janeiro 15, 2021

PRESIDENCIAIS: ELEIÇÃO OU REFERENDO?

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PARA QUE SERVEM ESTAS ELEIÇÕES ? - Não sei bem se chame eleições ou referendo ao que se vai passar a partir do próximo Domingo, dia de voto antecipado. Todas as sondagens apontam para uma confirmação de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República - resta saber qual a abstenção e com quantos votos contará o Presidente no final. O risco que corre, se a abstenção for grande, é ficar politicamente fragilizado, o que qualquer Governo não deixará de aproveitar. Marcelo é verdadeiramente o único candidato que corre pela vitória, os outros estão nestas eleições apenas para afirmação dos seus projectos políticos ou pessoais, num exercício de propaganda. Estas eleições, cuja campanha decorre numa situação restritiva devido à pandemia, serão certamente objecto de estudo futuro. Esta é uma campanha sem rua, assente na televisão e nos outros meios de comunicação. Os afectos, agora, são virtuais. E como funcionaram os debates? O que se sabe,para já, é que o acumulado de espectadores que seguiram os debates em todos os canais ultrapassou os seis milhões e meio. O debate mais visto foi o de Marcelo Rebelo de Sousa com André Ventura, transmitido na SIC e SIC Notícias e que ultrapassou os dois milhões de espectadores. O debate com todos os candidatos na RTP1 na noite de terça-feira ficou-se pelos 450 mil espectadores, enquanto na SIC e TVI, no mesmo horário,  uma telenovela e a transmissão do  Benfica-Estrela da Amadora tiveram bem mais que um milhão de espectadores cada. Mas nesta campanha houve surpresas - desde o desempenho de Vitorino Silva (Tino de Rans), que chegou até a corrigir uma pergunta mal feita por Miguel Sousa Tavares, até à forma como Tiago Mayan Gonçalves conseguiu posicionar e explicar o que de facto são as ideias liberais que defende, surpreendendo muita gente e tendo um comportamento elogiado pela maioria dos comentadores. Isto traz-nos à questão dos candidatos. À excepção de Marcelo, que corre para a reeleição, os outros correm para se posicionarem. Não serão presidentes, mas há ideias que merecem aplauso. Para mim as que foram defendidas por Tiago Mayan Gonçalves são aquelas de que me sinto mais próximo e por isso o meu voto irá para ele. Estas eleições também podem servir para mostrar que há alternativas a considerar fora do quadro partidário anquilosado que nos governa. E é isso que farei.





SEMANADA - Dois jornalistas foram vigiados, com recolha de imagens, por uma equipa da PSP ao longo de cerca de dois meses e as contas bancárias de um deles foram passadas a pente fino por ordem de uma procuradora do Ministério Público que os investigava por violação de segredo de justiça; a magistrada pretendia saber quais as fontes dos jornalistas; pela primeira vez, em democracia jornalistas foram vigiados e fotografados pela polícia, as suas mensagens vasculhadas sem cobertura legal, violando o direito ao sigilo profissional, com o sigilo bancário levantado de forma completamente ilegal; estas acções foram ordenadas pela procuradora do Ministério Público Andrea Marques, com conhecimento da Diretora do DIAP de Lisboa, Fernanda Pego; o despacho da procuradora Andrea Marques sobre a vigilância efectuada viola o direito do jornalista à proteção das fontes e ao sigilo profissional, nos termos dos artigos 8º e 11º da Lei nº 64/2007;  as acções ordenadas violam ainda o direito à intimidade e reserva pessoal e o direito de imagem dos visados, podendo configurar a autoria moral do crime de devassa da vida privada, de acordo com o que prescreve o artigo 192 do Código Penal; até à data em que escrevo, quarta-feira, ainda não se conhece nenhum comentário do Primeiro Ministro ou da Ministra da Justiça sobre o assunto; também nenhum dos candidatos à Presidência se manifestou em defesa da lei que protege o sigilo profissional dos jornalistas; o Presidente da República também ainda não disse nada, até à data, sobre este atentado à  liberdade de Informação.


 


ARCO DA VELHA  - Apesar da grande quantidade de testes realizados por famílias antes do Natal e do Ano Novo os casos positivos que foram identificados não tiveram  controlo epidemiológico adequado e a larga maioria dos infectados, 87%, não foi contactada pelas autoridades de saúde para ser feito o habitual rastreio de forma a tentar determinar a cadeia de contágio.


 


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FOTOGRAFIA DE RUA -  Eu hoje tinha uma exposição para recomendar, que tinha a inauguração prevista para este fim de semana. Mas não vai acontecer. A exposição de que falo estava prevista para o Centro Cultural de Cascais, por iniciativa da Fundação D. Luis I. A exposição estava prevista durar até 16 de Maio, esperemos que findo o confinamento ainda a possamos ver. Vale a pena e a história da fotógrafa é fantástica. Vivian Maier era uma ama que nos tempos livres passeava e fotografava as ruas das cidades dos Estados Unidos onde viveu, com uma Rolleiflex, como se pode ver na imagem. Através dos seus retratos de desconhecidos nas ruas dos EUA nas décadas de 1950 e 1980, a maior parte em preto e branco, Maier documentou, registou e interpretou o mundo ao seu redor, na América urbana na segunda metade do século XX. Durante mais de quarenta anos, Maier trabalhou como ama em Chicago. Nos tempos livres, percorreu as ruas daquela cidade e de Nova Iorque fotografando cenas da vida quotidiana, observando pessoas de todas as idades e classes sociais. O resultado dessas excursões fotográficas é uma obra impressionante que compreende mais de 100 mil imagens, descobertas em 2007 quando o historiador John Maloof comprou em leilão o conteúdo abandonado de dois contentores de armazém e se viu na posse de milhares de negativos, diapositivos e fotografias impressas. A exposição “Vivian Maier Street Photographer”, que já está montada no Centro Cultural de Cascais e que poderemos ver daqui a poucas semanas mostra imagens captadas entre 1953 e 1984, na sua maioria a preto e branco. Esperemos então que o confinamento passe…





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SWIFT AMADURECIDA - Poucos meses depois de ter lançado o álbum “Folklore”, Taylor Swift regressa com mais um trabalho fruto da quarentena, do isolamento em que tem estado. Assim de repente, sem aviso prévio, como já tinha feito com “Folklore”, Swift juntou 17 canções  em “Evermore”. Os dois álbuns são quase gémeos, têm uma relação próxima um com o outro. As canções funcionam como short stories que se articulam entre si, mas este “Evermore” é mais variado e ousado em termos de sonoridade do que “Folklore” e também é mais maduro. Há aqui momentos surpreendentes como “No Body, No Crime”, uma balada claramente inspirada no country, que contrasta com o pop de “Gold Rush” ou de “Dorothea” ou, num salto noutra direcção, com a forma como Swift canta em “Closure”, alterando a sua voz com filtros electrónicos. No geral a produção é mais cuidada, como se depois de “ Folklore” ela tivesse decidido limar arestas, melhorar a produção por forma fazer ressaltar as letras que escreveu e as histórias que quis contar. O melhor exemplo disso é “Marjorie”, uma jóia de composição e de escrita, em que Swift se empenha na interpretação de forma especial. Numa outra canção, “Happiness”, gravada apenas uma semana antes de lançar este disco, ela resume o seu estado de espírito:  “I was dancing when the music stopped/And in the disbelief/I can’t face reinvention/I haven’t met the new me yet.” Disponível em streaming.


 


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LIVROS DE COMPANHIA - Gosto de almanaques. Costumo comprar o do Borda d’Água e mais recentemente tornei-me fiel leitor do Almanaque Bertrand. O primeiro Almanaque Bertrand data de 1899 e o que está agora à venda, abrangendo os anos de 2020 e 2021, é o nº 80. São 180 páginas com capa cartonada ao preço de cinco euros. Uma pechincha. A coordenação editorial é de João Pombeiro e aqui há de tudo - recomendações para cuidar do jardim, pequenas histórias, palavras cruzadas, calendários, páginas para tomar notas, efemérides de cada mês, fases da lua, poemas de autores tão diversos como  Ricardo Reis, António Nobre, Cesário Verde, Olavo Bilac, Mário de Sá  Carneiro ou  Natália Correia, textos de Raul Brandão, de Eça de Queiroz, Clarice Lispector ou Machado de Assis, entre outros, diversas informações úteis, a lista dos Domingos de Páscoa até 2060, curiosidades, adivinhas, citações de vários autores, provérbios e passatempos. Este é um daqueles livros que gosto de ter em cima da minha mesa de trabalho para ir folheando à procura de uma ideia, de uma inspiração. E raramente falha. É um belo livro de companhia. Está aqui ao meu lado.





OS SABORES QUE FICAM - Aí vem mais uma época terrível para os restaurantes, o novo confinamento vai ser outra rude machadada. Há dias o responsável de um dos meus restaurantes preferidos dizia-me que agora, quando se estava a recuperar um bocadinho da crise anterior, é que tudo se complicava de novo. Não encaro nenhum dos restaurantes onde vou com maior frequência como um mero local para comer. Claro que pretendo que a comida seja bem confecionada, que me proponham pratos que não sei confeccionar ou não tenho paciência para fazer em casa. Mas sobretudo gosto de um certo ar familiar, que o serviço seja atento sem ser subserviente, que tenha poucas modas, que seja consistente na cozinha e coerente na relação qualidade-preço. Gosto de locais onde revejo clientela habitual, onde tanto se pode conversar tranquilamente como ficar sozinho a petiscar e a observar. Não gosto de alguns sítios recentes, muito em moda, algo artificiais, que mais parecem montras de comensais exibicionistas que outra coisa qualquer. Espero que os meus restaurantes favoritos saiam vivos desta maldita pandemia, que o Duarte continue a guiar bem o Salsa & Coentros, que o Albano continue a garantir os petiscos do Apuradinho, que no Casa Nostra, um sobrevivente do Bairro Alto, a cozinha continue sempre uma boa surpresa e que o Mariano e a restante equipa de sala continuem a criar um ambiente especial, e que na Primavera do Jerónimo os panados da D.Helena permaneçam sem rival. Há mais sítios, mas estes são aqueles de que mais me vou lembrar ao longo deste novo confinamento.





DIXIT - “Na verdade, quem não resistiu a fazer uma oferta natalícia de quatro dias de congelamento do distanciamento social foram os dirigentes políticos e não a pressão das famílias. E são as suas políticas e decisões que devem ser escrutinadas” - Eduardo Dâmaso, Director da Sábado


 


BACK TO BASICS - "Quando a imprensa não fala, o povo é que não fala. Não se cala a imprensa. Cala-se o povo" - William Blake











janeiro 08, 2021

RECORDANDO O TEMPO EM QUE ANTÓNIO COSTA SE DEMITIU DE MINISTRO

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A IMAGEM DO DESGOVERNO - Quando se está numa situação de limitação de direitos, como a que a pandemia está a provocar, é preciso ter redobrado cuidado com a prepotência e o abuso de poder. O Primeiro Ministro tem obrigação de ter isto em conta e o Presidente da República tem o dever de vigiar e exigir a resolução de situações que radicam em incompetência, favorecimento, corruptelas de poder. Em pouco tempo, nas últimas semanas, o Ministério da Administração Interna e Ministério da Justiça mostraram falta de respeito pelos portugueses. Ultrapassaram limites. Os seus responsáveis não deveriam poder continuar nos postos, escudados em demissões de subalternos  e na desculpa de não mexer no Governo durante a Presidência da União Europeia. António Costa foi ministro da justiça em 1999, no XIV Governo Constitucional, chefiado por António Guterres. Demitiu-se de ministro, na sequência da crítica feita ao seu ministério em relação ao inquérito sobre o caso de Camarate onde Sá Carneiro morreu. O autor da crítica foi Ricardo Sá Fernandes, que integrava o mesmo Governo como secretário de estado dos assuntos fiscais, que conhecia bem o processo  e que criticou as conclusões do ministério da justiça. Por isso mesmo António Costa está especialmente bem colocado para saber quando um membro do Governo se deve afastar. Num tempo em que todos sentimos limitações de que não gostamos e que não queremos que se tornem rotina, o Ministro da Administração Interna fechou os olhos a violações intoleráveis dos direitos humanos e a Ministra da Justiça foi portadora de uma mentira para proteger um favorecimento. É isto que queremos preservar para os outros países da União Europeia? É esta a ética republicana que enche a boca dos responsáveis?


