
O SEMPRE A RIR - Ao fim dos quase dois anos que leva como Primeiro Ministro já é possível saber quais são as principais características de Luís Montenegro, a nível pessoal, no exercício do poder. De um lado há um conjunto de, digamos, obstinações, algumas a roçar o autoritarismo: tem dificuldade em encaixar a crítica, está convencido que nunca se engana, é de ideias fixas e não gosta de ser contrariado. Quando alguém lhe aponta alguma coisa faz-se logo de vítima e não hesita em ocultar factos, procurando adiar até ao limite informações que lhe são pedidas. Não é um político transparente, baseia toda a acção em jogadas tácticas e manobras de bastidores. Foi isso que fez dentro do aparelho do PSD até se tornar presidente do partido e é isso que faz como Primeiro Ministro. Quer o poder pelo poder e, como se tem visto, tem rumo incerto e inconstante. Nos últimos dias percebeu-se mais uma característica: apesar de estar sempre a sorrir quando fala, tem uma notória falta de sentido de humor. O sorriso que desenha permanentemente é como o do Joker, essa personagem do cinema com a cara distorcida por tanto ostentar um simulacro de sorriso. Socorro-me da IA: “No filme “O Homem que Ri”, de 1928, o protagonista Gwynplaine, tem o rosto deformado num sorriso eterno e, mais do que uma expressão facial, esse sorriso representa o caos, a desordem e a desestabilização da psique humana”. Retomemos Montenegro: este homem sempre de sorriso afivelado em frente às câmeras, é o mesmo que entende mal o humor quando é ele o alvo. Pego nas palavras de Eduardo Dâmaso, no “Correio da Manhã”, a propósito das ameaças de Montenegro a quem fez uma sátira recente sobre ele: “Prefiro acreditar que quem diz e faz uma coisa daquelas é só muito ridículo. É como os Anjos contra Joana Marques. E isso é coisa que se cura com uma boa dose de humor e capacidade de rir de si próprio, que se recomenda ao senhor primeiro-ministro e acólitos. Prefiro isso a acreditar que o fazem por apanágio ideológico. Dou-lhes esse benefício da dúvida, da tolice, em vez de acreditar que, por absurdo, seriam capazes de mandar prender o Vilhena, ou o grandioso Bordallo pelas caricaturas e escritos de zoopolítica sobre a sua Grande Porca, a dita política, os seus Governos e ministros. Processar exercícios de humor fenece sempre numa enorme gargalhada.” Não é preciso dizer mais nada.
SEMANADA - Segundo o INE 57% dos portugueses com mais de 64 anos usam diariamente a internet e 11% deles estão ligados cinco ou mais horas por dia; 58% dessas pessoas têm conta nas redes sociais e 11% deles estão online cinco ou mais horas por dia; 49% dos trabalhadores da agricultura, produção animal, floresta e pesca são imigrantes; 34% dos trabalhadores de alojamento e restauração são imigrantes; em Portugal no ano passado só um em cada cinco casamentos se fez pela Igreja Católica; em 2025 nasceram 89 162 crianças, mais 4520 bebés do que os registados em 2024, o valor mais alto dos últimos 13 anos; o custo do cabaz alimentar da Deco Proteste aumentou 9,67 euros desde o arranque do ano de 2026, atingindo o valor mais elevado em quatro anos (251,49 euros); na semana passada o Governo autorizou o abate de mais de um milhar de árvores protegidas, na sua maior parte sobreiros, e no total, só nos últimos dois meses, foi autorizado o abate de 9000 árvores; entretanto o Ministro da Agricultura sugeriu aos responsáveis do Instituto de Conservação das Florestas e Natureza que se poderia mudar a lei para acelerar a aprovação de projectos e recomendou que sejam aprovados mais depressa os projectos que podem entrar em conflito com a lei; um jovem de 21 anos que foi detido pela Polícia Judiciária de Lisboa, por ter engravidado uma menor de 14 anos com deficiências físicas, ficou em liberdade por decisão do Tribunal de Sintra.
O ARCO DA VELHA - Um inspetor da secção da Polícia Judiciária de Lisboa, que era instrutor de tiro, vai ser julgado quarta-feira por uma perseguição a tiro pelas ruas de Odivelas que terminou com um menor de 14 anos baleado duas vezes e um homem que nada tinha a ver com o caso atingido por uma ‘bala perdida’ quando estava sentado num passeio a beber café.

SEM TÍTULO - João Paulo Feliciano tem uma longa e diversificada carreira a produzir obras em áreas como a música, pintura, desenho, colagem, fotografia, vídeo, instalação, luz, som e performance. Tem discos gravados, participou em bandas, criou espectáculos e teve um papel importante na bienal Experimenta Design. Quase desde o início deste século focou-se essencialmente nas artes plásticas e, hoje em dia, afirma que está sobretudo interessado em recuperar a capacidade dos artistas em fazerem composições visuais. Dos vários universos criativos que trabalhou ao longo da vida guardou referências que utiliza como artista plástico, desde tecnologias que usou na música e em espectáculos até à utilização de imagens fotográficas como base de trabalho. Esta semana inaugurou a sua primeira exposição em Lisboa desde há dez anos e apresenta na Galeria Cristina Guerra duas dezenas de obras. A exposição assinala o seu regresso à pintura, confirmando a disposição em construir imagens, rejeitando as metáforas e retomando a pintura figurativa. Nem as obras nem a exposição têm qualquer nome e tão pouco existe uma folha de sala - “cada obra vale pela sua existência visual”, afirma João Paulo Feliciano que sublinha que esta mostra de trabalhos dos cinco últimos anos “é uma composição de assuntos individuais no espaço da galeria, não pretende dar corpo a um tema”. A exposição fica na Cristina Guerra Contemporary Art até 21 de Março (Rua de Santo António à Estrela 33.

