novembro 10, 2015

A ESTRATÉGIA DIGITAL DE OBAMA – NA CAMPANHA E NO PODER

Com eleições presidenciais à porta é curioso recordar o caso americano na relação dos candidatos com as redes sociais. Está por demais contada a história de como uma estratégia digital ousada de Barack Obama foi uma das chaves da sua reeleição. De facto uma utilização criativa da tecnologia aplicada à política tem sido crucial para a carreira de Obama. A sua campanha foi pioneira, entre os vários candidatos, na utilização da análise de dados – o que lhe permitiu, na recta final, fazer acções dirigidas nas zonas do país e sem segmentos do eleitorado onde se sabia que ele estava debaixo de maior pressão e com mais problemas potenciais em assegurar a vitória. No período pós eleitoral surgiram muitos artigos a revelar como uma utilização inteligente das bases de dados, dos emails e das rêdes sociais foi absolutamente decisiva para conquistar os votantes de última hora, sobretudo dentro de algumas faixas etárias. Obama foi aliás o primeiro presidente norte-americano a ter oficialmente uma conta de email da Casa Branca e foi também o primeiro a criar uma equipa que incluía um Chief Digital Officer, Jason Goldman, um ex-executivo do Twitter, que desenvolveu toda a estratégia digital do Presidente dos Estados Unidos.


Um recente artigo do New York Times, “A Digital Team Is Helping Obama Find His Voice Online”, revela alguma coisa do que se está a passar. Por exemplo Obama está a aumentar a sua presença nas redes sociais com o objectivo de criar uma ideia de espontaneidade e acessibilidade em relação àquilo que o jornal classifica como “um dos cargos políticos do planeta mais coreografados e regulados”. A conta de Obama no Twitter, @POTUS, tem cinco milhões de seguidores e a execução da estratégia digital da Casa Branca é garantida por uma equipa de 20 assessores dedicadas a gerirem a Twitter presidencial, assim como a página da Casa Branca no Facebook, no Instragram e o canal no YouTube. Uma das tarefas desta equipa é transformar em twitters síntese, de 140 caracteres, segmentos dos discursos do presidente, mas também estudar os dados analíticos que permitem identificar quais os temas políticos e sociais que podem interessar mais em cada momento e desenvolver conteúdos de video ou gráficos de acordo comas informações recolhidas.


Para os responsáveis desta equipa, citados pelo New York Times, o objectivo é estabelecer uma identidade digital clara para Barack Obama, torneando o que consideram ser a perda de eficácia dos fórmulas tradicionais de discurso solene, declaração à televisão ou uma entrevista exclusiva a um jornal. O trabalho desta equipa de especialistas e o seu estudo dos dados que vão recolhendo conseguiu convencer os responsáveis da Casa Branca que a exposição do Presidente nas redes sociais e em outros meios digitais, como o You Tube, tem tido resultados muito positivos, como aconteceu este ano no habitual discurso sobre o Estado da União. Noutras ocasiões o Presidente ele próprio escreveu no Twitter a sua reacção a acontecimentos importantes e é frequente que quando está a fazer campanha sobre um tema, por exemplo sobre o controlo da venda de armas de fogo, a casa Branca utilize estes meios para fazer passar factos e estatísticas que fundamentam a sua posição. O resultado, dizem os especialistas ouvidos pelo New York Times, não podia ter sido melhor.


Em última análise tudo isto tem a ver com “encontrar formas de comunicar com as pessoas numa época em que se assiste a uma grande desagregação dos media, o que faz com que a comunicação pelos meios tradicionais seja muito insuficiente” – afirma Dan Pfeiffer, um dos arquitectos da estratégia digital de Obama.


Uma das minhas curiosidades na campanha presidencial portuguesa que se avizinha é perceber como os candidatos irão utilizar as redes sociais, qual será a sua estratégia digital. Vamos ver, daqui a pouco tempo se saberá.


publicado originalmente em buzzmedia.pt


 


 

novembro 06, 2015

DE VILA REAL A LISBOA, PASSANDO PELA MEALHADA - A SEMANA DO PS

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SEMANADA - Concluíu-se a perfuração do túnel do Marão; ainda não se conhecem os termos do acordo entre PS, PC e Bloco; o PS admitiu fazer acordos diferentes com o Bloco de Esquerda e o PCP; António Costa fez uma acção de charme para seduzir os banqueiros; Francisco Assis organizou para este fim de semana um encontro na Mealhada dos críticos da aliança à esquerda;  José Sócrates vai fazer uma conferência em Vila Real de Trás Os Montes para analisar o estado da nação; em resposta António Costa convocou para sábado e domingo a Comissão Nacional e a Comissão Política Nacional do PS para debater os acordos com PC e Bloco; Francisco Assis antecipou o almoço da Mealhada de sábado para sexta; Sócrates não cancelou a conferência de Vila Real; Santos Silva, o amigo de Sócrates, levantou 1,1 milhões de euros em numerário no espaço de três anos, cerca de 30 mil euros por mês; a emigração cresceu mais de 50% entre 2010 e 2013; o autódromo do Algarve, em Portimão, um projecto de 200 milhões de euros acarinhado por Manuel Pinho e José Sócrates, acabou por se revelar um enorme buraco e entrou em processo especial de de revitalização para evitar a falência, sem nunca ter conseguido atingir o que se propunha em termos de criação de emprego e dinamização da economia; o Futebol Clube do Porto ofereceu roupões de turco personalizados com os respectivos nomes aos membros da equipa de arbitragem de um jogo recente no Dragão; o deputado do PAN finalmente tomou posição e manifestou-se contra a utilização da águia Vitória nos jogos do Benfica; o tempo tem estado de chuva - na política e fora dela.


 


ARCO DA VELHA - Em recentes acções de fiscalização a ASAE detectou a comercialização de produtos apresentados como bife de peru, mas que não tinham vestígio de qualquer espécie de carne, e de queijo que nunca viu leite por perto e era feito de pasta vegetal.


 


LER - José Manuel Félix Ribeiro, economista e especialista em geo-estratégia, é conhecido por não ser de falas brandas e por dizer já o que se arrisca a acontecer mais à frente. Não poucas vezes tem acertado em cheio. O seu novo livro, “EUA versus China, confronto ou coexistência? - a globalização e os desafios do novo milénio” defende isto: A China é como se fosse uma cobra que está a mudar de pele, a China vai mudar de modelo de cres­ci­mento e de equi­lí­brio polí­tico, e ao mesmo tempo está a andar muito depressa no meio da terra à pro­cura de um sítio onde esteja pro­te­gida e onde possa olhar de frente para o seu adver­sá­rio que são os Esta­dos Uni­dos, para ata­car quando for pos­sí­vel.”. No seu livro anterior, “Portugal, A Economia de Uma Nação Rebelde”, ficava dentro das nossas fronteiras, aqui analisa o que na sua opinião está a acontecer no mundo, cruzado por guerras civis, religiosas e civilizacionais. Félix Ribeiro considera que a viabilidade do reforço da integração europeia, ocorrida como resposta à reunificação da Alemanha é cada vez menos reconhecível e sublinha que neste contexto os EUA são o pilar-chave do Ocidente e será em torno deles - e não de um qualquer império eurocontinetal - que se irá organizar o futuro da globalização e da emergência de novos actores como a Índia e o regresso de velhos actores como a Rússia.


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O livro, como frequentemente acontece com os escritos do autor, é polémico e dá que pensar. Como curiosidade editorial diga-se que na contra capa do livro está um QR Code que lhe permite aceder a uma vasta documentação do autor sobre a actuação externa dos EUA e a transformação do seu modelo nas décadas de 70, 80 e 90. A edição é da Guerra & Paz. O último capítulo chama-se “ Horizonte 2030: a deslocação do mapa de competições e rivalidades” - não deixem de o ler.


 


FOLHEAR - A revista “Vanity Fair” de Novembro tem Rhianna na capa, fotografada em Havana por Annie Leibowitz, mas isso está longe de ser o mais interessante desta edição, apesar do superior trabalho de Leibowitz. O meu primeiro destaque vai para o relato de um almoço com Patti Smith em que ela sublinha “não ser como Judy Garland”. Muito bom o artigo “Cinema Politico” que recorda os documentários sobre a campanha de nomeação de Kennedy, “Primary”, e “The War Room”, o documentário sobre a primeira campanha de Bill Clinton. Por falar em presidenciais outro artigo interessante é sobre a forma como está a ser montada a campanha de Hillary Clinton - e há ainda uma história sobre os paradoxos de Donald Trump. Olho para todos estes artigos e não posso deixar de pensar na diferença que existe na abordagem editorial de uma campanha presidencial e dos seus candidatos nos Estados Unidos e por cá - e não é uma questão de dinheiro ou de dimensão - é meramente de ideias.


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Saindo da política, para um grupo de amigos meus que têm o ritual de viajarem para conhecer os restaurantes com estrelas Michelin, recomendo “The Fault In Their Stars”, uma bela viagem ao efeito “Guerra das Estrelas” do mais famoso guia de restaurantes do mundo. Mas confesso que o artigo que mais me deliciou foi uma viagem pelo universo de Tom Wolfe, através dos seus arquivos pessoais, agora disponibilizados - uma história do homem que mudou a forma de contar histórias.


 


VER - Esta semana várias sugestões. Atravessando o Tejo, rumo a Almada, podemos ir ver “4 Fotógrafos de Moçambique”- Moira Forjaz, José Cabral, Luis Basto e Filipe Branquinho. Alexandre Pomar esteve na sua origem e está na Galeria Municipal de Arte, Avenida Álvares Pereira 4 -   integra o mês da fotografia de Almada.


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Mais a sul ainda, em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, Daniel Blaufuks apresenta em 20 fotografias marcantes com a sua visão do Convento da Cartuxa, o único mosteiro contemplativo masculino em Portugal. Em Lisboa, e só de 6 a 9 de Novembro, na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27, Alvalade), Albano da Silva Pereira apresenta Life Goes On, uma mostra de fotografias paralela à exibição no DocLisboa do documentário feito pelo mesmo autor, e com o mesmo título, sobre a obra de Robert Frank. Para terminar duas exposições sobre objectos do quotidiano - a primeira é  “Móveis Olaio, Produção, Inovação E Qualidade”, que está no Museu da Cerâmica de Sacavém até final de Dezembro, e a outra é a exposição-homenagem à cadeira portuguesa, na Casa de Santa Maria, em Cascais e que, entre muitas peças, tem um exemplar original da célebre cadeira Gonçalo, que povoou as esplanadas portuguesas nos anos 50 e 60 e que agora regressou e é produzida pela Arcalo.


