novembro 25, 2009

A minha aventura na Assembleia Municipal

Começar uma reunião com quase 45 minutos de atraso, gastar cerca de duas horas e meia no período de antes da ordem do dia, e começar já tarde e a más horas a discutir temas concretos da gestão autárquica - como a carga fiscal a aplicar aos munícipes, este o resumo do meu primeiro dia na Assembleia Municipal de Lisboa.


Comecemos pela sala - cadeiras confortáveis para trabalhar, painéis de informação de cada lado do palco onde se senta a Presidência da Assembleia, um deles apagado, o outro de difícil leitura - inúteis portanto. A presidência da Assembleia está em cima do palco, os vereadores da Câmara estão mais abaixo com uma cadeira de espaldar mais alto a assinalar o lugar do Presidente da Câmara. Por todo o lado os telemóveis não Têm descanso.


 


Poucos computadores à vista -  não se detecta nenhuma rede wireless, os deputados que quiserem aceder à internet trazem a sua própria plaquinha com o seu portátil. Pelo meio dos trabalhos diligentes funcionários distribuem papéis e mais papéis. A modernidade aqui é uma palavra relativa.


 


O período antes da ordem do dia é muito curioso: moções de pesar, moções de celebração, moções de evocação, moções de crítica à Câmara Municipal. A discussão é superficial e aliás inútil: quando cada documento é votado a mesa limita-se a ver como vota cada partido e anuncia o resultado pela soma aritmética do máximo de lugares presentes de cada formação, sem se preocupar em contar os votos efectivos nem os deputados presentes. Como as posições estão antes definidas em cada bancada, mais valia que fosse a conferência de lideres a decidir logo o destino desta parte dos trabalhos - poupava-se tempo e ganhava-se produtividade, um conceito pouco popular naquelas paragens.


 


Em boa verdade, os deputados, individualmente, não têm nenhuma margem de manobra e fazem apenas figura de corpo presente  - as divergências com as lideranças das respectivas bancadas são reportadas e reprovadas e as posições individuais são rigorosamente controladas. Na verdade o voto dos deputados de pouco serve, apenas se tem em conta a decisão da direcção de cada partido ou formação na Assembleia. Aos deputados que têm problemas em votar a favor de uma proposta apresentada pelo seu grupo partidário é sugerido que na votação abandonem a sala para não se correr o desagradável facto de existir um voto não conformista. Não sei porquê, enquanto assistia ao espectáculo, só me recordava de um livro de Nabokov intitulado «Convite Para Uma Decapitação», no qual se acompanham os últimos momentos de um condenado por «torpeza gnóstica», ou seja, por não se conformar com o pensamento estabelecido como conveniente pela maioria.


 


Neste admirável mundo novo, pelo menos para mim, percebe-se bem o bas-fond da política: terça feira, por exemplo, percebeu-se que a cisão dos eleitos pelo Movimento Cidadãos Por Lisboa, de Helena Roseta, já estava anteriormente combinada com o PS, por forma a organizarem-se de forma autónoma, como antes das eleições - apenas esconderam o facto para iludirem os eleitores com uma ideia de unidade, falsa como agora se verifica. Aquilo a que assisti foi à revelação de um acordo espúrio patrocinado por Manuel Alegre, que levou pela mão Helena Roseta ao altar de António Costa para uma farsa de casamento político com divórcio a prazo contratado. Parece que isto é fazer política. Eu, na minha inocência, acho tudo isto extraordinário.


 


 

(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Novembro)

SINAL – Da maneira como as coisas estão, qualquer dia as grandes marcas de luxo começam a fabricar modelos especiais de pulseiras electrónicas de vigilância, especialmente para o mercado português.  

 


 


PÉSSIMO – Os novos carrinhos assadores de castanhas de aço inox, assépticos, todos iguais, monocordicamente horríveis, sem uma ponta de pessoalização são a imagem de marca da ASAE neste Portugal moderno: tudo igual, tudo feito, tudo feito sem respeito pela tradição, tudo feito em nome de normas e sem raciocínio. O senhor director da ASAE, já se sabe, gosta de um mundo hiper-controlado mas o que vai deixar de legado é pavoroso. Devia ser sumariamente despejado no caixote de lixo da história, ele sim muito embrulhadinho numa embalagem asséptica para não contaminar o país. 

 


 


POLÍTICA – Todos os que se aproveitam da política para invocarem influências, facilitarem negócios ou encherem os bolsos estão a dar machadadas no regime. Já pensaram porque é que as listas de deputados geram sempre tanta confusão nos maiores partidos? – é que o Parlamento e o lugar de deputado continuam a ser vistos na paróquia como um cartão de visita que facilita apresentações e pode abrir portas. Nada mudou em relação às descrições que os escritores de final do século XIX faziam do provincianismo de grande parte dos políticos portugueses, apenas se agravou. Por exemplo, a nebulosa de interesses no caso da migração de figuras do universo do PS, colocadas na Caixa Geral de Depósitos, para tomarem de assalto o BCP, é uma história que ainda há-de fazer correr muita tinta.  

 


 


BETÃO – Há uns anos o PS criticava com grande arraial a chamada política do betão. Ao longo dos tempos foi mudando a sua posição e agora surge como o grande defensor das grandes obras, mesmo que seja em desrespeito por orientações do Tribunal de Contas – como infelizmente tem sido o caso, repetidamente mostrado nos últimos tempos, nas Estradas de Portugal. Claro que quando se olha para as coisas com maior atenção percebe-se o porquê: em cerimónias de inaugurações variadas a Estradas de Portugal gastou um milhão de euros no final do consulado Mário Lino, ou seja investiu um milhão de euros na propaganda do Governo. Quando se governa assim já se viu que tudo é possível – e que é legítimo pensar o pior. 

 


 


DESGOVERNO – Desta vez o estado de graça durou pouco: o Ministro das Finanças foi considerado um dos piores da Europa, o desemprego atingiu números assustadores, o processo «Face Oculta» parece um cocktail molotov que incendeia tudo, há Ministros desaparecidos de cena, outros que aparecem demais e criam chispas até dentro do PS – como Vieira da Silva. Este mês e pouco é mais de desgoverno do que de Governo – e claramente é uma sucessão de trapalhadas. 

 


 


LER – O número de Dezembro da edição britânica da revista «Wired» vem subtitulado «The Ideas Issue». Cada vez mais autónoma em relação à edição original norte-americana, a «Wired» UK aborda temas que vão desde a legião de programadores que desenvolve aplicações para o twitter, até à reinvenção da Polaroid por holandeses, passando por um brilhante artigo sobre a cimeira da Dinamarca e os cépticos das mudanças climáticas e um belo dossier com 25 ideias para 2010, da ciência à política, passando pela inovação, criatividade e tecnologia.


 

 


 


DESCOBRIR – Entre o jazz e a fotografia se vai desenvolvendo a carreira de Rodrigo Amado. Numa só semana duas novidades: na Galeria Módulo, em Lisboa, inaugura dia 28 a sua terceira exposição de fotografia intitulada East Coasting (o nome de um disco de Charles Mingus), que mostra imagens feitas durante uma digressão enquanto música de jazz ; e ao mesmo tempo é editado «Motion Trio», o seu oitavo disco, que conta com a participação de Miguel Mira e de Gabriel Ferrandini ao lado de Rodrigo Amado. Motion Trio é o nome da formação e do próprio álbum e é uma demonstração da capacidade de improvisação dos músicos, ao mesmo tempo que criam momentos intimistas e emotivos, contribuindo para uma tensão permanente que é um dos grandes atractivos deste registo. 

 


 


FEIRA – Até à próxima segunda-feira, dia 23, decorre a 9ª edição da ArteLisboa que junta na FIL 67 galerias (33 portuguesas, 31 espanholas, uma coreana, uma cubana e uma húngara) e obras de centenas de artistas. A verdade é que este é um bom momento para comprar Arte – a crise atirou os preços para baixo. O problema é que este ano o número de grandes galerias portuguesas que optou pela ausência aumentou de forma significativa, o que há-de ter que levar a repensar o modelo da Feira e, sobretudo, a necessidade de ela definir de forma mais clara uma identidade e uma presença transversal na vida cultural da cidade – para além do objectivo das vendas. 

 


 


VER – Os magníficos desenhos de Cecília Costa na Galeria Baginski numa série intitulada «Carvão», que faz adivinhar uma nova direcção na obra da artista. Na mesma galeria podem também ser vistas oito esculturas explorando formas orgânicas de Bruno Cidra, nomeado para o prémio EDP 2008. A galeria fica na Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato. 

 


 


SUGESTÃO – Um lanche a meio da tarde no De Castro, o pequeno restaurante onde em Lisboa se pode provar a arte culinária de Miguel Castro e Silva. O local serve durante toda a tarde e, se deixar passar a confusão da hora de almoço, só tem a ganhar. Agora também aberto à noite, é no entanto prudente fazer reserva. Brevemente terá uma ampliação, bem necessária face à exiguidade do espaço. Depois de uma fase inicial atribulada e algo confusa, agora o serviço tem vindo a melhorar. Os petiscos, esses, continuam bons, com uma confecção muito cuidada e óptima escolha de produtos tradicionais. Telef. 217979214, Avenida Elias Garcia 180 B (do lado da Gulbenkian, portanto). 

 


 


 


 


 


BACK TO BASICS – Convém ter uma má opinião acerca de todo o mundo – é mais seguro (Oscar Wilde) 

 

 

novembro 18, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Novembro)

 


NEGOCIATAS – Nos últimos anos são muitos os casos de negociatas feitas à sombra da política – quase se tornou num hábito adquirido. A forma como se encara a questão das finanças na política é a grande culpada deste assunto e, na minha opinião, tem três planos de análise, todos eles em situação crítica: o financiamento partidário (cuja nova Lei é melhor que as anteriores mas ainda muito insuficiente); as limitações ao custo das campanhas; e os vencimentos dos titulares de cargos políticos. A questão dos limites aos custos das campanhas é das situações que mais proporciona o actual estado de coisas. Na verdade, ao estabelecer limites objectivamente baixos para os tempos que correm, fomenta-se o financiamento encapotado – já que os dinheiros não declarados se destinam em teoria  a pagar as despesas que ultrapassam os limites, situação que toda a gente sabe que existe na maioria dos partidos. O dinheiro ilegal que entra nos partidos serve para isto e a sua existência desculpa muita coisa. Nas autárquicas a situação ainda é pior – quer em relação aos partidos, quer em relação aos independentes (que são penalizados e nem o IVA podem deduzir – um escândalo!). A hipócrita forma como se proíbe a aquisição de publicidade em campanhas políticas fomenta o aparecimento de empresas, muitas vezes ligadas a pessoas dos aparelhos dos partidos, que exploram materiais de publicidade exterior não regulamentada, que desenvolvem marketing digital, que produzem sites, gerem actuação nas redes sociais, produzem filmes e por aí fora, tudo numa actividade semi-encoberta para não ofender a lei. O evoluir da tecnologia e do mercado impossibilita o pensamento angélico da Lei – um mundo onde a propaganda política e partidária nunca é paga e é feita de voluntariado. Em nome da igualdade (fictícia) de oportunidades para os concorrentes a eleições, na verdade fomenta-se o financiamento ilegal e proliferam empresas informais que concorrem abusivamente no mercado da publicidade e da comunicação – em resumo, é uma fantochada. Fantochada igual é a da remuneração dos cargos políticos – quando meros assessores de gabinetes governamentais ganham mais que deputados ou quando assessores de autarquias ganham mais que vereadores, o mundo está virado ao contrário. Enquanto isto não fôr mudado, prosseguirão os escândalos e há terreno para a corrupção e o compadrio medrarem.

