julho 22, 2022

UM PAÍS EM PONTO MORTO

 


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ESTADO OU GOVERNO? -  Nesta semana os deputados cumpriram o ritual do debate do Estado da Nação. Em geral a coisa resume-se a isto: quem Governa diz que está tudo bem e que mesmo as falhas eventuais serão corrigidas; e quem se opõe diz que o Governo não governa. O maior problema é termos um Estado que é desprezado pelo Governo. Explico melhor: a quem é governo interessa ter poder e perpetuar esse poder o máximo de tempo que puder. Portanto não governa para resolver problemas estruturais, que podem sempre implicar decisões desagradáveis para o eleitorado, e em vez disso decide de forma a poder manter, e se possível ganhar, votos nas eleições seguintes. Assim governa-se para manter o poder e não para melhorar o Estado. Creio aliás ser essa a razão pela qual o PS tem negligenciado a capacidade reformista que a maioria absoluta em teoria lhe dá. Um exemplo: o Primeiro Ministro queixa-se da falta de cadastro das propriedades rurais que dificulta a gestão florestal. Mas depois não toma medidas para que o cadastro seja mais fácil. Esta semana, por causa dos incêndios, muitas pessoas vieram relatar o calvário - e a despesa - que é conseguir actualizar os registos. O problema não é das pessoas, é do Governo que não coloca o Estado a funcionar para servir os cidadãos. Proliferam organismos redundantes, taxas e taxinhas que desmoralizam qualquer um. Enquanto isso, no Parlamento discute-se o acessório e esquece-se o essencial, que faria a diferença: as mudanças e reformas que é necessário introduzir. Sem isso o país não vai sair da cepa torta.


 


SEMANADA- Duas sondagens conhecidas nos últimos dias indicam que, se houvesse hoje eleições o PS perderia maioria absoluta, meio ano depois de a ter alcançado; um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos portugueses já deseja uma remodelação governamental e que 63% considera que o estado do país está pior que há um ano; nos primeiros seis meses do ano os portugueses gastaram mais 220 milhões de euros em supermercados que em igual período de 2021; a inflação fez com que a receita fiscal do Estado em Maio já estivesse a aumentar 21%, quando o OE previa 6,7%; também até Maio a receita do IVA aumentou 25% quando a previsão era de 10,7%; e a receita do Imposto sobre Produtos Petrolíferos aumentou 12% em vez dos previstos 1,6%; o Ministro da Economia, António Costa e Silva, defende que o aumento do salário médio tem de ser acompanhado por baixa de impostos e avisou que não se pode “exigir às empresas aquilo que elas não podem pagar”; no mais recente concurso do Ministério da Saúde um terço das vagas para médicos de família ficou por ocupar; um estudo conhecido esta semana indica que a geração Z e os millennials portugueses sentem-se financeiramente ansiosos e que o custo de vida e o desemprego estão entre as suas principais preocupações; a área ardida este ano em Portugal, até à semana passada, já supera os valores totais de 2021, totalizando quase 40 mil hectares, a maior área ardida desde 2017.


 


O ARCO DA VELHA -  O Estado atribuíu a si próprio dois terços do dinheiro da bazuca do PRR e já auto-aprovou 50% dessas verbas, enquanto que o mesmo Estado aprovou menos de 6% do total das verbas destinadas às empresas privadas.


 


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UMA VIAGEM NO TEMPO - “Debaixo da Pele” é o título da exposição de Miguel Telles da Gama no Museu Berardo, uma viagem pela carreira do artista, que expôs pela primeira vez em 1990. A primeira obra desta exposição é datada de 1997 e na montagem não é seguida nenhuma ordem cronológica. Logo no início está “Azul Profundo”, de 2014,  e depois  os “70 ex-votos por uma vida sexualmente animada”, de 2021. A seguir está “Vanishing Act” de 2016, as armaduras de “Lux in Tenebris” de 2018, as imagens gráficas de  2003 e 2004, de novo a pintura de “Emotional Rescue” de 2007, para daí seguir com os Contos de Perrault, barrados a vermelho, em “Passing Through the Red”, de 2013, e, depois,  um teatro de personagens à procura de autor em “Encenações”, realizada entre 1999 e 2003. José Luís Porfírio, o curador da exposição, sublinha que esta é “uma antologia do trabalho do pintor que não pretende ser um resumo integral do seu percurso, mas antes apresentar-se como uma obra nova, construída a partir de um conjunto de fragmentos da sua obra anterior”. “Debaixo da Pele” fica no Museu Berardo até 6 de Novembro. Em Coimbra destaque para “Tale About Urban Piracy”, uma exposição que agrupa obras de 14 artistas representados na colecção da Fundação PLMJ. Integrada no 13º Festival das Artes QuebraJazz, a exposição, com curadoria de João Silvério, tem trabalhos de  Ana Janeiro, Adriana Molder, Carlos Guarita, Ilda David, Inês Botelho, Isabel Carvalho, João Pedro Vale, João Tabarra, Manuel João Vieira, Mauro Pinto, Pedro Calhau, Rosana Ricalde, Rui Chafes e Sara Bichão. Está no Museu Nacional de Coimbra, Edifício Chiado. Até 4 de Setembro.


 


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PARA ESTIMULAR O PENSAMENTO  - Ora aqui está um livro actual, um romance sobre uma mulher que desafiava convenções, era politicamente incorrecta, detestava preconceitos, falsos moralismos e ideias feitas. Esta é a história imaginada por Julian Barnes de Elizabeth Finch, uma professora que dava aulas de  Cultura e Civilização, contada por um aluno que com ela foi falando ao longo da vida. O aluno, Neil, descreve como ela se vestia, e os seus hábitos e sublinha que a professora atraia a atenção através da quietude e da voz. Era um tempo anterior aos computadores portáteis nas salas de aula e cedo Elizabeth Finch disse aos seus alunos: “não me peçam para vos ajudar, estou aqui para vos estimular a que, sozinhos, penseis, argumenteis e desenvolvais as vossas mentes”. O livro percorre a história do pensamento humano e as ideias de Finch evocam filosofias do passado e exploram acontecimentos que se reflectem no nosso presente. Por trás de tudo,  está a história de Juliano, o Apóstata, último imperador pagão de Roma, uma alma gémea da professora,  que desafiou o pensamento monoteísta institucional, que sempre ameaçou dividir a humanidade. "Monoteísmo, monomania, monogamia. monotonia - nada de bom começa assim” - diz ela aos seus alunos. Ao longo de quarenta anos Finch encontra-se regularmente com Neil, com quem tem longas conversas. Quando morre é a ele que deixa os seus papéis, os seus cadernos de notas, a sua biblioteca. Os cadernos onde registava o que lhe ía na cabeça, eram  escritos a lápis “porque todo o pensamento é provisório e pode ser apagado à borracha”. Neil estuda-os, fica ainda mais fascinado e acaba por decidir escrever a biografia de Elizabeth Finch. Este novo livro de Julian Barnes encaixa  como uma luva nos tempos que correm, tão dados à intolerância. Muito boa  tradução, de Salvato Teles de Menezes, edição da Quetzal.


 


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JAZZ AVENTUREIRO - Gard Nilssen é um baterista norueguês dado a aventuras invulgares. Em 2020 fez um disco intitulado “If You Listen Carefully The Music Is Yours” com uma formação de três bateristas e três baixistas. Nilssen tem uma actividade considerável, com participações em mais de 70 discos desde 2007, alguns com orquestras, outros com pequenas formações, nomeadamente trios. O seu novo disco é baseado num trio: Nilssen na bateria, Andre Roligheten no saxofone e clarinete e Petter Eldh no baixo, a Acoustic Unity. “Elastic Waves”, o novo disco, é de facto o quarto registo deste grupo e é uma estreia na editora ECM.  Os três músicos trabalharam em conjunto não só em estúdio, mas também na composição dos 11 temas. Há evocações de melodias tradicionais norueguesas, há improvisação, há baladas, há sons vibrantes com o saxofone tenor a assumir protagonismo como no tema “The Other Village”, há uma permanente marcação rítmica, por vezes a puxar mesmo para movimentos de dança. Os temas são curtos - os 11 em conjunto andam pelos 45 minutos, o que facilita a ideia de uma sucessão de composições que se encadeiam umas nas outras. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ESPLANADA MEXICANA - Uma ida ao cinema foi o pretexto para ir ao andar Gourmet do El Corte Ingles de Lisboa e, percorrendo o local, escolher um sítio que parecesse simpático. A escolha recaíu na Barra Cascabel, que faz parte do grupo de restaurantes orientados por José Avillez. Na realidade esta é uma parceria entre Avillez e Roberto Ruiz o chef que se tornou notado com o restaurante Punto Mx, em Madrid.  A Barra  Cascabel dedica-se à cozinha mexicana e pode-se escolher entre petiscos ou pratos mais sérios, conforme o apetite. Como aperitivo para o cinema a opção foi petiscar. Assim tudo começou com um guacamole da casa, temperado a sementes de abóbora e pickles de jalapeno, com as necessárias tiras de milho, bem frescas e estaladiças. Seguiu-se uma Tostada de Bonito, em que um molho de hortelã e pepino temperava uma salada de milho e o próprio atum. Para rematar, uns tacos Tampiquña traziam carne de vaca aos pedaços, cozinhada com bom tempero, pedaços de abacate e pico de gallo (uma mistura de tomate, cebola, coentros e limão). A acompanhar cerveja mexicana - uma Corona e uma Atlantica - esta última é mais gastronómica e acompanha melhor a comida. Mas quem quiser tem uma boa lista de cocktails, mezcal e tequilas. Quem desejar coisas menos leves tem pratos cozinhados de galinha, porco e vaca, todos na brasa, todos receitas tradicionais.


 


DIXIT - “Portugal é hoje o país europeu onde o Estado mais se demitiu da presença real no mundo rural, liquidando velhas instituições de vigilância e salvaguarda das florestas” - Viriato Soromenho Marques 



BACK TO BASICS - “Os erros são a porta de entrada para fazer descobertas” - James Joyce


 

julho 15, 2022

NÓS POR CÁ TODOS BEM?

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CARTA A UM AMIGO EMIGRADO - Perguntas-me no teu mais recente e-mail como estamos nós por cá. Para te responder podia citar o título de um filme, “Nós Por Cá Todos Bem”, do Fernando Lopes, lembras-te? Mas a coisa termina no nome do filme. Se queres saber, este rectângulo à beira mar plantado continua a ser disputado por estrangeiros que aqui procuram sol e pechinchas. Mas nós, que gostosamente aqui andamos há uma vida, não vemos grande razão para sorrisos. Recordas-te da nossa velha conversa, da última vez que aqui estiveste, sobre a necessidade de mudar, de fazer reformas? Pois não tenho novidades. Nem mudanças nem reformas, nada. A localização do novo aeroporto continua emperrada e a CP aconselhou as pessoas a não viajar de comboio nestes dias de calor, as urgências dos hospitais vão fechando, as notas de matemática vão descendo e as greves vão aumentando desde que a geringonça gripou. Como te recordarás, quando António Costa chegou a primeiro-ministro, prometeu mudanças. E, como saberás, escolheu para parceiros os dois partidos que menos mudanças querem para desenvolver o país e a economia: o Bloco e o PCP. O resultado dos quatro anos desse ménage à trois foi que nada se fez, a não ser recuar nos indicadores comparativos da União Europeia. Não é de admirar - as geringonças têm tendência para andar para trás, são primas dos caranguejos. Depois, este ano, quando o Costa ganhou com maioria absoluta, houve quem pensasse que agora é que ía ser - livre dos seus sócios anteriores, alguma coisa iria mudar. A coisa que mais mudou é que ele agora passa mais tempo no estrangeiro - está como tu, meu amigo. Quem cá fica é que anda pior. Não há sítio onde surja um sinalzinho de mudança - nem na justiça, nem na carga fiscal, nem na lei eleitoral. A coisa que mais muda nesta terra é o preço dos combustíveis e até já há quem tenha saudades de um litro de gasolina ser a dois euros. Não te maço mais. O rectângulo continua firme à beira mar. Imutável. E com a dívida a crescer. Esperemos que não afunde outra vez, como com o Sócrates.





