maio 31, 2008

O PÚBLICO

Leio o diário «Público» desde o primeiro dia. Já foi o melhor diário português, já há uns anos que não é. Notícias que reportam pouco e comentam muito são o pão nosso de cada dia. Mas o pior veio na edição de hoje, com a frase de abertura da chamada de capa a prpósitodo »Rock In Rio», na qual, se escreve que Amy Winehouse não desiludiu. O jornalista esteve lá? Ouviu? Viu - nem que fossoe na Sic notícias? O «Público» tem uma equipa de marketing eficaz, uma direcção comercial combativa, mas tem uma direcção editorial que se abstém de editar o jornal, entretida que está em opinar. No «Público» cada vez se lêem menos notícias.

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Maio)

COMBUSTÍVEIS I – As mudanças de posição de membros do Governo sobre a questão dos combustíveis sucederam-se ao longo da semana, à medida que os protestos dos consumidores, aqui e no resto da Europa, crescem de forma assinalável. Da inicial impossibilidade de alterações até ao pedido formal a Bruxelas para que implemente alterações, viu-se de tudo um pouco. Só falta começar pelo básico, que é acabar com a dupla tributação nos combustívies em Portugal: sabem que o IVA é aplicado não ao preço do combustível, mas à soma do preço de venda do combustível, com o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, o que quer dizer que cerca de metade do IVA decorre da sua aplicação a uma outra receita fiscal? Quando se trata de roubar e abusar o Ministério das Finanças nunca hesita. O que é engraçado é ver quem são os defensores destas cobranças abusivas e da imutabilidade do ISPP… (já depois de publicado: a Galpa baixou um cêntimo por litro, no dia a seguir à Repsol ter aumentado para ficar próxima dos preços da GALP - ele há coincidências, não é?)


 


COMBUSTÍVEIS II – O Governo anda muito atarefado a explicar que o preço dos combustíveis em Portugal não está muito afastado da média europeia. Eu acho que a conta que interessa fazer é o afastamento existente em relação aos nossos vizinhos espanhóis. É o preço deles que nos importa em primeiro lugar  - ou estarei a ver as coisas ao contrário? E por falar em médias europeias, quando é que o Governo começa a falar dos casos em que nos afastamos de forma gritante dessas médias, e que são, cada vez mais, a maioria? 

 


 


PSD – A questão dos combustíveis e da crise que eles desencadeiam tem sido um precioso instrumento de análise dos candidatos do PSD. De um lado os que privilegiam a imutabilidade do sistema, do outro quem pensa que novas situações exigem novas soluções, como é o caso de Pedro Passos Coelho. Já que estou neste tema, e para fugir aos combustíveis, foi com algum prazer que vi que Passos Coelho é o único dos candidatos que dedicou um capítulo da sua proposta estratégica a questões culturais, colocando ainda por cima em destaque a necessidade de melhorar a Lei do Mecenato. Mais uma razão para achar que ele é o melhor candidato. 

 


 


ATRASO – Está a dar que falar a situação de atraso no pagamento dos projectos de investigação já aprovados, nomeadamente na área da investigação biológica aplicada à agronomia. Mas não é caso único – Mariano Gago começa a dar nas vistas pela incapacidade de o seu Ministério cumprir os compromissos assumidos. Há investigadores, de várias áreas, que já desesperam… 

 


 


NÃO VOU – Desde o início tenho um posição sobre o Rock In Rio – eu não vou. Acho que a Câmara de Lisboa deu mais apoios a estrangeiros para fazer um festival que a portugueses, e repugna-me a forma como utilizam a máscara da solidariedade para uma operação exclusivamente comercial. Este ano até mascararam um palco com painéis solares desligados para fazer de conta que se preocupam com o ambiente. Os obreiros desta operação de contornos e benefícios mais que duvidosos querem agora convencer o Presidente da Câmara de Lisboa a deixá-los construir, em permanência, uma cidade do rock. E pretendem muitos apoios, claro.  (Já depois de publicado: O Rock In Rio não é um festival de música, é um pot pourri em que a música é apenas um pretexto, como se viu na noite de estreia com a previsivelmente confrangedora actuação de Amy Winehouse)


LER – A capa da edição de Junho da revista «Vanity Fair» é dedicada a Robert Kennedy, assassinado em campanha eleitoral há 40 anos. Destaque para um conjunto inédito de fotografias da campanha, acompanhado de um relato do dia a dia dessa batalha política que levou à morte do candidato. Neste tempo de escolhas políticas é engraçado ver o que nessa altura era considerado renovação. Muitas lições a aprender. Ainda nesta edição um belo artigo sobre Karl Lagerfeld e fotos de Annie Leibowitz e de Bruce Weber. 

 


 


OUVIR – Gustavo Dudamel é um jovem maestro venezuelano apontado como um dos mais brilhantes da sua geração (nasceu em 1981, tem 27 anos), que se tornou notado pelas suas interpretações, gravadas, das 5ª e 7ª Sinfonia de Beethoven e da 5ª de Mahler. Agora, acompanhado pela Simon Bolívar Youth Orchestra of Venezuela, dedicou-se ao repertório popular da América Latina e o resultado é um disco cheio de ritmo, vida, arranjos orquestrais fantásticos e um ar de festa permanente. – não há-de ser por acaso que este disco se chama «Fiesta». Aqui estão temas de quatro compositores venezuelanos, dois mexicanos , um argentino e o clássico «Mambo» de Leonard Bernstein numa interpretação arrebatadora. O disco é uma surpresa, ouve-se vezes de seguida e merece ser descoberto. «Fiesta» de Gustavo Dudamel, CD Deutsche Grammophon. 

 


 


VER – Por estes dias é obrigatório ir seguindo o site da NASA (www.nasa.gov) para ver a evolução das imagens recolhidas pela sonda Phoenix e, também, para a ver em acção, filmada de cima, por um outro satélite que orbita sobre Marte. É uma emoção ver o solo de Marte, ver imagens de outros mundos. 

 


 


PETISCO – Tenho uma velha curiosidade por conservas pouco vulgares e ao longo dos anos já provei muitas codornizes de conserva. Mas confesso que nenhumas foram tão boas como as «Codornices escabechadas da Abuela Juliana», de impecável ponto e tempero. Cada lata tem duas de bom tamanho, o suficiente para fazer um delicioso petisco ao jantar, acompanhado por uma boa salada. Esta marca de conservas, espanhola, «Abuela Juliana», existe nas lojas Jumbo. 

 


 


BACK TO BASICS – «Na economia pós industrial o principal contributo são as ideias, o trabalho mental. O impulso humano para criar é a chave para a inovação económica» - Richard Florida. 

 

maio 29, 2008

COINCIDÊNCIAS

Estava aqui a pensar que não deixa de ser coincidência que uma das principais concorrentes da Galp tenha decidido colocar o seu preço de venda ao público quase igual ao da concorrência, no mesmo dia em que o Primeiro Ministro vai ao Parlamento debater o preço dos combustíveis. Por acaso esta empresa fez aumentos em dois dias seguidos para ficar a par da Galp. Não está a decorrer uma investigação sobre cartelização?


 

maio 28, 2008

PORQUE É QUE AS DIRECTAS DO PSD INTERESSAM A TODOS?

(Publicado na edição de quarta 28 de Maio do diário «Meia Hora»)

 


Um dos grandes problemas da sociedade portuguesa reside no progressivo bloqueio do sistema político-partidário. Este bloqueio tem muitas causas, a começar na forma como os partidos se constituíram em 1974 – muito fulanizados, construídos em torno de personalidades fortes, com programas políticos e ideológicos pouco cuidados e muito dependentes do enquadramento e das limitações da época.


Ao fim de 34 anos mudaram os protagonistas, mas na essência não mudou a forma e o funcionamento do sistema e, pior, agravou-se a indefinição política e ideológica, sobretudo naquilo a que se convencionou chamar de Bloco Central. Acresce que a adesão à Comunidade Europeia e a integração na Zona Euro vieram ainda mais contribuir para apagar as diferenças entre PS e PSD. Num resumo breve o PS virou um pouco à direita e o PSD um pouco à esquerda. Encontraram-se ao centro, à sombra de um Estado – português e europeu – demasiado presente.


