setembro 26, 2019

QUEM QUER VOTAR NOS INCUMBENTES?

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AS CAMPANHAS MOBILIZAM ELEITORES NOVOS? - Qual o ponto comum entre as igrejas e os debates na televisão? Ambos perdem audiência. Não há novos fiéis. O resultado de audiências do debate eleitoral entre os actuais seis partidos com assento no parlamento fala por si. Para que conste, no mesmo dia do debate e antes dele, a RTP1 passou a transmissão do Best Fifa Football Awards, que teve uma média de 889 mil espectadores. Logo a seguir, o debate dos seis partidos parlamentares teve uma média de apenas 424 mil espectadores, menos de metade. À mesma hora do debate a SIC passava do milhão e cem mil espectadores com as telenovelas “Nazaré” e “Golpe da Sorte” e a TVI teve 722 mil a verem a novela “Na Corda Bamba”. Continuo sem perceber porque é que há partidos que insistem em defender este modelo de debates que só convencem quem está já convencido. Na realidade naquele debate não houve ideias novas, houve apenas as picardias do costume entre os protagonistas habituais. Este ano a coisa parece aliás ainda mais confusa - dos seis implicados, três confessam-se de inspiração social-democrata em várias variantes: o PSD, o PS e o Bloco de Esquerda. Esta estranha convergência é a única novidade da campanha dos suspeitos do costume. O resto é de uma pobreza confrangedora, onde abundam as promessas e a falta de balanço sobre o cumprimento das que fizeram há quatro anos e, mais grave ainda, sobre o triste balanço da decadência de princípios de deputados e parlamento na legislatura que agora finda.


 


SEMANADAA Comissão Nacional de Protecção de Dados decidiu que não irá aplicar nove artigos da lei aprovada na Assembleia da República que adapta à realidade portuguesa o novo Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD), justificando que os mesmos violam precisamente o diploma original da União Europeia; o roubo das armas em Tancos entrou na campanha eleitoral e quem lhe deu a chave de entrada começou a disparar em todas as direcções; oito em cada dez crianças não têm vagas em creches; cinco associações de doentes oncológicos afirmaram conjuntamente que existe “um agravamento dos cuidados de saúde” nesta área e um “enorme alargamento do prazo para a realização dos exames”; um terço das vagas de ginecologia e obstetrícia fiacaram vazias em Lisboa; o dinheiro gasto em horas extra no SNS em 2018 daria para contratar 7500 profissionais  de saúde, segundo o presidente da Associação dos Administradores Hospitalares; o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou que os tribunais portugueses violaram em duas sentenças, proferidas em 2012 e 2013, o direito à liberdade de expressão dos cidadãos; não são conhecidas medidas tomadas sobre os juízes autores dessas limitações à liberdade de expressão”; o INE reviu as contas, com números mais favoráveis para o Governo, dias antes do início da campanha eleitoral, proporcionando uma subida das pensões para além da inflação; graças a outra curiosa coincidência temporal a Procuradoria Geral da República divulgou na semana de arranque da campanha o seu parecer sobre negócios de familiares de governantes que afirma não haver incompatibilidade em nada do sucedido.


 


ARCO DA VELHA - O cortejo da queima das fitas da Universidade de Coimbra deixou nas tuas 25 toneladas de resíduos e detritos vários, isto na mesma Universidade que não quer carne de vaca nas cantinas por razões ambientais.


 


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A MEMÓRIA DO MAR - Até 30 de Novembro poderão ver na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18), uma exposição de inéditos de Pedro Cabrita Reis, “Os Desenhos da Maré Baixa”. Trata-se de um conjunto de obras que evocam as tonalidades do mar, numa referência a um dos locais de eleição do artista. Muito curiosamente estes desenhos, que sugerem quer as ondas quer a espuma que elas  deixam na areia, são uma referência a memórias visuais e, como tem sido corrente na obra de Cabrita Reis, também um olhar sobre si próprio, os seus gostos, as suas fixações - como já antes foram desenhos de bosques, auto-retratos ou cenas do seu quotidiano. Outra sugestão: até 7 de Outubro ainda pode ver na Gulbenkian a exposição “Sarah Affonso E A Arte Popular do Minho” que ocorre por ocasião do  120.º aniversário do nascimento da artista, uma pintora portuguesa modernista cuja obra tem sido muito pouco investigada e exposta, frequentemente ofuscada pelo facto de ser casada com Almada Negreiros. Esta exposição centra-se na particular relação de Sarah Affonso com a arte e a cultura popular do Minho, onde passou a sua infância e adolescência. A exposição apresenta, em paralelo, as obras de Sarah Affonso com os objetos cerâmicos, têxteis, de ourivesaria, que formam parte do léxico visual que a inspirou e onde se incluem empréstimos de museus e colecionadores portugueses. Mais sugestões - a exposição Acervo Aberto, de Bettina Vaz Guimarães na Galeria Cisterna (Rua António Maria Cardoso 27). Na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º)  Catarina Dias mostra a sua pintura e escultura na exposição Mamute, até 2 de Novembro.


 


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SETE MOMENTOS DE MEMÓRIA - “Solo” é o primeiro álbum póstumo de Bernardo Sassetti, de um conjunto de nove que irão saindo gradualmente e que registam actuações ao vivo e sessões de gravação do músico. Este “Solo” inclui-se nesta última categoria e recupera sete temas do próprio Sassetti gravados em 2005 num piano Steinway do Teatro Micaelense, piano que o músico apreciava particularmente. Sassetti deslocou-se para uma série de concertos naquela sala açoriana, mas durante três dias esteve sozinho com o técnico e produtor Nelson Carvalho e o afinador do piano. É das gravações solitárias feitas nesses três dias que nasceu este disco. Na altura, o pianista fez uma pré-produção do material gravado, tendo agora Nelson Carvalho e Inês Laginha feito uma segunda seleção, escolhendo apenas os temas mais inéditos, que não estão fixados em outras gravações.  "Solo" inaugura uma série de nove álbuns de material inédito que a Casa Bernardo Sassetti quer editar nos próximos tempos, cumprindo uma das missões desta associação cultural criada em setembro de 2012, quatro meses depois de Bernardo Sassetti ter morrido, aos 41 anos. O segundo disco desta série, a editar em 2020, incluirá temas que Bernardo Sassetti compôs para o espetáculo “A Menina do Mar”, inspirado no conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. O mais surpreendente neste “Solo” é conseguir, nos sete temas que inclui nos seus cerca de 35 minutos de música, mostrar toda a subtileza e intimismo de Sassetti, sem exuberâncias, apenas com um enorme sentimento musical.


 


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UMA FESTA ROMANA - Os escritores novos têm um grande ponto comum com os partidos recentes que concorrem às legislativas pela primeira vez: têm uma grande dificuldade em vingar e darem-se a conhecer. Lembrei-me desta comparação ao pegar em “Saturnália”, o romance estreia  de André Fontes, publicado pela Guerra & Paz. Comecemos pelo princípio. A saturnália era uma festividade da Roma Antiga em honra ao deus Saturno que ocorria a 17 de Dezembro e que incluía banquetes e festividades numa atmosfera que derrubava as normas sociais romanas. Catulo, o poeta, chamava-lhe “o melhor dos dias”. António Fausto é a personagem principal deste romance e assume-se como a personificação dos jovens do século XXI, os intelectualmente melhor preparados para a vida, mas emocional e financeiramente mais instáveis. António Fausto encarna o desejo dos jovens de quererem ser grandes e terem uma vida melhor que a dos pais. Mas ao mesmo tempo que tem em si os maiores sonhos, António Fausto tem também os maiores receios: crescer e não sair da banalidade. E, no entanto este não é um livro banal - é provocatório. O seu editor, Manuel S. Fonseca, fez um bom resumo das razões que o levaram a editá-lo:  “Se não fosse imoral não queríamos! Mas o primeiro romance de André Fontes, “Saturnália”, é imoralíssimo e é também o primeiro romance millennial da literatura portuguesa. O romance? Somos nós, é o nosso retrato: bem-vindos a esta Saturnália moderna, carregada de erotismo, boémia e angústias de uma nova geração num mundo igualmente novo. Precária em erário mas abundante em avidez.”



A QUESTÃO DA SANDES -  Para um café ou snack bar português o que é uma sanduíche? A resposta é uma carcaça que evoca a borracha, muito levemente barrada com manteiga mole que muitas vezes caminha para rançosa, uma fatia de fiambre quanto mais fina e transparente melhor ou uma fatia de queijo tipo flamengo do mais barato que exista. Resumo - uma porcaria que não interessa a ninguém. Nas zonas de restauração de alguns centros comerciais ou em alguns novos espaços começam a aparecer boas sanduíches, bem preparadas, com pão estaladiço e recheio condigno. Os estabelecimentos Copenhagen Coffee Lab, do Príncipe Real e de Alcântara, são boas referências na variedade de sandes tradicionais, nas sandes abertas, e nas tostas, com possibilidade de escolha da qualidade de pão pretendida nalguns casos. O recheio é mais abundante que o normal, sem ser no entanto generoso, e há bom senso nas misturas e combinações propostas. Mas sinceramente gostava de conhecer um estabelecimento que se dedicasse a explorar a potencialidade de bom pão fresco com enchidos nacionais pouco usados (chouriço de boa qualidade, paio do lombo, paiola de porco preto, salpicão, morcela e, porque não, farinheira) combinados com queijos como de São Miguel, o de cabra atabafado, ou o serra curado. O pão havia de ser salpicado com bom azeite, combinações possíveis com mel ou doces tradicionais. Carcaça de borracha seria proibida e pão de forma de dois centímetros de espessura e consistência mole idem. E cada vez mais há por aí muito bom pão para iniciarmos uma contenda com essa maravilha americana que é a sanduíche de pastrami.


 


DIXIT - “Porque é que não há uma estratégia para combater a corrupção se ela está na boca de toda a gente? Porque é que um país com 200 kms de largura tem o interior ao abandono?” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “Não sei qual é a chave para o sucesso, mas sei que a chave para o falhanço é querer agradar a toda a gente” - Bill Cosby.


 


 

setembro 20, 2019

AS COISAS ÀS VEZES NÃO SÃO O QUE PARECEM

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ELEIÇÕES & ILUSÕES - Quando se olha para a campanha eleitoral fica-se a pensar que vivemos num mundo perfeito: belas propostas, ideias soberbas. Mas, vai-se a ver, e quando se confrontam estas ideias com as práticas passadas dos seus autores surge a desilusão. Esta semana um amigo dizia-me que iria votar num dos incumbentes porque assim já sabia ao que ía e dava o desconto do engano. Recusa-se a votar em algum dos novos partidos porque acha que vão acabar iguais aos outros e não cumprirão o que dizem mal puserem o pé no poder. A culpa não é do cepticismo deste meu amigo - a culpa é de um sistema político e partidário que protegeu a mentira e a desresponsabilização dos eleitos face aos eleitores. A culpa é de um sistema em que os resultados provocam situações como esta: a geringonça governou o país com base na vontade de apenas 28% do total de eleitores possíveis. Obteve 2,7 milhões de votos no PS, Bloco e PC num total de quase dez milhões de eleitores inscritos. Metade não vota. o poder acaba por ser exercido por uma minoria que é cada vez mais minoria porque a abstenção vai aumentando e os novos eleitores não acreditam no sistema. Será possível reganhar a confiança dos eleitores? Será possível combater a abstenção entre os novos eleitores? Quem manda fica tranquilo se a maioria dos cidadãos até aos 35 anos ficar fora do sistema, como está a acontecer? Sem mudanças profundas, da lei eleitoral ao modelo de campanhas, nada disto mudará e a crise de falta de representatividade ainda se acentuará mais. Os partidos incumbentes gostam desta situação e todos os anos dizem não querer mudar. Assim como está, com os dois cancros que são o método de hondt e a impossibilidade de círculos uninominais, os partidos que estão em S. Bento mantêm o seu poder e têm uns lugares para distribuir dentro dos respectivos aparelhos. Há muito que desistiram de manter a relação dos eleitos com os eleitores. Basta ver o que se passou com os escândalos no Parlamento nos últimos quatro anos, com o avolumar de casos de corrupção e com a teia de relações familiares nos círculos de poder. Aos incumbentes só lhes interessa o próprio umbigo.