SEMANADA - Em 2021 foram realizadas menos 700 mil cirurgias em comparação com o ano anterior e verificou-se um redução de 18,5% nos internamentos hospitalares; os hospitais privados pesam apenas 4% na despesa do Serviço Nacional de Saúde; até Maio foram comunicados 452 pré avisos de greve, valor semelhante ao que foi atingido em 2015; mais de metade dos alunos do 9º ano teve negativa no exame de matemática; o Fisco só ganha 23% dos processos que são julgados com recurso à arbitragem fiscal; o actual executivo já nomeou mais de 800 pessoas para os gabinetes dos vários membros do Governo;  o Estado tem mais de 400 organismos consultivos, alguns redundantes e outros sem actividade; segundo a Pordata a percentagem de pessoas em risco de pobreza aumentou de 16,2% para 18,4% entre 2019 e 2020; em 2020 um terço das famílias perdeu 25% do seu rendimento anterior; segundo a Marktest o número de portugueses que encomendam refeições por telefone ou aplicações quase triplicou desde 2018 e o MB Way é o método de pagamento mais utilizado em compras online; o Novo Banco vendeu casas a um preço tão abaixo do mercado que algumas delas valorizaram 200% no dia seguinte; 75% dos portugueses consideram que o Estado devia investir mais na cultura, revela um estudo promovido pela plataforma Gerador.


 


O ARCO DA VELHA - Em 23 meses o  Banco de Fomento, que ainda mal funciona, fez 73 contratos de aquisição de bens e serviços por ajuste directo, num total de cerca de seis milhões de euros, 47% dos quais a uma mesma entidade.


 


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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - A minha sugestão desta semana é uma ida ao Museu Gulbenkian para visitar a exposição  “To Go To”, que coloca em confronto o trabalho do português Jorge Queiroz e do arménio Arshile Gorky. Jorge Queiroz concebeu a exposição como um cenário que permite o diálogo entre os trabalhos dos dois artistas. Gorky morreu em 1948, Queiroz nasceu em 1966. Claramente são de tempos diferentes e, como Jorge Queiroz refere, Gorky partiu da figuração e desejou a abstração, enquanto ele próprio passou da abstracção para a figuração. A forma como “To Go To” está montada e o cuidado posto no diálogo entre as obras dos dois artistas tornam-na numa exposição invulgar. A ideia desta mostra nasceu porque a Fundação Gulbenkian detém um depósito de 57 obras de Arshile Gorky, propriedade da Diocese da Igreja Arménia de Nova Iorque, e ainda três obras no acervo do Centro de Arte Moderna. Foi a partir deste conjunto que Queiroz selecionou as pinturas e desenhos de Gorky apresentados na exposição, todos pertencentes ao último período da sua obra, da década de 1940, considerada a sua melhor fase. A este conjunto veio ainda juntar-se o empréstimo de uma pintura excepcional, proveniente do Museo Thyssen-Bornemisza. Intitulada Last Painting (The Black Monk), inspirada pelo conto homónimo de Tchekov, esta obra é e datada de 1948, e é provavelmente a última pintura de Gorky, uma vez que foi encontrada no cavalete do estúdio quando o artista se suicidou. Em “To Go To” Jorge Queiroz mostra cinco telas realizadas para a exposição, nas quais pintou sobre linhas serigrafadas, como se fossem papel de carta, evocando a leitura que fez da extensa correspondência de Gorky recentemente publicada. A exposição inclui ainda três outras pinturas e um vídeo de Queiroz, expressamente realizados para este projeto, além de vários seus trabalhos anteriores, sobre tela e sobre papel. A curadoria é de Ana Vasconcelos e a exposição fica patente até 17 de Outubro. 


 


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ENTRE A VIAGEM E A AVENTURA  - Gosto muito de livros que relatam viagens e os policiais e livros de mistério também figuram nas minhas leituras preferidas. Por isso, à medida que fui avançando na leitura de “Nas Montanhas da Loucura”, percebi como o seu autor, H. P. Lovecraft, conseguia relatar uma expedição à Antárctida, escrevendo-a como um romance de terror. Devo dizer que o resultado é fascinante.  Stephen King considera  Lovecraft como o melhor escritor de romances de terror do século XX e  Jorge Luis Borges dizia de Lovecraft que “as imagens que cria são horrendas, mas as sensações que provocam não o são”. O romance e a obra de Lovecraft combinam a fantasia com a ficção científica e com elementos cósmicos, tendo como pano de fundo a fragilidade e a efemeridade do ser humano. Howard Philips Lovecraft morreu cedo, em 1937, com menos de 50 anos. “Nas Montanhas da Loucura”, publicado originalmente em 1931, é uma das suas obras mais importantes. Na expedição, cujos preparativos são descritos minuciosamente no romance, os cientistas, que procuram fósseis pré-históricos numa viagem atribulada, começam a testemunhar factos estranhos. A partir daí o livro cria um clima de mistério e suspense que se vai adensando, no meio do clima desafiante da Antárctida e das suas paisagens avassaladoras. “Nas Montanhas da Loucura” integra a nova colecção "Admirável Mundo do Romance” e foi agora editado pela Guerra & Paz, com tradução de Sónia Amaro.


 


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O JAZZ DO HOMEM DOS WEEKND - Benny Bock tem trabalhado com os Weeknd, compondo algumas das suas canções e, sobretudo, assegurando a produção de vários dos seus álbuns. A novidade é que Bock iniciou agora uma carreira a solo com o álbum “Vanishing Act” onde mostra a sua proximidade ao jazz, assumindo a referência do jazz ambiental. Bock teve a ajudá-lo Pete Min, um reputado engenheiro de som que trabalhou com nomes como Diana Ross ou The Strokes. “Vanishing Act” desenvolve-se a partir de sessões de improvisação onde Benny Bock tocou seguindo as indicações de Min, ambos explorando sonoridades. A primeira faixa do disco”Erwins Garden” é uma homenagem de Bock ao pianista de jazz Erwin Helfer, que foi seu  professor de música. O piano assume neste tema e em vários outros do álbum o papel principal, mas cedo se mistura com sons de electrónica. Em “Dynamo”, o tema seguinte, uma batida repetida estabelece o padrão sobre o qual se desenvolve o piano e também o trabalho dos teclados electrónicos, num contraste entre sonoridades clássicas e o improviso que percorre caminhos inesperados. Estes dois temas iniciais estabelecem o padrão que se vai desenrolando ao longo dos restantes oito que constituem este álbum, sempre avançando um pouco na direcção de ambientes que bem podiam fazer parte de uma banda sonora de filme,  de tal maneira cada um dos temas deixa no ar sugestões de imagens. No tema título, “Vanishing Act”, um baixo eléctrico surge de forma marcante e em “Eight Below Zero” um steel pedal sugere universos musicais alternativos ao pano de fundo do jazz ambiental que foi escolhido por Bock.  Disponível em streaming.



A SARDINHA SETUBALENSE  - Um amigo que vive há muitos anos em Setúbal desafiou para umas sardinhas na sua terra. Não indicou nenhum dos restaurantes mais conhecidos, disse apenas que era um sítio onde ele gostava de ir, mais frequentado por locais que por turistas. Durante o almoço, e enquanto as sardinhas estavam nas brasas, ele lá contou as transformações sofridas por Setúbal nos últimos anos e disse uma coisa que para mim foi novidade completa: Setúbal é um dos destinos portugueses mais procurados por norte-americanos de classe média para aí comprarem uma casa e, actualmente, essa é uma comunidade de estrangeiros que está a crescer e que por este andar será a que lidera a nacionalidade dos novos proprietários de Setúbal. Alguns dos americanos que compraram casa decidiram uns tempos depois abrir um negócio, que vai desde lojas diversas até uma livraria que já está em preparação. Voltando à mesa, com um piscar de olhos, o meu amigo explica que, para comer boa sardinha em Setúbal, o truque é não ir ao fim de semana e evitar os restaurantes de primeira linha junto ao rio ou na avenida Luísa Todi. É nas ruas mais interiores que há os melhores restaurantes, com as melhores grelhas e peixe de confiança. Na esplanada que ele escolheu as sardinhas, já de Julho, estavam aprimoradas no tamanho, na frescura e no preparo, a salada era abundante e a fatia de pão para embeber o rasto deixado pelas sardinhas recomendava-se. Até tenho medo de referir o nome do sítio, mas aqui fica: Tasca Xico da Cana, Travessa do Seixal 10, tel 265 233 255 ou 915 420 976.


 


DIXIT - “Na democracia portuguesa os partidos só estão preparados para a competição política e não para a cooperação” - Paulo Trigo Pereira


 


BACK TO BASICS - “Quem em tudo quer parecer maior, não é grande”  - Padre António Vieira


 





julho 08, 2022

O PS TEM UM PROBLEMA DA FALTA DE MEMÓRIA

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HERANÇAS POLÍTICAS - Cada vez que o PSD dá um ar da sua graça vem logo alguém do PS recordar, em tom acusatório, os tempos de Passos Coelho. Esquecem-se sempre de referir que Passos Coelho recebeu um país à beira da falência, após anos de governo do PS, protagonizados por José Sócrates. Esquecem que quem chamou a troika foi o Dr Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças de Sócrates, perante a iminência de o país colapsar. Mas esta é uma verdade que o PS e seus aliados geringôncicos preferem não recordar. A bitola de avaliação do PS em relação a dirigentes do PSD é a de rastrear se eram próximos de Passos Coelho. Imaginemos agora que o mesmo exercício se aplica ao PS. Para citar só dois casos relevantes tenhamos em conta que o actual Primeiro Ministro António Costa integrou um Governo de José Sócrates e o actual Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, idem. Pois apesar disto o actual Presidente do PS, sempre muito assertivo, veio comentar o Congresso do PSD  proclamando que  o novo líder do PSD, Luís Montenegro, é “uma espécie de “heterónimo político de Passos Coelho”. Este é o mesmo Carlos César que em Maio de 2018, em declarações ao “Observador”, lembrou a “marca muito positiva” que José Sócrates deixou no país como primeiro-ministro. Enquanto a política fôr feita assim o descrédito dos eleitores perante os políticos só terá tendência a crescer. Em matéria de heranças políticas vale a pena recordar que nos últimos 27 anos o PSD governou apenas sete, quatro dos quais para tirar o país da fossa em que o PS o deixou. Recordem-se disto nas próximas eleições.