 

ESCUTAS – Duas perguntas: Se Sócrates, como repetidamente disse em público, nada se interessava nem sabia sobre a TVI, porque era então esse um tema de conversa entre ele e o seu amigo Vara? E outra pergunta, mais dura: até que ponto as simpatias politicas, públicas, do Presidente do Supremo, Noronha do Nascimento, pesaram na sua decisão – nomeadamente de não haver qualquer pronunciamento antes das eleições legislativas quando o material já estava na sua posse? E, claro, é polémico – vários juristas o admitem - que caso existam suspeitas de relevância criminal numa conversa em que o escutado estava a ser vigiado dentro dos limites da Lei elas não possam ser investigadas. Por acaso a Lei que fundamenta a simpática decisão do Presidente do Supremo deriva de uma proposta do próprio Governo Sócrates. O cidadão comum, que não é jurista, acha que há coisas feitas por favor, conveniência e compadrio em todo este caso. Quando a política e a justiça vivem envolvidas num manto de mentiras e cumplicidades quem fica pior é o regime – a ética republicana anda mesmo por baixo em véspera de faustosas comemorações.

 

CULTURA – Por ocasião da tomada de posse deste Governo escrevi que a nomeação de Gabriela Canavilhas podia ser um bom sinal. Mas as suas primeiras declarações à imprensa, pondo a tónica na necessidade de, na Cultura, transformar o pouco de que se dispõe em muito, fazem-me lembrar as fatais declarações do seu antecessor, José António Pinto Ribeiro, que também entrou a matar com o lema de fazer mais com menos. A questão da política cultural é dupla: desde que Sócrates é Primeiro Ministro esta área tem tido uma completa ausência de estratégia e, por outro lado, tem objectivamente cada vez menos orçamento. De nada servirão as declarações de Sócrates sobre a importância do sector se continuar na prática a subalternizá-lo e a levar os seus Ministros a defenderem que a melhor omolete é a que se faz sem ovos. No fundo a Ministra da Cultura sabe que precisa de mais meios para poder criar uma nova estratégia – não faz sentido cair nos erros dos seus antecessores.

 

OUVIR – Tenho uma devoção especial pelos Eeels – estou a falar da banda rock norte-americana e não das enguias da Murtosa em conserva, que por acaso também fazem as minhas delícias. Eu gosto dos Eeels porque fazem canções simples, parecem genuínos e tocam de uma forma absolutamente arrebatadora,. Sou fã do seu mentor, Mark Oliver Everett, conhecido como E. , desde o disco «Beautiful Freaks» de 1996. Una anos depois, se a memória me não falha na altura do álbum «Daisies Of The Galaxy», eles actuaram ao vivo no Lux, em Lisboa e eu fiquei rendido à energia que saía de toda aquela simplicidade. De modo que quando este ano vi um novo disco da banda nem hesitei - «Hombre Loco», subtitulado «12 Songs Of Desire» é mais um trabalho magnífico. Se querem ter uma ideia do assunto procurem no youtube o video the «The Look You Give That Guy», protagonizado pela modelo, actriz e escritora Padma Lakshmi (avassaladora!), que faz olhinhos ao próprio Everett. Transcendente – musical e visualmente.

 

VER – Uma das revistas de que procuro não perder nenhuma edição é a portuguesa «L+Arte», sem dúvida a melhor publicação na síntese entre arte contemporânea, apresentação de novos artistas, noticiário de artes plásticas e o mundo das antiguidades. Destaque na edição de Novembro para o portfolio de António Olaio, para o artigo sobre a retrospectiva de Amish Kapoor em Londres e para um bom artigo de antecipação sobre as próximas Feiras de Arte em Lisboa e em Vigo.

 

LER – «Blackpot» é uma novela policial, até agora inédita, de Dennis McShade, ou seja, Dinis Machado. Tem 58 páginas, foi publicada pela Assírio & Alvim e lê-se de um jacto. Percebe-se também que foi escrita de um jacto, depois de muito pensada e estruturada. Tem uma narrativa veloz e formalmente invulgar e uma acção decalcada de uma tempestade. Se eu fosse realizador de cinema pegava já nesta história e filmava-a. Está escrita para ser um filme.

 

BACK TO BASICS –Raramente a verdade é pura, e nunca é simples -

Oscar Wilde.

novembro 07, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Novembro)

PARCIALIDADE - Um ano depois de Barack Obama ter vencido a eleição presidencial vai um grande sururu na Casa Branca por causa da Fox News. Obama acusa a Fox News de ser tendenciosa. A conversa alastrou pelos media e Fareed Zakaria, o editor da Newsweek, um Obamista assumido, colocou a sua revista ao serviço da cruzada anti-Fox News. Convém aqui dizer, de passagem, que o desenvolvimento da reformulação editorial da Newsweek, que Zakaria empreendeu há uns meses, transformou a revista, num espaço muito alinhado politicamente com a Casa Branca e com os objectivos internos e externos de Obama – ou seja, o reverso da moeda que é criticada na Fox. Esta conversa sobre o alinhamento dos media não é nova – assistimos até há pouco tempo a grande sururu em torno da TVI e do Público – em ambos os casos, como agora já se percebeu, a linha editorial foi domesticada. O fenómeno acontece por todo o lado – desde Chávez a Obama, pelos vistos – quando algum canal de televisão se torna incómodo passa a ser maltratado. A questão, no entanto, é a forma como as coisas são tratadas a partir de diferentes prismas. Durante anos assistiu-se a um claro enviezamento noticioso francamente favorável, em sentido lato, à esquerda europeia ou aos democratas norte-americanos. Digamos que quase se tornou uma regra do politicamente correcto ser-se anti-Thatcher, anti-Cavaco, anti- Bush. No caso americano, que aqui estamos a analisar, o coro anti-Bush de muitos media foi assinalável – mas não me lembro de à época a Casa Branca ter decretado persona non grata vozes críticas. Num recente artigo do «New York Times» notava-se que se os democratas se irritam com a Fox, os Republicanos também se podem irritar com outro canal noticioso, a MSNBC. Na realidade o facto de existir alguma tendência nos noticiários não é nova; novo é o facto de os democratas americanos estarem a provar o fel que andaram durante anos a servir ao público em geral. E é muito curiosa a forma como reagem. 


 


CÂMARA - Esta semana tomei posse como representante eleito na Assembleia Municipal de Lisboa. Chocou-me a forma como os serviços da Assembleia, certamente mal instruídos por alguém, logo na primeira sessão, deram por adquirido que existia uma única lista candidata à Mesa da Assembleia, fruto de negociações entre PS, PSD e CDU. Em vez de esperarem por ver o que saía do plenário, quiseram dar por adquirido o resultado das negociações entre as estruturas dos maiores partidos. O resultado é que surgiu mais uma lista, do PPM e do MPT, que felizmente salvou as aparências e evitou que Simonetta Luz Afonso fosse eleita em lista única, como me pareceu ser o desejo dos negociadores. Os serviços lá fizeram à pressa novo boletim de voto, menos cuidado e completo que o anterior. Os pequenos partidos e os independentes fazem falta, e muita, para que a política não se transforme numa farsa negocial – esta a primeira lição que aprendi logo no meu primeiro dia em funções. 


 


LIXOS - A operação Face Oculta vem chamar a atenção para um aspecto muito curioso: negócios que se desenvolveram na sequência de medidas tomadas sob a capa ambiental tornaram-se rapidamente em expoentes de grupos de interesse, em pressões e corrupções. Para além das boas intenções de alguns, os negócios desenvolvidos à sombra do ambientalismo têm muito que se lhe diga, como estes dias têm mostrado O que se tem passado em Portugal lembra estranhamente a série «Sopranos», onde o principal negócio da Máfia estava precisamente na área da reciclagem de lixos. A história das negociatas ocorridas nesta área, e que cronologicamente e de facto surgiram por ocasião da Expo 98, ainda vai dar pano para mangas. A legislação então feita permitiu e fomentou a criação de negócios que hoje se revelam espúrios – e seria curioso perceber como alguns empresários foram tão rápidos a conhecer novas oportunidades de negócio que podiam ser exploradas. Há muito tempo que não acredito em coincidências… 


 


LER – Não é todos os dias que uma revista comemora 300 anos – três séculos de vida. O caso é que a britânica «Tatler» assinalou na sua edição de Novembro os seus três séculos de existência com um número magnífico de 400 páginas. Um colosso, recheado de histórias, de evocações de épocas da revista – na verdade um manual de como é possível recuperar uma publicação que esteve quase a encerrar portas em finais da década de 70 e que depois fez um percurso notável – começado com Tina Brown entre 1979 e 1983 e então nunca mais interrompido. 1709 foi o primeiro ano da Tatler e um dos acontecimentos desse ano, que esta edição destaca, foi o primeiro voo em balão de ar quente, realizado em Lisboa a 8 de Agosto, pelo padre Bartolomeu de Gusmão que percorreu 400 metros pelo ar para deleite da corte – a nota é acompanhado por uma produção de moda bem actual – é isto que torna uma revista algo de diferente e apetecível e comercialmente muito eficaz. 


 


OUVIR – No ano passado António Pinho Vargas editou a primeira série de «Solo», com composições suas, registadas em sessões de gravação no CCB. Este ano o resto das gravações não editadas e mais umas quantas novas surgem em «Solo II», que consegue ser mais interessante e estimulante que o disco inaugural da série. A maioria das composições continua a ser de António Pinho Vargas, mas há duas versões notáveis «Que Amor Não Me Engana» de José Afonso e «The Times They Are A Changing» de Bob Dylan. Eu, que gosto de discos de piano solo, tenho ficado rendido a este «Solo II», feito à revelia de toda a lógica editorial tradicional e só possível pela dedicação do músico e pela teimosia e perseverança de David Ferreira e das suas Investidas Editoriais – assim se chama a editora que colocou no mercado este belo disco. 


 


REGISTO – Quis o destino que na altura em que se assinalava o 25º aniversário do jornal «Blitz», que fundei e dirigi nos primeiros anos, morresse o António Sérgio, que desde o princípio apoiou a ideia e que ao longo do tempo sempre colaborou com o jornal. Eu, como gerações de ouvintes de rádio, seguia as suas indicações, as suas descobertas. O António Sérgio amava a música e era um mestre a divulgá-la, fazendo-a chegar a mais gente. E fazia rádio com a paixão de quem gosta de comunicar – uma rádio como raramente, infelizmente, se faz hoje em dia.  


 


BACK TO BASICS – Quando se faz a chamada no Senado, os Senadores às vezes não sabem se devem responder «Presente!» ou «Inocente!» - Roosevelt.

novembro 04, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Outubro)

GOVERNO – Justiça, Educação, Saúde, Tecnologia e Criatividade são os grandes desafios de Portugal para vencer no futuro próximo. São estas as áreas de governação onde a ousadia, a reforma e o investimento fazem falta. É por aqui que pode passar a mudança. Se nada for mudado, e se o paradigma continuar focado onde tem estado, o país não será mais competitivo, não será mais justo e deixaremos às gerações seguintes uma herança pior do que aquela que recebemos. Esta é a responsabilidade de quem aceita governar. 

 


OBRAS – Mal o PS ganhou, começou o regabofe em torno da questão do TGV. Afinal a preocupação dominante nestes dias que correm não é a ligação à Europa, a ligação a Madrid. É fazer uma série de linhas, de curta duração, é reivindicar uma série de paragens que tornariam o TGV num comboio-correio dos tempos modernos com paragem em todas as estações. Na questão do TGV há dois interesses, que são antagónicos: os do país e do nosso desenvolvimento; e os das empresas construtoras que fomentam os lobbies locais e que querem multiplicar as linhas. Alguém tem de explicar que há outras possibilidades de requalificar o transporte ferroviário rápido sem passar pelos investimentos gigantes do modelo TGV – aqui está uma coisa que será a prova de fogo do novo Ministro das Obras Públicas, o cabeça de lista do abaixo assinado a favor dos grandes investimentos públicos. Como vai ele decidir? Pelo futuro do País? Ou pelas construtoras e seus lobbies? 