 


OUVIR - Rodrigo Leão compõe normalmente com o seu sintetizador e o computador e nos seus primeiros discos chegou a usar um teclado Casio básico. Desta vez as suas composições passaram da máquina para uma orquestra e o novo disco, “O Retiro”, o seu primeiro para a prestigiada editora Deutsche Grammophone, foi gravado com a Orquestra e Côro da Gulbenkian no Grande Auditório da Fundação. Além da Orquestra, Rodrigo Leão recorreu ao seu habitual quarteto de cordas (Viviena Tupikova, Bruno Silva, Carlos Tony Gomes e Denys Stetsenko) e a parceiros habituais como Celina da Piedade e Selma Uamusse, que interpreta "Melancolia".


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Os arranjos orquestrais são de  Steve Bartek , ex Oingo Bongo. Rodrigo Leão, que tem uma carreira já com três décadas, consegue com “O Retiro” uma das suas ambições - um disco que capte os seus ambientes sonoros habituais, com outros recursos e que leve a sua música a um outro patamar. O disco inclui o tema “florestas submersas”, criado expressamente para a exposição com o mesmo nome desenvolvida por Takashi Amano para o Oceanário de Lisboa. Eu, que sigo desde o início o percurso musical de Rodrigo Leão, e que assisti a várias provas da sua capacidade, fiquei impressionado com a criatividade, a sensibilidade e a energia deste disco. Ele vai apresentá-lo ao vivo, com os intervenientes na gravação, no próximo dia 18 no Coliseu do Porto e nos dias 20 e 21 no Coliseu dos Recreios em Lisboa.


 


PROVAR - O Hotel Yeatman é todo um episódio, ligado à história do Douro -  o seu nome vem da família Yeatman, ligada ao comércio do Vinho do Porto desde 1838. Trata-se de um dos melhores hotéis portugueses, situado em Gaia, com vista para o Porto. Foi planeado de raiz para a função e foi inaugurado em 2010. Desde o início procurou a excelência no serviço e o conforto no acolhimento. No projecto foi pensado um restaurante que conjugasse o melhor da gastronomia com uma cuidada selecção de vinhos - o hotel tem aliás uma garrafeira invejável e desenvolveu parcerias com os melhores produtores nacionais. O restaurante, que conquistou uma estrela Michelin continuadamente em 2012. 2013, 2014 e 2015,  é dirigido pelo chef Ricardo Costa, natural de Aveiro. Anteriormente Ricardo Costa havia sido já distinguido com estrelas Michelin em 2009 e 2010 no restaurante da Casa da Calçada, em Amarante. Ao almoço está disponível um menu sazonal, com seis pratos. Os menus de degustação começam no Menu do Chef com dez pratos, e nas suas variantes - uma selecção de seis ou quatro pratos a partir do menu do Chef. Em todos os casos são propostas selecções de vinhos adequadas aos menus escolhido. E, claro, se não quiser o menu degustação, tem ainda a possibilidade de  escolher na carta pratos de referência do Yeatman, como o foie gras com pera bêbada, o arroz caldoso de lavagante ou a caldeirada de peixe galo, ovas e carabineiro. Este é um daqueles restaurantes onde tudo corre bem do princípio ao fim e, mesmo sendo a conta inevitavelmente pesada, apesar da extensão dos menus, a cozinha é ligeira e, não poucas vezes, uma descoberta.


 


DIXIT - “Lei da calamidade pública não é para qualquer coisinha” - Calvão da Silva, Ministro da Administração Interna, a propósito das cheias em Albufeira, que comentou dizendo que “Deus nem sempre é amigo”.


 


GOSTO - Da criação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, no Porto, que vai juntar três grandes unidades científicas e 800 investigadores.


 


NÃO GOSTO - Putin lidera a lista dos mais poderosos do mundo elaborada pela Forbes.


 


BACK TO BASICS - Bonitas palavras e uma aparência insinuante raramente estão associadas à verdadeira virtude - Confúcio



(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Outubro)

outubro 30, 2015

OS ANJOS DE BOTTICELLI ENLEADOS EM ANTÓNIO COSTA

 



PAISAGEM - Quando olho para o que se passa à minha volta fico com a sensação que os loucos tomaram conta do manicómio e o fenómeno varre todos os escalões do sistema. Por exemplo, o Bloco e o PCP, que em Lisboa parecem anjos de Botticelli nas reuniões com o PS,  chegam a Estrasburgo, ao Parlamento Europeu, e apresentam propostas conjuntas de rejeição do tratado orçamental europeu e de apoios à saída do Euro, enquanto aqui continuam a fazer juras à estabilidade com a maior cara de pau. Um dos nossos grandes problemas é que, em geral, os políticos que temos dedicam-se com afinco à nobre arte de desenvolver o espírito de seita, defendendo o interesse das respectivas clientelas partidárias e os seus poderzinhos pessoais, acima de qualquer outra coisa. O sistema partidário português sofre dos vícios do futebol - tem clubismo a mais e racionalidade a menos. Exarceba-se o que divide e evita-se o que une. Não está habituado a conversar e a dialogar, o parlamento reduziu-se a um circo que serve apenas para cada um arengar e atacar as outras bancadas. Na política parece só haver bem e mal, como se fosse uma religião maniqueísta. E, consequentemente, há uns que são pecadores e outros que são devotos cumnpridores. Da nossa paisagem política e partidária está ausente o pensamento sobre o país e exacerbado o ego de cada grupo rival. Nada disto faz sentido e tudo isto nos levará para dificuldades maiores do que aquelas por onde ainda estamos a passar.


 


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SEMANADA - Os juros da dívida pública de Portugal estão a subir em todos os prazos, ao contrário do que se passa com Espanha e Itália; Teixeira dos Santos, ex-Ministro das Finanças de Sócrates, alertou Bruxelas para a estagnação de crescimento da zona Euro; há 700 mil pessoas com contratos a prazo; metade das famílias portuguesas vive com menos de mil euros por mês; o Estado deve 170 milhões de euros de IVA às empresas; 16% das exportações nacionais são asseguradas por cinco empresas; o crescimento das empresas exportadoras recuou 70,7% em 2014; o crédito às famílias, nomeadamente o crédito à habitação, subiu em Setembro, o que já não acontecia desde Abril de 2011; Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, quer que os lisboetas paguem no próximo ano mais 148 euros em taxas e impostos; cada português consome 108 quilos de carne por ano; um terço dos enfermeiros portugueses licenciados em 2013 foi trabalhar para o Reino Unido; no ano passado, houve cerca de 110 mil portugueses que emigraram, o mesmo que em 2013; Portugal é o 8º país do mundo com maior número de idosos (+65 anos) por 100 indivíduos em idade activa (dos 15 aos 64 anos); o acordo do PS com os partidos à sua esquerda continua secreto; António Costa almoçou com Freitas do Amaral na terça-feira passada; Capoulas Santos disse que Cavaco fez mais pela unidade do PS em 24 horas que o próprio PS no último ano.


 


ARCO DA VELHA - A Direcção Geral do Património Cultural abriu novo processo de classificação do Cinema São Jorge porque o anterior, de 1989, se extraviou e não se encontra.


 


FOLHEAR - Só o título já é uma história: “Tinha Tudo Para Correr Mal (memórias de um comunicador acidental)”. No livro Luis Paixão Martins fala da sua vida, da paixão de comunicar desde os bancos do Liceu Camões (onde fomos contemporâneos) até à sua LPM, passando pela escola que foi a Rádio Universidade, a Renascença, as agências de notícias - e aí voltei a cruzar-me com ele. Amigos, cruzámo-nos várias vezes ao longo dos anos, umas vezes por razões profissionais, outras em escritas para que ele me desafiou. E agora, de novo a seu convite, cruzamo-nos no Newsmuseum que nascerá em 2016 por sua iniciativa - e este livro faz parte desse projecto. Na história das agências de comunicação em Portugal há uma época antes do Luis Paixão Martins ter começado a trabalhar no sector e, depois, há uma estratégia e um método de actuação que fazem toda a diferença. Ele é, aliás, o profissional do sector que mais escreveu sobre a actividade que desenvolve, partilhando conhecimentos, relatando experiências, um caso raro no panorama português onde muita gente guarda para si tudo o que pode. Na badana deste “Tinha Tudo para Correr Mal” explica-se que estas são as memórias de um consultor de imagem que aconselhou José Sócrates, Aníbal Cavaco Silva, Ricardo Salgado, Jorge Nuno Pinto da Costa e Isabel dos Santos. Luis Paixão Martins tem um humor cortante e é um contador de histórias. Sabe-se isso da sua actividade profissional, quer como jornalista, quer como consultor de comunicação. E, como este livro mostra, ele é capaz de fazer uma reportagem sobre a sua própria vida sem perder o espírito de observação e humor que o caracteriza.


 


VER - Há livros que além de lidos merecem ser vistos, apalpados, observados, folheados para a frente e para trás, à procura dos pormenores que podem ter escapado. Eu sou um apaixonado pelo design gráfico, pelas maravilhas que se podem fazer me papel impresso. Manuel S. Fonseca, da Guerra e Paz, é um editor atrevido que aposta em obras especiais e é um apaixonado por Fernando Pessoa. No ano passado fez uma edição de “As Flores do Mal”, com capa em madeira gravada a fogo e fotografias de Pedro Norton. Este ano surpreende de novo com a edição de “Minha Mulher, A Solidão”, uma recolha de 47 textos de Pessoa nos seus diversos heterónimos em que a mulher e o amor são centrais - e que leva por subtítulo o delicioso “Conselhos A Casadas, Malcasadas e Algumas Solteiras”.


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Manuel S. Fonseca faz anteceder a selecção dos textos sobre “o casamento, a intriga amorosa e a desregulação sexual”, num prefácio que intitulou “Toda a Volúpia É Mental”. Antes vem um poema de Eugénia de Vasconcellos , “Ele Falava Em Voz Baixa”, e, antes ainda, logo no início, surge a reprodução de uma obra original de Ana Vidigal, uma técnica mista sobre papel.O livro tem capa dura, lombada solta, três tipos de papel da melhor qualidade, mais outro papel de jornal que em seis pequenos cadernos espalhados pela edição, tudo isto mobilizando as artes de três impressoras diferentes - uma delas a fazer o acabamento manual e o encadernamento. O grafismo vem assinado por Ilídio Vasco, que trabalhou com afinco neste projecto com  Manuel S. Fonseca. São 1800 exemplares, numerados, com um preço de venda de 55 euros. É preciso abri-lo, para se perceber a obra que aqui está. É preciso vê-lo para se perceber como esta é uma espécie de exposição ilustrada de uma parte da obra de Fernando Pessoa


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OUVIR - Frederico Santiago, que tem feito um notável trabalho nos arquivos de gravações da Valentim de Carvalho, descobriu o registo de um concerto de homenagem a Filipe Pinto, que aconteceu em 28 de Novembro de 1962 no Teatro Tivoli em Lisboa. Filipe Pinto foi fadista, mas foi sobretudo um “mestre de cerimónias do meio fadista”, um animador de vários retiros onde o fado era rei, compositor ocasional, amigo de uma geração única de intérpretes e, diz-se o autor da célebre frase “silêncio, que se vai cantar o fado”. O registo, agora editado em CD, recupera esse concerto de 1962, que se diz ter sido organizado pela própria Amália Rodrigues, sua grande amiga. Por aqui passam as vozes de Fernando Farinha, Lucília do Carmo, Alfredo Marceneiro, de Rogério Paulo, do próprio Filipe Pinto e de um mini-recital de Amália com oito interpretações suas, desde o clássico “Estranha Forma de Vida” até “Maria Lisboa”. O registo capta o ambiente de festa e amizade que marcou a homenagem e é um documento único para se compreender como era o fado então, em Lisboa.


