dezembro 13, 2025

ANDAM À PESCA DE QUÊ ?

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Nesta coisa da pesca há todo um ritual, desde a preparação da cana à escolha do isco, passando pela busca do lugar perfeito para colocar o anzol de molho e ficar a aguardar. Os pescadores que trazem este arsenal - a cana, o banco, o balde, o saco - são as pessoas mais sábias na arte de passar o tempo. Se porventura o peixe não pica pensam apenas, para com os seus botões, que para a próxima será melhor e prepararam o regresso noutro dia. A pesca é o pretexto para se obrigarem a sair de casa e poderem ficar umas horas a contemplar o horizonte.  São transparentes, sinceros, verdadeiros. A cana, a linha e o anzol não estão escondidos - toda a gente sabe o que fazem e o que procuram: o prazer de sentir o peixe a morder o anzol. Mas há outros pescadores, dissimulados, que não têm cana nem anzol à vista. Insinuam-se com falinhas mansas e não estão à beira de água. Mais facilmente se encontram numa mesa de um restaurante ou encostados ao balcão de um bar. À mesa portam-se bem, são generosos com a bebida que oferecem, cercam outra pessoa com perguntas e mostram-se hábeis a levar a conversa para onde querem; a sua pesca é conseguir que digam o que eles querem saber. Os pescadores de bar são mais evidentes e descarados. Copo na mão, varrem o horizonte com os olhos como se procurassem o melhor sítio para atirar a linha à água, Metem conversa com facilidade, gabam-se de proezas, são contadores de histórias que usam palavras como se fossem anzóis. Se alguém morder o isco são rápidos a apanhar a presa. Prefiro os tradicionais pescadores silenciosos, discretos, pacientes. Nos dias que correm muitos andam à pesca mas poucos são verdadeiros  pescadores. 




dezembro 12, 2025

VAMOS TER UMA SOCIEDADE MENOS INFORMADA?

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ALARGAR O DESERTO - Não é propriamente uma novidade a crise da imprensa: tiragens a descer, investimento publicitário desviado para outros meios, diminuição dos postos de venda. Em resumo: quebra das receitas da venda em papel a um ritmo que não é compensado pelas receitas de assinaturas e publicidade que vêm das edições digitais. Basta olhar para os números do investimento publicitário: no início deste século a imprensa captava a segunda maior fatia de publicidade, cerca de 20%, logo a seguir à televisão. Hoje em dia o investimento publicitário em jornais e revistas impressos significa cerca de 1,5% do mercado total e está em penúltimo lugar. Já existem regiões do país onde não há postos de venda de jornais e revistas e a situação tende a agravar-se já que a VASP, a única distribuidora de imprensa, está a considerar redefinir a sua actividade em oito distritos (Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança), porque nessas zonas os custos de distribuição excedem as receitas obtidas. Além dos jornais, a VASP distribui também livros, o que agrava ainda mais a perspectiva de destruição dos hábitos de leitura em vastas zonas do interior do país. Pedro Duarte, o anterior ministro que acompanhava estes temas, anunciou em Novembro de 2024 um Plano de Acção para os Media. Passado um ano, não se concretizou a prometida ajuda para garantir a distribuição de imprensa em territórios com baixa densidade populacional. Pedro Duarte, que era mais sensível ao tema, foi eleito Presidente da Câmara Municipal do Porto e o novo titular da pasta, António Leitão Amaro, confrontado com a posição da VASP, lavou as mãos do assunto e declarou não querer intervir. A posição do Governo não vem de falta de conhecimento, é apenas uma esperteza que lhe dá jeito: menos imprensa significa menos escrutínio, menos informação, menos acompanhamento noticioso local. Ao Governo pouco interessa que se percam hábitos de leitura ou que haja desertificação noticiosa,  convictos que estão de que as redes sociais onde os Ministros tentam brilhar são mais que suficientes para manter a plebe informada. Não pensam nos cidadãos mais idosos que contam com os jornais em papel como principal fonte de informação. Mas sabem que na imprensa, cada vez com menos receitas, este apagamento de parte do país significará ainda maior quebra de receitas, o que se traduzirá em redacções ainda mais pequenas e com menos capacidade de investigação jornalística. Ou seja, uma sociedade menos informada. Se somarmos a isto os planos para a agência Lusa, agora nas mãos do Estado e com os seus responsáveis a serem nomeados pelo Governo, temos um cenário preocupante quanto à independência, à qualidade e à difusão da informação.



SEMANADA - Segundo o estudo Purchasing Power 2025 cerca de 50% dos portugueses afirmam ter perdido poder de compra no último ano; os produtos de marca própria já pesam 47% nas vendas do retalho alimentar, o valor mais alto dos últimos 14 anos;  nos primeiros dez meses do ano a PSP detectou em média 26 condutores por dia a conduzir com excesso de álcool no sangue; mais de 225 mil episódios de urgência hospitalar em 2023 foram causados por acidentes domésticos e de lazer, que provocaram 90 mortes, sendo que as quedas são o incidente mais frequente e a habitação o local com maior número de ocorrências; em 18 anos, foram condenadas em Portugal 516 pessoas por homicídios conjugais, de um total de 4553 acusadas de homicídio; meia centena de bebés foram abandonados à nascença ou nos primeiros seis meses de vida entre 2019 e 2024; no ano passado 802 estrangeiros viram recusada a entrada e 165 foram expulsos; no final de 24 existiam em Portugal milhão e meio de cidadãos estrangeiros, quatro vezes mais que em 2017; o número de brasileiros a trabalhar formalmente em Portugal já ultrapassa os 400 mil; um estudo de opinião recente indica que a maioria dos portugueses deseja um Presidente da República mais interventivo e que obrigue o Governo a agir.


 


O ARCO DA VELHA - A nomeação de três consultores para o grupo de trabalho da reforma do Estado demorou mais de um mês para conseguir  juntar a assinatura dos três governantes responsáveis.


 


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A VER O MAR - A exposição “Pinturas da Ilha”, na Galeria Miguel Nabinho, mostra duas dezenas de novas obras de Pedro Cabrita Reis e fica patente até 24 de Janeiro. Todas as pinturas foram feitas no verão de 2024 e 2025 e são peças de pequenas dimensões.  Metade das obras são pintadas a óleo em tampas de caixas de charutos e têm a designação genérica de “ondas” e as outras são pintadas a acrílico sobre papel com a designação genérica “le cemitière marin”.  Numa entrevista sobre esta exposição  Pedro Cabrita Reis afirmou : “Todas as paisagens que pinto são provavelmente sempre a mesma paisagem. E é claramente uma paisagem que, para simplificar as coisas, poderíamos dizer que é imaginária.” E prossegue:  “Estas paisagens imaginárias têm uma coisa que as liga - reportam todas ao mar, às ondas do mar, às mutações infinitas que durante o dia a luz do mar tem, as nuvens sobre o céu que está sobre o mar, os milhentos matizes de brancos, verdes, azuis,  amarelos e violetas que são o cronograma do dia no mar - e isto é fascinante, podia-se ficar uma vida inteira sentado na areia a olhar apenas. Mas há um momento em que apetece voltar da praia para o atelier  e transportar a beleza dessa visão para um registo”.


 


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ROTEIRO - Na Galeria Foco (rua Antero de Quental 55A), Nádia Duvall apresenta até dia 20 “O Sombrio Futuro da Memória” que reúne pintura, colagens de diversos materiais, vídeo e escultura. O trabalho de Nádia Duvall (na imagem) rejeita a prepotência, o abuso de poder, a lógica do medo e confronta-nos com um  exercício visual que nos prepara para o confronto, criando a tensão da antecipação de uma guerra que, afirma a artista, já não é possível evitar. Na Galeria Zé dos Bois (Rua da Barroca 59, no Bairro Alto), o artista angolano Yonamine apresenta até 16 de Janeiro a exposição  “Memória Fantasma “. O artista regressa mais uma vez à memória angolana através das páginas do Jornal de Angola. Trabalhando com cartão “Memória Fantasma”, evoca um jornal da parede tão comum em 1975 e 1976 na Angola recém-independente, reforça o papel e torna-o vertical, utilizando os media num meio onde desenvolve a sua arte.


 


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VIDA E ARTE -  “Exposto Sobre As Montanhas do Coração” é uma colectânea de escritos de Rainer Maria Rilke, agora editada para assinalar os 150 anos do nascimento do poeta. A selecção e organização deste livro é de Maria Teresa Dias Furtado, a sua tradutora de sempre para a língua portuguesa, e inclui quase centena e meia de poemas, cartas, um excerto do seu único romance, “As Anotações de Malte Laurids Brigge” e a tradução integral de “O Testamento”, um texto até agora inédito em Portugal e que Rilke escreveu antes da finalização das suas duas obras-primas, “As Elegias de Duíno” e “Os Sonetos a Orfeu“, ambas de 1923. A tradutora, Maria Teresa Dias Furtado, traça no prefácio desta edição uma biografia de Rainer Maria Rilke, um dos autores mais relevantes de língua alemã, tanto na poesia como na prosa lírica, nascido em Praga em 1875 e falecido em Valmont, na Suíça, em 1926. Edição Assírio & Alvim.


 


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MESA DE CABECEIRA - Esta semana escolhi dois livros de História. Começo por “Relações Perigosas - A cumplicidade da PIDE com as secretas ocidentais”, da historiadora Irene Flunser Pimentel. O livro é baseado na investigação de quase três décadas de relacionamento entre a polícia política da ditadura portuguesa, entre 1945 e 1975, com os seus vários nomes de PIDE e DGS, e as polícias e serviços secretos de países ocidentais, através das relações com a CIA norte-americana, a Seguridad espanhola, o BND alemão, bem como com os serviços policiais e de informação europeus e dos países da NATO, nomeadamente de França, da Bélgica e dos Países Baixos. São estas relações que Irene Flunser Pimentel investigou e agora relata (Edição Temas e Debates). O outro livro é “O Círculo dos Traidores de Hitler” e conta a história da resistência na Alemanha ao regime nazi, escrita por Jonathan Freedland. O livro relata a história verdadeira, mas praticamente desconhecida, de um grupo secreto de rebeldes que se uniram contra Hitler. Oriundos da alta sociedade de Berlim, o grupo incluía oficiais do Exército, funcionários do Governo, duas condessas, a viúva de um embaixador e uma ex-modelo, reunindo-se nas sombras, escondendo e resgatando judeus ou conspirando por uma Alemanha libertada do regime nazi. Um dia, em setembro de 1943, reúnem-se sem saberem que um deles está prestes a traí-los a todos e a entregá-los à Gestapo (Edição Bertrand).


