novembro 11, 2016

TAPAR O SOL COM A PENEIRA EM NOME DO MAL MENOR

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O NOVO MUNDO - Durante meses muita gente andou a tapar o sol com a peneira, a ver se as eleições americanas se safavam com um mal menor, uma espécie de bloco central entre os directórios dos partidos Democrata e Republicano, que apenas ofereciam mais do mesmo. Hillary, cujo prazo de validade na política americana, de acordo com os parâmetros de Washington já estava expirado, era a sua proposta comum. Acontece que ela foi percepcionada como uma candidata do sistema, das manhosices políticas instituídas, sem trazer nada de novo. Atrás dela estavam os democratas, mas também a elite republicana que se incomodava com o estilo de Trump. Ora estes bem pensantes são, como se viu, de uma arrogância insuportável aos olhos de uma parte importante da América. Já muito foi dito sobre o olhar distorcido e a imagem tendenciosa que os mídia passaram sobre as eleições e os candidatos. No fundo o resultado destas eleições americanas reafirmou que a característica mais importante de um político é a de ser autêntico, de sentir e acreditar no seu projecto de tal maneira que consiga transmitir essa energia aos seus apoiantes independentemente de tradições, elites e de manobras partidárias e de comunicação. Os derradeiros spots de publicidade dos dois candidatos antes do dia das eleições mostram uma Clinton conformista e um Donald confiante e desafiador. Ao longo dos 600 dias de campanha Trump perdeu apoiantes de peso na direcção dos Republicanos, mudou várias vezes a sua equipa operacional, ignorou conselhos do aparelho e foi em frente baseado no seu núcleo duro. E, assim,  acabou por dar aos Republicanos uma vitória inesperada em toda a linha - para além da sua presidência, também no Senado e na Câmara dos Representantes. Li algures, num blog americano,  uma frase que me ficou na memória destes dias: “já passámos por derrocadas económicas e guerras devastadoras - mas hoje em dia as pessoas levam nos seus bolsos aparelhos que são supercomputadores e que ajudam a mudar o que nos rodeia todos os dias e a influenciar quotidianamente as nossas vidas, e isso é algo de novo e que tem um impacto enorme na maneira como o mundo funciona”. A Web Summit, que aí está, no fundo, é sobre isto. E é neste novo mundo que tudo se passará.


 


SEMANADA -  O Ministério da Cultura vai nomear mais três vigilantes para o Museu Nacional de Arte Antiga onde há dias um visitante derrubou e partiu uma escultura do século XVII, do Arcanjo Miguel ; a estação do metropolitano de Arroios fechou devido ao elevado tráfego para a web summit: soube-se esta semana que o IPO do Porto despediu uma farmacêutica que estava em período experimental quando se apercebeu que estava grávida; o consumo actual de leite em Portugal é o mais baixo desde há 32 anos; no último ano emigraram 101 203 portugueses, 32301 dos quais com destino ao Reino Unido; um estudo da Universidade de Aveiro indica que 70% das farmácias dão prejuízo; estão á venda na internet licenças de taxis com valores que vão dos 100 aos 200 mil euros;o crédito à habitação voltou aos níveis de 2010; uma sondagem publicada esta semana para o Negócios e o Correio da Manhã indica que Rui Rio pode obter melhores resultados que Passos Coelho em todos os cenários de confronto com António Costa; o número de professores que se aposentaram este ano é o mais baixo desde 2004; o peso da economia paralela aumentou nos últimos dois anos e já ultrapassa os 25% do PIB.


 


ARCO DA VELHA - Em todo o mundo são tiradas cerca de 93 milhões de selfies por dia.


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FOLHEAR - Nesta semana em que meio mundo pensa como vai ser a América de Trump, proponho uma escritora norte-americana, politicamente incorrecta e vocacionada para contar episódios picantes com sentido de humor. Chama-se Therese ONeill (writerthereseoneill.com) e escreveu um delicioso livro sobre os bons costumes intitulado “Indecoroso - O Guia da Dama Vitoriana Para o Sexo, Casamento e Conduta”. Se o começar a ler desprevenido poderá pensar que é um texto escrito no século XIX nos tempos da rainha Vitória. A escritora vive no Oregon, um dos estados onde Hillary venceu, embora por reduzida margem. Therese ONeill escreve textos de humor e artigos sobre História para diversas publicações e este é o seu primeiro livro, publicado em Portugal em simultâneo com a edição norte-americana pela Guerra & Paz. Os títulos dos capítulos são todo um episódio: “Baldes para evacuação intestinal”, “A Arte traiçoeira de tomar banho”, “Fazer a corte”, “A noite de núpcias”, “Ser uma boa esposa”, “Orgasmos medicinais e outras ficções” e o “Vício secreto”, para citar só alguns. Ilustrado com desenhos que evocam a época vitoriana,  este “indecoroso” é uma lufada de ar fresco nos ventos que vêm da América.


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VER - Nos últimos 14 anos o fotógrafo português Rui Calçada Bastos viveu em Berlim e fez dessa cidade o centro das suas expedições pela Europa. Foi registando imagens, observações aparentemente banais, mas que exprimem as suas memórias e a sua visão pessoal dos locais por onde andou, efectuadas em Berlim, mas também em Lisboa, Budapeste, Paris, Estocolmo e Riga, cidades com que o autor confessa ter particulares motivos de afeição. Intitulada “Walking Distance” (na imagem) esta é a mais interessante mostra da nova série de exposições que ficou patente no MAAT, neste caso a partir desta semana e até 16 de Janeiro. Há também uma exposição que assinala os 50 anos de actividade de Eduardo Batarda, intitulada “Misquoteros - A Selection of T Shirts”, um pretexto para um jogo de palavras  que formam 646 frases espalhadas em 30 pinturas. A série completa-se com“Liquid Skin”, uma instalação montada a partir de excertos de filmes de Joaquim Sapinho e Apichtapong Weerasethakul.


Outras sugestões -  “Os Meus Álbuns de Família Um a Um” - que agrupa pela primeira vez os 36 álbuns que  Lourdes Castro fez, na Culturgest, até 8 de Janeiro. No Atelier Museu Julio Pomar o novo convidado é Julião Sarmento. Esta série de convidados cujas obras dialogam com as de Pomar foi iniciada por Rui Chafes e terá, a seguir, Pedro Cabrita Reis - Rua do Vale, até 29 de Janeiro.


Passando para o Porto destaque para a grande exposição de Amadeo Souza Cardoso no Museu Nacional Soares dos Reis que vem em Janeiro para Lisboa para o Museu do Chiado. E, por fim, também no Porto, na Galeria Fernando dos Santos, “Configurações” - pinturas recentes de Pedro Calapez, que inaugura este sábado e fica até 7 de Janeiro, na Rua Miguel Bombarda 526.


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OUVIR - Paolo Conte é um compositor e músico italiano que navega pelo jazz com influências de valsas, milongas e do charleston. O seu álbum mais recente, “Amazing Game - Instrumental Music” tem 23 temas feitos desde os anos 90 até agora, inicialmente destinados a bandas sonoras de peças de teatro, filmes, alguns trabalhos experimentais. A improvisação joga também um importante papel em algumas das faixas onde Paolo Conte comanda os seus músicos com o piano mas deixando-os soltos em momentos  de virtuosismo instrumental e evidente cumplicidade. A música de Paolo Conte é feita de uma hábil combinação de melodias e de ritmos, frequentemente evocando memórias de outras sonoridades. Conte nasceu em 1937, estudou direito, foi advogado e tornou-se conhecido como músico a partir da segunda metade dos anos 60 graças a versões de composições suas tornadas populares por nomes como Adriano Celentano que tornou “Azzuro” num êxito. Além de compositor e  músico, o trabalho e o talento de Paolo Conte em áreas como a poesia e a pintura têm sido distinguidos e é conhecida a sua proximidade a nomes como Hugo Pratt, com quem trabalhou em diversos projectos. O seu primeiro disco a solo data de 1974 e desde então editou 16  álbuns de originais e outros tantos de gravações ao vivo e compilações. Este “Amazing Game” é um exemplo da sua versatilidade musical e é um belíssimo guia para descobrir a sua obra em diversas fases. Edição Decca/ Universal, distribuída em Portugal.


 


PROVAR - Gosto de ovos verdes, mas há muito que não provava uns tão bons como as de uma pequena petisqueira situada em Campo de Ourique, chamada Chiringuito - Tapas Bar. O menu está cheio de boas ideias, inclui propostas bem tradicionais como peixinhos de horta, migas de tomate, tábuas de queijos e enchidos, uma variedade de ovos - desde mexidos com espargos ou farinheira, até ovos rotos , tortilha de batata e cebola e os tais ovos verdes que constituiram uma boa entrada. Depois veio rim frito com esparregado e bacalhau dourado à Brás, ambos muito satisfatórios. Fiquei com curiosidade pela coroa de tamboril e gambas e pela empada de perdiz e as costeletas de borrego panadas. O serviço é familiar e atento, um dos vinhos a copo é o Chaminé, que foi o escolhido. Ao longo da semana há propostas de pratos para cada dia, desde feijoada à transmontana até ensopado de borrego ou pataniscas. Ao Domingo há buffet de cozido e à segunda fecha para descanso.  Rua Correia Teles 31 B, telefone 211 314 432.


 


DIXIT -  “O que sei é que pessoas como eu, e provavelmente a maioria dos leitores do New York Times, de facto não perceberam o país em que vivem” - Paul Krugman, sobre a vitória de Trump.


 


GOSTO - Da plataforma GPS (Global Portuguese Scientists) que visa juntar os talentos portugueses espalhados pelo mundo em diversos centros de investigação e que até aqui não tinham qualquer ligação entre si


 


NÃO GOSTO - Da forma como a RTP se prestou a ser manobrada por um fugitivo procurado pelas autoridades, servindo-lhe de escudo e acedendo às suas exigências - coisa pouco consentânea com a noção de serviço público.


 


BACK TO BASICS - Qualquer americano que se disponha a candidatar-se a Presidente devia automaticamente, e por definição, ser impedido de o fazer - Gore Vidal


 


 


 


 


 

novembro 08, 2016

O MAL MENOR?