 


PROVAR -  A Casa de Chá da Boa Nova foi construída entre 1958 e 1963 em Leça da Palmeira, sobre os rochedos, a dois metros do mar. O local foi escolhido por Fernando Távora, que havia ganho o concurso de arquitectura e o projecto foi de Siza Vieira, no início da sua carreira de arquitecto. Depois de anos ao abandono, o chef Rui Paula, que fez fama no DOP, do Douro, recuperou este espaço e inaugurou-o no Verão de 2014. Aqui beneficia da proximidade da lota de Matosinhos e faz uma aposta no peixe e no marisco. Há três menus degustação - o Mar e Terra, o Atlântico e o Boa Nova (mais pequeno) e além disso há três propostas fixas na lista - o arroz caldoso de peixe e lavagante da nossa costa, cataplana de peixe e marisco, e robalo ao sal, todos para duas pessoas e ao preço de 80 euros. Como não sou muito fã de menus degustação, optei pelo arroz caldoso de lavagante e peixe e não nos arrependemos. Simplesmente perfeito. Claro que enquanto não chega o arroz há pequenas entradas, ofertas do chef e um couvert delicado, tudo a fazer as vezes de uma mini degustação. O local é magnífico, a cozinha é superior, a qualidade dos ingredientes é excepcional e o serviço é exemplar. O vinho escolhido para acompanhar foi um Soalheiro que se portou muito bem. Fecha ao Domingo todo o dia e segunda ao almoço.  Fica em Leça da Palmeira, na Avenida da Liberdade, junto ao farol, e tem o telefone 229 940 066.



DIXIT - “Não há liberdade de expressão sem expressão da liberdade”  - Carlos Magno, Presidente da ERC, no Facebook, fotografado ao lado de um cartaz do Correio da Manhã.


 


GOSTO - O Museu Nacional de Arte Antiga lançou uma campanha para obter através de doações os 600 mil euros necessários para que “A Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira, não seja vendida para o estrangeiro e fique naquele museu.


 


NÃO GOSTO - A pedido de Sócrates, através dos seus advogados, a juíza Florbela Moreira Lança proibiu o Correio da Manhã e as outras publicações da Cofina de publicarem informações sobre a investigação da Operação Marquês.


 


BACK TO BASICS - “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Tudo o resto é publicidade” - George Orwell.


 


 


 

outubro 23, 2015

SOBRE AS FORMAS DE GANHAR JOGOS NA SECRETARIA

GOLPE - Em futebol, chama-se, à manobra de Costa, querer ganhar o jogo na secretaria. Trata-se de um género de actividade que não fica bem a quem é desportista. É boa para batoteiros e anda ao mesmo nível de quem compra árbitros. O futebol, que há muito deixou de ser um desporto e passou a ser um mero palco de negociatas, vive disso - logo a começar nos clubes, passando por quem facilita o apito nos jogos, e também pelos agentes e pelas direcções dos organismos que, em vez de o regularem, apenas o manobram. É este espírito de golpaça que foi introduzido na política portuguesa. Quem achava que já tinha visto tudo, pode desenganar-se. Nos tempos de Sampaio a coisa fazia-se manobrando o árbitro do regime, como se viu quando esperou que o PS estivesse a postos, para apenas depois convocar eleições e levar Sócrates ao altar, com os danos colaterais que se conhecem. Agradeçam pois a esse santo milagreiro. Agora faz-se mesmo, mas na secretaria. Os campeões de secretaria correm pouco quando o jogo é a sério, claudicam, e vivem de expedientes. Não é um golpe de Estado, mas é um golpe. O golpe do Costa. O futuro não é risonho.


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SEMANADA - As queixas de violência no namoro superam as do casamento; este ano registam-se, por hora,  três queixas de violência doméstica; a PJ deteve 190 suspeitos de violarem crianças num ano;  a GNR já recebe queixas através do messenger do facebook; o filme “Regresso ao Futuro II” fez 30 anos; a primeira bébé proveta, Louise Brown, já tem 37 anos; o número de escolas públicas caíu para metade desde 2000 e só no ano passado foram encerradas 535; o Ministério da Educação deve 6 milhões de euros a alunos do Ensino Superior relativos a 2400 bolsas de mérito; os salários de magistrados e políticos foram os que mais subiram desde 2011; médicos, enfermeiros, conservadores e notários foram os que mais perderam; 2015 é o melhor ano de vendas da Porsche em Portugal; o número de falsos recibos verdes aumentou 200%; em Setembro foi ultrapassada pela primeira vez a marca dos 20 mil milhões de euros investidos em certificados de aforro e tesouro; a Câmara de Lisboa não teve ofertas para a primeira tentativa de venda dos terrenos da Feira Popular, que deixou de funcionar há 12 anos; Paulo Portas ofereceu o seu lugar no Governo a António Costa; Marcelo Rebelo de Sousa desafiou Ferreira Fernandes a escrever um novo folhetim sobre eleições, desta vez sobre as próximas Presidenciais; Mário Soares afirmou que a situação do país “é uma confusão efetiva que tem que ser resolvida”; José Sócrates inicia um road-show este sábado em Vila Velha de Rodão com uma conferência sobre justiça e política.


 


ARCO DA VELHA -  Fabricar uma moeda de um cêntimo custa 1,65 cêntimos e  produzir uma de dois cêntimos custa 1,94 cêntimos - o Banco de Portugal não pensa deixar de as fazer, ao contrário de sete países europeus.


 


FOLHEAR - Gosto confessadamente de policiais. Olho para as histórias que eles contam com especial interesse. Encaro-os como um desafio, uma espécie de jogo de adivinhas. Fernando Sobral, que escreve diariamente neste jornal, é um dos autores portugueses que nos últimos anos se tem dedicado ao tema. Tem a particularidade de colocar o seu herói e as suas histórias nas memórias de um Portugal que já não existe. Damasceno Alves, o herói que desenha nas suas palavras, já passou por Macau e, na nova história, agora publicada, “As Jóias de Goa”, vive os derradeiros tempos da presença portuguesa na Índia. É um livro fascinante sobre essa terra que se fez mito, sobre o que foi parte da nossa presença. Fernando Sobral coloca os personagens dos seus livros a reflectirem sobre o momento em que a acção decorre - e essas reflexões parecem muitas vezes estranhamento actuais. Não vou contar o fim, mas recomendo que o leiam todo, com o mesmo prazer que ele me deu. Edição Parsifal


 


Outras leituras - “Vamos Ao Que Interessa” é uma recolha de crónicas escritas ao longo do tempo, entre 2008 e 2015, por João Pereira Coutinho para a Folha de S. Paulo - com observação certeira, humor fino e uma perspectiva que a distância entre o lugar da publicação e o lugar da acção estimula. João Pereira Coutinho é um bom cronista dos tempos que vivemos e se o mundo fôr justo a História far-se-à um dia recordando aquilo que escreveu. Edição D.Quixote.


 


VER - Os smartphones tornaram o modo fotográfico de ver uma coisa natural no dia a dia. De certa maneira, perdoem-me os puristas, o iPhone 6 está para as máquinas fotográficas como as primeiras Leicas de 35 mm estiveram para os aparelhos fotográficos pesadões da época. Registar o que se vê - e mostrar como todos os olhares sobre uma mesma coisa podem ser tão diferentes - é hoje muito acessível. Na realidade há um enorme e crescente número de pessoas que anda com uma máquina fotográfica no bolso, e que cada vez mais a vai usando em situações onde antes não lhes passaria pela cabeça fotografar. Há uns anos o New York Times produziu uma edição inteira apenas com fotografias feitas com iPhones. O sucesso do Instagram é a prova da total democratização da imagem fotográfica, a um ponto que nem Susan Sontag imaginou quando escreveu o seu “Ensaio Sobre Fotografia” em 1977. Alexandra Calapez, que passou uma vida a ensinar  ciências e biologia, tem, por isso, um olhar quase microscópico sobre o mundo que a rodeia, uma visão de observador de experiências e de descobridora de acasos da natureza. Há uns meses decidiu começar a ver com o seu iPhone e uma selecção das fotografias que tem feito, com o título “ping_pang_pong” está até 31 de Dezembro na Galeria do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. É muito interessante poder perceber assim o que as pessoas vêem em seu redor.


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OUVIR - A capa deste disco pode enganar - alguém pode pensar que se trata de um best of de árias célebres. Mas não, trata-se de uma recolha cuidada de canções, originalmente para voz e piano, e aqui interpretadas com versão orquestral. Rolando Villazón escolheu um repertório pouco conhecido mas importante do bel canto,  e optou pela orquestra do Maggio Musicale Fiorentino, dirigida por Marco Armiliato Há canções de Vincenzo Bellini, da fase inciial da carreira de Giuseppe Verdi e outras, mais interessantes, de Gaetano Donizetti e, sobretudo de Gidachinno Rossini. O destaque vai para o dueto final, “Tirana por deux voix (les Amants de Seville)”, em que Rolando Villazón faz um dueto arrebatador com Cecilia Bartoli.  CD Deutsche Grammophon, disponível em Portugal.


 


PROVAR - Já lá vai o tempo dos chop suey como petisco único nos restaurantes chineses. Agora as coisas evoluíram felizmente e a oferta começa a ser maior. Na Rua D. João V, às Amoreiras, abriu recentemente um novo Yum Cha Garden, continuador do estabelecimento do mesmo nome que há uns tempos existe em Oeiras. A casa ganhou fama pelos seus dim sum e pela confecção de pratos pouco vistos por cá, como a sopa de porco no forno. Numa recente visita fiquei bem impressionado com uns dim sum de gambas e, mais ainda, com uns raviolis de tubarão, perfeitos no tempero.. Aqui pratica-se a cozinha ao vapor e os sabores resultam mais puros. Uma vieiras salteadas acompanhadas de aipo ao vapor são bem um exemplo disso mesmo e foram muito apreciadas. Há uma selecção suficiente de vinhos portugueses e cerveja e coca cola chinesas. A terminar veio um bolo de chocolate em bola, recheado de gelado de chá verde, que foi um final perfeito.  Mesas amplas, serviço impecável, preço honesto. Yum Cha Garden, Rua D. João V nº31, tel. 211 350 006, aberto todos os dias.


