maio 30, 2014

ESTE VAI SER UM ANO DE GUERRILHA

GUERRILHA _ Vamos ter um ano bem agitado em matéria de política até às próximas legislativas, em 2015 - guerrilhas internas nos partidos, mudanças nas suas direcções, a começar pelo que já está à vista no PS, e alguma conversa de ocasião sobre a necessidade de mudanças no sistema político, provavelmente uma remodelação estival do Governo. O movimento vai ser contagiante a todo o espectro e a reunião do Conselho Nacional do PSD mostrou que Passos Coelho preferiu ser o primeiro a falar de necessidade de proceder a alterações, pelo menos na forma de agir.  Desta vez os partidos do chamado arco da governação, ou o Bloco Central se preferirem, apanharam um susto: a abstenção foi maior do que temiam e aqui, como noutros países, movimentos à margem dos sistema foram os únicos a poder verdadeiramente reclamar vitória - é o caso de Marinho Pinto. Se juntarmos a abstenção, os votos brancos e os nulos chegamos à conclusão que só 26,5% dos eleitores votaram num dos concorrentes. O que se passa no fundo é simples: muitos eleitores preferiram não votar a votarem contrariados e isso atingiu de forma dura o PS, a coligação e o Bloco de Esquerda que, cada um à sua maneira, se tornaram incómodos para a sua própria base eleitoral. O que se passa é que com o andar dos anos os partidos viraram-se para dentro e vivem centrados nos seus umbigos - preocupam-se mais com as eleições internas, com o apoio das distritais e do aparelho, do que com a relação com os eleitores, com os seus simpatizantes e votantes. No fundo os partidos desprezam o regime e só se lembram dele quando os votos se tornam num bem escasso. Nas legislativas, ao contrário do que se podia pensar há uns meses, está tudo em aberto e a única certeza que pode agora existir é que vão ser renhidas e a campanha vai ser longa - começa já agora.


 


SEMANADA - A transmissão da final da Champions League na TVI teve mais espectadores que a noite eleitoral nos três canais (RTP, SIC e TVI) em conjunto; a análise de algumas sondagens indicia que a entrada de Sócrates na campanha do PS teve por efeito uma queda nas intenções de voto nos socialistas; Marinho Pinto admite ser candidato presidencial; Miguel Relvas voltou a intervir no Conselho Nacional do PSD, disse que nas eleições de domingo “perderam todos” e defendeu a reforma do sistema político; no domingo o PS falava em vitória, e segunda já tinha começado a discutir a convocação de um congresso extraordinário;  Manuel Alegre diz que Seguro “não tem que ter medo do congresso”; Edite Estrela diz que “é necessário que haja um congresso”; Francisco Assis diz que “não se deve colocar a questão da liderança”; Carlos Zorrinho diz que se revê no que disse Francisco Assis; Ana Gomes diz ser “inoportuna e desajustada” a disputa pela liderança do PS; António Galamba diz que não há condições “para andar todos os dias a brincar aos congressos”; Vieira da Silva diz desejar que se clarifiquem as posições; João Galamba sublinhou que nas eleições “o povo disse que este PS não chega, é preciso mais”; Mário Soares considerou o resultado do PS nas europeias uma “vitória de Pirro”; João Soares disse no Facebook que “o PS português teve uma clara e boa vitoria nas eleições europeias de domingo” e considerou a possibilidade de um congresso extraordinário “um disparate total”; Jorge Lacão demitiu-se da direcção do PS, defendendo a realização de um Congresso extraordinário; No Rato António José recebeu António Luís, que llhe solicitou a convocação de um Congresso e, em resposta, Seguro emitiu um comunicado onde diz que “o Secretário Geral do PS registou a posição do Dr. António Costa”.


 


ARCO DA VELHA - Em Lisboa um carro da PJ, identificado e em serviço, cujos agentes iam fazer uma detenção, foi considerado mal estacionado e rebocado pela PSP; uma casa de alterne, na região de Felgueiras, que esta semana foi alvo de uma acção policial, era o patrocinador oficial das camadas jovens de futebol da Lixa, localidade onde estava instalado o Impetus Bar.


 


FOLHEAR - Editado originalmente em 1918, e agora reeditado, o livro  “A Malta das Trincheiras” é um espantoso documento sobre a  I Grande Guerra, escrito por André Brun, um português de origem francesa que foi levado a combater em França. André Brun foi um cronista da sua época, assinou como dramaturgo obras como ”A Maluquinha de Arroios”, foi argumentista de filmes como “A Vizinha do Lado” e foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores. André Brun foi ainda um dos combatentes do corpo expedicionário português, onde ganhou a medalha da Cruz de Guerra. O título original do livro é “A Malta das Trincheiras - Migalhas da Grande Guerra: 1917-1918”. É  um livro de relatos de guerra, que vive de um grande poder de observação, feito em pequenos capítulos, cada um deles uma história,  reconstituindo o ambiente das trincheiras. Mais que uma reportagem, relata numa prosa elegante episódios do quotidiano, a convivência com soldados de outras nacionalidades, mas também a vida nas pequenas quintas que serviam de abrigoa, ou as dificuldades do diálogo em línguas diferentes. Não são escondidos os mortos nem os feridos, são relatados os problemas e os casos, é contado o medo e o humor em tempo de guerra, a aventura de manter a vida em cidades e terras transformadas em lugares mortos por onde se sobrevive. Uma edição Guerra & Paz.


 


OUVIR - Depois de três álbuns de inspiração clássica, o 14º registo de estúdio de Tori Amos volta ao formato que lhe deu notoriedade, baseado na sua voz e no piano, que alterna entre momentos de uma grande intensidade, outros de uma enorme melancolia e outros de uma desarmante intimidade. “Unrepentant Geraldines”, agora editado, parte de ambientes inspirados pelas artes visuais, para abordar temas como a religião, ou o envelhecimento e o sexo, com a elegância da fantasia. A canção título, “Unrepentant Geraldines” é uma viagem ao passado musical de Tori Amos e as canções mais simples, baseadas na voz e piano, como “Oysters”, “Invisible Boy” e “Selkie” são bem conseguidas, e “Wild Way” ou “Wedding Day” são marcantes, confessionais quase, enquanto “16 Shades of Blue” ou “Giant’s Rollin Pin” são de um experimentalismo inesperado. Em qualquer dos casos há um ponto comum - a qualidade das interpretações vocais mostra que Tori Amos, a cantora, está em grande forma.


 


VER - De entre os trabalhos de Délio Jasse, José Pedro Cortes e de Letícia Ramos sairá o vencedor deste ano do BES PHOTO, que vai na sua décima edição -  e a respectiva exposição inaugurou esta semana no Museu Berardo. No MUDE, Rua Augusta 24, apresenta-se a moda dos anos 80  Estão representadas criações de  Vivienne Westwood e Malcom McLaren, empresário dos Sex Pistols, mas também de John Galliano, Claude Montana. Thierry Mugler, Alain Mikli, Azedine Alaïa, Romeo Gigli, Sonia Rykiel, Comme des Garçons, Issey Miyake e Jean-Charles de Castelbajac. “Os Iconoclastas dos Anos 80", a exposição que reúne estas peças exibidas em conjunto pela primeira vez em Lisboa, pode ser vista no piso 1 do Museu do Design e da Moda, até ao dia 31 de agosto. Finalmente neste fim de semana inaugura na Galeria das Salgadeiras (Bairro Alto, Rua das Salgadeiras 24, até 31 de Julho) a exposição “Leve Linha” de Teresa Gonçalves Lobo, composta por desenhos a tinta da china (aqui mostrado na imagem) , que são uma imagem de marca da artista.


 


PROVAR - Eu gosto de iscas, de iscas bem temperadas, cortadas finas, às vezes com elas tradicionais, às vezes com elas fritas. Elas, claro, são as batatas - cozidas aos quartos ou fritas aos palitos. As iscas são um prato oriundo das velhas casas de pasto, finas fatias de fígado, inicialmente de bovinos e , depois das vacas loucas, apenas de fígado de porco. Têm que ser finas em toda a extensão , não se aceitam iscas aos zigue-zagues com pedaços mais grossos. O molho há-de levar o toque certo de vinagre, que realça o paladar e terá que ser espesso. As iscas, bem temperadas, são um coisa única, um petisco. Os restaurantes populares com boa cozinha são os que melhor as confeccionam. Vou dar dois exemplos diferentes, mas afamados. Um fica nas Avenidas Novas e outro em Campo de Ourique. Na Avenida Conde de Valbom 87, em boa hora fechada ao trânsito no tempo em que João Soares era Presidente da Câmara, fica o Jaguar, casa afamada, sala estreita de entrada, ampla no final, agora também com esplanada convidativa. O Jaguar é uma referência das avenidas novas, local manda a tradição culinária e onde as iscas existem sempre e são dos pratos mais procurados. O outro, na Rua Coelho da Rocha 91, é o Bar Venezuela, casa mais pequena, interclassista assumida, com cozinha bem portuguesa e familiar, com um inesperado mas interessante toque de piri-piri no tempero das iscas, servidas como prato do dia às segundas-feiras. Os dois restaurantes vivem de receitas populares e tradicionais e primam pela boa confecção. E são módicos no preço e abastados na simpatia.


 


DIXIT - “Lá vamos ter novamente António José Seguro a ficar António José Inseguro” - Morais Sarmento nos comentários da noite eleitoral.


 


GOSTO - Da abstenção tomada como um aviso


 


NÃO GOSTO - Da indiferença dos partidos face aos resultados eleitorais, como se a culpa fosse dos eleitores



BACK TO BASICS - “O linguajar dos políticos é feito de forma a fazer parecer que as mentiras são verdades e o assassínio algo de respeitável, e também para dar um ar de solidez a coisas que mais não são que vento” - George Orwell

maio 23, 2014

SOBRE A AGITAÇÃO DO FIM DE SEMANA

ABSTENÇÕES - Neste fim de semana os portugueses vão dividir-se entre os que seguirão a final da Champions League nas suas várias vertentes, no sábado,  e os que seguirão o acto eleitoral de domingo. Aposto que o futebol vai ganhar às eleições. Não me surpreendo graças a uma campanha sem ideias, feita de chavões e lugares comuns. Se fizermos bem as contas, apenas nove dos 18 partidos que se apresentam nas eleições têm alguma espécie de existência e, destes, pouco mais de metade tem alguma actividade política e cívica regular - nos outros há de tudo, até barrigas de aluguer que é aquilo em que o MPT se transformou. As campanhas eleitorais foram miseráveis - a propaganda política desceu a níveis ainda mais baixos que aquilo que se podia imaginar. A Comissão Nacional de Eleições continuou a cumprir o seu papel de guardiã do absurdo: num cenário em que apenas meia dúzia de concorrentes têm alguma existência palpável, como é que se pode defender debates entre todos os participantes? Como se pode defender a igualdade de tratamento a quem não tem igualdade de presença na sociedade nem igualdade de comportamento? Tudo isto é criminosamente ridículo - ainda para mais com o completo desfasamento entre a realidade dos media actuais e a lei existente. Prova disso é que houve mais debate em meios exclusivamente digitais do que nos media tradicionais.  Quando se fizer a contabilidade das abstenções no próximo Domingo os políticos e os partidos escusam de se lamentar - a culpa do desinteresse das pessoas é deles, é estimulada por eles e dá-lhes jeito para que o círculo fique cada vez mais estreito. Como dizia Vasco Pulido Valente, “para a generalidade dos portugueses uma cara é uma cara e um político é um intruso que nos fala sem razão ou autorização”.


