junho 28, 2019

D. MEDINA I, O DESPOVOADOR

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OS ASSASSINOS DA CIDADE  - Nos últimos dias vários amigos que vivem em zonas históricas de Lisboa disseram que estão a ponderar sair das casas onde sonharam viver porque já não aguentam o barulho e a feira permanentemente instalada por todo o lado. Percorre-se a cidade e ela está desfigurada - basta olhar para o que permitiram fazer no Jardim de São Pedro de Alcântara, invadido por barracas horríveis e um barulho constante. Ali deixou de haver miradouro, um dos melhores locais para se apreciar as sete colinas está reduzido a uma feira foleira. Um pouco mais à frente o Princípe Real é o retrato do caos. No ar sente-se tensão, à noite o barulho continua, quem ali mora deseja fugir e os alojamentos locais multiplicam-se a uma velocidade desconcertante. Não vejo isto em nenhuma outra capital e cidades há, como Berlim, onde acabou de ser decretado o congelamento do preço das casas durante cinco anos para tentar travar a especulação imobiliária. Dez cidades (Amesterdão, Barcelona, Berlim, Bordéus, Bruxelas, Cracóvia, Munique, Paris, Valência e Viena) pediram a intervenção da União Europeia para impedir o crescimento explosivo do Airbnb, que está a pôr os habitantes locais para fora de suas casas. Contraste: em Lisboa o executivo municipal parece apostado em fomentar uma política de expulsão dos habitantes da cidade. Como afirmava Ana Margarida Carvalho num texto sobre a situação em Lisboa, a propósito do ruído e da confusão permanentes: “Se calhar, a ideia é mesmo essa: tornar de tal maneira insuportável a vida em bairros residenciais, até que estes deixem de ser residenciáveis.”. A edição mais recente da revista “Monocle” coloca Lisboa na décima posição entre as melhores 25 cidades, mas sublinha: “O fluxo de entrada de pessoas coloca questões sobre o turismo descontrolado, nomeadamente o aumento das rendas de casa, situação particularmente dramática num país que tem o menor salário mínimo da Europa Ocidental”. A Câmara Municipal, sugere a revista, “deveria agir rapidamente para evitar que os habitantes locais, que são quem dá vida à cidade tenham que sair para longe”.  


 


SEMANADA - Segundo um organismo do Conselho Europeu Portugal ignorou a maioria das recomendações para aplicação de medidas anticorrupção relativamente a parlamentares, juízes e procuradores; o Ministro das Finanças disse que as cativações não afectam o Serviço Nacional de Saúde; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou-se preocupado com o calendário de “contenção de despesas”; o hospital da Guarda está em ruptura com falta de médicos e equipamentos; a Urgência do  Hospital de Santa Maria tem escalas incompletas para 17 dias de Agosto; nas maternidades portuguesas faltam 150 obstetras; a maternidade Alfredo da Costa só tem anestesistas para cinco dias em Agosto; um estudo desenvolvido pela Fundação da Aliança de Democracias indica que Portugal é o terceiro país do mundo onde menos se acredita no governo; a compra de casas a pronto e em dinheiro está a aumentar; os partidos políticos têm um património imobiliário superior a 50 milhões de euros, a maioria isenta de IMI; apesar de proibidos os copos descartáveis continuaram a ser usados nas festas de Lisboa; m 2018 registaram-se 6536 visitas para sexo nas prisões portuguesas; o número de funcionários públicos aumentou 26 mil desde 2016; há quatro mil projectos urbanísticos pendentes na Câmara Municipal de Lisboa, com um atraso considerável e há casos em que as decisões são tomadas de forma mais rápida sabe-se lá porquê.


 


ARCO DA VELHA - Em Guimarães um conjunto de salas de ensaio equipadas, que custaram cerca de 800 mil euros e se destinavam a apoiar o trabalho de músicos locais, foram demolidas três anos depois de terem sido inauguradas devido a falhas estruturais no edifício.


 


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CONTAR HISTÓRIAS EM IMAGENS - Como Carolina Trigueiros escreve no texto  sobre a exposição “Sal Nos Olhos”, que abriu sábado passado na Galeria Diferença, Ana Vidigal “é uma contadora de histórias” que nas suas obras estabelece conexões de pessoas, lugares e momentos. Da mesma forma as obras de Ana Vidigal são histórias, que recorrem à utilização de recortes de imagens e texto, com recurso à colagem e também à pintura,  num processo de cruzamento de informação com um enquadramento plástico que faz cada obra transcender o significado inicial das referências que utilizou. São obras de intervenção, mas acima de tudo de observação do mundo à sua volta, sempre com um sentido de humor acutilante. Frequentemente mostram um olhar entre o crítico e o desapontado, mas na maior parte das vezes são uma narrativa crua que se desenvolve como um manifesto das suas ideias. Também na Diferença, em simultâneo com a exposição de Ana Vidigal, Hugo Brazão, um artista madeirense que trabalha em Londres, faz uma incursão entre a ficção e a realidade. Partiu de uma descoberta científica na Ponta de São Lourenço, na Madeira, para especular sobre os efeitos do erro humano no ambiente. “O’Mouse an’Man” de Hugo Brazão e “Sal Nos Olhos” de Ana Vidigal estão na Diferença até 27 de Julho - Rua de São Filipe Neri 42.


 


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ROTEIRO - Hoje destaco uma peça teatral - Sábado e Domingo são os últimos dias para poder assistir a “Gertrude Stein e Acompanhante”, uma peça de Win Wells que desenvolve em cena um diálogo improvável entre a escritora e poetisa americana Gertrude Stein  e a sua companheira de 36 anos de vida, Alice B. Toklas, levando-a a falar sobre os seus assuntos preferidos: ela própria, a literatura, a pintura, as artes.  O espaço cénico e os figurinos são de António Lagarto e em palco estão Cucha Carvalheiro, Lucinda Loureiro e Nuno Vieira de Almeida. Na sala Mário Viegas do Teatro de S. Luiz. Voltando às exposições destaco “A Chuva Cai Ao Contrário”, uma mostra marcante de João Jacinto na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36, até 20 de Julho). Trata-se de um impressionante conjunto de obras de grandes dimensões, numa montagem excepcional num corredor artificial criado no salão nobre da instituição. As 24 obras apresentadas foram aliás propositadamente feitas para este espaço, numa exposição patrocinada pela Fundação Carmona e Costa e com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria. 


 


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CALIFORNIA SOUNDS - Mesmo quando julgamos que Springsteen não nos podia surpreender, eis que, quase aos 70 anos, ele dá de novo sinais de vida. Depois da sua experiência de estar um ano, noite após noite num pequeno teatro da Broadway, o seu novo disco, “Western Stars” salta para os grandes horizontes americanos e entra musicalmente pela música country e por evocações da sonoridade pop dos anos 60 e 70 de uma forma que ele não havia ainda feito. Este é, digamos, um disco californiano - em vez de operários nas fábricas surge a história de um actor secundário cuja fama vem de ter levado um tiro de John Wayne num western. Os arranjos musicais fazem também lembrar a época, há momentos em que se sente quase a presença do som de Phil Spector e nos coros há um trabalho vocal que não se encontra habitualmente nos discos de Springsteen - que se posiciona ele próprio como um actor que está a querer desempenhar um papel diferente do habitual. “There Goes My Miracle” mostra-nos Springsteen a cantar de forma pouco usual e “Hello Sunshine”, quase no fim do disco, é um exemplo perfeito de todo este “Western Stars”, tal como, aliás “The Wayfarer” ou “Drive Fast (The Stuntman)”.


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DE ONDE VEM A VIAGEM?  - Michel Onfray é um filósofo francês que escreve sobre temas que incluem a gastronomia, a história, a pintura e a geografia, entre outros. Assume-se como um hedonista, numa pose quase libertária e tem cerca de meia centena de títulos publicados. Em tempos “Teoria da Viagem” já havia sido editado em Portugal, mas foi agora recuperado na bela colecção “Terra Incógnita”, que sob a direcção de Francisco José Viegas está a oferecer edições muito interessantes. Publicado em França em 2007, e como refere o editor no preâmbulo, este “Teoria da Viagem” cruza “a literatura propriamente dita com uma aproximação irregular e melancólica à geografia, a poesia com a prosa. O livro fala do desejo de partir, sobre o que nos leva a querer viajar - “Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira.». E que poderemos encontrar nesta obra? - perguntas como qual é a origem do desejo de viajar? Por que razão nos sentimos mais nómadas ou mais sedentários? Porque somos impelidos para o movimento constante, a deslocação, ou amamos o imobilismo e as raízes?  O objectivo da colecção "Terra Incógnita"  é reunir "títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento". 


 


PROVA ALBICASTRENSE - Volta e meia o acaso leva-nos a um restaurante desconhecido e que nos deixa boas recordações. Numa recente viagem pela Beira Baixa descobri O Palitão, que fica numa urbanização relativamente recente de Castelo Branco e que pratica a gastronomia da região. Em primeiro lugar destaco a simpatia e eficácia do serviço, em segundo lugar o cuidado em pormenores como um pão de boa qualidade, embrulhado em pano como deve ser. Do ritual deste restaurante faz parte um cortejo de entradas que inclui ovos mexidos com farinheira, espargos selvagens, saladas frias de polvo e orelha e grão com bacalhau, além de uma salada de tomate saborosa como poucas. Nos pratos principais provaram-se os filetes de polvo e o laminado de carnes que são propostos com uma variedade de acompanhamentos, incluindo arroz com feijão e migas. O prato do dia era ensopado de borrego, elogiado noutras mesas. A garrafeira é variada, os preços são sensatos e a doçaria inclui bolo rançoso e sericaia. As operações são dirigidas por Frederico Vinagre, que ali se estabeleceu há 14 anos. O Palitão fica na Avenida de Espanha Lote 7, o telefone é o 272 323 608. A casa enche cedo, vale a pena marcar.


 


DIXIT - A corrupção é uma "epidemia que grassa pela sociedade" e isso em parte deve-se também a um sistema partidário que escolheu a via do "encastelamento", onde "o mérito foi substituído pela fidelidade partidária" e no qual "a administração pública foi colonizada" pelos partidos  - Ramalho Eanes.


 


BACK TO BASICS - “O principal sinal de que a corrupção está bem viva numa sociedade é a ideia de que os fins justificam os meios” - Georges Bernanos









junho 21, 2019

O ESTILO MEDINA: COMPLICAR A VIDA DO PRÓXIMO, ATÈ NO PAGAMENTO DE JUROS

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ABUSO CAMARÁRIO - Por estes dias muitos munícipes lisboetas receberam uma carta da Câmara Municipal de Lisboa, assinada pelo seu Vice-Presidente, que paga juros sobre a Taxa Municipal de Protecção Civil criada pelo PS na autarquia e que mais tarde foi considerada ilícita. O Município primeiro devolveu os valores indevidamente cobrados e agora enviou os juros indemnizatórios. Cada carta, recebida através dos CTT, incluía um vale postal com o valor calculado para cada munícipe. O meu tem o valor de 5,06 euros. Por acaso gostava de saber qual foi o encargo global da devolução da taxa indevidamente cobrada e dos juros indemnizatórios através deste processo - algum dos autarcas em exercício devia ser responsabilizado pelo abuso na cobrança e pelos custos que provocou. Imagino que para me devolverem os cinco euros tenham gasto quase tanto no envio do correio e emissão do vale postal. Já aquando do  reembolso do valor indevidamente cobrado fiquei a pensar porque é que não tinha sido transferido para a conta bancária de onde foi feito o pagamento - e agora tenho exactamente a mesma dúvida. Mas suspeito que o clã de Fernando Medina aposte na possibilidade de muitos destinatários do vale postal não terem paciência para as intermináveis filas dos CTT ou dos balcões dos bancos e que deixem passar o prazo de um mês em que o vale postal permanece válido. Os expedientes contra os cidadãos são intermináveis na autarquia lisboeta. Quem fez disparate foi a Câmara, quem tem que ir perder tempo são os cidadãos. É o mundo simplex.


