Hoje, que é dia dos blogues, aqui estou a recordar que me ando a passear nesta esquina do rio desde 2003. E obrigado a todos que me seguem.
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
agosto 31, 2014
agosto 29, 2014
SOBRE OS DRONES, A POLÍTICA E MANEIRAS DE VER UMA CIDADE
DRONES - Chega agora aquela altura do ano em que os partidos criam uns acontecimentos a que chamam universidade de verão, ou qualquer outra coisa do género, para dar um ar de trabalho e respeitabilidade. No geral é perpetuamente convidado o mesmo conjunto de notáveis, em cada partido há o cuidado de ir buscar um notável do partido ao lado, e todos ficam felizes repetindo quase todos os anos os mesmos relatos das suas experiências passadas. Poucos são no entanto os que falam das realidade presentes e dos desafios futuros - o maior dos quais é a reforma do sistema político e partidário, assunto declarado tabu apesar de todas as iniciativas não partidárias em curso sobre essa matéria. Toca-se ao de leve no tema mas verdadeiramente a reforma do sistema não é interiorizada como uma prioridade - se o fosse o arco parlamentar provavelmente mudaria. É interessante como os partidos são incapazes de reflectir sobre si próprios - por exemplo sobre esse “case study” de conspiração interna em que se tornou o PS ou sobre a aliança entre negócios e política que toca todo o arco da governação de forma mais ou menos acentuada. Mas não os ouço a reflectir sobre as expectativas dos eleitores, sobre as possibilidades que a análise dos dados digitais hoje possibilitam a nível da acção política, sobre a importância da adopção de estudos de opinião à marcação da agenda política ou sobre a importância de saber comunicar de forma efectiva, em relação aos eleitores, por forma a mobilizá-los e não apenas aos militantes com o objectivo de os entreter, que é a prática corrente. Há quem demonize o marketing político, mas ninguém assume uma discussão séria sobre esta questão: é mau fazer marketing na política? Ou é preferível criar drones de falatório e politiquice, de que Marques Mendes deve ser o mais genuíno exemplo?
SEMANADA - Em Portugal registam.se, por ano, dez mil incêndios urbanos que provocam 60 mortes; a Provedoria de Justiça deu razão a queixas contra a CRESAP, uma comissão criada pelo Governo e liderada por João Bilhim para escolher dirigentes no Estado, e aponta violações da lei, critérios "arbitrários" e "conceitos indeterminados" na seleção e nos concursos; João Bilhim referiu que a Cresap “é um sonho do senhor primeiro-ministro”, acrescentando que “numa cultura da Europa do Sul, ou seja, do azeite, não é fácil aceitar a lei do mérito e a intervenção de uma entidade administrativa independente”; Antonio José Seguro admitiu não poder garantir que vá baixar impostos se fôr primeiro-ministro; António Costa quer debater menos que Seguro - Costa propõe debates televisivos de 25 minutos e Seguro propõe 45 minutos; a hotelaria algarvia registou, no primeiro semestre deste ano, 6,5 milhões de dormidas, mais 13,1 por cento do que no período homólogo; a dívida da Câmara de Lisboa ultrapassa os 500 milhões de euros, mais do dobro da dívida do Porto; Vila Nova de Poiares, Portimão, Aveiro e Nazaré são municípios que estão com a corda na garganta e já mostraram interesse em recorrer a uma linha de emergência do Governo para pagar salários, transportes escolares e outros pagamentos essenciais mais urgentes; o Museu do Brinquedo, em Sintra, vai encerrar Domingo por falta de apoios.
ARCO DA VELHA - A KPMG, auditora do BES, recusou-se a assinar as contas do banco relativas ao primeiro semestre deste ano.
FOLHEAR - O número de Setembro da revista “Vanity Fair” é a edição anualmente dedicada ao Estilo, e que inclui a escolha dos que são considerados como os mais elegantes e mais bem vestidos - aqui fotografados por Mario Testino. Mas as principais matérias de interesse da revista têm a ver com outros estilos. Destaco o artigo sobre o projecto criado pelo arquitecto Frank Gehry em Paris, no Bois de Boulogne, para albergar a Fundação Louis Vuitton - descrito pela revista como um edifício diferente de qualquer coisa que antes se tenha conhecido, “um casamento de ambição cultural com empreendedorismo” . Faço questão de recordar que Lisboa não tem um projecto de Frank Gehry - por sinal fantástico (tive ocasião de o conhecer) - paredes meias com a Avenida da Liberdade, por culpa principal desse nefasto Presidente da República chamado Jorge Sampaio, que vetou a utilização de verbas do Casino e do Jogo para a sua construção. O projecto de Gehry para Lisboa seria construído, se Sampaio não o tivesse impedido, no local onde continuam apenas a existir os destroços do Parque Mayer, que António Costa e Sá Fernandes persistem inabalavelmente em manter - mais um sinal da actuação de Costa na cidade que desgoverna, em estágio para querer fazer o mesmo ao país. Eu gostava que em Portugal volta e meia se fizesse a memória de algumas coisas e se investigasse, numa boa reportagem, o que levou um Presidente da República a impedir aquilo que seria uma obra de arquitectura marcante para Lisboa, com um enorme impacte no seu posicionamento internacional. Talvez nessa altura tivéssemos umas páginas da “Vanity Fair” a olhar para Lisboa.
VER - O Sundance Channel foi criado por iniciativa de Robert Redford em 1996 com o objectivo de exibir filmes de autor, documentários, séries, curtas metragens e reportagens. O projecto cresceu, criou um festival de audiovisual - o Sundance Film Festival - que depressa se tornou uma referência. Na Europa o canal Sundance apenas tem uma versão na Holanda, por sinal o primeiro país a ter televisão privada num continente dominado por um serviço público cada vez mais arteroesclerótico. O Sundance é uma iniciativa privada, que além de Redford, contou com a CBS e a Universal, até ser comprado em 2008 pela Rainbow Media. Apesar de não poder ser visto em Portugal, uma pesquisa no YouTube revela muitos dos seus programas e, sobretudo, permite aceder a uma das suas séries documentais de referência, “Iconoclasts” , exibida entre 2005 e 2012, e sempre patrocinada por uma marca de vodka premium. O conceito é simples - colocar duas personagens criativas e conhecidas, de áreas diferentes ou não, a falarem uma com a outra sobre o que fazem.. No YouTube encontra os episódios do músico Eddie Vedder com o surfista Lair Hamilton, da cantora Fiona Aplle com o realizador Quentin Tarantino, da designer e estilista Stella McCartney com o artista plástico e fotógrafo Ed Ruscha, de Paul Smith com Jamie Oliver (na foto) e, sobretudo, os episódios do próprio Robert Redford a conversar com Paul Newman. Imperdível - e qualquer destes programas, aposto, é mais barato de produzir que uma transmissão de um jogo de futebol desses que passam a todaa hora no serviço público. É isso que me chateia.
OUVIR - Lana Del Rey é uma provocadora que agora se apresenta como guardiã de memórias do passado na música pop de hoje. Só assim se compreende a forma como ela evoca filmes antigos, como percorre a estética de imagem e até da música dos anos 60 e 70. A canção que dá nome ao álbum, “Ultraviolence”, repete a frase ““He Hit Me (And It Felt Like a Kiss)”, que era o título de um original de Carole King e Gerry Goffin, gravada pelos Cristals e Phil Spector nos anos 60. Muita da força deste disco, ao nível dos arranjos, da intensidasde das guitarras e da sonoridade criada deve-se a Dan Auerbach, dos Black Keys, que exerceu a função de produtor. É sabido que os Black Keys gostam dos anos 70, mas este disco é mais que uma ida ao passado, é como um perverso exercício de nostalgia, nas letras e na música. Os temas mais marcantes são“West Coast”, “Brooklyn Baby”, “Money Power Glory”, “Old Money” e claro “Fucked My Way Up To The Top” e “Cruel World”, a faixa de abertura. Em todos se nota o mesmo recado - um mundo que se foi tornando num museu confuso, em que a cultura se repete e em que todos copiam todos e imitam quem podem. Aqui está um álbum intrigante e sedutor.
PROVAR - Jorge Rodrigues é um dos chefs de cozinha algarvios que mais se tem destacado nos últimos anos. Combina a fidelidade às tradições gastronómicas da sua região com uma assinalável capacidade criativa e posiciona-se numa cozinha de inspiração mediterrãnica - um dos seus prémios diz respeito à forma como elaborou um tamboril em molho de carabineiro suado na cataplana. É ele o responsável pelo restaurante “O Convento”, localizado no Convento das Bernardas, em Tavira, reconstruído em 2010 pelo arquitecto Souto Moura, e que era o maior convento do Algarve. O restaurante fica numa sala ampla e tem uma lista tentadora. Nas entradas destaco as ostras da Ria Formosa ao natural, fresquíssimas, e um carpaccio de polvo com saladinha montanheira e vinagrete de coentros. Na parte mais substancial, quem quis as ostras de entrada avançou para o polvo de Tavira confitado sobre esmagada de batata doce e misto de legumes e quem começou pelo carpaccio escolheu os filetes de cavala na chapa com açorda de ostras e aroma a poejo. Do princípio ao fim tudo excedeu as expectativas - desde a manteiga de amendoa no couvert, até á troliogia de amendoa, alfarroba e figo na sobremenesa, acompanhada por um shot de medronho. A lista ds vinhos é assumidamente algarvia e o destaque da casa vai para a produção da Quinta do Barranco Longo. Na ocasião bebeu-se o branco, que esteve à altura da refeição servida. É sem nehuma dúvida o melhor restaurante do Algarve a que fui nos últimos tempos. O Convento, Rua Dom Paio Peres Correia, Tavira, telefone 281 329 040.
DIXIT - “Sou uma carta fora do baralho” - Marcelo Rebelo de Sousa
GOSTO - Depois de quatro anos de protestos dos utilizadores dos parques naturais do país, o Governo aboliu a polémica portaria que implicava o pagamento de uma taxa de 152 euros para a realização de uma simples caminhada.
NÃO GOSTO - O Jardim da Graça, prometido pelo executivo de António Costa para 2009 primeiro e para 2013 depois, continua com as obras paradadas desde há meses mas José Sá Fernandes arranjou tempo e recursos mandar retirar do Jardim da Praça do Império os brasões das ex-colónias.
BACK TO BASICS - “Não posso fazer mudar a direcçlão do vento, mas posso ajustar as velas do meu barco de maneira a conseguir chegar ao meu destino” - James Dean
agosto 27, 2014
TEMPOS DESFASADOS
VIVER - Lembram-se de como era a vida antes da internet? Qualquer dia ninguém que seja profissionalmente activo se vai recordar do que era a vida antes dos emails, dos motores de busca, das redes sociais, dos smartphones e dos tablets. Hoje podemos comunicar, trabalhar, estudar, escrever, ter música, imagem e texto em qualquer local num pequeno aparelho. Podemos ouvir uma selecção de canções em streaming ou numa rádio on line, ou percorrer a nossa própria colecção de discos na cloud do iTunes. Podemos fotografar e partilhar instantaneamente a imagem em diversos sistemas, a começar pelo Instagram. Temos livros digitais e podemos viajar com uns quilos a menos. Podemos ler a nossa revista preferida mesmo num local recôndito sem ir à procura de um quiosque bem fornecido de imprensa internacional. Podemos percorrer de forma virtual uma exposição num dos grandes museus internacionais. Tudo isto faz diferença na maneira como trabalhamos mas também como vivemos os nossos períodos de descanso e como procuramos aprofundar o nosso conhecimento. Em 1994, há 20 anos, a Internet dava os primeiros passos, não havia Google, nem iPhone, nem Dropbox, nem muitas das outras coisas com que hoje convivemos em tablets e smartphones. Mas enquanto tudo mudou nas nossas vidas, na nossa aprendizagem, no nosso trabalho e no nosso lazer, pouco - muito pouco - mudou na forma de os políticos fazerem política, de os partidos funcionarem e do sistema político organizar e mediar o exercício do poder. Estamos numa época em que coexistem dois mundos diferentes - um que faz parte do nosso dia a dia e outro, antigo, que nos governa. Ou, como dramaticamente se tem visto, nos desgoverna.
