fevereiro 19, 2016

DO CAOS LISBOETA AO CAOS NO PAÍS - A CONSISTÊNCIA DE UMA LINHA POLÍTICA

Esta semana as semelhanças entre o caos que a Cãmara Municipal se prepara para instalar em Lisboa e o caos instalado no Orçamento de Estado - com uma semelhança : nem Costa foi eleito Primeiro Ministro, nem Medina foi eleito Presidente da Câmara. Coincidências nascidas na interpretação que este PS faz do sentido de voto nas eleições.


 


HABILIDOSOS - No meio das desgraças que assolam Lisboa fiquei a saber que a grande preocupação do presidente não eleito da autarquia,  Fernando Medina, é descobrir o que fazer à Moda Lisboa, que vai estar na Praça do Município, no dia da tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, o qual gostaria de patrocinar uma festa no local, nessa ocasião, para celebrar a sua investidura. Reparei agora que estamos perante uma conjugação interessantíssima de factores - em São Bento temos um Primeiro Ministro que não ganhou em eleições e que deixou na Câmara Municipal de Lisboa, para lhe suceder, um seu correlegionário que também não ganhou eleições para o cargo que ocupa. Deve ser uma coisa nova da malta do PS - conseguir estar no poder, de forma habilidosa, à revelia dos resultados eleitorais. Enfim, já se sabe que o mundo é feito de mudança. O pior é que Medina resolveu dar cabo do sossego aos lisboetas e começou uma série de obras que prometem o caos para durante a sua existência e depois da sua conclusão. Os vereadores Salgado e Medina estão a querer ser réplicas contemporâneas do Marquês do Pombal mas a verdade é que se assemelham mais a réplicas do terramoto. Já está à vista o resultado dos desvarios na Avenida da Liberdade - maior concentração de trânsito e maior poluição, ao contrário do que se apregoava. Vai ser assim no resto, sobretudo no tal eixo central. Mas o pior de tudo é que, para esta gente, a comodidade de quem vive na cidade não interessa para nada. Apenas interessa arranjar o jardim para os visitantes passearem. É sabido que nos anos de Costa o centro da cidade perdeu habitantes, que muito comércio tradicional foi encerrado, que os lisboetas perderam qualidade de vida. É muito engraçado, embora pouco realista, querer fazer-se uma cidade contra o automóvel, mas à autarquia sabe-lhe bem cobrar os impostos de circulação e os estacionamentos, mantendo transportes públicos ineficazes. Que nome dar a quem ocupa o poder para fazer obras em interesse próprio e  em desrespeito pelo interesse colectivo?


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SEMANADA - António Costa mandou os Ministros falar com o PS pelo país fora no fim de semana passada, a explicar o que o Governo anda a fazer; o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desdobrou-se em entrevistas e assustou meio Portugal com o que disse sobre o imposto sucessório;  António Costa fez videos a explicar as contas do orçamento - não sei bem em qual das versões das contas se baseou; a ideia dos videos governamentais no YouTube é boa como conceito de propaganda, só que o actor é péssimo; fiquei a ver um dos videos convencido que estava a ver um daqueles canais de compras que passam de madrugada a vender bruxedos; um amigo meu diz que o Costa, nos videos, parece aqueles spots dos canais regionais de televisão norte americanos com vendedores de carros em segunda mão a fazerem contas provando que vendem mais barato que os outros; os videos fizeram-me pensar se António Costa não estaria a querer ser o Chavez da Europa em versão tecnológica; no resto da pátria está tudo tranquilo;  Passos Coelho inaugurou uma escola - de repente pensei que era notícia antiga mas não, foi mesmo desta semana; Mário Centeno anunciou que vai injectar mais 567 milhões de euros no defunto BPN; um amigo meu diz que Mário Centeno é parecido com Zé Colmeia, uma figura de banda desenhada que gosta de ir ao pote do mel; outro diz que, com as confusões do Orçamento, António Costa parece um daqueles condutores que entram em sentido contrário numa auto.estrada e começam a barafustar contra quem vem contra ele.


 


ARCO DA VELHA - Este orçamento já vai em três versões - uma que foi para Bruxelas, outra que foi feita depois para cá corrigindo o que Bruxelas achou excessivo, um rol de erratas que corrigia diversas coisas e finalmente mais umas rectificaçõezitas sobre uns mapas que estavam com numeros um bocadinho errados.


 


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FOLHEAR - Quando leio um livro como “M Train”, de Patti Smith, interrogo-me sobre o sentido da vida e sobre o que algumas pessoas, cuja obra admiramos, dela fazem. O livro anterior de Patti Smith, “Just Kids”, apesar de relatar os anos 70 em New York e a relação de Patti com Robert Mapplethorpe, parece uma reportagem num jardim escola quando comparado com este “M Train” - o relato da vida e da cumplicidade que ela desenvolveu com Fred “Sonic” Smith, o guitarrista dos MC5, um dos génios da guitarra eléctrica, desaparecido prematuramente em 1994. Patti Smith E Fred viveram, tiveram filhos, fizeram música e viagens. Este livro é o relato de uma paixão e de uma cumplicidade, do que fizeram e do que ficou por fazer, das viagens que ela ainda faz pensando em Fred, das suas obsessões, dos seus hábitos e rotinas, mas é sobretudo uma viagem ao processo criativo de uma artista marcante da sua geração. Não é nem uma biografia nem uma memória - é um ensaio sobre o dia-a-dia. E é um dos melhores livros que se pode ler para perceber o que vai dentro da cabeça de uma artista cheio de talento. (Edição Bloomsbury, na Amazon).


 


 


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VER - Recomendações para esta semana: na Galeria Belo-Galsterer a exposição colectiva “PAPERWORKS III - Paisagem sem Paisagem”, com C. B. Aragão, Claudia Fischer, João Grama e Marta Alvim (Rua Castilho 71, r/c esq); na Pequena Galeria (Av 24 de Julho 4c), a exposição RETRATOS, dos fotógrafos Marilene Bittencourt e Fernando Ricardo; “AS PALAVRAS”, assemblages de José Pinto Correia, na Corclínica, Campo Grande 28 - 2º-C; mas o meu destaque, embora tardio, vai para  a belíssima exposição “MÃOS”, de Teresa Dias Coelho, na Galeria Monumental, que encerra já neste sábado dia 20 - a partir das 16h00 desse dia tem uma finissage, aproveite para ir ao Campo dos Mártires da Pátria 101 ver outras obras como esta que aqui se reproduz.


 


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OUVIR - Este segundo disco do saxofonista Charles LLoyd para a Blue Note tem o feeling dos blues, a descoberta de temas originais do próprio Lloyd, o encanto de algumas versões e a perenidade de tradicionais folk. Se o saxofone é a imagem de marca do disco, o retoque da diferença é dado pelas guitarras de Bill Frisell e Greg Leisz, sobretudo a do primeiro. Nas versões destaco “Masters Of War”, de Dylan, onde as guitarras estão em primeiro plano, a versão de “Last Night I Had The Stangest Dream”, um original de Ed McCurdy que aqui conta com a participação especial de Willie Nelson e de “You Are So Beautiful”, de Billy Preston, aqui interpretado por Norah Jones. Se escolher um dos originais vou para o tema final, “Barche Lamsel” e se escolher um dos tradicionais vou para “Shenandoah”, onde Frisell mostra todo o seu talento na guitarra. Este é daqueles discos onde se percebe que todos os participantes tiveram mesmo gôzo em tocar. Uma belíssima supresa este “I Long To See You”- Charles Lloyd & The Marvels, edição Blue Note/Universal - claro que com uma mãozinha de Don Was na produção.