 


SEMANADA - O antigo director de grandes empresas da CGD revelou que Joe Berardo enviou uma carta a Santos Ferreira pedindo um financiamento de 350 milhões para a compra de acções do BCP; Victor Constâncio recebeu Berardo no Banco de Portugal um mês antes da reunião da instituição onde a acta sobre a operação em torno do BCP foi aprovada e na qual esteve presente o Governador; uma fonte próxima de Berardo disse que “o comendador está incrédulo com a falta de memória de Vítor Constâncio acerca de uma reunião a sós, em julho” de 2007;  Faria de Oliveira, ex-Presidente da CGD, defendeu que o Banco de Portugal poderia “ter ido mais longe” nos alertas sobre Joe Berardo; o empresário Joe Berardo admitiu poder vir a chamar Constâncio como testemunha no processo que a banca lhe moveu para recuperar 962 milhões de euros em dívida; Duarte Caldeira, o líder do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil, afirmou que “o Governo não fez a devida avaliação do que ocorreu” nos incêndios de 2017; em três meses registaram-se quase quatro mil casos de agressões a idosos; um homem residente em Valpaços foi apanhado 17 vezes a conduzir sem carta e o tribunal de Guimarães aplicou-lhe pena suspensa; os funcionários públicos têm hoje em média 47 anos, mais 3,4 do que em 2011; apenas 61% dos obstetras do país trabalham no Serviço Nacional de Saúde e os blocos de parto dão sinais de ruptura; Portugal tem 159 idosos por cada 100 crianças.


 


ARCO DA VELHA - Os CTT são a marca com maior número de reclamações registadas no Portal da Queixa e desde o início do ano, até ao dia 17 de junho, registaram-se 2.743 queixas referentes aos CTT e CTT Expresso.


 


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ARQUIVOS DE IMAGEM - Martin Scorsese diz que a música é uma parte importante da sua actividade criativa e costuma citar o filme “Jazz In A Summer’s Day”, que mostra os bastidores e os palcos do Festival de Newport ao longo de um dia em 1959, como o exemplo de filme sobre o mundo da música que o fascina (este documentário, de Bert Stern e Aram Avakian está disponível no YouTube). Scorsese estreou-se a filmar música com o seu registo “The Last Waltz”, sobre o derradeiro concerto do grupo The Band em 1976 - e foi aí a sua aproximação a Bob Dylan, de quem tinha visto dois ou três concertos até então. Em 2005 Scorsese realizou um documentário sobre Dylan que fez história: “No Direction Home”. E agora foi Bob Dylan que o desafiou para pegar em material inédito filmado em 1975, durante a digressão Rolling Thunder Review, para mostrar o que então se tinha passado. Essa digressão foi pensada pelo próprio Dylan como uma espécie de circo itinerante que iria ser apresentada em pequenas salas na costa leste dos Estados Unidos e no Canadá. Dylan juntou à sua volta uma troupe interessante - músicos como os guitarristas Roger McGuinn (figura central dos Byrds), Mick Ronson, T Bone Burnett,  Ramblin´Jack Elliott, o violinista Scarlet Rivera, Joan Baez e Joni Mitchell, mas também o poeta o poeta Allen Ginsberg e o actor e escritor Sam Shepard (que escreveu um diário da digressão durante essas semanas). O próprio Dylan contratou uma equipa de filmagens para seguir e documentar toda a digressão que foi também registada em fotografia por Ken Regan (como a imagem que aqui é reproduzida). O trabalho de Scorsese foi alinhar todo o material de arquivo, construir uma narrativa com as imagens obtidas, confrontar entrevistas da época com entrevistas feitas agora (incluindo a primeira nova entrevista do próprio Dylan em anos) e transformar imagens dispersas de uma digressão atípica numa história - The Bob Dylan Story, subtítulo do imperdível documentário distribuído pela Netflix.


 


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ARQUIVOS SONOROS - Ao mesmo tempo que a Netflix lançava o documentário de Scorsese sobre a Rolling Thunder Review, Bob Dylan trabalhou na edição de uma caixa de 14 CD’s que recupera ensaios, actuações e gravações diversas feitas em espectáculo, em estúdio, ou sessões improvisadas em casa de outros músicos. Algumas destas gravações já tinham aparecido nas “Basement Tapes”, mas muito do material é inédito. Bob Dylan registava de forma sistemática as gravações dos seus trabalhos, do seu processo criativo, até de encontros casuais e fugazes - sendo que um dos momentos mais surpreendentes é o registo de uma sessão em casa de Gordon Lightfoot, no Canadá, onde também aparecem Patti Smith e Joni Mitchell, Este é o registo de sete semanas alucinantes - desde que os ensaios começaram até ao concerto de Montreal, no Outono de 1975. Um dos momentos chave de todos estes registos é a sucessão de versões de interpretação de “Isis”, uma canção de desamores, feita em parceria com Jacques Levy - que foi o responsável pela concepção cenográfica de toda a digressão. O tema apareceu no álbum “Desire”, e o que está nestes registos são os primeiros passos dessa canção, deste uma versão apenas ao piano até várias outras gravações ao vivo e em ensaios até ao concerto de Montreal. Outros momentos de registo são as versões de Hurricane, a canção que Dylan fez em prol da libertação de Ruben Carter. No Spotify podem encontrar uma versão condensada da caixa de 14 CD’s, um sampler que inclui dez temas da “Rolling Thunder Review, The 1975 Live Recordings”.


 


Romanceiro Cigano seguido de Pranto por Ignacio S


A POESIA DO TOUREIRO - Frederico Garcia Lorca é um dos nomes mais importantes da literatura espanhola. Nascido no final do século XIX, morreu cedo, em 1936, uma das primeiras vítimas da Guerra Civil de Espanha. Distinguiu-se nas peças de teatro que escreveu (como Bodas de Sangue ou La Casa de Bernarda Alba) e numa vasta obra poética. Dois dos seus poemas mais significativos, Romancero Gitano (1928), e Llanto por Ignacio Sánchez Mejías (1935) foram agora reunidos num único volume, com uma edição bilingue que junta ao original de Lorca a tradução de Vasco Graça Moura. “Romanceiro Cigano” tem um sabor mais popular e o “Pranto por Ignácio Sánchez Mejías”,  é uma composição mais elaborada em memória do célebre toureiro, que morreu colhido por um touro na praça de Manzanares El Real, em 13 de Agosto de 1934. Hoje em dia seria politicamente incorrecto enaltecer um toureiro, como Lorca fez mas quero acreditar que mesmo nestes tempos Lorca não se calaria perante os bons costumes. Ignacio Sánchez Mejías, que escreveu ele próprio duas peças de teatro, foi mecenas da chamada geração de 27, pólo de uma vanguarda cultural na Espanha da primeira metade do século XX. Na introdução que deixou escrita a estas traduções, Vasco Graça Moura sublinha que “o Llanto por Ignacio Sanchez Mejías é talvez a mais fascinante evocação do luto de toda a literatura do século XX”.


 


VISITAR - Em tempos a ideia de ir passar uns dias numas termas não me atraía. Percebi agora que não tinha razão. Estive uma semana no Hotel Fonte Santa, nas Termas de Monfortinho e fiquei rendido - ao hotel, à sua equipa, ao equipamento termal propriamente dito e sobretudo à região. Em tempos estes equipamentos - e o Clube de Tiro Desportivo de Monfortinho - estavam ligados ao banco Espírito Santo. Com o colapso do BES uns foram vendidos outros permanecem no Novo Banco, como o referido Hotel e outros encerraram, como o Astoria. Ambos são exemplares importantes da arquitectura de uma época. O Fonte Santa debate-se com falta de pessoal mas a equipa existente desdobra-se para prestar bom serviço. O Hotel fica colado ao balneário das termas e tem uma piscina com uma implantação perfeita e o terraço do bar proporciona uns belos fins de tarde. Do Balneário das Termas, que não experimentei, só me dizem maravilhas - preferi passar o tempo a ler no silêncio envolvente da região. O Clube de Tiro Desportivo foi entretanto vendido e recuperado. O seu restaurante tem um novo concessionário e os pratos fortes são o polvo grelhado, o arroz de lebre e o bacalhau (este último muito procurado por espanhóis - a fronteira é a dois passos). Mas o Clube de Tiro oferece também um complexo de piscinas aberto ao público e um conjunto de quatro modernos e confortáveis bungalows construídos já pelos novos proprietários, integralmente forrados a xisto, perfeitamente enquadrados na paisagem,  projectados por Tomás Ramos da ARC Arquitectura, e que podem ser alugados. Se quiser dar um salto a Espanha a escassa distância fica Coria, com uma interessante zona histórica onde há um restaurante simpático, El Bobo de Coria. Se andar mais uns quilómetros pode experimentar o Pátio, em Cáceres, detentor de estrelas Michelin.


 


DIXIT - “Nunca me tinha passado pela cabeça sair para o BCP “ - Armando Vara.


 


BACK TO BASICS - “Quando alguém estúpido relata o que uma pessoa inteligente disse o resultado nunca é rigoroso porque o relator inconscientemente traduz o que ouviu para algo que ele próprio possa compreender” - Bertrand Russell.









junho 14, 2019

VER O QUE É, OU VER O QUE SE QUER?

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O JOGO DAS SOMBRAS - Em geral prefiro o realismo ao optimismo. O optimismo provoca miopia, encarar a realidade torna tudo mais límpido. As cerimónias do 10 de Junho deste ano foram sobre as diferenças de encarar o país, com o Presidente da República a defender o optimismo,  o Primeiro Ministro a evitar o tema e o Comissário das Comemorações a traçar um retrato realista das coisas que deve ter deixado muitas individualidades agitadas e incómodas na tribuna de honra. É certo que Portugal é mais que fragilidades e erros, como disse Marcelo Rebelo de Sousa; mas é igualmente certo que temos tendência a protelar a resolução das fragilidades e a empurrar os erros para debaixo do tapete. É este eterno adiar que tem de mudar. O Estado precisa de uma varridela profunda e ela deve começar no desenho de um novo sistema eleitoral que permita que novas formações partidárias surjam e tenham representação parlamentar, para que os cidadãos se sintam mais perto dos eleitos e que os eleitos, a todos os níveis, das juntas de freguesias aos mais altos cargos, sejam exemplos de ética e de responsabilidade - o que implica responsabilizar os partidos pelas escolhas que fazem. A prioridade não pode ser criar novos eleitos na regionalização que alguns pretendem, não pode ser manter o jogo da mentira que tem dominado a política, sobretudo nestes anos mais próximos. A prioridade deve ser criar um sistema mais justo e mais escrutinável,  com uma justiça mais rápida nos casos de corrupção política. O tempo é o de proporcionar um sistema eleitoral que traga para a causa pública gente que se interesse pela política sem ser para traficar interesses, de legislação que penalize quem engana e rouba os cidadãos escondido atrás do manto do poder, seja local ou nacional, de partidos que não se limitem a fazer promessas que nunca cumprem. Como disse João Miguel Tavares em Portalegre,“nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa (além de pagar imposto)”.


