julho 24, 2020

EUROPA? QUAL EUROPA?

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UNIÃO EUROPEIA? - Os últimos dias mostram que esta Europa só dá ares de funcionar quando os mais fortes precisam dela. Não estivessem a França e a Alemanha numa encrencada económica e orçamental e qualquer acordo estaria ainda provavelmente por concretizar. A necessidade aguça o engenho e, neste caso, fez retomar o namoro no eixo franco-alemão. Não embandeiro em arco com os resultados alcançados, abaixo dos objectivos inicialmente anunciados. Mas espero, com desconfiança, é certo,  que todo o dinheiro que aí vem seja bem empregue, que a difícil execução dos 6000 milhões de fundos ao ano não seja feita ao desbarato só para cumprir calendário, que o dinheiro seja bem investido, que não seja a corrupção do sistema a ganhadora, que não sejam os compadrios do costume os vencedores, que o histórico de má utilização de fundos europeus em Portugal não se repita. Espero que não sejam construídos aeroportos que ficam desertos como o de Beja, que não sejam feitas mais autoestradas, mas gostava que fossem recuperadas e melhoradas ligações ferroviárias, que a desertificação do interior fosse contrariada, que a agricultura fosse ajudada, que a importância da pesca fosse recuperada, que o tecido industrial crescesse de forma saudável e que as empresas de tecnologia e base portuguesa fossem beneficiadas. Um amigo meu francês disse-me há dias, perante a minha desconfiança face a esta Europa, que eu devia ter em conta os muito milhões que recebemos. E eu perguntei-lhe se já tinha feito as contas ao que nos custou a destruição da agricultura, das pescas e da indústria, condicionadas por acordos firmados em Bruxelas. A propósito, um outro amigo meu chamou-me a atenção para este interessante ponto do acordo: se algum dos países discordar das metas e alvos do plano de outro país, o assunto vai a discussão - primeiro na Comissão ou mesmo noutro Conselho. Isto significa que os planos nacionais são não só supervisionados como podem não existir pagamentos se não existir uma maioria de apoio no Conselho. Perante estas palavras, quem disse que os frugais foram derrotados? 


 


SEMANADA - PS e PSD aprovaram esta terça-feira, com votos contra dos restantes partidos, a alteração de regimento que põe fim aos debates quinzenais com o primeiro-ministro e torna a sua presença obrigatória apenas de dois em dois meses, numa altura em que o escrutínio político é mais necessário que nunca; nem um cêntimo foi ainda pago dos 15 milhões de euros de adiantamento de publicidade de organismos do Estado, anunciados em meados de Abril como apoio de emergência aos grupos de media devido à pandemia; a Associação Sindical dos Juízes Portugueses não quer que as principais investigações criminais do país sejam controladas por apenas dois juízes, como agora acontece, “provocando um problema de pessoalização das decisões  que criam um descrédito na justiça”; em Albufeira o desemprego disparou 680% devido à quebra do turismo; os transplantes de órgãos sofreram uma quebra de 52% devido à pandemia; cerca de 20% dos investimentos estrangeiros previstos para Portugal estão comprometidos devido aos efeitos na economia da pandemia; os aeroportos nacionais sofreram no primeiro semestre deste ano, uma quebra de 64,6% no tráfego de passageiros, um recuo que equivale a menos 17,7 milhões de passageiros comparativamente ao mesmo período de 2019; só Lisboa perdeu quase nove milhões de passageiros em relação ao primeiro semestre do ano passado; um estudo recente indica que em Portugal, apenas um em cada três trabalhadores têm possibilidade de realizar teletrabalho, o que deixa a economia vulnerável a um eventual segundo confinamento.


 


ARCO DA VELHA - O Fundo Nacional de Reabilitação do Edificado recebeu nos últimos quatro anos 7,1 milhões de euros do Estado mas as obras nos imóveis a que eram destinados ainda não começaram em nenhum deles.


 


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FOTOGRAFIA COIMBRÃ -  Hoje todas as sugestões são fotográficas e localizadas em Coimbra: por um lado as exposições da Estação Imagem, os prémios do fotojornalismo português; e, por outro, a exposição que assinala os 40 anos da primeira edição dos Encontros de Fotografia da cidade, criados em 1980 pelo entusiasmo de Albano da Silva Pereira. Hoje o CAV - Centro de Artes Visuais, criado em 2000, é o testemunho dessa obra e Albano da Silva Pereira é o seu Diretor Artístico. A exposição Spectrum, comissariada por Ana Anacleto, tem por base a colecção dos próprios encontros, constituída por fotografias expostas, muitas delas provenientes de encomendas realizadas expressamente para serem apresentadas no âmbito de diversas edições dos Encontros. A Spectrum fica patente até 10 de Setembro e inclui fotografias de Paulo Nozolino, Jorge Molder, Fernando Lemos, Daniel Blaufuks, Nuno Cera ou Daniel Malhão, mas também Robert Frank, Marianne Mueller, Stéphane Duroy, Gabriele Basílico, André Mérian ou Wim Wenders, entre outros. Por estes dias Coimbra é também o ponto de acolhimento da iniciativa Estação Imagem, que premeia o fotojornalismo português, numa iniciativa do repórter fotográfico e jornalista Luis Vasconcelos. Este ano o Grande  Prémio Estação Imagem foi para a reportagem “Abandonando o Sonho Venezuelano”, de José Sarmento Matos, que conta a história de uma família luso-venezuelana e a sua migração de regresso a Portugal e a forma como recomeçam a vida. O prémio Fotografia do Ano (na imagem) foi para Leonel de Castro. “Voo de Esperança”, mostra uma adolescente que parece voar em direcção aos céus num baloiço entre árvores destruídas numa das principais ruas da Beira, em Moçambique, depois da devastação causada pelo ciclone Idai. A fotografia faz parte da série Os Continuadores, também ela premiada na categoria Assuntos Contemporâneos. Saiba a localização das exposições e demais iniciativas em www.estacao-imagem.com .


 


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O REGRESSO ÀS CANÇÕES - Durante os últimos tempos Rufus Wainright dedicou-se a compor óperas e a musicar sonetos de Shakespeare. As canções pop que lhe deram fama, sobretudo nos primeiros dos nove álbuns da sua carreira, ficaram em stand by desde 2012 quando editou “Out Of The Game”. Ao fim de oito anos regressa agora ao seu terreno de eleição com o décimo álbum,  “Unfollow The Rules”. Ao contrário do que o nome indica este é um manual de regresso às origens, uma espécie de back to basics aos alicerces musicais onde construiu a sua carreira - a voz envolvente, o piano, as orquestrações exuberantes. De certa forma é uma revisão da matéria dada, como se fosse o arranque para um novo capítulo. Aqui renasce o piano em “Romantical Man”, os arranjos elaborados em “Unfollow The Rules” ou “Early Morning Madness” ou as baladas como “This One´s For The Ladies”. Destaque para a faixa que dá o título a este álbum, que arranca apenas com o piano e a voz de Rufus e que depois evolui numa orquestração arrebatadora ao nível do melhor que ele já fez. Para mim a melhor canção é  “Peaceful Afternoon”, talvez a mais marcante dos seus novos temas. Disponível no Spotify.


 


A Vida Extraordinaria do Portugues que conquistou


A HISTÓRIA DE UM  AVENTUREIRO PORTUGUÊS - “Ele não sabia ler. Nem escrever. Decidira aprender a desenhar as doze letras que somavam os seus primeiro e último nomes apenas quando deixaram de lhe chamar «José, o português», para passarem a tratá-lo por Don Jose” - assim começa “A Vida Extraordinária do Português Que Conquistou A Patagónia”, de Mónica Bello. Apesar de ser um nome desconhecido para muitos portugueses, José Nogueira é tido no Chile como uma das pessoas que ajudaram a escrever a história da Patagónia. Teria 12 ou 13 anos quando trocou as margens do Douro por um convés de navio, para fugir à miséria. Passou por Malta, Rio de Janeiro, Peru e Buenos Aires, mas foi ali, «onde a geografia chilena enlouquece e a fria costa patagónica é um intricado labirinto», que assentou arraiais. No vilarejo de Punta Arenas – terra de aventureiros, desterrados, índios, caçadores, deserdados e imigrantes – entre dois oceanos, nove minutos a sul do paralelo 53, na margem norte do estreito de Magalhães, José fez amigos, criou rivais, teve amores, fez fortuna, criou um império. Mónica Bello ouviu falar de Nogueira durante uma primeira viagem à Patagónia e ao estreito de Magalhães, para escrever uma reportagem para a revista Grande Reportagem. Mais tarde acabou por conhecer o historiador chileno Mateo Martinic Beros que em 1999 tinha feito na Academia Portuguesa de História, em Lisboa, uma palestra sobre dois portugueses ligados ao seu país - o muito conhecido Fernão de Magalhães e este até agora desconhecido José Nogueira. O livro conta a aventura deste homem que fez de tudo, ajudou a desenvolver uma região até aí inexplorada. A história é contada a partir da investigação feita aos documentos existentes no Museu da Patagónia sobre José Nogueira: 29 dossiês, com 149 pastas e 2574 documentos. E não é um repositório de documentos. Está escrito como uma agitada história de aventuras, amores e fortunas de um português que se fez à vida pelo mundo fora. Editora - Temas e Debates e Círculo de Leitores.


 


PETISCAR - O prazer da sanduíche aberta é enorme e as possibilidades são mais que muitas. As combinações têm por limite a imaginação. O essencial é uma fatia de bom pão, nem demasiado fina, nem demasiado grossa. O primeiro passo é preparar o que se quer por lá por cima - e aqui é onde entra a imaginação e, digamos, a pré-produção. O segundo passo é tostar o pão numa torradeira ou, melhor ainda, fritá-lo numa frigideira untada de bom azeite até tostar de um lado. Depois de assim tostado, mãos à obra: aproveitem esta época em que se encontra bom tomate coração de boi e coloquem umas rodelas até preencherem toda a fatia de pão. Temperem o tomate com sal, oregãos e um fio de azeite e por cima coloquem presunto de boa cura cortado bem fino, com rodelas de rabanete por cima. Façam uma segunda fatia de pão e sigam o mesmo procedimento, acrescentando-o de fatias finas de pepino com sal a que se adicionam fatias finas de queijo de S. Miguel. Se depois disto ainda quiserem uma sobremesa, peguem em mais uma fatia de pão tostado, deem-lhe uma barradela de requeijão temperado com sal, fatias de pêssego previamente grelhado na chapa e por cima espalhem um pouco mais de requeijão com canela. Se o pão for bom, como o de trigo sarraceno da Gleba, vão ver que o petisco fica na memória. 