SEMANADA - A nova proposta de Lei da Cópia Privada está feita de tal forma que penaliza os criadores que utilizem sistemas digitais, taxando o equivalente de hoje em dia do papel, das telas, da película fotográfica ou dos instrumentos musicais; a Apple lançou uma campanha de publicidade nalgumas revistas norte-americanas, como a New Yorker, que exemplifica o potencial e a utilização do iPad no processo criativo de músicos, realizadores, coreógrafos e artistas plásticos; o valor dos empréstimos sem garantias feitos pelo Montepio ascende a dois mil milhões de euros; o número de vítimas mortais de acidentes de viação que consumiram estupefacientes aumentou nos últimos dois anos; Portugal tem o quinto maior défice comercial da Uniao Europeia; a crise provocou um rombo de 14% no PIB português; o PS tem menos simpatizantes que militantes - de acordo com os numeros divulgados após um mês de angariação o número de simpatizantes do PS não ultrapassa um terço do número de militantes; na distrital de Braga do PS verificou-se um surto de pagamentos de quotas em atraso que até pagou as quotas de pessoas entretanto já falecidas;
uma mulher de 64 anos, de uma povoação perto de Ferreira do Zêzere, recebeu uma carta do Ministério da Defesa a convocá-la para o dia da Defesa Nacional, o equivalente à antiga inspecção militar; o Ministério da Educação colocou nos seus quadros uma professora que completa 70 anos no dia do arranque das aulas, o mesmo em que por força da sua idade terá obrigatoriamente que se reformar; dois em cada três portugueses aposta na lotaria e em jogos de sorte, revela um estudo da Marktest; no primeiro semestre de 2014 mais de três milhões de portugueses acederam a sites de rádio a partir de computadores pessoais.
ARCO DA VELHA - Um doente do Hospital de Tomar que, por recomendaçāo do médico de família, pediu em Junho uma consulta urgente de cardiologia, recebeu em casa uma carta a marcá-la para Fevereiro de 2016.
OUVIR - A “Intima Fracção” começou por ser um programa de rádio, evoluíu a certa altura para um podcast que vivia no site do semanário “Expresso” e hoje em dia pode ser encontrada em alguns locais virtuais, indicados no Facebook (www.facebook.com/IntimaFraccao). Francisco Amaral, o seu criador e autor, diz que hoje em dia os arquivos de som que vai publicando se assemelham mais a uma banda sonora de estados de espírito que à forma original de programa de rádio, baseado numa playlist muito especial, com uma apurada selecção. Na “Íntima Fracção” as palavras têm um peso relevante, directamente ligado à música. Um dia destes, avisa Francisco Aamaral, as imagens, como esta que aqui reproduzo, e que foi retirada do seu Facebook, hão-de fazer parte do conceito. A “Íntima Fracção“ é um espaço de bom gosto, descoberta e serenidade musical num mundo em que os sons se tornam, na maior parte das vezes, numa amálgama desconexa. Aborrece-me que nenhum site informativo a aloje e divulgue como ela merece.
PROVAR - Graças à revista “Time” fiquei a saber que comer manteiga afinal não é um risco para o coração - e assim a torrada matinal com manteiga passou a saber ainda melhor. Vem isto a propósito da variação que ao longo dos últimos meses tem surgido sobre o que se deve e não deve comer. Algumas gorduras, em tempos amaldiçoadas, são agora toleradas. Dietas que exigiam sacrifícios gigantescos e recomendavam alimentos exóticos vão sendo substituídas por recomendações mais racionais. Vejo um número apreciável de artigos recentes e fico baralhado - o que ontem fazia mal hoje em dia pode ser ingerido e aquilo que dantes era recomendado afinal pode ter riscos. Eu compreendo que a indústria agro-alimentar movimenta milhões, mas gostava que não existissem tantos cientistas a criarem confusão e a promoverem estudos contraditórios de ano para ano, conforme os intersses de quem financia os seus estudos - que por vezes me parecem inúteis. Isto deixou de poder ser tratado como ciência, passou a ser roleta russa.
VER - Graças ao meu iPad estou a escrever esta crónica em férias, bem a sul, perto de Tavira, e ao mesmo tempo estou a visitar o magnífico site do MoMA - o Museum of Modern Art, de Nova Iorque. Destaco a exemplar exposição virtual dedicada à obra de Louise Bourgeois, que está em contínua construção, e que, quando ficar concluída, terá 3500 imagens do trabalho da artista - só por si vale a pena visitar esta secção do site do MoMA, acessível através da homepage do museu, entrando na área "explore". Delicio-me com o que vejo da exposição, inaugurada há poucos dias, “The Paris Of Touluse-Lautrec: Prints and Posters”, que nos permite imaginar como seria Paris no final do século XIX. Noutro local do site do mesmo museu vejo que quem fôr a Nova Iorque até 1 de Setembro ainda poderá visitar no MoMA a exposição de Jasper Johns, e quem lá fôr a partir de 12 de Outubro poderá já visitar a exposição de colagens de Henri Matisse. O MoMA é um Museu sempre surpreendente e o seu site é um exemplo de referência da adaptação de uma instituição à vida no tempo digital - www.moma.org.
FOLHEAR - A revista "The New Yorker" é um caso sério de estudo para quem se interessa pela capacidade de adaptação de um título de imprensa, mantendo no entanto sempre o essencial das suas características e nunca desiludindo o núcleo duro dos seus leitores. Como o nome deixa antever a revista é uma espécie de manual de sobrevivência para os nova-iorquinos que prezam um estilo de vida cosmopolita, informado e ligado às artes. A Wikipedia descreve-a como uma revista dedicada à reportagem, comentários, crítica, ensaio, ficção, sátira, cartoons e poesia. É publicada desde 1925 pela Condé Nast 47 vezes por ano (há cinco números duplos). Destaque ainda para a qualidade gráfica da capa, baseada sempre em obras inéditas encomendadas a artistas - entre os quais o português Jorge Colombo. Mesmo para quem está longe de Nova Iorque, a New Yorker tem pelo menos dois terços de matérias que podem interessar a quem a quiser ler em qualquer ponto do mundo. E se dantes a revista chegava tarde e cara a Portugal, agora, na sua nova e muito boa edição para iPad, é possível fazer uma assinatura mensal por 5,49 euros. Irresistível.
DIXIT - “Ou os administradores do BES eram nabos e incompetentes ou eram mentirosos” - Domingos Azevedo, Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas e ex-deputado do PS.
GOSTO - Da divulgação da Acta da Reunião Extraordinária do Banco de Portugal que criou o Novo Banco pelo advogado Miguel Reis, que a obteve utilizando apenas informação disponível na net.
NÃO GOSTO - O horror criado pelo chamado Estado Islâmico é um exemplo de barbárie pura, que aproveita a destruição da vida humana de forma selvática para fazer propaganda.
BACK TO BASICS - A velocidade a que os rios desembocam nos oceanos não é tão veloz como a rapidez com que os homens cometem erros - Voltaire
agosto 14, 2014
VOTAR SEM SABER EM QUÊ
FUGA - Quando se vai a votos espera-se que os votantes escolham entre propostas diferentes, entre programas e ideias concretas, entre estratégias políticas e sociais diversas, certo? Quando há umas eleições, seja numa associação, numa agremiação desportiva, numa autarquia, num partido ou no país, o lógico é que os eleitores possam decidir com base no que os candidatos opinaram sobre as principais questões que, no cargo a que se candidatam, se lhes colocarão, não é? No entanto, quem seguir o que tem estado a acontecer nas primárias do PS dificilmente poderá seguir este raciocínio. Nas primárias do PS levou-se a fulanização da política ao extremo. Os eleitores, sejam militantes ou simpatizantes, não têm por onde escolher entre programas diferentes ou propostas diversas porque pura e simplesmente elas não se encontram explicitadas. Os dois candidatos, mas António Costa principalmente, fogem de tomar posição sobre os temas mais quentes e decisivos que se podem colocar a um primeiro ministro português nos próximos anos - e, no entanto, estas eleições são, teoricamente, para escolher quem será o candidato do PS a tal cargo nas próximas legislativas. Aos eleitores, face à fuga a dar resposta a questões concretas e à realidade, resta escolherem entre duas pessoas, entre dois estilos, entre duas imagens, entre duas retóricas. Quando a política se resume a estilo o resultado nunca é bom.
SEMANADA - Devido à falta de alunos as reduções de preços nas universidades privadas chegam aos 80%; quase metade dos desempregados estão sem trabalho há dois anos; uma mulher em Felgueiras prostituía a filha de doze anos a troco de carregamentos de telemóvel; em Portugal, nos últimos três anos, a percentagem de divórcios em relação aos casamentos realizados é de 70%; este ano os deputados tiveram mais 17% de faltas às sessões do Parlamento que no ano anterior - um total de 1634 faltas, uma média de 16 faltas por sessão; o número de jovens entre os 15 e os 29 anos em Portugal caíu em quase meio milhão de pessoas na última década; uma sondagem desta semana aponta que a maioria dos portugueses não acredita no sucesso das investigações da justiça no caso BES; Jorge Silva Carvalho, conhecido como o espião que foi para a Ongoing, foi designado director científico do MBA em Gestão do Conhecimento e Inteligência Competitiva, na Coimbra Business School; segundo o Tribunal de Contas a receita do IVA desceu 3,3% de 2012 para 2013 em vez de ter aumentado 3,5% como dizia o Governo; o Tribunal de Contas considerou que as medidas de austeridade dos últimos três anos são precárias, centradas no curto prazo e foram insuficientes para conter a despesa do Estado com pensões; o sector da construção e obras públicas continua a ser aquele em que se verifica maior numero de insolvências de empresas; em Junho deste ano registou se uma queda de 20% no numero de empresas que declararam insolvência; depois da crise do BES a Bolsa de Lisboa, cujos resultados a colocavam entre as dez melhores a nível mundial, passou a ser a terceira pior do mundo, apenas à frente do Gana e da Venezuela.
ARCO DA VELHA - Sete dias depois de chegar a Bruxelas o eurodeputado Marinho Pinto anunciou que irá abandonar o Parlamento Europeu daqui a um ano para se candidatar à Assembleia da República, diz que o vencimento do novo cargo é “vergonhoso” mas afirmou não tencionar abdicar dele porque “sou pobre, preciso do dinheiro”. Anunciou também a sua disponibilidade para se candidatar à Presidência da República depois das eleições legislativas.
FOLHEAR - Cada vez vale a mais a pena folhear o British Journal Of Photography - seja em papel, seja na boa edição digital para iPad. Depois de em Julho ter feito uma edição dedicada à nova fotografia espanhola - desde fotógrafos a editores e curadores de exposições, passando pelo clássico Juan Fontcuberta, a edição de Agosto é dedicada à fotografia de guerra. O pretexto da edição é o centenário da I Grande Guerra, mas quis o destino que as imagens mais contemporâneas calhassem numa altura em que em várias zonas se reacendem conflitos violentos. A acompanhar fotografias duras e explícitas de várias guerras em várias épocas e diversas zonas do globo, estão textos de enquadramento e de análise sobre o que tem sido o poder e o papel da fotografia nestes conflitos.
VER - O Centro Português de Fotografia funciona na antiga Cadeia da Relação, no Porto, e desenvolve, com poucos meios, um trabalho exemplar quer na salvaguarda do património fotográfico que lhe está confiado, quer na apresentação de diversas exposições temporárias. Actualmente, e até finais de Setembro, destaco três exposições: “Prostituição, retratos de uma vida na rua", do espanhol Ruben Garcia (na imagem), “A Pose e a Presa” que mostra um outro olhar sobre o universo da Caça e que ganhou a bolsa atribuída em 2013 pela Estação Imagem de Mora, e finalmente o trabalho de Mário Cruz, o vencedor do prémio de fotojornalismo 2014, também da Estação Imagem de Mora, com a reportagem “Cegueira Recente” que mostra a vida no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos sobre pessoas que perderam a visāo. Finalmente vale a pena recordar a exposição permanente, que mostra a evolução do aparelho fotográfico ao longo dos tempos. Por último destaque para o Projecto 14 que reúne trabalhos de fim de curso de alunos de várias instituições de ensino que abordam a fotografia. O CPF funciona terça a sexta das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às18h00, e aos sábados, domingos e feriados entre as 15h00 e as 19h00.
