carro ao mesmo tempo, para partilhar um engarrafamento em vez de partilhar dois dedos de conversa e um aperitivo com os amigos. Somos o único país do sul da Europa onde não há o hábito do convívio ao fim de tarde, que é comum em Espanha e Itália. O português prefere fechar-se nas casas aquecidas pelo sol em vez de apanhar a brisa dos ventos de fim de tarde desta época do ano. E não devia ser preciso ir a um bom hotel para tomar um aperitivo acompanhado por outra coisa que não sejam amendoins rançosos. Temos bom vinho branco ou rosé, honestos espumantes, um gin tónico não é assim tão difícil de preparar, tão pouco devia ser impossível encontrar um Aperol spritz. Aproveitem o nosso bom tempo e frequentem as esplanadas ao fim da tarde. Não fiquem fechados em casa a ver séries.



DIXIT - “A prioridade dos últimos Governos nunca foi melhorar os serviços públicos. Os governos parecem mais interessados em distribuir e empregar do que em cuidar e tratar” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “A educação, a ciência, a comunicação e a cultura têm uma relação mútua natural, permanente e obrigatória “- Guilherme de Oliveira Martins


 


 




junho 30, 2023

SOBE A FALTA DE NOÇÃO DA REALIDADE DO MINISTRO DA CULTURA

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MAIS ESTATIZAÇÃO DA CULTURA - Na semana passada estive num encontro promovido pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Um dos oradores foi Agustin Gonzalez Garcia, um especialista espanhol em Direito da Arte, que falou sobre a responsabilidade social, o papel do Estado e o regime de mecenato em vários países. Uma das ideias fortes que passou, em jeito de conclusão, no final da sua intervenção, foi esta: “No contexto actual, os incentivos fiscais ao mecenato estão justificados e existe margem de manobra suficiente para que os estados membros da União Europeia aprovem uma melhoria razoável desses incentivos”. O Ministro da Cultura apareceu no final de uma tarde de boas conversas, que contou com Teresa Gouveia num diálogo com Vicente Todolí e com um rico debate incentivado por Pedro Cabrita Reis com José Miranda Justo e Paula Pinto. O Ministro aproveitou uma tarde, que até aí tinha sido proveitosa, para fazer um comício com as conclusões do Conselho de Ministros desse dia, que aprovou a reestruturação na área do património, criando a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal e o Instituto Público Património Cultural. A propósito da empresa, que o governante proclamou ser o veículo para a captação de mais financiamento pela sociedade civil, Adão e Silva manifestou a opinião de que, nesse campo, não vale a pena conceder mais benefícios fiscais ao mecenato. Ficámos portanto com a opinião de um especialista que preconiza mais isenções fiscais e de um governante que se mostrou convicto de que empresas e particulares acorreriam a deitar dinheiro em cima do peso do Estado sem mais contrapartidas. Entretanto percebeu-se que as medidas tomadas pelo Governo desagradavam a quase todos os envolvidos, desde responsáveis de museus a municípios e às CCDR, até aos responsáveis das Direcções Regionais de Cultura, que ficarão extintas. O presidente da Comissão de Coordenação Regional do Norte (CCDR-N) , António Cunha, considera que o documento apresentado pelo Ministério da Cultura assenta num “quadro conceptual extremamente centralista” e receia que as decisões anunciadas possam mesmo “pôr em causa todo o processo de regionalização da cultura a partir de estruturas regionais”. O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, o socialista José Apolinário, também se pronunciou contra as alterações anunciadas pelo ministro, defendendo que esta reorganização afasta as entidades locais da gestão do seu património e promove a centralização da gestão dos monumentos. Outros responsáveis da área queixaram-se que o sector não foi ouvido sobre as alterações anunciadas e que souberam das decisões pelos jornais. No fim do dia, este é mais um pacote de medidas tomado por gente com pouca ligação à realidade. O Ministro da Cultura, uma das estrelas da galáctica costista, tem fama de ter peso político. É só pena que o use desta maneira.