 


SEMANADA - O aumento das rendas de casa nos centros urbanos e periferias está a provocar um crescimento do incumprimento dos empréstimos ao consumo e um aumento dos pedidos de apoio de reestruturação de dívidas financeiras das famílias; até final de Julho já tinham entrado em Portugal cerca de 140 mil turistas brasileiros, o que coloca o Brasil como quinto maior mercado emissor de turistas para Portugal; estudos recentes indicam que no final deste século o Algarve terá menos 83% de água; um número alargado de universidades tem milhões de euros por receber do Estado relativos a projectos de investigação cujo pagamento, acordado, não foi feito; o debate entre Costa e Rio teve menos 600 mil espectadores que o debate de há quatro anos entre os líderes do PS e PSD; como diz um amigo meu, já  nem os reitores de safam: o reitor da Universidade de Coimbra escolheu o período eleitoral, em pleno debate ambiental, para eliminar a carne de vaca das ementas das 14 cantinas sob sua tutela sem sequer ouvir especialistas sobre o tema; o Hospital Amadora-Sintra debate-se com uma praga de baratas; até Junho foram destruídos 5645 ninhos de vespas asiáticas em Portugal; duas dezenas de ambulâncias do 112 compradas em Abril estão paradas com avarias eléctricas; o Governo já perdeu 20 Secretários de Estado e cinco Ministros que deixaram o executivo desde o início desta legislatura; num debate eleitoral radiofónico Rui Rio atacou os jornalistas e o jornalismo que denuncia casos de corrupção em segredo de justiça; Fernando Neves de Almeida, dirigente da empresa de executive search de que Rui Rio fez parte, defende que os Ministros deviam ser escolhidos por head hunters - resta saber o que pensa da escolha de dirigentes partidários, tendo em conta os previsíveis resultados do seu ex-colaborador Rui Rio nas próximas eleições. 


 


ARCO DA VELHA - O Ministério Público considerou que defender publicamente o abate de ciganos não é crime, mas sim opinião. 


 


Galeria Ratton_O caminho das mãos - Azulejos de C


UM BAIRRO CHEIO DE ARTES - Na quinta-feira 19 deu-se o arranque de mais uma série de exposições integradas na iniciativa Bairro das Artes, que este ano assinala o décimo aniversário e que engloba uma série de galerias e espaços expositivos da zona do Bairro Alto. Começo por destacar a incursão de Cristina Ataíde nos azulejos (na imagem) com a exposição “O Caminho das Mãos” na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2), até 15 de Novembro. Esta exposição, começada a preparar há cerca de dois anos, apresenta cinco composições com azulejo em relevo e em várias cores. Ao mesmo tempo estão expostas diversas experiências de texturas, cores vidrados e engobes que Cristina Ataíde desenvolveu simultaneamente. Outros destaques desta edição do Bairro das Artes vão para os desenhos de Pedro Proença na Abysmo Rua da Horta Seca 40) , as fotografias do prémio Estação Imagem 2019 na Casa da Imprensa (Rua da Horta Seca 20), a exposição “Antecâmara” com fotografias de  Inês d’Orey na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), para a exposição de fotografia “Futuro Repetido”, de Mário Macilau no Espaço Santa Catarina (Largo António Sousa Macedo 7) e para seis tapeçarias de Cruzeiro Seixas na galeria das Tapeçarias de Portalegre (Rua da Academia Das Ciências). Todas as informações sobre esta iniciativa em bairrodasartes.pt . Finalmente destaque ainda para a exposição "Miguel Palma. (Ainda) O Desconforto Moderno", uma antológica do artista que inclui 54 peças, muitas delas surpreendentes, e que inaugurou esta semana no Museu Colecção Berardo. 


 


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POP INESPERADO - É um Iggy Pop inesperado este que nos surge no seu mais recente álbum, “Free”. Aos 72 anos Iggy Pop mostra a sua vivacidade ao enveredar por um caminho completamente inesperado, concretizado na colaboração com o guitarrista Noveller e o trompetista de jazz Leron Thomas. É um disco contemplativo, no qual Iggy, como ele próprio afirma, deixa outros artistas exprimirem-se por ele, restando-lhe emprestar a sua voz. É preciso recordar que este novo disco é o que se segue a “Post Pop Depression”, feito em 2016 com Josh Homme, dos Queens Of The Stone Age. Esse era um disco que soava àquilo que as pessoas esperam de um disco de Iggy Pop. Este não é assim e agudiza a ideia de que há discos do rocker Iggy Pop e discos do contemplativo James Newell Osterberg, o seu verdadeiro nome. Já agora é preciso recordar as inflexões da actividade dos últimos anos: em 2009 cantou uma versão de “Autumn Leaves” no álbum “Préliminaires”, onde namorou o jazz, enquanto em 2012 se aventurou pelo pop e cantou “Michelle”, dos Beatles, A seguir veio o rocker de “Post Pop Depression”, um curioso nome nesse contexto, e agora chama para título a necessidade de se libertar de formas musicais que o tornaram famoso. Temas deste novo disco como “Love’s Missing”, “James Bond” ou “Dirty Sanchez” têm palavras que Iggy Pop poderia cantar em qualquer fase da sua carreira - sobre amor, dominação ou sexo - mas o conceito musical aproxima-se do jazz e sua forma vocal é a dos crooners -  mas como é Iggy Pop proclama alto e bom som “online porn is driving me nuts”.  


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DÚVIDAS LINGUÍSTICAS - Todos conhecemos as semelhanças entre o galego e o português. Mas serão a mesma língua? Que têm em comum? Marco Neves, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor de diversos livros na área da linguística dispôs-se a reflectir sobre o tema no livro “O Galego e o Português São A Mesma Língua?”, que leva como subtítulo “Perguntas portuguesas sobre o galego”. Numa conversa com um hipotético conterrâneo Marco Neves responde com paciência, humor e muita informação às suas perguntas e observações, dissecando também vários preconceitos.  Como está assinalado na contracapa “neste livro vamos encontrar reflexões sobre o funcionamento das línguas e sobre o plurilinguismo, percursos pela História da linguagem humana e desta língua em particular e algumas ideias sobre as relações entre as sociedades da Galiza e de Portugal e entre as suas identidades e os seus falantes”. João Veloso, Professor na Universidade do Porto, autor do prólogo deste livro defende que “o Mundo de língua portuguesa é um espaço a várias latitudes onde os galegos têm culturalmente o seu lugar, juntamente com portugueses, brasileiros, africanos e gente de muitas outras paragens”. O livro foi editado em Compostela pela editora Através.


 


PETISQUICES - Durante alguns anos A Paz foi um dos meus poisos preferidos para almoçar. Ficava no Largo da Paz, na Ajuda, tinha à sua frente o Sr. António, a mulher e uma ajudante na competentíssima cozinha, e os filhos na sala. As postas de garoupa grelhadas eram épicas, mais épica ainda era a cabeça do mesmo peixe, cozida, que vinha para a mesa desmanchada pelo Sr. António para ser partilhada sem trabalho pelos apreciadores. Mas havia também um pernil às segundas e petiscos diversos nos outros dias. As voltas que o mundo dá levaram ao encerramento d’A Paz após a morte do seu proprietário e agora, no mesmo local, há cerca de dois anos, está o Restaurante Mestrias Nova Tasca, uma belíssima petisqueira. A decoração foi refrescada mas não demasiado, as mesas são de tampo de mármore e as cadeiras, salvo erro, são as originais do antecessor, sólidas e confortáveis. No largo em frente, que entretanto teve obras de recuperação, há uma esplanada. Na lista há petiscos como moelas, pica-pau, ovos com farinheira. E nos pratos há bochecha de porco, bitoque, arroz de choco e de polvo, e bacalhau à braz, entre outros. As batatas fritas são às rodelas finas, feitas na hora e o bitoque está acima da média na qualidade da carne. O serviço é atento e simpático, o local é mesmo bom para petiscar. Eu, que gosto de almoçar sozinho, arrependi-me de não ter companhia para petiscar qualquer coisa de entrada e para dividir a honesta tarte de figo e alfarroba que veio no final. Vinhos a copo, entre eles um bom Monte das Servas tinto. Ao almoço é sossegado, ao jantar muitas vezes acolhe grupos. Largo da Paz 22, telefone 913 342 204,  reservas disponíveis nas várias plataformas e no facebook. 


 


DIXIT - “Não corremos para um lugarinho no Governo” - Jerónimo de Sousa em entrevista à CMTV


BACK TO BASICS - “Se tivesse que escolher se devíamos ter um governo sem jornais ou jornais sem o governo, não hesitaria um momento que fosse na segunda opção” -Thomas Jefferson, 1787.


 





setembro 13, 2019

A POLÍTICA NESTA CAMPANHA ESTÁ AO NÍVEL DO WC

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E A CORRUPÇÃO,  NÃO SE FALA DELA? - A campanha eleitoral ainda não começou e já estou enjoado com os preliminares. Reza a tradição que quem faz preliminares enjoativos dificilmente será lembrado por alcançar os píncaros. É espantoso como duas décadas passadas do novo século, com o panorama de consumo dos meios de comunicação todo virado do avesso em relação há meia dúzia de anos  (nem vou mais longe), os políticos, salvo raras e honrosas excepções, actuam como no tempo da idade da pedra comunicacional. Entre os incumbentes do Parlamento a falta de imaginação é galopante, o conformismo é reinante, a amnésia é dominante. As campanhas são baseadas em promessas e, em política, já se sabe que promessas leva-os o vento. Uma vez concluídas as eleições as promessas ficam no saco dos materiais a esquecer. Mas neste ano, nestas eleições para o Parlamento, o que mais me espanta é que não se fale praticamente de corrupção, dos numerosos casos que envolveram deputados, partidos e governantes e que durante meses foram noticiados com destaque e minúcia. Em vez de ouvirem promessas os eleitores deviam olhar para o que os eleitos fizeram com os votos que receberam. O balanço não favorece quem agora pede votos depois de ter estado sentado no Parlamento. Cada vez que ouvirem um deles a fazer promessas recordem-lhes os casos em que andaram directa ou indiretamente envolvidos, as corruptelas a que fecharam os olhos e as trafulhices que permitiram em faltas, viagens, compadrios familiares. A política, nesta campanha, está ao nível do WC.


 


SEMANADA - O apoio do Estado à compra de automóveis eléctricos esgotou a quatro meses do fim do ano; na última década a percentagem de docentes com mais de 50 anos em Portugal saltou de 22% para 41% e o país tem agora uma das classes docentes mais envelhecidas da OCDE; apenas 1% dos professores em Portugal tem menos de 30 anos enquanto nos países da OCDE a média é de 10%; segundo a Organização Mundial da Saúde Portugal é um dos quatro países em que se registou uma diminuição da despesa pública em saúde entre 2000 e 2017; a média comunitária de mortos em acidentes rodoviários é de 49 mortes por milhão de habitantes e em Portugal verificam-se 58 mortes por milhão, o que nos coloca no décimo lugar dos países com sinistralidade mais grave; em Julho as exportações subiram 1,3% mas as importações dispararam 7,9%; a nova versão do filme “Rei Leão” é o filme mais visto em Portugal desde 2004 e já teve cerca de 1,3 milhões de espectadores; as obras de recuperação do Palácio da Ajuda vão custar o dobro do que estava previsto; em Portugal menos de um terço dos inscritos em universidades conclui a licenciatura em três anos e a taxa de abandono no final do primeiro ano é de 12%; no primeiro ano do mandato de Frederico Varandas o passivo do Sporting subiu 42,3 milhões de euros em relação ao exercício anterior e é agora de 324 milhões, o maior da história do clube; segundo a Marktest 74,6% dos portugueses usam internet e 67% fazem-no pelo telemóvel.