OUVIR - Em 1987 Dolly Parton, Emmylou Harris e Linda Ronstadt fizeram um álbum apropriadamente designado por “Trio”. Venderam para cima de quatro milhões de discos, ganharam dois Grammys e em 1999 reincidiram com “Trio II” que não teve metade do sucesso. A ideia de colaborações entre músicos de origens diversas é sempre um desafio. Felizmente que a nova aventura a três, e que envolve Norah Jones, Sasha Dobson e Catherine Porter, corre bem. Entre os blues e o jazz de Norah e Sasha, e o rock que sustenta a carreira de Catherine Porter, desenha-se um disco com surpresas como a versão de “Jesus,Etc” de Wilco, uma abordagem clássica mas entusiasmante de “Down By The River” de Neil Diamond, e um arisco “Sex Degrees Of Separation” da própria Dobson. Estas três meninas formaram as Puss N Boots em 2008 quando Norah Jones começou a tocar guitarra nalguns bares de Brooklin, cedo acompanhada por Sasha Dobson e depois por Catherine Porter. Durante este tempo tocaram sobretudo para amigos, nos intervalos das respectivas digressões individuais. Quando se entenderam a tocar guitarra já tinham ganho reputação como uma banda country e daí a gravarem este disco para a Blue Note foi um passo. Constituído em partes iguais por versões e originais cabe destacar, além das já referidas, as interpretações de “Leaving London” um tema de Tom Paxton e “Bull Rider”, um clássico de Johnny Cash.“No Fools, No Fun”, Puss N Boots, CD já à venda.
PROVAR - Ele há dias em que mais valia não me sentar num restaurante para almoçar. Foi o que me aconteceu, nas Avenidas Novas, no Laurentina, apelidado, sabe-se lá porquê, o Rei do Bacalhau. Sentado na esplanada, iludido pela vontade de bacalhau com grão, depressa me arrependi. Saíu-me um daqueles empregados espertalhões que servem para iludir turistas e acham que podem fazer o mesmo a clientes nacionais. Primeiro quis impingir-me uma meia garrafa do que lhe apetecia, nome falado entre dentes para eu não perceber bem, em vez de me mostrar a lista. Saíu-se com uma Duas Quintas que não era bem o que me apetecia, por muito bom que fosse. Chegou morno de temperatura e quente de preço. Passemos então ao bacalhau: ao fim de algum tempo, chegou a meia posta pedida, cozida demais e já esfriada. O grão, que bem podia ser de lata de sensaborão que estava, vinha igualmente friozote e em reduzida quantidade, partilhando o espaço com umas batatas que foram para dentro como chegaram. Lá apareceu a salsa e a cebola mas não veio o alho. O azeite era abaixo de mediano. A pimenta, pedida, era em pó, envelhecida e mortiça, em vez de ser fresca e em moinho. No entretanto um empregado entretinha-se a colocar pedaços de batata cozida no chão para alimentar a praga de pombos junto à esplanada. No fim paguei praticamente 30 euros por mau serviço e comida mal confeccionada e mal servida. Ao meu lado uma cliente que almoçava com um estrangeiro e pediu factura com número de contribuinte levou como resposta que a conta já estava fechada e que teria de passar depois porque o patrão não estava e só ele podia tratar dessa engenharia - tudo isto se passa a meia centena de metros da ASAE. Esta Laurentina já não se recomenda e até me arrepio do que aconteça aos turistas que por ali passeiam na Conde de Valbom.
DIXIT - “A reforma do Estado não é possível com estes actores políticos” - Luis Palha da Silva
GOSTO - Produção da Auto Europa aumentou 12,3% no primeiro semestre deste ano
NÃO GOSTO - Sete em cada dez novos casos em Tribunal são devidos a dívidas.
BACK TO BASICS - “Não teria nenhum problema em estar de acordo contigo, se tu tivesses razão.” - Robin Williams
agosto 08, 2014
ISTO ANDA TUDO LIGADO
POTENCIAL - O meu ponto de partida numa conversa de café é sempre complicado - desprezo o futebol, que acho um jogo menor. Não me distrai, não me encanta e aborrece-me. Não sei falar sobre o assunto. Esteticamente acho-o medonho. Perturba-me a importância que lhe é dada. Perturba-me ainda mais que ele sirva de desculpa ou escape para muita coisa. O rol de denúncias de falcatruas diversas, os erros de arbitragem, a corrupção, as ligações suspeitas, o crónico endividamente de clubes geridos a proveito de quem lá manda, tudo isto transformou o futebol num jogo de sorte ou azar, em vez de um desporto. Vivemos num país onde mais depressa os desabafos de Jorge Jesus sobre o estado do Benfica motivam mobilização do que a situação no BES cria movimentações. Isto não é propriamente novidade e por alguma razão o serviço público de televisão prefere investir em futebol de mediano interesse do que em programas de referência, como documentários ou ficção. Mas não me quero meter nisso, há muito que se percebeu que mesmo este Governo prefere distrair com o futebol a investir na criatividade e num audiovisual sustentável. Maduro, que entrou cheio de prosápia, amadureceu tanto que pelos vistos apodreceu. Limita-se a ser um vendedor de ilusões sobre a Europa. Como dizem - e demonstram - livros recentes de Lino Fernandes (“Portugal 2015 - Uma segunda oportunidade?”)ou de Felix Ribeiro (“A Economia de Uma Nação Rebelde”), se houvesse estratégia no país em vez de manobras tácticas, muita coisa podia ser diferente.. Estas obras mostram dois dos melhores pensadores sobre Portugal das ultimas décadas e demonstram que o país tem potencial, mas desprezou sempre seguir um plano que potenciasse esse potencial. Os seus livros, publicados este ano, mereciam ser estudados por quem Governa. Não me parece, infelizmente, que tal suceda. Fazer o que propõem dá trabalho e só tem efeitos de médio prazo - coisa desinteressante numa política que vive de eleições e arranjos.
SEMANADA - Um país em festa: o estudo TGI da Marktest contabiliza cerca de 1,5 milhões de indivíduos que refere ter ido a uma discoteca nos últimos 12 meses; existem 20 mil cães perigosos registados em Portugal; em Junho de 2011 a população activa portuguesa era 5,5 milhões de pessoas e em Junho deste ano tinha descido para 5,24 milhões; novas admissões na Função Pública representam um terço dos 90 mil empregos criados no segundo trimestre deste ano; seis em cada dez empregos gerados no segundo trimestre foram para trabalhadores com mais de 45 anos; a Feira do Livro de Lisboa deste ano passou pela primeira vez na história do evento a barreira do meio milhão de visitantes; 270 reuniões de comissões de inquérito parlamentares resultaram em nada em termos de procedimentos subsequentes; a recém recuperada Ribeira das Naus, em Lisboa, tem água poluída e uma quantidade anormal de mosquitos; o Provedor de Justiça recomendou que os fiscais da EMEL esperem “um tempo razoável” antes de aplicarem multas, para dar tempo aos automobilistas para trocarem moedas e afixarem o comprovativo; a EMEL passou uma multa a um cidadão que estava morto e nunca teve carro; as empresas de transporte público de Lisboa e do Porto perderam desde 2010 mais de 145 milhões de passageiros, tendo apenas o Metro do Porto conquistado clientes; no ano passado registaram-se quase três milhões de falsas urgências nos hospitais; faltam cerca de 25 mil enfermeiros no sistema hospitalar; o Benfica registou seis derrotas nos jogos de pré-epoca das últimas semanas; Julho deste ano foi o mais chuvoso deste século; o Ministro Pires de Lima classificou de “desfaçatez” o comportamento da PT em relação do BES.
ARCO DA VELHA - Um terço dos professores que realizaram as provas do Ministério da Educação fez três ou mais erros ortográficos e apenas 37% tiveram a prova limpa sem erros.
FOLHEAR - Estamos naquela altura do ano em que a “Monocle” abandona o formato revista e passa a ser jornal. Surge a “Monocle Mediterraneo”: Mais à frente aparece a “Monocle Alpes”, no Inverno, para quem gosta de neve: Mas, por agora, fiquemos a sul, no Mediterrâneo, Esta é uma edição sempre dedicada às praias, a barcos, ao mar. Aqui há receitas de boas saladas (como uma de lentilhas com atum fresco, fantástica, que experimentámos em casa neste fim de semana), há indicações dos melhores bares, de excelentes locais para ficar. E, por cima disto tudo, Portugal - que não costuma aparecer nesta edição - surge com uma reportagem de duas páginas sobre o trabalho da Força Aérea, na base do Montijo, do esquadrão 751 heli-transportado, que já fez mais de três mil salvamentos no mar. É uma história muito bem contada sobre as missões, ambições e acções de um conjunto de homens que garantem a segurança na costa portuguesa. Só por isto já valia ler esta edição veraneante da “Monocle”.
VER - Duas sugestões algarvias : Uma, em Tavira, na Casa das Artes - a exposição dos fotógrafos de “A Pequena Galeria” (na imagem). Ali estão até 22 de Agosto cerca de três dezenas de fotografias de Ágata Xavier, António Luiz Sousa, Carlos Gonçalves, Carlos Oliveira Cruz, Guilherme Godinho e Luis Pereira, trabalhos seleccionados a partir do que os autores apresentaram em “A Pequena Galeria” ao longo de 2013 e 2014. A segunda tem a ver com o trabalho da fotógrafa Luisa Ferreira, decorre em São Brás de Alportel e chama-se “À Procura de Um Outro Corpo”. As fotografias de Luísa Ferreira estão Museu do Traje e na Antiga Farmácia Passos, e podem ser vistas até final de Outubro.
OUVIR - Dois dos maiores êxitos da carreira a solo de Eric Clapton têm a assinatura de J.J. Cale - “Cocaine” e “After Midnight”. Nessa época Clapton saía da ressaca do fim dos Cream e dos Blind Faith e as canções de Cale deram-lhe uma confiança e segurança de que ele precisava na altura. “The Raod To Escondido”, um disco de 2006, permitiu a Eric Clapton retribuir a ajuda de Cale. A ideia deste novo álbum de homenagem nasceu depois da morte de JJ Cale e o título vem de uma das suas canções mais conhecidas, “Call Me The Breeze”, popularizada pelos Lynyrd Skynyrd. Neste “The Breeze” encontram logo na abertura a faixa que inspira o nome do disco, mas não encontrarão nenhum dos tema sque Clapton popularizou. Os melhores momentos do disco vêm da participação de Tom Petty em “Rock And Roll Records”, de Mark Knopfler em “Train To Nowhere”, de Willie Nelson em “Starbound” e de Don White em “I’Lll Be There”. Eric Clapton & Friends, “The Breeze - An Appreciation of JJ Cale”, edição Universal, à venda onde ainda há discos.
PROVAR - Até fico com pena de dizer isto, mas o Dell Anima, um novo restaurante italiano da Duque de Ávila, é uma boa ideia mal conseguida. Comecemos pelo espaço, que é muito bom, - esplanada no passeio da renovada avenida, sala interior bem climatizada, e esplanada no pátio das traseiras, arejada, com vegetação e uma fonte que ajuda à sensação de frescura. Mesas grandes corridas onde as pessoas se podem sentar com desconhecidos - mas onde há o risco de calhar ao lado de uma brasileira guinchante, que foi o que me aconteceu. Depois a lista: grande demais, complexa demais, parece uma proposta de infindável degustação e eu embirro com degustações. No geral até poderia dizer que há boas propostas, em quase todos os items, mas de facto a extensão não ajuda a um restaurante que se quer informal e o resultado é que se vai para o óbvio de uma pizzeria - a pizza. Da massa das pizzas só tenho a dizer bem, e dos conteúdos de uma Calabrese que pedi também só tenho que elogiar. O mesmo se aplica à focaccia de entrada, mas não aos gressinos, que não eram frescos. A lista de vinhos volta a ser despropositada nas escolhas, nos preços propostos e na ausência de mais vinhos frescos - brancos e rosés. Também se lamenta a inexistência de um vinho da casa, nas várias variantes possíveis, a um preço que estimule as pessoas a beberem um copo sem terem que beber uma garrafa. O serviço tem muito a melhorar, sobretudo na atenção às mesas, na atenção e rapidez do pedido da conta. Pretencioso na lista de comidas, esquizofrénico na lista dos vinhos, distraído no serviço. Salva-se a pizza. Já não é mau, espero que com o tempo melhore o resto, que o sítio merece. Ristorante Dell’Anima, Av. Duque de Ávila 42 B, telef 215 926 346.
