O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
dezembro 29, 2009
O HOT CLUBE
dezembro 28, 2009
CABAZ DE PRENDAS ( No Jornal de Negócios de 24 de Dezembro)
Este não tem sido um ano fácil – daqui a alguns anos se poderá ver como 2009 foi um ano horribilis, para os portugueses, para a economia portuguesa, para a política portuguesa, para a justiça portuguesa. A degradação do país é acentuada, precipitada por actores políticos inconsequentes, por um sistema partidário desfasado da realidade, por um sistema parlamentar em descrédito, por uma justiça absolutamente vergonhosa. A grave e preocupante situação económica a que chegámos – muito mais preocupante que a tradicional bonomia lusitana consegue encarar – coloca-nos à beira do abismo e compromete o futuro. Sucessivas políticas improvisadas destruíram a produção nacional, que reconvertem por temporadas em obras públicas gigantescas de importância, prioridade e necessidade mais que discutíveis.
Talvez alguns leitores se indignem por eu nomear, na lista de prémios e prendas abaixo publicada, tantos nomes do PS. Faço-o não por embirração especial mas porque é o PS que tem estado maioritariamente à frente do Governo desde 1995, com um breve intervalo de três anos do PSD – que, verdade seja dita, também não correu bem. No entanto, nos 15 anos mais recentes, em 12 os Governos do PS desperdiçaram todas as oportunidades, aumentaram a despesa pública, e na maior parte do tempo governaram com maioria absoluta ou com apoio parlamentar maioritário. E nem quero apontar os escândalos, os casos, as corrupções, as perseguições, os compadrios que, nos últimos anos, com Sócrates no poder se tornaram o pão nosso de cada dia.
Portugal piorou nestes últimos quinze anos. Os políticos no activo estão a destruir o capital de confiança na democracia. Os principais partidos políticos ou estão no poder e dividem lugares ou estão na oposição e entram em auto-destruição. Sinceramente gostava de não ter que dar prendas assim – mas a realidade que vejo á minha frente é mesmo esta.
Marcelo Rebelo de Sousa – Prémio «Agora Ainda Não», ao conseguir mais uma vez fintar tudo e todos nas questões do PSD – tivesse a selecção portuguesa de futebol jogadores com esta capacidade de finta e o Mundial da África do Sul poderia ser um passeio tranquilo.
Teixeira dos Santos – Prémio «Não me Agarras» por se ter tornado no Ministro das Finanças mais rápido a fazer aumentar o défice do Estado – actualmente ao ritmo de 39 milhões de euros por dia; o prémio também recompensa a bonito aumento da despesa pública conseguido entre Novembro do ano passado e Novembro deste ano – um recorde de 4,6%. Recebe também um exemplar de «Economics», de Paul Samuelson, para ver se ainda consegue aprender alguma coisa.
Manuel Alegre – Prémio «O Eterno Candidato», pela sua dedicação aos jantares de apoiantes, à carne assada e aos grandes discursos tão redondos, tão redondos, que ninguém consegue perceber o que lhe vai na cabeça.
José Sócrates - Prémio «Aumentador do Ano», por ter conseguido mais défice, mais desemprego, maior endividamento externo e maior instabilidade política. Ainda não foi desta que ganhou uma medalha na maratona da política.
António Costa - Prémio «Viva o Prozac», pela bonomia com que assiste ao degradar de Lisboa, aos desmandos de José Sá Fernandes e às tropelias de Helena Roseta, enquanto espera placidamente sentado a queda de Sócrates.
Noronha do Nascimento – Prémio «O grande Censor» por no seu discurso de posse, depois de reeleito para o Supremo Tribunal de Justiça ter defendido a criação de um órgão especial para julgar jornalistas «composto paritariamente por representantes das próprias classes profissionais e da estrutura política do Estado».
Pinto Monteiro – Um frasco de «speed» e uma lata de Red Bull para ver se a Procuradoria Geral da República consegue funcionar a um ritmo decente .
Sérgio Sousa Pinto – Prémio «Laxante Cerebral», pela diarreia mental que tem espalhado à sua volta desde que regressou de Bruxelas – um típico caso dos efeitos da burocracia comunitária em políticos imberbes. Esteve quase para dividir o prémio com Ricardo Rodrigues, o rotweiller político do PS.
PSD – Um vale de 20 sessões com o Professor Karamba a ver se afasta o bruxedo e consegue sobreviver.
Augusto Santos Silva – um manual do World Of Warcraft, a ver se faz menos asneira como Ministro da Defesa do que no cargo anterior.
Aguiar Branco – Um frasco de vitaminas a ver se consegue ser mais enérgico e mostrar alguma convicção.
Isabel dos Santos – Prémio «Portugal É Nosso» e «Compre Português», pela continuada e activa actividade de compras que tem desenvolvido em Portugal – garantindo recordes de investimento estrangeiro à margem de qualquer organismo oficial especializado no assunto.
BACK TO BASICS – Se não fosse o jornalismo, Portugal era um sítio isento de corrupção, de crimes violentos e de abusos sexuais» - Fernando Sobral.
dezembro 21, 2009
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 16 de Dezembro)
PORTUGAL – É certo que governar em maioria absoluta é mais fácil, mas também é certo que governar em maioria simples é a situação mais normal por esse mundo fora. Sócrates, que dentro e fora do seu partido gosta de mandar com maioria absoluta, não gosta de compromissos e o seu apregoado talento de negociador só tem expressão prática fora de portas. Melhor seria que utilizasse dentro de fronteiras a paciência e o espírito conciliador que o levou a conseguir o acordo sobre o Tratado de Lisboa. O absolutismo de que Sócrates gosta é um sinal de menoridade política, é um sinal de desprezo pelas opiniões alheias. O exercício do Governo em maioria relativa pressupõe acordos transparentes, um parlamento vivo e actuante - é o que melhor podia acontecer não só ao país, mas também aos partidos, eles próprios habituados a funcionar em regime interno de absolutismo. O triste balanço dos anos de maioria absoluta de Sócrates resume-se a isto: temos mais corrupção, mais desemprego, maior défice, maior endividamento, menos confiança e menos esperança.