 


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UM SOM DE MANCHESTER - “The Return of the Durutti Column” não é um disco novo da banda de Manchester que deixou uma marca nos anos 80. É, na verdade, o título do seu primeiro disco, resultante da colaboração entre o produtor Martin Hannett e o guitarrista Vini Reilly, misturando a sonoridade da forma de tocar guitarra eléctrica de Reilly, muito inspirada na guitarra clássica, com efeitos electrónicos. O que acontece é que foi agora lançada uma edição especial desse disco, para assinalar o seu 45º aniversário, e que inclui a remasterização das gravações originais além de diversos materiais gravados e ilustrações que sublinham a originalidade do trabalho de Reilly na guitarra, com edições em vinil e num duplo CD, ambas com extensas notas e um livro.


 


ALMANAQUE - A Cooperativa Cultural Diferença, que assinala 47 anos em Janeiro do próximo ano, apresenta até 7 de Janeiro uma exposição com importantes obras do seu acervo, algumas das quais já não são apresentadas há muito tempo. Vão estar expostos trabalhos de mais de duas dezenas de artistas,  fotografia, desenho e pintura, de nomes como Ana Hatherly, Ana Vieira, Alberto Picco, Albertina Sousa, Ana Vidigal, Ângelo de Sousa, António Cerveira Pinto, Daniel Malhão, Eduardo Nery, Fernando Aguiar, Gaetan, José Afonso Furtado, José Barrias, José Conduto, José Moura, José Paulo Ferro, José Pedro Cochofel, Jorge Pinheiro, Malangatana, Manuel Valente Alves, Pedro Chorão e Vítor Belém. (Rua de S. Filipe Nery 42).


 


DIXIT - Montenegro e Margarida (Balseiro Lopes) flutuam inefáveis pelo sector (da cultura) como num mar de rosas de um verso chinês. Ė poucochinho. “- João Gonçalves na sua coluna Balázio 


 


BACK TO BASICS -  “Toda a gente tem direito a ser estúpido, mas algumas pessoas abusam desse privilégio” - Anónimo


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




dezembro 06, 2025

SOBRE AS UTILIDADES DA FARINHA

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A língua portuguesa tem expressões que são um verdadeiro achado e que nos dão que pensar. Uma delas, que agora anda em desuso, mas é das mais interessantes, reza assim: ”não faças farinha!”. O que quer isto dizer? A expressão “não faças farinha” pode ser dita numa conversa entre várias pessoas  quando alguém está deliberadamente a empatar em vez de fazer o que está combinado. Também se utiliza quando não se consegue convencer uma pessoa a fazer determinada coisa ou se está a enrolar uma conversa, no sentido de enganar outra pessoa. Línguas viperinas dizem-me que também se aplica quando, num casal de namorados, uma das partes se esquiva aos desejos da outra parte, mas disso nada sei. Portanto, todos aqueles que pensavam que me estava a referir às utilizações de um pacote de farinha para fazer bolos, enganaram-se redondamente. O tema não é a gulodice, é a riqueza da língua portuguesa. E de onde vem este “não faças farinha”? A minha convicção é que provém da observação do que se passava nos antigos moinhos onde era moído o cereal. Os moinhos tradicionais tinham duas pedras circulares, que rodam uma contra a outra, indo moendo os grãos de cereal entre elas, transformando-os em farinha. O processo, que foi usado durante séculos para trabalhar os cereais, é lento - uma das mós estava fixa e a outra era giratória. Lembrei-me de tudo isto quando vi estas  duas mós abandonadas num moinho meio arruinado. Há um encanto nestes vestígios de outros tempo, e este interior de moinho faz-nos logo pensar no que aquelas paredes testemunharam - entre o trabalho do moleiro, as conversas que ele teve com quem lhe vinha comprar farinha, o regatear do preço, os encontros que testemunhou. Enfim, coisas de quem faz farinha. Este moinho fica na Serra do Louro, perto de Palmela, e, logo por acaso, fica ao lado de uma padaria tradicional onde se usa a farinha para fazer bom pão. 





dezembro 05, 2025

UM GOVERNO QUE DESPREZA A CULTURA E UMA MINISTRA SEM PODER

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DESDE QUANDO A CULTURA É LUXO?  - Na semana passada o Parlamento aprovou a descida do IVA das obras de arte, dos 23% que o Governo de Montenegro tinha fixado em Março passado, para 6%, à semelhança de vários países europeus como a França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Bélgica. Noutra votação o Parlamento também aprovou a possibilidade da dedução do IVA cobrado em espectáculos, livros e museus. Estas duas alterações, que beneficiam o sector da cultura e os seus agentes, foram aprovadas sem o voto do PSD e CDS e com o voto a favor de todos os outros partidos. No debate parlamentar sobre a redução do IVA da venda de obras de arte para 6% o líder da bancada do PSD e seu secretário-geral, Hugo Soares,  afirmou que “o IVA que os deputados desceram foi o IVA das obras de arte de luxo que são vendidas nas galerias”. “Tenham decoro”, disse Hugo Soares, criticando os deputados que votaram a favor da descida, o que mereceu um abanar de cabeça de concordância de Luís Montenegro. A anterior Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, tinha-se pronunciado publicamente contra o aumento do IVA das obras de arte quando ele foi anunciado há uns meses e defendeu a sua descida. Não foi reconduzida depois das eleições e foi substituída por Margarida Balseiro Lopes que, antes do debate sobre o OE no Parlamento, quando interrogada sobre a proposta de descida do IVA das obras de arte, afirmou que essa redução “faz naturalmente sentido”. Não se lhe conhecem declarações após a intervenção de Hugo Soares, mas é evidente que a opinião da Ministra que tutela o sector não foi tida em conta pelo PSD e CDS, os dois partidos do Governo. Margarida Balseiro Lopes, que tem andado num frenesim de entrevistas e declarações nas últimas semanas, arrisca-se a ficar conhecida como a Ministra da Cultura que fala muito mas que não tem peso político nem influência no Governo. A política cultural não se faz de declarações, mas sim de actos. O sentido do voto assumido pelo Governo e as palavras de Hugo Soares contra o trabalho dos artistas e as galerias de arte, oculta que é nessas galerias que os jovens artistas têm frequentemente a primeira oportunidade para mostrar e vender o seu trabalho. Os artistas necessitam da actividade das galerias, não só no país, como nas feiras internacionais onde os galeristas levam as suas obras, contribuindo assim para a afirmação da cultura portuguesa no estrangeiro, coisa que o Estado faz muito pouco. Os mais cínicos, raça abundante entre governantes e políticos de várias origens, dirão que essas questões da Cultura são um problema menor e agem em conformidade. É o país que temos, a Ministra que temos, o Primeiro-Ministro que temos. Comparar a produção cultural a produtos de luxo é um triste exemplo de demagogia e uma triste constatação da forma como o PSD de hoje vê a Cultura.



SEMANADA -A PSP detetou, em média, ao longo dos primeiros 10 meses do ano,  26 condutores por dia  a conduzir veículos com excesso de álcool no sangue; em Portugal é registado um acidente a cada quatro minutos, 16 por hora, 396 por dia. As estatísticas indicam que os acidentes rodoviários continuam a ser a principal causa de mortalidade de crianças e jovens entre os cinco e os 29 anos em Portugal;  entre 1 de janeiro e 13 de novembro ocorreram 125.621 acidentes rodoviários, mais 3.730 do que em igual período do ano anterior e morreram 379 pessoas, registaram-se 2.451 feridos graves e 39.316 feridos ligeiros; uma em cada seis famílias vive em casa sobrelotadas, o que corresponde a 1,2 milhões de pessoas; entre 2020 e 2024 os portugueses consumiram uma média diária de 4079 calorias, o dobro do que é recomendado para um adulto; desde o início do ano, Portugal perdeu 37 ecrãs de cinema e está em vias de ver extinguirem-se mais nove, num total de 46; segundo  o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, da Marktest, 56% dos utilizadores de redes sociais seguem figuras públicas através destas plataformas e o Instagram é a rede mais utilizada para esse efeito; segundo os dados da Associação Portuguesa de Bancos em 2024, existiam em Portugal um total de 3283 dependências bancárias de 23 instituições e um quarto destes estabelecimentos está concentrado em apenas 10 concelhos do país, os mesmos em que estão concentrados 43.5% do valor do IMT ; em 2024, 38% dos portugueses tinham mais de 55 anos, e as projeções apontam para 46% em 2050, ou seja quase metade da população.


 


O ARCO DA VELHA - Portugal é atualmente o 2.º país mais envelhecido da UE, apenas atrás da Itália, e por cada 10 trabalhadores que saem para a reforma, entram apenas 7 jovens no mercado de trabalho.


 


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PELA ESTRADA FORA - Lumina é o nome de uma nova galeria dedicada à fotografia, que abriu em Lisboa na semana passada. O seu impulsionador é o fotojornalista e curador Bruno Portela que pretende neste espaço dar proeminência à fotografia documental, quer de autores portugueses quer estrangeiros. O objectivo é apresentar seis exposições por ano, uma delas de um autor estrangeiro. A exposição inaugural é de um trabalho feito por Luís Vasconcelos ao longo da histórica Route 66, a estrada que atravessa os Estados Unidos de uma ponta à outra. Em 1995, inspirado em “On the Road” de Jack Kerouac, e embalado pela banda sonora de “Bagdad Café”, Luís Vasconcelos partiu de Chicago ao volante de um Pontiac Catalina, acompanhado por três amigos. Na Lumen estão duas dezenas de fotografias dessa viagem, que tem um texto de apresentação onde o jornalista Ferreira Fernandes sublinha que a Route 66, que completa 100 anos em 2026, é “uma tabuleta que atravessa em diagonal os Estados Unidos, 4 mil quilómetros, a América inteira condensada, uma solidão para ser caçada em instantâneos”. Logo na sala de entrada da galeria há uma parede que Bruno Portela entregou a Rute Reimão para ali mostrar obras visuais que de alguma forma se relacionem com as fotografias expostas. Nesta primeira exposição está um triptíco de António Faria intitulado “Road To Nowhere”. Do acervo da Lumina fazem parte trabalhos de vários fotojornalistas e a próxima exposição, prevista para Fevereiro, mostrará trabalhos de Inês Gonsalves e Ana Paganini. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53 A, junto à Fonte Luminosa, pode ser visitada de quarta a sábado entre as 15 e as 19 horas.