 


SEMANADA - A linha pública de apoio ao Brexit só chegou a sete empresas portuguesas e os apoios públicos disponíveis de 50 milhões de euros quase não foram usados; uma sondagem recente indica que dois terços dos portugueses pensam que Eduardo Cabrita não tem condições de se manter no cargo de Ministro da Administração Interna depois dos factos relacionados com a morte de Ihor Homeniuk às mãos do SEF; só três dos 20 projectos do plano Ferrovia 2020 ficaram prontos a tempo e 20% dos 2,1 mil milhões previstos não foram sequer utilizados; o défice de 2020 é o maior dos últimos 17 anos; 40 mil empresas em crise devido à pandemia já pediram apoios a fundo perdido; de janeiro até final de novembro as famílias gastaram mais 692 milhões de euros nos supermercados em resultado da transferência do consumo de fora de casa para o lar durante os períodos de confinamento; cinco funcionários da segurança social vão ser julgados num processo de corrupção relacionado com a atribuição a troco de dinheiro de do número de segurança social a cidadãos estrangeiros; no ano europeu da ferrovia Lisboa não tem comboios internacionais; soube-se esta semana que há cinco anos uma investigadora recebeu queixas de agressões contra um detido no centro de instalação temporária do SEF no Porto e fez a denúncia à direcção daquela polícia, que considerou a informação caluniosa; uma sondagem promovida pela SEDES concluiu que 65,2% dos portugueses gostariam de eleger os seus representantes de forma mais directa; em 2020 os depósitos bancários das famílias alcançaram o maior valor de sempre; o Instituto de Emprego e Formação profissional exige licenciatura a formadores nas áreas de cabeleireiro, esteticista, cozinheiro ou costura; Saudade foi nomeada a palavra do ano num inquérito promovido pela Porto Editora.


 


ARCO DA VELHA  - O Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita,  aceitou que os boletins de voto para as eleições presidenciais incluam o nome de um candidato que não foi admitido pelo Tribunal Constitucional.


 


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O PODER DAS BALADAS - Matt Berninger ganhou fama como fundador e vocalista de uma das bandas mais importantes dos últimos anos, The National. Há poucos meses lançou o seu primeiro disco a solo, “Serpentine Prison”, uma colecção de dez canções exemplares, escritas por si com diversos músicos seus amigos. A produção é de Booker T. Jones, um dos nomes clássicos da música americana, que já trabalhou com nomes tão diversos como Neil Young,  Bill Withers ou Willie Nelson. A interpretação de Berninger é despojada a um ponto pouco usual, deixando à vista a realidade de cada canção e a qualidade musical do trabalho feito, muito dirigido pelo produtor que optou por arranjos simples, deixando terreno abundante para Berninger ocupar com a sua voz. Essencialmente acústico, muitos temas têm uma simplicidade arrebatadora (por exemplo “Oh Dearie"), uma narrativa comovente como “Take Me Out Of Town” e “One More Second” ou revelam uma balada envolvente como “Silver Springs”, onde é acompanhado por Gail Ann Dorsey que trabalhou com David Bowie nalguns dos seus últimos trabalhos. Berninger não tenta replicar a sonoridade da sua banda The National, escolhe um ritmo mais lento, um som muitas vezes intimista e uma simplicidade que alcança um dos seus momentos mais emotivos em “All For Nothing” onde a sua voz e o piano se tornam marcantes. É claramente um dos melhores discos do ano passado - e deixo aqui o meu obrigado a Manuel Soares de Oliveira, o publicitário por trás da Mosca, por mo dar a descobrir. Disponível em streaming.


 


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IMAGENS DESTES TEMPOS  - Cartazes abandonados, marcas de incêndio, territórios devastados, interiores abandonados, vestígios de presenças passadas, obras inacabadas, explorações interrompidas. Ao longo das páginas espalham-se fragmentos de memórias, imagens incompletas, retratos da natureza desleixada, de templos arruinados, de estruturas destruídas. Esta é a síntese das imagens deixadas nas fotografias de Pedro S. Lobo, agora reunidas no livro "Not Yet", com edição em Portugal e no Brasil. Pedro S.Lobo, natural do Rio de Janeiro e que vive em Borba desde 2007, fotografou os grandes incêndios de 2017 e 2018 no centro do país e mais tarde seguiu os efeitos e as marcas que deixaram. Este livro evoca esse tempo e essas marcas, e acaba por ser o álbum de um ano devastador e interrompido como 2020 foi. No texto no final do livro, editado em Portugal pela Sistema Solar/Documenta, o autor esclarece que o seu objectivo é evocar as histórias que aconteceram antes do abandono. Christian Carvalho Cruz refere no mesmo texto que as imagens de Pedro S.Lobo são marcadas pela vida do autor, “vivida com o desespero e a violência de um pássaro que se esfola nas grades da gaiola”. Alexandre Pomar, graças a quem descobri este livro, escreveu no Facebook que “é inevitável associarmos a gravidade do percurso através das páginas ao peso opressivo deste ano ameaçador, mas as fotografias do Pedro Lobo não  ilustram a epidemia, as suas séries já lhe pertenciam, são algumas das  suas linhas de trabalho, entre outras, umas mais conceptuais (com  escritas), mais despertas para a surpresa e o humor (o insólito), mais  gráficas ou construídas (malhas, estruturas), mais documentais (...) sempre a atenção ao  património habitado, mesmo que património instável e desvalorizado.”


 


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A FORÇA DA ESCULTURA -  Começo o ano por mostrar uma peça que só pode ser vista em Stampa, na Suiça, nos jardins do edifício da fundação criada para preservar a obra do escultor Alberto Giacometti. A peça, em ferro, de grandes dimensões, foi criada pelo artista português Rui Chafes, a convite daquela  fundação. Intitulada "Occhi Che Non Dormono" ("Sleepless Eyes" ou "Olhos que Não Dormem"), a peça foi instalada  em finais de Novembro frente à casa onde o artista suíço viveu numa plataforma de madeira sobre o rio Maira. A obra já está colocada, mas só será formalmente inaugurada no dia 4 de Abril. Em 2018, na delegação francesa da Fundação Gulbenkian, e por iniciativa de Helena Freitas, foi mostrada a exposição “Gris, Vide, Gris” que juntava obras de Giacometti e de Chafes. Essa mostra reunia sete esculturas de Rui Chafes, seis concebidas para o projeto, e 11 esculturas e quatro desenhos de Giacometti, entre as quais "Le Nez". Vem dessa altura a ideia de assinalar a ligação entre a obra de Chafes e de Giacometti, na casa onde este viveu. “O olhar aspira ao infinito para além do rio Maira e das encostas da montanha e os olhos percebem, vêem e redesenham a relação com a paisagem e o invisível” - afirma Virginia Marano, curadora da instalação. Outros destaques já que estamos a falar de escultura - em Serralves até Junho está a exposição “Deslaçar Um Tormento” que exibe trabalhos de Louise Bourgeois. E em Lisboa, no Museu Berardo, Cristina Ataíde mostra a diversidade do seu trabalho em “Dar Corpo Ao Vazio”.



COMIDA INVERNAL -  Nos dias frios há que saber escolher refeições quentes, mais demoradas, aquilo a que se chama cozinha de conforto, que nos satisfaz e aquece a alma. Um dos pratos que melhor se encaixa nesta categoria é o clássico salsichas frescas enroladas em couve lombarda. Não é fácil de encontrar nos restaurantes lisboetas e é menos simples de fazer do que aquilo que se pensa. Em primeiro lugar as salsichas têm que ser mesmo muito frescas e da melhor qualidade - o que de si já não é a coisa mais simples do mundo. Depois, a couve lombarda tem que ser macia. É necessário tempo ao lume, cuidado com o tempero e o molho. Eu julgava que a receita era essencialmente portuguesa, mas descobri por estes dias  que faz parte das receitas da semana do Cooking do New York Times. Há muitas receitas na internet, mas se quiserem experimentar a sério podem tentar se no Apuradinho está disponível por estes dias - Rua de Campolide 209, tel 213 880 501.


 


DIXIT - “Corremos o risco de o Governo Costa ficar na história pela supina banalização da irresponsabilidade política” - Paulo Rangel


 


BACK TO BASICS - “Qualquer idiota é capaz de criar algo complexo. Para fazer coisas simples é preciso génio” - Pete Seeger


 





dezembro 31, 2020

QUE PORTUGAL É ESTE QUE NÃO CONSEGUE FUGIR À CAUDA DA EUROPA?

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PENSAR PORTUGAL -  Para além da espuma dos dias, escolho estes excertos da mais importante intervenção política feita em Portugal neste ano que agora acaba. Falo da intervenção de Pedro Passos Coelho numa conferência sobre a importância de Alfredo da Silva. O seu discurso foi muito para além das questões conjunturais do SEF ou da TAP que chamaram a atenção dos noticiários. Escolhi estes excertos, editados, que são, creio, um enquadramento perfeito da situação de Portugal. Aqui fica, para memória futura:


“Agora que já não há nem o rei nem a monarquia para culpar pelas nossas desgraças, agora que também já não há as ditaduras nem a sociedade fechada e pequenina que nos limitava, agora está na hora de olharmos para nós próprios e fazermos o que tem de ser feito enquanto vamos a tempo de alterar as coisas como pretendemos, para que nem tenhamos de voltar a passar por experiências tão traumáticas como as que vivemos após a grande crise de 2010, nem estejamos condenados a uma desqualificação paulatina dos nossos sonhos e aspirações de poder viver uma sociedade verdadeiramente mais democrática e com mais justiça.“


“Aproximámo-nos significativamente, em termos reais, da média europeia na primeira meia dúzia de anos da integração quando éramos apenas 15 países. Mas conseguimos singularmente regredir à medida que países mais pobres e menos desenvolvidos que nós se integraram na União Europeia. Poderá dizer-se que regredimos mais nos anos de crises que tivemos de enfrentar, o que é verdade. Mas isso esquece que os outros também enfrentaram as crises e que a média europeia reflete esse desempenho de todos, pelo que se nos afastámos mais dos outros durante as crises, foi porque a nossa vulnerabilidade estrutural nos impõe nas crises prejuízos maiores do que aos outros.”  