 


SEMANADA - Dos 3300 milhões de euros do PRR já pagos por Bruxelas chegaram às famílias 51 milhões e às empresas apenas quatro milhões; 113 dos 308 municípios ainda não conseguiram concluir a estratégia local de habitação que lhes permitira concorrer aos fundos do PRR, o que poderá agravar as desigualdades no acesso à habitação; os pedidos de licenciamentos para reabilitação de casas caíram 45% nos primeirtos meses do ano face ao mesmo período do ano passado; a inflação provocará em 2023  o maior aumento de actualização automática das rendas de casa desde os anos 90 do século passado; o Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda, recebeu cerca de 15 mil visitantes no primeiro mês em que esteve aberto; a venda de automóveis novos caíu 9,4% no primeiro semestre deste ano; no primeiro mês de funcionamento os novos radares de Lisboa apanharam 1239 condutores em excesso de velocidade por dia; a Provedoria de Justiça recebeu no ano passado mais de 12 mil queixas de cidadãos e o maior número de reclamações tem a ver com a Segurança Social; a violência doméstica já provocou no primeiro semestre a morte de 16 mulheres, tantas quanto em todo o ano passado; a dívida pública portuguesa está a crescer ao ritmo de 42 milhões de euros por dia e atinge agora mais de 280 mil milhões, o maior valor de sempre; nos primeiros cinco meses deste ano a cobrança de impostos teve um valor médio de 117 milhões de euros por dia; um estudo da SEDES indica que os baixos salários, a corrupção e a situação na saúde são os motivos que levam portugueses que emigraram nos últimos anos a não quererem voltar ao país.


 


O ARCO DA VELHA - Desde que, em 1969, foi criado o Gabinete do Novo Aeroporto já foram  realizados estudos para 17 localizações diferentes do novo aeroporto de Lisboa. Em anos diferentes, foram aprovadas formalmente em Conselho de Ministros duas localizações: Ota em 1999  e Alcochete em 2008. Mas tudo continua por fazer.


 


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MUITO PARA VER - No espaço Gabinete, na Central Tejo, o MAAT, apresenta até 29 de Agosto as novas aquisições de obras de arte efetuadas em 2021 e 2022 pela Fundação EDP. As novas obras, bastante diversificadas em termos de origens, autores e data, são de nomes como Fernando Calhau, João Vieira, Miguel Branco, Ana Jotta (na imagem), Luísa Cunha, Jorge Naisbitt e João Gabriel. A exposição, de dezena e meia das novas obras da colecção, procura criar diálogos entre o trabalho dos autores representados. Mas há muito para ver. Neste momento em Lisboa o difícil é escolher o que se poderá querer ver já que a oferta é grande. Alguns destaques: Catarina Pinto Leite expõe na Galeria Diferença,  até 30 de Julho, um conjunto de obras sob o título “Rua de Mão Única”, o título de um livro de Walter Benjamim que em parte inspirou o trabalho da artista, feito em papel japonês, criando uma instalação pensada para o espaço da galeria. O espaço é moldado pelo papel japonês, suspenso, no qual se vislumbram transparências de desenhos, em confronto com pequenos quadros dispostos na parede e que desenham um outro percurso. A curadoria é de João Silvério. Outra sugestão é a mostra Poster Marvila, já na sua sétima edição. Até final de Agosto as ruas de Marvila acolhem posters de artistas como Paula Rego, Cristiano Mangovo, Graça Paz, o fotógrafo Mário Cruz, o humorista Hugo Van der Ding ou o músico Noiserv, entre outros, num total de 20 artistas convidados. Para terminar, na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), até 10 de Setembro, Inês d’Orey expõe uma série fotográfica realizada durante uma residência artística em Belgrado, em 2021, “Beograd Concrete”, que mostra a visão da fotógrafa sobre a cidade, especialmente na mistura de estilos e referências arquitectónicas, mostrando como edifícios públicos, construídos entre 1946 e 1980 se intersectam com outros edifícios datados durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Jugoslávia foi formada.


 


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UMA HISTÓRIA IMAGINADA - Este livro de que vos vou falar  começa com o relato da parte final de uma viagem que leva um jovem lisboeta a descobrir  a geografia original da sua família por força de um acaso. É a descrição de uma estrada, no Alentejo, da passagem por Monsaraz (um encanto) e Mourão (uma desilusão), até chegar ao destino prometido, a terra dos avós, uma aldeia ao lado de um riacho e que dá pelo nome de Gorda-e-Feia. É aí que o protagonista vai descobrindo pormenores do quotidiano que ignorava, tradições que estão esgotadas, maneiras de falar que desconhecia. O livro de que falo chama-se “Baiôa Sem Data Para Morrer” e é a primeira obra de Rui Couceiro. O autor  tem uma escrita surpreendente, cheia de detalhes, recheada de episódios, misto de observação e de sensação. O livro é na realidade a história da descoberta de uma outra vida fora da cidade, uma narrativa quase em jeito de diário, contando as experiências vividas pelo imaginado protagonista na companhia de uma mão-cheia de personagens castiças, tragicómicas, quase impossíveis. Nota-se o encanto pelos nomes invulgares, pelas situações até então desconhecidas, pela forma de falar e de viver de gentes para quem a cidade pouco significa, pelos episódios de vida e de morte que acontecem longe de tudo, no meio da planície. Há momentos em que se fica na dúvida se tudo é fruto de imaginação ou se existe algum assomo de realidade nas páginas que lemos, tão grande é a mistura entre dados objetivos e pensamentos dispersos. Construído como relato de pequenas histórias, à medida que o romance avança percebemos que elas se juntam num puzzle que se revela no final.  “Baiôa Sem Data Para Morrer” foi agora lançado pela Porto Editora.


 


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UM DISCO CERIMONIAL - O novo álbum de Nick Cave tem menos de 24 minutos de emoção pura com recurso exclusivo a voz, sintetizadores e piano. Estas são sete canções que não o são. São, sim, pensamentos falados, narrativas difusas mas intensas, onde se cruzam temas como o amor e a morte. À primeira vista pode parecer um exercício vazio, mas este novo “Seven Psalms” de Nick Cave é um trabalho de uma enorme sensibilidade e força perante o qual é muito difícil ficar indiferente. Totalmente desligado de modas ou de um estilo musical definido, Nick Cave vai progressivamente afastando-se do rock e aproximando-se de uma religiosidade sem religião definida. O disco consta de sete temas falados, com menos de dois minutos cada, em que as palavras têm um acompanhamento musical minimalista de Nick Cave e do seu colaborador de muitas aventuras Warren Ellis. Os sete temas culminam num longo instrumental que decorre das paisagens sonoras construídas ao longo do resto do disco. Os títulos dos sete salmos assim ditos por Nick Cave dizem tudo: “How Long Have I Waited?”, “Have Mercy On Me”,”I Have Trembled My Way Deep”, “I Have Wandered All My Unending Days”, “Splendour, Glorious Splendour”, “Such Things Should Never Happen” e, a terminar, “I Come Alone and to You”. Num disco anterior, “Carnage”, Cave já tinha trabalhado sobre o conceito de spoken word. Mas aqui leva a experiência mais longe e as palavras são o elemento essencial do álbum, mais que a própria música, palavras ditas de forma sóbria e solene com Cave a assumir-se como um narrador e não como um cantor. Disponível nas plataformas de streaming.


 


SANDUÍCHE INESPERADA - Já há pêssegos bons - esta semana tive a confirmação disso mesmo. Um carrinho de fruta frente à entrada principal das Amoreiras, que tem sempre fruta de muito boa qualidade, proporcionou-me essa experiência. Provar uns pêssegos em grande forma, a transpirar sabor, aconteceu ao mesmo tempo que vi uma receita que me intrigou e que resolvi experimentar. Trata-se de uma sanduíche. Que tem isso a ver com pêssegos? - perguntarão. É  uma sanduíche de pêssego, queijo e presunto. O segredo está em cortar o pêssego em fatias e temperá-las num prato largo com vinagre de cidra e flocos de peperoncino seco, a gosto. O vinagre e o peperoncino acrescentam sabores inesperados ao pêssego, marinado no molho do sumo que vai largando. Depois é tostar numa chapa uma baguette estaladiça, cortada ao meio no sentido do comprimento e aquecê-la apenas do lado do miolo. Uma vez retirado da chapa colocar fatias de queijo da ilha nas duas metades, a seguir adicionar dos dois lados, de forma generosa, fatias do pêssego já temperado, folhas de basílico também dos dois lados e, no meio, a rematar, uma boa quantidade de presunto cortado finíssimo. Feche a sanduíche e prepare-se para uma explosão de sabor num pão estaladiço. Não há razão para não sermos inventivos ...


 


DIXIT - “O que parece ser um gesto estouvado de um ministro presunçoso acaba por revelar toda a amplitude de um Governo menor e de um Estado fraco” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “O conhecimento é a melhor das coisas e a ignorância é a mais terrível” - Sócrates, o filósofo grego, não o outro…


 


 





julho 06, 2022

A polémica sobre a nova Feira Popular faz sentido?

Confesso que me espantei com a forma tão veemente como o Bloco de Esquerda veio criticar o anunciado abandono, por parte do actual executivo autárquico, do  projecto da nova Feira Popular em Carnide. Vamos a factos: a Feira Popular em Entrecampos encerrou em 2003 e apenas em 2015 Fernando Medina, então Presidente da Câmara de Lisboa, autarquia que estava nas mãos do PS desde 2007, anunciou  a construção de um novo Luna Park em Carnide, orçado, na época, em 70 milhões de euros. Passaram-se quase 20 anos desde o fecho da Feira Popular e sete desde que o novo parque de diversões foi prometido. À excepção de umas terraplanagens em 2016, nada foi feito. Não existe plano, nem caderno de encargos nem abertura de concurso de concessão, Medina esteve na Câmara até final de 2021 e durante seis anos não deu um passo para concretizar o que anunciara. Carlos Moedas anunciou que o projecto teria que ser repensado, o que faz todo o sentido - tendo até em vista o seu programa eleitoral que dava prioridade a criar pólos de proximidade em detrimento de  grandes estruturas de difícil gestão. Que o Bloco de Esquerda e o PS andem de mãos dadas, neste caso, ainda  sob a benção do espectro do vereador Zé, não me causa espanto. Mas, na minha grande ingenuidade, pensava que no Bloco ainda eram lidas as reflexões de Guy Debord sobre “A Sociedade do Espectáculo”, “essa droga para escravos” que empobrece a verdadeira qualidade de vida:  o que existia na proposta de Medina era uma mega estrutura de espectáculo e aliás aquilo que o Bloco continua a reclamar é um grande equipamento de divertimento e entretenimento. Contradições, enfim… Mas deixemos Guy Debord de lado e passemos à realidade. O actual presidente da junta de Carnide, Fábio Sousa,  da CDU, afirmou, com lógica e razão, estar preocupado com o estado em que os terrenos do anunciado Luna Park se encontram: Segundo ele , “está tudo parado e os terrenos ao abandono”,  invadidos por mato, constituindo um perigo. E, nas mesmas declarações, afirmou-se mais interessado em que ali seja criado um parque verde.


