fevereiro 01, 2019

A EUROPA PARECE UM BARCO À DERIVA

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CONFIANÇA ZERO -   As próximas eleições para o Parlamento Europeu decorrem sob o duplo signo de uma crise profunda na União Europeia - de que o Brexit e a ascensão dos populismos é apenas a ponta do iceberg e, no caso de Portugal, que este ano acolhe três eleições - as europeias, as regionais dos Açores e Madeira e as legislativas - o ciclo eleitoral decorre perante um descrédito cada vez mais acentuado no funcionamento do sistema político. As eleições para o Parlamento Europeu estão marcadas para 26 de Maio e neste momento ninguém pode garantir se o Reino Unido nessa altura ainda estará dentro da União ou se o Brexit já se terá então concretizado. Melhor dizendo - ninguém neste momento pode garantir que não haverá adiamento, que não haja segundo referendo, que a Europa não engula uma tonelada de sapos e não volte atrás em tudo o que jurou sobre o Brexit. Enfim, o panorama geral é o de que nada está certo e que mais uma vez os políticos meteram os pés pelas mãos ao induzirem os cidadãos em erro e ao não conseguirem encontrar uma solução para a situação que eles próprios fabricaram. Na realidade o perigoso poker jogado por Cameron, quando convocou o referendo sobre o Brexit, transformou-se num pesadelo que assusta o sistema financeiro, cria graves problemas às economias do Reino Unido e de uma série de países da Europa e voltou a colocar na ordem do dia a questão da Irlanda - com a hipótese, até há pouco impensável - de ressurgir nova fronteira de arame farpado entre o norte e o sul da ilha, com todo o provável retomar e agudizar de conflitos que isso trará. Mas, passando para o caso português, uma sondagem, realizada a pedido da União Europeia, conhecida esta semana, indica que apenas 17% dos portugueses confiam nos partidos, somente 37% no Parlamento e só 43% manifestam confiança no Governo. Trocado por miúdos a maioria não acredita em nada disto. É um balanço terrível do funcionamento do sistema, que cada vez se parece mais com um barco desgovernado que partiu amarras e saíu desarvorado sem destino.


 


SEMANADA - Segundo a Provedoria da Justiça os portugueses estão a esperar dez meses para ter a reforma atribuída quando a lei prevê resposta em 90 dias e o número de queixas por atrasos na atribuição de pensões triplicou em 2018; no ano passado os portugueses gastaram 2.431,8 milhões de euros em apostas desportivas e jogos de fortuna e azar online; os preços da banda larga móvel caíram em 2018, mas em Portugal estes custos ainda são mais caros do que a média da União Europeia; 47% dos portugueses não foram ao dentista em 2017; entre 2001 e 2017 o número de pescadores diminuíu 56%; em 2018 foram apreendidos 1938 telemóveis nas cadeias e segundo o sindicato dos guardas prisionais o número não reflete a dimensão real do problema, que é muito maior;  em Portugal cerca de 915 mil mulheres trabalham ao sábado, mais de 538 mil trabalham ao domingo, 382 mil trabalham por turnos e 162 mil à noite, o que lhes dificulta a conciliação do trabalho com a família; o juiz Neto de Moura, conhecido por evitar condenar a violência doméstica, resolveu eliminar as medidas coercivas aplicadas a um homem que rebentou o tímpano da mulher ao soco; mais de 219 mil pessoas receberam o Rendimento Social de Inserção em janeiro, o valor mais elevado dos últimos três meses; o actual Governo efectuou mais cativações financeiras em três anos que o anterior executivo em quatro; esta semana encerrou a Tema, a maior loja de revistas e jornais estrangeiros de Lisboa, localizada nos Restauradores, devido à perda de clientes portugueses que praticamente desapareceram da zona, substituídos por turistas.


 


PENSAMENTOS OCIOSOS- Enquanto a Amazon procura afinar um sistema de entrega por drones, alguns reclusos portugueses já conseguiram introduzir telemóveis e drogas nas prisões precisamente com recurso a drones: Portugal sempre precursor na adopção de novas tecnologias...


 


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UMA EDIÇÃO FRACA - Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se chegar a esta edição sobre França que é insultuosamente dedicada a propagandear aquele país quase sem deixar escapatória aos leitores para outros assuntos. Tyler Brulé, um misto de canadiano com nórdico, é um admirador confesso de Macron, deposita nele as esperanças da Europa e fez aliás questão de afirmar que a sua revista vai deixar de ser impressa no Reino Unido por causa do Brexit. Mudou a sede das suas operações para a Suíça e passa a imprimir na Alemanha - desta edição em diante. Talvez por ser excessivamente dedicada a um país que passou o século XX, nos seus grandes conflitos, a claudicar e render-se,  esta edição da “Monocle” é fraca e muito pouco interessante. Não há muitas coisas que me agradem em França, a pose arrogante e o discurso pretensioso de muitos franceses faz-me espécie e provoca-me uma rejeição natural - Macron não é excepção. Uma nota de humor, mas que reflecte algum desleixo editorial, surge numa página dedicada a citar Mário Centeno a propósito do Brexit, com a particularidade de a sua fotografia estar trocada. Ainda pensei que fosse fruto de alguma cativação que lhe tivesse alterado as feições, mas é mesmo erro.


 


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AS VISTAS DO PAÍS - Nos últimos anos têm surgido um pouco por todo o país galerias e centros, muitas vezes ligadas de alguma forma a autarquias, onde com poucos recursos se vai fazendo um trabalho importante de divulgação da obra de artistas contemporâneos portugueses fora do circuito das grandes cidades, dos museus de maior dimensão e das mais activas galerias comerciais. Por exemplo o Centro de Artes de Águeda apresenta trabalhos de Pedro Calapez sob a designação comum “Terra” (na imagem uma das obras) que ali estarão expostos até 17 de Março. “O desenho é uma das formas mais antigas e perfeitas de interpretação e criação do mundo” - este é o mote para o conjunto de exposições designadas por “O Desenho como Pensamento” onde a presente mostra de Pedro Calapez está integrada. Até há poucos dias, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães, em Guimarães, esteve patente uma mostra de trabalhos de desenho de Rui Chafes, muitos deles inéditos. E em Famalicão, na Ala da Frente, uma galeria municipal, está uma exposição de 29 desenhos a carvão sobre papel de Alexandre Conefrey, sob o título “Anima Mea”, que ali ficará até 18 de Maio. Bem recentemente esta galeria acolheu trabalhos de nomes como José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Alberto Carneiro, Rui Chafes ou Jorge Molder.


 


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SEMPRE O PIANO - Tenho uma atracção especial pelo som do piano e pela sua utilização no jazz. Esta semana descobri o novo disco do quarteto do pianista alemão Florian Weber, “Lucent Waters”, e fiquei fascinado desde as primeiras notas. Ao longo dos oito temas os músicos criam uma tensão permanente, sempre com o piano em local central a articular o diálogo com os outros instrumentos, criando uma relação próxima com todos, mas destacando de forma especial o trabalho elegante do trompetista Ralph Alessi, sobretudo num belo solo em “Buttelfly Effect”. Destaque também para a discreta baixista Linda May Han Oh em “Honestlee” e para o subtil baterista Nasheet Waits em “Time Horizon”. Finalmente “Fragile Cocoon” é um bom exemplo do entendimento entre todos os músicos deste quarteto. Duas influências marcantes de Weber são Paul Bley e Lee Konitz, detectáveis em vários pontos deste registo. CD ECM, disponível no Spotify.


 


O SABOR DE DOIS MUNDOS - Na avenida Conde Valbom há um restaurante que junta dois mundos: a gastronomia da Índia e a de Marrocos. Quando abriu, há uns anos, o Restaurante Marrakesh dedicava-se só à cozinha de inspiração árabe e era rigoroso: não disponibilizava bebidas alcoólicas aos seus clientes. Entretanto já há uma escolha limitada de vinho, o que sempre ajuda a acompanhar tagines e couscous que continuam cheios de sabor e de aromas. Quando os clientes se sentam à mesa surgem dois menus - o árabe e o indiano. Ambos têm múltiplas escolhas com os pratos mais tradicionais de cada origem. Há um enorme cuidado na confecção. Depois de ter aprovado tagines e couscous em visitas anteriores, esta semana deliciei-me com um prawn karahi, camarão picante num molho intenso, que antecedeu - numa refeição partilhada - um chicken tika, que chegou fumegante e cheio de bons aromas. O arroz basmati foi o acompanhamento escolhido e a refeição terminou com um gelado de gengibre, artesanal, e que tinha mesmo gengibre. Serviço atencioso, paladares intensos, preço honestíssimo para a qualidade. Restaurante Marrakesh, Avenida Conde de Valbom 53, junto à Avenida Miguel Bombarda.


 


DIXIT - “O primeiro-ministro e o ministro das Finanças ora fazem de polícia bom, ora de polícia mau” - Assunção Cristas sobre a estratégia negocial do Governo com os sindicatos


 


BACK TO BASICS - “Gosto de jornais, mas alguns têm um grande problema - não são bem escritos; a sobrevivência dos jornais diários em papel depende muito da forma como as pessoas escrevem” - Karl Lagerfeld.


 


 





SOBRE A ILUSÃO DAS MÁSCARAS NA POLÍTICA

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MASCARADA - Este ano temos três eleições: as eleições para o Parlamento Europeu, as regionais dos Açores e Madeira e depois as legislativas nacionais. Para falar claro, isto vai andar num virote. Para além das actividades eleitorais clássicas este ano vamos assistir a uma nova forma de campanha: a proliferação de greves, que pretende moldar a forma como evoluirá o Governo e que é a forma de pré-campanha do PCP. Os sindicatos - já ouvi várias pessoas actualmente envolvidas em negociações laborais dizerem - têm instruções para fazerem greve e para multiplicaram e visibilidade das suas formas de luta. O PCP quer mostrar o peso que tem e não vai perder a oportunidade para fazer valer as suas tropas, procurando afirmar o contraste com o Bloco na contagem de espingardas da coligação. Neste conjunto de eleições há muitas coisas em jogo: a medição da sensibilidade e participação dos eleitores face a uma europa cada vez mais polémica e afastada dos cidadãos; a manutenção dos equilíbrios políticos nos Açores e Madeira; e, mais que tudo o resto, a evolução do PSD, a capacidade de resiliência eleitoral do PCP, as potencialidades dos novos partidos, nomeadamente da Aliança e da Iniciativa Liberal - os outdoors desta última são dos melhores que têm aparecido na propaganda política portuguesa. Vamos ver como isto corre num país onde todas as semanas há novos escândalos que envolvem políticos. Serão as eleições capazes de dar uma varridela no sistema? Ou o sistema vai continuar a viver de um jogo de máscaras?