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O enredo do filme é fantástico: envolve polícias, políticos, milionários, actores, desportistas, cantores e jornalistas. A cena final está ainda por decidir e o desfecho cria enorme expectativa. De um lado uma mulher que anda na política desde meados dos anos 80 e que nessa área já fez de tudo um pouco - até Primeira Dama; do outro um homem de negócios que fez fortuna na construção, foi produtor e participante em programas de televisão e reality shows e organizador de concursos de misses. Ela suscita paixões no seu partido e na sociedade; ele provoca cisões no seu partido e ódio de muitos. É o enredo perfeito.


Voltemos à realidade: neste fim de semana Donald Trump criticou Hillary Clinton por esta ter o apoio de Jay Z, argumentando que o rapper utiliza linguagem imprópria nas suas canções. Vinda de quem vem - de um homem que usa por sistema uma linguagem excessiva - a acusação parece uma anedota, mas não é. Aconteceu mesmo e foi a reacção mais saliente de Donald Trump ao apoio que Hillary Clinton tem recebido de músicos, actores, escritores e que nos últimos dias se intensificou. Mesmo publicações que não costumam tomar posição em eleições, desta vez apareceram a apelar ao voto em Hillary Clinton - como a “Variety”, uma revista dedicada exclusivamente ao mundo do espectáculo e que nos seus 111 anos de vida nunca tinha tomado uma posição eleitoral. Também a Bíblia da moda, a revista Vogue, dirigida pela temida Anne Wintour, apelou ao voto em Hillary. Hollywood, a Quinta Avenida e Silicon Valley não só manifestaram opinião como doaram milhões de dólares para a campanha de Clinton. E até a circunspecta “The Economist” declarou apoio à candidata democrata.  A edição desta semana da revista “New York” tem um grande plano, a preto e branco, da cara de Trump, com uma barra encarnada por cima, onde aparece apenas uma palavra: Loser.


Mas será que todos estes apoios serão suficientes? Outra revista, “The New Yorker” fazia notar que um dos problemas maiores com que Hillary Clinton se defronta, sobretudo entre os eleitores mais novos, é o facto de ela representar o poder instituído. Hillary está na política desde meados dos anos 80, primeiro ao lado do seu marido, e , depois, desde o início deste século, por conta própria. Obama afirmou que esta longa carreira política, em muitas funções e situações, a tornava na candidata mais preparada de sempre. O problema, para muitos eleitores, é que ela surge como a representante da velha política , da intriga palaciana de Washington, e no seu passado, nessa sua longa carreira política, existem muitas posições controversas. Na realidade o seu passado é uma faca de dois gumes. Uma sondagem recente indica que um terço do segmento demográfico dos millennials ( que vai dos 18 aos 39 anos) irá votar num dos outros candidatos que não Clinton ou Trump - nomeadamente em Jill Stein, que concorre pelo Green Party. Uma outra sondagem, no mesmo segmento demográfico, indica que cerca de 70 por cento dos millennials rejeitam Trump. Na verdade tudo está ainda por decidir e a sucessão de posições e declarações oficiais do FBI, inéditas durante uma campanha eleitoral, veio ainda baralhar mais o estado das coisas. A campanha eleitoral dura há quase 600 dias e, como salientava a revista “Time”, citando uma eleitora, transformou-se num referendo entre o que as mulheres podem alcançar e aquilo que os homens querem esconder que fizeram. Para muitos dos eleitores que amanhã vão decidir sobre o futuro próximo do mundo, trata-se de escolher o mal menor. E o mal menor é sempre fraca política.


(Publicado na edição de 8 de Novembro do Negócios)


 


 


 

novembro 04, 2016

SERÃO OS ELEITORES UMA ESPÉCIE EM VIAS DE EXTINÇÃO?

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ELEIÇÕES - Daqui a pouco tempo realizam-se as presidenciais norte-americanas e cresce o debate sobre o peso da abstenção nos resultados eleitorais. Recentemente, em Portugal, essa questão colocou-se nas eleições regionais dos Açores, com a abstenção a rondar os 60%. E com o início do novo ciclo eleitoral, no próximo ano, com as autárquicas, crescem as dúvidas sobre a dimensão da abstenção, os seus efeitos e o que pode significar em termos de regime. Não resisto a citar um excerto de um texto de Manuel Villaverde Cabral, publicado esta semana no “Observador” e que retrata exactamente o que se passa. Com a devida vénia, aqui vai: “Nos Estados Unidos como em Portugal e, crescentemente, na maior parte dos países que têm a liberdade de votar, na enorme crise da representação política que reina entre nós, são os abstencionistas que fazem, por defeito, os resultados eleitorais. Assim como o actual presidente português, com a sua badalada vitória, acabou por ter os votos de menos de um quarto dos eleitores inscritos, o abstencionismo também é muito alto nos Estados Unidos, embora a comparência às eleições presidenciais («turn out»), seja mesmo assim, superior à nossa. O que não deixa de ser inquietante é que os destinos da humanidade estejam, sem exagero, nas mãos dos abstencionistas, tal como o estão os destinos dos portugueses, mas a verdade é que assim é!”. Este é o estado a que políticos e seus partidos conduziram a participação cívica: tudo se resume a pagar com impostos o desgoverno que praticam. A certa altura as pessoas cansam-se. Porque será que os eleitores são uma espécie em vias de exteinção e a quem interessa o seu extermínio?


 


SEMANADA - Os portugueses compraram em média nove mil telemóveis por dia no primeiro semestre deste ano - em 2010 a média era de 17 mil aparelhos por dia; 80% dos aparelhos vendidos este ano foram smartphones; os call centers  empregam cerca de cem mil trabalhadores; o consumo de cerveja caíu 25% nos últimos dez anos em Portugal; as praxes académicas já provocaram nove queixas, em seis estabelecimentos de ensino diferentes, nos dois primeiros meses do novo ano lectivo; um estudo da Marktest indica que o concelho do país com melhor indíce de qualidade de vida é Castelo de Vide; 40% das medidas previstas no Simplex foram executadas nos primeiros seis meses do programa; há 930 mil portugueses sem médico de família; a Educação teve mais dinheiro no Orçamento de 2012 do aquele que está previsto no orçamento de 2017; o turismo criou este ano 45 mil postos de trabalho; 25% dos mortos na estrada são vítimas de atropelamento e Portugal regista mais de cinco mil acidentes com peões por ano; Trump passou a liderar sondagens no Dia das Bruxas; os célebres novos lugares de estacionamento que a Câmara Municipal de Lisboa vai criar para moradores da cidade serão afinal pagos e terão um custo mensal de 30 euros;  foi revelado que a França fez um acordo secreto com a Comissão Europeia para não cumprir as metas do défice.


 


ARCO DA VELHA - Uma utilizadora de um autocarro no Porto, que numa travagem brusca foi projectada contra uma das portas do veículo, recebeu uma carta da empresa transportadora STCP a exigir o pagamento de 870 euros por danos causados ao veículo


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FOLHEAR - Como será daqui a uns anos organizar uma colectânea de escritos trocados entre duas personalidades? Será uma empreitada digital no correio electrónico? Existirão livros com as mensagens trocadas no whatsapp, no messenger do facebook ou no hangouts do gmail? O livro que aqui vos trago hoje não é nada disso: é uma recolha da correspondência escrita e trocada entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade durante 30 anos, entre 1949 e 1978. São cartas e postais, tudo transportado a troco de selos de correio. A organização deste livro, editado pela Guerra & Paz, coube a José da Cruz Santos, com o apoio de Mécia de Sena, de Isabel de Sena e de Jorge Fazenda Lourenço, um editor que trabalhou com os dois poetas que se correspondiam evidenciando uma profunda amizade. Manuel S. Fonseca, que dirige a editora, faz notar que “por estas cartas e postais passa Portugal”. E pormenoriza: ”As grandes batalhas literárias, os conflitos estéticos, o rumor pesado da Academia contra o qual Eugénio e Sena se batem, mas também a vida política, a falta de liberdade, a explosão dela no 25 de Abril, as esperanças e as frustrações que se lhe seguiram, que Eugénio, primeiro denuncia: “… a esquerda revolucionária já está a ser aproximada pelos bem pensantes do país, incluindo os comunistas, da mais sinistra reacção” e a que logo Sena responde “… revolução, que cada vez me parece mais um conluio de continuistas e de arranjistas, com alguns revolucionários parvos pelo meio, e muitos demagogos a agarrar os tachos com muita pressa…” de tudo isto há testemunho, vibrante, nestas cartas.”


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VER - Esta semana, apenas sugestões fotográficas. Começo pela colecção de retratos que o pintor, artista gráfico e fotógrafo Fernando Lemos fez de amigos seus - escritores, artistas, ensaístas e actores - entre 1949 e 1952. Fernando Lemos foi uma figura destacada entre os surrealistas portugueses e cerca de seis dezenas de retratos fotográficos são agora expostos no Museu Berardo, no CCB. Intitulada “Fernando Lemos: Para um Retrato Coletivo de Portugal, no fim dos Anos 40”, a mostra pode ser vista até 31 de Dezembro. Como sublinha o comissário da exposição, Pedro Lapa, mais do que retratos de pessoas, procura mostrar o retrato de uma geração - “são retratos da solidão colectiva”. Ali se podem ver os retrato de Sophia de Mello Breyner Andresen, Adolfo Casais Monteiro, Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva, Jacinto Ramos, António Dacosta, Jorge de Sena e Mécia de Sena, Cardoso Pires, Mário Cesariny, Glicínia Quartin, Manuela Seixas e um magnífico auto-retrato do próprio Fernando Lemos, que aqui se reproduz. Fernando Lemos, hoje com 90 anos, vive no Brasil desde 1953. Outra exposição a reter é “Reverso, o Mesmo e o Outro”, onde Mariano Piçarra juntou 34 fotografias inspiradas no pensamento do filósofo José Marinho - é aliás a segunda vez que o faz - a primeira foi em 1999 com “Grave” - na Biblioteca Nacional até 21 de Janeiro. No Espaço Novo Banco, Praça Marquês de Pombal 3, pode visitar selecções do acervo da excelente Coleção de Fotografia Contemporânea que foi criada pelo BES e que depois passou para o Novo Banco. Por último Valter Vinagre apresenta “Da Natureza das Coisas” a partir deste sábado e até 18 de Dezembro, na Travessa da Ermida, em Belém.