 


PROVAR -  Frequentemente gosto de comer sózinho, ao almoço, sentado, na calma, a ler uma revista e ás vezes, hoje em dia, a folhear no iPhone o Flipboard ou outra aplicação do género. Mas o que mais gosto mesmo nesses momentos é ficar a olhar à minha volta . o movimento da sala, os clientes, os empregados. Tenho, deste ponto de vista, saudades das Galerias Ritz, onde se podia ficar sentado ao balcão em algumas posições estratégicas que dominavam a entrada e permitiam ter uma boa visão das coisas. E, para o género, a comida era boa. A única sala que ainda permite isto hoje em dia é o Galeto, um bastião da tradição do snack bar e talvez o restaurante lisboeta que junta maior numero de clientes solitários regulares, sobretudo à noite - e continua a servir até tarde. Hoje vou lá pouco nesse horário, mas volta e meia gosto de lá ir ao almoço. A comida é mediana, mas sem sobressaltos, o balcão é confortável - um bom balcão sentado como há poucos hoje em dia em Lisboa. O bife à Galeto não engana com as suas batatas fritas semi sintéticas, o ovo a acavalo bem estrelado e um esparregado com uns torneados incomparáveis. Continua a ter combinados, que convivem com alheiras e outros petiscos como iscas à portuguesa. Pronto - isto é mesmo vício de ficar a devanear enquanto se petisca e se faz uma viagem ao passado - às vezes parece que de repente entrámos nos anos 70. Galeto - 213 544 544, Avenida da República 14, das 07h30 ás 03h30.


 


DIXIT - “Está toda a gente a querer fazer desaparecer Cavaco Silva, a fazer de conta que já não existe” - Joaquim Aguiar sobre as audiências que o presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa, tem realizado com protagonistas governamentais e políticos.


 


GOSTO - Das lojas antigas de Lisboa


 


NÃO GOSTO - Da destruição das lojas antigas de Lisboa


 


BACK TO BASICS - “Estudem o passado se quiserem definir o futuro” - Confúcio


 

fevereiro 12, 2016

SOBRE A ACTUALIDADE DA POESIA DE BRECHT NA CONJUNTURA COSTISTA

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POESIAS - Estava eu a ouvir Mário Centeno no debate parlamentar desta semana e lembrei-me de um poema de Bertolt Brecht, que começa assim: “Todo os dias os ministros dizem ao povo/Como é difícil governar. Sem os ministros/O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima”. É a segunda vez, em poucos dias, que Brecht me vem à memória. A primeira foi depois desse momento sublime dos conselhos de António Costa, quando recomendou que não se andasse de automóvel, que não se fumasse, estabelecendo regras de bom comportamento. Pensei nessa altura que, por este andar, qualquer dia vai estar a dizer-nos outras coisas que podemos ou não fazer. Ou dizer. E vai daí lembrei-me deste poema, também de Brecht:


“Primeiro levaram os negros


Mas não me importei com isso


Eu não era negro


 


Em seguida levaram alguns operários


Mas não me importei com isso


Eu também não era operário


 


Depois prenderam os miseráveis


Mas não me importei com isso


Porque eu não sou miserável


 


Depois agarraram uns desempregados


Mas como tenho o meu emprego


Também não me importei


 


Agora vierem buscar-me


Mas já é tarde.


Como eu não me importei com ninguém


Ninguém se importa comigo”.


 


SEMANADA - Os automobilistas portugueses vão pagar mais 580 milhões de euros este ano; um Renault Mégane é proporcionalmente mais penalizado na nova fiscalidade automóvel que um Lamborghini e os veículos híbridos e eléctricos ficam a perder no novo OE; os técnicos da Unidade Técnica de Apoio Orçamental do Parlamento alertaram para a “elevada incerteza” das estimativas na proposta de Orçamento; Mário Centeno considerou, numa entrevista, que “quem tem 2000 euros de rendimento tem uma posição privilegiada”; metade da consolidação orçamental vem do lado da receita, a despesa continua impune; as gorduras do Estado aumentam 8,6%, ou seja 912 milhões de euros, e batem novo recorde; há 20 mil casos de propinas em atraso em quatro universidades, sendo que a de Coimbra lidera a lista; enquanto estava na oposição António Costa passava a vida a acusar o Governo de ser obediente em relação a Angela Merkel, mas a verdade é que, como Primeiro-Ministro, Costa conseguiu arranjar pretexto para ir ouvir Merkel antes de fechar o processo do Orçamento de Estado; apesar de todas as medidas da CML, tomadas ainda no tempo de Costa, o trânsito na Avenida da Liberdade aumentou 30% em apenas um ano, ao contrário das previsões anunciadas; extrapolamos a eficácia das suas previsões lisboetas para a matéria orçamental?; no último ano duplicou o número de pedidos de asilo político em Portugal, sobretudo de cidadãos da Ucrânia, Mali, China e Paquistão; os turistas chineses gastam em média 600 euros em compras quando visitam Portugal; 65% dos médicos trabalham no Serviço Nacional de Saúde; nenhum hospital público do Norte tem médicos especialistas à noite; em quatro anos saíram do país mil médicos; mais de meio milhão de portugueses não sabe ler; antes de sair de Belém, Cavaco vai condecorar Vitor Gaspar - que mal frequentadas andam as condecorações nacionais.


 


ARCO DA VELHA - Um estudo da OCDE aponta que Portugal é o quarto pior país para se trabalhar, apenas ultrapassado pela Turquia, Espanha e Grécia.


 


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FOLHEAR - “A Ilha do Tesouro” - Há muito tempo que não pegava neste livro. Literalmente, há décadas. E, no entanto, foi um dos meus livros do início da juventude - via-o como o supra sumo dos livros de aventuras. Foi a época em que devorava histórias de piratas umas atrás das outras e que nem sonhava que um dia Indiana Jones havia de tomar conta da minha imaginação. Razão tinha Robert Louis Stevenson, o autor de “A Ilha do Tesouro” quando disse que “a ficção é para o homem adulto o que o brinquedo representa para a criança”. Folheio esta nova edição e vou-me recordando de tudo o que vivi, sonhando a ler este livro -desde os mistérios da arca do marinheiro aos enigmas do mapa do tesouro, e até aos feitos do insuperável Capitão Silver. “A Ilha do Tesouro” foi o primeiro romance de Robert Louis Stevenson e foi o livro que mais fama lhe trouxe. Fiquei fascinado ao redescobri-lo na nova edição da Guerra&Paz, com belíssima tradução de Rui Santana Brito. Na nota de contra-capa o editor diz, com razão, que “esta é a mais popular história de piratas de todos os tempos”. Se Stevenson fosse nosso contemporâneo não lhe havia de faltar matéria prima para falar sobre piratas, olhando para o que se tem passado em Portugal.


 


Andrei Rublev (1966)


VER - Hoje não falo de exposições. Venho apenas recomendar um ciclo de cinema, dedicado à obra do cineasta Andrei Tarkovsky, amaldiçoado por Brejnev e pelo regime soviético, e o maior realizador russo depois de Sergei M. Eisenstein. Este ciclo começa exactamente pelo filme “Andrei Rublev”, que foi a causa da irritação de Brejnev, que manteve o filme proibido de ser exibido na então União Soviética até 1971, acusando-o de mostrar uma visão deturpada da História. O ciclo começou ontem, quinta-feira, no Nimas, em Lisboa, e tem também programação no Porto a partir de dia 12, no cinema Campo Alegre. Além de “Andrei Rublev” (cartaz original na imagem) o ciclo, que se estende até ao início de Março, inclui a longa metragem de estreia “O Pequeno Ivan” (que ganhou um Leão de Ouro em Veneza), “Solaris” (de 1972), “Stalker” (de 1979), “O Espelho” (de 1975), “Nostalgia” (de 1983) e o derradeiro “O Sacrifício” (de 1986). A programação pode ser encontrada no site da Medeia Filmes(http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-cinema-russo-andrei-tarkovsky-espaco-nimas/) e inclui também a curta-metragem “O Rolo Compressor E O Violino”, que foi o trabalho de fim de curso do cineasta e que é exibido nos mesmos dias que “O pequeno Ivan”.