 


 


SERVIÇO PÚBLICO – Nos últimos quatro anos assistiu-se a um progressivo apagar das obrigações de serviço público em matéria audiovisual. A descaracterização progressiva levou a cenários verdadeiramente surpreendentes – quer a nível da informação, quer da programação. Os telejornais da RTP 2 (já nem falo da RTP 1…) estão frequentemente entregues ao sensacionalismo, entre desastres, desaparecimentos e acidentes e não se distinguem de outros telejornais: deixou de haver a preocupação com o enquadramento internacional, com notícias da área da ciência e tecnologia, da economia, ou com o acompanhamento da actualidade cultural e criativa. Na área da produção de documentários os recuos são enormes e até no relacionamento com a DOC Lisboa se chegou a um ponto de conflito insustentável. Discutir o que é serviço público é o primeiro passo para depois ver se o Estado cumpre os seus deveres ou se está abusivamente em concorrência com os privados. Bons exemplos de serviço público em estações privadas são as emissões de «O Futuro Hoje» de Lourenço Medeiros na SIC Notícias, e, no caso da rádio, na TSF «O Mundo Digital» de Rui Tukayana ou o «Made In Portugal» de Rui Miguel Silva são também emissões exemplares. Por falar em TSF não deixa de ser curioso que na quinta-feira da semana passada esta estação privada foi a única que interrompeu a transmissão do jogo do Benfica-Everton para fazer um especial sobre o novo Governo, cuja composição havia sido acabada de anunciar. A isto chama-se fazer serviço público.  

 


 


LER – O número de Novembro da revista «Monocle» é uma das suas melhores edições de sempre. Dois destaques – um editorial e outro comercial. Comecemos pelo editorial, um suplemento de 36 páginas que constitui um guia para a criação de pequenas empresas nos dias que correm – é simplesmente brilhante, cheio de boas ideias e sugestões óbvias mas muitas vezes esquecidas; o segundo, comercial, é um destacável de 12 páginas, colocado ao lado de uma página de publicidade na revista, e que é um guia sobre as indústrias criativas no Reino Unido. A página de publicidade onde o guia está colocado tem o título «Britain Is A Creative Partner To The World» e toda a operação é financiada pelo equivalente ao AICEP português, o UK Trade & Investment – aqui está um exemplo a estudar. Para além destes destacáveis, há um excelente artigo sobre o que a cidade sueca de Gotemburgo fez para atrair novas pequenas empresas e uma boa análise do que pode ser o futuro da indústria da música. No entretanto experimentem visitar o site www.monocle.com . 


 


OUVIR – Discos de jazz gravados ao vivo têm um encanto especial – reproduzem a essência de um género musical baseado na improvisação e no diálogo com o público. «Yesterdays» reproduz um concerto de Keith Jarrett com Gary Peacock e Jack DeJohnette, realizado a 30 de Abril de 2001 em Tóquio, no Metropolitan Festival Hall. Já se sabe que o ano de 2001 foi particularmente interessante para este trio – na realidade é o quarto disco a sair dos concertos desse ano. A gravação percorre composições históricas da fase be-bop como «Strollin» de Horace Silver, «Shaw’nuff» de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, «Scrapple From The Apple» de Charlie Parker, e temas clássicos como «You Took Advantage Of Me», «Smoke Gets In Your Eyes» e «Stella By Starlight», entre outros. A gravação foi editada este ano pela ECM quer em CD quer num duplo LP de vinil, o que não acontecia na ECM desde há 15 anos. Um dos melhores trios do jazz contemporâneo numa demonstração de grande sensibilidade e refinada inteligência musical. 

 


 


VER – Este ano o titular do maior prémio de fotografia, o Pictet, é o fotógrafo israelita Nadav Kander, que vive em Inglaterra. O trabalho vencedor, «Yangtze, The Long River», pode ser visto no site do fotógrafo, www.nadavkander.com – muito bem construído, com uma recolha das mais significativas reportagens que fez ao longo da sua carreira. Vale a pena verem, percorrerem as fotos da reportagem vencedora e descobrirem o universo das imagens de Kander.


 

 


 


PROVAR – Sala simpática, serviço atencioso, acústica agradável (uma raridades hoje em dia nos restaurantes), boas propostas em matéria de comida japonesa, a fugir um pouco do que é mais vulgar e corriqueiro hoje em dia. O restaurante chama-se Sushi Ya e tem como especialidades as massas yakisoba (noodles salteados e misturados com diversos ingredientes) e ainda as robatas, pequenas espetadas grelhadas de vegetais carne e peixe com molho agridoce. Se tem amigos que torcem o nariz a experiências japonesas experimente ir aqui – e enquanto pode experimentar sushis e sashimis com temperos inesperados, pode também provar o outro lado, menso divulgado, da gastronomia nipónica. O Sushi Ya fica na Ajuda, ao alto da Calçada da Tapada, nº106 e tem o telefone 211913819.  


 


BACK TO BASICS – Na realidade não escrevo humor – limito-me a observar o Governo e a relatar os factos – Will Rogers 

 

outubro 26, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Outubro)

 


O GOVERNO –  Um amigo meu, particularmente cínico, diz que não é muito relevante que partido está no Governo – segundo ele a maior parte das leis está feita, as novas leis importantes são feitas em Bruxelas e ao Governo resta distribuir lugares nas administrações das empresas públicas e naquelas onde há golden share.  Eu acho que este meu amigo tem humor, mas volta e meia respondo-lhe que não é indiferente a forma como cada um estabelece prioridades (nomeadamente no investimento público), como agiliza reformas (nomeadamente na justiça) e como se propõe diminuir o endividamento externo do país. Vou-lhe dizendo, perante um sorriso irónico, que também me preocupa que se mantenha a política de favorecimento de amigos, aliados ou espúrios cúmplices e que aqueles que não são da cor do Governo, ou simplesmente mantenham alguma independência, sejam preteridos e prejudicados. Mas olhando bem as coisas, na verdade, quando se reduz a governação à gestão de interesses particulares, o meu amigo está certíssimo. Se calhar ele tem mais razão do que parece à primeira vista.

 

A GOVERNAÇÃO – Fazer compromissos, encontrar pontos de contacto entre propostas diferentes, descobrir a forma de alcançar objectivos comuns é a essência do exercício do poder. Uma maioria absoluta gera um poder absolutista – tivemos isso durante uns anos. Uma maioria relativa gera a necessidade de entendimentos. Eu preferia que existissem acordos formais claros entre partidos diferentes, a compromissos pontuais onde já se sabe que uma parte da verdade fica escondida. Em grande parte dos países europeus não há maiorias absolutas saídas das eleições – mas os líderes partidários e os sistemas são suficientemente maduros para saberem encontrar pontos comuns que permitem um programa conjunto. Na política portuguesa confunde-se demasiadas vezes as divergências com rivalidades e inimizades – é um sinal da imaturidade dos nossos políticos, dos nossos partidos e do nosso sistema. O vencedor das eleições faria bem em estimular um acordo em vez de se posicionar à partida como atirador solitário.

 

LER – O número de Novembro da edição britânica da Wired (cada vez melhor, já agora), traz um interessantíssimo artigo, muito útil neste clima pós autárquicas. O tema é como desenvolver o potencial digital na gestão e na vida das cidades, em questões como o transporte, a informação, a biotecnologia ou a arquitectura. E, já agora, a revista anuncia um jogo on line (a sério, não é brincadeira), que se chama Cities XL (www.citiesxl.com)  onde os jogadores são chamados a tomar decisões sobre a gestão das cidades – muitos presidentes de Câmara haviam de ganhar com a experiência.

 

OUVIR – Cecília Bartoli tem tido nos últimos anos uma aproximação muito interessante aos seus trabalhos discográficos – chamemos-lhe projectos especiais, pensados e estruturados em torno de um tema, de uma história, de um personagem. Neste caso o tema escolhido foi o da música composta para os castratos – uma tradição nascida em Itália, no século XVIII, e que levou milhares de rapazes a serem privados da sua sexualidade para que a sua voz pudesse ter um timbre e uma modulação de outra forma impossíveis de atingir. Nas óperas da época, estes jovens cantores eram apreciadíssimos e o compositor napolitano Nicolo Porpora, desenvolveu o estilo e fundou uma escola para castratos que se tornou uma referência e produziu algumas das maiores estrelas da época. Intitulado «Sacrificium», em homenagem à mutilação que esses jovens cantores sofriam para que pudessem cantar as árias, o novo álbum de Cecília Bartoli recolhe uma cuidadosa selecção de árias para castratos. Na sua edição especial, inclui um precioso livrinho com minuciosa informação sobre a época, e além do CD com os registos inéditos de árias para castratos, tem também um cd adicional que inclui árias de Broschi, Giacomelli e Handel que se tornaram expoente deste estilo. É uma produção extraordinária, com uma sonoridade invulgar, onde Bartoli é acompanhada pela formação Il Giardino Armonico, dirigida por Giovanni Antonini. A edição é da Decca/Universal.

 

VER – Aproveitem o Outono para fazer uma visita à Gulbenkian. No edifício sede está uma exposição que revisita a Art Déco, a partir da evocação da Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925, em Paris. Aqui estão obras, entre outros, de Lalique, Le Corbusier ou Bucheron. Se fôr ao Centro de Arte Moderna não perca a exposição «Anos 70 – Atravessar Fronteiras», comissariada por Raquel Henriques da Silva, e que mostra o que era a produção artística portuguesa daquela época, atrvés de obras de Alberto carneiro, Ana Hatherly, Costa Pinheiro, Carlos Nogueira, Leonel Moura ou Emília Nadal, entre muitos outros. O mais curioso é, a esta distância de décadas, ver quais as obras e os autores que resistiram ao tempo – nem todos o conseguiram. Finalmente, ainda no Centro de Arte Moderna, e integrada no Festival Temps d’Images, está uma instalção vídeo de três filmes do dinamarquês Jesper Just, que tem apresentado grande parte da sua obra em Nova York.

 

PROVAR -  Ainda estou para descobrir porque é que existe uma espécie de relutância em frequentar os restaurantes dos bons hotéis. Há excepções, claro, mas a convicção geral é a de que esses locais são para os hóspedes e para turistas. Nos dias de hoje isso é um erro crasso e uma assinalável injustiça para as equipas que estão nas cozinhas dessas unidades hoteleiras. Nas Avenidas Novas, na R. Tomás Ribeiro, ás Picoas, bem junto da Igreja de São Sebastião da Pedreira, está o Hotel Real Palácio e o seu restaurante, Guarda Real, merece uma visita. À frente da cozinha está um jovem chefe, Celestino Grave, que procura inovar com base em produtos tradicionais portugueses. Da lista do dia constava uma tempura de bacalhau com arroz de legumes perfumado com óleo de trufas que estava fantástica. Na lista estão várias boas propostas de que destaco o pargo com xarém de camarão, um arrozinho malandro de frango e legumes e a vazia de vitela mirandesa com vinagrete vilão. O serviço de vinhos é impecável e as sobremesas têm outras surpresas como uma trilogia que inclui uma espuma de arroz doce, um shot de pastel de nata e um gelado de toucinho do céu. Rua Tomás Ribeiro 115, tel. 213 199 500.