 


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ROTEIRO - Where Is Onde” é a nova exposição da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, com curadoria de Alexandre Melo e obras de João Pedro Vale+Nuno Alexandre Ferreira (na imagem), Julião Sarmento, Yonamine, Lawrence Wiener, Jack Goldstein, Robert Barry, Juan Araujo, Vera Luther, Rirkrit Tiravanija, Tomory Dodge e Fischli & Weiss. A exposição decorre até 17 de Janeiro. Até 13 de Dezembro ainda pode ver na Sociedade Nacional de Belas Artes os 30 trabalhos finalistas do prémio Sovereign Art Foundation que foi ganho por Edgar Martins. Entre os outros finalistas estão nomes como Ana Malta, Inês Raposo, Vera Midões, Mário Macilau, João Pina ou Daniela Kritsch. Na Galeria Sá da Costa decorre até 4 de Janeiro a exposição colectiva “nonchalant” com obras de Ana Paganini, Carlota Mantero, Inês Cannas, Nazaré Tojal ou Susana Paiva, entre outros. A Galeria das Salgadeiras (Avenida Estados Unidos da América 53D) apresenta a primeira exposição individual de Rita Magalhães, “Festina Lente”. E na Galeria  3+1 (Largo Hintze Ribeiro 2) pode ver até 17 de Janeiro novos trabalhos de Tito Mouraz sob o título Selva Oscura.


 


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O POEMA DESAPARECIDO - “O Que Podemos Saber”, o novo romance de Ian McEwan, começa em 2119, depois da Inundação, a catástrofe que submergiu grande parte do hemisfério norte depois de uma ogiva nuclear russa ter explodido acidentalmente a meio do Atlântico, causando um tsunami que, em conjugação com o aumento do nível do mar, deixou apenas a salvo as partes mais altas das montanhas de vários países. O cenário do início do livro mostra como o século 21 terminou da forma que todos tememos que aconteça, a Europa reduzida a um arquipélago onde os topos das montanhas são as ilhas habitáveis, com os Estados Unidos em guerra civil entre vários senhores da guerra que se defrontam. Nesse tempo a Nigéria tornou-se a potência dominante, que aloja digitalmente todo o conhecimento da humanidade. Há falta de alimentos, a internet tem condicionamentos, as viagens são difíceis e perigosas. A primeira parte do livro é narrada por Tom Metcalfe, que ensina literatura numa das universidades sobreviventes e que procura um poema desaparecido, de que só existirá uma cópia, manuscrita, da autoria de Francis Blundy. Escrito no nosso tempo actual, o poema foi uma prenda  para a sua mulher e chama-se “Uma Coroa para Vivien”. Foi lido uma única vez pelo autor em público, no jantar de aniversário de Vivien, perante uma plateia de familiares e amigos próximos. Desde essa altura nada se sabe sobre o poema mas vários dos presentes no jantar descreveram “Uma Coroa para Vivien” como uma obra prima, o melhor trabalho de sempre de Blundy. Metcalfe e a sua mulher percorrem os arquivos de Blundy e Vivien, em busca desse texto lendário, sem sucesso, no meio de numerosas peripécias, até pessoais. Este romance cruza duas épocas onde, no meio de todas as diferenças, a literatura coexiste com as paixões, com amores cruzados e até um crime. Ian McEwan escreveu um livro que é sobre a natureza da literatura, com reflexões  sobre política, filosofia e a natureza das relações entre pessoas, em torno de um mistério que cresce numa teia de intriga e cria no leitor a vontade de saber o que aconteceu ao poema e como as personagens se cruzaram. A segunda parte do livro é onde tudo se revela e não vou contar o que aconteceu. Apenas digo que este é um romance extraordinário, muito actual nos tempos que correm, que o New York Times considerou uma das melhores obras de McEwan. Edição Gradiva.


 


ALMANAQUE - Reabriu ao público o Museu Abade de Baçal, em Bragança,com uma exposição temporária do Museu Nacional de Arte Antiga intitulada "Olhar Portugal" que apresenta pintura, escultura, têxteis e ourivesaria dos séculos XII a XIX. O Museu apresenta também obras de artistas como Silva Porto e Teixeira Lopes e oito pinturas do Museu Nacional Soares dos Reis.


 


DIXIT - “Um dos problemas mais graves das democracias actuais é a ausência de líderes com sentido de missão” - José Roquete, no Expresso.


 


BACK TO BASICS -  Quando a compra e a venda são controladas por legislação, a primeira coisa a ser comprada e vendida são os próprios legisladores - P. J. O’Rourke


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS.








novembro 29, 2025

SOBRE OS USOS DA FISGA

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Um dos meus desejos de criança era ter uma fisga. Providencialmente, um tio com quem costumava passar parte das férias de verão resolvia esse meu desejo, fazendo fisgas a partir de pedaços de árvore com a necessária forma de forquilha, fundamental para o efeito, Para completar a fisga, à madeira juntavam-se retalhos de câmaras de ar de automóvel e um pedaço de cabedal de proveniência incerta. Assim, durante um tempo, todos os anos, à minha chegada a sua casa, no Alto Alentejo, levava-me à pequena oficina onde se entretinha a fazer arranjos e dava-me a fisga desse verão. Ao longo do tempo foi aperfeiçoando o fabrico e eu fui aperfeiçoando a pontaria. Durante os meses que lá estava, andava sempre com uma fisga pendurada do bolso, primeiro dos calções e, depois, das calças. Mas por muito que aperfeiçoasse a pontaria nunca consegui acertar em nada que se movesse. Em contrapartida acertava razoavelmente em garrafas vazias dispostas num muro a uns metros de distância. Era um remake daquelas cenas de westerns em que um cowboy acerta em latas velhas com um Colt 45. Mas esse tempo passou e, da utilização da fisga, passei a explorar o potencial do verbo fisgar, no sentido de cativar ou seduzir alguém -  todo um outro treino de uma outra pontaria. Poucas vezes acertei, diga-se, mas diverti-me bastante e adquiri úteis conhecimentos de persuasão. Um outro significado possível de fisgar, que me foi bastante útil ao longo da vida, foi conseguir perceber as intenções de alguém, sobretudo aquelas, digamos, mais maldosas. Lembrei-me de tudo isto quando, passeando numa feira, dei com estas fisgas fabricadas em série, umas pintalgadas e outras apenas com a palavra Portugal estampada. Fisgas modernas é o que é, sinal do espírito de inovação que varre o discurso dos governantes. Como diz o outro, já os fisguei.


 

novembro 28, 2025

NOTÍCIAS DO DIA E SUGESTÕES AVULSAS

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O QUE VEMOS, OUVIMOS E LEMOS? Acompanhar a evolução da paisagem da comunicação, a alteração dos hábitos e comportamentos das pessoas, é sentir o pulso às mudanças acontecidas na sociedade e que moldarão mais à frente a forma como vivemos e interagimos. Peguemos na televisão: hoje em dia 60% dos espectadores seguem os seus gostos pessoais na escolha do que vêem e não aquilo que os directores dos canais generalistas (RTP1 e 2, SIC e TVI) lhes querem impôr. Em números redondos, destes 60%,  40% destes espectadores  estão nos canais de cabo e 20% nas plataformas de streaming. Nos canais de cabo os líderes têm sido este ano o Correio da Manhã TV com 6,2% de share de audiência, a CNN com 2,5%, a SIC Notícias com 2,1%, o Star Channel com 1,8%, a Globo com 1,7% e o NOW, que em escasso ano e meio já alcançou 1,6%, bem à frente da RTP Informação que transmite em TDT e cabo e regista 1,1%. Já agora fiquem a saber que o share médio deste ano da TVI é 14,4%, da SIC é 14.1%, da RTP1 é 10,7% e da RTP2 é 0,7%. E nas plataformas de streaming a preferida é a Netflix, seguida da Disney+ e da HBO Max. Deixemos agora a televisão e passemos ao mundo digital. O que está em alta este ano são os podcasts - segundo a Marktest só no mês de Outubro foram feitos 16,5 milhões de downloads de podcasts. Ainda segundo a Marktest três em cada quatro portugueses vêem videos on line, o que representa um crescimento assinalável em relação ao ano passado. Os hábitos digitais estão estabelecidos: 86,1% das pessoas que vivem em Portugal  utilizam  internet e o telemóvel é o meio mais usado para aceder. O maior crescimento da Internet este ano verifica-se no grupo etário 55-64 anos.Para se manterem informados 6,7 milhões de pessoas lêem regularmente notícias on-line, hábito que é seguido por 97% das pessoas entre os 35 e 44 anos. Em contrapartida as tiragens dos jornais estão, na maior parte dos casos, em queda contínua e os jornais regionais estão em processo de extinção, o que significa menos informação disponível sobre o que se passa em muitas regiões do país. 


 


SEMANADA - Um estudo recente mostra que a percentagem de cidadãos que conseguem pagar as suas contas dentro dos prazos caiu de 85% em 2024 para 77% em 2025; entre 1 de janeiro e 13 de novembro ocorreram 125.621 acidentes rodoviários, mais 3.730 do que em igual período do ano anterior, morreram 379 pessoas, registaram-se 2.451 feridos graves e 39.316 feridos ligeiros; entre 2020 e 2024 os portugueses consumiram uma média diária de 4079 calorias, o dobro do que é recomendado para um adulto; dois anos após as buscas que levaram à demissão de António Costa há computadores e telemóveis que foram então apreendidos que ainda não foram devolvidos e há três arguidos que ainda não foram ouvidos; os Açores, a Madeira, o Alentejo e o Algarve são as regiões portuguesas com taxas de mortalidade mais elevadas; nas prisões portuguesas morreram no ano passado 65 detidos, nove dos quais vítimas de suicídio; segundo a Marktest 30.3% dos utilizadores de redes sociais em Portugal  diz já ter realizado compras diretamente nestas plataformas;  nas últimas três semanas cinco bebés nasceram fora dos hospitais, dos quais três em habitações, um numa ambulância do INEM e outro no interior de um carro em andamento na A22.


 


O ARCO DA VELHA - Vai haver um espectáculo musical sobre a vida de José Sócrates, com estreia em Abril no Teatro Tivoli, e que se chama “Sr. Engenheiro”. Ficou pronta mais cedo a peça do que o julgamento. O orçamento previsto ronda os 600 mil euros.