 


DIXIT - “Ontem à noite não resisti ligar a TV nos vários canais, à hora em que normalmente eu comentaria. E pensei, de mim para mim, que grande momento de comentador estou a perder” - Marcelo Rebelo de Sousa, no Festival Internacional de Literatura, de Óbidos.


 


GOSTO - Da ideia de colocar peças gigantes da cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro nas ruas das Caldas da Rainha.


 


NÃO GOSTO - Os portugueses são os europeus que mais utilizam o telemóvel enquanto conduzem  - revela um estudo da Organização Mundial de Saúde


 


BACK TO BASICS - “Os factos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles” - Clarice Lispector


 

outubro 16, 2015

ESTAMOS TODOS NUM TÚNEL ESCURO

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 TÍTULOS: “Vem aí a frente popular?” - Manuel Villaverde Cabral no Observador, 19 de Setembro;  “Namoro entre PS, PCP e Bloco deixa Coligação assustada” - i, sexta-feira ; “Santana Lopes quer que o Presidente da República trave já António Costa” - DN, Sábado; “Acordo à esquerda divide PS de Costa” - Correio da Manhã, Domingo; “PS e BE negoceiam hoje Governo apoiado pela esquerda” - Público, segunda-feira; “Forças à Esquerda do PS não dão garantias de estabilidade” - Carlos Silva, Secretário Geral da UGT,  “Diário Económico”, segunda-feira); “Costa tenta convencer Cavaco a aceitar Governo de Esquerda” - i, terça-feira; “Eleitores do PS não votaram para um governo com PCP e Bloco” - Durão Barroso, Diário Económico, terça-feira; “Coligação envia mais de 20 propostas ao PS e ainda confia num acordo” - Público,  terça-feira; Propostas de Passos a Costa custam €1309 milhões em quatro anos. Coligação disposta a aceitar todas as condições de Costa - Expresso Diário,  terça-feira; “Costa assusta investidores” - Negócios,  terça-feira;  “Esquerda Unida - PS tenta acalmar UE e investidores” - Observador,  quarta-feira; “Ora aí está ela, a esquerda unida” - Manuel Villaverde Cabral, Observador, terça-feira; “Sem acordo à esquerda ou à direita, PS deixa passar governo de coligação” - Público , quarta-feira; “Costa prepara Europa para governo de esquerda” - Diário de Notícias, quarta-feira; “Impasse agrava tensão política - Costa classificou de insuficiente a proposta de Passos e Portas” - Negócios,  quarta-feira; “Passos bate com a porta a Costa” - Correio da Manhã, quinta-feira.


 


SEMANADA -  O mercado dos livros escolares movimenta entre 120 e 200 milhões de euros por ano; as alheiras de Mirandela movimentam 30 milhões de euros por ano, só no concelho de Mirandela; Portugal é o país da Europa que menos investe nos idosos, só 0,1% do PIB; só 23% das pessoas com mais de 65 anos utilizam a internet; um relatório da OCDE mostra que o país perdeu qualidade de vida entre 2009 e 2015; os hospitais fazem duas vezes mais urgências do que primeiras consultas; trinta pessoas foram infectadas nos últimos dois meses por uma bactéria , no Hospital de Vila Nova de Gaia, oito acabaram por morrer e há 13 ainda internados; mais de 110 mil pessoas emigraram em 2014; em Portugal as pequenas e médias empresas registaram mais crescimento em 2014 do que as grandes empresas; 51 mil portugueses têm património superior a 900.000 euros; Maria de Belém apresentou a sua candidatura com uma imagem gráfica copiada da campanha de Obama; “Podem contar comigo para tudo no PS” - disse Francisco Assis em entrevista à  RTP3; um terço das empresas municipais ainda tem prejuízo e há 17 que têm de fechar as porta devido à sua situação financeira; a receita do IMI subiu o dobro do que estava previsto; a Câmara Municipal de Lisboa pretende criar uma taxa de protecção civil; mais de um quinto das câmaras municipais empola receitas para gastar mais.


 


ARCO DA VELHA - O MRPP quer suspender Garcia Pereira sob a acusação de “incompetência e anticomunismo primário”.


 


FOLHEAR - A”Monocle” leva oito anos de vida e está agora a entrar na fase de amadurecimento do seu projecto. Desde quase o início tornou-se claro que Tyler Brilé, o fundador da revista, queria criar uma comunidade, baseada em alguns valores, como a qualidade de vida, a cuidada recuperação das cidades, o comércio tradicional, a produção artesanal, bons transportes públicos e o empreendedorismo numa combinação de criatividade com tradição. Com uma fórmula editorial baseada na revelação de descobertas à comunidade de leitores, na elaboração de listas exemplares em diversas áreas (de cidades a aeroportos, passando por hotéis) e numa selecção cuidada de locais a visitares em diversos países, a “Monocle” afirmou-se. Combinando artigos longos e reportagens com notas breves e conselhos, a revista cria o desejo de conhecer locais de que fala.  O número de Outubro é a edição anual dedicada a bons exemplos de comércio e Lisboa lá figura com o renascimento da Rua do Poço dos Negros, de que provavelmente muitos lisboetas ainda nem se aperceberam. Ao mesmo tempo que partilha os seus segredos na edição impressa, a Monocle tem uma radio em streaming - Monocle 24 - e no seu site há uma área de filmes com bastantes mini-documentários sobre diversos temas, a maioria com uma qualidade de edição exemplar - que sugere o embrião de uma estação de televisão dedicada à mesma comunidade. Além de lojas Monocle em diversos países, em Londres abriu agora um conceito que promete exportar e que combina um café sofisticado com um escaparate das melhores revistas que se editam pelo mundo, o Kioskafé (31 Norfolk Place). Por último, há pouco tempo, iniciou a newsletter diária  “Monocle Minute” que proporciona uma selecção de temas fora do mainstream noticioso, mas com assuntos muito interessantes - e que é um exemplo de capacidade editorial no digital. Tudo isto cria um ecosistema “Monocle”, que permite à comunidade ter diversos pontos de contacto e manter a fidelidade à marca.


 


VER - Hoje proponho-vos uma visita a um site absolutamente espantoso pelo trabalho de recolha e organização de duas colecções fotográficas  incontornáveis na história da fotografia e na documentação de períodos cruciais dos Estados Unidos da América. Sugiro que busquem e que visitem Photogrammar, uma plataforma digital que agrupa 170.000 fotografias feitas entre 1935 e 1945 para a United States Farm Security Administration e para o Office of War Information, agora depositadas na Library Of Congress. Se o primeiro foi um projecto exemplar que visava documentar o que era a vida no interior dos Estados Unidos, nas zonas rurais, durante a época da Grande Depressão, o segundo recolhia o trabalho dos grandes fotojornalistas e de militares que registaram as imagens da II Grande Guerra. Para a Farm Security Administration trabalharam nomes incontornáveis da fotografia, que deixaram a sua marca em revistas como a Life. O site tem uma organização absolutamente extraordinária e explorar todas as suas potencialistas e informação é verdadeiramente um prazer para quem gosta de fotografia documental. Aqui fica uma fotografia de Dorothea Lange, no Novo México, em 1935.


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 Outras sugestões - “Afinidades Electivas, Julião Sarmento Coleccionador”, na Fundação EDP e na Fundação Carmona e Costa. No Atelier Museu Julio Pomar, “Desenhar - Julio Pomar e Rui Chafes” (Rua do Vale 7). Na Miguel Justino Contemporary Art - “Les Voyeurs”, de Mário Ritta, Rua Rodrigues Sampaio 31, 1º Esq.


 


OUVIR - Há muito tempo que um disco não me dava tanto gôzo como “Music Complete”, dos New Order, o seu primeiro álbum de originais desde há dez anos, que agora anda em repeat no carro, em casa, no iPhone. É o primeiro sem o baixista Peter Hook, que fez muito do som do grupo, aqui bem substituído por Tom Chapman. Na produção há algumas incursões de Tom Rowlands, dos Chemical Brothers, e Bernard Sumner , a alma dos New Order, recuperou o teclista Gillian Gilbert para refazer o som da banda, o que fez com sucesso. É impressionante como ao fim de 30 anos de actividade os New Order conseguem continuar a fazer alguma da mais entusiasmante música de dança, com palavras do mais puro pop - “I want a nice car / A girlfriend who’s as pretty as a star” -  isto conjugado com ritmos que fazem dançar e com surpresas que vão da presença de Iggy Pop num tema de spoken word (“Stray Dog”) a Elly Jackson, das La Roux, em três faixas, entre as quais a  irresistível “Tutti Frutti”. Mas o grande momento do disco é “Plastic”, uma faixa de quase sete minutos que é um manual perfeito de música para pistas de dança. A faixa inicial, “Restless”, e a final, “Superheated” (esta com uma participação de Brandon Flowers dos The Killers), são material do melhor que Sumner tem feito. Um disco incontornável, que eu vou consumindo no Spotify. A capa, claro, é de Peter Saville.


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PROVAR -  Estamos em plena época de dois frutos do Outono de que gosto particularmente: marmelos e romãs. Para além da tradicional marmelada, a geleia de marmelo com nozes e o marmelo aos quartos, cozido ou assado, enaltecem as potencialidades deste fruto. Mas o petisco de que mais gosto é de um queijo bem curado, duro, Serpa de preferência, acompanhado com marmelada fresca feita há poucos dias - como por exemplo a que se vende na loja Afinidades, na Quinta do Anjo, em Palmela. Se este petisco for acompanhado por um Moscatel Roxo da Casa Horácio Simões, que se encontra na mesma loja, então alcança-se facilmente um estado de grande satisfação. Quanto às romãs, que ainda por cima provêem de uma árvore lindíssima e têm propriedades anti-oxidantes, experimentem misturá-las com uma mousse de chocolate de facto caseira, espessa e escura. O que sobrar das romãs, se sobrar alguma coisa, vai muito bem com o iogurte do pequeno almoço. (Afinidades, Rua João de Deus nº10, Quinta do Anjo, Palmela).


 


DIXIT - O sector da Cultura representa cerca de 1,9% do PIB português e 3,4% do PIB espanhol - Belén Rodrigo, na revista Actualidad - Economia Iberica


 


GOSTO -  De Rui Rio ter desistido de se candidatar à Presidência da República.


 


NÃO GOSTO - Da transformação da política num jogo de poker fechado.


