março 03, 2023

O INTOCÁVEL ESTADO

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DESIGUALDADES - Se um vulgar cidadão se atrasa a cumprir as suas obrigações para com o Estado tem tolerância zero, salta-lhe a máquina burocrática em cima, sem apelo nem agravo, sem recursos, sem decisões judiciais. Mas há uma excepção: o Estado é muitíssimo tolerante consigo próprio. Desculpa-se pelos atrasos, esquece-se do que devia fazer, deixa as coisas correr quando lhe dá jeito. Vou dar um exemplo, que está relacionado com um dos maiores escândalos da justiça portuguesa na última década. O caso é o que envolve José Sócrates, o exemplo é a Lei que regulamenta o sorteio de juízes para, diziam, tentar melhorar a transparência na distribuição dos processos em tribunal. A lei entrou em vigor em Outubro de 2021, o Governo estava obrigado a regulamentá-la no prazo de 30 dias para que ela pudesse começar a ser aplicada. Até hoje não foi regulamentada, apesar de ter passado ano e meio, continua pois sem poder ser aplicada. E assim os juízes continuam a ser designados pelo método antigo, o do sorteio. O que é que isto tem a ver com Sócrates? -  os seus advogados aproveitam a vantajosa ausência de regulamentação para, de cada vez que é sorteado um juiz para apreciar um recurso do processo do ex-Primeiro Ministro e líder do PS, apresentarem novo recurso a pedir o afastamento do juiz designado por a distribuição ter sido feita através de um sorteio que já não está previsto na lei em vigor. Recapitulemos: José Sócrates foi detido há mais de oito anos, em Novembro de 2014, foi acusado em Outubro de 2017 e pronunciado em Abril de 2021. De então para cá há  uma teia de recursos a bloquear o processo e as primeiras prescrições - o objectivo de todos estes expedientes - acontecem já em 2024. Data de julgamento é coisa que não existe. Ninguém me convencerá que estes atrasos de regulamentação são ingénuos ou casuais. 


 


SEMANADA - A idade média da população portuguesa é agora de  46,8 anos, um aumento de 4,7 anos em relação a 2012, o que constitui a maior subida registada em igual período na União Europeia; o preço dos alimentos está a aumentar mais em Portugal na zona euro e produtos como ovos, leite fresco e comida de bebé são aqueles onde se regista maior desvio; nos produtos alimentares não transformados o aumento verificado em Fevereiro em relação ao mesmo mês do ano passado é de 20,11%;  a Lei que prevê a divulgação dos contratos dos gestores públicos foi aprovada há mais de uma ano, mas ainda não foi publicado nenhum contrato; uma sondagem recente mostra que os três principais problemas indicados pelos portugueses são a inflação, o estado da governação e a corrupção; o endividamento da economia portuguesa aumentou 19,1 mil milhões de euros em 22, para um total de 793,8 mil milhões; em 2022 foram criadas mais de 48 mil empresas em Portugal, mais 14% que em 2021; uma consulta de psiquiatria infantil chega a ter um prazo de 200 dias de lista de espera em alguns hospitais públicos; em Janeiro o total dos depósitos de particulares em bancos diminuíu 2,5 mil milhões de euros face a Dezembro de 2022 e as subscrições líquidas de certificados de aforro aumentaram 2,9 mil milhões de euros no mesmo período; um em cada quatro médicos tem mais de 65 anos e cinco mil vão aposentar-se até 2030.


 


O ARCO DA VELHA - O Ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, anunciou a presença de Lula da Silva na cerimónia do 25 de Abril no Parlamento, a fazer um discurso, sem que isso tenha sido discutido e decidido na própria Assembleia da República.


 


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UMA COLECÇÃO IMPERDÍVEL  - Desde quarta-feira e até 8 de Abril poderão ver na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa,  uma parte da colecção de arte moderna e contemporânea de Norlinda e José Lima, apresentada sob o título “Uma terna (e política) contemplação do que vive”. Empresário e industrial da área do calçado,  José Lima, e a sua mulher, Norlinda, professora de profissão,  adquiriram ao longo dos anos uma vasta e importante colecção com mais de 1300 obras de arte, contabilizando cerca de 250 artistas portugueses e 230 internacionais, colocada em depósito no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira, sua terra natal e onde o casal vive. Numa entrevista de 2021 José Lima considerou-se “ um colecionador invulgar porque não estudou e tudo o que aprendeu foi por si, lendo os livros, visitando museus, exposições e ateliês, falando com curadores, galeristas e artistas”. Na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 26) estes coleccionadores apresentam 120 das suas obras, de autores como, entre muitos outros, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Paula Rego, Rui Chafes, Ana Jotta, Pedro Chorão, Jorge Queiroz, Anish Kapoor, Andy Warhol, Christo, Joseph Beuys, Damien Hirst, Pistoletto ou Sol Lewitt (na imagem). “A abordagem deste projeto é focada no ponto de vista dos colecionadores, procurando expor o maior número de artistas possível, num ângulo que nos permita viajar com os públicos pela História da Arte Contemporânea”, afirma Helena Mendes Pereira, diretora da zet gallery, de Braga, que assegurou a curadoria desta exposição. 


 


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O TESTEMUNHO DE UMA VIDA - Manuel S. Fonseca é um homem de sete instrumentos - uns foi tocando ao longo da sua vida profissional, outros toca agora com belas orquestrações. O Manuel é um homem com a vida marcada pelo cinema, a escrita, a música, suas paixões confessas apenas suplantadas pela forma como fala da Luanda e de Angola, onde foi menino e cresceu. Este livro, é uma colectânea de escritos, ditos, crónicas de jornal, posts de blogues, reunidos ao longo de uma dúzia de anos. São recordações de paixões e declarações de fidelidade a muitas coisas que viveu, que fez, que sentiu. Há momentos em que é um livro de aventuras, umas tão ternas como aquela pescaria de caranguejos, feita com o seu pai, pelo areal fora, em que os crustáceos se iam escapando do saco que o Manuel menino deixou entreaberto, para que todos fugissem de novo para o mar  -  tudo culminou com pai e filho a comprarem caranguejos a pescadores locais para não chegarem a casa de mãos a abanar. Mas é também a recordação dos momentos em que Angola começou a traçar o seu próprio caminho, os dias de Fevereiro de 1961, o clima vivido, os medos sentidos. Livro de observações, divide-se entre as recordações de infância, as aventuras de adolescência, os dias da independência e a declaração de amor ao Liceu Salvador Correia, que o fez homem e é o manifesto que encerra este livro que fala de filmes de nomes como Godard, de canções de Aretha Franklin e de Bob Dylan, das marcas dos tempos que viveu. Aqui se cruzam memórias de Angola e episódios de vida - “Este é o meu livro de África”, diz o Manuel aos seus amigos, sorrindo com os olhos, como costuma fazer. A edição, não podia deixar de ser, é da sua “Guerra & Paz”, que fundou e é agora a sua vida.


 


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DISCOS ARTIFICIAIS - Foi há 22 anos que os Gorillaz lançaram o seu primeiro disco e agora têm o seu oitavo álbum de originais,  “Cracker Island”. The Guardian já escreveu que era um dos seus melhores trabalhos de sempre e parece-me que tem razão. Os Gorillaz, convém recordar, são uma banda virtual, anónima, que vive deliberadamente sem caras em palco, apenas imagens de avatars de inspiração BD, que protagonizam os músicos. Na origem da coisa esteve Damon Albarn, dos Blur, e o seu amigo Jamie Hewlett, que desenhou os bonecos. Nos Gorillaz Damon Albarn fez aquilo que não conseguia nos Blur - explorou outras sonoridades, andou por territórios fora do pop formatadinha. Banda virtual, os Gorillaz têm nomes imaginados: 2D canta e está nas teclas, Murdoc Niccals está no baixo, Noodle na guitarra e Russel Hobbs na bateria. Em palco estão projecções dos bonecos, não há musicos à vista, e mesmo assim os concertos são um acontecimento. Ao longo destas mais de duas décadas passaram pelos Gorillaz muitos músicos convidados e Albarn é o único membro permanente. Os cruzamentos musicais que Albarn consegue entre músicos de diversos géneros são talvez a razão de ser da notoriedade que a banda conseguiu. “Cracker Island “ é um disco pop que parece programado a IA para satisfazer os consumidores de música em streaming - mas isso é uma vantagem. Aqui estão colaborações tão diversas de nomes como Stevie Nicks, Thundercat, Tame Impala e Bootie Brown, Bad Bunny, Beck ou e La Soul entre outros. O resultado é que não há duas canções iguais e que a maioria delas são mesmo bem apanhadas. Nada como ouvir para confirmar. “Cracker Island" foi feito para as plataformas  de streaming e é lá que o podem encontrar.


 


ARROZ DE FUNGOS - Este é o tempo dos cogumelos, portanto é aproveitar. No mercado existem muitas variedades de cogumelos, uns deliciosos fungos que são uma óptima matéria prima para um arroz que fará uma bela refeição - será o dia ideal para convidar aquele amigo vegetariano que fica sempre subalternizado numa mesa. O primeiro conselho é que escolham umas duas ou três variedades de cogumelos (shitake, portobello, shimaji), lavando-os bem em água corrente. Uma vez feita a lavagem e depois de escorridos, cortem-nos em pedaços não demasiado pequenos e reservem. Num tacho largo coloquem azeite e meia dúzia de fatias finas de cebola roxa e deixem refogar em lume brando até ficar translúcida. Depois adicionem os cogumelos, temperem com sal e um pouco de vinho branco seco, tapem o tacho e deixem em lume baixo durante dez minutos. Ao fim desse tempo adicionem arroz carolino e envolvam bem, adicionando a água na quantidade normal devida para a quantidade de arroz que usaram. Mexam tudo muito bem de novo, voltem a tapar e deixem em lume brando até o arroz estar cozido. Rectifiquem o tempero com um pouco de pimenta preta moída na altura, e uma generosa colher de sopa de manteiga, mexam tudo de novo muito bem, voltem a tapar e deixem a repousar uns cinco minutos. Podem servir, bom apetite. 


 


BOM - O Urso de Prata do Festival de Cinema de Berlim, o prémio do Júri, foi para João Canijo e o seu filme “Mal Viver”, uma consagração mais que merecida.


 


MAU - Como diz António Barreto, “as políticos e as práticas seguidas actualmente por Portugal (em relação à imigração) são incentivos à clandestinidade, ao tráfico de mão de obra, ao abuso dos trabalhadores e a novas formas de racismo”.


 


DIXIT - “Não podemos delegar responsabilidades e ficar à espera que a Igreja resolva sozinha os desmandos. Seria tornarmo-nos cúmplices desta vergonha” - Pedro Norton


 


BACK TO BASICS - “Não chega ter uma boa cabeça, o fundamental é usá-la bem” - Descartes


 




fevereiro 24, 2023

PRR - PROGRAMA DE RESISTÊNCIA ÀS REFORMAS NECESSÁRIAS

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DOIS PAÍSES? - António Costa parece uma vestal pura, incapaz de pecado. Quem o ouvir por estes dias não acredita que ele esteve anos à frente da Câmara Municipal de Lisboa e, depois, anos no Governo, até agora. Se quem o ouve tiver acabado de aterrar vindo de Marte, achará que António Costa chegou agora ao poder, cheio de boas ideias e imbuído de um avassalador ímpeto reformista. Só que não. Anda por cá há muito e fez pouco, embora tenha a arte de querer mostrar ter feito muito. Ele é um mágico, um ilusionista. Se fosse personagem de banda desenhada seria Mandrake. Vem isto a propósito dos exercícios de contorcionismo de António Costa frente ao Presidente da República, a propósito da execução do PRR. Relatos surgidos na imprensa sobre o interrogatório a que Costa foi submetido por Marcelo e por assessores da Presidência são elucidativos do cepticismo que começa a espalhar-se, muito para além de Belém, sobre o que de facto se está a passar com as verbas do PRR. Já em tempos o Ministro da Economia, António Costa e Silva, reconheceu que a administração pública está mais vocacionada para dar pareceres do que em executar os planos que a política define. Na reunião de Belém houve especialistas que disseram conhecer candidaturas ao PRR que demoraram 300 dias a ser respondidas e tornou-se evidente que há uma baixíssima percentagem de fundos executados em áreas críticas como a habitação ou a agricultura. Na reunião de Belém, Marcelo terá dito uma frase lapidar: “senhor primeiro-ministro, de cada vez que falamos deste assunto parece que vemos dois países diferentes”.  