 


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UMA COLECÇÃO - No MACAM podem ser vistas até 1 de Junho de 2026 obras da Coleção José Carlos Santana Pinto, construída ao longo de quatro décadas e que reúne trabalhos de artistas portugueses e internacionais de diversas gerações como Joseph Kosuth, Julião Sarmento (na imagem), Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Carla Filipe, João Onofre,  Rui Chafes, On Kawara, Dora Garcia, Alfredo Jaar, entre outros.  Com curadoria de Adelaide Ginga, esta exposição assinala o início a um ciclo de colaborações que, a par da Coleção Armando Martins, visa dar visibilidade a outros acervos privados sem espaço público de apresentação, reforçando o papel do Museu como um espaço aberto para a divulgação do património artístico contemporâneo. Ainda no MACAM abriu também “O eu como múltiplo”, com curadoria de Carolina Quintela, a terceira exposição temporária com obras de artistas nacionais e internacionais da Colecção Armando Martins e que reúne até ao início de Maio trabalhos de artistas como Ana Vieira, Helena Almeida, Horácio Frutuoso, John Baldessari, José Pedro Croft, Juan Muñoz, Júlia Ventura, Vik Muniz e Yu Nishimura, entre outros.


 


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ROTEIRO - Começo por uma exposição que abriu sábado na Galeria Arte Periférica, no CCB, ao lado de uma bem fornecida loja de materiais de pintura e desenho. A exposição é de uma artista portuguesa pouco conhecida,  que expõe irregularmente desde 2002 e, de forma mais frequente, desde 2019. No seu site, penelopeclarinha.com intitula-se “artista de variedades” e mostra o seu trabalho numa galeria de imagens que surpreendem. Também esta exposição da Arte Periférica (na imagem) tem o mesmo efeito. É intitulada “Nada a Declarar”, e nasce da constatação de que “ninguém tem nada a dizer porque, na verdade, ninguém sabe o que está a acontecer”. No Porto a Galeria Quadrado Azul inaugurou o seu novo espaço na Rua Miguel Bombarda 435 e apresenta até final de Dezembro uma colectiva com obras de Isabel Carvalho, Paulo Nozolino, Pedro Tropa, Fernando Lanhas, Filipe Braga e Francisco Tropa. Também no Porto e bem próximo (Rua Miguel Bombarda 526) a Galeria Fernando Santos apresenta até 10 de Janeiro a exposição esculturas recentes, com trabalhos em pedra de de Manuel Rosa e prossegue também com a exposição de fotografia “Endscape”, de Luís Campos, já aqui recomendada. No Espaço Cubo, da mesma galeria, Inês Amorim apresenta “Traces of A New Dawn” Outras exposições: no Pavilhão Branco, no Campo Grande, Paula Prates e Rita Gaspar Vieira apresentam até 15 de Março “O tempo maior que o tempo”, com curadoria de Ana Anacleto. E, na Galeria Foco Rua Antero de Quental 55A) , até 20 de Dezembro, pode ver a nova exposição de Nádia Duvall, “Mermaids of a Restless Sea” ​​.


 


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FOTOGRAFAR É GUARDAR O QUE SE VÊ - Gosto de ver e folhear, livros de fotografia. Um livro de fotografia, se fôr bem feito, é como uma exposição que se tem na estante e se visita quando se quer. Tenho alguns livros de fotografia de autores que nunca tive oportunidade de ver expostos numa galeria ou num museu. Nalguns casos, em que vi exposições e livros do mesmo autor, gosto por vezes até mais do livro do que de ver a fotografia exposta. Em Portugal temos a sorte de ter, através da Imprensa Nacional, uma colecção  que nos permite este prazer de ver fotografia. Chama-se Ph., é dirigida por Cláudio Garrudo e tem já mais de uma dezena de livros editados de alguns dos grandes nomes da fotografia portuguesa. Esta semana chegou-me às mãos uma edição recente que mostra a obra de Gérard Castello-Lopes, simbolicamente no ano do seu centenário, que reflecte várias décadas da sua atividade fotográfica e que inclui diversas obras inéditas  Além de fotografias da sua fase mais conhecida, o final dos anos 50, são também mostradas imagens pouco conhecidas de trabalhos que fez nos anos 80, 90 e até no início deste século, sempre a preto e branco. O livro inclui um texto, desnecessariamente longo, de Pedro Mexia, “A Linha do Olhar”, onde o autor elabora o que sentiu sobre dez das fotografias de Castello-Lopes. É pena que esta edição não forneça pistas sobre a importância e o papel do fotógrafo na fotografia portuguesa, e em especial a sua relação com outros contemporâneos. Tirando isso é uma bela forma de dar a conhecer a obra de Gérard Castello-Lopes.


 


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MESA DE CABECEIRA - “Contos Completos” é uma compilação com perto de oitenta histórias breves escritas por Ernest Hemingway. Além de títulos famosos que escreveu ao longo da sua vida são incluídos nesta edição mais de três dezenas de contos até agora inéditos em Portugal, alguns dos quais publicados apenas postumamente. É uma edição Livros do Brasil. O outro livro que me deliciou foi “E Se Einstein Soubesse”, escrito por Alain Aspect, prémio nobel da física, onde se aborda o debate entre dois gigantes da física — Niels Bohr e Albert Einstein — sobre a interpretação da mecânica quântica. Aspect mostra como a controvérsia quase filosófica que Einstein travou com Niels Bohr levou a experiências muito reais e à invenção de novas tecnologias quânticas e explica como conseguiu destacar uma das propriedades mais extraordinárias do entrelaçamento quântico, e tenta imaginar a reação de Einstein aos seus resultados experimentais. “E se ele soubesse?” Edição Bertrand.





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O FADO EM DUETO - O que é que acontece quando um piano português namora uma guitarra portuguesa? Para o descobrirem ouçam o novo disco do pianista Júlio Resende com o guitarrista Bruno Chaveiro, o primeiro disco que grava em dueto e que nasce da experiência de ambos no Fado Jazz Ensemble. Os dois músicos reinterpretam clássicos como “Rua do Capelão”, “Barco Negro”, “Estranha Forma de Vida”, “Amor de Mel, Amor de Fel” ou “Noite de Santo António”, entre outros. Ao todo há oito temas e nem todos nascem do fado. Por exemplo, “Carolina (à la fado)”  pertence ao cancioneiro de Chico Buarque  e ‘Uma Espécie de Ó Bernard - Para a Minha Família Africana é uma revisitação de um tema popular cabo-verdiano. O disco, intitulado “Piano Português Namora Guitarra Portuguesa” está disponível nas plataformas de streaming.





ALMANAQUE - Esta semana recomendo uma das mais divertidas séries de televisão que vi recentemente. Chama-se “A Nova Força” e é sobre a primeira equipa de mulheres polícias em Estocolmo, nos anos 50,  a maneira como foram recebidas pelos seus colegas homens nas esquadras, como a população as encarou e o que tiveram de fazer para serem aceites e respeitadas. A reconstituição de época é muito boa, do guarda-roupa aos cenários e aos carros utilizados. São seis episódios e está na Netflix.





DIXIT - “E a justiça, senhores candidatos, a justiça? Os candidatos a Presidente da República têm-se revelado muito activos. No entanto, relativamente à justiça, o silêncio é absoluto. Dir-se-ia que não sabem. Ou não querem. Pior ainda: que têm receio.” -  António Barreto, no Público


 


BACK TO BASICS -  “É na justiça que se fundamenta a ordem da sociedade” - Artistóteles





A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS







novembro 22, 2025

O QUE ME FAZEM LEMBRAR AS FOLHAS CAÍDAS?

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Quando nestes dias de Outono ando nas ruas e olho para o chão fico sempre com uma dúvida: são as folhas que se sentem despejadas e mal-queridas nas árvores de onde caíram, ou são as árvores que se sentem abandonadas e nuas? Nos dias de vento tudo se agita ainda mais, as folhas rodopiam, esvoaçam, os ramos nus agitam-se, como se as quisessem ainda segurar. Andar em certas ruas nesta altura do ano é como passear  no meio de uma multidão que se despe e vai largando as roupas pelo chão. Já imaginaram o que seria um cenário assim, corpos nus, das mais variadas formas e cores, todos de pé, uns mais direitos, outros mais tortos,  sem sequer uma folha de árvore para os cobrir, como se fantasia que terá acontecido em tempos idos na origem do mundo? Pensar nisso aproxima-se mais de um pesadelo do que de um paraíso, digo eu. Há dias parei frente a uma árvore já despida, as suas folhas ali no chão à minha frente, e pensei que deve ter sido no ciclo das árvores que os desenhadores de moda se inspiraram para criar novas colecções conforme as estações. Tal como as montras das lojas também as árvores se vão vestindo de novas roupas ao longo do ano: depois de ficarem reduzidas aos ramos, começam a brotar rebentos e a ganhar de novo volume, para depois ficarem exuberantes, floridas, coloridas, cheias. Todos os anos recomeça este ciclo pelos campos fora e pelas ruas da cidade. Daqui a algum tempo havemos de estar a ouvir  falar do recorrente encanto que os jacarandás anualmente desencadeiam quando rebentam floridos, mas agora a paisagem é feita das cores quentes do Outono no chão e dos ramos desenhados no horizonte.




novembro 21, 2025

OS TEMPOS FORAM MUDANDO...