 


ARCO DA VELHA - Em Ovar um jovem de 22 anos confeccionou um bolo com folhas de cannabis para partilhar com amigos, mas a iguaria, deixada numa mesa, desafiou a gulodice de familiares que a devoraram e que acabaram intoxicados com sintomas de tonturas e vómitos. 


 


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A ARTE DA LUZ - Em física Lumen é a unidade de medida do fluxo luminoso, em anatomia é a cavidade ou canal dentro de um orgão ou estrutura tubular. E agora, em livro, é a recolha das obras de arte que entre 1992 e 2019 Pedro Cabrita Reis fez, utilizando tubos de neon que trabalha como linhas de luz num desenho, como referiu esta semana na apresentação do livro na Central Tejo. Este livro vem no seguimento da aquisição da colecção Pedro Cabrita Reis em 2015 pela Fundação EDP, e é na realidade um catálogo de 27 anos de trabalhos com luz. A sua capa é precisamente “Central Tejo”, a escultura que o artista fez em 2018 e que está colocada em cima do rio, frente ao MAAT. Markus Richter, que escreveu a introdução ao livro, sublinha que Pedro Cabrita Reis “utiliza a luz, em primeira linha, para definir ou criar espaços” e faz a história da forma como a luz aparece e evolui na obra de Cabrita Reis na década de 90. Richter destaca uma afirmação de Cabrita Reis que enquadra todas estas obras: “Os tubos luminosos estruturam os espaços como um desenho estruturaria um pensamento visual”. Na apresentação que fez do livro Pedro Cabrita Reis afirmou aquele que tem sido sempre o ponto de partida do seu trabalho: “Nada é por acaso, tudo é pensado”. Ao longo das 480 páginas do livro são mostradas mais de 300 obras, todas devidamente identificadas e descritas, muitas delas pouco conhecidas e surpreendentes, que aqui são partilhadas e que estão expostas em colecções particulares, em empresas ou em museus em Portugal (de Lisboa, Porto, Coimbra e Tavira), mas também internacionalmente em Antuérpia, Londres, Paris, Chicago, Buenos Aires, Basel, Nova Iorque, Milão ou Hamburgo, entre outras. O livro LUMEN está à venda na loja do MAAT. 


 


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MÚSICA ITALO-AMERICANA - O trompetista italiano Enrico Lava e o saxofonista norte-americano Joe Lovano são dois músicos de jazz que se distinguem pela sua capacidade de improvisação. Surge agora o seu primeiro disco em conjunto, uma gravação ao vivo realizada Novembro passado no Auditorium Parco della Musica em Roma - a cidade que dá o nome ao álbum, editado pela ECM e disponível no Spotify. Lava e Lovano são acompanhados pelo pianista italiano Giovanni Guidi, o baixista americano Dezron Douglas e o baterista americano Gerard Cleaver. O álbum tem cinco temas, os dois primeiros são composições de Enrico Lava: “Interiors” (do álbum New York Days de 2009) e “Secrets” do álbum homónimo de 1987. Se no primeiro o trabalho de Giovanni Guidi no piano se destaca, no segundo é o diálogo entre o trompete e o sax que se salienta, apoiado pelo baterista Gerard Cleaver. Os outros três temas são de Lovano - “Fort Worth”, de 1992, o original “Divine Timing”, e uma faixa final, de 18 minutos, que arranca com “Drum Song” de Lovano e depois tem incursões em clássicos como “Spiritual” de John Coltrane e na balada “Over de Rainbow” de Harold Arlen, num medley onde a improvisação corre solta até finalizar com um envolvente solo de Guidi naquela que é uma das mais conhecidas baladas do jazz.


 


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O CLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO  - A rentrée nos principais museus e galerias já começou. Comecemos  pelo Museu Nacional de Arte Antiga que expõe “A leitura da sina do Menino Jesus”, uma pequena pintura que foi a última obra de Josefa de Óbidos a ser conhecida. O quadro foi leiloado na Alemanha em maio passado e o Estado português não conseguiu comprar a obra, vendida por 220 mil euros a um negociante de arte argentino que a emprestou ao MNAA, para ser exposta durante um mês antes de atravessar o Oceano.  O museu expõe a peça no Hall principal e recorda: “Revisitada em 2015, numa grande exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, Josefa de Ayalla, dita Josefa de Óbidos, tem vindo a revelar-se como um dos casos culturalmente mais interessantes entre as mulheres pintoras do período barroco. A pintura, datada de 1667,  mostra a leitura da sina do Menino Jesus através da observação da sua mão por uma mulher cigana durante a estadia da Sagrada Família no Egipto.” Passando para um outro registo o MAAT inaugurou esta semana uma nova série de exposições: a colectiva Playmode, onde os artistas participantes se focaram no “poder de transformação do jogo, integrando-o nas suas obras com propósitos distintos – evasão à realidade, construção e transformação social, subversão ou crítica dos próprios mecanismos de brincadeira e jogo”; e M.A.G.N.E.T. - uma encomenda da Fundação EDP para o Video Room do MAAT, feita à artista egípcia Basin Magdy. O filme foi gravado ao longo de um período de quase dois anos em diferentes locais da Europa, entre os quais se incluem uma cratera vulcânica na ilha grega de Nisyros, um laboratório de robótica em Manchester, o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Dino Parque da Lourinhã, “lugares que, retirados dos seus contextos históricos e geográficos, são apresentados enquanto cenários ficcionais que servem a narrativa. O enredo relata a forma como diversas pessoas e comunidades de todo o mundo recebem a notícia do aumento da gravidade da Terra — uma das quatro forças fundamentais da natureza —, descrevendo uma série de situações e acontecimentos inesperados que têm lugar em diferentes lugares e contextos.”


 


COMIDAS POSSÍVEIS - Felizmente vai crescendo em Lisboa um conjunto de restaurantes em locais agradáveis, sem pretensão maior do que a de servir comida bem confeccionada sem exageros nem de forma nem de preço. Nestes dias mais encalorados experimentei dois onde tudo correu bem. Um deles foi no CCB, o Este-Oeste que tem a sua carta dividida entre comida italiana e sushi de fusão. O sushi é acima da média do que por aí se encontra e na comida italiana destaco a boa qualidade da massa das pizzas - fina, crocante e um muito honesto spaghetti putannesca com a receita original e sem modernices escusadas. O outro é o já antigo, mas recentemente renovado Doca de Santo, em Alcântara, onde uma escolha ampla de saladas e de pratos como caril de gambas à tailandesa (com legumes), o bitoque ou croquetes com arroz de tomate são honestos e de bom preço. Nos dois casos há esplanada mas também espaços interiores com bom ar condicionado e muito luminosos que nestes dias quentes, à hora de almoço,  são melhores ainda que uma esplanada. Nos dois casos não falamos de fast food, mas de pratos variados, bem confeccionados, de um serviço simpático e diligente, de uma equilibrada mistura entre comensais portugueses e turistas estrangeiros. Numa altura em que se multiplicam novos restaurantes onde por vezes o pretensiosismo é dominante, e vão fechando sem glória alguns dos clássicos (como a Bica do Sapato), é bom perceber que existe uma categoria intermédia, mas boa, bem localizada e que cumpre o papel básico de um restaurante. Este-Oeste e Doca de Santo são bons sítios para se apreciar o rio enquanto se tem uma muito razoável refeição.


 


DIXIT - “A política sempre foi um jogo de máscaras, mesmo que não a devamos reduzir a isso” - Vicente Jorge Silva


 


BACK TO BASICS - “Acima de tudo a vida de um fotógrafo não pode ser pautada pela indiferença” - Robert Frank





setembro 06, 2019

COMO VAI SER O NOIVADO ESTE ANO NO DIA A SEGUIR ÀS ELEIÇÕES?

 


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CASAMENTOS - O dado curioso das próximas eleições legislativas é que só existe um candidato a primeiro-ministro. Ninguém mais se candidata à função, os outros concorrentes apenas procuram votos e lugares clientelares no novo parlamento. António Costa ainda não sabe se vai ter  que arranjar companhia ou se conseguirá ser o noivo que vai sozinho ao altar, prescindindo de arranjinhos. Numa entrevista recente deu umas sapatadas no noivado com o Bloco e,no primeiro debate da televisão, mostrou-se pouco entusiasmado em namorar o PCP, mas cuidadoso para não o afastar. António Costa é um político inteligente, um hábil manobrador que gere com táctica os arrufos e os assomos de paixão com os seus parceiros. Sabe perfeitamente que no dia a seguir às eleições será ele a ditar as regras do jogo que vai ser formar novo Governo e sabe também que ninguém estará em condições de lhe tirar esse prazer. Há quatro anos fez o namoro com Bloco e PCP às escondidas para garantir o poder no dia seguinte às eleições, espantando Passos Coelho, que havia sido o mais votado. Agora, às  claras, espera que o eleitorado lhe dê a possibilidade de se separar da geringonça, namorando caso a caso com quem mais lhe convier. A coisa já esteve mais longe de acontecer. E para tirar o Bloco da equação não será o PCP a a complicar a vida a António Costa.


 


SEMANADA - Até agora, durante o verão, foram detectados 31 mil condutores em excesso de velocidade e 2980 outros a utilizar telemóvel enquanto guiavam; de Janeiro a Agosto morreram 312 pessoas em acidentes de viação; mais de 43 mil portugueses foram apanhados em excesso de velocidade em Espanha;  mais de metade das consultas de neurocirurgia superou o tempo máximo de resposta considerado clinicamente aceitável; o envio pelo SNS de doentes para cirurgias no privado subiu 96% em 2018; as dívidas de hospitais do Serviço Nacional de Saúde ao Instituto do Sangue ultrapassam os 70 milhões de euros e ameaçam o seu funcionamento; a despesa pública com subvenções vitalícias abrange 308 políticos que custam 6,1 milhões de euros por ano; o PS prevê gastar 2,4 milhões de euros na próxima campanha eleitoral, o PSD cerca de dois milhões, a CDU prevê 1,2 milhões, o Bloco quase um milhão e o CDS cerca de 700 mil euros; José Sócrates classificou António Costa como “insuportável”; a aplicação informática para autorização de queimadas registou mais de 300 mil pedidos durante os primeiros sete meses do ano, dos quais 96% foram autorizados; o Tribunal de Contas alertou que a desertificação dos solos afecta dois terços do território e denunciou que os programas de combate à desertificação estão a ser mal executados pelo Governo que obviamente o desmente; um inquérito recente indica que mais de metade dos portugueses (53,5%) diz que a crise não passou e afirma que o desemprego está no topo das suas preocupações.


 


ARCO DA VELHA - Catarina Martins anunciou que “o programa eleitoral do Bloco é essencialmente social-democrata”.