 


SEMANADA - Um inquérito efectuado em Portugal para o European Social Survey mostra que os portugueses estão desiludidos com o funcionamento da democracia e que o mau funcionamento da justiça é o problema maior; o cabaz de alimentos subiu 45 euros num ano, um aumento de 24,5% e entre 63 bens essenciais 53 estão mais caros; as receitas para as autarquias, últimos dez anos, com o Imposto Municipal sobre Transmissões imobiliárias cresceram 340% e o IMI cresceu 20%; em 2021 os preços das casas subiram na maioria das capitais de distrito e em metade dos casos o aumento ultrapassou os 10%; o aumento dos preços está a levar os estudantes a recorrerem mais às cantinas, como a "Cantina Velha" da Universidade de Lisboa, que servia cerca de 400 refeições diárias e agora serve quase 1600; segundo um estudo da Entidade Reguladora da Saúde, o número de psicólogos nos Cuidados de Saúde Primários deveria ser o dobro dos que agora existem; segundo o Censos 2021 há mais de um milhão de pessoas a viverem sózinhas em Portugal; em Janeiro o desemprego cresceu pelo sexto mês consecutivo; a segurança social atrasou-se a pagar o bónus de meia pensão aos reformados que se aposentaram em Setembro e Outubro; os subsídios de doença aumentaram 59,2% em janeiro face ao mês anterior e 12,7% comparando com o período homólogo, alcançando o número mais alto desde 2010.


 


O ARCO DA VELHA - No relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa descrevem-se casos de promiscuidade entre as autoridades militares, civis e eclesiásticas no encobrimento das acções praticadas.


 


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OBRAS IMERSAS  - Como todos os artistas que o são, Pedro Calapez tem um estilo próprio, uma marca de autor, que percorre a sua obra. Não se trata de olhar sempre da mesma forma, é sobretudo interpretar coerentemente o que vê e, também, o que imagina. Muitas vezes Calapez introduz variantes, quer através dos suportes utilizados, quer na combinação de vários suportes ou na forma como as peças se juntam para criar uma única obra. “Estado de Imersão”, a sua mais recente exposição, estará até 8 de Abril na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B, Lisboa) e mostra 14 obras, a maioria feitas entre 2020 e 2023, diferentes na concepção, formatos e suportes utilizados - cinco são pinturas a acrílico sobre alumínio, sete são pinturas em papel (e nestas estão as seis da série “Volta A Casa”, de 2022, particularmente reveladoras de novas formas de ver do artista) e duas a acrílico sobre tela. Na imagem Pedro Calapez aparece frente a uma das obras mais marcantes da exposição, “Bartleby disse”, uma montagem de duas peças, ambas com base de alumínio, uma a acrílico e outra a óleo. No site da galeria podem ver um vídeo onde o artista fala sobre a sua obra. E esta semana decorre até domingo em Madrid mais uma edição da feira de arte ARCO (que em Maio terá a sua edição lisboeta). Em Madrid estão, nas várias secções, 17 galerias portuguesas e também uma representação institucional de Lisboa, a cargo da EGEAC, que apresenta uma obra do artista Paulo Brighenti.


 


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O ESCRITOR MALDITO - Conheci Luiz Pacheco por acaso, num snack bar que existia por baixo do edifício que albergou o jornal “República” e, mais tarde, o “Portugal Hoje”. Era eu então um jovem jornalista que ali ía ao fim da tarde ouvir os mais velhos e experientes jornalistas que andavam pelo Bairro Alto onde então estavam redacções de vários jornais. E nesse snack bar volta e meia aparecia Luiz Pacheco, esperançado, e com razão,  que alguém lhe pagaria alguma coisa para entreter o estômago enquanto bebesse um copo, também oferecido. Mesmo numa época em que o dinheiro não abundava nos bolsos dos jornalistas nunca ouvi ninguém recusar um copo ao Pacheco, a troco de o ouvir e poder discutir alguma coisa com ele, o que era sempre épico. Luiz Pacheco nasceu em 1945 e foi como editor, na Contraponto, que fundou, que se destacou. Aí editou autores como José Cardoso Pires, Natália Correia, Mário Cesariny ou Herberto Hélder. Tinha um sarcasmo vivo e amargo, gostava de uma boa discussão  com quem lhe desse luta, era inconformista e cultivou a imagem de um espírito incómodo. Escreveu ensaios como “Crítica de Circunstância”, manifestos como “O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, O Seu Esplendor”, fez livros com textos seus ilustrados por nomes como Martim Avilez, Manuel João Ramos ou Alice Geirinhas. Foi o que se chama um escritor maldito, morreu em 2008, passou a vida a lutar por ser livre e a sua vida teve um lado escabroso, viveu na solidão e no alcoolismo, conheceu a prisão.  “O Firmamento É Negro e Não Azul” é a biografia de Luiz Pacheco, escrita por António Cândido Franco, de forma rigorosa e sem preconceitos de linguagem. António Cândido Franco é autor de vários estudos sobre literatura e cultura portuguesas, nomeadamente biografias de Agostinho da Silva e Mário Cesariny. “O Firmamento É Negro E Não Azul” é uma edição da Quetzal.


 


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UMA BOA EXPERIÊNCIA - Em 2012 Lex Blondin, um parisiense a viver em Londres, decidiu criar num armazém na zona de Hackney o Total Refreshment Centre, que incorporava um estúdio de gravação, uma sala para concertos e uma zona para workshops de artistas. A comunidade de criadores de diversas áreas, mas predominantemente de músicos, que ali se juntou, tornou-se no epicentro de uma explosão de talentos de jazz, como Moses Boyd ou The Comet Is Coming que depressa ganharam notoriedade e reconhecimento internacionais e que contribuíram também colocar o Total Refreshment Centre (TRC) na vanguarda da música que então se produzia na Europa. A valência da sala de espectáculos foi entretanto abandonada, mas o estúdio e a área de ensaios, workshops e de convívio entre várias expressões artísticas intensificou-se. Foi isto que levou a histórica etiqueta discográfica Blue Note a decidir dar palco à música que dali saía e assim nasceu o álbum “Transmissions From Total Refreshment Centre”. O disco mostra o trabalho de sete músicos e grupos que têm estado associados ao TRC. Alguns dos temas foram lá gravados, outros foram registados noutras localizações o que torna o álbum uma demonstração da estética envolvida pela comunidade que se desenvolveu no TRC. Nas notas de capa do disco Emma Warren, que escreveu um livro sobre o Total Refreshment Centre intitulado “Make Some Space”, sublinha que muito do espírito do local vem da influência de “Jazzmatazz”, o álbum que o rapper Guru gravou em 1993 e que juntava músicos de influências diversas como Donald Byrd ou Roy Ayers. E foi a esses cruzamentos de estilos e influências que a comunidade musical do TRC foi beber inspiração - basta ouvir a faixa 5 e ver como Miryam Solomon canta a acompanhar os Matters Unknown numa  interpretação muito pessoal da bossa nova. Transmissions from Total Refreshment Centre inclui sete temas de outros tantos artistas e está disponível nas plataformas de  streaming.


 


A SOPA  - Diz a Wikipedia que a sopa é o alimento mais antigo do mundo, percorre civilizações, tem interpretações diferentes conforme as geografias onde é cozinhada, mas baseia-se sempre no mesmo princípio: uma comida de conforto, que prepara o estômago e garante alguns nutrientes básicos. No Oriente as sopas com noodles, vegetais e diversas proteínas recorrem a temperos como o gengibre, o cardamomo e o tamarindo, a ocidente preferem os legumes que vão da abóbora às couves de bruxelas e recorrem muitas vezes a carnes fumadas e a queijo. Podem ser quentes, como o nosso caldo verde ou a minestrone italiana, ou frias, como o gaspacho espanhol. Podem ser mais complexas, como a sopa rica de peixe, ou inesperadas como a canja de arroz, que em vez de galinha leva amêijoas. E já nem falo de duas criações bem portuguesas - a deliciosa sopa de beldroegas ou a lendária sopa de pedra, que mostra como com imaginação e descaramento se pode, a partir de uma pedra e contando com a boa vontade alheia, fazer um autêntica sopa de cozido. Seja como fôr, há poucas coisas que substituem uma boa sopa, que muitas vezes pode ser uma refeição completa. E a maior parte das sopas é de baixo custo, de confecção simples e de fácil digestão. Aqui podem espreitar as receitas das 20 mais famosas sopas do mundo - https://foodandroad.com/pt-br/melhores-sopas-do-mundo/





BOM - A prescrição de medicamentos genéricos permitiu poupar mais de 509 milhões de euros em 2022.


 


MAU -  O Presidente da República manifestou baixas expectativas sobre a execução dos fundos do PRR


 


DIXIT - “Olhando para o pacote (de medidas sobre a habitação) não é possível ter uma ideia do que está lá dentro. O povo costuma dizer que só se sabe se o melão é bom depois de o abrir. É preciso abrir o melão” - Marcelo Rebelo de Sousa.


 


BACK TO BASICS - "É uma lástima que os loucos não tenham o direito de falar sensatamente das loucuras das pessoas sensatas” - William Shakespeare


 





fevereiro 17, 2023

AS REFORMAS NUNCA CUMPRIDAS

 


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INJUSTIÇA - Um dos maiores problemas que existe em Portugal é termos um sistema de injustiça, em vez de termos um sistema de justiça. Isto é particularmente verdade quando de um lado está o Estado, em processos administrativos ou fiscais, por exemplo, mas acaba por atingir toda a acção dos tribunais e da administração da justiça. Tudo se atrasa, os processos por mais simples que sejam são demorados. Quem está a braços com alguma questão desespera pelo tempo que passa sem nada se resolver, umas vezes porque os tribunais são lentos e queixam-se de falta de recursos humanos e técnicos, outras porque há  mil maneiras de adiar o andamento dos processos e protelar as decisões. Num recente artigo a ex-Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, defendeu a reforma profunda do processo penal, elegendo o ataque às manobras dilatórias e à litigância de má-fé como prioritária. Mas acontece que a palavra “reforma” em Portugal tem uma peculiar maldição: é muito prometida mas quase nunca cumprida.  Ainda por cima todos se queixam da lentidão da justiça mas no meio da situação em que se vive ela não é elencada como prioridade. Há razões evidentes para as pessoas se preocuparem com a quebra do poder de compra, com a degradação do ensino público, com a situação dos professores, com a falta de meios do Serviço Nacional de Saúde. Com estas preocupações a crescerem, a situação da justiça passa para segundo plano. Além disso, este sistema de falta de justiça serve às mil maravilhas para deixar campo aberto para muita coisa. Recordo esta frase de António Barreto, num artigo que publicou na semana passada: “Há em Portugal um clima de cortar à faca, aquele em que se sente a corrupção, em que se vive da cunha, em que se julga que  a democracia é o poder discricionário de quem tem os votos” . Tudo isto convive às mil maravilhas com o caos da justiça.