 

BACK TO BASICS – É sempre com a melhor das intenções que se faz o pior trabalho – Oscar Wilde

 

outubro 21, 2009

PÓS ELEIÇÕES (J Negócios 16 OUT)

 


ELEIÇÕES – Esta semana dei por mim a pensar que um dia destes valia a pena escrever um «Diário» das eleições para Lisboa., a começar por umas reflexões sobre o calendário eleitoral que, na prática, condicionou de forma perversa a campanha para as autárquicas. Para mim, que fui candidato à Presidência da Assembleia Municipal da lista «Lisboa Com Sentido», de Pedro Santana Lopes, foi uma experiência fantástica e enriquecedora – mesmo tendo sido o PS o vencedor em Lisboa, com larga ajuda de apoios directos do PC, como Carvalho da Silva, Carlos do Carmo e José Saramago. António Costa, o vencedor da noite, afirmou-se como o dirigente do PS capaz de federar a esquerda e esse será um capital político que não deixará de usar nas intrigas internas do seu partido. Para conseguir juntar a péssima açorda política que arregimentou, diabolizou desde o primeiro dia Santana Lopes, que tornou no símbolo do mal, a quem interessava derrotar a todo o custo. Como mais tarde se recordará, para o conseguir não hesitou em juntar nomes de convivência improvável, não apresentou programa para além da obediência ao Governo, e, na prática, transformou os Paços do Concelho em sede da sua campanha contra Santana Lopes. Todos – e creio que foram alguns - os que sendo de centro-direita ou até de direita se fingiram assustar com o papão e votaram vingativamente Costa, numa diletante atitude de angélico e ingénuo comportamento, poderão ver agora o que faz em Lisboa um PS com maioria absoluta e sem desculpas de dificuldades em aprovar medidas. Como o tempo já provou, e estou certo que voltará a provar, os grandes negócios em Lisboa fazem-se com o PS no poder – existe nos círculos da especulação imobiliária, das obras públicas e dos grandes prestadores de serviço a convicção de que «com o PS é que a gente se governa». A tarefa é facilitada porque o argumentário ideológico utilizado pelo PS serve de desculpa e capa protectora para atitudes pouco claras. Um querido amigo meu dizia-me segunda feira que a Mota-Engil tinha sido de facto, em sentido figurado, a vencedora das eleições em Lisboa. Como os leitores deste jornal bem sabem, a Bolsa interpretou as coisas exactamente dessa forma.

 

VER – Gertrude Stein escreveu o conto infantil «The World Is Round» em 1939 e até agora não existia nenhuma edição portuguesa desta obra. A lacuna foi resolvida com uma edição especial, assegurada pela Galeria João Esteves de Oliveira com base na tradução que Luísa Costa Gomes fez da obra, ilustrada com desenhos a tinta da china sobre papel da autoria de Jorge Nesbitt. É a colecção dos originais criados para ilustrar o livro que a Galeria expõe desde a semana passada e o resultado é surpreendente. Nesbitt, que tem feito um percurso criativo multifacetado, com passagem de destaque pela banda desenhada portuguesa contemporânea, tem-se afirmado, através das suas várias exposições, como um artista que cria universos visuais por vezes surpreendentes, como acontece nesta exposição – em que o recurso à tinta da china acentua a exploração de um imaginário povoado de referências no domínio do Fantástico. A exposição fica até 13 de Novembro, na Rua Ivens 38, www.jeogaleria.com.

 

LER – Em 1991 Douglas Coupland tornou-se conhecido com «Generation X: Tales For An Accelerated Culture», um livro sobre a geração nascida no início dos anos 60. Coupland tinha nessa altura 30 anos e o livro era a caracterização dos hábitos, costumes e cultura dos jovens adultos no final dos anos 80. A obra marcou a literatura contemporânea e afirmou o seu autor. 18 anos depois Coupland volta a contar a história de uma geração, desta vez no futuro, num mundo onde várias formas de vida se extinguiram e as abelhas se tornaram uma rara preciosidade, subversiva, perigosa de deter sob qualquer forma. «Generation A», o livro que Coupland acabou de publicar, é um livro sobre as gerações de um mundo mais digital que possamos imaginar, nalguns momentos quase uma réplica contemporânea da obra de Orwell. Com uma forma narrativa inventiva, invulgar e arrebatadora, «Generation A» passa-se em torno de 5 personagens, espalhadas por outros tantos pontos do Mundo, e que têm nas abelhas o ponto comum – são aos mesmo tempo rebeldes e sobreviventes, lutadores e guardiões de um mundo que se extingue. Mas «Generation A» é também uma história sobre o Poder, sobre a utilização do Poder e sobre aqueles que o detêm e os que o querem conquistar. Muito, mas muito oportuno. (Versão original na Amazon).

 

OUVIR – Não se assustem com os primeiros segundos de «Outdoor», o segundo disco dos La La La Ressonance, agora editado. Partindo de influências do jazz, este quinteto português mistura-as com sonoridades pop e consegue uma fusão invulgar, às vezes a evocar ora sonoridades de formações de câmara, ora música improvisada. «Outdoor» é uma aposta criativa arriscada, mas bem conseguida, e uma das boas surpresas editoriais do panorama nacional no corrente ano. Dos 12 bons originais, compostos pelo quinteto, a minha preferência vai para «Free Radicals», tema mesmo a jeito para remisturas ou para utilização como banda sonora.

 

PETISCAR – Nestes dias de um inesperado calor outonal vale a pena considerar uma proposta de um belo terraço em cima do rio, longe de contentores, na doca do Jardim do Tabaco. Estou a falar do Xico’s, um bom local para almoçar nestas belas tardes de sábado ou domingo. O estacionamento é fácil (tem parque ao lado). Uma boa proposta de petisco de entrada é o carpaccio de polvo, se lhe apetece alguma coisa leve experimente as favinhas guisadas, o entrecôte café de Paris é célebre (e com razão), há saladas para quem quer evitar desvarios, mas também há um bacalhau lascado à lagareiro a merecer referência. Serviço às vezes um bocado irritantemente desatento, garrafeira boa, preços razoáveis. «Xico’s», www.xicos.pt, tel. 211 515 480.

 

 

BACK TO BASICS – O primeiro passo no progresso de um homem ou de uma nação é o descontentamento – Oscar Wilde

outubro 11, 2009

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LISBOA - Um estudo recente mostra que, entre 1991 e 2008, Lisboa perdeu 26,3% dos seus habitantes. Deste total de 18 anos, em quase 13 a Câmara Municipal foi governada pelo PS, nomeadamente de forma ininterrupta até final de 2001. Ao longo de todo este período Lisboa perdeu uma média de 10.000 habitantes por ano, não conseguiu reter os mais novos, está envelhecida, perdeu competitividade, não foi capaz de atrair as indústrias não poluentes de alta tecnologia, as empresas de software ou de promover um programa de desenvolvimento e atracção das indústrias criativas (que em Nova Iorque significam 7% do total de postos de trabalho da cidade). Vítima de uma total ausência de estratégia, vítima de uma perspectiva conservadora de planeamento e de um caldeirão de interesses que na realidade tem tido poder e capacidade de influência, Lisboa perdeu peso e influência política, perdeu autonomia face ao poder central e descaracterizou-se. Na realidade, nesta campanha, assistimos a um facto insólito: a principal linha programática de António Costa é deixar o Governo mandar em Lisboa - na zona ribeirinha, no aeroporto, nas acessibilidades, nos transportes públicos. A perder equipamentos e a ficar com sectores antiquados, quase a viver só da máquina do Estado, a queda de receitas é inevitável e a perca de competitividade. É preciso ter ambição para inverter o ciclo de decadência e fazer Lisboa reencontrar-se com o futuro. 


 


VISITAR – Amália domina o panorama das inaugurações. Em primeiro lugar destaque para «Amália – Coração Independente», a exposição que se divide entre o Museu da Electricidade-Fundação EDP e o Museu Berardo, no CCB. Na EDP está a pouco conhecida e extraordinária colecção pessoal de jóias da artista e alguns dos fatos que usou em palco. E no CCB está uma enorme exposição, que cruza a história e documentação da carreira de Amália com criações contemporâneas que reinterpretam a sua obra, como acontece com Joana Vasconcelos ou, no vídeo, com o trabalho apresentado por Bruno de Almeida, por exemplo. Na parte histórica e documental, para além dos numerosos cartazes, capas de discos e revistas, destaque para as fotografias, em especial de Mestre Augusto Cabrita e do fotógrafo Silva Nogueira, que entre 1942 e 1954 mais e melhor a retratou. Destaque ainda para o excelente catálogo desta exposição, uma verdadeira peça imprescindível para quem se interessa por Fado e, naturalmente, por Amália Rodrigues. Estas duas exposições estarão patentes até 31 de Janeiro. Uma nota final para uma outra exposição, das iconográficas imagens de Amália, elaboradas por Leonel Moura (sim o senhor aqui ao lado, nesta página) a partir de fotografias da fadista e patentes na galeria António Prates em Lisboa (até 7 de Novembro). Finalmente gostaria de chamar a atenção para uma outra exposição, no Teatro de S. Luiz, «As Mãos Que Trago», dedicada ao compositor Alain Oulman, um nome decisivo da fase mais marcante e criativa da carreira de Amália (até 31 de Dezembro). 


 


OUVIR – Paulo Furtado é um dos mais criativos e interessantes músicos portugueses contemporâneos. Depois de ter sido um dos fundadores dos Tédioboys, a sua actividade divide-se  hoje entre ser o vocalista e principal compositor dos Wraygunn – uma das poucas bandas rock portuguesas a ter algum sucesso internacional e carreira regular além fronteiras nos últimos anos. Sob a designação Legendary Tigerman, Paulo Furtado dá largas à sua atracção pelos blues e tem também uma curiosa carreira independente nos Estados Unidos.  Compositor criativo, com um raro sentido rítmico, é um instrumentista polifacetado, tocando guitarra, bateria e muitas vezes harmónica. O seu novo álbum, o quinto da carreira, tem a particulariedade de incluir nove cantoras convidadas que dividem com Paulo Furtado a interpretação das quinze canções do CD «Femina». Sem cair em exageros este é dos discos que mais gôzo me deu ouvir neste ano e é provavelmente um dos melhores discos portugueses da década. Destaco temas como «Life Ain’t Enough For You» com Ásia Arento, «She’s a Hellcat», com Peaches; «No Way To Leave On A Sunday Night» com Becky Lee, «Light Me Up Twice» com Cláudia Efe e, acima de todos os outros, «Lonesome Town», um clássico de Baker Knight, numa interpretação mágica de Rita Red Shoes. A edição inclui ainda um DVD – já que Paulo Furtado é tembém relizador e mostra curtas metragens feitas propositadamente para esta edição. CD e DVD «Femina», Legendary Tigerman, Edição EMI. 


 


LER – A nova edição da revista «Monocle» (nº27, de Outubro) tem um interessante artigo sobre os serviços militares em diversos países europeus, mas o prato forte é mesmo um especial Tóquio que faz ter vontade de descobrir aquela cidade. Outros pontos de interesse: um guia para o norte de Espanha, à descoberta da cidade australiana de Darwin e, sobretudo, um curioso artigo sobre a vitalidade da produção de documentários na Noruega (uma coisa exemplar que a RTP tinha obrigação de estudar e seguir…). Em www.monocle.com uma novidade: uma coluna diária sobre os mais variados temas, quase sempre interessante. 


 


PETISCAR – Em pleno Saldanha, no centro de Lisboa, com uma magnífica vista sobre a praça, existe um bar-restaurante que merece alguma atenção. Ao almoço está cheio de gente dos escritórios vizinhos (ali estão algumas grandes empresas de consultoria), o bar ao fim da tarde é animado e o restaurante à noite é sossegado mas não mortiço. Da ementa consta um leque apreciável de saladas, diversas massas, alguns pratos vegetarianos, umas inesperadas gambas à Brás, várias possibilidades de Bacalhau, peixes grelhados triviais, uma boa lista de bifes (boa carne, bem cozinhada) além de várias propostas de porco preto. O serviço é atencioso, as mesas são muito confortáveis, os preços razoáveis. Uma boa alternativa nesta zona da cidade. Entrada pela Av. Casal Ribeiro 63, Tel. 213528242 

 


BACK TO BASICS – O nosso último dever com a História é voltar a escrevê-la (Óscar Wilde).

outubro 07, 2009

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ALMANAQUE – O PS perdeu a maioria absoluta e precisa de fazer coligações; logo no dia a seguir às eleições alguns escritórios de advogados foram objecto de aparatosas buscas televisionadas, relativa à compra de submarinos decidida quando o CDS tinha a pasta da defesa; o CDS é o único partido que em conjunto com o PS asseguraria uma maioria estável; o Presidente da República fez uma esfíngica declaração pública sobre o caso das escutas, que deixou o PS furioso.