 


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DIGRESSÃO ARTíSTICA - "Contra a Abstracção" é uma exposição colectiva de obras da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, comissariada por Sandra Vieira Jurgens, que tem percorrido diversas cidades ao longo dos últimos meses com várias versões de diferentes obras, mas mantendo um núcleo central de artistas em todos os locais onde já passou. É uma boa forma de levar a colecção do Banco Público para fora das austeras portas do seu edifício sede em Lisboa. A exposição   apresenta uma seleção de obras, de diferentes artistas (cerca de 50, a maioria portugueses) e suportes (da pintura à fotografia, passando pelo vídeo, escultura e instalação). O título da exposição evoca o seu tema central - que é o abstracto.  Estão representados artistas como Álvaro Lapa, Ana Hatherly, Ana Jotta,  ngela Ferreira,  ngelo de Sousa, António Ole, António Palolo, Bartolomeu Cid dos Santos, Ernesto de Sousa, Espiga Pinto, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Joana Vasconcelos, João Paulo Feliciano, José Loureiro, José M. Rodrigues, Júlia Ventura, Kees Scherer, Leonor Antunes, Luís Demée, Man, Manuela Almeida, Manuel Viana, Nadir Afonso, Pedro Cabrita Reis, Pedro Casqueiro, Pedro Portugal e Rui Sanches, entre outros. A exposição está neste momento patente no Centro de Artes de Sines até 27 de Outubro. Concebido por Francisco e Manuel Mateus o Centro de Artes de Sines é considerado como um edifício marcante da arquitetura portuguesa contemporânea. A exposição está aberta diariamente entre as 14h30 e as 20h00, incluindo ao fim de semana. 


 


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NOVAS CANÇÕES AMERICANAS- Após uns anos sem gravar Lana del Rey surge com o seu quinto álbum de originais que chama para o título Norman Rockwell, um dos nomes incontornáveis da ilustração norte-americana, conhecido pela forma como retratou cenas do quotidiano do sonho americano. “Norman Fucking Rockwell” é o nome do novo disco com 14 canções que mostram uma Lana Del Rey mais madura e mais afirmativa, a desafiar as palavras e a exibir a sua sexualidade, mas também a sua opinião sobre a América deste tempos. O álbum é um somatório de emoções, alternadas com opiniões e afirmações. A faixa inicial, “Venice Bitch”, é uma melodiosa evocação de jogos de sedução e de sexo que se prolonga durante quase oito minutos e que antecede a forte “Fuck It I Love You”, muito autobiográfica, a abrir caminho para o centro geográfico deste álbum que é a Califórnia, evocada numa canção homónima onde o amor perdido é tema, aliás como em “Love Song”. Há canções cujos títulos são já um programa, como “The Next Best American Record” ou o também muito pessoal “Hope Is A Dangerous Thing For A Woman Like Me To Have - But I Have It”, onde até cabe uma referência a Silvia Plath, uma poetisa e escritora norte-americana conhecida pelo seu estilo confessional - um ponto de contacto com este disco de Lana Del Rey. Há ainda uma piscadela a Neil Young, a quem roubou o nome da uma canção, “Cinnamon Girl”, o exibicionismo de “Bartender” e aquela que é talvez a mais forte canção do disco, “Doin’ Time”, que começa por uma evocação do standard “Summertime” e que subitamente parte para outros territórios. No disco há numerosas referências à America de Trump, críticas presentes em quase todas as canções num contraste propositado com a ideia de um paraíso idílico do sonho americano que Norman Rockwell retratou. É este conjunto de citações e de cruzamentos de fontes e influências que faz a força deste disco. CD disponível no Spotify.


 


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SOBRE AS CIDADES - A edição de Setembro da revista “Monocle” vem com muita leitura. O tema de capa aborda a evolução da mobilidade entre a casa e o trabalho e aponta ideias para o replaneamento de cidades num futuro próximo, indicando Helsínquia como uma das mais avançadas, sublinhando que já tem um curso um plano com objectivos traçados até 2050. Os filisteus que habitam na Praça do Município em Lisboa, de todos os partidos aliás, fariam bem em ler este artigo e tomar notas. Passando para outro tema, a cultura, uma das cidades em foco é a norte-americana Tulsa,  que é protagonista de um ressurgimento devido a generosas dádivas de fortunas feitas no petróleo e que desde os anos 30 do século passado contribuíram para edifícios arquitectonicamente marcantes da cidade. Uma das actividades mecenáticas mais recentes tem a ver com a recuperação do Arts District da cidade e com a compra dos arquivos de Woody Guthrie de de Bob Dylan pela universidade de Tulsa, um investimento que ultrapassou os 20 milhões de dólares em grande parte financiado por uma Fundação privada - coisas que a legislação americana permite e incentiva e que aqui são maltratadas. Com ligações claras a esta área está um dos mais interessantes artigos da edição e que tem a ver com a gestão de museus, baseado em entrevistas com responsáveis de instituições em Berlim, Taipé, Nova Iorque e Londres. Aqui estão mais umas páginas que podem ser úteis a algumas pessoas envolvidas no tema em Portugal. Por falar nisso a edição inclui oito páginas de conteúdos patrocinados pelo Turismo de Portugal com 50 lugares essenciais a visitar, de restaurantes a museus, passando por praias ou lojas. Serralves é que deve ter ficado aos saltos porque a sua localização vem… em Lisboa.


 


VOANDO - Andar de avião no Verão dá cabo da paciência a um santo: filas infindáveis, aeroportos cheios, controlos de segurança demorados. Se as coisas correrem bem podemos contar com uma hora entre a entrada no aeroporto e a chegada à porta de embarque. Se falarmos do aeroporto de Lisboa, à hora de ponta, a coisa pode ser ainda pior. Quem está na cidade exaspera-se com o barulho causado pelos aviões, quem está no aeroporto enerva-se com as filas e com a espera. Uma vez chegados à porta de embarque resta aguardar que o voo não esteja atrasado, uma raridade nos tempos que correm, sobretudo na TAP. Depois, uma vez no avião, resta esperar que ele não tenha perdido a sua hora de saída e seja obrigado a ficar à espera de vez. Foi o que me aconteceu num recente voo da Vueling para Barcelona, em que estive quase três quartos de hora à espera que o avião pudesse levantar. O comandante, no entanto, não foi de modas e explicou aos passageiros que, embora o aeroporto de Lisboa fosse já manifestamente insuficiente para o movimento que tem, desta vez a culpa não tinha sido da torre de controlo. Explicou que o atraso se deveu ao handling, classificando-o de desleixado e incompetente. Disse que o avião até tinha chegado adiantado ao aeroporto mas a equipa de handling atrasou-se uma hora e comprometeu todo o resto da operação. Insinuou que isto era frequente com o handling no aeroporto da capital. E os passageiros, maioritariamente estrangeiros, que enchiam o Airbus A320, ficaram assim comuna bela ideia do país.


 


DIXIT - “Desejo firmemente que os “debates” televisivos tenham a audiência que merecem: a pior, abaixo da do pior telejornal. Seria um magnífico sinal de alguma maturidade cívica numa sociedade tão infantil e infantilizada por uma oligarquia política e comunicacional tropical.” - João Gonçalves, jurista


 


BACK TO BASICS - “Ouçam muitos mas falem só com alguns” - William Shakespeare


 

agosto 30, 2019

CULTURA: REFORÇAR O ESTADO OU ABRIR AOS PRIVADOS?

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A POLÍTICA CULTURAL -  Vão agora começar a circular os programas eleitorais dos partidos - e a sua semelhança com a realidade é maioritariamente escassa. Hoje pego numa área muitas vezes subalternizada - a da Cultura. Nos últimos anos a discussão sobre o tema tem-se centrado sobre se deve existir Ministério ou não e, sobretudo, sobre o financiamento do Estado ao sector e a percentagem do PIB que esse financiamento poderá representar. Reduzir as questões a isto é a melhor forma de acabar com a cultura. Desde há muito defendo que mais importante que a percentagem do PIB é tomar medidas que facilitem e incentivem acções de mecenato e a aquisição de bens culturais pelos cidadãos. Assim, antes de aumentar o orçamento da Cultura, vale a pena pensar como ele pode ser estimulado, do exterior, pelos privados. Neste domínio há várias questões, a maior parte dependente das Finanças - e logo em primeiro lugar a revisão da lei do mecenato, tornando mais simples o seu funcionamento e muito mais largo o seu campo de acção, o que inclui que os benefícios sejam mais estimulantes para quem decide apoiar a Cultura. Por exemplo seria interessante estudar um regime fiscal favorável para que as empresas e particulares (trabalhadores independentes por exemplo) possam adquirir arte contemporânea com uma vantagem fiscal no IVA e na dedução à colecta, sem ter de recorrer à Lei do Mecenato. Era interessante estudar como estender este processo ao apoio à edição livreira cuja situação se agrava de dia para dia. Diminuirá isto a receita fiscal ? Há estudos que indicam uma diminuição marginal, largamente compensada por uma redução da necessidade  de financiamentos do Estado - como acontece nalgumas sociedades onde a sociedade civil tem incentivos para existir e se desenvolver. E finalmente, em vez da discussão sobre o estatuto de um Ministério, creio que seria bem mais importante implementar uma verdadeira coordenação entre vários departamentos do Governo que lidam com áreas culturais, do património edificado que é chamariz do Turismo, até à Educação, passando pela dinamização da imagem internacional do país geralmente mal feita pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. 


 


SEMANADA - Nos primeiros sete meses do ano foram feitos mais de 90 mil pedidos de nacionalidade portuguesa com Brasil, Venezuela e Israel à frente da lista; 84,4% das vagas para jovens médicos no Alentejo ficaram por preencher por falta de interessados que alegaram deficientes condições de trabalho; durante o fim de semana passado o sul do país esteve sem transporte aéreo de urgência; mais de 350 vagas para médicos que terminaram a especialidade nas áreas de medicina geral e familiar, saúde pública e hospitalar ficaram por preencher no concurso de primeira época deste ano, que disponibilizava 1264 postos de trabalho;  no ano passado 156 pessoas morreram atropeladas nas estradas portuguesas - é o número mais alto dos últimos seis anos e subiu 20% em relação a 2017, com o registo de mais 26 vítimas mortais; actividades ilegais como a prostituição, droga e contrabando já valem 0,5% do PIB; segundo a Marktest em Portugal já há milhão e meio de assinantes de serviços de streaming audio e video, com a Netflix a ter a maioria das subscrições; ainda segundo a Marktest há quase dois milhões de portugueses que ouvem regularmente rádio pela internet, os indivíduos entre os 25 e os 34 anos são os que possuem maior afinidade com este hábito e nos quadros médios e superiores a penetração de ouvir rádio pela internet é de cerca de 44%; A receita fiscal proveniente da venda de combustíveis atinge os 10 milhões de euros por dia.


 


PARA MAIS TARDE RECORDAR - Foi com um Governo PS, apoiado pelo Bloco de Esquerda e o PCP, que se chegou ao ponto de procurar dissolver um sindicato desalinhado das centrais sindicais e incómodo para o poder.


 


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MANIFESTAÇÃO FOTOGRÁFICA - Ao longo de 2013 o fotojornalista Luís Ramos acompanhou as manifestações em Lisboa contra as políticas de austeridade impostas pela troika. Mas em vez de se limitar a fazer planos das manifestações ou de cartazes, Luis Ramos fixou-se na cara das pessoas, de manifestantes, isolando-os do cenário de multidão em que estavam inseridos, como se fossem retratos individuais. São grandes planos das caras, a preto e branco, que oscilam entre a desilusão e a expectativa, com alguns, poucos, sinais de determinação.São fotografias mais de um queixume que de um protesto. Percebe-se que são pessoas muito diversas mas o enquadramento escolhido e a técnica seguida apagam diferenças sociais ou de origem. Restam as (poucas) diferenças de idade e as diferenças de expressão entre os 100 retratos que estão no painel “Remember” que até 29 de Setembro pode ser visto na grande praça do Museu do CCB, ao fundo, enquadrada pela marcante escultura que José Pedro Croft levou há uns anos à Bienal de Veneza. Visto à distância o painel parece uma peça única - é preciso aproximar-nos para vermos uma a uma a cara destes protagonistas do que acaba por ser uma manifestação fotográfica. Luis Ramos afirma que o desalento foi o sentimento marcante que sentiu ao seleccionar as imagens dos manifestantes, com quem não falou, limitando-se a isolá-los no meio das multidões. Numa recente entrevista sobre a exposição e a razão de ter feito estes retratos Luis Ramos afirmou simplesmente: “na cara das pessoas está tudo”.