O actual processo eleitoral interno do PSD é por isso um tema que não interessa apenas ao seus militantes, é importante para todos os que gostam de exercer a cidadania mediante escolhas políticas. De uma certa forma, todos nós somos políticos – ou temos o dever de o ser, porque temos o dever de participar nas decisões que nos afectam a todos.


Os militantes do PSD têm este fim de semana esta responsabilidade: a de não olhar apenas para as directas como uma disputa interna, mas sim como um processo de renovação da actividade política em Portugal, de afirmação de uma identidade própria ao seu partido, que o diferencie do PS de forma clara. A questão não é simples: o êxito futuro do PSD depende de uma escolha que provoque mudanças, que afirme a diferença e que seja capaz de atrair aliados e alargar o campo de influência partidário. 


Por isso, eu que não sou filiado em nenhum partido, baseado no que é a história de cada candidato e nas propostas que agora apresentam, acho que a escolha de Pedro Passos Coelho é a que melhor pode contribuir para que o PSD tenha um papel activo e dinâmico na renovação do sistema político e partidário e para que possa contribuir para tirar o país do impasse onde nos encontramos. Na realidade Pedro Passos Coelho é o único que traça um caminho diferente e essa é a sua grande vantagem. E esse caminho, outra vantagem, não passa pelo Bloco Central. 

 

 

maio 26, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Maio)

PSD – Quando se quer debater, aparece-se. Esteja quem estiver. No Porto dois candidatos não quiseram aparecer num debate. Se não é agora que se vão trocar ideias, quando é? Ele há quem, nesta disputa, queira separar os candidatos entre os de primeira e os de segunda. É mau sinal, muito mau sinal. 

 


 


PERGUNTAS – Houve uma remodelação no Ministério da Cultura no dia 30 de Janeiro. Desde então, que novas medidas foram tomadas? Que novas políticas vão ser seguidas? Que foi – ou vai ser - corrigido da actuação que levou à saída da anterior Ministra? Qual o balanço dos primeiros cem dias do novo Ministro? A cultura não faz parte da agenda política do Governo? Se fosse noutros tempos não haviam de faltar críticas de inacção… Nem os tristes episódios da Feira do Livro tiraram o Ministro do seu silêncio – mesmo sabendo que noutros tempos outros titulares da pasta da Cultura não hesitaram em querer agitar a monotonia que a APEL gosta de impor. 

 


 


SINTOMA – Na semana passada mais do que um amigo meu me disse que cada vez que assiste à abertura dos noticiários da noite fica com vontade de não viver aqui. Isto está a ficar triste, o país esvai-se nos problemas do dia a dia. 

 


 


DIFERENÇA – No tempo em que Dalila Rodrigues estava no Museu Nacional de Arte Antiga a Noite dos Museus era um acontecimento onde as teias de aranha da veneranda instituição eram varridas, onde propostas contemporâneas tinham as honras da noite e onde sons actuais faziam a festa, chamando efectivamente novos públicos que nessas ocasiões descobriam o espaço, os jardins, as colecções. Era uma festa, aberta e diferente. Este ano voltou tudo ao ram ram antigo, com um solene jantar e um não menos solene concerto de música antiga. Sinais dos tempos. Tristes sinais. 

 


 


DESCOBRIR – Sugiro que entrem no site do Meo e escolham a opção «Assume o Comando». Ou então vão direitos a http://jatens.meo.pt e sigam as instruções. É absolutamente genial, é um site interactivo brilhante, com os Gato Fedorento versão espacial a entrarem directamente em contacto consigo. Parabéns PT, parabéns à equipa do Meo. Com sites destes futuro não é uma palavra vã. 

 


 


VER – Já vi muitos filmes de concertos rock mas nenhum chega aos calcanhares deste «Shine A Light» de Martin Scorsese, que regista um concerto dos Rolling Stones no final de 2006, no Beacon Theatre de Nova York. É um trabalho notável, em primeiro lugar de captação de imagem, depois de edição, não esquecendo a recolha de depoimentos antigos. Martin Scorsese rodeou-se de uma equipa brilhante que fez um filme extraordinário: um concerto, na prática, visto de dentro do palco, os músicos a olharem uns para os outros, as câmaras nos seus planos visuais. Colaborações especiais de Jack White (dos White Stripes), Buddy Guy , Christina Aguillera e de… Bill Clinton. Versões fantásticas de temas como «Faraway Eyes», «Brown Sugar», «Sympathy For The Devil» e de «As Tears Go By», uma canção originalmente composta pelos Stones para Marianne Faithful. À data da gravação deste filme Mick Jagger e Keith Richards tinham 63 anos, Charlie Watts 65 e Ron Wood era o benjamim, com 59. Não percam o filme, de preferência numa sala com bom som. Ou então guardem-se para quando sair uma cópia em Blue Ray. 

 


 


OUVIR – As «coplas» são pequenas canções, um género musical muito popular em Espanha, histórias de amor e ciúme, de orgulho e solidão, de morte e de dor, histórias que começam e acabam em três ou quatro minutos, hoje em dia muito populares também na América Latina e sobretudo no México. Rafael Alberti, Federico Garcia Lorca e António Machado são alguns dos grandes poetas que escreveram letras para «coplas» que ficaram célebres. Admirador confesso das coplas, a que chama «mini-óperas», Plácido Domingo reuniu uma selecção de 13 das suas preferidas no seu novo CD «Pasión Española», no qual é acompanhado por José Maria Gallardo del Rey à guitarra e pela Orquestra da Comunidad de Madrid. Muito bom para comer umas tapas num fim de tarde, a olhar para as cores primaveris e a fazer de conta que estamos num país menos cinzento. (CD Deutsche Grammophon, Universal Music). 

 


 


 


PETISCOS – Nesta altura do ano gosto das giestas, das papoilas, dos malmequeres, das alcachofras que começam a rebentar. António Barreto sublinharia os jacarandás, eu limito-me a dizer que estas cores todas são o sinal de que já aí estão dois dos bons petiscos da estação: as sardinhas e os caracóis. Nos tempos que correm estou para ver como neste final de Primavera dois dos mais típicos petiscos portugueses vão escapar à fúria da ASAE. Ainda teremos sardinhas assadas na grelha à beira da estrada por muito tempo? Caracóis tirados de grandes panelões para acompanhar uma imperial? Sócrates, que é quem manda na ASAE, deixar-nos-à ainda petiscar? 

 


 


BACK TO BASICS – A política não é uma má profissão: quando se tem êxito é-se recompensado, e quando se falha pode-se sempre escrever um livro – Ronald Reagan. 

 

CÍNICOS E CRUÉIS

(Publicado no diário Meia Hora de 21 de Maio)


Palavra de honra que a culpa não é minha: depois do que aqui escrevi na semana passada, não contava voltar a falar de novo da ASAE e do seu  inexcedível Sr. Nunes. Mas a realidade é que as notícias de vilezas praticadas pela ASAE aparecem a toda a hora e, depois, já se vê, o assunto volta à baila.


No fim de semana surgiram notícias de que a ASAE apreendeu e mandou destruir alimentos que tinham sido oferecidos a Instituições de Solidariedade Social (entre eles lares de terceira idade), apenas baseada no não cumprimento de regras e sem qualquer análise. Soube-se que a ASAE sujeita essas instituições às regras que impõe por todo o lado, sem sequer querer saber se têm condições para fazer o investimento necessário, sem procurar soluções transitórias.


Esta acção da ASAE mostra um organismo dirigido para actuar de forma cruel e desumana, apenas interessada em cumprir objectivos – os tais mapas de objectivos que o Sr. Nunes diz não estarem em vigor.


Este caso de perseguição e ataque a organismos de apoio aos mais carenciados é a peça que faltava para mostrar o processo de deturpação de objectivos que o Sr. Nunes empreendeu na ASAE. Evidentemente é necessário que exista e actue uma entidade que fiscalize condições sanitárias de estabelecimentos e de alimentos, mas ainda é mais necessário que essa entidade tenha bom senso e não tenha uma actuação desproporcionada. A ASAE é forte para com os fracos e fraca para com os fortes. Delicia-se a perseguir quem tem poucos recursos para se defender. É ao mesmo tempo polícia, juiz e carrasco, numa intolerável actuação que ignora as mais elementares regras da sociedade em que vivemos, tendo por cartilha única regulamentos europeus lidos de forma burocrática.