 

MUNDO MEDIÁTICO - também no dia a seguir às eleições a Ongoing adquiriu uma participação importante na Media Capital (TVI) e provavelmente terá que vender a participação que detém na Impresa (SIC). Especula-se que a PT, que não comprou uma participação na Media Capital por ordem governamental, pode agora virar-se para a SIC e fazer parte de toda esta solução de nova paisagem audiovisual. O mundo às vezes é perfeito, nós é que complicamos.

 

DESAPARECIDOS – O fenómeno eleitoral mais estranho é o desaparecimento virtual da CDU e do Bloco de Esquerda na campanha eleitoral autárquica de Lisboa. O desaparecimento é tão flagrante que até parece que estão a fazer de propósito para não disputarem muitos votos ao PS. Estou bem curioso para ver como isto evolui.

 

PERGUNTA CURIOSA – Será verdade que António Costa recusou um frente –a- frente na TVI com Pedro Santana Lopes na próxima semana?

 

BOLSO – Como a crise é o que todos sabemos, a sempre inesperada revista «Egoísta» assumiu a sua quota parte deste momento difícil e fez uma edição especial, de pequeno formato, a que chamou «Crise de Bolso». Aqui está mais um número desta revista que vai ser peça de colecção - até porque, sendo pequena em tamanho, tem artigos com assinaturas de peso: Cavaco Silva, António Barreto, Eduardo Lourenço, Muhammad Yunus. Destaque para as mini-reproduções de pinturas de João Vaz de Carvalho e para as fotografias de Pedro Cláudio. Esta «Crise de Bolso» da «Egoísta» é mesmo deliciosa.

 

OUVIR – J.J. Cale não lançava um álbum de inéditos desde 2004, de modo que o lançamento, este ano, de «Roll On» é um acontecimento maior para os seguidores deste «bluesman». O novo álbum foi, na realidade, feito a partir de gravações efectuadas em 2003 e a faixa que dá o título ao álbum, «Roll On» é feita em parceria com Eric Clapton, que fez as mais célebres versões de duas canções originais de Cale, «Cocaine» e «After Midnight». Considerado um dos maiores compositores e músicos de blues norte-americanos, J.J. Cale volta a dar neste trabalho uma boa amostra de todas as suas capacidades. Destaque para as faixas «Who Knew», «Former Me», «Down to Memphis», «Old Friend» e, claro, «Roll On» .

 

VER – O edifício Transboavista (Rua da Boavista 66) continua a ser um dos mais animados e surpreendentes espaços da arte contemporânea em Lisboa. Na nova série de exposições o destaque vai para Rita Soromenho que, na Creamarte, expõe, a partir de um suporte fotográfico, novas formas de encarar naturezas mortas em «Nem Tanto Ao Mar, Nem Tanto À Terra». Na Plataforma Revólver está uma colectiva que junta trabalhos de jovens artistas de várias nacionalidades sob o título «Heimweh- Saudade», uma opção que está ligada ao início da criação de residências com artistas estrangeiros convidados a permanecer e a criar no edifício Boavista durante pequenas temporadas. Finalmente João Gonçalves apresenta na Rock Gallery «Do Subterrâneo Opaco». Todas as exposições estão patentes até 7 de Novembro. Mais detalhes em transboavista-vpf.net.

 

LER – Quer saber como pode criar e aperfeiçoar uma marca em torno de si próprio? Então leia com muita atenção «The Big Sell», o artigo que Peter York escreveu para a mais recente edição da revista «intelligent life», uma publicação trimestral da «The Economist». York dá alguns conselhos para aumentar a auto-confiança e para aplicar o marketing em proveito da própria imagem das pessoas - «personal branding». Esta é uma daquelas revistas com muito para ler e que vale bem a pena.

 

PETISCAR – Em Lisboa há vários restaurantes alentejanos, mas o D’Avis é dos mais antigos e mais reputados. Da lista fazem parte migas gatas de bacalhau, cação frito com pimentão, migas no pingo do entrecosto e pezinhos de porco de coentrada, entre várias outras sugestões. A tradição é bem seguida na confecção destas especialidades, a matéria prima é boa, o serviço é esforçado. O preço final é aceitável, a garrafeira é extensa e a casa tem uma daquelas decorações, digamos, very typical. Mas o resultado final num jantar de amigos é muitíssimo superior à média. Rua do Grilo nº96 (ao lado da Igreja do Beato), tel. 218681354

 

BACK TO BASICS – Uma ideia que não é perigosa não merece ser considerada uma ideia (Oscar Wilde)

outubro 02, 2009

(blicado no Jornal de Negócios de 25 de Setembro)

FUTURO – A próxima semana promete ser muito agitada: que maioria vai sair das eleições? Como é que o método de Hondt pode influenciar o resultado em número de deputados – quer nos pequenos partidos, quer em alguns círculos eleitorais? Qual a atitude que o Presidente da República tomará na interpretação dos resultados, depois da forma como agiu antes das eleições? 


 


RECORDAR – As eleições servem para fazer o julgamento de quem está no Governo. Por isso vale a pena recordar que nos últimos quatro anos se assistiu a um aumento da carga fiscal; vale a pena recordar como as reformas dos trabalhadores por conta de outrem ficaram penalizadas; vale a pena recordar o clima de tensão na educação; vale a pena recordar as reformas não executadas na saúde; vale a pena recordar  os abusos de entidades tão diversas como a ASAE e a ERC; vale a pena recordar o falhanço das entidades reguladoras em sectores como a energia e a banca; vale a pena recordar que a política cultural foi inexistente; e vale a pena recordar que no ano passado Portugal foi o país que mais fundos comunitários perdeu por atrasos na sua utilização, a maioria dos quais na agricultura, um sector arruinado nestes quatro anos. 


 


ESCUTAS – Uma coisa é certa: na opinião pública ficou a ideia de que a Presidência da República armou uma tempestade, impossível de criar sem o conhecimento do próprio Presidente da República. Por isso, o seu silêncio, por vezes ruidoso, não ajuda nada a perceber o que se passa. Como se sabe, Cavaco Silva gosta de criar tabus e nem sempre se sai bem deles. Sobre a essência dos factos nada desmentiu até hoje e, antes pelo contrário, nas curtas palavras que sobre o assunto proferiu, deu a entender que tencionaria investigar o sucedido. A forma como tudo se passou vai ter custos políticos, graves. E este será certamente um dos casos de que se vai voltar a falar quando houver nova eleição presidencial, daqui a dois anos. Claro que por esclarecer fica outra coisa: como é que alguém teve acesso a correspondência interna de um jornal e a passou primeiro a um semanário e, depois, a outro diário? Se isto não é uma história de espionagem, o que é? 


 


FOTO – O momento fotográfico da semana foi a imagem que vários jornais utilizaram para ilustrar uma visita de José Sócrates aos emigrantes portugueses em Paris: Manuel Maria Carrilho e Ferro Rodrigues a acompanharem Sócrates ao TGV. O ridículo por vezes é fatal. 


 


TRÂNSITO – Há 15 dias voltei a andar de scooter pelas ruas de Lisboa, coisa que já não fazia há uns anos. No caos dos engarrafamentos constantes é a única solução para circular de um lado para o outro na cidade sem perder muito tempo. Mas constato que a mesma Câmara de António Costa e Ricardo Sá Fernandes, que faz à pressa ciclovias de estranho traçado como a de Telheiras, não tem cuidado com a segurança de quem se desloca em duas rodas: não usa tinta anti-derrapante nas marcações; nada faz para remover os carris de eléctricos que já não estão em utilização; nada faz para nivelar as tampas de esgotos – muitas autênticas armadilhas; permite que o pavimento de grande parte das ruas seja uma montanha russa de remendos e não obriga os autores dos constantes buracos que se abrem a deixar o piso em boas condições. Para garantir a segurança de quem usa veículos de duas rodas – com ou sem motor – é que não se vê nada feito em Lisboa. O resto é obra eleiçoeira. 


 


VISITAR – A Casa das Histórias Paula Rego, inaugurada a semana passada em Cascais, é um exemplo de bom equipamento cultural, construído de raiz. A arquitectura, no exterior, é uma boa surpresa e, no interior, é de uma eficácia enorme para o objectivo de mostrar artes plásticas – no caso quadros e desenhos. Depois, há muito mais pintura do que aquela que inicialmente se sabia ir existir. Paula Rego entusiasmou-se com o projecto e para além de esboços, estudos e desenhos, trouxe peças importantes da sua obra. Adicionalmente, a área de exposições temporárias da Casa, tem um conjunto de obras da artista cedidas pela Galeria Marlborough, verdadeiramente a não perder. Por último a loja da Casa das Histórias é do melhor que nesta matéria se tem feito em Portugal, graças a uma série de peças de merchandising, desde pens para computador até figuras de louça da Fábrica Bordallo, tudo inspirado na obra de Paula Rego. 


 


FOLHEAR – Muito boa a edição comemorativa do 4º aniversário da revista «N*Style». Sob o tema das tendências de moda para este Outono, a revista é um exemplo de boa fotografia, bom alinhamento editorial e boa paginação. Destaque ainda para as entrevistas com Eduarda Abondanza sobre a Moda Lisboa e com José António Tenente. 


 


PETISCAR – Confesso que iscas à portuguesa é um dos meus petiscos preferidos. Esta semana revisitei a Cave Real e provei umas magníficas iscas, temperadas no ponto certo, cortadas bem finas, como deve ser. A Cave Real é um restaurante onde a cozinha tradicional portuguesa domina, baseada em ingredientes de qualidade e numa confecção sólida e conservadora. Aqui não há grandes rasgos de imaginação, mas o serviço é acolhedor e eficaz, o ambiente é simpático (apesar da presença ocasional do Ministro das Finanças…) e as mesas são confortáveis. Cave Real, Av. 5 de Outubro 13-15 (junto à Maternidade Alfredo da Costa), tel. 213 544 065. 


 


OUVIR – Pete Yorn é um compositor e guitarrista Americano, autor de grandes canções, cuja carreira começou em 2001. Em 2006 pegou em nove canções da sua autoria e fechou-se em estúdio com a actriz Scarlett Johansson, que vai fazendo incursões na música (por exemplo gravou uma série de versões suas de canções de Tom Waits e de Jeff Buckley) . O resultado desta parceria entre Pete Yorn e Scarlett Johansson  é o álbum «Break Up», agora editado. São nove canções pop, deliciosas, num disco despretencioso e envolvente, que vai fazendo a narrativa de alguns episódios de uma relação imaginada.. Destaques para «Relator», «Search Your Heart», «Shampoo» e «Someday». Ao princípio o contraste entre a voz de Yorn e a de Johansson parece estranho, mas depois esse contraste torna-se num dos motivos de atracção deste disco. 


 


BACK TO BASICS – A moralidade é sempre o único refúgio das pessoas que não têm o menor sentido ético – Óscar Wilde

setembro 23, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 11 de Setembro)

 


RESUMO DA SEMANA – Efeito TGV: a campanha acelerou, Sócrates disse que Zapatero é o seu maior amigo na Europa, mas não falou dos problemas que temos com os espanhóis quanto ao caudal dos rios comuns. O ponto alto dos últimos dias foi a volta de helicóptero que Louçã deu por cima da Arrábida – as imagens da devastação causadas pelas pedreiras em plena zona protegida, e que segundo Louça têm tido a benção de Sócrates, são um exemplo do que nunca deveria ter podido acontecer.