 


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UM DUETO INVULGAR - A primeira edição de “El Corazon”, em LP de vinil, saíu em 1982. Não é muito frequente fazer um disco baseado num dueto entre trompete e bateria, mas “El Corazón” é isso mesmo. Don Cherry com o seu pequeno trompete, ocasionalmente no piano e na harmónica, Ed Blackwell na bateria e também nas percussões. Em 1982 Don Cherry tinha 46 anos e Ed Blackwell já ía nos 53. Cherry ganhou fama ao lado de Ornette Coleman, nomeadamente no marcante “The Shade Of Jazz To Come”, de 1958. Ao longo dos anos tocou com John Coltrane, Sonny Rollins e Charlie Haden, entre muitos outros. Este “El Corazón”, depois de ter nascido no vinil, foi reeditado em 2000 pela ECM em CD e este verão teve nova reedição, também da ECM, com uma remasterização e também presença no Spotify. Este dueto entre o trompete e a bateria é muito interessante de seguir - até porque Blackwell não se coíbe e muitas vezes ocupa muito o espaço, mas sempre de forma elegante. Há no entanto um tema que Cherry toca a solo, “Voice of the Silence”, que é dos momentos altos do disco e uma demonstração da capacidade e criatividade do trompetista e da forma como conseguiu deixar marca com a sua sonoridade. Se não conheciam esta obra vale a pena descobrirem-na agora, 37 anos depois da sua edição original. E é espantoso como permanece tão actual.


 


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AS ORIGENS DOS EUROPEUS - Numa altura em que as questões em torno do Brexit se agudizam e em que o número de eurocépticos  vai aumentando é curioso olhar para a História da Europa e dos europeus não do ponto de vista da evolução política, mas do ponto de vista biológico, a partir do seu legado genético, da primeira onda de migração que desencadeou o povoamento do continente até aos dias de hoje. “A Grande Família Europeia - os primeiros 


54 000 anos” é uma obra escrita por Karin Bojs, que foi durante duas décadas editora de ciência de um dos maiores jornais diários suecos e foi distinguida com um doutoramento honoris  causa da Universidade de Estocolmo. Esta sua obra recebeu o prémio de melhor livro de não ficção editado em 2015 na Suécia. «Viajei por dez países, li cerca de 200 estudos científicos e entrevistei mais de 70 cientistas na minha pesquisa», escreve Karin Bojs, que conversou com geneticistas, historiadores e arqueólogos eminentes, acabando por descobrir a história escondida nos nossos genes, que revela a história partilhada dos povos europeus e de toda a Humanidade. O livro começa pela evocação do que aconteceu, há 54 000 anos na proximidade do mar da Galileia, com um encontro entre uma mulher e um homem, fisicamente muito diferentes, no cimo de uma montanha. Do encontro nasceu um rapaz, de uma aparência física diferente das outras crianças da tribo da mãe. E o rapaz teve “uma grande descendência, que migrou em todas as direcções e se espalhou pelos territórios sem fim”. Ele era o filho de um homem de Neandertal. E a partir daqui a autora percorre as diferentes épocas da História e da evolução da raça humana. Fascinante. O livro foi agora editado em Portugal pela Bertrand. 


 


EM DEFESA DA CAVALA - Abundante na costa portuguesa e rica em Ómega 3, com todas as vantagens que daí advêm para a saúde, a cavala é um peixe ainda hoje menosprezado por muita gente - quer fresco quer em conserva. Para efeito de receita de fim de verão vou focar-me apenas nas conservas de filetes de cavala em azeite. Três ideias simples: como entrada sugiro uma fatia de bom pão tostado, barrado com pasta de abacate temperado com lima, sal e pimenta, e coberto por fatias muito finas de pepino e tomate. Por cima colocam-se os filetes de cavala partidos aos pedaços depois de escorridos. Estas sanduíches abertas são sempre um bom petisco que tanto pode ser entrada como uma refeição leve. Outra alternativa é uma salada de corações de alface e tomate coração de boi cortado aos pedaços, com rodelas de pepino e amêndoa laminada, bem temperada com azeite e vinagre e depois com os filetes inteiros misturados. Por fim uma inspiração italiana: um bom esparguete cozido al dente em água com sal, misturado com molho de tomate cozinhado e temperado com ervas, ao qual se adicionou no final os filetes de cavala de conserva aos pedaços. Deita-se tudo sobre a massa, envolve-se bem e serve-se de imediato. Eu costumo usar os filetes da Comur, uma marca de conservas cujo método de produção tem a vantagem de não deixar o por vezes desagradável sabor da lata.


 


DIXIT - “O PS não se propõe “libertar” energias, cidadãos, empresas, autarquias ou iniciativas. O PS propõe-se enquadrar, comandar, dirigir, orientar e, numa palavra, fazer. O PS não quer deixar fazer, não deseja que outros façam, quer fazer. E o que ele não fizer, proíbe ou dificulta” - António Barreto.



BACK TO BASICS - “Aos olhos de quem lê História a desobediência é a virtude original do Homem: é através da desobediência e da rebelião que se construíu o progresso” - Oscar Wilde.





agosto 23, 2019

À PROCURA DO SILÊNCIO PERDIDO

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OS RUÍDOS - Estou entre aqueles que, em tempo de férias, prefere o silêncio e as boas condições para sonos repousantes, leituras tranquilas, meditações diversas. No regresso de férias, em que estes objectivos foram alcançados, volto a uma Lisboa, com menos trânsito mas com ruído igual ao que existia - e o principal ruído, que me prejudica as noites, vem dos aviões, que rugem desde bem cedo até bem tarde. Não sei quem terá convencido aqueles que legislam sobre esta matéria que um ser humano precisa apenas de, no máximo, cinco horas de sono por noite. Os especialistas dizem que poucas horas de sono bem dormido têm efeitos terríveis na saúde, para não falar já do seu efeito na capacidade de trabalho e no humor das pessoas. E no entanto os lisboetas que residem nos percursos mais utilizados pelos aviões a descolar ou a aterrar muitas vezes nem essas cinco horas de sono repousado têm. E, durante o dia, experimentam a sensação de viver na pista de um porta-aviões em tempo de guerra. Quem é responsável por isto? Quem legisla? Quem devia fiscalizar? Quem autoriza e contorna a Lei? E como são responsabilizados? Que pode a Câmara Municipal fazer para adicionar ruído ao problema permitindo barulho na rua em zonas do centro da cidade por essa noite fora? O Turismo justifica tudo? - Em Amsterdão e noutras cidades europeias começaram a existir restrições à proliferação de alojamentos locais e em muitos casos foram proibidas quaisquer actividades ruidosas na rua ou que prejudiquem outros moradores de um prédio. Estes são países e cidades onde os políticos que decidem respeitam quem os elege. Como se sabe não é esse o caso de Lisboa, nem o caso de Portugal.





SEMANADA - O New York Times fez um trabalho sobre os incêndios florestais em Portugal e relatou a experiência que está a ser feita com cabras - já são mais de dez mil em todo o país - chamando-lhes bombeiros low cost; há cerca de seis dezenas de candidatos à escola de pastores que arranca este ano com cursos que tem a duração prevista de quatro meses; um estudo agora divulgado indica que a despesa pública nunca foi tão pouco produtiva, a actual legislatura é a menos amiga da economia desde que há estatísticas e Portugal é dos Estados europeus que menos investem no crescimento de longo prazo; apenas 2% dos estabelecimentos de ensino dispõem de desfibriladores automáticos; no Palácio de Justiça de Torres Novas quando as águas do rio Almonda sobem, o arquivo “fica inundado devido ao sistema de esgotos; no Porto, no Tribunal de São João Novo, caíu o tecto de uma sala de audiências e de um gabinete de juízes; na comarca de Aveiro foi necessário encerrar o WC dos funcionários no Tribunal de Castelo de Paiva para evitar escorrências para o piso inferior, ocupado pela conservatória do registo civil; um recente estudo da Marktest considera que cerca de um milhão de portugueses tenciona comprar automóvel nos próximos 12 meses, a maioria tenciona comprar um automóvel em segunda mão e quanto ao tipo de combustível, enquanto, em 2013, 70% dos que tencionavam comprar um automóvel optavam por um veículo a gasóleo, em 2019 essa opção baixa para 44.2% das intenções de compra e as opções pelos híbridos e elétricos são as que mais têm crescido nos últimos anos, ultrapassando já os 10%.





SINAIS DOS TEMPOS - Segundo a Cision, uma empresa de análise de informação, a greve dos motoristas teve uma cobertura noticiosa total de 205 horas de televisão, gerando 8241 notícias nos vários mídias. Pardal Henriques ocupou apenas 30% do espaço noticioso contra 46% da Antram. TV e internet foram responsáveis por 87% do espaço noticioso consagrado à greve, a imprensa 3% e a rádio 10%.


 


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DOCES TENTAÇÕES - Uma das novidades do verão lisboeta é o ambiente de ginásio criado na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36). Até dia 30 de Agosto poderá ali ver o mais recente trabalho da artista plástica Ana Fonseca, “Master Baker”. Trata-se de uma paródia sobre a relação, que tantas vezes atormenta as pessoas, entre a comida e a forma física. O ginásio imaginário que Ana Fonseca criou tem peças como a que aqui se reproduz, intitulada “I like my dumbbell sweet #1”: uma barra de halteres, feita em  cimento, pó de mármore, farinha Maizena, pigmento, verniz, tinta de esmalte esmalte e aglutinante. O resultado é no mínimo apetitoso e é apenas uma pequena amostra daquilo que a exposição oferece aos sentidos. À disposição dos frequentadores deste ginásio especial há também copos de gelado, bolos e sobremesas diversas - doces tentações, aqui completamente incomestíveis mas que proporcionam uma boa reflexão sobre o conflito entre os prazeres da mesa, que dão uma satisfação imediata, e o exercício físico, que é um processo que exige trabalho consistente ao longo do tempo. O trabalho de Ana Fonseca pode ser visto até ao final de Agosto na SNBA, de segunda a sexta, das 12h às 19h e sábado das 14h às 20h. Termino com outra sugestão -  até 12 de Setembro, na Galeria das Salgadeiras, Rua da Atalaia 12, pode ver obras que sob o título genérico ATER incluem desenho e fotografia de Augusto Brázio, Cláudio Garrudo, Daniela Krtsch, João Dias, Jordi Burch, Maria Capelo, Rui Horta Pereira e Rui Soares Costa.