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A NOVA POLÍTICA - Em 1964 Bob Dylan escreveu um dos seus grandes clássicos - The Times They Are A-Changin’. Dylan relatava como tudo mudava cada vez mais depressa. Se isto já  era verdade há 61 anos, agora ainda é mais certo e tudo se altera de forma cada vez mais rápida. O primeiro iPhone foi apresentado por Steve Jobs há 18 anos com a promessa de que iria mudar a forma como comunicamos e vivemos. A promessa cumpriu-se e hoje as pessoas de 18 anos que irão votar nas próximas presidenciais pertencem à chamada geração Z, nascidos entre 1997 e 2012  já cresceram com smartphones, redes sociais, acesso instantâneo à informação e, também, à desinformação. Desde muito novos vivem num universo de vários ecrãs que muitas vezes utilizam em simultâneo. Em Portugal a geração Z representa, segundo o Censos de 2021, mais de 1,6 milhões de pessoas, ou seja cerca de 17% do total de eleitores inscritos. As suas escolhas entre a multidão de candidatos que se apresenta nestas presidenciais pesará muito e vão reflectir-se no resultado final. Daniel Agis é um professor e consultor catalão,  especialista em comunicação e marketing. Escreveu recentemente um artigo sobre a campanha que deu a vitória a Zohran Mamdani nas eleições em Nova Iorque. Nesse artigo Agis classifica como brilhante o fenómeno mediático criado em torno do vencedor e afirma, sem subterfúgios: Mamdani não é um ideólogo: é uma construção. Um artefacto visual desenhado com precisão por uma equipa que entende a psicologia do espectador contemporâneo.” Agis sublinha o impacto visual da campanha que fugiu aos grafismos e cores habituais nas campanhas políticas americanas e adoptou “a estética dos letreiros das mercearias de bairro: tipografia irregular, cor saturada, textura de comércio de rua”. Em vez de programa há iconografia, os vídeos utilizados, criados com o ritmo e impacto dos videoclipes dos artistas mais conhecidos, exploraram temas como rendas de casa altas, transportes públicos deficientes, falta de apoio a cuidados infantis. Na campanha Mamdani conversou com taxistas, fez comícios relâmpago no meio da rua junto a quiosques, tudo a parecer improviso, mas na realidade cumprindo um guião bem elaborado. O resultado é o que se conhece, seguidores que criaram conteúdos próprios favoráveis a Mamdani, uma comunidade que se alargou e que não seguia apenas o candidato, mas sobretudo a personagem criada. Conseguiu surgir não como um político tradicional, mas como uma marca, “recorrendo a uma estética replicável, tal qual um meme vivo, uma figura TikTok: breve, contundente, reconhecível, viral.” A história de Mamdani não é a de um desprotegido como por vezes se insinuava:”filho de intelectuais, educado em colégios caros, casado com uma designer síria, Mamdani move-se na cultura da comunicação como no seu elemento natural”, sublinha Agis, ao mesmo tempo que deixa um recado: “a política de hoje, líquida e volátil, vence-se não com ideias, mas com "vibes". Zohran Mamdani entendeu isso como poucos: na era do scroll infinito, a ideologia já não se vota. Consome-se” . Dá que pensar, não dá?


 


SEMANADA - Os hospitais da Grande Lisboa e do  Vale do Tejo têm mais de  340 camas fechadas por falta de enfermeiros; o número de utentes que ligam para a Linha SNS 24 e ficam sem resposta tem vindo a aumentar; de Janeiro a Setembro deste ano, a linha recebeu 5,8 milhões de chamadas, mas 1,46 milhões (25,1%) não foram atendidas; as urgências do SNS registaram quase 16 milhões de atendimentos entre 2022 e junho de 2024, mais do dobro da média da OCDE; até ao final de outubro, segundo dados do Ministério da Saúde, registaram-se 154 nascimentos fora de unidades hospitalares: já houve bebés a nascer em casa, em ambulâncias, na rua, em espaços comerciais, em áreas de serviço de auto-estradas e até num TVDE;  no total, desde 2022, já são quase 700 os bebés que nasceram fora de uma maternidade; os partos fora de unidades de saúde levaram o jornal espanhol El País a fazer uma reporatgem com os Bombeiros da Moita, que são os recordistas em assistência a partos em ambulâncias durante o transporte de parturientes; de acordo com o último relatório da Eurostat, Portugal está ao nível da Grécia e de países de Leste no que toca à distância que os utentes têm de percorrer até chegar a uma unidade de saúde hospitalar; quase metade dos médicos fazem trabalho à tarefa; um estudo recente indica que mais de metade dos idosos que estão em lares têm défice cognitivo, 28% nunca vêem os filhos e 75% dos idosos com demência não saem à rua; Portugal é dos países com menos camas e pessoal para tratar dos mais idosos; mais de 2000 pessoas pediram apoio através da nova linha telefónica para a prevenção do suicídio no primeiro mês de funcionamento.


 


O ARCO DA VELHA - Mais de três mil alunos do primeiro ciclo continuam nesta altura do ano sem professor e 25% dos alunos do 2º ano lêem com dificuldade.


 


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COMPREENDER UM PAÍS - “Complexo Brasil”, na Gulbenkian, é uma exposição que vale mesmo a pena ver. Traça um retrato do Brasil em múltiplas componentes, mostrando diversas formas de arte, mas indo muito para além da arte e mostrando o quadro dos problemas sociais e políticos  que atravessam e marcam o país. Através de vídeos, fotografias, música, pintura, escultura, arte popular e artesanato mostra-se a diversidade e criatividade do Brasil. Os vídeos, curtos, incisivos, muito bem produzidos, ajudam a perceber o que se passa e porque se passa, quer nas cidades, quer na Amazónia. Destaco o vídeo sobre a construção de Brasília e o texto, magnífico, de Clarice Lispector, lido por Adriana Calcanhoto e que é também uma das chaves para compreender os contrastes e diferenças. Há uma das frases desse texto que diz tudo: “Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado“. Ao percorrer a exposição é mais fácil perceber como Bolsonaro ou Lula chegaram ao poder. E entende-se como o poder se mistura com a corrupção, que por sua vez se mistura com o crime, como tudo convive com as religiões ancestrais, tradicionais e modernas. Percebe-se, sobretudo, como o Brasil é um país de excessos, que parece estar sempre a recomeçar do zero e em que a cultura popular faz o papel de eixo de ligação entre tudo o resto. É, também, uma exposição sobre as relações históricas entre Brasil e Portugal, mais do que sobre as actuais. Projetada por Daniela Thomas e com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a exposição, patente até 17 de Fevereiro, ocupa as duas galerias do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, e é acompanhada por um programa de actividades paralelas que pode ser consultado on line, por um bom catálogo que reúne textos e ensaios, além de toda a informação sobre a mostra e uma edição especial da revista Colóquio, da Gulbenkian, “Este Brasil”. Na imagem estão duas peças marcantes da exposição: “Bandeira 2011”, tinta acrílica sobre chapas de alumínio, de Emmanuel Nassar, e “Satélite Baldio 2006”, baldes e parafusos, de Marepe. 


 


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ROTEIRO - A Galeria Belo-Galsterer assinala o seu 13º aniversário com a exposição “Lost In Translation”, que reúne obras de 13 artistas, como Cristina Ataíde, Cecília Costa (na imagem), Claudia Fischer, Daniela Krtsch, Jorge Molder, Inês Moura, Maria Sassetti, Gwendolyn van der Velden e Mané Pacheco, entre outros. A curadoria é de Alda Galsterer e Alexia Alexandropolou e ficará patente até 24 de Janeiro (Rua Castilho 71, r/c). No Centro Cultural de Cascais está patente até 18 de Janeiro a exposição “A Deslocação do Olhar”  que apresenta uma seleção da Coleção de Arte Contemporânea Américo Marques, que reúne obras de mais de duas dezenas de artistas portugueses, entre eles  Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Eduardo Batarda, Pedro Casqueiro e Michael Biberstein, entre outros. A Galeria Zet, de Braga, inaugurou um espaço em Lisboa, na Rua da Prata 176, com fotografias de Alfredo Cunha, da sua recente série “Cartografia do Desejo”. E na Galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72), Ana Malta apresenta novas obras sob o título “Impermanentia”.


 


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OBSERVAÇÕES - “Relato de Certos Factos” é um dos melhores  títulos que conheço para um livro que mistura relatos de casos de justiça com observações e memórias pessoais de quem escreve. E quem escreve é Yasmina Reza, uma dramaturga, argumentista e escritora francesa que juntou nas 240 páginas deste livro 53 curtos textos, sobre os mais variados assuntos, uns que são relatos de sessões de tribunais, outros que contam episódios vividos ou conhecidos pela própria e que vão de encontros com actores como Bruno Ganz a descrições do que vê à sua frente e meditações provocadas por tudo isto. O livro começa logo com uma dessas descrições: “Quando estou em Veneza, fotografo velhos de costas. quero dizer, velhos casais. Pessoas que nunca vi em lado nenhum”. Logo a seguir conta  o caso da auxiliar de enfermagem que  matou o marido com um tiro de carabina e o que se passou no tribunal. Pelo meio evoca ter ficado trancada dentro de uma casa de banho e elabora sobre a semelhança entre filmes de gangsters e a vida real de criminosos que estão a ser julgados. Os textos são pequenos, a maioria de meia dúzia de páginas, outros até menos. O ritmo de escrita cativa e leva-nos a querer saber mais, como Yasmina Reza pensa, o que observa e como olha para o mundo à sua volta. Fascinante. Edição Quetzal


 


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DUETO - “Memories Of Home” é o título do primeiro registo conjunto do guitarrista John Scofield e do baixista Dave Holland. Com temas antigos e recentes compostos por ambos, o álbum foi gravado no ano passado em Nova Iorque após uma longa digressão do dueto. O nome do álbum é de um tema original de Holland, a sonoridade do disco deve muito aos blues  e é um espelho das referências e preferências dos dois músicos. Edição ECM disponível em streaming.


 


ALMANAQUE - Até 15 de Fevereiro a Tate Britain de Londres apresenta a maior exposição dedicada à obra da fotógrafa Lee Miller, desde a sua ligação aos  surrealistas parisienses aos seus trabalhos de fotografia de moda e fotografia de guerra, ao longo de 250 fotografias, entre provas de época e alguns inéditos nunca antes expostos.


 


DIXIT - “A pátria não consegue colocar professores nas salas de aulas nem grávidas nas salas de parto. Mas vai liderar a IA a nível mundial. Só mesmo quem acredita em unicórnios pode engolir uma treta destas”. João Miguel Tavares , no Público 


 


BACK TO BASICS -  Diz-me a experiência que aquelas pessoas que não têm vícios têm muito poucas virtudes - Abraham Lincoln


 


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novembro 16, 2025

ONDE ESTÁ O CONSUMIDOR?

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VOZES PELA COMUNICAÇÃO é o título do livro promovido pelo ISCTE Executive Education que reúne artigos de outros tantos especialistas para debater o futuro da comunicação e as grandes questões que se colocam nessa área. O meu artigo aborda a relação entre marcas e consumidores. A tecnologia leva a alterações cada vez mais frequentes nos mídia e a que os ciclos de comportamento dos consumidores mudem de forma cada vez mais acelerada.


 ONDE ESTÁ O CONSUMIDOR?


Um dos livros a que volta e meia regresso é “Publicidade Sem Espinhas”, um relato de episódios de vida e reflexões desse grande publicitário português que foi António da Silva Gomes. No seu livro, escrito com imenso humor, ele diz que quem inventou a publicidade foram os vendedores ambulantes e os pregoeiros, criativos na forma como anunciavam, o que vendiam, como o “esquimó fresquinho” dos vendedores de gelados, e peritos no contacto directo com o consumidor, hoje em dia tão desejado. Mas a parte mais estimulante do livro é sobre a relação com os clientes. Conta, por exemplo, que era frequente perguntarem-lhe se a agência que dirigia punha reclames na televisão. E recorda que volta e meia aparecia um eventual cliente com uma publicidade já feita por um amigo jeitoso - um deles, depois de saber que podia fazer reclames na televisão, enviou-lhe uma zincogravura com a nota “É para sair amanhã no telejornal…” . É de Silva Gomes esta pergunta ainda hoje em dia tão actual: ”Se nós, publicitários, não fazemos projectos de engenharia, porque é que há tanto engenheiro no quadro dos anunciantes a retalhar textos e a fazer maquetas?”. 