 


DIXIT - “Quem tem um quintal sagrado não gosta que ele seja tocado pela comédia” - Ricardo Araújo Pereira


 


BACK TO BASICS - “Se as pessoas apenas falassem se tivessem de facto alguma coisa de útil a dizer a raça humana perderia rapidamente o dom da fala” - Somerset Maugham.


 


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julho 17, 2020

ESTÁ O MUNDO CONTRA NÓS? OU O PODER FALHOU?

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A NOSSA TRAGÉDIA - Mark Haddon, um escritor inglês, disse recentemente que, se Shakespeare fosse vivo, hoje em dia estaria a escrever séries de televisão. Provavelmente tem razão. Desde as pestes que assolam o mundo contemporâneo, à falsidade, conspirações e contorcionismo de quem vive o poder e protagoniza a política, não faltariam temas para Shakespeare se inspirar.  Sabe-se lá o que ele diria, por exemplo, do namorico entre António Costa e Viktor Orbán, dando cotoveladas sorridentes um ao outro em jardins de Bucareste. Recordemos as perfídias que se passam em Bruxelas e nos meandros europeus e, num exercício de abstracção, imagine-se que figuras do presente, destes dias de hoje, poderiam agora estar nas personagens principais de Hamlet, Macbeth, King Lear ou até Titus Andronicus. O contorcionismo político é um exercício que se tornou corriqueiro, assim como o desprezo pela verdade, ofuscado por sorrisos plásticos em nome de um optimismo que tem por único objetivo mascarar a realidade - aconteceu isto, com Marcelo de mãos dados com Costa a garantir que estava tudo bem nos primeiros momentos do  incêndio de Pedrógão e agora no desastre que tem sido o desconfinamento onde ambos não resistiram a apadrinhar ajuntamentos como um espectáculo de humor, dias antes dos surtos explodirem em Lisboa, contrariando todas as suas piedosas declarações e garantias. Aquilo a que assistimos desde há semanas é um desfile de absurdos. Uma tragédia vivida como se fosse uma romaria.


 


SEMANADA - Na Madeira 45% da população activa está em layoff ou no desemprego na sequência da crise no turismo desencadeada pela pandemia; algumas lojas históricas da baixa de Lisboa registam quebras de venda de 80%; o trabalho suplementar na área da saúde aumentou 17% no primeiro semestre do ano e teve o pico em Maio, significando no total cerca de meio milhão de horas extra de profissionais do sector; durante o confinamento mais de 500 pessoas sem abrigo foram recebidas em centros de acolhimento improvisados em todo o país; a Unidade de Atendimento à Pessoa Sem Abrigo do Cais do Sodré, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, recebe 200 pessoas por dia; cerca de um terço da população vive em casas com más condições de habitabilidade - revela um estudo da Fundação Gulbenkian; o mesmo estudo indica que muitas famílias estão a pagar o empréstimo para compra de casa já depois dos 70 anos e em idade de reforma; uma freguesia de Ponte de Lima esteve quase uma semana sem abastecimento de água canalizada; as cirurgias no IPO de Lisboa caíram 42% em Maio; segundo o INE o número de hóspedes e de dormidas registadas em Maio quebraram 94,2% e 95,3% face ao mesmo mês do ano anterior e a queda das receitas foi de 97,2%, passando de mais de 390 milhões para 11 milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA - Uma doente com alzheimer teve alta do Hospital de Cascais sem que a família fosse informada e foi encontrada morta junto a um viaduto da A5, depois de não ter conseguido encontrar o caminho para casa.


 


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O REGRESSO A BELÉM  -  O Museu Berardo apresenta a partir desta semana duas novas exposições, baseadas na sua colecção permanente. As duas exposições coexistem nos 2900 metros quadrados do piso 2 do Museu. O ponto central é a exposição Do Primeiro Modernismo às Novas Vanguardas do Século XX”,  de autores como como  Pablo Picasso, Modigliani, Amadeo Souza-Cardoso, Marcel Duchamp, Man Ray, Piet Mondrian, Josef Albers, Salvador Dalí, René Magritte, Louise Bourgeois, Francis Bacon, Jackson Pollock, Maria Helena Vieira da Silva, Lucio Fontana, David Hockney, Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Donald Judd, Bruce Nauman, Richard Serra, Gerhard Richter, Julião Sarmento, John Baldessari entre muitos outros. A segunda exposição, que funciona em ligação com a primeira e permite uma leitura complementar da colecção,  é o projeto Constelações III: uma coreografia de gestos mínimos” (na imagem)  que integra obras de artistas como Francisco Tropa, Hans Richter, Mário Cesariny, Max Ernst, José Barrias, João Penalva, Arpad Szenes, Nadir Afonso, Dziga Vertov, Ângela Ferreira, Marcel Duchamp, László Moholy-Nagy, Oskar Schlemmer, João Ferro Martins, Man Ray, Raúl Perez, Mário Botas, Louise Bourgeois, Cabrita, João Louro, Rita Gaspar Vieira, Yves Klein, Helena Almeida, José Maçãs de Carvalho entre outros. Ao todo são cerca de 350 obras, algumas delas mostradas publicamente pela primeira vez. Outra sugestão: no Museu de Aveiro, em colaboração com Serralves, obras de Julião Sarmento agrupadas na exposição “No Brilho da Pele”, até 27 de Setembro.


 


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O BEIJO ROUBADO - Crescer em Beja dá nisto - uma mistura de cante alentejano com fado num disco de estreia que é surpreendente. O responsável é Buba Espinho, de seu nome real Bernardo, hoje com 24 anos e que cresceu em ambiente musical, ao que se ouve com muito bons resultados. A seu lado estão, em alguns dos 11 temas que integram o álbum de estreia, António Zambujo, Raquel Tavares, Tiago Nacarato e Diogo Brito e Faro. O disco tem originais do próprio Buba Espinho, composições de alguns dos convidados e tradicionais como “Zé Negro”. “Roubei-te Um Beijo”, um tema composto por Buba Espinho, cantado em dueto com António Zambujo, é uma daquelas músicas que agarra na primeira audição, uma canção “orelhuda” que tem palavras simples e certeiras: Roubei-te um beijo/ Foi por paixão/ Vê lá não digas/ A ninguém que eu sou ladrão”. E, depois há a voz de Buba Espinho - fresca, com uma amplitude notável, afinadíssima, onde o sotaque inconfundível do alentejo funciona como quase uma melodia à parte. Num ano tão triste para a música, este é um testemunho de vida, o manifesto de um novo talento que entra em tempos difíceis com a determinação de quem vai deixar marca.


 


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SOBRE A VIDA  -  Folheio “Nada A Temer” de Julian Barnes, o relato agitado de uma viagem ao seu passado, à sua família, às suas dúvidas perante a morte e a vida, perante as religiões e o pensamento humano. A páginas tantas Julian Barnes, um dos mais relevantes escritores britânicos contemporâneos, conta que na sua adolescência descobriu um pufe de couro indiano que, ao ceder sob o seu peso, revelou estar recheado das cartas de amor trocadas entre o seu pai e a sua mãe ao longo dos anos de namoro, todas rasgadas em pedaços, recordações sobre as quais ele passou anos a sentar-se sem o saber. A descoberta deu-se quando um dia se sentou com mais força, o couro já envelhecido cedeu nas costuras e lá de dentro saíram retalhos do amor que assim estavam escondidos. Ao longo do livro Barnes relata as memórias da sua família, desde os avós aos pais, passando pelo seu irmão, filósofo. E recorda o que a mãe dizia “Um dos meus filhos escreve livros que posso ler mas não compreendo - referindo-se ao filósofo - e o outro escreve livros que eu compreendo mas não posso ler”. “Nada a Temer” é uma memória de família, um quase diálogo com o irmão filósofo, uma meditação sobre a mortalidade e o medo da morte, uma celebração da arte e uma discussão sobre Deus. Barnes descreve como o pai, já reformado, um ex-director de escola, viveu os seus últimos anos refugiado no silêncio defensivo perante uma mulher autoritária. A relação do escritor com o pai não é muito calorosa - mal se tocavam, mal falavam e poucas vezes estavam a sós os dois - e o pai não era muito apreciador da obra literária do filho. Do livro, como escreveu The Guardian,  sai sobretudo esta interrogação: “se o medo da morte é a coisa mais racional do mundo”, como podemos lidar com isso? Julian Barnes escreveu um livro sobre a mortalidade que tanto aborda a fé como a ciência, a família ou figuras marcantes da sua vida e da história que ao longo dos séculos se defrontaram com a o facto mais básico da vida  - o seu inevitável fim.


 


A PIMENTA DA TERRA - Uma pessoa vai pedir um aconselhamento de vinhos a bom preço, entra na estimável garrafeira Néctar das Avenidas (Rua Pinheiro Chagas 50), e pede ao proprietário, Senhor Quintela, ajuda para levar um bom vinho para um jantar em casa de um amigo. O conselho é sempre bom em termos de qualidade do vinho e sensato em termos de preço. Nas prateleiras, arrumadas por regiões, destaca-se a área dedicada ao Vinho do Porto. Mas ali há bons vinhos de todas as regiões, com boas opções de pequenos e médios produtores, muitos deles pouco conhecidos. O proprietário sabe muito de vinhos, conhece os produtores e vai sabendo aquilo de que os clientes gostam - vai-me sugerindo vinhos do Dão, que ando a experimentar, e dá-me sempre a conhecer bons brancos daquela região nesta época estival (como o Adega de Penalva). A garrafeira Néctar das Avenidas, que vai realizando uns jantares vinícolas em alguns restaurantes, em colaboração com produtores seleccionados, tem também petiscos permanentemente à venda - queijos, alguns enchidos, compotas, manteiga Rainha do Pico dos Açores (talvez a melhor manteiga portuguesa), folar Limiano na sua época e os magníficos doces açorianos da Maviripa - e é um dos doces deste produtor da ilha de S. Miguel, que hoje venho aqui elogiar: o Doce Extra de Pimenta Vermelha da Terra. Experimentem-no com um queijo duro, como o queijo de S. Miguel, ou com um bom requeijão da Beira e ficarão fãs. Neste fim de semana experimentei-o nestas duas variantes e ainda sobre carne assada - funciona bem com tudo, acrescenta sabor e surpreende quem o não conhece. Tornou-se um acompanhamento fundamental.