“Não será, finalmente, conveniente perguntarmo-nos: que Portugal é este que não consegue fugir à cauda da Europa quando praticamente todos os outros conseguem? A resposta terá de ser dada por nós próprios. Olhando para dentro da sociedade portuguesa e mudando o que é preciso. Mudar nas estruturas públicas e privadas. Conseguir, se assim o desejarmos, implantar regras estáveis e confiáveis. Responsabilizar a sociedade civil e o Estado e cultivar um exemplo de salvaguarda e de separação de interesses que possa incutir o desenvolvimento do capital social e da confiança.“


 


SEMANADA - Segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos em Portugal, 6% da população não tinha, no ano passado, capacidade para pagar as despesas do dia-a-dia ou para liquidar a tempo rendas e outros encargos; outros 19% não tinham dinheiro para aquecer as suas casas; a despesa do Estado em educação, em termos de percentagem do PIB, está a cair desde 2016; a despesa do estado na saúde, em percentagem do PIB, caíu em 2016, 2017 e 2018 e só recuperou um pouco em 2019; a receita fiscal entre 2015 e 2019, em impostos directos e indirectos, aumentou cerca de 20%; no mesmo período a despesa corrente do Estado em percentagem do PIB caíu cerca de 10%; o défice público do último trimestre deste ano, medido em proporção do produto interno bruto (PIB), deverá registar o segundo valor mais alto, logo atrás do obtido por Sócrates em final de 2010; Marcelo Rebelo de Sousa prevê gastar 25 mil euros na sua campanha eleitoral para as presidenciais, Ana Gomes admitiu que gastará o dobro, o PCP prevê 450 mil euros, André Ventura 160 mil, Tino de Rans aponta para 16 mil, Tiago Mayan prevê 40 mil e Marisa Matias 256 mil; a provedora de justiça revelou na Assembleia da República que só agora foram acatadas recomendações dadas desde 2018 sobre a actuação do SEF no Aeroporto de Lisboa; os médicos do sector privado da saúde que tratam doentes Covid não foram incluídos na primeira vaga de vacinados.


 


LA PALISSADE DA SEMANA - “O jornalista de televisão que foi o provedor constata que nestas eleições presidenciais as entrevistas políticas televisivas ganham um relevo particular” - José Manuel Barata Feyo.  


 


FRASE DA SEMANA - “É uma enorme carga burocrática. Trouxe um pequeno bosque de árvores abatidas para entregar ao Estado informação que já tem” - Tiago Mayan Gonçalves, ao entregar no Tribunal Constitucional a sua candidatura presidencial, pela Iniciativa Liberal.


 


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FOTOGRAFIAS NA RUA - O lugar da fotografia é na rua? Pode ser. As imagens de Sebastião Salgado, no seu trabalho “Génesis”, estão junto do Arco da Rua Augusta. São 38 fotografias. Até 14 de Janeiro pode ser vista esta exposição organizada pela Fundação La Caixa”. Sebastião Salgado, 76 anos,é economista de formação e apaixonou-se cedo pela fotografia. Recusou uma oferta de trabalho do Banco Mundial para se dedicar à fotografia e tem feito trabalhos notáveis sobre o meio ambiente e a natureza humana. As imagens são a preto e branco, como é habitual no trabalho de Salgado. Outras recomendações: no Porto, na Galeria Sput&Nick The Window (Rua do Bonjardim 1340), a dupla de artistas Daniel Moreira e Rita Castro Neves apresenta uma exposição sobre o tema do cortelho – uma pequena construção em pedra de granito, abrigo em forma de iglu, característico da paisagem rural do noroeste português. A exposição “O Cortelho” estará patente até 30 de janeiro. Na NO-No, em Lisboa, Ana Pérez-Quiroga apresenta até 9 de Janeiro a exposição “De Que Casa Eres? Episódios de un cotidiano” . Em Faro, no Museu Municipal, até 17 de Janeiro estão expostos trabalhos de Xana, António Olaio e Tiago Batista sob a designação genérica “O Lápis Mágico”.


 


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O PIANO - Soube-se em 2020 que o pianista Keith Jarrett, 75 anos, decidiu, por motivos de saúde, não voltar a realizar concertos. No início da sua carreira, nos anos 60,  tocou com os Jazz Messengers de Art Blakey, mas foi como pianista no grupo de Miles Davis, nos anos 70, que ganhou rapidamente fama. Ao longo da carreira tocou também com músicos como Charlie Haden, Paul Motian ou Freddie Hubbard, entre outros. Ao longo da sua extensa discografia destacam-se as gravações efectuadas ao vivo, nomeadamente o histórico “The Koln Concert”, de 1975, que impôs o seu estilo e a sua sonoridade e o tornou uma figura incontornável da história do jazz. Ao decidir parar com as suas actuações públicas Keith Jarrett anunciou um novo disco, gravado ao vivo, em 2016,  na capital húngara. Jarrett afirma que The Budapest Concert é o melhor de todos os seus registos gravados ao vivo, superando outro disco do mesmo ano, de um recital em Munique, e defende mesmo que a gravação de Budapeste é melhor que o Koln Concert. Todas as gravações ao vivo de Jarrett baseiam-se na improvisação o que torna cada concerto diferente do outro. Aqui, neste novo disco duplo lançado há poucos meses, há 12 partes, como ele gosta de classificar os temas nas notas dos discos. Cada uma destas partes surge como um momento musical autónomo mas todos eles estão relacionados entre si, do mais curto de cerca de três minutos, ao mais longo que excede os 15. Apenas uma das partes, a última, recebe um título - “Blues”, um surpreendente boogie-wooggie que assim deixa no ar um Jarrett mais raro e solto. No final há ainda o registo dos dois encores, “It’s A Lonesome Town” e "Answer Me”. Duplo CD ECM, disponível em streaming no Spotify.


 


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O CADERNO DE CARTIER-BRESSON - Todos os anos ofereço a mim mesmo uma prenda. Este ano foi uma magnífica edição feita pela Thames & Hudson de “Scrapbook”, de Henri Cartier Bresson, publicado pela primeira vez em 2006. A história do livro é ela própria um episódio. Em 1946, aos 38 anos, Cartier-Bresson viajou de barco para Nova Iorque, na sequência de um convite para expôr no MoMa, The Museum Of Modern Art, que na altura começou a mostrar fotografia. Na mala levava 300 fotografias, impressas em pequeno formato. Na chegada a Nova Iorque comprou um livro de apontamentos, colou nas suas páginas todas essas imagens e levou-o aos curadores do MoMa para que eles pudessem ter uma melhor ideia do seu trabalho. Todas as  fotografias desse caderno, que foi reproduzido pela primeira vez na edição da Thames & Hudson, foram originalmente feitas entre 1932 e 1946. Martine Franck, sua viúva e Presidente da Fundação Henri Cartier-Bresson, que morreu em 2012,  contou que o original deste caderno de apontamentos estava numa velha mala escondida no meio de uma estante da casa onde viviam. De vez em quando, recorda nas notas iniciais do livro, o fotógrafo dizia -lhe que este era o seu mais precioso objecto, a par do álbum que tinha preparado para o realizador Jean Renoir, na esperança de poder fotografar a filmagem de uma das suas obras, como veio a acontecer aliás..  Agnès Sire, Diretora da Fundação Cartier-Bresson  conta as histórias à volta deste Scrapbook, numa introdução que reproduz páginas da agenda de Bresson, documentos oficiais, imagens de família, a troca de correspondência com David “Chim” Seymour o obreiro desta exposição em Nova Iorque.  A maior dificuldade da exposição no MoMa,  no pós guerra, era a falta de papel fotográfico para garantir boas impressões das imagens. Inicialmente a exposição estava pensada para 75 fotos e no fim acabou por mostrar 163  em ampliações de 30x40 e 40x50. Foi também feita uma versão mais reduzida, de 100 imagens, que o MoMa levou em digressão por várias cidades americanas. Esta edição do “Scrapbook” inclui, ao longo de 260 páginas, não só reproduções das páginas originais, mas também diversos textos de enquadramento  histórico, e informações que ajudam o compreender o processo criativo e o método de selecção de Henri Cartier-Bresson para a exposição que o lançou definitivamente como um nome incontornável da fotografia do século XX.


 


DIXIT - “Só com instituições mais fortes venceremos. Golpes de sorte e de génio, habilidades e invenções de nada servirão. Instituições e liberdade, sim” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Por melhor que uma estratégia possa parecer, convém olhar para os seus resultados” - Winston Churchill


 




dezembro 23, 2020

PALPITES PARA 21, UM INESPERADO DISCO, UM BELO POLICIAL, A FOTOGRAFIA EM COIMBRA E UM DOCINHO

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2021 - Daqui a uns dias começa um novo ciclo eleitoral. Teremos as eleições presidenciais daqui a um mês - a 24 de Janeiro. Estas são eleições muito peculiares - não entre escolher candidatos mas referendar um estilo de viver e assumir a Presidência. Marcelo mudou a forma sem mudar as regras, surpreendeu muitas vezes, abusou do sentimento, tornou-se o primeiro Presidente da República da era dos smartphones - sem selfies o seu mandato teria sido diferente na forma de se relacionar com as pessoas. As sondagens dão-lhe grande distância sobre os outros candidatos mas estas eleições têm uma particularidade - são as primeiras em tempo de pandemia, vão decorrer com constrangimentos de movimento e de acção. Marcelo já tinha feito na sua anterior eleição uma campanha austera, vai agora ser ainda mais rigoroso. Os outros candidatos vão ser comparados com ele se saírem da linha. Se houvesse um rival a sério seria interessante ver como se desenrolariam as candidaturas que disputassem a vitória. Assim, trata-se apenas de referendar um estilo que poupou a António Costa muitas dores de cabeça.Verdade seja dita que oposição é coisa que não existe, está desaparecida em combate há uns tempos e não se vê que a curto prazo a possa assumir. Mas o ano eleitoral vai também trazer, lá mais para o Outono, as eleições autárquicas e aí as guerras vão ser ferozes. A ver vamos como a pandemia evolui e como poderão então ser as campanhas eleitorais. Mas é certo que provavelmente muitas câmaras mudarão de titular, é provável que o Chega venha a governar alguns concelhos e a grande incógnita será saber o que acontece em Lisboa e no Porto. Em Lisboa Medina, apesar da péssima gestão que fez da cidade, pode vir a ganhar por falta de adversário credível. E, no Porto, Rui Moreira está debaixo de fogo. O resultado das autárquicas poderá ter influência no evoluir da geringonça - e essa é uma das dúvidas que só esclareceremos lá para o fim de 2021. Em havendo saúde, vai ser um ano animado.


 


SEMANADA - O Sindicato do SEF criticou a nomeação de um militar para dirigir o serviço argumentando que aquele organismo tinha “30 anos do mais civilista serviço de imigração da Europa”; o mesmo Sindicato ainda não se pronunciou sobre as denúncias de práticas sistemáticas e repetidas de violação dos direitos humanos por agentes da instituição, nomeadamente no aeroporto de Lisboa; a Ordem dos Advogados denunciou à Provedoria de Justiça graves atropelos do SEF na regularização de imigrantes; o número de casais com ambos os elementos inscritos nos centros de emprego aumentou 15,9% em Novembro face ao mesmo mês do ano passado; há 166 hotéis à venda devido às quebras verificadas no sector do turismo; o médico que denunciou o homicídio do cidadão ucraniano pelo SEF no aeroporto foi despedido do Instituto de Medicina Legal; Portugal é dos países europeus com maior fatia do crédito sob regime de moratória, 23%; o Banco Alimentar Contra a Fome recebe mais de 50 pedidos de ajuda por dia; um relatório da OCDE indica que se ignora o número exacto de médicos que trabalham em Portugal, existem apenas estimativas; Quase 30% dos alunos de 11, 13 e 15 anos não gostam da escola e a segunda coisa de que menos gostam é das aulas (35%) e 85% dos inquiridos considera a matéria aborrecida; um terço dos portugueses já teve apoios sociais por causa da pandemia; em dez anos as escolas do básico e secundário perderam mais de 370 mil alunos; 


 


ARCO DA VELHA  - Esta semana surgiram mais relatos de agressões feitas por agentes do SEF no aeroporto antes e depois do assassinato de Ihor Homeniuk  e a Inspecção Geral da Administração Interna admitiu ter encontrado práticas desumanas e ilegalidades no funcionamento daquela força policial.