 


SEMANADA - Segundo o INE, o sector onde actuam Uber Eats e Glovo, entre outros, movimentou 852 milhões de euros em 2021, um aumento de 31,6% em relação ao ano anterior; o Ministério da Habitação só utilizou 3% dos fundos do PRR; um quarto das lojas da Baixa lisboeta fechadas no início da pandemia não voltou a abrir; em 2022 o poder de compra dos portugueses caíu para os níveis de 2018 e segundo o INE o ordenado bruto médio caiu 4%; a direcção do SNS, criada há quatro meses, continua sem regras de funcionamento; o Estado deve 9,6 milhões de euros a artistas, devido ao atraso no pagamento dos apoios do programa Garantir Cultura, aprovado durante a pandemia; 9,9% da população portuguesa vive sózinha; o custo da publicidade emitida no intervalo do Super Bowl equivale a 75% do investimento publicitário total anual do mercado português; só 1,1% das águas residuais tratadas são reutilizadas, o que compara com o objectivo estabelecido de 20% de reutilização estabelecido pelo Governo para 2030; há cerca de 40.000 brasileiros a frequentarem escolas portuguesas e quase 19 mil em universidades; numa década as escolas perderam um quinto dos seus alunos, passando de dois milhões de alunos do pré escolar ao ensino secundário para pouco mais de 1,5 milhões; no relatório sobre os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja católica estão referenciadas pelo menos 4815 crianças que foram vítimas e a idade média que  tinham no primeiro abuso que sofreram é de 11,2 anos.


 


O ARCO DA VELHA - Inês Franco Alexandre, assessora da Ministra do Trabalho, propôs, num programa de rádio, ocupar o tabuleiro da ponte 25 de Abril com tendas, numa acção de protesto contra os problemas da habitação em Portugal. O Governo justificou a sua contratação pela sua experiência em inovação social.


 


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AUTO-COLECÇÃO  - Até 21 de Maio o Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, apresenta “Os NikiaΣ do Nikias”, uma exposição que reúne 80 das suas obras que fazem parte do acervo pessoal que deixou, entre elas esta Mulher Leopardo aqui reproduzida . Nikias Ribeiro Skapinakis, nascido em Lisboa, de ascendência grega,  começou por estudar arquitectura, depois optou pela pintura e expôs pela primeira vez em 1948. Ao longo da sua vida foi sobretudo pintor, mas igualmente desenhador, fez ilustração de livros, litografia e serigrafia. E foi, também, autor de “Os Críticos”, um dos painéis da Brasileira, do Chiado.  Como refere o MNAC, “a surpresa da exposição (...) residirá na seleção particular de obras que vamos encontrar e que, de acordo com critérios muito próprios, Nikias escolheu para integrarem o seu espaço privado”.  Todos os textos que acompanham a exposição são da autoria do artista e, apesar de ter defendido que a pintura não precisa de explicações, Nikias é autor de uma relevante reflexão sobre a própria obra. A exposição tem curadoria de Helena Skapinakis e Maria de Aires Silveira. Outros destaques: só tem mais alguns dias, até 18 de Fevereiro, para visitar a Retrospectiva de Pintura de João Abel Manta, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), com curadoria de João Paulo Queiroz.  E na Galeria 111 (R. Dr. João Soares, 5B, Lisboa), até 25 de Fevereiro ainda pode ver a nova exposição de Fátima Mendonça “Em Diário – Dias Incertos”.  Fátima Mendonça conta que a quarentena a levou a fazer desenhos que depois punha na sua página do Facebook como forma de comunicar e assim aos poucos foi-se criando um diário gráfico. Finalmente na Galeria Diferença ( Rua S. Filipe Nery 42), Graça Pereira Coutinho apresenta novos trabalhos na exposição “Life”.





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A BIBLIOTECA - Para quem gosta de livros existe sempre um fascínio em saber como outras pessoas criam uma biblioteca. Por isso mesmo “Biblioteca Pessoal” é um fascinante livro de Jorge Luis Borges, ele que foi bibliotecário durante muitos anos, vivendo essa profissão como a de um «guardião dos tesouros». Em 1985 pediram-lhe que  escolhesse cem livros para a publicação de uma «biblioteca pessoal». Morreu em 1986, antes de poder concluir esse projeto; no entanto, deixou uma lista de obras que refletia as suas preocupações e gostos literários, bem como os prólogos dos primeiros setenta e quatro títulos da série. É essa escolha pessoalíssima que este “Biblioteca Pessoal” mostra. No prólogo do livro Borges escreveu: «Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor. […] Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências». No livro Borges fala de autores como Franz Kafka, Henrik Ibsen, André Gide, Fedor Dostoiévski, Herman Melville, Voltaire, Edgar Allen  Poe, ou Robert Louis Stevenson, entre outros. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899 e publicou em 1923 o seu primeiro livro, “Fervor de Buenos Aires”. Escreveu poesia e ficção, crítica e ensaio e distinguiu-se com os seus contos e narrativas breves. Viveu em vários países e, na sua Argentina natal, foi professor de literatura e dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires. “Biblioteca Pessoal” foi , com tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, foi editado pela Quetzal.


 


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UMA HISTÓRIA PARA BATERIA E PIANO - Como será um disco em que a música é totalmente interpretada apenas por uma bateria e um piano? Sugiro que experimentem ouvir “A Short Diary”, do baterista Sebastian Rochford e do pianista Kit Downes. Este é um diário especial, um retrato musical das emoções de Rochford depois da morte do seu pai. É um trabalho duplamente interessante porque combina o talento de Rochford enquanto compositor, com o seu virtuosismo e criatividade enquanto baterista. Por outro lado, a forma como Kit Downes toca piano contribui para mostrar a beleza das composições destes oito temas. Na realidade Downes permite que cada tema se desenvolva e crie espaço para que Rochford exprima os seus sentimentos com a bateria de uma forma subtil - e destaco por isso “Silver Light” e “Even Now I Think Of Her”. E existem outros temas em que o piano diz tudo, como em “Our Time Is Still” ou “Night Of Quiet”. Este é um disco fascinante, de uma enorme sensibilidade, onde a melancolia se cruza com a recordação de boas memórias, como se fosse uma história contada em música. Edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.


 


MASSA HEREGE - Enquanto aguardo pela estreia da lampreia da época - raridade este ano pelo que vou percebendo - relato um improviso recente, com heresias na utilização de matérias primas. Trata-se de um prato à base de massa, um dos meus ingredientes favoritos. A massa é misturada com camarão - a heresia começa aqui, já que em vez de camarão fresco que descasquei utilizei camarão congelado, de bom calibre, que deixei a descongelar de véspera. A massa escolhida foi tagliatelli, que na minha opinião é das que melhor absorve os sabores - a segunda heresia é partir ao meio o molho de tagliatelli que se vai usar e, só depois, colocá-lo em abundante água a ferver salgada. Enquanto a massa cozia, menos uns minutos do que o recomendado, fiz um refogado de alho picado com alho francês às rodelas finas, sobre azeite a que juntei uma generosa colher de manteiga - o resultado da mistura da manteiga com o azeite é uma coisa que devem experimentar. Ao fim de alguns momentos juntei os camarões, que fui salteando, dois minutos de cada lado sensivelmente. Ao fim desse tempo retirem os camarões e reservem, adicionem um pouco de vinho branco e sumo de um limão ao refogado, e deitem a massa lá para dentro, mexendo bem. Adicionem mais um pouco de manteiga, cebolinho fresco, uns salpicos de peperoncino  e juntem os camarões a seguir. Envolvam bem tudo mais dois minutos com lume brando, juntem um pouco da água da cozedura da massa que terão entretanto guardado, e assim os tagliatelli ficarão soltos. Acompanhe com um vinho branco frutado - o Altano que está à venda nesta altura é uma boa opção.


 


BOM - As palavras do Bispo D. Américo Aguiar, na sequência do relatório  da Comissão Independente sobre os abusos sexuais: «Qualquer pessoa que tenha vivido o flagelo de um crime destes tem um sofrimento que não se compara com qualquer quebra de notoriedade ou prejuízo colateral que a Igreja possa ter», 


 


MAU - A Comissão Parlamentar de inquérito `TAP foi aprovada a 3 de Fevereiro mas ainda não está a funcionar, presa na burocracia parlamentar.


 


DIXIT - “A TAP já fez muitas vítimas. A próxima, no entanto, é sempre a mesma. Chama-se contribuinte” - Luís Marques.


 


BACK TO BASICS - “A realidade é a oposição mais agressiva que o PS tem” - Carlos Guimarães Pinto.







fevereiro 10, 2023

UMA CANÇÃO QUE CONTINUA ACTUAL

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UM PAíS ADIADO - Meio século atrás havia uma canção, de Sérgio Godinho, que tinha como refrão as palavras pão, paz, habitação, saúde e educação, os pontos que reivindicava como condição para que, de facto, as pessoas fossem livres. Se olharmos para os meses mais recentes vemos que existem sinais de diminuição do consumo de produtos básicos de uma alimentação saudável devido ao aumento dos preços, sabemos que a paz é um desejo permanentemente ameaçado, sentimos os problemas graves que existem no sistema nacional de saúde, estamos no meio de um turbilhão na educação e a habitação é um sério problema, quer pelo aumento dos preços das casas, quer pelo aumento dos custos de financiamento, quer ainda pelo inflacionado e anémico​​ mercado de arrendamento. Bem vistas as coisas, em meio século, estes indicadores básicos não foram cumpridos. Olhemos para a habitação. Um relatório recente do Banco de Portugal revela que, desde outubro do ano passado, o custo financeiro de comprar casa em Portugal superou o custo na média dos países do euro: em dezembro, a taxa de juro média dos novos créditos à habitação em Portugal era 36 pontos base superior à taxa cobrada pelos bancos da Zona Euro e, em 2022, a taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação mais do que triplicou em relação a 2021. Outros estudos indicam que em 2022 o preço médio das casas subiu 9,7%. Nas grandes cidades cada vez mais pessoas, sobretudo idosos com contratos de arrendamento antigos, são forçados a sair das suas habitações. Os mais novos, no início da sua vida profissional, têm sérias dificuldades em suportar os custos de habitação. O país prometido não se cumpriu, os Governos não fazem reformas estruturais, passeiam-se apenas pelo poder, adiando sempre o principal.


 


SEMANADA - No primeiro ano de maioria absoluta do atual governo, os serviços públicos foram alvo de quase 14 mil reclamações dos portugueses. O IMT, a Segurança Social, o SEF, o SNS e a AT lideram a tabela das reclamações, a maior parte das quais relacionadas com o mau atendimento das entidades, entre janeiro e dezembro de 2022, chegaram ao Portal da Queixa 1788 reclamações relacionadas com problemas nos serviços de entrega de refeições ao domicílio e atrasos nas entregas é uma das principais causas; os estabelecimentos de cabeleireiro perderam 20% de faturação em 2022; a renegociação de empréstimos à habitação duplicou em três meses; em três anos o preço da habitação disparou 38%; em 2022 13 casas em Lisboa e no Algarve foram compradas com criptomoedas; um estudo divulgado esta semana indica que os adolescentes começam a actividade sexual mais tarde e fazem-no cada vez mais sem protecção; o Parlamento recebeu 163 pedidos para repor freguesias que foram extintas em 2013; mais de um terço dos cheques-dentista emitidos não foram utilizados; segundo a Marktest entre janeiro e dezembro de 2022 os programas regulares de informação da RTP1, SIC e TVI emitiram 79 705 notícias; os serviços de noticiário destes canais generalistas  tiveram uma duração total de 2 971 horas, uma média diária de 2 horas e 42 minutos por canal; um estudo da Universidade Nova Indica que o uso mais intenso de lareiras agravou a poluição no norte do país.


 


O ARCO DA VELHA - A direcção do Bloco de Esquerda é acusada pela oposição interna de perpetuação no poder, ausência de democracia interna, de esvaziamento dos princípios e de impedir a diversidade dentro do partido.


