
MANOBRAS PERIGOSAS - O que é feito da legislação sobre utilização de telemóvel enquanto se conduz? Aqui há uma dezena de anos fui (bem) multado por ir a conduzir com o telemóvel encostado ao ouvido. Hoje muitos veículos têm dispositivos de alta voz que permitem que se fale sem ter uma mão a pegar no aparelho e isso facilita as coisas. Mas vejo cada vez maior número de pessoas a ler e enviar mensagens pelo telemóvel e tenho a sensação que um número considerável de acidentes ocorrem porque há quem se distraia a ler ou escrever e acabe por bater no carro da frente quando este trava ou reduz a velocidade. Mas outro caso igualmente grave ocorre com as aplicações usadas pelos motoristas de TVDE - que enquanto conduzem as manuseiam, quer a procurar chamadas de clientes, quer a procurar direcções. Estar a conduzir ao mesmo tempo que se olha e manuseia o ecrã do smartphone não me parece uma boa ideia e tenho curiosidade de saber se a legislação sobre a utilização de telemóvel enquanto se conduz permite este tipo de manobras. Neste fim de semana em Lisboa constatei que mais de metade dos carros em circulação no percurso pelo centro da cidade que tive de efetuar eram TVDE’s, que contribuem muito para o congestionamento de trânsito. Não sei o que se passa hoje nas escolas de condução e nos exames de motoristas de TVDE’s - não os ensinam a fazer piscas quando querem mudar de direcção? Não sabem que inverter o sentido no meio de um traço contínuo é uma manobra perigosa? Alguém tem que pôr cobro a isto - quer na eventual utilização ilegal de telemóveis durante a condução, quer na falta de cumprimento de normas básicas do código de estrada. Assim não é de admirar o elevado grau de sinistralidade rodoviária que temos.
SEMANADA - Segundo o jornal “The Portugal News”, no concelho de Vila do Bispo 44% dos votos nas recentes eleições foram de estrangeiro residentes, mas Albufeira, Lagos, Aljezur, Loulé e Tavira registaram também uma percentagem superior a 30%; segundo o INE Portugal registou no ano passado um crescimento efetivo de população para um total de 10 749 635 pessoas, mais 110 mil, no sexto ano consecutivo de aumento de residentes feito à custa da imigração; um inquérito realizado a 2300 estudantes conclui que um elevado número se sente triste e 40% consome psicotrópicos; há mais estudantes no Ensino Superior que também trabalham e no ano letivo 2023-2024 ultrapassavam já os 41 mil, representando 9,2% do total de inscritos, a percentagem mais alta dos últimos dez anos de trabalhadores-estudantes; três em cada quatro utilizadores de bicicletas e trotinetas não usam capacete, um número significativo deles passa sinais vermelhos, anda em cima de passeio e não faz sinais de mudança de direcção; a GNR deteve, em apenas quatro horas na madrugada de 13 de junho, 50 condutores nas principais vias de acesso à Área Metropolitana de Lisboa, a maioria por conduzir sob o efeito de álcool; quase 31% dos portuguess possuem ou beneficiam de seguro de saúde; em maio havia 1.644.807 utentes sem médico de família, mais 42.230 que no mesmo mês de 2024; o concurso nacional para a colocação de médicos recém-formados em medicina geral e familiar voltou a ficar aquém das necessidades: das 5685 vagas abertas apenas 231 foram preenchidas, ou seja, só 39% tiveram interessados; o concelho da Azambuja só tem um médico do SNS para quase 19 mil utentes.
O ARCO DA VELHA - Na lista das duas dezenas de pessoas sinalizadas como pertencendo à milícia neonazi pelo menos quatro são agentes da PSP e um deles fazia a avaliação do uso de armas pelos candidatos a entrar na organização.

UM AVISO - Na semana passada, a conselho de voz amiga, fui ler “Desconhecido Nesta Morada”, da escritora norte-americana Katherine Kressman Taylor, editado recentemente em Portugal. Este curto romance foi publicado em 1938 e assume a forma de uma troca de cartas entre dois amigos que fundaram uma galeria de arte em São Francisco. Um deles, Martin, decide em 1932 voltar para a Alemanha, que era a sua terra natal, enquanto Max, de origem judia, fica nos Estados Unidos a gerir a galeria. O romance - melhor dizendo a troca de cartas - espelha a época do nascimento e crescimento do partido nacional-socialista até tomar o poder, segue a transformação ocorrida em Martin, que procura justificar as perseguições e culmina no progressivo afastamento dos dois amigos - ao ponto de Martin se recusar a auxiliar uma irmã de Max, que acabou por ser morta por nazis que perseguiam judeus. Martin, defensor da nova ordem, descrevia Hitler como “uma espada desembainhada” e relatava que “a Alemanha levanta a cabeça bem alto entre as nações do mundo” e “segue o seu Glorioso Chefe rumo ao triunfo”. O livro foi banido pelos nazis, tornou-se um êxito internacional, foi traduzido para mais de 20 línguas e lido por milhões de pessoas em todo o mundo. Numa das cartas, Max escreve a Martin: “Esta censura, esta perseguição aos espíritos livres, o incêndio de bibliotecas e a degradação das universidades haveriam de merecer a tua indignação, mesmo que ninguém tivesse levantado a mão contra os da minha raça”. É uma das derradeiras cartas, até que, algum tempo depois, Max recebe devolvida uma nova missiva que tinha enviado a Martin, com o carimbo “Desconhecido nesta morada”, o sinal de que o seu amigo tinha desaparecido, também ele vítima de um regime que defendia. Na semana em que se soube dos planos de milícias de extrema direita para atacar o parlamento português e em que se assiste de forma cada vez mais frequente a tentativas de condicionar, calar e punir a liberdade de opinião, este é um livro a não perder. Edição Livros do Brasil Colecção Dois Mundos.