 


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O RITMO DO PIANO - Abdullah Ibrahim é um pianista e compositor de jazz sul africano que aos 84 anos continua a fazer bons discos - o mais recente chama-se “The Balance”, foi agora editado, e mereceu uma crítica muito elogiosa da revista norte-americana Downbeat. Ibrahim começou a tornar-se conhecido fora do seu país, de onde saíu em pleno apartheid no início dos anos 60 com o seu Dollar Brand Trio, que gravou sob os auspícios de  Duke Ellington. “The Balance” tem dez temas inéditos e conta com colaborações de peso. Abdullah Ibrahim está obviamente no piano,  Noah Jackson e Alec Dankworth no baixo, Will Terrill na bateria,  Cleave Guyton Jr. no saxofone alto e flauta, Lance Bryant, no sax tenor, Marshall McDonald também no saxofone,  Andrae Murchison no trombone e Adam Glasser na harmonica. “The Balance” percorre uma grande variedade de estilos e sonoridades - que vão quase desde a sensação de big band proporcionada pela secção de metais até ao temas que só aparece o piano, três ao todo, com destaque para “Tonegawa”. Outro tema, “Jubula” é um exemplo da capacidade rítmica dos músicos e do calor da sua execução. O disco termina com uma homenagem à mulher de Ibrahim, já falecida, a cantora Sathima Bea Benjamin que foi decisiva na carreira do músico. “The Balance” está disponível no Spotify.


 


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UM ESPIÃO ESPECIAL - Arturo Pérez-Reverte foi durante muitos anos um repórter de guerra que presenciou conflitos em todo o mundo. Quando se dedicou essencialmente à ficção colocou a Guerra Civil de Espanha como cenário de vários dos seus romances - e até escreveu um livro que conta o conflito espanhol aos jovens. Reverte escreve os romances como se de um policial se tratasse, criando um mistério, urdindo uma intriga, visitando por vezes, como agora acontece, acções de espionagem. No caso de “Sabotagem”, o seu novo romance agora editado em Portugal, é a terceira vez que centra a acção em Falcó, um operacional dos nacionalistas espanhóis usados para tarefas complicadas. É difícil falar de “Sabotagem” sem fazer um spoiler mas é inevitável dizer que o tema do livro é impedir que Picasso apresente a sua obra “Guernica” no Pavilhão da Espanha Republicana na Exposição Internacional de Artes e Técnicas, que se realizou em Paris em 1937. “Guernica” havia sido uma encomenda explícita do Governo Republicano para chamar a atenção para o massacre que ali ocorreu na sequência de um bombardeamento da Legião Condor, uma unidade militar da Alemanha nazi que apoiou os franquistas na Guerra Civil Espanhola. O quadro, bem o sabemos, existe e tornou-se numa das obras mais famosas de Picasso. Que se passou então nesta aventura de Falcó? O melhor é mesmo ler “Sabotagem”.


 


PETISCOS & VINHO - A Casa José Maria da Fonseca abriu há uns anos em Lisboa, no Chiado, o seu primeiro espaço de restauração - o By The Wine. A ideia é servir petiscos, alguns pratos mais elaborados e sobretudo dar a conhecer os vinhos que a José Maria da Fonseca produz em diversas regiões do país. Chegou este verão a vez de abrir novo By The Wine em Azeitão, no conjunto de edifícios que são a sede histórica da José Maria da Fonseca, em pleno centro da vila. Este novo By The Wine dispõe de uma ampla esplanada coberta e de dois espaços interiores, um que acaba por ser o prolongamento da esplanada e o outro, mais protegido, e que nos dias  frios será certamente mais procurado.  Em duas visitas constatou-se a boa qualidade da oferta.Nas entradas vou destacar uma invulgar e superior sopa fria de melão levemente temperada por moscatel da região. Mas deve ser também destacado o escabeche de perdiz numa receita do chef José Júlio Vintém e uma sanduíche de rosbife com mostarda e mel. Noutro género podem encontrar  um ceviche teriyaky, um bom carpaccio de novilho com pistachios, rúcula e parmesão e uns inesperados cogumelos à bulhão pato. Quem quiser tem várias tábuas de queijos e enchidos à disposição e nas coisas mais sérias José Júlio Vintém volta a destacar-se com umas bochechas de vitela estufadas em vinho tinto e, noutro registo, um polvo à Gomes de Sá com batata doce. Nos doces vale a pena provar o bolo de chocolate com gelado de lima e manjericão, temperado com sal marinho. Todos os vinhos da casa podem ser pedidos a copo e numa das ocasiões provou-se um belíssimo tinto Domini do Douro e na segunda vez o branco seco da Quinta de Camarate - e ambos se portaram muito bem. Rua José Augusto Coelho 1, telefone 212 191 366.


 


DIXIT - “As mais profundas convicções democráticas e liberais que marcaram o carácter do PS estão a sofrer uma erosão manifesta, causada pelo apetite de poder e pela influência ideológica do Bloco” - António Barreto 


 


BACK TO BASICS - “O nosso objectivo deve ser encontrar soluções simples para problemas complexos” -  escola de Bauhaus, há um século.


 


 

agosto 16, 2019

AVENTURAS DE COSTA EM BUSCA DO VALE ENCANTADO DA MAIORIA ABSOLUTA

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O GOVERNO E AS REMUNERAÇÕES ENCAPOTADAS - António Costa é dos mais hábeis políticos que tem dirigido o país, consegue transformar crises em vantagens e o que se passou no caso da greve dos motoristas de matérias perigosas é um manual de como inverter a situação. António Costa jogou xadrez com o eleitorado e conquistou provavelmente posições nos eleitores do centro. Mas não encontro melhor olhar sobre o caso da greve do que estas palavras do advogado Fernando Delgado,  num belo post que escreveu no Facebook e que descreve de forma exemplar uma das questões deliberadamente escondidas pelas autoridades sobre a greve dos motoristas - o Governo optou por tolerar remunerações encapotadas. Aqui vai, com a devida vénia ao autor: “No meio do nevoeiro lançado pelo Governo, só há uma coisa em causa neste assunto ou não assunto. Os motoristas querem que o total que recebem (que não é pouco) pelo seu trabalho, seja considerado retribuição para efeitos fiscais e contributivos. Porque ganhar dois mil euros por mês e só descontar sobre o salário mínimo é muito bom para as empresas, que poupam bastante nos descontos para a Segurança Social e em IRS, mas penaliza os trabalhadores, quando têm de estar de baixa, em situação de desemprego ou para o cálculo da sua reforma. E penaliza directamente o Estado, que não recebe as contribuições devidas em impostos e descontos para a Segurança Social. Só o Governo tem a chave desta questão - e toda a gente omite isto, ai minha santa comunicação social -basta que obrigue as empresas a cumprir a lei. É esta estranha aliança de interesses entre um governo socialista calçado em sapatos comunistas e bloquistas e um patronato que continua a gerir as suas empresas com clara evasão fiscal, que me faz confusão.Ou não, porque realmente é mais fácil atirar as culpas para o motorista - esse tipo feio, bruto e analfabeto.”


 


SEMANADA - Este ano já deram entrada 6926 pedidos de equivalência de diplomas de ensino por alunos estrangeiros que querem continuar a estudar em Portugal, um aumento de 366% em relação ao ano passado; no final de 2018 existiam 16203 funcionários públicos com idade superior a 65 anos; no final deste ano cerca de 3500 médicos continuarão sem acesso à especialidade devido à falta de vagas nos internatos; ao longo da última década diminuíu o número de guardas e sargentos da GNR mas aumentou o número de oficiais; nos primeiros três meses deste ano foram decretadas 2757 insolvências, uma redução de 181 processos relativamente ao mesmo período do ano passado; a nova versão do Rei Leão, estreada em Portugal em meados de Julho, já está perto do milhão de espectadores nos cinemas nacionais, o que o coloca como o filme mais visto deste ano; o filme português mais visto foi SNU com cerca de 82 mil espectadores, muito acima dos cerca de 30 mil  até agora registados de “Tony”; o movimento dos coletes amarelos português anunciou a sua extinção; este ano 135 pessoas com idades entre os 16 e os 58 anos fizeram pedidos para alterar o nome e o género no Cartão de Cidadão. 


 


ARCO DA VELHA - O Governo recuou na decisão que tinha tomado em 2017 e decidiu manter a taxa de utilização de subsolo na fatura de gás.


 


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UM MUSEU MUSICAL- Volta e meia descubro qualquer coisa completamente inesperada. Desde há uns tempos que via cartazes publicitários na região de Setúbal e Palmela a anunciar o Museu da Música Mecânica, localizado no Pinhal Novo. Os dias menos solarentos deste Verão proporcionaram a ocasião para a visita. Primeira surpresa - o Museu é uma iniciativa completamente privada, instalado num moderno e atraente edifício projectado pelo arquitecto Miguel Marcelino. O edifício foi pensado para albergar a colecção de Luis Cangueiro, um empresário da área da publicidade de exterior que actua sobretudo na margem sul. A sua colecção engloba 200 anos de máquinas que produzem ou reproduzem música - desde realejos a instrumentos, passando por grafonolas, um exemplar do cilindro de Edisom que foi a primeira máquina de gravação de som, uma grande colecção de caixas de música e uma magnífica Juke Box Wurlitzer de 1947, que é a peça mais moderna de uma colecção que se estende por 200 anos. O Museu foi inaugurado em outubro de 2016 e a sua colecção é constituída por mais de 600 peças que produzem música e se movimentam por sistemas exclusivamente mecânicos, todos em estado de funcionamento e que foram produzidos entre finais do século XVIII e a década de 40 do século passado. A entrada custa 5 euros e o museu está aberto de terça a domingo das 14h30 às 18. O Museu de Música Mecânica tem recebido várias distinções da Associação Portuguesa de Museologia, um total de sete desde a abertura, entre eles um, recebido já este ano, pelo catálogo “O Maravilhoso Mundo da Música Mecânica”. O site do museu tem muita informação e  é acessível em museudamusicamecanica.com . 


 


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TV JAZZ - Jon Batiste é o pianista de serviço a dirigir o grupo de músicos que anima o “The Late Show With Steve Colbert” na estação de televisão norte-americana CBS. batiste é um dos mais conhecidos músicos de jazz contemporâneos graças à sua presença constante num programa de grande audiência. Na televisão americana é comum que os talk-shows da noite tenham uma banda residente e um director musical, simultaneamente líder dessa banda,, tocando ao vivo, em todas as emissões. Jon Batiste vem de uma família de músicos de Nova Orleães muito ligados à tradição musical local. No final da adolescência mudou-se para Nova Iorque e estudou numa das mais prestigiadas escolas de música, a Juilliard. Ao longo da sua carreira gravou com nomes como Wynton Marsalis e Bill Laswell e com a sua banda, Stay Human, que é aliás a formação que aparece no programa de televisão já referido. O seu novo álbum, “Anatomy Of Angels”, foi gravado ao vivo com os Stay Human, ao longo de oito concertos realizados no Village Vanguard um clube de jazz de Nova Iorque, no Outono de 2018. Com uma duração de 36 minutos e já disponível no Spotify, este “Anatomy Of Angels”, agora editado, e inclui cinco temas - três peças para trio (duas composições originais de Batiste e o clássico “The Very Thought Of You” de Ray Noble e duas faixas mais extensas, tocadas em octeto - “Round Midnight” de Thelonius Monk e o tema que dá título ao álbum, da autoria do próprio Jon Batiste. Com arranjos cuidados e uma interpretação criativa que por vezes junta diversas influências este álbum é uma excelente introdução ao trabalho de Jon Batiste, conseguindo combinar uma sonoridade clássica e uma execução completamente actual. 