 


DIXIT - “Passámos de dizer que somos os melhores do mundo para dizer que o mundo está contra nós” - Paulo Portas


 


BACK TO BASICS - “Não me dedico a procurar agradar com as respostas que dou” - William Shakespeare


 


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julho 10, 2020

A ESTRANHA MÚSICA QUE ANDA NO AR

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A EDP FOI NACIONALIZADA? - A menos que alguma coisa tenha sido alterada no funcionamento da economia das empresas privadas eu acreditava, até esta semana, que decisões são tomadas pelos seus accionistas e não pelo Estado. No entanto por estes dias percebi que o entendimento da nova anormalidade em que vivemos é que o Ministério Público e um Juiz podem remover quem os incomode antes de haver qualquer julgamento. Vem isto a propósito do que se passa na EDP. Desde há muito tempo que António Mexia se tinha tornado um alvo a abater para o Governo. Infelizmente para a geringonça os accionistas, e sobretudo o accionista maioritário chinês, decidiram manter a confiança em Mexia e nos resultados de gestão que alcançou. De maneira que, pegando na espingarda neste concurso de tiro ao alvo, um juiz e o Ministério Público, abrindo um grave precedente, tiraram Mexia e Manso Neto da empresa, contra as decisões tomadas pelos accionistas em Assembleia Geral. Ambos são acusados num processo baseado em factos não provados e muito menos julgados. Para todos os efeitos são inocentes até prova em contrário - é esse princípio que norteia a justiça nos países democráticos. Se os accionistas entendem que um gestor cometeu algum acto reprovável ou que tem um ónus que penaliza a empresa, podem substituí-lo. Mas não foi isso que aconteceu. Em Portugal temos uma justiça lenta e ineficiente, com juízes acusados de corrupção, de justicialismo político e de mais algumas malfeitorias. É esse mesmo aparelho judicial, corporativo, arcaico e ineficaz que, à sombra do Estado, vive em impunidade. Vivemos tempos difíceis para a economia - e o principal perigo não vem da pandemia, vem de uma justiça assim, vem das interferências do Governo na TAP, da nacionalização da Efacec, deste cheiro a 11 de Março de 1975 que começa a perfumar o ambiente. Temos cada vez mais um estado que não protege as pessoas, mas que as condiciona. E as imposições, com o medo que elas podem causar, começam a configurar uma tentativa de imposição de um pensamento único, protagonizado por um Estado que pretende ser incontestado e exercer a prepotência como modo de estar. E com a conivência dos mais altos magistrados da Nação.


 


SEMANADA -  Dados da Direcção Geral da Saúde indicam que entre 2009 e 2019 a mortalidade no nosso país atingiu os 108.229 óbitos anuais, em média, com um máximo de 113.599 óbitos em 2018 e um mínimo de 103.203 óbitos em 2011; no primeiro semestre de 2020, registaram-se 60.936 óbitos, o que corresponde a mais 7.2% do que a média da década anterior (56869); a Associação de Médicos de Família estima que ficaram 15 mil diagnósticos de cancro por fazer em três meses; há mais 110 mil utentes sem médico atribuído pelos Centros de Saúde e aumentam as queixas sobre a demora e dificuldade na marcação de consultas nos centros de saúde; a ASAE apreendeu 627 mil máscaras, compradas por diversas entidades públicas, destinadas a profissionais de saúde, e que não cumprem requisitos de segurança nem têm garantia de qualidade; o recrudescimento da pandemia provocou nova corrida à informação e, a semana de 22 a 29 de Junho, segundo dados da Marktest, foi a quarta com maior tráfego nos sites de informação desde meados de Março, com quase 300 milhões de pageviews; em 1928, na Grande Depressão, a economia portuguesa colapsou 9,7% e a Comissão Europeia estima que o país deve afundar 9,8% ou mais devido à pandemia; a task force de especialistas criada em Fevereiro pela Direcção Geral de Saúde para acompanhar o combate à pandemia deixou de reunir pouco tempo depois e não reúne desde Março; as reuniões de peritos de saúde no Infarmed foram suspensas por decisão do Primeiro Ministro depois de terem lá surgido vozes críticas da actuação do Governo no desconfinamento.


 


ARCO DA VELHA -  Segundo a Protecção Civil o Ministério das Finanças não disponibilizou em Junho o reforço orçamental esperado para as despesas dos bombeiros no combate aos fogos rurais.


 


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O REGRESSO ÀS GALERIAS -  A Galeria Espaço Exibicionista apresenta uma colectiva com a participação de 25 artistas plásticos, entre os quais Alexandre Alonso, Ana Monteiro, Emanuel de Sousa, Filipe Raizer, Gabriel Garcia, João Fortuna, Jorge Humberto (Joh), Luis Melo, Martinho Dias, Paulina Goca e Valentim Quaresma (cuja obra está na foto). Dilema- Group Show 2020 pode ser visto de segunda a sexta entre as 11 e as 20 e ao sábado das 11 às 18 no Espaço Exibicionista,  Rua D. Estefânia 157 C. Mais sugestões: na Galeria Vera Cortês decorre uma exposição colectiva com todos os seus artistas, num formato invulgar,  constituída por 19 apresentações individuais em nove exposições de dois artistas, cada um apresentando uma obra, cada dueto, chamemos-lhe assim, com a duração de uma semana. Até dia 15 podem ver Gonçalo Barreiros e John Wood com Paul Harrison, de 16 a 22 de Julho estarão Anna Franceschini e Daniel Blaufuks, de 23 a 31 deste mês estarão Alexandre farto (aka Vihls) e António Bolota. De 1 a 17 de Agosto a Galeria encerra e retoma o ciclo a 20 de Agosto, que decorrerá nos mesmos moldes até 23 de Setembro. Nas Carpintarias de S. Lázaro, que reabrem agora no pós-pandemia, James Newitt apresenta a curta metragem “Fossil” em formato de instalação que percorre os vários espaços do local. A galeria Fonseca Macedo, em S. Miguel, nos Açores, completou 20 anos e apresenta uma Colectiva com obras de artistas que mostrou ao longo dos anos; o acontecimento da semana foi a abertura do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra com a exposição “Corpo e Matéria” com curadoria de José Maçãs de Carvalho e David Santos.


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SOB A PAISAGEM DO CANADÁ  - Quando um músico australiano é desafiado a fazer uma residência com músicos canadianos em Banff, na região de Alberta, no Canadá, com vista para o parque natural da região e para parte das montanhas rochosas, a influência da natureza na música produzida é inevitável. “Nothing Remains Unchanged” é o resultado da colaboração do baixista australiano Ross McHenry com o baterista Eric Harland, o pianista Matthew Sheens e o saxofonista Ben Wendel, no Banff Centre for Arts And Creativity. O resultado está em nove temas que oscilam entre o tranquilo e o tempestuoso, todos mostrando um desejo de explorar as potencialidades da colaboração entre músicos que se estão a descobrir uns aos outros. As influências de Ross McHenry estão bem sedimentadas no jazz, mas sem desprezar a música de câmara e alguma electrónica - um cocktail só por si invulgar. A grandiosidade da paisagem local foi certamente uma influência na composição destes temas, todos criados em Banff. “Complicated Us”, o tema de abertura é um bom exemplo da ligação entre o baterista e o baixista, que se desenvolve enquanto o saxofonista e o pianista criam a paisagem sonora de fundo, repleta de tensões. Em contraste “Woods” é um exercício de tranquilidade e meditação, enquanto “Forest Dance” e sobretudo “Perspectives” mostram as capacidades individuais dos músicos. O disco está disponível no Spotify.


 


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CONTRA O PENSAMENTO ÚNICO  - Bernard-Henri Lévy, que se tornou conhecido por ser um dos artífices dos “novos filósofos” franceses, escreveu durante os últimos mesesEste Vírus Que Nos Enlouquece”. Provocador como sempre, pretenso iconoclasta por definição, Levy dedica-se mais uma vez a abanar consciências e ataca toda a estratégia de contenção da pandemia por covid-19 imposta pelos governantes ocidentais, que acusa de se terem inspirado no modelo ditatorial chinês.  Bernard-Henri Lévy não é meigo e classifica os detentores do poder de usurários da morte, tiranos da obediência, higienistas delirantes, protagonistas da primeira crise mundial que «produziu uma realidade mais incrível que a ficção» e a que mais «inflacionou discursos obsessivos». Sempre à procura de uma polémica, Levy aponta o dedo a governantes, organizações internacionais, influenciadores de opinião e “colapsologistas” que, «efusivos, disfarçam o seu egoísmo de abnegação» e aproveitam o coronavírus para arrasar o que a civilização ocidental tem de melhor. «É preciso resistir, custe o que custe, a esse vento de loucura que sopra sobre o mundo», vento a que o autor chama de «Primeiro Medo Mundial», que assola o planeta e, afirma, estrangula a liberdade dos cidadãos a coberto da urgência sanitária. Levy ergue-se contra o pensamento único, em defesa das portas da liberdade que para si são  aeroportos, viagens, cosmopolitismo e comércio. «Os grandes epistemólogos dizem que as crises sanitárias são fenómenos sociais que comportam aspectos médicos» -  é esta a tese que serviu de base ao pensamento formulado por Bernard Henri Lévy neste livro, já editado em Portugal pela Guerra & Paz.  


 


POR VOLTA DA MEIA NOITE  -  A minha sugestão petisqueira de hoje passa por uma série japonesa de televisão, que tem origem numa obra de Manga, e que é exibida pela Netflix em duas temporadas, de dez episódios de 25 minutos cada um - “Midnight Dinner, Tokyo Stories”. Tudo se passa num bar de apenas 12 lugares ao balcão, localizado nas pequenas ruas escondidas do centro de Tóquio, junto da estação central de comboios, um restaurante que tem a particularidade de só funcionar entre a meia noite e as sete da manhã. “O meu dia começa quando acaba o dos outros”, diz o Mestre (único nome pelo qual é tratado pelos clientes), dono e único funcionário do bar que tem uma lista minimalista, teoricamente com um único prato, uma tradicional sopa japonesa de legumes e porco. O Mestre declara que a sua política é fazer o que os clientes pedirem com os ingredientes que nesse dia tiver disponíveis. Cada episódio é uma história fechada e o Mestre, uma interpretação fantástica de Kaoru Kobayashi, é o pivot de continuidade que assiste à forma como ao seu balcão se desenrolam histórias fascinantes de relações humanas - cada uma à volta de uma das suas criações culinárias. O que eu sei é que desde que comecei a ver a série já experimentei fazer ramen e inhame salteado e, para principiante, não me saí nada mal, sobretudo no ramen. Estou com vontade de um dia destes fazer uma omelete de arroz e ando a estudar a possibilidade do salmão com cogumelos. Vou ver mais uns episódios.


 


DIXIT - “Há coisas que apesar de o Governo não nos querer dizer, precisamos de saber: não havia mesmo outra solução?” - Paulo Rangel, sobre a TAP.


 


BACK TO BASICS - “A inspiração é de facto algo que existe, mas para  ela surgir temos que  trabalhar” - Pablo Picasso

julho 03, 2020

O TEMPO DO DESGOVERNO - JÁ SE ZANGAM AS COMADRES...