 


BACK TO BASICS - A democracia é a arte e a ciência de governar o circo a partir da jaula dos macacos - H. L. Mencken


 


 






O IMPARÁVEL AVANÇO DO MOBILE IMPULSIONA A UTILIZAÇÃO DE BIG DATA

Onde nos está a ler? Em casa, no escritório, na rua? Em que dispositivo? A probabilidade de estar a ler estas linhas num tablet ou smartphone é grande e o número de pessoas que usam dispositivos móveis não pára de crescer. Este facto só por si provoca mudanças estrturais nas formas de comunicação, da informação à publicidade. A mudança de hábitos e de comportamentos é mais rápida que nunca.


O mais recente relatório da Anacom, relativo ao segundo trimestre de 2015, indica que em Portugal  62,2% dos telefones móveis já são smartphones, o que significa cerca de 5 milhões de smartphones (no mesmo período do ano passado a percentagem era de 46,4% do total). Ainda segundo o mesmo relatório, 51,8% dos acessos domésticos à internet são feitos a partir de dispositivos móveis (smartphones ou tablets). Por outro lado o acesso à internet de banda larga via dispositivos móveis aumentou 30,5% face ao segundo trimestre de 2014 – ou seja, há 5,2 milhões de utilizadores de banda larga móvel. Finalmente no final do segundo trimestre de 2015 a fibra óptica significava já 20,8% do total das subscrições de cabo, um crescimento de 51% em relação ao início de 2014. Estes números espelham bem como estas transformações atingem o mercado português.


Segundo a eMarketer, no próximo ano, a nível global, o investimento em publicidade em dispositivos móveis vai ultrapassar o investimento em publicidade feita em computadores tradicionais. Todas estas transformações levam a uma conclusão: o mobile não é apenas mais um canal, é uma forma de distribuição e utilização de comunicação completamente diferente. Conseguir estabelecer a comunicação com as pessoas certas para determinado produto passa a ser mais fácil. O crescimento da utilização de dispositivos móveis proporciona a captação de mais dados, mais fiáveis e mais utilizáveis.


Ao empresas de media – desde as que distribuem informação às redes sociais – apuram cada vez mais os dados que obtêm dos seus utilizadores. Para as marcas isto proporciona uma maneira completamente diferente de contactar os seus consumidores. Com a sofisticação na utilização dos dados já não é só a quantidade de contactos que se procura, é sobretudo a sua qualidade. Está a passar o tempo em que a medida fundamentar era o número de clicks. A quantidade está a ser substituída pela qualidade e o futuro é de quem conseguir utilizar os dados por forma a estabelecer uma relação comercial directa entre o consumidor e as marcas. Nesta panorama a integração de dados entre  publishers, agências e as marcas é fundamental para alcançar objectivos concretos. Este é o novo desafio e a nova fronteira da comunicação publicitária. Os pontos de contacto entre marcas e consumidores deixaram de ser uma hipótese abstracta e já são em muitos casos certezas efectivas. E, á medida que cada vez maior número de pessoas está on line permanentemente, mais isso é uma verdade.


 (Publicado na Buzzmedia de 13 de Outubro 2015)


 


 

outubro 09, 2015

SOBRE A MENTIRA NA POLÍTICA & sugestões avulsas nada políticas

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PROPAGANDA _ Quando se regulamentaram em Portugal as campanhas eleitorais, há quarenta anos, houve a preocupação de tentar garantir, com base na realidade da paisagem mediática da época, um acesso semelhante de oportunidades para as várias forças concorrentes. Proibíu-se a publicidade comercial e estimulava-se a participação da militância nas campanhas. Havia apenas um canal de televisão e a generalidade da comunicação social estava nas mãos do Estado. Os tempos de antena eram momentos de propaganda disputados e os debates entre todas as forças eram imperativos indiscutíveis. Hoje tudo é diferente - os tempos de antena são quase ignorados e deixaram de ter importância; a militância, salvo casos raros, desapareceu da afixação de cartazes e de acções de campanha; e os debates redundaram no desastre que agora se viu. A legislação eleitoral não se adaptou à evolução dos tempos, desde logo nas obrigações impostas aos orgãos de comunicação social uma vez praticamente desaparecido o Estado do sector, menos se adaptou ao surgimento do universo digital. Qualquer partido pode ter um site, um blog, um canal de televisão próprio on line e presença nas redes sociais por um custo inferior ao de uma série de tempos de antena há 40 anos. Um estudo publicado durante a recente campanha estimava em 8,8 milhões de euros o valor que todos os partidos iriam gastar no decurso das respectivas campanhas eleitorais, desde material de propaganda a comícios, passando por consultores, por estudos de opinião e outdoors. A noção de que as campanhas estão proibidas de ter custos de publicidade tornou-se uma mentira consentida, desde logo nos outdoors, mas também online, com a gestão de redes sociais ou estratégias de utilização de dados. Nas campanhas continua tudo como no início do último quarto do século passado. Ou seja, também aqui, o sistema político vive numa mentira.


 


SEMANADA -  Apesar de existirem cem mil novos eleitores as abstenções voltaram a subir; a coligação PàF venceu as eleições depois de ter estado no Governo quatro anos a praticar uma política de austeridade; o PS não conseguiu nem sequer a maioria relativa, muito menos a absoluta que António Costa pretendia; António Costa perdeu no concelho de Lisboa, onde foi Presidente da Câmara vários anos e de cuja governação se gaba; o Bloco de Esquerda passou a ser a terceira força política mais votada; o Presidente da República mostrou que tem uma enorme falta de jeito para procurar consensos; no PS já começaram os sinais de conspiração interna; António Costa  é contra a partilha de soluções governativas entre as principais forças políticas, “a menos que haja invasão de marcianos” - mas na Europa há Governos de coligação com três ou mais partidos em 13 países que não consta terem sido invadidos por extra-terrestres; o PCP anunciou que irá apresentar uma proposta de rejeição do Programa do Governo da coligação; António Costa na campanha havia dito que votaria contra o Orçamento proposto pelo Governo se a coligação ganhasse; o PCP declarou que viabilizaria um Governo PS; o Livre não teve condições para avançar; as exibições de Joana Amaral Dias não tiveram efeito eleitoral; segundo o Programa de Estabilidade, aprovado este ano, o próximo Governo, seja ele qual fôr, terá de incluir no Orçamento de Estado medidas de austeridade de pelo menos 700 milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA - Com a quantidade de cães e gatos que andam pelo Facebook a eleição de um deputado do Pessoas-Animais-Natureza acaba por não ser uma surpresa.


 


VER - Se forem a Madrid não deixem de ver a magnífica exposição de fotografias de Josef Kouldelka, um checoslovaco que fugiu para Paris depois da invasão de Praga pela URSS em 1968 - amplamente documentada na exposição. Em Paris, Koudelka aderiu à agência Magnum e dedicou-se a temas como as migrações ciganas. A exposição (na imagem) está até 29 de Novembro na Fundación Mapfre, mesmo ao pé do Museu Reina Sofia, em Madrid, e traça a carreira de Koudelka, desde os seus tempos a fotografar teatro até às paisagens abrangentes que hoje em dia o inspiram. Ao ver esta mostra pensei como Portugal ainda está fora do roteiro destas grandes exposições internacionais de fotografia. Para além do World Press Photo, das exposições de Sebastião Salgado e de uma ou outra ocasional, o que de melhor se mostra por esse mundo fora passa-nos ao lado - um lugar que no futuro a Fundação EDP bem podia ocupar.


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Outras sugestões - Na Galeria Quadrado Azul, de Lisboa, até 24 de Dezembro, “Make Do”, fotografias de Paulo Nozolino realizadas entre 1974 e 2013, uma selecção que rompe com as mostras mais recentes do artista - Rua Reinaldo Ferreira 20, em Alvalade; Na Casa da América Latina, Avenida 24 de Julho 118 B, Luisa Ferreira apresenta “Quatro Dias e meio. Increíble” - fotografias de uma viagem à Cidade do México.


 


FOLHEAR - A Vanity Fair de Outubro é a edição anual dedicada à lista das personalidades que, na opinião da revista, constituem o “New Establishment”. O líder da lista deste ano é Mark Zuckerberg, que obviamente é a figura da capa da revista e é a personalidade mais jovem que alguma vez liderou a lista. Elon Musk, que era o nº1 do ano passado, está agora na sexta posição e o fundador da Uber, Travis Kalanick ocupa o segundo posto, logo seguido no terceiro lugar por Jeff Bezos da Amazon. O artigo que antecede a lista, “Unicorns And Rain Clouds”, de Nick Bilton, que escreve regularmente  sobre tecnologia para o New York Times, vale a revista só por si, estabelecendo comparações entre esta época de rupturas e saltos digitais com a revolução industrial do século XIX e analisando o que foi a bolha de 1999 e suas eventuais parecenças com a situação actual. Outro artigo que vale a pena ler é sobre o investimento de dois mil milhões de dolares do Facebook na realidade aumentada, numa empresa chamada Oculus Rift, cujo produto, um aparelho que nos permite experimentar viver outras realidades, Zuckerberg aposta que  vai ser o próximo responsável por uma nova transformação na forma como as pessoas se relacionam e comunicam entre si. Por isso comprou a Oculus Rift para ser integrada no ecosistema que o Facebook está a criar. Uma história incontornável.


 


OUVIR - A improvisação está quase sempre no ponto de partida dos discos de Rodrigo Amado - e já vai em 15. Em “This Is Our Language”, o seu novo CD, Amado rodeia-se de músicos notáveis - o saxofonista Joe McPhee, o baixista Kent Kessler e o baterista Chris Cossano. McPhee, que aqui também toca trompete nalguns momentos, além dos diálogos que o seu sax alto proporciona com o sax tenor de Amado, é, aos 75 anos, uma das grandes figuras do jazz de vanguarda. “This is Our Language”, o nome deste CD, parece remeter para “This Is Our Music”, de Ornette Coleman em 1961 - tem o selo da editora Polaca Not Two, foi gravado em estúdio, mas surge na continuidade do concerto realizado pelo quarteto no CCB, em Dezembro de 2012. Rodrigo Amado, que além de músico é também um fotógrafo com obra assinalável, está numa fase particularmente criativa e este disco é uma espécie de manifesto das ideias musicais que professa - a improvisação, o jazz de vanguarda, a tradição de nomes como Coleman ou Albert Ayler, que aqui se faz sentir. Entre as cinco faixas do disco escolho a primeira, “The Primal Word”, a faixa título “This Is Our Language” e a última, “Human Behavior”. São, digo eu, as que mais representam o espírito em que o álbum parece ter sido criado.