MASTRO – O disparate da semana é o mastro de cem metros de altura que a Câmara Municipal de Paredes quer construir, com um custo estimado de um milhão de euros, para pôr a ondular uma bandeira nacional, numa iniciativa comemorativa do centenário desta muito pouco útil República.
LISBOA I – O espaço público degrada-se, as ruas continuam sujas, os estaleiros de obras particulares permanecem a empatar ruas mesmo depois de obras terminadas, os estaleiros do Metro na zona do Saldanha continuam a ser um pesadelo quase seis meses depois de abertas as novas estações, ainda não foi desta que a Duque de Ávila voltou a ter trânsito.
LISBOA II – O que está em causa no jardim do Princípe Real não é uma operação fito-sanitária para tratar de plantas e árvores; o que está a ser feito e não foi discutido nem mostrado à população, é um novo arranjo de todo o antigo Jardim do Princípe Real – que vai ficar irreconhecível.
LISBOA III – Um tribunal arbitral condenou a Câmara Municipal de Lisboa a pagar uma indemnização de 18,5 milhões de euros ao empreiteiro da obra do túnel do marquês, devido à interrupção dos trabalhos causada pela providência cautelar interposta por José Sá Fernandes, antes de ocupar o seu actual ligar na vereação camarária.
RESUMO – As áreas delegadas em Sá Fernandes, espaço público, ambiente urbano e espaços verdes estão cada vez piores – a sua acção como vereador é criticada de forma quase unânime e arrisco dizer que é consensual a sua incapacidade para manter a cidade confortável e agradável. Pior, a sua acção de propaganda política, que contribuíu para o seu actual estatuto (a guerra desencadeada contra o projecto do Túnel do Marquês) saldou-se num enorme prejuízo directo para a autarquia, pago por todos os munícipes por via dos impostos – e isto apesar de hoje em dia todos, excepto o próprio, reconhecerem que o túnel melhorou o ambiente urbano na zona e contribuíu para a qualidade de vida de quem reside naquelas ruas. Face a uma situação destas, em que a incompetência se alia à irresponsabilidade, seria da mais elementar decência que José Sá Fernandes renunciasse ao cargo, que manifestamente não é capaz de desempenhar em condições, e sobretudo porque agora se confirma que ele foi o causador directo de prejuízos avultados. Mas, já que ele não tem a decência de reconhecer os seus erros, seria natural que António Costa, face à sua acção como vereador, e aos efeitos nefastos da sua actividade anterior nas finanças da Câmara, lhe retirasse a confiança política. Nada disto se passa – e é tempo para quem votou em António Costa pense no resultado prático dos seus votos.
OUVIR – Fora de Espanha Luz Casal tornou-se conhecida pela sua interpretação do clássico sul-americano «Piensa En Mi», incluída na banda sonora do filme «Tacones Lejanos», de filmes de Pedro. Este ano Luz Casal voltou a pegar na tradição da melhor música latino-americana, interpretendo 12 clássicos, de «Alma Mia» até«Que Quieres Tu de Mi», passando por « Mar Y Cielo», «Cenizas» ou «no, No y No», entre outras. Os arranjos, de uma elegância notável, são do brasileiro Eumir Deodato, que tem uma longa carreira musical feita nos Estados Unidos desde os anos 70. CD «La Pasión», EMI.
LER I – Muito bem o livro “Xutos & Pontapés - As melhores canções para crescer”, que reúne as letras de 16 temas do grupo, com óptimas ilustrações de Miguel Gabriel para temas como "Contentores”, “N´América”, “Vida Malvada”, “Desemprego”, “Prisão em si”, “Remar, Remar”, “Chuva Dissolvente” e “Homem do leme”, entre outros.
LER II - «As melhores fotografias de Lisboa Desaparecida», uma selecção de imagens raras, organizada por Marina Tavares dias, na sequência da sua série de álbuns sobre a história de Lisboa. A selecção de imagens é muito boa e sugiro um exercício: pegue no livro e leve o seu filho a um dos locais emblemáticos da cidade ali mostrados, ponha-se no mesmo ângulo da imagem e veja as diferenças com o que, no mesmo local, se pode ver hoje.
PETISCAR - Nestes dias pré-natalícios é bom um restaurante de comida portuguesa, ambiente acolhedor, boa garrafeira, preços sensatos. Esta semana regressei a uma casa onde as coisas tem tendência a correr bem. Para aguçar o apetite direi que umas empadinhas de galinha e um queijo de serpa, acompanhado por finas fatias de pão alentejano, serviram para preparar o paladar. O vinho, que entretanto chegou, é o belíssimo Valado tinto 2007, que fez muito boa figura a acompanhar a escolha de perdiz com couve lombarda, que estava superior. A rematar, requeijão com doce de abóbora. Resta dizer que José Duarte, o homem ao leme deste «Salsa & Coentros», continua em boa forma. Para lá ir deve fazer uma reserva pelo telefone 21 8410990. O restaurante fica em Alvalade, na rua Coronel Marques Leitão, que começa frente ao quartel de Bombeiros da Avenida Rio de Janeiro.
BACK TO BASICS - «Dado o character do jornalismo actual, a profissão de espião deixou de fazer sentido» - Oscar Wilde
dezembro 16, 2009
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 11 de Dezembro)
dezembro 09, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Dezembro)
dezembro 02, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Novembro)
novembro 25, 2009
A minha aventura na Assembleia Municipal
Começar uma reunião com quase 45 minutos de atraso, gastar cerca de duas horas e meia no período de antes da ordem do dia, e começar já tarde e a más horas a discutir temas concretos da gestão autárquica - como a carga fiscal a aplicar aos munícipes, este o resumo do meu primeiro dia na Assembleia Municipal de Lisboa.