 


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OUVIR - O pianista norueguès Tord Gustavsen é responsável por um dos melhores discos dos últimos anos, “The Well”, de 2012. Interpretado com o seu quarteto, “The Well” teve uma sequência lógica em “Extended Circle”, editado dois anos depois. Entretanto Gustavsen sentiu necessidade de sair do caminho que tão bem tinha trilhado nesses dois discos e regressou à ideia de um álbum onde músicas e palavras se completassem, como já tinha feito no início da sua carreira. Com uma extraordinária cantora, meio alemã, meio afegã,  Simin Tander, fez um CD de canções simples, maioritariamente com temas tradicionais e de raízes religiosas. Aqui estão textos da tradição popular norueguesa, versões inglesas de escritos do século XIII do poeta e místico persa Rumi, mas também o célebre”I Refuse” de Kenneth Rexroth, um poeta da Beat generation. Além de Tord Gustavsen no piano, teclados e baixo sintetizado, e da voz de Simin Tander, o baterista Jaris Vespestad completa a formação que fez este ”What Was Said”, o CD gravado em meados de 2015 e editado em Janeiro deste ano pela ECM. Na Amazon.


 


PROVAR -  Como os meus leitores hão-de já ter reparado ando um pouco enfastiado com os chefs portugueses. Diria mesmo que vai sendo altura de substituir a adoração aos chefs pelo elogio aos restaurateurs - os criadores de restaurantes, os que pensam no seu conceito, na sua arquitetura, no tipo de serviço que querem prestar, na clientela que querem conquistar, em quem se vai ocupar da cozinha e na comida que pretendem servir, bem entendido - ou seja, pensam nos clientes antes de pensarem na sua própria glória. Um restaurador - para usar o termo português (que se presta a alguma confusão) é aquilo a que no linguajar contemporâneo se poderia chamar um curador de comensais. Às vezes são eles próprios chefs, mas não se põem em bicos de pés. Já houve tempo em que havia alguns restauradores dignos de nota, agora a coisa é mais escassa na nova cultura ditada pela moda dos balcões dos mercados virados tascas modernaças - que sinceramente é um conceito que me irrita. Mas voltemos aos restauradores. Há em Lisboa um que merece destaque - é nepalês, veio para Portugal no final dos anos 90 e conseguiu criar ambientes especiais. Chama-se Tanka Sapkota, dedica-se à comida italiana que estudou com afinco e não hesita em fazer  experiências. É conhecido pela qualidade das suas pizzas napolitanas, mas não hesita em misturar massas tradicionais com, por exemplo, perceves ao lado de camarões da costa. E faz isso com tanto à vontade como é dos raros a servir trufa branca na estação e a incluir generosas lâminas de trufa negra nas suas pizzas. Depos de várias casas alheias, a começar pela antiga Trattoria, o Come Prima foi a sua primeira grande experiência e agora tem também o Forno d’Oro, onde dantes era o Mezzaluna. Mas é o Come Prima que merece mais atenção pelos pormenores da decoração, pelo espaço, pelo ambiente e pela qualidade da confecção. O próprio Tanka Sapkota está nas salas dos seus restaurantes, fala com os clientes, permanece atento, como um bom restaurador deve fazer. O Come Prima fica na Rua do Olival 256,  e tem o telefone 213 902 457.


 


DIXIT - “Estou convencido de que queriam evitar que eu apresentasse a minha candidatura à Presidência” - José Sócrates, explicando a sua detenção em entrevista a um jornal holandês.


 


GOSTO - As exportações portuguesas cresceram 33% nos últimos cinco anos.


 


NÃO GOSTO - Um terço dos parlamentares portugueses concilia a sua actividade enquanto deputados com actividades na advocacia ou na consultoria, o que potencia conflitos de interesse - denuncia um relatório do Conselho da Europa.



BACK TO BASICS - É muito perigoso querer ter razão quando o Governo está errado - Voltaire

fevereiro 05, 2016

ENCALHANÇOS, TEORIAS, INJUSTIÇAS, FILMES & PETISCOS

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ENCALHADOS - O PS tem uma tradição matemática  simples: primeiro gasta-se, depois logo se vê. Foi assim com o agora louvaminhado Guterres, foi assim até ao extremo com Sócrates e está a ser assim com Costa, independentemente da reconhecida capacidade de vendedor de tapetes voadores que tem demonstrado. Como temos visto em anos recentes a receita do PS é criar condições para o Estado aumentar a dívida - e os contribuintes é que a pagam sempre. Como se tem visto nos últimos dias, o PS gosta da Europa que lhe dá dinheiro, mas não gosta mesmo nada da que lhe estabelece regras quanto aos gastos e ainda menos da que cobra dívidas. O PS, em geral, acha as dívidas uma falsa questão; já o Bloco prefere esquecê-las e o PC ignorá-las. A coligação tem um ponto comum nisto: venha o dinheiro, não me falem em obrigações. Este é o lema do cimento ideológico que sustenta Costa. Na realidade estes meses de governação vêm mais uma vez provar que a utopia esbarra na realidade - mais uma vez as promessas ficam no saco dos votos perdidos e os impostos voltam a cair maioritariamente na classe média. Permito-me recordar que os anos de austeridade do anterior Governo se traduziram numa queda do défice público de 11,2 por cento do PIB registado em 2010, para 3 por cento do PIB em 2015 . Já agora para os que dizem que a dívida do Estado foi feita nos anos da troika e não antes, recordo que no período de austeridade a subida foi de apenas 11 por cento do PIB, enquanto entre 2005 e 2011, no consulado do PS com Sócrates, foi de 58 por cento do PIB. E assim, de gasto em gasto, lá vamos continuando encalhados. Coisas…


 


SEMANADA - Depois de ter dito que não mexia no Orçamento por imposição de Bruxelas, o Governo começou a fazer ajustamentos; atirou-se aos consumos ligados aos hábitos individuais - nos impostos sobre combustíveis e sobre automóveis, que já são dos maiores em toda a Europa; a ideia de que o Governo não iria aumentar impostos está a revelar-se uma partida de Carnaval; Bruxelas queria um corte adicional de 500 milhões no Orçamento; O Ministro do Planeamento e Infra-estruturas anunciou que o Governo quer investir 450 milhões em novas obras públicas; no meio da discussão orçamental Costa vai oportunamente a Berlim falar com Angela Merkel e a sua agenda diz que o tema da conversa será a crise dos refugiados; Passos Coelho vai recandidatar-se à liderança do Partido Social Democrata e a sua grande definição ideológica e estratégica é, depois de anos a defender o neo-liberalismo, afirmar-se com o slogan “Social Democracia Sempre; o desemprego em Portugal é o quarto maior da zona Euro; o regresso das 35 horas semanais vai provocar um aumento de custos nas áreas onde se trabalha por turnos; em 2015 a GNR registou 2300 crimes graves feitos através da internet; Cavaco Silva condecorou com a Grã Cruz da Ordem da Liberdade António Guterres, o Primeiro Ministro que se pôs ao fresco quando a situação se começou a complicar em Portugal; na mesma ocasião Cavaco Silva recomendou Guterres para secretário-geral da ONU e Guterres mostrou-se desiludido com a Europa; depois de anos a queixarem-se que o IVA era o pai de todos os males na restauração, a Associação do sector apresentou um estudo por si patrocinado onde afirma que a descida do IVA não resolve os problemas da restauração.


 


ARCO DA VELHA - Um tribunal de Coimbra condenou um homem de 71 anos a dois anos e três meses de pena suspensa por abusar sexualmente  de um neto, que tinha quatro anos à altura do crime, e uma juíza de Lisboa mandou deter um cidadão por ter inadvertidamente faltado a um depoimento sobre um assalto à sua própria casa. Que avaliação podem estes dois juízes ter?