 


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CONVERSA EXPOSTA - Em Elvas, no Museu de Arqueologia e Etnografia, está patente uma exposição de obras de Pedro Calapez e Rui Sanches que integram a colecção António Cachola, a maioria feitas nos anos 90 e na primeira década deste século. Ao todo são cerca de duas dezenas de obras - pintura e desenho no caso de Pedro Calapez e escultura e desenho no caso de Rui Sanches. Sob o título “Conversa”, os dois artistas fazem, como sublinha Rui Sanches na folha de sala, um dueto. E Calapez esclarece: “aparecemos em diferentes momentos nesta colecção, que desde há quinze anos é a coleção António Cachola-Mace, e teremos eventualmente sido dos primeiros artistas em que o seu olhar pousou e fez juntar as obras que fazíamos ao seu tesouro.” A exposição completa-se com duas peças que não fazem parte da colecção, uma de Calapez que está exposta no Paiol de Elvas e outra de Rui Sanches que será mostrada em Junho, na Cisterna. Ao mesmo tempo, no MACE (Museu de Arte Contemporânea de Elvas”, abriu também a primeira parte da exposição “A fotografia na colecção António Cachola”, com mais de duas dezenas de autores como Jorge Molder, António Júlio Duarte, Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, José Maçãs de Carvalho, Luís Campos, Nuno Cera, Patrícia Garrido e Pedro Barateiro, entre outros. Permanecendo na fotografia mas mudando de local, destaco “New Lisbon”, o trabalho de Gonçalo Fonseca, exposto na Galeria Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147). è um impressionante retrato da crise habitacional que se vive em Lisboa e que começou antes da pandemia. Gonçalo Fonseca faz um exemplar trabalho documental em três dezenas de fotografias, que são também outras tantas histórias, com imagens realizadas em 2019 e 2020. Por último a Incubator Photo Gallery e o Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano 63) apresentam “Selfie?”, 24 autorretratos de Pedro Cabrita Reis, em Polaroids.


 


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MANUAL POLÍTICO - O título é logo uma provocação, bem ao jeito do seu autor:”Como perder uma eleição” - uma compilação de pensamentos que Luís Paixão Martins aperfeiçoou ao longo das várias campanhas eleitorais em que participou como conselheiro de comunicação, e que por sinal venceu. Entre histórias e reflexões, com recurso a princípios básicos que foi estudando ao longo dos anos, o livro é um manual de boas práticas de comunicação que os políticos deviam adoptar, não só em eleições, como ao longo do exercício do poder., quando as ganham. Entre não querer agradar a todos e combater a ambição de mudar o mundo em dois meses, a leitura das sondagens e o elementar bom senso de ouvir o que se diz, o livro é um bom exercício e dá que pensar.  Como o autor sublinha, “na relação com os media, nós entramos no jogo, não criamos as regras”. Mais que relatar o que lá está, deixo aqui algumas citações, extraídas com a devida vénia. Ora vamos a isso: “Fora das eleições a política não faz parte dos interesses da generalidade dos portugueses”; “a política não é o futebol. No futebol, são os resultados que fazem os fãs. Na política são os fãs que fazem os resultados”; “numa campanha eleitoral, os media vencem os políticos, com larga vantagem, na captação do interesse dos eleitores. Percebe-se porquê: porque os media são ao mesmo tempo canal e protagonista, e os políticos, coitados, são meros protagonistas à procura de atrair o canal”. E talvez a melhor de todas:  “A outra condicionante da relação com os media durante o curto período da campanha é a gestão do menu de conteúdos. Cada candidato tem a sua própria lista de temas que gostaria de agendar - os favoráveis para si, os embaraçosos para os adversários. É fácil identificar esses temas: são os que não interessam aos jornalistas”.  “Como perder uma eleição” é edição Zigurate.


 


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TRIO HARMONIA  - Costumo dizer que o mundo está cheio de boas vozes, mas não está cheio de grandes cantores. Para cantar não basta ter boa voz, é preciso saber sentir e interpretar o que está nas palavras - e isso é o que infelizmente falta a muita gente que diz cantar. Felizmente não é esse o caso de Melissa Stylianou, uma canadiana que veio do teatro musical para o jazz e se apaixonou por alguns dos grandes clássicos. O recente álbum “Dream Dancing” é um exemplo do seu talento e uma prova dessa sua paixão pelos standards, aquilo a que se convencionou chamar The Great American Songbook. Mas o disco não tem só versões, inclui um original da própria Melissa dedicado a Chet Baker. Há uma razão para este “For Chet”: para além da voz de Melissa é justo dizer-se que o disco tem encantos adicionais na forma como Gene Bertoncini toca guitarra acústica e Ike Sturm toca contrabaixo e Gene era uma dos músicos que tocava com Chet Baker. Na realidade “Dream Dancing” não é o disco de uma vocalista, mas de um trio de voz, guitarra e baixo, num perfeito e raro entendimento. Entre os clássicos estão uma versão arrebatadora de “Perdido”,  um “Corcovado” cantado em português e inglês, e versões de temas como  “It Could Happen To You”, “Sweet And Lovely”, “My One And  Only Love” e “It Might As Well Be Spring”. Disponível nas plataformas de streaming.


 


CANTINA ITALIANA - Marcello Di Salvatore é um italiano que vive há uma dúzia de anos em Portugal onde criou a sua Cantina Italiana, a que chamou Bella Ciao. Natural de Abruzzo, no centro de Itália, apostou em fazer uma cozinha familiar, com receitas tradicionais. Depois de duas localizações na baixa, o Bella Ciao mudou há pouco tempo para a zona de Alcântara, na Rua do Costa, junto ao largo ao fundo da Rua Maria Pia. Este espaço é bem maior que os anteriores, a decoração continua a ter a marca de Itália, desde as toalhas aos quadrados das mesas aos cartazes que decoram as paredes. A lista tem entradas como vitello tonnato e nos pratos principais há um simples esparguete com azeite, alho e peperoncino, orecchiette com brócolos e queijo Grana Padano, uns clássicos penne all'arrabbiata, pappardelle con funghi porcini e, acima de tudo, um spaguetti carbonara, tradicional e sério, com esparguete de bom calibre, sem o pecado habitual das natas e com a tradicional receita que apenas leva gema de ovo e queijo, além de pancetta. E, claro, há boas pizzas. Nas sobremesas o Tiramisú recomenda-se e há uma muito procurada mousse de Nutella. Rua do Conde 10, telefone 210 935 708.


 


BOM - O catálogo da exposição “Sombras do Império”, que esteve no Padrão dos Descobrimentos, é um exemplar trabalho de investigação sobre  os sucessivos planos urbanísticos e projectos de arquitectura da Praça do Império.


 


MAU - José Sá Fernandes, o coordenador das Jornadas da Juventude nomeado pelo Governo, ainda não deu a conhecer o plano de mobilidade para o evento que deve envolver milhão e meio de pessoas.


 


DIXIT - “Pretender controlar a linguagem, proibir posições e atitudes, exigir “direitos” que são identitários-corporativos, é a pior maneira de criar igualdade e tolerância" - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “Os que andam à caça dos outros devem lembrar-se que também podem ser caçados” - Esopo





fevereiro 03, 2023

ANTÓNIO COSTA E O HÁBITO DA INSTABILIDADE

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A RODA LIVRE - Razão tinham aqueles que, há um ano, lançaram alertas sobre os perigos de uma maioria absoluta. Não se enganaram nem um bocadinho. Em vez da estabilidade anunciada, conhecemos a instabilidade, traduzida em 13 substituições de membros do Governo. Em vez de um gabinete coeso tivemos compadrios, indícios de corrupção, sordidez, desnorte, problemas éticos. Em vez de reformas que melhorem o país tivemos imobilismo, mais problemas na justiça, saúde e, sobretudo, educação. Em vez de aproveitarmos os recursos, temos de novo uma emigração portuguesa para o estraneiro, da geração em que o país mais investiu na formação, que é em termos absolutos, próxima do que se passou na década de 60 com, nessa altura, mão de obra desqualificada. Uma maioria absoluta, um ano de instabilidade. Perdeu-se tempo. Perdem-se recursos. Não se começou a resolver os maiores problemas. Esta semana, numa entrevista colocada no canal de serviço público de televisão, e que teve 770 mil espectadores, António Costa, garantiu que a legislatura é para chegar ao fim e até brincou:  “O meu médico diz-me que estou bem”. O problema, na realidade, não é a saúde de Costa, que todos desejamos que continue em boa forma, mas a adesão das suas afirmações à realidade. O problema é a sua capacidade de fazer coisas em vez de fazer habilidades. António Costa é uma pessoa divertida e um político habilidoso. Mas não é um fazedor. É um equilibrista, um trapezista da política. E quando se viu com maioria absoluta achou que já não precisava de ter a rede de segurança que a geringonça lhe deu. E entrou em roda livre, que é o actual estado da nação.


 


SEMANADA - Portugal tem cerca de quatro milhões de pessoas com idade igual ou superior a 55 anos; 2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 euros por mês; em dezembro a taxa de inflação homóloga na zona euro foi de 9,2%, menos nove décimas que no mês anterior; 9,6% foi a inflação em Portugal em Dezembro, mais três décimas que no mês anterior; PS, PSD e Chega chumbaram a desclassificação de documentos militares da Guerra  Colonial; em 2022 registaram-se 103 escalas de cruzeiros no Porto de Lisboa, um aumento de 43% face a 2019; um estudo da Universidade Católica indica que sete em cada dez jovens discutem política mas preferem modos de participação sociais e cívicos em vez de modos formais; nove em cada dez jovens já votaram pelo menos uma vez, sendo as eleições legislativas aquelas que lhes suscitam maior participação; o Portal da Queixa identificou uma subida de 57% no número de reclamações dirigidas aos serviços de entrega de refeições ao domicílio, comparativamente com 2019 e a Uber Eats é a marca que recebe mais queixas dos consumidores; segundo a OCDE quase um quinto do dinheiro que sai do Estado em financiamentos e apoios volta ao Estado sob a forma de impostos e taxas; segundo o INE o alojamento turístico registou 26,5 milhões de hóspedes e 69,5 milhões de dormidas, em 2022, que correspondem a aumentos homólogos de 83,3% e 86,3%, respectivamente; a taxa de desemprego em Portugal subiu para 6,7% em dezembro, segundo o INE; um estudo da Marktest indica que o número dos portugueses que bebem café fora de casa está a cair e atingiu o valor mais baixo dos últimos dez anos.


 


O ARCO DA VELHA - No caos da educação contabilizam-se 40 ministros do sector , mas apenas um constante interlocutor, o português que mais vezes se sentou com governantes  - Mário Nogueira. 


 


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OS CÍRCULOS - A nova exposição da semana é, sem dúvida, “Et Sic in infinitum" de José Pedro Croft, que pode ser vista na Fundação Arpad Szenes -Vieira da Silva até 28 de Maio próximo. Incorporando a sua experiência de escultura, desenho e pintura, José Pedro Croft desenvolve o seu trabalho a partir de variações entre grafismo e geometria, muitas vezes desafiando noções de espaço. Se em momentos anteriores as linhas rectas e as formas lineares tinham uma presença recorrente, nestes seus trabalhos mais recentes o que ele ensaia é a exploração das possibilidades do círculo, das linhas curvas. Os trabalhos expostos foram feitos nos últimos dois anos, com excepção de duas obras, uma gravura de 1996 e uma escultura em calcário negro e ardósia, de 1987. O curador desta exposição, Sérgio Mah, faz notar que o título “Et sic in infinitum” é uma citação da frase que consta em cada um dos lados de um desenho do físico e cosmologista Robert Fludd, reconhecido como uma das primeiras representações da criação do universo. É também de Sérgio Mah esta síntese da exposição: “Em geral, estas obras distinguem-se pela sua sobriedade e elegância formal. Contudo, é importante frisá-lo, essas qualidades não visam o deleite formalista ou o mero conforto contemplativo. Pelo contrário, são atributos que estimulam a indeterminação, o carácter problemático e enigmático das obras, que espicaçam a perplexidade de quem as defronta”. Na semana passada, na Casa Atelier Vieira da Silva, foi inaugurada a exposição de novos trabalhos de  Catarina Pinto Leite, “O Grau Zero de todas as coisas”. Outros destaques: na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Kirtsch apresenta “Take Me To The Dawn” até 18 de Fevereiro. E, também até 18 de Fevereiro, há uma exposição retrospectiva da obra em pintura de João Abel Manta, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Rua Barata Salgueiro, em Lisboa.