 


 


Desde a altura em que este livro foi publicado, 2003, e os dias de hoje muita coisa mudou - na mídia, nas agências, nos clientes. Mas persiste ainda por vezes a ideia de que, tal como há treinadores de bancada e médicos de google, também há publicitários de aviário. Sobretudo neste século XXI o mundo da publicidade, em termos gerais, sofisticou-se imenso, o conhecimento sobre o comportamento dos consumidores aumentou, os dados sobre audiências tornaram-se muito rigorosos e o digital veio trazer uma complexidade enorme que só equipas técnicas muito preparadas, em talento humano e em tecnologia, podem assegurar. A publicidade precisa de criatividade mas não é um lugar para amadores, sobretudo quando se chega à fase mais decisiva, que é conseguir contactar e impactar o consumidor pretendido para cada produto.


Uma das maiores mudanças tem a ver com aquilo a que podemos chamar “a jornada do consumidor”. Até ao final da primeira década deste século as coisas, tendo já algumas alterações, ainda eram pacíficas. Mas com o advento dos smartphones, no caso o primeiro iPhone, em 2007, tudo mudou de uma forma muito rápida. Na antiguidade da comunicação contemporânea as pessoas ouviam rádio de manhã no carro, liam um jornal algures durante o dia, voltavam a ouvir rádio no regresso a casa e depois viam um dos poucos canais de televisão que então existiam. De repente os jornais impressos começaram a decair, substituídos pelas aplicações que tinham as suas edições digitais, nos carros começou a entrar o streaming de aplicações como o Spotify e, mais recentemente, os podcasts; a rádio passou a ser consumida ao longo do dia, também nas horas de trabalho, graças às suas emissões online enquanto a TV se fragmentou em dezenas e dezenas de canais e nas plataformas de streaming, graças à crescente penetração da fibra óptica. No final de 2024 em Portugal, 92 em cada 100 famílias  tinham banda larga fixa, e dessas cerca de 68% eram de fibra óptica, que continua a crescer. Tudo isto provoca alterações enormes nos hábitos dos consumidores, de qualquer idade e estatuto social. Hoje em dia a arte - cada vez mais científica e menos intuitiva -  está em descobrir quais os pontos de contacto ideais para que cada produto possa eficazmente atingir os seus potenciais consumidores. Não é tarefa fácil entre as solicitações das redes sociais, dos canais de cabo e convencionais e dos websites mais visitados.


Vamos a dados: actualmente os canais FTA (Free To Air, RTP1 , RTP2, SIC e TVI), alcançam em média, no conjunto, 40% do total de espectadores de televisão, enquanto o conjunto dos canais de cabo alcança 40% e as plataformas de streaming outros 20%. Ou seja, 60% dos espectadores não frequentam os canais generalistas, FTA, quando há não muitos anos eles valiam mais de 60% do universo - e a tendência natural é que continuem a perder audiência. Isto tem repercussões na distribuição do investimento publicitário. Se pegarmos nos últimos números disponíveis as televisões FTA têm 33% do investimento publicitário total e estão em queda (chegaram a ultrapassar os 60%), o conjunto dos canais de cabo têm 13% e estão a subir, a imprensa no seu todo tem 1,6% quando chegou a ser o segundo meio em valor de investimento captado, a rádio, tem cerca de 5,6%, o OOH (outdoor, publicidade de rua) tem 16% e tem vindo a subir, a publicidade em salas de cinema vale 0,5% do investimento publicitário total do mercado português e o Digital já passa ligeiramente os 30% e continua aos poucos a crescer. Quanto ao digital convém dizer que há um volume apreciável que não entra nas contas do mercado português porque, apesar de se dirigir aos consumidores portugueses, é comprado junto das grandes operações, Google- Alphabet e Meta- Facebook, nas suas sedes europeias, nomeadamente na Irlanda. 


O crescimento do outdoor, que tem sido impressionante nos anos mais recentes, reflecte precisamente a tentativa de contornar a fragmentação das audiências na televisão e no digital. O racional é que a publicidade de rua pode ser vista por toda a gente, os consumidores que estão dispersos pelos canais de cabo, plataformas de streaming ou sites e aplicações da internet. Outra novidade vem da utilização frequente de influenciadores. Eles existem há muitos anos mas as redes sociais proporcionou  o seu crescimento exponencial nos anos mais recentes. Mas a aferição dos resultados que obtêm é difícil e os resultados práticos nas vendas  são ainda muitas vezes uma incógnita.


Um estudo recente, Influencer Trust Index, da National Advertising Division norte-americana, indica, em relação ao marketing de influência, que apenas 5% dos consumidores inquiridos confia plenamente em influenciadores, 26% dizem que não confiam de todo e 69% admitem confiar de alguma forma. O contraste com os números da publicidade tradicional, incluído no mesmo estudo, mostra as diferenças:  87% dos consumidores inquiridos dizem confiar na publicidade que vêem, e 13 % dizem que não confiam. Os consumidores entre os 25 e os 34 anos são os que menos confiam na publicidade.


Este panorama obriga a voltar à questão do processo de elaboração de uma campanha de publicidade, que, de forma genérica, se divide em duas grandes áreas: a criatividade (que imagina, elabora e produz a publicidade, seja gráfica, digital ou audiovisual); e o planeamento de meios, a estratégia de comunicação integrada, que estuda a melhor forma de conseguir que uma campanha de publicidade atinja os alvos pretendidos em termos de consumidor. Num mundo ideal o cliente podia pedir à sua agência de meios para estudar quais devem ser os meios a utilizar para alcançar os seus objetivos. E a criatividade deveria criar os conteúdos publicitários para os meios escolhidos. Mas isto raramente acontece porque na cabeça de muitos clientes continua a haver um criativo de bancada. O resultado é que muitas vezes surgem conteúdos desadequados à estratégia de meios ideal até porque, a sobrevivência obriga , as agências criativas muitas vezes preferem produzir o que lhes dá maior margem. A luta de classes na publicidade está sempre entre estes dois pólos. a criatividade e o planeamento. Continuo a achar que ver primeiro o mapa para se saber onde quer chegar é mais eficiente do que escolher o veículo em que se faz a viagem Essa continua a ser a grande s questão, cada vez mais decisiva, à medida  que a fragmentação aumenta, a tecnologia avança e os ciclos de comportamento dos consumidores mudam cada vez de forma mais rápida.  e saber onde eles andam e qual o mix ideal que deve ser usado na comunicação para os impactar com a mensagem é o grande desafio.


Manuel Falcão, Consultor de Estratégias de Mídia


 


 


 


 


 


 


 


 

novembro 15, 2025

PERDIDOS & ACHADOS

 


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Foi bonita a festa. Havia quem falasse, houve quem cantasse e tocasse. A sala estava cheia e o dia cinzento convidava a um agasalho. Quando a sala se esvaziou e as pessoas se dirigiram para o local onde estavam a ser servidos aperitivos, ficou perdido numa cadeira este casaco. Onde estaria o seu dono? Se os objectos falassem talvez se ouvisse ali, naquela sala agora vazia, a pergunta: onde está o meu dono que me deixou aqui abandonado? Às vezes acontece isto: encontra-se alguém conhecido, que há muito não se vê, e deixamos para trás alguma coisa que trazíamos quando chegámos. Foi, se calhar, assim: trocámos o que tínhamos por uma conversa que desejávamos. E como uma conversa puxa outra e uma cara conhecida nunca vem só, acaba o objecto por ficar sozinho, a quebrar o vazio das cadeiras de uma sala. Ali perto o seu dono envolve-se cada vez mais em palavras e olhares. Os encontros desejados que demoram tempo a ser alcançados, quando se concretizam finalmente, ocupam o espaço da atenção disponível. Não se pensa em mais nada do que dizer o que antes ficou por falar, na esperança que a conversa retomada possa trazer de volta a emoção que antes se sentira e nunca mais se repetira. E o casaco perdido fica ali solitário, no frio da sala vazia, enquanto a conversa que o substituíu envolve quem o deixou para trás. A vida é isto - perdem-se umas coisas quando se encontram outras.


 


 


 

novembro 14, 2025

UM PAÍS ENTREGUE AOS BICHOS

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A POLÉMICA DOS ELEFANTES NO ALENTEJO - Na semana passada surgiu a notícia de que numa herdade alentejana, nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, vai ser criado, em cerca de 400 hectares de montado, um espaço que  se intitula como “o maior refúgio” de elefantes reformados da Europa, estando previsto que venha a acolher 24 paquidermes vindos de circos e zoos de vários países europeus, já a partir de 2026. A iniciativa é de uma organização criada no Reino Unido, Pangea. Na cerimónia de apresentação foi anunciado o apoio das Câmaras Municipais de Vila Viçosa e Alandroal, assim como da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. A escritora António Ruivo entrou no debate sobre esta iniciativa e partilhou alguns dados que dão que pensar. Antónia Ruivo sublinha que o  montado é um ecossistema produtivo e frágil e os elefantes adultos, cada um com um peso da ordem das quatro toneladas, comprimem o solo, quando os animais repetirem o mesmo trilho todos os dias. “O solo comprimido no Alentejo é solo que não embebe a água, e solo que não embebe será a sentença de morte para o sobreiro. A perda de renascimento natural será uma ferida ecológica que perdurará por décadas.”, afirma Antónia Ruivo. E mais:  “a isto acrescentamos o embate direto sobre a fauna e a flora locais já que o trânsito constante de megafauna altera corredores ecológicos, destrói sub-bosques essenciais à reabilitação, afugenta aves nidificantes e força espécies residentes a competir pela água em períodos de seca extrema” . Um elefante adulto bebe 150 a 200 litros de água por dia, podendo chegar aos 250 litros em alturas de grande calor, muito mais que as espécies animais habituais na região. Sublinha também: “A flora mediterrânica adaptada ao Montado não suporta pisoteio continuado. A fauna local não compete com elefantes em contexto de escassez. O resultado previsível é a perda gradual de biodiversidade e a aceleração dos processos de desertificação.” São também de Antónia Ruivo estas palavras: “É preciso que alguém o diga, sem medo de ser classificado como inimigo da fauna ou da piedade universal: o projeto do santuário de elefantes no Alentejo não é um acto de nobreza ética, é um monumento à impulsividade política e um risco”. Resta saber o que dizem de tudo isto as autoridades ambientais e agronómicas locais responsáveis pela defesa do montado.