Comecemos pela sala - cadeiras confortáveis para trabalhar, painéis de informação de cada lado do palco onde se senta a Presidência da Assembleia, um deles apagado, o outro de difícil leitura - inúteis portanto. A presidência da Assembleia está em cima do palco, os vereadores da Câmara estão mais abaixo com uma cadeira de espaldar mais alto a assinalar o lugar do Presidente da Câmara. Por todo o lado os telemóveis não Têm descanso.
Poucos computadores à vista - não se detecta nenhuma rede wireless, os deputados que quiserem aceder à internet trazem a sua própria plaquinha com o seu portátil. Pelo meio dos trabalhos diligentes funcionários distribuem papéis e mais papéis. A modernidade aqui é uma palavra relativa.
O período antes da ordem do dia é muito curioso: moções de pesar, moções de celebração, moções de evocação, moções de crítica à Câmara Municipal. A discussão é superficial e aliás inútil: quando cada documento é votado a mesa limita-se a ver como vota cada partido e anuncia o resultado pela soma aritmética do máximo de lugares presentes de cada formação, sem se preocupar em contar os votos efectivos nem os deputados presentes. Como as posições estão antes definidas em cada bancada, mais valia que fosse a conferência de lideres a decidir logo o destino desta parte dos trabalhos - poupava-se tempo e ganhava-se produtividade, um conceito pouco popular naquelas paragens.
Em boa verdade, os deputados, individualmente, não têm nenhuma margem de manobra e fazem apenas figura de corpo presente - as divergências com as lideranças das respectivas bancadas são reportadas e reprovadas e as posições individuais são rigorosamente controladas. Na verdade o voto dos deputados de pouco serve, apenas se tem em conta a decisão da direcção de cada partido ou formação na Assembleia. Aos deputados que têm problemas em votar a favor de uma proposta apresentada pelo seu grupo partidário é sugerido que na votação abandonem a sala para não se correr o desagradável facto de existir um voto não conformista. Não sei porquê, enquanto assistia ao espectáculo, só me recordava de um livro de Nabokov intitulado «Convite Para Uma Decapitação», no qual se acompanham os últimos momentos de um condenado por «torpeza gnóstica», ou seja, por não se conformar com o pensamento estabelecido como conveniente pela maioria.
Neste admirável mundo novo, pelo menos para mim, percebe-se bem o bas-fond da política: terça feira, por exemplo, percebeu-se que a cisão dos eleitos pelo Movimento Cidadãos Por Lisboa, de Helena Roseta, já estava anteriormente combinada com o PS, por forma a organizarem-se de forma autónoma, como antes das eleições - apenas esconderam o facto para iludirem os eleitores com uma ideia de unidade, falsa como agora se verifica. Aquilo a que assisti foi à revelação de um acordo espúrio patrocinado por Manuel Alegre, que levou pela mão Helena Roseta ao altar de António Costa para uma farsa de casamento político com divórcio a prazo contratado. Parece que isto é fazer política. Eu, na minha inocência, acho tudo isto extraordinário.
(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Novembro)
SINAL – Da maneira como as coisas estão, qualquer dia as grandes marcas de luxo começam a fabricar modelos especiais de pulseiras electrónicas de vigilância, especialmente para o mercado português.
PÉSSIMO – Os novos carrinhos assadores de castanhas de aço inox, assépticos, todos iguais, monocordicamente horríveis, sem uma ponta de pessoalização são a imagem de marca da ASAE neste Portugal moderno: tudo igual, tudo feito, tudo feito sem respeito pela tradição, tudo feito em nome de normas e sem raciocínio. O senhor director da ASAE, já se sabe, gosta de um mundo hiper-controlado mas o que vai deixar de legado é pavoroso. Devia ser sumariamente despejado no caixote de lixo da história, ele sim muito embrulhadinho numa embalagem asséptica para não contaminar o país.
POLÍTICA – Todos os que se aproveitam da política para invocarem influências, facilitarem negócios ou encherem os bolsos estão a dar machadadas no regime. Já pensaram porque é que as listas de deputados geram sempre tanta confusão nos maiores partidos? – é que o Parlamento e o lugar de deputado continuam a ser vistos na paróquia como um cartão de visita que facilita apresentações e pode abrir portas. Nada mudou em relação às descrições que os escritores de final do século XIX faziam do provincianismo de grande parte dos políticos portugueses, apenas se agravou. Por exemplo, a nebulosa de interesses no caso da migração de figuras do universo do PS, colocadas na Caixa Geral de Depósitos, para tomarem de assalto o BCP, é uma história que ainda há-de fazer correr muita tinta.
BETÃO – Há uns anos o PS criticava com grande arraial a chamada política do betão. Ao longo dos tempos foi mudando a sua posição e agora surge como o grande defensor das grandes obras, mesmo que seja em desrespeito por orientações do Tribunal de Contas – como infelizmente tem sido o caso, repetidamente mostrado nos últimos tempos, nas Estradas de Portugal. Claro que quando se olha para as coisas com maior atenção percebe-se o porquê: em cerimónias de inaugurações variadas a Estradas de Portugal gastou um milhão de euros no final do consulado Mário Lino, ou seja investiu um milhão de euros na propaganda do Governo. Quando se governa assim já se viu que tudo é possível – e que é legítimo pensar o pior.
DESGOVERNO – Desta vez o estado de graça durou pouco: o Ministro das Finanças foi considerado um dos piores da Europa, o desemprego atingiu números assustadores, o processo «Face Oculta» parece um cocktail molotov que incendeia tudo, há Ministros desaparecidos de cena, outros que aparecem demais e criam chispas até dentro do PS – como Vieira da Silva. Este mês e pouco é mais de desgoverno do que de Governo – e claramente é uma sucessão de trapalhadas.