 

GATO – É oficial: o esmiuçar do Gato Fedorento aos políticos atinge recordes de audiência (muito mais que os debates) e tornou-se num incontornável ponto da campanha. Mas esta invasão do humor na política mostra como tudo está a mudar. Nenhum político quer correr o risco de não estar presente, de hostilizar o capital de simpatia que o Gato Fedorento ganhou nos últimos anos. Este é o primeiro episódio de um virar de página na relação da televisão e dos media com os políticos, à semelhança do que tem acontecido, desde há muito, em outros países. Dantes os políticos aproveitavam-se dos media e das estrelas mediáticas; agora os media e as estrelas mediáticas exploram os políticos para estimularem as audiências. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

 

MUDANÇA – Esta mudança de atitudes poderia ter alguma consequência lógica no funcionamento das campanhas. Por exemplo – os tempos de antena tornaram-se momentos obsoletos em contraste com os sites das diversas campanhas, que, regra geral, são actualizadíssimos e ricos em conteúdo. Por outro lado a proibição da utilização de publicidade comercial surge hoje como uma mera fantasia, fabricada no tempo em que tudo era apenas feito com militância. Os outdoors partidários que pululam pelo país não pertencem a empresas de publicidade, mas raramente são colocados e mantidos por militantes, e sim por empresas de serviços que aproveitam este nicho de mercado. Na realidade vai dar ao mesmo – mas era mais transparente se esta lógica da compra de serviços, que existe e cresce no mercado eleitoral, fosse mais alargada e mais transparente. Muita coisa deverá ter que mudar nas leis eleitorais sob pena de, num futuro próximo, ninguém conseguir comunicar eficazmente. E as consequências disto, já se sabe, são menor esclarecimento, maior abstenção, menor participação cívica.

 

REGULADORES – O lançamento do livro de Filipe Pinhal deu uma má semana a Vítor Constâncio. O regulador da Banca ficou com as orelhas a arder – mas a situação chamou a atenção para um problema mais lato: nestes quatro anos o PS exerceu o poder como nenhum outro governo em décadas recentes. E exerceu-o provocando situações, forçando alterações, manobrando em proveito de objectivos próprios. Aconteceu assim na Banca, aconteceu assim na Comunicação, aconteceu assim no Mercado. As entidades reguladoras, como o Banco de Portugal, a ERC, e a Autoridade da Concorrência não se livram de serem consideradas cúmplices da política do Governo, surgindo umas vezes autoritárias e intervencionistas, outras cegas e amorfas, conforme as conveniências.

 

AUTÁRQUICAS – Desenganem-se: não vou falar (hoje) de Lisboa. Vou falar de Nova Iorque, onde Michael Bloomberg se candidata, excepcionalmente e graças a uma autorização especial, a um terceiro mandato, contra William Thompson, do Partido Democrata. O curioso é que, em Nova Iorque, por cada cinco democratas registados existe apenas um republicano, um rácio que não tem impedido Bloomberg de ganhar repetidamente, perante elogios e apoios face à obra feita, nomeadamente com melhores serviços municipais, melhores escolas, menos crime e mais segurança. Bloomberg, um independente apoiado pelos Republicanos, é um caso raro na política americana e é muito interessante ler o seu perfil, intitulado «The Untouchable», publicado na edição de 24 de Agosto da revista «New Yorker» e disponível na internet no site da revista.

 

PETISCAR – Miguel Castro e Silva, um dos mais famosos Chefes de Cozinha do Porto, abriu em Lisboa o pequeno restaurante De Castro. Talvez não seja bem um restaurante – é mais uma casa de petiscos: pequenas empadas de legumes, moelas picantes, morcela com puré de maçã e pratos mais substanciais como as extraordinárias amêijoas com feijão manteiga. A qualidade, quer da matéria prima, quer da confecção, é superior – aliás o próprio Miguel Castro e Silva tem estado na cozinha. Com uma boa lista de entradas e de pratos quentes, preços comedidos, curta mas boa selecção de vinhos e a particulariedade de servir almoços e petiscos non-stop até às seis da tarde (jantares só mais à frente), a casa tem tudo para funcionar. Falta-lhe apenas uma coisa, fundamental: melhor serviço, maior atenção aos clientes, maior cuidado no acompanhamento dos pedidos. A casa é pequena, tem apenas uma dúzia de mesas, não há necessidade de estragar tão boa comida com tão fraco serviço. Basta um bocadinho mais de organização e atenção: já vi restaurantes maiores funcionarem melhor com menos gente – às vezes basta que haja um responsável de sala, atento e de olhos bem abertos, que perceba o que falta em cada mesa. De Castro, Avenida Elias Garcia 180 B, telefone 217 979 214.

 

OUVIR – Estando eu um bocadinho farto da barulheira em torno da remasterização digital de uma dezena de discos dos Beatles, que já tenham em várias versões, resolvi comprar a excelente revista britânica de música «Mojo» que na edição de Outubro (já à venda em vários locais), e medinte apenas €8.10, oferecia um CD que é a versão 2009 de Abbey Road (capa replicada e tudo), com as suas canções interpretadas por músicos actuais. Assim os The Invisible fazem uma boa versão de «Come Together», Robyn Hitchcock excede-se em «I Want You», assim como se recomendam as prestações dos Broken Records («Oh! Darling»), Gomez («Sun King»), Blue Roses («Golden Slumbers»), Leisure Society («Something»), Glenn Tilbrook com os Nine Below Zero («You Never Give Me Your Money») e Karima Francis («Sher Came In Through The Bathroom Window») . Ouço-o todos os dias.

 

BACK TO BASICS – A experiência pessoal é o círculo mais vicioso e limitado – Orson Welles

 

setembro 14, 2009

A ESPANHA

As declarações de Ferreira Leite sobre Espanha feriram os ouvidos sensíveis das virgens ofendidas com o tema - mas talvez possam recordar-se que a Espanha é imensamente proteccionista, que as empresas portuguesas têm mais dificuldade em entrar no mercado espanhol que vice-versa e que a Espanha tenta sempre dar-nos uma facadazita na questão do caudal dos rios internacionais. Miguel de Vasconcelos, o aliado do domínio dos Filipes em Portugal,  tem muitos seguidores neste século XXI - talvez valha a pena recordarem-se que ele acabou defenestrado.


Alguns cómicos argumentam que tais coisas são impensa´veis em tempos de globalização - são pobres de espírito, bem entendido, que têm tendência a confundir o sonho com a realidade.


 

setembro 12, 2009

MAIS UMA DA EMEL

Alguma alma iluminada da vereação do Dr. Costa decidiu ajardinar o único local onde se podia estacionar junto dos colégios que funcionam na Rua Dr. João Soares, no Campo Grande. Agora a confusão é total e os pais não têm como estacionar. Pior: a EMEL, que faz campanhas publicitárias a dizer que existe para ajudar, põe-se à coca a partir das quatro e meia, para multar os pais quando estes vão às escolas buscar as crianças. É extraordinário como a EMEL tem as coisas bem organizadas - quando desapareceu o estacionamento pôs-se logo a multar.

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RESUMO DA SEMANA – A Ministra da Saúde inaugurou um hospital em Seia mas as camas dos doentes da unidade de cuidados continuados foram retiradas no dia seguinte porque eram apenas cenário para a fotos e tv; o preço do petróleo varia sempre mais que o respectivo reflexo no preço dos combustíveis; a política fiscal do Governo continua a privilegiar aumentar impostos a quem trabalha por conta de outrem em vez de combater a grande evasão fiscal; multiplicam-se nos últimos dias incidentes de espancamentos violentos e assassinatos em diversos pontos do país; a investigação do caso Freeport foi suspensa até às eleições; o caso Casa Pia continua sem evoluir.  


 


DEBATES - Alguma coisa está mal nos debates políticos pré-eleitorais na TV. As negociações são tão apertadas, os temas a abordar são tão escrutinados e acordados que se perde muita espontaneidade. Nem vou falar do facto de o cenário ser sempre igual em todos os cenários – por si só isso é uma coisa impositiva, autoritária – um «diktat» visual que formata tudo por igual – os canais perdem identidade e é sublinhado o estatuto de suprema autoridade dos partidos. Este é um mau método, que tem provocado debates tristes e pobres, pouco mais que maratonas de promessas e chicanas de argumentos, mas pouca discussão de ideias. Na verdade o processo que levou a estes debates é um espelho do mau funcionamento do actual sistema político e da distância dos partidos em relação à sociedade. Construíram um altar cercado por espelhos e só gostam de se ver nessa posição. 


 


TVI - O que se passou na TVI mostra duas coisas: o Primeiro-Ministro gastou bastante tempo, durante os últimos meses, a atacar a informação da TVI e sobretudo o Jornal Nacional de sexta e as suas queixas acabaram por dar efeito. Quando a dona da estação, uma empresa espanhola historicamente conotada com o PSOE, interveio exactamente nos pontos que eram a queixa principal de José Sócrates, é legítimo pensar em condicionamento político grave da informação. O resto é paisagem e o facto de o PS se querer armar em vítima de conspirações neste caso pode apenas ser entendido como a repetição das justificações, métodos e argumentos de Hugo Chávez em relação à Comunicação na Venezuela. 


 


CITAÇÃO DA SEMANA - Mário Soares continua a manter, um pouco para além do normal prazo de validade que o bom senso recomenda existir, a sua prática de opinar sobre o país. A citação da semana pertence-lhe: «José Sócartes aprendeu muito com a crise, está mais socialista». 


 


EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO - A um mês de eleições autárquicas o executivo de António Costa agendou uma maratona de votações sobre questões estratégicas para o futuro da cidade, do Parque Mayer a Alcântara. Das 32 propostas apresentadas 19 eram assinadas por Manuel Salgado, e, destas, 15, continham alterações urbanísticas importantes. Chegar a um mês de eleições com tantos projectos para apreciar e votar à pressa é muito mau sinal, numa altura em que o bom senso ético recomendaria que o executivo camarário se remetesse à gestão corrente dos assuntos da autarquia. Mas dois anos sem obra feita acabam por levar a que este episódio tenha uma sensação de desesperada procura do tempo perdido.  


 


ESTACIONAR - A EMEL, a empresa que persegue os lisboetas sem conseguir resolver os estacionamentos em segunda fila, e que se tornou um caso relevante de arrogância e ineficácia na relação com os munícipes, resolveu fazer uma campanha publicitária para assinalar os seus 15 anos de vida. O slogan, certamente criado por um humorista frustrado, é: «há 15 anos que a EMEL trabalha para que ninguém estacione a sua vida». Qualquer habitante de Lisboa, automobilista, sabe que isto não é verdade. E deixo aqui um desafio à EMEL: que consiga atingir um padrão de qualidade que garanta que no prazo máximo de 30 minutos sobre a recepção do pedido de desbloqueamento, o consiga concretizar ou indicar a hora a que poderá ser feito. É que casos de duas e mais horas de espera são vários, com um call-center ineficaz que não dá respostas aos utentes e equipas de rua que são o espelho da empresa: prepotentes e arrogantes.  


 


VISITAR - Já aqui tenho sido crítico de muitas actuações do Ministério da Cultura, mas esta semana destaco uma boa medida – a criação do Portal da Cultura (www.culturaonline.pt). Espero que mantenha a qualidade dos dias de estreia, que mantenha a informação diversificada e actualizada e, já agora, espero que os seus responsáveis saibam que não basta fazer um portal assim – é preciso fazer a sua divulgação, publicitá-lo, garantir que existam links noutros sites, e, sobretudo, utilizar a publicidade digital para chegar aos potenciais utilizadores desta boa fonte de informação. Se assim não fôr ficará pelas notícias de inauguração e perderá a oportunidade de se tornar num sítio de referência da internet em relação à agenda e notícias da área cultural. 


 


AGITAR - O pintor João Vieira, um dos nomes grandes das artes plásticas portuguesas, morreu na semana passada. Chocou-me o pouco destaque dado à notícia da sua morte nos principais jornais. João Vieira integrou , em Paris, no final da década de 50 e início da de 60, o grupo KWY, que além de alguns outros portugueses como Lourdes Castro, René Bertholo, Gonçalo Duarte e José Escada, juntava Jan Voss e Christo, o artista que nas duas últimas décadas se distinguiu por algumas instalações gigantes um pouco por todo o mundo. Mas João Vieira tinha uma outra faceta escondida que felizmente registou em 2008 – apreciador de música gravou o disco «La Vida Es Un Bolero», uma deliciosa e divertida gravação que auto-editou e distribuía pelos amigos. Há uns anos tive ocasião de o conhecer melhor e entrevistar para um documentário, «Pinto Quadros Por Letras», que dirigi e que a RTP 2 re-exibiu no dia da sua morte. Desde aí íamos mantendo algum contacto, às vezes com amigos comuns. Há uns três meses fomos almoçar, ele ofereceu-me um desses discos e, no meio de algum desgosto por não conseguir montar em Lisboa uma retrospectiva da sua obra, deu-me conta de um projecto em que andava a matutar: lançar pelas águas, aqui em Lisboa, as três letras, gigantes, da palavra MAR, que tinha em tempos feito. Como sempre, o João queria continuar a agitar as águas e permanecia deliciosamente irrequieto. 