 


SEMANADA - Em Portugal morreram 19 pessoas nos últimos três meses a tentar aquecer a casa; os entertainers da “Quadratura do Círculo” mudaram-se da SIC Notícias para a TVI24, o programa vai passar a chamar-se “A Circulatura do Quadrado” e Marcelo Rebelo de Sousa será o primeiro convidado; Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que se irá recandidatar;  Portugal é o segundo país da Europa onde o trabalho precário mais subiu; as detenções por violência no desporto dispararam 34% nas duas últimas temporadas; 13 ex-governantes foram gestores da Caixa Geral de Depósitos entre 2000 e 2015 com Santos Ferreira e Faria de Oliveira a terem liderado o banco no período mais crítico, entre 2007 e 2012; Armando Vara recebeu um bónus de 167 mil euros referente ao período em que foram concedidos parte dos créditos de risco que levaram a perdas da Caixa; entre 2008 e 2017, o Estado gastou 16,7 mil milhões de euros com ajudas à banca e há mais 5,5 mil milhões em risco que podem levar o total para 23,3 mil milhões; a Comissão Parlamentar para a transparência está a trabalhar há três anos sem ter ainda divulgado conclusões; Portugal caíu um lugar no indíce da percepção da Corrupção; setenta por cento dos pagamentos realizados em Portugal são feitos em dinheiro; os portugueses consomem por ano 12,3 litros de álcool per capita; Portugal vai exportar carne de cerca de dez mil porcos por semana para a China, com um volume estimado de 100 milhões de euros por ano; o número de efectivos das Forças Armadas caíu 28% na última década e meia e mais de metade dos soldados deixa a tropa antes do fim do tempo previsto.


 


ARCO DA VELHA - O Tribunal de Arouca estava com o alarme avariado há um ano e foi assaltado, tendo os ladrões levado o dinheiro que estava num cofre.


 


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POLITIQUICES - A falta de honradez política, a corrupção, o compadrio - tudo coisas que abundam neste cantinho, são geralmente boa matéria para falar da verdade sob o manto diáfano da ficção. Até a RTP1 se lançou nesta  senda com uma série estreada há dias - “Teorias da Conspiração”. Se se conseguisse perceber o que os actores dizem a coisa podia ser simpática, mas assim só posso apreciar a beleza plástica da fotografia. A série - vamos ver como corre - estreou no momento em que a Operação Marquês entra em nova fase e em que os indícios de que algo não está bem por aquelas bandas se avolumam. Ao mesmo tempo  a editora Guerra & Paz lançou um muito educativo “A Deslumbrada Vida de João Novilho”, um romance passado no imaginário município de Rio Novo de Mil Nomes, onde o autarca João Novilho é um catálogo de muito a que temos assistido em matéria de pouca-vergonhice na actividade partidária e dos múltiplos expedientes que se utilizam com o objectivo único de assumir e abusar do poder, nem que seja transitoriamente. Cito aqui um excerto do livro, numa exemplar fala de Novilho: “Eu sou da ética, sim senhor. E sabes porquê? Porque sou capaz de defender com fundamentação um ponto de vista e o seu contrário. E ética é isso mesmo: uma retórica, a criação de uma sensação que está bem seja lá o que fôr.” Onde é que eu já vi isto?


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AGENDA PLÁSTICA - A partir deste sábado na Galeria 111 (Campo Grande 133) pode ver uma exposição colectiva que assinala mais um aniversário daquele espaço, que já ultrapassou o meio século de existência. Nesta colectiva estão obras de artistas como Costa Martins, João Vieira, Paula Rego, Vieira da Silva, Júlio Pomar, António Palolo, Ana Vidigal, Lourdes Castro, Manuel Batista, Miguel Teles da Gama ou Menez, entre muitos outros. Na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80) vale a pena ir ver “Sexo, Escondidas E Uma Parede”, de Rodrigo Oliveira (na imagem uma aguarela que faz parte da instalação). Na Módulo (Calçada dos Mestres 34 ) ainda pode ver até sábado a exposição de novos trabalhos de Marco Moreira. No Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva (Praça das Amoreiras 16)  está até 17 de Março “Da História das Imagens”, de Manuel Casimiro. Com curadoria de Isabel Lopes Gomes, a exposição reúne cerca de 100 obras em torno da imagem fotográfica, que o artista tem vindo a desenvolver desde os anos 70.


 


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OUVIR - Há dias encontrei um dos autores do saudoso programa radiofónico “Praça de Espanha”, Carlos Oliveira Santos, a passear entre robôs numa exposição no MAAT. Palavra puxa palavra e falámos de Rosalia - exactamente porque a conversa caíu logo na música espanhola. Rosalia, meus amigos, é um caso sério. Muito sério mesmo. Rosalía Vila Tobella , assim se chama a voz, tem 25 anos, nasceu na Catalunha e tem por missão explicar ao mundo os encantos do flamenco numa visão contemporânea. Aqui há uns tempos li uma teoria que explicava que no início deste século uma série de novos produtores de música pegaram nas tradições folk de vários países, aplicaram as novas técnicas de produção e mistura e criaram um género baseado no tradicional, mas com sonoridades que evocam pontualmente as pistas de dança, com um acentuar do baixo e percussões eléctricas. Rosalia pode incluir-se nesta área, doseando com cuidado a acústica do flamenco com a electrónica. “El Mal Querer”, o seu segundo disco, é exemplo disso mesmo - combina o flamenco com sonoridades dos rhythm and blues tudo sobre narrativas contemporâneas - onze canções sobre o amor e os desamores, cada uma escrita como se fosse um capítulo diferente do romance com títulos como “Malamente”, “De Aquí No Sales”, “Reniego”, “Maldicion” e, a finalizar, um poderoso “A Ningún Hombre”. Não por acaso certamente Rosalia é uma das vozes convidadas por James Blake no seu novo álbum. “El Mal Querer” está disponível no Spotify.


 


PROVAR - Durante bastante tempo ouvir falar em brócolos provocava-me arrepios. Nem sei mesmo se alguma vez cheguei a prová-los ou se me limitava a dizer que não queria, como os meninos pequenos. Seja como fôr, aqui há uns anos, sem eu perceber bem como, os brócolos entraram na lista de ingredientes vulgares na minha vida. Fui fazendo testes e não precisei de testar muito para perceber que brócolos frescos do mercado são melhores que brócolos ensonsos do supermercado. Depois percebi que a flor do brócolo e delicada e não deve ser cozida demais sob pena de perder toda a graça. Aprendi a preferi-los al dente, para manterem sabor e consistência. Uns tempos depois  passei a usar só a parte florida, tirando os caules - e aí descobri um mundo novo - cozer levemente a parte da cabeça do brócolo, separar as suas flores e misturar com arroz carolino ou, o melhor de tudo, com uma boa massa. A descoberta deste cocktail nasceu quando provei um dos petiscos do Chef Marcello Di Salvatore, do Bella Ciao (Rua de S. Julião 74). Trata-se de um prato de orecchiette com as flores de  bróculos bem separadas, envolvidas num molho de anchovas e queijo grana padrano. Se os brócolos já se tinham tornado comestíveis, nesse dia tornaram-se apetecíveis. E assim passei a gostar de brócolos.


 


DIXIT - “É indelével a sensação de que algo na Justiça não está a correr bem e de que se preparam grandes acções. Ou reviravoltas. Não se esconde a ideia de que a Justiça pode ser fonte de surpresas a breve prazo. É uma questão inescapável: estará em curso um movimento de revisão dos grandes processos pendentes?”  - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Começar é a parte mais importante de qualquer trabalho”  - Platão


 

janeiro 25, 2019

QUEM É O CAMPEÂO NACIONAL DE SALTO À VARA POLÍTICO?

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O BARÃO NEGRO DE SINTRA - A RTP2 tem transmitido diariamente uma série muito educativa sobre os meandros dos políticos, dos seus partidos e dos cargos que ocupam no Estado ou por indicação do Estado (também disponível no RTP Play). A série é francesa, chama-se “Barão Negro”, passa-se entre Dunquerque e Paris, mas podia bem passar-se em Portugal. Abuso de poder, truques sujos na luta de bastidores dentro dos partidos, manobras de escroques em congressos e trafulhices várias na obtenção de fundos para campanhas eleitorais constituem o enredo. Em Portugal há vários Barões Negros e ocorreu-me que Sintra tem tido a sina de ser governada por baronesas e barões de calibre - uma vila classificada em 1995 como Património da Humanidade pela Unesco merecia melhor sorte. Veja-se o que está a acontecer em pleno Centro Histórico de Sintra, na Gandarinha, com a construção de um hotel que tem tido um historial de atentado às regras de defesa do património e às características morfológicas, paisagísticas e arquitectónicas da vila. No início a  obra foi licenciada e avançou sem os estudos exigidos pelo então IPPAR, não teve acompanhamento arqueológico na fase de movimentação de terras e da destruição de pré-edificações e desconhece-se a realização de um estudo de impacto ambiental. O que aconteceu entretanto foi a impermeabilização quase total do terreno, a escavação de cerca de 10.500 m3 na encosta da serra, o que provocou uma acentuada alteração da morfologia do terreno e da paisagem. Pelo caminho foram arrancadas árvores, destruído o jardim existente e a volumetria inicial foi alterada. Inicialmente autorizado por Fernando Seara, Basílio Horta renovou o licenciamento, apesar de a Direcção Municipal de Planeamento e Urbanismo ter considerado que o projecto teria “um impacto significativo numa área de Paisagem Cultural classificada como património mundial”. Mas se a autorização inicial era polémica, são agora visíveis alterações ao projecto (que contemplou um aumento do número de quartos e da volumetria), alterações que já estão a ser feitas sem que saiba como foram avaliadas e autorizadas pela autarquia. Este é um caso entre muitos - mas que revela de forma clara como um autarca pode abusar do poder e privilegiar interesses particulares acima do património que devia defender. Mas, que mais se poderia esperar de Basílio Horta, um homem que é campeão nacional de salto à vara político?


 


SEMANADA - Para sublinhar a sua guerra com o Governo, Mário Nogueira prometeu um ano desgraçado aos alunos; a Ordem dos Médicos pede um “apuramento rápido” das causas do aumento da mortalidade infantil; os inspetores da Polícia Judiciária vão estar em greve sete dias no início de fevereiro, juntamente com os restantes funcionários da PJ; a greve dos enfermeiros na região de Lisboa e Vale do Tejo registou esta terça-feira uma adesão de 68%; os crimes de que Vale e Azevedo era acusado, de desvio de verbas do Benfica no final dos anos 90 do século passado, prescreveram sem o respectivo julgamento se ter iniciado; em 2018 foram vendidas 500 casas por dia; o preço das habitações em Portugal aumentou 15,6% no espaço de um ano; em 2019 Portugal terá mais 86 novos hotéis com um total de 7700 quartos; Portugal mantém-se na terceira posição na lista dos países da União Europeia com maior dívida pública; a Segurança Social mandou encerrar 109 lares de idosos por falta de condições; no ano passado foram detectadas falhas graves, num total de 64 milhões de embalagens, no fornecimento de medicamentos para a doença de Parkinson, diabetes, hipertensão, asma, epilepsia e doenças cardíacas; os estudantes que vêm para Lisboa seguir os seus cursos e vivem em hostels pagam taxa turística - assim como os habitantes da cidade que por qualquer razão tenham que pernoitar num hotel.