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SEMANA HORRIBILIS - A semana, que prometia ser do regresso à normalidade, foi afinal um pesadelo. A razão do pesadelo, percebe-se hoje claramente, foi o desgoverno com que o desconfinamento se processou, os maus exemplos das mais altas figuras do Estado em grandes eventos públicos, a tolerância fomentada ao desrespeito pelas regras básicas. Na região de Lisboa a situação de saúde pública agravou-se, a comunicação foi uma desgraça e teve repercussões no exterior: alguns países fecharam as portas a receber portugueses com medo de que daqui possa ir contágio. Internamente a coisa também correu mal: o presidente da Câmara de Lisboa zangou-se com a Ministra da Saúde, António Costa irritou-se com os peritos epidemiologistas que contrariaram a sua propaganda. No entretanto os utentes dos transportes públicos queixaram-se de lotação excessiva e o Ministro da TAP, Pedro Nuno Santos, passou dias a garantir  que está tudo bem apesar de todas as provas em contrário. De tudo isto há algumas coisas a reter: a  fúria de Medina surge por causa da quebra do Turismo, não se manifestou devido a preocupações com a saúde de quem vive e trabalha na cidade, como não o fez desde que a pandemia nos atingiu. E Pedro Nuno Santos tem a tarefa de comprar a TAP com dinheiro dos contribuintes, num processo diferente e menos transparente e racional do que vários apoios concedidos por outros governos europeus a companhias aéreas. Pelo meio as Finanças, tão relutantes a darem incentivos fiscais a áreas como por exemplo a cultura, prometem descontos no IRC e IRS aos organizadores da final da Liga dos Campeões e do IVA az organizadores de congressos. O PS está infestado de contradições, António Costa tem poder e mostra-o,  mas já não o usa para governar. O país está entregue ao acaso - descobrem-se milhões para o negócio da TAP enquanto é uma dificuldade encontrar dinheiro para a saúde  - e essa falta de recursos, dizem os especialistas, contribuíu para dificultar o combate à pandemia em Lisboa. Este é o mais triste retrato desta semana que deixa um lastro de demasiadas coisas por explicar. 


 


SEMANADA - Portugal está na cauda da OCDE no número de cuidadores formais por cada cem idosos; segundo o Conselho da Europa Portugal falhou as metas de redução da disparidade salarial entre homens e mulheres; um estudo realizado a nível europeu em relação à pandemia indica que para a maioria dos europeus a confiança nos Estados Unidos foi quebrada, que a União Europeia não esteve à altura das suas responsabilidades e que a perspectiva negativa sobre a China aumentou; o mesmo estudo indica ainda que há maior cepticismo sobre a capacidade de as instituições de Bruxelas para relançar a recuperação económica; nos últimos três anos lectivos foram descontinuados mais cursos do Ensino Superior que aqueles que foram autorizados a abrir; desde a declaração do estado de emergência o número de estudantes que fizeram pedidos de bolsa de estudos mais do que duplicou; a Infraestruturas de Portugal, que tutela a CP, está a restringir o acesso a estudos sobre a modernização das linhas férreas, prontos há dois anos; o Ministro das infraestruturas admitiu ser inviável cumprir o distanciamento social nos comboios; Fernando Medina disse que “com mais chefes e pouco exército não conseguimos ganhar esta guerra” à pandemia, criticando assim o Governo; a Ministra da Saúde respondeu pedindo “menos má-língua”; o Ministro das Infraestruturas garantiu  que o aeroporto do Montijo é para avançar apesar dos efeitos da pandemia no sector da aviação; na área metropolitana de Lisboa há 15.000 doentes em vigilância e 100 incontactáveis por dia;  Segundo o INE há 10 295 909 residentes em território nacional e, deste número, 2 280 424 têm 65 ou mais anos, o que representa 22.1% do total da população, o que excede em 638 mil o verificado há 20 anos; 





ESTATÍSTICAS - A Amazon realiza 11.000 dólares de vendas em cada segundo na sua plataforma de e commerce e no ano passado entregou  3,5 mil milhões de encomendas, o que significa uma para cada dois seres humanos do planeta.


 


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FOTOGRAFIA PORTUGUESA -  Nos últimos anos tem crescido o mercado dos photobooks - não são livros sobre fotografia, são livros que apresentam fotografias de um autor ou sobre um tema, ou até um ensaio fotográfico. Com a diminuição da publicação de grandes reportagens fotográficas em jornais, e sobretudo em revistas, nos últimos anos houve um ressurgir desta categoria muito especial - os photobooks, na terminologia internacional. Folhear um photobook com atenção é (quase) como visitar uma exposição. Por cá têm surgido alguns e destaco a colecção Ph., criada pela Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo e que é uma série de monografias dedicada à fotografia portuguesa contemporânea com texto bilingue à venda por 19 euros. Depois de edições dedicadas a Jorge Molder, Paulo Nozolino, Helena Almeida e Fernando Lemos surge agora José M. Rodrigues. Após 20 anos a trabalhar na Holanda, José M. Rodrigues vive desde 1993 em Évora, onde tem leccionado na Universidade local e foi o vencedor do Prémio Pessoa em 1999. Este novo volume da Ph. percorre a obra do fotógrafo, desde a sua produção recente e inédita com obras de 2020, até às primeiras fotografias do início dos anos 70 do século passado. No texto introdutório do livro, Rui Prata sublinha que as fotografias de José M. Rodrigues “são despojadas de acessórios e sublinha que as imagens “não têm ruído, limitando-se ao fundamental”, muitas vezes baseado no desafio que é o próprio olhar do fotógrafo, o qual, nas últimas páginas do livro deixa esta ideia: “o trabalho do fotógrafo reduz-se a uns segundos numa vida inteira”.


 


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BLUES, SOUL & GOSPEL- A primeira frase que Diane Schuur canta no seu novo disco conta logo toda a história: “The blues and I know each other”. A dedicação aos blues, à soul e ao gospel fazem parte das características desta pianista e cantora que, numa época em que o jazz vocal muitas vezes é amaciado, procura manter uma identidade forte. Aqui, no novo álbum “Running On Faith”,  Schuur é apoiada por Ernie Watts, que co-produz o disco, por Kye Palmer no trompete, por Thom Rutella na guitarra, Bruce Lett no baixo acústico e Kendall Kay na bateria. São músicos sérios que não fazem floreados e tocam jazz sem maquilhagens. Diane Schuur está em grande forma e a sua relação com os músicos é assinalável - parece aliás ter ganho uma energia que estava ausente de outros registos seus recentes. Em “Walking On A Tightrope”, a faixa inicial, é particularmente evidente a forma como ela se solta a cantar ao lado dos músicos,  mudando de registo logo a seguir em “The Danger Zone”. Destaque ainda para uma versão de um original de Paul Simon, “Something So Right”, para o gospel “Everybody Looks Good At The Starting Line” que mostra mais uma vez a ligação entre a cantora e pianista e os músicos que aqui a acompanham e finalmente para o clássico “Swing Low Sweet Chariot”, que encerra os 13 temas do álbum “Running On Faith”, já disponível no Spotify.


 


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APRENDER A ESCREVER - Stephen King fez nome a escrever histórias de ficção científica, terror e fantasia. Está entre os dez autores mais traduzidos no mundo, foi editado em 40 países e, no total, já vendeu mais de 400 milhões de exemplares das cerca de sete dezenas de originais que escreveu desde 1974, vários adaptados ao cinema, como “Carrie” ou “Shinning”. Toda esta experiência permite-lhe ter uma visão muito clara sobre o trabalho de um escritor. “Escrever”, um livro entre a autobiografia e um guia sobre como escrever, tem agora uma edição portuguesa e foi considerado pela Time um dos melhores 100 livros de não ficção de todos os tempos. Iniciada em 1997, esta obra só seria terminada em 2000, na convalescença de um grave acidente. Ele conta que nos meses de recuperação, o nexo entre a escrita e a existência tornou-se mais crucial do que nunca para si e decidiu fazer um guia para potenciais escritores. “Escrever” parte da experiência concreta do autor, e apresenta a sua perspetiva sobre a formação de um escritor, com conselhos práticos e sobre todas as fases, desde o desenvolvimento da intriga e a criação das personagens até aos hábitos profissionais e à fuga ao trabalho. Publicado originalmente em folhetim na revista New Yorker, o livro culmina com um testemunho do modo como a necessidade irresistível de escrever estimulou a recuperação de Stephen King e o trouxe de volta à vida após o acidente. A páginas tantas, no final da primeira parte do livro, encontramos esta frase: “Começa assim: coloque a mesa num canto e, sempre que se sentar para escrever, lembre-se da razão de ela não estar no meio da sala. A vida não é um suporte à arte. É exatamente o contrário.” Edição Bertrand.


 


A BARLAVENTO - A costa vicentina tem bom peixe. E tem dos melhores percebes que se podem encontrar em Portugal. O mar batido deve ser a causa. Durante muitos anos o Café Correia, em Vila do Bispo, era o sítio incontornável para avaliar como estavam os bichos. Infelizmente o Café Correia fechou, na porta está um agradecimento à clientela que frequentou a casa, em jeito de despedida. No largo ali perto há dois ou três sítios sem história, mas um deles, o Snack Bar Convívio, sabe tratar bem os percebes. è preciso ter paciência, mas no fim há recompensa pelo sabor do pedúnculo do bicho. Se rumarmos mesmo a Sagres temos uma casa discreta, O Carlos, aberta desde 1993 numa esquina da zona mais recente da localidade, com esplanada ampla, e com muito respeito, também, pelos percebes frescos bem servidos. Mas O Carlos tem uma especialidade que vale a pena provar - um arroz rico de marisco, cozinhado no ponto e com o sabor a mar bem presente. Acresce ainda em abono do local uma tarte de alfarroba, amêndoa e figo como é difícil encontrar. E, para cúmulo, o serviço é bom. (Telefone 282 624 228). Para finalizar o roteiro de Sagres recomenda-se também o Vila Velha (telefone 282 624 788), onde numa sala simpática se provou uma boa ligação de tagliatelle com camarão. Voltando um pouco acima, na Carrapateira, recomenda-se O Sítio do Rio, no caminho para a Praia Bordeira, onde tivemos a sorte de encontrar uma anchova de bom tamanho, aprimoradamente na grelha, fresquíssima. O local foi escolhido ao acaso mas portou-se muito bem. (Telefone 282 973 119).


 


DIXIT - “Vivemos numa sociedade que, cada vez menos, reconhece o direito ao pluralismo, que se fecha em redutos de intolerância” - Jorge Barreto Xavier.


 


BACK TO BASICS - “Por vezes ficamos fiéis a uma causa só porque os seus inimigos são completamente insípidos” - Friedrich Nietzsche.