 


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OS GRANDES ENCONTROS  - “Coimbra - A Cidade e as Sombras” é o título da exposição que assinala os 40 anos dos Encontros de Fotografia ali iniciados em 1980 por iniciativa de Albano da Silva Pereira. Ao longo dos anos a organização dos Encontros apostou, na época de forma pioneira, na divulgação da fotografia, acompanhando o seu entendimento e evolução ao longo destas quatro décadas. Os Encontros trouxeram a Portugal nomes importantes da história da fotografia mas também realizaram encomendas específicas que permitiram criar um novo olhar sobre Coimbra e sobre outras regiões. Até 27 de Fevereiro será possível ver obras de nomes como António Júlio Duarte (na imagem), Bernard Plossu, Augusto Brázio, Inês Gonçalves, Paulo Nozolino ou George Krause e também artistas plásticos como Rui Chafes, ou Paulo Brighenti, entre outros. A exposição distribui-se por três núcleos intitulados “Coimbra”, “Ao Espelho da Sereia” e “Coração da Ciência”, apresentando uma retrospectiva de três projetos que fazem parte da história dos Encontros de Fotografia, resultado de uma seleção de obras pertencentes à coleção do CAV, feita por Albano Silva Pereira. Outros destaques: em Braga, na Zet Gallery, João Louro apresenta About Today, uma seleção de cerca de dezena e meia de trabalhos, produzidos entre 1995 e 2019, na sua generalidade de exibição inédita; e em Lisboa, o Círculo Eça de Queiroz apresenta obras da sua colecção na sua maior parte formada durante os anos em que António Ferro dirigia o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) e patrocinou o Segundo Modernismo Português. Ali estão trabalhos de Canto da Maia, Bernardo Marques, Leopoldo de Almeida, Júlio de Sousa, Estrela Faria e Paulo Ferreira - artistas ligados às Exposições de Arte Moderna do SPN, às grandes feiras internacionais de Paris e Nova Iorque e à Exposição do Mundo Português.


 


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UM DISCO LUSO-CANADIANO - Lucy Hocking é uma jornalista neo-zelandesa que vive em Londres e trabalha para a BBC. Era a entrevistada da newsletter da Monocle de sábado passado, uma das minhas leituras de fim de semana. A entrevista segue um modelo onde se pergunta que revistas lê, que noticiários ouve, que livros está a folhear e que música ouve. A resposta de Lucy deixou-me curioso - um disco de um grupo chamado Mira Pardelha, que ela caracteriza como Luso-Canadiano e que integra o seu próprio marido, debaixo da parte que leva a bandeira do Canadá. O disco chama-se “About Land, fui ouvi-lo no Spotify. O álbum foi criado entre Lisboa e Londres por um colectivo de músicos portugueses e canadianos, Mira Pardelha, que existe desde 1998. Nesse ano os músicos canadianos Jason Breckenridge e Ian Brimacombe partilhavam habitação em Lisboa e foram entrando na tradição musical da cidade e do país com o apoio de vários portugueses. Agora, duas décadas depois da ideia original, Breckenridge e Brimacombe revisitaram as suas memórias lisboetas e fizeram finalmente um disco,  com o auxílio de músicos locais, entre as quais a vocalista Benedita Barbosa e de mais alguns músicos que vivem em Londres. O disco tem raízes na música folk do Canadá, mas tem fortes influências portuguesas como se comprova em temas como “Rosa dos Ventos” ou “Entre O Céu E O Chão”. Trata-se de um pop elaborado, com dez temas onde se faz também ouvir a influência de sonoridades brasileiras, como em “For Prester John” onde se sente que alguém andou a ouvir os Mutantes. É curioso ouvir como músicos de outras nacionalidades constroem canções cantadas em português e como a voz de Benedita Barbosa é surpreendente. O Spotify serve para isto - descobrir o que não se conhece.


 


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CRIME & CASTIGO  - Tenho uma queda por policiais. Isso e livros sobre História. Mas reconheço que os policiais são uma coisa à parte. Fui alimentado a livros da colecção Vampiro durante a adolescência e a coisa deixou marcas profundas. Um dos grandes policiais editados este ano em Portugal é  “Terra Alta”, o livro de Javier Cercas que venceu o Prémio Planeta em 2019. Pode alguém querer fazer justiça? A vingança é legítima? Estas são as questões de fundo que lançam a narrativa do livro, marcada por personagens fortes. O livro conta a epopeia de um homem em busca do seu lugar no mundo. “Terra Alta” conta como  um crime terrível abala a pacata comarca que lhe serve de título: os donos da sua maior empresa aparecem barbaramente assassinados. Quem toma conta do caso é Melchor Marín, leitor compulsivo e jovem polícia que chegou de Barcelona quatro anos antes. Sobre os ombros carrega um passado obscuro que o converteu numa lenda junto das forças policiais, mas que ele acredita ter enterrado sob uma vida feliz como marido da bibliotecária da povoação e pai de uma menina chamada Cosette, tal como a filha de Jean Valjean, o protagonista de “Os Miseráveis”, o seu livro preferido. Nascido na região de Cáceres, Javier Cercas, 58 anos,  está traduzido em mais de 30 línguas e ganhou vários prémios ao longo da carreira. Na sua escrita surge sempre a evocação de um imperativo moral que cria heróis improváveis e “Terra Alta” é um bom exemplo disso mesmo. Aproveitem estes dias e os confinamentos e divirtam-se com a investigação deste crime.





O BOLO DE TODAS AS ESTAÇÕES - Imagino que pudessem estar à espera que me colocasse na guerra dos Bolos Rei. É um debate curioso: Bolo Rei ou essa modernice chamada Bolo Rainha? Por este andar proíbem o sexo no nome dos bolos, digo-vos eu. Não pensem que vou falar do clássico Bolo da Confeitaria Nacional, nem tão pouco do moderno Bolo da Gleba. Também não falarei de sonhos, nem de filhoses. Mas em contrapartida vou falar de um bolo de todo o ano que, na  minha modesta opinião, tem o seu expoente máximo na Pastelaria Versailles, ao Saldanha. Trata-se do caracol, indiferente às questões de género e sem se preocupar com a extinção das frutas cristalizadas, que é o pecado original do Bolo Rainha. Sempre achei que existem pontos de contacto na textura da massa e no seu recheio, entre o caracol da Versailles e o Bolo Rei. O caracol, a acompanhar uma chávena de bom café, é dos melhores começos de dia que se pode imaginar. Bate os donuts imperialistas aos pontos e deixa os maneirismos dos croissants a boa distância. O seu único rival, e mesmo assim tem dias, é o bolo de arroz. Mas eu por mim, prefiro o caracol, disponível todo o ano e sempre o da Versailles.


 


DIXIT - “O mandato e a legislatura resultaram porque ambos precisavam vitalmente um do outro, Marcelo e Costa, Presidente e Governo. Nunca se tinha ido tão longe no entendimento.” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - Os políticos e as fraldas devem ser mudados pela mesma razão - Eça de Queiroz.


 




dezembro 18, 2020

CADA VEZ MAIS; TUDO ENTRE COMPINCHAS...

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O CÍRCULO FECHADO - O novo chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, foi o mais destacado assessor económico de José Sócrates e o seu homem forte para os negócios com a Venezuela durante os seis anos de Governo socrático. Após 2011 os contactos entre Escária e Sócrates continuaram até que o ex-Primeiro Ministro foi detido em 2014. Escária esteve também sempre próximo do actual Primeiro Ministro mesmo depois de, em 2017, se ter demitido de assessor económico de Costa quando foi envolvido no caso das ofertas de viagens pela GALP ao Euro 2016. Mais recentemente esteve envolvido nas negociações entre Costa e o polémico primeiro-ministro húngaro,Viktor Órban. Antes, recordo, também fomentou boas relações com o sinistro regime venezuelano. É pois um rapaz que gosta de relações escaldantes. Num recente artigo João Miguel Tavares escreveu: “onde há negócios, dinheiro e diplomacia económica, aí está Vítor Escária. Sempre foi assim e, pelos vistos, continua a ser, e de um modo que não poderia ser mais assumido – ao colocar Escária como seu chefe de gabinete, António Costa está a pôr os negócios e o dinheiro (neste caso, a enxurrada de fundos europeus) no centro do seu governo.” Esta nomeação e outras ocorridas recentemente mostram que o Primeiro Ministro começa a ter falta de capacidade - ou talvez de vontade - em ir buscar caras descomprometidas. O executivo é cada vez mais um prolongamento do núcleo duro do aparelho do PS. Na realidade um quarto dos membros do actual Governo já foi chefe de gabinete em algum executivo socialista. Que resultado tem isto nas nossas vidas? - a balbúrdia criada pela incapacidade do Ministro Eduardo Cabrita no caso do SEF e a cobertura que lhe foi dada por António Costa e por Santos Silva mostram onde o círculo fechado e a protecção dos incondicionais pode levar. Quem acha que o resultado é bom?





SEMANADA - O PS  chumbou um projecto-lei, proposto já depois do assassinato de Ihor Momenyuk, onde era exigido que a audiência aos estrangeiros para a recusa de entrada em Portugal só pudesse ser feita na presença de um advogado; Portugal continua a ser um dos países europeus em que maior número de pessoas declara não ter capacidade para manter a sua casa aquecida de forma adequada; uma sondagem recente indica que apenas 61% dos portugueses estao dispostos a receber a vacina contra Covid-19 de imediato e 19% adiarão a decisão e 8% afirmam não querer ser vacinados; segundo a Marktest os canais de TV emitiram em Novembro, pela primeira vez desde Março de 2019, mais publicidade do que em igual mês do ano passado; num relatório apresentado há cerca de um ano o Comité Contra a Tortura da ONU manifestava preocupações sobre o respeito pelos direitos huamnos em instalações do SEF; uma sondagem divulgada esta semana indica que Marcelo é o candidato presidencial preferido até entre eleitores do Bloco de Esquerda; o custo suportado pelo Estado para segurar bancos em Portugal ascendeu a cerca de 21 mil milhões de euros entre 2018 e 2019; sete em cada dez portugueses estão muito pessimistas quanto aos efeitos da pandemia na economia nacional; um estudo da Universidade Católica indica que a pandemia reduziu os rendimentos a um quarto dos inquiridos; os portugueses têm hoje menos poder de compra do que em 2010; prevê-se que neste mês de Natal sejam vendidas em Portugal cinco toneladas de bacalhau.


 


ARCO DA VELHA  - O presidente do sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do SEF criticou o Presidente da República por este ter defendido a necessidade da reestruturação daquela polícia.


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UM PORTUGUÊS EM MÁLAGA - Até 14 de Março de 2021 o Centro de Arte Contemporânea de Málaga acolhe cerca de 250 obras de Pedro Cabrita Reis que mostram a evolução da obra do artista português ao longo da sua carreira. “Cabrita - Cabinet d’Amateur” é uma instalação em que as obras cobrem as paredes da área da exposição, a zona central do Centro, de cima abaixo, de forma aparentemente aleatória - escreve o “la Vanguardia”, que salienta que o nome a e a forma da mostra têm a ver com o espírito coleccionista do artista(na imagem). Aliás a maior parte das obras pertence à colecção pessoal de Cabrita, à excepção de um pequeno número proveniente de colecções particulares. Ainda segundo o La Vanguardia cerca de uma centena de obras foram feitas entre 2019 e 2020. Comissariada por Helena Juncosa, a exposição mostra pintura, desenho, fotografia, escultura mas também  instalações compostas por objectos diversos. Outras sugestões: em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, Pedro Calhau apresenta até final de Janeiro a exposição “Do Inesgotável”, com trabalhos de gravura, fotografia, desenho, instalação e texto. E já que estamos em época invernal o Museu da Farmácia , em Lisboa, junto ao Chiado,  apresenta “Vintage PUB – a memória das farmácias” , a nova exposição que ali reúne diversos anúncios da década de 1960, desde cartazes de Melhoral até rebuçados para a tosse.