 


ARCO DA VELHA -  Descobriu-se agora que vários gestores da Caixa Geral de Depósitos receberam bónus de desempenho apesar de nos seus mandatos o banco ter concedido créditos ruinosos à revelia dos processos de avaliação de risco e por pressão direta do Conselho de Administração.


 


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OLHÓ ROBOT - Nos idos dos anos 80 os Salada de Frutas cantavam, pela voz de Lena d´Água, uma canção que rapidamente se tornou êxito: “olhó robot. é pró menino e prá menina olhó - trabalha muito e gasta pouco “. Nos quase 40 anos desde que essa canção surgiu a robotização começou a invadir todas as áreas, da fabril à criativa. Cada vez se fala de forma mais insistente sobre os efeitos da proliferação da inteligência artificial e dos robots nas mais diversas actividades.  “Hello, Robot. Design Between Human and Machine”, a exposição vinda do Vitra Design Museum, inaugurou esta semana no MAAT, onde ficará até 22 de Abril, inclui mais de 200 peças das áreas de design e arte, e contém robôs utilizados no nosso quotidiano, na medicina e na indústria, bem como em jogos de computador, instalações de media, e evocações da presença de robôs no cinema, na literatura e na banda desenhada. Ali se podem ver algumas das primeiras consolas de jogos, protótipos de robôs antigos e contemporâneos, que podem ser usados desde regar plantas até ronronar como um gato ou ajudar ao desenvolvimento de crianças. Como afirma o catálogo, “Hello, Robot aborda o modo como o design molda a interação e relação não só entre os humanos e as máquinas, mas também entre os próprios humanos”.


 


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UMA CATEDRAL DE PAPELÃO - O papelão é o futuro da indústria do papel - foi pelo menos o que eu li há tempos. A explicação é simples: enquanto se assiste à diminuição da utilização de papel nos escritórios das empresas, constata-se que o incremento do comércio electrónico faz aumentar a procura de embalagens de papelão, que garantam a robustez necessária para que os livros, roupas  ou máquinas que encomendamos nos cheguem em perfeitas condições. De material pouco considerado o papelão passou a centro de atenções e cuidados. A sua utilização na arte contemporânea tem vários exemplos, desde que Andy Warhol se lembrou de replicar as caixas de detergente Brillo. Mas talvez ninguém tenha ido tão longe como Carlos Bunga que, dentro do MAAT, construíu a alegoria de uma catedral, unicamente  utilizando papelão. Carlos Bunga “The Architeture of Life. Environments, Sculptures, Paintings and Films” é a primeira exposição retrospectiva da obra de Carlos Bunga, em Portugal- ele foi o vencedor do Prémio Novos Artistas Fundação EDP em 2003. Reunindo obras dos últimos 15 anos, a exposição documenta as construções de grande escala que o artista cria e destrói como performance, e é animada por vídeos das suas interações com o mundo material.  ‘O meu projeto é uma espécie de arquitetura; não é um espaço real, mas uma ideia mental.’ - afirma Carlos Bunga (na imagem no meio de uma das suas instalações). Em paralelo na Fundação Carmona e Costa, está a exposição “Where I am free”, onde Bunga apresenta uma seleção de trabalhos em papel com várias obras recentes concebidas especificamente para a Fundação.


 


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A ARTE DA CARPINTARIA - Artes visuais, música, teatro, dança, cinema e gastronomia são as principais áreas de actuação das Carpintarias de São Lázaro, agora inauguradas após uma profunda remodelação das antigas oficinas de marcenaria ali existentes. Situadas na Rua de São Lázaro 72, junto ao Martim Moniz, estas Carpintarias ocupam 1800m2, divididos entre dois pisos e um rooftop. O espaço, além  da sua utilização como infraestrutura cultural, quer desenvolver parcerias com entidades, públicas e privadas. A programação do novo espaço contempla as áreas das Artes Visuais, Música, Teatro e Dança, Cinema e Gastronomia. Na sexta-feira 25 de janeiro é a inauguração do espaço, em simultâneo com a inauguração da exposição “Jeu de 54 cartes”, a mais recente série de trabalhos de Jorge Molder (na imagem), apresentada pela primeira vez no Museu Internacional de Escultura Contemporânea em Santo Tirso, e agora em Lisboa nas Carpintarias de São Lázaro. Durante todo o fim de semana a Cozinha dos Vizinhos poderá ser provada resultado da colaboração com a Cozinha Popular da Mouraria e no fim de semana seguinte decorrerá a Mostra dos Premiados do Concurso Gastronómico Lisboa à Prova. Uma performance de Joana Runa, o oitavo aniversário do canal de videos A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, cinema ao vivo e um open studio pela artista residente Miriam Simun completam o programa destes primeiros dias de funcionamento da nova carpintaria.


 


O QUE CONTA É O CACAU - Já houve uma altura em que era capaz de sair de casa a meio da noite a correr à procura de uma loja de conveniência próxima que tivesse chocolate negro. Entretanto a coisa mudou - mas percebo que o chocolate se torne num vício. Ora acontece que um recente estudo da Marktest indica que nos últimos 12 meses, neste nosso cantinho, 5,3 milhões de pessoas consumiram chocolate nas suas várias formas, o que quer dizer cerca de 60% dos portugueses se entregaram a este vício. Outro alimento que segundo o mesmo estudo está em alta é o iogurte grego que no mesmo espaço de tempo foi consumido por 2,5 milhões de pessoas, o que representa cerca de 30% dos portugueses - é já a segunda variedade de iogurte mais consumida no nosso mercado.


 


DIXIT - “Nas Finanças há um profundo convencimento de que a saúde é sobretudo uma fonte de despesa e que o controlo apertado vai limitar essa despesa” - Manuel Pizarro, médico e atual alto comissário da Convenção Nacional de Saúde


 


BACK TO BASICS - “A melhor forma de prever o futuro é sermos nós próprios a criá-lo” - Abraham Lincoln.


 

janeiro 18, 2019

O REGRESSO DAS NACIONALIZAÇÕES

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Desde que a geringonça chegou ao poder o Estado mudou de forma substancial: passou a ocupar mais espaço, a ser mais intrusivo na vida dos cidadãos (basta ver a nova legislação sobre acesso do Fisco às contas bancárias), a regressar a sectores de onde tinha saído, a entrar em  novos sectores sem se saber porquê. Enquanto o Estado reforçava a sua participação na economia e aumentava o seu peso sobre os cidadãos, deixava ao mesmo tempo para trás uma série de obrigações básicas - na saúde, na educação, na segurança, nas infraestruturas básicas, na justiça. A prática das cativações fez diminuir o Estado onde ele de facto é mais necessário e abriu caminho a que ele ocupasse espaço onde não é necessário. Não há-de ser por acaso que o regresso do Estado, por exemplo à TAP, coincida com o caos instalado na companhia, recordista mundial de atrasos de vôos com graves consequências no seu desempenho financeiro. Este desejo de o Estado ser dono de muito mais do que seria necessário chegou também às autarquias e neste caso o desdobramento da geringonça em Lisboa deu os mesmos resultados. Nunca perceberei, por exemplo, porque é que a autarquia lisboeta se meteu ela própria no negócio das bicicletas de aluguer em vez de deixar esse terreno aos privados, como acontece nos outros países europeus - e não foi por falta de interesse de diversos operadores. Mas o mais inesperado e suspeito movimento do Estado foi a espécie de nacionalização da Inapa, uma das poucas multinacionais portuguesas, concretizada nas últimas semanas. A jogada tem muitos contornos ainda por esclarecer, envolveu a Caixa Geral de Depósitos, a Direcção Geral do Tesouro e Finanças e a Parpública - que agora detém 44% da empresa. Mas como é o Estado o dono desta fatia não se sujeita às mesmas obrigações dos accionistas privados que de um momento para o outro viram a sua posição desvalorizada. Aqui está um bom exemplo do que é a política  económica de António Costa e seus aliados. Qual a negociata que inspirou esta movimentação é o que o tempo dirá.


 


SEMANADA - Dez dos 33 heliportos existentes em hospitais portugueses não têm condições de segurança para receber vôos com doentes durante a noite; as apreensões de medicamentos ilegais em 2018 bateram todos os recordes e um quinto dos fármacos apreendidos destinava-se ao tratamento da disfunção eréctil; entre garantias e empréstimos concedidos o total de gastos do Estado no BES/Novo Banco vai já em 4980 milhões de euros, montante que provavelmente aumentará ainda mais; entre 2015 e 2017 as autoridades detectaram 15 casos de jovens futebolistas que vieram para clubes portugueses através de esquemas de tráfico de seres humanos; dez aparelhos médicos de gastroenterologia, no valor de 300 mil euros, foram roubados de uma zona de acesso restrito do Hospital Egas Moniz; em contrapartida à queda de 8% de turistas britânicos, regista-se um crescimento de visitantes dos EUA (cerca de mais 20%), colocando este mercado emissor num inédito 4º lugar (a seguir a França, Brasil e Espanha); na semana das propinas gratuitas soube-se que ainda há quase 17 mil alunos das universidades e politécnicos nacionais à espera de saber se têm bolsa de estudo;  o livro escolar do 12º ano onde foram efectuados cortes a três versos da “Ode Triunfal”de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, alegadamente por serem escabrosos, foi uma obra editada, com os cortes, sob a coordenação do  Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa.


 


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O PROBLEMA DO UMBIGO - O fim da Quadratura do Círculo é o fim de uma época e o sinal de uma mudança. A SIC Notícias já não é líder no cabo, os intervenientes do programa acomodaram-se, deixou de haver valor acrescentado. Em termos de audiência foram caindo - passar dos 50 mil espectadores já era raro e a média do último trimestre de 2018 foi 43 mil e quinhentos, o share de audiência do programa esteve abaixo do share médio anual do canal. Em resumo, perdia fiéis e não trazia ninguém de novo à congregação. O programa não tinha debate político, tinha afirmação de egos e era megafone de grupos de interesse dos partidos de onde eram originários os comentadores. Servia de suave anestesia para que as boas consciências tivessem  a ilusão de que havia debate político. Tornou-se mais monótono que um debate na Assembleia da República, o que, deve dizer-se, é um feito difícil. Na realidade tratava-se de uma conversa previsível entre dinossauros políticos previsíveis que acabaram por se fechar na quadratura do círculo que queriam contestar. Agora há quem se lamente, que chore o fim deste clube de amigos. O painel da Quadratura do Círculo teve o pecado capital de olhar para o país e a paisagem política através dos respectivos umbigos. Tornou-se fastidioso.