 


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LIBERDADE - Isaiah Berlin foi um filósofo, historiador de ideias e teórico político. Defendeu o liberalismo contra o extremismo político e o fanatismo intelectual. Em 2002 uma série dos seus ensaios foi reunida sob o título genérico “Liberty”. E foi a partir dessa edição que agora se edita em Portugal “Esperança e Medo, Dois Conceitos de Liberdade”, com tradução de Jorge Pereirinha Pires e Maria José Batista. Os textos levantam questões essenciais, tantas vezes incompreendidas por quem detém o poder: «Porque é que eu devo obedecer a outrem?» «Porque é que não hei‑de viver como quero?» «Tenho de obedecer?» «Se eu desobedecer, posso ser coagido?». Berlin foi claro quando escreveu: «Liberdade é um termo cujo sentido é tão poroso que existem poucas interpretações a que este pareça capaz de resistir. Não proponho discutir a história desta palavra proteiforme nem os mais de duzentos sentidos registados para a mesma pelos historiadores de ideias. Proponho examiná‑la em não mais do que dois desses sentidos, que considero serem os sentidos centrais e que têm atrás de si uma grande parte da história humana e, atrevo‑me a dizê‑lo, a história ainda por vir.». E esses dois sentidos são o negativo (ausência de coacção) e o positivo (o direito de se ser senhor de si mesmo). O livro aborda temas que vão desde a democracia liberal e dimensão e papel do Estado, até à esfera e limites da liberdade individual. Como disse John Gray, um filósofo político inglês,  «num mundo em que a liberdade humana se espalhou mais lentamente do que a democracia, os escritos de Berlin sobre liberdade e decência básica são mais instrutivos e úteis do que nunca». Edição Guerra & Paz.


 


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MÚSICA AVENTUREIRA - John Cale, aos 80 anos, surpreende mais que muitos músicos actuais cheios de espalhafato, mas vazios de ideias. Só para situar John Cale foi um dos pilares dos Velvet Underground na segunda metade dos anos 60, e, mais tarde, o produtor responsável por alguns dos melhores trabalhos dos Stooges, Patti Smith, Nico ou Modern Lovers. Ao mesmo tempo foi desenvolvendo a sua própria obra e ainda encontrou ocasião para meter a mão no tema “Hallelujah”, responsável por dar notoriedade a um Leonard Cohen, até aí pouco conhecido. John Cale lançou-se agora a um novo trabalho, “Mercy”, o seu 17º álbum de originais. Há temas que evocam e homenageiam amigos seus, como David Bowie e Nico, mas na maioria das canções ele assume frontalmente abordar o presente, como acontece em “ The Legal Status Of Ice”, enquanto chama para o seu lado uma geração de novos talentos, como a voz de  Weyes Blood, os provocadores Fat White Family ou os experimentalistas Animal Collective, a cantora colombiana Tei Shi, o duo de pop electrónico Sylvan Esso ou Laurel Halo, que já ganhou o título de álbum do ano da revista The Wire. É esta abertura de espírito e desejo de descobrir novos caminhos que torna o trabalho de John Cale fascinante. É como se em vez de lermos o relato de viagem de um explorador do início do século XX, estivéssemos a ouvir as descobertas sonoras possíveis neste século XXI, através de um aventureiro musical. “Mercy” e os seus 12 temas, uns instrumentais, outros cantados, estão disponíveis nas plataformas de streaming.


 


COMIDA CONCEPTUAL - Aqui há uns dias, ainda a noite era uma criança e a fome apertava, fui seduzido por umas luzes num pátio frente à Assembleia da República, onde surgiu a palavra “O Jardim”. Fui tentado a ver se a coisa funcionava, ou seja, se o que eu via, de mesas e cadeiras, correspondia à ideia de um restaurante. Uma vez entrados e simpaticamente sentados, eis que, quando analisámos a lista e fizemos o pedido,  o empregado, com um olhar inquisidor, perguntou-nos: “Explicaram-vos o conceito?”. Foi nesse momento que percebi que tinha caído num terrível equívoco. “O Jardim” não é um restaurante, é apenas um conceito. Eu, confesso, não gosto de conceitos em vez de restaurantes. É uma mania minha. O local tem imenso conceito, quantidades inversamente proporcionais, qualidades medianas e preços muito pouco conceptuais e bastante materiais. No fundo, ir lá é um tempo perdido. E se quiserem ir à casa de banho, cuidem-se que a sinalização é conceptual, daquelas onde não se percebe bem o género. Uma coisa meio woke, portanto - aliás, o local quer afirmar-se pela contemporaneidade, nada mais que outro conceito. Não percam tempo - o local assemelha-se em inutilidade gastronómica aos piores momentos dos debates que decorrem lá em frente, na Assembleia da República. 


 


BOM - “A Nova Paródia- Comédia Portuguesa”, criada por Hugo van der Ding para o Museu Bordalo Pinheiro, 16 deliciosas páginas, à venda no Museu.


 


MAU - A falta de coragem do PSD em se demarcar de acordos com o Chega


 


DIXIT - “Portugal tem um problema de corrupção grave” - Fernanda de Almeida Pinheiro, bastonária da Ordem dos Advogados


 


BACK TO BASICS - “Os homens são tão simplórios e obedecem de tal forma às necessidades presentes, que aquele que engana encontrará sempre quem se deixe enganar.” - Nicolau





janeiro 27, 2023

O DINHEIRO NÃO DÁ PARA TUDO....

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AS PESSOAS - Por muito que António Costa proclame a sua preocupação com o país, a verdade é que a melhor palavra para descrever a política social do PS é cativações. Em poucos anos, Costa, Centeno e Leão encheram o bolso do Estado à custa de cortes. O sucesso propagandístico das suas contas deve-se ao aumento da receita fiscal e à redução e cortes nas despesas de funcionamento de vários sectores. O Governo diz que investe mais, mas não é o que tem feito em relação às pessoas, nomeadamente em relação a professores, médicos, enfermeiros e tantas outras profissões. O resultado está à vista nos problemas daquelas que deviam ser as principais funções do Estado, a educação, a saúde e a justiça. Houve quem tivesse esperança que pelo menos algumas reformas surgissem com a maioria absoluta, depois do período de distrações e equilibrismos da geringonça. Mas a única coisa que a maioria absoluta trouxe foi arrogância, autismo político, cumplicidades e as corruptelas fruto de demasiados anos no poder. O que se tem passado só alimenta a distância entre eleitos e eleitores. Olhemos para o caso dos professores , uma lição de vida sobre as diferenças entre os comuns mortais e a classe política e seus apêndices. Para os que ensinam as próximas gerações oferecem-se dificuldades, incerteza, carreiras mal definidas, contagens de tempo de serviço vergonhosas e salários baixos. Para a classe dirigente o tempo de serviço é amplamente recompensado em indemnizações, encontra-se sempre uma sinecura para algum histórico militante do poder a necessitar de um aconchego. Para fazer os disparates que tem feito e que têm custado milhões, como na TAP, o Governo corta noutros lados. É nesta altura que me lembro sempre da história de uma pessoa influente que acumulou dívidas e que, quando um dos credores o viu com um reluzente carro novo e o inquiriu, se limitou a responder:  “o dinheiro não dá para tudo”. 


 


SEMANADA - 22 dias depois de se ter demitido Pedro Nuno dos Santos  descobriu que afinal tinha enviado um whatsapp a aprovar a indemnização de meio milhão de euros da TAP a Alexandra Reis; António Costa leva mais de 5760 dias, cerca de 16 anos, em cargos governativos, com oito nomeações, desde meados dos anos 90; nove dos dez titulares de cargos governamentais que os exerceram durante mais tempo são do PS; um estudo divulgado na semana passada coloca a economia portuguesa na 36ª posição entre 38 países no Índice da Competitividade Fiscal para 2022;  as greves em Portugal cresceram 25% no ano passado; em 2022 foram produzidos em Portugal mais de 320 mil veículos automóveis, um crescimento de 11,2% face ao ano anterior; o emprego na construção atingiu o valor mais elevado da ultima década mas o sector ainda necessita de mais 80 mil trabalhadores para responder às obras projectadas para os próximos anos; face à instabilidade nas escolas públicas regista-se um acréscimo significativo de procura pelos colégios privados; cerca de metade da população adulta portuguesa tem dois ou mais problemas de saúde, consequência de excessiva exposição a ecrãs, má qualidade do sono e stress, concluíu um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; o preço do arroz carolino quase duplicou no espaço de um ano; segundo as autoridades policiais há 53 crimes contra idosos cometidos por dia e o mais grave e frequente é a violência doméstica; um estudo divulgado na semana passada aponta para uma subida de 18,7% no preço das casas, a maior variação dos últimos 30 anos; segundo o BCE, Portugal está em último lugar do ranking da Zona Euro em matéria de literacia financeira.



O ARCO DA VELHA - O piso da linha ferroviária do Norte, que liga Lisboa ao Porto, sofreu quatro abatimentos em três semanas.


 


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A PINTURA - Não faltam exposições em Lisboa nesta altura do ano. Começo por “Água de Colónia" de Gonçalo Pena, com curadoria de João Maria Gusmão e que estará exposta até 11 de Março,  na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 23). Trata-se de um conjunto de 23 pinturas a óleo e cerca de noventa desenhos que têm óbvias ligações entre si, todos eles a remeterem para fragmentos de memórias, imagens fugidias, aventuras vividas (na imagem, foto da própria galeria). Há um misto de voyeurismo nos óleos e relato nos desenhos, que por vezes evocam a banda desenhada. Mas há uma história comum neste diálogo entre pintura e desenho. No MAAT, no edifício da Central Tejo, inauguraram exposições de Maria Capelo, Pollyana Freire e Jonathas de Andrade. Esta última, “Olho Faísca”, a mais impactante,  mostra as diversas facetas do autor brasileiro de braço dado com a propaganda de causas que assume. Para regressar à pintura e a coisas mais sérias recomenda-se a exposição de Pedro Chorão na Galeria  Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101). E termino com a derradeira exposição organizada por Mário Teixeira da Silva no seu  Módulo Centro Difusor de Arte (Calçada dos Mestres 34 A), inaugurada poucos dias antes de morrer, e que, com o título “Nocturna”, apresenta trabalhos de Nadya Ismail, Pedro Zhang, Vasco Maia e Moura e Xavier B. Tourais. Até ao fim Mário Teixeira da Silva dedicou-se sempre a descobrir novos talentos artísticos e esta exposição é ela própria um derradeiro testemunho da sua forma de estar como coleccionador e galerista.


 


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MISTÉRIO - A história é envolvente desde o início, quer na definição de personagens, quer na própria localização da acção, quer no inesperado desenrolar dos acontecimentos e no final que o autor imaginou. O livro chama-se “A Casa Do Outro Lado do Lago” e foi escrito por Riley Sager, pseudónimo de Todd Ritter, um dos mestres da literatura de mistério norte-americana. No centro da narrativa está Casey Fletcher, uma actriz recém-viúva que se refugia numa casa de família nas margens de um lago, no estado do Vermont, Canadá, para tentar escapar a uma onda de má imprensa devido ao seu alcoolismo. Aos poucos Casey observa os movimentos de Tom e Katherine Royce, uma ex-top model e um magnata da tecnologia, o casal de vizinhos que vive no outro lado do lago, numa casa de vidro. Com um par de binóculos ela espreita tudo o que se passa dentro das paredes de vidro. É essa observação que lhe permite perceber, um dia, que Katherine está prestes a afogar-se no meio do lago. Casey mergulha ela própria nas águas escuras e consegue salvá-la : ficam amigas a partir daí. À medida que a amizade se desenvolve percebe que o casamento dos seus vizinhos não é tão perfeito como inicialmente lhe parecia. Tudo se agrava quando Katherine desaparece de repente e começa a suspeitar que Tom pode estar envolvido nesse desaparecimento. Pelo meio entram novos personagens em cena,  peças de um mistério que fica cada vez mais denso e deixa no ar uma questão: até que ponto conhecemos alguém? O final, que não revelo, é uma reviravolta total e surpreende muita gente - a começar pela própria Casey. “A Casa Do Outro Lado do Lago” é uma edição da Guerra & Paz.