 


SEMANADA - Armando Vara pediu escusa de ser ouvido de novo na Comissão de Inquérito à CGD mas o pedido foi recusado; dos 15 presidentes de câmara que foram constituídos arguidos nos últimos dois anos, 11 são do PS; o PSD apresentou um projeto de lei que propõe até 3 anos de prisão para quem matar cães ou gatos, mas não apresentou qualquer nova proposta sobre penalizações em casos de corrupção envolvendo políticos; Francisco Assis, do PS, afirmou que “Victor Constâncio é um homem sério e singularmente qualificado no plano económico, que ao longo da sua vida prestou relevantíssimos serviços ao país”; documentos do Banco de Portugal confirmam que a Administração da instituição, presidida por Victor Constâncio, sabia que Joe Berardo não tinha capacidade financeira para ser accionista qualificado do BCP; a CGD anunciou que vai avançar com a penhora dos salários que Joe Berardo receba por ser administrador de diversas empresas; 19,6% dos trabalhadores portugueses recebem o salário mínimo; o Conselho Superior das Finanças Públicas queixou-se de pelo terceiro ano consecutivo não ter acesso a dados financeiros do Sistema de Segurança Social e o Ministro da tutela, Vieira da Silva diz desconhecer a razão de tal facto; investigadores acompanharam durante dois anos a evolução da habitação numa área de 3,6 hectares à volta de uma rua de Alfama e concluíram que, de 150 apartamentos comprados, apenas um foi destinado à habitação própria; Lisboa é a cidade com maior rácio de casas para alugar a turistas no Airbnb face às principais capitais europeias, com um valor superior a 30 habitações por mil habitantes nesta plataforma.


 


EFEITO MEDINA -  Segundo um estudo internacional Lisboa é, pela terceira vez consecutiva, a cidade mais congestionada da Península Ibérica, acima de Madrid ou Barcelona e os condutores da capital passam em média 42 minutos por dia no trânsito, o que, no final de um ano, representa perto de 160 horas de tempo gasto em deslocações.


 


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ARTE VIRTUAL - Leonel Moura tem trabalhado nos últimos anos na aplicação de tecnologia à criação no domínio das artes plásticas. O percurso percorrido já recorreu a robots e agora propõe uma aplicação baseada em realidade aumentada, disponível gratuitamente na Apple Store e na Google Play, sob o nome Lisboa Viral. Através da aplicação Lisboa Viral o utilizador pode visualizar as 17 esculturas virtuais que se encontram espalhadas pela Grande Lisboa, desde vários pontos da capital até Cascais, Sintra, Ericeira, Sesimbra ou Mafra. Percorrendo os locais com a aplicação, em vez de um jogo onde se descobrem Pokémons, encontram-se as esculturas virtuais que são criadas por um programa generativo,  com recurso a realidade aumentada. Esses locais são Torre de Belém, Palácio de Belém, Praça do Comércio, Praça de Camões, Chiado, Rossio, Cais do Sodré (na imagem), Bairro Alto, Alfama, Estação do Oriente, Boca do Inferno, Cascais, Praia dos Pescadores, Cascais, Palácio de Sintra, Cabo da Roca, Sintra, Praia dos Pescadores, Ericeira, Cabo Espichel, Sesimbra e Palácio de Mafra. As obras podem ser visualizadas e também fazerem-se fotos ou vídeos que podem ser partilhados.  Estas esculturas existem também fisicamente em pequeno formato, tendo sido realizadas em impressão 3D e algumas já foram vendidas a colecionadores em Portugal e França com o preço médio de 3.000 euros. Leonel Moura está actualmente a preparar uma exposição a realizar em Pequim no próximo ano.


 


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UM SOM NOVO - Fred Pinto Ferreira já foi baterista dos Orelha Negra, Buraka Som Sistema, Os Dias de Raiva, Yellow W Van, Oiaiai, Laia e recentemente, da Banda do Mar, com os brasileiros Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. É também um produtor multifacetado de numerosos discos dos mais variados artistas, entre os quais, por exemplo Mafalda Veiga e Luís Represas e já actuou como baterista da fadista Raquel Tavares. Agora Fred decidiu lançar-se a solo com o disco "O Amor Encontra-te no Fim", composto por 15 faixas. Fred encara este projecto como uma terapia musical para se reencontrar consigo próprio e, ao contrário da maioria dos mais recentes trabalhos discográficos portugueses, frequentemente monótonos e desinteressantes, há aqui a procura de alguma coisa nova e não um mero copiar de tendências. Confesso que este é dos discos portugueses deste ano que mais gostei de descobrir e tornou-se numa escuta frequente no Spotify. O nome do disco, com uma base de bateria acústica que é envolvida por electrónica, essencialmente instrumental,  é uma homenagem a uma canção de Daniel Johnston, “True Love Will Find You In The End”, evocado em “Para Nunca Mais Cair”, a derradeira faixa do álbum. Amaura, Francis Dale, Marcelo Camelo e Carlão são os convidados de Fred em “O Amor Encontra-te no Fim”.


 


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A GESTÃO DAS EMPRESAS FAMILIARES - Em Portugal, as empresas familiares contribuem para 65 % do PIB e são responsáveis por 50 % do emprego. Luís Parreirão, administrador da MGP SGPS, SA, accionista maioritária da Mota-Engil, analisou os desafios complexos de gestão que se colocam nesse contexto e reuniu as conclusões no livro “Empresas Familiares: Da Governance à Responsabilidade Social”. Como é a governança destas empresas familiares? Baseada na razão ou na emoção? Privilegiam mérito ou preferências individuais? Como são encarados os donos - como sócios ou familiares? E como são tomadas as decisões das maiores empresas familiares em Portugal, que representam 25 % das entidades cotadas na bolsa? Para Luís Parreirão as respostas não são óbvias e muito menos «nestes tempos de incerteza(s)», que impõem às empresas familiares «um mais forte, e mais flexível, planeamento estratégico, quer para si próprias, quer para a(s) família(s) accionista(s)». O autor foca temas como o aumento da espera pela sucessão dos herdeiros do accionista maioritário, resultante do aumento da esperança média de vida : «Será que as novas gerações estarão disponíveis para esperar até mais tarde? Quantos estarão disponíveis para conviver com a “síndrome do Príncipe Carlos”?»  Finalmente o autor aborda também, com recurso a dados europeus, o protocolo familiar e a nova realidade dos family offices, permitindo ter uma visão actualizada e prática sobre este universo.


 


A BELA MASSA - Várias pessoas já tinham elogiado o restaurante italiano que abriu recentemente na Praça da Armada, perto de Alcântara. Na semana passada pude finalmente lá ir com um grupo de amigos, por acaso de várias nacionalidades. O restaurante, que abriu no início deste ano, chama-se Ruvida e é gerido por um casal italiano que se estabeleceu em Lisboa - Valentina Franchi e Michel Fant. Tem uma sala com poucas mesas e cozinha aberta, um grande balcão onde Valentina ao fim da noite prepara a massa fresca para o dia seguinte (um espectáculo digno de se ver) e uma esplanada simpática. A decoração é simples e de bom gosto, infelizmente os arquitectos continuam a não ter cuidado com a acústica das salas de restaurantes - será que os arquitectos apreciam a cacofonia? Acústica à parte a cozinha do restaurante só merece elogios e a qualidade das massas é acima da média. O menu de almoço custa 16 euros e inclui entrada, prato principal, sobremesa, bebida e café - e pode ter a sorte de ser dia de tagliatelle com tomates e alcaparras, uma especialidade. Nas entradas destaco a mousse de mortadela, o tártaro de vitella alla piemonte e as sardinhas fritas marinadas num molho de cebola cozinhada em vinagre, com pedaços de pinhão - uma especialidade veneziana. Na lista das pasta destaco os tortelloni burro
 e oro, a massa bem no ponto, boa para tomar o gosto do molho de tomate e manteiga, muito suave, que vai às mil maravilhas com o recheio de ricota, parmesão e noz moscada. A lista de vinhos podia ser melhor sem ser maior, mas em compensação o spritz mereceu elogios de um especialista francês que estava na mesa. O serviço na sala pode melhorar um pouco. O Ruvina fica na Praça da Armada 17 e está aberto para almoços e jantares de quarta a sexta e aos sábados e domingos non stop das 12 às 23. Reservas pelo  213 950 977.


 


DIXIT - “A verdadeira modernidade da Administração, com que tantas autoridades e tantos políticos gostam de rechear os seus discursos, não é a da tecnologia, é a da humanidade e a da igualdade” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Há  tipos tão batoteiros que usam cartas marcadas quando jogam solitário” - personagem de um policial de Desmond Bagley.





 






 


 

junho 07, 2019

A POLÍTICA INTERESSEIRA

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INTERESSES EM VEZ DE IDEAIS  - O caso de Joaquim Couto, o autarca de Santo Tirso que meteu cunhas a outros quatro autarcas recomendando os serviços de consultoria de comunicação de empresas da mulher, é apenas o mais recente de uma longa lista dos pecadilhos abundantes na paisagem política e partidária portuguesa - em todas as áreas ideológicas, como se tem visto. Uma sondagem recente mostra que mais de metade dos portugueses não têm confiança nos líderes políticos e nos deputados e que quase metade dos inquiridos está pouco satisfeita com a democracia. Querem cenário mais preocupante que este? A culpa não é dos eleitores mas de um sistema calculista que deliberadamente procura menosprezar a participação, manter o status quo, e dificultar o aparecimento de novas alternativas. Houve um tempo em que na política entravam homens com ideais e causas; hoje, na maior parte dos casos, está na política gentinha que se move apenas por interesses e vantagens pessoais. O resultado está à vista: todos procuram uma causa para a crise e ela não é segredo nenhum: a corrupção, o abuso de poder, o compadrio. Há quem diga que esta conversa fomenta o populismo, mas a minha sincera opinião é que a causa do populismo está no sistema que permite tudo isto e não se corrige. O problema está nisto: varrer os interesseiros da política significa destruir grande parte dos aparelhos dos principais partidos. E ninguém quer ir por esse caminho, muito menos em ano de eleições.


 


SEMANADA - Poucas semanas depois de o Governo ter anunciado que queria melhorar o serviço de comboios a Infraestruturas de Portugal decidiu extinguir as equipas especializadas em segurança e manutenção ferroviária; à semelhança de outros serviços de transporte público, depois do anúncio da descida dos preços dos passes sociais, o Metro de Lisboa mandou retirar bancos para caberem mais passageiros, em piores condições de conforto e segurança; a empresa acusada de roubar mantimentos para as messes da Força Aérea e de pagar luvas a militares foi convidada e contratada de novo para fornecer bebidas e aperitivos naquele ramo das Forças Armadas; o concelho de Montalegre tem uma área superior à ilha da Madeira mas é habitado apenas por nove mil pessoas; 21,3% da população portuguesa tem mais de 65 anos, valor apenas superado na Europa pela Itália;  Celorico da Beira é o último município do Rating Municipal Português divulgado pela Ordem dos Economistas e todos os 20 piores municípios do ranking divulgado são de pequena dimensão e estão no interior; em ano e meio foram apreendidos 2990 telemóveis nas cadeias portuguesas; um quinto das salas dos hospitais e centros de saúde não têm ar condicionado.