Cancelar o que foi abandonado, rever as promessas falhadas e encarar novas soluções é um acto que revela coragem e um pensamento virado para o futuro. A  antiga Feira Popular, que frequentei desde miúdo, vivendo em Entrecampos,  era uma estrutura que funcionava em poucos meses do ano. Na maior parte do ano estava fechada, à excepção de alguns poucos restaurantes. A minha convicção é que os lisboetas ficariam melhor servidos com alguns parques de menor dimensão, sobretudo com equipamentos para os mais novos, distribuídos pela cidade. E com um ou dois pólos maiores que pudessem oferecer ofertas diferentes. Este ano no Rock In Rio existia uma roda gigante e diversos equipamentos de diversão que ajudavam à festa de quem ia ouvir música. O local onde decorre o Rock In Rio, o Parque da Belavista,  está infraestruturado e é utilizado  apenas durante um mês e meio, de dois em dois anos. Não seria de considerar que algumas das estruturas que são montadas possam ser mais perenes, complementando a oferta dos parques mais pequenos espalhados pela cidade? 


O cancelamento do projecto megalómano de um Luna Park em Carnide não é um problema, é uma oportunidade para repensar a cidade, promovendo alternativas de proximidade. Não valerá mais  a pena pensar desta forma em vez de ficar agarrado ao passado? 


(Publicado no Diário de Notícias de 6 de Julho)


 

julho 01, 2022

O PARADOXO: QUANDO UMA MINORIA DETURPA A ESCOLHA DA MAIORIA

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UM PAÍS, DOIS SISTEMAS - Não, não estou a falar da China. Refiro-me a este rectângulo à beira-mar plantado. Aqui coexistem dois sistemas: um, que regula as eleições legislativas, garante que cabe ao líder do partido mais votado formar um Governo constituído pelas pessoas que entender escolher; e outro, nas autarquias, onde o candidato mais votado tem que coexistir no órgão de governo local, a vereação, com pessoas que não escolheu, dos outros partidos - ou seja, não pode escolher uma equipa executiva que governe. Nas duas situações existe uma Assembleia - o Parlamento e a Assembleia Municipal (e a de freguesia) - que acolhem representantes dos partidos que concorreram, proporcionalmente aos resultados obtidos. E é nessas assembleias que se tomam as decisões sobre as grandes questões - desde logo o orçamento, mas também as medidas de fundo de quem governa. Temos assim, no caso das autarquias, um duplo filtro - na vereação e na respectiva assembleia - que permitem, em última análise, que o Presidente da Câmara eleito não possa aplicar o seu programa e tenha que aplicar o dos candidatos derrotados. É isso exactamente que se está a passar na Câmara Municipal de Lisboa onde o Presidente eleito, Carlos Moedas, se vê confrontado com a aprovação pela vereação de medidas que vão contra o seu programa eleitoral - foi o que aconteceu com a iniciativa do Livre que, sem estudos e por puro fundamentalismo, decidiu impôr limites de velocidade na circulação na cidade. O que isto significa é que uma minoria pode, no sistema actual, impôr a sua vontade ao representante escolhido pela maioria dos eleitores. Não se trata de pôr em causa o respeito pelas minorias, trata-se de respeitar que a vontade democrática da maioria não seja deturpada por minorias - porque é isso mesmo que está a acontecer. Ao fim de quase meio século vai sendo tempo de melhorar as leis eleitorais e adequá-las às mudanças técnicas, comportamentais e sociológicas da sociedade. A defesa da democracia também passa por aí.


 


SEMANADA - Segundo o jornal  “El País” para ir de Madrid a Lisboa de comboio são precisas quatro mudanças de composição e onze horas - nunca a viagem foi tão má desde que em 1881 foi inaugurada uma ligação directa entre as duas cidades; em Espanha o iva da electricidade vai baixar de 10 para 5%; em Portugal o consumo cresceu três vezes acima dos rendimentos nos primeiros três meses de 1922; mais de 30% dos utentes do SNS esperam por médico de família há dois anos; nos primeiros cinco meses do ano foram atribuídos mais de dois milhões de baixas médicas por doença, um aumento de 82% em relação ao mesmo período de 2021; a venda de casas a estrangeiros aumentou mais de 70% e os preços das habitações em Portugal subiram quase 13% nos primeiros três meses deste ano; a população de estrangeiros residente em Portugal aumentou em 2021 pelo sexto ano consecutivo, contabilizando agora cerca de 700 mil pessoas, mais 5,6% que no ano anterior; quase 800 mil portugueses fazem apostas on line e nos primeiros três meses do ano apostaram, 2,2 mil milhões de euros em casinos online e 370 milhões em apostas desportivas; a taxa de produtividade em Portugal é de 71,7% comparada com a média europeia; em 2021 aumentou em 60% o número de crianças em situação de risco que tiveram o seu direito à educação comprometido. 


 


O ARCO DA VELHA - Apesar de Portugal ter a terceira maior área marítima protegida da União Europeia as pescas e a aquicultura representam menos de  0,2% do nosso PIB. 


 


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O ENCANTO DA PEDRA - Para que serve a pedra? Entre outras coisas para deleite dos nossos sentidos - essa é a conclusão que se tem quando se visita a exposição”Primeira Pedra/First Stone”, que abriu na semana passada no Museu dos Coches,  em Lisboa, onde ficará até final de Setembro. Tudo nasceu em 2016 com o intuito de promover a pedra portuguesa, por iniciativa da Experimenta Design e da Assimagra, a Associação Portuguesa da Indústria dos Recursos Minerais. Guta Moura Guedes, que comissariou toda a iniciativa e esta exposição, convidou nomes nacionais e internacionais na área do design, arquitectura e artes visuais. Como sublinham os organizadores, a “Primeira Pedra juntou a produção à criatividade através do desenvolvimento de utilizações inovadoras deste material singular”. A exposição inclui 74 obras de 36 autores, com nomes como Álvaro Siza, Amanda Levete, Carla Juaçaba, Carsten Holler, Ai Weiwei, Eduardo Souto Moura, Julião Sarmento, Marina Abramovic, Carrilho da Graça, Michel Rojkind,  Fernanda Fragateiro, Vhils, Jorge Silva, Manuel Aires Mateus. Miguel Vieira Baptista, Pedro Falcão, Peter Saville e Philippe Starck, entre outros. A exposição desenvolve-se entre os jardins do museu, em todo o espaço exterior no piso térreo e, depois, no primeiro andar, convivendo com os coches do museu, como nesta Conversadeira, a peça de Eduardo Souto Moura que está na imagem.


 


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LÁ VOU EU DE VESPA  -  Em 1952 o filme “Férias em Roma” mostrava Audrey Hepburn e Gregory Peck numa scooter Vespa e a scooter ganhou estatuto de estrela. Por cá a Vespa chegou em 1947, no ano a seguir à sua apresentação em Itália. Fabricada pela Piaggio, o nome evoca o zumbido do seu motor original a dois tempos. A Vespa foi o modo de transporte de gerações. Tive a minha primeira Vespa, uma 150 S, quando entrei para a faculdade no início dos anos 70 e mantive-a durante muito tempo. E hoje em dia é ainda com uma outra Piaggio que me desloco na cidade. Tudo isto vem a propósito do novo livro de Pedro Pinto - “Vespa em Portugal, a beleza em duas rodas”, editado pela Quetzal e que esta semana chega às livrarias. Pedro Pinto é autor de outros livros, como  As Motos da Nossa Vida,  Motos Antigas em Portugal e Motorizadas 50cc Portuguesas. Foi membro fundador da Federação Nacional de Motociclismo e organizou a exposição As Motos do Século, o Século das Motos e o respetivo catálogo para a Expo 98. Neste novo livro conta como a história da Vespa ao longo de 70 anos está marcada pelo cosmopolitismo, pela inovação do design e por uma cultura romântica e urbana. Neste  livro Pedro Pinto conta a história das scooters Vespa em Portugal, desde o início da sua importação, até aos anos de ouro em que foi representada pela Sociedade Comercial Guérin e, depois, as  outras empresas que se lhe seguiram a importar a marca. O livro percorre os pioneiros da Vespa em Portugal, como a história fantástica de Orquídea Graça, uma vendedora do stand da Vespa na avenida da Liberdade em meados dos anos 50 - a história de uma mulher à frente do seu tempo. Mas fala também dos rallies e passeios - alguns além fronteiras - assim como da fundação do Vespa Clube de Lisboa ou do encontro internacional Eurovespa que Lisboa acolheu em 2004. O livro foi claramente escrito com paixão e reproduz numerosa documentação fotográfica e de imagens publicitárias da marca.


 


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A VOZ DA EMOÇÃO - Descobri a voz de Elizabeth Fraser nos Cocteau Twins e, depois, nos This Mortal Coil. A sua forma de cantar era emocionante e conseguia imprimir às palavras que entoava um sentimento que ainda não tinha ouvido antes. A versão que fez, com os This Mortal Coil, para “Song To The Siren”, de Tim Buckley, excede o original, transportando-o para uma nova dimensão. Agora, depois de ter passado anos sem ouvir falar de Fraser, descubro que editou um EP com Damon Reece, seu companheiro de vida, ex baterista dos Massive Attack, utilizando o nome Sun’s Signature, a designação que o duo escolheu para esta aventura. Os Cocteau Twins terminaram há 25 anos e durante este período Elisabeth Fraser manteve-se longe da ribalta durante a maior parte do tempo, tendo apenas editado dois discos. Sun’s Signature é o seu primeiro projecto em 13 anos e quando se ouvem estas canções percebe-se que a voz de Fraser mantém a magia que deixava no ar há décadas. Agora, aos 58 anos, Fraser canta de uma forma ainda mais intensa, estimulada talvez pelos arranjos envolventes que Reece fez com a participação de músicos com quem colaborou ao longo da vida, como Steve Hackett, que foi guitarrista dos Genesis. O som que sai deste EP relembra a sonoridade típica dos discos da editora 4AD, onde estavam os Cocteau Twins, os This Mortal Coil e Dead Can Dance, por exemplo. A primeira faixa, das cinco que integra este EP, chama-se “Underwater” e mostra como a voz de Fraser continua misteriosa. “Golden Air”, a segunda faixa, mostra Elizabeth Fraser a cantar sobre arranjos elaborados, num crescendo que se acentua na segunda metade do tema. Mas a minha preferida é “Apple”, intimista, tranquila, em que ao longo de sete minutos a voz de Fraser vai-se afirmando em todo o seu esplendor. Estes três temas já estão disponíveis em streaming. A edição original do EP, em vinil, inclui dois outros temas,  “Bluedusk” e “Make Lovely The Day”, bem diversas entre si. Estes dois temas estarão brevemente também disponíveis nas plataformas de streaming. Mas os 20 minutos das três faixas já disponibilizadas são uma inesperada lufada de ar fresco neste início de verão.