 


SEMANADA - A maioria absoluta do PS na Assembleia da República impediu 56 audições no Parlamento este ano, treze ministros evitaram ir à AR e Medina foi o que mais ignorou perguntas da oposição; em 2022 registaram-se 2401 mortes por excesso de calor e a população idosa foi a mais atingida; na União Europeia cerca de 40% dos doutorados chegam às empresas, mas em Portugal apenas 6% estão na mesma situação; o programa Mais Habitação alterou o regime fiscal de reinvestimento do valor de venda de casa própria para aquisição de novo imóvel, com prejuízo para os cidadãos no caso de compra de nova casa; no primeiro trimestre deste ano venderam-se menos 20% de casas que no período homólogo do ano anterior;  um terço dos inquilinos gasta mais de 40% do rendimento para pagar a renda de casa e Portugal está entre os países europeus onde a taxa de esforço para pagar habitação é maior; Portugal demorou ano e meio a pedir às autoridades de Paris para interrogar um casal de graffiters franceses que vandalizaram o Padrão dos Descobrimentos e o sistema judicial português demorou 10 meses a traduzir para francês as 19 páginas com as perguntas que as autoridades francesas deviam fazer na investigação deste caso; a viagem de comboio Porto-Faro no Alfa Pendular demora actualmente mais 15 minutos que em 2016 e o mesmo se passa na ligação ferroviária de Lisboa para Braga; as marcas brancas pesam já quase metade da fatura do supermercado;  a subida do preço dos alimentos emPortugal é o dobro da média europeia, nos últimos meses os ovos aumentaram 60%, o arroz 50% e a carne de porco 49%.


 


O ARCO DA VELHA - Com a subida das taxas de juro, num empréstimo com Euribor a 12 meses, o aumento do valor da prestação mensal, de junho de 2022 a junho de 2023, foi de 58%.


 


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A  IMAGEM FOTOGRÁFICA - Esta semana o destaque vai só para fotografia e começo pela exposição que Luísa Ferreira tem patente na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma retrospectiva que reúne trabalhos por ela realizados ao longo das últimas três décadas, nomeadamente as séries “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”, “Intimidade”, “Tranquilidade, Fidelidade, Infelicidade”, “Lorento”, “Sem Prata” e alguns inéditos (na imagem). Luísa Ferreira debruça-se sobre a cidade, a casa, as memórias, o centro histórico, a gentrificação, o (des)enraizamento e o (des)alojamento, numa reflexão sobre os efeitos da transformação urbana na cidade de Lisboa. A exposição fica patente até 12 de Julho. Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, destaque para a nova exposição “Auto & Retrato”, uma visita à colecção dos Encontros de Fotografia com curadoria de Miguel von Hafe Pérez que ficará patente até 10 de Setembro. Na exposição, com 97 fotografias,  é possível acompanhar o caminho que a fotografia foi fazendo ao longo do tempo, numa mostra que põe em diálogo artistas nacionais e internacionais e fotógrafos de diferentes períodos. Miguel Von Hafe Pérez sublinha que além dos trabalhos resultantes de encomendas feitas pelos Encontros de Fotografia, é possível encontrar na exposição vários retratos do país, a partir de “um olhar internacional sobre Portugal que, nos anos 80 e 90, ainda era um território por descobrir”, mostrando-se ainda um “confronto entre imagens com um caráter mais intimista com imagens relativamente públicas, ou imagens muito divergentes, como um retrato de Eusébio ao lado do de  Samuel Beckett”. Por fim, na Galeria da Avenida da Índia, por iniciativa da Embaixada de Itália, é apresentada a exposição “Aos Olhos Delas. Mulheres e Trabalho em Itália desde 1950”, que ao longo de uma centena de imagens  investiga a forma como a fotografia realizada pelas mulheres se tem confrontado com o mundo do trabalho na Itália contemporânea.