 


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OS OUVINTES DO RÁDIO - Segundo a Marktest o auto-rádio é o principal suporte de escuta de emissões de rádio, com 6 milhões e 199 mil utilizadores, o que representa 72.4% das pessoas, o rádio portátil é o segundo suporte com mais utilizadores com 16.0%, e o telemóvel o terceiro, com 15.7% num total de um milhão e 345 mil ouvintes. Se olharmos para a idade os mais jovens são os que apresentam maior percentagem de audição de rádio pelo telemóvel, que quase duplica os valores médios: entre os 15 e os 24 anos, 88.4% ouve rádio pelo auto-rádio, 6.4% no rádio portátil e 27.9% no telemóvel. Ainda segundo o Bareme Radio da Marktest 81.8% dos residentes no Continente ouviu rádio pelo menos uma vez por semana e 57.8% fê-lo na véspera. Numa análise por regiões, é possível ver que são os residentes no Grande Porto os que apresentam maior consumo deste meio, com 59.2%. Pelo contrário, no Interior Norte observam-se as taxas mais baixas, de 51.4%.


 


CENAS BOTÂNICAS - Manuela Moura Guedes comparou Rui Rio a um bróculo e Luis Montenegro a uma beterraba. Coitadas das courgettes, quem lhes irá calhar na rifa? - pergunto eu...


 


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HISTÓRIAS ESCONDIDAS - Adoro histórias picantes da História, ir buscar o que anda escondido no fundo dos baús. Um livro agora editado, “Bizarrias de Reis, Rainhas e Fidalgos Infames”, relata fantasias sexuais, infidelidades variadas, escândalos abundantes, de enguiços a incestos, com passagem por episódios de tortura, roubos e outras coisas muito pouco recomendáveis. Na nossa História são evocados casos como a luta de D. Afonso Henriques contra a sua mãe, a dama espanhola que terá enfeitiçado D. Sancho I, a morte de D. Inês de Castro, a infiel rainha D. Leonor Teles, o caso de D.Pedro II que prendeu o irmão e casou com a cunhada, de D.João V que ficou conhecido por ter numerosas amantes e ser um frequentador dos conventos onde as alojava, nomeadamente o Convento de Odivelas, onde várias viveram em simultâneo. E, claro, há o devido destaque para D.Pedro IV de Portugal e I do Brasil, um digno sucessor dos seus mais aventureiros antecessores em matéria de devaneios sexuais. Mas para além da corte portuguesa o livro relata ainda as depravações de Calígula, as rainhas de Henrique VIII, as loucuras de Nero ou a fantasia de Luis II da Baviera. A edição é da Guerra & paz e garante uma belíssimo visita à História dos vícios e pecados.


GULOSEIMA - Não sou muito doceiro nem me deslumbro com a montra de uma pastelaria. Em geral gosto daquilo que se designa por bolo seco, sem grandes cremes. A bola de Berlim sem creme está no limite máximo e só é admissível num contexto de praia. A seguir vem o queque tradicional, sem raspas de chocolate nem outras coisas como nozes, pinhões e quejandos. Em terceiro lugar vem um caracol simples e depurado - o da Versailles é para mim o melhor de todos. E finalmente vem o meu preferido, desde miúdo - o clássico bolo de arroz, uma coisa modest cuja receita leva apenas farinha de arroz, farinha de trigo, ovos, manteiga, açúcar e raspa de limão. Vai ao forno enrolado num papel vegetal que lhe segura a base e onde costumam estar inscrições do género “fabrico especial da casa”. O bolo de arroz ideal deve ter a crosta polvilhada de açúcar bem tostada, a massa deve ser leve sem se desfazer, não pode ser compacta e o sabor do limão deve ser delicado, sem exageros. Conheço dois que são uma referência - há muitos anos provei no Porto o afamado Bolo de Arroz da Padaria Ribeiro, que existe desde 1878. Uns anos depois encontrei paralelo em Lisboa, na também histórica Confeitaria Nacional, ainda mais antiga, fundada em 1829. Mas há muitas boas pastelarias em Lisboa com um Bolo de Arroz honesto, sem artifícios, acompanhante ideal de um café cheio. Com o tempo ganha-se experiência e basta olhar para se saber se vale a pena. Nas cadeias de padaria da moda em geral não vale a pena.


 


DIXIT - “O PS não tem o direito, enquanto está no Governo, e para ganhar mais uns votos, de comprometer o futuro do país” - Fernando Rocha Andrade, Deputado do PS e antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais.


 


BACK TO BASICS - "O futuro já chegou, só não está é distribuído de forma igual para todos" - William Gibson


 

janeiro 11, 2019

OLHO PARA O ESPELHO E O QUE VEJO É UM PAGADOR DE PROMESSAS ALHEIAS

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O PAGADOR DE PROMESSAS - Esta quinta-feira de manhã, ao acordar, olhei para o espelho e sabem o que vi? Apesar da gripe não foram os olhos um pouco congestionados que me chamaram a atenção; o que vi ao espelho foi um pagador de promessas, um bombo da festa da colecta de impostos, taxas e taxinhas, directos e indirectos. Cada vez que alguém no Governo se lembra de anunciar uma nova medida, vem logo aí mais despesa. A receita vem sempre do mesmo sítio: pôr cada um de nós a pagar mais. E foi assim neste suave enlevo que ficámos a saber que não estamos em campanha eleitoral. Quem o veio jurar foi o Primeiro Ministro António Costa numa das cerimónias em que tem assinado contratos de milhares de milhões para obras e aquisições diversas, todas encadeadas na mesma semana. Num rasgo de génio o Primeiro Ministro apresentou.-se numa das encenações, o contrato para construção do aeroporto no Montijo, como o homem providencial que toma decisões que deviam ter sido tomadas há 50 anos. Depois, numa cerimónia das obras previstas para o Metro de Lisboa, garantiu que a ideia de que estes eventos estão ligados ao facto de existirem eleições este ano é uma calúnia de gente mal intencionada e desmentiu qualquer intenção eleitoralista no que tem andado a fazer desde que o ano começou e Centeno o autorizou a abrir os cordões à bolsa - de tal maneira que agora até se fala em acabar com as propinas no ensino superior. A verdade é esta, como escreveu por estes dias Manuel Villaverde Cabral: “Se o governo não paga, o PS não recebe os votos; e se paga, é a economia que se ressente,”


 


SEMANADA - A taxa de utilização dos cheques dentista não chega aos 70%; a dívida do Serviço Nacional de Saúde disparou mil milhões em três anos; os hospitais do serviço nacional de saúde apresentam prazos máximos de resposta aos pedidos de consultas acima do previsto por lei; há casos de esperas superiores a mil dias em primeiras consultas nas especialidades de cardiologia e urologia; há 45.563 idosos a viver sozinhos ou isolados em todo o país; em 2017 o desperdício de água agravou-se em metade dos concelhos do país e o volume de perdas seria suficiente para encher 281 piscinas olímpicas por dia; segundo a Bloomberg a TAP é a companhia aérea com mais atrasos no mundo; cerca de sete milhões de passageiros sofreram perturbações em vôos com partida de Portugal em 2018, como consequência de atrasos ou cancelamentos de 34% das ligações; o governo aumentou o imposto “do carbono” quatro dias depois de baixar o imposto dos combustíveis; o Portal da Queixa recebeu, entre janeiro e dezembro de 2018, em média 250 reclamações por dia (perto de 90 mil ao ano; os bancos vão ser obrigados a comunicar ao fisco as contas bancárias com saldo superior a 50 mil euros, depois da aprovação no Parlamento de uma proposta com  votos a favor de PS, BE e PCP; o ministro dos Negócios Estrangeiros atacou a OCDE porque este organismo internacional atreveu-se a aconselhar um reforço de meios humanos e legislativos de combate à corrupção, tal como já fez com outros países.


 


ARCO DA VELHA - As obras no Liceu Camões, em lisboa, previstas para se iniciarem em Agosto de 2011, no âmbito do plano de modernização da Parque Escolar, ainda não se iniciaram e a ruína do edifício agravou-se.


 


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UM DIÁRIO - Ler o diário de alguém é sempre descobrir uma intimidade. Entrar no diário de um escritor é uma descoberta ainda maior - os desabafos do dia-a-dia,  as dúvidas sobre o que se está a escrever, as hesitações no esboço dos capítulos. Neste segundo volume do “Diário” de Virginia Woolf é apanhado o período entre 1927 e 1941, um dos mais criativos da sua vida durante o qual ela se afirmou definitivamente como escritora e que coincide com a publicação de algumas das suas obras mais importantes como “Rumo Ao Farol”, “Orlando” ou “Um Quarto Que Seja Seu”. A certa altura ela relata que escrever o diário é o que lhe dá oportunidade de escrever com uma caneta, já que quase tudo o resto era escrito - ou reescrito -  à máquina. É fascinante ver como Virginia Woolf viveu este período, é uma viagem ao seu processo criativo, mas também às suas dúvidas pessoais sobre a vida e sobre a morte, as suas reflexões sobre a importância das artes - em consonância com o Grupo de Bloomsbury, de que foi uma das impulsionadoras.


 


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ESPREITAR - Nas próximas semanas há muita coisa para ver nas galerias lisboetas - recomeçou a actividade depois do período de fim de ano. Vou começar pela Módulo (Calçada dos Mestres 34A), onde quinta-feira inaugurou uma exposição de Marco Moreira, “O meu fazer, cogita a tua percepção de ver”, que resultou do trabalho efectuado durante quatro meses numa residência artística na La Térmica, Centro de Cultura Contemporánea de Málaga. No sábado a Galeria Diferença assinala os seus 40 anos de actividade com uma colectiva onde estão representados mais de 50 nomes incontornáveis da arte contemporânea portuguesa e que em algum momento estiveram ligados a este espaço. As celebrações começam pelas 16h00 na Rua de S. Felipe Nery 42. Na próxima semana inaugura dia 17  a nova exposição da Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 R/C esq), que apresenta trabalhos de Rita GT com (Re)membering / (For)getting, e Renzo Marasca com "From Night to Dawn". Se por acaso fôr a Nova Iorque nos próximos tempos não perca a exposição que o Whitney Museum dedica a Andy Warhol com  mais de 350 obras que abrangem quatro décadas, mostrando a evolução de uma carreira, desde os desenhos de estudante até aos anos 80.