 


SEMANADA - António Capucho apoia o PS; Joana Amaral Dias saíu do Bloco de Esquerda para apoiar o PS; O tal Zé que fazia falta ao Bloco de Esquerda, foi agora plantar papoilas, que é como quem diz, apoia o Livre de Rui Tavares; a candidata do Bloco de Esquerda às eleições europeias defendeu que o surf devia ser incluído nos currículos escolares; um partido anti União Europeia aparece à frente nas sondagens da Grã Bretanha, onde se prevê que a abstenção possa chegar aos 75%; em 2013 a carga fiscal chegou aos 34,9% do PIB, contra 32,4 em 2012; a carga fiscal sobre as famílias aumentou 35% desde 2010; António José Seguro divulgou 80 promessas para o caso de vir a ser Governo que significam um aumento de despesa de 830 milhões de euros por ano; o ajustamento da troika estava previsto vir dois terços do lado da despesa e um terço da receita mas acabou com quatro quintos do lado da receita e um quinto do lado da despesa; em cinco anos fecharam nove mil reatuarantes; 300 mil portugueses emigraram: a taxa de desemprego subiu para 16,3%; o Conselho de Estado não reúne há um ano; metade das famílias ganha menos de 835 euros por mês; em Portugal, 41% do IRS é pago por 13% das famílias; metade do IRS foi pago por quem tem salário até 1500 euros; só uma em cada quatro famílias ganha mais de 19.000 euros por ano; 44% das receitas de cinema são feitas na zona da Grande Lisboa, segundo a Marktest; Mick Jagger tornou-se bisavô a poucos dias de actuar de novo em Lisboa.


 


ARCO DA VELHA - Em nove meses, entre Julho de 2013 e Março deste ano o comboio Celta, que assegura a ligação directa entre Porto e Vigo duas vezes por dia transportou uma média de 26 passageiros em  cada viagem, o que significa uma taxa de ocupação de 12% em relação aos 228 lugares disponíveis. O prejuízo registado nestes nove meses foi de 1,2 milhões de euros.


 


FOLHEAR - Tenho um palpite que os responsáveis da TAP devem andar todos contentes a comprar exemplares da edição de Junho da “Monocle”, tal é o elogio que lá é feito à companhia aérea portuguesa. Na razão do elogio está o número de ligações para o Brasil, que cresceu para 12 rotas com 82 vôos semanais incluindo, sublinha a revista,  destinos pouco usuais noutras linhas aéreas como Manaus e Belém. A TAP é caracterizada pela “Monocle” como a companhia que liga um continente do norte, a Europa, a dois continentes a sul, África e América do Sul. Para além da TAP, Portugal aparece referido mais duas vezes: no bem concebido especial de 12 páginas sobre a Taça do Mundo no Brasil há um destaque sobre a cobertura de TV e Rui Tovar aparece bem apresentado como uns decanos do jornalismo desportivo. Finalmente uma oficina de marcenaria artesanal no Porto, dedicada à produção de exemplares únicos de cadeiras pela mão de Alípio de Sousa, completa o leque de referências lusitanas. Outros pontos de interesse são a Feira de Arte Contemporânea de Silicon Valley, o novo conceito de centro comercial surgido no remodelado Bikini Berlim e, para rematar, uma bela conversa entre o produtor Jeremy Thomas e o realizador Ben Wheatley sobre o estado do Cinema.


 


VER - Até 28 de Setembro pode descobrir os “Olhares Contemporâneos” que o colectivo de fotografia kameraphoto fez sobre o acervo do Museu Nacional de Arte Antiga. O projecto insere-se numa residência feita sob a égide da Fundação EDP. Os elementos da Kameraphoto tiveram oportunidade de contactar com os conservadores e técnicos do Museu, de descobrir o acervo e as diversas colecções, percorrendo o dia a dia dos bastidores do Museu Nacional de Arte Antiga, fazendo o papel de visitantes. Nelson D’Aires, Augusto Brázio, Valter Vinagre, Pauliana Valente Pimentel, Céu Guarda, Alexandre Almeida, Guillaume Pazat e Jordi Burch.


 


OUVIR - Na criação artística existe um talento inato e existe o talento adquirido. Os melhores artistas são os que surpreendem no princípio da carreira e depois continuam a procurar formas de exprimir a sua criatividade, procurando sempre surpreender. São os que se preocupam com a evolução da sua obra, que amadurecem ideias e continuam inconformistas, evitando acomodarem-se. Isto acontece com escritores, actores, realizadores, pintores… e músicos. Rita Red Shoes mostra os seus progressos neste seu terceiro disco, “Life Is A Second Love”, uma prova da sua evolução que também se evidencia na escolha do produtor, o brasileiro Gui Amabis que assina a única canção que não é da própria Rita Red Shoes, “Curve Dance Dreams”. É certo que eu pessoalmente desejaria que o amadurecer de Rita a levasse a cantar em português para que todos percebam como ela não gosta de ficar sentada à espera que as coisas sucedam. Enquanto issso não acontece vale a pena ouvir este disco musicalmente tão interessante e parar um pouco em torno de canções como “No Matter What”,  “Words Words”, “Floret” ou “In This White Room”.


 


PROVAR - Restaurantes com boa vista são já de si raros; com boa vista e boa comida ainda mais; com boa vista, boa comida e boa garrafeira a coisa torna-se inusitada; se juntarmos a isto uma cozinha capaz de preparar uma refeição em condições para duas dezenas de pessoas em simultâneo tudo fica mais invulgar. Esta semana regressei ao Claro, no Hotel das Palmeiras, em Paço de Arcos, onde há pouco mais de dois anos o chefe Vitor Claro vem ganhando cada vez melhor reputação. Tratava-se de um aniversário e a celebração gastronómica correu bem - desde os aperitivos iniciais (pequenas sanduíches de pataniscas e pimentos que alternavam com outras, de salmão fumado) até ao pudim de água, simples e perfeito, passando por uns ovos mexidos com cogumelos que estavam superiores. Mas confesso que o que mais me espantou foi a forma perfeita como o robalo do mar, cozinhado ao vapor, apareceu no ponto perfeito, fresquíssimo e saborossíssimo, em simultâneo para 20 pessoas. Já em anteriores ocasiões tinha gostado do local, onde na varanda o sol se põe sobre o mar, na marginal, com uma luminosidade única. Mas a verdade é que a cozinha supera a vista e acreditem que neste caso o desafio não é fácil. Restaurante Claro, Avenida Marginal, Curva dos Pinheiros, telefone 214 414 231. Já agora fiquem a saber que o afamado pão do chef Claro, assim como alguns dos vinhos que o excanção Ricardo Morais recomenda, e petiscos diversos, de queijos a compotas, podem ser encontrados na loja Momentos do Paço, no centro histórico de Paço de Arcos, na Rua Costa Pinto 27.


 


DIXIT - “Só para dizer que, se me obrigarem a escolher, prefiro o Jorge Jesus a falar da Paula Rego do que o Sócrates a falar de Rimbaud” - Ana Cristina Leonardo, no Facebook.


 


GOSTO - De recordar que a liberdade de voto inclui a liberdade de abstenção


 


NÃO GOSTO - Da existência de eleições europeias para eleger um largamente inútil parlamento europeu.



BACK TO BASICS - “Aparentemente a democracia é uma situação em que são realizadas numerosas eleições, com custos elevados, sem temas evidentes e com candidatos que passam a vida a saltar de um lugar para outro”  Gore Vidal

maio 16, 2014

A tentação totalitária do futebol: quanto mais conversa, menos informação - ou como a bola rolando sobre o relvado se torna monopolista da informação

DIÁRIO - Estamos em plena campanha eleitoral e quando chego ao fim do dia gostava de saber o que se passa por aí - o que os governantes disseram em campanha, o que o Presidente disse na China (no Facebook é mais fácil segui-lo), o que alguns Ministros fizeram - se governaram ou se campanharam. Vamos imaginar que uma pessoa acaba de trabalhar por volta das sete e meia. Dá uma volta antes de ir para casa, fica a apreciar o pôr do sol e não segue a missa dos noticiários das oito.  Quando chega a casa faz um jantar simples, come devagar a ouvir uma música, conversa, conta o seu dia e ouve como foi o outro dia; um pouco antes das dez, acende a televisão para ver se há notícias nalgum dos vários canais informativos -  Portugal, por acaso, é o país europeu que tem mais canais informativos para o número de espectadores que possui. Percorre um canal após outro e constata que pelas dez da noite não há notícias - a RTP2 deu-as às nove, por cima do final dos outros noticiários, e SIC Notícias, TVI 24 e até RTP Informação estão todas elas empolgadas a falar sobre o jogo do Benfica com o Sevilha que vai acontecer. No dia a seguir estarão a falar do jogo que aconteceu, e por aí fora. É certo que posso ir à internet espreitar os sites - mas é por isso que os meios tradicionais perdem destaque noticioso e o entregam de bandeja a outros ecrãs. Espartilhados entre uma legislação absurda que regulamenta da pior forma a cobertura eleitoral e canais que se copiam uns aos outros, resta pouco de informação. Depois admiram-se da abstenção e de os candidatos enfrentarem ruas e salas vazias. As maiores manifestações deste ano celebraram vitórias desportivas e qualquer clube não precisa de oferecer jantares para ter gente a assistir mesmo aos treinos. Quando perceberem o tamanho da abstenção escusam de pensar muito nas causas. Elas estão à vista. A participação cívica na efeméride das célebres quatro décadas resume-se a ouvir os intelectuais da bola e pouco mais.


 


SEMANADA - 16 listas candidatas às eleições para o Parlamento Europeu disputam 21 lugares, menos um que nas anteriores; desde 1994 que a abstenção nas eleições europeias não baixa de 60% e há indicadores que apontam para que este ano posa aumentar bem além dos 65%; mais de um terço dos eleitores portugueses têm uma conta activa no Facebook; 53% dos italianos dizem não se sentir cidadãos da União Europeia; 47% dos cidadãos da União Europeia consideram que em matéria de dificuldades o pior ainda está para vir; o consumo anual per capita de bebidas alcoólicas em Portugal é de 12,9 litros, acima da média europeia de 10,9 litros; na administração central, regional e local há 563 595 funcionários, o que quer dizer que uma em cada dez pessoas que constituerm a população activa portuguesa tem empregio no Estado; António Guterres admitiu poder vir a concorrer à Presidência da República; Armando Vara, ex-governante no tempo de Guterres, foi condenado a pagar multa por causa de créditos a clientes para investimentos bolsistas que aprovou quando, anos mais tarde, foi graduado a vice-presidente da CGD; um assessor do Primeiro Ministro, num post escrito no Facebook, aconselhou “juízo e recato” a Mira Amaral e a Bagão Felix; o Estado está com dificuldades em encontrar quem o represente no duelo jurídico com a GALP porque a empresa contratou alguns dos maiores escritórios de advogados; soube-se que agora são as próprias Finanças a travarem a classificação de imóveis do Estado como monumentos nacionais para os poderem vender sem problemas.


ARCO DA VELHA - A revista “Risk”, especializada em mercados financeiros, considerou o swap vendido pelo Santander ao Metro do Porto como um exemplo de venda enganosa e candidato a pior contrato swap de todos os tempos.


 


FOLHEAR - Hoje recomendo um livro particularmente adequado aos tempos que correm e que tem passado despercebido, de incómodo que pode ser para quem gosta de ideias feitas. É, na conjuntura nacional, uma lufada de ar fresco - trata-se de um ensaio político, género raro nesta terra onde o pensamento é destratado. Ainda por cima este livro é muito bem escrito, porque o seu autor escreve muito bem, sem muletas nem complicações desnecessárias. Lê-se como se lê um bom livro de História - e na verdade é em parte disso que se trata. Falo de “Conservadorismo”, de João Pereira Coutinho, editado primeiro no Brasil e,  agora a seguir, em Portugal. No Brasil, onde escreve para a Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho é talvez mais conhecido e estimado que em Portugal. É pena, e tenho a secreta esperança que esta História de ideias conservadoras que agora publicou ajude a rectificar essa injustiça. Existe infelizmente a absurda ideia de que o conservadorismo é uma coisa antiga e fora destes tempos - e um dos grandes méritos deste livro é precisamente o de nos levar a visitar o pensamento conservador contemporâneo. João Pereira Coutinho mostra como é possível “ser um conservador em política e um radical em tudo o resto” e sublinha que “ a actividade política não pode ser o pretexto ideal para cumprir um projecto particular, qualquer que ele seja e por mais nobre- em teoria - que ele seja” (edição Dom Quixote, Leya).