 


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AMBIENTE - O novo disco de  Ryuichi Sakamoto tem 12 temas e uma hora e um minuto de duração. Como título figura o número de temas e este “12” foi lançado há poucas semanas, no dia em que completou 71 anos. É  o seu 15º álbum  de originais, o primeiro em seis anos, depois de “Async” (de 2017). Cada um dos doze temas tem como título a data em que cada tema foi criado e a música é minimalista, uma primeira parte mais ambiental e outra mais clássica. Ryuichi Sakamoto, o seu piano e o seu sintetizador são os únicos protagonistas deste trabalho que reflecte muito o estado de espírito do músico. Em 2014 Ryuichi Sakamoto foi diagnosticado com um cancro da garganta, cancelou digressões agendadas e repensou o que fazia. E como disse em entrevistas de então, dedicou-se a fazer música que pudesse deixar para o futuro sem se envergonhar. Foi nesse contexto que nasceu “Async”. Nessa altura Sakamoto deixou de actuar ao vivo, mas fez vários recitais em streaming, o últimos dos quais em Dezembro,  que anunciou como sendo a sua derradeira actuação pública. Na altura explicou que lhe tinha sido diagnosticado um novo cancro e todo este disco foi feito depois de ter tido essa notícia. Há uma outra particularidade: não existe outra definição rítmica em todo o álbum à excepção do som da respiração intensa do músico enquanto toca. A parte final do disco, com peças mais curtas, é dedicada a Claude Debussy, que ele admite ter sido sempre a sua grande influência musical. De certa forma “12” é como um diário onde, em vez da escrita, se usam notas musicais para descrever o que se passa. Disponível nas plataformas de streaming.


 


A VER O MAR - Apesar de muita estragação arquitectónica, Sesimbra continua a ter um encanto especial. Tem o mar descaradamente à sua frente, um porto de pesca, uma marginal  magnífica se não olharmos para os edifícios e nos fixarmos no mar. E tem uma nova geração de restaurantes, que vieram ocupar o lugar de alguns dos clássicos que entretanto fecharam ou mudaram de vida. Um dos novos que vale a pena conhecer é o “Portofino”, um edifício discreto ao fundo da marginal, perto do porto de pesca, sem nada à frente a não ser o areal e o mar. O Portofino tem uma esplanada abrigada e a sala interior é ampla. Felizmente este é um daqueles restaurantes onde a coisa não se resume a grelhados. Há, por exemplo, lulinhas fritas com alho e coentros, polvo confitado com cebola frita ou o incontornável choco frito. Nas especialidades há uma feijoada de polvo e camarão, uma açorda de mariscos servida dentro de um pão escavado e um arroz do mar - foram pedidos nas mesas mais próximas e as pessoas estavam com cara satisfeita. Para os carnívoros há lombo do cachaço de porco preto com puré de castanhas e um entrecôte de novilho na tábua. Mas a parte dos grelhados não é descurada e na semana passada a escolha da mesa recaíu num pregado de bom porte, com batata a murro e grelos salteados. Estava muito bom e correspondeu à expectativa. De entrada vieram umas ameijoas à Bolhão Pato, um pouco abaixo das expectativas. Serviço muito bom e atento. A lista de vinhos é curta e tem preços decentes. O Portofino fica na Avenida dos Náufragos, na Praia do Ouro e o telefone é 919 480 282.


 


DIXIT - “Em vez de amadurecer a democracia portuguesa atravessa aguda fase de infantilismo" - António Barreto


 


BACK TO BASICS -"Tenho sido actor sempre e a valer. Sempre que amei, fingi que amei e para mim mesmo o finjo" - Fernando Pessoa,  Livro do Desassossego


 


 







janeiro 20, 2023

A SUSPEIÇÃO VAI CRESCENDO

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A NATUREZA HUMANA - Há quem no Governo lamente aquilo a que chamam “a cultura de suspeição generalizada” sobre os políticos. O que eu acho extraordinário é que lamentem o clima, em vez de prevenirem que existam motivos de desconfiança em relação às pessoas e de descrença em relação às instituições. Todas as semanas surgem mais casos, que envolvem mais gente - agora começou a vez dos deputados, com o caso de Jamila Madeira, do PS, que, estando no Parlamento, era consultora da REN, ou com o caso de João Pinto Moreira, do PSD, que está a ser também investigado do caso da corrupção na Câmara de Espinho. São obviamente casos diferentes, e todos são inocentes até haver condenação em julgamento - embora se saiba que os julgamentos e investigações são histórias intermináveis. Mas aquilo que se passa mostra o grau de podridão de um regime onde quem escrutina os políticos são os aparelhos partidários onde eles cresceram, que frequentam e que em muitos casos dirigiram. Não deve haver juízes em causa própria, mas o que se passa tantas vezes nos maiores partidos é isso mesmo. A maioria dos aparelhos partidários são viveiros de teias de favores, dependências, compadrios, protecção de familiares, cunhas e interesses. Dirão muitos que os pecados e pecadilhos são fruto da natureza humana e não do funcionamento da política - e que, em última análise, são as falhas de carácter que proporcionam a ocorrência dos casos mais graves. Mas existe um clima de facilitismo combinado com uma convicção de impunidade, aliado a muita falta de bom senso, que são a explicação verdadeira para isto. Não é só o sistema político que precisa de ser reformado, os partidos são hoje o viveiro onde crescem os vícios e os problemas.


 


SEMANADAEm 2021, Portugal tinha 2801 pessoas com mais de cem anos, quase o dobro do que acontecia há uma década;  no ano passado foram vendidos 12.725.898 livros, por um preço médio de 13,75 euros, num total de cerca de 175 milhões de euros, um aumento de 16,2% face a 2021; o salário médio dos portugueses cresceu apenas 3% desde 2010; as multas por carta de condução caducada duplicaram em 2022 face ao ano anterior; o preço médio da produção agrícola na UE aumentou 24% em 2022; o Tribunal Constitucional demorou três anos a indicar a direcção da Entidade da Transparência, que tem por missão verificar as declarações de rendimentos e incompatibilidades dos políticos e titulares de altos cargos públicos; alguns ex-ministros de António Costa juntam-se regularmente num jantar convocado através de um grupo de whatsapp dinamizado por Matos Fernandes, intitulado “descamisados”; em 2022 foram apreendidas em Portugal mais de 16 toneladas de cocaína; as exportações de bicicletas fabricadas em Portugal ultrapassou em 2022 a barreira dos 800 milhões de euros; em 2022 foram criadas em Portugal 48.404 empresas, um aumento de 14% face ao ano anterior; um estudo do Ministério da Defesa indica que só 1,4% dos jovens portugueses se interessa por questões de participação e cidadania; a Sociedade Portuguesa de Matemática acusou o Ministério da Educação de atirar a aprendizagem da Matemática no ensino secundário para “mínimos históricos inexplicáveis”.


 


O ARCO DA VELHA - A Comissão para a reforma da Saúde Pública pediu a demissão porque, ao fim de três anos, não vê resultados práticos das análises e das propostas que apresentou.


 


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AS LETRAS DAS ARTES - S. Martinho da Anta, distrito de Vila Real, concelho de Sabrosa, foi a terra natal de Miguel Torga e tem um museu com o nome do escritor, projectado por Eduardo Souto Moura, com um amplo espaço expositivo. Desde sábado passado e até 26 de Março ali pode ser vista uma série de obras de João Vieira, que raramente têm sido expostas em conjunto. Com curadoria de Manuel João Vieira, a mostra revela pela segunda vez - a primeira foi nos Artistas Unidos, em Lisboa, há mais de uma década - uma das mais relevantes séries realizadas pelo artista, terminada pouco tempo antes de João Vieira morrer. A exposição mostra seis pinturas de grandes dimensões (450 x 250 cm) e estas obras de João Vieira, expostas no Espaço Miguel Torga, evocam outras tantas  artes:  “Dança” , “Teatro”, “Imagem”, “Pintura” , “Palavra”, “Música”. João Vieira fez cenografia para teatro, encenações, performances, filmes, e música, além de pintura.  Segundo Manuel João Vieira, "este é, depois do políptico 'Silêncio Chinês' ou da recriação em escala real dos painéis de S. Vicente, o maior conjunto articulado na obra de João Vieira." A carreira de João Vieira nasceu em 1934 em Anelhe, Vila Real,  começou a expôr em 1956, em 1960 fundou o Grupo KWY, juntamente com Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo e teve uma longa e diversificada carreira até à sua morte em  2009. (a imagem aqui publicada é do Centro Miguel Torga).


 


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DESENHAR - Pedro Cabrita Reis gosta de expôr fora dos grandes centros urbanos e de imaginar como a sua obra pode ser descoberta por públicos menos habituados a conviver com ela. Por isso aceitou um convite de Alexandre Baptista que organizou o ciclo “O Desenho como Pensamento” em Águeda.  “… queres que te faça um desenho ?...” foi o título escolhido por Pedro Cabrita Reis para a exposição que abriu na semana passada na Sala Estúdio do Centro de Artes de Águeda e que se prolongará até 22 de Fevereiro. Para esta exposição o artista escolheu 151 obras, todas em papel, desde desenho a grafite até aguarelas, e pinturas a óleo e acrílico. Todos os trabalhos expostos são recentes e foram feitos num período de dois anos. O trabalho mais antigo é a série de desenhos a grafite “Femmes”, de 2020. A exposição está montada como um Cabinet d’Amateur, a meio caminho entre um museu particular e o que se vê quando se entra num ateliê de artista durante o seu trabalho. Há obras encostadas à parede, algumas deixadas no chão (como a série de aguarelas feitas para a capa da revista “Colóquio”, da Gulbenkian), as paredes têm com todo o espaço disponível ocupado, como se pode ver na imagem (fotografia Centro de Artes de Águeda). “Gostei de imaginar e de fazer este trabalho, da mesma forma que gosto da  ideia de descobrir novos espaços e de mostrar o meu trabalho fora das grandes cidades: acharia um desafio expôr, por exemplo, numa colectividade recreativa” - afirmou Pedro Cabrita Reis. A exposição faz parte do segundo ciclo “O Desenho como Pensamento” , que integra 18 exposições individuais, três colectivas e seis conversas temáticas que decorrerão até 30 de Setembro.


 


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UM HOMEM SÓ - Frederik Beckman é um dos escritores suecos contemporâneos mais populares e a sua obra de estreia, “Um Homem Chamado Ove”, tornou-se um clássico e foi adaptado para o cinema num filme protagonizado por Tom Hanks. E de que fala o livro?  Ove não é o típico vizinho com quem nos apeteça cruzar na rua. É um velho solitário e antipático que aparentemente não gosta de pessoas. Protesta contra quem não respeita os sinais de trânsito, queixa-se de quem não sabe fazer reciclagem corretamente,  já para não falar sobre os que ignoram como preparar um café de cafeteira como deve ser. Ove é o tipo de homem que aponta o dedo a tudo o que não lhe agrada e que não consegue compreender aqueles que anseiam pela reforma: como pode alguém passar a vida inteira à espera do dia em que se torna desnecessário? Aos 59 anos, custa-lhe conceber que o mundo pula e avança, que ele não pode ficar agarrado ao passado, perigosamente sozinho e infeliz de tão rabugento, depois de ter perdido a única pessoa que dava cor aos seus dias. Esta é uma história de solidão e tristeza que o seu autor consegue transformar na redescoberta do prazer pela vida. Uma série de circunstâncias, a começar pela chegada de novos vizinhos, consegue devolver a Ove, aos poucos, a fé na humanidade. E, ao mesmo tempo, as pessoas que o rodeiam começam a perceber que o bairro não seria o mesmo sem ele: seria um lugar mais frio, menos solidário e, por mais estranho que pareça, também muito menos divertido. Fredrik Beckman foi colunista e blogger, este romance foi originalmente  editado em 2012 e depois disso já publicou mais seis romances, duas novelas e um livro de não ficção. Está traduzido em 46 línguas e, no total, já vendeu 19 milhões de exemplares de todas as suas obras. 