 


O MURO - No funeral de Agustina foi notória a ausência dos habituais nomes da intelectualidade que se afirma de esquerda, aqueles que não perdem uma oportunidade para prestar vassalagem nas campanhas eleitorais e para coçarem as costas uns aos outros, mas que são incapazes de atravessar o muro da ideologia para reconhecer o génio - que na verdade sempre os incomodou. Como podia aquela mulher escrever tão bem, não sendo da esquerda deles?


 


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REVIVER - Em 2014 a editora Guerra & Paz lançou “ O Livro de Agustina”, uma autobiografia da escritora, com 120 páginas e dezenas de fotografias dos álbuns de família e de recordações avulsas. Podem encontrá-lo na Feira do Livro e nas livrarias. Neste livro revivemos a vida de Agustina Bessa-Luís, contada por ela com enorme humor, escrita na primeira pessoa, e que começa, assim, evocando os avós, para explicar as suas próprias origens: “O avô Teixeira, com todo o ar dostoiewskiano, casou em Março de 1987 com Justina, filha de José Bento de Bessa, do Lugar do Barral. Ele tinha 41 anos quando casou e ela 28, idade que, para uma noiva, era já um pouco avançada, nesse tempo. Explica-se assim porque Justina ficara enamorada desde os sete anos por José, com 20 anos, quando ele a ajudou a passar um ribeiro em dia de invernia e lhe disse que casaria com ela, um dia”.  E, já quase no final do livro, Agustina conclui: “ Esta é a minha história que a memória abreviou, quando não é que a modéstia a repreende. Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas a que faltou a experiência”. São poucos os escritores que conseguem contar assim a sua própria vida.


 


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A VISÃO DO FOTÓGRAFO - A certa altura, em 1951, Fernando Lemos estava em Paris com José Augusto França (um amigo com quem se correspondeu toda a vida) e queria expôr fotografia na capital francesa. Essa  exposição nunca se concretizou mas Lemos e França conviveram na altura com Vieira da Silva e Arpad Szenes, em casa de quem conheceram Man Ray, que expunha na cidade por essa altura e cujo trabalho influenciou Lemos. Esta história vem na introdução que Filomena Serra escreveu ao quarto volume da série Ph., uma colecção criada na Imprensa Nacional para publicar o trabalho de fotógrafos portugueses contemporâneos, dirigida por Cláudio Garrudo. A primeira fotografia deste livro é exactamente do jovem José Augusto França, fotografado na Galeria das Quimeras, na Notre Dame. Filomena Serra destaca que “uma das propriedades que Lemos atribui à fotografia é a fusão: fusão de luz e sombra, fusão de formas, de linhas e contornos, que deambulam e desmaterializam os corpos, podendo até surgir o informe”. A primeira fotografia de Fernando Lemos foi feita em 1949, a partir da janela do seu quarto, na Rua do Sol ao Rato, com uma máquina rudimentar e está reproduzida nesse livro. Como Filomena Serra sublinha Fernando Lemos descobre com a fotografia que ”afinal numa fracção de segundo tudo muda”. E começa a fotografar amigos, as pessoas com quem se dava, uma geração de pintores, poetas, escritores, artistas. Neste livro, que inclui numerosas imagens inéditas, estão retratos que Fernando Lemos fez de nomes como Agostinho da Silva, José Viana, Arpad e Vieira da Silva, Mário Cesariny, José Cardoso Pires, António Pedro, Fernando Azevedo e Vespeira, Mécia e Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, José Blanc de Portugal ou Sophia de Mello Breyner, todos fotografados entre 1949 e 1952, a época em que mais trabalhou o meio, num testemunho de cumplicidades e na descoberta de técnicas de exploração de luz ou de sobreposição de imagens.


 


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AS MUITAS DIMENSÕES DE FERNANDO LEMOS - Esta é a semana do regresso de Fernando Lemos a Portugal e uma oportunidade única para quem não o conhece descobrir a sua obra multifacetada e pouco conhecida pelos mais novos. Lemos, nascido em 1926, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e ao longo da sua vida dedicou-se à pintura, à fotografia e ao design gráfico e industrial, para só citar as áreas onde a sua presença é mais marcante. Em 1953, desiludido e em ruptura com o clima político que se vivia em Portugal, foi para o Brasil, onde reside desde então. Para além do livro de fotografia acima referido, editado pela Imprensa Nacional, a partir desta semana pode ser descoberta a sua obra multifacetada e que permanece actual. Comecemos pela exposição dos seus trabalhos em azulejo, que está na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C) até 6 de Setembro, e onde esta fotografia de Fernando Lemos, tendo por fundo um dos seus painéis, foi feita. A exposição da Ratton chama-se “Máscaras do Tempo” e inclui um conjunto de padrões de azulejo mostrados em painéis e um conjunto de 11 desenhos reproduzidos em chapa de alumínio. Na Galeria 111 (Campo Grande 113) está até 14 de Setembro a exposição “Mais a Mais ou Menos” que mostra a diversidade dos suportes que utilizou e inclui fotografias, desenhos a carvão, desenhos em técnica mista sobre papel, cartões postais, aguarelas e acrílico sobre cartão e papel - uma introdução indispensável à obra de Fernando Lemos. Finalmente, por iniciativa do MUDE, no Torreão Poente da Cordoaria Nacional e até 6 de Outubro está “Fernando Lemos Designer”, a é a primeira exposição especialmente dedicada a Fernando Lemos enquanto designer e artista gráfico. Das suas mãos nasceram logótipos, livros (e uma editora de literatura infantil – editora Giroflé), muitas ilustrações, cartazes, azulejos, murais, tapeçarias, estampas para tecidos, pavilhões expositivos. Esta exposição, que está a ser preparada pela equipa do Mude desde 2017 reúne 230 obras, a maior parte delas desconhecidas em Portugal, está documentada num bom catálogo editado pelo MUDE e a Imprensa Nacional e tem ainda a particularidade de permitir perceber o processo criativo do autor e de mostrar, pela primeira vez, trabalhos inéditos que nunca saíram do papel.


 


ROTEIRO - O Fotobox é o único programa sobre fotografia que existe na televisão portuguesa - passa aos Domingos à tarde na RTP3. Neste próximo domingo Luiz Carvalho revista a reportagem que fez em 1992 sobre o último dia de trabalho da fábrica vidreira Stephens na Marinha Grande, voltando a falar, agora, com operários que fotografou nesse dia.  Na edição da semana passada o Fotobox chamou a atenção para a exposição “Fotografia Impressa e Propaganda Visual em Portugal (1934-1974)” , que está até 30 de Agosto na Galeria do Auditório da Biblioteca Nacional (Campo Grande, Lisboa) e revisita a História do Estado Novo português através da fotografia impressa e da propaganda visual, comissariada por Filomena Serra e Paula André. A terminar deixo a sugestão de um disco, “O Amor Encontra-te No Fim”, a estreia a solo de Fred Pinto Ferreira, depois de trabalhar em projectos como os Buraka Som sistema, os Orelha Negra ou a Banda do Mar. Ouçam no Spotify que vale a pena. Petisco guloseima:  um gelado artesanal italiano daLuc Duc, ao cimo da Rua de Campolide, esquina com a Marquês da Fronteira.


 


DIXIT - “Com 16% em Lisboa e 22% no Porto o PSD é agora um partido rural, que vai bem a Rui Rio, um homenzinho autoritário e colérico, que chegou ontem de 1970 e não se distingue pela inteligência política” - Vasco Pulido Valente.


 


BACK TO BASICS - “O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo” - Agustina Bessa-Luís


 

maio 31, 2019

A MINORIA RUIDOSA PRECISOU DE POUCO PARA TOMAR CONTA DAS ELEIÇÕES

 


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O PODER DA MINORIA - A coisa mais engraçada que saíu das eleições europeias do passado fim de semana foi a reviravolta da arrumação partidária, com o Bloco a subir, o PCP a descer, o CDS a esvair-se e o PAN a crescer. O cenário é de tal monta que António Costa iniciou os trabalhos de produção do novo reality show que vai dominar a política portuguesa até Outubro. Chama-se “Quem Quer Casar Com o Primeiro” e tem um concurso complementar intitulado “A Roda da Geringonça”. Os canais disputam os formatos e multiplicam-se os interessados.  No Domingo surgiu mais um candidato surpresa ao casamento do reality show - o PAN, que entrou na lista dos candidatos a charneira do regime - e que já está a ocupar o espaço mais esverdeado aproveitando o facto de o partido melancia estar cada vez mais vermelho por dentro e menos verde por fora. Piadas à parte a realidade é dura: os directórios partidários choram sobre a abstenção mas a última coisa que querem é mudar a lei eleitoral, adequando-a a novos tempos - nomeadamente estudando alternativas ao método de Hondt que protege os partidos instalados e dificulta a entrada de novas organizações no círculo do poder. Feitas as contas e tendo em consideração que a abstenção ficou pouco abaixo dos 70% a verdade nua e crua é esta: se tomarmos como base o total dos recenseados o PS obteve 10,47% dos votos dos eleitores, o PSD ficou nos 6,88, o Bloco vive com 3,08%, a CDU está reduzida a 2,16%, o CDS a 1,94%. Na verdade menos de 25% dos eleitores optou por um qualquer dos partidos que se apresentaram. 45 anos depois de 1974 o regime considera-se legitimado com a participação de apenas um quarto dos cidadãos. A coisa está reduzida aos diretórios partidários e seus adeptos mais próximos. O regime não consegue chamar as pessoas a participar nas decisões do país, governado por uma ruidosa minoria que só olha para si própria. Este é o triste resultado dos políticos que temos e das campanhas eleitorais como  aquela a que acabámos de assistir.


 


SEMANADA - O PCP desceu em todas as eleições realizadas desde a formalização da geringonça e nestas europeias perdeu em Setúbal e Beja para o PS; os 11 partidos mais pequenos recolheram apenas 10% dos votos; Barrancos, localidade conhecida pelas suas touradas com touros de morte, foi o único concelho onde o PAN não obteve um único voto; segundo um estudo da Marktest os eleitores da freguesia de Fundada (concelho de Vila de Rei) foram os mais participativos, pois 65.38% dos 520 inscritos foram votar; segundo o mesmo estudo os residentes em Morgade (concelho de Montalegre) foram os mais abstencionistas, pois apenas 4 dos 323 eleitores aí inscritos votaram; as cativações aumentaram nos três primeiros meses deste ano cerca de 10 milhões de euros face ao mesmo trimestre de 2018; em 2018 cerca de 28% dos partos foram feitos por cesariana, um novo aumento em relação ao ano anterior; o número de crianças vítimas de abusos sexuais continua a aumentar e há uma média de 22 novos casos reportados por mês; segundo a Entidade Reguladora da Saúde ao longo de quatro anos o hospital de Vila Franca de Xira teve doentes  internados em refeitórios, havendo também casos de doentes internados em casas de banho; entre 2013 e 2017 fecharam quase metade das lojas históricas de Lisboa; Joe Berardo manifestou intenção de processar os deputados que o interrogaram na Comissão Parlamentar de Inquérito.


 


ARCO DA VELHA - Os vinte habitantes de Marinha de Vale do Carvalho, uma aldeia na Sertã, continuam sem internet e sem telefone fixo desde os incêndios de Outubro de 2017, há 20 meses portanto.