 


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AQUELA COISA DA IDADE - Um dia destes dei comigo a pensar que a idade já não é o que era. Vou traduzir isto por miúdos: hoje em dia ouço com prazer novos discos de músicos que comecei a ouvir há uns 40 anos - de Dylan a Springsteen, passando por Neil Young para citar só os mais evidentes. Com quase 70 anos Springsteen cantou a história da sua vida, todos os dias durante um ano, num teatro da Broadway, sozinho em cima do palco e aos 80 anos o saxofonista Charles Lloyd fez um dos seus mais marcantes discos ao lado de Lucinda Williams, que tem agora 65 anos. Aos 82 anos Robert Redford desempenhou um dos melhor papéis da sua vida em “O Cavalheiro Com Arma”, ao lado de uma magnífica Sissy Spacek com 69 anos;  Michael Douglas, aos 74 anos, imaginou e actuou numa fantástica série de televisão, da Netflix, chamada “O Método Kominski”. Assisti ao nascimento e ao desenvolvimento das carreiras destes músicos e destes actores - que de alguma forma são lendas do espectáculo, tal como os Rolling Stones que continuam a tocar como se não houvesse amanhã. Na realidade ninguém diria que a cultura pop, nas suas várias vertentes, saída dos anos 60, tivesse protagonistas com esta durabilidade. Mas a verdade é que é isso mesmo que acontece. A actividade de todos eles é a prova de que aquela coisa da idade já não é o que era. Ainda bem. Já agora: Tintim fez 90 anos e continuo a ler as suas aventuras com gosto.


 


PROVAR - Nunca fui à Arménia e a minha relação com esse país é sobretudo feita através do facto de Calouste Gulbenkian ter sido Arménio (a propósito surgiu uma nova biografia que parece ser muito interessante). Há uns dois meses abriu o Ararate, um restaurante arménio nas Avenidas Novas onde no menu surgem pratos como Khorovats, khachapuri, hamest taty e choban. Não por acaso o restaurante fica muito próximo da Fundação Gulbenkian. Traduzido por miúdos o que se pode encontrar anda à volta de guisados, estufados, espetadas e ensopados, tudo com legumes frescos, carnes diversas e peixes como o esturjão. Para contornar a dificuldade linguística o menu traz uma minuciosa descrição e imagens - e o pessoal de sala é atento e bem informado, esclarecendo as dúvidas existentes. A carne de borrego é amplamente proposta, muitos pratos são cozinhados a baixa temperatura, o recurso a especiarias no tempero é regra, há um menu de almoço a preço competitivo, a sala é ampla, arejada e bem iluminada e a garrafeira razoável a precisar de moderar os preços nalguns casos. Mas quem não gosta de borrego está bem defendido por propostas de outras carnes, nomeadamente de vaca e vitela. Quem quiser começar por petiscar tem um fumado muito interessante, o basturma, no meio de uma bem servida tábua de enchidos que acompanha com matnakash, pão fermentado. O tipo de cozinha proporciona que se faça uma partilha de petiscos - por exemplo de espetadas. O nome do restaurante, Ararate, vem  da mais alta montanha da Turquia, mas local sagrado para os arménios e onde os cristãos acreditam ter encalhado a Arca de Noé após o Dilúvio . Avenida Conde Valbom, 70, reservas 925 451 509.


 


DIXIT - O populismo consubstanciou-se numa chamada telefónica - lido no facebook


 


BACK TO BASICS -"A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro.", atribuída ao filósofo inglês Herbert Spencer


 


 

janeiro 04, 2019

NÃO SEI EM QUEM HEI-DE VOTAR

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VOTAR EM QUEM?  - Este ano há duas eleições - as europeias e as legislativas - e confesso que não sei em quem votar nem num caso, nem noutro. Partilho há muito da preocupação do Presidente da República, que, na sua mensagem de Ano Novo, pediu “políticas e políticos mais credíveis”. Marcelo percebeu bem que cresce a desconfiança em relação aos partidos. Mas não é só uma desconfiança em relação aos seus dirigentes e aparelhos, é ao que eles representam e ao modo como funcionam. Num passo interessante da sua mensagem o Presidente da República, falando da constituição das listas eleitorais, apelou a que os candidatos analisem com cuidado o percurso passado. Lembrei-me particularmente desta frase quando constatei que uma das novas forças políticas que irá já a votos nas Europeias escolheu para seu cabeça de lista Paulo Sande, um indefectível de Bruxelas e dos seus organismos (dirigiu o Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa durante oito anos e é professor da Construção Europeia na Universidade Católica). Nem esta Aliança aproveitou a oportunidade que a sua tenra idade lhe dá para se demarcar do caos da União, da Comissão Europeia e do seu Parlamento - que no conjunto são uma das maiores fontes de desconfianças e descréditos entre muitos eleitores de vários países. Ao proceder assim o novo partido entregou o território anti-Bruxelas a populistas que surjam à espreita do descontentamento com a política agrícola e de pescas, com a política monetária, com o processo de decisão. O muro de Berlim caíu há 30 anos, mas o muro de Bruxelas está cada vez maior. E, no momento em que se olha para o que se passará com o Brexit, na cena política portuguesa não há no centro direita quem diga que o rei vai nu, despidinho de todo. Não me apetece nada votar nesta Europa e não sei em quem hei-de votar. Por este andar a abstenção só pode aumentar.


 


SEMANADA - O número de mortes em acidentes rodoviários em 2018 foi o mais alto dos últimos 22 anos; mais de 300 condutores foram detidos por excesso de álcool durante a operação de fiscalização do Ano Novo; o endividamento na compra de automóvel cresceu para níveis anteriores à intervenção da troika e já atingiu 6,1 mil milhões de euros; a dívida pública aumentou 400 milhões de euros em novembro, face a outubro, para os 251,48 mil milhões de euros, atingindo um novo recorde; os organismos públicos gastaram em 2018 pelo menos 15,1 milhões de euros na aquisição de bens e serviços para as festas de Natal e do fim de ano; segundo a Marktest 45,4% dos portugueses que têm conta bancária utilizam Internet Banking, com um valor de 66,6% entre os indivíduos dos 25 aos 34 anos e 76,8% na classe alta/média; em 2017 nasceram mais 1107 bebés que no ano anterior, mas o índice de natalidade continua baixo; quatro mil psicólogos e nutricionistas candidataram-se a 80 vagas no SNS; com uma mensagem de oito minutos no YouTube, fortemente crítica para António Costa, Santana Lopes iniciou a campanha eleitoral da sua Aliança: “o sr. primeiro-ministro vive num país diferente daquele em que eu vivo”; André Coelho Lima, um porta-voz social democrata, afirmou que “O PSD tem resistido - e vai continuar a resistir - a dizer mal de tudo”; o Governo anunciou um novo plano de obras públicas quando falta fazer 80% do anterior.


 


ARCO DA VELHA - O inquérito do Ministério Público aos 100 maiores devedores da Caixa Geral de Depósitos foi aberto em 2016 mas continua sem qualquer arguido constituído, apesar das suspeitas de gestão danosa na atribuição dos financiamentos, com créditos em incumprimento que ascendem a 2,5 mil milhões de euros.


 


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O ALMANAQUE - Todos os anos repito o ritual logo no início de janeiro - compro o “Borda D’Água”, que se intitula como “o verdadeiro almanaque”, com “reportório útil a toda a gente”. Umas vezes compro-o na rua, outras vezes numa  banca de jornais - foi o que aconteceu este ano e aí ouvi o experiente ardina dizer-me que “já houve anos em que voava, mas hoje já não se vende muito”. O “Borda D’Água” completa agora 90 anos, é editado desde sempre pela Editorial Minerva e tem 24 páginas, com uma tiragem de 100 mil exemplares. Em cada mês tem indicações sobre a hora do nascer e pôr do sol, as fases da lua ao longo dos dias, assim como os santos evocados diariamente ao longo do mês. A folha mensal inclui um oráculo, com recomendações para homens e mulheres, assim como indicações sobre agricultura e jardinagem. Há ainda um mapa de feriados, uma recolha de ditos populares, um quadro com as fases da lua ao longo de todo o ano, tabela de marés, eclipses (em 2019 haverá cinco…), a visibilidade dos planetas e a entrada da lua nos signos do zodíaco, além de um calendário de festas e feiras que se realizam, mês a mês, por todo o país. Este ano de 2019 é regido por Marte “trazendo consigo sentimentos competitivos e de conquista” - indicação que se pode ler na última página onde, além deste Juízo do Ano se pode ler como nasceu e cresceu o “Borda D’ Água”, desde que surgiu há 90 anos pela mão de Manuel Rodrigues, fundador da Minerva, antigo impressor gráfico.


 


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ARTE NA RUA - Volta e meia a arte desce à rua, ao espaço público, e essa é sempre uma boa ideia. Por estes dias, mas por pouco tempo, ainda poderá ver uma fotografia de Jorge Molder, ampliada para grande dimensão (12x15 metros) na fachada do edifício da LACS, junto à Rocha do Conde de Óbidos, na empena virada para a Avenida 24 de Julho e que ali está exposta há cerca de seis meses (na imagem). Trata-se de uma iniciativa que o pólo criativo pretende repetir ao longo do tempo. A fotografia exposta faz parte da série “A Origem das Espécies”, foi escolhida por Sandro Resende, curador e um dos fundadores do projecto de arte pública contemporânea BillBoard, que procura ocupar o que normalmente são espaços publicitários, usando-os como suporte de obras de arte, e que já realizou intervenções em Lisboa, Porto e Faro. Quando a fotografia criada por Jorge Molder sair daquele local (podendo eventualmente ser resposta noutro sítio) será substituída por uma peça de Pedro Cabrita Reis.


 


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SONS SEM RIVAL - “Vanished Gardens” é  um dos discos que mais me surpreendeu em 2018, e que só descobri já o ano ía muito adiantado. Vem assinado por uma junção inesperada: a voz de Lucinda Williams com Charles Lloyd & The Marvels ( Bill Frisell na guitarra, Greg Leisz na pedal steel guitar, Reuben Rogers no baixo e Eric Harland na bateria). Tudo nasceu quando a tradição country e pop de  Lucinda Williams se cruzou com as sonoridades de blues e de jazz de Lloyd e dos seus músicos num concerto realizado na Universidade de Los Angeles em Abril de 2017. Meses depois num estúdio, também em Los Angeles, juntaram-se para gravar “Vanished Gardens”. Aqui e ali há influências de gospel, de folk, mas também de rock - um cocktail da música popular americana. “Dust”, o segundo tema do álbum e o primeiro em que Williams canta, é de uma enorme intensidade e um exemplo do diálogo entre a voz de Williams e o saxofone de Lloyd. Trata-se de uma versão de um original de Lucinda Williams, tal como “Ventura” e “Unsuffer Me”, também presentes neste disco que inclui ainda três originais de Lloyd, entre os quais a faixa-título. Em todo o disco é marcante o saxofone de Charles Lloyd, como aliás se testemunha na derradeira faixa, “Angel”, versão de um original de Jimi Hendrix. Disponível no Spotify. Já agora, Charles Lloyd tem tido ao longo da sua vida numerosas colaborações com a música pop e o rock e, de certa forma, este é testemunho disso mesmo. Edição Blue Note disponível no Spotify.