 


COMIDAS MAL ENCENADAS - O encerramento do restaurante dinamarquês Noma, criado e dirigido pelo chef René Redzepi, veio chamar a atenção sobre o mundo dos restaurantes de luxo, que praticam o que se convencionou chamar fine dining - refeições com extensos menus de degustação, preços altos e enormes equipas a realizar todo o trabalho, na maior parte dos casos com horários sobrecarregados e com salários diminutos ou, até, inexistentes, sob a capa de estágios. O que é certo é que aquilo que está a acontecer ao Noma começa a colocar em causa restaurantes onde o conceito é mais valorizado que a comida, em que o aparato é mais importante que a genuinidade. Investigações jornalísticas em vários restaurantes deste género, nos Estados Unidos, mostraram que afinal muitos produtos utilizados, ao contrário do que era anunciado, não vinham de produções próprias nem próximas e alguns eram até adquiridos em grandes superfícies. Um deles, o Willows Inn, perto de Seattle, parece ter sido o inspirador do filme “The Menu”. Tal como o restaurante cujo chef é representado por Ralph Fiennes, o Willow Inn ficava numa ilha, a que os comensais, que pagavam 500 dólares por cada jantar, acediam de barco. E, como no filme, os empregados não tinham horários e eram sujeitos a diversos abusos. Esta cultura de restaurantes teatralizados foi, na minha opinião, muito estimulada pelas perversas estrelas Michelin que por vezes dão mais importância à aparência que à realidade, privilegiando a decoração dos pratos e a exuberância do serviço. O bom sinal é que esta queda de reputação do fine dining está a trazer de volta a procura por restaurantes mais informais, mais acessíveis, onde os clientes podem escolher o que pretendem comer e não são obrigados a seguir uma lista que alguém imaginou. Termino a parafrasear um escrito recente de Miguel Esteves Cardoso sobre este assunto e que sintetiza o que eu também acho: “um bom restaurante é aquele onde se quer ir todos os dias almoçar”.


 


DIXIT - “As pessoas são escolhidas por quem de direito. Caso aceitem, não devem ser obrigadas a responder a questionários arbitrários e intrusivos” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “A política é a arte de evitar que as pessoas participem em questões que as preocupam” - Paul Valéry


 

janeiro 13, 2023

POLÍTICA SEM VERGONHA

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A 25ª HORA - Depois da mais atribulada semana de saídas do Governo eis que aquilo que se julgava impensável aconteceu: uma secretária de Estado recém nomeada para substituir uma das baixas governamentais durou 25 horas até se demitir, na sequência de informações sobre uma investigação onde estaria citada. Os casos do último mês são um retrato do funcionamento em circuito fechado, do laxismo na escolha de governantes, do autismo criado pela maioria absoluta no exercício do poder pelo PS. Em nove meses de maioria absoluta registaram-se 13 demissões. O estado em que isto deixa a democracia, a forma como abala a confiança dos eleitores, a instabilidade política que desencadeia, são um case study dos resultados da arrogância e insensibilidade por parte de quem dirige o Governo. Mas entretanto percebeu-se que não só vão para o Governo aqueles que têm telhados de vidro e nalguns casos têm mesmo o tecto todo esburacado. Nestes dias percebeu-se que também quem deixa o Governo  ignora as regras mais simples do que deve ser a separação entre funções oficiais e actividade privada. O caso de Rita Marques, que sai directa do Governo para uma empresa privada da área que tutelava, mostra outra faceta do perfil e carácter das pessoas que Costa escolheu para o círculo governamental. Como disse esta semana Adelino Maltez “o eleitorado nunca ameaçou o sistema e tem de ameaçar, os grandes partidos deviam ter medo de ser derrotados numas eleições. Funcionam melhor quando têm medo”. Para Viriato Soromenho Marques: “ É inaceitável o país ficar refém do partido a quem deu uma maioria absoluta. E o discurso de António Costa, mantendo sempre a ideia de que não se passa nada é inaceitável também”. Já agora, e só por curiosidade, “A 25ª Hora” é um romance de Virgil Georghiu que condena todo o tipo de totalitarismo.


 


SEMANADAEm 2021, Portugal tinha 2801 cidadãos com mais de cem anos e dez anos antes eram apenas 1526; 42% das crianças portuguesas têm peso a mais; o número de directores da TAP tem aumentado desde 2015, quando tinha 39 directores, número que neste momento é de 63; nos anos 80 a economia portuguesa teve um crescimento de 32,3%, nos anos 90 registou 29,4% e nas duas primeiras décadas deste século ficou nos 5,7 e 6,9% respectivamente; os preços das casas em Portugal sobem duas vezes mais que a média da Zona Euro; em Outubro, data da mobilização militar parcial, as entradas de russos em Portugal subiram 23% face a setembro e uma plataforma de arrendamento europeia diz que 94% das reservas de russos são para Portugal; no último ano e meio morreram cinco pessoas em acidentes com trotinetes eléctricas; o secretário de estado da Mobilidade, Jorge Delgado, diz que as trotinetas estão a ser diabolizadas; nos últimos dez anos seis concelhos registaram um aumento de utilizadores de bicicletas e 12 perderam; os cinemas portugueses recuperaram 60% do público de antes da pandemia e no ano passado registaram 9,5 milhões de espectadores; “Top Gun- Maverick” com Tom Cruise foi o filme mais visto em Portugal em 2022 com 714 mil espectadores e “Avatar: O Caminho da Água” registou 598 mil; o filme português mais visto foi a comédia “Curral das Moinas- Os Banqueiros do Povo” com 314 mil espectadores; em 2022, os consumidores portugueses registaram uma média de 526 reclamações por dia no Portal da Queixa; a rede de Cuidados Continuados tem uma lista de espera com mais de 1500 pessoas.


 


O ARCO DA VELHA - Rita Marques saíu do Governo para uma empresa cuja área tutelava e a quem o Governo a que pertenceu tinha atribuído 5,4 milhões de euros de apoio e um bónus fiscal de 266 mil euros.


 


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O ESTADO DO MUNDO - A actividade nas galerias regressa esta semana em força, marcando o arranque de uma série de novas exposições. O destaque vai para “New Age Dreams”, de Pedro Casqueiro, na Galeria Miguel Nabinho (na imagem), até 10 de Fevereiro. São dez pinturas de 2022, acrílico sobre tela, que mostram o olhar do artista sobre o mundo que o rodeia e sobre o que é suscitado na sua imaginação a partir da sua observação da natureza, das pessoas, dos animais, das paisagens e até da tecnologia. Mas há muitas outras exposições iniciadas esta semana. Comecemos pela fotografia com “Panorama”, uma nova mostra de Daniel Blaufuks, na Galeria Vera Cortês. Na Galeria Narrativa a sul-africana Lea Thijs, que vive e trabalha em Lisboa, mostra “Safe House” um ensaio fotográfico sobre o evoluir do transtorno bipolar do seu pai. Regressando à pintura, na Galeria Monumental Pedro Chorão apresenta até 25 de Fevereiro “Paisagem Continuada”. Outras sugestões: na Módulo, a colectiva “Nocturna” mostra trabalhos de Nadya Ismail, Pedro Zhang, Vasco Maia e Moura e Xavier B. Tourais. Na Galeria Uma Lulik, Carolina Serrano mostra os seus novos trabalhos em “Até Aos Ossos” e a Galeria Bruno Múrias mostra Obiustromos, a primeira exposição de Marco Franco. Fora do circuito das galerias está até 28 de Fevereiro uma interessante exposição, “O Apetrechar do Tempo”, de dois artistas com origens africanas, Francisco Vidal e Gonçalo Mabunda, patente no Instituto Camões, em Lisboa. Francisco Vidal teve recentemente uma importante exposição na Gulbenkian e Gonçalo Mabunda é dos mais importantes nomes da arte contemporânea moçambicana.


 


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O ARTISTA IRLANDÊS - Volta e meia faz bem reler um livro, voltar a percorrer páginas de boa memória. E perceber que obras que agora relemos, uns largos anos depois da primeira leitura, continuam  cheias de sentido.  James Joyce tinha 32 anos quando escreveu “Retrato do Artista quando Jovem”, em 1914, que foi o ano de publicação de “Gentes de Dublin”, uma colectânea de 15 contos que descreve a vida em Dublin no início do século XX. Retrato do Artista quando Jovem faz parte do tríptico a que pertencem também Ulisses e Finnegans Wake, e relata a formação espiritual do adolescente irlandês Stephan Dedalus e o processo de rebeldia em relação à rígida educação católica a que está sujeito. Trata-se aliás do primeiro romance de Joyce, publicado em 1916 e que desde logo conseguiu chamar a atenção para a inteligência e originalidade da sua escrita, ao mesmo tempo irónica e sensível. As diferentes fases da vida do protagonista, da infância à vida universitária, refletem-se em mudanças no estilo narrativo. Os aspetos biográficos são tratados com irónico distanciamento, num trajeto que culmina com a rutura com a Igreja e a descoberta de uma vocação artística. A obra é também um reconhecível auto-retrato da juventude de James Joyce, assim como uma homenagem universal à imaginação dos artistas. «Não continuarei a servir aquilo em que já não acredito, chame-se meu lar, minha pátria ou minha religião. E tratarei de exprimir-me em algum modo de vida ou de arte tão livremente como possa, tão plenamente como possa, usando para minha defesa as únicas armas que me permito usar: silêncio, exílio e astúcia.» Joyce viveu fora da Irlanda a maior parte da sua vida adulta, mas nunca perdeu a identidade irlandesa, dominante na temática da sua obra. Disponível nova edição na colecção “Dois Mundos” da “Livros do Brasil”, com tradução de Alfredo Margarido.


 


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ROCK ON - Inesperado, polémico, surpreendente - eis o novo álbum de Iggy Pop, aos 75 anos, o seu 19º, publicado agora no início deste ano. A revista norte-americana “Rolling Stone” elogia o trabalho e diz que demonstra o retorno de Iggy Pop à genialidade musical e o britânico “The Guardian” é mais céptico e afirma que “Every Loser” é mais do mesmo. Creio que a “Rolling Stone” está mais certa que “The Guardian”. É sem dúvida um disco inesperado, sobretudo porque é cheio daquela energia crua que é proporcionada por guitarras eléctricas em modo selvagem, uma imagem de marca de Iggy Pop. Mas os seus 11 temas são suficientemente variados para eliminar a imagem de monotonia ou de repetições. Na realidade esta intensidade estava ausente dos álbuns anteriores, “Préliminaires” de 2009, “Après” em 2012, “Post Pop Depression” de 2016 ou “Free” de 2019. Este novo disco, “Every Loser”, contém alguns dos temas mais rock’nroll de Iggy desde há anos, e a faixa de abertura “Frenzy”, é um exemplo disso mesmo e está muito bem acompanhado por “Modern Day Rip Off” , “Neo Punk” ou “All The Way Down”. Mas “New Atlantis” e “Morning Show” mostram outras direcções, enquanto “Strung Out Johnny” é talvez a mais conseguida canção de todo o disco. Como sempre as palavras destes temas são simples, directas, com humor e os dois temas apresentados como interlúdios, “The News For  Andy” e “Animus” são prova disso mesmo. Para este trabalho Iggy Pop foi buscar Dave Navarro, Eric Avery e Chris Chaney (Jane’s Addiction),  Chad Smith e John Klinghoffer (Red Hot Chilli Pepper), Duff McKagan ( Guns N’ Roses), Stone Gassard (Pearl Jam) e Taylor Hawkins (o baterista dos Foo Fighters entretanto falecido mas que ainda participou em “Every Loser”). Com músicos assim e a produção de Andrew Watt   a sonoridade obtida está explicada. O melhor é ouvirem, o disco está disponível desde 6 de Janeiro nas plataformas de streaming.