LER – O número de Dezembro da edição britânica da revista «Wired» vem subtitulado «The Ideas Issue». Cada vez mais autónoma em relação à edição original norte-americana, a «Wired» UK aborda temas que vão desde a legião de programadores que desenvolve aplicações para o twitter, até à reinvenção da Polaroid por holandeses, passando por um brilhante artigo sobre a cimeira da Dinamarca e os cépticos das mudanças climáticas e um belo dossier com 25 ideias para 2010, da ciência à política, passando pela inovação, criatividade e tecnologia.
DESCOBRIR – Entre o jazz e a fotografia se vai desenvolvendo a carreira de Rodrigo Amado. Numa só semana duas novidades: na Galeria Módulo, em Lisboa, inaugura dia 28 a sua terceira exposição de fotografia intitulada East Coasting (o nome de um disco de Charles Mingus), que mostra imagens feitas durante uma digressão enquanto música de jazz ; e ao mesmo tempo é editado «Motion Trio», o seu oitavo disco, que conta com a participação de Miguel Mira e de Gabriel Ferrandini ao lado de Rodrigo Amado. Motion Trio é o nome da formação e do próprio álbum e é uma demonstração da capacidade de improvisação dos músicos, ao mesmo tempo que criam momentos intimistas e emotivos, contribuindo para uma tensão permanente que é um dos grandes atractivos deste registo.
FEIRA – Até à próxima segunda-feira, dia 23, decorre a 9ª edição da ArteLisboa que junta na FIL 67 galerias (33 portuguesas, 31 espanholas, uma coreana, uma cubana e uma húngara) e obras de centenas de artistas. A verdade é que este é um bom momento para comprar Arte – a crise atirou os preços para baixo. O problema é que este ano o número de grandes galerias portuguesas que optou pela ausência aumentou de forma significativa, o que há-de ter que levar a repensar o modelo da Feira e, sobretudo, a necessidade de ela definir de forma mais clara uma identidade e uma presença transversal na vida cultural da cidade – para além do objectivo das vendas.
VER – Os magníficos desenhos de Cecília Costa na Galeria Baginski numa série intitulada «Carvão», que faz adivinhar uma nova direcção na obra da artista. Na mesma galeria podem também ser vistas oito esculturas explorando formas orgânicas de Bruno Cidra, nomeado para o prémio EDP 2008. A galeria fica na Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato.
SUGESTÃO – Um lanche a meio da tarde no De Castro, o pequeno restaurante onde em Lisboa se pode provar a arte culinária de Miguel Castro e Silva. O local serve durante toda a tarde e, se deixar passar a confusão da hora de almoço, só tem a ganhar. Agora também aberto à noite, é no entanto prudente fazer reserva. Brevemente terá uma ampliação, bem necessária face à exiguidade do espaço. Depois de uma fase inicial atribulada e algo confusa, agora o serviço tem vindo a melhorar. Os petiscos, esses, continuam bons, com uma confecção muito cuidada e óptima escolha de produtos tradicionais. Telef. 217979214, Avenida Elias Garcia 180 B (do lado da Gulbenkian, portanto).
BACK TO BASICS – Convém ter uma má opinião acerca de todo o mundo – é mais seguro (Oscar Wilde)
novembro 18, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Novembro)
novembro 07, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Novembro)
PARCIALIDADE - Um ano depois de Barack Obama ter vencido a eleição presidencial vai um grande sururu na Casa Branca por causa da Fox News. Obama acusa a Fox News de ser tendenciosa. A conversa alastrou pelos media e Fareed Zakaria, o editor da Newsweek, um Obamista assumido, colocou a sua revista ao serviço da cruzada anti-Fox News. Convém aqui dizer, de passagem, que o desenvolvimento da reformulação editorial da Newsweek, que Zakaria empreendeu há uns meses, transformou a revista, num espaço muito alinhado politicamente com a Casa Branca e com os objectivos internos e externos de Obama – ou seja, o reverso da moeda que é criticada na Fox. Esta conversa sobre o alinhamento dos media não é nova – assistimos até há pouco tempo a grande sururu em torno da TVI e do Público – em ambos os casos, como agora já se percebeu, a linha editorial foi domesticada. O fenómeno acontece por todo o lado – desde Chávez a Obama, pelos vistos – quando algum canal de televisão se torna incómodo passa a ser maltratado. A questão, no entanto, é a forma como as coisas são tratadas a partir de diferentes prismas. Durante anos assistiu-se a um claro enviezamento noticioso francamente favorável, em sentido lato, à esquerda europeia ou aos democratas norte-americanos. Digamos que quase se tornou uma regra do politicamente correcto ser-se anti-Thatcher, anti-Cavaco, anti- Bush. No caso americano, que aqui estamos a analisar, o coro anti-Bush de muitos media foi assinalável – mas não me lembro de à época a Casa Branca ter decretado persona non grata vozes críticas. Num recente artigo do «New York Times» notava-se que se os democratas se irritam com a Fox, os Republicanos também se podem irritar com outro canal noticioso, a MSNBC. Na realidade o facto de existir alguma tendência nos noticiários não é nova; novo é o facto de os democratas americanos estarem a provar o fel que andaram durante anos a servir ao público em geral. E é muito curiosa a forma como reagem.