 






junho 26, 2020

PERDEU-SE A NOÇÃO DA REALIDADE E A PANDEMIA REACENDEU-SE

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A BEBEDEIRA DO PODER - As peripécias deste desconfinamento parecem indicar que a abertura de portas foi muito mais desleixada que o seu fechamento. Todas as importantes e persistentes instruções de meados de Março e do início do confinamento resultaram porque foram claras e precisas; no desconfinamento aconteceu o contrário - pior comunicação, instruções mais difusas, menos preparação, menos acompanhamento, decisões contraditórias, mudanças de rumo frequentes - que ainda por cima é o que pode gerar maior desconfiança e perturbação, até na actividade económica. No final de Maio as pessoas estavam saturadas e era previsível que, a menos que tudo fosse muito salvaguardado, ocorreriam excessos. É dever de quem manda prever este tipo de coisas. Da mesma maneira que elogiei a persistente acção do Governo no confinamento e a forma como Costa acompanhou a situação, desta vez junto a minha voz a todos os que apontam o dedo aos dislates das últimas semanas. Já nem falo da triste cena da cerimónia de regozijo pela vinda da Champions, nem da ofensiva ideia de que aumentar o perigo era uma homenagem ao pessoal da saúde, nem das ridículas posições de Fernando Medina, que, durante os piores momentos não se ouviu nem se sentiu e que agora quer cantar de poleiro. Cito o que Ana Cristina Leonardo escreveu esta semana na sua página do Facebook: “Numa situação como a que estamos a viver, onde por muito cuidado que se tenha não existe risco zero, o inimigo é invisível à vista desarmada e o país é mesmo muito pobre, o equilíbrio entre economia e saúde pública vai ser — está a ser — difícil de gerir (...) E ter autoridade numa situação de crise conta bastante.” Foi essa autoridade que se perdeu neste recente e acidentado percurso. O poder é um vício, que por vezes embebeda e faz perder a noção da realidade, sobretudo quando os cocktails são servidos, como tem acontecido ultimamente, pelo próprio Presidente da República, em constantes happy hours com o Primeiro-Ministro.


 


SEMANADA - O número de casais em que ambos os cônjuges estão desempregados aumentou pelo terceiro mês consecutivo e atingiu em maio os 6.722 casos, uma subida de 1.207 casais face ao mesmo mês do ano passado; na segunda metade de Março verificou-se uma grande queda nas exportações, com efeitos sensíveis no défice externo do primeiro trimestre, que teve um saldo negativo de 544 milhões de euros; segundo a consultora KPMG a pandemia Covid 19 provocou uma desvalorização do plantel das equipas de futebol, que para alguns clubes do top 32 europeu ultrapassa os 20%, e que nos casos de Benfica e FC Porto supera os 15%; o PAN, que foi um dos triunfadores das mais recentes legislativas, atravessa uma intensa polémica interna com acusações de que há colaboradores pagos a falsos recibos verdes, que existem assessores parlamentares dos deputados do partido que são pagos pela Câmara de Lisboa e que as contas partidárias levantam suspeitas; segundo o INE existiam no final de 2019 10 295 909 residentes em território nacional, Lisboa mantém-se o concelho mais populoso do país, com cerca de 510 mil habitantes. Sintra, com 391 mil é o segundo maior e Vila Nova de Gaia o terceiro, com 300 mil, enquanto o Porto, com 217 mil habitantes, ocupa a quarta posição; as reservas de autocaravanas para os meses de verão aumentaram 50%, na sequência da procura de soluções alternativas para férias no contexto Covid 19.


 


CURIOSIDADES DOCES - Segundo a Marktest mais de cinco milhões de pessoas dizem ter consumido tabletes de chocolate no último ano, o que representa 59,5% da população, sendo que o consumo é maior junto das mulheres e que o consumo de  chocolate preto ultrapassa já o do  chocolate de leite.


 


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O PODER DO DESENHO -  Quando se descem os degraus da Galeria Miguel Nabinho e se chega à sala de exposições aquilo que se vê é um conjunto de desenhos que autenticamente se desenrolam por três das suas paredes. Trata-se de “Border Line”, o novo trabalho de Manuel Vieira, com praticamente sete dezenas de desenhos, relacionados entre si, mas cada um com vida autónoma. O papel pardo Kraft é a matéria prima utilizada, assim como a tinta da China e, ocasionalmente, guache. Isto, claro, além da prodigiosa imaginação do artista - onde a atracção pelo fantástico é dominante. A maior parte dos desenhos nasceu no início deste ano e a série ficou finalizada uma semana antes do confinamento - embora haja alguns que foram criados em 2017. O traço rigoroso, um trabalho manual de dimensão apreciável, a miscelânea de personagens, os temas que vão dos pesadelos do amor até viagens imaginárias e tentações variadas, criam na obra, como está exposta, um conceito de narrativa, quase uma banda desenhada gigante. A peça destina-se no entanto, também, a ser vista isoladamente - cada desenho pode ser vendido separadamente e isso introduz uma perspectiva de efémero nesta exposição - onde se sabe que o conjunto será disperso, percebendo que cada desenho acaba por contar a sua própria história. No texto da exposição Manuel Vieira escreve:  “A Arte é a última fronteira e faz-se o que se pode, com o material que se tem”. Não podia ter mais razão. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, está aberta de terça a sábado à tarde, entre as 14h00 e as 19h45.


 


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ODE A NEW YORK - Delmore Schwartz, um dos escritores norte-americanos injustamente pouco conhecidos, escreveu “Nos Sonhos Começam As Responsabilidades”  em 1935 e esta colecção de short stories é considerada a sua obra maior, uma ode a Nova Iorque. Na Universidade de Siracusa, onde dava aulas, teve Lou Reed como aluno, que sublinha que Delmore foi a sua inspiração para escrever, não lhe poupando elogios no prefácio que escreveu. Delmore morreu ignorado e na miséria em 1966 e este livro foi publicado em português pela primeira vez em 2012. Nascido em Brooklyn, Delmore Schwartz foi, acima de tudo, um retratista de Nova Iorque e dos jovens heróis à descoberta do seu mundo. Com apenas 21 anos, escreveu este “Nos Sonhos Começam as Responsabilidades”, e mais tarde viria a imortalizar o seu nome como um expoente literário da geração que cresceu entre a Depressão e o começo da II Guerra Mundial. Nestes oito contos a realidade e a ficção misturam-se e, tal como o autor, também o protagonista da história é um jovem de 21 anos. Editado pela Guerra & Paz.


 


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O PODER DA PALAVRA - Em 79 anos já gravou 39 álbuns de originais. Chama-se Bob Dylan e a sua designação como Nobel da Literatura provocou polémica e levantou tempestades. Ouvindo as palavras que usa neste disco talvez os críticos possam entender melhor a razão de ser da distinção que recebeu. Este é um disco mais falado e escrito que os anteriores - “Rough And Rowdy Ways”, lançado há dias, é o seu primeiro álbum de originais em vários anos, o primeiro depois de lhe ter sido atribuído o Nobel. Antes deste novo trabalho andara no cancioneiro americano clássico, Sinatra incluído. Críticos de diversas proveniências já decretaram “Rough And Rowdy Ways” o seu melhor trabalho desde há muito tempo. É certamente aquele que transporta mais ideias, que afirma mais convicções, sobretudo aquele em que Dylan descreve melhor a forma como vê o que hoje se passa nos Estados Unidos. Não deixa de ser curioso que a primeira faixa do disco a ser divulgada, há uns meses, em pleno confinamento, tenha sido “Murder Must Foul”, um épico de 17 minutos que revive os tempos do assassinato do presidente Kennedy e salienta as lutas contra a injustiça que constituem a espinha dorsal da História da América. Ao ouvir o disco muitos criticarão a voz de Dylan, que em muitos pontos fala mais que canta, não muito longe do derradeiro registo de Leonard Cohen. Mas esta maneira de interpretar a sua música dá ainda mais força às suas palavras, coloca as ideias em primeiro plano. E, como sempre, o significado e as intenções de muitas das suas letras provocarão grandes discussões sobre todas as interpretações possíveis. Duplo CD, disponível no Spotify - dez canções, uma hora e dez de grande música. Imperdível.


 


UMA IGUARIA SERVIDA FRIA - Escolher rosbife num restaurante é muitas vezes uma aposta arriscada. Há um sem número de razões para isso: a mais frequente é que a carne não é boa; depois vem o tempero e a confecção - um rosbife fora do ponto e semi-cozido, em vez de mal passado, é fora de jogo completo! E finalmente o corte - um corte grosso e irregular arrisca-se a estragar boa carne bem confeccionada - e já nem falo dos cómicos que perguntam se queremos o rosbife aquecido com molho quente por cima para estragar ainda mais. Por isso há tão poucos sítios onde se possa pedir rosbife à vontade. Nestes dias que começam a ficar quentes, apesar da nossa proverbial ventania de fim de tarde, umas fatias de rosbife frio, de boa carne, bem cozinhado e bem cortado, sabem muito bem. Como eu cada vez gosto menos de experiências mal sucedidas e de surpresas desagradáveis, vou cada vez a menos restaurantes, escolhendo preferencialmente aqueles onde sei que não me desiludem o palato e onde sou bem atendido. Para eu ser fiel a um restaurante, o mesmo tem que ser fiel aos clientes e manter a constância da qualidade. De entre os restaurantes que mais frequento destaco hoje aquele que tem o melhor rosbife - o Salsa & Coentros, em Alvalade. Na lista  o rosbife aparece com uma anotação - “iguaria servida fria”. E de facto é uma iguaria - acompanhado por batatas fritas às rodelas feitas na hora a partir de boa matéria prima tubércula, servido com molho bearnaise e/ou mostarda de Dijon, este rosbife merece uma homenagem especial. Ele e José Duarte, o fundador e proprietário do Salsa & Coentros, sempre atento, sempre a controlar a boa qualidade daquilo que aparece nas mesas - dos vinhos da semana aos pratos tradicionais e às sugestões do dia. Fica na Rua Coronel Marques Leitão, 12, junto à Avenida da Igreja, telefone 218 410 990


 


DIXIT - “Se eu estivesse a escrever o romance da pandemia — Deus me livre e guarde! — garanto-vos que às tantas metia o Medina a dizer isto:  «Ó António! Olhe que os infectados não são meus!»” - Ana Cristina Leonardo, no Facebook


 


BACK TO BASICS - “Por aqui prefere-se o pontapé para a frente. E que o destino resolva o problema”  - Fernando Sobral




junho 19, 2020

O POLÍTICAMENTE CORRECTO QUER IMPÔR UM PENSAMENTO ÚNICO

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AS NOVAS DITADURAS - Nunca gostei que me dissessem o que não podia ler, o que não podia escrever, o que não devia pensar. Também não me agrada que me digam do que devo gostar. Desagrada-me quem julga ter por missão indiscutível defender valores que podem ser os seus, mas não são os de todos - na religião, na ideologia, na política, nos costumes, na estética ou na ética, para só citar alguns. Prezo a liberdade de poder tomar decisões, arcando com a responsabilidade inerente. Habituei-me a pensar que a minha liberdade acaba onde começa a dos outros e tenho tentado viver assim. E irrita-me que alguém tente entrar na minha liberdade, na minha maneira de encarar a História, na minha maneira de ver os acontecimentos. Por isso, para mim o Livre é tão perigoso como o Chega e os últimos dias têm provado isso mesmo - mas não me ocorre dizer-lhes o que devem fazer. Existem certamente formas de analisar a História. Mas não existem duas Histórias. Existem factos - e depois existem interpretações - e estas são de quem as quiser formular, desde que não pretendam impô-las aos outros. Acontece que desde há uns anos, em todo o mundo, se evolui para uma forma de proto-ditadura que veste as roupagens do politicamente correcto, em que alguns decretam o que está certo e fazem julgamentos por conta própria. Muito facilmente se começou a confundir direitos de uns com pecados de outros e criou-se a tendência de querer que toda a sociedade aceite como verdade inquestionável aquilo que apenas a parte dela interessa. E isto é inaceitável, seja qual fôr o tema. É uma nova forma de ditadura.