 


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O STREAMING DA SEMANA - Depois de ter estado ausente das plataformas de streaming audio durante uns tempos, “Coffee And Cigarretes”, de Bill Evans, regressou ao Spotify. Trata-se de uma compilação que reúne temas de quatro álbuns, “Everybody Digs Bill Evans” (1959), “Explorations” (1961), e dois álbuns gravados ao vivo, na mesma data, no Village Vanguard embora com momentos de edição diferentes: “Live at the Village Vanguard” (1961) e “Waltz for Debby” (1962). Ao todo quase uma hora e meia de música, repartida por 14 temas, comoSome Other Time”, “Lucky to Be Me”, “Night and Day” , “Tenderly”, ou “My Foolish Heart”, entre outros. Um manual sobre a arte do piano no jazz.


 


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AS CIDADES DA MONOCLE - Já saíu a edição dupla de verão da revista “Monocle” que tem a habitual lista das cidades com melhor qualidade de vida, segundo os editores da publicação. Viena, que no ano passado estava na sétima posição, subiu ao primeiro lugar, seguida por Copenhaga, Munique, Zurique, Estocolmo, Tokyo, Helsínquia, Madrid (que subiu da 15ª para oitava posição), Lisboa (que desceu da terceira para a nona posição) e Melbourne. Nas páginas sobre Lisboa a “Monocle” destaca a segurança, o sentido de comunidade, a hospitalidade e a natureza. Mas chama atenção para o facto de a chegada de estrangeiros que vieram viver para a cidade fomentar a especulação imobiliária. Recomendam uma política de habitação que proteja os residentes nacionais e trave  a subida das rendas. “Enquanto Lisboa continua a ser uma cidade acessível para os nómadas digitais, os salários em Portugal continuam entre os mais baixos da Europa ocidental, com a situação a ser particularmente difícil para os mais novos” - escreve a “Monocle”, sublinhado:”Os políticos precisam de mostrar um sentido de liderança e pragmatismo que impeça que a cidade seja vítima do seu próprio sucesso”. Num outro artigo, que analisa a situação social da cidade, é citado o Presidente da Câmara, Carlos Moedas: ” O turismo é muito importante para nós mas não queremos que Lisboa se transforme só numa cidade Airbnb”.


 


A ACOMPANHANTE DO JOAQUIM - Quando olho para as sardinhas que se vão vendo decido esperar mais um tempo para que cresçam e fiquem mais suculentas. Mas entretanto os jaquinzinhos, esses pequenos carapaus, estão no ponto. E chegou aquela altura do ano em que se coloca um dilema; qual o melhor acompanhamento para jaquinzinhos fritos? As escolhas vão do proverbial arroz de tomate malandrinho, à ideia saudável mas não demasiado atraente, da salada, passando pela açorda. Esta última hipótese é a minha preferida - o problema é que fazer uma boa açorda não é coisa fácil. Há que ter em conta a consistência e o tempero. Para uma açorda não se pode usar um pão qualquer- convém que seja de véspera, pão antigo, de boa massa, de mistura. E depois convém que o azeite  seja de muito boa qualidade. A arte do assunto está na forma como o pão é molhado e depois escorrido, a proporção certa do alho que há-de ir à frigideira para depois receber o pão onde se misturarão os ovos e, por fim, os coentros finamente cortados que hão-de compor o repasto. Já os jaquinzinhos são outro desafio: devem ser pequenos, não podem entrar na categoria de “eram já quase carapaus”, terão obrigatoriamente de ser comidos à mão, com os dedos a segurar a cauda dos peixinhos, que será a única parte não comida. E a sua fritura deve ser impecável, deixando desfeitas as espinhas mas intacta a carne que as rodeia, não lhes alterando o sabor e a desejável frescura, garantido que vêm bem secos para a mesa. 


 


DIXIT -  "Os barcos não podem estar atracados com os motores ligados com energias fósseis" - Carlos Moedas sobre a presença de navios de cruzeiro com os motores ligados no porto de Lisboa, exigindo que passem a só poder usar energia eléctrica enquanto estiverem atracados.


 


BACK TO BASICS - “Maçador é alguém que fala quando queríamos era que ouvisse” - Ambrose Bierce