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OUVIR - Um dos mais importantes catálogos do jazz mundial, da editora Blue Note, relançou agora alguns dos seus álbuns históricos, gravados na década de 50 e 60, com um conjunto de caixas, cada uma incluindo cinco álbuns originais de um artista - o nome da colecção é “Blue Note - 5 Original Albuns”. Na caixa do saxofonista Dexter Gordon destaque para os álbuns “Doin’ Allright” e “Dexter Calling”, ambos gravados apenas em três dias, em Maio de 1961, com músicos como Freddie Hubbard, Horace Parlan e Paul Chambers, entre outros. Na caixa do saxofonista e compositor Wayne Shorter destaque para o seu primeiro disco registado para a Blue Note (ao todo gravou 11 para a etiqueta entre 1964 e 1970)  - falo de “Night Dreamer”, gravado em 1964 no estúdio de Rudy Van Gelder com Lee Morgan, McCoy Tyner, Reggie Workman e Elvin Jones. Destaque ainda para as caixas dedicadas ao guitarrista Kenny Burrell, ao saxofonista Joe Henderson e ao pianista e teclista Herbie Hancock, nomeadamente para os álbuns “Inventions & Dimensions” e “Speak Like a Child”. A terminar a caixa dedicada ao baterista Art Blakey e aos seus Jazz Messengers, nomeadamente para o disco “A Night In Tunisia”, que contou com a participação de Wayne Shorter. Trata-se uma uma invulgar colecção de gravações que juntam alguns dos mais destacados músicos e compositores de jazz dessa época, numa fase especialmente criativa. Os álbuns de toda a colecção reproduzem em formato CD as capas e conteúdo dos LP’s originais. Colecção disponível em Portugal, distribuída pela Universal Music.


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PROVAR -  Desta vez não venho falar de um restaurante, mas de uma invulgar colecção de selos postais - trata-se de uma emissão filatélica dos CTT sobre as indústrias conserveiras portuguesas. Esta emissão tem a particularidade de a série sobre conserveiras ser apresentada dentro de uma lata de conservas especialmente serigrafada e preparada para o efeito. A fábrica “Conservas Ramirez”, fundada em 1853 e que é a mais antiga instalação industrial conserveira em funcionamento em todo o mundo, foi a parceira dos CTT  nesta colecção que inclui seis selos com uma tiragem de 125.000 exemplares. Biqueirão, sardinha, cavala, atum, lula e enguia são as espécies incluídas na série, cujo design esteve a cargo de Fernando Pendão. Eu, que sou fã de conservas, fiquei deliciado com a ideia. E já agora nem compreendo porque é que em bons restaurantes portugueses não são apresentadas com maior frequência conservas como entrada ou base de um prato - como acontece com tanta frequência noutros países, a começar por Espanha.


 


DIXIT -  “Estão a pôr ciclovias no meio das passadeiras e não devia ser permitido” - José Miguel Trigoso, Presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa


 


GOSTO -  A Menos é Mais Arquitectos Associados e João Mendes Ribeiro estão na shortlist do prémio internacional do Royal Institute Of British Architects graças ao seu projecto do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, nos Açores.


 


NÃO GOSTO -  Da política de afastamentos e nomeações de compadrio que o Ministério da Cultura está a levar a cabo e que já ditou a saída de Miguel Leal Coelho da administração do CCB, e da coordenação do seu Centro de Espectáculos, que ergueu ao longo de duas décadas.


 


BACK TO BASICS - A tradição deve funcionar como guia, nunca pode ser encarada como uma limitação - W. Somerset Maugham


 


 


 


 


 

outubro 28, 2016

BRINCADEIRAS & TRAQUINICES

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BRINCADEIRAS - Nesta semana o menino A. Costa regressou ao jardim infantil e puxou para a roda de brincadeiras o menino M. Centeno. Juntos fizeram os outros meninos jogar às escondidas e à apanhada. No recreio de S.Bento uns meninos queriam mais histórias e contas, outros queriam esconder os cadernos e os livros; uns queriam mudar as regras dos jogos, outros queixavam-se de batota; uns queriam novos esconderijos, outros queriam espreitar em todo o lado onde íam antes. Os meninos Costa e Centeno sonegaram números, alteraram leis, esconderam factos e, no fim, disseram que eram os outros meninos que não sabiam brincar e lhes estavam a estragar o recreio. Quando o reitor do colégio, o Sr. Ferro, veio dizer que assim não valia, ficaram aborrecidos e até os companheiros de carteira, Catarina e Jerónimo apareceram a dizer que também queriam ver os segredos escondidos. Mesmo assim os meninos Costa e Centeno viraram-se para os da turma do lado, que diziam que assim não entravam na brincadeira, troçaram deles e queriam que não estivessem nos jogos do recreio.  Assim vai o Governo e o país - de brincadeira em brincadeira, de jogo em jogo, de ilusão em ilusão. Um dia destes começa o jogo da barra do lenço e vamos a ver quem ouve melhor e corre mais depressa. O menino Costa não tem ar de ser grande corredor.


 


SEMANADA - Um estudo europeu indica que mais de 30% das mulheres portuguesas têm sintomas depressivos, enquanto nos homens a percentagem é de 16%; depois de ter eliminado centenas de lugares de estacionamento com as obras que estão a decorrer, o candidato do PS à Câmara de Lisboa, Fernando Medina, promete que criará 7000 novos parqueamentos em 2017; as obras para a nova feira popular de Lisboa começam na próxima semana, anunciou o substituto de Costa na autarquia da capital; esta semana o substituto-candidato fez promessas dia sim-dia não; o poder local irá receber mais 2,9% de verbas em 2017, ano de eleições autárquicas; o PS não quer viabilizar uma marina de recreio em Setúbal proposta pela autarquia, do PCP; o PCP criticou o Bloco de Esquerda por este partido não acompanhar o Presidente da República na visita oficial a Cuba; o investimento aplicado em Ciência, em percentagem do PIB, desceu em 2015 pelo sexto ano consecutivo, segundo um relatório agora divulgado; o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com aeronaves não tem orçamento para assegurar a descodificação em França de uma caixa negra de um avião da TAP que teve um incidente ao aterrar e teve que pedir uma autorização especial; entre 2008 e 2015 os utilizadores de redes sociais em Portugal passaram de 17,1% para 54,8%; o Ministério da Saúde deve 25 milhões aos bombeiros, dívida relacionada com o transporte de doentes; a taxa de prevalência de infecções hospitalares em Portugal é quase o dobro da média dos países europeus; grande parte das ambulâncias do INEM têm dez anos, cada vez têm mais avarias e as reparações de que necessitam estão orçamentadas em  três milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA - Um homem de 83 anos foi detido na posse de um arsenal de armas, em Vila Franca de Xira, após se ter envolvido num incidente que envoolveu ofensas à integridade física de terceiros.


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FOLHEAR - Como representar um mundo que é tridimensional em duas dimensões? - é este desafio que David Hockney continua a perseguir. E enquanto o faz, sendo precursor na utilização do iPad como instrumento de produção artística, é co-autor, com Martin Gayford, de um livro fascinante sobre a imagem - “A History Of Pictures” - que pretende traçar o percurso desde os desenhos das cavernas pré-históricas até às ilustrações produzidas em computador. Uma imagem, diz Hockney, é a única forma que temos de dar conta daquilo que vemos e isso ajuda-nos a compreender o mundo em que estamos. Hockney, um dos mais importantes artistas plásticos vivos, juntou-se ao crítico de arte Martyn Grayford para explicar como as imagens foram uma presença e testemunho constante da vida humana ao longo dos milénios. O livro, extenso e, obviamente, cheio de ilustrações, mostra a evolução das imagens no tempo ao longo de séculos, mas também traça paralelos, mostra semelhanças, evoca diferenças e coincidências. As imagens, sejam desenhadas, pintadas, fotografadas ou digitalisadas, são o tema deste livro que de uma forma arrebatadora nos leva através da história da evolução da criatividade humana - colocando por exemplo a Mona Lisa ao lado de uma fotografia de Marlene Dietrich, imagens com mais de quatro séculos de diferença, mas que, talvez, tenham tanto em comum. Edição Thames & Hudson, na Amazon.


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VER - Nos últimos anos não tem sido muito frequente encontrar uma exposição de originais de Cristina Ataíde em Portugal - de tal maneira tem tido uma presença internacional, em países como Espanha, Brasil, Estados Unidos e, muito proximamente, Itália, em Roma. É curioso como este esforço internacional de artistas portugueses passa tantas vezes despercebido, quando comparado com outras internacionalizações made in Portugal. O trabalho e o esforço de artistas como Cristina Ataíde contribuem para criar uma imagem de Portugal fora dos estereótipos típicos habituais ou das meras passagens por feiras de arte. É um trabalho de cruzamento de influências, de diálogo de culturas, feito através de residências, instalações concebidas para determinados locais ou, simplesmente, o resultado de workshops. O Estado, que há anos não tem uma política de compras de obras de artistas contemporâneos, enquanto delapida dinheiros públicos em operações de cosmética e propaganda política, faz menos pelo prestígio criativo de Portugal que nomes como Cristina Ataíde ou Pedro Calapez, para citar apenas dois que frequentemente se cruzam fora das luzes das modas passageiras. De qualquer maneira o que interessa é que Cristina Ataíde apresenta um conjunto de obras de escultura e pintura na Galeria Belo-Galsterer que mostram uma coerência invulgar e um depurado sentido de utilização da forma e da côr. Até 7 de Janeiro, Rua Castilho 71, r/c esq.


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OUVIR - Otis Redding, músico, compositor, cantor e produtor, morreu prematuramente, em 1967, aos 26 anos num acidente de avião, a meio de uma digressão, na melhor fase da sua carreira. A sua canção mais conhecida, “(Sittin’ On) The Dock Of The Bay” foi o primeiro grande êxito póstumo da música popular norte-americana do pós guerra. Antes disso tornou-se notado em vários discos e sobretudo em “The Otis Redding Dictionary Of Soul - Complete & Unbelievable”, de 1966. Eram 12 temas históricos, de “Tennessee Waltz” a “Try A Little Tenderness”, passando por “Love Have Mercy”, “Sweet Lorene” ou “My Lover’s Prayer” e, claro uma pessoalíssima versão de “Day Tripper”, que tinha sido gravada pouco antes pelos Beatles, em 1965. “Try A Little Tenderness”, um original de Jimmy Campbell, Reg Connelly e Harry M. Woods, uma canção que já tinha sido gravado por Frank Sinatra e Bing Crosby, nunca tinha sido cantada da forma que a Otis a gravou para esse disco, acompanhado por Booker T and The MG’s, com Isaac Hayes na produção - uma equipa extraordinária. Há quem diga que é o seu melhor registo de sempre. “The Otis Redding Dictionary Of Soul - Complete & Unbelievable” foi agora reeditado, em duplo CD, com várias versões de bónus para além do alinhamento original, nas versões em mono e stereo. É um testemunha exemplar de um dos músicos que redefiniu o rhythm’n’blues e levou a música negra a audiências como nunca antes tinha tido. Edição Warner, disponível em Portugal.


