novembro 12, 2021

MANUAL DE EXTINÇÃO DA DIVERSIDADE CRIATIVA - EDITADO POR SERRALVES

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UM MENOS UM - A decisão de integrar a programação artística da Fundação EDP (MAAT e da Central Tejo) na esfera da Fundação de Serralves é uma daquelas operações em que o resultado é inferior à soma das partes. Serralves é fruto de uma parceria organizada pelo Estado com empresas privadas do norte do país e a sua actividade conta com uma participação financeira regular e importante de fundos públicos. A Fundação EDP, por outro lado, é um dos raros casos de aposta de uma empresa privada numa obra de responsabilidade social, com diversas esferas de influência e acção, sendo uma delas no domínio da arte e da cultura. A importante intervenção cultural que a Fundação EDP tem mantido deve-se em muito ao perfil que lhe foi desenhado por António Mexia, enquanto dirigiu a EDP. Depois da sua saída cedo se começaram a ouvir vozes, na direcção da empresa, clamando por um foco maior na esfera de apoios sociais e menor na esfera cultural - como se a responsabilidade social das empresas não se devesse também fazer sentir no desenvolvimento do acesso a formas de criação artística. Tudo culminou agora com a entrega da direcção da programação do MAAT e Central Tejo a Serralves. Assim se diminui a diversidade de critérios, escolhas, programações e se reduz a importância que o MAAT tem tido e a sua repercussão positiva na marca EDP. A administração de Serralves regozijou-se com o facto e os actuais dirigentes da EDP mostraram-se conformados, senão mesmo aliviados. Vem a propósito recordar que Ana Pinho liderava já a Administração de Serralves no incidente ocorrido em 2018 com a exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe e que levou à demissão do então director do Museu, João Ribas, por não concordar com a forma como a administração condicionou a montagem da exposição, chegando inclusivamente a preconizar que algumas das obras não fossem incluídas. Estamos pois perante a junção de uma Fundação fortemente participada pelo Estado, e que tem no currículo recente um incidente censório, com uma Fundação privada que tem sido um território de grande liberdade criativa. Ora isto não é uma boa notícia. O melhor resumo da situação criada veio de João Fernandes, que dirigiu Serralves entre 2003 e 2012 e que, do Brasil, onde dirige o Instituto Moreira Sales, rompeu o seu silêncio sobre a instituição a que esteve ligado, afirmando ao “Público” : “Sendo tão poucas as instituições de arte em Portugal, preferiria também aqui a diversidade, por contraponto à concentração de responsabilidades e de poderes de programação”.





SEMANADA - O Governo quer autorizar a plantação de mais 37 mil hectares de eucaliptos em 126 concelhos, contrariando compromissos anteriores; Portugal é o país com mais área plantada de eucaliptos na Europa e o quinto a nível mundial; se o plano for para a frente Portugal terá 10% da superfície de Portugal continental plantada com eucaliptos; as autoridades reconhecem que não é possível saber se a legislação sobre os prazos máximos de resposta do Serviço Nacional de Saúde estão a ser cumprdios nos hospitais públicos, nomeadamente a realização de meios auxiliares de diagnóstico; no ano passado apenas um terço das crianças em condições de serem adoptadas ganharam uma nova família e muitas já passaram mais de seis anos nos lares;  nos últimos cinco anos foram feitas 300 queixas sobre a qualidade das refeições escolares; segundo a Marktest, os resultados de 2021 do estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais” revelam que um em cada cinco utilizadores abandonou alguma rede social no último ano e que o Facebook foi a mais mencionada; Rui Rio deve estar à procura do tempo perdido:  anunciou que, até às Directas do PSD, se vai dedicar exclusivamente a acções políticas de oposição ao PS”, coisa que não fez ao longo dos últimos anos; soube-se que no caso Rendeiro a Justiça andou a investigar as viagens de um João Rendeiro que não tinha nada a ver com o ex-banqueiro.


 


O ARCO DA VELHA - Seis meses de uma operação exemplar de vacinação e não se aprendeu nada? Saíu a equipa liderada pelo vice-almirante Gouveia e Melo,  o caos voltou e a incerteza instalou-se de novo.


 


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IMAGENS NÓMADAS - No Museu Municipal de Faro Pauliana Valente Pimentel apresenta as suas fotografias de uma comunidade cigana sob o título “Faro-Oeste” (na imagem). O trabalho de Pauliana Valente Pimentel foi efectuado ao longo de um ano, em 2019, com algumas famílias ciganas na zona de Castro Marim e Vila Real de Santo António, nos acampamentos Cerro do Bruxo, Horta da Areia, Alto do Relógio e Monte João Preto.  A fotógrafa foi movida pelo seu interesse em mostrar a forma como as famílias ciganas preservaram as suas tradições, mantendo-se num registo nómada. O trabalho pretende, nas palavras da autora, “mostrar o dia a dia destas famílias, dando ênfase às suas tradições, com o intuito de combater preconceitos e estereótipos racistas e xenófobos de que são constantemente alvos”.  “Faro-Oeste” é um bom exemplo da forma de trabalhar de Pauliana Valente Pimentel, entrando dentro dos temas que aborda, criando uma narrativa através de imagens, na realidade um ensaio fotográfico que consegue simultaneamente documentar a realidade e interpretá-la com o seu olhar pessoal. A exposição está inserida na programação do Verão Azul, Festival Transdisciplinar de Artes Contemporâneas, que vai na sua décima edição e estará patente até 19 de Dezembro.


 


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ONDE ESTÁ O LÍDER? - Prometo que não vou falar da situação de nenhum partido político. O tema é outro e tem a ver com o que se passa nas empresas. A pandemia provocou a alteração de hábitos, a mudança de rotinas e de ferramentas de trabalho. A importância de uma liderança eficaz nas empresas tornou-se cada vez maior. A pandemia desestabilizou equipas criou receios, colocou desafios. Neste contexto a capacidade de liderança é cada vez mais importante  não só para mobilizar os colaboradores, mas sobretudo para tornar as empresas mais fortes e eficazes.  “Onde Está O Líder” é um livro que evoca o período antes da pandemia e vai até ao tempo presente, passando por temas como a cultura de empresa, a gestão de talento, o recrutamento e, claro, a liderança. E, no pós-pandemia, aborda o regresso aos locais de trabalho, a vida no mundo digital e dos dados  ou a resiliência. Luis Cervantes, Presidente da Caravela Seguros, que prefacia o livro, diz que ele se insere “na categoria que classifica de “manual de cabeceira”, ou seja, sublinha, “o companheiro que está sempre à mão e a que recorremos frequentemente quando somos defrontados com desafios difíceis”. Mesmo no final do livro a autora, Dalila Pinto de Almeida, deixa um alerta: “A época em que vivemos exige de um líder o que sempre exigiu: que saiba conduzir as pessoas até ao ponto que só ele ainda viu, através de um caminho desenhado por todos, mesmo se depois alguns escolhem atalhos para lá chegar”. Aqui chegado devo fazer  uma declaração de interesse: a minha proximidade com a autora levou-me a conhecer todo o livro antes de ele ser editado. Mas o que aqui deixei escrito não é um favorecimento, é uma apreciação genuína.


 


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O FADISTA - “Aves Agoirentas” é um fado de David Mourão Ferreira e Alain Oulman gravado por Amália para o histórico álbum “Busto”, um dos mais importantes e surpreendentes da sua carreira - e que em breve vai ter nova edição. Nunca tinha ouvido “Aves Agoirentas” por outra voz - ainda por cima por uma voz de homem. É como se, sendo o mesmo fado, fosse outro, com um sentido de respeito e homenagem a Amália. Este novo álbum “Horas Vazias”, de Camané, é um reforço da sua crença no Fado. Por isso gravou o “Fado Rosa” de João David Rosa com um poema de Sebastião Cerqueira, “As Vezes Há Um Silêncio” de Jaime Santos,  “Amar Não Custa”, também com um poema de Sebastião Cerqueira; e destaco o  atrevimento mostrado na abordagem de “As Ilhas Afortunadas” de Fernando Pessoa, aqui dedicado a José Pracana. Camané é um fadista de palavras - sabe-as sentir e cantar como mais nenhum da sua geração - é esse talvez o maior testemunho que guardou do seu trabalho com José Mário Branco, que produziu todos os seus discos até ter morrido. Para produzir este novo álbum, Camané foi buscar um homem do jazz, Pedro Moreira que trabalhou com habituais parceiros de Camané: José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola de fado e Carlos Bica no contrabaixo, que tiveram a companhia ocasional do saxofone de Ricardo Toscano, o acordeão de João Barradas e um sexteto de cordas. José Mário Branco continua no entanto presente, com uma música que fez para o poema  inédito de Amália Rodrigues “Tenho Dois Corações”. Além dos nomes já referidos há outros nestes 16 temas, como Amélia Muge, Maria do Rosário Pedreira, João Monge, Jorge Palma,  Sérgio Godinho, Vitorino Salomé e Pedro Abrunhosa - a quem coube o primeiro tema do álbum, “Que Flor Se Abre No Peito”, onde Camané mostra logo tudo o que o torna único.


 


A MORCELA - Ora bem, hoje vou escrever sobre comida de conforto, alimentos que nos façam aquecer o corpo e a alma. Registo com agrado que recomeçou a época do cozido à portuguesa. Por mais paradoxal que pareça, uma das coisas de que mais gosto no cozido não tem a ver com carne. Para eventual espanto de alguns defendo a essência vegetariana do cozido à portuguesa: a cabeça de nabo, as cenouras, a couve, um arrozinho aprimorado dentro da tradicional bola de cozedura que mergulha no panelão e ganha o sabor das carnes, sabor que se estende ao molho que há-de regar os legumes. No cozido, em matéria carnívora, sou um morceleiro. Sem boa morcela o cozido não é a mesma coisa e um pedaço de toucinho rico também acompanha a preceito. Uma boa amiga que festeja sempre o aniversário com um belo cozido faz questão lembrar a assistência que há reforço de morcela em minha honra - por uma vez há mais morcela que farinheira, digo eu sorrindo para dentro. Ainda tenho na memória o sabor de infância da morcela fresca, larga, cortada sem ser muito grossa, em cima de uma fatia de bom pão alentejano. Para mim era um lanche, sentado nas escadas de granito dos meus avós. Não é fácil arranjar boa morcela, mas naqueles aniversários ela é sempre de boa qualidade e a que mais me lembra a minha infância.


 


DIXIT - “É este o grande princípio das democracias liberais: limitar o poder político de modo a garantir que ninguém, seja por via do Estado ou das grandes empresas, controle ou condicione a vida dos cidadãos” - André Abrantes Amaral


 


BACK TO BASICS - “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada” -  Otto von Bismark


 








novembro 05, 2021

QUEREMOS UMA POLÍTICA DA ESCURIDÃO?