SEMANADA - No sábado da semana passada o tempo médio de espera para doentes urgentes no Hospital Amadora-Sintra ultrapassou as dez horas e mais de 15 horas para doentes pouco urgentes; a 30 de junho deste ano  havia um milhão de pessoas à espera da primeira consulta de especialidade no SNS, mais 20% que um ano antes; milhão e meio de pessoas continuam sem médico de família; o Conselho de Finanças Públicas alertou que não foi dada fundamentação cabal para a redução projectada nas despesas com Saúde no Orçamento de Estado  para 2026; 60% dos alunos das quatro escolas de medicina dentária do país são estrangeiros; os cursos de português para obtenção de nacionalidade estão esgotados e há imigrantes que têm de fazer os exames noutros países; a dívida pública portuguesa está a aumentar há três trimestres seguidos; os partidos apresentaram 2176 propostas de alteração ao Orçamento de Estado, um novo recorde; em semana da Web Summit vale a pena recordar que em cinco anos, foram concedidas apenas 490 autorizações pelo regime especial criado para atrair imigrantes empreendedores e fundadores de startups.


 


O ARCO DA VELHA - A organização da Web Summit montou uma barraca debaixo da pala do Pavilhão de Portugal, um edifício desenhado por Siza Vieira e classificado como Monumento de Interesse Público. A barraca foi autorizada pela Câmara Municipal e pela Reitoria da Universidade de Lisboa, que gere o espaço.


 


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MESA DE CABECEIRA - “A Corte das Mulheres”, de André Canhoto Costa, relata a presença de influentes mulheres na corte portuguesa entre 1495 e 1578, período que abrange os reinados de D. Manuel I e D. Sebastião. Foram amantes de livros, apaixonadas pela improvisação poética, cantoras afeiçoadas aos bailes, exímias dançarinas, rodopiando em salas, tocando alaúde, improvisando versos, dando conselhos a ministros e embaixadores, argumentando diante dos doutores. Na Corte das Mulheres brilharam nomes como Joana Vaz, Públia Hortênsia de Castro, Luísa Sigeia, Paula Vicente ou Francisca de Aragão, entre outras. Edição Quetzal. “Construtoras de Impérios” é outro livro sobre a presença das mulheres na nossa História e mostra o seu protagonismo na construção do império colonial português.  Esta obra mostra que a expansão ultramarina portuguesa não foi uma mera história feita por homens, foi também obra de mulheres, portuguesas e autóctones, com papel activo na política, na economia e na sociedade - em Portugal e em espaços ultramarinos. O livro baseia-se na investigação de um grupo de autores, coordenados por Amélia Polónia. Edição Temas e Debates.


 


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PENSAMENTO - A Presses Universitaires de France (PUF) confiou a três prestigiados académicos franceses, Emmanuelle Hénin, Xavier-Laurent Salvador e Pierre Vermeren a coordenação de uma obra sobre os excessos do wokismo, no quadro de um debate intelectual consistente. Assim nasceu o livro  “Face ao Obscurantismo Woke”. Os três coordenadores convidaram mais de duas dezenas de cientistas, filósofos, historiadores, engenheiros, e médicos que se debruçaram sobre o mecanismo religioso e fanático que marca a pseudociência woke. Quando começaram a circular informações sobre o livro uma violenta campanha de imprensa acusou as PUF de estarem ao serviço da extrema direita e desta obra ser financiada por esse sector político. A edição chegou a estar suspensa até que se provou a seriedade e independência do trabalho, ultrapassando a censura e pressões políticas e intelectuais que pretendiam silenciar este livro - nada que surpreenda nos defensores do wokismo. Nascida nos departamentos de ciências humanas, a pseudociência militante woke  invade a medicina e as ciências exactas, pretendendo impor-se através da intimidação e rejeitando qualquer crítica. O livro mostra como o wokismo representa hoje um profundo recuo da racionalidade e do universalismo. Edição Guerra & Paz.


 


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PINTURA E IRONIA - Pedro Casqueiro é um pintor português contemporâneo com obra em algumas das mais importantes colecções institucionais e privadas e integrou um dos vários grupos informais de artistas que frequentaram a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa nos anos 80. São dele estas palavras numa entrevista ao jornal “Público”: “Durante muitos anos não houve pintores e em certas alturas a pintura foi esquecida. É um trabalho mais solitário e demorado e talvez muitos artistas não estejam à altura ou talvez estejam todos fartos de pintar”. Casqueiro não está farto, este ano mostrou novos trabalhos na Galeria Miguel Nabinho e agora, até dia 6 de Abril, o MAAT apresenta,no edifício da antiga Central eléctrica, uma exposição antológica , “Detour”,  com cerca de 80 obras que  percorrem o percurso artístico de Casqueiro entre 1985 e 2025, entre as quais este “Sweater”, de 2018 que aqui se reproduz. João Pinharanda, que comissaria a exposição, sublinha que os trabalhos expostos mostram a grande variedade da sua produção, o uso da cor, a figuração e não figuração e a utilização da palavra pintada. A obra de Casqueiro tem frequentemente uma inspiração arquitectónica, noutras utiliza formas geométricas, por vezes evoca a banda desenhada e algum imaginário da pop art, com uma presença de humor e ironia que são também uma das suas imagens de marca. 


 


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ROTEIRO - Na Galeria Fernando Santos, no Porto, inaugura dia 15 “Endscape”, uma exposição de fotografia de Luís Campos, de grande formato, a preto e branco, As fotografias antecipam um mundo depois do fim, paisagens sem humanos, sem animais, apenas com vestígios da natureza (na imagem). Restam rochas, desertos, árvores queimadas ou fossilizadas, glaciares em dissolução e vestígios da nossa passagem soterrados na areia, imagens de uma destruição que ameaça a nossa extinção enquanto espécie. A exposição fica até 11 de Janeiro, na Galeria Fernando Santos, Rua Miguel Bombarda 526, Porto. No Centro de Artes Villa Portela, em Leiria, está patente até 28 de Fevereiro uma nova exposição individual de João Paulo Feliciano, resultado da coleção da Fundação de Serralves. “Subir ao Palco/Back Home”, tem curadoria de Joana Valsassina, reúne obras de João Paulo Feliciano desde os anos 90 até 2025. E em Lisboa a Galeria Diferença mostra uma exposição de pintura de Bettina Vaz Guimarães com o título “Cartografia do Olhar” e outra de escultura, de Maria Ribeiro, “Argamassa”. A Diferença fica na Rua de S. Filipe Nery 42, ao Rato.


 


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UM DISCO A NÃO PERDER - Com “Lux”, o novo álbum da espanhola Rosalia, a cantora atinge um novo patamar graças a uma produção cuidada, ao leque de colaborações que conseguiu juntar e, sobretudo, ao seu trabalho de composição. As edições físicas do disco têm 18 temas, as digitais, em streaming, apenas 15. No disco colaboram nomes como, Bjork, a portuguesa Carminho, Estrella Morente, Sílvia Perez Cruz, Yahritza y su Esencia e também Yves Tumor. Composto ao longo de dois anos, as letras foram escritas por Rosalia em 14 idiomas diferentes - além do catalão e do castelhano que são as línguas nativas da cantora, há canções em  árabe, inglês, francês, alemão, italiano, hebraico, japonês, latim, mandarim, português, siciliano e ucraniano. Trabalho profundamente místico, em que Rosalia canta os seus amores e a sua relação com a religião, cada idioma foi escolhido para evocar a vida de uma santa distinta. Rosalia assegurou que todas as letras fossem revistas para não conterem erros e aprendeu a cantá-las nesses idiomas, com as pronúncias e técnicas vocais necessárias para cantar em cada língua. O tema interpretado por Rosalia e Carminho, “Memória”, conta com a participação do Coro de Cambra del Palau de la Musica Catalana e da Escolania de Montserrat.e à semelhança de todo o álbum foi gravado com a Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Daniel Bjarnason. “Lux”, o quarto álbum de Rosalia, é o mais surpreendente dos seus trabalhos. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Os partidos populistas aparecem quando os partidos tradicionais deixam de fazer o que lhes compete na segurança, na imigração, na corrupção” - João Pereira Coutinho, no Correio da Manhã.


 


BACK TO BASICS -  “Competição não rima com arte” - Maria João Pires


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS







novembro 08, 2025

AS NOZES DE OUTONO

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Nesta altura do ano sonho com o barulho das cascas das nozes a estalar, quando, ao abrirem-se, desnudam aquelas asas deliciosas que sinalizam o Outono. Esta é também a estação do ano dos sabores únicos e frescos dos sedutores bagos de romã, da excitante marmelada recém cozinhada, das castanhas assadas a fumegar na rua. Uma prova da perfeição da natureza é perceber como estes sabores e odores se completam na perfeição. Posso imaginar-me a partir nozes durante uma tarde, com cuidado, sem as esmigalhar, enquanto intercalo com um pedaço de marmelada. Com sorte incluo neste bacanal outonal umas castanhas assadas, ainda mornas, abertas ao meio e com uma leve camada de manteiga dos Açores, da boa. E remato tudo com uns bagos de romã que trinco com volúpia. O verdadeiro e simples prazer das coisas do campo encontra-se na sua melhor forma nesta estação do ano. Nas outras há boas frutas, mas talvez seja o Outono aquela estação que tem em si o conjunto mais rico e explosivo para as nossas papilas gustativas. O mais curioso de tudo é que estas delícias, sendo boas por si sós, são tão ricas que partilham o que de melhor têm quando são misturadas com outras delícias numa salada, assadas no forno ao lado de uma peça de carne, ou servindo de companhia a um queijo bem curado. E não me esqueço das romãs, essas pérolas de prazer que alma gentil me descasca, salvaguardando-as num frasco de vidro que fica no frigorífico para eu ir assaltando ou para começar o dia da melhor forma, misturando-as no meu iogurte matinal. A vida feita de coisas simples pode ser boa. Nós é que muitas vezes a complicamos.