 


PROVAR -  Situado em Oeiras, no edifício do recuperado Palácio do Egipto, bem no centro, junto à Igreja, ao mercado e aos Bombeiros está um restaurante que mistura culinárias de várias regiões do mundo. Originário de uma outra zona do concelho o restaurante mudou-se para ali depois das obras de recuperação daquele espaço. Do anterior local trouxe clientes e a equipa, que entretanto foi sofrendo algumas modificações. Chama-se Mensa, podia levar a alcunha de “casa do atum fresco” - que é o ingrediente que surge em grande parte das propostas do menu. Numa recente visita a entrada foi pimentos padron acompanhados de camarões em molho doce de chili. De seguida, atum  braseado com molho teryaki e um outro atum outro com coentros e manjericão, acompanhados por legumes cozinhados em wok. A sobremesa, por sugestão de um cliente habitual, foi ananás aos pedaços, temperado com basílico e moscatel de azeitão - uma mais que agradável surpresa. Nos pratos principais quem quiser pode experimentar o caril de galinha e camarão, ou então o lombo de vaca com sementes de sésamo. Tudo isto está disponível em doses e meias doses e o ideal é mesmo petiscar e dividir. A carta de vinhos tem boas propostas a preços honestos. O serviço é comandado e em boa parte executado pela proprietária, sempre atenta. Mensa - Rua Doutor Neves Elyseu - Centro Cultural Palácio do Egipto Loja 2, 91 205 40 77. Encerra ao Domingo.


 


DIXIT -  “Não apreciamos muito que se ponham à frente” - Jerónimo de Sousa, sobre o Bloco de Esquerda, numa entrevista à SIC


 


GOSTO - O Doc Lisboa, Festival Internacional de Cinema, está na sua 14ª edição e vai até dia 30 - programa e informações em www.doclisboa.org


 


NÃO GOSTO -  Para construir a sua Academia o Sporting de Braga começou obras sem licenciamento da Câmara Municipal e arrancou seis dezenas de sobreiros antes de chegar a respectiva autorização.


 


BACK TO BASICS - O Homem é um animal inteligente que muitas vezes se comporta como um imbecil - Albert Schweitzer


 

outubro 21, 2016

A DOCE ILUSÃO DAS PROMESSAS FALHADAS DOS ESPECIALISTAS

 


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SEMANADA - Há cerca de ano e meio um grupo de 12 economistas do PS, antes das eleições que possibilitaram que Costa tivesse o seu momento de poder, anunciavam que em 2017 o PIB ia crescer 3,1%, o investimento disparar 8,4%, as exportações acelerar 6,3% e o emprego 1,9%. Segundo o OE 2017, apresentado pelo Governo Costa,  a economia só vai crescer 1,2% este ano e 1,5% no próximo. Os mesmos economistas garantiam que o investimento seria o grande motor da economia e diziam que podia crescer 7,8% em 2016 e 8,4% em 2017; o OE 2017 diz que o investimento vai cair 0,7% este ano para crescer 3,1% no próximo. Os mesmos economistas previam que o consumo privado tornaria a procura interna mais relevante: os gastos das famílias iam acelerar 2% em 2016 e 2,9% em 2017;  o OE 2017 prevê que o consumo privado suba 2% este ano e desacelere para 1,5% no próximo. Podiam ser pequenos erros, podiam ser pequenos desvios; são um grande engano, são o exemplo acabado de demagogia empacotada com um carimbo de conhecimento, vazio como agora se vê.  Foi um engano usado em vésperas de eleições para sustentar um programa eleitoral feito de promessas que não se cumprem, como agora é cristalinamente claro para todos. Em vez destas promessas, Costa pôs-se a aumentar impostos - que tinha prometido reduzir. Criou novas taxas, não reduziu os que antes prometera diminuir. Aqui está mais um caso de uma revoltante diferença entre promessas eleitorais e realidades governamentais. O PS, com o apoio do Bloco e do PCP na política orçamental, não é melhor que os seus antecessores. Havia quem achasse o contrário.


 


VOTAR - 60 por cento dos Açorianos não quiseram participar nas recentes eleições da região autónoma. Seis em cada dez abdicaram de um direito que supostamente proporciona a escolha do caminho a seguir. É um número elevado e que tem  crescido em Portugal e na Europa. Para o ano teremos eleições autárquicas e a expectativa vai do regresso de alguns dinossauros locais até ao eclodir de mais candidaturas independentes. Vamos ver qual é o pano de fundo da participação dos eleitores. A verdade é que as pessoas andam fartas de votar para, depois, viverem resultados bem diferentes das promessas que políticos de todos os partidos lhes arengaram nas respectivas campanhas. No caso das autárquicas a coisa ainda se complica quando de repente, como aconteceu em Lisboa, houve quem votasse em António Costa para Presidente da Câmara e depois, quando este se lançou para o Governo, se visse com Fernando Medina pela frente a criar um autêntico terramoto. Tudo isto desprestigia o sentido dos votos e o efeito prático das eleições.  A abstenção só se combate se os políticos não mentirem e se cumprirem as promessas eleitorais - a história recente mostra que estas são duas impossibilidades em termos reais e o resultado é o descrédito do sistema. Para quê votar, se depois fazem tudo ao contrário? A culpa da abstenção não é dos eleitores nem o problema se resolve com lições e campanhas de sensibilização. Resolve se com mudanças profundas nos partidos, com essa coisa tão rara  que se chama honestidade, um bem escassíssimo na política.


 


ARCO DA VELHA - A falta de bilhetes no Metro de Lisboa não se deveu a nenhum bruxedo nem a nenhum azar, como um governante foi dizer ao Parlamento. Será verdade que se deve apenas ao singelo facto de o Metro não ter pago ao fornecedor desses bilhetes durante meses e meses a fio?


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FOLHEAR - A Guerra & Paz tem uma colecção chamada Livros Amarelos, com a capa da côr indicada, na sua versão canário. Acontece que esta semana, por causa da passagem de uns alemães amarelos em Alvalade, essa côr me aborrece um pouco. Mas tenho que reconhecer que esta colecção não só tem um grafismo irresistível como apresenta uma selecção de textos invulgares, e que hoje em dia são difíceis de encontrar. Uma das suas mais recentes edições agrupa o "Cântico dos Cânticos", de Salomão, com o “Manual de Civilidade Para Meninas” de Pierre-Félix Louys. Num texto incluído nesta edição Eugénia de Vasconcelos fala da tradução que fez do “Cãntico dos Cânticos” e explica como um texto bíblico escrito cinco séculos antes de Cristo, se mantém tão interessante - e de certa forma actual - nos dias de hoje. Num outro texto o editor, Manuel S. Fonseca, faz a ligação possível entre o poema ao amor que é o “Cântico dos Cânticos” e o manual de desabrida libertinagem e erotismo galopante escrito por Pierre-Félix Louis no final do século XIX e que ainda hoje nos consegue surpreender- o “Manual de Civilidade Para Meninas”.  De qualquer forma, como noutras edições desta colecção, a junção de textos tão diversos num mesmo livro funciona ao mesmo tempo como uma provocação e como uma revelação. E esse é um dos grandes prazeres que estes livros amarelos proporcionam.


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VER - Esta semana recomendo uma visita à Sociedade Nacional de Belas Artes, na Rua Barata Salgueiro 39. Nas suas belas salas estão duas exposições que se recomendam. A primeira é a que mostra algumas das obras da colecção de fotografia da firma de advocacia PLMJ e chama-se “Uma Extensão do Olhar- Art & Law”,  ficando patente até 4 de Novembro. Aqui se mostram trabalhos de  Alfredo Cunha, António Pedro Ferreira,  Jorge Molder ou Helena Almeida, entre outros, intercalando com advogados que descobriram a fotografia. cruzando  olhares treinados e primeiros passos no exercício de saber ver, no contexto de um concurso interno de fotografia, na Sociedade PLMJ. A segunda exposição começa na SNBA mas prolonga-se pela vizinhança. Cartazes do Cinema Português  é uma organização da Academia Portuguesa de Cinema, da Cinemateca Portuguesa e do Instituto do Cinema e Audiovisual e é a primeira grande mostra dedicada aos cartazes dos filmes  portugueses, ao longo de toda a sua História. Na SNBA está a maior parte do acervo, desde os anos 40 até à actualidade; na Cinemateca Portuguesa, mesmo em frente, está a parte dedicada ao cinema mudo e à filmografia de Manoel de Oliveira; e no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade, está a parte relativa à obra de José Fonseca e Costa. Exposição Cartazes do Cinema Português, patente até 30 de Novembro.


 


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OUVIR - Não sei bem onde hei-de colocar Wim Mertens - se como compositor, se como pianista, se como contra-tenor ou apenas como um tipo que esgotou a imaginação há umas décadas e ainda ninguém teve a coragem de lhe dizer, porque ele de todo não dá por isso. De qualquer maneira tem muitos fãs e para seu deleite vem cá tocar no Misty Fest em Novembro, no CCB. Tem um disco novo, chamado “What are we, locks, to do?”, a segunda parte de uma trilogia de canções sem chama cujo conteúdo infelizmente é de difícil compreensão. Mertens, um belga da região flamenga, tornou-se conhecido graças ao seu trabalho inicial com os Soft Veredict,  à sua colaboração com o realizador Peter Greenaway na banda sonora de “The Belly Of An Architect” e, sobretudo através das versões de um dos seus temas mais conhecidos, “Close Cover”, que foi um dos êxitos da compilação de dança Café Del Mar. Desde 1980 já editou mais de cinco dezenas de álbuns. Este “What are we, locks, to do?” já está disponível no mercado português, pela mão da Warner Music.