 


As Direitas na Democracia Portuguesa


 


FOLHEAR - Os dias que correm são particularmente adequados para se ler um livro recente intitulado “As Direitas Na Democracia Portuguesa”. A edição foi coordenada por Riccardo Marchi, um investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e inclui onze estudos que abordam a evolução da direita nos últimos 40 anos. Gostaria de destacar o trabalho de António Araújo sobre os intinerários socioculturais da direita portuguesa, o trabalho de Ana Sofia Ferreira sobre a evolução das ideologias políticas do PSD e do CDS-PP, o excelente”As Direitas, o Estado e as Igrejas” de Luis Salgado de Matos, o trabalho do próprio Marchi” “À Direita da Direita: O Desafio da Extrema Direita à Democracia Portuguesa”, a contribuição de Manuel Monteiro, um ex-líder do CDS-PP sobre a organização que dirigiu e, sobretudo  o trabalho de Andrè Freire e Sofia Serra Silva sobre “A Opinião Pública de Direita, antes e depois da crise de 2008”. Recomendo que o próximo candidato a líder da oposição a Costa leia bem este capitulo. A edição é da Texto, grupo Leya.


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VER - Sugiro um programa para o fim de semana: uma visita à Ilustrarte, a VII Bienal Internacional de Ilustração para a Infância que até 17 de Abril vai estar no Museu da Electricidade. Esta edição da Ilustrarte atribuíu o primeiro prémio à espanhola Violeta Lópiz, que ilustrou o livro “Amigos do Peito” do brasileiro Cláudio Thebas (na imagem). No Museu da Electricidade estão mais de 150 ilustrações, feitas por meia centena de artistas, seleccionados de entre 1700 inscritos, de mais de sete dezenas de países. Portugal está representado por trabalhos de Teresa Lima, Catarina Sobral, Joana Estrela e Daniel Moreira. Edições anteriores da Ilustrarte registaram entre 25 a 30 mil visitantes. O artista convidado desta exposição é o francês Serge Bloch, um dos mais destacados ilustradores contemporâneos. Finalmente esta edição inclui uma exposição dedicada à obra de Alice Vieira, , uma das mais importantes escritoras portuguesas para a infância e juventude. O preço da entrada é 2 euros e reverte para a campanha Unicef- Crianças Sírias.


 



OUVIR - Há cerca de 30 anos que Ennio Morricone não compunha temas para uma banda sonora de um western. Actualmente com 87 anos, Morricone pode gabar-se de ter sido, desde os tempos em que compunha para os western-spaghetti de Sergio Leone, uma das influências maiores de vários grupos de rock. O facto é cabalmente demonstrado aqui pelo clássico dos White Stripes, um original de 2000,  “Apple Blossom”, que encaixa que nem uma luva no meio dos temas orquestrais de Morricone para Hateful Eight . Só mesmo Quentin Tarantino, na sua versão de DJ sem barreiras,  se podia lembrar de juntar a banda de Jack White ao génio de Morricone. Vale a pena sublinhar que por aqui também passa Roy Orbinson no magnífico ”There Wont’t Be Many Coming Home”, vários momentos de diálogo do filme, e uma canção popular australiana, muito bem interpretada, como Jennifer Jason Leigh a canta na película. Produtor assumido desta banda sonora, Tarantino, que nunca tinha feito uma banda sonora integral para nenhum dos seus filmes, aproveitou a deixa que em tempos Morricone lhe deixou, ao dizer que já não encarava trabalhar com ele. Pois aqui está - e mesmo sabendo que alguns dos temas são reaproveitamentos nunca antes usados de composições feitas para um filme de John Carpenter (“The Thing”), o génio de Morricone domina. Aqui está. Estreado esta semana em Portugal sob o título escasso “Os Oito Odiados” , vale a pena ter o disco para saborear as memórias do filme quando se chega a casa. CD Decca/Universal.


 


PROVAR -  Há restaurantes que investem mais em comunicação e em relações públicas que na simpatia do atendimento. Gostam de criar a ideia que estão na moda, ter filas, recusam reservas e têm empregados a dizer com ar arrogante “no mínimo vai ter uma espera de 45 minutos”. Cada vez gosto menos de restaurantes da moda, de chefs que se copiam uns aos outros sem ter em conta um tema básico, que é bem servir o cliente. Às vezes leio que num restaurante o espectáculo é tão importante como a comida. Nada é tão importante como o bom atendimento, o conforto e a qualidade do que se apresenta à mesa. Por isso estas linhas de hoje são dedicadas a restaurantes que não estão em locais da moda, que têm comida bem confeccionada a partir de boa matéria prima, que são hospitaleiros e praticam preços honestos. É quanto basta. Sexta feira passada em boa hora constatei que um dos locais da moda, no Principe Real, de origem italiana, enxotava quem não quisesse ficar numa longa fila e dirigi-mo-nos ao velho Comida de Santo onde fomos bem recebidos, estivemos muito confortáveis e comemos uma belíssima feijoada à brasileira, baseada na tradição e sem modernices, acompanhado de um vinho da casa, do Dão, muito equilibrado. No domingo, a seguir, aproveitando o bom tempo, quis ir perto do mar e recordei-me que em tempos era fiel cliente do Carula, em Paço de Arcos. A casa continua a receber bem - o dia era de sedutor cozido, mas ficámo-nos no robalo, que estava óptimo, acompanhado por umas couves saborosas. Foi antecedido por uma pasta de sapateira e gambas igualmente muito boa. Resumo: a Comida de Santo e o Carula são dois locais onde tenho ido menos do que devia - porque são restaurantes que sabem que a amabilidade da tradição é bem melhor que a arrogância do sucesso. Comida de Santo , Calçada Engenheiro Miguel Pais 39 (à Rua da Escola Politécnica, em Lisboa), telefone 213 963 339; Carula, Rua Costa Pinto 41, Paço de Arcos (é a mesma rua do Hotel Paço dos Arcos-Vila Galé, à Marginal) telefone 214 432 206.


 


DIXIT - A nossa doméstica esquerda pós-moderna confunde a bruta e fera realidade, onde se joga o destino pessoal e coletivo de 10 milhões de portugueses, com um teste à sua boa consciência. Nem a tragédia do esmagamento da Grécia do Syriza lhe parece ter ensinado a perceber a desagradável diferença entre virtude e razão de Estado” - Viriato Soromenho Marques


 


GOSTO - O diário britânico The Guardian considerou o Hot Clube um dos dez grandes locais para ouvir jazz na Europa.


 


NÃO GOSTO - Numa sondagem realizada pela Win Gallup International Portugal está entre os 13 países menos felizes, com 5% a considerar-se muito feliz, 45% feliz, 39% nem feliz nem infeliz, 9% infeliz e 1% muito infeliz.


 


BACK TO BASICS - A finança é a arte de passar dinheiro de mão para mão até que finalmente desapareça - Robert W. Sarnoff

janeiro 29, 2016

O QUE TEMOS, O QUE NOS FALTA E O QUE NOS APETECE - DESABAFOS & SUGESTÕES

PRONTO - Temos Presidente, temos Governo, falta é claro conseguirmos ter Portugal. Não vou apelar ao bom senso do Governo porque as recentes declarações sobre o Orçamento e o défice provocam-me arrepios, assim como os aumentos de despesa prometidos em declarações de muitos ministros, sem saber como as vão cobrir num Orçamento que é feito a partir da base zero. De maneira que dedico estas linhas a duas questões que penso poderem ser reformas marcantes e que só podem nascer de uma colaboração entre os vários orgãos de soberania e as diversas forças políticas. Em primeiro lugar o Banco de Portugal: desde há anos que está quase tudo mal naquelas bandas, como comprova o rol de acontecimentos no sistema financeiro. Ao longo das últimas décadas o Banco de Portugal transformou-se num Estado dentro do Estado e numa parideira de Ministros das Finanças, a maior parte dos quais com resultados catastróficos para o país. Ou a escola é má, ou a inconsciência é total. Seja como fôr há que mudar o Banco de Portugal, o seu papel, controlar a sua actuação e sobretudo evitar que ele tome o freio nos dentes para depois se pôr a assobiar quando atira a carruagem para o abismo. Em segundo lugar vem a reforma do sistema político, a reforma das leis eleitorais, a actualização séria dos cadernos eleitorais, decisões sensatas sobre a coexistência entre as obrigações da comunicação nos actos eleitorais e a liberdade editorial, e, finalmente, alguma modernização no funcionamento e comportamento da Comissão Nacional de Eleições, que tem demonstrado uma desagradável tendência para se imiscuir no que não deve, não compreendendo o tempo em que vive. Se estas mudanças não forem feitas a abstenção só vai aumentar. Nestas eleições, em dois terços do país, a abstenção ficou acima dos 50% e o candidato eleito, por larga margem, teve 52% dos votos expressos mas apenas 24,8% do número de recenseados. Se estas duas questões forem resolvidas já se terá avançado mais neste mandato que nas últimas décadas.