 


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PORTUGAL NA MONOCLE - A Monocle publica duas vezes por ano edições especiais. “The Forecast” no final de cada ano e que explora tendências futuras; e “The Escapist”, no início de cada verão, para abordar viagens, sítios ou, como na mais recente edição vem bem em destaque: “The Travel Top 50” e Portugal aparece referido sete vezes: a linha aérea com a tripulação mais bonita é a TAP; o aeroporto hub de voos intercontinentais com a melhor localização é Lisboa; os melhores consumíveis de hotel são os da Claus, do Porto; um refúgio de excepção é São Lourenço do Barrocal; os melhores quartos de hotel são os do Belmond Reid’s Palace no Funchal; o destino ideal para um fim de semana é a Madeira; e o melhor buffet de hotel é o do Ritz Four Seasons de Lisboa. O portfolio de moda desta edição foi fotografado na Madeira num especial de 14 páginas, a área comercial do aeroporto de Lisboa vem em destaque com a loja O Mundo Fantástico das Conservas Portuguesas e a do Porto com os Sabonetes Confiança, a música dos Deolinda, os Galos de Barcelos e os vinhos do Esporão. Os dois outros destaques portugueses vão para as toalhas de praia Abyss & Habidecor de Viseu, para o Hotel Memmo Baleeira em Sagres (e para a Feijoada de chocos do Restaurante carlos na mesma localidade). Mas o prato forte da edição é uma entrevista ao presidente da Câmara de Florença onde Dario Nardella recorda como proibiu a abertura de cadeias de fast food, cafés de internet e lojas de telemóveis no centro histórico da cidade, como está a tomar medidas para controlar empresas como a Airbnb, para fomentar turismo que traga valor á cidade e aos seus negócios e como todas as receitas das taxas de turismo e pernoita são aplicadas em actividades culturais, manutenção dos parques e zonas verdes e nos transportes públicos.


 


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TERRITÓRIOS URBANOS - O título da exposição de fotografia do argentino Alberto Picco na Galeria Diferença é “Arquivo Território (Paisagem)”. O autor vive há muitos naos em Portugal, integrou a área de fotografia de O Independente  e as 14 imagens que apresenta, feitas em filme preto e branco no início deste século, mostram simultaneamente uma visão que conjuga o efeito do passar do tempo nas nossas memórias e na forma como percepcionamos a paisagem urbana, em pormenores dos territórios da cidade que por vezes parecem banais mas que ganham significado especial quando são vistos fora do tempo, ganhando uma dimensão de imaginário fora da estrita realidade fotográfica. Ainda na Diferença e até finais de Junho está também a colectiva “de passagem”, com fotografias de André Gomes (realizadas com smartphone), José Francisco Azevedo, André Carapinha e Monteiro Gil (Rua São Felipe Neri 42, segunda a sábado das 13 às 19). Outro destaque vai para a exposição patente na Underdogs,  “Faces of Society” dos iranianos Icy e Sot, que actualmente vivem e trabalham em Nova Iorque e que têm realizado trabalhos nas ruas de diversas cidades em todo o mundo (terça a sábado, até meados de Junho, Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila). Recordo ainda que no Torreão Nascente da Cordoaria está “ponto De Fuga” , com obras da Colecção António Cachola, e no Museu de Lisboa (Palácio Pimenta, Campo Grande) está “Ni Le Soleil Ni La Mort” de João Louro. Finalmente, no Museu do Fado, abriu uma exposição que traça a história da guitarra portuguesa ao longo de dois séculos e mostra cerca de meia centena desses instrumentos musicais.


 


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MORRISSEY SONGBOOK -  As mais recentes posições de Morrissey a favor do Brexit levaram grande parte da imprensa inglesa a encarar o seu novo álbum mais do ponto de vista político do que musical. Trata-se de uma escolha de 12 temas de autores norte-americanos dos anos 70 e 80, muitos deles conotados com canções de protesto, o que não deixa de ser curioso tendo em conta o posicionamento mais recente do fundador dos Smiths. E, no entanto, o disco é musicalmente revigorante, com versões surpreendentes de alguns temas. O produtor foi Joe Chiccarelli e permito-me destacar o tratamento que deu a “Don´t Interrupt The Sorrow”, um original de Joni Mitchell, aos arranjos de “Only a Pawn In Their Game” de Bob Dylan, a “Suffer The Little Children” de Buffy Sainte Marie (que ganha uma outra intensidade), a “Days Of Decision” de Phil Ochs e sobretudo a “It’s Over”, de Roy Orbinson. Outros autores representados nesta versão do American Songbook de Morrissey são Melanie, Carly Simon, Jobriath (um expoente do glam rock dos anos 80), Tim Hardin, Gary Puckett, Laura Nyro (bela versão de “Wedding Bell Blues” ou Dionne Warwick. Uma coisa é certa: a escolha das canções é curiosíssima, os arranjos são surpreendentes e a interpretação supera os originais frequentemente mostrando que Morrissey, o cantor, está num bom momento.“California Son”, de Morrissey, está disponível no  Spotify.


 


O ALVARINHO - Com o aumento das temperaturas chega a altura de experimentar os vinhos verdes da mais recente vindima. O vinho Alvarinho da colheita de 2018 que João Portugal Ramos agora colocou no mercado merece ser provado com atenção. Feito a partir de uvas da região de Monção e Melgaço, com as vinhas localizadas num vale, este Alvarinho é um bom exemplo da conciliação da tradição da região do Minho com técnicas de vinificação contemporâneas. O resultado é um vinho de cor citrina, aroma intenso, elegante, floral e frutado ideal para acompanhar um aperitivo num fim de tarde estival. Fica muito bem com pratos de marisco e de peixe e com sushi ou ceviche. Para além deste  100% Alvarinho João Portugal Ramos lançou também um outro verde, com 85% da casta Loureiro e 15% Alvarinho, mais simples e leve, e que funciona particularmente bem com saladas ou o incontornável aperitivo.


 


DIXIT -  “Estamos preparados para assumir mais responsabilidades” - Inês Sousa, do PAN


 


BACK TO BASICS - “Ignorância e confiança é tudo o que é necessário para se obter sucesso” - Mark Twain






maio 24, 2019

COMO VOTAR, NO DOMINGO?

 


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UM VOTO NULO - Esta semana vi um tempo de antena do PS em que um actor deambula num monólogo mal escrito, que no final é comentado numa simulação de mesa redonda protagonizada pelo candidato Pedro Marques. Trata-se de um exemplo de manipulação completa a meio de uma campanha eleitoral e nada do tempo de antena tem a menor relação com o sentido das eleições deste fim de semana e muito pouco cola com a realidade objectiva e a história recente. É uma espécie de fake news, publicidade enganosa por junto. Estamos num paradoxo: Domingo há eleições mas na campanha eleitoral não se debateu o que está a votos: o Parlamento Europeu e o seu papel na União Europeia. Apresentadas pelo Governo e pela oposição como um referendo ao exercício do poder por António Costa, estas eleições são, no fundo, um retrato da disfunção da própria UE. Recordo aqui o que António Barreto acertadamente disse sobre este assunto: “Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos?”. Na realidade esta é a questão que não foi discutida e que toda a gente quer evitar. Olho para o que se passou na campanha eleitoral e fico enjoado com o fraseado dos cinco maiores partidos e nos novos partidos não me revejo - até porque eles próprios posicionaram-se submissos face ao sistema vigente do exercício de poder na União Europeia. O voto útil é uma coisa que cada vez me agrada menos - é um ritual de conformismo, é aceitar que não se pode fazer nada. A abstenção, já se sabe, deve atingir níveis históricos e não tenciono alimentá-la. Mas tenciono votar nulo, com um risco a toda a largura do boletim do voto, uma expressão do meu desagrado. Este é, nesta altura, o único voto que para mim faz sentido - e tenho pena que os votos brancos e nulos sejam contabilizados em conjunto, e não separados,  na nossa caduca lei eleitoral, ela própria incentivadora desta redoma de imobilidade do sistema.


 


SEMANADA - O Ministério da Educação revelou que desde o início do ano lectivo já recebeu 600 reclamações contra refeições servidas em refeitórios escolares concessionados; as doenças sexualmente transmitidas estão a aumentar e os casos de gonorreia subiram 48% no ano passado; uma advogada candidata a juíza foi acusada por tráfico de droga, apanhada em flagrante à entrada de um estabelecimento prisional; em 23% dos concelhos portugueses há mais reformados que trabalhadores; mais de 40% das famílias têm um rendimento anual inferior a dez mil euros; a OCDE reviu em baixa a estimativa para o PIB para 1,8% (abaixo dos 2,1% que antecipava)  e agravou a previsão do défice para 0,5% (contra 0,2% previstos em novembro); nos primeiros três meses do ano os cinco principais bancos do sistema tiveram em conjunto um lucro de 373 milhões de euros, o equivalente a 4,1 milhões de euros por dia; o Novo Banco registou prejuízos de 93 milhões de euros, o único dos cinco com contas no vermelho; os bancos concederam, em março, 617 milhões de euros aos consumidores só para o crédito ao consumo, dos quais 238 milhões foram destinados ao crédito automóvel; em 2018 o regulador da saúde aplicou 487 multas, o dobro das aplicadas em 2017;as telecomunicações ocupam o primeiro lugar há mais de 12 anos no ranking das reclamações que chegam à DECO; num relatório sobre um descarrilamento a Infraestruturas de Portugal afirmou não ter meios para fazer melhor manutenção das linhas ferroviárias.  


 


MILAGRES DO REGIME - Hortense Martins, líder do PS no distrito de Castelo Branco e mulher do atual presidente da Câmara local, conseguiu em 2010 um subsídio de 171 mil euros para a construção de um projecto familiar turístico que já estava em funcionamento há 24 meses e em 2013 obteve mais 105 mil euros para uma unidade de turismo em espaço rural que também já estava a funcionar à data da aprovação da respetiva candidatura.


 


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LEITURAS JUVENIS - Já vai no número cinco a “Electra”, criada pela Fundação EDP  como uma “revista de pensamento, arte, literatura, ciência e crítica cultural” - um caso único no actual panorama editorial português, dirigida por José Manuel dos Santos. Um dos pontos altos desta edição é um ensaio sobre Marcel Proust onde Michel Erman fala da relação de Proust com o dinheiro e do que ele representou na sua obra e na sua vida. “Da herança que recebeu dos pais ao uso que fez dela para afirmação literária, da comédia mundana a meio facilitador de relações amorosas e sexuais, o dinheiro foi para Proust um instrumento de compreensão do mundo e do lugar de cada um, nele”. Mas o prato forte desta edição é o especial “Jovens Para Sempre”, dedicado aos ideais da juventude, apresentados “como um dos motores da história social, cultural e política” recente. Cuidadosamente paginado e ilustrado, este especial destaca, num texto de António Guerreiro, que “a juventude como categoria sociológica é uma invenção do século XX”. Num outro texto o crítico de música, escritor e cineasta inglês Jon Savage, autor de “Teenage: The Creation Of Youth Culture”, escreve sobre “A Era da Adolescência” e sublinha: “os filhos do pós-guerra geralmente pensam que inventaram tudo, mas todos os elementos do que hoje consideramos ser uma cultura da juventude já existiam na cultura swing” dos anos 30. Mais dois textos a merecer especial atenção nesta edição da “Electra” - “Esplendor na Relva”, de Daniel Jones, que partindo de exemplos cinematográficos reflecte sobre a sua experiência de lidar com jovens em idade escolar, e “Pasolini e a possibilidade de exceder o poder”, onde Vinicius Nicastro Honesko analisa a relação entre Pasolini e os jovens estudantes das revoltas de 1968, apontando para a diferença entre o intelectual clássico e os estudantes que então marcaram essa época.