 


UM ALMOÇO NO CHIADO - Almoçar confortavelmente no Chiado, a preço razoável,  conseguindo escapar à fast food, não é tarefa fácil. Primeiro lembrei-me de ir à Cervejaria Trindade, mas está em obras. Depois espreitei o Bairro do Avillez mas a esplanada era dominada pela confusão e o mau cheiro de uns contentores de lixo inexplicavelmente próximos. De maneira que decidi ir à histórica Pastelaria Bénard e ver o que se passava. Pois passou-se uma boa surpresa. No interior havia sossego e um empregado simpático. Na parede um cartaz anunciava que a casa só utilizava produtos naturais e frescos, não recorrendo a pré-preparados. O balcão estava repleto de tentações. Os pratos do dia eram clássicos: pescada frita com salada russa e caldo verde. Além disso há as chamadas sopas residentes, emblemas da casa, que são a sopa de peixe e a canja de galinha. O menu tem muitas outras sugestões, do bitoque nas carnes aos filetes no peixe, passando por diversas saladas, além de uma grande variedade de salgados e de sanduíches, a que se podem acrescentar guloseimas como um excelente pastel de nata, quer no tamanho normal, quer em miniatura. Na primeira sala pode sentar-se e pedir o que lhe apetecer - por exemplo uma sopa e uma bela napolitana, esse mágico folhado com fiambre, queijo e alface. Fiz uma boa escolha - a sala da Bénard é um oásis no meio da confusão do Chiado. Fica na Rua Garrett, 104.



DIXIT - “A pior coisa que pode acontecer é adoecer ou ter acidentes em Agosto” - Graça Freitas, directora-geral da Saúde


 


BACK TO BASICS - “A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é um absurdo” - Voltaire





junho 24, 2022

UM CARGO EUROPEU: O CADA VEZ MAIS EVIDENTE DESEJO DE COSTA

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PELA ESTRADA FORA - Enquanto se multiplica em contactos no estrangeiro António Costa semeia promessas para o mercado interno: 20 % de aumento de salários num dia, “aumento histórico de pensões” em 2023  e crescimento nunca visto graças ao PRR noutro. Nos últimos dois meses António Costa visitou sete países europeus e enquanto procura aumentar a sua influência no exterior deixou a inércia instalar-se no Governo, como se verificou na questão da degradação do SNS. Mas Costa é hábil e nunca desanima: aos obstáculos responde com promessas, às dificuldades contrapõe miragens. Não fala das reformas que a sua maioria absoluta poderia permitir na justiça, saúde, educação e prefere fazer variações calculistas sobre a integração da Ucrânia na União Europeia, passando do mais acabado cepticismo para o mais entusiástico apoio, tudo seguindo naturalmente a  posição dos países que lhe poderão ser úteis caso se decida a tentar algum cargo europeu - coisa que parece cada vez mais ser o motor da sua actividade, por muito que o próprio desminta e o Presidente da República negue. O tempo o dirá, mas os seus actos estão à vista. O calendário eleitoral dos próximos anos é intenso: em 2024 eleições para o Parlamento Europeu, em 2025 eleições autárquicas, em 2026 eleições legislativas e presidenciais. Em nenhum momento se ouve Costa falar de revisão da Lei Eleitoral, sinal de que pelos vistos se sente confortável com a abstenção galopante e com o desperdício de votos que existe no actual sistema, e de que o seu partido é um dos principais beneficiários. Enquanto Costa prepara o seu próximo futuro, as promessas de benesses orçamentais que vai espalhando parecem ser um fato à medida da indicação de Fernando Medina, agora Ministro das Finanças, como seu sucessor. A sucessão de Costa no PS promete ser um romance  com todos os condimentos. Costa está lançado pelas estradas da Europa. E em que estado irá ficar Portugal no fim deste passeio?


 


SEMANADA - Um estudo da União Europeia indica que a despesa de Portugal com os salários na Função Pública superou em 1,3 pontos percentuais a média da União Europeia em 2021;  Portugal gasta 11,8% do PIB com a Função Pública, o que compara com o valor médio de 10,5% na União; a mortalidade na primeira metade de Junho subiu 26% em relação ao período homólogo antes da pandemia; há serviços de urgências nos hospitais públicos com 80% de tarefeiros; Portugal é o terceiro país da zona euro onde o preço dos alimentos mais cresceu, logo atrás da  Letónia e Lituânia; um estudo divulgado esta semana indica que nos últimos dez anos os salários médios dos portugueses caíram e os mais qualificados foram os mais prejudicados; em 2019, o rendimento anual médio líquido (em paridade de poder de compra) em Portugal era de 13.727 euros, o sétimo mais baixo entre os países da União; em 2019 havia 13 países em que os trabalhadores com ensino superior ganhavam mais que em Portugal: Itália, Chipre, Irlanda, Finlândia, França, Malta, Bélgica, Holanda, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Áustria, Luxemburgo; há cinco países em que os trabalhadores não qualificados ganhavam mais que os portugueses com ensino superior: Finlândia, Áustria, Holanda, Dinamarca e Luxemburgo; em 2019, Portugal era o sexto país com menor produtividade, apenas acima de países como a Roménia, Polónia, Letónia, Grécia e Bulgária; nesse ano, a produtividade dos portugueses era equivalente a 66% da média da produtividade dos trabalhadores da UE; uma sondagem do Correio da Manhã e do Jornal de Negócios indica que 91,5% dos inquiridos considera que Portugal precisa de grandes reformas, sendo a saúde e a educação as áreas prioritárias; mas apesar de o PS ter obtido  a maioria absoluta, 65,8%dos inquiridos  não acreditam que o Governo faça qualquer reforma de fundo; um estudo recente defende que em Portugal há um problema de transparência ao nível do Governo.


 


O ARCO DA VELHA - A Agência para a Investigação Clínica e Inovação Biomédica foi anunciada em 2018 e foram prometidos 20 milhões de euros até 2023, mas a um ano do objectivo o investimento não chega a um milhão - está nos 750 mil euros.


 


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A RUA DAS EXPOSIÇÕES - Uma das zonas de Lisboa onde nos últimos anos se foram instalando várias galerias de arte é Marvila. Na Rua Capitão Leitão coexistem várias: a Galeria Francisco Fino, a Galeria Bruno Múrias e a Insofar Art Gallery - e todas têm actualmente exposições que vale a pena conhecer. Começo pela Insofar: sob a direcção de Inês Valle a galeria criou o programa FACHADA, que se estreou em Maio passado e onde, até 12 de Julho, podem ser vistas, precisamente na fachada da galeria, 157 esculturas de Isaque Pinheiro (na imagem) a que o artista deu o título genérico de “A Malha”. A ideia é que o projecto FACHADA se realize  uma vez por ano, como uma parte da programação da galeria dirigida ao espaço público. Em cada ano será convidado um artista a conceber uma ideia de intervenção na fachada da Insofar e, ao mesmo tempo, personalidades ligadas à arte contemporânea elaborarão  textos com a sua visão da obra - este ano coube a João Silvério e a Fábio Gomes Raposo. Ali bem perto, quase em frente, a Galeria Francisco Fino apresenta até 30 de Julho uma exposição colectiva com o título “Escola da Libertinagem” e que agrupa trabalhos de uma série de artistas, comissariada por Alexandre Melo, a partir de uma conversa tida em 2020 com Julião Sarmento, que é um dos artistas representados na exposição, ao lado de nomes como Paula Rego, Gabriel Abrantes, Ana Vidigal, José Pedro Cortes, Luisa Cunha, Rosa Carvalho e Vasco Araújo, entre outros. O nome da exposição evoca o subtítulo de uma edição portuguesa de os “120 Dias de Sodoma”, do Marquês de Sade, feita pela editora Arcádia em 1975. E, para finalizar, ainda na Rua Capitão Leitão, a Galeria Bruno Múrias apresenta até 23 de Julho uma exposição de novos trabalhos de Rui Calçada Bastos sob o título “Words Don’t Come Easy” e que explora as relações possíveis entre fotografia e escultura, construindo uma narrativa sobre a comunicação entre as pessoas.


 


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A ATRACÇÃO AFRICANA  - Ao longo de cerca de dois meses, Ernest Hemingway e a sua mulher, Pauline Pfeiffer, viajaram pela África Oriental, participando num safari pela região do Serengueti. Publicado originalmente em 1935, o romance “As Verdes Colinas de África” é o testemunho dessa aventura. Aqui, o escritor reflete sobre o fascínio da caça, o deslumbramento pela paisagem africana e o respeito do homem pela beleza e glória daquele território selvagem, permanentemente acossado por um invasor estrangeiro. Entre perseguições a leões, búfalos, rinocerontes e aos fascinantes cudos (antílopes de listas brancas que Hemingway deseja mais do que qualquer outro animal),  este é o registo de uma experiência íntima, que é também uma referência da literatura de viagens. A certa altura no romance damos com este parágrafo: “Tudo o que queria naquele momento era voltar para África. Ainda lá estávamos, mas quando eu acordasse durante a noite ficaria estendido na cama, já a sentir saudades dela”. Ernest Hemingway nasceu no Illinois, a 21 de julho de 1899, e suicidou-se no Idaho, em julho de 1961. Em 1953 ganhou o Prémio Pulitzer, com “O Velho e o Mar”, e em 1954 o Prémio Nobel de Literatura. Esta nova edição de “As Verdes Colinas de África”, integra a colecção “Dois Mundos” dos Livros do Brasil e tem tradução de Guilherme de Castilho. 


 


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PALAVRAS DE ORDEM - Lembram-se de canções como “Should I Stay Or Should I Go?”, “Rock The Casbah”, “Straight To Hell” ou  “Know Your Rights”? Sim são todas elas momentos emblemáticos da carreira dos Clash e estão incluídas no álbum “Combat Rock”, editado há 40 anos em 1982, o quinto disco da banda e o último com o guitarrista Mick Jones e  o baterista Topper Headon. Pois é, já passaram 40 anos e é tão curioso ouvi-las de novo hoje em dia… Para assinalar a efeméride foi lançado o duplo CD “Combat Rock/The People’s Hall (Special Edition)” que além das 12 faixas originais, agora remasterizadas, inclui ainda várias versões extra e lados B de singles - um total de 24 temas que se estendem ao longo de uma hora e quarenta. Este foi o álbum dos Clash que teve maior êxito e também o seu derradeiro testemunho. Os Clash, é bom recordá-lo, foram uma banda que proclamava sem rodeios a sua opinião sobre o estado do mundo e a forma como então já se adivinhava que iria evoluir. Depois de terem feito um triplo álbum menor, “Sandinista”, os Clash queriam fazer um duplo CD, mas o produtor Glyn Johns convenceu-os a deixar de fora alguns temas e a concentrarem-se apenas em 12 canções. Foi assim que nasceu a  edição original de “Combat Rock”. Em “Know Your Rights” , considerada por muitos um dos grande temas do rock, Joe Strummer canta “You have the right to free speech/As long as you’re not dumb enough to actually try it.” 40  anos depois as palavras tornaram-se de novo actuais no contexto do que se passa na Rússia, no meio da invasão ordenada por Putin à Ucrânia. Disponível nas plataformas de streaming.