DIXIT - “A falta de dinheiro no Estado abre espaço à iniciativa privada na Cultura” - Álvaro Covões
GOSTO - Portugal ganhou 16 prémios no World Travel Awards Europe e o Turismo de Portugal foi considerado o melhor organismo oficial de Turismo na Europa.
NÃO GOSTO - O Estado pagou desde 2007 mais de 22 milhões de euros por horas de vôo que nunca existiram dos helicópteros Kamov de combate a incêndios
BACK TO BASICS - A inveja é a úlcera da alma - Sócrates, filósofo grego
agosto 01, 2014
O SISTEMA JUDICIAL TEM UMA AGENDA MEDIÁTICA?
ILUSÃO - Continua a haver qualquer coisa que me desagrada no funcionamento da justiça portuguesa e já não estou a falar só da lentidão. Peguemos no caso do BES - avolumam-se indícios de que os últimos seis meses foram um contínuo lançar de petróleo sobre a fogueira ou, se quiserem, um constante deitar dinheiro a rodos do BES para cima do GES, literalmente lançando à rua milhões e milhões de euros que se desvaneceram nesse poço sem fundo em que se tornaram as holdings familiares do grupo. Mas numa altura destas, em que é flagrante, pelo menos, que as instruções do Banco de Portugal não foram cumpridas e que foram até contrariadas, a investigação sobre os líderes do grupo Espírito Santo que gerou mediatismo (a detenção, para interrogatório, de Ricardo Salgado) é assente num facto com uns anos e já muito conhecido. Não é que o tema não tenha que ser investigado - é que da maneira que as coisas foram feitas fica a impressão de que se pegou num caso antigo que estava mais ou menos estudado (e a ver vamos como) para criar um efeito mediático, dando impressão que o Ministério Público estava em cima do processo actual. O expediente, em matéria de comunicação, fez capas e deu notícias e imagens nos telejornais - ir prender um banqueiro dá sempre audiência. Mas quando se percebeu o que estava em cima da mesa logo surgiu a dúvida sobre o momento e a oportunidade. E, mais grave, sobre se a acção da justiça, neste caso, não será um exercício de atirar poeira para os olhos, com o objectivo de criar a percepção pública de que ela estaria em cima de um acontecimento de onde, afinal, como agora bem se percebe, está longíssimo. O caso não faz ter mais respeito pela justiça - provoca o contrário porque se avoluma o sentimento de que as investigações só avançam quando os investigados perdem poder e estatuto. No meio disto fica uma desagradável dúvida: o sistema judicial tem uma agenda que passa por iludir a opinião pública, ou de facto segue o que se passa no país?
SEMANADA - As dívidas fiscais nos tribunais já atingem 7,57 mil milhões de euros, mais 700 milhões que em 2011; uma auditoria à Câmara Municipal de Braga encontrou indícios de gestão ruinosa por parte do anterior presidente da Câmara, Mesquita Machado, eleito pelo PS, que esteve 37 anos no poder; segundo a mesma auditoria à gestão anterior o passivo da Câmara Municipal de Braga ultrapassa os 252 milhões de euros; o tráfego nas autoestradas da Brisa aumentou 4,6% no primeiro semestre deste ano e apenas do segundo trimestre teve um aumento de 7,1% em relação a iguais períodos de 2013; este ano já foram detidas sete mulheres por levarem droga escondida no corpo em visitas a familiares detidos em cadeias; o numero de estudantes estrangeiros em universidades portuguesas passou de 19 mil para 31 mil em três anos;os helicópteros que combatem os incêndios florestais estão sem seguro desde 2011; na campanha do PS tanto Seguro como Costa prometem desmantelar legado de Passos Coelho; em Lisboa a piscina do Campo Grande devia estar aberta há 2 anos mas as obras ainda não recomeçaram; António José Seguro disse em entrevista que “o PS associado aos negócios e interesses é apoiante de António Costa”; a Procuradoria Geral da República desmente que Sócrates esteja a ser investigado e o antigo primeiro-ministro nega qualquer envolvimento no caso Monte Branco, dizendo-se vítima “de uma canalhice”.
ARCO DA VELHA - O BES financiou a a actividade de vários grupos empresariais na condição de estes contraírem outros empréstimos junto do Banco para aplicarem em dívida e acções do Grupo Espírito Santo.
FOLHEAR - Todos sabemos que uma apresentação pode ser um momento mágico mas, na maioria das vezes, é um momento de enorme aborrecimento. Já nos aconteceu a todos ver um powerpoint em que o orador lê linha após linha a escrita intrincada que aparece no ecrã com gráficos e quadros impossíveis de apreender a mais de um metro de distância. Existe uma empresa, de origem brasileira mas que em Portugal está estabelecida há uns anos, a Soap, que se especializou em fazer boas apresentações: olham pra cada caso como se se tratasse de um filme e constroem um guião. Eu hoje em dia não gosto de usar a palavra “narrativa”, mas reconheço que uma apresentação como deve ser vive de um boa narrativa ou, se quiserem, de uma história bem contada. E uma história, se fôr bem contada, sem demasiado palavreado, pode cativar a audiência. Eu costumo dizer que um dos problemas dos filmes não americanos é que os diálogos são demasiado longos e desnecessários; aplique-se o mesmo às apresentações - eis o princípio que a Soap segue. O melhor de tudo é que querem partilhar connosco o seu método e fizeram um livro chamado “Super Apresentações - como vender ideias e conquistar audiências”, que minuciosamente descreve o processo que usam. Editado há uns anos no Brasil, teve agora edição portuguesa, adaptada a esta realidade e aos clientes locais, feita pela mão de Artur Ferreira, que foi quem trouxe o conceito para Portugal, onde dirige a Soap. O livro saíu por estes dias e lê-lo vale bem a pena- pode ser que ganhem um cliente se seguirem os conselhos que aqui vêem na próxima apresentação que fizerem.
VER - Hoje recomendo um site. O site novo da revista “The New Yorker”, que em Fevereiro do próximo ano fará 90 anos. Sou um devorador da revista, seja em papel que vou comprando uma vez por outra, seja no seu site. Gosto das capas (algumas desenhadas por Jorge Colombo), gosto dos artigos, das biografias, das investigações, das short-stories, dos números especiais. O novo site tem também novidades a nível do acesso - durante os próximos três meses todo o conteúdo fica disponível à borla, incluindo o arquivo inteiro - normalmente até aqui apenas um terço da edição era disponibilizada on line a menos que se fosse assinante. Daqui a três meses entra em vigor outra modalidade, com preços diferenciados conforme o indíce de utilização, como acontece no New York Times ou Wall Street Journal - e existirão tabelas para leitores no estrangeiro. 2013 foi o ano mais lucrativo desta publicação do grupo Condé Nast nas últimas décadas - The New Yorker tem um milhão de assinantes da edição em papel e 12 milhões de visitantes na internet. O novo site será mais fácil de manusear em dispositivos móveis, é feito a partir da plataforma wordpress, e sugiro que o descubram e utilizem em www.newyorker.com . E já agora termino com uma citação do editorial que apresenta o novo website: “Publishing the best work possible remains our aim. Advances in design and technology are tools in that effort.”. Óbvio, não é?
OUVIR - Jack White toca blues. É certo que algumas vezes não são blues muito ortodoxos - mas lá que são mesmo blues não há dúvida - logo desde a primeira canção deste seu novo disco, “Three Women”, uma adaptação livre de um clássico dos blues do final da década de 20 (do século passado, claro). Aqui há de tudo: a batida, o piano, a guitarra, as pausas, o brincar com as palavras. Desde o seu trabalho com The White Stripes, Jack White tem participado em dezenas de discos, apadrinhado desconhecidos ou feito heresias com conhecidos, como Neil Young, tudo através da sua editora Third Man. Há neste disco um lote de influências, que vão dos blues primitivos aos Rolling Stones, passando por brincadeiras que evocam Beach Boys, Ramones ou Queen e algum hip-hop aqui e ali. White gosta de brincar com as palavras e o título do álbum, “Lazaretto”, evoca leprosarias e hospitais de quarentena - como se tudo isto fosse um exercício de isolamento do mundo - certamente relacionado com o que se passou na sua vida e relações nos tempos mais recentes. Autobiográfico, intimista, sentido (All Alone In My Home Nobody Can Touch Me), este disco mostra uma dimensão próxima de um diário onde se vai escrevendo o que se sente de forma muito visceral. Apetece ouvir este disco e estas canções vez após vez. Em repeat, no iPhone para onde copiei o disco que comprei, o mesmo aparelho que agora querem taxar. Jack White havia de escrever sobre isto - “every single bone in my brain is electric”.
PROVAR - Comer um peixe assado na brasa em Lisboa não é uma das coisas mais simples do mundo. Primeiro, há muitos grelhadores mas poucas brasas; depois há muita gente a grelhar mas pouca a fazê-lo como deve ser; e finalmente, se passarmos para o ponto sério da questão, que nesta época do ano se resume às derradeiras e frágeis sardinhas, então a coisa torna-se mesmo complicada. A sardinha é um peixe delicado - precisa de ser fresco senão fica uma papa; precisa de ser bem assado, para não ficar desfeito; é pequeno e não quer exageros de calor nem de chama. Não é fácil assar bem sardinhas e em Lisboa nem sempre é fácil encontrar as melhores e mais frescas, como por exemplo as que se provam em Setúbal. Mas há um sítio lisboeta onde isso é possível. Chama-se “Último Porto” e faz da assadura na brase uma arte e da frescura e qualidade do peixe um princípio. É módico nos preços, divertido e despachado no serviço. A dose de sardinhas custa 11,50 euros, o jarro de vinho branco da casa, muito aceitável, fica pelos três euros. Chega-se lá indo até ao fundo da estrada da Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos ou, pelo outro lado, até ao parque perto do Speakeasy, atravessando-se depois a ponte pedonal. Convém marcar que a esplanada enche com rapidez. O telefone é o 213979498.
DIXIT - “26 mil milhões de euros é uma pipa de massa, devem ser bem aplicados. E que se calem aqueles que dizem que a UE não é solidária com Portugal” - Durão Barroso sobre os novos fundos europeus para Portugal.
GOSTO - A revista francesa “Les Inrockuptibles” fez um rasgado elogio à música portuguesa contemporânea, afirmando que em termos musicais Portugal é a California da Europa com “uma cena musical riquíssima”.
NÃO GOSTO - Da criação de uma taxa sobre tablets, telemóveis e dispositivos de gravação sem ter em conta os utilizadores que pagam os conteúdos que consomem.
BACK TO BASICS - “Se quiserem testar o verdadeiro carácter de um homem, dêem-lhe poder e esperem para ver o que faz” - Abraham Lincoln
julho 25, 2014
UM ESTRANHO CASO DE LUTA PELO PODER
ROAD TO NOWHERE - Esta semana dei comigo a pensar que as piores alianças são as ditadas pela ambição pessoal num processo de tomada de poder. Lembrei-me disto a propósito das declarações de fé numa espécie de bloco central, de contornos indefinidos, esta semana surgidas. Como corolário de um arrulho de pombinhos que dura há uns anos, António Costa e Rui Rio emitiram esta semana pensamento conjunto sobre a antecipação do calendário eleitoral para as legislativas e manifestaram confiança política um no outro, assim como disponibilidade recíproca para entendimentos futuros. Já se sabia que Rui Rio e António Costa são ambiciosos e lendo declarações recentes dos dois constato ser cada vez mais evidente que se julgam superiores aos demais - sobretudo dentro dos respectivos partidos. Ambos estão numa cruzada pessoal pelo poder: Costa de forma saliente no PS, Rui Rio ao seu estilo mais conspirativo no PSD. Em nenhum se vislumbra programa político, apenas ocasional conjugação de interesses. Os dois prometem acordo de regime, mas ninguém sabe em que princípios concretos será assente esse acordo. E os dois estrearam uma nova figura da politica portuguesa: candidatos a candidatos. As ideias que apregoam são tão inesperadas como sacos de plástico a encherem-se passageiramente de ar, ao vento. Costa e Rio apoiam-se porque criaram estas personagens, ficcionadas, de “compagnons de route” e definiram que assim poderiam conquistar o poder. O único problema é que ninguém sabe onde leva a estrada que eles querem percorrer.