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A PRESSA É MÁ CONSELHEIRA - Pedro Nuno Santos tem uma vantagem: diz ao que vem, sem rodeios. Não cria suspense. Ora leiam o que afirmou esta semana: “o entendimento à esquerda não foi um parênteses na história da democracia portuguesa e a direita tem de se habituar a isso”. O discurso é apelativo aos militantes do PS que gostariam de estar no Bloco de Esquerda, mas preocupante para os que acreditam no ideário social-democrata puro da fundação do PS. Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, alertou: “dentro do PS, há uma atração que eu diria às vezes mesmo uma atração fatal, um certo fascínio por fazer do PS uma espécie de ‘BE 2.0’ e esse não é o meu Partido Socialista e não é o de muitos milhares de militantes e muitos milhares de homens e mulheres que fazem o PS”. E deixou um aviso: o PS não pode abandonar o centro político sob pena de abandonar uma parte importante do eleitorado. Assim sendo, entre o que Pedro Nuno Santos diz e o que Adalberto Campos Fernandes defende, surge a certeza de que também no PS, como no CDS e PSD, existe uma clivagem em questões fundamentais - não só de alianças, mas de todo um programa político. Numa situação assim as propostas sobre as quais o eleitorado é chamado a pronunciar-se têm de ser claras. Esta semana foi conhecida uma carta aberta de um grupo de cidadãos que apela a que não surjam precipitações e que se proporcione condições para que próximas eleições possam resultar numa clarificação e não numa nova confusão: “Está em causa o respeito integral pela igualdade de oportunidades e imparcialidade no tratamento de candidaturas expressamente garantidas pela Lei dos Partidos Políticos. Trata-se de um valor político-constitucional inafastável, que não podendo prevalecer em exclusivo, deve fazer parte da equação decisória. Havendo vários partidos com processos eleitorais internos, regulares, obrigatórios e previamente iniciados, a resposta democrática não pode ser exigir-lhes que prescindam da democracia interna.” E sublinham: “A preparação dos programas e escolha dos candidatos, os vários debates e a campanha devem decorrer em tempo rápido mas razoável, sem precipitações que sempre frustrariam os objectivos de esclarecimento dos eleitores e de superação dos impasses políticos”. Ao ler esta oportuna carta aberta lembrei-me desta velha citação: “O dever daqueles que são eleitos é defender o povo face ao Estado e não impôr o que o Estado decide ao povo.”. A pressa é má conselheira.





SEMANADA - Portugal aproveitou apenas metade dos fundos da União Europeia para apoio a refugiados e as organizações que trabalham no terreno queixam-se de um processo com muitas falhas e de falta de transparência na forma como o dinheiro tem sido gerido; o Plano de Recuperação de Aprendizagens lançado pelo Governo para apoiar a escola pública tem o cumprimento das metas em dúvida devido à falta de professores, de computadores, de redes wi-fi funcionais e até de falta de tomadas eléctricas em muitas salas de aula; o trabalho extraordinário  realizado por profissionais do Serviço Nacional de Saúde entre Janeiro e Setembro deste ano já atingia cerca de 17 milhões de horas, mais 36% do que em igual período do ano passado; a pandemia pode ter deixado sem diagnóstico 4400 casos de cancro; o endurecimento de penas e a simplificação de processos não estão entre as cinco medidas mais urgentes preconizadas pelo Observatório de Economia e Gestão da Fraude num livro recentemente publicado; uma reportagem da SIC mostrou que além de Eduardo Cabrita, também os carros oficiais de Pedro Nuno dos Santos, Matos Fernandes e João Galamba foram apanhados em excesso de velocidade; José Manuel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária portuguesa, afirmou que os carros do Estado não devem infringir as normas, até por uma questão de exemplo; 400 jactos privados transportaram participantes na cimeira do clima na Escócia; o Ministério da Economia divulgou uma avaliação onde se verifica que o impacto económico da web summit ficou aquém do esperado em termos de receita fiscal, no valor acrescentado bruto e na criação de emprego; segundo o Eurostat, em 2020 Portugal foi o 4.º maior produtor e o 2.º maior exportador de abóboras da Europa.


 


O ARCO DA VELHA - A GNR tem estado a investigar papel higiénico e fragmentos biológicos com o objectivo de tentar provar que Nuno Santos, a vítima mortal do carro que transportava o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita,  no dia 18 de Junho na A6, não estaria a trabalhar quando foi atropelado. 


 


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OS COLECCIONADORES  - No Centro Cultural de Cascais, pode ser vista uma exposição montada a partir da Colecção Norlinda e José Lima, iniciada há mais de 40 anos pelas mãos do empresário português da indústria do calçado José Lima,  uma das mais significativas e abrangentes coleções de arte privada do país, e que está baseada no vinda do Centro de Arte Oliva, de S. João da Madeira. Formada por aproximadamente 1300 obras de cerca de 480 artistas de todo o mundo, a mostra "Entre as Palavras e os Silêncios” reúne 104 obras dessa colecção, entre pinturas, desenhos, fotografias, esculturas e instalações, realizadas por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, portugueses e estrangeiros, muitas delas nunca antes mostradas em Cascais ou Lisboa, com curadoria de Luisa Soares de Oliveira e Andreia Guimarães. Ali podem ser vistos trabalhos de Paula Rego, Andy Warhol, Julião Sarmento, Rui Chafes, Cindy Sherman, Júlio Pomar, Damien Hirst e Victor Vasarely, entre tantos outros. Esta fotografia da exposição é de Valter Vinagre. A ver até 6 de Fevereiro de 2022. Vem a propósito dizer que nos últimos tempos tem sido frequente a apresentação pública de colecções de arte privadas. O próprio Primeiro Ministro tem assinalado o 5 de Outubro para abrir as portas da sua residência oficial e aí mostrar obras de colecções particulares. Até ao mês passado estava a de Fernando Figueiredo Ribeiro e agora estão 41 peças da colecção de Ana Cristina e António Albertino, dois coleccionadores de Coimbra. Até bem recentemente esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga a “Colecção Utópica”, com peças do Museu do Caramulo, desde o primeiro Picasso que se expôs em Portugal, até obras de Amadeo-Souza Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva. E  no Museu Arpad Szenes / Vieira da Silva, que já em 2018 apresentou a colecção de António Pinto da Fonseca, estão  agora obras de Arpad e Vieira da Silva da colecção da Fundação Ilídio de Pinho. Em janeiro, no Museu do Chiado será mostrada a colecção de Mário Teixeira da Silva (galeria Módulo) . 


 


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CONTRIBUTOS PARA A COMPREENSÃO DA VIDA -  “Um Caminho no Mundo” é a 11ª novela de V.S. Naipaul, editada originalmente em 1994, muito antes de o autor ter recebido o Nobel da Literatura em 2001. O livro, agora com uma edição portuguesa, ultrapassa os limites daquilo que se pode esperar de uma obra de ficção. A história é composta por nove narrativas ligadas entre si e complementares, algumas de natureza mais pessoal, outras mais históricas e outras mais ficcionais. O conteúdo é épico e integra personagens como Cristóvão Colombo, Sir Walter Raleigh, Simon Bolívar e o revolucionário venezuelano Francisco Miranda. A obra começa nas Caraíbas dos tempos modernos, nos anos de 1940, e acaba num país da África Oriental. É na terra natal de Naipaul, Trindade e Tobago, mais especificamente em Port of Spain, a cidade onde viveu na juventude, que a história se inicia - tinha ele 17 anos, acabado de sair do ensino secundário, ocupando os meses de Verão com um trabalho administrativo, como escrivão nos Arquivos de Estado, até que aos 18 anos vai para Inglaterra, estudar literatura em Oxford.  Naipaul interroga-se sobre a sua própria vida, o caminho que percorreu até se tornar escritor, como se transformou de um tímido e inexperiente jovem de uma colónia distante numa voz do exílio que alcançou a fama. O livro conta a história de Blair, um funcionário público local competente, sistematicamente ultrapassado por quadros brancos vindos de Londres. Percebe-se a radicalização política na ilha e a desilusão de Blair que sai da sua terra e se transforma num reputado conselheiro financeiro que auxilia governos do terceiro mundo. Numa dessas missões, num corrupto país da África, Blair é assassinado por ordem de altos funcionários do governo envolvidos no contrabando, de marfim a ouro, que ele se preparava para denunciar. Esta é considerada uma das grandes obras de Naipaul, “uma viagem pelo mistério dos destinos humanos e uma observação de como a História molda a personalidade e esta molda a História”. Edição Quetzal, traduzida por Maria João Lourenço.


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O TROMPETE MÁGICO - O trompetista italiano Enrico Rava, actualmente com 82 anos, é uma das principais figuras do jazz europeu e tem desempenhado um importante papel na formação de jovens músicos no seu país.  O seu mais recente disco é uma gravação ao vivo, realizada no Middelheim Festival, de Antuérpia, há dois anos. Reza a história que Rava começou por tocar trombone mas, depois de ter ouvido Miles Davis, entregou-se ao trompete. Ao todo tem meia centena de discos e desde 2004 tem editado com a ECM. Como se pode ouvir neste “Edizione Speciale” ele fala com  o trompete ao longo dos seis temas que preenchem esta hora de gravação. Aqui ele é acompanhado por um grupo de jovens músicos que como ele se entregam à improvisação, deixando espaço para o trompete, mas respondendo sem receio aos desafios melódicos que Rava vai lançando: Francesco Bearzatti no sax tenor,  Giovanni Guidi no piano, Francesco Diodati na guitarra, Gabriele Evangelista no baixo e Enrico Morello na bateria. Os temas do disco incluem versões de trabalhos anteriores de Rava desde uma versão de uma gravação de 1978, até “Wild Dance” de 2015, passando por “The Fearless Five” de 1978,  ou a evocação de uma melodia italiana, “Le Solite Cose”, que evolui para um arrebatador “iva”. Registo também uma versão de “Once Upon A Summertime” de Michel Legrand e outra do clássico cubano  “Quizás, Quizás, Quizás”. Um dos temas mais fascinantes do disco é logo o de abertura, “Infant” onde os músicos deste sexteto mostram logo todo o seu potencial. 





DIXIT - “Não se vai para eleições nacionais a fugir de eleições partidárias. Ninguém vota em dois cobardes para tomar conta de um país” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - São muito raras as pessoas que ouvem aquilo que não querem ouvir - Dick Cavett


 


 








outubro 29, 2021

O INEVITÁVEL DIVÓRCIO?