 


SEMANADA - O Estado não sabe ao certo quantos prédios tem, nem ideia do valor do seu património imobiliário, revela uma auditoria da Inspecção Geral de Finanças; o Governo construiu o Orçamento retificativo com uma estimativa de contração do PIB de 6,9% e uma semana depois o Banco de Portugal colocou em causa os pressupostos utilizados pelas Finanças, avançando com uma previsão de uma recessão de 9,5%; Portugal é um dos 12 países com taxa de inflação negativa na zona euro; três anos passados sobre a tragédia de Pedrógão Grande o SIRESP continua sem cobrir várias zonas das zonas atingidas; segundo bombeiros da região as florestas dos concelhos onde morreram 66 pessoas estão por limpar; o deputado europeu do PAN abandonou o partido, mas não o seu lugar em Bruxelas, acusando a organização de colagem à esquerda; o mercado português registou a segunda maior quebra na venda de automóveis ligeiros na Europa; foi descoberto um depósito de 30 mil toneladas de resíduos perigosos numa antiga zona industrial de Setúbal, onde estão há mais de 20 anos; segundo a Marktest durante o confinamento aumentou o consumo de pizza e de cápsulas de café; o número de cesarianas realizadas nos hospitais públicos subiu pelo terceiro ano consecutivo atingindo em 2019 cerca de 30% dos partos realizados; o saldo entre nascimentos e mortes em Portugal continua negativo pelo 11º ano consecutivo, mas pela primeira vez nos últimos dez anos regista-se um aumento da população, graças à imigração. 


 


ARCO DA VELHA -  Caso Mário Centeno seja nomeado governador do Banco de Portugal, a sua acção vai ser avaliada por um conselho de auditoria que o próprio nomeou enquanto ministro das Finanças.


 


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MAAT REINVENTADO  -  E pronto, o maat finalmente reabriu após o confinamento e obras de manutenção da estrutura afectada por uma tempestade no Inverno passado. Três destaques: a intervenção arquitectónica Beeline, a experiência sonora Extintion Calls e o PeepShow. As duas primeiras ficam até Janeiro do próximo ano, a última até 19 de Outubro. Beeline é uma intervenção arquitetónica que foi encomendada ao estúdio nova-iorquino SO – IL, e que ocupa a totalidade do edifício do maat. Trabalho de arquitetura efémera, área de eleição daquele atelier até à data, Beeline foi concebido para acolher o maat Mode 2020, um programa público de palestras e outros eventos com uma duração de seis meses lançado pela nova diretora do maat, Beatrice Leanza. Extinction Calls é uma encomenda especial a Cláudia Martinho, na qual a artista usa sons do arquivo para criar um percurso sonoro com espécies de aves extintas e  ameaçadas. A paisagem sonora é espacializada em ressonância com o espaço acústico do maat e da intervenção Beeline criando uma diversidade de pontos de escuta. Peepshow agrupa um conjunto de 15 estruturas portáteis cujo interior pode ser observado por vigias de grandes dimensões e está integrado na Beeline. Estão expostas peças da colecção de arte Fundação EDP e cada uma das intervenções é o ponto de partida para uma série de conversas em torno da relação entre arte e realidade que terão a participação dos artistas representados: Catarina Botelho, Paulo Brighenti, Tomás Colaço, Luisa Ferreira, Horácio Frutuoso, Mariana Gomes, Pedro Gomes, André Guedes, João Louro, Maria Lusitano, João Ferro Martins, Paulo Mendes, Rodrigo Oliveira, Francisco Vidal e Valter Vinagre.


 


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O SOM DA PANDEMIA - Quando a pandemia alastrou o pianista Brad Mehldau estava a meio de uma digressão pela Europa, que foi interrompida. Mehldau, casado com uma holandesa, divide o seu tempo normalmente entre Amsterdão e New York, cidade para onde iria quando tudo se precipitou. Durante meses esteve fechado na sua casa de Amsterdão e compôs 12 temas que integrou num álbum inesperado a que chamou “Suite: April 2020”. O disco evoca o espírito do tempo, do mês de Abril em que a pandemia dominou o mundo. A capa do disco é o texto de uma mensagem do pianista que descreve a música que compôs como um retrato sonoro de um tempo em que todos tiveram de se reencontrar a si mesmos. Os 12 andamentos da suite têm nomes como “Keeping Distance”, “Stopping, Listening, Hearing”, “Remembering Before All This”, “Uncertainty”, “Waiting” e três momentos do quotidiano do confinamento: “In The Kitchen”, “Family Harmony” e “Lullaby”. Há ainda três versões que Brad decidiu fazer de composições de outros músicos, três temas que escolheu como canções adequados ao espírito deste tempo: “Don’t Let It Bring You Down” de Neil Young, “New York State Of Mind” de Billy Joel e “Look For The Silver Lining”, de Jerome Kern. Disponível em edição especial limitada de vinil, em CD e no Spotify.


 


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CRIME E MISTÉRIO -  Comecei a ler policiais pela mão da colecção Vampiro - primeiro emprestados por um amigo, depois religiosamente comprados à medida que iam saindo. Foi ali que descobri os mestres dos policiais e um dos que mais me atraiu foi Raymond Chandler, sempre com o seu detective Philip Marlowe. Chandler nasceu em Chicago em 1888 e era administrador de empresas petrolíferas quando veio a Grande Depressão, em 1932. Foi nessa altura que começou a escrever - primeiro contos policiais e, depois, novelas. Este mês encontrei nas reedições contemporâneas da colecção Vampiro o seu segundo romance, “Farewell My Lovely”, ou “Perdeu-se Uma Mulher”. Voltei a descobrir o prazer da definição de personagens que Chandler fazia. É um estilo bem distante dos modernos policiais nórdicos que ultimamente são a minha paixão e que se baseiam muito na definição do perfil psicológico de polícias e criminosos.  “Perdeu-se Uma Mulher” é o segundo romance de Chandler, originalmente publicado em 1940, a partir da junção de três contos que já tinha publicado em revistas. Mais tarde a história passou a filme, protagonizado por Robert Mitchum. Com uma boa tradução de Paula Reis, “Perdeu-se Uma Mulher” descreve a Los Angeles dos anos 40, os bastidores violentos e corruptos que evidenciam as tensões de uma grande cidade, com um cenário de tráfico de droga, jóias roubadas, mulheres sedutoras e assédios variados. Hoje em dia tudo o que é politicamente correcto cairia em cima do escritor  e dos métodos do seu detective Marlowe. Se tal tivesse acontecido  quando Chandler começou a escrever ter-se-ía perdido um dos grandes autores da literatura policial. Talvez em vez disso se tivesse escrito um outro livro - “Os Crimes do Politicamente Correcto”.


 


O ITALIANO QUE SE APAIXONOU POR SAGRES - Sagres sem vento e com a água do mar a boa temperatura? - Pois é raro, mas acontece. De qualquer maneira foi com esse pano de fundo que passeando pelas ruas do centro, junto à  Pousada, encontrámos o Mum’s. À frente da casa, mal saída ainda do confinamento, está um italiano que há 11 anos trocou o restaurante que tinha em Milão e rumou a Portugal. Apaixonou-se por Sagres, convenceu a namorada, também italiana, a segui-lo e os dois puseram de pé o Mum’s passado um tempo. O foco da casa é a utilização de produtos da região, do azeite a frescos, com destaque para os produtos biológicos de produtores da costa vicentina, passando é claro pelo peixe, escolhido na lota de Portimão. Simão, aliás Simone, sommelier de formação, apaixonou-se pelos vinhos portugueses, de que fala com conhecimento e entusiasmo - sobretudo dos vinhos do Douro. Antes do Covid o Mum’s era conhecido pelos cocktails, servidos no bar e numa pequena esplanada - tinham boa fama os negroni, por exemplo. Agora, com menos mesas e o balcão à espera de melhores dias, o foco está nos jantares. A decoração do Mum’s é simples e imaginativa, Simão é um anfitrião notável, um contador de histórias, e na cozinha está um jovem chef português, de origem ribatejana, Alexandre Fidalgo. O couvert é simples e bom - do pão às azeitonas, passando por uma manteiga fermentada e uma maionese vegan. Nas entradas provou-se com muito gosto cavala fumada em consommé frio de peixe. A  lista apresenta várias sugestões vegetarianas, mas inclui também opções para hereges dessa crença, como um magnífico polvo frito, extraordinário de textura e sabor, acompanhado por cevasotto de lima e aipo, que mais não é que uma variante de risotto em que o arroz é substituído por grãos de cevada. Outras opções, boas são o filete de peixe do dia com puré de aipo, nabo e agrião ou o lombo de bacalhau acompanhado de esmagada de batata com alecrim e espargos verdes. A refeição foi acompanhada por um Vale Pradinhos reserva branco, que cumpriu muito bem. No Mum’s não sei que elogie mais - se o talento da cozinha, se a hospitalidade de Simão. Na próxima ida a Sagres lá voltarei. Mum’s, Rua Comandante Matoso, 917 524 315, aberto aos jantares todos os dias excepto terça-feira.