 


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IMAGENS DA NATUREZA NUMA GALERIA - Passada a euforia do ARCO e de todas as manifestações paralelas, regressemos ao que de bom existe nas galerias lisboetas. Há uma exposição, inaugurada há duas semanas, que merece toda a atenção: “Cascata”, que assinala a estreia de Paulo Brighenti na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 R/C Esq) e que ali pode ser visitada até 27 de Julho. Esta “Cascata” representa uma evolução em relação às exposições anteriores de Brighenti, um artista que está representado em algumas importantes colecções privadas e institucionais. Mais uma vez Brighenti ultrapassa o universo mais habitual da pintura e do desenho, mas sem o abandonar, e mostra algum do seu trabalho em escultura, desde delicadas peças até outras de maiores dimensões, todas com alguma relação com a natureza e com a presença humana - como aliás as pinturas que também integram esta exposição, em suportes que vão do papel ao linho. No texto de apresentação da exposição Miguel Mesquita sublinha: “Partindo desta analogia da transformação de plano para volume, podendo considerar-se de superfície para objecto, Paulo Brighenti tem recentemente desenvolvido, de forma discreta mas intensa, um campo de experimentação sobre a relação entre pintura e escultura.”


 


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A CANTORA DE JAZZ - Nalguns momentos a música de Norah Jones esteve associada a pano de fundo sonoro para jantares românticos e, em determinado ponto da carreira, a sua originalidade como intérprete de jazz esbateu-se. É no entanto injusto considerá-la apenas como uma voz delico-doce e este seu novo disco vem mostrar um outro lado, de estilos diversificados. Na realidade não se trata de um álbum de originais mas de uma colectânea de singles que Norah Jones lançou ao longo dos últimos dois anos, canções gravadas com a colaboração de nomes como Jeff Tweedy dos Wilco, Thomas Bartlett (que colabora regularmente com St. Vincent) ou Billie Joe Armstrong, dos Green Day. O leque é portanto diversificado e longe de fórmulas tradicionais, ao mesmo tempo que, por exemplo em “It Was You”,  retoma a vocalização intimista que a caracteriza, e onde voz, teclado, metais e secção rítmica criam um ambiente musical especial. Os melhores momentos são quando ela sai da rima, por exemplo ao ser arrastada por Billie Joe Armstrong para a country em “A Song With No Name”, na faixa final, “Just a Little Bit”, onde se solta do seu estilo mais conhecido e sobretudo na canção que dá título a esta colectânea, “Begin Again”, forte e afirmativa, com um arranjo musical inesperado que combina violinos, piano e guitarra eléctrica. CD Blue Note já disponível em Portugal e no Spotify.


 


OS CARACÓIS DO POMAR - Apesar de a primavera estar hesitante a época dos caracóis já começou. Um dos locais incontornáveis para os apreciadores do petisco é o Pomar de Alvalade, na Rua Marquesa de Alorna 21. Criado pelo pai de Paulo Bento, o local está recheado de referências ao futebol. A lista inclui uma série de pratos tradicionais, das pataniscas aos secretos, mas o que atrai muita gente a este local ao fim da tarde é a petisquice dos caracóis. Têm fama (e na minha opinião) proveito de serem dos melhores de Lisboa - um tempero certo. A imperial é bem tirada e surge rapidamente na mesa quando o copo anterior se esvazia. Para rematar há quem peça um prego ou uma bifana no pão - eu acho que esta última é a opção mais acertada. Serviço simpático, casa sempre cheia, o Pomar de Alvalade é um daqueles pequenos restaurantes populares de bairro em que o conceito principal é a qualidade.


 


DIXIT - “A União Europeia é um daqueles temas em que mais vale não tocar muito” - Luciano Amaral, a propósito das eleições para o Parlamento Europeu.


 


BACK TO BASICS - “A política é um conjunto de interesses mascarados como defesa de princípios” - Ambrose Bierce


 






maio 17, 2019

QUEM NAO TIVER MEMÓRIA AUDIOVISUAL NÃO TERÁ FUTURO

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HÁ PATRIMÒNIO PARA ALÉM DA PEDRA E DO PAPEL - Nos dias que correm parte importante, mas menosprezada,  da preservação do património passa pela preservação das imagens e dos conteúdos audiovisuais. Ter a memória das imagens é tão importante como ter a memória do pensamento. Património não é só pedra e papel, ao contrário do que pensam ainda hoje muita gente. Um país sem produção audiovisual relevante não existe em termos internacionais; um país que não preserva os seus arquivos de imagens está a desprezar o conhecimento de gerações futuras. Vem isto a propósito de notícias recentes sobre as dificuldades que atravessa a Cinemateca Nacional e o seu Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM), criado há mais de  20 anos e que é uma organização exemplar e de referência a nível internacional. Cinemateca e o ANIM têm feito um trabalho contínuo de salvaguarda do património de filmes portugueses dos mais diversos géneros e formatos, restaurando-os, digitalizando-os, preservando originais e disponibilizando para consulta os seus arquivos, programando e exibindo-os ao público na sala da Cinemateca, na Rua Barata Salgueiro. A Cinemateca é apenas mais um dos casos dos efeitos da austeridade cativante de Centeno e da incapacidade de sucessivos governos em conseguirem criar na área da Cultura modelos de funcionamento que garantam maior autonomia financeira e uma gestão mais de acordo com as exigências específicas de cada instituição. Fiquei a saber pelo Expresso da semana passada que o Ministério da Cultura entende que em ano de eleições não é altura de mudanças - porque o Ministério das Finanças não quer ouvir falar do assunto. Ligado a tudo isto está a falta de adequação e actualização da Lei do Mecenato que continua pouco competitiva quando comparada com outros países - e mais uma vez o assunto esbarra no Ministério das Finanças. Eu por mim acho que ano de eleições é o ideal para discutir estas questões. Mas já se sabe que elas não dão votos, que é a única coisa que interessa a este sistema cada vez mais distante dos problemas reais  do país e da sua resolução.


 


SEMANADA - Portugal está entre os países que mais devem a fornecedores e o Ministério da Saúde é o que apresenta mais dívidas; há 50 mil pedidos de pensões pendentes e o prazo médio de resposta ultrapassa muitas vezes os seis meses; segundo o Instituto Nacional de Estatística em 2018 a carga fiscal aumentou 6,5% em termos nominais e representou 35,4% do PIB, o valor mais alto desde 1995; no ano passado 3758 cidadãos estrangeiros foram impedidos de entrar em portugal pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e 76% eram oriundas do Brasil; o número de nepaleses em Portugal triplicou em quatro anos e já ultrapassa os 11 mil;  jovens portugueses são dos que mais tarde saem da casa dos pais, quase aos 29 anos, acima da média da União Europeia; as famílias monoparentais cresceram 12% em cinco anos; o acesso a cirurgias no Serviço Nacional de Saúde piorou em 80% dos hospitais e os prazos máximos definidos por lei continuam a não ser cumpridos; um quinto dos doentes com cancro com indicação para cirurgia ultrapassaram os tempos de espera previstos; os atrasos e dificuldades na emissão do Cartão de Cidadão provocaram um aumento de 133% de reclamações de utentes no Portal da Queixa; segundo a Marktest Cristiano Ronaldo é a figura pública mais conhecida dos portugueses e Ricardo Araújo Pereira é quem gera mais empatia.


 


SINAIS DOS TEMPOS - Espanha, Marrocos e França são os três maiores fornecedores de sardinha ao mercado nacional e  o número actual de pescadores em Portugal é menos de metade do que existia em 2001.  


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JEO, A HISTÓRIA DE UMA GALERIA - No início deste século, em 2002, abriu, no Chiado, a Galeria João Esteves de Oliveira - Trabalhos em Papel. O seu promotor era um quadro do sector financeiro que mudou de vida, passando da banca para galerista, ele que já era coleccionador. Agora decidiu pôr um ponto final na sua galeria e ali abriu esta semana a derradeira exposição, “Not For Sale”, que é a mostra de uma pequena parte da sua colecção privada. A exposição decorre em todo o espaço da Galeria, na Rua Ivens 38, até ao dia 25 de Maio. Em simultâneo foi editado o catálogo “Moderno e Contemporâneo: A Colecção de João Esteves de Oliveira”, que reúne ao longo de cerca de 400 páginas reproduções das obras, enquadradas nas áreas Moderna e Contemporânea por textos de João Pinharanda. Numa nota introdutória o galerista conta como começou a coleccionar obras de arte aos 25 anos e como desenvolveu a sua paixão com um critério maioritariamente português e sobretudo com trabalhos em papel. Ao longo das quase duas décadas de actividade a Galeria João Esteves de Oliveira ganhou um lugar único, enaltecendo o desenho e as obras de artistas e arquitectos que ali expuseram obras inéditas e estudos de projectos. Numa separata do catálogo, que inclui também textos de vários artistas, Alexandre Pomar escreve que João Esteves de Oliveira era “o comissário seguro das suas exposições, feitas de visitas aos ateliers, relações pessoais, desafios, cumplicidades.” E, mais à frente, recorda como o galerista “assegurava critério e, para os frequentadores da Rua Ivens, garantia qualidade, valor, segurança”.


 


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ARTES DE MAIO - A ARCO Lisboa domina inevitavelmente o panorama das artes plásticas esta semana. Está na Cordoaria até Domingo e ali se pode ver a actividade de artistas portugueses e estrangeiros, muitos dos portugueses com obras inéditas e até mostrando novas direções no seu trabalho. Ao todo são 71 galerias, 50 das quais portuguesas, as restantes de mais 16 países. Destaque para a aposta na presença de galerias africanas, ao todo seis, de Angola, Moçambique, África do Sul e Uganda - e vale a pena ver os trabalhos inéditos de Ângela Ferreira na Arte de Gema, de Maputo ou, também ali, os desenhos de Rodrigo Mabunda. A Fundação EDP continua a ser o mecenas principal desta edição lisboeta da ARCO e, como já aconteceu no ano passado, o MAAT fez coincidir a inauguração de um novo ciclo de exposições com a abertura da feira. As novas exposições apresentam os trabalhos dos finalistas do Prémio Novos Artistas Fundação EDP,  o envolvente trabalho de Pedro Tudela na sala das Caldeiras combinando escultura com um meticuloso trabalho de sonorização, um incontornável conjunto de obras - quase se poderia dizer de intervenção - de Carla Filipe intitulado “Amanhã Não Há Arte” (na imagem) e, finalmente, “Servitudes Circuits”, a instalação de Jesper Just na Galeria Oval do MAAT e que é até à data a mais conseguida intervenção realizada naquele espaço. Ainda em relação à mostra de Carla Filipe vale a pena reter o jornal ali distribuído onde se apresentam uma série de informações sobre as condições em que os artistas visuais desenvolvem a sua prática. Como já aconteceu no ano passado, no Museu da Carris (na Rua 1º Maio em Alcântara) decorre a Just LX, que agrupa uma meia centena de galerias (predominantemente portuguesas mas com uma dezena e meia de vários países) e que se apresenta como uma alternativa aos critérios de seleção da ARCO.