SEMANADA - Fernando Nobre avisou que não excluiu voltar a candidatar-se à Presidência da República; em 2013, em relação ao ano anterior, os portugueses consumiram menos carne, leite, fruta, cereais e vinho; as propostas de revisão do IRS traduzir-se-ão no aumento do imposto para 70% dos contribuintes; a cobraça de IRS nos primeiros seis meses deste ano foi 427 milhões de euros maior que no primeiro semestre de 2013; segundo dados da Marktest o concelho de Oeiras é o que apresenta maior percentagem da sua população pertencendo ás classes sociais alta, média alta e média - 69,4% do total, enquanto Cascais tem 61,6% e Lisboa 60,5%; Portugal foi o terceiro país da União Europeia em que a dívida pública mais subiu; os portugueses aplicaram em Junho mais de 400 milhões de euros em dívida pública; a dívida portuguesa já vai em 741 mil milhões, mais cinco mil milhões que em Dezembro passado; o endividamento do Estado cresceu 2%; em sentido contrário o endividamento dos particulares desceu 1,2% e o endividamento das empresas caíu 2,2%; no Turismo, os primeiros cinco meses do ano revelaram números mais fortes do que os registados em igual período de 2013, ano recorde do sector; o sector da construção perdeu 30% dos trabalhadores entre 2008 e 2012; no mesmo período a maior quebra do volume de negócios foi na agricultura e pescas, com uma quebra de 25,2%, logo seguido da construção, que caíu 20,3%; o Governo quer colocar empresas privadas a passar multas de estacionamento; metade dos 14500 reclusos portugueses é reincidente; as propostas que António Costa vai apresentar na convenção dos seus apoiantes não incluem, nos nove painéis definidos, qualquer referência às questões do défice, da dívida e da consolidação orçamental.
ARCO DA VELHA - O cúmulo da idiotice legislativa do Ministério das Finanças e do Fisco é uma lei que deixa dúvida sobre se os reformados podem trabalhar, a título gratuito e de voluntariado para o Estado, sem perderem o direito à sua pensão de reforma.
FOLHEAR - O livro mais recente de Miguel Esteves Cardoso, “Amores e saudades de um português arreliado” continua a transmitir surpresa e encanto na descrição de observações do quotidiano, que ajudam a traçar o retrato do que nos rodeia, mas tem uma dimensão pessoal maior e uma maneira de ver a vida mais emocional e sentida. Lendo agora estes textos, de seguida, em vez da leitura pontuada pelos tempos de edição no “Público”, eles ganham outra densidade e outro sentido. Uma das coisas que sempre me atraíu em Miguel Esteves Cardoso é a forma como ele consegue ser o espelho dos estados de espírito de uma geração. Não é, e suponho que nunca quis ser, o porta voz de coisa alguma. Limitou-se a observar, a relatar, a fazer a crónica das coisas, dos hábitos e dos costumes, um género que entretanto havia desaparecido da escrita portuguesa no último quarto do século passado. Ao longo dos anos foi mudando a sua forma de olhar e escrever e, no prefácio de "Amores e saudades de um português arreliado", Miguel Esteves Cardoso afirma que "dantes, tentava escrever colectivamente, generalizando sempre que podia", e sublinha que actualmente, tem aprendido ser melhor escrever sobre os próprios sentimentos, porque "os leitores facilmente apagam e substituem os objetos de amor, saudade e arrelias" que motivam o autor. “A solidão é essencial para quem escreve, mas escreve-se para partilhar emoções vividas. A melhor coisa que pode acontecer a quem escreve é alguém, do outro lado, pensar 'sim, é mesmo assim” - nesta frase está contada a essência daquilo que verdadeiramente conta. "A única coisa é a vida. A única coisa é a vida de cada um. Sem vida, nada feito. Viver não é a melhor coisa que há: é a única coisa. Cada momento da vida não é único. Mas há momentos únicos. A nossa felicidade não é passá-los como quisermos. É dar por ela a aproveitá-los", escreve Miguel Esteves Cardoso algures nestes textos agora agrupados em livro. No fim destes “Amores e Saudades de um português arreliado” há uma certeza - ele continua a ser o intérprete de uma época e a testemunha de uma geração que tardou a descobrir a vida e a encontrar o Amor.
VER - Duas chamadas de atenção para o MUDE - Museu do Design e da Moda. Esta semana inaugurou a exposição “O Respeito E A Disciplina que a todos se impõe” (na foto) que mostra mobiliário para equipamentos concebidos durante a époica do Estado Novo e que percorre a história e o legado da Comissão para Aquisição de Mobiliário, criada em 1940 e que até 1980 contribuíu para modelar a paisagem interior dos edifícios representativos do Estado, desde Hospitais a Direcções Gerais, estabelecendo padrões de funcionalidade e uma orientação estética bem definida. A exposição teve curadoria de João Paulo Martins. Ainda no MUDE, e até 31 de Agosto, continua a exposição “Os Iconoclastas Anos 80” que apresenta sete dezenas de peças do acervo da colecção Francisco Capelo, desde Vivienne Westwood e MalcolmMcLaren até Amish Kapoor, passando por John Galliano, Thierry Mugler, Ettore Sottsass, Christian Lacroix ou Issaye Miyake e Comme des Garçons.
OUVIR - “Fuzzy Logic”, de Taylor Haskins, é um disco especial. Haskins tem-se afirmado como um dos mais originais trompetistas a aparecer nos últimos anos. Aqui surge na companhia do guitarrista Ben Monder, do baixista Kermit Driscoll e do baterista Jeff Hirshfield. O CD tem dez temas, oito originais e duas versões, uma de um tema de Thomas Dolby (“Airwaves”) e outra de uma canção de Tom Waits (“Take It With Me”). Se os oito temas originais mostram bem o valor deste quarteto, o talento de Haskins e a sua capacidade como produtor, é nas versões, e sobretudo na de “Airwaves” onde, ao lado da guitarra de Monder, se torna patente a sua capacidade de interpretação e a importância do fraseado do trompete, sem exibicionismos fáceis. Gosto muito do trabalho na faixa título, “Fuzzy Logic”, mas também de “Perspective”, do clima de sedução da faixa inicial “Somewhere I’ve Never Travelled” ou ainda da maneira como se desenvolvem temas como “Four Moons” ou “Too Far”. CD Sunnyside, na Amazon.
PROVAR - Vale a pena provar o prego de atum em bolo do caco que é servido no Le Chat - para quem não sabe uma das melhores esplanadas de Lisboa, o sítio ideal para o fim de tarde no Verão, com uma vista única. O Le Chat é uma estrutura de vidro que fica ao lado do Museu Nacional de Arte Antiga, com o rio todo pela frente, numa localização privilegiada. Depois das obras do último inverno ficou com um pouco mais de espaço e mais confortável, quer no interior, quer na esplanada. A carta apresenta numerosas sugestões de petiscos, a começar por uma bem aviada tábua de queijos e enchidos. Além do prego de atum provou-se o pica-pau, os pedaços de carne de boa qualidade, bem temperados, acompanhados por pickles e focaccia, e um pedido extra de uns chips de batata doce que estavam fantásticos. A imperial é bem tirada, a lista de vinhos não é extensa mas tem ofertas consensuais a preços sensatos e a casa propõe ainda alguns cocktails- Nas sobremesas destaque para os gelados de pastel de nata e de mojito. O serviço é simpático, nesta altura do ano é muito bom ver ali nascer a noite.
O Le Chat foi considerado pelo New York Times como um dos locais a conhecer em Lisboa. Fica no jardim 9 de Abril, à Rua das Janelas Verdes e tem o telefone 213 963 668.
DIXIT - “Seria um privilégio para o país ter o engenheiro António Guterres como Presidente da República” - disse António Costa em relação ao ex-primeiro-ministro que fugiu depois de uma derrota nas autárquicas de 2001, sabendo o estado do país, para o qual aliás o seu Governo notoriamente contribuíu.
GOSTO - A época futebolística começou com uma vitória do Sporting sobre o Benfica.
NÃO GOSTO - Presos por violência doméstica quadruplicaram em quatro anos.
BACK TO BASICS - Os factos são o maior inimigo da verdade - Miguel de Cervantes
julho 18, 2014
SOBRE A REPERCUSSÃO DAS PRIMÁRIAS DO PS NO SISTEMA POLÍTICO
CASE STUDY - Longe do escrutínio da Comissão Nacional de Eleições, necessário na substância mas bacoco na forma, as directas do Partido Socialista vão constituir um bom momento para estudar os métodos e ferramentas de comunicação e propaganda utilizados pelos candidatos e para avaliar a maneira como os Media, num combate político bipolarizado, farão, sem constrangimentos de leis eleitorais desfasadas do tempo, as suas opções editoriais - sobretudo como as televisões irão cobrir a campanha de Costa e Seguro, mas também, depois, a votação e a análise dos seus resultados. Por outro lado esta campanha para as directas está já a ter uma presença digital assinalável, e às vezes imaginativa e agressiva, quer em blogues, quer em redes sociais. Este lado digital, longe das baias pré-históricas da CNE, será porventura das coisas mais interessantes a seguir e a analisar. Eu, que não sou simpatizante do PS nem de nenhum dos dois candidatos, estou cheio de curiosidade a ver como tudo isto vai evoluir - sobretudo porque daqui se poderão - ou não - tirar lições para que a comunicação política provoque maior participação, provoque maior esclarecimento e produza maior empenhamento dos eleitores. Se a coisa, pelo contrário, se resumir ao relambório do costume, ninguém ficará a ganhar e o crédito dos cidadãos nos partidos sofrerá mais uma machadada.
SEMANADA - Ana Drago anunciou a sua saída do Bloco de Esquerda; a direcção do Bloco de Esquerda rejeitou ser “sucursal do PS”; Francisco Louçã atacou Daniel de Oliveira no Facebook; Rui Rio já tem uma plataforma de apoio, intitulada “Portugal em Primeiro”; no dia do arranque do recenseamento para as primárias do PS inscreveram-se 160 simpatizantes por hora; a hotelaria registou 4,4 milhões de dormidas em Maio, o que gerou um aumento das receitas do sector na ordem dos 19%; foi detectada uma rede envolvida no tráfico de menorers nigerianas que as introduziam na Europa através de Portugal; foi detectada uma rede que vendia cartas de condução a analfabetos; foram detectados casos de doentes que chegam aos hospitais públicos em situação de subnutrição; a segurança social recusa pagar a trabalhadores de empresas em dificuldades; o montante total das portagens nas scut ascende a 96,6 milhões de euros, cerca de 66,5% do total arrecadado em portagens no primeiro semestre do ano; a Via do Infante foi a SCUT que teve maior aumento de utilização, cerca de 21%; Gerard Depardieu anunciou que vai produzir vodka biológico na Rússia; nos últimos três anos registam-se 2700 lugares a menos no ensino superior; um estudo da Universidade Portucalense revela que os alunos do 3ºciclo e do ensino secundário “não são capazes de gerir as suas finanças, não possuem hábitos de poupança, nem estão familiarizados com a linguagem financeira”; Portugal é o país europeu com menos nascimentos, só nascem dez crianças por hora; em consequência da quebra da natalidade e da emigração o ensino pré-escolar e o básico continuam a perder alunos - 26 mil no último ano.