 


DIXIT - "É perfeitamente desejável que possamos ter um Banco de Portugal acima da conflitualidade política e não como parte do combate político" - António Costa, em 2015, sobre o processo de nomeação do Governador do Banco de Portugal


 


BACK TO BASICS - “Um fanático é alguém que é incapaz de mudar de ideias e que não quer mudar de assunto” - Winston Churchill

junho 12, 2020

UMA PALAVRAS SOBRE AS AUDIÊNCIAS DE TV E SUGESTÕES AVULSAS

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A GRANDE ILUSÃO - Quando olhamos para a lista dos 20  programas mais vistos da televisão portuguesa só vemos dois canais: SIC e TVI. Porquê? A explicação é fácil e baseia-se na táctica da sobreposição da realidade. Passo a explicar: estes dois canais começaram há algum tempo a desdobrar cada um dos seus principais programas em várias emissões, com títulos ligeiramente diferentes. O objectivo é conseguirem ocupar o maior número possível de lugares no ranking. Por exemplo as telenovelas têm “especiais”, o “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” fica dividido em duas partes que ocupam de  facto dois lugares da lista, o “Big Brother” idem e o “Quem Quer Namorar Com o Agricultor” ainda mais. Na semana passada, por exemplo, a lista dos 20 programas mais vistos afinal só corresponde a dez programas realmente diferentes. Só o “Quem Quer Namorar Com O Agricultor” tem cinco presenças no top 20 graças a esta técnica dos desdobramentos. A lista assim elaborada dá uma ideia distorcida do que é de facto a realidade e diversidade da televisão em Portugal. Basta dar este pequeno exemplo - sem este truque de multiplicação dos programas a RTP1 também estaria com várias entradas, pelo menos cinco, na lista dos 20 mais da semana passada. É uma perigosa ilusão esta que se cria de fazer crer que só existe a SIC e a TVI quando as duas juntas alcançaram 34,6 por cento da média do total de espectadores da semana passada enquanto o conjunto de canais cabo por si só significou 37,8% .


 


SEMANADA - Mário Centeno afirmou que não falou e não quer falar com Costa e Silva no âmbito do estudo que este está a realizar para o Governo sobre a recuperação da economia; segundo o Conselho das Finanças Públicas o PIB pode cair entre 7,5 e 11,8% e a dívida pode disparar para 141,8% devido aos efeitos da pandemia na economia; o sector das empresas de diversões itinerantes, pirotecnia e música, que trabalham habitualmente nas festas e romarias de verão, estimam perder 50 milhões de euros este ano; um estudo divulgado esta semana indica que as rendas de casa já desceram 20% desde o início da pandemia; os lucros das empresas do PSI 20 caíram 56% desde o início da pandemia; um terço dos alunos do nono ano passa com negativa a matemática; durante o período do confinamento foram usados mais descartáveis e houve um recuo nos hábitos da reciclagem; no final da semana passada estavam operacionais e a voar 12.234 aviões em todo o mundo e continuavam em terra 14.025 à espera de ordem para descolar; Portugal esteve quase 100 dias sem jogos de futebol e na primeira semana de regresso dos jogos começaram logo os casos de violência; Pinto da Costa foi eleito para o 15º mandato consecutivo à frente do Futebol Clube do Porto, que dirige desde 1982, e alcançou 70% dos votos; as autoridades espanholas procuraram um crocodilo que teria sido visto no Douro, na zona de Valladolid - mas afinal era uma morsa.


 


ARCO DA VELHA - Três avaliadores de projectos da Fundação para a Ciência e Tecnologia concorreram e ganharam um apoio, apesar de terem tido acesso antecipado aos critérios de avaliação.


 


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FOLHEAR FOTOGRAFIAS  -  Uma das maneiras de seguir o que de melhor se faz em fotografia é ter acesso a edições de photobooks e revistas - e particularmente a Aperture, editada quatro vezes por ano, sazonalmente, pela Aperture Foundation, de Nova Iorque. Encontrar a Aperture em Portugal não era fácil mas agora já é possível adquiri-la (e folheá-la antes se fôr o caso), numa nova loja,a Photo Book Corner, que abriu na Avenida Marquês Sá da Bandeira, perto da Gulbenkian e praticamente paredes meias com a Under The Cover, uma loja especializada em revistas independentes. Assim se criou ali um pequeno cluster de divulgação e venda de edições difíceis de encontrar noutros locais. A Photo Book Corner dispõe de uma boa selecção de livros de fotografia de autores como Robert Frank, Todd Hido, Nan Goldin ou Martin Parr, entre outros. Além disso expõe ainda fotografia, que vende, apesar do espaço exíguo, mas bem aproveitado. Mas passemos a esta edição da Aperture, da primavera de 2020, que na capa leva o título genérico “House & Home”. A edição explora as formas dos espaços domésticos e as ligações entre arquitectura, design e fotografia. Logo na entrada, e fora deste tema, há dois pequenos artigos interessantes - um sobre a ligação entre a arte, artistas e a utilização das suas obras na publicidade; e outro sobre a crescente utilização de boa fotografia nas capas de livros, nalguns casos porque os seus autores  viram em exposições imagens que lhes pareceram adequadas às obras que tinham escrito e quiseram tê-las na capa. No tema principal desta edição destaco as páginas sobre Robert Adams e as suas fotografias dos anos 70, assim como a revisitação contemporânea do trabalho que Walker Evans fez nos anos 30 do século passado em Pittsburgh. Nesta edição da Aperture há ainda uma dezena de portfolios sobre o tema de capa que merecem atenção. Antes de ter existência física como loja, a Photo Book Corner já existia como uma operação on line - que pode descobrir em  www.photobookcorner.com.


 


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OS TIGRES REGRESSARAM - 22 anos sem deitar um disco cá para fora e agora sai isto: uma pérola. Os Três Tristes Tigres marcaram a última metade dos anos 90, mas desde 1998 que não editavam originais - “Comum” havia sido o seu último registo dessa época, sempre com Ana Deus, Alexandre Soares e as palavras de Regina Guimarães. Nos anos mais recentes tinham-se reencontrado em torno de Osso Vaidoso, um projecto nascido em 2010 entre a guitarra e a voz, desenvolvido por Alexandre Soares e as suas guitarras e Ana Deus e a sua voz. O novo disco, “Mínima Luz”, nasceu de um desafio de revisitação da obra dos Três Tristes Tigres feito pelo Teatro Rivoli. Uma coisa puxa a outra e nos últimos dois anos o novo disco foi nascendo na cabeça dos seus autores, foi ganhando forma. Desta vez Alexandre Soares chamou mais músicos para o seu lado, com destaque para o baterista Fred Ferreira, o baixista Rui Martelo, o percussionista Gustavo Costa e a harpista Angélica Salvi. Ao longo destas últimas duas décadas Alexandre Soares tem trabalhado em bandas sonoras e em composições para dança e teatro. Nos Osso Vaidoso deu asas à guitarra, que neste novo disco dos Três Tristes Tigres ganha electricidade e estabelece um renovado diálogo com os seus sintetizadores. Ana Deus está em grande forma a interpretar as palavras de Regina Guimarães que escreveu para cinco dos nove temas e a própria cantora escreveu um deles (“Surrealina”), Luca Argel outro e Regina Guimarães adaptou também poemas de Langston Hughes -  ‘Life is Fine’ aqui é “À Tona” e de William Blake “The Tyger”. Numa recente entrevista, falando sobre o disco, Ana Deus disse que ele “reflete o desejo de que haja mais luz e mais ciência na informação - hoje em dia, é como se anos e anos de ciência, estudo e conhecimento fossem abafados por lixo e conversas da treta.” “Mínima Luz” é uma edição de autor, em CD e vinil, que podem ser comprados através do email correiodostigres@gmail.com e que pode também ser ouvido no Spotify.


 


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OS DILEMAS DO FIM DA VIDA -  “Reconhecer os limites da ciência e da sua aplicação tecnológica é um acto de maturidade. Cumprir o desejo do doente, não o obrigar a viver através de meios tecnológicos, é respeitar o princípio da autonomia, que é o único princípio da moral, de acordo com Kant. Em nome da moralidade, obrigar um doente frágil a prolongar o seu sofrimento contra a sua vontade, simplesmente porque é possível através de meios tecnológicos, não é aceitável” - quem o afirma é o médico J. Filipe Monteiro, pneumologista e mestre em Bioética, no livro “Testamento Vital - Nos dilemas éticos do fim da vida”, agora editado. O tema da morte assistida foi ganhando relevo e no início deste ano o parlamento aprovou uma série de projectos que abriram o caminho para a elaboração de uma lei que permita e regulamenta a morte assistida. No livro de J. Filipe Monteiro ao longo dos vários capítulos são discutidos e reflectidos, o percurso histórico, os aspectos técnicos e filosóficos, a perspectiva de algumas religiões e organizações médicas. O livro explica ainda em detalhe todo o processo ligado à opção pelo  Testamento Vital ou Directivas Antecipadas da Vida. “A rejeição da obstinação terapêutica é um acto de boa prática médica”, defende o autor, que sublinha: “Todos os intervenientes, dos doentes aos médicos, passando  pela família e pelas instituições gestoras de saúde, devem envidar todos os esforços  para a sensibilização pedagógica do testamento vital”.


 


ELAS & AS ISCAS - Tinha saudades de uma isca, com elas, claro - o nome do prato é só por si um episódio, estimulando a imaginação. Mas adiante. A realidade é que  num take away não se pode comer iscas. A coisa não é simples - o corte tem de ser bem feito e desde as vacas loucas ficámos quase reduzidos às iscas de porco e aí o corte tem ainda de ser mais preciso e afinado - sempre muito fino. Temperá-las é outra arte e o molho outra ainda - um pouco de vinagre a mais ou a menos é a morte do artista. Na Valbom há um restraurante que tem umas iscas acima da média - o Jaguar. A sala é das inviáveis pela pandemia - pequena, cheia de mesas, corredor comprido estreito e balcão, tudo coisas impossíveis. Mas felizmente agora tem uma boa esplanada. Podem vir com elas como devem ser - as batatas cozidas, ou na versão traiçoeira, com batata frita aos palitos. Confesso que não sou ortodoxo e escolho conforme as ocasiões e o apetite do momento. É curioso que a Valbom tem mais abaixo, no clássico Polícia, outro bom local para umas iscas tradicionais. Mas devo deixar aqui uma recomendação: há uma outra hipótese de iscas, que é um petisco e não é frequente conseguir encontrar - iscas de leitão, ainda mais finas e delicadas que todas as outras. Aqui em Lisboa recomendo um sítio que por vezes as tem - é o Apuradinho, na Rua de Campolide. 