 


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O DIVÓRCIO - Quando, algures em Fevereiro, se conhecerem os resultados das eleições antecipadas, se elas ocorrerem,  será bom compararmos o que agora foi dito por dirigentes do PS com a realidade que surgir. António Costa, no Parlamento, manifestou-se convicto de que poderia ter uma maioria “reforçada, estável e duradoura”. Pouco depois, na TVI, Augusto Santos Silva manifestou-se confiante na possibilidade de, após eleições, voltar à geringonça, em nova aliança com o PAN, Bloco de Esquerda e o PCP. É sempre útil saber o resultado real das profecias dos políticos. O casamento de onde nasceu a geringonça desfez-se ao fim de meia dúzia de anos, como acontece em muitos outros matrimónios. Por acaso este casamento não foi por amor, foi por conveniência. O interesse desfez-se quando o ciúme nasceu, acirrado pelos resultados das autárquicas. Aí, Bloco e PCP  perceberam a extensão da sua falta de relevância no eleitorado, apagados pelo protagonismo de Costa e do PS no palco da política nacional. O PS canibalizou os partidos à sua esquerda, funcionou como um parasita que deles se alimentou até os esvaziar. Com a votação de quarta-feira o PCP espera ter adiado um problema, já o Bloco provavelmente cavou um precipício. Que acontece se o PS, como nas autárquicas, for nas legislativas o partido mais votado, mas tiver perdido votos? E se o Bloco continuar a perder eleitorado? E se o PCP não subir? O mais natural é criar-se um impasse e uma situação de ingovernabilidade. Se agora não houve orçamento, mais difícil irá ser aprovar à esquerda um orçamento depois das feridas abertas em todo este processo. E depois? Novas eleições? 2022 arrisca-se a ser um ano perdido. A menos que seja dada ao PS a possibilidade de apresentar novo Orçamento. Será possível salvar o casamento? Cabe a Marcelo ser o conselheiro matrimonial…


 


SEMANADA - Segundo a Ordem dos Médicos existem 1600 médicos recém-licenciados fora do SNS; ainda segundo a Ordem dos Médicos dos 59 mil profissionais nela inscritos, só cerca de 31 mil estão no SNS; em Junho de 2021 havia 1.156.000 portugueses sem médico de família e este número tem vindo a subir desde há vários anos por falta de médicos no sistema; um estudo da Universidade do Porto indica que durante a pandemia 22% das trabalhadoras da limpeza sofreram ataques de pânico relacionados com o medo de contágio e falta de equipamentos de protecção eficazes; o director nacional da PSP alertou para um aumento da intensidade da violência com que os crimes são cometidos, com recurso frequente a armas brancas; o Conselho das Finanças Públicas considera que o Orçamento para 2022 apresentado pelo Governo gera “pressões na despesa” que vão durar anos; Portugal está na 117ª posição entre os 193 países da ONU no Índice Global da Criminalidade Organizada, e o relatório sublinha  que o país é ponto de trânsito e destino de tráfico de seres humanos,  de tráfico de armas para África e um país de trânsito e destino no tráfico de cocaína; segundo o mesmo índice o combate à corrupção é considerado o ponto mais fraco do Estado português; o Tribunal de Contas divulgou que Portugal levou sete anos para conseguir executar apenas 60% do programa PT2020, o que leva a instituição a manifestar preocupação pela execução dos 60 mil milhões do PRR; José Maria Ricciardi anunciou querer criar um banco para regenerar o nome da família Espírito Santo; 


 


O ARCO DA VELHA - Nenhum dos altos responsáveis militares teve coragem para assumir a responsabilidade pela proibição de cânticos nas cerimónias do Dia do Exército, nomeadamente do hino “Pátria Mãe”, dos paraquedistas, situação que motivou protestos e levou a que o Ministro da Defesa fosse vaiado.


 


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O BARCO E O RIO -  Vila Nova da Barquinha, a pouco mais de 100 kms de Lisboa, tem vindo a acolher esculturas num parque que cresce ao longo da margem do rio Tejo. A sua colecção tem obras de José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis,  Alberto Carneiro, Rui Chafes, Ângela Ferreira, Fernanda Fragateiro, José Pedro Croft, Zulmiro de Carvalho, Xana, Joana Vasconcelos e Cristina Ataíde. Criado em 2012 o Parque de Escultura Contemporânea de Almourol, é um exemplo raro em Portugal no campo da arte pública.  Perto deste local existe a Galeria do Parque, que acolhe exposições temporárias. Ali está agora, e até finais de Fevereiro próximo, “A Memória da Água”, de Cristina Ataíde, em íntima ligação com a obra que a artista tem no Parque das Esculturas, uma peça ligada à água e que que recuperou a forma da merujona, um instrumento de pesca local, tradicional. Na Galeria , Cristina Ataíde retoma o tema da água. No texto da exposição o curador, João Pinharanda, sublinha que Cristina Ataíde  cultiva “uma relação íntima com a memória das matérias primeiras: a água, mas também a terra, o ar, o fogo, a madeira, os metais… o sangue, as pedras, as estrelas, a palavra”. A peça dominante (na imagem) é um barco incompleto, o esqueleto de uma canoa, suspenso do tecto, que tem por fundo um vídeo do Rio Negro, no Brasil, onde a artista fez uma residência em 2020. Ali estão também pedaços da margem do rio, guaches, varas de remar dos barqueiros do Tejo e remos de bateira, tudo com intervenção de Cristina Ataíde, nomeadamente utilizando um dos seus materiais recorrentes, a grafite. Vale a pena ir a Vila Nova da Barquinha, descobrir o Parque e a sua galeria. Termino com a sugestão de uma visita, em Lisboa, à Sociedade Nacional de Belas Artes, onde decorre até dia 31 a quarta edição da Drawing Room, uma iniciativa dedicada a obras de desenho em papel e que agrupa o trabalho de numerosos artistas portugueses e estrangeiros apresentados por mais de duas dezenas de galerias de Portugal, Espanha e, na edição deste ano, Alemanha.


 


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VIAGENS QUEIROSIANAS - Um livro de viagens assinado por Eça de Queiroz? Pois ele agora existe, chama-se “Outras Paragens - Uma Pequena Antologia". Estranho? O editor do livro, Francisco José Viegas, esclarece no prefácio desta primeira edição que toda a obra de Eça de Queiroz “está marcada pela omnipresença da viagem”. E sublinha: “As suas personagens viajam, no presente ou no passado; o autor viaja; as histórias dos seus romances, de “Os Maias “ e “A Capital” até às páginas fatais de “A Cidade e as Serras", estão atravessadas por viagens e evocações de viagens - de Oliveira de Azeméis e Ovar para Lisboa, de Lisboa para Sintra, de Lisboa para Paris e no sentido inverso, atravessando a Europa, lembrando os vapores, os caminhos de ferro, as estalagens, as partidas mais que as chegadas, os boulevards de Paris e os jardins de Londres”. Até aqui, na história da literatura portuguesa de viagens, o nome de Eça aparecia sobretudo devido a “O Egipto. Notas de Viagem” - apontamentos durante a inauguração do canal de Suez ou através das notas e correspondências que escreveu para a imprensa acerca de Paris, da China e do Japão, de Londres ou do Egito. “Outras Paragens. Uma Pequena Antologia” é o primeiro livro que reúne num só volume alguns dos melhores escritos de viagem e sobre viagem de Eça de Queiroz, Dividido nas áreas de “Ficção” e “Jornalismo, Crónicas e Correspondência” (para mim o capítulo mais interessante), o livro inclui 18 textos de Eça de Queiroz, sendo o último dedicado a Lisboa. E é de lá esta frase, que me deixou a pensar como podia ter sido escrita agora: “Lisboa nem cria, nem inicia; vai”. Terá que ser sempre assim?


 


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UMA SURPRESA AMERICANA  - Pela segunda vez neste ano Lana Del Rey lança um álbum. Depois de "Chemtrails Over The Country Club” surge agora “Blue Banisters” - bem diferente não só do antecessor, mas também dos seus outros discos. Claro que a voz de Lana Del Rey é por si só uma marca inconfundível. Mas neste “Blue Banisters” ela simplifica a forma como apresenta as suas canções e reforça a reputação como compositora. As baladas em que piano e voz fazem a despesa da festa, como a comovente “Arcadia” ou a intensa “Wildflower, Wildfire”, surpreendem pela simplicidade e emoção que transmitem. Numa década de carreira este é o oitavo disco de originais e agora, aos 36 anos, Lana Del Rey desligou-se das redes sociais e recolheu-se longe do bulício de Los Angeles. A capa mostra isso mesmo - ela está sentada fora de paisagens urbanas,  entre os seus dois pastores alemães. E quando começamos a ouvir o disco percebemos que este álbum tem uma tranquilidade inesperada. “Black Bathing Suit” é uma canção invulgar, diferente em tudo do que ela fez antes - até na utilização da sua voz e na intimidade das palavras que usa. Este é um dos grandes momentos do disco, onde ela canta o sentido de fatalismo da solidão e da saturação sobre a forma como tem vivido. Muito mais centrado no relato do presente do que na evocação do passado, a que recorreu em  discos anteriores, Lana Del Rey fez como uma interrupção na sua carreira, tomou um desvio, saíu da cidade e foi pelo campo dentro. “Sweet Carolina”, a última das 15 canções do disco, é como um abraço, daqueles que se dá a um local familiar onde apetece estar.


 


OUTONO RIMA COM CASTANHAS - Uma das provas da existência do outono é sentir o cheiro tentador da castanha assada a invadir as ruas, como já começou a acontecer. Esta semana já me deliciei,  em casa de amigos, com um repasto outonal de borrego, batatas novas, cebolinhas e castanhas. Feito como uma tagine, cozinha lenta, para prazeres prolongados. Magnífico. Mas adiante: deixo aqui uma sugestão de viagem para os mais afoitos. Até 7 de Novembro decorre em Bragança a Semana Gastronómica da caça, pesca e castanha. 18 restaurantes da cidade participam nesta iniciativa em torno dos sabores de Outono. Pratos à base de caça, pesca e castanha vão estar a mostrar o que se pode fazer com estes ingredientes. Recordo que Bragança é o maior produtor nacional de castanha, com um impacto económico na região na ordem dos 100 milhões de euros, razão mais que suficiente para o produto ser promovido.  Há muita oferta nos menus dos restaurantes aderentes, como sopa de castanhas e cogumelos, caçarola de grão e castanha com pernil fumado, javali no pote com castanhas, truta do rio com castanhas, amêndoas e presunto e, para rematar, doces como compota de castanha com queijo, tarte ou mousse de castanha. Se pesquisarem no site do Turismo de Bragança encontrarão a lista dos restaurantes e respectivos menus. Boa viagem  - ou boas experiências se ficarem em casa a tentar alguma destas receitas.


 


DIXIT - A “geringonça” desengonçou-se. Há que remover democraticamente a sucata - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “Se os computadores se tornarem demasiado poderosos e perigosos podemos organizá-los num comité, o que levará à sua paralisação” - autor desconhecido.


 








outubro 22, 2021

NÃS SE DEVE GASTAR O QUE NÃO SE TEM

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A CRISE - Pierre Moscovici, ex-comissário europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros, deu uma entrevista ao Jornal de Negócios, publicada quarta-feira passada, onde defende a necessidade de cortar despesa e baixar a dívida pública, recorda que pagar a dívida pública não deve ser feito à custa do investimento, sublinha que é necessário estar atento às finanças públicas, as quais devem ter regras. Lembra ainda que não basta ter políticas orçamentais e monetárias e que é fundamental fazer mudanças estruturais, investir na indústria e aumentar a capacidade de produzir. Pois bem, é neste cenário que o Governo apresenta um Orçamento de Estado que não estimula as empresas, ao mesmo tempo que se prepara para fazer cedências, em nome da estabilidade, às exigências do PCP e do Bloco de Esquerda em matérias como a Lei Laboral e outras com consequências directas no funcionamento da economia. A ameaça de crise política que estamos a viver deve-se a um dado simples: aumentou-se a despesa de forma enorme à custa da carga fiscal e não se estimulou o aumento da criação de riqueza através do desenvolvimento da economia e da capacidade de produção. Assim continuaremos a ter números assustadores nos indicadores de pobreza, continuaremos a perder competitividade e consolidaremos a triste posição que nos está a colocar na cauda da Europa. O legado do Governo da geringonça, até agora, é este. O Presidente da República, que quer a todo o custo evitar uma crise política, bem que podia, pelo menos para ser lembrado por alguma coisa além dos seus sorrisos e consensos, ser o promotor da reforma da Lei Eleitoral que permita eleições mais participadas, onde se crie maior proximidade com os eleitores através da criação, constitucionalmente prevista, de círculos uninominais e a com a criação de um círculo nacional de compensação que recupere os votos desperdiçados e garanta efectivamente a proporcionalidade eleitoral. Se não vamos ter eleições antecipadas, ao menos que se aproveite este tempo para melhorar o sistema político. 


 


SEMANADA - Depois de ter sido detectado que os dados da contratação pública disponíveis no Portal Base violam o RGPD a sua consulta foi suspensa até pelo menos a segunda semana de Dezembro; Ricardo Salgado passou um recibo verde de 8,5 milhões de euros como rendimento de trabalho independente, para resolver a existência do donativo do construtor José Guilherme;  a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos duplicou a previsão de custo médio da electricidade para 2022; na segunda fase de acesso ao ensino superior houve nove cursos onde a média de entrada foi superior a 19 valores; em ano recorde de produção de cereais o preço do trigo no mercado mundial aumentou 41%; as greves efetuadas na CP entre Junho e Setembro suprimiram 4000 comboios e o serviço assegurado pelos Alfa Pendular e Intercidades foi o mais afectado; um estudo de investigadores do ISCTE indica que um quarto dos trabalhadores é sobre-qualificado para o emprego que tem; o mesmo estudo indica que a falta de capacidade do mercado de trabalho em absorver jovens que saíram das universidades nos últimos anos se deve ao peso reduzido das indústrias e dos serviços de alta tecnologia; em 2020 cerca de 40% dos jovens entre os 25 e os 34 anos tinham o ensino superior; segundo o INE mais de 1,6 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar de pobreza, ou seja com menos de 540 euros por mês; o Governo está desde há três anos a seleccionar 40 psicólogos para o Serviço Nacional de Saúde e ainda não conseguiu chegar a uma decisão; cerca de seis milhões de portugueses acedem regularmente a redes sociais, indica um estudo da Marktest.


 


O ARCO DA VELHA - Esta semana fui comprar laranjas a um supermercado. Havia laranjas a granel importadas da África do Sul e laranjas bem nossas, das boas do Algarve, que só se vendiam em embalagens grandes. Isto faz algum sentido?


 


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DE QUE É FEITA A LUZ? -  “Mais Tarde” é a nova exposição de Jorge Molder, na Galeria Belo-Galsterer que até 15 de Janeiro apresenta 19 das 21 fotografias criadas para a revista Granta, um pedido editorial que tinha por base a criação de imagens em torno do sono e do sonho. Aqui estão expostos em conjunto, pela primeira vez,  19 trabalhos de grande dimensão, 150 x 100 cm, a maioria a preto e branco, três deles com côr. Jorge Molder fotografa-se maioritariamente a si próprio, quer expondo-se fisicamente, quer mostrando o que imagina e concretiza em fotografia, geralmente já na fase de manipulação digital da imagem e da sua impressão. É um lento e laborioso trabalho aquele que Jorge Molder empreende depois da captura da imagem pela câmera fotográfica. A sua expressão facial ou a sua mão (na imagem) ganham outra dimensão e outro significado quando ele dá a obra por terminada. A realidade não é o que parece, é o que queremos que ela seja - tem sido assim que Jorge Molder pratica a fotografia. O contraste acentuado a preto e branco é propositado e cria um clima que segue à risca a frase do poeta  Walt Whitman que Molder escolheu para o texto de apresentação da exposição: “Every moment of light and dark is a miracle”. A Belo-Galsterer fica na Rua Castilho 71 r/c esq.


 


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MANUAL DE PERSONAGENS TRAIÇOEIRAS - Aqui está um livro muito adequado aos tempos em que estamos -  “História Universal da Infâmia”, de Jorge Luis Borges. Tudo se passa em Buenos Aires, mas alguns personagens podiam estar aqui ao nosso lado. Jorge Luis Borges trabalha com biografias de ladrões e rufiões, personagens traiçoeiras e heróicas. Por estas páginas passam algumas das suas criações mais inesquecíveis em torno da vida e da morte em Buenos Aires: a viúva Ching, intrépida e sanguinária pirata; o inverosímil impostor Tom Castro; o atroz redentor Lazarus Morell ou «o homem da esquina rosada», gente que fala uma linguagem perigosa e que vivem à beira do abismo. Publicada pela primeira vez em 1935, a “História Universal da Infâmia” foi posteriormente revista pelo autor e aumentada em quatro textos, o que deu origem a todas as edições a partir de 1954. «O homem que o executou era bastante infeliz, mas divertiu-se a escrevê-lo; oxalá algum reflexo daquele prazer alcance os leitores», escreve o autor no prólogo da edição desse ano. A “História Universal da Infâmia” é considerada uma das suas obras mais importantes, quer do ponto de vista temático, quer do ponto de vista formal, misturando literatura, ficção pura, fontes clássicas, e até factos reais. Esta nova edição da Quetzal tem tradução de José Bento. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 1899 e em 1923, publicou o seu primeiro livro – “Fervor de Buenos Aires”, dois anos antes da edição original desta “História Universal da Infâmia”.


 


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MÚSICA DA VIDA -  Rodrigo Leão às vezes compõe bandas sonoras para filmes, mas o mais frequente é que os seus discos sejam bandas sonoras para o nosso dia-a-dia. É o que acontece com o seu novo álbum, “A Estranha Beleza da Vida”, o nome que deu a este trabalho pensado durante os meses do primeiro confinamento, e concretizado a partir do Outono do ano passado, faz agora um ano. O seu álbum anterior, “O Método” foi publicado no início de 2020 mas a pandemia acabou por impossibilitar a digressão que estava prevista. “A Estranha Beleza da Vida” é o retrato sonoro do “ténue espaço entre a vida e a morte”, como afirma o próprio Rodrigo Leão. E o novo disco acaba por ser uma celebração da vida e da liberdade criativa, onde surgem canções de ambientes sonoros diversos, arranjos por vezes surpreendentes.  Rodrigo Leão  contou na gravação com os seus cúmplices habituais na produção e arranjos - Pedro Oliveira, João Eleutério, Pedro Moreira e Carlos Tony Gomes. E convidou um para esta aventura a canadiana Michelle Gurevich (que canta em “Friend of a Friend”, o primeiro tema do álbum),  Kurt Wagner, dos Lambchop, (que interpreta “Who Can Resist”), a espanhola Martirio (que emociona com o seu cantar em “Voz de Sal”), a portuguesa Surma (que participa em “O Ovo do Tempo”)  e ainda o instrumentista e produtor espanhol Suso Sáiz no tema que é o último dos 14 do álbum e que lhe dá o título  “A Estranha Beleza da Vida” . Rodrigo Leão, pelo seu lado, percorre os outros nove temas com os seus músicos - e destaco “Sibila”, “A Valsa de Petra” e “O Maestro”. Há muito a descobrir neste disco onde se cruzam ritmos de vários continentes e sons de diversas épocas.





É A PASTA, GULOSO! - Quando o restaurante italiano Il Mercato abriu no Páteo Bagatela, em Lisboa, tive uma má experiência. Fui vencido pela curiosidade e quis ir conhecer um restaurante que estava então aberto há poucos dias. Aprendi entretanto que o melhor é só visitar novos restaurantes passados uns tempos da abertura. E assim, sucederam-se várias visitas. E humildemente tenho que reconhecer que o Il Mercato vale a pena, é um sítio onde se come bem, onde a confecção é cuidada e os produtos genuínos e onde o serviço é impecável. Além da  esplanada e da ampla sala existe um balcão onde se podem comprar produtos certificados italianos, de queijos a fumados. A cozinha é inspirada na gastronomia do sul da Itália com umas incursões pela Sicília. O Il Mercato faz parte dos restaurantes criados por Tanka Sapkota, que tem também a seu cargo o Come Prima, outro templo italiano. As entradas têm uma ampla escolha de presuntos, salames e mortadelas e além disso uma burrata artesanal que pode vir servida com anchovas - e que recomendo. As pastas são frescas e feitas na casa e a minha preferida são os raviolis de abóbora com trufa negra ou os bucatini com gambas , alcachofras grelhadas e bottarga, uma especialidade feita a partir de ovas de taínha. Do outro lado da mesa é muito apreciada a dourada, filetada, temperada com ervas e vinho branco e acompanhada por salada de rúcula. Nas sobremesas os mais gulosos dispõem de cheesecake de nutella. O vinho da casa  cumpre, idem o prosecco, a lista tem boas propostas italianas e portuguesas a preço decente. Telefone 211930941.


 


DIXIT - “O OE 2022 mostra, na Cultura como noutras áreas, que o Governo não tem qualquer intenção de fazer políticas específicas para corrigir os impactos desiguais da crise da pandemia” - Maria João Marques


 


BACK TO BASICS - “A coisa mais importante é nunca deixarmos de nos questionarmos “ - Albert Einstein


 


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outubro 15, 2021

OPTIMISMO? SÓ SE FÔR NUM MANICÓMIO...

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AS COSTAS LARGAS DO VÍRUS - Quem ouvir falar o Ministro das Finanças e o Primeiro Ministro será levado a pensar que, por cá, a pandemia teve efeitos mais graves que noutros países. Ora sabe-se que a culpa da situação das contas portuguesas não é do vírus, é das políticas que têm sido seguidas e que penalizam empresas e privados, enquanto protegem o Estado e a Administração Pública.  O Orçamento de Estado prevê que a despesa pública atinja em 2022 um recorde de quase 106 mil milhões de euros, o que significa um encargo aos portugueses de 12 milhões de euros por hora. A linha política do PS em matéria de finanças e de economia continua a ser a de procurar receita de qualquer forma em vez de facilitar o crescimento da economia e estimular o mercado interno. Não deixa de ser espantoso que países com menos população e menos recursos que Portugal, na Europa, tenham uma situação tão diferente. Recordo que segundo um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos em Portugal, mais de um em cada dez trabalhadores (11%) está em situação de pobreza. E a maior parte dos pobres não o são por não terem emprego ou por dependerem de apoios sociais que menorizem a ausência de salário -  estão em situação de pobreza porque auferem salários baixos ou têm empregos precários. O estudo, feito por uma equipa de 11 investigadores, aponta números claros sobre quem são as pessoas em situação de pobreza em Portugal: 32,9% são trabalhadores, 27,5% serão reformados, 26,6% são precários e 13% são desempregados. Ora acontece que ​​Portugal é o terceiro pior país europeu em termos de capital privado investido nas empresas em função do Produto Interno Bruto, ficando à frente apenas da Grécia e Roménia. O Governo escusa de atirar areia para os olhos e culpas para o vírus: são a paralisia da economia nacional, as taxas elevadas sobre as empresas e sobre os rendimentos do trabalho que afectam estruturalmente a nossa economia. Este Governo pensa mais em como gastar mais do que em como produzir mais.


 


SEMANADA - O Governo quer duplicar a taxa anual sobre os operadores dos serviços de televisão por cabo sendo que metade do valor cobrado se destina à RTP, que já recebe uma taxa proveniente da fatura de electricidade; segundo a proposta do Orçamento de Estado, no próximo ano o Ministério da Cultura não planeia executar mais de 16 milhões de euros dos 150 milhões inscritos no PRR para a requalificação de museus, palácios, monumentos e teatros nacionais; 60% do que se paga no abastecimento do depósito de combustível de uma viatura são impostos, o automóvel continua a ser uma das maiores receitas fiscais do Estado e o imposto de circulação vai aumentar; a zona da graça em Lisboa perdeu 146 lugares de estacionamento no período de três meses; Funchal e Lisboa vão receber 200 cruzeiros turísticos até ao fim do ano; metade dos cortes previstos no Orçamento de Estado na administração pública virá do sector da saúde; a falta de chips já custou 20% da produção nacional de carros e 35 mil veículos à Autoeuropa; em vários hospitais do país o tempo de espera por uma consulta de saúde mental ultrapassa os seis meses; desde que se iniciou há 16 anos o alargamento a leste da União Europeia, Portugal já foi ultrapassado pela República Checa, pela Estónia, Lituânia e Eslovénia.


 


O ARCO DA VELHA - Na União Europeia 44% dos agregados familiares que vivem nas cidades estão cobertos por redes digitais de capacidade muito elevada, mas nas zonas rurais apenas 20% das famílias consegue ter acesso a uma boa rede.


 


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A MARGEM SURPREENDENTE -  Até 16 de Janeiro do próximo ano poderão ver no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, uma surpreendente exposição de Pedro Calapez, intitulada “Perto da Margem”. São mais de duas dezenas de obras, duas delas de 2018 e as restantes de 2020 e 2021, em diversos suportes e técnicas, que se espalham por várias salas. Logo à entrada, na escadaria, Pedro Calapez revisita uma das obras de Vieira da Silva que ali está e de que ele próprio gosta muito, “Les Balançoires”. Esta resposta (na imagem) ao quadro de Vieira da Silva, foi a última peça feita por Calapez para a exposição e mostra o caminho que depois se segue de intervenção no espaço do Museu. João Pinharanda, que foi o curador de “Perto da Margem”, escreve num texto colocado à entrada: “Pedro Calapez aprofunda nesta exposição uma das questões que o ocupa desde sempre - a discussão dos limites tradicionais do quadro”. No mesmo texto, Pinharanda chama a atenção para o facto de as obras de Calapez saírem “constantemente do espaço convencional da pintura”. Nesta exposição Pedro Calapez retoma a ideia de uma instalação de peças colocadas no chão, um labirinto que bem pode ser visto como o percurso para os novos  caminhos que o artista tem percorrido. Esta peça, “Labirinto Deslocado”, faz referência a outra obra da Vieira de título “A deslocação do labirinto”, que pertence à colecção  Ilídio Pinho e que pode ser vista na seleção de obras da Vieira da Silva dessa colecção, e agora também na sala pequena das temporárias do Museu.  Outras sugestões: no Convento dos Capuchos, em Almada, Teresa Segurado Pavão apresenta peças de cerâmica construídas a partir de lâminas de marfim que cobriam as teclas de um antigo piano do S.Carlos que foi a reparar na Valentim de Carvalho, obras a que deu o nome de “Valentim”, tendo por pano de fundo musical a gravação de “As notas do velho marfim”, uma composição feita expressamente por  Mário Laginha para esta exposição - por isso mesmo o título genérico da exposição, que fica até 26 de Fevereiro do próximo ano, é “A Quatro Mãos”.


 


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PARA COMPREENDER OS ESTADOS UNIDOS - A “Guerra & Paz” tem vindo a publicar uma colecção de Atlas Históricos que são guias preciosos para melhor conhecermos um país ou uma região. Agora foi publicado o “Atlas Histórico dos Estados Unidos da América”, que percorre o percurso do país das colónias à expansão territorial, da fundação da república ao «Sonho Americano», do 11 de Setembro até ao ataque ao Capitólio em Janeiro deste ano. O livro resulta do trabalho do historiador francês Lauric Henneton, em colaboração com o cartógrafo e designer gráfico Pierre Gay e reúne mais de cem mapas e documentos que nos contam a História dos Estados Unidos da América. «A história da América do Norte é, antes de mais, uma história de imigração, dos Siberianos da Beríngia aos Asiáticos e Hispânicos da actualidade, passando por Ingleses, Alemães, Irlandeses e Italianos.», escreve o autor logo no início do livro. Partindo das migrações asiáticas, do período glaciar, a obra acompanha a evolução do território norte-americano até à actualidade. Vemos, entre os séculos XVI e XVIII, o nascimento de uma nação impulsionado pelas sucessivas vagas de imigração e pela expansão territorial que estas geraram e como no século seguinte, uma nova vaga de imigração, aliada a um processo de urbanização e industrialização sem precedentes, começa a desenhar «o sonho americano» e a forma como a jovem América se tornará numa potência. No século XX Laurie  Henneton aborda as duas Grandes Guerras, as grandes crises, e como tudo resultou num papel geopolítico importante. E, por fim, o século XXI, que, profundamente marcado pelo 11 de Setembro de 2001, tem sido caracterizado por fracassos institucionais e desigualdades crescentes. Segundo o autor, a diversidade que fez erguer a nação norte-americana dá hoje lugar a divisionismos que polarizaram a opinião pública. Perante o cenário actual, este Atlas deixa a pergunta: «O que resta do sonho americano?» 


 


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TROMPETE, VIOLINO E MAIS UMAS COISAS - Teve um dia difícil? Quando chegar a casa procure no Spotify o novo disco do trompetista norueguês Mathias Eick, “When We Leave”. Relaxe e sente-se a ouvir. A música que vai ouvir irá ajudá-lo a superar o dia. O disco resulta da conjugação dos talentos de Eick no trompete,  com o violino da Hakon Aase, o piano de Andreas Ulvo, o baixo de Audun Erlien, a percussão de  Torstein Lofthus, a bateria de  Helge Norbakken e a guitarra eléctrica de  Stian Carstensen. Estes sete músicos, com percursos diferentes no jazz, são companhia habitual do trompetista. Eick constrói melodias delicadas que interpreta de forma intensa, como em "Loving'', "Caring" ou “Playing”. Os sete temas de “When We Leave” são da sua autoria e entre eles há pérolas como “Flying” onde os arranjos e o papel minimalista da percussão são exemplares, “Arvo” , que é uma canção sem palavras ou o tema final, “Begging”, em que mais uma vez trompete e violino se cruzam de forma elegante com o piano e a percussão, discretamente a marcarem presença. O disco, gravado em Oslo em Agosto de 2020, foi agora editado em CD e streaming pela ECM e terá uma edição em vinil na primavera de 2022.


 


O SEGREDO ESTÁ NA GRELHA - Hoje proponho uma visita ao Cortesia, em Campo de Ourique. Trata-se de um restaurante apostado na qualidade dos produtos que serve - nomeadamente a carne - e na simpatia do serviço. Muito do segredo está nos cortes de carne servidos e no facto de ela ser grelhada num Josper, uma espécie de Rolls Royce dos grelhadores, que a deixa tostada por fora e saborosamente mal passada por dentro. Nas entradas destaco os croquetes, a rivalizar com alguns dos clássicos lisboetas - podem aliás ser prato principal acompanhado por arroz de tomate ou a salada da casa que leva alface, tomate cherry, parmesão e nozes caramelizadas. As duas visitas que fiz correram muito bem - da primeira vez uma vazia black angus perfeita, que é servida cortada em tiras com boas batatas fritas e, da segunda vez um bitoque do lombo com molho à portuguesa e ovo estrelado - perfeito no corte e na confecção - acompanhado também por batatas fritas já que  prescindi do arroz. O outro lado da mesa respondeu na primeira ocasião com uma salada de atum fresco e, na segunda, com os croquetes acompanhados pela salada da casa. Voltando às carnes, os mais gulosos podem partilhar um tomahawk maturado ou um chuletón extra e o clássico da casa, muito elogiado, é um entrecôte com 50 dias de maturação. Volto a sublinhar a qualidade e simpatia do serviço. Preço equilibrado, há vinho a copo bem escolhido e a imperial é bem tirada.  Rua Tomás da Anunciação 99A, telefone 211 333 851. Convém reservar, sobretudo se quiser ir para a esplanada.





DIXIT - “A ascensão das esquerdas dentro do PS é uma das causas da vontade do Governo de aumentar o poder sobre a sociedade” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “O lugar onde o optimismo mais floresce é num manicómio” - Havelock Ellis


 


 

outubro 08, 2021

O ESTADO, A JUSTIÇA E OS CONTRIBUINTES

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O CÍRCULO  VICIOSO - Todas as políticas precisam de investimento dos Governos, que vem das receitas obtidas nos impostos e nas alcavalas que abundam no nosso sistema. Empresas consideradas estratégicas, como a CP, para conseguirem desenvolver-se precisam de investimento e de não ter o peso de uma dívida acumulada ao longo dos anos por sub-financiamento por parte do Estado. O país está cheio de buracos deste género nas mais variadas áreas. O Ministro Pedro Nuno dos Santos deseja, e bem, que a ferrovia seja uma prioridade e que possa dar um forte e positivo contributo ambiental. Mas vai-se a ver e a sua decisão de voltar a privatizar a TAP terá um custo total, a suportar pelos contribuintes,  de pelo menos 3,2 mil milhões de euros até 2022. Pedro Nuno dos Santos com essa privatização  apostou numa empresa poluente, com sérios problemas de ineficácia e gestão criados nos últimos anos. E, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, nacionalizou-a sem nenhuma boa razão, quando hoje a companhia é mais cara e menos eficaz que as suas concorrentes que estão no mercado. O dinheiro que colocou na TAP significa  mais de mil milhões de euros acima da dívida histórica da CP, que Pedro Nuno dos Santos acusa João Leão de não resolver, tema que levou à saída do melhor presidente da CP dos últimos anos. No fim do dia, é sempre a mesma coisa: quando o dinheiro não dá para tudo é preciso escolher e encontrar receitas sem assaltar mais os contribuintes. Mas escolher despesa não é aquilo de que Pedro Nuno Santos mais gosta, preferindo gastar o que não se tem. Provavelmente poderia valer a pena pensar em conseguir maior receita com uma política fiscal mais competitiva que evite a evasão e com uma justiça tributária que não seja o pesadelo que é hoje em dia. Numa entrevista esta semana num canal de televisão o advogado Paulo Saragoça da Mata lembrou o velho princípio de que a evasão fiscal aumenta quando aumentam os impostos. Revelou dúvidas sobre a constitucionalidade do funcionamento da justiça tributária e classificou o sistema fiscal português como “demoníaco”. Justiça tributária e fiscalidade - aqui estão dois temas  que o Presidente da República podia ajudar a debater - e, dentro das suas competências, a mudar.


 


SEMANADA - A indústria automóvel instalada em Portugal exportou quase 5,6 mil milhões de euros no primeiro semestre, 40% dos quais em componentes para veículos; nos primeiros seis meses do ano a Aston Martin vendeu 26 carros em Portugal e no período homólogo de 2020 tinha vendido dois; a proposta de lei de videovigilância apresentada pelo Governo não teve pareceres da maior parte das entidades envolvidas e algumas das medidas, como o acesso pelas polícias aos dados biométricos dos cidadãos, contrariam os pareceres de diversas entidades europeias sobre este assunto; mais de 200 mil menores que estiveram sob a responsabilidade directa da Igreja Católica francesa entre 1950 e 2020 foram vítimas de abuso sexual por maia de 2000 padres e outros membros da hierarquia da igreja; Portugal está entre os melhores do mundo a aprovar leis sobre a corrupção, mas depois não as aplica, afirma Luís de Sousa, investigador da Universidade de Lisboa e um dos maiores estudiosos dos crimes de colarinho brancono país; Portugal tem mais de 5 mil pessoas acima dos 100 anos e a previsão é para duplicar até 2050; o número dos que estudam para ser professor caíu 79% em 20 anos; dos 17 presidentes de Câmara eleitos como independentes, nove vieram do PSD, sete do PS e um da CDU; nas autárquicas o PS perdeu 11% dos seus votos nas grandes cidades; nas celebrações do 5 de Outubro o Presidente da República disse que “o Portugal que somos nunca vencerá os desafios da entrada a tempo no novo ciclo económico com dois milhões de pobres e alguns mais em risco de pobreza”.


 


O ARCO DA VELHA - Um inspector da ASAE, colocado em tribunal por dívidas ao condomínio onde reside em Matosinhos, usou expedientes falsos e constituíu arguidos os responsáveis pelo edifício.


 


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FESTA DA FOTOGRAFIA -  Ao longo do mês de Outubro decorre a edição deste ano, a terceira, do Imago - Lisboa Photo Festival, um evento cada vez mais importante no contexto da fotografia em Portugal, que se desenvolve em 14 espaços institucionais e privados por toda a cidade. A edição deste ano tem duas temáticas “The Family In Transition”, integralmente apresentada no belo espaço das Carpintarias de São Lázaro, e “Rethinking Nature/ Rethinking Landscape”, esta espalhada por vários espaços. No Museu Nacional de Arte Contemporânea, estão as interessantes  exposições, da “Cuban Studies” (na imagem),  “CornWall” e “Home Works” de Joakim Eskildsen; a Sociedade Nacional de Belas Artes acolhe a representação da galeria “Salut Au Monde”, do Porto que apresenta a exposição “We Are Family” - inspirada na célebre “The Family Of Man”, criada em 1955 por Edward Steichen no MOMA, em Nova Iorque. Pauliana Valente Pimentel apresenta “Ask The Kids” no Espaço Camões-Sá da Costa, enquanto o Arquivo Municipal de Lisboa-Fotográfico (Rua da Palma 246), mostra “Homem Morto Passou Por Aqui” de Valter Vinagre, “”See Sea” de Maija Savolainen e “Aqui Lisboa: Anos 80” de José Vieira Mendes. A partir de dia 14 a Galeria Belo-Galsterer apresenta duas dezenas de obras de Jorge Molder, parte delas inéditas. Fora da Imago, mas também na área da fotografia, Noé Sendas apresenta “Vertical Seas” na Galeria Carlos Carvalho, Vasco Araújo mostra “Rehearsals” na Galeria Francisco Fino e David Infante apresenta “If All Time Is Eternally Present”,a Galeria Módulo. Fora de Lisboa, mas mesmo aqui ao lado, em Oeiras, no Parque dos Poetas, está montada a edição deste ano do World Press Photo, com entrada gratuita até 15 de Outubro.


 


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A METAMORFOSE DAS IMAGENS - Jorge Guerra é um fotógrafo português que vive desde os anos 70 no Canadá, em Toronto e um percurso pela sua obra é pretexto para o sétimo volume da colecção Ph., da Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo. Nesta edição mostram-se fotografias de seis décadas, mas a maior parte mostram, a preto e branco,  Luanda e Lisboa nos anos 60, em contraste com fotografias da mesma época de Florença, México, Londres mostrando um ambiente bem diferente. Estas são fotografias com pessoas, não necessariamente retratos, embora também existam, mas sobretudo cenas de rua, onde se sente a influència de, por exemplo, Robert Frank. A obra de Fernando Guerra aqui mostrada evidencia que a fotografia não é apenas o registo daquilo que acontece, sendo sobretudo a ilustração de uma maneira de ver o mundo. As imagens da inspecção aos receitas angolanos, em Luanda, no início dos anos 60, que estão logo no começo, são marcantes e de uma contemporaneidade espantosa. Depois, Portugal desaparece do seu olhar e as imagens dos anos 70 e 80 são do Canadá e Estados Unidos. Intercaladas no livro, surgem páginas de mosaicos de imagens, a cores, mais conceptuais, por vezes com polaroids, mostrando um outro lado para além das pessoas que são dominantes no preto e branco.Uma das últimas fotografias do livro, datada de 2018, intitulada “metamorfose”, evoca  simbolicamente o universo das imagens digitais que substituíram a película. O livro começa por um texto de Maria do Carmo Serén e Teresa Siza, que destacam a forma como Jorge Guerra retratou Lisboa, mostrando “uma cidade triste, quase sem sorrisos e muita mágoa subjacente” e sublinhamo seu lugar incontornável - e por vezes mal conhecido - na fotografia portuguesa.


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MUDAR DE VIDA - O contrabaixista Bernardo Moreira regressa à obra do guitarrista Carlos Paredes, que já tinha percorrido  num disco de 2002, “Ao Paredes Me Confesso”. O novo trabalho, "Entre Paredes", inclui oito temas, entre os quais um de José Afonso, “A Morte Saíu À Rua”. Gravado em sexteto no início de Novembro do ano passado, no convento de São Francisco em Coimbra, na gravação participaram, além de Bernardo Moreira,  João Moreira no trompete, Tomás Marques no saxofone, Ricardo Dias no piano,  Mário Delgado na guitarra e Joel Silva na bateria. “Entre Paredes” inclui os temas “António Marinheiro”, “Mudar de Vida”, “Canto de Amor”, “Verdes Anos”, “Navio Triste”, “A Morte Saíu à Rua”, “Serenata do Tejo” e “Canto do Amanhecer”. “Verdes Anos” já estava no anterior disco de Moreira dedicado à obra de Paredes, mas esta é uma nova versão.  Bernardo Moreira, integra o grupo que normalmente acompanha Cristina Branco. No disco destaco as versões de “Mudar de Vida”, “Verdes Anos” e “A Morte Saíu À Rua” e o trabalho, cúmplice e por vezes arrebatador, de todos os músicos do sexteto.


 


 


O BOM ATENDIMENTO - Tenho reparado que alguns dos novos restaurantes mais ou menos da moda têm um grave problema: a inexistência de um chefe de sala competente que vigie o ambiente e o serviço, antecipe o que cada mesa precisa e  evite um cliente a esbracejar para um empregado que olha para o infinito e não o vê - ou está á conversa com um colega sem interesse pelo que se passa ao seu redor. Vou dar um exemplo: o Zum Zum Gastrobar, de Marlene Vieira, cujos talentos na minha opinião se exageram, é um caso exemplar de mau serviço, desatenção e substituição da qualidade de confecção por um palavreado descritivo cujo resultado final é um desapontamento. Mas ela não é caso único -  desatenções, distrações e mau serviço aconteceram-me mais em restaurantes com marca de um dos “chefs” da moda do que em locais mais modestos. Nem sempre foi assim: um dos melhores chefes de sala dos últimos anos foi Hélder Ribeiro, da saudosa Bica do Sapato, assim como José Duarte, no Salsa & Coentros, é o homem do leme que assegura a boa navegação. Num outro registo de restaurante, recordo, na velha Paz, da Ajuda, a atenção que o seu proprietário, o Sr. António, tinha em relação à sala - cuidando que nada faltasse a quem lá ía, sempre atento, garantindo que o serviço saía da cozinha como devia  ser, disponibilizando-se sempre à difícil tarefa de dividir uma fresquíssima cabeça de garoupa pelos comensais de uma mesa, por forma a que tudo chegasse como devia ser e sem incómodos. É isto que faz falta e que está a desaparecer aos poucos. O bom atendimento faz parte de uma boa refeição. Por melhor que o chef seja, se não tiver olhos na sala está tudo estragado.





DIXIT -  “Estamos a chegar ao limite, temos de repensar o turismo que queremos no concelho” - Figueira Mendes, presidente da Cãmara de Grândola.


 


BACK TO BASICS - “Querer aprender com a inovação é mais importante que ter razão” - Steve Jobs








outubro 01, 2021

O RESULTADO DAS AUTÁRQUICAS MOSTRA QUE O ELEITORADO ESTÁ A MUDAR

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O NOVO TEMPO DA POLÍTICA - A meio da madrugada de segunda-feira dei comigo a pensar que as autárquicas em Lisboa mostraram que uma cidade não é um filme, não é um cenário fabricado, mas sim o local de histórias reais das vidas das pessoas que lá vivem. Em vez de uma ilusão para visitantes de passagem, uma cidade só vive se for uma casa para os seus residentes. Foi isso que se perdeu em Lisboa nos últimos anos e tenho a firme convicção de que foi isso que fez Medina ser derrotado, levando mais de 25 mil eleitores que votaram nele em 2017 a abandoná-lo. Dizem-me que segunda-feira, nos corredores do Município, as chefias se mostravam apreensivas e a generalidade dos funcionários aliviados. Pedro Magalhães, politólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, acredita que a participação eleitoral diminuíu nas freguesias onde o PS tinha tido mais apoio em 2017. Por outras palavras, houve uma manifestação de desagrado de um lado e um desejo de mudança do outro. Lisboa ficou a ganhar porque perdeu um autarca que se preocupava mais com as aparências do que com os problemas, arrogante e complacente com abusos e corruptelas. Um cidadão, citado por um jornal diário, resume o resultado a isto: “as pessoas fartaram-se”. O vencedor, Carlos Moedas, não vai ter tarefa fácil mas acredito que tenha capacidade para procurar consensos através de propostas abrangentes e de uma política social de que a cidade necessita. Este novo ciclo de Lisboa vai provavelmente mostrar uma nova forma de fazer política, menos apostada em criar tensões e mais virada para resolver problemas e tornar a cidade mais humana. Mas há um outro aspecto curioso, que tem a ver com a campanha eleitoral. Por vezes duvidei da eficácia da forma como a campanha de Carlos Moedas decorria, achava-a pouco afirmativa, digamos até que pouco agressiva, e com uma resposta fraca ao oponente. Mas tenho que reconhecer que me enganei sobre a estratégia seguida e na razão deste meu engano provavelmente está uma mudança do perfil dos eleitores, sobretudo dos mais novos. Será que o eleitorado começou a fartar-se de políticos que gritam e que atacam permanentemente os rivais? O resultado parece mostrar que sim. Bem vistas as coisas, nas campanhas presidenciais de Marcelo Rebelo de Sousa essa tendência começou a mostrar-se. Menos gritos, mais afectividade, maior contacto pessoal, menos demagogia. O eleitorado está a mudar, nestas autárquicas puderam votar aqueles que já nasceram nos primeiros anos deste século. O resultado que estes eleitores proporcionaram é um desafio e uma responsabilidade para o vencedor. E uma esperança de que a política mude para melhor. Novos tempos também são isto.


 


SEMANADA - O potencial de teletrabalho em Portugal é o nono mais baixo da UE, segundo um estudo europeu divulgado esta semana; Fernando Ruas, eleito Presidente da Câmara de Viseu, espera que a lista de promessas de fundos da bazuca feita por António Costa ao anterior autarca socialista da cidade seja cumprida; a Presidente do Conselho de Finanças Públicas alertou para a situação financeira “não confortável” do país; o défice público agravou-se 550 milhões de euros até Agosto; a abstenção nas autárquicas foi de 45%; em 2017 realizaram-se 25 coligações nas autárquicas, em 2021 o número duplicou para 52; o número de partidos que concorreram às autárquicas aumentou de 17 para 20 este ano - três dos anteriores não concorreram mas houve seis estreantes; em 2017 houve 83 candidaturas independentes e em 2017 o número desceu para 79; em 35 concelhos a aplicação da lei de limitação de mandatos deixou de fora da luta eleitoral os anteriores autarcas; quase um quarto dos candidatos ao ensino superior não conseguiu entrar num curso na primeira fase do processo de admissões; em 2020, após a morte de Ihor Homenyuk, o Ministro da Administração Interna prometeu que o centro de instalação temporária do SEF no Aeroporto de Lisboa teria cobertura de câmeras de vigilância em todos os espaços comuns, mas após um ano essa melhoria ainda não foi feita; o número de pessoas sem abrigo em Portugal aumentou em 2020 para 8029, mais 1000 cidadãos que no ano anterior; segundo o INE o valor das rendas de casa aumentou 11,5% entre Março e Junho.


 


O ARCO DA VELHA - Nuno Freitas, considerado pelo Ministro Pedro Nuno dos Santos como o melhor presidente de sempre da CP,  demitiu-se num cenário em que sentia  falta de autonomia de gestão, tinha um plano de atividades por aprovar e uma dívida histórica acumulada de 2,1 mil milhões, situação que paralisava a empresa. O Ministro Pedro Nuno dos Santos, sem nunca o dizer directamente, apontou o dedo ao Ministro das Finanças: "se dependesse de mim [o problema] estava resolvido".


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POR DENTRO DO ATELIÊ-  Na Galeria das Salgadeiras o fotógrafo Jordi Burch recria em imagens o seu próprio ateliê em S. Paulo e evoca o seu processo de trabalho. A montagem da exposição explora e invade diversos espaços da galeria, mostrando o exterior que se vê do atelier, em contraste com o que se passa no espaço interior. A exposição "como coisa real por fora, como coisa real por denbtro", que fica até 13 de Novembro, evidencia a linguagem fotográfica de Jordi Burch, que em tempos integrou o colectivo KameraPhoto o qual teve uma presença relevante no fotojornalismo português do início deste século. Na exposição Burch combina imagens de objectos de carácter instrumental com outras de paisagem e retrato, procurando estabelecer um relato da sua própria vivência, através da forma de ver os materiais que utiliza no seu dia-a dia, como tinteiros de impressora fotografados para além do conceito tradicional de objectos perecíveis (na imagem) A Galeria das Salgadeiras fica na Rua da Atalaia 12.


 


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IMAGENS MOÇAMBICANAS - Mário Macilau nasceu em 1984 em Inhambane, Moçambique, e em 1998 tirou a sua primeira fotografia numa avenida de Maputo, com uma câmera emprestada. Durante anos fotografou com o telemóvel da sua mãe e em 2007 teve a sua primeira máquina fotográfica, iniciando um novo percurso. Macilau trabalha preferencialmente  projectos de longa duração. Nos últimos anos  ganhou notoriedade e reconhecimento como um importante fotógrafo Moçambicano com uma intensa actividade internacional de que o expoente foi a sua escolha para estar presente no Pavilhão da Santa Sé na 56ª edição da Bienal de Veneza. Mário Macilau apresenta agora em Lisboa, até 11 de Novembro,  a sua primeira exposição individual, “Sombras do Tempo”, na Galeria Movart (Rua João Penha 14A). A exposição, com curadoria de Ekow Eshun, inclui uma série inédita de fotografias intitulada “Círculo de Memória” (na imagem). Neste trabalho Macilau fotografa edifícios abandonados da época colonial que, como diz, "estão presentes em todo o território Moçambicano, apesar de terem perdido qualquer sentido de funcionalidade”. Dentro de cada fotografia, o artista situa, sobrepondo, figuras, muitas vezes mulheres ou crianças, cuja imagem cria um contraste com as estruturas em ruínas que as rodeiam. 


 


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A FOTOGRAFIA PORTUGUESA  -  Esta semana trago-vos um livro imprescindível para conhecer e compreender a evolução, não só da fotografia, mas também da comunicação em Portugal no século XX: “Fotografia Impressa e Propaganda Em Portugal No Estado Novo”. A obra é o resultado de um trabalho de uma equipa de investigadores que entre 2016 e 2019 desenvolveu um projecto financiado pela Fundação Para A Ciência e Tecnologia sobre a utilização da fotografia imprensa durante esse período. Filomena Serra foi a responsável pelo desenvolvimento do projecto, juntamente, em áreas específicas, com Paula André e Manuel Villaverde Cabral e a organização do livro coube a Filomena Serra. Ao longo do trabalho podem ser seguidas cinquenta publicações - livro, álbuns fotográficos, fotolivros, revistas ilustradas e catálogos provenientes do fundo documental do SNI - Serviço Nacional de Informação que existe na Biblioteca Nacional. Logo no início o livro recorda que António Ferro, director do Secretariado da Propaganda Nacional criado em 1933, definiu a fotografia como o suporte comunicativo de exposições e edições que mostrassem a obra do Estado Novo, muitas vezes inspirados pelos então novos modelos de propaganda alemã, italiana e soviética.Este livro merece ser lido por todos quantos se interessam pela fotografia em Portugal, desde o texto inicial, de Filomena Serra, Paula André e Manuel Villaverde Cabral, até aos textos que mostram o que foram publicações como “O Notícias Ilustrado”. “O Século Ilustrado”, a “Panorama- Revista Portuguesa de Arte E Turismo” ou livros tão diversos como “Salazar o Homem E A Sua Obra”, de António Ferro,  “As Mulheres do Meu País” de Maria Lamas ou  “Lisboa Cidade Triste e Alegre” de Victor Palla e Costa Martins, entre vários outros. Um trabalho de rara qualidade, com um enorme manancial de informação, não só sobre a fotografia, mas também sobre a forma como ela foi usada na propaganda e na comunicação.


 


CONTRA OS MENUS DE DEGUSTAÇÃO -  Um dia destes começo a fazer uma lista de restaurantes onde se come bem, a preços justos, com bom serviço, sem atavios desnecessários mas com atenção e respeito pelos clientes. É claro que ficam excluídos os restaurantes que só propõem menus de degustação, essa variação totalitária apadrinhada por chefs de laboratório. Na realidade a imposição de menus de degustação é a coisa que mais me encanita na vida em matéria gastronómica. Muito raramente tive boas experiências e quase sempre achei ridícula a encenação. Prefiro ir ao circo quando quero ver palhaços. Em contrapartida gosto de listas que variam conforme as estações do ano, utilizam produtos da região quando possível e vigiam a qualidade da matéria prima e conseguem fazer isto sem artifícios nem pretensões e a preço justo. A ideia do fine dining é em si uma coisa que me atrai pouco, muito pouco; já a ideia de um restaurante simpático, com boa cozinha, onde se pode estar confortável, à nossa vontade, sem imposições, é coisa que me seduz. Fine dining para mim não é obedecer aos desejos dos outros, é conseguir que os outros satisfaçam os meus desejos em matéria do que me apetece provar. E que não me aborreçam enquanto estou à mesa, mas estejam atentos às necessidades dos comensais. 


 


DIXIT - “Medina perdeu mais que o poder em Lisboa, deixou de ser o delfim de Costa" - Armando Esteves Pereira, no “Correio da Manhã”.


 


BACK TO BASICS - “Não basta fazermos o melhor que podemos; por vezes temos que fazer o que é necessário” - Winston Churchill


 








setembro 24, 2021

PARA ALÉM DOS RESULTADOS: REVISÃO DA LEI ELEITORAL PRECISA-SE

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O PESO DA ABSTENÇÃO - As eleições, como as que teremos Domingo 26, levantam três questões essenciais para que a democracia funcione: uma revisão e actualização da Lei Eleitoral, adequando-a à evolução da sociedade e da tecnologia desde 1975, a expectativa de que estas mudanças e uma reforma do sistema político-partidário ajudem a combater a abstenção galopante e, finalmente, uma actuação de fiscalização que evite a repetição do regabofe em que António Costa andou nestes dias perante a complacência da CNE, chegando a insinuar que autarcas do PS conseguirão utilizar melhor os dinheiros da bazuca que os de outros partidos. Peguemos no histórico das autárquicas e vamos a números. Estes, que hoje utilizo, foram compilados pela MARKTEST. Entre 1976 e 2017, a taxa de participação eleitoral nas autárquicas baixou 15%, passando de 64.6% em 1976 para 55.0% em 2017. Esta quebra foi mais acentuada nos distritos de Setúbal, Lisboa e Faro, ao contrário dos distritos de Bragança, Castelo Branco, Guarda e das Regiões Autónomas, únicas regiões onde a taxa de participação aumentou em 2017 face a 1976. Consequentemente, a taxa de abstenção aumentou, de 35.4% para 45.0% no período em análise. O ano de 1979 foi o ano de maior participação eleitoral. Nesse ano, 73.8% dos eleitores inscritos participaram nas eleições para a Câmara Municipal. Pelo contrário, 2013 e 2017 foram os anos com menor percentagem de participação nas autárquicas (respetivamente, 52.6 e 55.0%). Há quase metade dos eleitores que não têm participado nas autárquicas e os partidos não promovem as reformas necessárias para alterar este estado de coisas. Será porque lhes dá jeito?


 


SEMANADA - As aulas começaram mas em muitos casos sem os manuais escolares cuja entrega se atrasou; os salários dos professores com 15 anos de experiência subiram nos países da OCDE entre 2005 e 2020, à excepção de Portugal onde diminuíram 6%; a Presidente do Conselho das Finanças Públicas disse no Parlamento que a instituição que dirige tem dificuldade em obter do Ministério das Finanças a informação imprescindível para escrutinar o trabalho do Governo; o endividamento das empresas privadas atingiu 269,5 mil milhões de euros em julho, o valor mais elevado desde os 269,9 mil milhões de euros registados em março de 2014; três meses depois do acidente com a viatura oficial de Eduardo Cabrita, que vitimou um trabalhador na A6, ainda não se sabe a velocidade a que ía o veículo; segundo a DECO, por cada 100 euros pagos na conta de electricidade 46,5 € são para impostos e taxas; o leilão da rede de telecomunicações 5G já dura há mais de nove meses e não há perspectivas de quando poderá haver oferta comercial da rede móvel de quinta geração; a pandemia provocou uma quebra de quase 25% na compra de sapatos em Portugal em 2020; nos últimos oito anos o número de câmeras de vigilância nas ruas passaram de 38 para mais de 850 e Amadora e Lisboa são os concelhos mais vigiados dos 14 que instalaram videovigilância ;  existem 239 ex-políticos e juízes com subvenções vitalícias pagas pelo Estado; a Câmara Municipal de Lisboa tem cerca de dois mil fogos devolutos que podiam ser reabilitados para habitação social; segundo a Marktest perto de seis milhões de portugueses costumam ler notícias online, uma tendência que cresceu 28% desde 2013.


 


O ARCO DA VELHA - Fernando Nobre, médico, fundador e presidente da AMI, esteve presente a apoiar uma manifestação de negacionistas, não aceita a vacinação contra a Covid-19 e recusa-se a usar máscara.


 


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RETROSPECTIVA & COLECTIVA -  Há muito para ver na galerias lisboetas, entre retrospectivas, revelações e colaborações. Vou começar pela retrospectiva de Sofia Areal, na Fundação Carmona e Costa. A exposição, “20 anos para a frente, 20 anos para trás” permite viajar pelo percurso criativo da artista através de 130 das suas obras feitas ao longo de quatro décadas. ​​A exposição é acompanhada por um livro com textos de José Luís Porfírio, Jorge Silva Melo, Ricardo Escarduça e Martim Brion, que foi o curador da exposição. Nascida em Lisboa, em 1960, Sofia Areal (na imagem) tem desenvolvido o seu trabalho na pintura, desenho, colagem, ilustração, design gráfico, desenho têxtil e cenografia. A exposição fica até 18 de Dezembro na Fundação Carmona e Costa, Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1. Uma outra exposição inaugurada por estes dias e de visita muito recomendada é “Matéria Luminal” que fica no Museu Berardo até 9 de Janeiro. Com curadoria de Sérgio Mah, a exposição mostra abordagens artísticas em torno da luz com obras relevantes desde meados dos anos 60 até à actualidade. Cerca de quatro dezenas de artistas estão representados, proporcionando uma visão conjunta, infelizmente rara, do seu trabalho. Esta é mais uma razão para visitar “Matéria Luminal” e ter uma visão de conjunto de trabalhos de nomes como Ana Jotta, Palolo, Cabrita, Fernando calhau, João Paulo Feliciano, Jorge Martins, Jorge Molder, José Barrias, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Manuel Rosa, Miguel Palma, Paulo Nozolino, René Bertholo ou Rui Chafes, entre outros.


 


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OS DESAFIOS - No Pavilhão Branco, do Palácio Pimenta, Pedro Calapez e Alexandre Conefrey apresentam um conjunto de trabalhos inspirados pela obra “Viagem de Inverno”, poemas de Wilhelm Muller musicados por Schubert em 1827, uma obra musical cara aos dois artistas. É a segunda exposição recente de Pedro Calapez em parceria com outro artista - a outra é “Seja Dia Ou Seja Noite Pouco Importa”, com André Gomes,  ainda patente no Museu Berardo até 17 de Outubro. Nestes trabalhos apresentados no Pavilhão Branco é sensível uma mudança - já anteriormente enunciada - do trabalho de Pedro Calapez, que está a percorrer um território visual diverso do que nos últimos anos trabalhou com um resultado francamente surpreendente. Neste caso o contraste entre as pinturas de grande dimensão de Calapez e as pinturas de pequeno formato de Alexandre Conefrey (na imagem) é amplificado pela montagem criativa do curador da exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues. Conefrey apresenta também um conjunto de desenhos, num curioso contraste com as pinturas. A exposição fica no Pavilhão Branco até 14 de Novembro. E por fim a grande surpresa da semana - “Pick A Card, Any Card”, a exposição inaugural de Isa Toledo, na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). A sua matéria prima é a palavra, quer nas pequenas folhas de bloco notas, juntando palavras e frases e criando painéis, quer nos vídeos (que podem ser vistos no Instagram da artista).Verdadeiramente surpreendente.


 


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DANÇA & ARQUITECTURA - Nunca fui a Luanda, uma cidade que de alguma forma me atrai. Sente-se que existe uma comunidade artística activa, em diversas áreas. Um livro recentemente editado, “Lugares Incorporados”, fez-me ficar com mais vontade de a conhecer. A ideia do livro é desafiadora: dezasseis bailarinos de quatro gerações da Companhia de Dança Contemporânea de Angola foram fotografados em conjunto com dezasseis edifícios e lugares da cidade de Luanda que revelam os laços sociais e afetivos que se estabelecem entre as pessoas e os lugares que habitam. As fotografias são de Rui Tavares e mostram um património importante para a caracterização, a história e as memórias da capital de Angola. As imagens exploram as afinidades entre a Dança e a Arquitectura, espelhando as relações entre o corpo, o movimento e o espaço. O livro, “Lugares Incorporados”, patrocinado pela Sociedade Mineira de Catoca e editado pela Guerra & Paz, pretende também alertar para o risco que corre uma boa parte deste património edificado, “na esperança de que possa ser resgatado, recuperado e devolvido à sociedade luandense”. O autor das fotografias, Rui Tavares, é angolano e desde 1991 interessa-se pelas imagens de dança. Começa nessa época a sua colaboração com o Conjunto Experimental de Dança, que mais tarde deu origem à Companhia de Dança Contemporânea de Angola, de que é um dos membros fundadores. O livro mostra edifícios como os dos Armazéns da Baixa de Luanda, a Casa do Sobrado, a Cervejaria Biker, o Cine Karl Marx, o Edifício da Lello, o Governo Provincial de Luanda, o Mercado do Kinaxixi, o Palacete Cor de Rosa e o Teatro Avenida, entre outros. Os textos que enquadram as fotografias de Rui Tavares, são de Isabel Martins e Cristina Pinto.  Ana Clara Guerra Marques coordenou o projecto. O livro está disponível em Portugal no site da editora - guerraepaz.pt  .


 


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UMA BANDA SONORA - “Flag Day” é o filme de Sean Penn que esteve presente no Festival de Cannes deste ano, onde foi aplaudido. Baseado numa história verídica, "Flag Day" conta a vida de um pai, John Vogel (Sean Penn), que subsiste graças a pequenos furtos para poder sustentar os seus filhos. Para fazer a banda sonora do filme Penn convidou Eddie Vedder, que por sua vez se fez acompanhar por Glen Hansard, pela sua filha Olivia Vedder e por Cat Power. O resultado é uma colecção de 13 canções, a maioria originais, mas com algumas inspiradas versões como “I Think of Angels”, do islandês Kristján Kristjánsson, interpretada por Cat Power com a presença do próprio Krisján nos coros,  ou “Drive” dos R.EM., revisitada pelo próprio Eddie Vedder. Além disso, há oito canções compostas por Vedder e Hansard e três novas canções de Cat Power. Olivia Vedder canta na faixa de abertura, “My Father’s Daughter” e em “There’s A Girl” e é uma boa surpresa. O segundo tema da banda sonora é a faixa título, “Flag Day”, uma balada que é um dos melhores temas originais desta banda sonora. “I Am a Map,” “I Will Follow,” and “Dream” são os três temas originais de Cat Power e todos merecem atenção. O álbum tem  uma produção minimalista, arranjos simples, essencialmente acústicos e o resultado é uma banda sonora invulgarmente bem conseguida. Disponível nas plataformas de streaming. 


 


DIXIT - ​​"Temos em Portugal, no presente e desde há muito, uma sociedade rígida, pouco aberta à mudança e à inovação, cujas regras do jogo e incentivos são perversos e pouco claros. Uma sociedade com abusos de poderes dominantes com cliques partidárias, empresariais, corporativas ou familiares, que ocupam e dispõem de lugares marcados. Por um lado, não permitem o surgimento de novos actores e, por outro, não permitem o fim de projectos sem viabilidade. " - António Carrapatoso





BACK TO BASICS - “As pessoas não devem ter medo de quem as governa; são os governantes que devem temer o que os cidadãos pensam deles" - Alan Moore.


 







setembro 22, 2021

LISBOA: DEIXAR ANDAR OU MUDAR? SOCIALISMO OU LIBERDADE?

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O governo da nação anda num frenesim. Costa não pára sossegado, desdobra-se em promessas e no desfiar das maravilhas do PRR nos numerosos comícios das eleições autárquicas onde tem andado a apaparicar as listas do PS, de norte a sul do país. Aliás não anda sózinho: da Ministra da Saúde ao Ministro das Infraestruturas, dois putativos concorrentes à sucessão de Costa, a máquina socialista actua como uma central de propaganda. António Costa até parece que concorre em múltiplos concelhos, está em todo o lado. Mesmo sem estar em nenhuma lista é o maior protagonista destas autárquicas, sempre a distribuir brindes para o futuro. Chega ao ponto de insinuar que os autarcas socialistas serão melhores a aplicar os fundos da bazuca que os de outros partidos. A sempre expedita Comissão Nacional de Eleições, que andou atrás de autarcas que queriam apenas dizer o que tinham feito no seu concelho, limita-se a timidamente recordar que o executivo tem um dever de neutralidade face aos desmandos eleitoralistas governamentais. Assim a CNE age como fiel serventuária do regime e de quem nele manda. Em resposta à observação, Costa passou todo o fim de semana a fazer mais do mesmo: distribuir promessas e evocar sucessos e amanhãs maravilhosos com o PS a mandar. É um contraste com o que se passou, por exemplo, com Carlos Carreiras e Isaltino de Morais, que estão entre os autarcas que se viram impedidos pela CNE de divulgar o que foi feito nos municípios que governaram durante este mandato.  Na sequência do ocorrido Carlos Carreiras acusou a CNE de “falta de independência” e de ser “manifestamente partidarizada e governamentalizada”. Bazuka por todo o país, promessas de diminuição de impostos, juras de descentralização sem dados concretos, este é o reino do vale-tudo. A batota eleitoral foi oficialmente instituída pelo Governo. Como Fernando Sobral bem escreveu na sua coluna no Jornal Económico: "Muitos candidatos não dizem o que podem fazer pelo país; nunca param de pensar no que o país pode fazer por eles." Um bom exemplo disso é Lisboa, que Fernando Medina encara como uma rampa de lançamento para vôos futuros. Lisboa promete ser o palco de uma disputa renhida entre o socialismo e a liberdade.  Medina transformou a Câmara Municipal num clube de interesses privados, actuação bem visível nos casos recentemente divulgados da área do urbanismo.  Como se viu no caso das informações a embaixadas estrangeiras, Medina não sabe sequer o que os seus serviços fazem em áreas tão delicadas como o respeito à privacidade e à defesa da liberdade de manifestação. E quanto a trabalho realizado, a realidade é esta:  das promessas que fez na anterior campanha executou apenas nove das 30 medidas mais importantes que então prometeu. Em contrapartida fez muita coisa de que nem falou na sua anterior campanha, nomeadamente tornar o trânsito em Lisboa num inferno, tornar a vida na cidade mais desconfortável para quem cá vive. Termino a citar Isabel Diaz Ayuso, Presidente da Comunidade de Madrid, que nas mais recentes eleições derrotou a esquerda, numa mensagem que dirigiu a Carlos Moedas: “Como em Madrid, há que libertar Lisboa das políticas socialistas fracassadas e do seu amiguismo para que os cidadãos e empresas cresçam em liberdade, numa sociedade pujante, uma Lisboa livre, aberta a todos. Socialismo ou Liberdade?”. No fundo, é isto.


 


Publicado em https://multinews.sapo.pt/opiniao/governo-ou-central-de-propaganda-socialismo-ou-liberdade/