 


PROVAR - Ultimamente os novos restaurantes de hamburguers parecem saídos de uma experiência de química nascida na imaginação delirante do professor Pardal. Felizmente no Ground Burger, bem perto do Corte Inglés e da entrada do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, a tradição ainda é o que era. A lista inclui nova hamburguers, que vão do mais simples, só com carne, pickles, cebola, ketchup e mostarda, até ao Chili (obviamente picante) e o Philly, que leva queijo filadelfia. Da lista faz parte uma opção vegetariana e outra para crianças, de tamanho reduzido. Há ainda uma opção Hamburguer do Mês que, essa sim, inclui algumas habilidades. Toda a carne utilizada é de Black Angus, o pão do hamburguer é muito bom,  e os preços vão de 7.50€ até 10.50€, com os acompanhamentos à parte - batatas bem fritas em alho e alecrim, anéis de cebola temperados ou salada. Para beber há uma variedade de milk shakes e cervejas de várias proveniências, incluindo algumas artesanais portuguesas. No caso optei por uma norte-americana Samuel Adams Boston Lager, à pressão, que foi muito bem com o Ground Burguer, receita tradicional que é o emblema da casa. Atenção que, se gosta de carne mal passada, o melhor é mesmo sublinhar o tema - a opção médio-mal não chega. Nas sobremesas há gelados, o café é bom e o serviço é muito acima da média. Fica já dito que neste momento é a minha hamburgueria preferida. A sala é luminosa, confortável e simpática. Avenida António Augusto de Aguiar 148A, telef. 213 717 171.


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DIXIT - “A cada vez menor dimensão do Estado está a retirar ao PS o seu eleitorado natural e a austeridade está a cindir a sociedade entre os que velam pelos seus interesses materiais e os que se radicalizam porque se sentem excluídos e precários” - Fernando Sobral, no Pulo do Gato, aqui no Negócios.


 


GOSTO -  Há mais gente a andar de comboio - nos primeiros oito meses do ano a CP transportou 73,5 milhões de passageiros, mais 2,8% que em igual período do ano passado.


 


NÃO GOSTO - O Benfica oferece prendas aos árbitros no final de cada jogo, incluindo vales para jantares para cada membro da equipa de arbitragem e acompanhante; o Conselho de Arbitragem sabia de tudo e nada disse.


 


BACK TO BASICS - Uma das razões pelas quais as pessoas se afastam da política é porque a verdade é muito raramente o objectivo dos políticos, cuja preocupação é só um bom resultado eleitoral e o poder - Cai Thomas.


 


 

outubro 02, 2015

VOTO OU NÃO VOTO? - VOTO!

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VOTO - Portugal é um país dado a deixar obras por acabar - das capelas imperfeitas até reformas políticas. Neste Domingo o que está em questão é concluir um percurso ou mudar de rumo - embora não se saiba bem em que direcção. Não encaro isto, para citar um amigo meu, como uma tragédia optimista. Não estou satisfeito com todos os passos do caminho feito, mas não me apetece voltar a uma estrada esburacada, que é aquilo que António Costa me aponta, inspirado talvez pelo estado em que deixou as ruas de Lisboa. Durante meses encarei abster-me - mas decidi que, apesar da desconfiança que tenho na maioria dos políticos e no sistema partidário, não quero contribuir para deixar mais uma obra a meio. Para mim a abstenção é um voto em Costa e não o quero dar. Também eu gostava que os partidos da coligaçãp PàF (que raio de nome) fossem sensíveis aos problemas sociais que uma política de contenção da despesa do Estado provoca. Também teria apreciado que fossem menos seguidistas em relação aos falsificadores de motores. Mas prefiro dar o meu voto a quem já sei ao que vai, do que a alguém que tem o ziguezague como linha política e cuja obra passada não me inspira confiança para o futuro.


 


SEMANADA - A delegação permanente do FMI em Lisboa encerrou esta semana, ao fim de quatro anos; a receita do IMI subiu o dobro do que estava previsto; o partido PAN (Pessoas- Animais-Natureza) defendeu a criação do Estatuto Jurídico do Animal; António Costa prometeu um Ministério da Cultura num almoço com  200 artistas;  Catarina Martins defendeu o voto aos 16 anos; Mário Soares apelou ao voto no PS; Gonçalo da Câmara Pereira, líder do PPM, foi à sede da Antral, garantir o seu apoio aos taxistas na luta contra a Uber; António Costa convidou Maria de Belém para uma arruada no Chiado; “já estou velho para ser ministro” - disse o líder do PDR, Marinho e Pinto; Francisco Van Zeller, ex presidente da CIP, afirmou que uma aliança entre o PS e o PSD é a única solução; Rui Tavares, do Livre, apelou a uma união com o PS, BE e PCP; António Costa respondeu que “está sózinho contra a direita unida”; António Costa disse que, se não vencer as eleições, vota contra o Orçamento de Estado que fôr apresentado pelo novo Governo; Passos Coelho disse que, se perder as eleições, não votará contra o Orçamento de Estado que fôr apresentado pelo novo Governo; “isto é tudo muito bonito, mas as sondagens não votam” - afirmou Passos Coelho; Rui Tavares disse que o Livre é “a única novidade na política portuguesa”; há 23 partidos no boletim de voto destas eleições, o maior número de sempre.


 


ARCO DA VELHA - No meio de umas obras inacabadas da Epal, numa rua de Alvalade, bem perto da Avenida da Igreja, nasceu um tomateiro que já está a dar os primeiros frutos.


 


FOLHEAR - Estamos numa época em que o aumento da penetração do digital coincide com o renascer da edição de revistas em papel, tornadas num produto raro, muito elaborado do ponto de vista editorial, de design e de impressão. Todos os meses descubro publicações que se dedicam a temáticas inesperadas com abordagens editoriais surpreendentes. A Kinfolk é uma revista que se publica desde 2011 nos Estados Unidos, quatro vezes por ano, e que se apresenta como dedicada ao “slow lifestyle”, tendo como alvo jovens criativos e jovens profissionais que procuram sugestões para simplificarem as suas vidas, desenvolverem comunidades e passarem mais tempo com família e amigos. É assim que ela se apresenta no site (www.kinfolk.com) e também no Facebook. Atualmente a Kinfolk, além da edição original norte-americana, tem edições autónomas no Japão, China, Coreia e Rússia. Com correspondentes por todo o mundo, a revista, nas suas várias edições, organiza dezenas de eventos que servem para congregar e desenvolver a sua comunidade de leitores. A edição mais recente, que tem por tema de capa a Família, é um exemplo de criatividade editorial: explora temas como a persistência de actividades criativas em famílias que há muito dão atenção a esta área, sugerindo até a existência de um gene criativo; noutro ponto percorre a importância das recordações e da memória, com base em escritos ou imagens. A isto acrescem o relato de um dia na vida de alguém e uma divertida zona de leituras recomendadas chamada “A Minha Mesa de Cabeceira”. Por falar em mesas um dos artigos engraçados desta edição é sobre as múltiplas utilidades que uma mesa pode ter, além das mais óbvias, que são comer ou trabalhar. Com 160 páginas impressas em bom papel mate, a Kinfolk custa 18 dólares na edição original e chega a Portugal a 22 euros - encontrei-a numa Bertrand.


 


OUVIR - Keith Richards, dos Rolling Stones, 71 anos bem vividos, não editava um disco a solo desde 1992. “Crosseyed Heart”, agora publicado, é uma viagem às suas origens musicais, baseada sobretudo nos blues que o têm inspirado. É um daqueles discos em que se sente que o autor teve um enorme gôzo e fez o que quis, tocou o que lhe apeteceu, como lhe apeteceu. Tem temas acústicos a evocarem o grande bluesman Robert Johnson (como a faixa título “Crosseyed Heart”) e outros onde a  guitarra de Richards se destaca de formas diferentes (“Heartstopper”, “Amnesia” ou “Trouble”), todos  a mostrarem a eficácia com que ele a toca. Há mais momentos incontornáveis - a evocação de Gregory Isaacs em “Love Overdue” ou dos Weavers de “Goodnight Irene”, em ambos os casos com Richards a mostrar como fazer uma versão é conseguir ser fiel, mas fazendo algo diferente. Finalmente, num piscar de olho geracional, Richards e Norah Jones fazem um dueto discreto e sedutor em “Illusion”. Ao lado de Keith Richards, em vez dos outros Stones, estão Steve Jordan, Ivan Neville e Waddy Wachtel. Fica feita a prova de que Richards vive para além da fama que ganhou com os Stones, demonstrada a vivacidade da sua guitarra, e reconhecida a sua devoção aos Blues. CD ouvido no Spotify.


 


VER- A obra de Paulo Brighenti vive da explosão de cores e da maneira como as manchas cromáticas criam formas e desenham ambientes. Brighenti (na imagem junto a duas das obras desta mostra) é um dos artistas plásticos mais interessantes da sua geração e tem vindo a fazer um percurso consistente, evolutivo, mas com pontos de ruptura que mostram a sua busca pela exploração de novos caminhos. “Família”, a exposição que esta semana abriu na Galeria Baginsky, evidencia isso mesmo através da alteração da escala que agora explora, da introdução de formas inesperadas e de uma abordagem diferente da utilização das cores, que tem sido uma das facetas marcantes do seu trabalho. A exposição fica na Baginski até 7 de Novembro (Rua Capitão Leitão 51-53).


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Outra sugestão: “Os artistas do KWY na colecção Manuel de Brito”, uma incursão pelas obras de Lourdes de Castro, René Bertholo, João Vieira, José Escada, Costa Pinheiro e Gonçalo Duarte, o colectivo que editou em Paris doze números da revista KWY e que juntava ainda os nomes de Christo e de Jan Voss. Mas nessa revista foram igualmente divulgadas obras de outros artistas, também representados nesta exposição, como Vieira da Silva, Arpad Szenes, Jorge Martins ou Mimmo Rotella, entre outros. No Palácio Anjos, em Algés até 24 de Março.


 


PROVAR - Chama-se Tabernáculo, foi criado e é dirigido por Hernâni Miguel, um histórico da noite lisboeta. Fazedor de tertúlias, foi ele quem pôs de pé o histórico Tagus, no Bairro Alto, durante uns anos ponto de encontro de uma geração de músicos, jornalistas, artistas. Era o sítio onde sempre se encontrava alguém conhecido e o Hernâni tem a arte de conseguir atrair pessoas, juntá-las e tornar os seus espaços como que uma sala de convívio de bons amigos.