 


SALADA ESTIVAL  - Estamos oficialmente no verão, o que é sinónimo de duas coisas: saladas e dias longos. Também é suposto haver um calorzinho, que tem andado instável. Mas mesmo com as temperaturas de antes do início da primavera, deixo aqui um dos meus petiscos estivais favoritos: salada de melancia com queijo feta. Como verão já de seguida a iguaria leva mais alguns ingredientes mas o essencial é mesmo dado pelo contraste da melancia com o queijo feta. Comecemos então por cortar uma boa porção de melancia em pedaços de dimensão média e o queijo feta em cubos. Misturem tudo e entretanto cortem meio pepino também em cubos e acrescentem à melancia e ao feta. Por fim adicionem azeitonas às rodelas,  folhas de hortelã-pimenta e de basílico picadas grosseiramente e um molho feito à base de azeite, com sumo de lima e pimenta. Misturem tudo muito bem e antes de ir à mesa coloquem mais folhas inteiras de hortelã e de basílico por cima. Vão ver que isto proporciona um jantar leve e fresco, para quando os dias estiverem mais quentes.


 


DIXIT - “Com quem é que o Governo quer governar a saúde? Com os médicos a quem paga mal? Com os enfermeiros que aliena? Com as Ordens que despreza? Com os privados que ameaça de morte? Com os doentes e familiares que esperam por consultas e cirurgias?” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Pode ser perigoso ter razão quando se apontam os erros do Governo” - Voltaire


 





junho 17, 2022

ESTAMOS NO REINO DA ILUSÃO

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O IMPROVISO -  Foi necessário o sobressalto causado pelo encerramento, por falta de médicos, de serviços  de obstetrícia em diversos pontos do país para o Governo aparecer, tarde, a anunciar um plano de contingência. Mas a situação não é nova, vinha a desenhar-se já há algum tempo, havia alertas, e mais uma vez se verifica como na saúde este Governo corre atrás do prejuízo, sendo incapaz de prever, planear, evitar a crise. O caso dos problemas nas urgências de ginecologia e obstetrícia é apenas a face dramaticamente mais evidente de uma situação que atinge outras especialidades, que evidencia falta de planeamento, de equipamento e de pessoal. A resposta à catástrofe da pandemia Covid-19 veio criar a ilusão de que o Ministério da Saúde estava a funcionar bem. Mas quem funcionou bem foram os profissionais de saúde - médicos, enfermeiros, auxiliares - que agiram para além do seu dever, não se poupando a esforços para salvarem vidas, apesar da descoordenação que existiu no Governo. Quando a pandemia aliviou começou a notar-se como o SNS está enfraquecido, sem alicerces. A quantidade de médicos e enfermeiros que sai do país devido à ausência de perspectivas profissionais e condições de trabalho é preocupante e há quase cem mil utentes do SNS sem médico de família.  Depois de termos recuado para a cauda da Europa em termos de evolução económica, começamos agora a estar no infeliz pelotão da frente da mortalidade associada a diversas patologias, incluindo a materno infantil. As coisas não são desligadas, o falhanço económico do Governo reflecte-se nisto também. António Costa, se estivesse em Hollywood, era um construtor de cenários de cinema, daqueles que criam a ilusão da realidade. Ele é bom a fazer promessas e a esconder o que ficou por fazer. Não tem é conseguido fazer aquilo a que se propõe. E essa incapacidade de resolver problemas é o retrato do Governo que temos, dirigido por um mestre do improviso, hábil em comunicação.





SEMANADA - Um quinto dos 800 técnicos superiores colocados em 2019 em diversos serviços, com o objectivo de rejuvenescer e modernizar o Estado, já desistiu da função pública; em 2009 os técnicos superiores entravam a ganhar 167% acima do salário mínimo, agora a diferença é de apenas 72,5%; daqui a dois anos 26 mil funcionários públicos atingem a idade da reforma; até 2030 pelo menos 39% dos professores actualmente em funções irão reformar-se; no final de Março a administração pública portuguesa empregava 741.288 trabalhadores, o número mais alto dos últimos 17 anos, um pouco mais que 15% da população empregada; os médicos com mais de 65 anos representam 24% do total; na gasolina, o peso fiscal em Portugal é de 46% e em Espanha é de 40%; 30% das terras das zonas rurais têm dono por definir; nos últimos quatro anos 2712 negócios imobiliários foram pagos em notas, num total de 38 milhões de euros em dinheiro vivo; os CTT foram alvo de 79 queixas por dia dos seus utentes devido a problemas de funcionamento; a venda de automóveis eléctricos cresceu quase 78% nos primeiros cinco meses deste ano; o preço da gasolina normal aumentou já 50 cêntimos desde o início deste ano; os vistos gold estão parados há mais de cinco meses por falta de regulamentação. 


 


O ARCO DA VELHA - O Estado só conseguiu atribuir 3,3% dos 750 milhões de euros previstos no Orçamento de 2021 para as micro e pequenas empresas.


 


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GRADES RASGADAS - A minha sugestão para hoje é que passem pelo MAAT e olhem bem para o antigo depósito de nafta, um cilindro gigante, que fica junto do edifício da Central Tejo. Aí poderão ver o trabalho que 48 artistas plásticos fizeram no passado dia 10 de Junho, numa evocação de um painel colectivo feito na mesma data em 1974 - e que infelizmente ficou destruído num incêndio que devorou a Galeria de Arte Moderna do antigo Mercado da Primavera, em Belém, o local onde foi feito. Nesta recuperação estiveram presentes alguns dos autores sobreviventes do mural original, vários dos mais conhecidos artistas portugueses contemporâneos e uma nova geração de artistas. Em 1974 celebrava-se o fim de 48 anos de ditadura, em 2022 celebram-se 48 anos de democracia - e o número de artistas é a chave comum. Ao longo de todo o passado dia 10 os 48 artistas trabalharam nos retângulos iguais da parede do antigo depósito de nafta, espaços que lhes foram atribuídos por sorteio. Ao longo do dia foi possível ver diversos processos de trabalho, a forma como vários artistas prepararam as suas obras, que agora ficarão à vista de todos durante dois anos, até ao 50ª aniversário do 25 de Abril de 1974. Para além dos sobreviventes de 1974 e dos que foram convidados por João Pinharanda, que comissariou esta iniciativa, estão também os que foram designados pelo Interferências- Culturas Urbanas Emergentes, um projecto desenvolvido por Vhils, António Brito Guterres e Carla Cardoso. Pedro Cabrita Reis, um dos artistas presentes (na foto) pintou uma grade rasgada. E, por feliz acaso ditado pelo sorteio, logo por baixo, está a obra de Francisco Vidal, um dos talentos da nova geração de artistas, onde se lê “Still Free”. 


 


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UMA HISTÓRIA APAIXONANTE - Há livros que são difíceis de largar, uma vez iniciados. É o caso de “O Fim É O Princípio”, um thriller cuja ação se desenrola entre uma pequena cidade na costa da Califórnia, antigo paraíso com vista para o Oceano, agora em processo de gentrificação, com elevada procura e a correspondente especulação imobiliária. A história gira à volta de Duchess, uma jovem de treze anos que se autointitula «fora da lei», e Walk, chefe de esquadra da polícia de Cape Haven, um homem que se defronta com fantasmas do passado e que  nunca saíu da pequena cidade. Duchess diz que as regras são para os outros, e desde cedo se fez protetora feroz do irmão mais novo, Robin, e figura adulta na vida de Star, a sua mãe solteira, incapaz de cuidar de si própria ou de velar pelos interesses dos dois filhos.  Walk pelo seu lado faz tudo para proteger Duchess e Robin, mas vive dominado pela necessidade de sarar uma ferida antiga, a de ter sido o seu testemunho a enviar Vincent para a cadeia, o seu melhor amigo, condenado pelo homicídio da irmã de Star. Culpado ou inocente, volvidos trinta anos, Vincent sai da prisão uma vez cumprida a pena e é Walk quem o vai buscar e traz para Cape Haven. No regresso Vincent começa a reparar a casa dos seus pais, abandonada desde que foi preso e não lhe faltam ofertas milionárias para a vender a um construtor local e dono de um bar, que arrasta um caso com Star. The Guardian descreveu “O Fim É O Princípio” como «um romance notável e comovente acerca de um crime e da vingança, do amor e da redenção.». O britânico Chris Whitaker escreveu um épico americano com uma galeria de personagens, cenários e situações marcantes. O livro, o terceiro do autor, originalmente editado em 2020,  foi considerado o melhor thriller desse  ano pela Crime Writers Association e a Bertrand Editora acabou de o lançar no mercado português.


 


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GRANDES CANÇÕES - Os Wilco levam três décadas de vida e são um dos nomes incontornáveis da música norte-americana destas décadas. Jeff Tweedy, o fundador da banda, tem na country music uma das suas fontes de inspiração mas os Wilco não são propriamente conhecidos por esse género musical. Por isso mesmo o novo álbum, “Cruel Country”, um duplo com 21 canções, gravado ao vivo em estúdio, é duplamente interessante: faz um retrato duro da América e musicalmente inspira-se na country - desde a forma como as canções estão estruturadas até às letras. O disco está cheio de observações sobre a realidade à volta da banda, descrição de sensações e enigmas que ficam a pairar no ar, em momentos em que só existe a música e as palavras quase desaparecem. É verdade que a melhor música country sempre foi a que conta histórias, e “Cruel Country” é um exemplo disso mesmo: as canções seguem uma narrativa e fazem sentido. Tweedy aborda de tudo: a história recente, a política e Trump, a mortalidade e até a utilidade - ou futilidade - da arte na América do no século 21. As palavras não deixam lugar a dúvidas. Na canção que dá o nome ao álbum Tweedy canta assim “I love my country like a little boy/Red, white and blue,” para depois rematar:  “I love my country, stupid and cruel.”  Neste “Cruel Country” não faltam canções marcantes como “Falling Apart (Right Now)”, “Please Be Wrong” ou “A Lifetime To Find”. Para terminar sugiro que ouçam os quase oito minutos do tema “Many Worlds'' onde todo o talento musical dos Wilco e de Jeff Tweedy se evidenciam. Disponível nas plataformas de streaming.





PETISCO SINTRENSE - Por um daqueles acasos inesperados fui parar a Sintra, num jantar de amigos, ao restaurante Taberna Criativa. Fica no centro da vila, perto do Museu de Artes de Sintra. É pequeno e acolhedor e tem uma equipa que funciona bem - na cozinha e na sala, sob a supervisão do chef Vitor Rocha. São dele as criações que chegam à mesa. Comecemos portanto pelo couvert - que inclui uma manteiga batida com algas que é um caso sério, acompanhada por bom pão. Nas entradas destaco um escalope salteado de foie gras caseiro, que vem com um pão de ló de chá verde ou uma madalena de abóbora, e com um toque de uma emulsão de moscatel, numa boa combinação de sabores. Outra possibilidade em matéria de entradas é um escabeche de codorniz no ponto certo de tempero. Como pratos de substância a lista propõe um risotto de lavagante com algas e, para os carnívoros, um belo entrecôte, no ponto, acompanhado por batatinhas e grelos salteados - ou então um magret de pato com cenouras e legumes. A lista de vinhos é bastante diversificada e com propostas sensatas em vários escalões de preço - e algumas boas surpresas de pequenas produções. Não hesitem em pedir ao chef uma sugestão de vinho, ele sabe o que escolheu para as prateleiras do seu restaurante. Entre as várias sobremesas possíveis destaco uma bem portuguesa e simplicissima: queijo da ilha, de nove meses de cura, acompanhado por um belo doce de abóbora e pedaços de noz. O Taberna Criativa fica na avenida Heliodoro Salgado 26 e a reserva é aconselhável pelo 21 018 6147.