 


PROVAR -  A Mesa do Bairro tem sensivelmente um ano de vida e a sua cozinha é orientada por Luis Baena, Fica no edifício do antigo mercado do Arco do Cego, bem perto do Liceu D. Filipa de Lencastre. Toda a zona parece estar a sair de um bombardeamento, tal a confusão de ruas esventradas e sentidos de trânsito cortados e invertidos que agora por ali abundam, gentileza deste desgraçado edil lisboeta que nos calhou em rifa. A entrada do restaurante dá para uma garrafeira bem fornecida, com algumas escolhas dignas de nota e um extenso catálogo. O curioso é que quem subir ao restaurante pode escolher cá em baixo um dos vinhos e levá-lo para acompanhar a refeição, ao preço de venda na garrafeira (que é honesto), acrescido de uma taxa de rolha (taxa de serviço) perfeitamente razoável. A sala é ampla e luminosa e existe um terraço que acolhe uma esplanada abrigada. A lista é de clara inspiração portuguesa - com entradas que vão dos peixinhos da horta a belos croquetes de vitela, passando por uma raridade nos dias que correm - ovos verdes.  Nos peixes destaque para as pataniscas de bacalhau e para o polvo suado com batata doce e, nas carnes, destaque para os pastéis de massa tenra com arroz de grelos e um rabo de boi desfiado, enformado e assado no forno, acompanhado por genuíno puré de batata.  Quem queira tem bons bifes e as batatas fritas às rodelas finas são boas. Nos doces, destaque para o pastel de nata ou o arroz doce com gelado de canela. Nalguns casos nota-se que um  pouco mais de cuidado na cozinha seria bem vindo para evitar que alguns pratos fiquem acidentalmente condimentados a mais ou a menos e outros fiquem demasiado cozinhados. Mas o serviço é acolhedor, o local é simpático e a relação qualidade-preço é boa. Tem campo para melhorar e esperemos que sobreviva ao degredo das obras que o cercam. Mesa do Bairro, Rua Reis Gomes, Tel 961 459 220.


 


DIXIT -  “Não temos muito tempo até um novo ponto de ruptura. que, temo, terá consequências sobre o conjunto dos portugueses bem maiores que o episódio do início desta década” - António Nogueira Leite


 


GOSTO - Da Bienal de fotografia de Vila Franca de Xira, dedicada ao tema "Arquivo e Observação".


 


NÃO GOSTO -  Os 60% de abstenção nos Açores são um muito mau sinal para o que aí vem em matéria de eleições.


 


BACK TO BASICS - Jogar pelo seguro é desistir de jogar - Robert Altman

outubro 14, 2016

ISTO ANDA TUDO TAXADO

CRESCIMENTOS - Nisto dos impostos não há santos - há gaspares, há centenos, muda o nome mas os aumentos continuam sempre. E porque continuam? Porque, por melhores que sejam as intenções do LABX e de Maria Manuel Leitão Marques, o Estado age como um parasita voraz que se alimenta do que está à sua volta. Não se reforma porque nenhum dos partidos da bipolarização, PS e PSD, tem coragem para diminuir os custos de uma máquina mastodôntica, tão numerosa que os votos dos seus funcionários são decisivos para quem quiser alcançar o poder. Com gastos e mais gastos a solução é cobrar mais e mais, cobrar sempre mais impostos, taxas, inventar todas as formas possíveis para captar mais receitas. De um lado do parlamento tapa-se o olho esquerdo na altura de governar, do outro tapa-se o olho direito. Daqui resulta um pingue-pongue de anulação de medidas na altura da alternância de poder, modificações cujos custos são igualmente penosos. O mais dramático de tudo é que este estado de coisas conduz a que, para disfarçar as contas, o Estado vai atrasando pagamentos, deixa faltar material nos hospitais, pessoas na educação e reparações e manutenção nos transportes. Quem governa o Estado com base no aumento da despesa - como acontece actualmente - está a ser o coveiro das áreas onde o Estado efectivamente faz falta. Estamos naquele momento triste em que em vez de discutir como fazer crescer a economia se discute como fazer crescer os impostos. Quando a coisa chega a este ponto é muito mau sinal.


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SEMANADA - O número de portugueses que lêem notícias em meios online já ultrapassa os cinco milhões; segundo o Bareme Internet, da Marktest, 94% dos internautas nacionais já usa a Internet para aceder a serviços de informação, havendo 90% que o faz para ler notícias, 75% para ver vídeos online e 30% para consultar blogues; um estudo da Anacom revela que apenas 17,6% das residências portuguesas utilizam em exclusivo a TDT para ver televisão; entre o último Censo (2011) e 2015 as estimativas do INE  apontam para uma diminuição de 220 848 indivíduos em Portugal; actualmente, 14.1% da população tem menos de 15 anos, 10.7% tem entre 15 e 24 anos, 54.5% tem entre 25 e 64 anos e 20.7% tem 65 ou mais anos; este grupo de população mais idosa foi também aquele que viu o seu peso aumentar mais nos últimos anos, passando de 13.6% em 1991 para os 20.7% agora registados, um acréscimo de 798 mil indivíduos nesta faixa etária; o número de eleitores registados em Lisboa caíu 11,5% entre 2002 e 2015; o PCP chamou a atenção do Ministro da tutela sobre o caos nos transportes de Lisboa e criticou “a acelerada degradação das empresas de transportes”; para memória futura: Câmara de Lisboa espera “um aumento da eficiência e da qualidade” do serviço depois da municipalização da Carris; no Parlamento o Ministro do Ambiente, Matos Fernandes, que tutela os transportes, falando sobre a  falha recente de fornecimento de bilhetes em Lisboa, disse que foi um “azar”.


 


ARCO DA VELHA - Por mais que custe a crer o novo livro de José Sócrates tem por título  “O Dom Profano - Considerações sobre o Carisma”. Deverá ser publicado no fim do mês.


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FOLHEAR - A “Elsewhere” é uma pequena publicação, editada duas vezes por ano, a partir de Berlim, que se insere na linha das novas revistas de nicho, com enorme cuidado gráfico e que partem de ideias editoriais invulgares. “Elsewhere, A Journal Of Place”, assim se chama a revista, apresenta-se como uma publicação “dedicada à escrita e às artes visuais que explora a ideia do lugar em todas as suas formas, quer sejam cidades, bairros, aldeias, ilhas, as comunidades que lá existem, o mundo como o vemos ou as paisagens que imaginamos” . Seria abusivo dizer-se que a Elsewhere é uma publicação de viagens - e acho mais correcto apresentá-la como um lugar onde se revelam as sensações que as descobertas realizadas em viagem nos proporcionam. Cada número tem um tema central - neste, o quarto volume, o tema é a cartografia. E, depois, há ideias sobre Londres, Praga, e pequenos locais na Moldávia, Austrália, Hawai, Gales e na nossa Madeira. - no caso os faróis da Madeira, a começar pelo da Ponta do Pargo. As ilustrações são o prato forte da parte gráfica, mas em cada número existe também um portfolio fotográfico. Se quiserem saber mais visitem www.elsewhere-journal.com .


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VER - Noé Sendas não esconde a influência do surrealismo nas suas obras, na concepção das fotografias que encena e manipula e, posteriormente, na forma como as expõe, não apenas numa apresentação, mas numa instalação que quer dialogar com o espaço e as pessoas que forem ver os seus trabalhos. Este cuidado colocado na conceptualização da exposição (na imagem) é muito patente em “Significant Others”, que está na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos, à Estrada da Luz). O próprio autor, em entrevista recente, sublinhou que “esta exposição não é uma exposição de fotografia, mas sim um Set,  um carrocel, uma instalação de pequenas esculturas 3D” . Nestes trabalhos é impossível não notar as referências a Man Ray. Nascido na Bélgica, com ligações a Portugal, e a viver preponderantemente em Berlim, Noé Sendas fotografa recorrentemente a sua própria imaginação e a imagem que idealiza dos corpos. Outras sugestões: no Museu Gulbenkian a exposição “Luanda, Los Angeles, Lisboa”, de um dos mais importantes artistas angolanos, e que tem um belíssimo catálogo; e na Chiado 8 mais uma apresentação de trabalhos da Colecção Cachola, desta vez obras de Rui Chafes e Carla Filipe.


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OUVIR - O mais recente trabalho de Rodrigo Leão é feito em parceria com o australiano Scott Matthew, chama-se “Life Is Long” e o resultado é muito bom. Matthew, que reside nos Estados Unidos, tem uma carreira começada em 2001, passou por várias bandas e em 2008 começou uma carreira a solo. As 13 canções do disco resultam de uma colaboração entre Rodrigo Leão, que compôs e tocou, e Scott Matthew, que escreveu as letras, desenhou as melodias e cantou. Os dois já tinham feito trabalhos em conjunto desde 2011, duas canções, e a voz grave, serena e melancólica de Scott Matthew parece feita como uma luva para as composições de Rodrigo Leão - o single “That’s Life” é uma boa prova disso mesmo. Rezam as lendas que era Scott ainda adolescente na sua Austrália quando lhe chegou às mãos uma cassette com o tema “O Pastor”, do álbum Existir, dos Madredeus, editado em 1992, e no qual participava ainda Rodrigo Leão. A canção ficou-lhe no ouvido embora não entendesse uma palavra. Muitos anos mais tarde, em 2006, Rodrigo Leão descobriu Matthew nas cinco canções que ele fez para a banda sonora do filme Shortbus, de John  Cameron Mitchell. Uns tempos mais tarde Rodrigo Leão enviou um mail a Matthew propondo-lhe uma colaboração e foi nessa altura que o australiano soube que “O Pastor” tinha tido a mão de Rodrigo Leão. Para encurtar - os dois entenderam-se bem e esta é a terceira vez que colaboram - só que agora é num álbum inteiro, projecto de que andaram a falar uns anos. Aqui estão 13 canções pop, com arranjos orquestrais, a maioria com uma sonoridade marcante e envolvente. Leão e Matthew em breve iniciarão uma digressão em Portugal e Espanha e, no próximo ano, em vários países europeus. Life Is Long, CD Universal/Uguru.