 


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REFLEXÕES MONETÁRIAS - “Money makes the world go round”, cantava Liza Minnelli no filme “Cabaret”. E dinheiro é precisamente o tema do sexto número da revista trimestral “Electra”, editada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos e António Guerreiro. Nove artigos desta “Electra” são sobre o tema do dinheiro - a sua relação com a guerra, com o poder, com a escrita, a arte, o luxo, os novos meios de pagamento, a dívida e até a loucura. Para além deste tema central, monetário, destaco um belíssimo artigo de Ulf Meyer sobre a Bauhaus, um portfolio de Edmund de Wald com imagens da sua exposição “Psalm” feita para a Bienal de Arte de Veneza deste ano. Neste portfolio, criado pelo autor expressamente para a “Electra”, fotografias da exposição surgem a par de um texto que percorre a memória, os livros, os objectos, os sentidos e os lugares. Um outro portfolio, deslumbrante, é o proposto por Álvaro Siza, “Paisagens de Papel”,  que através dos seus desenhos. regista um diário de uma viagem ao Peru. A figura entrevistada desta edição é o historiador A.J.P Taylor, autor de numerosos livros sobre a história contemporânea e que rapidamente se tornou numa estrela mediática graças ao sucesso das suas obras. Finalmente destaque ainda para a entrevista feita ao imunologista António Coutinho, director do Instituto Gulbenkian da Ciência, e sobretudo para a parte em que fala sobre as questões teóricas da filosofia da ciência e do processo científico e sobre uma política para a ciência. A terminar, um belo texto de João Pinharanda sobre uma exposição de Lourdes Castro em Paris.


 


A VER O RIO - Fundado em 1993 pelo hoteleiro Joaquim Machaz o Alfoz, em Alcochete, tem uma localização única, em cima do Tejo, frente à zona Oriental de Lisboa. Com duas salas rasgadas para o rio, o Alfoz tem uma tradição de servir peixe e marisco da melhor qualidade. Ao longo dos tempos tem tido altos e baixos e numa recente visita comprovei que está em grande forma. Comecemos pelo couvert, simples, com bom pão e boa broa, azeitonas honestas e uma pasta de atum caseira temperada a alcaparras que está muito acima do que sob esse nome se costuma encontrar por aí. Nas propostas de entradas destacam-se as cada vez mais raras pontellitas, pequeníssimas lulas fritas, bem estaladiças. No menu há pratos emblemáticos da casa como cataplana do mar, caldeirada de línguas de bacalhau com ovo escalfado ou caldeirada de enguias. A escolha da refeição recaíu numa massada de garoupa e em filetes de peixe galo com arroz do rio. A massada estava superior, com a massa de cotovelos ao ponto, tempero acertado, presença abundante de garoupa e de bons camarões. Os filetes de peixe galo tinham uma fritura exemplar e o arroz, caldoso q.b, estava farto de berbigão. Até a salada que veio a pedido estava boa. A terminar o teste final - como está o melão? - Muito bom, foi a resposta. E de facto estava acima da média. Em muitos locais louvam o melão sem merecimento - aqui foi um conselho acertado. Lista de vinhos sem grandes surpresas mas com boa variedade a preços razoáveis. Bom serviço. Boa comida, bem confeccionada. E uma grande vista, numa zona bem tranquila. Esperemos que não se estrague com os aviões no Montijo. Alfoz, Avenida D. Manuel I, Alcochete, telefone 212 340 668. Tem parque de estacionamento. 


 


DIXIT - “Greves,sim senhor- mas não quando o PS está aí beira de uma maioria absoluta e o país inteiro fica subitamente impedido de andar de pópó” - João Miguel Tavares 


 


BACK TO BASICS - “Todos os movimentos acabam por ir longe demais” - Bertrand Russell


 





agosto 09, 2019

Entre a nova Lei da Greve e a campanha com primos

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A GREVE - Aqui há uns anos atrás o PCP organizava greves do sector dos transportes com uma localização cirúrgica no tempo, por forma a provocar o maior desgaste possível no executivo em funções; uns anos mais tarde o PS, pela mão de Armando Vara, esteve ligado ao bloqueio da Ponte 25 de Abril, precipitando a queda do cavaquismo. Desta vez o PS está refém de uma ameaça de greve desencadeada por um sector pouco numeroso mas aguerrido - o dos condutores de transportes de  matérias perigosas, que asseguram a distribuição de combustível a postos de abastecimento, aeroportos e outras entidades e serviços. Com a dependência energética que se criou em relação aos combustíveis fósseis a interrupção do seu fornecimento depressa lança o caos nas principais infraestruturas, no transporte de mercadorias e no transporte privado, além de áreas sensíveis como os serviços e veículos de emergência. Acontece que esta greve, conduzida inicialmente por um sindicato de constituição recente, não filiado em nenhuma das centrais sindicais, organizado em torno de uma estratégia negocial jurídica inesperada e planeada, que deu maior protagonismo ao advogado que ao próprio sindicato, dificilmente podia ser assacada a uma força política de forma clara. Sabe-se agora que Pardal Henriques, o advogado em causa, poderá estar na lista do Partido Democrático Republicano, liderado por Marinho Pinto. O Governo, com a cobertura e até incentivo  do Presidente da República, decretou serviços mínimos muito acima do habitual. A situação criada vai trazer para a ribalta uma questão sensível - até que ponto o direito à greve pode ser restringido, até que ponto uma greve pode ter consequências que podem afectar de forma assinalável o dia a dia dos cidadãos e de actividades económicas como a distribuição alimentar? A resposta a esta questão não é fácil mas nas sociedades contemporâneas o desafio do equilíbrio entre direitos e deveres, entre responsabilidade e liberdade é cada vez maior. Nos próximos anos, neste e noutros sectores, situações como esta vão multiplicar-se e tenho as maiores dúvidas que o sistema político e partidário e as organizações sindicais estejam preparadas para lidar com o caso. A decisão sobre serviços mínimos agora tomada significa na prática uma alteração não legislada da Lei da Greve, feita pelo Governo, com o beneplácito do Presidente da República e a complacência das duas centrais sindicais. Já viram o que um sindicato não alinhado desencadeia?


 


SEMANADA - Segundo o presidente da secção regional Sul da Ordem do Médicos as maternidades da região de Lisboa e do Sul do país estão todas a funcionar a meio-gás e as grávidas andam a “saltar de hospital em hospital”;  a passagem das 40 para as 35 horas de trabalho semanais provocou um déficit de 1700 enfermeiros que não foi ainda resolvido nem com as contratações do ano passado nem deste ano, o que prejudica a assistência prestada nos hospitais do SNS; segundo a Marktest as marcas da indústria automóvel foram as que mais apostaram em publicidade durante o primeiro semestre de 2019; fontes oficiais admitem que a venda de combustível subiu 30% na última semana; Cristiano Ronaldo manteve-se a personalidade mais mencionada nos social media, com Cristina Ferreira na 2ª posição, de acordo com o serviço Social Media Explorer da MediaMonitor;  Manuel Salgado anunciou que vai deixar de ser vereador na Câmara Municipal de Lisboa e avisou que pretende continuar a ter uma palavra sobre as opções urbanísticas da cidade onde autorizou projetos polémicos; um recente relatório indica que o Governo e entidades públicas diversas não cumprem com as suas obrigações de prestar informações ao Parlamento; segundo os dados do mais recente Eurobarómetro os portugueses estão mais pessimistas com a economia; um organismo governamental pretendeu fazer um inquérito dirigido a meio milhão de funcionários públicos que, entre outras questões, queria avaliar se as medidas tomadas pelo actual Governo em relação à Função Pública são mais motivadoras que as medidas do Governo anterior.


 


ARCO DA VELHA - Em 2018 o Estado devia ter pago 18 milhões de indemnizações, nomeadamente por expropriações ou atrasos na Justiça, mas só pagou sete mil euros. 


 


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VER - Os cartazes de campanha eleitoral deviam sempre ser apelativos, inovadores, provocadores, alcançando uma comunicação eficaz e aumentando a notoriedade das forças políticas que os apresentam. No entanto não é isso que acontece nos últimos anos na generalidade dos casos onde o cinzentismo se tornou dominante na propaganda política. A excepção  é a série de cartazes da Iniciativa Liberal que já começou nas europeias e que agora na pré-campanha das legislativas voltou a criar mensagens que despertam a atenção. Numa resposta irónica à actual campanha do PS, em vez de "cumprimos", lê-se "com primos", em letras garrafais, acompanhado da frase  "e outros familiares no governo", em letras mais pequenas. Abaixo, são indicados três índices que suscitam, de acordo com o partido, as falhas do Governo de Costa. Em vez de "mais emprego" e "menos precariedade", a IL escreve "mais impostos" e "menos serviços públicos". Além disso, em contraponto à propaganda de  "mais 350 mil empregos" e "89% de contratos sem termo", a Iniciativa Liberal refere os "539.921 hectares de área ardida em 2017", a morte de "2600 doentes" em listas de espera em 2016 e os "6 mil milhões de impostos cobrados". Os cartazes da Iniciativa Liberal são da autoria do publicitário Manuel Soares de Oliveira. Quer neste quer em casos anteriores o grafismo é simples mas eficaz e o seu conteúdo chama a atenção. Estrategicamente colocados em pontos de grande movimento, eles são também utilizados nas redes sociais - por exemplo sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas a página de Facebook da Iniciativa Liberal publicou uma infografia que se resume a um camião autotanque cuja carga está dividida em blocos coloridos - enquanto os salários dos motoristas representam menos de 10% do preço final dos combustíveis, os impostos cobrados pelo Estado são superiores a 50%. Não é por acaso que uma das bandeiras da Iniciativa Liberal é mobilizar os cidadãos para combaterem a opressão fiscal do Estado.


 


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OUVIR - Querem ouvir uma coisa diferente dos tops actuais e das sonoridades que passam pela centena e meia de festivais que se realizam no Verão em Portugal? Aqui têm uma sugestão: Skrurk é o nome de um grupo coral norueguês, de 40 vozes, fundado em 1973 e que ao longo da sua existência já gravou mais de 25 álbuns, centrados na música folclórica da Noruega, em espirituais, world music e em clássicos do jazz. Tem colaborado com muitos músicos, nomeadamente com Tord Gustavsen, um pianista de jazz e compositor, também ele norueguês, que se tornou conhecido por um conjunto de discos lançados na primeira década deste século pela editora ECM. Agora, na mesma editora, foi publicado um disco co-assinado pelo grupo coral Skurk, por Tord Gustavsen e pelo baterista Rune Arnesen, sob o título “Taking Back In The Garden Of Eden”, que inclui 12 temas, todos compostos por Kirsti Dahl Johansen, com arranjos de Gustavsen e sob direcção musical do fundador dos Skurk, Per Oddvar Hildre. A gravação decorreu numa igreja em Oslo e o disco, de uma simplicidade e beleza raras, desenvolve-se num ambiente sonoro entre o misticismo e celebrações litúrgicas. Disponível no Spotify.


 


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FOLHEAR - A revista “Scenario”, editada seis vezes por ano  pelo Copenhagen Institute For Future Studies, apresenta-se como uma publicação dedicada a tendências contemporâneas, visões e especulações sobre o futuro, assim como ideias  que agitam os tempos correntes. Em Lisboa pode ser encontrada na Under The Cover (Rua Marquês Sá da Bandeira 88, junto à Gulbenkian)  e a mais recente edição inclui uma entrevista com Jared Diamond, um biólogo norte-americano, vencedor do Pulitzer,  autor de livros como “Colapso”, “O Terceiro Chimpanzé” ou “O Mundo Até Ontem”. O entrevistado aborda a presente situação mundial, recorda os últimos três séculos de História e as principais crises que afligem o planeta. Jared Diamond coloca no centro da sua análise as alterações climáticas e as pressões migratórias que, na sua opinião são as questões mais graves que se colocam no futuro à humanidade. Outros artigos interessantes são um ensaio sobre o que pode ser um futuro onde deixe de existir privacidade e também um outro ensaio sobre uma cidade que se desenvolve em torno de um aeroporto - um tema que devia ser particularmente caro aos lisboetas. A capa é dedicada a Lene Hald, uma investigadora que nos fala sobre  a epigenética - uma disciplina que nasce nos anos 70 e se desenvolve para estudar a forma como os genes de cada um podem ser influenciados. Finalmente vale a pena ler “Teenage Mutants”, um artigo onde se explora como evoluem as atitudes dos teenagers nestes tempos mais recentes.