 


VER - É muito engraçado como uma ideia fora do que é rotina pode criar milagres de afluência de público que raramente visita galerias de arte contemporânea - foi o que aconteceu na inauguração de “Alice do Outro Lado da Passerelle” na  Galeria Luis Serpa Projectos, que apresenta até 19 de Junho uma exposição de uma centena de fotografias de João Bacelar, realizadas nos bastidores da Moda Lisboa. Esta é a terceira exposição do ciclo “Olho por olho, mente por mente”, comissariado por António Cerveira Pinto para os 30 anos da Galeria Luís Serpa (Rua Tenente Raul Cascais nº1, ao lado do Teatro da Cornucópia). Mais para cima, no Chiado, a Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, frente ao Grémio Literário), apresenta até 27 de Junho uma exposição de desenhos de João Jacinto, “S&M e Outras Histórias”, à qual pertence a imagem aqui mostrada, e que promete também agitar as águas com as suas referências ao universo sado-masoquista.


 


OUVIR - O compositor Max Richter tornou-se conhecido com as suas obras para cinema, sobretudo com o trabalho para “Prometheus”, de Ridley Scott. Nascido na Alemanha, estudou composição no Reino Unido e em Itália. Recentemente a Deutsche Grammophon reeditou as suas primeiras obras a solo - “Infra”, “24 Postcards in Full Colour”, “Songs from Before and The Blue Notebooks”, inicialmente lançadas numa editora independente. Em simultâneo a Deutsche Grammophon editou a recomposição efectuada por Max Richetr sobre as “Quatro Estações”, de Vivaldi, aqui executadas com violino, orquestra de câmara e um sintetizador moog, tocado pelo próprio Richter. A coisa, em palavras, pode parecer estranha, mas o resultado final é surpreendente e mostra a capacidade criativa de Richter que aplica o seu talento encarando as composições clássicas como base de trabalho e território de misturas. Além do CD, esta edição de “Vivaldi Recomposed” inclui um DVD com uma performance de Max Richter e do violinista Daniel Hope, filmada em Berlim. Está ainda disponível uma app para iPhone que permite comprara o original de Vivaldi com a recomposição de Richter e seguir comentários, assim como ter acesso aos ensaios que levaram a esta obra. (Edição de CD e DVD disponível na FNAC e El Corte Ingles).





PROVAR - Nestes dias de primavera, quando o sol começa a aquecer, é bom encontrar uma esplanada no centro de Lisboa onde a sombra é dada por árvores e ramadas de arbustos que se envolvem entre si. Existe um lugar assim na Praça de Espanha, no restaurante Gondola.  Nos últimos tempos a casa evoluiu da quase decandência em que esteve há uns anos, modernizou-se sem perder a tradição e melhorou substancialmente. A lista continua a ser um reflexo das influências italianas que sempre teve, com algumas incursões à tradição gastronómica portuguesa. Na mesa, no couvert, além das boas azeitonas, o tomate seco mergulhado em bom azeite a acompanhar o queijo fresco é uma excelente ideia. Vale sempre a pena perguntar o prato do dia - coube-me  raviolaci frescos de robalo com um molho de tomate leve. Estava perfeito e funcionou muito bem com um branco seco. O serviço é atento, o ambiente é tranquilo e fica a apetecer ficar por ali mais um bocado da tarde. O estacionamento é fácil.


 


DIXIT - Reformar é ter melhores serviços públicos com menos impostos, e não cortá-los enquanto se aumenta impostos - Fernando Sobral


 


GOSTO -  A Católica Lisbon School of Business & Economics volta a integrar a lista das 50 melhores business schools do mundo na formação de executivos no ranking do "Financial Times" .


 


NÃO GOSTO - A grande maioria dos organismos da administração pública, mais de 80%, continua a não prestar contas sobre a sua actividade, violando a legislação.


 


BACK TO BASICS - Fazer política é como ser treinador de futebol: tem que se compreender o jogo e tem que se ser suficientemente idiota para se achar que é importante - Eugene McCarthy.


 


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maio 09, 2014

A NAU CATRINETA E AS SOLUÇÕES DO COSTUME PARA OS PROBLEMAS DO COSTUME

SINAIS - Uma síntese séria dos últimos dias resume-se a isto: os problemas do costume (excesso de despesa) foram resolvidos pelo método do costume (aumento de impostos). O resto, é folclore. À falta de ideias políticas, os protagonistas da vida nacional, num amplo espectro, aproveitaram também estes dias para provar que o ridículo não tem fronteiras ideológicas. Começo pelas “selfies” ao pé da estátua de Pessoa no Chiado tiradas por essa conjugação de interesses que incluíu Francisco Assis, António José Seguro, António Costa e Martin Schulz, um grupo que há-de ter feito o poeta dar saltos na tumba. E, claro, não posso deixar de referir a nau catrineta, essa extraordinária imagem da epopeia das descobertas recriada pelo poder contemporâneo. Eu, ao princípio, achei que aquilo devia ser um trabalho de photoshop. Depois garantiram que não. Eu não queria acreditar que os 40 anos do PSD fossem marcados por uma imagem destas - mas foi isso que aconteceu. Não encontro melhores palavras que as de Ferreira Fernandes, no “Diário de Notícias”, para descrever o momento: “Seis homens e outras tantas gravatas, entre empresário, primeiro-ministro, secretário de Estado da Cultura. guarda-costas e desconhecidos, encafuados numa caravela do tamanho de um táxi não dão boa imagem” . Sinceramente não consigo entender esta vontade e esta persistência de todos estes políticos em criarem caricaturas de si próprios. Termino com outra citação, que resume o que é, provavelmente o sentimento de muitos: “Francamente, não faz sentido condenar o programa de ajustamento com o argumento de que "Portugal está pior do que antes", pois isso era inevitável, em consequência do aperto de cinto orçamental e da recessão económica. Nenhum Governo poderia ter evitado isso. O que se pode questionar, sim, é, por um lado, saber se a gestão do programa de ajustamento não poderia ter sido melhor, menos penosa e mais equitativa”. As palavras são de Vital Moreira, que sobre esta matéria tem sido lúcido e partidariamente desapaixonado.


 


SEMANADA - Mais de 400 farmácias estão alvo de penhoras ou insolventes; mais de 1500 farmácias estão com o fornecimento de medicamentos suspensos por pagamentos em atraso; a mortalidade materna em Portugal caíu 44% desde 1990; há 58 agressores de mulheres internados por ordem judicial; em Estremoz um homem matou à pancada a advogada que estava a tratar do divórcio da sua ex mulher; em Lisboa alugam-se quartos a 2200 euros por uma noite na final da Liga dos Campeões; o fisco vai disfarçar inspectores na caça aos arrendamentos ilegais no turismo; o concurso para director-geral do fisco vai ser repetido por falta de “candidatos com mérito” para a função entre as 11 pessoas que concorreram; em Portugal as remunerações recebidas por cada cidadão até 6 de Junho destinam-se integralmente ao fisco, mais oito dias que em 2011 e mais 3 que no ano passado; o Ministro da Defesa classificiou de “maligno” o aumento de impostos; o Presidente da República utilizou o Facebook do cidadão Cavaco Silva para comentar, em tom satisfeito com a solução obtida, o anúncio de saída limpa de Portugal do programa de ajustamento; Pacheco Pereira perguntou, na “Sábado”, “porque razão toda a gente, inclusive vários membros do Governo, o Presidente, os principais responsáveis económicos nacionais e europeus e as agências de rating, defendia a existência de um plano cautelar, mesmo quando os juros já estavam baixo, e tal acabou por não acontecer?”; segundo a Marktest, no mês de Março 3 milhões e 683 mil portugueses acederam a sites de jornais e revistas, com um tempo médio diário de navegação nesses sites, por utilizador, de uma hora e sete minutos; a transmissão do Juventus-Benfica pela SIC foi vista por quase três milhões de pessoas.


 


ARCO DA VELHA - A junta de freguesia de Arruda dos Vinhos deve 114 mil euros à Caixa Geral de Aposentações, por descontos efectuados a funcionários entre 2000 e 2013 que não foram entregues à CGA,  e arrisca-se a ver o seu edifício sede penhorado e vendido em hasta pública.


 


FOLHEAR - A edição de Maio da revista “Wallpaper” é dedicada ao salão do móvel e do design de Milão mas verdadeiramente a parte mais interessante é uma reportagem sobre o que está a acontecer numa zona de Paris, em torno de uma rua, que está a ser inteiramente recuperada e a atrair uma nova geração de lojiistas. A iniciativa chama-se La Jeune Rue e desde restaurantes, pastelarias, cafés, um cinema, lojas de roupa, uma loja de vinhos e outra de queijos, livrarias, papelarias a geladarias, há de tudo um pouco. A ideia partiu de Cédric Naudon, um financeiro francês que depois de trabalhar nos Estados Unidos decidiu voltar a Paria e abrir um restaurante, “Le Sergent Recruteur”, que rapidamente ganhou uma estrela Michelin. A seguir abriu uma trattoria e depois começou a comprar lojas que estavam livres na rue de Vertbois - chegou às três dezenas. Naudon  decidiu apostar que as remodelações urbanas que deixam marcas partem da junção de pequenos projectos, uma ideia defendida pelo arquitecto italiano Andrea Brazi. Antes desta intervenção, o local onde tudo se vai passar era uma zona de comércio de roupa barata. La Jeune Rue vai bucar o seu nome a um poema de Guillaume Apollinaire e até a Wallpaper vai ter ali a sua primera loja. A reconversão  foi sempre feita por arquitectos escolhidos a dedo e em muitos casos este novo comércio vai vender produtos naturais, a partir de uma rede de 450 fornecedores escolhidos pela equipa de Naudon. La Jeune Rue está a estabelecer um novo conceito de comércio, animando toda uma zona e proporcionando aos seus habitantes uma oferta qualificada que antes não tinham. Aqui está um bom exemplo e uma boa razão para ler esta “Wallpaper” com atenção.


 


VER -  Semana preenchida com novas exposições para ver. Começo por “Passagem Para Um Outro Lado”, inesperadas marionetas construídas pela designer de jóias Teresa Milheiro e que vão estar no Sala do Claustro do Museu da Marioneta (Convento das Bernardas, Rua da Esperança 146) até 31 de Agosto. Inserida nas actividades do 30º aniversário da Galeria Luis Serpa Projectos (Rua Tenente Cascais 1B), João Bacelar apresenta “Alice do outro lado da passerelle” até 19 de Junho. Em “A Pequena Galeria” (Av 24 de Julho 4C), José M. Rodrigues apresenta, sob a forma de uma instalação pensada para o local, uma série de imagens fotográficas. Ainda na 24 de Julho, mas no 54 1º esq, a Vera Cortês Art Agency inaugura este sábado  a exposição “Shadow Piece” de Sophie Whettnall, que fica até 27 de Junho. Finalmente a partir da quinta-feira da próxima semana, nova série de exposições na Transboavista, Rua da Boavista 84, com exposições de João Fonte Santa, João Pina e Ana Rosa Hopkins, além de duas colectivas. Depois disto quem pode dizer que nada se passa nesta terra?


 


OUVIR - Vale a pena ouvir o inesperado “Taming The Dragon”, dos Mehliana. E o que é isso? Pois é a junção do pianista de jazz  Brad Mehldau com o baterista de jazz mas também percussionista de hip-hop e drum’n’bass Mark Guiliana. Com Mehldau a trocar o piano acústico pela electrónica dos teclados e Guiliana a trocar a bateria por máquinas de ritmo, em certos momentos, quando o ambiente do Fender Rhodes é dominante, como em “Luxe”, é impossível não pensar nas sonoridades de fusão dos Weather Report: Este disco mistura evocações de melodias pop com improvisações arrebatadoras e com temas densos como “Hungry Ghost” ou “Just Call Me Nige”. Os dois músicos entendem-se bem nesta inesperada reunião que já leva um ano de concertos ao vivo. Há uma década atrás Mehldau tinha-se aventurado pela electrónica com “Largo”, mas aqui o exercício não é uma aventura, é um manifesto de diferença.