Depois de voltas várias, a última das quais na LX Factory, apresenta agora este Tabernáculo, na Rua de S.Paulo, mesmo ao lado do elevador da Bica. A casa propõe petiscos e copos, está aberta do meio dia às duas da manhã - portanto pode-se ir lá desde o almoço à ceia. Tábuas de queijo e de enchidos (estes assados em lenha de azinho), tapas feitas a partir das já afamadas conservas José (eu acho as de cavala uma especialidade), e daqui a algum tempo petiscos africanos para ir descobrindo outros sabores. A ideia é mesmo petiscar, com a companhia de bons vinhos - a casa estabeleceu um protocolo com a Bacalhoa, que tem lá várias propostas, desde o Serras de Azeitão até ao espumante Loridos. Claro que há outros copos - desde o Gin à cerveja, mas para picar um queijo ou enchido o vinho vem a calhar. O espaço é dentro de uma construção tradicional em abóbodas e arcos e, numa zona lateral, está instalada uma Adega Bacalhoa, a evocar uma antiga taberna, com tonéis à vista. E logo à entrada, do lado direito, está uma das grandes atracções da casa - uma máquina de pinball clássica, da série “Star Wars”. Só por isso já vale a pena lá ir. Rua de S. Paulo 218.


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DIXIT - Estou descontente com o presente mas receio o futuro - Ângela Monteiro, cidadã de 30 anos, indecisa sobre o sentido do seu voto.


 


GOSTO - Da ideia do Museu Nacional de Arte Antiga de expôr reproduções exactas de algumas das suas obras mais emblemáticas nas ruas do Chiado, Principe Real e bairro Alto.


 


NÃO GOSTO - Um quinto dos idosos portugueses está em risco de pobreza


 


BACK TO BASICS - “A melhor competência para um profeta é ter boa memória” - George Saville

setembro 25, 2015

ENTRE PROMESSAS & REPUTAÇÕES

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REPUTAÇÃO - Não consigo deixar de olhar para o que se passou na Volkswagen e pensar nas semelhanças que este caso apresenta com a política e o exercício do poder. Passo a explicar: o Presidente de um dos maiores fabricantes automóveis prometeu aos seus accionistas que melhoraria a posição no mercado dos Estados Unidos. Engenheiro de formação, com fama de ser minucioso, veio-se agora a descobrir que durante a sua gestão a Volkswagen tinha encontrado forma de iludir, tecnologicamente , os testes das autoridades norte-americanas sobre a emissão de CO2. A Volkswagen era uma marca associada a valores como a confiança, a qualidade e, desde há uns anos, a uma política ambiental, criando até uma campanha publicitária em torno da série bluemotion, a bandeira ecológica do fabricante de automóveis. A descoberta da falsificação teve um efeito devastador. Embora tarde e apenas sob pressão, Martin Winterkorn, o presidente executivo da Volkswagen, demitiu-se. Não lhe restava outra alternativa: quebrou as garantias associadas ao valor da marca, mentiu aos consumidores, fez uma promessa que não cumpriu. Os efeitos foram devastadores para a marca, a nível de imagem e na capitalização bolsista. Passemos agora para a política: quantos líderes partidários fazem promessas irrealistas só para conseguirem recolher o apoio dos seus accionistas - os eleitores - nessa assembleia geral que é a escolha, pelo voto, entre os vários partidos? Quantos chegaram ao poder e iludiram expectativas, degradaram a imagem dos seus próprios partidos e provocaram um rombo nas finanças do Estado? E, quando tudo isto acontece, que é frequente, o que lhes acontece? - Nada, ou quase nada. Alguns são recompensados com cargos no estrangeiro, outros saltam da política para empresas que os querem como lobistas pelos contactos que possuem, mais do que pelas características de gestão que têm. Se estão a pensar que o mundo anda às avessas são capazes de ter razão. Um país não é uma empresa; mas às vezes era bom que os actos praticados tivessem consequências.


 


SEMANADA - Entre 2011 e 2014 emigraram 485 mil portugueses; a Arábia Saudita está a contratar médicos portugueses a 12 mil euros por mês; A GNR detectou já este ano 135.213 condutores em excesso de velocidade, um aumento de 10% em relação a igual período do ano passado; um décimo dos activos da PSP tem 55 anos ou mais; as multas por cobrar relativas a falta de bilhete nos transportes públicos atingiram 9,5 milhões de euros no primeiro semestre deste ano; na cadeia de Ponta Delgada há uma cela com 50 detidos, dois duches e duas sanitas; actualmente há mais de 14 332 detidos em todo o país, dos quais 11 848 estão condenados e os restantes estão em prisão preventiva; um detido custa ao estado 48 euros por dia; este ano já se registaram dez suicídios nas prisões; mais de 700 condutores são apanhados todos os dias com alcool em excesso; em Julho as poupanças em depósitos à ordem atingiram o valor recorde de 36.051 milhões de euros, cerca de 60% dos activos da Banca; em 2014 os portugueses gastaram 2,9 mil milhões de euros em compras online; a dívida pública portuguesa atingiu os 290 mil milhões de euros em Julho, um aumento de 1300 milhões face ao mês anterior; Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, é a líder partidária que melhores audiências conseguiu nos debates realizados nos canais informativos do cabo; o seu debate com Paulo Portas foi o mais visto da série efectuada; Patti Smith deu um concerto de arromba em Lisboa e antes de subir ao palco quis ir visitar a casa museu Fernando Pessoa, poeta de que se confessou leitora há muitos anos; há 26 cursos do ensino superior a que nenhum aluno se candidatou; a pré campanha eleitoral já deu origem a 32 processos contra os media, uma delas, de Marinho Pinto, contra o humor.


 


ARCO DA VELHA - Apanho um taxi no aeroporto, dou a morada, é relativamente perto, no centro de Lisboa; o taxista começa a dar uma volta estranha, pergunto-lhe onde vai, diz que é para fugir ao trânsito e começa a levantar a voz e a perguntar se eu quero parar e sair. É isto que dá força à Uber.


 


FOLHEAR - Mário Assis Ferreira dirige a revista “Egoísta” desde que ela começou a ser editada há 15 anos. Foi graças ao seu apoio, através da Estoril-Sol, que o projecto ganhou pernas para andar e forma para ganhar os 70 prémios nacionais e internacionais que alcançou ao longo dos anos. A partir de um projecto gráfico de Henrique Cayatte e de um conceito editorial de Patrícia Reis, a “Egoísta” afirmou-se como uma revista única no panorama português, um espaço onde escritores, jornalistas, desenhadores, fotógrafos e artistas plásticos puderam mostrar o seu trabalho. Edição a edição Mário Assis Ferreira escrevia o que observava, e logo nas primeiras páginas reflectia sobre o que iríamos ver ao folhear cada número da Egoísta. São 60 textos pessoais, que o levaram a escrever sobre o juízo , a noite, o altruísmo, a cidade e a utopia, o amor, a fotografia, a publicidade e muitos outros temas. Agora essa escrita está reunida no livro “Egoísta Mas Não Só- textos de Mário Assis Ferreira”, editado pela Gradiva. No prefácio Guilherme de Oliveira Martins lembra que  “os textos que aqui se reunem constituem um desafio à reflexão para além das aparências” e sublinha que no caso de Mário Assis Ferreira  “é a procura do talento e do génio que animam a sua paixão pela vida e pela literatura”.


 


VER - É possível fazer uma banda desenhada em azulejo? Já se sabia que o azulejo permite contar uma história - o Palácio de Fronteira, por exemplo, tem salas que o demonstram. Em Lisboa há uma galeria que se dedica ao azulejo, convida artistas plásticos para usarem este suporte e os resultados são frequentemente surpreendentes. É a Galeria Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C. Na semana passada inaugurou uma mostra de dois artistas: Andreas Stocklein, um dos habituais da Galeria, que aqui apresenta um trabalho inesperado e cativante; o outro é Pedro Proença, que foi quem me fez recordar das bandas desenhadas e do seu método narrativo. Sob o título comum “O Azulejo E A Palavra”, expõem-se diferentes visões do diálogo entre o suporte azulejo e a história que cada um conta. Os painéis de Pedro Proença, de 6, 8 ou 12 azulejos, são exemplos de uma explosão de observação e do prazer sentido em trabalhar um suporte de comunicação diferente. E são a grande, surpresa da série de exposições do Bairro das Artes 2015.


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Outras sugestões: em Lisboa  uma exposição de um artista em início de carreira, Jaime Welsh, na Galeria Alecrim 50, rua do mesmo nome; em Évora, no Palácio Cadaval, “Dá Licença?”, de Mauro Pinto; no Porto, Palácio dos Correios, exposição de João Penalva; em Braga, os Encontros da Imagem, que este ano assinalam a sua 25ª edição.


 


OUVIR - O australiano Robert Forster foi um dos fundadores dos Go Betweens e a sua carreira a solo deu-nos o maravilhoso  “The Evangelist”. Desde há sete anos que Forster não editava um disco de originais e entreteve-se a produzir discos alheios e a escrever sobre música - reuniu os escritos dispersos no livro “Ten Rules Of Rock ‘n’ Roll”. “Songs To Play”, já distribuído no mercado português é o seu novo trabalho, dez canções intrigantes e sedutoras. A voz de Forster não é propriamente um prodígio de harmonia, mas a forma como constrói as canções ultrapassa bem essa questão. “Learn To Burn”, a canção inicial, tem logo um aviso, que se aplica bem à maneira de cantar do autor: “you can miss details when you’re in a hurry.” Há aqui influências desde a bossa nova de “Love Is Where It Is” até aos Velvet Underground, em “Disaster In Motion”, com a sonoridade do orgão e a percussão a criarem o ambiente.  Mas o maior encanto do disco são as palavras acutilantes, as observações certeiras, os textos destas canções, marcantes e que nos fazem voltar a elas com prazer. Um belíssimo disco para ficar na prateleira dos que se repetem com maior frequência.


 


PROVAR - Habituei-me há muito a gostar do Castro Elias, o primeiro restaurante que Miguel Castro e Silva abriu quando veio para Lisboa, na Avenida Elias Garcia, do lado da Fundação Gulbenkian. Com o andar dos anos Miguel Castro e Silva foi abrindo outros espaços, mas foi sempre seguindo o que se passa neste seu primeiro marco lisboeta. Diogo Siqueira, desde há uns anos a olhar vigilantemente sobre o Castro Elias, tem sabido manter a qualidade e garantir o bom atendimento. Este verão a casa foi remodelada, algumas mexidelas na decoração, uma carta diferente mas com a mesma qualidade e a continuar a proporcionar a opção entre petiscar ou tomar uma refeição mais substancial. Em incursões recentes comprovei a qualidade dos peixinhos da horta, do arroz de fígado de patos com míscaros e também de um bacalhau à braz cremoso e saborosíssimo. As sugestões de vinhos do Diogo são sempre boas e de preço justo - desta vez foi um Dão Pedro Cancela. Para rematar é difícil não resistir àquela que é provavelmente a melhor tarte de laranja de Lisboa, um dos poucos doces que me entusiasmam. Avenida Elias Garcia 180, telefone 217 979 214.


 


DIXIT - “Se fôr preciso correr com Passos e Costa para os partidos se entenderem, que corram” - João de Deus Pinheiro, falando sobre a necessidade de uma maioria que viabilize reformas estruturais.