 


BACK TO BASICS – O primeiro passo no progresso de um homem ou de uma nação é o descontentamento - Oscar Wilde

setembro 10, 2009

DOIS ANOS PERDIDOS

(Publicado no diário «Metro» de 9 de Setembro)


Quando olho para o que se passa em Lisboa desde que António Costa é Presidente da Câmara sinto uma sensação de tempo perdido, dois anos para ser exacto. Sob a desculpa de arrumar a casa, muito pura e simplesmente deixou-se a cidade ao abandono. Sob o pretexto das dificuldades financeiras deixou-se degradar a limpeza e o arranjo das ruas da cidade – mas verbas importantes foram desviadas para outros projectos, menos prioritários. Passeios sujos, asfalto com buracos, obras sem controlo que se arrastam (como na Fontes Pereira de Melo), desinvestimento nos apoios sociais aos mais idosos – este é o resumo destes últimos dois anos em Lisboa.


Para os que vivem e trabalham em Lisboa a vida está pior, mais desconfortável, mais difícil. As medidas anunciadas – a tolerância zero no estacionamento, por exemplo – ficaram no papel e não se concretizaram. O Terreiro do Paço assemelha-se a um pesadelo, num projecto sem nexo, o trânsito na baixa foi transformado num caos, com placas de indicação de sentido e direcção desactualizadas.


Largas somas foram aplicadas em obras de duvidosa prioridade e utilidade, como as ciclovias - veremos qual a utilização real que elas vão ter, porque para já é bem reduzida.


Mas em contrapartida os espaços públicos – como o jardim do Campo Grande – continuam a degradar-se e os cemitérios estão cada vez mais maltratados – sujos, descuidados.


Nestes dois anos não houve reestruturação dos serviços da Câmara, aproximação aos munícipes, diminuição da burocracia. Pelo contrário, por exemplo, a EMEL piorou a sua actuação e arrogância, e é, claramente, um caso a merecer atenção no futuro.


A qualidade de vida e o conforto de uma cidade é medido, em primeiro lugar, pelos seus habitantes – devem ser eles os destinatários da governação camarária. Mas na realidade é bem difícil encontrar o que foi feito por António Costa e pela sua equipa, mais entretidos em jogos políticos do que em servir os lisboetas. A cidade, na realidade, está mais desarrumada.

setembro 07, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios) de 4 de Setembro

RESUMO DA SEMANA – Na Universidade de Verão do PSD sucederam-se declarações críticas a Ferreira Leite; dois distintos militantes socialistas, Pina Moura e Henrique Neto, resolveram elogiar o programa do PSD em comparação com o do PS; notáveis do PSD apareceram a elogiar as vantagens do Bloco Central. E na manhã seguinte à entrevista a José Sócrates a RTP 1 conseguiu reduzir o noticiário político de véspera a três repetições, no espaço de uma hora, da peça-resumo dessa entrevista. 

 


 


BATOTA – Caroços à parte, um partido que escolhe para mandatária da juventude uma jovem que admite fazer batota para ganhar está a dar um sinal a todos. Tratar a política como uma campanha publicitária dá resultados destes. A culpa, no entanto, não é de Carolina Patrocínio, igual a si própria: é de quem a escolheu para uma função política apenas pelas formas e popularidade. Deve ser uma das tais expressões de modernidade de que Sócrates gosta de se gabar. 

 


 


METRO – A maneira como o Metropolitano trata Lisboa é um escândalo, já se sabe. Durante meia dúzia de anos, no Saldanha, esventrou o coração da cidade, desprezou residentes e comerciantes. Anuncia mais ligações futuras à periferia sem cuidar de pensar nas ligações dentro da cidade, por exemplo a ocidente ou nas novas zonas habitacionais. Quanto às estações novas, nomeadamente S. Sebastião, fica uma nota: estações enormes, muito em profundidade – mas com poucas escadas rolantes, em contraste com o que acontece noutras situações semelhantes no estrangeiro. Já na Baixa-Chiado é a mesma coisa e, em muitos casos, as escadas rolantes estão avariadas – sempre as que sobem, claro. Ora isto leva-me a perguntar: porque é que não há alguém que, quando a escada de subida avaria, se responsabilize por inverter a de descida – é que sempre é mais fácil descer que subir. No meio do enorme preço das estações não se poderá investir um pouco mais em conforto e comodidade para os utentes? 

 


 


TV – Na última semana de Agosto os três canais comerciais (RTP 1, SIC e TVI) ficaram separados por um intervalo de apenas cinco pontos entre o mais visto (TVI) e o menos visto (SIC). A guerra de audiências no último trimestre promete, ainda por cima com as mudanças entretanto verificadas na TVI. Mas o dado mais significativo vem do constante crescimento do universo do Cabo – que continua a aumentar o número de espectadores, agora já nos 20 por cento de forma estabilizada. Mais cedo ou mais tarde isto vai ter efeitos no mercado publicitário. Uma nota: em Espanha, esta semana, a TVE deixou de vender publicidade. É outra lógica de serviço público. 

 


 


OUVIR – Neste regresso de férias convém manter no ar o espírito de Verão. Um disco que tem feito as minhas delícias é a compilação de canções pop portuguesas dos anos 50 e 60, da responsabilidade do Real Combo Lisbonense, um projecto dirigido por João Paulo Feliciano e que faz parte da colecção de discos da operadora telefónica Optimus. São sete temas, uma versão de um êxito internacional da época («Oh» de Byron Gay e Arnold Johnson) e seis bem portugueses e lisboetas: «A Borracha do Rocha» do Conjunto de Mário Simões, «Sensatez» de Carlos Canelhas e António José, «Pepe Fado» de Eugénio Pepe e Francisco Nicholson, «O Fado É Bom P’ra Xuxu» de Frederico Valério e Amadeu do Vale e «Dois Estranhos» de Artur Ribeiro e Cazal Ribeiro. Nestas novas versões brilham as vozes de Mário Feliciano, Ana Brandão, Márcia Santos e Ian Mucznik, onde antes estavam Mafalda Sofia, o Thilo’s Combo, Simone ou Olivinha Carvalho, entre outros. A produção é exemplar na reconstituição do som da época e as novas interpretações são deliciosas. CD à venda na FNAC, ainda por cima a menos de cinco euros. 

 


 


SUGESTÃO  – Já que estamos nesta onda musical aqui fica uma sugestão para hoje à noite, sexta-feira dia 4 : os Irmãos Catita actuam no Cabaret Maxime pelas 23h30 (Praça da Alegria), sob a batuta de Lello Marmello, aliás Manuel João Vieira. Reservas de mesa pelo telefone 213467090, entrada a 10€. 

 


 


LER – A edição de Setembro da «Vanity Fair» vem com duas capas alternativas – Michael Jackson está numa, Farrah Fawcett noutra: Fallen King no título da primeira, Fallen Angel no título da segunda. Já se sabe que as edições de Setembro das grandes revistas são sempre apostas fortes da publicidade das grandes marcas, mas em ano de crise temia-se uma alteração à tradição – depois de um início do ano mais fraco, esta «Vanity Fair» vem recheada de publicidade, ela própria graficamente aliciante – destaco as páginas da Chanel, David Yurman, Moncler (com Bruce Weber), Calvin Klein Jeans e Guess – esta última marca estrategicamente colocada no início da tradicional lista dos mais bem vestidos em diversas áreas (muitos espanhóis referenciados a começar pela Princesa Letícia), sempre publicada na edição de Setembro. Um atractivo suplementar é uma divertida ficção de Tom Wolfe sobre as angústias dos ricos financeiros que deixaram de poder viajar em jactos privados. Delicioso. 

 


 


VER – O número de Setembro da edição britânica da revista «Esquire» é verdadeiramente um artigo de colecção que merece ser manuseado, folheado, visto por todos os ângulos. Dedicado integralmente ao tema do fato clássico para homem, tem uma capa dura, lombada de tecido e papel especial. Na capa está Quentin Tarantino e no interior numerosos artigos e, felizmente muita publicidade – como já não se via há alguns meses, um sinal de alguma retoma nestas edições da rentrée. O tema do fato de homem – a sua evolução ao longo da história e os melhores acessórios, por exemplo, ocupam boa parte da edição. O prato forte é uma entrevista com Paul Smith, o homem que reinventou a roupa de homem na Grã-Bretanha há uns anos e que é uma referência incontornável no design de moda. 

 


 


PETISCAR – Algo me diz que o Spot S. Luiz, o restaurante do Teatro S. Luiz, vai marcar esta rentrée – ao almoço está cada vez mais animado, tem agora uma pequena esplanada, um inovador hamburguer com ovo escalfado, clientela animada e a presença de Sofia Aparício na equipa da casa. A direcção culinária é do chefe Fausto Airoldi. Telefone 213430253 . 

 


 


BACK TO BASICS – «Só há um forma de saber se um homem é honesto... pergunte-o. Se ele disser 'sim', então você sabe que ele é corrupto» - Groucho Marx 

 

setembro 01, 2009

GOSTAM DA ARRUMAÇÃO FEITA EM LISBOA?

 


(Publicado no diário «Metro» de 1 de Setembro)

 

No início desta colaboração com o «Metro» gostaria de deixar claro algumas circunstâncias: sou candidato à Presidência da Assembleia Municipal de Lisboa na lista proposta por Pedro Santana Lopes; não tenho partido, não sou republicano, acho que o Estado age com excessiva frequência contra os cidadãos e entendo que o fisco comete demasiados abusos para poder ser encarado como uma entidade séria e justa.

Dito isto, e como sempre achei que a música ajuda a entender as pessoas, devo declarar que a minha pessoalíssima banda sonora deste verão foi constituída pelos mais recentes discos de Ben Harper, Sonic Youth, Regina Spektor, Nouvelle Vague e Rokia Traoré. O australiano Peter Carey é o meu escritor favorito do momento e o próximo filme que hei-de ver é «Sacanas Sem Lei!» de Quentin Tarentino. Não gosto de usar gravata, tenho 55 anos, nasci e fui criado em Lisboa, gosto desta terra, gosto desta cidade, comovo-me cada vez que regresso e irrita-me que ela esteja a ser tão maltratada como ultimamente tem sido. Se pudesse, andava sempre de «Vespa». Pronto, está feito o meu retrato.

Estou na lista da coligação «Lisboa Com Sentido» porque acho mesmo que esta cidade precisa de levar uma volta. Prefiro um candidato que queira mudar e melhorar a cidade, a outro que apenas queira ter as coisas arrumadinhas. Sobretudo, quero um Presidente da Câmara que pense mais nos munícipes que nos interesses do Governo, alguém que se preocupe mais com Lisboa do que com o seu partido, que esteja interessado em conseguir repovoar a cidade, torná-la mais confortável e agradável para quem cá vive. Quero alguém que prefira uma política de recuperação a uma política de demolição, quero alguém que melhore o Terreiro do Paço e não que o transforme numa palhaçada, quero alguém que devolva o rio à cidade, em vez de o entregar às empresas de contentores.

Se estão contentes com o estado da cidade, a sua limpeza, o estado dos seus jardins e os buracos por todo o lado, já sabem que devem votar no arrumadinho. Eu espero que prefiram mudar.

 

agosto 31, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 28 de Agosto)

ROTUNDAS – Durante as viagens de férias constatei a súbita proliferação de rotundas em vias de conclusão ou de obra recente. A rotundomania domina o país, o grande problema é que muitas das rotundas não têm indicações de direcção claras e quem não conhece os locais anda autenticamente às voltas, perdendo-se com frequência. Assim as rotundas servem para confundir e baralhar e não simplificam – a não ser para os partidos políticos: é que as rotundas parecem mesmo ser o local ideal para afixar os cartazes de propaganda eleitoral. Nos tempos que correm esta é a sua mais imediata utilidade. 