 


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O DUETO  - A relação entre a cantora Maria João e o pianista Mário Laginha vem de longe. Ambos trabalharam juntos em diversos projectos, desde o inicial quinteto de Maria João, até que em 1994 se concretizou com o álbum “Danças” o início do dueto que se afirmou ao longo dos anos em mais de uma dezena de trabalhos e discos. Na realidade, desde o início, a relação entre ambos foi de uma complementaridade musical invulgar feita de uma cumplicidade crescente entre a forma muito própria de interpretação vocal de Maria João e a capacidade de adaptação do piano de Mário Laginha à voz em canções de muitos e diferentes géneros. O “Best Of Maria João & Mário Laginha”, agora editado, mostra isso mesmo em 14 temas gravados em tempos muito diversos, entre 1996 e 2012. Aqui estão originais dos dois artistas, como a faixa inicial “Cair do Céu”, mas também interpretações de clássicos como “Black Bird” de Lennon & McCartney ou “Beatriz”, de Edu Lobo e Chico Buarque. E, claro, há diversas participações, como as dos brasileiros  Gilberto Gil em “Um Amor”, e Lenine em “Flor”. Edição Universal disponível em CD e streaming.


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OLHAR PARA A HISTÓRIA  - “A minha visão da História humana, da História-vivida é contemplativa. Requer um olhar atento, global, pacífico, não interventivo” - assim define José Mattoso o seu processo de trabalho. “A História Contemplativa” é precisamente o nome do seu livro, agora editado, que reúne palestras, ensaios e artigos surgidos entre 1996 e 2013, que abordam temas tão diversos como as relações entre mouros e cristãos na Península Ibérica do século XI, as particularidades da religiosidade dos alentejanos, os contactos do Portugal recém-nascido com o mundo ou a importância dos lugares e monumentos portugueses classificados como património mundial pela Unesco. A abrir o livro está um ensaio inédito, escrito expressamente para esta edição, que pode ser visto como uma súmula do pensamento de José Mattoso, um dos maiores historiadores portugueses, actualmente com 87 anos. São suas estas palavras: «A história como disciplina confunde-se com a técnica historiográfica: tem métodos, exige a crítica, o rigor e a quantificação; demonstra factos e constrói narrativas; propõe hipóteses e interpreta documentos. É uma das Ciências Humanas. Mas a História é também uma Arte, porque busca a compreensão do sentido que os atos humanos adquirem por serem praticados no Tempo. Na primeira acepção, a História demonstra a veracidade dos factos, e descobre o seu encadeamento. Na segunda, considera-os como manifestação da condição humana, ou seja, como resultado da inserção do Homem no Tempo. Enquanto Ciência, utiliza a análise; enquanto Arte, além de formular sínteses que a aproxima da totalidade, apercebe-se da beleza do Ser revelado pela contemplação.» Edição Círculo de Leitores, Temas & Debates.


 


PETISCO APURADINHO -  Sopa de rabo de boi é uma coisa tão comum que até há sopas instantâneas com a receita. Mas nada se compara ao sabor da carne do rabo de boi, uma iguaria infelizmente ainda pouco conhecida e que não se encontra em todo o lado. Dizem os entendidos que a origem do petisco é espanhola, mas em Portugal foi no Ribatejo que o petisco se aprimorou. O rabo de boi deve ser cortado aos pedaços, pelas articulações, que depois de bem cozinhados num lento estufado com alho francês, cenoura, louro, cravinho e um pouco de vinho fazem maravilhas. A carne vai-se separando dos ossos e cartilagens e fica com um sabor magnífico. É verdadeiramente um petisco que requer paciência, tempo e trabalho. O seu acompanhamento ideal é um puré de batata natural - nada de instantâneos. A combinação do estufado com o puré que se vai embebendo no molho, já no prato, é verdadeiramente arrebatadora. Eu gosto de salpicar o puré com pimenta preta moída na altura.  Esta pequena maravilha foi-me apresentada pela primeira vez, há uns anos, n’ O Apuradinho (Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501). E esta semana lá voltei a encontrar a iguaria, num almoço tardio ao fim de uma manhã de afazeres. Soube-me mesmo bem. 


 


DIXIT - “Ao fim destes anos todos de apoio maciço de fundos estruturais, Portugal é ainda um país atrasado” que deve aplicar o dinheiro “de uma forma radicalmente diferente da reprodução do passado" - Elisa Ferreira, Comissária Europeia com a pasta do financiamento comunitário. 


 


BACK TO BASICS - “Às vezes, as nossas acções são perguntas e não respostas“ - John Le Carré


 


 

dezembro 11, 2020

PODE UM MINISTRO SER CONIVENTE COM O SILÊNCIO?

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A ENCOBRIDORA - Nove meses. É este o tempo que decorreu entre o assassinato de um ucraniano por agentes do SEF no aeroporto de Lisboa e o pedido de demissão finalmente apresentado pela Diretora desses serviços. Durante meses Cristina Gatões assobiou para o ar como se nada fosse. Na realidade, encobriu. De início a investigação foi branda e relendo as notícias relativas ao crime a ideia é que a cúpula do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras quis evitar que se falasse ou investigasse a fundo o assunto. O Ministro da Administração Interna objectivamente ouviu os assobios e ficou-se quedo e mudo. Esta semana aceitou piedosamente o tardio pedido de demissão da senhora. Fica-se na dúvida se o silêncio da senhora foi voluntário ou se foi ordenado. Não é muito normal ver um Ministro conivente com a ocultação dos factos. Será interessante ver qual vai ser o próximo posto desta diligente funcionária do Estado, uma jurista que fez toda a carreira no SEF. Cristina Gatões demorou nove meses a reconhecer o sucedido que classificou modestamente de actos de tortura. Custa acreditar que os outros membros da Direcção Nacional do SEF, que continuam em funções, não soubessem do sucedido. Não falaram, não se indignaram mas o Ministro Cabrita atribuíu-lhes agora a responsabilidade da reestruturação futura dos serviços. Seria bom saber porque porque foram eles também coniventes no silêncio - também receberam ordens para se calarem?  Recentemente o SEF anunciou que face ao sucedido seria instalado um botão de pânico nas instalações para que eventuais agredidos pudessem reagir. Podia ser anedota se não fosse macabro. O botão de pânico dá ideia do género de reestruturação que povoa estas mentes. E Eduardo Cabrita tem em toda esta novela muito que explicar. Se não promoveu, ajudou ao silêncio, a esconder, a desvalorizar a morte de um homem às mãos do Estado. Não devia continuar em funções.


 


SEMANADA - Um estudo recente indica que a queda do emprego registada este ano em Portugal concentrou-se nas profissões com os salários mais baixos; Boaventura Sousa Santos escreveu um artigo a elogiar o ensaio “O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, de Lenine, a propósito da votação do Orçamento de Estado; apesar da diminuição de turistas devido à pandemia a Madeira vai continuar a gastar este ano um milhão de euros no fogo de artifício da noite de fim de ano; segundo o Inquérito à Fecundidade de 2019 10% dos portugueses não têm intenção de ter filhos; 50% dos estudantes terminam o 12º ano depois da idade esperada, ou seja 17 anos;  na Assembleia da República o plano de vacinação contra a gripe recebeu 310 inscrições, mas o parlamento só recebeu até agora 105 vacinas; as vendas de queijo da Serra da Estrela com denominação de origem protegida caíram 60% devido essencialmente à anulação de feiras e eventos onde se comercializa o produto; o exército travou a admissão de um jovem que se afirmou como transexual; no Santuário de Fátima, de março até outubro deste ano, foram anuladas 987 peregrinações (703 estrangeiras e 284 portuguesas), num total de mais de 320 mil peregrinos"; a ausência de peregrinos traduz-se "numa quebra acentuada de receitas, 50,6%, nomeadamente ao nível dos donativos; até Outubro, no Serviço Nacional de Saúde, realizaram-se menos 112 mil cirurgias , menos 37 mil consultas presenciais por dia e menos 22 milhões de exames que em igual período do ano passado; a procura de viagens aéreas caíu 70,6% a nível global em Outubro deste ano comparado com o mesmo mês de 2019.


 


ARCO DA VELHA  - Um sargento da GNR, arguido no caso do assalto das armas em Tancos, justificou assim as suas longas conversas com o líder do furto para que dissesse onde escondera o material: “Os informadores são como as vacas: enquanto tiverem leite há que insistir” .


 


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IMAGENS CONFINADAS -  No Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, inaugurou e está patente até 23 de Janeiro a exposição Face À Vida Nua, que recolhe o trabalho de três artistas durante a pandemia e o confinamento: Luciana Fina apresenta-nos um filme realizado no primeiro surto pandémico deste ano, em que se confronta com a devastação da paisagem natural por especulação imobiliária, Vasco Barata dedicou-se nos meses da pandemia à prática do desenho, contido às dimensões físicas do seu espaço de trabalho,  e João Pina documentou com um ensaio fotográfico (na imagem)  o célebre edifício Copan, em São Paulo, projetado por Óscar Niemeyer, que tem 1160 apartamentos  e mais de 5000 residentes. Outros destaques: a não perder nos dias 11,12 e 13 na Galeria Monumental “Virose Artística”, uma mostra de pequenos formatos com obras de mais de 50 artistas ao preço único de 50 euros. Exclusivamente no Facebook e Instagram da Galeria. No Museu Municipal de Faro inaugurou a Exposição “Território Solar”, com obras da Coleção de Fotografia Contemporânea do Novo Banco, com  curadoria de Maria Eduarda Duarte e a exposição está patente até 28 de março de 2021. E finalmente na  SNBA  uma exposição sobre a obra de Cruzeiro Seixas, “Fazedor Nada Perfeito” mostra até 30 de Dezembro mais de 60 obras entre escultura, desenho, joalharia e serigrafia.


 


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UMA RARIDADE DE AMÁLIA - Como é que nasce um disco? “Ensaios”, a edição agora lançada com registos de Amália Rodrigues, ajuda a perceber como era o processo criativo da fadista. Trata-se de um CD duplo em que o primeiro disco recolhe gravações feitas nos Estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho e  o segundo gravações feitas em casa da própria Amália, em 1970 e 1971. Mais uma vez este trabalho, ligado às comemorações do centenário da fadista, tem a mão de Frederico Santiago que tem desempenhado um papel fundamental na recuperação do arquivo Amália. O primeiro disco, recolhe cinco temas, ensaios e takes experimentais gravados em estúdio, incluindo conversas com Hugo Ribeiro, o técnico de som que mais trabalhou com ela, e os músicos que a acompanhavam. Ali estão Meu Amor É Marinheiro, Sete Estradas, Rosa Vermelha, Alfama, Perdigão. No segundo disco, gravado em casa de Amália, em Lisboa, está o registo do seu trabalho com Alain Oulman, em fados como Sete Estradas, Nunca Ninguém Viu Ninguém, Gondarém, Perdigão, Abril, Rosa Vermelha e Com Vossa Licença. E depois há uma surpresa: gravações de Alain Oulman a cantar para Amália em meia dúzia de fados. São momentos de intimidade e que mostram a enorme cumplicidade musical entre ambos, o processo de busca e repetição até se chegar ao ponto que Amália pretendia - nas suas palavras, perto da perfeição: “a mim as coisas só me parecem completas quando as tenho todas, quero sempre fazer mais, fazer melhor”. A edição é complementada por um livro que traça a cronologia de 1970, um ano em que Amália cantou do Japão aos Estados Unidos. O livro tem fotografias inéditas, reprodução de páginas dos cadernos manuscritos  de Alain Oulman, com partituras e poemas dos fados, além de notas explicativas de Frederico Santiago sobre cada um dos fados, por Frederico Santiago. Edição Valentim de Carvalho.