 


PROVAR - Com o verão nasce a vontade de um vinho que possa acompanhar bem peixe e carne, que seja leve e fresco, de graduação moderada. Um vinho assim é o Quinta do Monte d’Oiro Lybra Rosé, saboroso, com leves aromas de frutos e com uma cuidada acidez,  feito a partir de uvas da casta Syrah, bonito de cor e com 11,5%. Não o encontrarão em supermercados, mas em garrafeiras escolhidas, a um preço que rondará os 8 euros. É extraordinário para acompanhar petiscos, saladas e até, já agora, algumas das novas conservas da marca José Gourmet e que incluem moelas de pato, caril de lulas, ventresca de atum ou petingas fumadas em azeite, e que se podem encontrar nas lojas de A Vida Portuguesa (Chiado e Intendente), no Delicatu - Avenida de Berna 42 A ( frente à Fundação Gulbenkian) e no Gourmet do El Corte Ingles, por exemplo.


 


DIXIT - “A posição do Bloco (de Esquerda) é fácil de explicar mas não sei se é percebida” - Marisa Matias, candidata bloquista ao Parlamento Europeu


 


GOSTO - Na semana em que Lisboa foi invadida por grandes navios de cruzeiros realiza-se no Campo Pequeno, de 9 a 11 de Maio, a Feira das Viagens.


 


NÃO GOSTO - As previsões apontam para que em 2014 e 2015 o PIB português cresça menos 0,4% do que a média da zona Euro


 


BACK TO BASICS - “A melhor forma de conseguir prever o futuro é sermos nós próprios a criá-lo” - Peter Drucker


 


 


 

maio 02, 2014

Sobre a importância do equilíbrio na política

POLÉMICA - Uma estranha polémica consome desde há algumas semanas dois sectores do Governo : de um lado aqueles que querem aplicar taxas sobre alimentos considerados poucos saudáveis e, do outro, entre os quais os Ministros da Economia e da Agricultura, aqueles que consideram tais taxas um perfeito disparate. Se outra coisa não houvesse, esta polémica aparentemente esotérica, serviria para mostrar as clivagens que existem no executivo em torno de questões que têm a ver com a forma como o Estado se posiciona face às opções dos cidadãos. Não vou elaborar muito sobre esta questão, até porque acho mais interessante sublinhar que em grande parte das civilizações orientais o equilíbrio perfeito entre o sal e  o açucar é o segredo para explorar sabores e assegurar uma vida harmoniosa, Recordo apenas que para os chineses, numa refeição, um prato deve ser doce (yin) e o outro salgado (yang); um quente (yang) e o outro frio (yin); um macio (yin) e outro crocante (yang). Na realidade os chineses acreditam que o equilíbrio entre esses dois elementos garante não apenas uma boa refeição, mas uma boa saúde. Pode ser que com estas notas se consiga uma maior unidade na acção do Governo. Ou então estamos perante um caso de equilíbrio entre opostos no governo, com um lado a fazer de yang e outro de yin. Resta saber quem, a seguir, vai saborear o repasto.


SEMANADA - Os tribunais penhoraram 181 mil reformas no ano passado; as dividas por cobrar nos tribunais já atingem 7,2 mil milhoes de euros; três juízas foram acusadas de forçarem insolvências de famílias, sob suspeita de que essas decisões são tomadas em benefício dos administradores de insolvência; piratas informáticos entraram no sistema do Ministério Público e publicaram na net os contactos pessoais de todos os procuradores numa operação a que chamaram “Apagão Nacional”; a criação de novas empresas caíu 12% no primeiro trimestre deste ano; a factura da austeridade aplicada nos últimos três anos ascende a 30 mil milhões de euros e apesar disso o défice e a dívida pública estão longe das metas definidas no início do programa da troika; segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2012, cerca de 24% das crianças estavam em risco de pobreza; em Portugal há 4.522.552 empréstimos concedidos a famílias; António Nogueira Leite considerou que era muito importante que Portugal tivesse um programa cautelar, e defendeu que Portugal não deve ser considerado pelo FMI como uma espécie de Vietname da Europa; o Ministro da Economia disse no início da semana que a descida de impostos deve ser uma das metas do Governo para o próximo ano; a Ministra das Finanças anunciou quarta-feira um aumento de impostos para 2015; a Albania decidiu fazer um rebranding; a freguesia de Alvalade, em Lisboa, também.


 


ARCO DA VELHA - O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi o responsável directo pela ocultação, ao longo de dois anos e meio, de relatórios internos da autarquia que descreviam práticas irregulares de serviços da câmara no domínio da adjudicação de obras, e isto apesar da existência de várias decisões judiciais estabelecendo que os documentos deviam ser facultados ao jornalista do “Público” que os solicitou.


 


FOLHEAR - A Monocle de Maio é a edição anual da revista que é dedicada ao Design - quem se interessa pela área tem muito que ler, desde o design aplicado a casas ou lojas até àquele que é aplicado em objectos de utilização quotidiana. Mas os encantos desta edição não se esgotam aí - há uma curiosa reportagem sobre o reino do Butão, um bom artigo sobre o que agências de publicidade brasileiras estão a fazer à volta do Mundial de Futebol, uma auscultação das novas tendências gastronómicas dos bistrots parisienses e uma elucidatava visita a uma estação de televisão que molda a imagem actual da Rússia e dos políticos de  Moscovo, o canal noticioso RT (Russia Tday), que já alcança uma centena de países, explicando os porquês de qualque acto de Putin..Num outro campo há uma boa conversa entre os criadores de duas séries emblemáticas da ficação televisiva - “House Of Cards” e a dinamarquesa “Borgen”. Como curiosidade refira-se que a sempre interessante rubrica dedicada aos meios de deslocação de governantes de diversos países é nesta edição dedicada a Xanana Gusmão (que usa um Toyota Land Cruiser nas viagens oficiais em Timor). O portfolio fotográfico que encerra cada edição é dedicado aos clubes de correspondentes estrangeiros de Toquio e Banguecoque.


 


VER - José Manuel dos Santos, director cultural da Fundação EDP, apresentou a exposição da edição deste ano do World Press Photo como “uma espécie de retrato do mundo dos nossos tempos”. É uma boa descrição não só desta exposição, mas também do que é o fotojornalismo. A fotografia vencedora deste ano, e que correu mundo, é “Signal”, de John Stanmeyer e mostra migrantes africanos na costa do Djibouti a tentar apanhar a rede de telemóvel mais barata da vizinha Somália. A exposição tem perto de 130 fotografias de 51 fotógrafos e mostra deste a actualidade - da guerra, de desastres naturais ou do desporto - até ensaios fotográficos, passando por retratos e fotografia de viagem. Ano após ano conseguem detectar-se no World Press Photo as tendências dos editores fotográficos, a evolução dos diversos géneros da fotografia e, no fundo, aquilo que os jornais e revistas procuram e publicam. Este ano a exposição é paga, a dois euros o ingresso, e todas as receitas revertem para  as Unidades Móveis de Apoio ao Domícilio da Fundação do Gil, que apoia crianças vítimas de doença prolongada. A exposição fica no Museu da Electricidade até 25 de Maio e, se tem um iPad ou iPhone pode fazer download da aplicação que está disponível e ver a exposição, ouvindo os autores das imagens a falarem sobre o seu trabalho.


 


OUVIR - Parece que Caetano Veloso deu um concerto fora de série, há alguns dias, no Coliseu. Quem não foi lá pode ter uma ideia do que se passou graças à recente edição de  "Multishow Ao Vivo - Caetano Veloso - Abraçaço" , que reproduz o concerto criado para a digressão de “Abraçaço”, o disco de originais de Caetano editado em 2102 e que no ano seguinte ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de cantor-compositor. “Abraçaço” era um disco excepcional, ouso dizer quase a síntese de uma carreira onde a inovação tem estado sempre presente. Para o registo ao vivo, efectuado no final do ano passado no Vivo Rio, com a sua Banda Cê, Caetano retoma os temas de “Abraçaço”, mas vai buscar também, e reinventar, temas seus clássicos e incontornáveis, como “Triste Bahia”, “Reconvexo”, “Alguem Cantando” ou “Você Não Entende Nada”. A captação de som (e de imagem, porque e xiste um DVD) são muito boas e reproduzem bem o ambiente de um concerto. Aqui está uma maneira de sentir Caetano ao vivo, mesmo que o não tenha visto nos Coliseus. (CD Universal)


 


PROVAR - Nesta altura do ano Sesimbra é um magnífico local para passear à beira mar. Andando na marginal, a seguir ao forte e em direcção à doca dos pescadores, encontra-se o restaurante “Mar e Sol”. O interior tem uma sala ampla e no exterior fica uma esplanada simpática, resguardada, com uma vista óptima sobre o mar. Para a mesa vieram como entradas uma sapateira recheada que estava honesta e uma salada de mexilhão que estava muito boa, mais pão fresco da região e azeitonas bem temperadas. Nos pedidos seguiu-se a recomendação da casa e provou-se um salongo grelhado, que estava no ponto e foi muito apreciado - relativamente pouco conhecido o salongo é um peixe suave, de cor avermelhada, de carne saborosa, abundante na região. Este estava fresquíssimo e bem preparado. O outro pedido foi um arroz de robalo, com o peixe também no ponto certo, com o arroz cozinhado por forma a não tapar o sabor do robalo e a deixá~lo brilhar - coisa que nos arrozes muito refogados e temperados nem sempre se consegue. Este estava suave e deixava o primeiro plano, como compete, para o saboroso peixinho. A refeição foi acompanhada por Catarina, um branco da região de Azeitão, baseado nas castas Fernão Pires, Chardonnay e Arinto. A conta foi equilibrada e um passeio pela marginal que se lhe seguiu rematou bem a refeição.


 


DIXIT - "A Portugal está a faltar muita poesia. Não enche a barriga, mas pode ajudar a encher o espírito" - Vasco Graça Moura.


 


GOSTO - Da escultura “Liberdade”, de Cristina Ataíde, colocada há dias num jardim de Sesimbra (ver a fotografia que ilustra a “semanada” aqui ao lado).


 


NÃO GOSTO - O Ministério Público confessou-se impotente para combater crimes na net.


 


BACK TO BASICS - “A política é a arte de simular e dissimular” - Cardeal Mazzarino

abril 24, 2014

40 ANOS - A IDADE DA INDIFERENÇA ?

CICLOS - O 25 de Abril foi há 40 anos, menos oito que o total do tempo de poder do antigo regime. O que se passou antes de 1974 já não pode, em boa verdade, ser invocado como desculpa para o estado em que o país agora se encontra. O novo regime tem vivido em zigue-zagues, mas há uma substancial diferença entre os primeiros 20 anos e as duas décadas seguintes, as mais recentes. Em pouco mais que as duas primeiras décadas pós 74 fizeram-se reformas e alterações estruturais na saúde, na educação em infra-estruturas básicas; nas décadas seguintes, marcadas pela adesão à União Europeia em 1986, engordou-se o Estado, os partidos engordaram os seus aparelhos e perderam militância, as obras públicas consumiram demasiados recursos, as empresas de construção cresceram enquanto as indústrias exportadoras encolheram; a pesca diminuíu e a agricultura foi subsidiada nuns anos para arrancar o que noutros anos era plantado com outros subsídios. O Bloco Central, que fez alternar no poder PS e PSD, fomentou auto-estradas para além do necessário, construíu aeroportos que não têm utilização, permitiu bancos que enganaram depositantes e o Estado não melhorou a Justiça. O Estado, aliás, destacou-se por gastar o que tinha e, sabe-se agora, o que não tinha. De tudo o que delapidou, sobretudo dos finais dos anos 90 para cá, sobra pouco. Não admira que as pessoas se afastem da política e não queiram ter participação cívica, como estudos recentes bem revelam. Mas nem eram precisos estudos: quando mais facilmente se juntam milhares de pessoas para celebrar na rua, à noite, uma vitória futebolística, do que aquelas que protestam e agem, dia a dia, contra a corrupção, a prescrição de processos de milhões, a falta de justiça ou a ingerência, está tudo dito sobre os 40 anos que passaram desde 25 de Abril de 1974. As pessoas não se importam e o Estado agradece.