 


GOSTO - Do novo site de estatísticas para crianças, elaborado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, um trabalho exemplar que pode ser visto em www.pordatakids.pt


 


NÃO GOSTO - Que se gaste mais tempo nos canais de informação a discutir o Porto-Benfica do que a noticiar as eleições gregas.


 


BACK TO BASICS - Devemos sempre desconfiar de promessas mirabolantes - Theodore Parker.





 





setembro 18, 2015

CAMPANHA ELEITORAL OU RECREIO?

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RECREIO - Começou a campanha eleitoral; os Gato Fedorento voltaram a fazer um programa; no Bairro dos Actores decorre a acção da nova versão do clássico “O Costa do Castelo”; o “Prós e Contras” está a ponderar dedicar uma das suas próximas emissões à luta livre; o modelo de debates e as suas audiências mostram como a legislação está completamente desajustada da realidade da evolução dos media; mais de um milhão de espectadores estiveram a ver séries e programas diversos no cabo à hora do debate e ignoraram soberanamente a disputa televisiva que provocou que o mesmo programa fosse transmitido em simultâneo nos canais generalistas -  e que foi a primeira experiência integral de unicidade na televisão portuguesa desde que há canais privados; o PS tem-se multiplicado em ataques aos jornalistas nesta campanha eleitoral cada vez que são colocadas perguntas incómodas a António Costa ou são debatidas questões que desagradam ao diretório do Largo do Rato; Sócrates tem sido omnipresente na campanha, desde opiniões emitidas até fotografias distribuídas, passando por documentos saídos do baú em hora conveniente e até a utilização de uma fotografia sua numa campanha publicitária de uma universidade brasileira; o facto de Catarina Martins ser até agora a figura-revelação da campanha eleitoral diz tudo sobre o estado da nação; o partido de Joana Amaral Dias prometeu “pôr tudo a nu”; o Livre queixa-se de não ser notícia; Jerónimo de Sousa apelou ao voto das mulheres; tudo indica que o dia a seguir às eleições vai ser uma grande dor de cabeça; não se vislumbra como pode surgir algum bom senso em questões como as pensões, a carga fiscal e os abusos do Fisco quando a coligação PAF e o PS fogem como o diabo da cruz de questões concretas; uma quota-parte importante da situação que atravessamos é da responsabilidade de uma Europa, de que não se fala na campanha, e que está a regressar em passo acelerado à situação pré-Schengen - ou seja, a desfazer-se.


 


SEMANADA - As instituições financeiras concederam mais de 2,77 mil milhões de euros em crédito ao consumo até Julho, um montante 500 milhões de euros acima do período homólogo do ano passado; os novos créditos para comprar carro, despesas com educação e saúde já duplicaram este ano as dívidas das famílias; a Segurança Social teve um excedente de 439 milhões de euros no primeiro semestre deste ano; a receita do imposto sobre o tabaco teve uma queda de 82 milhões de euros nos sete primeiros meses do ano; o militar da GNR que foi protagonista de um show de strip tease foi absolvido da acusação de uso indevido de fardamento e armamento de serviço no espectáculo; Manuel Maria Carrilho vai começar a ser julgado , acusado de violência doméstica; o Colégio Militar inaugurou uma camarata para raparigas;   em Lisboa abriram dois hotéis por mês desde Janeiro; o Algarve teve uma ocupação de 93,5% em Agosto; em Vila Real registou-se um morto que caíu, numa procissão, de um andor de dez metros de altura; na Moita registou-se um morto numa largada de toiros; Portugal está entre os países europeus onde as aulas começaram mais tarde; continua a aumentar o número número de acções que negoceiam abaixo de um euro na bolsa portuguesa; 33,3% dos 18 títulos que compõem o PSI-20 têm cotações de cêntimos e no PSI Geral o número de acções de baixo valor é de 51,1% do total.


 


ARCO DA VELHA - O PCP emitiu um comunicado que justifica a intervenção violenta de seguranças da Festa do Avante por estes terem detectado um homem envolvido em sexo oral com outro.“Disseram-me que não há camaradas paneleiros, enquanto me agrediam com força” - afirmou um dos envolvidos, espanhol, em entrevista ao “i”.


 


FOLHEAR - Nos últimos anos têm surgido uma série de revistas de viagens de um tipo diferente das que marcaram uma época , como a Condé Nast Traveller. Entre as novas estão publicações como a “Lost”, a “ernest”, a “Elsewhere” ou, noutra escala, o regresso da mítica “Holiday”, um ícone do final dos anos 50 e do início dos anos 60. Na realidade é possível contabilizar pelo menos umas 15 revistas deste género - a maioria com mais texto, uma espécie de retorno à literatura de viagens. Há quem diga que esta passagem do digital para o papel impresso é uma forma de evolução de uma geração de bloggers. Muitas das revistas publicam-se três ou quatro vezes por ano, algumas duas, semestralmente. Falam de um país, de regiões ou do mundo. O preço de capa pode chegar aos dez euros, é frequente que o desenho e ilustrações sejam mais utilizados que as fotografias produzidas que marcaram uma época. Grande parte destas novas publicações têm circulações modestas, foram lançadas com capitais próprios de editores independentes ou através de crowdfunding. Na realidade há uma nova vaga de revistas em papel, cuidadosamente editadas e impressas, criativamente paginadas, que se tornaram quase um produto de luxo, de prestígio, como que uma forma de imprensa artesanal muito cuidada. Eu, cá por mim gosto da ideia, tenho a tentação de imaginar uma revista assim por cá, a falar apenas de recantos escondidos de Portugal. No entretanto vou-me deliciando a ler a”Elsewhere - A Journal Of Place”, lançada este ano em Berlim.


 


VER - Martin Parr é um dos grandes fotógrafos contemporâneos, membro da Magnum, uma das mais prestigiadas agências de fotografia do mundo.  Depois de ter feito exclusivamente trabalhos a preto e branco durante vários anos, a partir de 1982, cativado pelo trabalho de William Eggleston e Joel Meyerowitz, passou a fotografar só a cores, primeiro com filme e, nos últimos anos, com máquinas digitais. Desenvolveu uma técnica pessoal, baseada na saturação cromática e na utilização de ring flash, um flash circular que funciona à volta da objectiva. Afirmou-se como um dos mais interessantes e criativos fotógrafos documentais dos últimos anos, tendo realizado uma série de ensaios fotográficos que se tornaram referências, entre os quais a série dedicada às praias, da qual podem ser vistas algumas fotografias em Lisboa, na Barbado Gallery. A série das praias decorre aliás de uma das suas obras mais marcantes, o ensaio sobre turismo de massas - a que se juntam trabalhos sobre a classe média, sobre o consumismo ou pura e simplesmente o documentário fotográfico sobre lugares, como é o caso do seu mais recente livro, dedicado a Hong-Kong. Na obra de Parr há um factor constante: mesmo quando estão formalmente ausentes dos enquadramentos, as pessoas são o centro das suas imagens, seja pelo momento em que as captura, seja como as organiza na imagem, seja porque se sente em algum lugar que sem uma pessoa ter passado por ali nada daquilo faria sentido. Além disso tornou-se um dos maiores coleccionadores de livros de fotografia e editou já três volumes de “The Photobook - A History”. Com esta exposição, a primeira dedicada a um só autor, a Barbado Gallery, inaugurada no início do Verão, em Campo de Ourique, posiciona-se de forma clara acima do que tem sido a actividade de galerias dedicadas à fotografia. As 26 fotografias em exibição até 11 de Novembro foram realizadas entre1985 e 2005, mostram como é possível mostrar pessoas para além da aparência, são uma celebração do instante decisivo em que foram tiradas e isso é o que é as torna especiais. Todas as fotografias expostas são para venda e alguns coleccionadores já manifestaram a intenção de apostar na sua aquisição - o investimento em obras de Martin Parr tem mostrado ter uma valorização interessante. Na imagem João Barbado e Martin Parr no dia da pré inauguração, junto a uma das fotografias - aqui vistos por Armando Ribeiro. A Barbado Gallery fica na Rua Ferreira Borges 109-A.


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OUVIR - “Freedom & Surrender”, o quinto disco de Lizz Wright, fica a meio caminho entre as águas tranquilas do smooth jazz e os momentos de inquiteação da soul - contraste muito bem mostrado em “Right Where You Are”, um dueto arrebatador com Greagory Porter. As canções são, na maioria, originais da própria Lizz Wright, nalguns casos em colaboração com Jesse Harris, um dos pilares da carreira de Norah Jones. Mas há também versões de outros autores, como “River Man” de Nick Drake ou “To Love Somebody”, dos irmãos Gibb/Bee Gees, que ganhou um tratamento gospel. Se escolhesse uma só canção ía direito para “Here And Now”, uma amostra de uma produção perfeita, em que a voz de Wright e o Fender Rhodes de Dan Lutz se combinam de forma exemplar. CD Concord/ Universal.


 


PROVAR - Muito boa surpresa o novo restaurante de cozinha japonesa tradicional localizado no Hotel Turim Saldanha Hotel- o Tsubaki, que conta com a orientação do chef Paulo Morais.  O restaurante é dedicado à cozinha japonesa contemporânea, não apenas a sushis - assim é possível encontrar sopas, massas, grelhados na chapa e assados. Numa recente visita o facto de estar uma boa mesa de japoneses na sala, que não estavam alojados no Hotel, serviu logo de boa recomendação. Provou-se uma sopa miso com amêijoas, gengibre e coentros, uma  espetada de vieiras grelhadas com ar do mar, gyozas de frango com molho picante, rolos de sapateira com pepino algas wakame e gengibre e uma salada de ceviche, o peixe marinado em lima e malagueta. É uma cozinha atrevida, que incorpora também clássicos como a sopa de massa ramen ou diversas tempuras. Os doces foram a parte menos conseguida da experiência. Mas todos os pratos experimentados superaram as expectativas. A garrafeira é pequena mas honesta nas escolhas e nos preços. Há também menus especiais de almoço e ao fim de semana o restaurante está apenas aberto ao jantar. Turim Saldanha Hotel, Rua Latino Coelho 23, telefone 210492320. Tsubaki, já agora, quer dizer Camélia, uma flor que foram os portugueses a levar para o Japão.


 


DIXIT - “Nu, só perante o duche” - Jerónimo de Sousa, sobre a candidata que se despiu para revistas


 


GOSTO - Da iniciativa “Bairro das Artes” que envolve 30 galerias e espaços de artes entre o Largo do Rato e o Cais do Sodré


 


NÃO GOSTO - Regista-se mais de uma queixa por dia de violência contra profissionais de saúde.


 


BACK TO BASICS - A política é a arte de procurar uma divergência e exacerbá-la, seja ela importante ou não, e propôr o remédio errado para a situação que esteve na origem de tudo - Ernest Benn