 


ÁSIA JUNTO AO RIO -  O Okah é um restaurante localizado no terraço do edifício do LACS, o pólo criativo localizado no antigo edifício do refeitório do Porto de Lisboa, junto à Rocha do Conde d’Óbidos. No mesmo terraço existe um bar e uma cafetaria, o Zazah - tudo criado a partir de um conjunto de contentores modificados que acolhem aqueles espaços. A primeira coisa é a vista extraordinária que dali se pode desfrutar. A segunda é a simpatia do serviço. E, por fim, quando chega a comida, percebemos que fizémos uma boa escolha. Apresentando-se como um restaurante de inspiração asiática, o Okah vai buscar ideias a várias gastronomias. Por exemplo uma das entradas mais procuradas é amêijoas à Bulhão Pato, que se diferenciam por levarem uma mistura de especiarias indianas. Na lista das carnes destaca-se um borrego neozelandês com puré de batata e molho de hortelã e um pica-pau asiático com lombo de novilho mal passado e cubinhos de ananás. Na lista do mar destaque para uma dourada grelhada com molho de tamarindo, sobre legumes, e para uns camarões tigres escalados com um molho aromático que salvaguarda o sabor da carne do bicho, dando-lhe um toque inesperado, acompanhado por um couscous muito bem temperado. Lista de vinhos mediana que podia ter preços mais razoáveis. Esperemos que este Okah não se estrague. Lista Telefone 914 110 791


 


DIXIT - “Mais um ano a empurrar os problemas para o futuro” - Nuno Garoupa


 


BACK TO BASICS - “A melhor forma de prever o futuro é participar na sua criação” - Abraham Lincoln.


 

dezembro 28, 2018

ELEIÇÕES 2019 - O ANO DE TODOS OS PERIGOS

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O ANO DE TODOS OS PERIGOS -  Quando a geringonça chegou ao poder proclamou alto e bom som que vinha acabar com a degradação da coisa pública. Mas este Governo, erguido em nome da defesa do Estado “contra os malefícios do liberalismo”, foi o que acabou por esvaziar o Estado de capacidade para dar resposta às necessidades dos cidadãos. É terrível vermos como passados três anos se constata que a lógica implacável da combinação da incompetência com a nova austeridade encapotada - a das cativações - atirou para o lixo a defesa dos serviços públicos: a educação, a saúde, a justiça, a segurança, os transportes e os equipamentos públicos degradaram-se continuamente; a coordenação entre serviços do Estado piorou, o desprestígio dos deputados e do Parlamento cresceu; o número de paralisações e greves com incidência na economia e no funcionamento de serviços essenciais aumentou; afinal, a geringonça fez o contrário do que prometia. Esta última semana do ano ficou marcada pela mensagem de natal de António Costa - um autêntico manifesto eleitoral, repleto de promessas em todas as áreas, garantindo um futuro radioso se nele votarem, escamoteando qualquer referência a problemas recentes. António Costa joga na maioria absoluta - e  na mesma semana o líder da CGTP anuncia que em 2019 “vamos ter um ano quentinho” de conflitos laborais. É engraçado como surgem ao mesmo tempo promessas desencontradas: António Costa promete novas auroras radiosas e o arauto do seu principal parceiro de geringonça promete um amanhã cheio de greves. E, para finalizar 2018, o Presidente da República deu um sinal vermelho ao Governo no caso dos professores. Este novo ano eleitoral promete ser o ano de todos os perigos.


 


SEMANADA - Uma operação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras identificou 255 cidadãos estrangeiros em situação de exploração laboral, dos quais 26 eram vítimas de tráfico de seres humanos; segundo a segurança social o emprego cresceu à custa do trabalho precário; a greve na CP levou a que fossem suprimidos mais de 420 comboios no Natal;  em 2017 o número de pensões da Segurança Social voltou a cair ligeiramente  mantendo-se abaixo dos 3 milhões, um número que já não é superado desde 2013; nos últimos dois anos ocorreram mais de 700 acidentes devido à presença de animais soltos nas estradas; o número de alunos portugueses do secundário a escolher aprender o mandarim como língua estrangeira desce há dois anos consecutivos; o total de alunos no ensino superior privado subiu nos últimos quatro anos; em Portugal o número de pessoas que faz compras online cresceu 10% em 2018, totalizando agora 3,9 milhões; o novo recorde do Multibanco foi atingido às 12h00 de dia 24, tendo sido registadas 281 movimentos por segundo nas caixas automáticas e nos terminais de pagamento; Lisboa esteve três dias sem recolha de lixo no período de Natal, caso único nas capitais europeias.


 


PENSAMENTOS OCIOSOS - Se há limites temporais para uma série de cargos, porque não há limite para o número de mandatos nos sindicatos de professores e Função Pública e estão lá os mesmos há anos sem fim?


 


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O LABORATÓRIO DA FOTOGRAFIA  - Entre 1982 e 1994 funcionou na Rua Rodrigo da Fonseca a mais importante galeria dedicada à fotografia que existiu em Lisboa - chamava-se “Ether, Vale Tudo Menos Tirar Olhos” e foi criada por iniciativa de António Sena da Silva, figura controversa mas incontornável quando se fala de fotografia em Portugal. Começou por recuperar a memória do histórico livro “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, de Costa Martins e Vitor Palla, inaugurando a exposição “Lisboa e Tejo e Tudo” a 15 de Abril de 1982, com algumas imagens inéditas. Ao longo da sua existência a Ether mostrou no seu espaço ou em exposições que promoveu noutros locais, como Serralves e  Europália 91, nomes como Gérard Castello-Lopes, Paulo Nozolino, Daniel Blaufuks, António Pedro Ferreira, Carlos Calvet, Helena Almeida, José Loureiro, Augusto Alves da Silva, Carlos Afonso Dias ou Mariano Piçarra, entre outros. A Ether era formalmente uma associação sem fins lucrativos e nela participaram, com António Sena da Silva, Alfredo Pinto, António Júlio Aroeira, Leonor Colaço, Luís Afonso, Madalena Lello e José Soudo, na altura quase todos estudantes. Um novo livro “Ether: Um Laboratório de Fotografia e História”, de Susana Lourenço Marques, recorda e enquadra a época e recupera a história da galeria. É uma obra fundamental para perceber como nesses anos muito se modificou na forma de ver a fotografia em Portugal - e nisso, como este livro bem recorda - a Ether teve um papel fundamental.


 


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EMBAIXADA JAPONESA - Neste tempo de omnipresença da China na nossa paisagem económica, cultural e mediática sabe bem ver e retomar a relação com o país com quem, a Oriente, primeiro criámos laços - o Japão. Até final de Março do próximo ano está no Palácio da Ajuda, na Galeria do Rei D. Luís, a evocação dessa relação na exposição “Uma História de Assombro. Portugal-Japão Séculos XVI-XX”, comissariada por Alexandra Curvelo e Ana Fernandes Pinto. Entre  biombos, lacas, cartografia, manuscritos originais e armaduras,  peças de colecionadores particulares, de instituições públicas e privadas, portuguesas e japonesas, várias expostas pela primeira vez ao público, é narrada a história do encontro e reencontro entre Portugal e o Japão ao longo de cinco séculos. Uma história de aproximações, contendas, tratados, arte e diplomacia; de influências na arte, língua, culinária, religião e na história militar. É a segunda vez que o Japão tem honras no Palácio da Ajuda: há pouco mais de 150 anos,o rei D. Luís, recebeu na Sala do Trono os representantes do governo do Japão, que faziam um périplo pela Europa, passando pelos países com quem tinha reatado relações diplomáticas, no caso de Portugal interrompidas então há mais de 200 anos. Os portugueses, recorde-se, foram os primeiros europeus a chegarem ao Japão.


 


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O ALMANAQUE DO JAZZ - O nome de Norman Granz é capaz de não dizer grande coisa para a maior parte dos apreciadores de jazz. No entanto ele teve uma influência decisiva no desenvolvimento deste género musical e na carreira de muitos músicos e cantores. Entre meados da década de 40 do século passado e o início dos anos 60 esteve ligado a editoras como a Verve, a Clef ou a Pablo. Nascido em Los Angeles, fez a tropa durante a II Grande Guerra no departamento do exército americano responsável por organizar espectáculos para os militares. Quando a guerra terminou aproveitou os contactos e a experiência ganhas para organizar noites de jazz em clubes e, sobretudo para arriscar um grande concerto no auditório da Los Angeles Philharmonic, dando início à série Jazz At The Philharmonic com um grupo de músicos que foi variando ao longo dos tempos e que tocaram um pouco por todos os Estados Unidos. Foi com Granz que começou a carreira de nomes como Louis Armstrong, Nat “King” Cole, Ella Fitzgerald, Count Basie,, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Anita O'Day, Charlie Parker, Oscar Peterson, Bud Powell, Buddy Rich, Ben Webster e Lester Young, entre outros. A Verve decidu agora homenagear Granz e editou uma colectânea de quatro CD’s, que se foca no período entre 1942 e 1960. São 44 temas, três horas e meia de música. O primeiro CD, de 1942 a 48, consiste sobretudo de gravações ao vivo; o segundo recolhe registos de 1949 a 1954, com destaque para o nascimento do trio de Oscar Peterson; o terceiro disco (1954 1 957) põe em confronto as vozes de Billie Holiday com a de Ella Fitzgerald e o quarto disco, de 1957 a 1960, explora o melhor do catálogo Verve desses anos. Este é um almanaque de uma idade de ouro do jazz.


 


RESTAURANTES HABITUAIS -  Bem feitas as contas não deve haver mais de uma dezena de restaurantes onde vou com frequência e prazer - e incluo todos os géneros e todas as gamas de preços. A uns vou porque sei que quero determinado prato que ali garantidamente é bom, a outros vou porque gosto de ser surpreendido com alguma novidade. Em todos gosto de escolher e não me agrada que escolham por mim - por isso abomino a mania dos menus de degustação. Há dias em que me apetece só umas entradas bem servidas, que as boas casas aceitam fazer como prato principal - por exemplo os ovos mexidos com túberas do Salsa & Coentros (onde também me delicio com as empadas e o arroz de lebre). No domínio do petisco tradicional poucas coisas batem os pastéis de bacalhau, pequenos, ricos de peixe, fritos no ponto, acompanhados por arroz de pimentos do Apuradinho. Nos dias mais carnívoros o meio bife do lombo grelhado no carvão, mal passado, só com batatas bem fritas, da Cervejaria Valbom é um paliativo revigorante. E se quero bons filetes de peixe galo o Polícia é sítio a ir, assim como para uma posta de garoupa bem grelhada o Manuel Caçador, ao Areeiro, é recomendável. Em matéria de croquetes ninguém bate o balcão do Gambrinus, o mesmo se podendo dizer da sanduíche de carne assada em pão de centeio. Já se quero um bacalhau fresco escalfado, lá vou à Bica do Sapato. Em matéria de pastas italianas a recomendação vai para o Bella Ciao, na Rua de S. Julião, e noutro registo italiano, para o clássico Casanostra. Em todos estes sítios claro que há outros pratos de que gosto - desde as iscas de leitão ao cozido ou à lampreia. Falta-me na lista um sítio com uma sanduíche variada e verdadeiramente espectacular - que continua a ser das coisas mais difíceis de encontrar em Lisboa.