Não sei se José Sócrates e Manuel Pinho já repararam numa coisa: enquanto derem cobertura à forma de actuação da ASAE e ao padrão que o Sr. Nunes lhe imprimiu, para os efeitos práticos são eles próprios que cometem os excessos, os desmandos desumanos e a crueldade que é dificultar o trabalho de organismos de apoio social. É como se fossem eles próprios a deitar fora os alimentos que as populações oferecem a estas instituições ou a mandá-las encerrar sem cuidar de quem lá é assistido. O silêncio que têm sobre esta matéria é de um cruel cinismo e de um intolerável desprezo para quem os elegeu. Espero que do próximo programa eleitoral de Sócrates constem as medidas da ASAE que ele protege. Assim, pelos menos, os eleitores saberão o que os espera. 

 

maio 20, 2008

Mais vale agora

Se Pedro Passos Coelho fôr o próximo lider do PSD estou disposto a filiar me no partido. e mais vale dizer isto agora do que arrepender me depois de não ter mostrado que acredito na possibilidade de mudança.

maio 17, 2008

(publicado no Jornal de Negócios de 16 de Maio)

 


 


EXPATRIADOS - Paris está a ficar uma cidade deprimida: depois de Ferro Rodrigues, agora vai lá instalar-se Carrilho. Como imagino que Guterres de vez em quando lá passe à procura de refugiados, o trio deve tornar a cidade numa animação. Imagino que, ao longo deste ano, tenham muita oportunidade de chorar baba e ranho a recordar Maio de 68. Decididamente o PS conquistou Paris – só que foi o PS português e não o francês…com estes, Sarkozy não precisa de se preocupar. 

 


 


CANDIDATOS - A disputa pela liderança de um partido não devia ser apenas a comparação entre a galeria de notáveis que cada candidatura apresenta. Os desafios actuais ultrapassam os créditos dos feitos passados e a sociedade portuguesa e o mundo estão a mudar tão rapidamente que qualquer dia vai ser preciso inventar um GPS político para os líderes partidários se orientarem no meio da confusão. É exactamente nestes tempos - de súbitas transformações e de crise - que o debate político se torna mais necessário para encontrar novas soluções. E é isso que se vê muito pouco no actual processo eleitoral do PSD. Nessa matéria apenas Passos Coelho faz a diferença. 

 


 


 


 


CARICATURAS – Confesso que tenho um fraquinho por caricaturas e há muito que André Carrilho é um dos meus favoritos. Se gostam do género não percam a exposição de 37 desenhos seus publicados em jornais portugueses, espanhóis, franceses e norte-americanos. Carrilho é um dos mais internacionais artistas portugueses  e estas ampliações de grande dimensão dos seus trabalhos são surpreendentes. Até 28 de Maio na Galeria do «Diário de Notícias», Avenida da Liberdade – este é aliás o jornal para onde Carrilho desenha agora  em Portugal. 

 


 


FOTOGRAFIA – Há mais fotografia para além da exposição da «World Press Photo», este ano aliás não muito excitante. Para terem outra visão das coisas vale a pena frequentar a galeria P4Photography, na Rua dos Navegantes 16. Lá encontrarão por estes dias perturbantes fotografias de Inês Gonçalves, da série «Secret Names», originalmente de 2000, resultado de uma encomenda feita na altura por um Museu de Badajoz. Aguarda-se que Inês Gonçalves, felizmente regressada às exposições, apresente a de novo a sua série sobre Cabo Verde, exposta uma única vez por ocasião da Expo 98. 

 


 


BOAVISTA – Não, não vou falar da crise do futebol. Vou apenas chamar a atenção para o que se passa no número 84 da Rua da Boavista, em Lisboa, entre Santos e o Mercado da Ribeira. Nesse prédio coexistem três espaços de exposição, todos ligados a Victor Pinto da Fonseca. A actual série apresenta um conjunto de artistas e obras que merecem atenção. Na VPF – Cream Art Gallery, Frederico Ferreira propõe imponentes esculturas/colunas de som, animadas com a sonoridade dos Blasted Mechanism; no espaço Rock Gallery, dedicado a novos artistas, Nádia Duvall  (Prémio Pintura Banif- Revelação 2008)  mostra trabalhos baseados num processo de reacções químicas e configurações orgânicas, assente num minimalismo de fundos e cores; e, na «Plataforma Revolver» está uma perturbante e imperdível exposição sobre a interculturalidade, «Novas Geografias», de Mónica Miranda. Tudo até 14 de Junho. 

 


 


MONTANHAS – Cristina Ataíde apresenta «Manual de Instruções» na Zoom – Galeria Carlos Carvalho, Rua Joly Braga Santos Lote F, a Sete Rios, Lisboa.  É uma exposição inesperada onde a artista propõe obras transformáveis, segundo o manual de instruções que acompanha cada uma. Continuando a misturar materiais, Cristina Ataíde cruza o efémero dos pigmentos com a perenidade do bronze, tendo a transformação das montanhas e acidentes geográficos como pano de fundo de todo o jogo proposto. Destaque para a série dos bronzes isolados e para um desenho de grandes dimensões, espécie de mapa de todas as ideias deste «Manual de Instruções». 

 


 


RELEVOS – A pintura de Jorge Humberto (que durante uns anos assinou Joh) tem sido feita de relevos e da cuidadosa procura de um espaço tridimensional sobre as telas, mercê de um laborioso processo de trabalho. É neste rumo que ele prossegue, depurando cada vez mais a utilização da cor e, nesta nova exposição, avançando naturalmente no caminho da escultura, como que deixando as formas saírem finalmente das telas. «Clairevoyance» pode ser vista na Galeria Jorge Shirley (Largo Hintze Ribeiro 2E (Ao cimo da Rua de S. Bento, perto do Rato). 

 


 


ALMOÇO – Tenho um fraquinho por restaurantes que ficam em hotéis. Come-se bem, o serviço é bom, há espaço nas mesas, não há muito barulho. São, geralmente, bons locais para almoços tranquilos. No renovado Tiara Park Hotel, Rua Castilho, (ex Méridien), o restaurante L’Appart é uma boa surpresa. O chefe Eddie Melo inspira-se na tradição culinária portuguesa e trabalha com mão delicada pratos como medalhões de lombo ou choquinhos à algarvia, garantindo que se consegue conjugar sabor com leveza. Para quem quiser há um amplo buffet de frios e outro de sobremesas.  

 


CANTO – Ledisi Anibade Young, conhecida pelo seu primeiro nome, é uma cativante cantora de jazz, que vem da área dos rhythm’n’blues e que cruza influências do hip hop. É co-autora e co-produtora das canções que interpreta neste seu terceiro álbum, «Lost And Found». Tem um sentido rítmico invulgar e utiliza a voz para o pontuar num estilo que, por vezes,  faz lembrar Ella Fitzgerald e que já lhe valeu um Grammy em 2007. CD Verve/ Universal. 

 


 


BACK TO BASICS – A coisa mais importante em comunicação é conseguir ouvir aquilo que não está a ser dito (Peter Drucker) 

 

A MENTIRA COMO FORMA DE VIDA

(Publicado no diário Meia Hora de 14 de Maio)

 


Desde há cerca de duas semanas a imprensa vem publicando informações sobre a existência de documentos, oriundos de uma Direcção da ASAE que está na dependência orgânica do seu Presidente, que indicam metas a at9ingir no domínio, exclusivamente, da actividade repressiva daquela organização.


Não voiu aqui perder tempo com o que é evidente: a mentalidade persecutória do Sr. Nunes, a forma como ele sempre quis aparecer, a imagem que promoveu de si próprio: uma pessoa sem escrúpulos, de pensam,ento reduzido, que preferia incentivar acções repressivas em vez das preventivas. O Sr. Nunes, no decurso do último ano, tornou-se o estereotipo da pessoa que mada e quer ser obedecido, que não quer que ordens sejam p3ensadas enm discutidas.


N a edição de sábado o semanário «Expresso» reproduzia um detaslhado documento da ASAE onde todas as metas eram quantificadas: em prisões, encerramentos, multas, todo o arsenal de medidas repressivas. Era uma folha de c+álculko da perseguição.