ARCO DA VELHA - O fisco briga com toda a gente e, para não nos esquecermos da natureza beligerante do esbulho fiscal, o novo diretor geral da Autoridade Tributária e Aduaneira chama-se BRIGAS Afonso.
FOLHEAR - A “Vanity Fair” de Julho dedica a sua capa à nova vaga de estrelas de Hollywood. Mas do ponto de vista editorial a estrela desta edição é um magnífico artigo sobre o plano de desenvolvimento das companhias aéreas do Médio Oriente, que em poucos anos conseguiram transformar o aeroporto do Dubai num dos mais utilizados do mundo, graças a linhas aéreas como a Emirates, cujo terminal próprio naquele aeroporto é o maior terminal aéreo do planeta. As três companhias aéreas do Golfo, a Qatar e a Ethiad e a Emirates, estão a transformar o negócio da aviação e fizeram da sua base no Dubai um local incontornável, ao ponto de, actualmente, todas as semanas, 130 companhias aéreas utilizarem o aeroporto do Dubai como ponto obrigatório em 6000 vôos para 260 destinos. Não é por acaso que a “Vanity Fair” se gaba de ser a revista não económica que publica os melhores artigos sobre temas de negócios e economia . Neste artigo, “The New Jet Age” vem tudo explicado - o plano, os meios, os objectivos e as etapas para que no meio do deserto se criasse em tão pouco tempo um ponto nevrálgico e incontornável do negócio aeronáutico. Para além deste artigo, noutro registo, vale a pena ler a peça sobre o método de trabalho e a obra de Jeff Koons, agora que ele está quase à beira dos 60 anos, com uma exposição a abrir brevemente no Louvre e com as suas obras a atingirem preços recorde, na casa das dezenas de milhões de dolares. Só estes dois artigos já dão mais informação que a maior parte de edições inteiras de outras revistas.
VER - Até meados de Setembro a Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38), apresenta uma exposição colectiva que agrupa trabalhos de artistas como André Almeida e Sousa, Diogo Guerra Pinto, Eugénia Mussa, Manuel Gantes e Paulo Miguel Lopes. Como é hábito nesta Galeria, os trabalhos usam como base de trabalho o papel, em diversas técnicas. Logo na sala de entrada destacam-se os trabalhos de André Almeida e Sousa e, no primeiro andar, os de Manuel Gantes e a interessante abordagem de Paulo Miguel Lopes (aqui reproduzido), num universo que muitas vezes evoca a BD. Na Pousada de Cascais o Cidadela Art District apresenta este fim de semana uma série de propostas novas - uma exposição de Pedro Pascoinho, uma sessão de live painting por Filippo Fiumani no espaço da revista digital Magnetica e uma video instalação de Paulo Arraiano e Duarte Amaral Netto com Andrea Hackl.
OUVIR - “Last Dance” é o título do disco editado este ano na ECM por Keith Jarrett e Charlie Haden, dois músicos que colaboraram intermitentemente ao longo de várias décadas. Este “Last Dance” acabou por ter um título premonitório - Charlie Haden morreu este mês, e quando decorreram as gravações de “Last Dance” , em 2007, já estava bastante doente. O disco revisita em parte o reportório de “Jasmine”, o CD que assinalou em 2010 o reencontro entre os dois músicos. Baseado no cancioneiro popular e nos grandes standards da música americana, “Jasmine” surgiu como uma lufade de ar fresco em relação a outros registos de Jarrett anteriores. Aqui, em “Last Dance”, nota-se o cuidado nos arranjos, perfeitos e intensos, mas de uma sobriedade exemplar. Destaco “Everything Happens To Me”, “Where Can I Go Without You”, “Every Time We Say Goodbye”, “Round Midnight”, “It Might As Well Be Spring” - e corro o risco de dizer que a faixa final, “Goodbye”, um clássico de Gordon Jenkins, é aqui deixada como testamento do que foi o prazer destes dois músicos de excepção a tocarem um com o outro. A ECM, que durante muitos anos foi representada em Portugal pela Dargil, está agora sem importador nacional - pelo que com sorte as suas edições se apanham de vez em quando na FNAC ou no El Corte Ingles. Ou então, na Amazon, que apesar das entregas cada vez mais caras e acidentadas, continua a ser uma hipótese.
PROVAR - O sol brilha, a temperatura aumenta. Apetece qualquer coisa muito fresca. Pois é, estamos na época em que os gelados se tornam mais apetecíveis. Acontece que o mundo dos gelados mudou muito nos últimos anos e surgiram uma série de variedades inesperadas. Por exemplo, começaram a ser feitos gelados com sabores que vão de pastel de nata a tarte de maçã, passando por Mojitos. Há vários fabricantes a apostar em sabores pouco tradicionais, mas uma das marcas portuguesas de gelados que produz sabores mais inesperados é a Artisani. A boa novidade deste verão é um gelado com sabor a Sunlover, uma bebida nutri-cosmetica portuguesa, com zero calorias, que promete aumentar as defesas do corpo e diminuir o envelhecimento acelerado da pele. O Sunlight Sorbet Light é a proposta da Artisani, já disponível nas suas lojas de Cascais, Carcavelos, Doca de Santo Amaro e Avenida Álvares Cabral, em Lisboa. É frutado, não é demasiado doce e a sua textura de sorbet parece perfeita. Garantidamente é bom mesmo depois de o sol se pôr e desperta os sentidos para experimentar a bebida com base na qual é elaborado.
DIXIT - Depois da maneira como correu este Mundial fiquei com a sensação que a FIFA está a fazer do futebol uma coisa tão pouco entusiasmante como aquilo em que a FIA transformou a Fórmula Um - Oliveira de Figueira
GOSTO - Da empresa portuguesa Tekever. que produz drones utilizados em missões de defesa e vigilância e os exporta para diversos países.
NÃO GOSTO - A Comissão de Recutamento e Selecção Para a Administração Pública recusou a um candidato o acesso às suas classificações detalhadas num concurso público a que concorreu e de onde foi excluído
BACK TO BASICS - Um banqueiro é alguém sempre disponível a emprestar o guarda chuva quando está um sol radioso, mas que exige a sua devolução mal começa a chover - Mark Twain.
julho 11, 2014
Sobre as aventuras de D.Inércio, o alcaide que queria ser Rei e outros episódios variados
ESTAROLAS - Em 2015 vamos ter legislativas e essa vai ser a primeira possibilidade de voto para quem nasceu em 1997. Quem nasceu a partir do início da década de 90 estará entre os novos eleitores - e já nem falo de quem nasceu a partir de meados dos anos 80 e tem agora 30 anos. Tudo junto é muita gente. Será que este universo de eleitores ainda separa a esquerda da direita como os que tinham 20 ou 30 anos em 1974 ou 1984? E como é que olham para a ideologia? Que acharão eles do que se passa dentro do PS? Que acharão eles dos políticos que falam sobretudo da tradição, eles que se debatem com o desemprego jovem e um futuro nebuloso? Comecei a pensar nisto quando vi que a estratégia de António Costa tem sido arregimentar os históricos do PS, da Juventude Socialista e em geral figuras tradicionais da esquerda, próximos hoje em dia do PS. Chamo a isto a estratégia dos dinosauros excelentíssimos, que vivem de memórias mais do que de actos. Esta semana, num momento particularmente elucidativo do seu estilo, António Costa juntou apoiantes da chamada área da Cultura. Nas fotografias vi imagens de um parque jurássico onde se passeavam devedores de favores, pretendentes a prebendas e devotos variados. Interrogo-me sobre a razão de ser destes apoios a alguém que, em sete anos de presidência de Câmara Municipal de Lisboa, manifestamente não mostrou estratégia para a cidade nem para a cultura. Dizem-me que pode ter a ver com a solidariedade de uma esquerda cheia de memórias e carente de ideias - aqueles que preferem a emoção à razão. Mas, constato que, mesmo sem formular políticas, António Costa já sabe como vai organizar um Governo, se um dia o tiver. É patética a promessa de um Ministério da Cultura sem antes saber que recursos vai poder ter e como vai poder funcionar - serve apenas para cenário imaginário onde poderá alojar umas vaidades, várias delas na plateia. Este Costa que quer governar o PS e o país está há sete anos a mandar na cidade e, tirando as obras na rotunda, o notável desprezo pelos habitantes e o aluguer da avenida da Liberdade para servir de pocilga de supermercado, não se lhe nota obra feita. Como a congregação desta semana mostrou, este é um daqueles casos em que o rei vai nu e chamou uns estarolas para o cobrirem. Há uma página de Facebook que dá pelo nome de “Costa no Castelo” e que conta as aventuras de “Inércio, o alcaide que queria ser Rei”. Está resumido o assunto.
SEMANADA - O revisor oficial de contas da Câmara Municipal de Lisboa levantou um conjunto de reservas sobre as contas de 2013 da autarquia, num montante superior a mil milhões de euros; o passivo total da Câmara Municipal de Lisboa em 2013 aumentou 10,3% em relação a 2012, atingindo os 1420 milhões de euros; a Câmara de Lisboa mais do que triplicou a sua despesa com a adjudicação de empreitadas e a aquisição de bens e serviços entre 2012 e 2013; faltam 82 dias para as primárias do PS; Paco Bandeira é um dos 600 artistas a subscrever um manifesto de apoio a António Costa; a polícia municipal de Braga tem 47 agentes que estão sem comandante há dois meses; em 2013 o prejuízo médio por farmácia foi de 8703 euros, ou seja mais de 25 milhões de euros no total; os vistos gold captaram já mil milhões de euros de investimento este ano; as contas bancárias penhoradas aumentaram 10% num só ano; o crédito malparado das famílias portuguesas atingiu em Maio deste ano o valor mais alto desde o princípio de 1998, um total de 5262 milhões de euros; a bolsa de Lisboa perdeu 16% em três meses; 12 dos 16 administradores da Espírito Santo Internacional, a braços com uma dívida superior a 7 mil milhões de euros, pediram a demissão; a Espírito Santo Internacional pondera apresentar pedido de insolvência.
ARCO DA VELHA - Narciso de Miranda, ex-presidente da Cãmara de Matosinhos eleito pelo PS ao longo de 29 anos, foi acusado de ter feito uma falsa declaração de roubo de um iPhone 3, para que a Associação de Solidariedade, a que presidia, substituísse o modelo antigo por um mais recente que lhe agradava mais.
FOLHEAR - O número 215 da revista “Aperture” é dedicado à cidade de São Paulo. Publicada quatro vezes por ano por iniciativa da Aperture Foundation, criada em 1952, a edição do Verão deste ano é pela primeira vez na história da revista dedicada a uma cidade fora dos Estados Unidos. É o pretexto, para em época de Mundial, se falar do Brasil e da fotografia brasileira. Sérgio Burgi escreve um bom ensaio, “An Itinerant Photography”, sobre as primeiras revistas ilustradas e o surgimento dos clubes de fotografia no pós guerra. Militão Augusto de Azevedo, um precursor da fotografia, é recordado pelo seu álbum comparativo de imagens feitas em São Paulo entre 1862 e 1887, quando a cidade passou de 25 mil a 50 mil habitantes - hoje já ultrapassa os 20 milhões. A “Aperture” lembra publicações como a revista ilustrada semanal “O Cruzeiro”, que existiu entre 1928 e 1975 e que em 1954 tirava meio milhão de exemplares. Fala da abertura da Bienal de São Paulo à fotografia em 1953, do lançamento da newsmagazine “Realidade” pela editora Abril em 1966 - durou dez anos. Recorda, com um belo portfolio, Geraldo de Barros, um dos nomes marcantes da fotogradia brasileira dos anos 40 ao final do século XX. Mas a “Aperture” não se fica no passado e mostra trabalhos de nomes como Caio Reisewitz, Barbara Wagner, Hudilson Urbano Jr., Mauro Restiffe (a sua forma de ver o funeral de Niemeyer), Jonathas de Andrade, Regina Silveira, Sofia Borges ou Claudia Andujar. Faz um ponto de situação das residências, galerias e museus ou locais de exposição que privilegiam a fotografia e mostra como os photobooks documentaram a história da cidade ao longo dos anos. Um dos melhores artigos da edição é assinado por Ronaldo Entler e mostra trabalhos dos colectivos mais marcantes na fotografia contemporânea em São Paulo, a Cia da Foto cujos membros não assinam as fotografias individualmente, a Garapa que se distingue por experimentar novas formas de narartiva fotográfica em trabalhos financiados por crowdfunding, o FotoProtestoSP que nasceu para cobrir as manifestações de 2013, a SelvaSP. criada em 2012, para retratar o lado mais negro da cidade ou a MídiaNinja, também saída dos protesto de 2013.