CÂMARA - Esta semana tomei posse como representante eleito na Assembleia Municipal de Lisboa. Chocou-me a forma como os serviços da Assembleia, certamente mal instruídos por alguém, logo na primeira sessão, deram por adquirido que existia uma única lista candidata à Mesa da Assembleia, fruto de negociações entre PS, PSD e CDU. Em vez de esperarem por ver o que saía do plenário, quiseram dar por adquirido o resultado das negociações entre as estruturas dos maiores partidos. O resultado é que surgiu mais uma lista, do PPM e do MPT, que felizmente salvou as aparências e evitou que Simonetta Luz Afonso fosse eleita em lista única, como me pareceu ser o desejo dos negociadores. Os serviços lá fizeram à pressa novo boletim de voto, menos cuidado e completo que o anterior. Os pequenos partidos e os independentes fazem falta, e muita, para que a política não se transforme numa farsa negocial – esta a primeira lição que aprendi logo no meu primeiro dia em funções.
LIXOS - A operação Face Oculta vem chamar a atenção para um aspecto muito curioso: negócios que se desenvolveram na sequência de medidas tomadas sob a capa ambiental tornaram-se rapidamente em expoentes de grupos de interesse, em pressões e corrupções. Para além das boas intenções de alguns, os negócios desenvolvidos à sombra do ambientalismo têm muito que se lhe diga, como estes dias têm mostrado O que se tem passado em Portugal lembra estranhamente a série «Sopranos», onde o principal negócio da Máfia estava precisamente na área da reciclagem de lixos. A história das negociatas ocorridas nesta área, e que cronologicamente e de facto surgiram por ocasião da Expo 98, ainda vai dar pano para mangas. A legislação então feita permitiu e fomentou a criação de negócios que hoje se revelam espúrios – e seria curioso perceber como alguns empresários foram tão rápidos a conhecer novas oportunidades de negócio que podiam ser exploradas. Há muito tempo que não acredito em coincidências…
LER – Não é todos os dias que uma revista comemora 300 anos – três séculos de vida. O caso é que a britânica «Tatler» assinalou na sua edição de Novembro os seus três séculos de existência com um número magnífico de 400 páginas. Um colosso, recheado de histórias, de evocações de épocas da revista – na verdade um manual de como é possível recuperar uma publicação que esteve quase a encerrar portas em finais da década de 70 e que depois fez um percurso notável – começado com Tina Brown entre 1979 e 1983 e então nunca mais interrompido. 1709 foi o primeiro ano da Tatler e um dos acontecimentos desse ano, que esta edição destaca, foi o primeiro voo em balão de ar quente, realizado em Lisboa a 8 de Agosto, pelo padre Bartolomeu de Gusmão que percorreu 400 metros pelo ar para deleite da corte – a nota é acompanhado por uma produção de moda bem actual – é isto que torna uma revista algo de diferente e apetecível e comercialmente muito eficaz.
OUVIR – No ano passado António Pinho Vargas editou a primeira série de «Solo», com composições suas, registadas em sessões de gravação no CCB. Este ano o resto das gravações não editadas e mais umas quantas novas surgem em «Solo II», que consegue ser mais interessante e estimulante que o disco inaugural da série. A maioria das composições continua a ser de António Pinho Vargas, mas há duas versões notáveis «Que Amor Não Me Engana» de José Afonso e «The Times They Are A Changing» de Bob Dylan. Eu, que gosto de discos de piano solo, tenho ficado rendido a este «Solo II», feito à revelia de toda a lógica editorial tradicional e só possível pela dedicação do músico e pela teimosia e perseverança de David Ferreira e das suas Investidas Editoriais – assim se chama a editora que colocou no mercado este belo disco.
REGISTO – Quis o destino que na altura em que se assinalava o 25º aniversário do jornal «Blitz», que fundei e dirigi nos primeiros anos, morresse o António Sérgio, que desde o princípio apoiou a ideia e que ao longo do tempo sempre colaborou com o jornal. Eu, como gerações de ouvintes de rádio, seguia as suas indicações, as suas descobertas. O António Sérgio amava a música e era um mestre a divulgá-la, fazendo-a chegar a mais gente. E fazia rádio com a paixão de quem gosta de comunicar – uma rádio como raramente, infelizmente, se faz hoje em dia.
BACK TO BASICS – Quando se faz a chamada no Senado, os Senadores às vezes não sabem se devem responder «Presente!» ou «Inocente!» - Roosevelt.
novembro 04, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Outubro)
GOVERNO – Justiça, Educação, Saúde, Tecnologia e Criatividade são os grandes desafios de Portugal para vencer no futuro próximo. São estas as áreas de governação onde a ousadia, a reforma e o investimento fazem falta. É por aqui que pode passar a mudança. Se nada for mudado, e se o paradigma continuar focado onde tem estado, o país não será mais competitivo, não será mais justo e deixaremos às gerações seguintes uma herança pior do que aquela que recebemos. Esta é a responsabilidade de quem aceita governar.
OBRAS – Mal o PS ganhou, começou o regabofe em torno da questão do TGV. Afinal a preocupação dominante nestes dias que correm não é a ligação à Europa, a ligação a Madrid. É fazer uma série de linhas, de curta duração, é reivindicar uma série de paragens que tornariam o TGV num comboio-correio dos tempos modernos com paragem em todas as estações. Na questão do TGV há dois interesses, que são antagónicos: os do país e do nosso desenvolvimento; e os das empresas construtoras que fomentam os lobbies locais e que querem multiplicar as linhas. Alguém tem de explicar que há outras possibilidades de requalificar o transporte ferroviário rápido sem passar pelos investimentos gigantes do modelo TGV – aqui está uma coisa que será a prova de fogo do novo Ministro das Obras Públicas, o cabeça de lista do abaixo assinado a favor dos grandes investimentos públicos. Como vai ele decidir? Pelo futuro do País? Ou pelas construtoras e seus lobbies?