ROTEIRO - No Porto a Galeria Fernando Santos apresenta até 21 de Março a exposição de Raúl Cordero, “Pinturas para bater o recorde de 6 segundos” (na imagem), e as exposições de Pedro Valdez Cardoso, “O Sol quando nasce não é” e “The Great Unknown”. Ainda a norte Vila do Conde acolhe pela primeira vez a Mostra de Fotografia e Autores (MFA) entre 31 de janeiro e 15 de março, com fotografias de Alberto Picco, Ana Baião, Clara Azevedo, Fernando Negreira, Paulo Alexandrino e Ricardo Lopes.

A SEGUNDA VOLTA - Há quarenta anos que não tínhamos uma eleição presidencial disputada a duas voltas. Estas presidenciais têm desencadeado um torrente de memórias do que então se passou. O Observador fez um bom podcast com muitas histórias de bastidores dos candidatos, pouco conhecidas, que mostram as peripécias do que então aconteceu e tem depoimentos esclarecedores, a RTP exibiu um documentário (disponível em RTP Play) com muitas imagens de arquivo que vale a pena conhecer e João Reis Alves, jornalista, fez este livro que hoje vos apresento - “A Segunda Volta- 1986 as eleições que mudaram o país”. Até dia 8 ainda há tempo de o ler (tem cerca de 200 páginas). Começa com um retrato do que foram os anos 80 em Portugal e termina com a tomada de posse de Mário Soares em Belém, depois de derrotar Freitas do Amaral e deixar pelo caminho Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo. João Reis Alves percorre os meandros da política portuguesa, numa altura em que a democracia era ainda uma conquista recente e o país enfrentava uma grave crise económica. Nessa época havia de tudo e o livro retrata as coligações que se formaram, o ambiente dos resgates do FMI, reviravoltas políticas, protagonistas carismáticos e bastidores agitados. O autor recolheu relatos na primeira pessoa, contextualizados por recortes da imprensa da época, recorda os incidentes, o ambiente dos comícios, os debates na televisão e os dias renhidos antes da votação da segunda volta. O livro faz um bom retrato dos candidatos e é um documento que nos ajuda a perceber o que se passa na política. Edição Contraponto.
MESA DE CABECEIRA -Trago-vos dois livros sobre o Japão. Um deles, “Uma breve história do Japão” proporciona uma viagem pela vida quotidiana dos japoneses ao longo do tempo. O autor, Christopher Harding, é um professor de História Asiática na Universidade de Edimburgo e permite compreender melhor o Japão, não se ficando apenas pelos relatos de acontecimentos históricos, explorando a visão do mundo dos japoneses através das artes, do teatro, da arquitectura, da comida e das artes marciais. São 200 páginas entusiasmantes, que se lêem de um fôlego. Edição Casa das Letras. O outro livro é uma peça deliciosa, “Lendas e Contos de Fadas Japonesas”, reúne histórias transmitidas de geração em geração, seis extraordinárias narrativas multisseculares, numa viagem fantástica ao imaginário japonês. O livro é maravilhosamente ilustrado, com reproduções de desenhos e estampas japonesas, e leva-nos a um mundo de histórias em que a natureza e o sobrenatural andam de mãos dadas. Edição Guerra & Paz.

A MELODIA DO BAIXO - Björn Meyer é um músico de jazz sueco que explora as potencialidades da guitarra baixo e “Convergence” é o seu segundo disco para a ECM. É um trabalho a solo em que o músico explora a forma como uma viola baixo, normalmente usada para acentuar o ritmo, pode construir melodias e desenhar texturas sonoras, de forma intensa, com um sedutor virtuosismo na sua execução. O disco foi produzido por Manfred Eicher, o homem que fundou a ECM, e o trabalho que ele e Meyer realizaram em estúdio, vai para além do óbvio e explora as potencialidades técnicas e overdubs. É raro que o baixo seja utilizado como instrumento melódico, mas é isso que acontece neste disco, quer quando Meyer toca baixo acústico ou elétrico. Edição ECM disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - Se até 12 de Abril for a Londres não perca na Tate Britain a exposição “Turner & Constable: Rivals & Originals” que mostra em paralelo o mundo destes dois artistas. Nascidos há 250 anos, J.M.W. Turner e John Constable são dois dos maiores pintores britânicos, e ambos dedicaram-se a mostrar como a paisagem pode reflectir as mudanças que ocorreram à sua volta.
DIXIT - “O comportamento do presidente do primeiro partido, que também é primeiro-ministro, deve ser o de tomar partido, de optar, de ajudar a escolher e de se comprometer. O gesto de Luís Montenegro, presidente do PSD, foi errado e inaceitável. É sinal e retrato de uma triste covardia de quem não corre riscos. Resulta de um raciocínio calculista e medíocre - António Barreto, no Público.
BACK TO BASICS - ”A velha ordem não vai voltar e não devemos lamentá-lo. A nostalgia não é uma estratégia” - Mark Carney
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS




