 


 


PORTUGAL – O despudor com que o Governo se desdobra em acções de propaganda não tem precedentes próximos em Portugal – todos os dias se vêem exemplos de anúncios de iniciativas ainda não concluídas, sugestões de obras futuras, tudo com um despudor inacreditável. A demagogia moderna é isto: mostrar o que ainda não existe como se estivesse feito, dizer que se vai fazer o que já se sabe ser impossível concretizar. Nesta matéria José Sócrates é de facto campeão.  

 


 


LISBOA – Regresso de férias – recomeçam os problemas no trânsito, continuam as obras de Metro do Saldanha, atrasadas quase dois anos, as avenidas novas permanecem bem sujas (parece não verem água há meses), a Fontes Pereira de Melo ainda continua com faixas reduzidas, o Campo Grande lá está triste e degradado. Ao contrário do que diz a propaganda, a casa não está arrumada, está mesmo muito desarrumada. 

 


 


DESCOBRIR – A programação Allgarve incluía este ano uma área dedicada à arte contemporânea, intitulada Art Algarve, que se espalhava por vários locais. O meu destaque vai para as exposições existentes em Loulé e, destas, sobretudo para as fotografias de Patrícia Almeida (uma das nomeadas para a próxima edição do BES Photo). Mas verdadeiramente o que achei mais interessante foi o facto de a Art Algarve ter conseguido colocar as exposições em locais como o Convento de Santo António ou na maravilhosa descoberta que é a Quinta da Fonte da Pipa, ambas em Loulé. Só para conhecer estes locais e ver como eles convivem com arte contemporânea, valeu a pena a deslocação. Destaque ainda para as exposições de Faro, quer no Museu Municipal, quer na Galeria Arco. Todas as exposições aqui referidas podem ser vistas até 27 de Setembro e estão garantidas duas tardes bem passadas. Informações complementares em www.allgarve.pt. Atenção – a sinalização dos locais por vezes é deficiente, os números de telefone indicados nalguns casos estão errados ou não dão sinal e os horários, sobretudo de abertura, são inconstantes.  


 


 


OUVIR – A formação é pouco usual: um quinteto liderado por um trompetista e que inclui ainda tuba, trombone, trompa e bateria. O grupo chama-se Brass Ecstasy e é liderado pelo trompetista Dave Douglas, um seguidor de Lester Bowie.. O resultado é invulgar, baseado no jazz mas a meio caminho entre a soul e a pop, e inclui versões de temas de Rufus Wainwright (“This Love Affair”), de Otis Redding (“Mr Pitiful”) ou de Hank Williams (“I’m So Lonesome I Could Cry”). As versões são extraordinárias, a começar pela de Wainwright, que inicia o disco, com uma sonoridade roubada às ruas de New Orleans. Noutra faixa, «Fats», Dave Douglas homenageia Fats Navarro num tema cheio de swing. Mas há originais, como «The View Of The Blue Mountains», que provam o talento de Dave Douglas naquele que é considerado um dos seus melhores trabalhos na já extensa discografia – este «Spirit Moves», agora editado entre nós pela Universal. 

 


 


LER – A edição de Setembro da Monocle» dedica 15 páginas a uma reportagem e ensaio fotográfico sobre os Jogos da Lusofonia, que decorreram em Lisboa entre 11 e 19 de Julho passado. O trabalho da revista mostra a importância que pode ter para Lisboa um papel de acolhimento de eventos que potenciem a cultura e o entretenimento populares dos vários países lusófonos, nas suas várias componentes – das quais faz parte o desporto. Independentemente do apoio que pode ser dado a opções criativas mais experimentalistas, como as que são actualmente defendidas no caso de África por este Governo, são eventos abrangentes e populares que nos permitem ganhar notoriedade e posicionamento europeu enquanto local de excelência para uma plataforma multicultural – como este exemplo da «Monocle» bem demonstra. Destaque para as fotos que John Balson fez dos Jogos e dos atletas. 

 


 


PETISCO – Nada como um bom azeite e um bom pão para iniciar uma refeição. Recentemente experimentei alguma da produção da Azal (Azeites do Alentejo) e fiquei conquistado sobretudo pelo Azal Terra e pelo Azal DOP. O primeiro foi feito através de modos de produção biológicos e o segundo é da região do norte alentejano – ambos foram já premiados e têm uma qualidade verdadeiramente invulgar. Sediada no Redondo, mas a trabalhar a partir de azeitonas recolhidas em diversas zonas do Alentejo, a Azal criou também uma Academia do Olival, que continuamente procura aconselhar o aperfeiçoamento dos olivais. 

 


 


PROVAR – O local tem vasta fama e boa reputação desde 1996. Situado perto de Albufeira e de Olhos de Água, numa pequena estrada interior, o «Retiro do Isca» é o exemplo de cozinha regional bem pensada, séria, sem truques fáceis e apego à tradição. No centro da operação está uma grande grelha a carvão, manuseada com mestria. O peixe é fresco e de qualidade como se esperaria no local, mas se a opção fôr para umas lulas grelhadas a surpresa vem do cuidado posto na sua apresentação e tempero, feito depois de saída da grelha. Na realidade estas foram, em frescura, textura e sabor, as melhores lulas grelhadas de que tenho memória desde há anos. Do outro lado da mesa estava um sério linguado, tudo aprimorado com legumes e saladas como deve ser. A rematar uma tarte de alfarroba deliciosa, acompanhada a pedido com uma especialidade local em matéria de digestivos. Preço razoável e honesto, serviço atento e simpático. A casa tem boa fama, reservar é mesmo necessário – Retiro do Isca, Vale Carro, Tel. 289502668.


 


BACK TO BASICS – Tudo o que peço aos políticos é que se contentem em mudar o mundo sem começar por mudar a verdade (Jean Paulhan) 

 

agosto 24, 2009

(Publicado no Jornal de Negócios do dia 21 de Agosto)

REGISTO DE INTERESSE – Sou cabeça da lista para a Assembleias Municipal de Lisboa proposta por Pedro Santana Lopes. Espero que a coligação «Lisboa Com Sentido» vença estas eleições, na Câmara, na Assembleia Municipal e nas Juntas de Freguesia. Dito isto, se o Director quiser, continuarei a falar do que aqui sempre tenho falado – a ERC não tem muito que se lamuriar – quer Baptista-Bastos, quer Leonel Moura são rapazes para me fazerem boa oposição e alto contraditório.  

 


 


CAMPANHA – António Costa é que devia ligar um pouco às recomendações pluralistas básicas da ética republicana – pegou em 1,6 milhões de euros do orçamento camarário e montou uma festa permanente no Parque Mayer, que é uma bela oportunidade de auto-propaganda. Por um daqueles acasos do destino o programa da propaganda festeira vai exactamente até 11 de Outubro, o dia das autárquicas. Mais conveniente era difícil. 

 


 


 


DARTH VADER – A invasão da política portuguesa pela saga da Guerra das Estrelas e pela figura de Darth Vader é o caso do Verão – uma acção bem humorada, com base numa das mais activas e antigas equipa de bloggers – do 31 da Armada - conseguiu fazer com que o vereador Manuel Salgado se metesse numa embrulhada sobre a segurança, ridicularizou o aparelho da Câmara, que se apressou a chamar a polícia para prender os inssurectos  quando estes foram devolver, limpa e arranjada, a bandeira da autarquia, que havia sido substituída no varandim dos Paços do Concelho pela bandeira monárquica azul e branca –  uma outra forma de assinalar o centenário da República, mais divertida, inofensiva e barata que os atropelos cometidos no Terreiro do Paço. Para cúmulo do ridículo a máscara de Darth Vader foi apreendida pelos investigadores como importante prova do processo – a gastar energias e recursos com casos de humor, como hão-de as polícias conseguir combater os casos de crime ? 

 


 


SILLY SEASON I– Este ano PS e PSD resolveram fazer blogues partidários com as próximas legislativas na mira. Os nomes são bem humorados – «Simplex» do lado do PS (www.simplex.blogs.sapo.pt)  ,«Jamais» do lado do PSD (www.jamais.blogs.sapo.pt). Ambos reúnem nomes sonantes de um e outro lado, com José Pacheco Pereira no «Jamais» a comentar a actualidade política como há algum tempo não fazia no seu »Abrupto». De certa forma estas são as versões modernas, mais livres e desabridas, do «Acção Socialista» e do «Povo Livre» - infelizmente bastante previsíveis portanto – um diz mal do outro e por aí adiante. Tudo estava assim quando João Galamba, do «Simplex» insultou em vérnaculo puro e duro João Gonçalves do «Jamais» - o que parace comprovar que do lado do PS o exemplo do argumento chifrudo de Manuel Pinho na Assembleia da República ganhou novos adeptos. Cada um fica com os actos que pratica e ao PS já ninguém tira a fama de perder as estribeiras com facilidade. 

 


 


 


SILLY SEASON II – Sócrates reduziu a actividade política a visitar, anunciar, inaugurar e intrigar. Governar deixou de existir. Até às eleições isto promete… 

 


 


EXEMPLAR  - O New York Times dedicou um extenso artigo na sua edição de terça-feira passada às investigações de uma equipa da Universidade do Minho, liderada por Nuno de Sousa, sobre o stress e as alterações de comportamento que ele induz. O artigo do diário norte-americano reproduzia excertos do artigo de Nuno de Sousa para a revista «Science». Se quiserem ler o New York Times vão aqui: http://bit.ly/3C3Kv5 . 

 


 


PETISCAR – Quando se vai à praia o objectivo, regra geral, é descontrair e descansar. Não há portanto razão para que uma ida a um bar ou restaurante de praia seja uma canseira; não há razão, mas muita vez isso acontece mesmo. Felizmente não é o que se passa em Alfarim no restaurante Onda Azul. O Onda Azul é injustamente subalternizado pelo mais conhecido Bar do Peixe, mas cá para mim até anda melhor, sobretudo no petisco. A salada de polvo é muito melhor no Onda Azul e umas cadelinhas e uns mexilhões que experimentei estavam absolutamente irrepreensíveis. Serviço rápido., simpático, um óptimo pão de uma localidade ali perto, Caixas, bem cozido, estaladiço, miolo denso, bom para ensopar no molho dos mexilhões. Ainda por cima preços comedidos e imperial bem fresca. 

 


 


OUVIR – Banda sonora oficial do verão (ainda válida até finais de Setembro) – a nova colectânea «!Salsa! » da Putumayo, uma editora especializada em World Music dançável, assumidamente pop e divertida. Aqui estão alguns clássicos interpretados por grupos como o do colombiano Diego Galé, do mexicano Poncho Sanchez, do cubano Chico Alvarez ou do americano Eddie Palmieri, entre outros. As capas da Putumayo são sempre fantásticas e coloridas, os alinhamentos são pensados para divertir quem ouve – esta é das minhas editoras preferidas, felizmente a FNAC tem geralmente uma boa selecção das suas edições. 

 


 


LER – De Peter Carey havia lido há pouco um genial relato de uma viagem ao Japão, «O Japão é Um Lugar Estranho». Quando este novo livro apareceu aí fui eu comprá-lo e dou por muito empregue o dinheiro que paguei por  «Roubo – Uma História de Amor». A escrita de Carey, já sabia, é arrebatadora; mas um romance é muito diferente de um relato de viagem, e aqui Carey dá largas à sua imaginação delirante, com um enredo onde as situações inesperadas se sucedem. «Roubo – Uma História de Amor» é um romance divertido, com a acção a decorrer a um ritmo empolgante, com situações francamente inesperadas que se sucedem . É irresistível e prende a atenção do princípio ao fim das suas 300 e poucas páginas. 

 


 


BACK TO BASICS – A verdadeira vida de uma pessoa é, frequentemente, a que ela não comanda (Oscar Wilde).