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SEMANADA - O Governo apresentou a proposta de orçamento a Bruxelas e reduziu duas décimas no défice que estava no documento original; Bruxelas respondeu que uma redução de duas décimas é insuficiente e que pode exigir uma revisão do Orçamento; a agência de notação Fitch disse que se António Costa não conseguir uma redução de défice que permita a sua aprovação por Bruxelas terá que descer o rating de Portugal; a mesma Fitch classificou de “irrealistas” as previsões do OE;  a Moody’s afirmou que o OE é demasidado optimista e repete erros do passado; Bruxelas alertou para o elevado risco da dívida portuguesa a médio prazo; Jerónimo de Sousa admitiu que o PCP possa viabilizar um orçamento de Estado “mais duro”; António Costa diz que a actual visita da Troika a Portugal não tem relevância política; o Ministro da Saúde diz que a reposição das 35 horas pode aumentar os custos do Estado no sector;  o Ministério Público suspeita que Sócrates terá influenciado o resultado da OPA da Sonae sobre a PT a troco de “luvas”; já em 2009 Belmiro de Azevedo tinha culpado Sócrates pelo falhanço da OPA à PT; o Partido da Terra pronunciou-se contra a intenção de plantar mais árvores na segunda circular; um estudo recente indica que 90% das leis aprovadas em Portugal ficam fora do escrutínio público; o PAN reivindica a existência de um menu vegetariano em todas as cantinas públicas; Portugal é o país europeu com uma maior associação entre chumbos e pobreza; a China ultrapassou Portugal nas vendas para Angola; Jerónimo de Sousa, líder do PCP, resumiu a atitude do seu partido nas presidenciais da seguinte forma:”podíamos arranjar uma candidata engraçadinha, mas não somos capazes de mudar”; no dia a seguir disse que retirava a afirmação caso alguém no Bloco de Esquerda tenha “enfiado a carapuça”; na quarta-feira o Comité Central do PCP culpou o PS e o Bloco de Esquerda pelo resultado das eleições.


 


ARCO DA VELHA - Na noite eleitoral Sampaio da Nóvoa, que obteve menos de metade dos votos do vencedor, disse que tinha ficado perto de passar à segunda volta;


 


 


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FOLHEAR - Sou fascinado por edições de livros com um toque especial - que tenham um tratamento gráfico inesperado. Quem diria que num clássico, pouco conhecido, de Camilo Castelo Branco, isso poderia acontecer, ainda por cima por vontade do autor? “O Que Fazem Mulheres” é uma paródia aos folhetins românticos que já foi descrito como um romance filosófico sobre o comportamento feminino - obviamente analisado à luz dos costumes de 1858, ano em que foi publicado.O livro começa por um diálogo em que uma mãe tanta convencer a filha a casar por dinheiro. A filha, Ludovina, é bela mas sem dote e dela diz um enamorado: “lisongeia um amante, mas não pode satisfazer as complicadas necessidades de um marido”. Está dado o mote e, como Camilo anunciou à época, aqui há “bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios”. O lado gráfico da edição segue à risca as recomendações de Camilo: inclui um capítulo solto que o leitor pode colocar onde quiser, no decurso da narrativa, e um outro capítulo, fechado, que tem este aviso expresso do autor: “Cinco páginas que é melhor não se lerem”. Edição Guerra & Paz.


 


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VER - O que é “Spotlight”? É um filme sobre investigação jornalística mas era também o nome de uma unidade especial existente dentro do diário  “Boston Globe”, um dos principais jornais norte-americanos, e que publicava as suas reportagens de investigação na edição de Domingo, a mais lida.. Foi fundado em 1872 por cinco homens de negócios da cidade, ganhou uma dúzia de prémios Pulitzer, tornou-se um exemplo de como o noticiário local é importante para reforçar os laços com a comunidade de leitores e criou não poucas inovações editoriais, a começar na forma como acompanhava o baseball e a equipa local, os Boston Red Sox, e a acabar na unidade de investigação que tinha um funcionamento praticamente autónomo, uma pequena redacção própria e funcionava com uma grande liberdade editorial e sem pressões de prazos para publicação. Uma das reportagens que tornou o Boston Globe famoso, e que deu à equipa da Spotlight mais um Pulitzer, foi a investigação sobre o escândalo dos comportamentos pedófilos de padres católicos, publicada em dezenas de artigos entre 2001 e 2003. Do caso foi feito um filme, estreado esta semana nas salas portuguesas e que tem o nome “Spotlight”. Nele retrata-se o funcionamento do jornal, e sobretudo da equipa do Spotlight e dão-se conta da situação criada numa cidade predominantemente católica quando o principal jornal acusa o clero de uma série de abusos sexuais sobre menores, praticados ao longo dos anos.  O filme, uma crónica assumida sobre o jornalismo, estreou nos EUA em Novembro de 2015, está nomeado para seis Oscars e foi realizado por Tom McCarthy. Se depois de verem o filme quiserem espreitar o jornal basta irem ao seu site, que é também um dos mais premiados da imprensa norte-americana - www.bostonglobe.com


 



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OUVIR - Yaron Herman é um pianista israelita que vive em Paris e que até agora tinha uma carreira feita sobretudo a partir de versões de composições originais de nomes tão diversos como Björk, Britney Spears, Leonard Cohen e alguns compositores clássicos, além música popular de inspiração judaica. “Everyday” é o seu álbum de estreia na Blue Note e é também um salto numa direcção mais pessoal. Uma ajuda importante neste disco é do baterista Ziv Ravitz, que assume a direcção musical do projecto ao lado de Yaron Herman. Aqui a maioria dos temas são da autoria de Herman, alguns em co-autoria com Ravitz, e duas  versões - uma do “Prelúdio nº4, opus 74” de Alexander Scriaboin e a outra de uma canção de James Blake, “Retrograde”, que já havia revisitado anteriormente. Um dos temas feito em co-autoria, é “Volcano”, que de alguma forma assume um papel central no disco, uma espécie de cruzamento de influências. A produção do tema é de Valgeir Sigursson, que costuma trabalhar com Bjork, a a interpretação vocal é de uma cantora islandesa, Helgi Jónsson - já agora vários temas do álbum são cantados. “Volcano” é um tema envolvente, com sonoridades inesperadas. “Vista”, “Everyday”, “Five Trees”, “Volcano”, “Retrograde” e “18:26” são talvez as faixas deste CD que melhor conseguem mostrar o caminho entre a improvisção do jazz e revisitações de diversos estilos contemporâneos que Yaron Herman está a trilhar.