SERVIÇO PÚBLICO – Nos últimos quatro anos assistiu-se a um progressivo apagar das obrigações de serviço público em matéria audiovisual. A descaracterização progressiva levou a cenários verdadeiramente surpreendentes – quer a nível da informação, quer da programação. Os telejornais da RTP 2 (já nem falo da RTP 1…) estão frequentemente entregues ao sensacionalismo, entre desastres, desaparecimentos e acidentes e não se distinguem de outros telejornais: deixou de haver a preocupação com o enquadramento internacional, com notícias da área da ciência e tecnologia, da economia, ou com o acompanhamento da actualidade cultural e criativa. Na área da produção de documentários os recuos são enormes e até no relacionamento com a DOC Lisboa se chegou a um ponto de conflito insustentável. Discutir o que é serviço público é o primeiro passo para depois ver se o Estado cumpre os seus deveres ou se está abusivamente em concorrência com os privados. Bons exemplos de serviço público em estações privadas são as emissões de «O Futuro Hoje» de Lourenço Medeiros na SIC Notícias, e, no caso da rádio, na TSF «O Mundo Digital» de Rui Tukayana ou o «Made In Portugal» de Rui Miguel Silva são também emissões exemplares. Por falar em TSF não deixa de ser curioso que na quinta-feira da semana passada esta estação privada foi a única que interrompeu a transmissão do jogo do Benfica-Everton para fazer um especial sobre o novo Governo, cuja composição havia sido acabada de anunciar. A isto chama-se fazer serviço público.
LER – O número de Novembro da revista «Monocle» é uma das suas melhores edições de sempre. Dois destaques – um editorial e outro comercial. Comecemos pelo editorial, um suplemento de 36 páginas que constitui um guia para a criação de pequenas empresas nos dias que correm – é simplesmente brilhante, cheio de boas ideias e sugestões óbvias mas muitas vezes esquecidas; o segundo, comercial, é um destacável de 12 páginas, colocado ao lado de uma página de publicidade na revista, e que é um guia sobre as indústrias criativas no Reino Unido. A página de publicidade onde o guia está colocado tem o título «Britain Is A Creative Partner To The World» e toda a operação é financiada pelo equivalente ao AICEP português, o UK Trade & Investment – aqui está um exemplo a estudar. Para além destes destacáveis, há um excelente artigo sobre o que a cidade sueca de Gotemburgo fez para atrair novas pequenas empresas e uma boa análise do que pode ser o futuro da indústria da música. No entretanto experimentem visitar o site www.monocle.com .
OUVIR – Discos de jazz gravados ao vivo têm um encanto especial – reproduzem a essência de um género musical baseado na improvisação e no diálogo com o público. «Yesterdays» reproduz um concerto de Keith Jarrett com Gary Peacock e Jack DeJohnette, realizado a 30 de Abril de 2001 em Tóquio, no Metropolitan Festival Hall. Já se sabe que o ano de 2001 foi particularmente interessante para este trio – na realidade é o quarto disco a sair dos concertos desse ano. A gravação percorre composições históricas da fase be-bop como «Strollin» de Horace Silver, «Shaw’nuff» de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, «Scrapple From The Apple» de Charlie Parker, e temas clássicos como «You Took Advantage Of Me», «Smoke Gets In Your Eyes» e «Stella By Starlight», entre outros. A gravação foi editada este ano pela ECM quer em CD quer num duplo LP de vinil, o que não acontecia na ECM desde há 15 anos. Um dos melhores trios do jazz contemporâneo numa demonstração de grande sensibilidade e refinada inteligência musical.
VER – Este ano o titular do maior prémio de fotografia, o Pictet, é o fotógrafo israelita Nadav Kander, que vive em Inglaterra. O trabalho vencedor, «Yangtze, The Long River», pode ser visto no site do fotógrafo, www.nadavkander.com – muito bem construído, com uma recolha das mais significativas reportagens que fez ao longo da sua carreira. Vale a pena verem, percorrerem as fotos da reportagem vencedora e descobrirem o universo das imagens de Kander.
PROVAR – Sala simpática, serviço atencioso, acústica agradável (uma raridades hoje em dia nos restaurantes), boas propostas em matéria de comida japonesa, a fugir um pouco do que é mais vulgar e corriqueiro hoje em dia. O restaurante chama-se Sushi Ya e tem como especialidades as massas yakisoba (noodles salteados e misturados com diversos ingredientes) e ainda as robatas, pequenas espetadas grelhadas de vegetais carne e peixe com molho agridoce. Se tem amigos que torcem o nariz a experiências japonesas experimente ir aqui – e enquanto pode experimentar sushis e sashimis com temperos inesperados, pode também provar o outro lado, menso divulgado, da gastronomia nipónica. O Sushi Ya fica na Ajuda, ao alto da Calçada da Tapada, nº106 e tem o telefone 211913819.
BACK TO BASICS – Na realidade não escrevo humor – limito-me a observar o Governo e a relatar os factos – Will Rogers
outubro 26, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Outubro)
outubro 21, 2009
PÓS ELEIÇÕES (J Negócios 16 OUT)
outubro 11, 2009
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LISBOA - Um estudo recente mostra que, entre 1991 e 2008, Lisboa perdeu 26,3% dos seus habitantes. Deste total de 18 anos, em quase 13 a Câmara Municipal foi governada pelo PS, nomeadamente de forma ininterrupta até final de 2001. Ao longo de todo este período Lisboa perdeu uma média de 10.000 habitantes por ano, não conseguiu reter os mais novos, está envelhecida, perdeu competitividade, não foi capaz de atrair as indústrias não poluentes de alta tecnologia, as empresas de software ou de promover um programa de desenvolvimento e atracção das indústrias criativas (que em Nova Iorque significam 7% do total de postos de trabalho da cidade). Vítima de uma total ausência de estratégia, vítima de uma perspectiva conservadora de planeamento e de um caldeirão de interesses que na realidade tem tido poder e capacidade de influência, Lisboa perdeu peso e influência política, perdeu autonomia face ao poder central e descaracterizou-se. Na realidade, nesta campanha, assistimos a um facto insólito: a principal linha programática de António Costa é deixar o Governo mandar em Lisboa - na zona ribeirinha, no aeroporto, nas acessibilidades, nos transportes públicos. A perder equipamentos e a ficar com sectores antiquados, quase a viver só da máquina do Estado, a queda de receitas é inevitável e a perca de competitividade. É preciso ter ambição para inverter o ciclo de decadência e fazer Lisboa reencontrar-se com o futuro.