 


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O TEMPO DA CHINA - Diplomata, académico, perito em relações internacionais e assuntos asiáticos, Kishore Mahbubani é Professor na Universidade Nacional de Singapura. Foi embaixador de Singapura nas Nações Unidas e presidiu ao Conselho de Segurança em 2001 e 2002. Já este ano lançou “Has China Won? - The Chinese Challenge To American Primacy, agora editado em português pela Bertrand com o título “A China Já Ganhou?”. Ao longo de nove capítulos Kishore Mahbubani faz uma reflexão geoestratégica do que se passa actualmente, analisando o comportamento da China e dos Estados Unidos e as situações a que ambos os países chegaram, as características de cada um e a maneira como encaram os grandes desafios do tempo presente, da ameaça terrorista aos problemas ambientais. No final do livro o autor deixa este recado: “o desafio que as alterações climáticas representam é simples: conseguiremos nós demonstrar que continuamos a ser a espécie mais inteligente do planeta Terra e preservá-lo para as gerações futuras? Os seres humanos olhariam cheios de pena para quaisquer das tribos de símios que continuassem a lutar pelo domínio do território enquanto a floresta em volta ardia. Contudo é assim que os Estados Unidos e a China surgirão às gerações futuras se continuarem a dirigir o foco para as suas diferenças enquanto o planeta Terra enfrenta um longo período de grande perigo”. E conclui o livro com esta frase: “A derradeira questão, portanto, não se centra em saber se os Estados Unidos ou a China venceram. Centra-se em perceber se a humanidade venceu”.


 


SALICÓRNIA CONFINADA COM ARROZ  - Gosto de arroz de todas as maneiras - simples, ou numa das muitas variedades temperadas da cozinha tradicional portuguesa. A minha preferência mais recente vai para arroz de salicórnia, essa planta que cresce espontaneamente em ambientes salinos, como nas rias da costa portuguesa. Tem caules carnudos, há quem lhe chame espargos do mar. A salicórnia é uma planta suculenta com sabor salgado, mas só há relativamente pouco tempo começou a ser mais fácil de encontrar nos supermercados - nas lojas de produtos biológicos já existia há algum tempo. Vamos então à receita, com arroz carolino naturalmente. De há uns tempos a esta parte abandonei os refogados tradicionais e coloquei a cebola e o alho de lado. Uso muitas vezes funcho e gengibre picados salteados em azeite para dar um toque inicial,  antes de adicionar o arroz e  depois a água da sua cozedura - gosto dele malandro mas sem demasiada calda. Neste caso de arroz de salicórnia não adiciono sal. Só coloco a salicórnia, numa quantidade generosa, a meio da cozedura e envolvo-a bem no arroz.  É também pouco depois, a uns três minutos do final da cozedura, que adiciono lingueirão - uso o congelado sem problemas, tendo o cuidado de o deixar ir à temperatura ambiente antes de entrar na panela. O lingueirão coze depressa e conserva melhor o seu sabor se não estiver muito tempo ao lume. Como qualquer arroz, devemos deixá-lo a repousar, tapado, já de lume desligado, pelo menos uns cinco minutos antes de servir. O tempo de preparação ronda a meia hora. Um Alvarinho a acompanhar fica sempre bem. Bom apetite. E divirtam-se. Cozinhar petiscos ajuda a combater o stress.


 


DIXIT - “Não se tratou de um acidente, mas sim de um atentado, embora não dirigido necessariamente a Francisco Sá Carneiro” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


BACK TO BASICS - “Aquilo que está feito não pode ser desfeito” - William Shakespeare


 




dezembro 04, 2020

O ZÉ POVINHO OLHOU PARA O PARLAMENTO

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POLÍTICA & TRAPALHICE  - Em 1875 Rafael Bordalo Pinheiro criou a personagem de Zé Povinho que rapidamente ganhou o estatuto de personificação da crítica social e política dos portugueses a quem mandava no país. Tenho para mim que esse olhar sobre Portugal, ao mesmo tempo com humor e sem tibiezas, é hoje personificado por Ricardo Araújo Pereira. Na emissão de Domingo passado de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, RAP passou imagens da votação no parlamento do Orçamento de Estado onde era patente a falta de cuidado de alguns deputados, o desnorte da mesa da Assembleia, em suma uma situação que faz jus ao nome do programa. De facto, se numa das mais importantes votações de qualquer sessão legislativa se passa o que o programa mostrou, só podemos estar perante uma falta de respeito pelos cidadãos. O Parlamento reflecte o estado da política e dos políticos, é o espelho do funcionamento do sistema. Quando acontecem cenas como as que foram mostradas é sinal de que algo está muito mal. Este ano o debate sobre o Orçamento parecia o palco de uma ópera buffa - inflexões, negociatas, arrufos e namoricos, intrigas, separações e zangas. As divergências são boas, os consensos são desejáveis, mas o retrato de golpes e contragolpes faz mal a um sistema que já está doente. Nestes tempos passou a ser normal fazer política pensando pouco no país e muito nos interesses de grupo ou pessoais. O poder não se deseja para servir o país e os cidadãos, pretende-se para satisfazer clientelas e proteger correlegionários. Enquanto isto não mudar a nossa vida vai ser complicada. As estatísticas não mentem. Mesmo sem pandemia o estado de saúde de Portugal é fraco, a debilidade continua. Penso nas imagens que vi, na maneira como decorreu o debate do Orçamento de Estado e temo o pior sobre a aplicação do dinheiro da célebre bazuka que vem da Europa. É que estas coisas andam todas ligadas. Numa semana que tanto se falou de pensar Portugal talvez seja bom vermos o que fazer para podermos funcionar melhor. 


 


SEMANADA - O PS aceitou 198 propostas de alteração ao Orçamento de Estado de 2021 e foram aprovadas, contra a vontade do PS, 82 propostas; o PS voltou a subir nas sondagens e o PSD a cair; no processo de liquidação do Banco Privado Português foram detectados desvios no valor de 11,6 milhões de euros que terão ido para a esfera pessoal de alguns dos administradores do banco; nas principais redes sociais os partidos com assento parlamentar têm 1,8 milhões de seguidores, 70% dos quais no Facebook, 17% no twitter e 13% no Instagram; a Iniciativa Liberal é o partido que mais interacções gera nas três redes sociais agora analisadas num estudo relativo a este ano; há 12 anos consecutivos que há mais mortes do que nascimentos em Portugal mas este ano estamos a bater o recorde do saldo natural negativo; a Web Summit, que este ano se realiza exclusivamente on line e sem público nem visitantes, custará à Câmara Municipal de Lisboa os mesmo 3 milhões de euros das edições anteriores que trouxeram milhares de pessoas à cidade; a candidata presidencial Ana Gomes tomou uma vacina contra a gripe que uma amiga lhe trouxe de França; os bancos emprestaram 976 milhões de euros para a compra de casa em outubro, feitas as contas dá mais de 31 milhões de euros por dia, trata-se do valor de financiamento de crédito à habitação mais elevado desde janeiro.


 


ARCO DA VELHA  - Estar infetado com Covid-19 ou estar a cumprir um período de isolamento profilático não chega para justificar o adiamento dos exames de Código ou de Condução e nessas situações os candidatos estão a ser obrigados a pagar para que as provas sejam remarcadas. 


 


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UM RUSSO E UM FRANCÊS OLHAM PARA LISBOA  - Tempos difíceis estes para ver exposições com todas as limitações de horário e de circulação que existem. A boa notícia é que há muito para ver. Comecemos pela Galeria Balcony. Nikolai Nekh nasceu na Rússia em 1985, mas estudou Arte e Multimédia na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. A fotografia é o meio que utiliza e “Surender Surender”, a exposição que agora inaugurou em Lisboa parte da observação da transformação da cidade onde vive (na imagem).  Há cerca de dois anos, Nikolai Nekh começou a aperceber-se da acumulação de objectos de mobiliário, como bancos, cadeiras, mesas ou estrados, nas ruas que percorria entre casa, na zona de São Bento, em Lisboa, e o trabalho. Na altura, o crescimento económico, o aumento do turismo e a especulação imobiliária já eram evidentes na cidade, mas foi quando se deparou com os vestígios da renovação de apartamentos para aluguer temporário a preços altos que o artista se debruçou sobre o assunto. Esta exposição mostra a forma como Nikolai Nekh encara o confronto entre o desenvolvimento económico, científico e tecnológico e o desequilíbrio social e ambiental. A exposição fica na Balcony Temporary Art Gallery até 19 de Janeiro (Rua Coronel Bento Roma 12A).  Na Galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76, Beato, até 15 de Janeiro) pode ver  “Entre Deux Eaux”, a segunda exposição de Adrien Mussika naquele espaço, fruto da sua visão de Lisboa, entre as águas do Tejo e do oceano onde o rio desagua. Até 15 de Janeiro. O russo fez fotografias sobre um discurso político, muito pré-covid e o francês sobre um devaneio intemporal. É uma velha disputa de estilos, mas vale a pena comparar. Outro destaque: no Projecto Travessa da Ermida, José de Guimarães mostra na exposição “Dioramas” um conjunto de instalações inéditas e peças de arte africana da sua coleção pessoal (até 9 de Janeiro, Travessa do Marta Pinto 21, Belém)


 


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CANÇÕES SEM TEMPO - Samuel Úria gravou o seu primeiro disco em 2009 e chamou-lhe "Nem Lhe Tocava”, que na altura marcou terreno pelos arranjos inusitados e pela construção das canções. Agora, mais de uma década depois de ter começado, lançou “Canções do Pós-Guerra”, outro nome provocador, Samuel Úrias salientou numa entrevista recente: “marimbar-me para as expectativas pode ser a receita certa para eu não ficar acabrunhado em relação a fazer um disco. Não penso no público, faço o que quero”. Neste novo disco, editado pela Valentim de Carvalho, estão nove canções coerentes mas diversas, onde frequentemente se detecta alguma influência folk. Aqui coexistem baladas com o “Cedo” com revisitações de blues como em “Fica Aquém”. O título do disco, ainda segundo Úria, tem a ver com a ruptura em relação ao álbum anterior, mais pop e electrónico (“Carga de Ombro” de 2016). Entre as influências poéticas, Samuel Úria cita Elisabeth Bishop, Philip Larkin, Ted Hughes e Leonard Cohen. As letras de Samuel Úria deixam marca, mostram o que ele pensa, não são rimas soltas. Por exemplo, em “As Traves” sublinha: “Tenho a vista cansada de tanto apontar para longe de mim/ E as traves nos olhos já dão de si/ Agora eu não dou conta de nada” . “Canções do Pós Guerra” é um disco intemporal, mistura estilos e influências, mas não vai em modas. Úria conta que foi para estúdio, antes da pandemia, com as canções apenas à guitarra e voz e aí começou o trabalho com o produtor Miguel Ferreira, que é também um dos músicos convidados. Aos poucos acrescentaram ideias à base acústica, procurando não deturpar a ideia original de cada tema. “Andámos ao sabor das canções”, conta Úria na mesma entrevista. O disco tem participações especiais da cantora Monday (Catarina Falcão) e de Miguel Araújo. Disponível em CD e no Spotify.