 


PROVAR - Encontrar um local sossegado para jantar no Algarve nesta época do ano é uma tarefa quase impossível. Por puro acaso fui ter a um restaurante de um aldeamento turístico em Cabanas de Tavira- O aldeamento chama-se Quinta Velha, o restaurante chama-se DaBoca e a sua lista foi criada por Paulo Runa (que também dirige o Sabores da Ria na marginal de Cabanas). Embora não seja um grande apreciador de menus de degustação deixei-me tentar pela Mixórdia do Mar e fiquei bem agradado. A sua composição é variável conforme a oferta do mercado e no dia onde lá fui tive direito a navalheiras e ostras muito frescas, um brás de espargos, uma açorda de ovas de bacalhau com camarão e um belíssimo lombo de robalo acompanhado de um risotto de coentros e amêijoas.  A rematar uma torta de laranja genuína. A lista de vinhos é razoável mas o vinho da casa, D.Xisto, seleccionado pelo chef, é uma boa escolha - quer no branco, quer no tinto. E, acima de tudo, este é um local sossegado com uma esplanada sem carros nem multidões por perto. Telefone 281 381 078.


 


DIXIT - “A correção da injustiça não se faz com a criação de uma nova injustiça nem com a destruição de um valor, o da ciência e da cultura” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Não há expediente a que um homem não recorra para evitar o trabalho que dá pensar”- Thomas Edison.









agosto 02, 2019

BOLA DE CRISTAL POLÍTICA


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 O PRÓXIMO FUTURO - As sondagens que se vão conhecendo traçam uma perspectiva pós eleitoral em que a vitória do PS é certa, provavelmente sem maioria absoluta, mas com a possibilidade de bastar o apoio do Bloco de Esquerda para ter maioria parlamentar. Assim a grande questão que se coloca é saber se António Costa vai querer romper a actual aliança tripartida PS-PCP-Bloco , substituindo-a por um acordo exclusivo com o Bloco e eventualmente com o apoio do PAN, que tudo indica crescerá em votos, como aliás se prevê que possa acontecer com o BE. A menos que o efeito da greve dos camionistas e dos múltiplos casos que estão a castigar o executivo produzam um desgaste grande da imagem do PS, o resultado previsível aponta para uma continuação de António Costa como Primeiro-Ministro. A única questão em aberto é saber como se formará a maioria que irá sustentar o seu Governo no Parlamento. Colocar o PCP de lado significa abrir a torneira da contestação dos sindicatos da CGTP, mais ainda do que tem acontecido - mas significa também tomar medidas, por exemplo na  Educação, sem ter que aceitar o diktat de Mário Nogueira. Uma facção importante do PS, e que provavelmente será reforçada em futuro executivo, sente-se mais próxima do Bloco que do PC. A questão está em saber se Costa quer já dar palco à geração que lhe sucederá no PS, arriscando romper com os comunistas, que assim ficarão politicamente fragilizados, ainda por cima num cenário de queda eleitoral. O dia seguinte às eleições de Outubro promete ser interessante. Como será a nova carroceria da geringonça?




SEMANADA -  A produção das fábricas portuguesas caiu 5,8% em junho, face ao mesmo mês do ano passado, completando assim o oitavo mês consecutivo de descidas homólogas; em Portugal, 89% dos consumidores assume gostar de comprar e experimentar novas marcas e produtos e quase metade dos portugueses afirmam que agora é mais provável que experimentem novas marcas do que há 5 anos; em 2018 foram constituídas 43 613 empresas, o valor mais elevado desde 2014 e foram dissolvidas um total de 35 578 empresas, mais do dobro do registado no ano precedente; segundo o estudo TGI da Marktest 52.7% dos homens refere ter lido pelo menos um livro nos últimos 12 meses e entre as mulheres a percentagem sobe para 68.2%; o mesmo estudo mostra ainda que 53.8% dos portugueses referem ter adquirido pelo menos um livro nos últimos 12 meses; segundo o Eurostat 41,3% dos portugueses não conseguia, no ano passado, pagar uma semana de férias fora de casa por ano, pior do que a média da União Europeia que é 28,3%; este ano os hotéis para animais em Portugal estão com a lotação praticamente esgotada; segundo o Banco de Portugal o total do crédito concedido pelos bancos às famílias e às empresas aumentou 380 milhões de euros em junho face a maio, somando 192.916 milhões de euros; Manuel Salgado anunciou que deixará de ser vereador na Câmara de Lisboa e disse que pretende continuar a presidir à Sociedade de Reabilitação Urbana.




BOA NOTÍCIA - Desde 2015, ano em que foi iniciado o tratamento da hepatite C com antivirais de ação directa, já ficaram curados cerca de 14 mil doentes em Portugal e outros tantos estão a receber tratamento.


 


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 O LEÃO DE OURO ALENTEJANO - Visitar arquitectura vivida pode ser uma experiência fantástica. Visitar uma recuperação em ambiente rural, feita com o objectivo de tornar o local num alojamento de excelência, é ainda mais  aliciante. Já tinha lido bastante e ouvido muito sobre o trabalho do arquitecto Souto Moura na Herdade de São Lourenço do Barrocal, mas só agora pude visitá-lo e vivê-lo. Com este projecto Souto Moura ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitectura de Veneza e é extraordinária a forma como recuperou edifícios ancestrais, desde a adega ao celeiro, passando por alojamentos de trabalhadores rurais. Conseguiu um resultado onde a simplicidade se conjuga com a qualidade, algo que é muito difícil de atingir. No desenho de todo o ambiente, nos arranjos exteriores, nos materiais utilizados, nas zonas de lazer, nos espaços comuns, o resultado é acima do que se podia esperar. Não há coisas supérfluas nem descabidas. Tudo está na dose certa no lugar certo, a lembrar e a respeitar um tempo passado, mas a torná-lo possível e adequado ao presente sem ser excessivo um só momento. Claro que o trabalho de Ana Anahory e Joana Astolfi nos interiores ajuda à recuperação da História do lugar e tem um contributo decisivo para o conforto e intimidade do local. S.Lourenço do Barrocal foi pensado e desenvolvido ao longo de mais de uma década por José António Uva, que personifica a oitava geração familiar na propriedade. Não conheço em Portugal outro lugar assim, onde se respeita a tradição e se permite o futuro. É uma obra de arte, que bem merece o prémio que Souto Moura recebeu em Veneza.


 


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 ERA UMA VEZ- Enquanto o filme não estreia por cá aproveitei umas viagens maiores de carro para ouvir a banda sonora de “Once Upon A Time In Hollywoo”, a nova e polémica obra de Quentin Tarantino com Brad Pitt e Leonardo DiCaprio. Segundo Mary Ramos, que tem trabalhado com Tarantino em diversos filmes, o processo de seleção da música começa sempre numa sala onde o realizador tem a sua enorme colecção de discos, maioritariamente LPs em vinil, com tudo classificado por género, desde soul music a bandas sonoras. Segundo Mary Ramos diz Tarantino não queria que nenhuma da música da banda sonora fosse muito distante do ano em que a acção do filme decorre, 1969. Para Tarantino podiam usar-se algumas gravações de anos anteriores mas nada posterior a 1969 - e recusou várias ofertas de intérpretes, como Lana Del Rey, que se propunham gravar novas versões de temas que seriam usados. Deep Purple, Simon & Garfunkel, Neil Diamond, Paul Revere & the Raiders, the Bob Seger System e Vanilla Fudge são alguns dos nomes escolhidos pelo próprio Tarantino entre os 22 temas que fazem parte da banda sonora já disponível no Spotify. Além desses 22 temas há ainda nove anúncios publicitários radiofónicos da época em que o filme se passa. Além dos já citados intérpretes a banda sonora, editada digitalmente, em vinil e em CD, inclui nomes como Chad & Jeremy, Roy Head & the Traits, the Vintage Callers, Buchanan Brothers, the Box Tops, Mitch Ryder and the Detroit Wheels, Buffy Sainte-Marie, Los Bravos, Dee Clark, Robert Corff e Jose Feliciano, entre outros.


 


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MISTÉRIO - Vilborg Yrsa Sigurðardóttir é uma escritora islandesa de romances policiais e ficção infantil que escreve desde 1998. Engenheira de formação, vive em Reiquejavique e a sua actividade profissional é precisamente a direcção de uma das maiores empresas islandesas de engenharia. “Abismo”, agora editado em Portugal pela Quetzal,  é o segundo volume da série DNA, iniciada no ano passado com “O Legado”, que consagrou a dupla formada pelo detetive Huldar e a psicóloga infantil Freyja. O novo policial da islandesa Yrsa Sigurdardóttir, com tradução de José Vieira Lima, conta a história do aparecimento de uma cápsula do tempo, doze anos após a violação e o assassínio de uma rapariga em Hafnarfjördur. Dentro da cápsula são encontradas cartas escritas por crianças que, em idade escolar, imaginam como será a Islândia em 2016, e o que acontecerá nesse ano. Mas, no meio delas, é encontrada uma mensagem anónima, com uma lista de iniciais das pessoas que virão a ser assassinadas no mesmo ano. Só quando partes de corpos recentemente decepados começam a ser descobertas nos sítios mais insólitos é que surge a hipótese de que estas possam estar relacionadas com os nomes da lista e com um crime antigo a que se seguiu outro crime. A acção do livro começa em 2004, termina mais de uma década depois e a sua edição original é de 2015. Um policial daqueles  que não se consegue largar até à última página.




UM RESTAURANTE A EVITAR - Tsukiji , o grande mercado de peixes de Tóquio, não merecia ver o seu nome ser utilizado num restaurante que desmerece a sabedoria da arte de receber japonesa. E, no entanto, o seu responsável é Paulo Morais, que devia saber o que faz e como se faz. O restaurante Tsukiji, em Belém, é um acto falhado, um caso em que o guarda roupa é melhor que os cenários e ambos são melhores que a representação. Uma das coisas que mais me irrita num restaurante é um cliente com reserva chegar à hora aprazada e ser convidado a ir para o bar, na esperança de algum consumo, sendo claro que há várias mesas livres e prontas - e que é aliás para uma delas que o desditoso cliente é encaminhado quando se torna evidente que apenas quer jantar. A coisa agrava-se quando no final a conta é inopinadamente agravada em 20 euros por um engano que, quando detectado, claro que suscita as maiores desculpas. O restaurante novo de Paulo Morais joga pois na carteira dos clientes mais do que na oferta gastronómica - vulgar, sem nada de relevo, até nem no corte do sashimi se encontra uma boa surpresa. O serviço é desatento apesar do número de empregados ser elevado, o chefe de sala é distraído e ausente, os cortinados e o macramé do bar dão um toque de falhado pretensiosismo ao local. Adequado a turistas que não voltarão lá mais, desadequado a portugueses que procurem cozinha oriental e bom serviço e que queiram locais onde possam repetir uma boa experiência.




DIXIT - “A cidade está a transformar-se numa cidade apenas para ricos e turistas. A sua população está a ser expulsa a uma velocidade absolutamente incrível ”- Fernando Nunes da Silva, professor universitário e especialista em urbanismo, sobre a política da Câmara Municipal de Lisboa




BACK TO BASICS - “Sabemos dizer muitas mentiras semelhantes a verdades” -  disseram as musas a Hesíodo.