 


DIXIT - “O meu sonho é que conseguíssemos ter os cidadãos dos nossos países a mudar as suas vidas para criar uma relação de maior respeito pela natureza e pelos oceanos e que isso tivesse repercussões nas decisões políticas nos próximos anos” - Tiago Pitta e Cunha,presidente da Fundação Oceano Azul


 


BACK TO BASICS - “As nossas vidas começam a acabar no dia em que ficarmos silenciosos face às coisas que mais importam” - Martin Luther King





 

junho 05, 2020

A PANDEMIA MOSTROU A IMPORTÂNCIA DO SERVIÇO PÚBLICO AUDIOVISUAL

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O SERVIÇO PÚBLICO DA RTP  - Espero que nestes últimos meses alguns dos adeptos da extinção do serviço público audiovisual tenham acompanhado a actividade da RTP, quer na televisão, quer na rádio ou online. A informação dos seus canais de televisão e da rádio, primou por ser exacta sem ser alarmista, didáctica sem ser enfadonha, promoveu debates, chamou especialistas, não foi sensacionalista. Pelo meio foi estreando novas séries, umas melhores que as outras, claro, num caminho longo que tinha que ser começado algum dia. Nestes meses a RTP mostrou o que é serviço público: alternativa, referência, complementaridade. Além disso conseguiu colocar no ar em tempo recorde as emissões escolares para vários graus de ensino, esteve presente sem ser subserviente em todos os momentos de intervenção dos orgãos de soberania na condução do combate à pandemia. Sem futebol as suas audiências desceram, mas a boa notícia é que estabilizaram em valores aceitáveis no caso da RTP1 e seria bom terem um empurrão criativo, na informação, programação e na promoção, no caso da RTP2. A RTP3 no conjunto das emissões de cabo e TDT conseguiu um bom resultado, logo atrás da SIC Notícias e à frente da TVI24 no acumulado desde o início do ano. E a plataforma RTP Play, que funciona em streaming nas emissões da rádio e televisão, permite, além das emissões em directo, recuperar de forma simples e universal conteúdos que na altura em que foram emitidos não se puderam ver, sem pagar qualquer assinatura. Se não tivéssemos um serviço público audiovisual diversificado como o que a RTP disponibiliza teríamos vivido pior estes meses. 


 


SEMANADA - Segundo a PSP em 2029 registaram-se 1526 casos de ataques de cães a pessoas; o mercado automóvel recuou 71,6% em Maio, com os concessionários já de portas abertas; as primeiras sardinhas de bom tamanho vendidas na lota de Matosinhos ultrapassaram os dois euros por quilo e as mais pequenas ficaram no euro por quilo; desde 1991, o número de crianças com menos de 10 anos diminuíu em praticamente todos os concelhos do país e no total, o país "perdeu" 293 mil crianças até aos 10 anos, passando de 1 milhão e 190 mil crianças em 1991 para 897 mil em 2018; segundo a Marktest durante o confinamento cerca de 30% dos portugueses fizeram mais compras online; ainda segundo a Marktest 55% dos portugueses está a planear fazer as férias de verão no campo; uma estudo esta semana divulgado mostra que mais de metade dos profissionais de saúde apresentam sinais de exaustão física e psicológica associadas ao exercício da sua profissão durante o combate à pandemia; uma sondagem recente indica que 85% dos votantes do PS querem o seu partido a apoiar uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa; há empresas exportadoras que esperam há dois meses pela garantia estatal no seguro de crédito, já que a proposta apresentada pelo Governo não tem o acordo das seguradoras; a CP perdeu 20 milhões de euros por mês de receitas devido à pandemia; segundo a Associação dos Mediadores do Imobiliário de Portugal a maioria das empresas suas associadas teve quebras de actividade na ordem dos 50%, entre Março e Maio;Várias reportagens indicam que foi maior a corrida a centros comerciais que aos jardins de infância no dia das respectivas reaberturas; o número de vacinas administradas em maio caiu mais de 40% em comparação com o mesmo mês de 2019.


 


ARCO DA VELHA - Das 15 recomendações sugeridas pelo GRECO, o Grupo de Estados Contra a Corrupção do Conselho Europeu. só uma foi implementada em Portugal,  oito só o foram parcialmente e seis foram ignoradas e Portugal está num grupo de 15 países incumpridores que têm uma avaliação “globalmente insatisfatória”. 


 


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FOTOGRAFIA REMOTAMENTE COMANDADA -  Durante o tempo em que trabalhei em redacções uma das coisas que me dava mais prazer e satisfação era acompanhar a paginação, escolher as fotografias, editá-las com os seus autores, construir a história com as imagens.  O “Blitz” e “O Independente” deram-me esse prazer, assim como, mais tarde, o “Se7e” e a “Visão” e hoje, nestas páginas de “A Esquina do Rio” do “Weekend” do “Jornal de Negócios”, procuro sempre escolher as imagens. Quando pego numa revista, ou num jornal, a paginação e a edição fotográfica são sempre o meu foco de atenção. Hoje isso também acontece por vezes com algumas publicações online - o conceito de paginação para ecrã de dispositivo móvel, por exemplo, é um desafio. Mas quero destacar uma das melhores ideias que vi nos últimos tempos, nascida das medidas de confinamento tomadas no decurso da pandemia. A revista “Time”, dedicou a sua edição de 1 de Junho à “Generation Pandemic”, o título da capa. E para editar as imagens de um dos artigos principais “Unlucky Graduates”, que se estende ao longo de 12 páginas da revista, designaram Hannah Beier, uma finalista de fotografia da Universidade de Drexel, de Filadélfia. Beier fotografou virtual e remotamente os seus colegas de curso, nas casas onde estavam confinados. Utilizou a aplicação Face Time dos iPhones para dirigir a sessão fotográfica com cada um, pedindo-lhes para posarem como entendeu e no enquadramento que escolheu, e foi a partir do telefone que capturou as fotografias dos sete colegas que são os protagonistas da reportagem. É uma ideia fantástica e é preciso folhearem estas páginas para ver como o resultado obtido de facto é surpreendente, capturando o espírito do momento. Na imagem está a dupla página de abertura deste artigo na “Time”.


 


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O ACORDEÃO E A GUITARRA - O catálogo ECM continua a ser um porto seguro na música contemporânea fora das correntes do mainstream. Uma das suas novidade é um disco que cruza o acordeão com a guitarra, tocados respectivamente por Jean-Louis Matinier e por Kevin Seddiki. Matinier colabora desde há muito tempo com a ECM, como músico convidado em diversos discos ou mesmo em dueto, como aconteceu com Marco Ambrosini. Este é o primeiro registo com o guitarrista Kevin Seddiki, que agora se estreia na ECM. Seddiki estudou guitarra clássica e tem trabalhado em diversos géneros musicais, desde o jazz a projectos transculturais. “Rivages”, o disco de Matinier e Seddiki, tem 11 temas, que vão do tradicional “Greensleeves” numa interpretação solta e criativa, a “Les Berceaux”, de Gabriel Fauré, passando por originais e improvisações como “Miroirs” e “Feux Follets”. A ligação entre o acordeão e a guitarra é muito bem conseguida, o estilo de interpretação  dos dois músicos complementa-se, entre o devanear de Matinier e o dedilhar certeiro de Seddiki. Uma das coisas engraçadas num dueto é que não há sítio onde qualquer um dos seus intervenientes se possa esconder - estão ambos igualmente expostos. Prova do apreço de Matinier por Seddiki é ter-lhe dado o palco num tema a solo, “Derivando”. Disponível no Spotify.


 


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CONTÁGIOS HÁ MUITOS… - Ao escrever sobre “As Leis do Contágio”, The Times, de Londres, escreveu que “é difícil imaginar um livro mais oportuno… grande parte do mundo moderno fará mais sentido depois de o ler”. Publicado originalmente já em 2020, “As Leis do Contágio” é um trabalho do epidemiologista inglês Adam Kucharski, que tem trabalhado em surtos globais como as epidemias do ébola e do vírus da zica. Colaborador habitual da imprensa, escreve para The Observer e Financial Times, The New Statesman e Scientific American. Neste livro analisa a forma como uma doença, um comportamento ou uma ideia se propagam no mundo moderno. Kucharski afirma que o contágio tanto pode vir de um vírus, como de um movimento político ou até mesmo de um tweet que lança uma inesperada controvérsia, ou de uma ideia que inflama a sociedade. O autor apresenta os padrões matemáticos de uma doença infecciosa, como aquela que assola atualmente a Humanidade, e descreve o fenómeno do contágio em geral – seja de uma doença, de um comportamento ou de uma ideia – chamando a atenção para os aspetos biológicos e sociais desse processo. Segundo Kucharski as nossas existências são moldadas por surtos de doenças, de desinformação e até de violência, que surgem, se espalham e se desvanecem a uma velocidade espantosa. Para os compreender, precisamos de perceber os padrões e as leis ocultas que os governam, afirma. Dos «superdisseminadores» — os que podem desencadear uma pandemia, derrubar um sistema financeiro ou vender uma ideia — à dinâmica social que faz da solidão um sentimento popular, o autor apresenta revelações curiosas sobre o comportamento humano, sobre o porquê das coisas, propondo como podemos melhorar a nossa previsão e reação a fenómenos de contágio em qualquer esfera das nossas vidas. Edição Portuguesa da Porto Editora.


 


PIPOCAS DE POLVO? - Para gozar o progressivo desconfinamento nada como comer um bom peixe com vista para o mar em ambiente seguro. Pensei no Meco e ali existem restaurantes de praia armados ao pingarelho e também alguns restaurantes. Escolhi um entre estes últimos: a Gula do Meco, também conhecido por Mania do Peixe, onde pontua Carla Costa na cozinha e o seu marido Fernando na sala. A localização é excelente, o serviço é atento, o peixe é fresquíssimo e bem escolhido pelo saber do proprietário. A banca do peixe para grelhar tem escolha ampla mas a casa tem também uma apreciável comida de tacho. Como o objectivo era peixe na grelha, a opção foi um robalo para duas pessoas, cozinhado no ponto, acompanhado por salada, legumes no forno e uma açorda frita em rodelas que fazem lembrar pataniscas - e que é um petisco. Para a próxima vai cherne à posta, que tinha muito bom aspecto. Por falar em petisco destaco as pipocas de polvo - pedaços muito pequenos de tentáculos de polvo cozido que depois são fritos com um polme impecável e estaladiço. Na comida de tacho encontram feijoada de gambas e a feijoada de búzio, além da massada à pescador e de arroz de robalo. Uma especialidade da casa é o peixe no pão - peixe envolvido em massa de pão e que é cozinhado lentamente no forno - uma variante muito interessante do conceito de peixe ao sal. Além da belíssima vista. de uma sala e esplanada amplas, ideais para este tempo de distâncias, a casa tem bom serviço, um parque de estacionamento próprio, uma lista de vinhos simpática a preços decentes e com várias possibilidades de vinhos a copo. É um dos melhores restaurantes do Meco e bate-se com vantagem com a concorrência mais antiga - quer na vista quer na simpatia. Fica na Rua Praia do Moinho de Baixo, a caminho da praia e dos parques de estacionamento, reservas recomendáveis pelo 964 408 048.


 


DIXIT - “Sou contra as visões estatizantes ou colectivistas da economia” - António Costa e Silva


 


BACK TO BASICS - “A ciência pode estabelecer limites ao conhecimento, mas não deve estabelecer limites à imaginação” - Bertrand Russell