 


SEMANADA - A Associação de Inspectores de Jogos acusa o sorteio do fisco de falta de transparência e afirma que não está a ser cumprida a lei; uma parte do governo quer taxar o consumo do açucar e do sal, outra parte quer taxar o consumo de alcoól e tabaco; ao longo desta legislatura o Governo tem ignorado um terço das perguntas dos deputados; o deputado socialista Miguel Coelho publicou esta semana a sua tese de doutoramento onde defende que o recrutamento partidário no caso do PS e do PSD está nas mãos de um núcleo restrito, que é quem comanda o acesso a cargos políticos remunerados; António Costa defendeu eleições primárias no PS abertas a não militantes e uma reforma dos sistema eleitoral; numa sondagem da Universidade Católica publicada esta semana 86% dos portugueses dizem não ter qualquer actividade política actualmente e apenas 2% afirmam ter actividade política regular - os outros 12% apenas de forma esporádica.; a mesma sondagem indica que 83% dos portugueses estão insatisfeitos com o funcionamento da democracia; no mesmo estudo de opinião os Tribunais foram considerados a instituição com pior funcionamento e 73% dos inquiridos manifestaram confiança na imprensa; a Autoridade para as Condições do Trabalho inspeccionou 37 mil locais de trabalho em 2013 e apurou 37 milhões de euros de salários em atraso, um aumento de 66% em relação ao ano anterior; nos últimos dez anos a CP comprou 25 locomotivas de mercadorias por 105 milhões de euros e deixou de utilizar 26 locomotivas, também de mercadorias, usadas, mas que tinham tido um forte investimento de reparação e modernização e estavam em bom estado.


 


ARCO DA VELHA - Uma juíza do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa deixou acumular 8 mil processos atrasados em 2010, mais que a soma de todos os que estavam pendentes em todos os juízos daquele Tribunal.


 


FOLHEAR - “A Liberdade Livre” é o título de um livro dedicado a Cruzeiro Seixas, um dos mais importantes artistas surrealistas portugueses, e que é baseado numa conversa com José Jorge Letria. O livro começa com uma citação de Cruzeiro Seixas que não resisto a reproduzir: “Sonho com uma bola perfeita toda feita de ar. Por agora só nos faltam os argumentos suficientemente convincentes para convencer o ar”. E ainda esta: “por toda a parte há sonhos a empurar outros sonhos para o abismo”. O livro tem numerosas fotografias do autor, muitas na companhia de outros membros do grupo dos surrealistas, como Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria ou António Maria Lisboa, além de reproduções de algumas obras do artista. A conversa com José Jorge Letria recorda o percurso de Cruzeiro Seixas, mas também um relato dos tempos que viveu, a forma como o grupo dos surrealistas marcou uma época. E Seixas recorda episódios, encontros que teve, conversas que lhe ficaram na memória, como uma com Amália Rodrigues, em que ele, referindo-se à fadista, termina assim “Acho extraordinária a voz dela. É como a voz deste país, se este país tivesse voz”.


 


VER - Algumas sugestões para estes dias. Começo pela exposição que abriu na Gulbenkian no dia 23 de Abril, integrada nas comemorações dos 450 anos do nascimento de William Shakespeare e que, entre outras edições, apresenta um exemplar da tragédia Hamlet, traduzida para francês e apresentada por André Gide, com ilustrações gravadas a buril por Albert Decaris. Este exemplar desta obra foi adquirido por Calouste Gulbenkian, em 1947.  Ainda na Gulbenkian destaque para a exposição “Os Czares e o Oriente”, que reúne um conjunto de peças da coleção do Kremlin de Moscovo composto pelas ofertas aos czares provenientes do Irão safávida e da Turquia otomana dos séculos XVI e XVII. Em exibição estão 66  peças entre joias, tecidos, armas e arreios de cavalo, utilizadas nos atos cerimoniais dos czares russos, na vida da corte, nas campanhas militares, e nos ofícios divinos celebrados nas igrejas do Kremlin. Anteriormente apresentada na Arthur M. Sackler Gallery da Smithsonian Institution em Washington, é a primeira vez que estas coleção é vista na Europa. Finalmente estes são os últimos dias para ver a colecção de máscaras portuguesas, do actor André Gago, que até Domingo estão expostas no Museu da Marioneta, que fica no Convento das Bernardas, Rua da Esperança 46.


 


OUVIR - “Crónicas da Grande Cidade”, de Miguel Araújo, é o contraponto rural aos discos contemporâneos, mais urbanos. Aqui contam-se histórias da terra e o espanto pela vida na cidade. Miguel Araújo é um bom contador de histórias, as canções são construídas como episódios de uma série que conta a viagem de alguém que veio do interior para a grande cidade. Há momentos em que, na música, nas palavras e até na forma de cantar, este disco faz lembrar o primeiro trabalho dos “Rio Grande”. Não se pode dizer que isto seja música folk, nem que esteja particularmente baseado na música tradicional portuguesa - mas há lá sinais de tudo isto, desde os instrumentos à forma de cantar, passando pelos arranjos. É curioso notar o enorme contraste entre este disco e outro grande trabalho de histórias cantadas, já aqui referido, que é o disco de Capicua. Um, o dela, completamente urbano, musicalmente contemporâneo; outro, de forte influência rural, musicalmente conservador. Estas características não fazem com que um seja melhor que o outro - mas mostram a diversidade da música que hoje se está a fazer em Portugal. O facto de os dois cantarem em português, e de ambos serem bem escritos, contradiz aqueles que por preguiça evitam o português e se escondem no inglês. Tenho sempre a sensação de que quem o faz, não é capaz de assumir dizer coisas simples na nossa língua - como “gosto de ti”, preferindo sempre dizer o mesmo em inglês. As minhas canções preferidas são “Cidade Grande (Canção de Acordar)”, “Romaria das Festas de Santa Eufémia”, “Cartório”, “Contamina-me” e “Valsa Redonda”. É bem curioso que este disco saia precisamente nesta altura do calendário comemorativo. Não há-de ter sido por acaso. Tem um lado de saudade.


 


PROVAR - A partir desta semana o Sky Bar voltou a ser uma possibilidade para um aperitivo ao fim da tarde ou para uma refeição ligeira da carta concebida para o local. O Sky Bar é já uma tradição que vai das primeiras semanas da Primavera ao fim do Verão e que fica no último andar do Hotel Tivoli, da Avenida da Liberdade, ao fundo da sala do restaurante “Terraço”. O Sky Bar este ano tem algumas mudanças - na localização do bar por exemplo, e é garantidamente um dos locais com melhor vista sobre Lisboa. Quando o tempo está bom não há melhor local para passar o fim de tarde ou o início da noite. Nas noites de 5ª, 6ª e sábado há DJ’s convidados.


Num registo completamente diferente, e se estiver em Lisboa no sábado à tarde, não perca o “Levar a Vida a Degustar” que a Vida Portuguesa do Largo do Intendente promove - pelas 16h00 há provas de cerveja artesanal “Letra” e as novas conservas da marca José Gourmet - moelas de pato, rojões à minhota, lampreia à bordalesa ou caril de lulas.


 


DIXIT - “Hoje a legislação laboral não constrange a actividade económica” - António Saraiva, Presidente da CIP


 


GOSTO - Da forma como Ricardo Araújo Pereira e Miguel Guilherme fazem “Melhor Do Que Falecer”.


 


NÃO GOSTO - De quem autorizou fogo de artifício depois da meia noite, no centro de Lisboa, em véspera de dia de trabalho.


 


BACK TO BASICS - Aqueles que prescidem das liberdades fundamentais invocando a necessidade de assegurar temporariamente a segurança não merecem ter nem liberdade nem segurança - Benjamin Fraklin


 


 

abril 17, 2014

OS CONSERVADORES ESTÃO ONDE MENOS SE ESPERA

CONSERVADORES - Em 1994 Mira Amaral, então Ministro da Indústria de um Governo de Cavaco Silva, convidou Michael Porter, um Professor de Harvard, a fazer um estudo sobre a economia portuguesa. O relatório Porter, como ficou conhecido, foi feito já há 20 anos e defendia a aposta imediata nos sectores tradicionais, identificando “clusters” estratégicos: calçado, têxteis, cortiça, indústria automóvel, turismo, madeira e vinho, que deviam conviver com melhorias na educação, na capacidade de investigação científica, no desenvolvimento da tecnologia aplicada à realidade económica, na capacidade de gestão, em financiamentos mais acessíveis e numa melhor gestão florestal. Ao fim de 20 anos percebemos que se perdeu muito tempo a evitar seguir as recomendações que hoje se verificam, no essencial, acertadas. Pouco tempo depois do estudo ser divulgado, em 1995, Guterres era eleito Primeiro Ministro e guardou as recomendações na gaveta, deslumbrando-se com modas passageiras - modas que ainda hoje pesam no nosso dia-a-dia. Foram precisos vários anos e crises duras nestes sectores tradicionais para que eles começassem a recuperar - incorporando tecnologia, design, melhor gestão e melhor promoção. Fica aqui este número para mostrar o que há 20 anos alguns não quiseram ver:  em 2013 a indústria portuguesa de calçado exportou mais de 75 milhões de pares de sapatos, no valor de 1700 milhões de euros, para 132 países. No fundo conservadores foram os que fugiram a desenvolver aquilo que sabíamos fazer e que foram imitar o que outros já tinham. Deu mau resultado, como agora se sabe.


 


SEMANADA -  Foi anunciado que o Hospital de Santa Cruz, uma unidade especializada em cardiologia e que por isso mesmo se notabilizou, pode perder a valência de cirurgia cardiotoráxica;  o centro hospitalar de Lisboa norte deixou prescrever 4,6 milhões de euros em taxas moderadoras; 439 escolas com menos de 21 alunos estão em risco de fechar e seis mil crianças poderão ter de mudar de local de ensino no próximo ano lectivo; depois das mudanças introduzidas pelo Ministério da Educação a disciplina de Inglês deixou de chegar a todos os alunos do 1º ciclo; uma estimativa de uma associação do sector considera que em Portugal existem cerca de três mil lares de idosos ilegais; segundo dados do INE existem 1,9 milhões de pessoas em risco de pobreza e 120 mil crianças têm alimentação deficiente; a maioria dos elementos do gangue do multibanco recebia rendimento social de inserção; a justiça arquivou 45% dos casos de corrupção; 39,7% dos processos relativos a corrupção dizem respeito a autarquias; em Portugal foram apresentadas 16 listas concorrentes às eleições europeias, meia dúzia delas de novas organizações ou de organizações sem actividade política regular; cada lista concorrente pode gastar até 2,9 milhões de euros na campanha eleitoral; António Barreto deixou a Fundação Francisco Manuel dos Santos em divergência com o dono do Pingo Doce e da Fundação, Alexandre Soares dos Santos.


 


ARCO DA VELHA - As obras de remodelação da estação de Metro do Areeiro, em Lisboa, estão a decorrer desde 2009 e, ao fim de cinco anos de transtornos constantes para quem vive  no local, foram suspensas devido a um litígio judicial com o empreiteiro.