VER - A exposição da semana está no antigo edifício dos Correios, na Praça de D. Luis, junto ao Mercado da Ribeira, a Central Station. Dentro em breve o edifício vai ser reconvertido, mas entretanto, até dia 17 deste mês, mostra no seu segundo andar o trabalho de 51 artistas contemporãneos, de diversas áreas, do desenho à fotografia, passando pela pintura, a escultura. A “Mostra”, assim se chama a iniciativa, pretende a partir de agora mostrar todos os anos o trabalho de artistas emergentes ao lado de alguns consagrados, dando uma oportunidade de exposição que vai sendo rara. A “Mostra” estará aberta todos os dias das 13 às 20 horas até à próxima quinta-feira. Mais informações e detalhe do programa paralelo em http://www.mostradearte.com. A não perder. Entretanto neste fim de semana realiza-se também a edição inaugural da Est Art Fair, que se posiciona como uma feira internacional de arte contemporânea. Estão representadas três dezenas e meia de galerias, metade das quais estrangeiras. Mais informações em est-art.com .
OUVIR - José James é um dos nomes em ascensão no jazz vocal e já actuou algumas vezes em Portugal. Volta este domingo, aos Jardins do Marquês de Pombal, em Oeiras, integrado no edpcooljazz. Na bagagem traz o seu novo álbum, já editado entre nõs, “While You Were Sleeping”. O disco tem provocado alguma polémica porque James saíu do caminho tradicional dos rhythm’n’blues que tem sido a sua imagem de marca e ensaia outros terrenos - logo desde a primeira faixa, “Angel”, onde uma guitarra que evoca o fraseado de Jimi Hendrix, surpreende quem esperava outra coisa e mostra como José James experimentou a liberdade de sair dos cânones que o marcavam. Outros temas a reter são “Dragon”, que conta com a colaboração da cantora Becca Stevens, o tema título “While You Were Sleeping”, ou ainda “U R the 1”, “4 Noble Truths” e sobretudo a sua versão do clássico de Al Green, Simply Beautiful”, que encerra o trabalho. (CD Blue Note/Universal).
PROVAR - Apresenta-se como o mais tradicional restaurante chinês de Lisboa, tem meia dúzia de semanas de funcionamento e fica no Beato. Chama-se Dinastia Tang e é fruto do trabalho de um casal luso-chinês. Todos os elementos decorativos do restaurante vieram da China, a mobília é tradicional, confortável, sólida. O espaço é amplo, aberto numa parte, com recantos noutra. No rés do chão existe uma sala para grupos, muito utilizada pela comunidade chinesa. A cozinha que aqui se pratica é também diferente daquela que é servida na maior parte dos restaurantes chineses da cidade. A escolha do menu e o cuidado no tempero fazem a diferença, assim como os pratos ao vapor, desde os dim sum ao pão chinês ou a sobremesas como as bolas de arroz com sésamo. Aqui a influência maior é da gastronomia de Cantão. Amendoins com orvalho, frango ou camarões com fruta variada e caju (muito bom), um excepcional pato com castanhas, ou um tradicional pato à Pequim são apenas alguns dos pontos de uma lista extensa que merece ser explorada. Há raridades, como raiz de lótus, línguas de pato, salada de medusa (ou alforreca em português mais corriqueiro) e, por fim, um afamado doce de leite frito. A serviço é acolhedor e simpático, os preços são ajuizados, o balanço final da primeira experiência foi bom. Dinastia Tang, Rua do Açucar 107, telefone 967145938.
DIXIT - “O fantasma de Sócrates vai estar sempre presente” - José António Saraiva, no “Sol”, sobre a situação no PS
GOSTO - Do comportamento do Banco de Portugal em relação ao caso BES, bem diferente do que antes se passou no tempo de Constâncio e do BPN.
NÃO GOSTO - Num só ano, nos vários graus de ensino, Portugal perdeu cem mil estudantes do pré-primário ao universitário.
BACK TO BASICS - A tradição deve ser um guia e não uma prisão - Somerset Maugham
julho 04, 2014
UMA EUROPA QUE FICA MAL NA FOTOGRAFIA
EUROPA - Com alguma perplexidade descobri que, em quase todos os principais sítios de notícias portugueses, o discurso inaugural da presidência italiana da Comunidade não constava, com qualquer destaque visível, por volta das dez das noite de quarta feira, meia dúzia de horas depois de ter sido proferido. E no entanto o antigo presidente da câmara de Florença foi iconoclasta - chamou a atenção para os podres da Europa, traçou prioridades, sublinhou que o Pacto de Estabilidade também é um Pacto de Crescimento, lembrou a necessidade de políticas especiais para incentivar os mais novos e defendeu o papel de referência humanística da Europa na cena internacional. “O grande desafio do semestre europeu não é fazer uma lista de problemas a resolver, o grande desafio é recuperar a alma europeia” - disse Renzi. É impressão minha ou ouve-se muito pouco disto ultimamente, quer cá dentro, quer em Berlim ou em Paris? Paradoxalmente, no mesmo dia, todos os jornais e sítios da internet tinham mais espaço consagrado às desventuras policiais de Sarkozy que ao discurso de Renzi.
SEMANADA - Continua a crise no PS; continua a crise no BES; a irrevogável crise no Governo dura há um ano; no ano passado o fisco detectou 72 operações montadas em empresas para permitir a fuga a impostos; as dívidas fiscais prescritas e anuladas somaram 650 milhões de euros em 2013; o Governo baixou o IVA dos torresmos e do pão com chouriço de 23 para 6%; as vendas de carros novos cresceram 40% no primeiro semestre, mas estão ainda 20% abaixo da média dos últimos dez anos; na Europa apenas Chipre, Croácia, Espanha e Grécia têm uma taxa de desemprego maior que a portuguesa; a taxa de desemprego recuou para 14,3% e o número total de desempregados é agora de de 736 mil, menos 145 mil que há um ano; no espaço de um ano 535 389 pessoas perderam prestações sociais do Estado, entre as quais 412 mil desempregados; em 2013 foram detectados 222 mil cheques carecas; este ano os estrangeiros já foram responsáveis por 15% de transações imobiliárias em Lisboa; os gastos de turistas chineses em Portugal aumentaram 697,7% no primeiro quadrimestre deste ano; o número de cartões de crédito em Portugal diminuíu 35% em 2013; a dívida pública atingiu 132,9% no final do primeiro trimestre, mais 4% que o valor registado no final do ano passado; 3606 professores pediram a rescisão com o Estado; a Fundação Cidade de Guimarães desperdiçou mais de três milhões de euros, ou seja cerca de 40% do dinheiro disponível para promoção do ano cultural junto dos turistas; Sarkozy foi interrogado por suspeitas de tráfico de influências; 88% da superfície oceânica tem detritos de plástico; o BES Photo mais uma vez optou por não premiar fotografia.
ARCO DA VELHA - Em matéria de justiça este ano tem um mês a menos - o Conselho Superior da Magistratura e a Procuradora Geral da República recomendaram aos magistrados do Ministério Público que evitem marcar julgamentos e outras diligências em Setembro por causa da entrada em vigor do novo mapa judiciário.
FOLHEAR - Depois da desgraça que foi o debate do Estado da Nação, do vazio de ideias que se anuncia no Conselho de Estado e do triste espectáculo proporcionado pelas várias tendências do PS, aqui está uma muito boa leitura para nos fazer a todos meditar: “Dimensões da Cidadania” é um estudo sobre a mobilização política em Portugal, da autoria de Manuel Villaverde Cabral, agora editado pelas edições Afrontamento. A evolução histórica de Portugal, o seu lugar na Europa, o papel da religião, a aliança com a Inglaterra e a adesão europeia são marcos que ajudam a balizar a evolução do comportamento da sociedade portuguesa. Como diz o autor na apresentação “foi possível demonstrar que o país sofre, além das desigualdades sociais bem conhecidas, de uma tendência generalizada para um envolvimento cívico e político no espaço público comparativamente baixo>” . O livro analisa, com rigor e detalhe, o exercício da cidadania política em Portugal, recorrendo a numerosos estudos, a uma análise comparada de dados que permitem ver em pormenor como tem sido a evolução do comportamento - um afastamento dos partidos, das formas de intervenção políticas habituais, das classificações ideológicas tradicionais. A análise está aqui, bem feita. Pelo caminho que as coisas levam o distanciamento em relação às organizações antigas, que são as que ainda nos governam, vai acentuar-se. Depois deste livro ninguém pode dizer que o assunto não foi estudado e anunciado. O que se passa na política à portuguesa está lá bem explicadinho.
VER - Quatro sugestões para esta semana: “Dissection”, de Alexandre Farto, aliás Vhils, no Museu da Electricidade - a intervenção do artista fica em exposição até 5 de Outubro, e apresenta um conjunto de obras feita expressamente para o interior e o exterior do museu, naquilo a que se poderia chamar graffittis esculpidos em paredes - trata-se da maior exposição de Vhils apresentada até hoje em Portugal; no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian o fotógrafo Edgar Martins mostra o trabalho que desenvolveu entre 2012 e 2013 na ESA - European Space Agency em nove países diferentes espalhados por três continentes. São oito dezenas de fotografias (uma delas aqui reproduzida) que mostram o óbvio como se fosse documental, fazendo do pormenor um ponto de vista; no Hotel Tivoli, Avenida da Liberdade, Pauliana Valente Pimentel mostra imagens de viagem, muito particulares, na exposição “The Passenger”; e em A Pequena Galeria (Av 24 de Julho 4C), a partir de sábado, Pedro Guimarães mostra com “Valley” as imagens que reteve da natureza no vale de Foz Côa.
OUVIR - Ao mesmo tempo que investiu fortemente num sistema de som que pretende restaurar o prazer da alta fidelidade na era digital, o Pono, Neil Young gravou agora um disco, “A Letter Home”, no mais rudimentar sistema que se pode imaginar - uma máquina de final dos anos 40 que se destinava a gravar discos, em feiras e parques de diversões, podendo logo o utilizador levar consigo para casa um vinyl ali gravado. O Voice-O-Graph, assim se chama a máquina, era usado para gravar declarações de amor, canções de aniversário ou versões de temas populares e na moda, bem antes de existirem as chuvas de estrelas contemporâneas. A qualidade é péssima, alguns dizem que a evocação da gravação antiga proporciona uma patine que tem os seus atractivos, mas a distorção é constante. Apesar disso, ou, talvez, a contar com isso, Neil Young excede-se neste disco, canta inesperados standards folk e faz algumas versões absolutamente brilhantes, como a de “Girl From The North Country”, um tema de Bob Dylan, gravado originalmente em 1963 pelo próprio e, anos mais tarde, em 69, num dueto com Johnny Cash, na abertura do álbum “Nashville Skyline”. Aqui estão também temas de Gordon Lightfoot (como “If You Could Read My Mind” e “Early Morning Rain”), de Willie Nelson (“Crazy” e “on The Road Again”), um brilhante “My Hometown” de Bruce Springsteen, os clássicos “Changes” de Phil Ochs e “Reason To Believe” de Tim Hardin, "I Wonder If I Care as Much" dos Everly Brothers e, sobretudo, “Needle Of Death” de Bert Jansch que tem óbvias ligações a “The Needle And The Damage Done”, um dos temas marcantes do próprio Young. Neste disco, ao lado de Neil Young aparece, em dois temas, Jack White, ex-White Stripes - um dos músicos que tem mais em comum com Young entre os da geração mais recente. A máquina Voice-O-Graph de facto pertence a White e este disco, “A Letter Home” na realidade foi inicialmente editado apenas em vinil na editora de Jack White, Third Man Records. Entretanto cresceu para a forma actual em CD e numa box especial que inclui um DVD e um livro.