O Sr. Nunes desde há semanas que anda a desmentir a exist~encia destes dados – ao início dizia que eram fantasia, agora já rectificou a dizer que era um documento de trabalho (apesar de o ficheiro divulgado nãoi ter nenhuma indicação nesse sentido) e, mais cobarde ainda, insinua que o caso não seria da sua responsabilidade mas de um seu subordinado, quando se sabe que a responsabilidade da Direcção que elaborou o documento é dele próprio.


Apesar de esfarrapadas, as tentativas de manipulação dos facytos do Sr. Nunes ainda podia merecer alguma atenção, não fosse a evidência dos últimos meses, as acções que ele tanto propagandeou, em que tanto gosta de aparecer. É que este documento agora divulgado é tão só o complemento das acções que a ASAE tem desenvolvido: de armas na mão invade mercados, encerra fábricas de produtos artesanais e restaurantes, lança o medo, tem por único objectivo reprimir, perseguir castigar. O documento limita-se a colocar isto em papel. E como a acção que o Sr. Nunes tão bem propagandeou corresponde ponto por ponto ao documento, a única conclusão é que os desmentidos que o Sr. Nunes agora faz são uma evidente aldrabice.


O Sr. Nunes não é um cidadão qualquer – é um alto funcionário do Estado. E o Estado não pode ter em lugares de direcção pessoas que têm uma mentalidade repressiva, que usam a mentira quando são descobertos a errar, que persistem a querer esconder a verdade. O Sr. Nunes não tem vergonha – pede para si próprio a tolerância que nunca deu aos outros, que encerrou e perseguiu. O Sr. Nunes é a imagem do poder do Governo Sócrates no seu pior – é um sem vergonha autoritário, abusador e repetidamente enganador, que se recusa a admitir as suas responsabilidades. Ao Primeiro Ministro e ao Ministro Manuel Pinho apenas resta demitir o Sr. Nunes e colocar a ASAE num caminho honesto onde ela nuna esteve. 

 

maio 10, 2008

PROVINCIANISMO, ABUSO, OBSERVAÇÕES

 


(Publicado no «Jornal de Negócios» de 9 de Maio de 2008)


 


 


LISBOA – Mau, mas mesmo mau, é o fim do «África Festival», uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa que existiu durante três anos e que se destinava a fomentar o papel da capital como plataforma do multiculturalismo e como ponto privilegiado de divulgação da música africana na Europa, nomeadamente dos países de expressão portuguesa. O primeiro golpe no Festival foi dado pelo anterior vereador Amaral Lopes, a equipa de António Costa liquidou-o argumentando com a falta de disponibilidade orçamental. A questão dos orçamentos insuficientes da Câmara Municipal tem que ser vista à luz da gestão de prioridades: para Lisboa é mais importante uma iniciativa de repercussão internacional como o «África Festival» ou as xaropadas em que o vereador Manuel Salgado gasta verbas no encerramento forçado da Praça do Comércio ao Domingo, ao que consta preparando até iniciativas orçamentalmente pesadas para o segundo semestre do ano?. Não seria preferível manter o Festival e a sua equipa, o seu nome, a tradição e imagem já acumuladas, mesmo que com menor investimento, e provavelmente num local de custos mais reduzidos (como era originalmente), no auditório Keil do Amaral, em Monsanto? Ainda vamos ver outro dos munícipios à volta de Lisboa a pegar na ideia, como já aconteceu por exemplo com a «Moda Lisboa». Esta equipa autárquica da capital parece apostada em liquidar tudo o que tenha notoriedade internacional (declaração de interesse: fui o criador do conceito do «África Festival» e responsável pela sua criação e primeira edição, à época em que fui administrador da EGEAC). 

 


 


ABUSOS NA ALFÂNDEGA E CTT – No último mês encomendei à Amazon norte-americana dois livros escolares, especializados. Pois tive que pagar à alfândega portuguesa cerca de sete euros por cada um - à volta de quatro euros de IVA e três euros de impressos e taxas diversas, incluindo um impresso de quase dois euros (!!!???). Além disso por cada livro ainda paguei duas verbas aos CTT, cerca de três euros de uma taxa de apresentação à alfândega mais quinze cêntimos que aparecem no detalhe da alfândega sob a designação «CTT Portugal». Em ambos os casos a descrição da alfândega classificava os livros (um sobre marketing e outro sobre programação de computadores) como «álbuns de Banda Desenhada, Álbuns Anuais de Selos, etc». Mais: no decurso deste processo a alfândega ou os CTT retiveram em seu poder a factura original de envio da Amazon, nem sequer forneceram cópia, pelo que nem prova de pagamento, nem descrição exacta é dada ao comprador. Quer dizer, roubaram-me, nas duas ocasisões, um documento pessoal que entre outras coisas me servia para certificar a natureza efectiva dos livros. Ora digam lá: se isto não é desprezo total pelos cidadãos – da parte da Alfândega e dos CTT – o que será?  


 


 


 


DESILUSÃO – Fã de Bruno Nogueira na rádio, foi com expectativa que segui a estreia de «Contemporâneos» na RTP. Pois foi uma desilusão, humor substituído por graçolas, um conceito visual falho de ideias, na realidade um momento de televisão falhado. Às vezes as estreias são assim e depois as coisas melhoram. Resta aguardar. 

 


 


OUVIR – O novo disco do saxofonista John Carter, «Present Tense», o primeiro em três anos, é uma arrebatadora colecção de temas cheios de swing, no entanto com uma sonoridade muito contemporânea. O disco inclui três originais de Carter e uma selecção de sete temas de nomes como Djando Reinhardt, Jimmy Jones, Walter Gross, Dave Burns e o sempre arrebatador «Song For Delilah» de Victor Young a Ray Evans. Cárter tem sido considerados como um dos mais inventivos e virtuosos sax barítonos da actualidade e neste disco toca também flauta. Um dos seus temas originais «Bossa J.C.» é uma bela surpresa. CD Emarcy/ Universal. 

 


 


 


LER – Merece atenta leitura artigo de Augusto M. Seabra na sua habitual rubrica «O Estado da Arte» da revista online www.artecapital.net , este mês sobre a situação existente na Fundação Gulbenkian em relação às áreas artísticas, nomeadamente na música e no Centro de Arte Moderna. É uma análise do que se passa e, mais importante, uma perspectiva dos problemas futuros. 

 


 


PETISCAR – Melhor ainda que as lojas Gourmet, são as pequenas lojas de produtores que disponibilizam produtos de outras regiões. Na Quinta do Anjo (Palmela), recomendo uma visita à Casa Agrícola Horácio Simões, Rua São João de Deus, mesmo ao lado da junta de freguesia. Doces caseiros, bons queijos artesanais de Azeitão, queijos e enchidos do Alentejo, farripas de laranja cobertas a chocolate de Setúbal, variados doces regionais. E, claro o afamado Moscatel Roxo que Horácio Simões produz na sua adega e que tem ganho notoriedade internacional. 

 


 


IDEIA – Os treinadores de futebol deviam ser pagos face aos resultados obtidos: competições conquistadas, lugar obtido nas tabelas, pontos obtidos, comportamento em competições internacionais. Talvez assim as coisas fossem de outra maneira. 

 


 


 


BACK TO BASICS – O poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente – frase de Maio de 1968 . 

 

maio 08, 2008

PSD: ESCOLHER ENTRE O IMEDIATISMO E A ESTRATÉGIA

(publicado no diário «Meia Hora» de 7 de Maio)


A situação no PSD pode ser um bom momento para se perceber como poderá evoluir o sistema político-partidário português nos próximos anos. A situação criada pela demissão de Luís Filipe Menezes criou espaço para estas mini-primárias, que decorrerão até ao final do mês.


O que está em jogo em cima da mesa é eleger um líder partidário, que será igualmente o candidato a Primeiro Ministro nas legislativas do próximo ano, o responsável pelos outros próximos processos eleitorais (europeias e autárquicas) e, também, o responsável pela constituição do próximo grupo parlamentar do PSD, o que não é de todo uma questão menor e, em determinadas circunstâncias (por exemplo não conseguir derrotar Sócrates), é mesmo decisivo para o futuro do partido.