 


PROVAR -  Baseado em muitos conselhos fui conhecer um restaurante italiano lisboeta que entrou nas bocas do mundo neste Verão. Trata-se de L’Artusi, que se reivindica de uma nobre tradição culinária baseada nas 790 receitas compiladas por Pellegrino Artusi em “A Ciência na Cozinha e A Arte de Comer Bem”, publicado no final do século XIX. Ouvi dizer que a casa seguia e honrava o receituário, e lá fui.  Foi num sábado ao almoço, a esplanada quase vazia e, lá dentro, ninguém. Face à ausência de clientes há que reconhecer que o serviço foi impecável de simpatia e disponibilidade. Depois de aperitivar um branco, obviamente italiano, em muito bom estado, seguiu-se a incursão numa das pastas da casa, tidas como um ex-libris - pastas frescas cozinhadas na hora. Escolhi maltagliati com molho rústico, já que infelizmente nesse dia não havia o de anchovas. A massa estava cozida demais e uma pequena parte mostrava sinais de ter ficado agarrada ao tacho na cozedura; o molho estava insípido e nem o pesto que se poderia adicionar salvava o assunto. A salvação, que existiu, veio do vinho, recomendado pelo italiano que governava as operações, um tinto “Piccini”. Para sobremesa um gelado de amaretto, que estava bem. A rematar a casa ofereceu um licor digestivo caseiro, feito na tradição italiana. Resumo - serviço cinco estrelas, cozinha três estrelas, bebidas quatro estrelas. Rua do Mercatudo 4, a Santos, telefone 21 396 9368.


 


DIXIT -   ”Da mesma forma que muitos esquecem que as escolas servem para ensinar alunos e não para empregar professores, no caso dos táxis muitos esquecem-se que eles existem para transportar clientes e não para empregar taxistas” - João Miguel Tavares


 


BOB DYLAN E O NOBEL DE LITERATURA - Agora há-de vir aí muita teoria. Mas uma coisa é certa: desde os anos 60 para cá a poesia vive sobretudo na música popular, assim como o retrato escrito dos tempos que correm e das tensões que atravessam as sociedades.


 


GOSTO - Já começou a época das romãs e dos dióspiros.


 


NÃO GOSTO -  Já começou a época de novos impostos.


 


BACK TO BASICS - A força de um guerreiro não se encontra no ataque, mas sim na resistência - Guilherme Vanin

outubro 07, 2016

O dinheiro não dá para tudo

ESPINHOS - Aqui há uns anos contaram-me uma história extraordinária, e real, de um homem com múltiplas actividades, com ostensivo sucesso, mas que tinha uma pequena particularidade: ficava a dever a muita gente que estava no rol dos seus fornecedores. Interrogado por um destes fornecedores sobre o contraste entre o fulgor que ostentava e as dívidas que deixava, o devedor saíu-se com esta: “Que quer o meu amigo? O dinheiro não dá para tudo”. Tenho pensado muito nesta história ao longo dos últimos tempos, cada vez que vejo a despesa a acumular-se e os custos a irem sempre parar ao mesmo sítio, que são os contribuintes. Quando passo por obras em estradas pouco movimentadas onde se fazem grandes rotundas e até lugares de estacionamento onde não há razão para parar, apenas me ocorre que o dinheiro, e muito será certamente, que anda a ser gasto pelos país fora em todas estas obras, há-de ser o mesmo que falta para acabar intervenções em escolas, para melhorar o serviço nacional de saúde, para poder proporcionar melhor assistência social a quem dela precisa. Mas em vez de fazer isto o Estado distribui a rôdos conforme as conveniências políticas, para depois ir aumentando taxas e taxinhas. O orçamento que aí vem, com os episódios dos impostos sobre imobiliário, sobre doces e sobre panados, apenas acontece porque o Estado é incapaz de se reformar e quem nele mais ordena tem um único pensamento: há sempre um sítio onde ir buscar mais dinheiro - aos bolsos de quem tem o azar de respirar. O Estado não é uma estrada bem pavimentada,  é um caminho cheio de espinhos.


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SEMANADA - A dívida pública portuguesa aumentou 2,5 mil milhões de euros em Agosto, relativamente ao final de Julho, para 243,3 mil milhões de euros; neste ano lectivo, mais de metade dos professores do 7º ao 12º ano, tem horário reduzido; há 15 mil professores sem colocação; no primeiro ano do Governo de aliança à esquerda o PIB quebrou o ritmo de crescimento anterior; a procura interna também caíu; e as receitas fiscais também se reduziram; este ano os acidentes de trabalho já mataram 102 pessoas;  o Primeiro Ministro considerou que seria uma grande perda para o país afastar do Governo os secretários de Estado que aceitaram ofertas da GALP e que estavam envolvidos em contenciosos com a empresa; as vendas de automóveis subiram 11,9% em Setembro; o preço das casas em Portugal teve um aumento de 5,9% no terceiro trimestre deste ano; de 2003 até hoje foram criadas três dezenas de taxas e taxinhas, todas indirectas; PSD, PS e PCP votaram juntos para manter a isenção de IMI aos partidos políticos; os dirigentes dos sindicatos dos trabalhadores dos impostos passaram a querer ditar a política fiscal; um recente estudo da OCDE vem mostrar que os portugueses são os mais insatisfeitos com a vida, no conjunto dos 35 países da organização e os mais satisfeitos são os suíços; segundo o mesmo estudo, em 2014, mais de dois terços (35%) dos portugueses entre os 25 e os 34 anos não tinham o 12.º ano completo; as reclamações contra hospitais e centros de saúde subiram 63% no primeiro semestre deste ano, em comparação com igual período do ano anterior; apesar de a área ardida este ano ter mais que duplicado em relação a 2015, o comandante nacional da Protecção Civil disse que “nada falhou” no combate aos incêndios neste Verão.


 


ARCO DA VELHA - Dezenas de organismos públicos da administração central e local deram a diversas Fundações apoios de 142,8 milhões de euros à margem da lei, segundo dados da Inspecção Geral de Finanças.


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FOLHEAR - Livros de memórias são sempre coisas delicadas. Quando se trata de livros de memórias de um ex-espião pior ainda; e quando esse ex-espião fez vida a escrever histórias de espionagem, a coisa fica ainda mais complicada. “The Pigeon Tunnel” é o livro escrito por John le Carré para contar como foi a sua vida em torno da personagem que criou. David Cornwell, é este o verdadeiro nome do escritor, foi recrutado para os serviços secretos britânicos em 1956, tinha então 25 anos; deixou o serviço em meados dos anos 60 e começou a escrever - e as histórias à volta dos seus livros e da sua escrita são o tema do livro. Subtitulado “The Stories Of My Life”, “The Pigeon Tunnel” é a versão do próprio John le Carré sobre a sua biografia que foi publicada há cerca de um ano por Adam Sisman. Alguns dos episódios repetem-se e há pequenas discrepâncias nas versões - como acontece no relato do encontro do escritor com Arafat. O The Guardian, que comparou a biografia de Sisman com o livro autobiográfico de le Carré, indica que nesta última versão há mais conteúdo pessoal e emocional, nomeadamente no que diz respeito à influência que o pai teve no jovem David Cornwell. Para todos os efeitos “The Pigeon Tunnel” é uma história muitíssimo bem contada e escrita sobre o que leva um jovem inglês educado em Eton a tornar-se no maior autor de livros de espionagem que acompanham a evolução da história da segunda metade do século XX. Existe tradução em português, mas preferi o original, na Amazon.


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VER -  Os velhos do Restelo encontraram a partir desta semana um novo local de peregrinação e maldicência: o edifício do maat (museu de arte, arquitectura e tecnologia), que fica à beira rio, ao lado do edifício industrial do Museu da Electricidade, antiga Central Tejo, uma instalação termoeléctrica que abasteceu a região de Lisboa de electricidade e que foi construída, com várias ampliações, ao longo da primeira metade do século XX, entre 1908 e 1951. O novo edifício do maat, projectado pela arquitecta inglesa Amanda Levete, foi construído numa área adjacente ao Museu da Electricidade, que anteriormente tinha equipamentos de apoio ao equipamento industrial sem relevância de qualquer espécie e que de certa forma era um terreno baldio. Tudo isto foi criado graças à EDP e à sua Fundação, num caso exemplar de boa intervenção de uma empresa privada na sociedade em que está inserida. Os velhos do Restelo não vão gostar do que ali se passa: o novo edifício do maat é magnífico e tem tudo para rapidamente se tornar num dos emblemas de Lisboa. A sua integração com o edifício industrial da Central Tejo e sua ligação ao rio são exemplares. O projecto de Amanda Levete de facto transformou aquela zona - de um local ermo ao lado do Museu da Electricidade, para um espaço singular que se integra na paisagem ribeirinha. Este é um daqueles casos em que uma obra arquitectónica se vai transformar num pólo de atracção de visitantes nacionais e estrangeiros. Lisboa ficou mais rica e as futuras actividades do maat, que entrarão em velocidade de cruzeiro em Março, estão apostadas em colocar Lisboa no mapa da arte contemporânea. Até lá podem consultar o programa de actividades que já é visitável em www.maat.pt


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OUVIR - Madeleine Peyroux é talvez a cantora de jazz que mais acentuadamente me transporta à atmosfera dos clubes, canções da noite, arranjos simples e eficazes, uma forma de cantar que revela vício e prazer em simultâneo. É provocante a forma como Peyroux canta e eu gosto disso. O seu mais recente disco, “Secular Hyms” é precisamente um exemplo de simplicidade, a começar pela gravação: tudo aconteceu num único dia na igreja de St. Mary, em Great Milton, uma pequena aldeia no Oxfordshire, na Inglaterra. É um edifício construído há vários séculos, emd pedra e madeira, cuja acústica ajudou a criar a sonoridade envolvente deste trabalho de Madeleine Peyroux, alicerçado num trio composto por ela própria, pelo guitarrista Jon Herington e pelo baixista Barak Mori. Trata-se da prova provada de que meios escassos e ideias simples produzem grandes resultados. Os dez temas são de autores como Tom Waits, Linton Kwesi Johnson, Stephen Foster, Townes Van Zandt ou Allen Toussaint, entre outros. Aqui estão dez grandes versões em “Secular Hymns”, CD Impulse/Universal, já disponível no mercado português.


 


PROVAR -  Volta e meia apetece encomendar uma pizza, mas depois vem à memória aquela massa grossa, amolecida, a escorrer queijo de duvidosa qualidade. E é nesse momento que dou graças por ter descoberto a Madpizza - que as faz fininhas, estaladiças, de massa integral e com uma série de variedades que podem ser exclusivamente vegetais, com carne ou peixe. Nas vegetais destaco a Natural (sem queijo) e a Basilic; nas de carne a Divine com pinhões, peito de frango, queijo brie e agrião; nas de peixe temos a Açores (com atum e manjericão), a Tóquio (com salmão fumado) ou a Anchoveta, cujo nome explica tudo. As pizzas estão disponíveis na versão para uma ou para duas pessoas e o destaque vai mesmo para a qualidade da massa, levíssima. Já com várias lojas em Lisboa, a Madpizza abriu recentemente o seu primeiro estabelecimento fora de centros comerciais nas Avenidas Novas, na Rua António Enes 1. Mais informações na página do Facebook da Madpizza. Tem serviço de entrega em casa.