 


FOLHEAR - “1914 - Portugal no ano da Grande Guerra”  é uma viagem do jornalista Ricardo Marques ao dia a dia de há um século atrás. Ele leva-nos aos usos e costumes do ano em que começou a I Grande Guerra e diz-nos como viviam as pessoas, fala do que se relatava nos jornais, abundantemente citados. Por ali se encontram notícias da  Lisboa do tempo da febre tifóide, e também se  fica a saber que já então a Universidade de Coimbra pensava acabar com as praxes ou que havia um movimento contra as touradas. Ricardo Marques, que nasceu em 1974, percorreu arquivos em busca do passado para nos fazer uma reportagem do tempo que não vive nas nossas memórias. Ao longo de 300 páginas, com ilustrações da época, recorda-nos como era então encarada a ciência e vista a natureza, como se passava a vida pública e a vida privada - das lutas operárias às festas e às modas, passando pelo mundo visto a partir de Portugal e, inevitavelmente, pela Guerra que então começava. (Edição Oficina do Livro)


 


VER - “O Burel da cortina antepara o céu opaco” é o título da exposição de obras de Pedro Calapez que podem ser vistas na galeria Appleton Square até 10 de Maio. Nas obras expostas, quase uma instalação, o desenho a computador  mistura-se com a pintura a pincel japonês sobre papel e  o preto, branco e cinzentos contrastam com explosões de côr. Nos dois momentos da exposição, no piso de entrada e na sala do piso inferior,  evidencia-se a variedade e o contraste do trabalho contemporâneo de Calapez, que continua com uma agenda de exposições com um ritmo invulgar, em Portugal e no estrangeiro. A Appleton Square fica em Alvalade, na Rua Acácio Paiva 27.


 


OUVIR - “Yellow Brick Road”, o álbum de 1973 de Elton John, oitavo disco da sua carreira,  foi o seu primeiro grande sucesso discográfico - e o álbum figura aliás em diversas listas dos melhores discos pop de sempre. Talvez se possa dizer, mesmo à distãncia de quatro décadas, que este foi o ponto mais alto da colaboração com Bernie Taupin, o co-autor de todas estas canções e que muitas vezes é injustamente esquecido. Aqui estão temas como “Candle In The Wind” e a faixa título “Goodbye Yellow Brick Road”, além de outras como “Saturday Night’s Allrright For Fighting”, “Roy Rogers”, “Your Sister Can’t Twist (But She Sure Can Rock ‘n’ Roll”, o provocador ”All The Girls Love Alice” e “Bernie The Jets” - esta tornou-se um êxito nas estações de rádio de soul music dos Estados Unidos. Elton tinha 26 anos quando o disco foi gravado e o êxito de algumas das canções fez esquecer como o álbum, no seu conjunto é uma obra consistente - e como a canção título é, afinal, sobre o facto de a fama e o sucesso serem uma coisa tão difícil de gerir e de viver - como a sua carreira ao longo das últimas décadas sobejamente tem provado. Por ocasião do 40º aniversário do lançamento original do álbum foi agora lançada uma edição especial, com uma nova remasterização digital e um CD extra que inclui diversas versões de canções pouco conhecidas de Elton John por alguns nomes contemporâneos. Há várias boas versões mas eu destaco a de John Grant em “Sweet Painted Lady”, embora as pretações de Imelda May e Emeli Sandé também mereçam destaque. Finalmente este disco extra ainda inclui alguns clássicos da carreira de Elton John, gravados ao vivo no Hammersmith Odeon, em Londres, em Dezembro de 1973.


 


PROVAR - Aqui há uns anos a Rua Barata Salgueiro, era a rua da Sociedade Nacional de Belas Artes e da Cinemateca. Agora é conhecida pelos três restaurantes que nos últimos anos ali abriram - o Guilty, que entretanto perdeu a graça, o D’Oliva, que continua engraçado e o Sushi Café que mantém uma qualidade constante e que do ponto de vista do conforto e decoração é o melhor de todos. As origens do D’Oliva, estão no Porto, em Matosinhos, onde os seus proprietários, sob o mesmo nome, fizeram fama e ganharam experiência antes de virem para Lisboa, há 4 anos. Ao almoço há um menu executivo a 18 euros e à noite o serviço é apenas à carta. Teoricamente este é um restaurante italiano, mas a lista tem muitas e boas aventuras portuguesas. Com o correr dos tempos o D’Oliva tornou-se num daqueles sítios que grupos de amigos escolhem para se encontrarem, o que leva a que por vezes à noite não seja o sítio mais sossegado do mundo. A sala de cima tem um confortável balcão, há vinho a copo de várias boas proveniências e a cerveja é bem tirada. Também há cocktails e as numerosas entradas da lista são bons petiscos. Na lista a alhada com raia é muito decente e o bife de lombo alentejano é decentíssimo, assim como os mini hamburgueres. O serviço é simpático, há zona de fumadores e não fumadores - a de não fumadores acaba inevitavelmente por ser mais sossegada. Feitas as contas, continua a valer a pena lá ir. Rua Barata Salgueiro 37, telefone 21 352 8292.


 


DIXIT - “Toda a gente crê que a democracia garante o bom governo, quando na verdade apenas garante que podemos mudar de Governo” - Felipe Gonzalez, na conferência promovida pelo “Expresso”, na Gulbenkian.


 


GOSTO - Os prémios Pulitzer foram atribuídos aos jornais “The Washington Post” e “The Guardian” pelo conjunto de notícias sobre os programas de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.


 


NÃO GOSTO - Das confusões e constantes alterações daquilo que o Governo diz sobre as pensões e reformas.


 


BACK TO BASICS - Não se pode dar um aperto de mão com o punho fechado - Indira Gandhi

abril 11, 2014

Arquivamento e prescrição de casos: as especialidades da justiça portuguesa

RETRATO -  As últimas semanas têm sido particularmente exemplares para se poder comprovar que, em Portugal,não temos um sistema baseado na Justiça mas sim um sistema baseado em manobras, truques e desleixos diversos para iludir a justiça. Ficou claro que a prescrição é agora um estado normal da justiça portuguesa, quer o crime seja financeiro ou de vida e morte, ou de costumes. A maior especialidade desenvolvida em Portugal pelo sistema judicial é o arquivamento de casos prescritos. A coisa chegou a um ponto em que o Governador do Banco de Portugal recomenda como medida para o assunto que se alargue o prazo de prescrição  - mas não ocorre atacar as causas do problema : as habilidades dos advogados que empatam julgamentos, a displicência de juízes e de procuradores, a falta de meios dos tribunais. Em Portugal quem tiver bom advogado e alguma influência pode ter esperança em passar pelo crime sem castigo - infelizmente é esse o ponto a que a percepção do cidadão comum chegou.


 


SEMANADA - Uma procuradora adjunta de Santa Maria da Feira deixou prescrever 19 processos; a procuradoria de Lisboa afirma que o novo mapa judicial não é viável; o crédito malparado nos empréstimos à habitação já subiu 7,85% face ao ano passado; o Banco de Portugal recebeu 17.911 queixas contra Bancos  em 2013, mais 15% que no ano anterior sobretudo por causa de créditos à habitação e ao consumo; os pedidos de ajuda à DECO no 1º trimestre só subiram entre os trabalhadores do Estado e os reformados; o volume dos depósitos das famílias nos bancos voltou a diminuir em Fevereiro pelo terceiro mês consecutivo;  o acordão do julgamento do processo “Face Oculta”, que se arrasta há dois anos e cinco meses, foi marcado para 5 de Setembro, daqui a cinco meses; o realizador Manoel de Oliveira, 105 anos de idade, iniciou esta semana no Porto a rodagem de um novo filme, “O Velho do Restelo”, graças a financiamentos públicos portugueses e franceses; Helena Roseta, presidente das Assembleia Municipal de Lisboa eleita pelo PS, criticou a actuação do município no processo da Colina de Santana e exigiu publicamente “lealdade e transparência” ao executivo de António Costa; os vistos gold fizeram disparar em 54% os preços dos imóveis de luxo em Lisboa; a Presidência da República, a Assembleia da República, diversas Cãmaras Municipais e numerosas empresas públicas não divulgaram qualquer contrato de aquisição de bens ou serviços, ao contrário do que o Tribunal de Contas exige; o deputado Miguel Frasquilho foi indicado para presidente do AICEP sem parecer prévio do Sr. Bilhim; um protocolo assinado no Ministério da Agricultura criou o o Centro de Competências do Tomate.


 


ARCO DA VELHA - O secretário de Estado do Orçamento, Hélder Reis, interrogado por deputados na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, teve esta resposta: “Eu sou como o Pinóquio: quando minto o meu nariz cresce. Não está a ver o meu nariz a crescer - eu não estou a mentir”.


 


FOLHEAR - No panorama livreiro português restam poucas editoras independentes e a “Guerra & Paz”, dirigida por Manuel S. Fonseca, é uma delas - e uma das que trabalho mais interessante tem feito ao longo dos oito anos que leva de vida. «Fama e Segredo na História de Portugal», de Agustina Bessa-Luís, foi um dos primeiros livros que editou e quis o destino que fosse o último livro escrito pela escritora, antes de a sua saúde ter fraquejado. Talvez por isso, neste momento de aniversário da edtora, a “Guerra & Paz” relançou, em novas edições, dois títulos do seu catálogo:  “O Livro de Agustina - uma autobiografia”, que nesta versão editorial inclui o conto preferido da autora, “Um Inverno Frio”; e também esse maravilhoso encontro da escrita de Agustina com a pintura de Paula Rego sobre a série “As Meninas” - “Estão sempre alerta, sabem coisas proibidas, em volta delas as mulheres conspiram, inspeccionando a sua roupa de baixo. As Meninas são profundamente perigosas”. São duas edições verdadeiramente fundamentais - uma para entrar, sorrindo, dentro da vida da escritora e, outra, para ver a sua capacidade de observação e o encanto da sua cumplicidade com a criatividade de Paula Rego. São duas edições de excepção nestes tempos que correm.


 


VER - Raras vezes uma exposição de fotografia provoca uma impressão tão marcante como  “Este é o Lugar”, do sul-africano Pieter Hugo, que ficará na Fundação Gulbenkian até 1 de Junho. As imagens são duras, não são retratos passivos, são testemunhos de um tempo, de pessoas e de lugares. São imagens do quotidiano, mas não são instantâneos. São fotografias cuidadosamente produzidas, feitas em película e em câmara de grande formato. Pressupõem o estabelecimento de uma relação entre o fotógrafo e o fotografado que ultrapassa o momento. Cada uma permite adivinhar conversas, imaginar o que se estabeleceu, o que levou cada sujeito fotografado ou local escolhido até ali - ao momento da imagem fotográfica. Na realidade a exposição compõe-se de 15 ensaios diferentes, feitos entre 2005 e 2012, num trabalho persistente de rigor e coerência, de imaginação e de provocação. Esta é mais uma mostra exemplar da iniciativa “Próximo Futuro”, da Fundação Gulbenkian, programada por António Pinto Ribeiro.


 


OUVIR - Volta e meia há discos que me despertam e surpreendem. Discos em português, com letras que são histórias para além de rimas e tretas, palavras que contam testemunhos e relatos - que nos falam das vidas e de pessoas. Confesso que, distraído, nunca tinha ouvido falar de Capicua. No seu site dá como referência que nasceu em Cedofeita em 1982, descobriu o hip hop aos 15 anos, estudou e doutorou-se em sociologia. Tem uma longa lista de colaborações musicais, o primeiro trabalho foi editado pela Optimus Records e o segundo foi editado já este ano pela Norte-Sul. Chama-se “Sereia Louca” e evoca Kafka em abono do título. A edição tem dois discos, um de originais, outro de versões acústicas de trabalhos anteriores e qualquer deles é bom - mesmo o brinde acústico é muito bom. Rapper por etiqueta, o que me interessa mais em Capicua é o que ela canta, aquilo que escreve e a forma como conjuga as palavras com a música. Escreve boas histórias, retoma aqui e ali cantigas antigas, como “O Soldadinho”, de Reinaldo Ferreira, a que dá uma volta completa com a ajuda de Gisela João. Sente-se que tem gôzo em subverter as coisas, em ensaiar colaborações inesperadas como aquela “Lupa” em que a angolana Aline Frazão canta José Gomes Ferreira. Gostava de não colar uma etiqueta de género a este disco e dizer apenas que aqui está música contemporânea de Portugal. É coisa rara, cada vez mais rara hoje em dia. Não é saudade, mas tem passado; e ao mesmo tempo desenha o futuro com os pés no presente. Há muito que não ouvia um disco assim.