 


PROVAR - Desde há uns anos Duarte Calvão e Miguel Pires são os animadores de um blogue de crítica gastronómica, o Mesa Marcada, que foi criando influência e audiência. Paulina Mata foi durante algum tempo convidada do Mesa Marcada e agora iniciou o seu blogue pessoal, Assins & Assados. O Mesa Marcada foi-se extremando na cozinha de autor e em propostas gastronómicas sofisticadas, que alinham na designação de fine dinning. As listas dos melhores restaurantes que o Mesa Marcada anualmente organiza mostra como o enfoque está no acompanhamento da moda em termos de restauração (e também de alguma sensibilidade às relações públicas e à comunicação que têm fabricado alguns chefs). Esta opinião tem origem na minha aversão profunda a menus degustação e aos restaurantes que fazem do estilo um catecismo, área que o Mesa Marcada aprecia. Para mim os menus degustação, salvo raras excepções, são uma mesmice, para usar uma expressão que li no blogue, num comentário de um leitor, e a que achei graça. Mas volta e meia o Mesa Marcada lá fala de coisas úteis, como locais onde comer bem no dia a dia ou simplesmente petiscar. Uma outra coisa parece estar a nascer no blogue de Paulina Mata, que para já parece mais focado na essência das coisas e na revisitação daquilo que é básico: boa matéria prima bem confeccionada. A ver vamos como evolui. Aqui ficam os endereços:  http://assinseassados.blogs.sapo.pt/  e http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/


 


DIXIT - O PS vive num estado de ilusão e não está em condições de combater o Bloco de Esquerda, que se tornou o partido mais populista em Portugal - Francisco Assis, em artigo no Jornal de Notícias no dia seguinte às presidenciais.


 


GOSTO - O Estado gastou menos dinheiro a subvencionar as eleições presidenciais


 


NÃO GOSTO - Do barulho e do cheiro das pipocas nas salas de cinema - não há banda sonora que resista ao ranger dos dentes no milho esponjoso


 


BACK TO BASICS - A inveja dos outros é o imposto que nos cai em cima quando temos sucesso - David Nichols

janeiro 22, 2016

DÚVIDAS PRÉ ELEITORAIS & SUGESTÕES AVULSAS

 


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 DÚVIDAS - Nas eleições presidenciais do próximo Domingo tenho apenas estas duas dúvidas: Como evoluirá a abstenção em relação a anteriores eleições para a Presidência da República? Conseguirá Marcelo Rebelo de Sousa ser eleito à primeira volta? As duas perguntas, no fundo, estão ligadas - já que uma variação sensível da abstenção, no sentido do seu aumento, pode colocar uma decisão logo à primeira volta mais difícil. Se no entanto não existir uma evolução sensível da abstenção, e se a eleição ficar decidida já no Domingo, então estaremos perante um caso em que a mais estranha e cinzenta das campanhas produziu resultados. Eu há meses que decidi em quem irei votar (e aqui deixo dito que será em Marcelo Rebelo de Sousa), mas fico surpreendido pela forma como todas as candidaturas usaram de forma rotineira a internet, abdicando de um território online interactivo e criativo, apenas com conteúdos meramente informativos sem grande chama - menosprezando assim a possibilidade de comunicar eficazmente com a geração que tem entre 18 e 25 anos, segmento demográfico onde a abstenção é maior, e que provavelmente poderia votar pela primeira vez para a Presidência. Outra coisa que esta campanha mostrou é que o modelo dos debates em rádio e televisão, com todos os concorrentes, está esgotado. As audiências foram fracas, o esclarecimento foi próximo do zero. Cada debate limitou-se  a ser uma montra de chavões e, por vezes, de pequenas disputas, maioritariamente sem interesse. O debate de televisão alargado, de terça feira à noite, na RTP1, obteve um share de audiência de 11,3%. No mesmo horário, nesse dia,  a SIC registou 24,8% e a TVI obteve 29,7%. O conjunto dos canais de cabo teve 24,1% . Em termos práticos a média de espectadores durante o debate ficou nos 564 mil espectadores. Não entrou sequer no Top 15 dos programas mais vistos do dia. É curto e poderá ser a maior prova de que a liberdade editorial deve prevalecer sobre as imposições do sistema, estabelecidas há mais de 40 anos, quando o consumo dos media era completamente diferente do que é hoje.


 


SEMANADA - Os juros da dívida portuguesa já começaram a subir por efeito das medidas mais recentes do Governo; o risco dos bancos portugueses disparou após as intervenções recentes no Novo Banco e Banif; alguns dos maiores Bancos do mundo reuniram-se esta semana para coordenarem a oposição às decisões do Banco de Portugal no caso das obrigações do Novo Banco; o prémio de risco português está a atingir máximos, reflexo da fuga de investidores em dívida da República; também fruto da saída de investidores, a Bolsa portuguesa está em queda, tendo perdido mais de 12% já este ano; a dívida da Parque Escolar está perto dos mil milhões de euros; um estudo do Commerzbank defende que medidas do Governo de António Costa põem em causa "a competitividade" e o ‘rating’ de Portugal e alerta para hipótese de um novo resgate; Bruxelas exigiu ao Governo um corte no défice para um valor abaixo dos 2,8% previstos pelo executivo; a CGTP vai ficar de fora do acordo de concertação social promovido pelo Governo; Catarina Martins, a propósito do Orçamento de Estado, disse que a Comissão Europeia não tinha percebido que em Portugal o Governo era de esquerda;  Jerónimo de Sousa avisou que acordo com António Costa pode cair se houver recuo nas medidas acordadas; António Costa avisou Bruxelas que não abdica de promessas eleitoriais e disse que a negociação com Bruxelas estava a ser difícil; o contrabando de tabaco vindo do Leste já provocou ao Fisco  perdas de 6,3 milhões de euros; as insolvências de empresas aumentaram 7,6% em 2015 face ao ano anterior;  só seis países têm a gasolina mais cara que Portugal; um estudo divulgado esta semana mostra que no sector privado, os trabalhadores por conta de outrem ganham, em média, 1.140,4 euros, menos do que os funcionários públicos, e o vencimento das mulheres é inferior ao dos homens em mais de 20%; sinal dos tempos: em Portugal o filme “A Queda de Wall Street” superou em receitas de bilheteira o mais recente “Star Wars”.


 


ARCO DA VELHA - O embaixador em Paris, Moraes Cabral, ex chefe de gabinete de Jorge Sampaio, negou autorização para que o artista português, Tony Carreira, recebesse na embaixada de Portugal a condecoração “Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres”, que lhe foi atribuída pelo Ministério da Cultura de França. A ideia de receber a condecoração na embaixada foi do cantor,  já que havia precedentes em casos semelhantes. O embaixador Cabral não achou adequado. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, S. Silva, comentou o assunto dizendo que um dos seus sonhos era assistir a um concerto de Carreira.


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FOLHEAR -  Neste tempo de coisas imediatas, uma das revistas mais curiosas que descobri chama-se “Delayed Gratification”, vai no seu 20º número e apresenta-se como “The Slow Journalism Magazine”. Criada em 2011 a revista, editada quatro vezes por ano, não dá notícias, mas investiga e desenvolve factos que decorreram num trimestre anterior. O objectivo é ganhar distância em relação à actualidade, deixar passar a espuma dos dias, reflectir sobre os factos, fazer investigação, preparar cuidadosas infografias, fazer análise, publicar opinião contextualizada, editar fotografia com cuidado. Podem descobrir mais sobre esta publicação em www.slow-journalism.com . O Huffington Post considera “Delayed Gratification” como “uma fantástica publicação que ajuda a colocar os acontecimentos em perspectiva”. É assim como um almanaque sobre um passado ainda próximo, mas que nos permite encará-lo de outra forma.


 


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VER - Nesta semana destaco a exposição «The behaviour of being» de Pauliana Valente Pimentel, que está na Galeria das Salgadeiras até 5 de Março (Rua da Atalaia 12 a 16, ao bairro Alto).  «The behaviour of being» é fruto de uma residência em que Pauliana Valente Pimentel participou em Junho de 2015, no Algarve, juntamente com outros 12 artistas internacionais, uma organização da “The Beekeppers” and “The Cob gallery”. A exposição foi apresentada nesta reconhecida galeria londrina em Setembro último e retrata um ambiente de produção artística colectiva, fora dos grandes centros urbanos. Anteriormente Pauliana Valente Pimentel tinha desenvolvido «The Passenger», em que retratou uma viagem de comboio com diversos artistas pela Europa e, depois, «Jovens de Atenas», um olhar sobre a juventude grega durante a crise que atingiu o país. Paulina Valente Pimentel tem desenvolvido um olhar fotográfico muito particular sobre momentos aparentemente banais, num tom intimista que evoca quase a estética dos velhos álbuns pessoais de fotografia familiar ou de viagem.