 


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SOBRE O TRABALHO - O nº10 de “Electra”, a revista trimestral da Fundação EDP, começa com um texto que evoca a construção da Central Tejo no início do século XX, criando  a grande fábrica produtora de energia eléctrica que abastecia a cidade e a região da Grande Lisboa. O texto, que evoca a ligação entre o homem e a máquina, o trabalho e a técnica, é acompanhado por uma selecção de fotografias da colecção de Kurt Pinto, depositadas na Fundação EDP e que são um documento único da construção e laboração da Central Tejo. Esta edição do Outono de 2020 da “Electra” tem por tema o trabalho e todas as suas implicações no mundo contemporâneo, a maneira como se transformou e, na situação actual, como coexiste com a devastação provocada pela pandemia. A “Electra” tem uma edição e grafismo exemplares e utiliza nesta edição fotografias de Alan Sekula e ilustrações de Konrad Kalpheck. Destaque para um artigo de Jason Read que analisa a série televisiva “Breaking Bad” à luz da representação do trabalho na personagem do professor de química que se torna um barão da droga. Destaque ainda para o portfolio de fotografia de Alec Soth, um dos nomes mais importantes da fotografia americana contemporânea, “Unseen Teen”, apresentado por Sérgio Mah.


 


IDEIAS PETISQUEIRAS PARA O CONFINAMENTO - Como nestes dias próximos a única solução é comer em casa, aqui ficam duas sugestões, simples. A primeira é mais de peso e retoma a velha ideia de massa com queijo. A segunda é um petisco para aperitivo. Comecemos pelo lado pesado. Primeiro  preparam a base do molho com uma chávena de leite, temperado com sal, pimentão doce fumado e pimenta negra moída na altura,  no qual dissolvem uma embalagem de mozarella gratinado, daquele que se usa para colocar nas pizzas. Uma alternativa lusitana, mais intensa, é cortar aos pedaços queijo da ilha de média cura e fazer o mesmo. Em qualquer dos casos no fim adicionam uma embalagem de queijo creme, tipo Philadelphia. Deixam tudo derreter bem e ficar cremoso. Entretanto cozem meio pacote de macarrão, mas não o deixam ficar mais de quatro minutos na água a ferver para permanecer “al dente”. Depois deitam um pouco do molho num recipiente de ir ao forno, colocam macarrão e o resto do molho por cima em camadas alternadas de forma a acabar com queijo. Fica no forno pré aquecido a 200º durante dez minutos para o molho derreter bem a acabar de cozer a massa. Está pronto a servir. Antes disso sugiro uma entrada - pegam numa embalagem de corações de alcachofra que escorrem e cortam aos pedaços. secam bem com papel de cozinha e levam os pedaços salpicados de azeite ao forno bem quente num tabuleiro. Quaisquer 18 a 20 minutos devem chegar para as alcachofras em pedaços ficarem tostadas. É deixar arrefecer e usar como aperitivo.


 


DIXIT - “Se não há cão, haverá gato, mas vamos fazer” - António Costa sobre a aprovação no parlamento da proposta que impedia a injecção de mais dinheiro no Novo Banco.


 


BACK TO BASICS - “Na literatura, tal como no amor, surpreendemo-nos com as escolhas que as pessoas fazem” - Andre Maurois


 





novembro 27, 2020

O PONTO COMUM ENTRE O CINEMA E A MERCEARIA - E A HISTÓRIA DE UM BARCO VERMELHO

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O ECRÃ FAZ TUDO - A janela é o ecrã mais antigo que conhecemos. O nosso olhar para fora de casa começou por passar por ali. A realidade hoje é outra. A janela é apenas mais um ecrã entre os muitos que fazem parte do nosso dia-a-dia. Frequentemente tenho à minha volta mais ecrãs que janelas e cada ecrã traz-me uma realidade diferente - algumas que escolho pessoalmente, outras que me são trazidas. A televisão é uma delas. Há uns anos era a única janela alternativa e podíamos apenas olhar para o que ela nos trazia, agora podemos escolher o que queremos que ela nos traga entre centenas de canais, podemos escolher a nossa programação, ver o que que nos interessa em gravações depois da sua emissão. No meio disto as transmissões desportivas, de futebol, continuam a ser os programas mais vistos - basta dizer que dos dez programas que maior audiência obtiveram até agora, oito foram transmissões de futebol - a excepção foram um “Jornal da Noite” do início da pandemia e  uma emissão de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” no primeiro período de confinamento. Desporto e notícias, que só fazem sentido quando vistas em directo, são o seguro de vida dos canais para manterem as suas audiências. Quase tudo o resto pode ser visto de outra forma. Muitas pessoas já vêem séries e filmes noutros ecrãs que não o da televisão e um dos ecrãs mais atingidos com a pandemia foi o das salas de cinema. Gus Van Sant, um cineasta norte-americano, constata que este ano o cinema foi empurrado para o ecrã dos computadores, aliás como boa parte das nossas vidas neste 2020. E desabafa: “É um bocado estranho estar a ver cinema no mesmo ecrã de computador onde fazemos as compras de mercearia”.


 


SEMANADA - Registam-se mais 103 mil desempregados em Outubro que no mesmo mês do ano passado e o nível de desemprego está 34% acima do registado em Outubro de 2019; nos primeiros oito meses deste ano venderam-se mais de 13 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, o valor mais alto dos últimos três anos; uma análise ao mapa de risco da COVID-19 com base em informação compilada pela Marktest, mostra que, nos dois grupos de concelhos de maior risco, vive 69% da população e concentra-se 68% do seu poder de compra; segundo um inquérito recente dois terços dos frequentadores habituais de restaurantes deixaram de o fazer desde que se iniciou novo estado de emergência; segundo a Associação Nacional dos Restaurantes a crise da pandemia já terá criado 40 mil desempregados no sector; um estudo do Ministério do Trabalho indica que 66% das empresas não têm ninguém em teletrabalho; impostos, taxas e outras tributações representam 46% das contas de energia eléctrica em Portugal; de acordo com o estudo “Os Portugueses E As Redes Sociais”, da Marktest, 33.2% dos portugueses com perfil criado em redes sociais afirma já ter feito compras diretamente numa rede social; desses cerca de 75% fez a última compra através do Facebook e 20% através do Instagram.


 


ARCO DA VELHA  - O vereador da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo, ameaçou dar “um par de murros nas fuças” a um vogal da Junta de Freguesia do Areeiro, Luís Moreira.


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O BARCO VERMELHO -  No grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada esta semana naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana passam pelas cinco salas onde se desenvolve a exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, nas suas várias facetas e nos suportes utilizados, do papel à escultura. Sérgio Fazenda Rodrigues, o curador da exposição, sublinha no texto que elaborou, que a produção de Cristina Ataíde “revela uma sede de experimentação e um fascínio pela descoberta que, entre outros, se ancora no impulso da viagem, na procura por outros sistemas de pensamento e numa busca pela expressão da matéria”. Nas cinco salas onde se desenvolve a exposição viaja-se pelos pilares da obra de Cristina Ataíde, com referências cruzadas mas sempre com a afirmação da sua identidade criativa. A exposição fica patente no Museu Berardo até 14 de Março de 2021. Outras sugestões: a Galeria Módulo (calçada dos Mestres 34) apresenta 20 pinturas de Ana Mata, realizadas entre 2018 e 2020. E na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Krtsch apresenta até 30 de Janeiro novas obras de pintura sob a designação “Please be quiet, please”, uma metáfora destes tempos que atravessamos.


 


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O DIA DA ORQUESTRA - Sérgio Godinho é um dos maiores escritores de canções da música portuguesa. Poucos autores se podem gabar de ter composto tantos temas que se tornaram famosos e que fazem parte do melhor da história da nossa música popular. Em quase 50 anos de carreira gravou 18 álbuns de originais, o último dos quais, “Nação Valente” data de 2018. Ora foi nesse mesmo ano que Sérgio Godinho realizou no Teatro S. Luiz, em Lisboa, uma série de concertos, entre 5 e 8 de Julho. Pela primeira vez na sua carreira tocou acompanhado por uma Orquestra, neste caso a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Cesário Costa. O piano e os arranjos para orquestra ficaram a cargo de Filipe Raposo e no palco estavam também, como habitualmente, Os Assessores, o grupo que o vem acompanhando ao vivo - Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Sérgio Nascimento (bateria, percussão) com direcção musical de Nuno Rafael (guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, lap steel guitar, percussão, coros). Godinho, agora com 75 anos, tem mostrado uma capacidade de se rodear bem em termos musicais e este disco não é excepção. Sobre esta série de concertos, ele sublinha: “Há espectáculos de que continuamos a falar muito tempo depois, houve uma chispa. Não se apagou.” Essa chispa está bem presente nos 15 temas que o disco inclui, desde “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, até “A Noite Passada”, “A Deusa do Amor ou “O Primeiro Dia”, mas também canções menos conhecidas como “O Velho Samurai”. Sérgio Godinho inclui dois temas que são uma homenagem a dois contemporâneos com quem trabalhou- evoca Zeca Afonso em “Endechas a Bárbara Escrava”, um tema que Zeca compôs sobre um poema de Camões e evoca também José Mário Branco numa canção que com ele escreveu para o álbum “Nação Valente”, “Mariana Pais, 21 Anos”. Os arranjos de Filipe Raposo respeitam as canções e dão-lhes uma sonoridade diferente com um acompanhamento orquestral - e diga-se que Sérgio Godinho adapta muito bem a sua interpretação a este novo pano de fundo musical. Já disponível em CD e nas plataformas de streaming áudio.


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NO REINO DAS MOTORIZADAS LUSITANAS - Durante algumas décadas existiu em Portugal uma indústria de fabrico de motorizadas, derivadas da formulação bicicletas com motor auxiliar - limitado a 50 cc e que era possível guiar com carta de bicicleta, na altura obrigatória para andar, mesmo a pedal, na via pública. Começaram por imitar motos estrangeiras mas cedo se desenvolveram modelos desenhados em Portugal, numas vezes com motores importados,noutros casos com motores fabricados localmente. As Casal, Zundapp, Famel ou Sachs, para citar só algumas, foram o meio de transporte que cresceu no Portugal rural e ajudou a transformar a paisagem. Sobretudo no pós guerra e até final da década de 70 cresceram os modelos, aperfeiçoou-se a qualidade e algumas fábricas sobreviveram até ao início deste século. A história da indústria portuguesa de motociclos é agora contada por Pedro Pinto, motociclista e ex piloto desportivo, num magnífico álbum intitulado “As Motos Da Nossa Vida”, editado pela Quetzal. Ali se conta desde o início do fabrico dos primeiros velocípedes com motor a petróleo, fabricados no Porto no final do século XIX. A Famel em Águeda, a Diana em Sangalhos, os motores  Alma e as correspondentes Motalli em Vila Nova de Gaia, a Casal que tinha uma oficina de montagem na Avenida da República, em Lisboa e mais tarde uma fábrica em Aveiro,a EFS também em Aveiro, a Famel em Águeda, a Macal também em Águeda, a Pachancho em Braga, a Sachs em Anadia, a Vilar no Porto. O livro é profusamente ilustrado com imagens dos modelos de cada marca, das instalações fabris e até das numerosas provas desportivas que se realizam por todo o país com motorizadas cá produzidas. “As Motos da Nossa Vida” revisita as pequenas e grandes fábricas que, um pouco por todo o país, inventaram e desenharam modelos, criando riqueza e emprego, exportando milhares de exemplares e transformando o dia a dia do transporte de tanta gente. O álbum, de capa dura, tem cerca de 200 páginas e é um memorial precioso do que foi uma época do motociclismo nacional, antes dos sucessos agora obtidos por pilotos como Miguel Oliveira.