Na realidade, apesar do pouco tempo para o processo, o que está em jogo nestas directas do PSD é muito mais o médio-longo prazo que o imediatismo do curto-médio prazo. Por isso mesmo era bom que o debate se centrasse em questões estratégicas e políticas, e saísse da esfera em que está, essencialmente centrado em torno de pessoas, das suas reputações, histórias, intenções ou memórias. Se é certo que as pessoas são importantes, não é menos certo que o problema maior do PSD nos últimos anos está na diminuição do seu espaço político, na ausência de ideias novas, da sua descaracterização. Falando claro, o PSD perdeu valor enquanto marca, perdeu posicionamento. É preciso uma espécie de processo de rebranding, não no sentido de mudar de logótipo nem de colocar apenas uma cara nova nos cartazes, mas sobretudo em apontar uma nova missão e novos valores, procurando credibilizar o produto político – desculpem a linguagem «técnica», mas neste caso ela adequa-se bem à situação.


Na conjuntura actual, em que Sócrates ocupou o centro-direita e pegou em muitas questões que eram bandeiras do PSD, o novo líder social-democrata terá que mostrar que não é igual a Sócrates, que tem alternativas concretizáveis e uma linha política que seja capaz de voltar a congregar vontades, unir os militantes e conquistar independentes.


Da maneira que as coisas estão não é tarefa fácil levar o PSD a encontrar o seu lugar.


A tentação do conforto e segurança que as opções «regresso ao passado» apresentam, podem aparentemente parecer as mais seguras, mas arriscam-se também a ser as mais desmotivadoras – sobretudo quando se evita discutir política e ideias. E o fundamental, para assegurar a vida para além dos próximos feriados de Junho, é discutir propostas políticas e ideias, e não apenas pessoas. 

maio 05, 2008

O SEXO E MAIO DE 68

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 2 de Maio)




AGORA - Se pensam que Maio de 68 mudou o mundo, o melhor é olharem para estes últimos anos, desde o 11 de Setembro de 2001: emergência do fanatismo religioso, escalada no preço do petróleo, instabilidade bolsista, o crescimento da China e Índia e os reflexos no resto do planeta, a derrocada do sistema financeiro, o descontrolo no preço dos alimentos: estes dez primeiros anos do último milénio prometem deixar mais marcas que os últimos 32 do milénio passado.


 
ANTES - E, no entanto, 1968 foi um ano marcante: A Primavera de Praga e a chegada de Dubcek ao poder levaram à invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, desencaderam a crise na heterodoxia comunista e significaram o princípio do fim do império soviético.  No mesmo ano, nos Estados Unidos, foram assassinados em atentados Martin Luther King e Robert Kennedy Jr. Para além da França, manifestações diversas, mas significativas, ocorreram na Itália, na Alemanha, no Brasil e no México, quase sempre a partir das universidades – eram jovens nascidos por volta de 1950, frutos dos casamentos do pós guerra e da súbita evolução da sociedade e dos costumes. Em 1967 os hippies, acabados de surgir, tinham lançado ao mundo o slogan « Make Love, Not War».


Nesse tempo, as notícias chegavam mais pela rádio e pela imprensa que pela televisão, e as imagens do que se passavam no mundo vinham nas revistas. O meu Maio de 1968 foi marcado pelas edições especiais do «Paris-Match» e do «L’Express» que cá chegavam, e que mostravam o que de outra maneira não se conseguia ver. 


A ORIGEM  - Maio de 1968 não foi um fenómeno súbito, teve a ver com dois movimentos essenciais que se cruzaram: em primeiro lugar o pacifismo, alimentado nos protestos contra a guerra do Vietname; e, em segundo lugar, a reivindicação de liberdade sexual e a recusa da autoridade.


É curioso recordar como tudo começou, em França, nesse ano de 1968: Paris-Nanterre era uma Universidade periférica, para onde eram arredados os que não haviam conseguido ingressar na Sorbonne ou em outras prestigiadas escolas superiores do centro de Paris. Era o que se podia dizer uma universidade contestatária: tinha-se indignado com a morte de Che Guevara em finais de 67, protestava regularmente contra a guerra do Vietname e devorava com avidez as notícias da Revolução Cultural que Mao Tse Tung dirigia na longínqua e enigmática China.


Mas na realidade o rastilho dos primeiros incidentes da Universidade de Paris-Nanterre (que foi onde tudo se iniciou) foi inflamado pela proibição, em Março de 1968, pelas autoridades académicas, de uma conferência sobre a obra de Wilhelm Reich, um psicanalista de origem austríaca que preconizava que os adolescentes deviam viver livremente a sua sexualidade e, de uma forma geral, defendia a liberdade sexual. A revolta começa contra as autoridades académicas, conservadoras, que não viam nas teorias de Reich nada que merecesse ser discutido numa Universidade. No centro das suas teorias estava o «orgónio», uma forma de energia que derivaria directamente do acto sexual e do prazer nele obtido. Reich morreu, só e desacreditado, em 1957, nos Estados Unidos, mas em meados dos anos 60 as suas principais obras foram reeditadas e ganharam uma súbita segunda vida. Foi, em parte, o mentor involuntário do célebre Verão do Amor, na Califórnia, em 1967. A originalidade e liberdade do  Festival de Monterrey e os slogans «Make Love Not War», chegaram à Europa com uns meses de atraso. Mas chegaram com força. 




A UTOPIA - Foi também esse o tempo suficiente para que em Paris se desse pela obra de Herbert Marcuse, o livro «O Fim da Utopia», publicado em 1967 nos Estados Unidos. Ao contrário de Engels, que defendia que o socialismo avançava a partir do utópico para uma análise científica da sociedade, Marcuse desejava resgatar o valor mobilizador das utopias – o slogan «A Imaginação Ao Poder», que inundou as paredes de Paris nesse Maio, tinha aqui as suas verdadeiras origens. Marcuse, que vivia nos Estados Unidos, estava na vanguarda dos teóricos da nova esquerda, que renegavam o papel do proletariado das sociedades industriais na revolução, acusando-o, com muita justeza, de estar acomodado ao consumismo. Para ele os agentes da transformação social deveriam ser os que estavam fora dos compromissos sociais estabelecidos, os estudantes, as minorias étnicas, os intelectuais que continuavam a ser livre pensadores. Aqui não havia uma ideologia, apenas um protesto, e desses grupos sociais é que, ainda que inconscientemente, partiria a contestação ao sistema capitalista e à ordem autoritária. Para os estudantes e intelectuais franceses isto era música celestial. Estava legitimada teoricamente a acção, coisa que como se sabe é sempre útil em França. Se a proibição da discussão da obra de Wilhelm Reich foi o pretexto, o resto nasceu pura e simplesmente do combate à autoridade e aos valores estabelecidos. E o resto foi uma enorme roda livre, uma explosão de tensões, que provocou forte susto à autoridade, mas que no entanto rapidamente se restabeleceu, como a estrondosa vitória eleitoral do General De Gaulle em finais de Julho, dois meses depois das barricadas, deixou bem claro.


Nesses meses, deu-se o declínio da esquerda tradicional, completamente ultrapassada pelos acontecimentos – o caso havia de lançar socialistas e comunistas franceses numa longa crise. O PSF era já quase inexistente e o Partido Comunista Francês demarcou-se sempre das manifestações estudantis, o que levou Jean Paul Sartre a dizer, com uma ingénua evidência: «Os comunistas temem a revolução ». Uns anos depois, seis para ser mais exacto, o mesmo aconteceu por cá. Uma parte do pós 25 de Abril foi o nosso Maio de 68, com o atraso do costume. E, como em França, no fim, a autoridade foi restabelecida. 
 

LISBOA GOVERNAMENTALIZADA

(Publicado no diário «Meia Hora» de 30 de Abril)


 


Nesta semana o Primeiro Ministro anunciou oficialmente um conjunto de importantes obras em Lisboa, que vão ter repercussões na vida dos lisboetas e que vão provocar grandes transformações numa das zonas mais importantes da cidade, Alcântara.