OS AMBIENTES DE CASQUEIRO - “Daltónica” é o titulo da nova exposição de Pedro Casqueiro na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18, a Campo de Ourique). Casqueiro, que fez o Curso de Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa na primeira metade dos anos 80, expõe regularmente desde 1981 e a sua obra foi apresentada em instituições como a Fundação Gulbenkian, o Museu de Serralves, a Fundação EDP, a Fundação PLMJ ou a Colecção Berardo e também em museus internacionais em Espanha, Bélgica Alemanha e Estados Unidos. Partindo de uma base de desenho, Casqueiro tanto pode avançar em evocações arquitetónicas como em abstracções, misturando referências a banda desenhada com ambientes que evocam imagens pop. As 13 obras expostas, sob o título genérico “Daltónica”, têm diferentes dimensões, desde os 50x50cm até 200x130cm, com preços que vão desde os 3700 euros até aos 21.500. Há também formatos muito diferentes, alguns que fogem às formas mais usuais, no que é também, afirma o artista, um caminho que quer explorar no futuro. Nestas novas obras há uma utilização diferente de combinações de cores e Pedro Casqueiro afirma que uma boa parte do seu processo criativo se baseia na exploração do equilíbrio de cores. Algumas das obras retomam ideias existentes em obras anteriores, desenvolvendo-as, outras baseiam-se em desenhos e ilustrações que consulta, como um livro de patentes, e até em músicas que ouve enquanto trabalha. A exposição pode ser vista até 6 de Setembro.

ROTEIRO - Começo por recomendar uma visita ao Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa (Rua da Palma 246), onde Eurico Lino do Vale apresenta até final de Setembro a exposição “do TEATRO ao RETRATO”. A exposição apresenta uma visão da produção fotográfica do autor, realçando a componente cenográfica que tem sido constante no seu trabalho. Com curadoria de António Pedro Mendes e Sofia Castro, são mostradas fotografias tiradas em diversas épocas e situações, com predominância para retratos nos quais os ambientes são preparados e os fotografados são dirigidos como protagonistas de uma encenação (na imagem). É apresentada, pela primeira vez, a série “Fotografias Num Contexto de Moda”, em que o próprio Eurico Lino do Vale é o protagonista. Também são inéditas imagens de um projecto ainda em curso, “Adolescentes do século XXI”. Esta é uma das mais interessantes exposições de fotografia de autores portugueses já apresentadas este ano. Mas esta semana há mais para ver: a Galeria da Avenida da Índia reabre vocacionada para acolher a colecção de arte contemporânea que a autarquia lisboeta vem adquirindo desde 2016. Nesta exposição, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, sob o título “WHO WHERE / QUEM ONDE” figuram sete dezenas de obras de uma colecção que já vai em 200 peças. Na exposição estão nomes como Ana Cardoso, Ana Jotta, Ana Vidigal, André Cepeda, Ângela Ferreira, António Júlio Duarte, Gabriel Abrantes, Inês d’Orey, Jorge Queiroz, Jorge Molder, Luisa Cunha, Manuel Rosa, Paulo Brighenti, Paulo Nozolino, Patrícia Garrido, Rita Gaspar Vieira e Rui Chafes, entre outros.

JAZZ À GUITARRA - Colocar a guitarra no centro de um conjunto de músicos de jazz é sempre um desafio. A norte-americana Mary Halvorson, compositora e guitarrista, sai-se bem. O seu novo disco, “About Ghosts” mantém ao lado da guitarrista o trompetista Adam O’Farrill, o trombonista Jacob Garchik, a vibrafonista Patricia Brennan, Nick Dunston no baixo e Tomas Fujiwara na bateria, no fundo o mesmo grupo do disco anterior, “Cloudward”, considerado um dos melhores de 2024. Entre a improvisação e melodias muito rítmicas, os oito temas deste disco mostram uma grande diversidade, que vai desde a energia de “Full Of Neon”, a faixa inicial, até “Eventidal”, um deliciosa balada baseada na guitarra e vibrafone e outras faixas, como “Absinthian” e “Amaranthine” evocam sonoridades do bebop. O disco está disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - O Centro Pompidou, inaugurado em 1977, vai entrar em obras até 2030 e enquanto os trabalhos não começam apresenta no espaço da Biblioteca Pública de Informação, até 22 de Setembro, uma ambiciosa exposição do artista alemão Wolfgang Tillmans intitulada “Nothing could have prepared us – Everything could have prepared us”, que ocupa uma área de seis mil metros quadrados. A exposição percorre 35 anos da carreira de Tillmans e mostra a sua fotografia da arquitectura ao retrato, passando por naturezas mortas, trabalhos documentais e abstracção.
DIXIT - "Sentar uma piada no banco dos réus é uma ideia bizarra" - Ricardo Araújo Pereira
BACK TO BASICS - “As melhores piadas são perigosas e são perigosas precisamente porque mostram a verdade” - Kurt Vonnegut
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS




















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