VISITAR – Amália domina o panorama das inaugurações. Em primeiro lugar destaque para «Amália – Coração Independente», a exposição que se divide entre o Museu da Electricidade-Fundação EDP e o Museu Berardo, no CCB. Na EDP está a pouco conhecida e extraordinária colecção pessoal de jóias da artista e alguns dos fatos que usou em palco. E no CCB está uma enorme exposição, que cruza a história e documentação da carreira de Amália com criações contemporâneas que reinterpretam a sua obra, como acontece com Joana Vasconcelos ou, no vídeo, com o trabalho apresentado por Bruno de Almeida, por exemplo. Na parte histórica e documental, para além dos numerosos cartazes, capas de discos e revistas, destaque para as fotografias, em especial de Mestre Augusto Cabrita e do fotógrafo Silva Nogueira, que entre 1942 e 1954 mais e melhor a retratou. Destaque ainda para o excelente catálogo desta exposição, uma verdadeira peça imprescindível para quem se interessa por Fado e, naturalmente, por Amália Rodrigues. Estas duas exposições estarão patentes até 31 de Janeiro. Uma nota final para uma outra exposição, das iconográficas imagens de Amália, elaboradas por Leonel Moura (sim o senhor aqui ao lado, nesta página) a partir de fotografias da fadista e patentes na galeria António Prates em Lisboa (até 7 de Novembro). Finalmente gostaria de chamar a atenção para uma outra exposição, no Teatro de S. Luiz, «As Mãos Que Trago», dedicada ao compositor Alain Oulman, um nome decisivo da fase mais marcante e criativa da carreira de Amália (até 31 de Dezembro).
OUVIR – Paulo Furtado é um dos mais criativos e interessantes músicos portugueses contemporâneos. Depois de ter sido um dos fundadores dos Tédioboys, a sua actividade divide-se hoje entre ser o vocalista e principal compositor dos Wraygunn – uma das poucas bandas rock portuguesas a ter algum sucesso internacional e carreira regular além fronteiras nos últimos anos. Sob a designação Legendary Tigerman, Paulo Furtado dá largas à sua atracção pelos blues e tem também uma curiosa carreira independente nos Estados Unidos. Compositor criativo, com um raro sentido rítmico, é um instrumentista polifacetado, tocando guitarra, bateria e muitas vezes harmónica. O seu novo álbum, o quinto da carreira, tem a particulariedade de incluir nove cantoras convidadas que dividem com Paulo Furtado a interpretação das quinze canções do CD «Femina». Sem cair em exageros este é dos discos que mais gôzo me deu ouvir neste ano e é provavelmente um dos melhores discos portugueses da década. Destaco temas como «Life Ain’t Enough For You» com Ásia Arento, «She’s a Hellcat», com Peaches; «No Way To Leave On A Sunday Night» com Becky Lee, «Light Me Up Twice» com Cláudia Efe e, acima de todos os outros, «Lonesome Town», um clássico de Baker Knight, numa interpretação mágica de Rita Red Shoes. A edição inclui ainda um DVD – já que Paulo Furtado é tembém relizador e mostra curtas metragens feitas propositadamente para esta edição. CD e DVD «Femina», Legendary Tigerman, Edição EMI.
LER – A nova edição da revista «Monocle» (nº27, de Outubro) tem um interessante artigo sobre os serviços militares em diversos países europeus, mas o prato forte é mesmo um especial Tóquio que faz ter vontade de descobrir aquela cidade. Outros pontos de interesse: um guia para o norte de Espanha, à descoberta da cidade australiana de Darwin e, sobretudo, um curioso artigo sobre a vitalidade da produção de documentários na Noruega (uma coisa exemplar que a RTP tinha obrigação de estudar e seguir…). Em www.monocle.com uma novidade: uma coluna diária sobre os mais variados temas, quase sempre interessante.
PETISCAR – Em pleno Saldanha, no centro de Lisboa, com uma magnífica vista sobre a praça, existe um bar-restaurante que merece alguma atenção. Ao almoço está cheio de gente dos escritórios vizinhos (ali estão algumas grandes empresas de consultoria), o bar ao fim da tarde é animado e o restaurante à noite é sossegado mas não mortiço. Da ementa consta um leque apreciável de saladas, diversas massas, alguns pratos vegetarianos, umas inesperadas gambas à Brás, várias possibilidades de Bacalhau, peixes grelhados triviais, uma boa lista de bifes (boa carne, bem cozinhada) além de várias propostas de porco preto. O serviço é atencioso, as mesas são muito confortáveis, os preços razoáveis. Uma boa alternativa nesta zona da cidade. Entrada pela Av. Casal Ribeiro 63, Tel. 213528242
BACK TO BASICS – O nosso último dever com a História é voltar a escrevê-la (Óscar Wilde).
outubro 07, 2009
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outubro 02, 2009
(blicado no Jornal de Negócios de 25 de Setembro)
FUTURO – A próxima semana promete ser muito agitada: que maioria vai sair das eleições? Como é que o método de Hondt pode influenciar o resultado em número de deputados – quer nos pequenos partidos, quer em alguns círculos eleitorais? Qual a atitude que o Presidente da República tomará na interpretação dos resultados, depois da forma como agiu antes das eleições?