 


PROVAR - Em Setúbal, frente à doca dos barcos de pesca, há um passeio largo, que permite andar a pé ao longo do Sado, desde a saída dos barcos para Tróia, com a baía bem à vista.. Toda a zona tem sido recuperada nos últimos anos e entre velhos armazéns começaram a surgir novos restaurantes. O local onde tudo isto se cruza é a Rua da Saúde. Já se sabe que Setúbal é uma das cidades onde se come melhor peixe e numa recente visita deixei-mer seduzir pelo apelo de D. Manuela, que acolhe os clientes no restaurate “Baía do Sado”: esplanada confortável e bem protegida do sol e do vento, interior amplo. Logo à entrada está um balcão com o peixe e mariscos frescos. Havia uma bela dourada de 700 gramas que chamava por nós e umas navalhas, que por recomendação da casa e curiosidade nossa, foram feitas à moda de Bulhão Pato. Nunca as tinha provado neste preparo e gostei. A dourada estava primorosamente grelhada, mantendo a frescura e o sabor, sem secura nem estorricanços. Os legumes cozidos no ponto foram o acompanhamento. O pão, que se provou com azeitonas e, depois, na infusão criada pelo Dr. Bulhão, estava denso e saboroso. Acompanhou um vinho branco da região, fresco e levemente frutado. O serviço foi escorreito e no final a conta foi uma agradável surpresa. A esplanada foi um prazer para a vista e o peixe e as navalhas excederam o que se esperava. A Baía do Sado fica no nº 46 da Rua da  Saúde e o telefone é o 265 553 247.


 


DIXIT - “Muito bem. Fica registado o seu insulto, ao qual não vou responder” - José Rodrigues dos Santos, em reação à afirmação de José Sócrates: “não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista”.


 


GOSTO -Catarina Sobral foi escolhida na Feira do Livro Infantil de Bolonha como a melhor ilustradora para a infância, garças ao seu livro “O Meu AvÔ”.


 


NÃO GOSTO - Continuam a prescrever processos no caso BCP



BACK TO BASICS - Não esperem pelo julgamento final, ele realiza-se todos os dias - Albert Camus

abril 04, 2014

SOBRE O EFEITO DAS ELEIÇÕES NA RAÇA HUMANA

ELEIÇÕES - Um homem que eu me habituei a considerar inteligente, e que de certa forma parecia destoar da pobreza da classe política, é Paulo Rangel. E, no entanto, empolgado pelo clima eleitoral e pela sua condição de cabeça de lista do PSD e PP às europeias, ei-lo que se deixou enebriar pelas próprias palavras e criou um caso onde o prazo de validade da notícia já tinha quase esgotado - o manifesto pela reestruturação da dívida. Confesso que me custa a perceber a relação entre a falta de jeito para a táctica política com a abundância de dotes oratórios. Ele há pessoas que gostam tanto de se ouvir a si próprias, que depois se embrulham no discurso e nas palavras, que degustam, deliciados, sem lhes ocorrer que o sabor que os entusiasma é o da cicuta. Estes oradores kamikaze, que nos últimos tempos têm feito escola no PSD em diversos níveis, são quem alimenta a desconfiança nos políticos. Quem está a dar brasa ao manifesto é quem faz declarações como as de Paulo Rangel sobre a falta de adesão do tal manifesto - gerou instantaneamente pretexto para uma petição que cresceu velozmente e que chegou a recolher assinaturas de três dezenas de oficiais generais e oficiais superiores das forças armadas. Não havia necessidade, mas o tiro no pé está dado e Rangel vai andar coxo até ao fim da campanha. Mas esta campanha das europeias é coisa pequena comparada com a outra que está em curso - no PSD decorrem umas verdadeiras primárias para as presidenciais: este fim de semana Durão Barroso saíu de Bruxelas e deu à costa mais ocidental da Europa para tactear terreno; no dia a seguir Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou o espaço que tem na TVI para comentar Durão e desfazer metodicamente o governo, como quem arranca asas a moscas - de Poiares Maduro a Passos Coelho ninguém escapou; e Santana Lopes, claro, comentou sibilinamente as intenções do regresso de Durão às primeiras páginas dos jornais portugueses. O diário das primárias para as presidenciais arrisca-se a ser mais animado que o diário das europeias.


 


SEMANADA - Foi divulgado um relatório de um organismo oficial  a concluir que a fuga de cérebros pode causar sérios danos à economia nacional;O total de inscritos com mais de 30 anos em licenciaturas no ensino superior público caíu cerca de 30% ; aqui ao lado, em Espanha, registou-se, no mesmo grupo, um aumento de cerca de 18%; os alunos do ensino obrigatório com mau aproveitamento escolar custam 250 milhões de euros por ano ao Estado; quase 8500 crianças e jovens foram retirados às famílias em 2013; há mais de cinco mil pessoas sem abrigo em Portugal; o abastecimento de água corrente foi cortado por falta de pagamento a mais de 42 mil casas; desde a chegada da troika os impostos aumentaram 35% para os particulares e 15% para as empresas; uma em cada dez casas na orla costeira está desocupada; as vendas de carros novos cresceu 48% nos primeiros meses de 2014, com as marcas Mercedes e BMW em destaque;  Bruxelas anunciou que não financiará a construção de  mais estradas em Portugal; 207 milhões de cupões concorrem ao primeiro sorteio dos Audis da sorte; a assembleia distrital de Vila Real foi ameaçada de penhora por salários em atraso;  os sectores dependentes do salário mínimo mais que duplicaram desde Abril de 2011;  o total de familias com rendimentos anuais inferior a 10 mil euros passou de 2,3 milhões em 2010 (48% do total) para 3 milhões (66%) em 2012; em 2013 o número de manifestações caíu 6%  e estas manifestações foram vigiadas por 31 257 polícias, quase o dobro de agentes ocupados na mesma actividade que no ano anterior no qual, no entanto, se registaram mais protestos; o PSD considerou que o secretário de Estado que anunciou cortes permanentes nas pensões, José Leite Martins,  teve “um momento infeliz”; a agência de publicidade Mosca decidiu dar novo nome ao dia 1 de Abril, passando a chamar-lhe Dia do Político.


 


ARCO DA VELHA - Um procurador adjunto de Braga deixou prescrever vários processos, entre os quais um de burla e falsificação, que lesou o Estado em mais de um milhão de euros, e outro que permitiu o arquivamento de uma investigação aos rendimentos do ex presidente da Câmara de Braga, Mesquita Machado.


 


FOLHEAR - A edição de Março do British Journal of Photography é dedicada a David Bailey, apresentado como “o mais conhecido fotógrafo britãnico, cronista visual dos agitados anos 60 londrinos e ainda cheio de energia a trabalhar”. A revista, que é uma das melhores fontes de informação sobre o que se faz de novo em fotografia,, aborda desde edições de livros até novas exposições e publica sempre portfolios que resultam de projectos pessoais. Nesta edição destaco o trabalho de Salvi Danés, um catalão que mostra o seu olhar sopbre Moscovo, e da californiana Elizabeth Moran, sobre espaço habitados. Este número de Março reproduz os principais trabalhos escolhidos na edição deste ano do World Press Photo, mas o prato forte é uma entrevista com Martin Parr, o fotógrafo da Magnum que meteu mãos à obra a mostrar ao mundo a importância dos photobooks - já vai no terceiro grande volume da série. E, claro, há Bailey, David Bailey - 12 páginas com imagens e história desta figura de referência da fotografia e da sua carreira de mais de 50 anos -  aqui se mostram retratos  de Joseph Beuys, Patti Smith, Marianne Faithfull e Man Ray, entre outros.


 


VER - O ponto forte da Galeria Ratton está nos azulejos e na relação que consegue estabelecer com pintores, convencendo-os a experimentar aquele suporte cerãmico. Foi o que aconteceu quando em 1989 convidou Luisa Correia Pereira a experimentar o azulejo. Desde esta semana e até 20 de Junho a Ratton mostra obras dessa época, feitas pela artista nos anos 80 e 90, muitas inéditas, umas em azulejo, outras aguarelas, outras em técnica mista sobre papel e outras em acrílico sobre tela. Olhos amigos dirigiram-me para as pequenas aguarelas, que aproveito para juntar aos azulejos avulsos que são seus familiares próximos. A Ratton, bem perto do sempre polémico Tribunal Constitucional, é uma espécie de oásis onde se mostra o que não se epera ver e onde se descobre o que apetecia conhecer - é isso que se passa com a obra de Luisa Correia Pereira. Rua da Academia das Ciências 2C, das 15h00 às 19, mais informações em galeriaratton.blogspot.com .


 


OUVIR - Em 1998 os Silence 4 ganharam súbita fama e notoriedade com o seu álbum de estreia, “Silence Becomes It”. que ao longo do tempo vendeu 230 mil exemplares, um número muito respeitável no panorama das edições discográficas portuguesas. As vozes de David Fonseca e Sofia Lisboa, as melodias das canções e as histórias contadas nas letras, escritas em inglês mas rapidamente assimiláveis, como o hit “Sorrow” bem mostrou, foram a chave do sucesso da banda. O segundo disco, “Only Pain Is Real” continua o encanto, mas perde o efeito surpresa. É destes dois discos que se faz a lenda e eles são a matéria prima de uma belíssima edição, em caixa- “Silence 4- Songbook 2014”, agora editada. Além dos dois discos de originais inclui-se um disco de gravações avulsas feitas entre 1996 e 2000, e que inclui demos, registos ao vivo e remixes, apropriadamente intitulado “Rarities”. A edição fica completa com um DVD que agrupa  os concertos do Pavilhão Atlântico em 1998 e do Coliseu dos Recreis em 2000, e que inclui ainda os videos de “Borrow”, “My Friends”, “To Give” e “Only Pain Is Real”. Como David Fonseca dizia no início da carreira da banda, é mais fácil cantar sobre sentimensos pessoais em inglês, porque assim há menos gente que percebe… Cá por mim continuo a ter saudades da maneira como Sofia Lisboa cantava nesses tempos.


 


PROVAR - Esta é a época da lampreia e ainda não provara uma até há uma semana atrás. Nos últimos anos tinha continuado a poder degustar a lampreia minhota que se fazia no antigo “Manel” do Parque Mayer, e que o herdeiro da casa  tinha levado para o restaurante do Clube de Ténis de Monsanto - que entretanto deixou. Fiquei contente por saber que Júlio Calçada vai abrir nova casa na Rua do Salitre, mas a verdade é que fiquei sem lampreia. Foi o pretexto para regressar à Adega da Tia Matilde, ao Rego, na Rua da Beneficência, onde já não ía há uns anos.. A qualidade continua a ser superior e não é por acaso que a lampreia servida na Tia Matilde está no top do que, na matéria, se faz em Lisboa. Desta vez preferi à bordalesa: no fundo é uma lampreia estufada, muito bem estufada, num molho cremoso que incorpora o sangue do bicho, servida sobre fatias de pão frito e acompanhada de arroz carolino no forno. A lampreia estava na boa fase, com ovas saborosas, a dose era abundante, o molho e o tempero estavam a preceito e o arroz era exemplar. Convém sempre marcar, apesar de a casa ser grande. Rua da Beneficência 77, telefone 21 797 2172, tem parque de estacionamento nas traseiras com acesso directo por elevador ao restaurante.


 


DIXIT - “Em vez de riqueza só nos sobejam dívidas para redistribuir” - Medina Carreira


 


GOSTO - A iniciativa Art On Chairs, da Câmara Municipal de Paredes, foi distinguida em Bruxelas como o melhor projecto europeu na área do desenvolvimento regional.


 


NÃO GOSTO - Da fuga às reponsabilidades ensaiada por Vitor Constâncio, e apadrinhada por vários notáveis, no caso da falta de supervisão do Banco de Portugal ao BPN.



BACK TO BASICS - Ler é mais importante que escrever - Roberto Bolaño

Informação na charneira da Mídia

Aos poucos, a noção de Mídia que tínhamos há uma década está a alterar-se. Mais do que falarmos em meios, devíamos falar em canais de distribuição de conteúdos: é isso que, hoje em dia, são a Internet, a rádio, a televisão, os jornais e as revistas.