 


DIXIT - “Há países com uma esquerda Robin Hood: tiram aos mais ricos para dar aos mais pobres. Por cá calhou a esquerda Xerife de Nottingham: tira às famílias e às empresas para dar às clientelas da geringonça” - Maria João Marques.


 


GOSTO - No 5 de Outubro Marcelo Rebelo de Sousa falou sete minutos para salientar que os portugueses estão cansados de casos com políticos, a quem recomendou que sejam frugais e humildes.


 


NÃO GOSTO -  15% dos jovens portugueses não estudam nem trabalham.



BACK TO BASICS - Em política, o absurdo não é um defeito - Napoleão Bonaparte

setembro 30, 2016

PONTOS CHAVE PARA FAZER UMA CIDADE DE SUCESSO

A CIDADE - Daqui a pouco tempo Lisboa vai ser invadida pelos participantes na Web Summit e ainda bem que assim é. Mas, como se trata de um evento que envolve alguns dos mais importantes nomes das novas tecnologias, podia ser importante que Lisboa se mostrasse como uma cidade capaz não só de atrair mas também de reter talentos e indústrias criativas: que fosse agradável para viver, trabalhar, criar família, educar os filhos, em vez de ser apenas um bom destino para copos e fins de semana. Claro que o Estado- geringonça também não ajuda a atrair ninguém, com as ameaças de perseguição a quem queira ganhar acima da média nacional - o que abrange praticamente toda a gente envolvida no evento. Recordo que as obras prometidas em escolas públicas da cidade estão muito atrasadas e com pouco investimento, em contraste com os bombardeamentos nas ruas. Karin Wanngard, a Mayor de Estocolmo, escreveu recentemente para a “Monocle” um ensaio intitulado “Pontos-chave para fazer uma cidade de sucesso”. Destaca o apoio à construção na malha urbana de mais casas para residentes, o investimento em infraestruturas e transportes públicos, o investimento em novas tecnologias, o investimento em infantários, escolas e educação, políticas de estímulo à atracção de empresas, fomentar o trabalho em rede entre instituições locais, ajudar a criar equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e apoiar a diversidade cultural. Karin Wanngard sublinha que, quando as cidades funcionam em termos de atracção de talentos, funcionam em termos de atracção de negócios, e está garantido que terão sólidas instituições. É disto que Lisboa precisa.


 


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SEMANADA - Os pagamentos em atraso das entidades públicas atingiram 1.157 milhões até Agosto, mais 60 milhões que em igual período do ano passado;  a dívida em atraso dos hospitais disparou para 713 milhões de euros, o valor mais alto desde Novembro de 2014; segundo o Banco de Portugal  os empréstimos concedidos ao conjunto das empresas continuam a diminuir; Portugal perdeu oito lugares no ranking da competitividade do World Economic Forum e desceu agora para a 46ª posição num total de 138 países analisados; impostos e burocracia voltam a ser os fatores mais apontados para limitar a competitividade da economia; a preocupação com a instabilidade política é a que mais sobe e passa a ocupar o terceiro lugar; Berlim, Paris e Londres são as únicas cidades europeias onde a procura por alojamento na plataforma Airbnb supera a da cidade de Lisboa; o sector do turismo é responsável por 17% das exportações e criou 40 mil postos de trabalho este ano; a Câmara Municipal de Lisboa admitiu que não concluirá o programa de recuperação de escolas no prazo previsto e prometido por Medina; os incómodos provocados pelas obras nas ruas de Lisboa são tantos que, ao apresentar uma nova obra no vale de Alcântara, o vereador José Sá Fernandes fez questão de repetir que esta é uma intervenção que “não vai incomodar ninguém” e não existirão constrangimentos ou problemas com a circulação automóvel.


 


ARCO DA VELHA - Um investigador da Faculdade De Motricidade Humana de Lisboa chamou a atenção para o facto de estar a aumentar o sedentarismo infantil e disse ser “inacreditável que hoje se passeiem mais os cães que as crianças”.


 


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FOLHEAR - A mais recente edição da colecção de clássicos da Guerra & Paz é uma das mais marcantes obras do escritor brasileiro Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O livro é narrado pelo próprio Brás Cubas, entretanto falecido vítima de pneumonia - o defunto, depois de morto, propõe-se escrever a sua autobiografia, relatando o seu próprio funeral, a doença que o levou à campa e, claro a sua atribulada vida - desde a infância de menino rico no Rio de Janeiro à paixão adolescente por uma prostituta, que leva a família a enviá-lo para Coimbra onde, ao fim de vários anos, muitas aventuras e vida de boémio, acaba por alcançar o canudo. Regressado ao Brasil é encaminhado pelo pai para a política, onde descobre os prazeres de levar ao adultério a mulher de um rival. Torna-se deputado, é incentivador de imprensa oposicionista e acaba, no fim da vida, por criar um emplastro milagreiro que promete curar todas as maleitas - mas que não o curou a ele. É impossível não achar este livro, inicialmente publicado em folhetim em 1880, com muitos paralelos com os tempos actuais e os políticos igualmente charlatões que os habitam.


 


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VER - A pintora Maria Beatriz vive na Holanda desde 1970, depois de ter estudado em Lisboa, Paris e Londres. Em Lisboa começou por estudar biologia e depois começou a estudar pintura. Nascida em 1940, foi para Londres em 1962 para continuar os estudos, regressou a Lisboa em 1963 para estudar gravura e em 1965 ganhou o 1º prémio de pintura da Sociedade Nacional de Belas Artes. Com uma bolsa da Gulbenkian foi para Paris em 1966 e, em 1970, foi viver para a Holanda onde continuou a estudar, a ensinar e trabalhou como impressora em obras de artistas como David Hockney. Acredita que o desenho é a base da pintura e gosta de dizer que o que faz é “pôr asas nos desejos, inventar criar”. A importância que dá ao desenho é bem patente nas duas exposições que agora tem em Portugal: uma, “Calendário”, na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C), até 14 de Janeiro, está focada em desenhos e colagens a lápis de cor e tinta acrílica sobre papel e em painéis de azulejos, um dos materiais que lhe é caro e que é, aliás, a especialização da Ratton; a outra está na Casa da Cerca, em Almada, um espaço belíssimo onde Maria Beatriz expõe seis dezenas de obras de desenho, gravura azulejaria e trabalhos sobre veludo feitos entre 1960-2013,  que agrupou sob o título “Trabalhos de Casa” - fica até 29 de Janeiro. As peças maiores feitas sobre veludo chegam a demorar mês e meio a concluir, confessa Maria Beatriz, enquanto percorre a magnífica sala da Casa da Cerca onde está o núcleo principal da exposição (na foto). São trabalhos marcantes, fortes, observações que a artista faz do que a rodeia, uma espécie de apontamentos sobre o que ela vê e sente nas pessoas à sua volta.


 


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OUVIR - Não é muito vulgar um músico lançar dois discos, de géneros diferentes, e estruturalmente diversos, na mesma data. Mas foi isso que o português Bruno Pernadas fez há poucos dias. Em simultâneo editou “Those Who Throw Objects at Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them” e “Worst Summer Ever”. Para simplificar, o primeiro é apresentado como um disco pop e o segundo como um disco de jazz. Bruno Pernada, que gosta de dar nomes intricados e divertidos aos seus discos, é um músico invulgar, dos mais interessantes que têm surgido nos últimos anos. Tem 34 anos, estudou guitarra clássica em adolescente e, depois, jazz na escola do Hot Clube. Posteriormente estudou técnica de análise e composição musical. Para além dos seus trabalhos a solo ou como músico convidado é também responsável por várias bandas sonoras de filmes, entre os quais “A Toca do Lobo”, de Catarina Mourão. Além do seu trabalho como compositor e músico, Bruno Pernadas dá aulas de guitarra e teoria musical em diversas escolas. Instrumentista polifacetado, é também um compositor que se tem revelado capaz de adequar a criatividade a diversos géneros e estes dois discos, tão diferentes, são prova disso. A minha preferência vai para “Those Who Throw Objects at Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them”, cuja capa aqui se reproduz, mas “Worst Summer Ever” foge a estereotipos do jazz, evita receitas fáceis e abre pistas, a partir de um sexteto tradicional. Os dois álbuns estão disponíveis em CD e no Spotify. A splendid time is guaranteed for all, como dizia o outro.


 


PROVAR -  Se em Portugal se inventaram as sanduíches de cozido, porque não aceitar um éclair de salada Caesar? Pois é exactamente isso que pode ser provado no L’Éclair, na Avenida Duque de Ávila 44, em Lisboa, entre a 5 de Outubro e a Avenida da República. Rematei a leve refeição com um éclair de limão e um café expresso anunciado como biológico - reconheço que foi um café bem tirado, sem o esturricado que por aí é demasiado frequente. A casa é ainda famosa pelos seus croissants e, na extensa oferta de bolos, destacam-se os opéra de pistácio e framboesa. À tarde há cocktails, como mojitos e caipirinhas, mas também chás a la carte. Um éclair salgado anda pelos 6.50 euros e um doce pelos 3.50. O serviço é atento e simpático, a esplanada acolhedora e abrigada. A partir de 1 de Outubro inaugura a colecção de Outono/Inverno - que isto da pastelaria francesa é como a alta costura. Podem ir seguindo as novidades na página de LÉclair no Facebook. Outras variantes possíveis:  o éclair Parisien, com manteiga, queijo emmental e fiambre; o Périgourdin com magret de pato, foie gras, rúcula e balsâmico; o nordique com salmão, mascarpone e lima;  e o tomate-mozza com tomate, mozarella e azeite. Além disso há ainda que contar com o tradicional croque-monsieur, em pão de forma com molho bechamel, fiambre e emmental. Todos os salgados são acompanhados de salada.


 


DIXIT -  “Hoje, quem tem poder não é quem tem informação. É quem a sabe partilhar” - Helena Fazenda, Procuradora-geral adjunta.


 


GOSTO - De Lisboa com movimento e conteúdo - na próxima semana a pré-inauguração do MAAT (Fundação EDP) e o início da trienal de Arquitectura. Isto é que dá qualidade à cidade, não são obras infindáveis.