GULOSEIMAS DE ÉPOCA  - O português, já se sabe, é uma língua muito traiçoeira. Há palavras que só se devem usar no singular. Por exemplo é sempre mais elegante dizer tomate do que tomates, assim como é menos dúbio dizer que se gosta de marmelo do que de marmelos. Adiante na brejeirice… Vem isto a propósito de eu gostar de fruta da época e o marmelo ser uma delícia de outono. Nesta altura gosto dele cozido ou, ainda melhor, assado, levemente tostado, sempre com pouco açúcar e bastante canela. Para consumo posterior o petisco mais imediato é geleia de marmelo com nozes, uma verdadeira delícia. E, depois, para consumo faseado ao longo do ano, a verdadeira e genuína marmelada é sempre apreciada. Em matéria de geleia e marmelada, além de umas artesanais que algumas pessoas me oferecem, a minha preferência vai para as que são confeccionadas pela Cister, na Rua da Escola Politécnica. A receita mais afamada é a do Convento de Odivelas. No Porto a Casa Ramos vende uma marmelada muito elogiada produzida em Cinfães sob a marca Memórias. Em matéria de sobremesa de marmelo cozido ou assado o Salsa & Coentros e o Apuradinho, em Lisboa, são incontornáveis. 





DIXIT - “Coexistirão dois países entre 27 e 29 de Novembro: o do PC e o nosso” - João Gonçalves.


 


BACK TO BASICS - “Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais mostra, menos se sabe” - Diane Arbus




novembro 26, 2020

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O ECRÃ FAZ TUDO - A janela é o ecrã mais antigo que conhecemos. O nosso olhar para fora de casa começou por passar por ali. A realidade hoje é outra. A janela é apenas mais um ecrã entre os muitos que fazem parte do nosso dia-a-dia. Frequentemente tenho à minha volta mais ecrãs que janelas e cada ecrã traz-me uma realidade diferente - algumas que escolho pessoalmente, outras que me são trazidas. A televisão é uma delas. Há uns anos era a única janela alternativa e podíamos apenas olhar para o que ela nos trazia, agora podemos escolher o que queremos que ela nos traga entre centenas de canais, podemos escolher a nossa programação, ver o que que nos interessa em gravações depois da sua emissão. No meio disto as transmissões desportivas, de futebol, continuam a ser os programas mais vistos - basta dizer que dos dez programas que maior audiência obtiveram até agora, oito foram transmissões de futebol - a excepção foram um “Jornal da Noite” do início da pandemia e  uma emissão de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” no primeiro período de confinamento. Desporto e notícias, que só fazem sentido quando vistas em directo, são o seguro de vida dos canais para manterem as suas audiências. Quase tudo o resto pode ser visto de outra forma. Muitas pessoas já vêem séries e filmes noutros ecrãs que não o da televisão e um dos ecrãs mais atingidos com a pandemia foi o das salas de cinema. Gus Van Sant, um cineasta norte-americano, constata que este ano o cinema foi empurrado para o ecrã dos computadores, aliás como boa parte das nossas vidas neste 2020. E desabafa: “É um bocado estranho estar a ver cinema no mesmo ecrã de computador onde fazemos as compras de mercearia”.


 


SEMANADA - Registam-se mais 103 mil desempregados em Outubro que no mesmo mês do ano passado e o nível de desemprego está 34% acima do registado em Outubro de 2019; nos primeiros oito meses deste ano venderam-se mais de 13 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, o valor mais alto dos últimos três anos; uma análise ao mapa de risco da COVID-19 com base em informação compilada pela Marktest, mostra que, nos dois grupos de concelhos de maior risco, vive 69% da população e concentra-se 68% do seu poder de compra; segundo um inquérito recente dois terços dos frequentadores habituais de restaurantes deixaram de o fazer desde que se iniciou novo estado de emergência; segundo a Associação Nacional dos Restaurantes a crise da pandemia já terá criado 40 mil desempregados no sector; um estudo do Ministério do Trabalho indica que 66% das empresas não têm ninguém em teletrabalho; impostos, taxas e outras tributações representam 46% das contas de energia eléctrica em Portugal; de acordo com o estudo “Os Portugueses E As Redes Sociais”, da Marktest, 33.2% dos portugueses com perfil criado em redes sociais afirma já ter feito compras diretamente numa rede social; desses cerca de 75% fez a última compra através do Facebook e 20% através do Instagram.


 


ARCO DA VELHA  - O vereador da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo, ameaçou dar “um par de murros nas fuças” a um vogal da Junta de Freguesia do Areeiro, Luís Moreira.


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O BARCO VERMELHO -  No grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada esta semana naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana passam pelas cinco salas onde se desenvolve a exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, nas suas várias facetas e nos suportes utilizados, do papel à escultura. Sérgio Fazenda Rodrigues, o curador da exposição, sublinha no texto que elaborou, que a produção de Cristina Ataíde “revela uma sede de experimentação e um fascínio pela descoberta que, entre outros, se ancora no impulso da viagem, na procura por outros sistemas de pensamento e numa busca pela expressão da matéria”. Nas cinco salas onde se desenvolve a exposição viaja-se pelos pilares da obra de Cristina Ataíde, com referências cruzadas mas sempre com a afirmação da sua identidade criativa. A exposição fica patente no Museu Berardo até 14 de Março de 2021. Outras sugestões: a Galeria Módulo (calçada dos Mestres 34) apresenta 20 pinturas de Ana Mata, realizadas entre 2018 e 2020. E na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Krtsch apresenta até 30 de Janeiro novas obras de pintura sob a designação “Please be quiet, please”, uma metáfora destes tempos que atravessamos.


 


 


O DIA DA ORQUESTRA - Sérgio Godinho é um dos maiores escritores de canções da música portuguesa. Poucos autores se podem gabar de ter composto tantos temas que se tornaram famosos e que fazem parte do melhor da história da nossa música popular. Em quase 50 anos de carreira gravou 18 álbuns de originais, o último dos quais, “Nação Valente” data de 2018. Ora foi nesse mesmo ano que Sérgio Godinho realizou no Teatro S. Luiz, em Lisboa, uma série de concertos, entre 5 e 8 de Julho. Pela primeira vez na sua carreira tocou acompanhado por uma Orquestra, neste caso a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Cesário Costa. O piano e os arranjos para orquestra ficaram a cargo de Filipe Raposo e no palco estavam também, como habitualmente, Os Assessores, o grupo que o vem acompanhando ao vivo - Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Sérgio Nascimento (bateria, percussão) com direcção musical de Nuno Rafael (guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, lap steel guitar, percussão, coros). Godinho, agora com 75 anos, tem mostrado uma capacidade de se rodear bem em termos musicais e este disco não é excepção. Sobre esta série de concertos, ele sublinha: “Há espectáculos de que continuamos a falar muito tempo depois, houve uma chispa. Não se apagou.” Essa chispa está bem presente nos 15 temas que o disco inclui, desde “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, até “A Noite Passada”, “A Deusa do Amor ou “O Primeiro Dia”, mas também canções menos conhecidas como “O Velho Samurai”. Sérgio Godinho inclui dois temas que são uma homenagem a dois contemporâneos com quem trabalhou- evoca Zeca Afonso em “Endechas a Bárbara Escrava”, um tema que Zeca compôs sobre um poema de Camões e evoca também José Mário Branco numa canção que com ele escreveu para o álbum “Nação Valente”, “Mariana Pais, 21 Anos”. Os arranjos de Filipe Raposo respeitam as canções e dão-lhes uma sonoridade diferente com um acompanhamento orquestral - e diga-se que Sérgio Godinho adapta muito bem a sua interpretação a este novo pano de fundo musical. Já disponível em CD e nas plataformas de streaming áudio.


 


NO REINO DAS MOTORIZADAS LUSITANAS - Durante algumas décadas existiu em Portugal uma indústria de fabrico de motorizadas, derivadas da formulação bicicletas com motor auxiliar - limitado a 50 cc e que era possível guiar com carta de bicicleta, na altura obrigatória para andar, mesmo a pedal, na via pública. Começaram por imitar motos estrangeiras mas cedo se desenvolveram modelos desenhados em Portugal, numas vezes com motores importados,noutros casos com motores fabricados localmente. As Casal, Zundapp, Famel ou Sachs, para citar só algumas, foram o meio de transporte que cresceu no Portugal rural e ajudou a transformar a paisagem. Sobretudo no pós guerra e até final da década de 70 cresceram os modelos, aperfeiçoou-se a qualidade e algumas fábricas sobreviveram até ao início deste século. A história da indústria portuguesa de motociclos é agora contada por Pedro Pinto, motociclista e ex piloto desportivo, num magnífico álbum intitulado “As Motos Da Nossa Vida”, editado pela Quetzal. Ali se conta desde o início do fabrico dos primeiros velocípedes com motor a petróleo, fabricados no Porto no final do século XIX. A Famel em Águeda, a Diana em Sangalhos, os motores  Alma e as correspondentes Motalli em Vila Nova de Gaia, a Casal que tinha uma oficina de montagem na Avenida da República, em Lisboa e mais tarde uma fábrica em Aveiro,a EFS também em Aveiro, a Famel em Águeda, a Macal também em Águeda, a Pachancho em Braga, a Sachs em Anadia, a Vilar no Porto. O livro é profusamente ilustrado com imagens dos modelos de cada marca, das instalações fabris e até das numerosas provas desportivas que se realizam por todo o país com motorizadas cá produzidas. “As Motos da Nossa Vida” revisita as pequenas e grandes fábricas que, um pouco por todo o país, inventaram e desenharam modelos, criando riqueza e emprego, exportando milhares de exemplares e transformando o dia a dia do transporte de tanta gente. O álbum, de capa dura, tem cerca de 200 páginas e é um memorial precioso do que foi uma época do motociclismo nacional, antes dos sucessos agora obtidos por pilotos como Miguel Oliveira.





GULOSEIMAS DE ÉPOCA  - O português, já se sabe, é uma língua muito traiçoeira. Há palavras que só se devem usar no singular. Por exemplo é sempre mais elegante dizer tomate do que tomates, assim como é menos dúbio dizer que se gosta de marmelo do que de marmelos. Adiante na brejeirice… Vem isto a propósito de eu gostar de fruta da época e o marmelo ser uma delícia de outono. Nesta altura gosto dele cozido ou, ainda melhor, assado, levemente tostado, sempre com pouco açúcar e bastante canela. Para consumo posterior o petisco mais imediato é geleia de marmelo com nozes, uma verdadeira delícia. E, depois, para consumo faseado ao longo do ano, a verdadeira e genuína marmelada é sempre apreciada. Em matéria de geleia e marmelada, além de umas artesanais que algumas pessoas me oferecem, a minha preferência vai para as que são confeccionadas pela Cister, na Rua da Escola Politécnica. A receita mais afamada é a do Convento de Odivelas. No Porto a Casa Ramos vende uma marmelada muito elogiada produzida em Cinfães sob a marca Memórias. Em matéria de sobremesa de marmelo cozido ou assado o Salsa & Coentros e o Apuradinho, em Lisboa, são incontornáveis. 





DIXIT - “Coexistirão dois países entre 27 e 29 de Novembro: o do PC e o nosso” - João Gonçalves.


 


BACK TO BASICS - “Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais mostra, menos se sabe” - Diane Arbus