 


The Garden of Earthly Delights - Cover - High-res


BOSCH JAZZ - André Carvalho é um músico de jazz português, contrabaixista e compositor, que desde 2014 trabalha em Nova Iorque. Para o seu terceiro álbum inspirou-se no pintor holandês Hieronymus Bosch e compôs “The Garden of Earthly  Delights” que esta semana foi distribuído em Portugal. Ao lado de André Carvalho tocam neste disco, gravado em Abril de 2018 em Nova Iorque, os saxofonistas Jeremy Powell e Eitan Gofman, o trompetista Oskar Stenmark, o guitarrista André Matos e o baterista Ruben Recabarren. Nos dois discos anteriores como líder de uma formação André Carvalho combinava o jazz contemporâneo com referências da música portuguesa. Neste novo trabalho Carvalho criou uma suite em vários andamentos, pensada em torno do tríptico de Bosch. Há ao longo do disco, com um constante pano de fundo no jazz contemporâneo, um alternar entre música improvisada e música composta e cada uma das faixas consegue viver por si, mantendo uma coerência no conjunto da obra. O disco inclui onze temas e André Carvalho destaca “The Forlorn Mill”, já perto do fim do álbum, como uma das suas composições preferidas, inspirada “num dos momentos mais alucinantes do painel que representa o Inferno de Hieronymus Bosch, momento em que todas as almas pecadoras parecem dirigir-se para um moinho. Julgo que toda esta intensidade transparece neste movimento da Suite, visto que há fortes influências rock, de música contemporânea e improvisada, que lhe dão esse carácter cru e áspero”. Disponível em CD editado pela Outside In Music, à venda na FNAC e disponível no Spotify.


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UM QUEIJO EXCEPCIONAL - Eu gostos de queijos a sério. Dos que se cortam à faca em vez de se comerem (quase) à colher. Gosto deles curados, temperados. Que exalam odor e deixam nas mãos, ao cortar, um rasto da sua gordura natural. Por estes dias tive ocasião de me deliciar com um queijo destes, quase uma raridade nos tempos que correm, dominados pela pasta mole. Um queijo sério, um queijo de ovelha curado, velho, feito como deve ser - apenas com leite cru de ovelha, sal e flor de cardo. É um queijo com uma cura mínima de 120 dias e esta raridade, com a crosta temperada com azeite virgem e colorau, é produzida em Mangualde pela Queijaria Vale da Estrela. Esta queijaria, que só usa leite de ovelha proveniente dos rebanhos que pastam na Serra da Estrela, baseia-se nas técnicas antigas e na vontade de fazer um trabalho conjunto com os pastores que asseguram a mais importante matéria prima - o leite cru das ovelhas. Talvez por se basear no saber tradicional e no respeito pela qualidade do que é utilizado, os produtos do Vale da Estrela são diferentes e, numa petisqueira roda de amigos, quando saltam as lascas do curado, as exclamações de surpresa e elogio são constantes. Além do queijo curado a queijaria Vale da Estrela  produz também um queijo não curado, mas com consistência suficiente para se comer à fatia, como deve ser, e um requeijão - além de ter doces (destaque para o mirtilo) e mel natural. Mais informações em www.valedaestrela.pt .


 


DIXIT - “Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos?” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A vulgaridade nasce quando a imaginação se deixa vencer pela realidade explícita” - Doris Day


 


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maio 10, 2019

É TUDO UM JOGO - COM MUITA BATOTA PELO MEIO

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MATRAQUILHOS NA ASSEMBLEIA - A política portuguesa começa a assemelhar-se a uma partida de matraquilhos jogada ao fim da tarde em que os vários partidos vão sendo eliminados ao longo de um torneio fictício com batotas avulsas pelo meio. O que se passou recentemente na Assembleia da República sobre a recuperação do tempo de serviço dos professores assemelha-se, na sua displicência, a uma disputa entre adolescentes em torno de uma mesa de matraquilhos, cada um a ignorar regras. Se a Assembleia da República já é considerada um local pouco recomendável por muitos eleitores, a degradante cena agora exposta ao olhar público mais incita o eleitorado a descrer não só dos deputados, mas também dos dirigentes dos seus partidos. Segundo a as regras estabelecidas pela Federação Portuguesa de Matraquilhos no jogo de matraquilhos uma bola é considerada morta quando pára completamente o seu movimento e não está ao alcance de qualquer boneco de nenhum jogador. Depois dos movimentos iniciais isto foi o que sucedeu. A bola ficou parada e agora ninguém a quer. Lamentável todo o processo - um case study de oportunismo político e insensatez que mostra como a falta de uma estratégia bem pensada produz desvarios tácticos. Um resultado lamentável, poluído de declarações ainda mais lamentáveis vindas de todos os intervenientes.


 


SEMANADA - Segundo o Instituto Nacional de Estatística 1,78 milhões de portugueses vivem com menos de 467 euros por mês, o que significa 17,3% dos portugueses; segundo o Banco de Portugal o país está mais pobre face à Europa do que antes da adesão à moeda única e a falta de produtividade compromete a melhoria de bem-estar sustentável dos portugueses no futuro;  constrangimentos financeiros fizeram o IPO recusar análises a doentes com cancro e vários acabaram por morrer; um relatório da Deloitte, relativo à primavera de 2019, indica que em relação ao semestre anterior a percentagem dos que arriscam uma evolução positiva para o PIB nacional afunda de 70% para 45%;  segundo o mesmo relatório três em cada quatro responsáveis financeiros de empresas assumem que este não é um bom momento para assumir riscos maiores no balanço; mais de 150 autarquias em todo o país estão a ter atrasos significativos no pagamento a fornecedores; Portugal só usou 25% das verbas europeias para integrar refugiados e imigrantes; as queixas por atrasos nos pedidos de reforma, que nalguns casos podem chegar aos três anos, dispararam 88% nos últimos seis meses;  Rui Rio afirmou que o PSD não recuou na questão dos professores e que foi tudo uma enorme confusão provocada por jornalistas; Mário Nogueira anunciou estar a considerar se continua no PCP depois do que se passou com a questão da contagem do tempo de serviço dos professores.


 


ARCO DA VELHA - A ASAE ficou em abril sem 30 viaturas utilizadas nas acções de fiscalização e perdeu as únicas cinco carrinhas frigoríficas que asseguravam o transporte de alimentos apreendidos.


 


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NO PRINCÍPIO É O DESENHO - Depois de ter estado em Guimarães, a exposição antológica de desenhos de Rui Chafes está até 19 de Maio na Casa da Cerca, em Almada. Com o título “Desenho Sem Fim” a exposição apresenta trabalhos que vão de 1980 a 2017 e mostra uma faceta menos conhecida do trabalho de Rui Chafes, conhecido sobretudo como escultor. A sequência da exposição não respeita a cronologia dos trabalhos, reunindo-os em núcleos onde, como sublinha o texto que acompanha a exposição “existem alguns aspectos que são recorrentes e que extravasam os núcleos independentes para se repetirem, por vezes com grandes hiatos temporais: o uso repetido de materiais que não pertencem ao domínio dos materiais “de arte”, como remédios, tinturas, chá, flores esmagadas e que convocam uma inescapável ligação ao corpo e à sua permanente queda”. A curadoria é de Nuno Faria e Delfim Sardo e em simultâneo decorre no Convento dos Capuchos uma exposição de esculturas de Rui Chafes. Entretanto assinalem nas agendas que no dia 18, sábado da próxima semana, Vera Mantero e Rui Chafes apresentam na Casa da Cerca a sua performance  “Comer o coração nas árvores”, uma colaboração entre os dois artistas na qual a coreógrafa e bailarina se cruza com as esculturas de Rui Chafes. Inicialmente concebida para a Bienal de São Paulo 2004 e com o título inicial de “Comer o coração”, a performance teve nova versão em 2015 e 2016 e a sua evolução passou pela criação de uma nova escultura de Rui Chafes pensada para suspensão em árvores de grande porte. De apresentação muito esporádica, esta possibilidade de descobrir o trabalho conjunto de Vera Mantero e Rui Chafes no próximo dia 18 é uma ocasião a não perder.


 


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RENASCER NO MEIO DE RUÍNAS - Um homem parte da sua terra para um país distante que está a sair de uma guerra devastadora. O ponto de partida é a Islândia, o destino é um dos países dos balcãs onde vizinhos lutaram contra vizinhos. O homem tem como objectivo suicidar-se e para isso escolheu um hotel outrora famoso e agora decadente no meio de destroços da guerra. Envolvido pela população local que descobre as suas habilidades como reparador de pequenas coisas, o homem reconstrói casas e a sua própria vida. Na Islândia não tinha vida social nem sexual, trabalhava numa loja herdada do pai. Decide vendê-la e partir sem avisar ninguém. Tinha decidido suicidar-se quando soube que não era o pai biológico da sua filha, decidiu afinal viver depois de fazer reviver uma aldeia e da atracção consumada por uma ex-estrela de cinema à procura de novo rumo. Esta é a  história de “Hotel Silêncio” (originalmente Ör, que significa «cicatriz») A autora é  Auður Ava Ólafsdóttir, a mais premiada escritora islandesa. Este livro agora editado em Portugal ganhou o Prémio de Melhor Romance Islandês, Prémio dos Livreiros Islandeses e Prémio de Literatura do Nordic Council. A autora já escreveu cinco romances, é dramaturga, contista e professora universitária. E tem um humor fino e incisivo.


 


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INSTANTES DECISIVOS EM CASCAIS - Robert Doisneau, o retratado nesta imagem com uma Rolleiflex nas mãos, dizia, sobre a fotografia, que «as maravilhas da vida quotidiana são tão entusiasmantes que nenhum realizador consegue encontrar o inesperado que se encontra nas ruas.» Doisneau é um dos grandes fotógrafos presentes na exposição “Instantes Decisivos”, que está patente até 14 de Julho no Centro Cultural de Cascais. A exposição inclui algumas das fotografias mais célebres de Man Ray, Robert Doisneau, Alfred Stieglitz, Carlos Saura, Elliot Erwit, Alberto Korda e Henri Cartier-Bresson, entre outros,  tudo obras pertencentes à «Colleción Himalaya», do colecionador espanhol Julián Castilla.


 


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18 NOVOS HINOSDepois de uma pausa de seis anos sem novos discos os Vampire Weekend regressam com “Father Of The Bride”. A produção é de Ariel Rechtshaid  e do líder da banda,  Ezra Koenig, e entre os convidados estão Dave Longstreth (Dirty Projectors), Steve Lacy (The Internet), Danielle Haim, e Jenny Lewis. O novo álbum, o quarto da banda, é um cruzamento entre a angústia e o optimismo, como The Guardian o classificou e evidencia um olhar pop atento sobre os tempos que vivemos. Tem 18 canções, quase todas surpreendentes e exemplares - a começar por “Sunflower”. Irresistível.