O mais curioso de tudo é que Sócrates fez o anúncio sozinho, sem a presença de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-membro do actual Governo. A ausência, por mais justificações que sejam dadas, é sintomática. Existe uma corrida a protagonismo nas grandes obras públicas e existe alguma precipitação no anúncio de soluções que ainda não recolheram consenso de todas as partes envolvidas. Este Governo tem tratado Lisboa como um feudo seu – diz onde quer o aeroporto que serve a cidade, onde quer a ponte, onde vai fazer obras. O problema de ter na Câmara de Lisboa um aliado do Primeiro Ministro é mesmo este: Lisboa deixou de ser governada pela sua autarquia, o centro de decisão passou da Praça do Município para S. Bento, como aliás já se tinha visto na questão da sociedade que vai gerir a frente ribeirinha, estratégica para a cidade, mas dependente exclusivamente do Governo.


Sócrates entrou oficialmente no ciclo eleitoral. Após anos de paralisia das obras públicas, agora, como que por acaso, a ano e meio das eleições, vai entrar-se numa época de grande fartura de obras fantásticas – linhas de comboios, mais auto-estradas, barragens, hospitais, nova ponte, novo aeroporto, gigantescas reformulações urbanísticas.


Desde há um século os grandes debates nacionais são em torno dos mesmos temas – que obras fazer, onde as fazer. Raramente alguém pergunta para quê fazê-las, raramente se desenhou alguma estratégia coerente de desenvolvimento sustentado. Na realidade,


sem obras nada parece funcionar, sem obras quase nem há debate político – se virmos bem, o novo aeroporto e a nova ponte foram os dois grandes momentos de polémica da sociedade portuguesa do último ano. É triste, mas é assim. A política portuguesa vive há demasiados anos enredada nos negócios em torno das obras públicas. Seja qual for o partido no poder, esta é uma sina imutável. E como os interesses em jogo são imensos, ele há momentos em que as coisas se agitam de alguma forma mais intensa, digamos.


Na realidade, o vislumbre de grandes obras públicas no horizonte pode acelerar fortes convulsões no sistema político. Estamos a viver um desses períodos. 

abril 27, 2008

UM DOMINGO EM LISBOA

TERRÍVEL – Alguns empresários portugueses gostam de enaltecer a sociedade civil. É uma coisa que só lhes fica bem. O pior é quando o fazem e são inconsequentes, como aconteceu no projecto da revista «Atlântico», deixado cair por muitos dos que  diziam que a iriam apoiar. A «Atlântico» era um espaço de debate, plural, aberto, editorialmente único em Portugal. Por mais voltas que dê não consigo deixar de pensar que a «Atlântico» acabou porque tinha aquela mania de se meter todos os meses com o senhor Sócrates e os senhores empresários não quiseram ficar mal vistos ao pé do senhor engenheiro, numa altura em que vai haver tanta obra para fazer. Cá para mim este é dos casos que mostra como em Portugal a iniciativa privada está demasiado dependente dos senhores que controlam o orçamento de Estado. Muitos dos nossos empresários são ainda muito público-dependentes, 24 anos depois de 25 de Abril de 1974. O fecho da «Atlântico» é o sinal do estado das coisas nestes tempos que vivemos.




VER – Muitas exposições para visitar. Vamos começar pela fotografia, Na K Galeria, «Estrada de Água», de Pedro Azevedo, Rua da Vinha 43 A. Outras fotografias, diferentes, encenadas (podiam ser como que colagens tridimensionais, a meio caminho com instalações do quotidiano, convenientemente preservadas com registo fotográfico) são as propostas de Manuel Botelho em «Confidencial/Desclassificado II: ração de combate», na Fundação EDP, Museu da Electricidade, Av. Brasília. Depois há a arte robótica de Leonel Moura, melhor dizendo do robot RAP que está estacionado no Museu de História Natural de Nova Iorque – as composições automáticas podem ser vistas na Leonel Moura Arte, rua das Janelas Verdes 76. Mais à frente, na Galeria Filomena Soares, «Murder Letters» é uma exposição colectiva que apresenta onze jovens artistas naturais de Nova Iorque: Carol Bove, Dan Colen, Gardar Eide Einarsson, Hanna Liden, Nate Lowman, Adam McEwen, Josh Smith, Dash Snow, Agathe Snow, Banks Violette, e Aaron Young, em diversos suportes, da fotografia à escultura, passando por colagens e pintura. 



O PIORO grande problema para os lisboetas, se decidirem fazer este aliciante percurso artístico ao Domingo, será encontrarem paciência suficiente para passarem do lado do Cais do Sodré, para o lado de Santa Apolónia. Numa daqueles raros momentos em que decidi sair de casa ao Domingo apanhei uma carga de fúria por ver que há mais polícias municipais envolvidos no desvio de trânsito do Terreiro do Paço do que propriamente visitantes. Esta interdição do Terreiro do Paço aos Domingos é daquelas baboseiras demagógicas rasteiras que me fazem chorar cada um dos euros que a Câmara Municipal de Lisboa me obriga a pagar em impostos. Na cabeça de António Costa existirá uma réstea de bom senso que lhe permita perceber o ridículo da situação, ou vai persistir nisto e gastar mais uns milhares largos de euros em animações forçadas, sabe-se lá com recurso a quem, para lhe servir de capote estético? 


PETISCAR – Depois de ter dado mil voltas e ter conseguido passar esse Bojador dos domingos lisboetas que é o Terreiro do Paço, em má hora tentei o Deli Delux. Nada a fazer: mau serviço, arrogância insuportável, lentidão geral. Que pena que os sítios bonitos tenham gente tão feia a explorá-los e incompetente a dirigi-los. Mandei as modas às urtigas e rumei ao sempre fiel Cervejanário (Marina falhada da Expo, Passeio de Neptuno), onde tudo é melhor: belas pataniscas de bacalhau (das achatadas!) e  alheira de caça com grelos. Excelente vista, excelente companhia, um descanso para me redimir das malfeitorias dea empresa de animação «Costa & Salgado United Against Lisbon Incorporated».. Ora ali estava um sítio acolhedor, vista desafogada frente ao rio, serviço simpático, cerveja espectacular. Era pena que o rapaz atrás de mim tivesse uma T Shirt onde a letras garrafais de podia ler «Vagina Lover», mas pronto, é o que há ao Domingo em Lisboa. Enfim, não se pode ter tudo, este cidadão deve ter votado no Bloco de Esquerda, pensei eu com os meus botões, imaginando-o a conversar sobre torres eólicas com o senhor vereador Sá Fernandes. 



LER – Pois, a «Ler». Não, não é trocadilho. A «Ler» renasceu, por obra e graça de Francisco José Viegas e do Círculo de Leitores – Bertelsmann (que aos poucos vai comprando mais editoras e está a tornar-se, aqui, um discreto e poderoso grupo editorial e de distribuição…). Mas voltemos a esta «Ler», magnífica, com uma bela paginação, fotografia bem pensada., um belíssimo dossier sobre os 50 autores mais influentes do século XX, uma entrevista com António Lobo Antunes e uma conversa com Paulo Teixeira Pinto onde ele explica como vai ser a sua editora. 


OUVIR – Ora aqui está uma bela altura do ano para ouvir «Amor Profano», um conjunto de onze árias de Vivaldi, interpretadas pela soprano Simone Kermes, acompanhada pela Orquestra Barroca de Veneza, dirigida por Andrea Marcon. Enérgico, excitante, arrebatador. Com discos assim ,mais vale ficar em casa ao Domingo que ir aturar os desvarios de Costa & Salgado ao Terreiro do Paço (já sei, já falei do tema, mas a bacoquice da coisa irrita-me mesmo…). CD Archiv/Deutsche Grammophon. 



REVELADOR – De partido sem direcção o PSD está a passar a partido com excesso de candidatos a dirigentes. Que falta faz o bom senso… 


BACK TO BASICS –  A função do socialismo é aumentar o sofrimento para um nível superior – Norman Mailer. 
 

abril 23, 2008

A TEORIA DO CAOS

(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 23 de Maio)


Em pouco mais de uma semana o PSD passou de partido sem direcção nem rumo para um partido com excesso de candidatos a dirigentes. É aquela velha coisa portuguesa de passar da fome à fartura sem se saber bem porquê nem como.