Já nenhum produto vive exclusivamente no meio para o qual foi inicialmente concebido – as séries de televisão são também vistas num computador portátil ou num tablet, as notícias de um jornal são vistas mais depressa no digital que no papel, a rádio ouve-se tanto nas suas transmissões hertzianas como no streaming digital. Nenhum grupo de comunicação pode, hoje em dia, ignorar que a combinação otimizada entre os vários canais de distribuição à sua disposição é a chave do sucesso.

O tempo tem mostrado que as marcas de informação que melhor funcionam – e que mais rendimentos conseguem de assinaturas ou de publicidade, ou de ambas – são aquelas que melhor exploram a convergência entre as diversas plataformas.

Ainda não existe um modelo de negócio sedimentado, mas é possível perceber que, ao fim de alguns anos, o The Guardian, de Londres, cujo site tem acesso totalmente livre, já conseguiu começar a sair do encarnado; e que os resultados do The New York Times, que tem um sistema misto, são também animadores.

Por outro lado, constata-se que os jovens adultos que ingressam na vida ativa mostram uma tendência para deixar de aceder exclusivamente a noticiário online, e começam a consumir informação impressa, através de um sistema em que uma assinatura é válida em todas as plataformas.

A informação continua a ser um dos maiores motores de captação de audiências – o Twitter tornou-se uma fonte de notícias de última hora e cerca de 50% dos utilizadores do Facebook usam a rede social para saberem notícias de atualidade. Uma organização noticiosa hoje não se limita a ter uma edição tradicional – usa também as redes sociais para alargar a sua influência e a notoriedade da sua marca.

É cada vez mais evidente que as marcas mais antigas e prestigiadas de informação, e que na maioria provêm de empresas editoras de jornais e revistas, são aquelas que conseguem maior confiança e reconhecimento dos seus consumidores.

Um recente estudo feito nos Estados Unidos mostra que, em relação a produtos de comunicação essencialmente baseados em notícias, os jornais e revistas captam a maior fatia do investimento publicitário, à frente das estações de televisão noticiosas (cable news channels). Aqui está um caso em que a televisão não bate a imprensa.

Mesmo nesta época digital, as notícias da morte da imprensa são largamente exageradas – e as notícias da perca de influência da informação são completamente erradas. Mudam-se os tempos, mudam-se os canais de distribuição, mas a essência das coisas continua.


março 28, 2014

APELO À ASSEMBLEIA MUNICIPAL SOBRE A PREPOTÊNCIA DA EMEL

EMEL - Esta semana voltei a irritar-me com esse organismo de violentação dos contribuintes lisboetas que se chama EMEL. O facto de os seus regulamentos, ditados pela empresa, serem aprovados pela Assembleia Municipal, serve para justificar face aos cidadãos que as anacrónicas regras de comprovativo de residência a que obrigam (e que são uma violação do direito à privacidade) não podem ser alteradas sob pretexto algum. O direito elementar de um cidadão residente, recenseado e contribuinte em Lisboa, a poder escolher a zona onde pretende estacionar de forma fixa é negado com base em questões burocráticas e de essência policial. Quando há uns tempos escrevi isto recebi uma chamada telefónica do Presidente da EMEL, entretanto reconduzido por António Costa, dizendo-me que não tinha razão. Pedi novo parecer sobre o mesmo tema e veio a mesma reposta - os cidadãos não têm direito a escolher. Outra prova da arrogância da empresa e dos seus dirigentes está o facto de o estacionamento pago ser introduzido em novas zonas, como recentemente em algumas artérias de Campolide, sem a mínima acção de sensibilização dos moradores ou residentes ou sequer uma informação pública e local sobre a data a partir da qual entrariam em funcionamento os parquímetros - embora este entrar em funcionamento seja relativo porque mesmo novos limitam-se nalguns casos a caçar moedas sem fornecer o impresso comprovativo. Se há empresa municipal cujo funcionamento devia ser repensado de cima a baixo, e cujos regulamentos deviam ser redefinidos, é esta  EMEL. Deixo aqui um apelo à Assembleia Municipal para rever e pôr na ordem os procedimentos e abusos de poder da EMEL, já que os vereadores e o Presidente não dão mostras de se interessarem por este assunto.


 


SEMANADA -  Sondagens desta semana apontam para uma abstenção da ordem dos 60% e para um empate técnico entre PS e coligação PSD/PP; Edite Estrela, que recebeu este ano o prémio  MEP Awards, em Bruxelas, por ter sido considerada a melhor deputada europeia nos assuntos sociais e emprego, não faz parte da lista que o PS apresenta às próximas eleições europeias; o slogan do PS para as eleições europeias é “Mudança!”;  o Conselho de Ministros debateu na semana passada os novos cortes, entre 1,5 e 1,7 mil milhões de euros; um dia depois do Conselho de Ministros Marques Mendes anunciou, no seu comentário semanal na SIC, cortes no mesmo valor; o primeiro ministro disse segunda-feira que o pacote das novas medidas de austeridade que inclui cortes entre 1500 e 1700 milhões de euros vai ser conhecido em Abril, quando for apresentado o Documento de Estratégia Orçamental; apesar de tudo isto o líder parlamentar do PSD garantiu terça-feira que não surgiriam mais cortes;  cerca de 55% dos jovens portugueses entre os 18 e 29 anos  não têm meios para garantir a sua independência e continuam a viver em casa dos pais;  1532 familias pediram á EPAL a tarifa social da água; universidades e politécnicos já fecharam 150 cursos este ano lectivo; metade dos alunos do 3º ciclo já pensaram em emigrar; risco de insucesso escolar afecta 23,8% dos alunos do primeiro ciclo; os automóveis do sorteio do fisco vão custar 1,55 milhões de euros aos contribuintes; metade da frota automóvel da PSP e GNR tem mais de 10 anos; cada um dos carros sorteados pelo fisco irá significar em custos de circulação e manutenção cerca de 350 euros por mês a quem fôr premiado e utilizar o veículo em deslocações normais.


 


ARCO DA VELHA - Nos dois primeiros meses deste ano a despesa com juros e outros encargos do Estado disparou 47,7% em comparação com o mesmo período do ano passado, e desde o início do ano os contribuintes pagaram 13,1 milhões de euros por dia para esses juros e pagaram 39,1 milhões de euros por dia em IRS.


 


FOLHEAR - Os numerosos exemplares da edição de Abril da revista “Monocle” que são  distribuídos em Portugal ostentam na capa um autocolante amarelo que diz “Portugal, the nation that dresses the world”, um chamariz para um artigo no seu interior sobre a excelência dos têxteis portugueses que, ainda na primeira página, têm direito a uma chamada: “Tchau China: How Made In Portugal Is Going Premium”, e isto a respeito de um artigo onde se relata como algumas das melhores marcas de roupa estão a escolher fabricar em Portugal pelo cuidado colocado no fabrico e  pela qualidade da confecção. Esta edição tem precisamente por tema a roupa e os acessórios, desde quem os desenha a quem os fabrica e vende. Numa secção desta edição dedicada a exemplos de boa governação surge em destaque o Presidenet da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira - e  conhecendo eu a revista desde praticamente o princípio quer-me parecer que este é o primeiro português em cargos políticos a aparecer com este destaque. Quem aparece também em destaque é a fábrica têxtil Somelos de Guimarães e referências à qualidade do mobiliário e da cerâmica portuguesa.


Outros temas: uma bela reportagem sobre a renovação da histórica cidade chinesa de Xi’an, antiga capital imperial, a selecção de lojas exemplares dos quatro cantos do mundo, o guia de moda (que inclui os sapatos de camurça Green Boots produzidos em Leiria), um guia de produtos (que inclui o creme Benamor), uma destaque sobre o kit de sobrevivência da editora lisboeta Serrote e um guia de locais e urbanizações que vão dar que falar, de Londres a Porto Rico, passando por Berlim. Finalmente, para quem gosta de comunicação, recomenda-se o artigo sobre o talk show “Skavlan”, que faz êxito nos países escandinavos. Uma edição a não perder.


 


VER - Ana Vidigal tem vindo a desenvolver desde a sua exposição retrospectiva “Menina Limpa, Menina Suja”, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, em 2010, uma série de pesquisas e ensaios, sempre muito pessoais, onde aqui e ali se sentia a procura de novos rumos. A sua nova exposição, inaugurada esta semana na Galeria Baginski mostra como ela conseguiu encontrar um novo caminho que lhe possibilitou um passo em frente. “Em Primeiro Lugar O Fim”, assim se chama a exposição, reúne 15 novos trabalhos que evidenciam novas formas de ver e de mostrar - não é uma ruptura com o passado, mas é uma mudança de tempo, no sentido em que a obra, agora, se projecta mais no presente e no futuro sem renegar o que ficou para trás. Há elementos de continuidade em algumas peças, mas existe, na maioria, um sentido de descoberta que Ana Vidigal consegue partilhar - e esse é o maior encanto desta nova série de obras. A exposição vai estar até 24 de Maio na Baginski, Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato. A inauguração foi uma festa, com uma animação que vai sendo rara hoje em dia - uma alegria de mostrar o que se faz, que contrasta saudavelmente com o cerimonioso enfado institucional de tantos outros locais.


 


OUVIR - Há uns anos a prestigiada etiqueta discográfica Deustche Grammophon começou a fazer um reposicionamento em termos de novas edições, procurando alargar o leque do seu catálogo para passar a incluir outros géneros musicais, alguns mais populares, outros de inspiração etnográfica, e outros de fusão. Entre os novos intérpretes cedo se destacou o guitarrista montenegrino Milos Karadaglic, com os seus dois primeiros discos, “Mediterraneo” de 2011 e “Latino” de 2012, exemplos do seu virtuosismo. Neste seu terceiro álbum, “Aranjuez”, gravado com a London Philarmonic Orchestra dirigida por Yannick Nézet-Séguin, o guitarrista executa uma versão do “Concierto de Aranjuez” de Joaquim Rodrigo que é um exemplo de equilíbrio entre a orquestra e o solista. Mas é sobretudo em “Fantasia Para Un Gentilhombre”, também de Joaquin Rodrigo, que se evidencia aquilo que é a maior característica deste CD - a prova da capacidade de interpretação e da subtileza de Milos Karadaglic e da sua guitarra.


 


PROVAR - Há restaurantes que têm uma vida dupla. Outros, como este, têm uma vida tripla: almoços económicos, petiscos e wine bar de fim de tarde, jantares e por vezes fados lá mais para a noite, às terças-feiras. O local existe desde Novembro do ano passado, chama-se “Taberna Saudade” e tem, por fora e por dentro, uma decoração que dá gosto. No exterior chamarizes do tempo antigo, mas actuais; no interior uma guitarra portuguesa e uma viola dominam uma parede, junto a uma fotografia de Alfredo Marceneiro. Uma dúzia de pequenas mesas confortáveis e um bar de passagem completam o local. Ao almoço há pratos do dia - coube-me um caril de lulas e um entrecosto no forno com grelos, ambos sem direito a reparos. Noutros dias pode encontrar iscas com elas, rojões com migas de batata e lombarda salteada, frango de cabidela ou arroz de polvo, por exemplo. A página do Facebook vai colocando a ementa diária. Nos petiscos há preciosidades como esse raro enchido que é a cacholeira e alguns queijos seleccionados. Tudo foi acompanhado por um tinto Monte das Cascas, que se portou muito bem - e a conta foi módica. Para quem queira há cerveja artesanal Sovina e Ginjinha Saudade para rematar. A “Taberna Saudade” fica perto da Pampulha, na Rua Presidente Arriaga 69 e tem o telefone 213 950 730.


 


DIXIT - “Eu não vinha preparado para isto” - José Sócrates em resposta às questões colocadas por José Rodrigues dos Santos


 


GOSTO - Da campanha “recuperar a esperança”, do BES


 


NÃO GOSTO -  O risco de pobreza atinge quase dois milhões de portugueses


 


BACK TO BASICS - Nada é tão admirável em política quanto uma memória curta - John Galbraith