RECORDAR – As eleições servem para fazer o julgamento de quem está no Governo. Por isso vale a pena recordar que nos últimos quatro anos se assistiu a um aumento da carga fiscal; vale a pena recordar como as reformas dos trabalhadores por conta de outrem ficaram penalizadas; vale a pena recordar o clima de tensão na educação; vale a pena recordar as reformas não executadas na saúde; vale a pena recordar os abusos de entidades tão diversas como a ASAE e a ERC; vale a pena recordar o falhanço das entidades reguladoras em sectores como a energia e a banca; vale a pena recordar que a política cultural foi inexistente; e vale a pena recordar que no ano passado Portugal foi o país que mais fundos comunitários perdeu por atrasos na sua utilização, a maioria dos quais na agricultura, um sector arruinado nestes quatro anos.
ESCUTAS – Uma coisa é certa: na opinião pública ficou a ideia de que a Presidência da República armou uma tempestade, impossível de criar sem o conhecimento do próprio Presidente da República. Por isso, o seu silêncio, por vezes ruidoso, não ajuda nada a perceber o que se passa. Como se sabe, Cavaco Silva gosta de criar tabus e nem sempre se sai bem deles. Sobre a essência dos factos nada desmentiu até hoje e, antes pelo contrário, nas curtas palavras que sobre o assunto proferiu, deu a entender que tencionaria investigar o sucedido. A forma como tudo se passou vai ter custos políticos, graves. E este será certamente um dos casos de que se vai voltar a falar quando houver nova eleição presidencial, daqui a dois anos. Claro que por esclarecer fica outra coisa: como é que alguém teve acesso a correspondência interna de um jornal e a passou primeiro a um semanário e, depois, a outro diário? Se isto não é uma história de espionagem, o que é?
FOTO – O momento fotográfico da semana foi a imagem que vários jornais utilizaram para ilustrar uma visita de José Sócrates aos emigrantes portugueses em Paris: Manuel Maria Carrilho e Ferro Rodrigues a acompanharem Sócrates ao TGV. O ridículo por vezes é fatal.
TRÂNSITO – Há 15 dias voltei a andar de scooter pelas ruas de Lisboa, coisa que já não fazia há uns anos. No caos dos engarrafamentos constantes é a única solução para circular de um lado para o outro na cidade sem perder muito tempo. Mas constato que a mesma Câmara de António Costa e Ricardo Sá Fernandes, que faz à pressa ciclovias de estranho traçado como a de Telheiras, não tem cuidado com a segurança de quem se desloca em duas rodas: não usa tinta anti-derrapante nas marcações; nada faz para remover os carris de eléctricos que já não estão em utilização; nada faz para nivelar as tampas de esgotos – muitas autênticas armadilhas; permite que o pavimento de grande parte das ruas seja uma montanha russa de remendos e não obriga os autores dos constantes buracos que se abrem a deixar o piso em boas condições. Para garantir a segurança de quem usa veículos de duas rodas – com ou sem motor – é que não se vê nada feito em Lisboa. O resto é obra eleiçoeira.
VISITAR – A Casa das Histórias Paula Rego, inaugurada a semana passada em Cascais, é um exemplo de bom equipamento cultural, construído de raiz. A arquitectura, no exterior, é uma boa surpresa e, no interior, é de uma eficácia enorme para o objectivo de mostrar artes plásticas – no caso quadros e desenhos. Depois, há muito mais pintura do que aquela que inicialmente se sabia ir existir. Paula Rego entusiasmou-se com o projecto e para além de esboços, estudos e desenhos, trouxe peças importantes da sua obra. Adicionalmente, a área de exposições temporárias da Casa, tem um conjunto de obras da artista cedidas pela Galeria Marlborough, verdadeiramente a não perder. Por último a loja da Casa das Histórias é do melhor que nesta matéria se tem feito em Portugal, graças a uma série de peças de merchandising, desde pens para computador até figuras de louça da Fábrica Bordallo, tudo inspirado na obra de Paula Rego.
FOLHEAR – Muito boa a edição comemorativa do 4º aniversário da revista «N*Style». Sob o tema das tendências de moda para este Outono, a revista é um exemplo de boa fotografia, bom alinhamento editorial e boa paginação. Destaque ainda para as entrevistas com Eduarda Abondanza sobre a Moda Lisboa e com José António Tenente.
PETISCAR – Confesso que iscas à portuguesa é um dos meus petiscos preferidos. Esta semana revisitei a Cave Real e provei umas magníficas iscas, temperadas no ponto certo, cortadas bem finas, como deve ser. A Cave Real é um restaurante onde a cozinha tradicional portuguesa domina, baseada em ingredientes de qualidade e numa confecção sólida e conservadora. Aqui não há grandes rasgos de imaginação, mas o serviço é acolhedor e eficaz, o ambiente é simpático (apesar da presença ocasional do Ministro das Finanças…) e as mesas são confortáveis. Cave Real, Av. 5 de Outubro 13-15 (junto à Maternidade Alfredo da Costa), tel. 213 544 065.
OUVIR – Pete Yorn é um compositor e guitarrista Americano, autor de grandes canções, cuja carreira começou em 2001. Em 2006 pegou em nove canções da sua autoria e fechou-se em estúdio com a actriz Scarlett Johansson, que vai fazendo incursões na música (por exemplo gravou uma série de versões suas de canções de Tom Waits e de Jeff Buckley) . O resultado desta parceria entre Pete Yorn e Scarlett Johansson é o álbum «Break Up», agora editado. São nove canções pop, deliciosas, num disco despretencioso e envolvente, que vai fazendo a narrativa de alguns episódios de uma relação imaginada.. Destaques para «Relator», «Search Your Heart», «Shampoo» e «Someday». Ao princípio o contraste entre a voz de Yorn e a de Johansson parece estranho, mas depois esse contraste torna-se num dos motivos de atracção deste disco.
BACK TO BASICS – A moralidade é sempre o único refúgio das pessoas que não têm o menor sentido ético – Óscar Wilde
setembro 23, 2009
(Publicado no Jornal de Negócios do dia 11 de Setembro)