 


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OUVIR - Tenho uma tendência para gostar de todos os discos de Neil Young - ele é a coisa mais próxima do indiscutível que conheço, musicalmente falando. Há poucos dias recebi via Amazon o duplo CD Neil Young And Bluenote Café, uma edição de final de 2015 saída dos arquivos do músico. Aqui estão gravações realizadas ao vivo em 1968 durante a digressão de Young com os Bluenote Café um pouco por todos os Estados Unidos e Canadá. Ao todo são 23 canções - sete delas até agora inéditas em disco e ainda uma versão de19 minutos do clássico “Tonight’s The Night”, que encerra o CD2 deste álbum - uma versão gravada em Nova York “numa noite louca”, como está dito nas notas de capa. Os Bluenote Café eram uma banda de nove músicos que, além do baixo, bateria e teclas incluía uma secção de seis metais. Esmagador é mesmo a única palavra que me ocorre para este álbum que me tem acompanhado nestas semanas.


 


PROVAR - Uma das mais inesperadas e mais úteis prendas que recebi ultimamente foi um objecto que dá pelo nome de “spiralizer”. Há-os de vários formatos mas aquele que eu prefiro, e que foi o que recebi,  é uma espécie de afia lápis gigante onde se podem colocar courgettes ou pedaços de abóbora por exemplo, rodando-os como um lápis num afia. O resultado surge com a forma de fios de esparguete, só que é vegetal. A minha preferência vai para o “esparguete” de courgette: uma vez cortado salteio levemente, em azeite, tempero com gengibre, sal, pimenta e cebolinho. Muitas vezes junto tomate cherry biológico cortado aos quartos e no fim adiciono ou atum de lata (ao natural) desfeito grosseiramente, ou pedaços de frango assado ou grelhado. Também fica muito bem como suporte a um tradicional molho de bolonhesa. Conte com courgette e meia por pessoa. Pode encomedar na Amazon, onde encontra vários modelos destes aparelhos.


 


DIXIT - “Não uso a palavra corrupto, não gosto da fonética, é um bocado apardalada” - Bruno de Carvalho, numa entrevista à RTP 3


 


GOSTO - A editora Guerra & Paz iniciou a publicação de três obras históricas e polémicas, em novas edições particularmente cuidadas do ponto de vista gráfico: o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels (já à venda), o “Mein Kampf” de Adolf Hitler e o “Livro Vermelho” de Mao Ze Dong. Todas as obras têm um texto de introdução e contextualização do editor Manuel S. Fonseca.


 


NÃO GOSTO - O Ministério dos Negócios Estrangeiros comprou por cerca de cem mil euros um faqueiro alemão para eventos protocolares, em detrimento de diversos fabricantes portugueses que podiam fornecer idêntico material.


 


BACK TO BASICS - “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original” -  Albert Einstein


 


 






janeiro 15, 2016

UMA BOA MANEIRA DE MOSTRAR A IMPORTÂNCIA DAS ELEIÇÕES

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OUTRAS ELEIÇÕES - Se pensam que a única campanha que está a decorrer é a das Presidenciais, estão muito enganados. Por numerosas escolas deste país decorrem campanhas eleitorais para as respectivas Associações de Estudantes. Circunstâncias familiares levaram-me a ter contacto com uma delas, no caso as eleições para a Associação de Estudantes do Colégio Moderno, em Lisboa. A coisa que mais me surpreendeu, pela positiva, foi como estas eleições, as primeiras em que muitos são chamados a votar, são encaradas como um incentivo à participação das pessoas em processos de decisão. A minha neta mais velha explicou-me que o Colégio acompanha e  incentiva o processo eleitoral, ajuda que se promovam debates entre as listas e que os alunos percebam bem a diferença entre elas; e a irmã, mais nova, fez-me saber que nos boletins de voto não se deviam desenhar corações nem smiles ou deixar outros escritos, mas apenas fazer a cruzinha no sítio certo, para que o voto não seja anulado. As diversas listas têm manifestos eleitorais bem construídos, na maioria com reivindicações adequadas à situação, que vão da prática desportiva à rádio interna da escola. Uma das listas, ecologista, defende que se use mais papel reciclado, por exemplo nos testes. Várias apresentam, nos seus folhetos de propaganda, as indicações das contas de facebook, instagram e snapchat onde as respectivas actividades de campanha podem ser seguidas - e estão assim anos luz mais avançadas que vários candidatos presidenciais. Mas o ponto essencial é este: estas eleições não são encaradas como apenas uma disputa, mas como uma aprendizagem da importância da participação das pessoas na vida colectiva. Espero que a percentagem de abstenções na escola seja baixa e que os alunos vão votar - e ainda acalento a esperança que os candidatos das outras eleições, as presidenciais, percebam que os seus discursos e as suas acções ignoram e deixam de lado o segmento daqueles que agora têm entre 18 e os 25 anos, os que nasceram na última década do milénio passado e já cresceram a ver o mundo de maneira digital. Mas na maioria dos casos o que vejo é a réplica do que passa nas televisões, nas rádios e nos jornais, com uma forma de comunicação que não os cativa. A maioria dos candidatos presidenciais comunicam para os que já estão convertidos, não dão um passo para procurar que novos eleitores votem. E isto faz-me muita impressão. Depois não digam que a abstenção é um problema.


 


SEMANADA - Os filmes portugueses estreados em 2015 foram vistos por 904 mil espectadores, o valor mais elevado desde 1975; ao longo do ano passado registaram-se 14,5 milhões de espectadores nas salas de cinema de todo o país; em Portugal a escuta de música em streaming cresceu 60% em 2015; os pilotos de aviação alertam para o perigo de haver maior numero de pássaros na segunda circular, nas imediações do aeroporto, se o plano de arborização do local fôr para a frente;  a Comissão Europeia exigiu que os activos problemáticos do Banif sofressem uma desvalorização de 66%, contra os 50% propostos pelas autoridades nacionais, agravando assim o prejuízo do banco em 400 milhões de euros; em oito anos o Estado injetou dinheiros públicos em sete bancos; as ajudas do Estado a bancos portugueses já superaram o montante do resgate da troika; o petróleo desceu esta semana abaixo dos 30 dólares por barril; de Janeiro de 2015 até agora o petróleo caíu 31,6% mas a gasolina subiu 3%; a Bolsa de Lisboa teve nesta semana o pior ciclo de quedas desde 2011; até 2025 estima-se que 26% das oportunidades de emprego sejam na agricultura; um estudo recente aponta que os doentes que são internados de urgência num hospital ao fim de semana têm um risco de morte mais elevado; CGTP, PCP e BE reivindicam semana de 35 horas também para o sector privado e ameaçam o seu Governo de Costa com uma greve geral; Francisco Louçã tomou posse como Conselheiro de Estado.


 


ARCO DA VELHA - Segundo o jornal “i”, o cirurgião Eduardo Barroso terá vetado a primeira escolha do Ministro da Saúde, levando-o a desconvidar os novos responsáveis hospitalares da região de Lisboa que tinham sido inicialmente convidados por aquele membro do Governo e que desagradavam ao cirurgião.


 


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FOLHEAR - Um dos livros que ultimamente entrou no meu dia-a-dia é “A Dieta Ideal - receitas familiares e saborosas”, de Francisco José Viegas. Conhece-se a devoção do autor à boa cozinha portuguesa, a sua escolha de restaurantes que a praticam, mas também o prazer que tem em cozinhar para amigos. São receitas dessas incursões na cozinha que aqui estão, explicadas de maneira simples, a maioria de origem nacional a evocar sabores e tradições familiares, mas também umas quantas de inspiração estrangeira, sobretudo italiana. A sua actividade como crítico de restaurantes valeu-lhe um prémio da Academia Portuguesa de Gastronomia e a sua actividade de escritor levou a que um dos heróis dos seus policiais se deliciasse também com petiscos. Desde ervilhas com ovos, ao cozido à portuguesa, passando pelo empadão de carne, um arroz de romã com frango de escabeche (os arrozes são uma das perdições do autor…), um cuscuz com salmão fumado e legumes ou ainda uma massa com feijão, até uns ovos rotos com azeite de trufa, aqui se encontram receitas para todas as ocasiões, seja de entradas ou pratos principais. A culinária, diz o autor na introdução do livro, é uma invenção decisiva da nossa civilização. Esta “Dieta Ideal” fez-me lembrar um dos livros que também consulto com regularidade - “The Family Meal, home cooking with Ferran Adriá”, o livro onde o Chef do extinto El Bulli relatava os cozinhados que eram feitos diariamente para a equipa do seu restaurante, destinados à refeição partilhada por toda a equipa - com zero molecular e muita tradição. Com livros assim nem apetece ir comer fora.