Vamos ver esta coisa singela: para um partido de oposição a questão principal nas próximas eleições não será, de forma realista, derrotar Sócrates, mas sim retirar-lhe a maioria absoluta e garantir um grupo parlamentar oposicionista capaz, bem constituído, e com algum peso parlamentar.


Ora, se as coisas continuassem como até aqui, tudo indica que o próximo grupo parlamentar do PSD teria uma composição à medida de Luís Felipe Menezes e Ribau Esteves, o que anda próximo do grau zero da política. A semana passada foi farta em episódios demonstrativos da incapacidade política desse pessoal, que nem percebeu o que lhe estava a acontecer quando um grupo rival  resolveu fazer umas graçolas em Lisboa enquanto o líder andava perdido no pais profundo – é o célebre episódio Câncio.


Por um lado, é bom que isto tenha acontecido. Na realidade, se nada se passasse no PSD, tudo indica que o próximo grupo parlamentar seria ainda pior e menor que este – o que quer dizer nomeadamente perca de influência. Dificilmente o PSD conseguiria reaver o seu estatuto de partido de poder nessas condições.


Cá para mim, este emaranhado de candidatos destina-se sobretudo a garantir notoriedade para umas quantas personalidades, assegurar presença em futuro grupo parlamentar e, quiçá, em algum Governo futuro que o PSD venha a formar. Na cabeça de muitos putativos candidatos é este o raciocínio em vigor: levantar a bandeira, conquistar território, ocupar espaço.


Eu, por acaso, gostava que as coisas não se resumissem a isto, que fosse possível criar uma alternativa política ao PS, o que quer dizer propostas políticas diferentes, e não uma réplica das políticas orçamentais do Governo de Sócrates.


O pior que pode acontecer ao PSD é transformar-se num PS mais radical em matéria orçamental, um pouco género Rui Rio no Porto, que promoveu uma política tipo «vale tudo, mesmo arrancar olhos».


Aparentemente vamos ter uns dias muito animados pela frente. Talvez nem Rui Gomes da Silva imaginasse que o seu bater de asas num fim de noite lisboeta provocasse tamanha convulsão no mundo da política portuguesa. É a teoria do caos, já se sabe. 

abril 19, 2008

Sobre os problemas da imprensa

(publicado no Jornal de Negócios de 18 de Abril)



PÉSSIMO – A total falta de bom senso do PSD, os disparates que alguns dos seus dirigentes dizem quando falam de comunicação, a completa falta de pudor em querer manipular e interferir em processos de decisão editoriais, fazendo de questões pessoais factos políticos. Muito maus factos políticos. 


MAU – O panorama geral que o mais recente estudo sobre audiência de imprensa apresenta é o da quase generalizada descida de influência da imprensa de circulação paga, nomeadamente dos chamados jornais de referência generalistas. Independentemente dos efeitos do desenvolvimento tecnológico e da repercussão das edições digitais, existe um problema editorial que leva a que as audiências não se fixem nestes jornais, apesar do esforço de marketing que fazem. Um jornal é suposto ser como uma pessoa que nos é próxima, com personalidade definida, que ofereça algo de diferente, que surpreenda. Quando as agendas político-partidárias continuam a ocupar grande parte dos recursos humanos e técnicos das redacções (em conferências de imprensa, palestras, inaugurações fictícias, cerimónias de lançamento e outras basbaquices diversas), o resultado é que grande parte do noticiário é forçosamente igual; depois entra-se num círculo fechado em que o mesmo facto gera as mesmas notícias e, ainda por cima, um surto de comentários sobre o mesmo assunto. É o jornalismo umbilical, apenas suplantado pelo que é feito, sentado à secretária, a atender telefonemas, com recados e supostas notícias – esta semana é disso bom exemplo o lamentável caso da edição digital do «Expresso» sobre Pinto da Costa. Esta redução de facto do universo da realidade é um condicionamento da informação que vem alegremente sendo feito pelos agentes políticos (Governo, órgãos de soberania, partidos, etc) e que vem sendo suicidariamente aceite pelos responsáveis editoriais. Os casos de sucesso, que escapam à descida ou menos a sofrem, são os que se especializam, criam agendas próprias, contextualizam a informação, procuram noticiário de proximidade, não misturam noticiário com opinião e sabem separar a influência dos lobbies e das fontes, do trabalho de reportagem e de edição. Não são as pessoas que não querem ler jornais – há é jornais que oferecem pouco de interessante para as pessoas lerem. Enquanto a questão não fôr encarada de frente as audiências continuarão a cair e as receitas, de publicidade e da venda, continuarão igualmente a cair. 



OUVIR – Mari Boine é uma norueguesa que conseguiu encontrar uma forma de misturar o jazz com a música popular da sua terra natal, a Lapónia, criando ambientes misteriosos e envolventes. O seu mais recente disco, o segundo volume de remisturas, chama-se «It Ain’t Necessarily Evil» e inclui o tema do filme « The Kautokeiko Rebellion». Boine é vocalista e baterista e a sua música parte de uma base rítmica forte com vocalizações onde as palavras entrm pouco mas os sons e expressões contam muito. É uma ponto de encontro de influências étnicas, jazzisticas e até rock. CD Universal Music. 


LER – Na edição de Abril da revista «Monocle» um óptimo artigo sobre Cabo Verde e a cidade da Praia. Na mesma edição um excelente artigo sobre a proliferação de canais noticiosos de televisão levanta a questão de saber se estes canais são de facto de informação ou, se se destinam a fazer propaganda dos seus financiadores. Muito oportuno. 



VER – Até 8 de Junho, uma exposição imperdível no Centro de Artes Visuais de Coimbra, do artista belga Michael Borremans, que tem explorado o desenho, a pintura, a fotografia e o vídeo. Intitulada «Weight» esta mostra é surpreendente e inquietante, resulta de uma colaboração entre o Centro de Artes Visuais e o De Appel Arts Centre de Amesterdão, e pode ser vista nas instalações do CAV, Pátio da Inquisição 10, Coimbra, de terça a Domingo entre as 14 e as 19h00. 


PETISCAR – O restaurante Praia da Luz, no Porto, em plena Avenida do Brasil. Uma boa esplanada com serviço simpático e descontraído, com ofertas que incluem um rosbife honestíssimo e uma simpática lasanha de legumes. www.praiadaluz.pt , 226173234. Tudo se passa em frente ao mar, em frente ao mar a sério, sem outro horizonte à vista que não seja água. 



PENSAR – O prémio de fotografia do BES está em risco de se tornar numa anedota que tem pouco a ver com a fotografia. Alexandre Pomar, no seu blogue (www.alexandrepomar.typepad.com), ataca a questão de frente: «O que foram defeitos iniciais do BES Photo (presença no júri de selecção dos programadores dos artistas nomeados, junção de veteranos e novos) e outros defeitos não corrigidos (amálgama de fotógrafos-artistas com artistas que se servem da fotografia, velha e difícil questão que se deve usar com prudência; sucessivas recusas de participação) deu lugar à ausência  de justificação para as nomeações e, por consequência, uma confrangedora inanidade.» Leiam que vale a pena. 


BACK TO BASICS – Os jornais não devem ter amigos – Joseph Pulitzer. 

POIS, NÃO TEMOS UMA ESQUERDA «SALEROSA»

(publicado no diário Meia Hora de quarta feira 16 de Abril)


Por estes dias a imagem mais marcante é a da posse do novo Governo Espanhol, maioritariamente feminino e com uma ministra da Defesa em gravidez avançada a


passar revista às tropas. As imagens da cerimónia transpiram «salero», confiança e entusiasmo. São uma afirmação de energia positiva, são um símbolo de modernidade e valem mais do que mil declarações sobre a igualdade ou quinhentas comissões contra a descriminação sexual. Temos que reconhecer: nós não temos uma esquerda assim, não temos, no poder, uma esquerda descomplexada, de cabelos longos, guarda roupa elegante nas cores da moda, maquilhagem cuidada e saltos altos. Em vez disso a nossa esquerda é feita do Dr. Louçã a atacar tudo e todos ou do Dr. António Vitorino mascarado de comentador a servir de trombeta do regime, pronto sempre a encontrar elaboradas desculpas para tudo.