 


DIXIT - “O último trimestre de 2018 fez avultar a sensação de corrida contra o tempo, em busca de metas antes ainda do período eleitoral, que se prolongará praticamente por todo o ano de 2019” - Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República.


 


BOLSA DE VALORES - “100 Years, 100 Artworks : A History Of Modern And Contemporary Art”, de Agnes Berecz,  pré-encomenda na Amazon UK por 28 Libras mais portes. O livro mostra um obra de arte por ano ao longo dos últimos 100 anos, desde 1919.


 


BACK TO BASICS - “Somos aquilo que decidirmos ser” - Ralph Waldo Emerson

dezembro 21, 2018

2018: COSTA GASTOU ONDE NÃO DEVIA E POUPOU ONDE NÃO PODIA

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O ESTADO FALHOU  - Esta é a frase que sintetiza o ano que passou. Por mais que António Costa insista em clamar que só tem êxitos, a realidade mostra o contrário sobre o funcionamento do Estado: falhas nos comboios e em outros transportes, na protecção civil, na coordenação de serviços públicos, nos hospitais, em escolas, na justiça, na segurança, no Parlamento, nos disparates dos novos ministros da saúde e da cultura, nos numerosos casos de cativações que impedem serviços aos cidadãos que os pagaram nos impostos, impostos desviados para folhas salariais em vez de serem aplicados a garantir meios para que mortes sejam evitadas. António Costa vai entrar em 2019 em plena campanha eleitoral para as duas eleições (europeias e legislativas) do próximo ano sem querer  ouvir falar de Tancos e de Borba - dois exemplos do que vai muito mal no Estado a todos os níveis. O líder do PS encontrou uma caixa cheia de guloseimas quando chegou a S. Bento. Tem vindo a dar cabo delas e a deixar apenas os seus invólucros espalhados por onde passa. Da sua governação pode dizer-se que gastou onde não devia e poupou onde não podia.


 


SEMANADA - Em 2016 Portugal ocupava o 14º lugar europeu no PIB per capita, passou a 15º lugar em 2017 e a 16º em 2018; o Banco de Portugal reviu em baixa a previsão do crescimento do PIB este ano; no mês de Outubro os bancos concederam 640 milhões em empréstimos ao consumo; mais de metade do crédito ao consumo já é contratado diretamente nas lojas onde se fazem as compras;  Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que no caso das operações de busca ao helicóptero do INEM “o Estado falhou”; Nuno Sá, deputado do PS, apagou a página do Facebook onde existiam videos e fotografias da sua campanha eleitoral em Famalicão, no dia 12 de Junho de 2017, a mesma data em que foi dado como presente no Parlamento; este ano já se registaram 173 greves na função pública; o turismo já representa 7,5% da economia e em 2019 deverão abrir 69 novos hotéis em Portugal; Lisboa duplicou a taxa turística para dois euros por noite, mesmo para residentes da cidade que precisem de pernoitar num hotel da capital; o diretor de material circulante da CP foi exonerado depois de ter discordado de uma decisão da administração da empresa que , na sua opinião, podia pôr em causa a segurança dos passageiros; o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público acusou o poder político de querer impedir o combate à corrupção.


 


SÓ PARA RECORDAR - Este ano Pacheco Pereira esteve do lado de Rui Rio na eleição para líder do PSD e do lado da Presidente do Conselho de Administração de Serralves no caso da interferência na exposição de Robert Mapplethorpe.


 


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LER AS BARRAGENS  - Em 2006 a EDP deu início ao projecto Arte e Arquitectura nas Barragens, um iniciativa que até agora envolveu o trabalho de José Rodrigues, Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto Moura, Graça Morais, João Louro, José Pedro Croft, Pedro Calapez, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes e Vihls. “Sobre A Paisagem - Arte nas Barragens Portuguesas” é o livro-álbum agora publicado pela editora AMAG e pela EDP e que recolhe  o trabalho fotográfico que André Cepeda foi fazendo sobre a relação entre as barragens, as obras dos artistas e a paisagem. No texto de introdução António Mexia sublinha a importância da intervenção artística nas barragens num país “onde os projectos de arte pública são escassos” e sublinha que “as regiões envolvidas ficam dotadas de um conjunto de artistas conceituados, visitáveis por todos” - no caso nas barragens da Venda Nova, Caniçada, Picote II, Bemposta, Baixo Sabor, Foz Tua e Alqueva. Aurora Carapinha aborda a necessidade da paisagem num texto acompanhado por fotografias de Duarte Belo. Isabel Lucas escreve sobre “A Paisagem É O Grande Acontecimento” onde, pelo meio de conversas com os vários artistas que realizaram obras nas barragens aborda questões como o que distingue a criação para o que é arte pública e para as galerias e como pode uma obra de arte viver numa dimensão tão grande como é a de uma barragem. Já perto do final surge um ensaio de Francesco Careri sobre a obra de Robert Smithson, um artista norte-americano que foi pioneiro na criação de ligações entre a arte e a paisagem e um texto contextualizador dos coordenadores da obra, Nuno Crespo e Luísa Salvador. O livro termina com um portfolio de André Cepeda onde ele próprio faz a interpretação das obras e da sua localização, para além da simples evocação documental.


 


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O ESTADO DA ARTE  - Colocar uma instituição no mapa demora tempo, colocá-la à beira do precipício é coisa rápida: este é o retrato do que aconteceu a Serralves este ano. De Museu de referência pela originalidade das propostas apresentadas foi capturado pelo síndrome de treinador de bancada que percorreu a Administração da Fundação e que a levou a querer mandar e interferir na programação artística. João Ribas, Director Artístico, foi ultrapassado pela Presidente do Conselho de Administração, Ana Pinho. O Director Artístico saíu, e como na cultura o crime compensa cada vez mais, Ana Pinho foi reconduzida atendendo aos serviços prestados na destruição da reputação de Serralves. Este foi talvez o caso mais mediático do ano na área das exposições. No pólo oposto, pelo bom trabalho desenvolvido, destaca-se a actividade da Gulbenkian, nomeadamente a forma como a sua Directora, Penelope Curtis, tem vindo a trabalhar a colecção da instituição, explorando-a e cruzando-a de forma imaginativa - como sucedeu com a exposição “Pós-Pop - Fora do Lugar Comum” (na imagem) e, mais recentemente, “Arte e Arquitectura entre Lisboa e Bagdade” que relembra a exposição levada ao Iraque em 1966 e que incluía nomes como Nuno de Siqueira, Artur Bual, Luís Demée, João Vieira Ângelo de Sousa, José Escada, René Bertholo e Júlio Pomar, entre outros, naquele que foi o núcleo inicial da Colecção desenvolvida pela Fundação Gulbenkian. Finalmente, no MAAT, destaque para apresentação, no Porto primeiro e em Lisboa depois, da colecção Cabrita Reis - “Germinal - O Núcleo Cabrita Reis na Colecção de Arte Fundação EDP”, que pode ainda ser vista até dia 31.


 


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TEMPOS MODERNOS - Há uns anos os discos gravados ao vivo eram editados um tempo depois das digressões em que  tinham sido gravados. Este ano Springsteen deu o sinal da mudança, na realidade um sinal dos tempos: o seu “Springsteen On Broadway”  foi lançado na mesma semana em que a temporada na Broadway terminou e praticamente em simultâneo no Spotify e na Netflix - na Netflix foi disponibilizado cinco horas depois de terminada a derradeira actuação na Broadway. O resultado é um registo de cerca de duas horas e meia  com 35 das suas mais conhecidas canções. Mas não é só um registo de canções - todas em versão acústica, Springsteen sozinho no palco com a sua guitarra e às vezes ao piano, intercalando entre as canções a história da sua vida - desde as primeiras memórias, às lições de guitarra, passando pela cidade onde cresceu (My Hometown), o dia-a-dia familiar, os músicos com quem tocou, as suas primeiras actuações e, claro, o momento em que se tornou um nome incontornável da música popular e do rock há quatro décadas. “I am here to provide a proof of life” - diz ele logo no início das actuações que fez durante 236 dias, ao longo do último ano, até ao sábado passado, no pequeno teatro Walter Kerr, da Broadway com uma lotação de apenas 960 lugares, permanentemente esgotados.  Graças à Netflix é possível ver além do que se ouve no Spotify - um concerto íntimo, uma actuação forte e emotiva. Toda a actuação estava escrita como um argumento, que Springsteen repetiu noite após noite e se isto pode parecer o caminho para a rotina, desenganem-se: não só na interpretação das canções, mas também na forma como contou a sua vida, the Boss mostrou uma capacidade de ligação com o público como acontece nas peças de teatro da Broadway que se repetem noite após noite, na mesma encenação. Os grandes actores vencem a rotina. Além de músico, Springsteen provou ser um actor a representar o seu próprio papel, com uma enorme simplicidade mas também convicção: “That’s how good I am” - dizia ele todas as noites. Esta forma de fazer e registar a música é o acontecimento editorial do ano.


 


INTRAGÁVEIS -  Na restauração lisboeta há uma espécie de triângulo das Bermudas onde desaparece o bom senso e a arte da culinária. As pontas do triângulo são o Princípe Real, o Largo da Misericórdia e o Largo de Camões. Aqui se concentram os restaurantes surgidos da caça ao turista -  pouco cuidado na cozinha, serviço displicente, desprezo pelos clientes nacionais e preços abusivos para a qualidade geral final. Basta passear nesta zona e noutra sua concorrente, na Baixa, na Rua Augusta e suas perpendiculares, para perceber que se perdeu a arte do petisco e cresceu a arte do engano. A maioria destes novos restaurantes importa-se mais com a comunicação do que com a qualidade e o serviço. Muitas das boas tascas que existiam nestas zonas foram sendo substituídas por manjedouras repetitivas e, nos casos em que o nome do local não mudou, tudo o resto foi modificado. Hoje em dia trabalha-se mais para o conceito e o cenário do que para a substância - muitos dos novos restaurantes surgidos nos últimos meses mostram isso e mesmo algumas das boas referências na restauração moderna lisboeta que fez uma época dão sinais de quebra de qualidade. Eu por mim dedico-me sobretudo a procurar boas descobertas em cozinhas étnicas que vão surgindo e em localizar e guardar quem pratica a boa arte da cozinha portuguesa. A propósito recomendo que sigam o blogue “O Homem Que Comia Tudo”, de Ricardo Dias Felner, onde se dão sugestões de confiança nestas áreas.


 


DIXIT - “O Natal, para mim, começa por ser um cuidado com os outros” - Gisela João, fadista.