 


PROVAR - O Kook In ideia foi de Pedro Batista, que tem restaurantes Kook em Luanda, e que se associou a  Rui Oliveira e Francisco Bessone, os fundadores do Nómada. O Kook In está aliás no local onde o Nómada estava inicialmente, Avenida Visconde de Valmor 40A. Propõe um menu de almoço a 18 euros mas que não inclui couvert, bebida ou café - apenas entrada, prato do dia e sobremesa. Na verdade o menu de almoço com couvert, um copo de vinho e café não ficará abaixo dos 27 euros - o que está fora dos preços usuais para este tipo de oferta. O preço desajustado é aliás o principal problema deste restaurante  onde o serviço tem alguma tendência a impingir mais uma coisinha, sempre com a maior simpatia. A ideia é entrar no campo da comida portuguesa contemporânea, onde o empratamento compensa o que falta no resto, como se estivesse num concurso de instagrams. A cozinha é chefiada por Lázaro Glória, 28 anos, que com esta idade, antes de entrar neste projecto, já estagiou no Ritz, cozinhou no Penha Longa e no Mandarin Oriental de Londres e passou uma  temporada na Austrália. De entre as propostas do Chef provei o bacalhau assado com ovas grelhadas e migas de feijão frade com chouriço e couve cortada para caldo verde (18€) - o bacalhau era bom e estava bem, as ovas eram insípidas e as migas estavam secas demais. No couvert destaco a qualidade das azeitonas e do pão da casa, que evoca uma focaccia, além de um broa honesta. A lista de vinhos é bem escolhida mas com preços altos. Uma refeição completa (couvert, entrada, prato, sobremesa) para duas pessoas, com vinho, dificilmente ficará abaixo dos 70 euros. É demais para o sítio e a qualidade.


 


DIXIT - “O nosso homem continua a confundir a família do Rato com o país” -  Vasco Pulido Valente sobre António Costa.


 


BACK TO BASICS - “Corrijam-me se estiver enganado, mas creio que a delicada linha entre a sanidade e a loucura está a ficar cada vez mais ténue” - George Price.


 


 






maio 03, 2019

OS VENTOS DE ESPANHA

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LIÇÕES ESPANHOLAS - Aprende-se sempre alguma coisa a olhar para a relva do vizinho. Vem isto a propósito das eleições espanholas e do seu resultado. Há quem veja no desfecho uma possibilidade de exportação da geringonça lusitana e quem já imagine António Costa numa cátedra de negociação política numa das grandes  universidades madrilenas, com Pedro Sánchez, embevecido, a beber as suas palavras na primeira fila do auditório. Por muito que esta imagem possa ser simpática para alguns, ela não representa, porém, a verdadeira questão que o resultado das eleições gerais em Espanha evidencia. Para além do tema das soluções governativas possíveis, e antes de se chegar à exportação da geringonça, vale a pena olhar para o que se passou e que provocou uma queda brutal do Partido Popular e uma alteração da paisagem política espanhola, com a entrada em cena, forte, da extrema direita. A minha interpretação pessoal é que a causa do rápido fortalecimento da extrema direita espanhola radica na fraqueza do PP, no resultado da sua governação e na sua inconsequência, e não num mero problema de táctica de campanha eleitoral. Visto daqui, parece-me que foi o PP que abriu a porta à extrema direita ao descurar a Espanha fora das grandes regiões urbanas e industriais - o voto nas regiões mais rurais explica muito do que sucedeu e uma análise da geografia eleitoral merece atenção. Este fenómeno do peso eleitoral do voto não urbano é aliás comum noutras eleições - na Europa e, por exemplo, nos Estados Unidos na eleição de Trump. Quando toca a votos os países não são o que o eleitorado urbano pretende. Em Portugal criou-se um vazio na direita tradicional que deixou, pelo menos por agora, de ser umas alternativa de poder. O descontentamento do seu eleitorado vai procurar uma alternativa de voto - foi o que aconteceu em Espanha e será o que, a continuarem as coisas assim,  mais cedo ou mais tarde, aqui acontecerá. A responsabilidade não será dos eleitores. Será de quem os ignorou e, assim, os perdeu.


 


SEMANADA - Nos últimos 24 anos a Igreja em Portugal perdeu quase mil padres; há quatro dioceses (Porto, Lamego, Funchal e Santarém) contra a criação de comissões para analisar queixas de abusos sexuais feitos por padres;   um homem que cumpriu dez anos de prisão por crimes sexuais reincidiu e violou quatro mulheres em Lisboa no primeiro mês após a sua libertação; a receita fiscal cresceu cerca de 10% no primeiro trimestre face a igual período do ano passado; o crédito à habitação concedido pelas instituições financeiras a particulares até fevereiro cresceu 13,1% face ao mesmo período de 2018 e totaliza já 1,5 mil milhões de euros; o valor do metro quadrado de habitação já aumentou 7% em termos médios nacionais, face ao final de 2018; os reembolsos da ADSE estão a demorar cerca de seis meses; os vistos gold dão ao Estado cerca de 24 milhões de euros por ano; as zonas do interior do país perderam mais de uma centena de farmácias nos últimos seis anos; o ensino superior privado ganhou dez mil alunos em quatro anos; as viagens dos portugueses motivadas por férias e lazer aumentaram 4,2% no ano passado; a percentagem de trabalhadores por conta própria em Portugal é de 15%, superior à média da União Europeia; 88,6% dos pagamentos realizados em estabelecimentos comerciais em 2018 foram feitos com cartão bancário; as autarquias lideram as queixas por recusa de acesso a documentos oficiais.


 


AO QUE ISTO CHEGOU - A Polícia Judiciária de Leiria deteve um homem de 34 anos que falsificava notas de 20 euros para pagar serviços sexuais de prostitutas; o tribunal condenou-o a pena suspensa.


 


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COMO FUNCIONA A MENTE? - O processo criativo é algo que me fascina - e perceber como ele varia de pessoa para pessoa e de caso para caso ainda mais. “Devoção”, de Patti Smith, agora editado em Portugal pela Quetzal, é um livro sobre o processo criativo, sobre os pequenos passos que antecedem uma ideia, sobre o caminho que leva da ideia à sua concretização. “A inspiração é um mistério recorrente e invisível”, avisa logo Patti Smith nas primeiras linhas. E, mais à frente: “O destino dá uma ajuda, mas não a ajuda toda. Eu andava à procura de uma coisa e encontrei outra muito diferente” - conta, para recordar como lhe surge uma ideia. Este é um diário que mistura notas de viagem com referências a locais ou autores que marcam a autora e, também, de forma  fascinante aliás, o relato do quotidiano e das rotinas para além da sua faceta pública. Além deste lado de relato, há uma envolvente short story, que dá o nome ao livro, “Devoção” (e o texto inicial do livro “Como funciona a mente” esclarece a forma como nasceu essa história), alguns poemas, notas e fotografias. “Um sonho não é um sonho” é o texto que resume o sentido do livro: “porque escrevemos?- pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve. Porque não nos podemos limitar a viver”. Boa tradução de Helder Moura Pereira, a partir da edição original, de 2017.


 


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ENTÃO E A ESCULTURA? - Gosto do espaço físico da Galeria Valbom - com a ampla sala térrea, e a grande mezzanine. Até 22 de Maio ali pode ser vista uma exposição que mostra um lado relativamente pouco conhecido de Júlio Pomar, o de escultor. “Então e a escultura?” é o título da exposição que mostra um conjunto de esculturas em bronze, produzidas em Paris em 2003 e 2004 - ao todo 22. Além das esculturas estão expostas sete assemblages, seis serigrafias e um conjunto de 73 desenhos apresentados em vários núcleos, com início em 1946 e que vão até 2006. Em muitos destes desenhos reconhece-se a preparação de outras obras - desde logo algumas das esculturas aqui presentes, mas também estudos para alguns dos seus quadros. Estão ainda presentes 75 publicações ilustradas por Júlio Pomar e ainda alguns livros de artista. A obra de Pomar tem vindo a valorizar-se em termos do mercado de arte  em Portugal e praticamente todas as peças ali expostas estão disponíveis para coleccionadores. A Galeria Valbom, que organizou a exposição, editou também um catálogo e comercializa igualmente uma peça produzida pela Vista Alegre com base num desenho de Pomar. A Valbom está aberta entre as 13 e as 19h30, de segunda a sábado, na Avenida Conde de Valbom 89-A.


 


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VOZ ARMÉNIA - Arani Agbabian tornou-se conhecida quando trabalhou com Tigran Hamasyan, um músico de jazz arménio, fortemente influenciado pela tradição musical das suas origens. Arani Agbabian é também de ascendência arménia, embora tenha nascido na Califórnia, em Los Angeles. Começou a estudar piano aos sete anos e foi cantando sobretudo com base no repertório folk do seu país e também com grupos vocais búlgaros. Foi como vocalista que trabalhou com Tigran Hamasyan, para além de ter desenvolvido uma carreira a solo, em áreas como a ópera contemporânea, a dança e performances multimédia. Em 2014 gravou o seu primeiro disco a solo, “Kissy” e este ano surgiu “Bloom”, que assinala a sua estreia na ECM. É um trabalho baseado exclusivamente no piano e voz de Arani e na percussão de Nicolas Stocker. A produção foi do próprio fundador da ECM, Manfred Eicher, e a sonoridade adequa-se ao carácter envolvente das melodias tradicionais arménias, que são a base deste trabalho. Em “Bloom” Areni Agbabian reinterpreta hinos sagrados, temas tradicionais e também composições próprias dela própria e em colaboração com Stocker, onde a proximidade ao jazz improvisado é assinalável. Destaque para os temas “Patience”,  “Mother”, “The River” , “Full Bloom”, para o tradicional “Anganim Arachi Ko” e “The Water Bride”. O disco evidencia os desafios vocais e rítmicos da tradição musical arménia e é fruto de uma conjugação exemplar do delicado trabalho do piano, da voz e da percussão. “Bloom”, edição ECM, no Spotify.


 


UM PRAZER PICANTE - Quando mais leio press releases de restaurantes com conceito e de chefs que só pensam em menus degustação, mais me apetece descobrir restaurantes simples e despretensiosos. Já tinha ouvido falar do “Tentações de Goa”, um restaurante em plena Mouraria, perto do Martim Moniz, na Rua S. Pedro Mártir, uma ruela escondida por onde se entra a partir do fundo da Rua da Madalena. O espaço não é muito grande, a sala é simples mas vibrante de luz, a clientela é completamente diversificada, com boa dose de turistas. O serviço é muito simpático, os preços são honestos, quer na comida, quer nos vinhos. A confecção é naturalmente a puxar para o picante, mas nalguns casos pode indicar-se a intensidade pretendida. Comecemos pelas entradas - foram provados uns bons bojés, acompanhados do correspondente chutney de coentos, e umas surpreendentes chamuças de camarão. Nos pratos testou-se o caril de camarão com quiabos , o caril de caranguejo e o biryani vegetal - tudo acima do que é a média de muitos restaurantes indianos da capital. A sobremesa, partilhada, foi uma babinca tradicional, talvez um pouco mais adocicada do que se esperava. Por mim o destaque foi para as chamuças de camarão (que são bem picantes) e para o caril de caranguejo, que estava superior. O arroz basmati estava no ponto. As Tentações de Goa encerram aos Domingos e feriados, o telefone é o 218 875 824 ou 914 814 043 e aceita reservas.


DIXIT - “O oportunismo eleitoral actualmente dominante faz-me lembrar uma imagem televisiva em que o actual primeiro-ministro português, pouco antes das eleições de 2015, confessava ao jornalista que lhe perguntara se iria aliar-se ao PSD: Ainda se o líder fosse Rui Rio…- Manuel Villaverde Cabral


 


BACK TO BASICS - “Anda tudo desequilibrado, o mundo devia parar mas segue em frente” - V S Naipaul