 


NÃO GOSTO -  Que uma Business School, como a da Universidade Nova,  tenha iniciado obras no seu novo campus sem que o litígio sobre a indemnização aos antigos proprietários do terreno esteja resolvido: uma escola de gestão que não tenha o respeito devido à propriedade privada é um mau exemplo.


 


BACK TO BASICS - Prefiro saber tudo sobre os que me reclamam amizade do que saber alguma coisa sobre os meus amigos mais antigos - Oscar Wilde





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setembro 23, 2016

SOBRE A INDIFERENÇA E OS PERIGOS DOS TEMPOS QUE CORREM

 


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INDIFERENÇA


 


Primeiro levaram os capitalistas,


Mas eu não me importei


Porque não era nada comigo.


 


Em seguida levaram alguns investidores,


Mas a mim não me afectou


Porque eu não faço investimentos.


 


Depois prenderam os senhorios,


Mas eu não me incomodei


Porque nunca fui senhorio.


 


Logo a seguir chegou a vez


De alguns depositantes, mas como


Nunca fui rico, também não liguei.


 


Agora levaram-me a mim


E quando percebi,


Já era tarde.


 


(adaptado de um original de Bertolt Brecht sobre a ascensão de uma ideologia totalitária)


 


SEMANADA - José Sócrates é o convidado especial da Universidade de Verão do PS Lisboa; no entretanto promoveu um jantar com 20 fiéis para recolher ideias para acção futura e estimulou a realização, sábado, de um almoço de apoiantes para começar a contar espingardas; várias figuras próximas de Sócrates apareceram a criticar a forma como o Governo está a gerir a preparação do Orçamento, nomeadamente na área fiscal; PS e PSD querem terminar com os cortes de 10% que estão aplicados às subvenções da Assembleia da República aos partidos nela representados; foram precisos três dias de críticas para Passos Coelho desistir de ser o apresentador de um livro de segredos de alcova da classe política; nos primeiros seis meses do ano o número de casas vendidas aumentou em 22% e os preços de venda são os mais altos desde 2010; a receita do IMI aumenta ininterruptamente desde 1995; Medina diz que vai demorar uma década a sentirem-se os resultados da passagem da Carris e do Metro para a Câmara; por via das dúvidas Medina anunciou que Lisboa vai ter mais 150 kms de ciclovias nos próximos dois anos; a incorporação de biocombustíveis na gasolina e gasóleo em Portugal vai ser em 2017 maior do que em Espanha, o que agravará ainda mais a diferença dos preços dos combustíveis entre os dois países; registaram-se mais de cinco mil insolvências nos primeiros oito meses do ano; até agora a criação de empresas já diminuíu 3,5% em comparação com o mesmo período do ano passado.


 


ARCO DA VELHA - Quanto custará, em tempo e dinheiro, corrigir os erros que Medina e Salgado semearam pela cidade e repôr, como estava antes, o muito que foi mal feito e o que foi estragado?


 


FOLHEAR - Quis o destino que, há vários anos, no próprio dia em que foi anunciada a minha indigitação como Presidente do Instituto Português de Cinema (na época era director do Se7e) tivesse combinado com José Fonseca e Costa um visionamento do filme que ele então tinha finalizado - visionamento esse que seria no próprio Instituto. E, assim, Fonseca e Costa foi o primeiro a desejar-me felicidades e a recomendar-me comprimidos para as dores de cabeça. Ao longo dos anos encontrei-me com ele muitas vezes: gostava de o ouvir, partilhava muitas coisas em termos de política para o audiovisual, pedi-lhe conselhos e devo dizer que lhe devo bastante do que sei e do que fiz nessa área. Foi por isso com redobrado prazer que li “José Fonseca e Costa - Um Africano Sedutor”, uma biografia que traça o seu percurso enquanto realizador e autor. A autoria é de Jorge Leitão Ramos, um incontornável especialista no cinema português e da sua história e que, filme a filme, episódio a episódio, aqui retrata um Fonseca e Costa que deixou marca em Lisboa e em Portugal. Como Jorge Leitão Ramos sublinha, “na geração de realizadores do Cinema Novo, José Fonseca e Costa foi aquele que melhor soube equilibrar a vontade de um cinema de autor com a vontade de ter público”. O Zé morreu quase há um ano e este livro recorda-o. E conta a sua história, evocando como ele próprio era um contador de histórias. Edição Guerra & Paz, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Autores.


 


VER - Até 9 de Novembro a Barbado Gallery (Rua Ferreira Borges 109A) apresenta uma marcante exposição do fotógrafo francês Antoine d’Agata (na imagem). As suas 18 fotografias expostas na galeria foram realizadas entre 1998 e 2009 na Alemanha, Holanda, Geórgia, Camboja, Espanha, Lituânia, Tailândia e Cuba. Mostram um perturbador mundo que se vislumbra na noite, todas elas a jogar com imagens extremas do corpo feminino. As fotografias são intensas, fruto de um processo de encenação que contou com utilização da luz e de técnicas de exposição longa para aumentar o dramatismo das situações, cruzando a imagem da dor com a do prazer e deixando dúvidas sobre qual a sensação retratada. Na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos), Noé Sendas mostra um conjunto de fotografias, numa montagem surpreendente, pontuadas por evocações de Man Ray, sob o título “Significant Others”. Outras sugestões: no Porto, até 5 de Novembro, Pedro Cabrita Reis expõe “Pinturas” na Galeria Fernando Santos  (Rua Miguel Bombarda). Na mesma rua, na empena de um prédio, o espaço “Oficina”, da Galeria Fernando Santos, pode ser vista uma instalação de arte pública, também de Pedro Cabrita Reis, construída a partir de elementos de alumínio e de iluminação. Finalmente Pedro Calapez apresenta na Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia do campus da Caparica da Universidade Nova “Em Volta De”, um conjunto de trabalhos inéditos realizados a partir de uma leitura do livro de Xavier de Maistre, “Viagem à Volta do Meu Quarto”.


 


OUVIR - Aqueles que têm confiança no seu talento e são grandes artistas não têm medo de serem populares nem de revisitarem o cancioneiro popular. É assim em todo o mundo. Por cá, convém recordá-lo, foi Amália Rodrigues quem, como intérprete, recuperou primeiro, dignificando-o, o folclore português. Como dizia Vitor Pavão dos Santos, o que ela fazia era “um cantar cantado” ou, como a própria Amália gostava de recordar, “canto como uma pessoa que anda a cantar no campo, ou na rua”. As gravações de Amália Rodrigues de temas populares portugueses, e a sua inclusão nos seus recitais, são hoje muitas vezes ersquecidos. Graças ao notável trabalho que Frederico Santiago tem feito com os arquivos de gravações de Amália Rodrigues na Valentim de Carvalho foi agora publicado o duplo CD “Amália Canta Portugal”, uma edição verdadeiramente incontornável. Atrevo-me mesmo a dizer que é, até agora, o disco do ano no que toca à edição discográfica nacional. No primeiro CD estão gravações de estúdio e ao vivo feitas entre 1965 e 1969, essencialmente sobre um repertório de folclore com temas como “O Trevo”, “ Tia Anica de Loulé”, “Tirana” , “Malhão de Cinfães”, “Quando Eu Era Pequenina” ou  o superior “Senhora de Aires”, entre muitos outros - é uma notável compilação de grandes interpretações de música popular portuguesa, com uma remasterização que deixa perceber a grandeza da voz. No segundo CD estão gravações dos anos 70, incluindo alguns temas de José Afonso, como uma rara gravação de “Grândola Vila Morena”. Duplo CD Edições Valentim de Carvalho.


 


PROVAR - Depois de conquistar o Chiado José Avillez começou a ir por aí acima e abriu novo estabelecimento na Rua Nova da Trindade 18, um pouco abaixo de uma das cervejarias mais icónicas de Lisboa, a “Trindade”. No local onde agora se instalou “O Bairro do Avillez” estava a loja da Academia de Música, ao lado de um dos alfarrabistas onde passei muitas horas, a Livraria Barateira. Os tempos mudam, as taxas e taxinhas são louvadas por um putativo construtor civil recalcado que manda na Câmara de Lisboa, e a cidade abre-se a novas oportunidades.  José Avillez tem aproveitado bem o fulgor dos tempos e, em abono da verdade, na maioria dos casos, com mérito - as excepções são as pizzas e o Mini-Bar do Teatro S. Luiz. O seu novo “Bairro” é assumidamente coisa para turista, com fados a servir de ruído de fundo. Mas, em abono da verdade, a casa tem méritos gastronómicos. Este Bairro está dividido em três áreas - a Mercearia (uma loja), a Taberna (onde se petisca) e o Páteo ( que faz de restaurante formal). Nesta estreia fui à Taberna e eis as impressões: no couvert, destaque para a manteiga dos Açores; as azeitonas explosivas são de facto um ovo de colombo de sabor e surpresa; o queijo de Idanha-A-Nova foi muito honesto; o ceviche de tremoços ficou aquém das expectativas; os croquetes ficaram acima das mesmas; a salada de espargos e cogumelos com “caviar de beringela fumada”, envolto em molho de iogurte, hortelã e coentros, estava superior; o mesmo posso dizer do polvo com alho, molho kimchi e batata doce; a rematar o pastel de nata foi fiel à melhor tradição - pena que gelado de café, que acompanha, fosse demasiado doce. O serviço é atento na recepção, mas às vezes demorado entre pratos e desatento às mesas. Carta de vinhos suficiente, bom rosé a copo, da lavra de José Bento dos Santos com marca do próprio Avillez. Bairro do Avillez, Rua Nova da Trindade 18, tel. 215 830 290.


 


DIXIT -  “Entretanto, a Espanha tem a taxa de crescimento económico mais alta de toda a UE. Resta saber se não será por não ter governo e ser obrigada a cumprir aquilo a que se tinha comprometido há mais de um ano junto da UE?!” - Manuel Villaverde Cabral


 


GOSTO  - Do festival Folio, uma festa de livros e de vida, que decorre até 2 de Outubro em Óbidos, este ano com uma atracção especial, fruto de uma parceria entre o Villa Joya e a Ivity, o “Cooked Book Project”.


 


TAMBÉM GOSTO - Este fim de semana Serralves acolhe a oitava edição da sua Festa do Outono.


 


BACK TO BASICS - “O mistério da política não é saber como o Governo funciona, mas sim como o poderemos fazer parar” - P. J. O’ Rourke