(estes pensamentos estão semanalmente em sapo.pt)

novembro 07, 2025

FUGIR À REALIDADE - ESTRATÉGIA DE GOVERNAÇÂO

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ESTE PAÍS - Na edição desta semana do semanário “Sol”, o jornalista José Cabrita Saraiva fez uma entrevista com um guarda prisional da penitenciária da Carregueira. Vou citar um excerto dessa entrevista: “No caso da Carregueira estamos a falar de uma prisão que foi planeada para 500 reclusos e já vai nos 800. O que era uma cela para 4 pessoas passou a ser para 5, 6 ou 8. (...) É como se fosse uma cidade que está a ficar sobrepovoada. Você não tem uma enfermaria maior, não tem um pátio maior, não tem um refeitório maior, não tem nada maior. Mas tem mais reclusos. Menos guardas e mais reclusos.” Leio estas linhas e é impossível não pensar que este é também o retrato do nosso país hoje em dia. Temos mais gente mas no funcionamento do Estado tudo diminui: faltam professores, faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam políticas eficazes de habitação. A culpa não é só deste Governo, bem entendido: é de uma sucessão de anos de má governação em que ninguém olhou para a realidade que se desenhava e que inevitavelmente produziria este resultado, apesar de muitos avisos terem sido feitos. O que na realidade acontece é que o Estado tem obrigação de assegurar que áreas cruciais como a saúde e a educação funcionem e deve desenvolver políticas que estimulem a habitação social. Nada disto está a ser feito e o novo Orçamento de Estado prevê mais cortes que vão piorar ainda mais a situação nestas áreas. Não se trata de seguir a conversa, que está na moda, de os portugueses se sentirem estrangeiros no seu país. É mais ao contrário: temos um Estado desligado do país e de quem cá vive.


 


SEMANADA - Segundo o bastonário da ordem dos médicos todos os anos saem 800 médicos de Portugal; quatro milhões de portugueses têm seguros de saúde; as famílias portuguesas gastam 20 milhões de euros por dia em despesas relacionadas com a saúde; o Governo deixou cair do PRR o novo Hospital Oriental de Lisboa, 18 centros de saúde, 3550 camas na rede de cuidados continuados e paliativos; na área da Cultura foram retirados 15 milhões de euros do PRR que se destinava a livrarias, apoios à tradução e edição de de obras literárias e digitalização de arquivos audiovisuais; o reforço e alargamento da cobertura das escolas com redes de wi-fi também foi retirado do PRR; trabalham hoje em Portugal 5,624 milhões de pessoas, o valor mais alto desde 1998; segundo promotores imobiliários a aprovação de novos empreendimentos é mais ágil no Porto do que em Lisboa, o que leva à fuga de investimentos na capital na área da habitação; os bancos portugueses concederam 18 mil milhões de empréstimos para a compra de casa nos primeiro oito meses do ano, um valor sem precedentes; os impostos sobre a habitação representam 80% da receita fiscal das autarquias; as exportações portuguesas caíram 0,1% no terceiro trimestre e as importações cresceram 5.2%; a dívida pública atingiu um novo máximo histórico de 294,3 mil milhões, ou seja cerca de 27 mil euros por habitante; há mais de 1200 horários ainda por preencher nas escolas; as polícias portuguesas apreenderam dez toneladas de cocaína em seis meses, o valor mais alto de sempre.


 


O ARCO DA VELHA - Mais de 30% da violência doméstica registada pela PSP no primeiro semestre é de filhos contra pais.


 


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A SEDUÇÃO DA MONOTIPIA - A nova exposição de Ana Jotta e Jorge Nesbitt, que já têm um histórico de colaboração, tem um título baseado na música de Robert Wyatt, “Black Pudding”. Na realidade a exposição, que está patente na Galeria Miguel Nabinho, tem três momentos. O primeiro, e que está exposto (na foto), é constituído por um mural em rolo de papel, com a dimensão de 14 metros, no qual os artistas imprimiram monotipias a partir de linóleos previamente usados noutras circunstâncias. O segundo momento é uma série de 13 trabalhos feitos em papel japonês, também com monotipias e marcador com dimensões aproximadas de um metro por 1,60 m. E o terceiro é um conjunto de duas dezenas de livros de artista, com capa em serigrafia, reproduzindo um poema de um monge irlandês do século IX, e cada um tem dentro um desdobrável, prova única de monotipia e marcador em papel japonês, com 30 cm x 1,75 m. O grande mural exposto está concebido (e marcado) para poder ser vendido em segmentos de um metro. A exposição fica patente até final de Novembro na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão 18.


 


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AMORES CRUZADOS - Can Xue é considerada a maior escritora chinesa contemporânea, tem um novo romance editado em Portugal - “A Última Amante”, uma história de amores cruzados repleta de ironia. No romance desfila um conjunto de maridos, esposas e amantes, entrelaçados em relações complicadas. As personagens envolvem-se nas fantasias umas das outras, mantendo conversas que são autênticos jogos de adivinhação. Can Xue escreve sobre o desejo humano colocando as personagens em bares decadentes e ruas escondidas.  O romance está repleto de personagens fabulosas, como Joe, vendedor de uma empresa de vestuário num país ocidental desconhecido, e a sua mulher, Maria, que realiza experiências místicas com os gatos e as roseiras da casa. Reagan, cliente de Joe, tem um caso com Ida, uma funcionária da sua plantação de borracha, enquanto Vincent, dono de uma loja de roupa, foge da mulher em busca de uma mulher de negro que desaparece sucessivamente. É no fundo um romance sobre a busca pelo amor, às vezes ingénua, outras desamparada. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - Os dois livros que destaco esta semana têm ambos um prefácio de Paulo Portas. Começo por “Algoritmo Cracia”, de Adolfo Mesquita Nunes. O subtítulo é “Como a IA está a transformar as nossas democracias” e Paulo Portas afirma que “este é um livro essencial para quem quer perceber a política dos nossos dias”. Mesquita Nunes é um advogado que tem estudado e trabalhado nos desafios jurídicos que as novas tecnologias e em particular a IA colocam. O autor sublinha que a Inteligência Artificial não é apenas uma inovação tecnológica, mas um dos maiores desafios à sobrevivência das democracias liberais” (edição D. Quixote). O outro livro é uma segunda edição, actualizada e aumentada, que conta o percurso de Rui Pedro Bairrada, “De Estafeta a CEO e de CEO a Chairman”, fundador da Doutor Finanças, uma empresa de intermediação de crédito que promove a literacia financeira. No seu prefácio Paulo Portas destaca três atitudes de Rui Pedro Bairrada que o impressionaram:” a disposição para mudar profissionalmente, a disposição para fazer uma introspecção com humanismo terapêutico e a disposição para partilhar experiências e vivências” (edição Contraponto)


 


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NOVAS DESCOBERTAS DE DYLAN - “Through the Open Window” é a 18ª edição de gravações inéditas e piratas de Bob Dylan, conhecida por “The Bootleg Series”. Neste caso grande parte são gravações efetuadas quando Dylan tinha apenas 20 anos, pouco depois de chegar a Nova Iorque. A edição é uma caixa com oito discos baseada nas sessões de estúdio feitas em finais de 1961 para gravação do seu primeiro disco, com o produtor John Hammond. Ali estão gravações não aproveitadas dessas sessões, entre elas uma versão desconhecida do tradicional “Man of Constant Sorrow”, que Dylan tinha ouvido na voz de Judy Collins. Mas este conjunto de gravações vai mais longe e abarca o período entre 1956 e 1963, incluindo a primeira gravação conhecida de Robert Zimmerman, feita numa loja de música, uma versão de “Let The Good Times Roll”. Na realidade este conjunto de discos ajuda a seguir o percurso de Dylan, do Midwest até Nova Iorque, com registos efectuados em pequenos clubes, em casa de amigos e até em manifestações, cantando temas de Woody Guthrie. Ao todo há 48 faixas completamente inéditas, incluindo gravações da sua actuação no Gerde’s Folk City em 1961, o local onde um crítico do New York Times o ouviu e depois escreveu um texto que lançou a carreira de Dylan. A caixa, compilada por Steve Berkowitz e Sean Wilentz, encerra  com a gravação integral do seu concerto no Carnegie Hall. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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ALMANAQUE - Esta semana o destaque vai para o leilão que a Cabral Moncada realiza em Lisboa no dia 10 de Novembro e que tem 217 obras de referência, 86 das quais provenientes da Colecção João Esteves de Oliveira. Coleccionador, galerista, mecenas, amante das artes e das letras, João Esteves de Oliveira (1946-2023) nasceu no Porto, estudou Economia e teve uma longa carreira na Banca internacional antes de se tornar um galerista de referência e uma figura incontornável no mercado Português de Arte Moderna e Contemporânea. Durante os tempos em que trabalhou na Banca, viveu em Londres e Paris, visitou galerias, museus e antiquários e criou relações de amizade com vários artistas, nomeadamente Júlio Pomar e Jorge Martins que, mais tarde, tiveram um papel relevante na galeria. Na sequência da reestruturação do sistema financeiro em Portugal, abandonou a Banca, e abriu a sua galeria “João Esteves de Oliveira Trabalhos sobre papel, Arte Moderna e Contemporânea”. A sua missão era promover as obras sobre papel, independentemente das técnicas utilizadas nesse suporte, o que era inédito no panorama artístico português da época. No texto que escreveu para o catálogo do leilão, Isabel Andrade Dias, que trabalhou com o galerista durante quase duas décadas, sublinha que “a atividade de João Esteves de Oliveira foi determinante para a valorização do trabalho sobre papel, conferindo-lhe uma visibilidade e um reconhecimento que até então lhe haviam sido recusados”. E prossegue: “segundo Pedro Cabrita Reis, pela mão de JEO o desenho deixou de estar guardado nas pastas dos ateliers dos artistas e ganhou autonomia e identidade”. Da sua colecção sobressaem obras de artistas com carreiras relevantes na arte contemporânea: Ana Jotta, José Loureiro, José Pedro Croft, Julião Sarmento (na imagem está a sua obra que vai a leilão), Pedro Cabrita Reis, Jorge Queiroz, Jorge Pinheiro, Fernando Calhau, António Sena, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa,  Joaquim Bravo, Manuel Caldeira, Jorge Nesbitt, Marco Pires e Vasco Futscher, entre outros. O leilão, presencial, decorre na sede da Cabral Moncada, Rua MIguel Lupi 12D, no dia 10 pelas 18h00.



DIXIT - Cada vez há menos portugueses a acreditar que os dirigentes do PS não soubessem nada sobre o modo como Sócrates exercia o poder e beneficiava dele” - João Marques de Almeida, no “Sol”.


 


BACK TO BASICS -  “Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina” -  Nelson Rodrigues.


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS