junho 25, 2021

SOBRE O RENDIMENTO MÍNIMO DA POLÍTICA

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A MERCEARIA PARTIDÁRIA -  Desde há muitos anos que, dentro das minhas preferências políticas e ideológicas, vivo como independente no espectro partidário. Tenho votado de forma diversa nas várias eleições - presidenciais, legislativas e autárquicas - e mesmo aqui, por vezes, de forma diferente para a Câmara, a Assembleia Municipal ou a Junta de Freguesia. E muitas vezes votei até fora do que são as minhas opções mais recorrentes - dependendo de quem estava nas listas e da conjuntura. Vejo assim a política: isto não é um clube, não devo fidelidades se enquanto cidadão as não sentir da parte dos eleitos ou daqueles em quem votei. E já aconteceu mesmo aceitar ser candidato, como independente, numa eleição autárquica. E, recordando esse tempo, leio a carta que António Oliveira enviou explicando porque não se candidata afinal à Câmara de Gaia e devo dizer que o percebo perfeitamente. De certa forma sei do que fala, reconheço as pressões (embora o meu lugar fosse bem mais modesto), vejo os jogos de bastidores. Nessa altura senti que o papel dos independentes se esgota no dia das eleições, de flor na lapela passam rapidamente para ramos murchos descartáveis. Não conheço António Oliveira, não tenho opinião sobre ele, mas o que disse sobre o que se passou com as estruturas partidárias locais desde essa altura não me espanta. Infelizmente a política é dos aparelhos partidários, um monopólio protegido com unhas e dentes e que visa impedir novas ideias. Percebo bem o que António Oliveira escreveu quando disse, apesar de ser militante do PSD há muitos anos, que a sua atitude não era uma desistência, era uma questão de higiene: ”Ao longo de três meses fui sujeito a pressões, intimidações e ameaças. Tentaram impor-me o pior da “mercearia partidária” e tentaram envolver-me nas mais inacreditáveis negociatas de lugares. Enfim, quiseram obrigar-me a empregar os beneficiários do rendimento mínimo da política.” Rui Rio até agora não comentou. Há silêncios muito barulhentos.





SEMANADA - Sete em cada dez concursos para dirigentes do Estado são viciados; a Câmara der Lisboa entregou dados pessoais dos organizadores de 52 protestos e mnanifestações e a auditoria realizada mostra que na Câmara Municipal de Lisboa não existiram mecanismos de controlo interno, escrutínio e fiscalização do seu funcionamento, ou seja o Gabinete do Presidente da autarquia esteve em autogestão; Fernando Medina recusou-se a tirar consequências políticas do sucedido, mas encontrou rapidamente um bode expiatório que demitiu, demissão considerada ilegal pela Associação dos Profissionais de Protecção de Dados; mais de 40% das camas para estudantes universitários prometidas pelo Governo não têm ainda uma data prevista para poderem começar a ser usadas; no ano passado 61% dos portugueses não foram de férias para fora das suas residências habituais; em 2020 o número de portugueses que emigraram caíu para metade em relação ao ano anterior; o número de internados por Covid-19 mais que duplicou no espaço de um mês; Portugal é o 2º país com mais novos casos de covid-19, logo atrás do Reino Unido e  é o país da União Europeia com mais casos de Covid-19 por milhão de habitantes; já em matéria de finanças, Portugal perde para a Espanha e Grécia na comparação com o efeito no PIB dos fundos da bazuca europeia; como explicou João Miguel Tavares, o Primeiro Ministro António Costa definiu o projecto para Portugal, numa pergunta com apenas cinco palavras, que  dirigiu a Ursula von der Leyen: “Já posso ir ao banco?”; o rendimento médio anual dos portugueses caíu de 10.100 euros em 2019 para 9.100 em 2020.


 


O ARCO DA VELHA - A Segurança Social transferiu 788 mil euros, por engano, a título de subsídio de desemprego, o beneficiário alertou ele próprio para o erro e quis devolver o dinheiro, mas teve de responder à PJ por um alegado crime de abuso de confiança e branqueamento de capitais e ficou impedido de fazer operações bancárias.


 


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VER A QUATRO MÃOS - André Gomes e Pedro Calapez trabalham de forma bem diversa. Calapez com tintas e pincéis, Gomes com fotografia e digital. Em comum têm a capacidade de imaginar o que vão fazer com os seus instrumentos de trabalho e utilizá-los de forma criativa. Há uma relação de complementaridade bem evidente na exposição agora patente no Museu Berardo, da autoria de ambos, “Seja dia ou seja noite pouco importa”. De certa forma é como um recital de piano a quatro mãos. Pedro Calapez nos últimos tempos vem introduzindo na sua obra formas novas para mostrar o que vê e o que imagina. E André Gomes explora cada vez mais as possibilidades de encenação e de transformação que a imagem fotográfica digital permite - não para alterar a realidade, mas para visualizar o seu pensamento. No fundo prossegue o trabalho que iniciou com imagens em polaroid há alguns anos. No catálogo da exposição Alexandre Melo cita André Gomes sobre as possibilidades que as técnicas digitais lhe abrem: “permitem ir mais fundo dentro de mim, exteriorizar reminiscências que permitem uma especulação meditativa”. “As imagens visíveis-  diz Alexandre Melo  - que o artista connosco partilhou são o resultado de uma sofisticada negociação entre as imagens concretas - fotografias - que foi utilizando e as imagens abstratas do seu imaginário pessoal que, essas, o foram usando a ele.”  E, sobre o trabalho de Pedro Calapez, Alexandre Melo sublinha: “As pinturas (abstratas e informais, diríamos simplificando) que constituem o essencial do trabalho de Calapez no século XXI resultariam de uma radicalização do método de elisão da dimensão narrativa praticado desde o início da sua carreira, e que agora o liberta também da necessidade de explicitar qualquer enquadramento espacial ou referência objetual exteriores à materialidade da própria pintura.” A exposição, permanentemente colocando em diálogo a obra de ambos os artistas, começa por dois vídeos, um de André Gomes, outro de Calapez, que nos últimos tempos vem experimentando esta forma de expressão. 


 


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BOAS IDEIAS PARA PORTUGAL- Joaquim Miranda Sarmento é um economista, professor no ISEG, presidente do Conselho Estratégico Nacional do PSD. Nessa qualidade apresentou em 2020 um “Programa de Recuperação Económica”, na altura divulgado como uma alternativa dos social-democratas ao PRR do Governo. Como Luís Marques escreveu no “Expresso” da semana passada, esse plano “é das poucas coisas boas que Rio tem para apresentar como suposto líder da oposição”. Mas, sublinha ainda Luís Marques,  Rui Rio é “um político que não perde uma oportunidade de estragar, ou esquecer, uma boa ideia”. E assim como esse plano foi apresentado, desapareceu e nunca mais se ouviu falar dele. Felizmente Joaquim Miranda Sarmento juntou num livro, apresentado esta semana, “Portugal - Liberdade e Esperança”, a sua visão sobre o país e o que propõe fazer  para tentar resgatar Portugal de 20 anos de estagnação económica, com uma visão para Portugal no horizonte de 2023. O autor recorda que nos anos 70, 80 e 90, Portugal cresceu acima da média europeia mas, a partir do início do século XXI, estagnou e caiu para a cauda da Europa. Joaquim Miranda Sarmento defende que urge alterar este modelo económico, sob pena de virmos a ter mais 20 ou 30 anos com os mesmos resultados e defende uma atuação em quatro eixos: a reforma das instituições, a valorização do capital humano, a melhoria da competitividade da economia e o confronto com a questão demográfica. Pelo meio debruça-se sobre temas  como a necessidade de reformas estruturais na área fiscal, das finanças públicas, do sistema de justiça, dos serviços públicos, propondo, em resumo, uma nova visão para Portugal.


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SIMPLICIDADE EFICAZ - O nome de Francisco da Silva esconde-se por detrás da marca que criou para o seu projecto musical, o qual vem desenvolvendo desde 2002. O nome que escolheu, Old Jerusalem, vem de uma canção de Will Oldham, um músico americano que é uma das suas influências. Desde 2002 Francisco Silva tem trabalhado em várias etapas do seu projecto Old Jerusalem, a começar pela estreia discográfica em 2002, com “Old & Alla”. Depois foram publicados mais oito discos, o mais recente dos quais, agora lançado, é “Certain Rivers” - nome que Francisco Silva foi buscar a uma citação do poeta polaco Czeslaw Milosz, Nobel da literatura de 1980: “Quando sofremos, regressamos às margens de certos rios”. O conceito musical do projecto Old Jerusalem é geralmente minimalista, voz e guitarra como base segura, melodias delicadas, letras escolhidas e trabalhadas. Mas neste “Certain Rivers” a simplicidade é levada ao extremo - fazendo aliás viver as suas 10 canções com uma maior intensidade que o seu próprio despojamento amplifica. Numa entrevista recente Francisco Silva sublinhou que as suas canções “falam bastante sobre e sensação da passagem do tempo, e de regressarmos mentalmente aos pontos de tempo de conforto, as nossas referências, as memórias fundacionais, as coisas que são âncoras para a nossa existência”. Este é o retrato de “Certain Rivers” e de Old Jerusalem, um projecto que é dos melhores e mais consistentes da música portuguesa.


 


PETISCO PARA ESTES DIAS DE VERÃO - Oficialmente estamos no verão, de maneira que é boa altura de falar de um prato fácil de fazer e que combina tradições gastronómicas de várias geografias. A ideia é um couscous de carapau de conserva. Escusa de começar a franzir os olhos e leia mais um bocadinho. O início é sempre igual: começa-se por hidratar os couscous com água ou caldo aromático, depois adiciona-se hortelã picada, a laranja em gomos e tomate cherry cortado em quartos. Deve guardar a casca da laranja para utilizar a raspa respectiva que é então misturada no couscous já humedecido. Mexa duas ou três vezes para o couscous encorpar, verifique se necessita de mais caldo, tempere com sal, pimenta negra moída na altura, azeite e, se quiser, um pouco de vinagre de sidra. Por fim deixe repousar até absorver todo o líquido. Coloque um punhado de folhas de rúcula por cima e, no final, os filetes de carapau de conserva, tendo o cuidado prévio de escorrer bem o azeite em que vêm. Acompanhe com um rosé bem fresco.


 


DIXIT - “Não convergimos porque há pouca inovação. É de inovação que o país precisa para fazer produtos com maior valor acrescentado.” - Luís Valente de Oliveira


 


BACK TO BASICS - “A inovação é o que distingue um líder de um mero seguidor” - Steve Jobs


(Publicado no Weekend do Jornal de Negócios de 25 de Junho de 2021)








junho 18, 2021

A GRANDE ILUSÃO

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A RESPONSABILIDADE DA LIBERDADE - Ora adivinhem lá quem salvou Medina de um voto de censura na Assembleia Municipal, no caso dos dados pessoais de manifestantes fornecidos a embaixadas estrangeiras, entre as quais a da Rússia? Se disseram PCP acertaram. Estamos pois conversados - até o Bloco de Esquerda se pôs de fora da confusão e votou contra. Já que o caso envolveu igualmente o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Administração Interna, que também esconderam conhecer o assunto, espero que alguém apresente um voto de protesto pelo sucedido na Assembleia da República para ver o que lá acontece: quais os partidos que na casa da Democracia acham normal enviar dados pessoais a embaixadas estrangeiras e quais os que censuram o que se passou. E o que se passou foi que o Gabinete do Presidente da Câmara enviou nomes, moradas e contactos de manifestantes que protestavam contra as acções dos governos da Rússia, da Venezuela, de Israel e da China às respectivas embaixadas. O que se passou não foi um problema burocrático - não nos tomem por parvos - o atendimento não foi num guichet de um serviço anónimo mas no gabinete de apoio ao próprio Presidente da autarquia. O que verdadeiramente me preocupa é a maneira como o centro de poder da Câmara funciona. Um bom amigo chamou-me a atenção para uma evidência: este episódio atesta incompetência, mostra a falta de capacidade de Medina para gerir o seu próprio gabinete, evidencia uma acção que prejudica os lisboetas e a cidade e causa danos à reputação do país. Este é mais um caso que evidencia que o Governo da cidade necessita de mudanças profundas. Medina, no entanto,  escolheu fugir às suas responsabilidades políticas enquanto anda atarefado em inaugurações de obras incompletas. Na realidade o actual Presidente da Câmara de Lisboa  deixou de ter autoridade para se recandidatar. Este incidente foi a última gota de água para se perceber como Medina funciona - em modo exibicionista para celebrar, e em modo escondido para assumir responsabilidades. Medina e o PS preferem continuar entretidos a chuchar no dedo e a olhar para o lado, a ver se o assunto cai em esquecimento. A liberdade traz responsabilidades, não gosta de quem se esconde atrás de desculpas manhosas. 


 


SEMANADA - Um inquérito da organização Transparência Internacional indica que 60% dos portugueses classificam como “mau” o desempenho do Governo no combate à corrupção; o mesmo estudo coloca Portugal no terceiro lugar, entre os países da União Europeia, na percepção da gravidade da corrupção; quase 90% dos portugueses acreditam que há corrupção no Governo; o Conselho Superior da Magistratura considera que as propostas do PS, Bloco e PAN sobre a ocultação de riqueza têm efeito prático reduzido; da zona dos mármores no Alentejo são transportadas por ano 300 mil toneladas de pedra em 11.700 camiões e não está previsto um terminal de mercadorias ferroviário na zona, o que permitiria poupar 2600 toneladas de CO2 por ano; com autárquicas à vista o Parque Ribeiro Telles foi inaugurado no Domingo passado por Fernando Medina apesar de não estar concluído e de as obras continuarem; o programa de financiamentos ao desenvolvimento da economia baseada no mar só executou um quarto do orçamento em cinco anos e empresários do sector queixam-se de cativações e de ineficácia do sistema que está a gerir o processo; o Instituto Bruegel elaborou um estudo em que Portugal aparece como um dos países europeus mais lentos na sua planificação da utilização dos fundos da bazuca; segundo uma associação do sector das telecomunicações Portugal é dos países europeus mais atrasados em matéria de 5G.


 


O ARCO DA VELHA - A Câmara Municipal de Lisboa tem cerca de 13.000 funcionários, ou seja um por cada 38 habitantes da cidade. Entre os funcionários da CML contam-se 381 advogados, 159 relações públicas, 443 arquitectos e 168 historiadores, entre muitas outras profissões.


 


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A FORÇA DO DESENHO - Não há fome que não dê em fartura e Lisboa está cheia de boas exposições e hoje destaco duas delas. Começo pela Sociedade Nacional de Belas Artes onde decorre uma exposição dedicada à obra de Gaëtan, um artista português, desaparecido em 2019 aos 75 anos, cuja obra se desenvolveu essencialmente na área do desenho. No texto que apresenta a exposição, assinado pelos seus curadores, Alberto Caetano e Rui Sanches, sublinha-se que a obra plástica de Gaëtan ficou identificada com a auto-representação, “desenhando de forma regular e persistente o seu rosto, olhando-se no espelho”. Gaëtan era destro mas desenhava propositadamente com a mão esquerda para “evitar as armadilhas da representação correcta da factualidade do modelo que tinha perante si”. Gaëtan dava aos seus desenhos, em séries ou individuais, títulos que remeteram para referências literárias, musicais ou cinéfilas, muitas vezes com um humor especial, sempre com um traço marcante. Esta exposição tem uma montagem absolutamente exemplar, que nos ajuda a conhecer melhor o percurso de Gaëtan (na imagem). Outra exposição fundamental está na Gulbenkian - “Tudo O Que Eu Quero”, uma mostra dedicada à obra de mulheres que se destacaram no panorama das artes plásticas em Portugal entre 1900 e 2020. Com curadoria de Helena de Freitas e Bruno Marchand a exposição agrupa duas centenas de obras de 40 artistas portuguesas  como Maria Helena Vieira da Silva, Lourdes Castro, Paula Rego, Ana Vieira, Helena Almeida, Joana Vasconcelos, Maria José Oliveira, ou Fernanda Fragateiro entre muitas outras. Numa selecção é sempre difícil escolher, mas tenho pena que esteja ausente a obra de Maria Beatriz, uma artista portuguesa que fez da libertação e emancipação da mulher o tema de muitas das suas obras. Maria Beatriz morreu o ano passado na Holanda, onde vivia desde 1970, e o seu espólio está em Lisboa, guardado, ao que me dizem, em más condições de conservação.


 


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O POP E O ROCK - Liz Phair é uma cantora e compositora norte-americana, discreta mas com uma obra importante. E, acima de tudo, é uma grande escritora de canções - há mesmo quem diga que ele é das mais relevantes escritoras de canções dos últimos 30 anos, como a revista Rolling Stone. O seu último disco de originais datava de 2010 e agora publicou “Soberish”. Ela fez o seu percurso desde a primeira metade dos anos 90 no rock alternativo e o seu primeiro disco data de 1993, “Exile in Guyville”. Este novo álbum retoma temas que lhe são caros: a amizade, a descrição e o amor que ela deseja. Brad Wood, que produziu o seu álbum de estreia e o seguinte, “Whip-Smart”, foi chamado para trabalhar nas 13 canções deste “Soberish”, mais a meio caminho entre o pop e o rock que o caminho mais alternativo do início da carreira de Liz Phair. “Hey Lou”, o terceiro tema do disco bem pode servir como cartão de visita e mostra bem a forma como Liz ela usa as palavras: “No one knows what to think when you’re acting like an asshole/Spilling all the drinks, talking shit about Warhol.” Ou, como na abertura do tema “Good Side”: “There are so many ways to fuck up a life/ I’ve tried to be original”. Estas palavras duras são a face conhecida de Liz Phair, contrastam com o pop rock que ela adoptou em “Soberish” e o resultado é completamente inesperado. Sinal destes tempos.


 


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O PETISCO EXPLICADO  - Maria de Lourdes Modesto,  é uma das maiores estudiosas e divulgadoras da tradição culinária portuguesa, com numerosos livros publicados. Tornou-se popular graças a um programa culinário que apresentou na RTP desde 1958 e ao longo de 12 anos, depois de ter sido professora no Liceu Francês, em Lisboa. Foi a pioneira portuguesa do “live cooking”. Apaixonada pela cozinha alentejana e de outras regiões de Portugal,  escreveu vários livros de cozinha portuguesa, dos quais se destacam a Grande Enciclopédia da Cozinha, Cozinha Tradicional Portuguesa (o livro de culinária mais vendido em Portugal) e Receitas Escolhidas. Agora, aos 91 anos, acaba de lançar “Coisas Que Eu Sei”, que recolhe alguns artigos publicados na imprensa nos últimos anos, mas também material original. São 185 páginas que percorrem conselhos sobre sopas, recomendações sobre produtos sazonais, especialidades regionais como as bolas e folares transmontanos, o papel do gengibre ou da courgette, o tesouro dentro do mel, guloseimas do arroz doce à marmelada, culminando com recomendações para uma ceia de Natal bem sucedida. Neste novo livro, “Coisas Que Eu Sei”, Maria de Lourdes Modesto escreve: «Para o bem e para o mal, Portugal vive um momen­to de grande euforia gastronómica. Se é verdade que hoje, ao contrário do que acontecia há 50 anos, já é possível encontrar na restauração cozinha tradicional em todo o país, não é menos verdade que o risco de desfiguração e perda se tornou superlativo. Não pensem que têm pela frente a padeira de Al­jubarrota da cozinha tradicional, inflexível a qualquer mudança. Apenas se pede que separem as águas — a chamada cozinha de autor não tem memória, é por re­gra, irrepetível. A tradicional é factor de identificação de uma região, de um grupo, de um país, e quer-se bem copiada.»


 


GOSTO COIMBRÃO - Do Tacho é um pequeno restaurante no centro de Coimbra, pouco mais que meia dúzia de mesas no interior e uma mini esplanada na rua. O restaurante existe há poucos anos mas tem uma personalidade vincada, baseada em produtos sazonais e especialidades portuguesas. Na mesa, à chegada, estão azeitonas alentejanas britadas, azeite de Macedo de Cavaleiros, pão de abóbora e nozes e pão de mistura, ambos fresquíssimos e estaladiços. Destaco o serviço de vinhos, baseado em provas de pequenos produtores da região. De entrada provou-se um excelente espumante Alazão rosé, bruto, da Bairrada. E depois seguiu-se um tinto reserva da Casa do Canto, também da Bairrada. Os pratos escolhidos foram bacalhau confitado e favas com enchidos, e pelo meio apareceu em jeito de brinde tostas com cachaço em redução de vinho do Porto. As escolhas vieram perfeitas, a posta do bacalhau de boa qualidade e os enchidos superlativos numa confecção cuidada das favas, tenras, mas sem virem afogadas em molho. A costela era outra opção que numa mesa ao lado era apreciada, e tem um porte notável. O serviço muito simpático e eficaz. Reserva necessária. Rua da Moeda 20, Coimbra, telefones 911 925 961 e 239 197 830.


 


DIXIT -“Preciso das minhas memórias. Elas são os meus documentos.”- Louise Bourgeois 


 


BACK TO BASICS - “A liberdade tem um valor inestimável” - Cícero


 


 








junho 11, 2021

ELE HÁ QUEM SE APROVEITE...

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FESTA É FESTA - A mais recente novela da TVI, que tem dado dores de cabeça à concorrência, chama-se “Festa É Festa” e é vista regularmente por mais de um milhão de espectadores. Mas não é de novelas que se trata e sim do que se vem passando no país após ano e meio de pandemia, confinamentos variados e uma acentuada quebra da economia portuguesa. É com este pano de fundo que os cidadãos assistem ao que se passa. Para começar com festa recordo que o Ministro da Economia, que tutela o sector do Turismo, achou por bem há algumas semanas ir passear num cruzeiro no Douro oferecido por Mário Ferreira, com quem o Estado tem um contencioso, devido à recusa de autorização em zona protegida da construção de um novo hotel no Douro, o local do passeio. O Ministro conviveu sorridente com o patrão da TVI e com a estridente Cristina Ferreira e ocorreu-me que um Ministro podia ter mais recato. Há dias soube-se também que a deputada do PS Ana Paula Vitorino foi a escolhida pelo ministro Pedro Nuno dos Santos para presidir à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes com um salário superior a 12 mil euros mensais. Por falar em Pedro Nuno dos Santos soube-se esta semana que um seu ex-chefe de gabinete e ex-deputado do PS, Nuno Costa Araújo, entretanto colocado como Presidente dos portos do Douro,  Leixões e Viana do Castelo, é suspeito de corrupção numa investigação sobre ajustes directos de várias autarquias nos últimos cinco anos à empresa de que Araújo era sócio-gerente. Para continuar a festa Pedro Adão e Silva, ex Secretário Nacional do PS durante a liderança de Ferro Rodrigues e entretanto tornado comentador político em defesa do Partido Socialista, foi nomeado responsável pelas comemorações do 50º aniversário do 25 de Abril, durante cinco anos, seis meses e 24 dias, ou seja mais de dois anos depois de realizadas as comemorações. Assim a celebração dos 50 anos do êxito do Movimento dos Capitães, que restaurou a liberdade, o pluralismo político e que acabou com uma ditadura, foram entregues a um propagandista partidário. Se isto tudo não é uma festança, digam-me lá que nome lhe hei-de colocar?


 


SEMANADA - Três quartos da queda do PIB deve-se ao colapso do turismo; onze meses depois de aprovada a bazuca de fundos europeus continua no papel e durante a presidência portuguesa da comunidade a coisa não avançou; os espanhóis propuseram uma ligação de comboio directa entre Madrid e Lisboa via Badajoz e Elvas mas a CP prefere a ligação com passagem por Salamanca, Vilar Formoso e Guarda; a líder da bancada parlamentar do PS pediu sensatez ao ministro Pedro Nuno Santos por causa dos comentários do governante sobre a Ryanair; apesar de ter anunciado lucros o Novo Banco pretende receber mais 600 milhões de euros do Estado; a taxa de sucesso da Autoridade Tributária nos conflitos com os contribuintes caíu para o valor mais baixo dos últimos dez anos; o apoio do Estado para pagar rendas de casa a pessoas em dificuldades durante a pandemia chegou apenas a 769 famílias e com atrasos consideráveis, quer na resposta aos pedidos, quer no recebimento de apoios; o secretário-geral do PSD, José Silvano vai a julgamento por faltas na Assembleia da República acusado de falsificação da presença em plenário; o PAN anunciou querer chegar ao Governo em 2023; o novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo, no discurso de posse do cargo, acusou a classe política de inércia; argumentando falta de diálogo democrático, demitiram-se 7 dos 17 peritos nomeados pelo Governo para elaborarem a estratégia portuguesa para uma nova Política Agrícola Comum europeia; numa análise preliminar do instituto Bruegel, Portugal é dos países onde a componente ambiental tem menos peso nas escolhas dos projectos a executar com o dinheiro do fundo de recuperação europeu; durante a pandemia a produção de cannabis em casa para autoconsumo disparou devido à escassez de produto no mercado.


 


O ARCO DA VELHA - Numa só semana o Ministério dos Negócios Estrangeiros desentendeu-se com o Reino Unido e Espanha no contexto da pandemia segundo o velho princípio “depois de casa roubada, trancas à porta”.


 


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ARTE POLÍTICA - Ai Weiwei, cuja exposição “Rapture” inaugurou em Lisboa no início de Junho, é considerado um dos maiores artistas contemporâneos e, no ano passado, o site Artnews considerou-o o artista plástico mais popular e influente no mundo. Esta sua exposição é a maior que já fez na Europa e ocupa cerca de 4 mil metros quadrados na Cordoaria Nacional, onde apresenta 85 peças, até finais de Novembro. A exposição foi produzida expressamente para ser apresentada em Portugal por uma empresa privada que nos últimos anos tem trabalhado esta área, a Everything Is New, de Álvaro Covões. Assumir posições políticas  faz parte da  personalidade de Ai Wewei há muito - ele tem 63 anos, é filho de um poeta que foi amigo de Mao Zedong (e que foi perseguido no período da Revolução Cultural Chinesa). Weiwei tem sempre vivido combinando criativamente a política com a fantasia,  as suas obras são enormes, simbólicas, como as bicicletas que estão à entrada da Cordoaria ou as peças que criou para a Documenta na Alemanha ou para a Tate em Londres. Exilado desde 2015, Ai Weiwei vive hoje em dia em Portugal, em Montemor-O-Novo, depois de ter passado pelo Reino Unido e pela Alemanha. Apesar de ter sido um dos co-autores do emblemático estádio “Ninho de Pássaro” que marcou os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, Ai Weiwei foi detido em 2009 e em 2011 e viu o seu estúdio destruído pelas autoridades. Esta exposição, que junta peças de instituições oficiais e colecções particulares de diversos países, coloca também em confronto, pela primeira vez, algumas obras que nunca tinham sido montadas em simultâneo, além de quatro peças já produzidas em Portugal, com recurso a materiais como a cortiça ou o mármore alentejano. O brasileiro Marcelo Dantas é o curador desta exposição que mostra como o trabalho de Ai Weiwei reflecte sobre a privacidade, o controlo da informação, a desproporção entre o Estado, os poderes das corporações e a autonomia e liberdade dos indivíduos.


 


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UM EDITOR ESPIÃO - “Dr. B” é um fascinante livro sobre as atribulações de um editor literário. Passado em Estocolmo no clima da ascensão do nazismo  e da II Guerra Mundial, o livro tem como protagonista um jornalista judeu refugiado em Estocolmo, que se tornaria um «espião duplo», simultaneamente colaborador dos Serviços Secretos britânicos e alemães. Funcionário da célebre editora S. Fischer Verlag – a mesma que continuou a publicar na Suécia autores proibidos pelos nazis como Thomas Mann e Stefan Zweig – Immanuel Birnbaum entrou nos meandros do conflito que assolava a Europa. O autor de “Dr. B”, Daniel Birnbaum, é um prestigiado curador artístico e dirigiu as edições da Bienal de Veneza em 2003 e 2009, tendo sido director do Museu de Arte Moderna de Estocolmo. O protagonista desta aventura entre a literatura e a espionagem é um antepassado de Daniel Birnbaum e o título , “Dr. B.” evoca a assinatura que o editor-espião utilizava para assinar os seus artigos na imprensa, outras das suas actividades. Na década de 1940 Estocolmo era uma cidade de encruzilhada, entre emigrantes, expatriados, diplomatas e espiões. O livro é baseado em factos reais, reconstruído a partir de uma caixa de cartão repleta de documentos encontrada no sótão de uma casa de família. Uma narrativa cativante sobre a literatura e o cruzamento do jornalismo com a espionagem.


 


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BOWIE CANTA BREL - “The Width of a Circle” é o título de um duplo CD que reúne uma colecção de 21 temas de David Bowie, em versões até agora inéditas. As gravações foram efetuadas em 1970 e 1971, incluindo singles nunca agrupados em álbum, gravações feitas em programas da BBC, música composta para uma peça de teatro feita para televisão onde o próprio Bowie era actor, além de misturas inéditas de Tony Visconti, um dos músicos com quem Bowie mais trabalhou. Quatro canções mostram Bowie acompanhado pelos Hype, a sua banda da época, que incluía Tony Visconti no baixo e Mick Ronson na guitarra. O primeiro disco reproduz uma sessão de gravação feita para o “Sunday Show” de John Peel na BBC, gravado e emitido em Fevereiro de 1970. O primeiro tema é uma versão de “Amsterdam”, um original de Jacques Brel, em que Bowie toca guitarra acústica. Outras da curiosidades desta edição é uma versão de “I’m Waiting For The Man” dos Velvet Underground e dois inéditos de Bowie a solo, só voz e guitarra, em “Columbine” e “The Mirror”, temas compostos para a já referida peça teatral, intitulada “The Looking Glass Murder/ Pierrot in Turquoise”. Esta edição surge 50 anos depois do lançamento original de “The Man Who Sold The World”. Podem ouvir  “The Width of a Circle” nas plataformas de streaming.


 


A SARDINHA RECOMENDA-SE - Inaugurei esta semana a época das sardinhas, no Último Porto, um restaurante junto à Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos. A sua grelha nunca desilude e o peixe é variado e de primeira e nesta altura do ano as sardinhas ali servidas têm fama. A grelha aliás é um dos argumentos deste restaurante. O objectivo da escolha do restaurante era ir ao peixe da época e confesso que, estando nós ainda na primeira quinzena de Junho, tinha as minhas dúvidas sobre as sardinhas. Mas reconheço que o receio era injustificado. Vieram de bom porte, já avantajadas, saborosas, com boa textura. Até parece que as sardinhas este ano ganharam com o confinamento - talvez tenham andado menos barcos no mar e elas puderam crescer sossegadas. Estavam muito boas. Como acompanhamento o Último Porto é tradicionalista: batatas cozidas, salada de tomate, alface, cebola e pimento assado. Na mesa, estão azeitonas temperadas e, quando as sardinhas chegam, vem pão cortado às fatias grossas para que elas possam deixar a sua saborosa marca. Uma vez desaparecidas as sardinhas, o pão serve de petisco final. O Último Porto tem uma grande esplanada e duas salas e só está aberto ao almoço, escusa de pensar em ir lá jantar. Como a casa enche com frequência, o melhor é marcar. Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, telefone 213979498.


 


DIXIT - “Não gosto de viver num país que em nome do ‘interesse nacional’ trata pior os seus que os forasteiros de passagem” - Miguel Sousa Tavares


 


BACK TO BASICS - “Não estou aqui para agradar a ninguém com as respostas que dou” - William Shakespeare


 


 








junho 04, 2021

SEM REI NEM ROQUE

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O BURACO - O estado da nação resume-se a isto: a autoridade do Estado é um buraco. O próprio secretário de estado do desporto, face ao buraco, classificou como um sucesso a final da Champions no Porto. Indiferente às críticas de vários sectores políticos, sociais e desportivos,  o governante regozijou-se pelo comportamento dos que vieram assistir no estádio à final e que não cumpriram as regras em vigor no país sobre cuidados a ter em matéria de saúde pública em tempo de pandemia. Ficamos a saber que há um membro do Governo que entende que há dois critérios de aplicação da Lei e que se resume a isto: aos estrangeiros de visita tolera-se aquilo que aos portugueses é proibido. O próprio Primeiro Ministro foi suave na sua análise do sucedido e evitou comentar as críticas do Presidente da República à forma como os acontecimentos se desenrolaram e fugiu de falar  de um possível cenário de eventuais consequências políticas, que, a existirem, teriam que atingir o seu fiel escudeiro Cabrita. O que sucedeu foi grave, não só porque revela duas bitolas - até na forma de actuar das autoridades, que evitaram confrontos e terão mesmo recebido indicação para não dispersarem os visitantes britânicos se isso implicasse o uso da força. A saúde pública não pode ser uma moeda de troca na atracção do turismo. Não há lógica para permitir que quem nos visita possa estar sem máscara, sem distanciamento social, a consumir bebidas alcoólicas na via pública. Como salientou o médico Filipe Froes, o que correu mal foi o que era da responsabilidade das entidades oficiais. Não era má ideia começar a averiguar responsabilidades de quem deixa acontecer o impensável - porque não podemos ser todos a voltar a pagar os erros de alguns.


 


SEMANADA - A  Anacom recebeu 140 mil reclamações sobre serviços de comunicações entre 19 de Março de 2020 e 18 de Março de 2021; desde 2013 as rendas em Lisboa duplicaram e a capital portuguesa é agora a oitava mais cara da Europa; no último ano foram encerrados mais de 100 balcões bancários; 41 jogadores portugueses marcaram 175 golos nos principais campeonatos europeus durante esta época; entre Janeiro e Abril as multas por infracções ao código da estrada aumentaram 10% e atingiram o total de 30,7 milhões de euros, apesar das medidas da redução da circulação viária devido ao confinamento; mais de metade de arguidos em processos de cibercrime não são condenados; a escassez de materiais de construção provocou um aumento de preços que ultrapassa os 35%; as exportações de madeira e mobiliário para fora da Europa cresceram 24%; um estudo da OCDE indica que a reposição do PIB per capita em Portugal para os níveis pré-pandemia deverá demorar cerca de três anos, o que nos coloca como o terceiro país mais lento na recuperação entre os países mais desenvolvidos analisados; 90% das respostas ao Censos 2021 foram feitas pela internet; foi solicitada à Provedora de Justiça a averiguação de eventual inconstitucionalidade das isenções fiscais a entidades e pessoas envolvidas na final da Champions no Porto, isenções aprovadas pelo PS com uma abstenção maioritária e os votos contra apenas do Bloco e do PAN.


 


ARCO DA VELHA - O Ministério da Administração Interna autorizou que a GNR comprasse uma lancha que custou 8,5 milhões de euros e que duplica as funções de vigilância da Marinha portuguesa, sem disso dar conhecimento àquele ramo das Forças Armadas.


 


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DESCOBRIR - O catálogo digital da História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian recolhe toda a programação desenvolvida entre os anos de 1957 e de 2016, com dados sobre as 1343 exposições realizadas nesses 59 anos e com o acesso a cerca de 30.000 documentos associados, de convites a cartazes passando por  cartas, folhetos, catálogos, textos de imprensa, recensões e fotografias. São ainda incluídas cerca de duas mil publicações e o registo de 20 000 entidades associadas (entre artistas, curadores, emprestadores e organizações parceiras). Este enorme projecto foi desenvolvido entre 2014 e 2020 numa parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto de História da Arte (IHA), da Universidade NOVA de Lisboa, Sob a direção-geral de Helena de Freitas, que apresentou a ideia, e posteriormente de Leonor Nazaré, ambas pela Gulbenkian e de Raquel Henriques da Silva, pelo IHA. Dezena e meia de investigadores e cerca de 30 estudantes de diferentes instituições colaboraram também no desenvolvimento deste projecto digital. O website permite realizar pesquisas variadas. Será possível, por exemplo, ter um conhecimento aprofundado da regularidade com que um artista ou uma determinada nacionalidade foram representados, da frequência com que uma obra da Coleção Gulbenkian foi exposta ou da recorrência com que um tema ou tipologia foram abordados na história da Fundação. É uma base documental única na História de Arte em Portugal acessível a todos em www.gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes


 


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O SELO DE CHAFES  - O destaque desta semana vai para a escultura em ferro “Início Permanente” criada por Rui Chafes propositadamente para o espaço da Galeria da Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101, 3º). Segundo Rui Chafes «Início Permanente é o tempo em suspensão onde a vida e a não-vida, a morte e a não-morte, encontram a sua origem, o seu ponto de partida. » A escultura em ferro está colocada no chão de madeira, na penumbra do espaço da galeria e remete para a forma feminina da origem do mundo (na imagem). Rui Chafes acredita que “a origem da arte foi a tensão entre o sagrado e o profano e que devemos saber qual o nosso destino na terra”. Há uma intenção de recolhimento na forma como a peça é apresentada, levando quem a vê a procurar o seu significado. A Galeria da Casa A. Molder é um projecto da artista Adriana Molder, que recuperou a zona de exposições da mais antiga casa de filatelia do país, criada em 1943 por August Molder. A exposição está patente até 25 de Junho, aberta ao público durante a semana, no horário da tarde da Loja, das 15h30 às 19h, e aos fins-de-semana e Feriados por marcação. Outra sugestão: um novo projecto imobiliário apresentou-se na semana passada através de uma exposição, “New Era For Humanity” no Marvila Art District, num edifício de cinco andares do início da Rua Fernando Palha, que vai ser reabilitado como parte da reconversão de todo um quarteirão onde em tempos existiram armazéns e oficinas. Na exposição estão representados 27 artistas de Portugal, Angola, Nigéria, Itália, Bélgica, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Reino Unido, Moçambique e França. A exposição pode ser visitada até 7 de Agosto.


 


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BLUES DO MISSISSIPI - Os Black Keys fizeram em 2020 uma das derradeiras digressões nos Estados Unidos, antes do início da pandemia e do confinamento. Estavam a divulgar aquele que era então o seu novo álbum, “Let’s Rock”, após uma ausência de cinco anos das edições discográficas. Depois veio o confinamento e durante os meses de inatividade forçada dos concertos - que foram sempre uma base da actividade do grupo. E durante o confinamento este duo de músicos do Ohio dedicou-se à sua paixão - os blues do delta do Mississipi, a origem da sua produção musical. Dan Auerbach na voz e guitarra e Patrick Carney na bateria e produção constituem  os Black Keys. O duo com mais dois músicos convidados estiveram em estúdio, em Nashville, durante dez horas ao longo de dois dias e gravaram o seu décimo álbum e o repertório escolhido baseou-se em versões de temas de blues e rock que tinham aprendido quando estavam a começar a tocar. Assim nasceu este novo álbum, “Delta Kream”, acima de tudo uma homenagem a um dos expoentes dos blues do delta do Mississipi, Junior Kimbrough, que teve algum êxito no início dos anos 90 e que foi a inspiração directa de Auerbach e Carney. Nos discos dos Black Keys há várias versões de temas originais de Kimbrough e neste “Delta Kream” metade dos 12 temas são da sua autoria e dois foram compostos por outro bluesman, R.L Burnside. No disco há outra presença a evocar Kimbrough - o baixista escolhido pelos Black Keys, Eric Deaton, era um dos músicos que acompanhava regularmente o bluesman e para a slide guitar foi chamado Kenny Brown, uma lenda dos Mississipi Hill Country blues. Por curiosidade, uma das primeiras gravações dos Black Keys foi um original de Kimbrough, “Do The Rump”, que aparece de novo, numa nova versão, neste “Delta Kream”. Já agora, o tema inicial do álbum é “Crawling Kingsnake”, um original de John Lee Hooker, outra das suas referências. Se gostam de blues vão a correr ouvir a este disco a uma das plataformas de streaming.


 


CACHORRINHOS - Em 2017 nasceu no Porto a casa The Dog, dedicada aos cachorros quentes. A receita era simples: baguetes longas e finas, com salsicha e linguiça fresca, queijo que derrete quando vai à prensa quente, o pão um pouco tostado, salpicado no final com um fio de um molho levemente picante. Os amantes de sensações fortes podem pedir o molho mais puxado mas a receita standard já é magnífica. Os cachorrinhos vêm num prato comprido cortados em pedaços e acompanham com uma batatas fritas aos palitos finos feitas na hora. Como era de esperar a cerveja é a bebida de eleição no local, obviamente uma marca nortenha. The Dog tornou-se rapidamente um caso de sucesso na Rua 5 de Outubro, no Porto, com vendas diárias que por vezes ultrapassavam as 400 unidades. Além dos cachorrinho, que é a especialidade da casa, há várias variedades de pregos no pão, com carne da vazia,  um prego no prato servido com batata frita, queijo e fiambre e também um pica-pau que inclui a carne da vazia, linguiça e salsicha fresca, tudo aos pedaços e convenientemente temperado. Para emoções fortes há uma sanduíche de presunto com ovo estrelado no meio. The Dog abriu há poucas semanas em Lisboa, na Avenida Marquês de Tomar 25 B. O balcão, logo na entrada, tem duas dezenas de lugares, ao fundo há uma esplanada que pode acolher umas 30 pessoas e há ainda a possibilidade de encomendar e levar para casa. A equipa que dirige este prolongamento lisboeta veio do Porto, assim como a matéria prima para garantir que não há diferenças entre os dois restaurantes. O resultado é um petisco que pode ser viciante.


 


DIXIT - “Com a “Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital” o Estado prepara-se para pagar o funcionamento de uma rede infernal de delação, supervisão e vigilância (....) Salazar não faria melhor” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Nunca ensino os meus alunos. Limito-me a criar as condições para que eles possam aprender” - Albert Einstein.










maio 28, 2021

TEME- SE O PIOR

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A DIREITA  -  Aqui há uns anos a esquerda portuguesa reformulou-se e o Bloco foi o grande obreiro desse movimento. Inicialmente à esquerda do PCP, acabou por se alojar entre PS e PC e foi habilidosamente alargando esse espaço. Pegou em novas bandeiras de acordo com os tempos, trouxe um léxico diferente para a política e novos protagonistas. Foi o Bloco, mais que o PS, que dinamizou o motor da geringonça e perceber isso foi a arte de António Costa. E foi o Bloco quem mais se aproveitou, explorando a necessidade de António Costa, e, sobretudo, alimentando o flirt que tem mantido com a ala esquerda do PS, visível no namoro descarado a Pedro Nuno dos Santos. Enquanto o Bloco conseguiu ser um iman à esquerda, à direita campeia a desagregação. O PSD perdeu identidade e posicionamento, como oposição tem sido um falhanço sob a batuta de Rio, da mesma maneira que o CDS, que em dado momento cresceu, entrou numa fase minguante de onde não parece ser capaz de sair. As novas forças surgidas desse lado do espectro político levantam em doses iguais curiosidade e repulsa nos eleitorados que não são de esquerda. O centro direita desapareceu, vencido pela direita e o populismo, e as sondagens mostram que assim o futuro sorri a Costa. Como se viu no encontro do MEL - Movimento Europa e Liberdade - há demasiados galos para esta capoeira. E não há nenhum discurso mobilizador a não ser aquele que menos interessa, baseado na demagogia e no ódio. À direita falta um líder, um político agregador, visionário, apostado no progresso e não no regresso. Teme-se o pior.


 


SEMANADA - A Agência Portuguesa do Ambiente não aprovou a construção de uma ponte pedonal de madeira para acesso à praia de Cabanas, hoje em dia apenas assegurado por barcos com motores poluentes; começaram as obras de construção de um hotel com 128 quartos e sete pisos acima do solo no antigo Convento das Mónicas, local inscrito na Carta Municipal do Património, numa Zona Especial de Protecção, projecto aprovado quando Manuel Salgado era vereador do urbanismo da Câmara de Lisboa, em despacho da sua autoria, sem discussão em reunião de Câmara; o programa de compras de dívida e outros activos engordaram o balanço do Banco de Portugal que vale agora 192 mil milhões de euros, quase tanto como o PIB anual do país; em 2020, ano em que Mário Centeno iniciou o seu mandato de Governador do Banco de Portugal, as compras líquidas de obrigações do tesouro português mais do que quadriplicaram; o presidente do Tribunal de Contas foi chamado ao Parlamento na sequêncvia de indícios de que a secretaria-geral do Ministério da Administração Interna, sob a tutela de Eduardo Cabrita, prestou alegações falsas ao TC sobre pagamentos a empresas que prestam serviços à rede de comunicações de emergência, o SIRESP, cujo contrato  tem 47 anexos, dez deles secretos; a EMEL encomendou em 2019 um estudo sobre o estacionamento em Lisboa que ainda não tem data para ser divulgado; o Estado passou a deter 97,8% da TAP e o Tribunal de Justiça da União Europeia considerou ilegal a ajuda de 1200 milhoes de euros do Estado à companhia aérea no ano passado; a PSP sugeriu alterações ao conteúdo e diálogos de uma série de televisão e, face à recusa dos autores em fazer essas alterações, bloqueou o aluguer de fardas para as filmagens, cuja entrega chegou a estar agendada.


 


ARCO DA VELHA - Um homem que arrastou a mulher pelo pescoço na rua foi absolvido porque uma juíza do tribunal de Paredes considerou não haver crueldade suficiente para o acto ser considerado violência doméstica.


 


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ARTE INTERROGATIVA  - Cristina Ataíde mostra  até 26 de Junho, na Galeria Diferença, obras feitas em diversas épocas. A série de esculturas agora expostas data de 1994, mas os desenhos, quer os que estão colocados na parede, quer os que integram o livro de artista que acaba por ser uma peça marcante da exposição, são de 2021. E existe um desenho em papel chinês, suspenso, intitulado “Yes I Am!” , feito entre 2015 e 2021. Boa parte das esculturas integravam a exposição “Oposições” que Cristina Ataíde fez em 1994 na Galeria Graça Fonseca. Três décadas depois as esculturas aparecem de forma diferente em “Who Am I? Who Are You?”, com curadoria de João Silvério, um título que, segundo a artista,  relaciona a duplicidade e a diferença com a proximidade e a cumplicidade. O livro de artista é baseado num questionário, que os visitantes da Galeria são convidados a preencher, cada página de questionário acompanhada por um desenho inspirado nas imagens dos testes de Rorschach. Esta é uma exposição de peças marcantes, que, entre si, mostram os eixos maiores do trabalho da artista e a sua permanente evolução ao longo do tempo. Outro destaque: inserida no conjunto de eventos ligados à comemoração do centenário do nascimento de Ernesto de Sousa, um dos mais importantes artistas portugueses do século XX, criador de uma obra multidisciplinar e responsável pela divulgação da obra de muitos outros artistas, o Museu Nacional de Arte Contemporânea apresenta  “Meu Amigo - Obras e Documentos da Colecção Ernesto de Sousa”, que estará patente até 26 de Setembro proporcionando o cruzamento entre documentação e obras de arte que foram oferecidas a Ernesto de Sousa, ao longo da vida, por alguns dos mais relevantes artistas nacionais e internacionais, entre as décadas de 40 e 80 do século XX. São cerca de 124 obras, de 62 artistas: pintura, desenho, gravura, escultura, fotografia, objetos e documentação diversa, do neo-realismo à década de 80, de Almada Negreiros a Wolf Vostell passando por Joseph Beuys.


 


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OUTROS TEMPOS -  “O Homem Do Casaco Vermelho” é o novo romance de Julian Barnes, agora editado em Portugal. Tudo começa no verão de 1885 quando três cavalheiros franceses chegam a Londres: um era príncipe, outro era conde e o terceiro era um plebeu com apelido italiano. Este último, Samuel Pozzi, médico da melhor sociedade, pioneiro da ginecologia moderna e livre-pensador, com uma vida privada conturbada, era acompanhado pelo conde Robert de Montesquiou e pelo Príncipe de Polignac. O título do livro vem do retrato de Pozzi, pintado em 1881 por John Singer Sargent e que está na capa da obra. Nenhum era muito conhecido fora do círculo social parisiense, mas cada um deles alcançaria um certo grau de notoriedade e contentamento nos anos seguintes. “O Homem do Casaco Vermelho” é um esclarecedor e bem documentado retrato da Belle Époque e de um homem à frente do seu tempo. Pozzi era nas palavras da Princesa do Mónaco “irritantemente bonito” e aproveitava-se bem disso. Ao longo da narrativa surgem personagens como Sarah Bernhardt, com quem Pozzi teve um caso. Esta nova obra de Julian Barnes defende que foi a frutuosa e duradoura troca de ideias através do Canal da Mancha que criou a grandeza da Europa. Como The Guardian escreveu, “Barnes liberta-nos da superficialidade do presente e lembra-nos que sabemos sempre menos do que pensamos que sabemos”. Segundo o próprio autor, ao escrever este livro ele mergulhou na sociedade parisiense da Belle Époque, “distante, decadente, desordenada, violenta, narcisista e neurótica”,  em parte como sinal da desilusão que para ele foi o que classifica como a saída masoquista da Grã Bretanha da União Europeia. 


 


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REVISÃO DA MATÉRIA DADA -  Chrissie Hynde, a carismática voz e líder dos Pretenders, é uma fã de Dylan. Em 1984 esteve ao seu lado em Wembley a cantar “It’s All Over Now, Baby Blue” e em 91 fez uma versão de “I Shall Be Released” que o próprio Dylan elogiou. Pois bem, durante o confinamento Hynde decidiu pegar em canções menos conhecidas de Dylan, juntou nove delas, e gravou um álbum com uma produção simples e crua, com a ajuda do guitarrista James Walbourne, a que deu o título de “Standing In The Doorway”. A quase totalidade das canções escolhidas de Dylan vem da primeira metade dos anos 80, como a muito politicamente incorrecta “Sweetheart Like You”, que hoje facilmente levará o rótulo de manifesto sexista. Da mesma época há uma canção de namoro, “Don’t Fall Apart On Me Tonight”, completamente transformada do original que Dylan gravou, inspirado no reggae. Outros pontos altos são a interpretação de Hynde para “You’re A Big Girl Now" onde a voz e a guitarra acústica trazem, sozinhas, outra dimensão à versão original. “Standing In The Doorway”, a faixa título, saída do álbum de 1997 “Time Out Of Mind” tem também uma nova dimensão, entre o piano, a guitarra e a voz. E é a voz de Hynde, fora do registo original de Dylan, que torna este disco tão interessante - e que faz sobressair talvez a melhor de todas as versões aqui incluídas, “Blind Willie McTell”, do álbum “Infidels”, onde o piano, a harmónica, a guitarra acústica e o bandolim de Walbourne se encaixam na intensidade colocada por Chrissie Hynde na forma de cantar.


 


COZINHADO PACIENTE - O arroz negro não é fácil de cozinhar e, sobretudo, requer muita paciência. Convém lavá-lo primeiro em água corrente, e depois deixar escorrer. Eu ponho um pouco de azeite no fundo do tacho, com gengibre em lâminas finas, que salteio ligeiramente antes de adicionar o arroz. Não faz parte da receita original, mas é este o ponto em que deito um pouco de vinho branco de boa qualidade e depois mexo a deixar evaporar. Entretanto junto duas folhas de louro, sal a gosto e adiciono água, cerca do dobro da quantidade de arroz. Dou uma mexidela e tapo. O arroz negro precisa de cozer muito tempo, para o meu gosto não menos de uma hora. Tem que ser vigiado, ver se é preciso adicionar água, usar lume muito brando. Originário da China, este arroz é conhecido naquele país como o arroz proibido, por o seu uso estar reservado para os imperadores. Não o deixem cru - coisa que acontece se não tiver mesmo uma cozedura demorada. Os aromas e o sabor delicado só se libertam quando ele está bem cozido. Uma vez chegado ao ponto ideal coloco os troços de tentáculos de polvo, entretanto bem cozidos, envolvo-os bem no arroz, tempero com pimenta preta a gosto, moída na altura, desligo o fogão e tapo, deixando a repousar uns cinco minutos. No final, quando vai para  a mesa, polvilho com cebolinho. Se as duas cozeduras estiverem ok - a do arroz e a do polvo - sentirão uma explosão de sabores e poderão surpreender os convidados. Como dizem cá em casa, é coisa muito instagramável.


 


DIXIT - “Definir-se como anti-qualquer coisa é sempre uma redução do espírito e uma armadilha de pensamento” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A consistência é o derradeiro refúgio daqueles que não têm imaginação” - Oscar Wilde








maio 21, 2021

O MISTÉRIO DO BANCO

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FRUTA APODRECIDA NO PARLAMENTO - O romance da resolução do BES e do nascimento do Novo Banco já teria dado uma série de televisão nos Estados Unidos. Por aqui temos que nos contentar com as conversas na Comissão de Inquérito do Parlamento. Esta semana foi fértil em desenvolvimentos com os depoimentos do ex-Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, de um actual Vice-Governador, Luís Máximo dos Santos,  do Actual Governador Mário Centeno, do actual CEO do Banco, António Ramalho, e, noutro contexto também parlamentar, do Ministro Pedro Nuno dos Santos. Começo por este último que admitiu que o PS fez mal grande parte das privatizações. Já Mário Centeno, agora Governador do Banco de Portugal, passou seis horas no Parlamento a gabar-se do bem que tinha feito na questão do Novo Banco enquanto foi Ministro das Finanças. Pertence-lhe um dos momentos mais divertidos destes dias, ao dizer que defendeu a venda à Lone Star porque “foi preciso fazer um bom banco”. E, mais adiante, disse, com o seu habitual sorriso, que nunca escondeu que havia riscos na venda: “Em abril de 2017 vim ao Parlamento e utilizei 24 vezes nessa audição a palavra risco”. Carlos Costas, ex-Governador do Banco de Portugal na altura da venda, foi mais terra a terra, comparando a operação realizada à “venda de um cabaz de fruta que está parcialmente apodrecida”. Meros pormenores quando se olha para o relatório da Deloitte e se vê que os 20 grandes devedores do Novo Banco são responsáveis por 54% das perdas totais de activos.  Face a isto já nem admira que a actual administração da instituição, nomeada pela Lone Star, tenha seguido o princípio de auto-aumentar os bónus de gestão apesar dos grandes prejuízos registados - aquela curiosa situação em que se premeia a capacidade de obter maus resultados. 


 


SEMANADA - Nos primeiros quatro meses do ano o trabalho suplementar de médicos e enfermeiros aumentou 73% face a igual período do ano passado; o número de contratos a prazo no sector da saúde subiu 90,5% no primeiro trimestre deste ano quando comparado com o período homólogo do ano passado; em Abril havia 865 mil cidadãos sem médico atribuído nos cuidados de saúde primários, dos quais cerca de 620 mil viviam na região de Lisboa; As Forças Armadas devem 53 milhões de euros a fornecedores de saúde; o Tribunal de Contas concluiu que as Parcerias Público-Privadas  hospitalares “foram genericamente mais eficientes do que a média dos hospitais de gestão pública, com custos operacionais por doente mais baixos e com padrões de qualidade mais exigentes”; no final de março existiam mais de 90 mil trabalhadores com contratos  a termo no Estado, o número mais elevado de sempre; o número de funcionários públicos no final de Março era de 725.775, um aumento de 3% em relação ao ano anterior, o que significa que os trabalhadores da função pública representam cerca de 14% da população activa; em 10 anos a população residente reduziu 3% e a ativa reduziu 6%; os ciberataques em Portugal aumentaram 79% em 2020 em comparação com 2019.


 


ARCO DA VELHA - Segundo o Governo há 541 imóveis do património público que estão ao abandono e sem serem utilizados, mas diversos autarcas afirmam que a lista está incompleta.


 


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AS COLÓNIAS - O passado colonial português é motivo de polémicas e interpretações, mas faz parte da História que é fundamental conhecer para nos situarmos no tempo e para podermos olhar para o presente de forma lúcida. O 60º aniversário do início da guerra colonial é o pretexto para duas exposições neste momento patentes em Lisboa, que ajudam a perceber como o tema pode ser abordado. Comecemos por “Herança”, de Ana Vidigal e Nuno Nunes Ferreira, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (na imagem). Através  de arquivos pessoais, os dois artistas revisitam as suas memórias familiares, a partir das heranças recebidas dos pais, que tomaram parte nesse momento da história que colocou Portugal num conflito armado com outros países, então suas colónias. São exercícios bem diferentes  os de Ana Vidigal e de Nuno Nunes Ferreira - mas complementam-se: Vidigal reinterpretando a realidade da época, Nunes Ferreira metodicamente documentando a vida e a morte nesse tempo. A outra exposição  está no Padrão dos Descobrimentos e é baseada no testemunho fotográfico do colonialismo português - “Visões do Império”, com coordenação de Miguel Bandeira Jerónimo e Joana Pontes. Outras sugestões da semana: no Centro Português de Fotografia a Bienal de Fotografia do Porto sob o lema”O que Acontece Com o Mundo, Acontece Connosco” e no Centro de Artes Visuais- CAV, em Coimbra, até 4 de Junho,  pode ver as exposições “No More Racing in Circles – Just Pacing Within Lines of a Rectangle” de Tris Vonna-Michell e “A Temperança e o Louco” de Catarina de Oliveira.


 


PH06-ERNESTO-DE-SOUSA-CAPA.jpgAS IMAGENS DE ERNESTO - A colecção Ph. é uma iniciativa da Imprensa Nacional e a sua direcção editorial está bem entregue a Cláudio Garrudo, que já lançou livros dedicados a Jorge Molder, Paulo Nozolino, Helena Almeida, Fernando Lemos, José M. Rodrigues e, agora, Ernesto de Sousa. Esta é a única colecção regular dedicada à obra de autores portugueses que trabalham com a fotografia como meio de expressão artística - e é um bom exemplo do que deve ser o serviço público desempenhado por uma instituição como a Imprensa Nacional, que cria condições para que esta colecção e estas edições possam surgir. Este novo volume de Ernesto de Sousa, que surge agora em sintonia com um conjunto de iniciativas que assinala o seu centenário, é uma boa introdução ao seu trabalho. Ernesto de Sousa foi um artista com diversas actividades paralelas, todas elas centradas em descobrir e mostrar e em trazer para Portugal as tendências que se desenhavam por toda a Europa nos anos 70 e ainda 80, quando a sua actividade explodiu. Ele foi curador, crítico e ensaísta, passou pela  fotografia, o cinema e o teatro. Mas no caso da fotografia, que é o eixo da colecção Ph., Ernesto de Sousa deixou uma obra marcante, documentando, vendo e interpretando. Usando a imagem pura e a imagem alterada, combinando grafismo com fotografia, mostrando a realidade mas também reinterpretando-a. Como Emília Tavares escreve no texto de abertura do livro, Ernesto de Sousa abriu” horizontes ainda hoje actuantes sobre o prodigioso significado da imagem na cultura contemporânea”.


 


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MELODIAS DE SEMPRE - Na primavera de 1970, tinha eu 16 anos, caíu-me em cima um disco com canções como “Helpless”  e “Our House”. Fazia parte de um álbum então recém editado, um LP, vinil antes de haver qualquer outra coisa. Na capa, quatro nomes: Crosby, Still, Nash & Young. Os três primeiros tinham feito um ano antes um outro álbum que foi uma pedrada no charco. Vinham dos Byrds (David Crosby), dos Hollies  (Graham Nash) e dos Buffalo Springfield (Stephen Stills e Neil Young). Para mim os Buffalo Springfield eram o grande segredo escondido, o génio misterioso do rock californiano dessa época. Os quatro músicos eram quatro talentos explosivos e de dificil coexistência num único projecto. Young, para mim, era genial - e após todos estes anos continua a ser. Está na minha galeria pessoal de deuses musicais. Os quatro juntos fizeram este único disco, tiveram digressões difíceis, concertos cancelados, histórias de tudo o que possam imaginar. Mas o meu primeiro exemplar de  "Déjà Vu”, com os seus dez temas, cinco em cada lado do LP, gastou-se de tanto ser ouvido. “Teach Your Children", “Almost Cut My Hair”, “Helpless”, “Déjà Vu”, "Woodstock" e "Our House” são canções únicas e marcantes. Nunca me abandonam. Dei agora por mim a perceber que se passaram 50 anos sobre a edição original do álbum. Tenho-o em todos os formatos - em vinil na edição original, copiado para cassette que andava no carro e no walkman, em CD quando apareceu o formato e, agora, em ficheiro digital. Acreditem que continuo a emocionar-me quando ouço estas canções - e não é por saudosismo: é pelas palavras cantadas, pela música tocada, pela explosão de talento que saía daquele grupo. Foram cerca de seis meses de gravação, pensa-se que à volta de 800 horas de estúdio. Agora, para assinalar o 50º aniversário, uma nova edição acrescenta 38 registos inéditos, provenientes das sessões de gravação, com várias versões de cada tema. São cinco LPs de vinil ou quatro CD’s com um LP, além de um livro. 50 anos, meio século, é muito tempo. “Wordlessly watching, he waits by the window and wonders/ At the empty place inside” - isto , “Helpless”, diz tudo, não é?


 


O ORIENTE É SELVAGEM - Andava já há algum tempo para experimentar o Sauvage, um restaurante que fica no Campo Pequeno e que se apresenta como um ponto de encontro de várias gastronomias, europeias e de outras procedências. Sala simpática, serviço eficiente e simpático, espaço com medidas de segurança. Era noite de quinta-feira e a casa estava mais que bem composta. Começo por constatar que éramos provavelmente os clientes mais velhos deste restaurante, que claramente está nas preferências dos mais novos que não querem apenas fast food. A ementa é curiosa e vai dos risottos a pratos orientais, passando por uma fusão tão estranha quanto bem sucedida: um nigiri de pato em que uma fatia do peito do dito é apresentada saborosamente fumada por cima do arroz. A lista tem sugestões portuguesas, que vão do arroz de lingueirão à empada de perdiz, mas o desejo de aventura levou-nos para outras paragens. Além do já referido nigiri de pato como entrada a escolha recaíu num nasigoreng de legumes e num Pad Thai de camarão - portanto uma escolha a lembrar a Indonésia e a Tailândia. O vinho a copo, um branco Ribeiro Santo, do Dão, foi sugestão da casa e fez bom par com os pratos escolhidos. O Sauvage fica na Rua António Serpa 9, quase a chegar à Avenida da República e no site sauvage.pt pode fazer a reserva. Já que estamos em maré oriental esta semana voltei por acaso e com satisfação ao Sumaya, na Rua da Escola Politécnica 40, que já tinha experimentado antes do confinamento deste ano. As suas propostas libanesas continuam a agradar.


 


DIXIT - “Gouveia e Melo demonstra que a captação do sistema político-administrativo pelos aparelhos partidários não apenas promove incompetentes, como afasta talento. Espero que se não esqueça a lição e que concluam que as Forças Armadas servem para alguma coisa” - José Miguel Júdice


 


BACK TO BASICS - “Ser curioso desenvolve a vontade de aprender e querer aprender é sempre mais importante que querer ter razão” -  Jony Ive, que durante anos dirigiu o design dos produtos da Apple.








maio 14, 2021

CABRITA, GALAMBA & COSTA: O TRIO HARMONIA

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A PAISAGEM NACIONAL - O Ministro Eduardo Cabrita deu em fomentar ocupações de propriedades privadas, persistiu na sua teima, mais uma vez viu-se ultrapassado pelos acontecimentos e ficou envolvido em várias contradições, mas António Costa garantiu no Parlamento que tem um excelente Ministro da Administração Interna. Pelo seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa demorou cerca de uma semana a afirmar que é preciso tirar consequências políticas da situação em Odemira, considerando que existem problemas na inclusão de imigrantes. A propósito, toda a gente percebe a desgraça do que se passa em Odemira menos Cláudia Pereira, Secretária de Estado para Integração e as Migrações  que há um ano afirmou que “Odemira é um exemplo de integração de migrantes” mas que nas últimas semanas não deu sinal de vida. Mas a coisa não fica por aqui: Constança Urbana de Sousa, a antecessora de Cabrita na Administração Interna, que ficou conhecida pelo seu triste e cruel desempenho nos grandes incêndios de 2017, atirou-se com sanha às declarações de João Cravinho, que em 2018 tinha apresentado um plano de combate à corrupção, esquecido pelo governo de então, dirigido por José Sócrates. O mais curioso é que passados estes anos, e com o PS no poder, depois de todas as juras recentes de combate à corrupção, soube-se agora que este Governo de António Costa vai excluir do novo regime geral de prevenção da corrupção os gabinetes dos principais órgãos políticos e de todos os órgãos de soberania. Estamos pois conversados sobre a realidade dos factos. Nada que espante num Governo onde um dos seus membros, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, usou as palavras “estrume” e “asqueroso” para classificar um programa de informação da RTP que já colocou em causa a transparência das suas decisões na atribuição das concessões de exploração de lítio, sob a sua tutela.



SEMANADA - O impacto da pandemia no mundo do trabalho é quatro vezes maior do que aconteceu com a crise financeira de 2008; mais de dois milhões de portugueses, quase 60% dos trabalhadores por conta de outrem, têm uma remuneração mensal inferior a 800 euros; em dois anos o Estado recusou metade das candidaturas a cuidador informal; segundo um estudo da Universidade do Minho os professores consideram que o ensino à distância agravou as desigualdades entre alunos face às suas aprendizagens; segundo a Marktest, durante a pandemia e a alteração nos processos de trabalho e de ensino, verificou-se um grande aumento de utilização de auscultadores, que agora são utilizados por 4,7 milhões de portugueses;  desde o início da pandemia 55,8% dos migrantes viu os seus rendimentos mensais diminuídos, 53% sofreu um impacto negativo na sua atividade profissional e 32,4% estão em situação de desemprego; em 2020, durante a crise e a pandemia,  a carga fiscal em Portugal aumentou  para os 34,8% do PIB, um novo recorde; António José Seguro, ex-líder do PS, criticou os líderes europeus, incluindo António Costa, de “duplicidade” e de “matar a UE”; o juiz conselheiro José Manuel Quelhas disse no Parlamento que o Tribunal de Contas não tem dúvidas de que os financiamentos do Fundo de Resolução no Novo Banco são “dinheiro público” e “oneram os contribuintes”.


ARCO DA VELHA - Em 2017, Evgeny Kazarez assessorou o Banco de Portugal na venda do Novo Banco à Lone Star. Um ano depois, foi para o grupo americano, onde hoje é administrador. No Parlamento disse que não via conflito de interesses na situação.


 


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UM NOVO CALAPEZ - “Debaixo de Cada Cor” é o título escolhido por Pedro Calapez para o conjunto de novas obras que apresenta na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) até 31 de Julho. São duas dezenas de obras onde Calapez explora várias técnicas, algumas delas pouco usuais na sua obra, ao mesmo tempo que regressa ao trabalho a óleo sobre tela e, noutros casos, explora possibilidades de desenho. De diferentes formatos, as obras têm valores que vão dos 975€ aos 22.755€, e as que aqui se reproduzem estão indicadas a 4.950€. Ao mesmo tempo, noutra sala da galeria está “Desarrumada”, uma nova exposição de Rita Gaspar Vieira. Outras sugestões: na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16), Alexandre Farto, Aka Vhils, apresenta até 12 de Junho a sua  exposição, “Fenestra”, uma instalação de vídeo onde fragmentos de diversas cidades são projectados nas quatro paredes da sala da galeria; na Galeria Francisco Fino (rua Capitão Leitão 76), uma exposição de fotografia de José Pedro Cortes, “Corpo Capital”, mostra até 24 de Julho uma selecção de trabalhos recentes em torno do corpo humano, da natureza e da arquitectura; na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) está a primeira exposição de Carlos Alexandre Rodrigues, “Shadows As Memories”, na qual o artista, a partir de uma fábrica de cerâmica, ficciona e encena peças que evocam um tribunal onde se esgrimem argumentos. Finalmente na Covilhã abriu a 14 de maio a primeira edição do Diafragma - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, que em quatro espaços da cidade apresenta até 6 de Junho trabalhos de duas dezenas de autores de seis países. Entre as presenças portuguesas destaque para Duarte Belo e Luísa Ferreira.


 


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O DETECTIVE DOS AMORES -  O caso é este: no início de 1989, em Havana, um detective cubano, Mario Conde, é acordado pelo seu chefe para investigar o desaparecimento de Rafael Morin, dirigente de uma empresa estatal, homem de carreira brilhante e futuro promissor, desaparecido desde as celebrações do Ano Novo. Coincidência: Morin fora colega de escola de Conde e a mulher do desaparecido, Tamara, fazia parte da sua lista de amores passados. A Porto Editora começou agora a editar “Quarteto de Havana”, que agrupa como o nome indica, várias histórias do detective Mario Conde, a personagem criada por Leonardo Padura. Neste primeiro volume estão “Um Passado Perfeito”, a investigação do desaparecimento de Rafael Morin, e também “Ventos de Quaresma”, o relato de como Mario Conde foi chamado para resolver o estranho homicídio de uma exemplar professora de Química do Pré-universitário que, anos antes, também fez parte da sua lista de casos sentimentais. Ao mesmo tempo, Conde conhece Karina, uma amante de jazz por quem se perde de amores. E assim, Mario Conde vive dias onde a investigação se cruza com prazeres diversos, alguns vícios, o tráfico de influências, a fraude e a lembrança dos tempos de juventude. O jornal “The Independent” sublinhou que o conjunto de romances de Leonardo Padura sobre o detective cubano Mario Conde mudou a literatura policial latino-americana. O autor nasceu em Havana em 1955, estudou Filologia, trabalhou como guionista, jornalista e crítico, mas foram as aventuras de Mario Conde que lhe trouxeram fama e proveito.


 


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CANÇÕES DE AMOR - Volta e meia, mas é raro, uma voz de que nunca tinha ouvido falar cai-me em cima como um raio de luz. Quando essa voz é acompanhada por arranjos inesperados e inteligentes, executados por músicos virtuosos mas com sentimento (uma raridade - o mundo está cheio de gente que toca bem mas não põe alma no assunto) tudo fica ainda mais fascinante. “The Bitter Earth”, o novo álbum de Veronica Swift, é exemplar. Ela tem 27 anos, vem de uma família musical - o pai pianista de jazz e a mãe cantora. Começou a gravar e a cantar em público cedo - vai com cinco álbuns gravados em nome próprio e participou como convidada em mais uma dezena. Já recebeu prémios e reconhecimento e fez digressões com o trio de Benny Green e com Wynton Marsalis. Tem uma capacidade vocal invulgar e nos 13 temas que integram este novo disco há sobejas provas disso mesmo. Em “This Bitter Earth” ela volta ao cancioneiro norte-americano e aborda-o de forma inesperada como é bem prova a faixa título, que é também a primeira do disco. "This Bitter Earth” foi um dos grandes êxitos de Dinah Washington em 1960. Mas logo a seguir, em “How Lovely To Be A Woman” ela mostra a sua enorme versatilidade - e alguma ironia nestes tempos da era me too. Uma das suas interpretações mais poderosas neste disco é “He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)”, que ela encara como uma canção de amor, uma balada a que a guitarra de Armand Hirsch empresta um lado de balada, longe do original das Crystals. O pianista que acompanha Veronica Swift é Emmet Cohen, e o seu papel é decisivo em toda a estrutura musical do álbum. Ouçam este “This Bitter Earth",  disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCO RÁPIDO MULTI-REGIONAL- Hoje volto às receitas - não sem antes confirmar que no regresso à cidade comprovei que o Salsa & Coentros continua em grande forma e com a qualidade de sempre. Aquelas empadinhas, os ovos mexidos com túberas… é melhor não dizer mais nada. Vão lá experimentar. Mas passemos então à receita. É simples e faz-se rápido: puré de batata doce com filetes de atum de conserva em azeite virgem. Mas tem truque - que já direi à frente. Primeiro, convém que a batata doce seja de boa qualidade, de preferência com a polpa alaranjada. A ideia é uma batata doce média por pessoa. Primeiro descasca-se e parte-se às rodelas grossas e coze-se em água abundante, quando se picar bem com o garfo tira-se da água, escorre-se bem, e usando um garfo ou um esmagador, vai-se desfazendo a batata até ficar numa boa consistência - sem ser demasiado triturada. Nessa altura eu adiciono ao tacho com a batata já esmada uma colher de sopa bem medida de manteiga e misturo tudo muito bem em lume brando. No fim um pouco de pimenta preta moída de fresco e misturo bem tudo de novo. Emprato ao lado do atum (já digo qual) e polvilho o puré com cebolinho. E agora o atum: uma lata por pessoa, do açoreano Santa Catarina, variedade filete de atum temperado com gengibre (na Mercearia Açoreana existe esta marca em várias variedades). Vão ver que é uma bela refeição, rápida e cheia de sabores. Acompanha um encruzado do Dão. E remata com uns morangos de Palmela. Prato regional: batata doce de Aljezur, atum dos Açores, vinho do Dão e fruta de Palmela. 


DIXIT - “Como seria bom que a actual direcção do PSD, de vez em quando, pelo menos, apresentasse trabalho digno dese nome. Mas deve ser pedir muito” - Paula Teixeira da Cruz.


BACK TO BASICS - A educação é aquilo que fica depois de se esquecer o que foi ensinado  - B. F. Skinner, psicólogo e filósofo norte-americano.







maio 07, 2021

A PROPÓSITO DE LISBOA: A COLIGAÇÃO QUER MESMO VENCER?

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PARA QUE SERVE UMA COLIGAÇÃO? Creio que a ideia de uma coligação pré-eleitoral é garantir que os partidos que a integram tragam os seus melhores elementos para a lista de candidatos, contribuindo para que o objectivo de vitória nas urnas possa ser alcançado. Seria pois de esperar que o CDS, integrante da coligação que apoia a candidatura de Carlos Moedas à Câmara Municipal de Lisboa, trouxesse para o núcleo duro da contenda eleitoral aquele que foi o mais destacado vereador da oposição ao longo dos mandatos de Medina - João Gonçalves Pereira. Sem querer menorizar os evidentes méritos de Assunção Cristas nas últimas autárquicas de Lisboa, o resultado que ela obteve deveu-se muito ao conhecimento que João Gonçalves Pereira tem da cidade e dos seus problemas. Acontece no entanto que Gonçalves Pereira não é da facção de quem agora manda no CDS, Francisco Rodrigues dos Santos. E, por isso mesmo, o actual líder do CDS já deu sinais públicos de que não queria Gonçalves Pereira envolvido na próxima e dura disputa autárquica na capital. Eu tenho uma grande dificuldade em perceber estas coisas: porque é que os partidos políticos, em vez de se basearem em guerras internas, não se baseiam no reconhecimento do mérito e eficácia dos seus quadros? Fazem destas e depois queixam-se de que as pessoas não confiam nos políticos. As perguntas às quais o actual líder do CDS deve responder, são estas: qual a ideia de participar numa coligação se não se faz tudo para alcançar a vitória? Francisco Rodrigues dos Santos quer mesmo derrotar Medina, ou prefere ajudá-lo?


 


SEMANADA - Diogo Lacerda Machado, amigo e conselheiro do Primeiro-Ministro, é consultor de uma empresa britânica que tem um projecto de 3,5 mil milhões de euros em Sines, curiosamente anunciado com pompa por António Costa no passado dia 23 de Abril; uma sondagem recente indica que dois terços dos portugueses não confiam na justiça nem nos juízes; a meta estabelecida pelo Primeiro Ministro para entregar 26 mil casas a famílias carenciadas em Abril de 2024 vai derrapar mais de dois anos para o terceiro trimestre de 2026; o número de imigrantes em Portugal é agora cerca de 660 mil, mais setenta mil do que antes da pandemia; mais de 700 mil famílias deixaram de pagar os créditos no ano passado; a compra de automóveis está 40% abaixo do nível pré-covid; a adesão a contas bancárias de custo reduzido disparou 25% em 2020; segundo a Marktest no último ano duplicou o uso de apps em telemóvel para encomendar refeições; o Tribunal de Contas encontrou deficiências nos mecanismos de controlo dos pagamentos efectuados ao Novo Banco pelo Fundo de Resolução, na dependência do Banco de Portugal; a gestão do Novo Banco pretende receber um prémio de 1,9 milhões de euros depois de no exercício de 2020 ter registado um prejuízo de 1329 milhões; a dívida pública portuguesa alcançou novo máximo no final de Março, atingindo 275,3 mil milhões de euros; uma sondagem recente indica que só 10% dos portugueses consideram que vivem em plena democracia; em Portugal cerca de metade dos alunos de 15 anos não sabe distinguir factos de opiniões revela um relatório da OCDE.


 


ARCO DA VELHA - O Governo escondeu durante vários dias 1738 páginas de informações detalhadas sobre reformas e investimentos previstos no Plano de Resiliência, com datas e objectivos, entregues em Bruxelas, mas que só foram divulgadas em Lisboa após pressão pública.


 


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UM LONGO MISTÉRIO - “Tinta Simpática”, o novo livro de Patrick Mondiano agora editado em Portugal, foi publicado originalmente em 2019 e relata a investigação feita por um detective, Jean Eyben, sobre o desaparecimento de Noelle Lefebvre. A investigação parte de um cartão de identificação junto dos correios, que permitiria a Noelle levantar correspondência que lhe fosse endereçada para a posta restante. Um cartão com uma fotografia desvanecida, um nome e um carimbo dos correios eram a única pista que tinha. O jovem detective, então no início da carreira, falou com a porteira do prédio, foi verificar se existia correspondência, sentou-se no bar da vizinhança onde ela costumava ir. Zero pistas em todos os lugares. Ninguém a havia visto recentemente. Patrick Modiano, 75 anos, nasceu perto de Paris, escreveu para cinema, ganhou diversos prémios literários em França, incluindo o Goncourt, e em 2014 recebeu o Nobel da Literatura. Neste “Tinta Simpática” o autor mantém os leitores suspensos num mistério contínuo: uma mulher desapareceu, volatilizou-se em Paris, num caso que, mesmo 30 anos depois, continua a assombrar o detetive contratado para a encontrar. E o seu insucesso e frustração fazem-nos compreender até que ponto somos prisioneiros do nosso passado.


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DIZER POESIA - Marianne Faithfull é uma sobrevivente e não apenas musicalmente. Há uns anos lutou contra um cancro e, na primavera de 2020, esteve em estado crítico durante três semanas, nos cuidados intensivos, com Covid-19. Quando contraíu o vírus estava a começar a trabalhar no seu novo projecto com o produtor dos Radiohead e a colaboração de Warren Ellis, dos Bad Seeds. Trata-se de uma viagem pelos poemas românticos do século XIX que a marcaram, ainda estudante, no início dos anos 60, antes da sua viagem alucinante pelos bastidores e palcos do rock. O projecto deu num álbum, agora editado, “She Walks In Beauty”. Marianne Faithfull lê obras de Byron, Keats, Shelley, Tennyson, Wordsworth e Hood, ao todo onze poemas, com um pano de fundo musical delicadamente construído por Warren Ellis e a participação ocasional de nomes como Nick Cave, Brian Eno e Vincent Ségal. A sua voz é forte, a interpretação dos poemas é contida, mas marcante, com uma entoação envolvente. As paisagens sonoras desenhadas por Ellis nunca se sobrepõem à voz de Marianne Faithfull e procuram enquadrar e destacar a interpretação que ela faz dos poemas. A forma perturbante como ela diz “Ozymandias”, de Shelley, mostra a sua enorme capacidade. E vale a pena ver o vídeo disponível no YouTube para o poema de Lord Byron que dá o nome ao álbum, “She Walks In Beauty”. Os dois anteriores discos de Faithfull, “Give My Love To London” de 2014 e “Negative Capability” de 2018 já a tinham mostrado em grande forma e agora esta inesperada viagem pela poesia romântica, aos 74 anos, é um exemplo de como o talento pode ultrapassar todas as dificuldades. Disponível em CD e streaming e ainda numa edição especial em Vinil que inclui um pequeno livro com todos os poemas, à venda na FNAC.


 


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O QUE SE PODE VER - No Porto, na Galeria Nuno Centeno, pode ser vista até 5 de Junho uma exposição colectiva, Os Coniventes (na imagem), com curadoria de Pedro de Llano e obras de Alisa Heil, André Sousa, Ángela de la Cruz, Blake Rayne, Carolina Pimenta, David Lamelas, Dalila Gonçalves, Fernando José Pereira, Gabriel Lima, Gretta Sarfaty, Josephine Pryde, Mauro Cerqueira, Merlin Carpenter, Silvestre Pestana e Stephan Dillemuth. A Galeria Nuno Centeno fica na Rua da Alegria 598. Outras sugestões: na Galeria das Salgadeiras pode ver “Shadows As Memories”, de Carlos Alexandre Rodrigues. Em Lisboa, na Biblioteca Nacional, até 30 de Julho está “O Atlas Suzanne Daveau” que agrupa fotografias que ela efectuou ao longo da sua carreira e que registaram as sociedades rurais ocidentais e sociedades tribais de África. O Atlas Suzanne Daveau agrupa-se em quatro áreas - Rural, Humanidade,  Cidade e Natureza. A exposição resulta de uma pesquisa desenvolvida ao longo de um ano por Duarte Belo e Madalena Vidigal sobre o trabalho da geógrafa que foi casada com Orlando Ribeiro, o autor de obras de referência da geografia portuguesa. E entretanto eis que surge o primeiro NFT português - um Non Fungible Token, uma forma de arte digital. Leonel Moura, um artista plástico que tem explorado recursos tecnológicos, colocou à venda por 40.000 Euros na plataforma OpenSea um quadrado negro com 100 milhões de pixéis, criado por um algoritmo de Inteligência Artificial.


 


O JAPÃO NAS AVENIDAS NOVAS - Inaugurado já há alguns anos, o Go Juu começou por ser um clube privado de sócios que partilhavam o gosto pelo sushi, clientes fiéis de Mestre Takashi Yoshitake, o japonês que verdadeiramente mostrou aos portugueses a melhor tradição da cozinha do seu país. O Aya foi o restaurante que criou e onde formou vários sushimen que seguiram os seus ensinamentos. Alguns desses sushimen, herdeiros da tradição e do saber de Yoshitake san, ajudaram a criar a boa reputação do Go Juu. Aos poucos o conceito de clube privado evoluíu e hoje o restaurante é aberto ao público e a procura é grande. A qualidade e frescura do peixe utilizado é garantida e é uma das bases do sucesso. A sala dispõe de uma dezena de mesas, uma pequena sala reservada e um balcão que fora da pandemia era o ponto de excelência para os clientes se sentarem e assistirem ao trabalho dos sushimen enquanto faziam a sua refeição. A lista é abundante, com algumas especialidades que variam conforme o peixe que chega todos os dias. Num jantar recente, nas entradas distinguiu-se uma tempura de pequenos camarões do Algarve e houve oportunidade de provar uma das especialidades mais procuradas, um toro tataki, uma delícia feita a partir da melhor parte do atum. A sopa miso, servida com um misto de sushi e sashimi, merece também nota positiva. O vinho que acompanhou a refeição foi Um Quinta da Giesta, do Dão, e a presença da casta encruzado combinou muito bem com os pratos escolhidos. Pena que insistam em manter o vinho fora da mesa e que nem sempre haja a atenção suficiente para que ele não falte.  De resto o Go Juu continua a ser um dos melhores locais de Lisboa para quem gosta de sushi. Rua Marquês Sá da Bandeira 46A, telefone 218 280 704.


 


DIXIT - “Nunca me movi no sentido de ser famoso” - Julião Sarmento


 


BACK TO BASICS - Se o conhecimento pode causar problemas, não é certamente através da ignorância que os podemos resolver - Isaac Asimov


 





abril 30, 2021

SOBRE A VIDA INCERTA DOS GALINÁCEOS QUE PÕEM OVOS DE OURO

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A MONOCULTURA - Sempre me disseram que nenhuma organização deve depender de um único cliente e de uma única oferta. Que uma empresa que tem a maior parte da sua facturação proveniente de uma só entidade corre um sério risco se por qualquer razão o cliente deixar de querer os seus serviços. Este parece ser um princípio básico de gestão: alargar a carteira de clientes, diversificar, não deixar de procurar novas oportunidades. Pois foi exatamente neste erro, salta agora à vista, que Lisboa caíu. Vá-se lá saber porquê alguém convenceu quem manda que o turismo era a solução para todos os problemas da cidade. Trazia receitas, fomentava o consumo na hotelaria, na restauração e de uma forma geral no comércio da cidade. O orçamento da autarquia cresceu graças às taxas sobre o turismo e os turistas, mas apesar de tudo Lisboa continuava barata para os visitantes estrangeiros, o nosso clima era o nosso petróleo, e plataformas como o airbnb ajudaram a transformar tudo de forma muito rápida. Tal como as chinchilas na década de 60 e os croissant de chocolate na década de 70, o turismo era agora a nova galinha dos ovos de ouro. Mas como todos os galináceos, tem uma vida incerta. Neste caso não acabou no forno, mas caíu vítima da pandemia. Como essa era a grande fonte de receita do município e de facturação da cidade, quando se esvaíu, tudo se complicou. A única lição a tirar é que convém que uma cidade não dependa de uma só actividade. Por isso o futuro de Lisboa passa por criar mais pólos de atracção, não só para turistas estrangeiros, mas que tenha em conta outras possibilidades competitivas que os portugueses podem oferecer. O mal de Medina não esteve só nos imbróglios do urbanismo - que vamos ver se não acabam prescritos - nem no sistemático desprezo pelo conforto dos lisboetas. O grande mal de Medina foi a monocultura. E quem se enganou assim não é a melhor cabeça para mudar a cidade e fazê-la remoçar.


 


SEMANADA -  Até Março os consumidores portugueses gastaram mais 125 milhões de euros em supermercados, um aumento de 5,5% em relação a igual período do ano passado e as bebidas foram o sector com o maior crescimento, de 20,7%; o estudo  "Radar da Reciclagem" revelou que 46,4% dos portugueses afirmam reciclar mais quantidade de resíduos face há um ano e indica um aumento do lixo doméstico durante os períodos de confinamento; 47% é o peso dos impostos na fatura doméstica da electricidade em Portugal, o que significa que é o terceiro valor mais alto na Europa, apenas atrás da Dinamarca e Alemanha; um estudo da Marktest indica que em Portugal, em 2020, existiam cerca de 7,7 milhões de smartphones a serem utilizados, um crescimento de 14% face ao ano anterior; ainda segundo a Marktest cerca de 1,7 milhões de portugueses afirmaram ter ar condicionado, o que significa que mais do que um em cada cinco portugueses reside num lar com este tipo de instalações; o saldo orçamental das Administrações Públicas agravou-se em 2.358 milhões de euros no primeiro trimestre face ao mesmo período do ano passado; o consumo de combustíveis aumentou 24% em Portugal durante o mês de março face ao mês anterior, em consequência do desconfinamento; o Porto de Lisboa já tem anunciadas 308 escalas de cruzeiros para 2022 com um total de 700 mil passageiros; o estudo Vacation Rental indica que mais de metade dos portugueses que estão a planear as férias  prefere viajar dentro do próprio país e 31% planeia viajar para países europeus; o Primeiro Ministro António Costa inaugurou na segunda-feira uma obra ferroviária atrasada e inacabada na ligação entre Viana do Castelo e Valença.


 


ARCO DA VELHA  - No meio do actual debate sobre a corrupção de políticos, o ex-Ministro João Cravinho veio recordar que em 2006 tinha apresentado um plano anti-corrupção recusado “liminarmente” pelo governo da época, chefiado por José Sócrates.


 


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O DESAFIO DOS NOVOS -  A Galeria Módulo tem um trabalho consistente na descoberta e divulgação de novos artistas. Mário Teixeira da Silva, o galerista, admite que lhe dá particular satisfação acompanhar o início da carreira de um artista, algo que classifica de estimulante.  Até 15 de Maio a Módulo expõe o conjunto de obras “Ponto E Vírgula” de Fátima Frade Reis, que inclui guache, aguarelas e gravuras de exemplar único que a artista encara como “retratos, auto-retratos e ficções”. O trabalho baseia-se numa técnica exemplar e rigorosa que serve o que deseja mostrar. O galerista descobriu-a entre os finalistas da escola ARCO, em Lisboa e mostra-a agora na Módulo (Calçada dos Mestres 34, Campolide). Os preços oscilam entre os 220 e os 700 euros e uma grande parte da exposição já está vendida. Outras sugestões: na Fundação Carmona e Costa “É Só Uma Ferida” de Pedro Barateiro . Na Porta 14  (Calçada do Correio Mor), Pedro Calapez apresenta uma nova faceta da sua obra e em Guimarães até 4 de Julho apresenta no Museu da Sociedade Martins Sarmento uma seleção de obras nos últimos oito anos do seu trabalho. E na Galeria de Santa Maria Maior, (Rua da Madalena, 147), Corrêa dos Santos, 87 anos, repórter fotográfico, há 70 anos a percorrer os acontecimentos e as ruas de lisboa, tem uma exposição de vida.


 


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ENTRE GOSPEL E FOLK - Valerie June nasceu em 1982 em Memphis, Tennessee, e cresceu a ouvir folk, blues, muito gospel, soul e country nos seus vários géneros. Publicou agora o seu terceiro álbum, “The Moon And Stars: Prescription for Dreamers”. O disco anterior, “The Order Of Time”, data de 2017 e foi incluído pela revista “Rolling Stone” na lista dos melhores 50 discos desse ano. E exactamente em 2017, numa entrevista, Bob Dylan inclui o nome de Valerie June entre os artistas que ouvia e respeitava. O trabalho de Valerie é indiscutivelmente alicerçado na música popular norte-americana, numa mistura entre blues electrificados e folk tradicional, com toques de country e uma presença marcada de gospel, evidente na sua forma de cantar e fazer arranjos. Neste novo disco, ela é acompanhada pela grande Carla Thomas em “Call Me A Fool”, um clássico instantâneo que é um retrato perfeito daquilo que Valerie June gosta de criar. “The Moon And Stars: Prescription for Dreamers” é um disco marcado pelo sentimento de amor e de perda ao longo das suas 14 faixas, e a crítica tem afirmado que se trata do mais maduro e marcante trabalho - que tem no tema “Within You” o melhor exemplo da sua criatividade e capacidade. “You And I” sintetiza o espírito do álbum: “When the love left just a friendship/ That's when we found our greatest gift”. Ou seja, conseguir olhar para o passado e aproveitar o melhor para seguir em frente. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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O LADRÃO SEDUTOR - Maurice Leblanc foi um jornalista e escritor francês que em 1905 criou a figura de Arsène Lupin, apresentado como um elegante cavalheiro ladrão, de monóculo e cartola e que era a sua resposta ao muito inglês Sherlock Holmes. Leblanc estava longe de imaginar que, mais de um século depois de ter escrito as primeiras aventuras de Lupin, o seu personagem se tornaria numa estrela planetária através de uma plataforma de streaming, a Netflix. “Lupin”, a série francesa de 10 episódios estreada em 2021, foi também um êxito em Portugal, fazendo muitos espectadores descobrir os encantos do cavalheiro ladrão nascido na Belle Époque, no século passado, a época que Paris viveu como nenhuma outra capital europeia. Este foi o palco onde se desenrolaram crimes fantásticos e intrigantes da autoria de Arsène Lupin, um ladrão hábil, carismático e sedutor, eternamente perseguido pelo inspector Ganimard. Aproveitando a notoriedade que a Netflix deu ao herói de Maurice Leblanc, a Porto Editora reuniu as primeiras nove aventuras do seu personagem em “Arsène Lupin, Cavalheiro Ladrão”, agora editado. Maurice Leblanc escreveu mais de duas dezenas de aventuras de Lupin e este volume é uma boa introdução ao personagem e aos expedientes a que recorre - para escapar à polícia ou praticar roubos arriscados. Um aventureiro chic. 


 


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O LEITÃO - A raça Bísara é uma das raças autóctones nacionais de suínos. Os seus leitões são alimentados exclusivamente de leite materno até à altura do desmame, que ocorre por volta dos 45 dias. Têm uma carne aveludada, com uma côr rosada e um sabor especial que o distingue de outras raças suínas. O leitão bísaro tem também características morfológicas diferentes dos demais - é mais comprido e delgado, o que permite nomeadamente uma maior penetração dos temperos na carne. Quando se fala de bom leitão assado, é da raça bísara que falamos - mas não é muito frequente encontrá-la, mesmo na zona da Mealhada onde a quantidade nem sempre rima com qualidade. Felizmente a quantidade não é a preocupação do Leitão da Vila, um paraíso para os apreciadores deste petisco, situado em Coina, perto do Barreiro. A casa tem menos de dez anos mas o seu proprietário, António José Rebocho, aprendeu há muito mais tempo o segredo da preparação, do tempero e do forno, para poder servir um leitão assado excepcional. A casa é pequena, menos de duas dezenas de lugares na conjuntura actual, só abre ao almoço e encerra ao Domingo. Faz take away mas em quantidades limitadas para não prejudicar o serviço da sala nem a qualidade do que serve. O leitão chega à mesa muito bem cortado, acompanhado de um competentíssimo molho, um arroz de miúdos e batatas fritas às rodelas, feitas na hora, além da indispensável salada de alface, fresca e viçosa, com rodelas de cebola crua. Antes disso chegam à mesa ou uns rissóis ou umas empadas, obviamente de leitão, e um queijo fresco de ovelha para quem quiser, ao lado de umas azeitonas tem temperadas. A lista de vinhos não é extensa mas tem preciosidades como o Coteis Grande Escolha, um daqueles vinhos intensos, de 16º, proveniente de Moura. No final, se quiser, há um pastel de nata caseiro, que vem quente para mesa, onde a massa e o recheio são perfeitos. A carta aceita reservas mas não vá com pressas que sobretudo ao fim de semana vai ter que esperar uma data disponível. Leitão da Vila, Rua Professora Rita Amaro Duarte, Coina, telefone 935849213.


 


DIXIT - Desde que este executivo assumiu o poder, ficaram por cumprir ou gastar mais de 3,5 mil milhões de euros em investimentos face ao que ficou definido nos vários Orçamentos de Estado” - Luís Reis Ribeiro


 


BACK TO BASICS - “A Liberdade implica responsabilidade e essa é a razão porque a maioria das pessoas a teme” - George Bernard Shaw


(Publicado no Weekend do Jornal de Negócios de 30 de Abril 2021)