DIXIT - “O primeiro-ministro não dá ponto sem nó, mas como vamos lá chegar, não sei” - António Costa e Silva sobre a promessa de aumento de 20% dos salários feito pelo Primeiro Ministro





BACK TO BASICS - “Pode-se enganar algumas pessoas durante muito tempo, pode-se enganar toda a gente por algum tempo, mas não se consegue enganar toda a gente sempre” - Abraham Lincoln


 


 





junho 09, 2022

O GOVERNO DAS REIVINDICAÇÕES SALARIAIS

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COMO TORNAR REALIDADE UM DESEJO? - A semana começou com o Primeiro Ministro a apelar às empresas para que façam aumentos de salários, pedindo  “um acordo de médio prazo, no horizonte desta legislatura, sobre a perspectiva da evolução dos rendimentos.” António Costa estabeleceu um objectivo: aumentar o salário médio em 20% nos próximos quatro anos. O mais curioso disto é que este apelo não foi acompanhado por nenhuma indicação sobre uma reforma que permita às empresas considerar esses aumentos, nomeadamente uma redução da TSU e do IRC. Traduzindo: o Governo entende que as empresas devem aumentar salários, mas não deixou abertura para reduzir impostos e taxas. Ora como a matemática não é uma coisa mística, se os custos aumentam de um lado, têm que diminuir de outro. Na anterior legislatura, sob o diktat de Centeno, o Governo promoveu uma austeridade escondida, mas dura, e persistentemente atacou a classe média. Parece que agora o PS quer dar a ideia de que pretende tratar do assunto. O começo do caminho é relativamente simples: que propõe esta maioria absoluta para compensar o aumento dos salários? Que oferece o Governo às empresas que fizerem esses aumentos? Que pode também o Governo fazer para diminuir a carga fiscal, directa e indirecta, sobre os assalariados por conta de outrem? Há outras coisas fundamentais que podem aliviar custos às empresas - por exemplo uma reforma da justiça que permita que tudo ande mais rápido e com menor despesa. Se a maioria absoluta servisse para fazer reformas duradouras em vez de discursos sobre as questões fracturantes da moda tudo seria mais fácil. Estará Costa disposto a isso para conseguir os aumentos que diz desejar?


 


SEMANADA - Um estudo recente indica que ​​Portugal é dos países com um dos maiores níveis de incumprimento das regras orçamentais europeias desde que a Zona Euro foi criada; Cavaco Silva regressou às lides para ironizar com António Costa e arrasar Rui Rio; os motores a diesel já valem menos de 20% do total das vendas de novos carros; um estudo recente indica que o apoio europeu à competitividade das PME foi pouco ou nada eficaz; o funcionamento da Assembleia da República, incluindo subvenções aos partidos políticos e grupos parlamentares, custa 24 milhões de euros por ano; em 2020 foram produzidos 5,3 milhões de resíduos urbanos; cada português produz em média 1,4 kgs de lixo por dia, ou seja 513 kgs por ano; o salário médio dos trabalhadores por conta de outrem foi de 1237 euros em Março passado, com Lisboa a ter o valor mais alto, 1506 euros e Beja o mais baixo, 990 euros; o tempo de espera para aceder a uma junta médica chega a ser de dois anos; em 2021 a PSP reguistou 810 crimes cometidos por menores de 16 anos, uma subida significativa da criminalidade juvenil em relação a anos anteriores; a dívida publica portuguesa aumentou três mil milhões de euros em Abril e atingiu o seu maior valor de sempre, 279 mil milhões de euros; desde 2018 registaram-se 55 acidentes e 13 feridos graves com trotinetes em Lisboa; um estudo de uma empresa imobiliária divulgado esta semana indica que fazer obras de remodelação em Lisboa é mais caro que em Madrid ou Barcelona.


 


O ARCO DA VELHA - O Centro Universitário Hospitalar de Coimbra enganou-se na entrega à família de uma doente que tinha tido alta e levou para casa em Arganil, uma outra mulher. O erro foi detectado pelo marido que encontrou na cama uma mulher que não era a sua.


 


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DESENHOS DE SENSAÇÕES - Entra-se na sala da galeria e vemos rostos na parede - mas não são retratos. São emoções que Adriana Molder interpretou. As figuras na parede são mais que pessoas, são imagens de  estados de espírito, expressões. Em comum têm o facto de serem todos desenhos feitos a tinta da china sobre papel esquisso, com a leve transparência a servir de pano de fundo. E pelo meio grandes desenhos, eles próprios a mostrar a impressão dos rostos. Há um rosto de mulher sobre o qual se cruzam ramos de uma árvore, na parede em frente um retrato cheio de pormenores que sugerem um mundo de fantasia e, nas paredes laterais, uma série de 21 desenhos que são mais que retratos, antes mapas de sensações. A dar o título à exposição está um desenho circular com o rosto da própria autora: um espelho, portanto, que mostra Adriana Molder a contemplar as suas outras obras. “Espelho” é a exposição de desenho de Adriana Molder, com obras feitas de 2020 a 2022 e que até 3 de Setembro está na Galeria 111, Rua Dr. João Soares 5B, ao Campo Grande. Também de desenho é a outra exposição que destaco esta semana, “Wasteland”, de Rui Sanches, que agrupa um conjunto de 25 originais de 2016, a grafite, barra de óleo e tinta de esmalte sobre papel. Destes 25 desenhos foram feitas impressões a jacto de tinta e cada uma das 25 séries foi reunida numa caixa, com todas as provas numeradas e assinadas. Cada caixa inclui um desenho original, também numerado e assinado - todos os desenhos foram inspirados pelo poema “The Waste Land” de T.S. Eliot. Cada caixa é vendida por 2900 euros. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão 18B.


 


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UMA INTRODUÇÃO À LITERATURA DE VIAGEM - Bruce Chatwin é o autor de um livro que foi o meu passaporte de entrada na literatura de viagens - “Na Patagónia”. Chatwin morreu cedo, aos 48 anos, doze anos apenas depois de ter publicado o relato da sua descoberta da Patagónia. Publicou nove livros entre 1980 e a sua morte precoce. O penúltimo foi a colectânea “Anatomia da Errância - Textos Escolhidos”, originalmente editado em 1989 e agora lançado em Portugal na colecção Terra Incógnita, da Quetzal. É uma excelente introdução ao génio de Chatwin e uma boa maneira de descobrir os encantos da literatura de viagens. Chatwin era antropólogo, historiador de arte, jornalista e repórter, crítico literário, e escritor de viagens. “Anatomia da Errância” reúne os vários géneros que escrevia: ensaios, artigos de jornal, pequenos contos, relatos de viagem. O livro está dividido em quatro partes: “Horreur du domicile” ou a vontade de partir à descoberta, “Histórias” que são episódios ocorridos enquanto viajava, contados com humor e espírito observador, “A alternativa nómada” que fala da sua procura de destinos pouco conhecidos, “Crítica literária” que é o que o nome indica, com alguns exercícios livres, “A arte e o destruidor de imagens” , onde descreve uma galeria de personagens extravagantes e fala da decadência da arte ocidental - uma espécie de manifesto de estética pessoal. Este “Anatomia da Errância” é a minha melhor sugestão para este início da época de férias. Viajem se puderem mas leiam este livro primeiro. Ou então levem-no convosco nas vossas errâncias.


 


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O INESPERADO COUNTRY  - Angel Olsen é uma cantora norte-americana com um posicionamento invulgar - entre o rock independente e o country, com tonalidades pop. O resultado, ao longo da meia dúzia de discos que fez, é dos mais interessantes que hoje se podem encontrar. As suas canções são crónicas de vida, a voz é intensa mas solta, vai bem com uma interpretação sem brilharetes mas emotiva. “Big Time”, o seu sexto álbum de originais desde o disco de estreia, de 2012, é  um disco surpreendente, com emoções e descobertas. São dez canções, intimistas na maior parte, gravado no ano passado numa época conturbada da sua vida, depois da morte dos seus pais e de ter tido uma relação com outra mulher durante a pandemia. Embora o disco não fale de situações concretas, é impossível não perceber os sentimentos que canções como “Big Time” ou “Go Home” transmitem. Gravado na Califórnia, com o produtor Jonathan Wilson, o disco mostra como Olsen continua a fazer da voz o instrumento principal da sua música, bem mais marcante que a guitarra Gibson de 1979, que é a sua preferida. Olsen é uma personagem relevante da música americana - trabalhou com nomes como os Wilco, Tim Kinsella ou Leroy Bach. Ao contrário de discos anteriores, mais carregados de uma sonoridade rock, este “Big Time”  é  o mais claro dos seus trabalhos, onde melhor expõe os seus sentimentos e coloca em destaque as influências country, na voz e guitarra, que em outros discos se sentiam mas eram menos presentes. A derradeira canção “Chasing The Sun” tem um humor como raramente lhe sentimos - Olsen relata como mandou à sua companheira uma mensagem, de outra sala da casa, com estas palavras: “I’m just writing to say that I can’t find my clothes/If you’re looking for something to do.” Disponível nas plataformas de streaming.


 


HORA MARCADA - Uma das coisas mais irritantes que acontece em alguns restaurantes é forçarem um hora marcada para a saída dos clientes, uma duração máxima da refeição. O raciocínio é este: queremos que venham cá jantar e deixar o vosso dinheirinho, mas queremos que se vão embora rápido para pormos outras pessoas na mesa. Vem isto a propósito de uma recente ida ao Forno D’Oro, que descaradamente se apresenta como a melhor pizzaria de Lisboa. Não é - talvez em tempos tenha sido, mas agora é mais um local sem grande história. Não me interpretem mal - o seu dono e fundador, Tanka Sapkota, é uma pessoa simpática e afável que, ainda por cima, tem uma história engraçada. Nepalês, apaixonou-se pela gastronomia italiana, e veio para Portugal onde tem estado ligado a vários restaurantes, entre eles um italiano de referência, que é o Come Prima, e o excelente Casa Nepalesa. E perto do Forno D’Oro tem Il Mercato, que tem, digamos, uma vida irregular. Além de Tanka Sapkota ser uma pessoa simpática, o serviço nos seus restaurantes é igualmente simpático. O pior, no caso do Forno D’Oro é que quando se reserva leva-se logo o anúncio de que tem que sair até às tantas horas e a hora de entrada tem ela própria limites. E, importante, as pizzas já foram melhores, sobretudo na massa. Assim sendo mais vale ir a outra pizzaria onde estas manias não existam. Este fenómeno do horário é típico dos restaurantes que não trabalham para reter a clientela, mas para rodar comensais à máxima velocidade possível.Tanka Sapkota não está sózinho - esse paraíso da pretensão e montra de exibicionistas que é o JNcQuoi pratica a mesma filosofia e numa reserva telefónica estabelece duas horas como duração máxima do jantar. Tem a agravante de o acolhimento e o serviço serem menos simpáticos. Não dá vontade nenhuma ir a sítios destes.