PROVAR - Em plenas avenidas novas fica um daqueles restaurantes discretos e familiares, tradicionais mas não decadentes, bem de bairro, que já vão rareando em Lisboa. Dá pelo malandro nome de “O Bacano” e identifica-se como restaurante e snack bar em neons bem à moda dos anos 70 - não é de admirar, a casa foi fundada em 1972. À entrada está uma longa barra que faria as delícias de um bar de cocktails ao fim da tarde, se tal coisa fosse habitual nesta terra. “O Bacano” fica na João Crisóstomo 47 C, bem perto do cruzamento com a Marquês de Tomar. Conserva no interior tudo o que é decoração típica da época, onde não faltam quadros espelhados da Martini e cartazes turísticos de Portugal. O sítio ganhou fama porque na época da lampreia a preparação do ciclóstomo é muito adequada - seja de que forma fôr - até a escabechada. No dia a dia, fora da lampreia, destaca-se o cozido das quintas, o bacalhau à Narcisa que existe sempre, assim como os choquinhos grelhados e as pescadinhas de rabo na boca. Outros pratos do dia são bem portugueses - mão de vaca com grão, empadão de batata com vitela e grelhada mista com açorda de míscaros. Na casa surge leitão com frequência e às sextas há arroz de pato à antiga. A casa é despretenciosa mas honesta, o serviço é simpático, a clientela é familiar, a fazer par com a cozinha bem caseira. Há um menu económico diário a 6 euros. Telefone 213 533 859
DIXIT - "Se fizéssemos uma selfie à Europa, a sua face seria a do cansaço e da resignação, seria o rosto do aborrecimento numa altura em que o mundo corre a uma velocidade extraordinária" - Matteo Renzi, Primeiro Ministro de Itália
GOSTO - De um artigo de Miguel Cadilhe no Jornal de Notícias onde demonstra que o esforço fiscal dos contribuintes portugueses é o maior da União Europeia
NÃO GOSTO - Da maneira como se fez na Assembleia da República o debate do Estado da Nação - demasiada retórica, muito propaganda e poucas ideias, ou seja, o retrato do regime que os partidos criaram.
BACK TO BASICS - “Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora “ - Eça de Queiroz
junho 27, 2014
UM MANUAL DE COMO AFASTAR PESSOAS DA POLÍTICA
TRISTEZA - Sobre a actualidade política digo apena isto: a disputa pela liderança do PS é um bom case study do que afasta as pessoas da política: barões e figurões que incentivam revisões apressadas dos estatutos, velhos do restelo que se juntam para esquecer o presente e fazer do futuro um regresso ao passado, uma actividade de permanente agressão nas redes sociais - tudo isto mostra o pior do sistema partidário que temos. Como escreveu no “Observador” Manuel Villaverde Cabral, “o caldo está a entornar-se”.
SEMANADA - Na noite de São João, no Porto, registaram-se três esfaqueamentos e quatro agressões a polícias; na reunião da Comissão Nacional do PS, em Ermesinde, registaram-se altercações, insultos e desacatos entre apoiantes de Costa e de Seguro; cada rapaz internado em 2013 em centros educativos - as “prisões” para jovens entre os 12 e 16 anos - cometeu em média nove crimes, enquanto as raparigas nas mesmas circunstâncias praticaram sete; a cobrança de mais impostos foi a responsável por 60% da redução do défice; quase metade do aumento de 477 milhões de euros da receita fiscal foi para pagar juros da dívida; o número de devedores fiscais aumentou 22%; os processos parados nos centros de arbitragem subiram 21% em três anos; há mais de 265 escolas do 1º ciclo em risco de encerrar por falta de alunos; os chineses foram a comunidade estrangeira que mais cresceu em Portugal em 2013, com um aumento de 6,8%, para um total de 18 637 imigrantes; Portugal tem a segunda taxa mais alta da União Europeia em contratos a prazo involuntários; estudos da Markteste indicam que 85% dos portugueses têm contacto regular com jornais e revistas e que ao longo do mês de Maio 5,5 milhões de portugueses navegaram na internet a partir de computadores pessoais e cada utilizador esteve ligado uma média mensal de 23 horas e 19m minutos; num almoço público, em Lisboa, Rui Rio remeteu para o Destino a hipótese de ser Primeiro Ministro; Tony de Matos cantava, em 1970 a canção “O Destino Marca a Hora”, no filme do mesmo nome.
ARCO DA VELHA - Os comboios do Metro de Lisboa estão desde 2010 sem um dos sistemas de extinção de incêndios e os travões de emergência estão desactivados em toda a frota há dois anos - a Procuradoria Geral da República admitiu estar a investigar falhas de segurança naquele meio de transporte.
FOLHEAR - Ivan Carvalho é um luso-descendente nascido nos Estados Unidos, correspondente da “Monocle”, sediado em Milão, e que nos últimos tempos tem sido o autor de uma série de artigos que a revista tem publicado sobre Portugal. A edição especial de Julho/Agosto da “Monocle”, agora distribuída, vem cheia de referências ao nosso país, a começar por um belo portfolio fotográfico de Cascais (com chamada de capa), acompanhado por um texto de Ivan Carvalho que percorre a influência do mar, mas também da gastronomia e das actividades culturais, seja na casa das Histórias Paula Rego ou as galerias e ateliers de artistas na Pousada da Cidadela. Pelo meio ficam os gelados Santini, relatos de estrangeiros que escolheram Cascais para viver e, sempre, a atracção do oceano. Mas a “Monocle” foi também ao Porto (com um guia de compras no Mercado do Bolhão), fala do surf na Ericeira, enaltece em Lisboa a recuperação do rio que a cidade começou a fazer há uns anos atrás, antes de Costa, elogia os desenhos dos passeios tradicionais que o actual executivo camarário pretende extinguir, chama a atenção para as debilidades na reabilitação, mostra o Bar Oslo no Cais do Sodré, sugere os quiosques recuperados onde se bebem refrescos e se petisca. Na habitual lista das melhores 25 cidades para viver que a “Monocle” publica nesta altura do ano, Lisboa volta a entrar na 22ªa posição, após uma ausência de dois anos, atrás de Barcelona e à frente de Oslo. A melhor cidade, diz a “Monocle” é Copenhaga. Destaco ainda os dez ensaios que são o prato de substância desta edição, muito focados na boa utilização das cidades. Finalmente artigos a ler sobre bosn exemplos de imprensa local e sobre a recuperação de velhas salas de cinema como espaço de convívio de cinéfilos.
VER - António Pinto Ribeiro é o criador e programador do “Próximo Futuro”, uma iniciativa tão inovadora e disruptiva que nem parece saída das teias de aranha, tradicionais ou contemporâneas, que infelizmente se tornaram a imagem de marca da acomodada Gulbenkian. Ao longo dos últimos anos o “Próximo Futuro” tem vindo a construir o cruzamento de ideias e de práticas artísticas entre Portugal e a Europa, África, América Latina e Caraíbas. Por estes dias iniciou-se o ciclo de Verão, que vai até Setembro, particularmente focado na América Latina. Para além das exposições há debates e sobretudo um jornal que sazonalmente dá conta do Programa e recolhe ideias, mostra imagens e incentiva, de facto, à leitura. Na Galeria de Exposições temporárias, de terça a domingo, infelizmente sempre apenas das 10 às 18, está a exposição que reúne obras de 21 artistas de diversos paíeses e continentes. Há no Jardim da Fundação uma peça de arquitectura criada de propósito para a ocasião, apresentada como um tótem desenvolido por Tiago Rebelo de Andrade e Diogo Ramalho, da Subvert, “que permite às pessoas experenciarem o seu interior”. De 20 a 22 de Julho decorreu a festa da literatura e do pensamento da América Latina que pretendeu debater se existe, ou não, uma identidade latino-americana. Ao mesmo tempo houve já música e cinema, que em Setembro se repetem, ao lado de teatro e de dança. Sigam o programa em www.proximofuturo.gulbenkian.pt
OUVIR - Tiago Bettencourt começou a sua carreira em 2003 com os Toranja e logo se fez notado. Em 2007, acompanhado pelos Mantha, fez “O Jardim”, que incluía o tema “Canção Simples”. Meia dúzia de anos e de discos depois surge “do princípio”, talvez o seu álbum mais maduro. Como sempre as canções são integralmente da sua autoria, a banda que o acompanha integra agora João Lencastre na bateria, Tiago Maia no baixo (muito bom) e Daniel Lima nos teclados. Há colaborações de Fred Ferreira, Jacques Morelenbaum e Mário Laginha, entre outros, e a produção executiva é de João Pedro Ruela. Gosto muito da maneira como Tiago Bettencourt escreve, embora por vezes o ache entre o previsível e o inconstante na interpretação. Mas neste disco há temas incontornáveis, como “Maria”, “Fúria e Paz”, um quase hino chamado “Ameaça”, o belíssimo “Sol de Março” ou um momento que evoca Jorge Palma e que é perfeitamente contemporâneo, mesmo que Tiago Bettencourt, nas entrevistas, lhe queira tirar a carga política de crítica da actualidade: “Aquilo Que Eu Não Fiz”, o grande tema deste disco, que certamente ficará entre as grandes canções portuguesas deste ano: “Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz (...) Não fui eu que gastei mais do que era para mim/ não fui eu que tirei, não fui eu que comi, não fui eu que comprei, não fui eu que escondi quando não estavam a olhar, não fui eu que fugi”. (CD Universal)
PROVAR - Numa boa e cúmplice surpresa descobri, a meia centena de quilómetros de Lisboa, um segredo bem escondido chamado Areias do Seixo, um hotel com uma dúzia de quartos, num local único, em cima do oceano, entre a Lourinhã e Santa Cruz, no meio das dunas, sobre uma falésia que desce para o mar. Para além do bem conseguido projecto de arquitectura, de exterior e interiores, há um cuidado com os pormenores na utilização de materiais naturais e da região e na utilização de materiais reciclados no mobiliário. O sítio combina, em doses invulgarmente certas, o rustico com o conforto e o contemporâneo. O hotel tem uma pequena área de horta e outra de estufa onde se cultivam produtos que são servidos no restaurante - legumes, fruta, ervas a infusões, e também, noutro plano, ovos frescos. O buffet do pequeno almoço é exemplar no aproveitamento dos recursos naturais e da região, sem coisas desnecessárias e com muita atenção a proporcionar um bom começo de dia. O peixe é fresquíssimo e é porventura o maior trunfo da cozinha, privilegiando os temperos naturais e os processo culinários simples. A carne é bem cozinhada, no ponto, sem margem para dúvidas. No bar, além dos biscoitos e dos chás do lanche, há petiscos, que se repetem na carta de entradas. Pessoalmente abomino menus de degustação impostos, que é o ponto fraco da proposta do jantar onde os items infelizmente não se podem separar. Mas tirando isso, a lista tem alternativas e a coisa corre muito bem embora fosse desnecessário o encanto pela espuma servida numa sobremesa que não era mais que um chantilly disfarçado - síndrome de chef com complexo molecular, digo eu. O serviço é geralmente atento, eficaz e discreto, embora por vezes renitente a críticas na zona da restauração. Há bons vinhos da região, os inevitáveis gins da moda, mas abertura suficiente para servir um gin tónico à antiga, á moda do império britânico. Na mercearia, além das infusões, há peças artesanais, compotas, vinhos e azeites. O balanço geral é francamente positivo, pelo conforto, pela atenção, pelo descanso que é possível ter entre as areias do seixo. Reservas para 261 936 350 ou info@areiasdoseixo.com.
DIXIT - “Sócrates não antecipou a gravidade da crise financeira nem travou as PPP” - João Proença, membro do secretariado do PS e ex-dirigente da UGT.
GOSTO - Da decisão de criar a curto prazo uma Film Commission que permita captar mais produções audiovisuais internacionais para Portugal.
NÃO GOSTO - Do sacudir água do capote dos responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol a propósito do Mundial
BACK TO BASICS - Os políticos são todos semelhantes em qualquer país: prometem fazer pontes onde nem sequer existe um rio - Nikita Khrushchev