 


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BOLSA DE VALORES - Em 2018 várias novas galerias de artes plásticas destacaram-se e a Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12 A) foi uma delas. Aqui está uma obra de Tiago Alexandre, Spread #16, que integrou a  sua exposição ”Words Don’t Come Easy” e que está à venda por  3.750 euros (IVA não incluido). A técnica é barra de óleo sobre papel e mede 220 x 150 cm.


 


BACK TO BASICS - “Para o Pai Natal conseguir sempre saber onde estás, se te portas bem ou mal, se estás acordado ou a dormir, deve ser de certeza dos serviços de informação” - David Letterman


 

dezembro 14, 2018

AINDA SE PODE DIZER PELA BOCA MORRE O PEIXE?

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PELA BOCA MORRE O PEIXE - Em Portugal não temos manifestações de multidões vestidas com coletes amarelos e não é por falta de razões: estamos num país onde qualquer dia em vez de comboios voltaremos a ter  carroças, onde em vez de cacilheiros se utilizarão jangadas, um país onde médicos do maior hospital pediátrico se demitem por falta de condições, onde o um porto marítimo fulcral para a economia continua a suicidar-se, onde as greves em serviços essenciais começam a ser mesmo preocupantes. Temos, no entanto, um sistema perfeito de vasos comunicantes bem exemplificado no Orçamento de Estado que acabou de ser aprovado pela frente de esquerda: aumentam-se os gastos do Estado com os seus funcionários, graças ao dinheiro extra que vem da carga fiscal directa e indirecta. A sociedade portuguesa está a criar um funil onde a boca é larga para cobrar mas o tubo de saída é estreito: o que fica de fora do funil são os serviços que o Estado devia assegurar e que são a razão de ser dos impostos. Por aqui continua tudo trocado: os recursos gastam-se para ganhar sossego político em vez de ser para suprir necessidades da população, na Assembleia deputados vigarizam o livro de presenças e votações, no Ministério das Finanças um quadro superior protegido por Centeno está sob suspeita de fechar os olhos a irregularidades. Noutros tempos dir-se-ia que pela boca morre o peixe. Mas começa a ser perigoso usar provérbios destes graças a uns cómicos que acham que falar assim pode ser ofensivo para os animaizinhos e consideram que o tema deve ser debatido no Parlamento. Depois queixam-se que a Assembleia da República tem má imagem.


 


SEMANADA - Até ao final deste ano há 47 pré-avisos de greves em 11 áreas da administração pública, desde a justiça aos hospitais, passando pela inspeção das pescas; a  percentagem de cesarianas realizadas nos hospitais privados é mais do dobro da realizada no Serviço Nacional de Saúde; entre 1 de novembro de 2017 e 31 de Outubro de 2018 o Ministério Público instaurou 3423 inquéritos relativos a crimes de corrupção e crimes conexos; em Outubro, segundo a Marktest, o site noticioso com maior alcance foi o do Correio da Manhã, com cerca de 2,5 milhões de visitantes; segundo o Conselho das Finanças Públicas os gastos das famílias portuguesas com a saúde estão acima da média da OCDE; 1684 euros é o valor que em média cada português gastou em cuidados de saúde em 2017; segundo o Ministério do Ambiente nos últimos dois anos apenas foi retirado amianto em 90 dos 1400 edifícios públicos que estão no plano de remoção daquela substância potencialmente cancerígena; em duas semanas de greve dos enfermeiros prevê-se o adiamento de cerca de  4500 cirurgias; Maria Begonha continua candidata à liderança da Juventude Socialista apesar de ter prestado declarações falsas sobre o seu currículo e da polémica em torno dos contratos que celebrou com autarquias do PS no valor de cerca de 140 mil euros


 


ARCO DA VELHA - O Inspector Geral das Finanças, que integra o Conselho de Prevenção da Corrupção, é suspeito num processo em que se investigam corrupção, peculato e abuso de poder.


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A POESIA IMPRESSA - Eugénia de Vasconcelllos começou a publicar poesia em 2005, com “A Casa da Compaixão” e desde então tem publicado ensaios como ”Cultura Light” ou  “ Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”, contos como “Do Banco Ao Negro” e poesia como “O Quotidiano a Secar em Verso” - que João Mário Silva descreveu como «um meteorito que cruzou o céu da poesia portuguesa»”. Está traduzida em catalão, alemão, sérvio e romeno. Nascida no final dos anos 60, em Faro, Eugénia Vasconcellos elege como poetas favoritos Camões, Walt Whitman e Herberto Hélder . O seu novo livro, “Sete Degraus Sempre A Descer”, percorre etapas do amor, da descoberta à desilusão, do encontro à despedida, entre dúvidas e desejos. Como Eugénia de Vasconcellos escreve logo no primeiro poema do seu novo livro, “A poesia não é coisa das páginas dos livros -/ não se faz na tipografia./ Ainda que seja nas páginas dos livros que/se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel -/ é sempre de amor que se faz um corpo,/ é por amor que um corpo se dá./A poesia é da vida. É de quem tem.”


 


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O PARADOXO CONTEMPORÂNEO - A Galeria Cristina Guerra Contemporary Art exibe, até 4 de Janeiro, uma exposição que reúne 42 obras de arte contemporânea de artistas portugueses e estrangeiros - de Julião Sarmento a John Baldessari, passando por Horácio Frutuoso, Vasco Araújo ou Joseph Kosuth, Ed Ruscha ou Matt Mullican, entre muitos outros. As obras têm proveniências diversas, nomeadamente de colecções particulares e do acervo da própria Galeria e foram agrupadas por Alexandre Melo sob o título “1000 imagens-  uma imagem vale mais que mil palavras”. Existe um ponto comum entre muitas das obras que é a utilização da palavra escrita, seja de forma isolada, seja numa frase. No texto que acompanha a exposição Alexandre Melo sublinha que “a presença das palavras no contexto criativo das artes plásticas é marcante nas vanguardas históricas do início do século XX” para depois esclarecer que o critério de curadoria da exposição foi apresentar “uma grande diversidade de obras realizadas por autores que, cada um segundo a sua sensibilidade e no âmbito da sua linha de pesquisa, deram um lugar de destaque às palavras, e assim nos dão, a nós próprios, a possibilidade de pensar e decidir qual o valor e a atenção que queremos, ou não, continuar a conceder às palavras”. Esta reflexão está enquadrada numa época em que as imagens se banalizaram e a sua utilização se globalizou e multiplicou - e por isso este confronto das palavras com a imagem se torna interessante. Mas, ao mesmo tempo, a montagem da exposição evidencia um paradoxo que por vezes se torna repetitivo na arte contemporânea - e que passa por viver de uma teoria e da sua sublimação,  mais do que de uma emoção ou de um acto de comunicação. Evidenciar este paradoxo é a marca destas “1000 imagens”.


 


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UMA ESTRELA NO FADO - Carminho está  a fazer um dos mais interessantes percursos artísticos entre as fadistas da sua geração e mistura o fado que conviveu com ela toda a vida (a mãe é a fadista Teresa Siquiera) com outros géneros musicais e nomeadmente a música brasileira. Sinal disso é ter já gravado nos seus quatro discos anteriores duetos com Chico Buarque, Milton Nascimento, Marisa Monte e Nana Caymmi. O seu quarto disco é aliás inteiramente dedicado à obra de Tom Jobim e é, também, uma prova da versatilidade da sua interpretação. “Maria”, agora editado, é o seu quinto álbum e marca um regresso ao território musical de origem - o Fado. Carminho envolveu-se mais do que é costume na produção e escreveu várias das canções que interpreta naquele que parece ser o disco mais pessoal da sua carreira . A concepção dos arranjos e a escolha de instrumentos (desde a tradicional guitarra de fado à guitarra eléctrica) mostra que a ousadia de Carminho não se manifesta só na sua forma de cantar, mas também na abordagem musical que concretiza. A guitarra portuguesa esteve a cargo de Bernardo Couto, José Manuel Neto e Luis Guerreiro, a viola de fado é de Flávio César Cardoso, no baixo acústico esteve José Marino de Freitas, no piano João Paulo Esteves da Silva e na guitarra eléctrica Filipe Cunha Monteiro  - aliás Carminho também toca guitarra eléctrica no tema “Estrela”, por sinal um dos melhores do disco. É muito interessante o contraste que Carminho consegue criar entre as suas composições originais (nomeadamente “Mulher Vento”” e “Estrela”), a interpretação de clássicos (como “O Começo”, de Pedro Homem de mello e Acácio Gomes), tradicionais (como “Sete Saias” de Artur Ribeiro) ou a abordagem a “As Rosas” (de Joana Espadinha). CD Warner.


 


SABORES LIBANESES -  A zona do Princípe Real levanta-me a maior reserva em termos de restaurantes. Não tenho tido boas experiências, sobretudo no atendimento que parece penalizar quem não é turista. Mas recentemente tive uma boa surpresa num novo espaço que nasceu num local onde antes existia um desses restaurantes o, no caso o Prego da Peixaria. O Sumaya - Mesa Libanesa tem um acolhimento simpático, um serviço atencioso e os empregados sabem explicar o que é cada prato deixando os clientes decidirem por si. Há combinados que juntam várias especialidades ou pode seguir-se o menu e ir pedindo. A comida libanesa apela à partilha de petiscos (mezze), portanto a ideia é pedir várias coisas e ir partilhando e saltando de uma para outra. Veja na lista os mezze frios e quentes, pegue no pão achatado que lhe colocam na mesa e vá fazendo experiências. Numa recente visita a escolha recaíu sobre Labneh (iogurte  com tomilho, azeitonas e hortelã), Baba Ghanouj (uma pasta  de beringela com tahini, limão e romã ),  Fatayer (empadas de espinafre com limão e azeite) e Makanek  (salsichas caseiras cozinhadas num molho de romã com pinhões). Há vinhos libaneses, mas também portugueses e, na circunstância, optou-se por um Catarina a copo. A sobremesa vai variando todos os dias mas na altura veio um  Mohalabie, uma espécie de panna cotta libanesa que leva pistácios aos pedaços e fez um bom contraste de sabores com o resto da refeição.  Sumaya - Mesa Libanesa - 213470351, reservas@sumaya.pt, Rua da Escola Politécnica 140


 


DIXIT - “Não podemos ir além do limite, sob pena de que PSD e CDS se fiquem a rir de nós e digam que tinham razão” - António Costa, no Parlamento, sobre o Orçamento de Estado para 2019.


 


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BOLSA DE VALORES -  Claudia Fischer expõe na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho, 71, RC, Esq ) a obra Spatien #8, 2018, impressão sobre papel, edição 1/3 emoldurada, com a dimensão 26x73 cm, por 750 euros (IVA de arte incluído).


BACK TO BASICS - “Nunca devemos interromper o inimigo quando ele está a fazer um erro” - Napoleão Bonaparte