 


A ARTE DO ASSADO - Gosto de cenouras de qualquer maneira -  cozida, em puré, crua ou assada. E de entre os muitos legumes que ficam bem assados, a cenoura merece um destaque à parte. A cenoura é um legume para todas as situações mas hoje vou dedicar-me à versão cenoura assada para acompanhamento. Neste caso gosto de usar cenouras mais pequenas, a que é raspada a casca, sendo  depois cortadas em metade no sentido do comprimento. O passo seguinte é colocá-las numa assadeira com azeite quanto baste e temperá-las com sal, pimenta e ervas aromáticas. Gosto de colocar umas duas ou três folhas de louro espalhadas e idêntico número de dentes de alho inteiros, para perfumar. O forno deve estar a 150 graus e a assadura é coisa para demorar uns 45 minutos. De vez em quando, retire o tabuleiro e agite um pouco. Use um garfo para ver se já estão cozinhadas e tenras. O resultado produz um belo acompanhamento para carne feita de várias maneiras e fica muito bem como prato vegetariano, com fusilli envolvidos nos pedaços de cenoura assim assada. Bom apetite.


 


DIXIT - “A vergonha é um sentimento que desapareceu da política” - António Guerreiro


 


BACK TO BASICS - “Não temos senão a nossa história e ela não é só nossa” - Ortega Y Gasset.


 





janeiro 06, 2023

SOBRE O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO

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LIBERDADE - Neste início de novo ano, dei comigo a pensar na relatividade das preocupações. Na maneira como Costa andou silencioso sobre a ruidosa guerra entre Pedro Nuno dos Santos e Fernando Medina; como o Ministro da Cultura segue o velho princípio do “quero, posso e mando”; de como Medina quer convencer o pagode que não sabia nada de uma pessoa que nomeou para sua Secretária de Estado. E olho para isto e tenho a sensação de estar no meio de uma comédia de muito mau gosto, com os governantes a desempenhar o papel de  actores que querem fazer de todos nós parvos. Todas estas aldrabices com que nos rodeiam são, afinal, pouca coisa comparado com o que se passa por esse mundo fora. Nós aqui temos uns fala-baratos que lá vão governando as suas vidinhas como podem à custa de não governarem o país. Vou aqui citar o que escrevi num depoimento que me pediram sobre 2023: “Num ano em que tanto se fala de revisão constitucional, o meu desejo é que ela facilite entrar no 50º aniversário do 25 de Abril com uma lei eleitoral mais justa, que não desperdice votos como a actual, que não beneficie uns partidos em detrimento de outros e que dê resultados que estão longe da proporcionalidade dos votos expressos, como aconteceu há um ano.” Olho à volta e vejo párias, que não conseguem fazer reformas, que preferem que a abstenção cresça a que as eleições possam reflectir melhor o sentido dos votos dos cidadãos. Mas, sobretudo, dou comigo a pensar que esta gente não é nada quando comparada com os heróis do nosso tempo na Ucrânia e no Irão, gente que resiste a uma invasão e que combate, arriscando a vida, pelos direitos básicos. Aqui gostaríamos apenas que tudo funcionasse melhor. Lá, lutam por poder falar, ter opinião, ser livres. São eles, na Ucrânia e no Irão, que defendem a fronteira da liberdade. Que o seu exemplo nos fortaleça para que possamos derrotar quem vive de nos enganar.


 


SEMANADA - Em 2023, com um país governado por Costa,  os salários reais vão valer menos que em 2014, quando Passos Coelho era primeiro ministro; os gastos com produtos alimentares sobem 22% em dez anos; desde 1995 três em cada quatro dias foram de governação do PS; mais de 600 mil euros foram roubados em assaltos a carrinhas de transporte de valores em dois anos; na prisão de Setúbal um drone que transportava um telemóvel, cartões de comunicações e carregadores foi detectado e apreendido pela GNR; em 2022 as queixas contra os serviços públicos aumentaram 41%; um estudo revelado na semana passada indica que a isenção de IVA nos alimentos essenciais permitira a uma família média poupar quase 400 euros por ano; Marcelo Rebelo de Sousa alertou para riscos de instabilidade da maioria absoluta;  diversos politólogos ouvidos pela imprensa atribuem remodelações sucessivas a uma falta de coordenação e controlo político do executivo;  João Galamba, envolto na área da energia em polémicas sobre a concessão da exploração de lítio e do projecto de hidrogénio verde em Sines, foi nomeado Ministro das Infra-Estruturas onde terá nas mãos o não menos polémico dossier da TAP; António Costa  justificou a nomeação de Galamba por ele não se embaraçar  “com as exigências da transparência e burocracia necessárias à boa contratação pública”; o Ministro da Cultura decidiu a extinção da fundação Colecção Berardo à revelia do respectivo Conselho de Administração e contra o parecer do Conselho Consultivo das Fundações; o mesmo Ministro da Cultura afirmou esta semana não ter informações sobre o desaparecimento de 94 obras da colecção de arte contemporânea do Estado.


 


O ARCO DA VELHA - Num acórdão recente os juízes do Tribunal Constitucional interrogaram-se sobre se as formigas podem ser consideradas animais de companhia.


 


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UMA CURIOSA MISTURA - Até 20 de Janeiro ainda pode ser vista no Espaço Fidelidade Arte, ao Chiado, a exposição “Mistifório”, o início do ciclo “Território”, que incluirá nove exposições coletivas, cada uma das quais concebida por um curador português convidado. Natxo Checa é o curador de "Mistifório", que inclui obras de Almada Negreiros, Anne Lefebvre, Ernesto Melo e Castro, Maria José Aguiar, Gonçalo Pena, Alexandre Estrela, Ana Hatherly, Mattia Denisse, António Areal, Pancho Guedes, Vespeira, Mané Pacheco, Malangatana, Salette Tavares, Fernando Calhau, Gabriel Abrantes ou Pedro Casqueiro,  entre outros, assim uma seleção de esculturas tradicionais, artefactos, mapas e objectos de proveniências diversas, de África à Ásia, passando pelas Américas. É uma mistura muito heterogénea de mais de uma centena de peças, montadas como um gabinete de curiosidades do século XIX, mas com a mira posta no presente e até no futuro que se abre à arte no universo digital. Natxo Checa é um dos fundadores da Galeria Zé dos Bois, onde continua a trabalhar e foi o comissário da representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2009. Depois de estar no Espaço Fidelidade Arte (Largo do Chiado 8) até 20 de Janeiro, Mistifório seguirá para a Culturgest no Porto, de 11 de fevereiro a 14 de maio.


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OS ÁRABES NA PENÍNSULA - Em meados do ano 711, Tariq ibn Ziyad, governador do Magrebe, deu início a uma operação militar que, a partir de Ceuta, cruzando o estreito de Gibraltar, levou, até à baía de Algeciras, cerca de 12 000 soldados. Começava assim a invasão árabe da Península Ibérica, nessa altura dominada pelos visigodos, um povo que, desde o fim do Império Romano, se viu empurrado para a ocupação do único retalho imperial que restava dominar: a Hispânia. Marcos Santos, um especialista em História Militar, conta no seu livro  “Fath Al-Andalus – Os Muçulmanos na Península Ibérica (702-756)”, como foram os primeiros 45 anos de presença muçulmana no Ocidente.  O autor apresenta uma análise detalhada das operações militares, dos desenvolvimentos políticos, do armamento, da logística e do recrutamento, que permitiram a instalação de um povo, de uma cultura e de uma estrutura político‑militar que, ao longo de oito séculos, mudaram a face da Península Ibérica. O livro relata -nos também de que modo a máquina de guerra muçulmana se tornou poderosa, a importância da figura dos califas e, no período pós-ocupação, como foi consolidada a conquista dos territórios. A obra inclui mapas preparados propositadamente para esta edição e um glossário com termos maioritariamente árabes ou de origem árabe. Edição Guerra & Paz.


  


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UMA VOZ ÚNICA - Para o New York Times  o álbum “Ghost Song” , de  Cécile McLorin Salvant, é o melhor disco de jazz de 2022. Cécile McLorin Salvant é uma vocalista que escolheu o território do jazz que tem realizado versões inesperadas de temas conhecidos da música popular anglo-saxónica. Tem uma forma de cantar invulgar e um timbre vocal especial que a colocam num patamar à parte entre outros vocalistas. O seu estilo de reinterpretação é ousado, os arranjos que escolhe são inesperados. “Ghost Song” reúne 14 canções e começa por uma versão de “Wuthering Heights”, popularizada por Kate Bush em 1978. Mas a versão de Salvant é bem diferente, do ponto de vista vocal e musical, as palavras são cantadas de forma mais intensa, quase como se estivesse a enviar uma mensagem a alguém. Em “Optimist Voices/ No Love Dying” ela transita do tema que marcou o filme “The Wizard Of Oz” para uma das grandes baladas cantadas por Gregory Porter e editada em 2013. No tema “Until”, que Sting popularizou, Cécile entra num dueto com o pianista Sullivan Fortner, cruza-se com um solo de flauta de Alexa Tarantino, acompanhada por James Chirillo no banjo e Keita Ogawa na percussão e este tema é um exemplo do espírito aventureiro de Salvant. Mas ouçam-na também a cantar “The World Is Mean”, um original de Kurt Weil composto para a “Ópera dos Três Vinténs”, ou em canções como “The Moon Song”, “I Lost My Mind” ou ainda em “Dead Poplar”, inspirada numa carta do fotógrafo Alfred Stieglitz à pintora Georgia O'Keeffe. Em "Trail Mix” é Salvant que toca piano e em "Unquiet Grave” ela recupera uma canção tradicional inglesa numa versão a cappella, onde a sua voz se destaca e mostra todo o seu potencial. "Ghost Song” está disponível nas plataformas de streaming.


 


NA AVENIDA - O local é belíssimo, com uma iluminação indirecta vinda do tecto, confortável, a realçar a arquitectura do local, uma sala ampla com janelas rasgadas sobre a Avenida da Liberdade. Durante uns anos, no piso de entrada do Hotel Tivoli, em Lisboa, viveu a Brasserie Flo, substituída há já algum tempo pela actual Cervejaria Liberdade. Da lista anterior sobreviveu o bife tártaro, que continua a ser preparado junto ao cliente, com todo o preceito. A sala desenvolve-se em torno de um balcão central onde se podem apreciar alguns dos produtos frescos, como ostras de Setúbal ou do Algarve, lagosta ou lavagante. Nas carnes, além do já citado tártaro de novilho, pode provar um muito honesto pica-pau do lombo ou costeletas de borrego grelhadas. Nos peixes a escolha é vasta e vai de arroz de polvo ou de de garoupa e camarão até bacalhau à Brás. Numa recente visita, a assinalar o primeiro dia do ano, ao jantar, a casa estava cheia e o serviço de sala foi exemplar, em contraste com um mau serviço de acolhimento de uma recepcionista notoriamente pouco inclinada para dar atenção aos clientes. Nas entradas havia várias opções interessantes, desde croquetes de vitela a carpaccio de polvo mas a escolha recaiu numa casquinha de sapateira muito bem temperada, que veio acompanhada de fatias de bom pão levemente torrado. No prato principal brilharam os filetes de peixe galo acompanhado de arroz malandro de tomate com coentros - tudo belíssimo. A lista de vinhos é bem escolhida, preços acima da média mas mesmo assim com algumas boas opções ajustadas a não entrar em falência logo no início do ano. Há também uma lista de cervejas, boa companhia para o pica-pau ou o tártaro. Para quem quiser há opções vegetarianas e nas sobremesas brilham os crêpes Suzette, também feitos junto à mesa, no entanto sem o glamour de idêntico preparo no Gambrinus. Mas o facto não desmerece o serviço na sala que é atento, gentil e rápido.  A Cervejaria fica na Avenida da Liberdade 185,  telefone 933 001 457.


 


DIXIT - “ Este Governo não sabe governar: distribui o que pode. Arranja financiamentos europeus. Dá uns subsídios. Adia uns problemas. Cria mais umas comissões. Mas não sabe governar” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “O que corre mal é frequentemente o resultado de mau planeamento” - Roald Amundsen