 


DIXIT - “A maior debilidade da nossa vida colectiva reside na justiça. A maior ameaça contra a democracia é a fragilidade da justiça” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A criatividade exige a coragem de deixar as certezas de lado” - Erich Fromm


 





junho 03, 2022

O ESTADO COLECCIONADOR

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NUNCA É TARDE PARA CORRIGIR ERROS  - A decisão anunciada pelo Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, de denunciar o acordo relativo à Colecção Berardo ajuda a clarificar a situação existente, e permitirá que o Centro de Exposições do CCB retome o que era o seu percurso original, desta vez com um acervo sólido, baseado numa importante colecção que, é preciso reconhecê-lo, Joe Berardo criou antes de ser levado a meter-se nas aventuras pelo controlo do BCP, sugeridas por amigos de Sócrates durante o seu reinado. Deixo aqui esta nota para que se recorde que o PS não está isento de culpas na situação criada. Mas para além da decisão sobre a colecção Berardo, Adão e Silva decidiu também assumir a colecção Ellipse, lançada por João Rendeiro no Banco Privado Português, que aparentemente ficará também entregue no futuro à mesma equipa que tem feito um excelente trabalho em torno da colecção Berardo. Se nos recordarmos que o Governo, há uns anos, absorveu também a menos interessante colecção Miró, do Banco Português de Negócios, entretanto depositada em Serralves, constatamos que o Estado Português na última década absorveu três colecções de arte privadas e, portanto, assumiu a responsabilidade de assegurar a sua fruição pelos portugueses. Este somatório de património artístico cria deveres em relação aos equipamentos que as acolhem e devia fazer com que o Ministério da Cultura pensasse em questões como a sua circulação pelo país, e também a articulação com o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. De facto a boa decisão de Pedro Adão e Silva tem também alguns efeitos colaterais: não deveria ser esta a boa a altura para repensar se não será mais produtivo fomentar a colaboração entre Serralves e o CBB do que manter o acordo de conveniência e contra natura que pretende deixar o MAAT na dependência de Serralves? É nestas alturas, quando as situações se alteram, que vale a pena abrir janelas e deixar entrar ar fresco, sem preconceitos. Nunca é tarde para corrigir os erros.





SEMANADA - O observatório fiscal da União Europeia Identificou 819 imóveis detidos por portugueses no Dubai; em Portugal estão identificadas 8209 pessoas na situação de sem abrigo, a maior parte em Lisboa e no Porto; os crimes de tráfico de pessoas registados pelas polícias portuguesas duplicaram em 2021; segundo o INE os alojamentos turísticos nacionais receberam 2,4 milhões de hóspedes em abril, um aumento de 424,6% face ao mesmo mês de 2021; um relatório publicado esta semana indica que a TAP tem a pior comportamento ambiental entre as sete maiores companhias aéreas europeias; uma sondagem da Aximage divulgada na semana passada indica que mais de metade dos portugueses são contra o fim de uso das máscaras; o Covid-19 foi a quarta causa de morte em 2021, representando 5,9% do total de óbitos registados em Portugal nesse ano; segundo a Netsonda, 75%  portugueses sabem pouco sobre os ingredientes que consomem fora de casa; as autoridades detectaram em sete dias mais de 14.000 infrações de condução, das quais mais de 1100 por uso indevido do telemóvel durante a condução; o valor em contratos celebrados entre entidades estatais e empresas afundou mais de 40% no primeiro trimestre deste ano face a 2021;  o valor dos impostos cobrados de Janeiro a Abril é o mais alto dos últimos 10 anos e face a igual período do ano passado as receitas do fisco cresceram 19,8%.


 


PERGUNTA DA SEMANA  - A ciclovia da Almirante Reis foi sujeita a consulta pública antes de ser construída?


 


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UMA CIDADE DE ESCULTURAS - “Respiração Boca A Boca” é o título da exposição que Cristina Ataíde concebeu para o Museu Internacional de Escultura Contemporânea, de Santo Tirso, e que ali ficará patente até 18 de Setembro. A artista reuniu 58 peças, de várias fases da sua carreira, desde as suas primeiras esculturas em ferro e pedra dos anos 80, até às mais recentes onde a evocação da natureza e a utilização primária de materiais naturais foram ganhando peso. Várias peças de há alguns anos foram revisitadas e recriadas, cruzando-se com as mais recentes opções de Cristina Ataíde e com a permanente referência à descoberta e à viagem. Um dos momentos a reter é a obra criada para o longo corredor de 70 metros (na imagem) onde se combinam algumas das vertentes que têm marcado o trabalho recente da artista. A exposição inclui também alguns desenhos e pinturas, alguns inéditos, em diálogo com as esculturas. “Respiração Boca A Boca” mostra o singular percurso de Cristina Ataíde e merece uma visita atenta. É curiosa a história do envolvimento de Santo Tirso com a escultura: no início dos anos 90 o escultor Alberto Carneiro desafiou o Município  a criar um programa de actuação em torno da escultura contemporânea. Ao longo dos anos a autarquia foi adquirindo obras que agora estão implantadas por toda a cidade, num museu a céu aberto que já tem meia centena de esculturas. Mais tarde a autarquia decidiu construir um edifício destinado a alojar o Museu Internacional de Escultura Contemporânea, com um projecto de Álvaro Siza Vieira, concluído em 2015, e que desde então tem acolhido diversas exposições, como esta que agora Cristina Ataíde apresenta. 


 


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A VERDADE RUSSA - Nesta altura em que o comportamento dos dirigentes russos é causa de indignação vale a pena ler “Eclipse do Sol”, o livro que Arthur Koestler escreveu em 1940 e que mostra como o regime russo não hesita em matar e torturar, tradição que, como agora se comprova, se mantém. Originalmente publicado  em Portugal sob o título “O Zero E O Infinito” há cerca de 40 anos, este romance é pela primeira vez editado entre nós na sua versão integral, baseada em textos do autor encontrados em 2018. A tradução é da responsabilidade de Teresa Seruya e Sara Seruya, a partir dos manuscritos originais do autor. Arthur Koestler nasceu em Budapeste, na Hungria, em 1905, no seio de uma família judaica. Foi escritor, jornalista e ativista político, tendo passado pela Palestina, pela União Soviética e por Espanha, onde lutou na Guerra Civil. Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, radicou-se em Londres e cortou com o Partido Comunista após as purgas estalinistas. O romance, considerado por George Orwell um dos poucos livros que poderão mudar a História,  conta como durante as purgas estalinistas, Rubachov, um velho revolucionário, foi apanhado na confusão dos pseudo julgamentos de Moscovo dos finais dos anos 1930, em pleno estalinismo. Ele é preso e torturado pelo partido a que havia devotado a sua vida e submetido a enorme pressão para confessar crimes que não cometeu. “Eclipse Ao Sol” aborda as purgas estalinistas que marcaram a União Soviética nos anos de 1930 e  permite uma reflexão sobre a história de uma região do mundo que hoje, pelas piores razões, está na ordem do dia.


 


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JAZZ FORA DA CAIXA - O pianista Tigran Hamasyan tem-se dedicado a recriar,  com versões ousadas, as suas interpretações de standards do jazz. A formação base é um trio, que conta com a participação do baixista Matt Brewer e do baterista Justin Brown mas no seu novo disco, “StandArt”, convidou outros músicos como o trompetista Ambrose Akinmusire e os saxofonistas Joshua Redman e Mark Turner. Desde temas da Broadway até clássicos da fase bebop, Hamasyan percorre nove composições, que vão de clássicos do bebop, como “De-Dah” ou “Big Foot”, uma composição de Charlie Parker onde entra em cena o saxofone de Joshua Redman. Entre os temas estão também êxitos clássicos como “All the Things You Are” que tem a participação do saxofonista Mark Turner. Uma das reinterpretações mais radicais e surpreendentes é dada pela participação do trompetista Ambrose Akinmusire em “I Should Care”, um tema popularizado por Chet Baker. Uma das minha faixas preferidas, que é executada apenas pelo trio, é ‘I Didn’t Know What Time it Was’, um tema que ganha uma nova vida e mostra as capacidades de Tigran Hamasyan, utilizando influências da soul e do hip-hop uma composição clássica do jazz norte-americano. A capacidade de inovar, arriscar e surpreender é aquilo que torna este disco diferente e que proporciona que em cada nova audição se descubra mais alguma coisa. Disponível nas plataformas de streaming.


 


JÁ EXPERIMENTARAM FRITAR ALCAPARRAS? - Há uns anos comprei um livro do grande chef de cozinha catalão Ferran Adrià, criador do famoso restaurante El Bulli. O livro, The Family Meal, tem as receitas que eram utilizadas pelo pessoal do restaurante nas suas próprias refeições. Ali há de tudo e, frequentemente, quando não sei o que fazer, começo a folheá-lo e encontro sempre alguma coisa que me agrada. É o caso desta receita. Os ingredientes são simples: massa orecchiette, pasta de tomate, alcaparras, anchovas,  tomates cherry, queijo parmesão, azeite, sal, malaguetas e um pouco de manjericão. Comece por cozer a massa em água abundante, durante um pouco menos de tempo do que o indicado no pacote, e guarde um copo da água de cozedura. Escorra e reserve. E vamos ao fundamental, que é preparar o molho que vai envolver a massa. O primeiro passo é saltear em azeite duas colheres de sopa escorridas de alcaparras, antes bem secas em papel de cozinha. Coloque-as depois com um pouco de azeite no tacho onde vai cozinhar e, quando começarem a ficar estaladiças, tire-as, seque-as de novo em papel absorvente e reserve. Chegou a altura de deitar duas colheres de sopa de pasta de tomate e alho cortado em fatias finas - se não quiser usar alho, use gengibre fresco cortado de igual forma, que é o que eu faço. Por cima disto deite uns 300 gramas de tomate cherry cortado em metades e dois ou três filetes de anchova desfeitos com o garfo - guarde os restantes filetes da lata para colocar em tostas por cima de rodelas finas de pepino ou de rabanete e terá uma entrada bem boa. É nesta altura que pode deitar para o tacho um pouco de manjericão picado, duas malaguetas secas desfeitas e as alcaparras. Deixe tudo ferver uns quatro-cinco minutos, se preciso acrescente um pouco de água de cozer a massa que guardou  e, no fim, misture bem no molho os orecchiette que entretanto já estão cozidos e escorridos. Envolva bem a massa no molho, em lume brando, durante dois minutos, no fim polvilhe com parmesão e enfeite com folhas inteiras de manjericão. Bom apetite.


 


DIXIT - “Os fanáticos e os tolos estão cheios de certezas. Os sábios estão cheios de dúvidas” - Alexandre Quintanilha 


 


BACK TO BASICS - “Uma grande parte da intelligentsia parece completamente desprovida de inteligência” - G.K. Chesterton