A enorme diferença entre a maneira de funcionar em Espanha e em Portugal está naquelas imagens, na maneira de encarar as coisas, de arriscar, de surpreender. Zapatero ganhou mais apoios com estas escolhas que nos últimos anos de Governo. A verdade é que nós não temos uma esquerda assim. A nossa é cinzenta e, quanto à que está no poder, distingue-se pouco, no cinzentismo e na prática, da direita que a precedeu. 




NOTAS À MARGEM:



  1. Jorge Coelho anda a servir de bode expiatório da hipocrisia nacional, graças à inveja, que é o carburante mor da pátria desde há muito, muito tempo. Querer transformar a política num sacerdócio é a maneira mais certa de acabar com ela e de perder quem queira ter intervenções cívicas. Jorge Coelho poderá eventualmente ter muitos defeitos e estou longe de pensar em muitas coisas como ele, mas cumpriu a Lei, foi transparente e não se escondeu atrás de um biombo. Nem todos podem dizer o mesmo.

  2. Eu acho que deve haver um problema de poluição grave na Lapa, perto da sede do PSD. Só isso explica que – certamente por falta de oxigénio – do cérebro dos dirigentes sociais democratas surjam coisas como as acusações a Fernanda Câncio. Se eu ainda estivesse, como há três anos, na RTP 2, e se quisesse um documentário sobre bairros degradados, ela seria uma boa escolha – conhece o tema e sabe de televisão. É preciso mais alguma coisa?


 

abril 14, 2008

ÍNTIMA FRACÇÃO, A BEM DO PAÍS, UMA BRASSERIE

MAU – Algumas entidades – como a ASAE – utilizam a mediatização para procurarem induzir legitimidade na sua acção. O processo mediatização/ legitimação tem coisas que fazem lembrar o conceito de justiça popular – infelizmente uma forma de actuação que a ASAE mimetiza (os seus agentes actuam de forma discricionária, de acordo com decisões do momento, invocando interpretações e aplicações da Lei por vezes discutíveis, sem validação do poder judicial). É cada vez mais urgente que ao Provedor de Justiça sejam dados meios e poderes para poder fiscalizar a acção de todas estas entidades, autoridades e polícias que pululam e constroem um modo de actuação que perturba os direitos de cidadãos e de entidades privadas. Razão tem Pacheco Pereira quando afirma que, à falta de justiça, saúde e educação, sobram-nos polícias e autoridades que todos os dias aumentam, têm mais poderes e competências – sem que isso se traduza em maior segurança, maior justicça ou em maiores e melhores garantias.  


 


PÉSSIMO – A pior raça de políticos é a que esgrima com o argumento de que tudo o que fazem é a bem da pátria, quando no fim se vai a ver e o bem que procuram tem mais a ver com eles próprios do que com os cidadãos e o país. 



BOM – A «Íntima Fracção» está no site do Expresso, acessível a todos. A criteriosa escolha musical e as palavras contidas de Francisco Amaral estão assim mais disponíveis e podem ser descobertas por mais gente. Antigo programa de rádio, a «Íntima Fracção» tornou-se uma referência que passou por várias estações, da Antena Um à Rádio Comercial, passando pela Rádio Universidade de Coimbra ou a TSF. É o testemunho de uma forma pessoal, criativa e esteticamente empenhada de fazer rádio, uma rádio onde a palavra não é inimiga da música. Agora, todas as semanas, nos blogues do Expresso, a prova de que a beleza tem um som – «Íntima Fracção». Eu costumo dizer que o Francisco Amaral é o meu herói radiofónico que me mantém ligado ao mundo do que vale a pena ouvir e descobrir. 


DIDÁCTICO – Espero que todos os que têm responsabilidade na gestão de espaços culturais, ou da cultura de modo mais lato, tenham lido a entrevista («Actual» da semana passada) que Jorge Calado fez a Peter Gelb, o Director da Matropolitan Opera de Nova Iorque, ex-presidente da editora discográfica Sony Classical. Além da entrevista propriamente dita, ali está enunciado o rol de transformações que Gelb promoveu no ano e meio que leva de funções numa casa que não recebe um cêntimo de subsídios públicos ou do Estado – coisa que só é possível porque existe uma cultura de Mecenato, fundada numa atitude aberta em termos de incentivos fiscais efectivos. A questão não é tanto fazer omoletas sem ovos, é mais ir à procura de bons ovos para grandes omoletas, para enveredar pelo léxico actual da política cultural à portuguesa.




IR – No terceiro aniversário da Casa da Música, destaque amanhã, sábado, para a apresentação da banda rock alternativa The Kills e para a pop electrónica dos The Whip, vindos directamente de Manchester. Domingo às 18h00 a estreia de Maria João Pires na Casa da Música e, à noite, o trio de jazz do pianista norueguês Tord Gustavsen. Um programa atraente e diversificado, à imagem do que tem sido a mais recente gestão deste espaço. 


 


OUVIR – O Concerto para piano nº5 (também conhecido como Concerto do Imperador), numa interpretação de Mikhail Pletnev, um pianista russo que nos últimos anos se tem distinguido no seu trabalho sobre as obras de Beethoven. Nesta gravação, da Deustche Grammophon, Pletnev é acompanhado pela Orquestra Nacional da Rússia, dirigida por Christian Gansch. Esta obra de Beethoven, estreada em Novembro de 1811, foi pensada pelo seu autor como uma prova do seu próprio virtuosismo enquanto pianist. Pletnev ensaiou uma abordagem diferente da mais usual, modificando o tempo, e propondo uma nova leitura da obra. Há quem considere que o tempo é demasiado rápido, mas a verdade é que Pletnev conseguiu assim recriar a vivacidade que Beethoven desde o início definiu como a matriz deste Concerto. 


 


LER – A edição nº19 da revista «Attitude», com o foco na cidade marroquina de Tânger. A «Attitude» é uma das mais interessantes revistas editadas em Portugal, essencialmente dedicada ao design, arquietctura e decoração de interiores. 




PETISCAR – No piso térreo do Hotel Tivoli, em Lisboa, nasceu há poucas semanas uma réplica da célebre Brasserie Flo, de Paris. Decorada como a casa-mãe, confortável, de serviço intocável, esta Brasserie fazia falta na Avenida da Liberdade. É belíssima a chucrute, com carne fumada, salsicha, tempero impecável, mostarda como deve ser. Do outro lado da mesa os elogios ao bife tártaro eram veementes, as ostras de entrada estavam perfeitas. Atendendo ao local e à qualidade, o preço é mais que razoável. Que assim se mantenha, pode ser que se tenha ganho finalmente uma Brasserie em Lisboa. 


 


CONSUMOS – As gelatinas Royal que se vendem feitas em embalagens individuais são bem boas. O problema está que muitas vezes elas esquecem que deviam ter abertura fácil e revelam-se bem difíceis de provar. Hão-de convir que aberturas difíceis é um daqueles problemas que irrita quem faz incursões ao frigorífico. ~


BACK TO BASICS – A moda é uma forma de fealdade tão insuportável que somos forçados a alterá-la de seis em seis meses, Oscar Wilde. 

abril 13, 2008

OS LOUCOS TOMARAM CONTA DO HOSPÍCIO

A insanidade percorre o país e conquistou os líderes partidários que deixaram de ter cuidado com as palavras e os actos. Desde os ataques de Louçã a Jorge Coelho, passando pelo apelo à censura da destacada socialista que (mal) dirige a Direcção Geral da Educação do Norte, terminando agora nas acusações do deputado social democrata Rui Gomes da Silva a Fernanda Cãncio. Ela não precisa de defesa, mas que me lembre já escrevia e reportava antes de Rui Gomes da Silva ter a notoriedade que lhe deram. Quando os ataques pessoais são matéria para guerra política vai tudo mal - e está tudo mal no amplo espectro partidário português. Esta gente está a dar cabo dos partidos e do sitema político. E como bem diz Francisco José Viegas no seu blog, Fernanda Cãncio é muito melhor jornalista que Rui Gomes da Silva político.

abril 12, 2008

CHAMEM A POLÍCIA...

Desta vez não vi o Presidente do Benfica, Luis Filipe Vieira, a chamar a polícia nem a atirar as culpas para os árbitros.... e a cabazada foi bem grande...