 


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VER - Esta semana tive a sorte de ver duas exposições que me marcaram.  A primeira é uma surpreendente mostra de pinturas de Rui Sanches, que tem tido essencialmente uma actividade regular, e marcante, na área da escultura. Estas obras, a que chamou “suite alentejana”, numa referência ao atelier onde as trabalhou e que fica na sua casa no Alentejo, foram  inicialmente expostas no Porto, em 2013, na Galeria Fernando Santos, e chegam agora a Lisboa, ao espaço da Fundação Portuguesa das Comunicações, por iniciativa da Giefarte, até 12 de Março  (Rua do Instituto Industrial 16). A utilização da côr, a criação de um espaço a duas dimensões bem diferente daquilo a que as suas esculturas remetem são elementos dessa surpresa (ver imagem no início desta coluna). A outra exposição é um conjunto de trabalhos em papel de José Pedro Croft, que está na Galeria João Esteves de Oliveira até 11 de Março (Rua Ivens 38). São cerca de três dezenas de obras, entre originais e múltiplos de pequena tiragem, sob o título genérico “Espaços de Configuração” (na imagem). Estes trabalhos, aparentemente simples, são uma prova de que é  precisamente na simplicidade que melhor se distingue o poder da criatividade - mesmo quando baseada em coisas tão elementares como linhas, formas, volumes. E, claro, com uma cuidadosa utilização dessa distração que pode ser a côr.


 


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OUVIR - Sinto-me um pouco vampiro a escolher para disco da semana “Blackstar”, a derradeira obra de David Bowie - até porque o essencial do que havia a dizer foi bem escrito neste jornal por Fernando Sobral. Mas, independentemente da evidência, hoje incontornável, de que o álbum foi pensado e produzido como uma carta de despedida, ele é sobretudo um testamento artístico - a indicação do caminho musical que Bowie achava interessante explorar. É curioso porque há aspectos do disco que fazem lembrar alguns pontos do início da sua carreira, nomeadamente nos arranjos e na utilização do saxofone, particularmente em “Tis a pity she’s a whore”. Mas é curioso também observar a diferença entre a edição original em single do tema “Sue (or the season of crime)”, lançado em 2104, com a nova versão, bem diferente , incluída no álbum - muito mais elaborada e homogénea, e que abre pistas sobre a forma como ele via a evolução da sua música. Um ponto importante do disco é a própria escolha do núcleo musical, o trio de Donny McCaslin, saxofonista e um importante músico de jazz de Nova Iorque, que Bowie conheceu através da sua amiga, igualmente música de jazz, Maria Schneider - que também tem uma participação no disco e que foi, sabe-se agora, uma conselheira musical regular de Bowie nos últimos tempos. A intensidade e originalidade do disco, independentemente do dramatismo das suas circunstâncias, evoca o período em que Bowie e Eno colaboraram em Berlim. “Blackstar” afasta-se do pop, larga amarras no jazz e mesmo a faixa mais tradicional, digamos, “Girl Loves Me”, sai da sua zona de conforto.  Para além da simbologia de “Lazarus”, ou da mensagem de preocupação com o estado do mundo da faixa-título de abertura, estou em crer que é na derradeira canção, “I Can’t Give Everything Away”, na forma como ela foi escrita, construída e cantada, que está verdadeiramente o recado de Bowie: “Saying no but meaning yes, this is all I ever meant, that’s the message that I sent”.


 


DIXIT - “A higiene na Roma antiga não evitou as lombrigas e outros parasitas” - título de um artigo do “Público”.


 


GOSTO - A livraria Lello, do Porto, que celebrou esta semana 110 anos de existência e que nos últimos seis meses vendeu uma média diária de 512 livros.


 


NÃO GOSTO - O novo Ministro da Educação mudou todo o sistema de avaliação depois de já ter passado um período escolar e sem antes dialogar com representantes dos pais ou das direcções das escolas.


 


BACK TO BASICS - “À medida que envelhecemos tudo se resume a duas ou três questões: quanto tempo nos resta, o que é que vamos fazer e como o faremos” - David Bowie

janeiro 08, 2016

ZIG ZAG, FAZ & DESFAZ

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ZIG ZAG -  Em Portugal o regime entrou na época do Zig Zag, Isto aplica-se, nomeadamente, à acção do Governo, que em apenas um mês já modificou várias medidas do anterior executivo, desde os feriados nacionais até privatizações na área dos transportes, passando por revogações e alterações na saúde, educação e justiça. O país entrou oficialmente na fase em que se desfaz o que se fez e em que se aumentam os gastos. A seu tempo virá o aumento das receitas pelo expediente do costume - o aumento da cobrança de impostos. Estou com alguma curiosidade de ver como isto evolui, do ponto de vista da despesa pública, da competitividade da economia, do PIB e, sobretudo, da melhoria efetiva das condições de vida que é o grande argumento para tudo o que o Governo está a fazer. Mas isto só se perceberá daqui a uns anos. Para já uma coisa é certa: mesmo que subjetivamente. há muita gente que se sente mais à vontade para fazer gastos, para contrair créditos. Há, como se viu nos números deste Natal, uma espécie de nova euforia consumista. Resta saber se foi uma atitude pontual ou se esta euforia vai virar epidémica. Mas o efeito Zig Zag não se passa só na acção do Governo. Aos poucos vai descendo pelo edifício do sistema partidário. O primeiro sinal veio de  Paulo Portas, que decretou o fim, pelo menos temporário, da sua época - o que vai atirar o CDS/PP necessariamente para outros rumos. Resta ver como o PSD evoluirá e como se reposicionará face às alterações à sua direita. Tudo se conjuga para uma tempestade perfeita cujo resultado seja uma tranquila governação de Costa ao longo de uma legislatura. Constata-se agora ainda mais que o anterior governo não fez reformas de fundo - apenas usou maquilhagem estrategicamente aplicada. Ao usar desmaquilhador em quantidades apreciáveis, António Costa mostra também a superficialidade de muito do que foi feito. Vamos a ver como fica o rosto do país no fim destes tratamentos de beleza.


 


SEMANADA - Começaram os debates presidenciais, com três características: fraca audiência, falta de brilho e enorme previsibilidade e monotonia; começa a desenhar-se o espectro de uma abstenção assinalável; um inquérito recente mostrava que os novos votantes, entre os 18 e 25 anos, na maioria dos casos, não ligam sequer à campanha que está a decorrer; segundo o Instituto Nacional de Estatística cerca de 35% da população portuguesa, e nestes a maioria com mais de 65 anos,  não tem acesso à internet; em 2015 foram registados mais de cinco mil nomes diferentes para recém nascidos; as receitas brutas de bilheteira de cinema a nível global ultrapassaram em 2015 os 34,8 mil milhões de euros, o maior valor de sempre; a venda de carros registou no ano passado um aumento de 24% e obteve o melhor resultado desde 2010; o investimento em imobiliário em 2015 atingiu o maior valor de sempre, 1,9 mil milhões de euros com os centros comerciais e lojas de rua a captarem a maior fatia do investimento estrangeiro na área; a banca portuguesa detecta por dia 15 operações suspeitas de lavagem de dinheiro; o Governo decidiu que quatro feriados civis e religiosos vão ser repostos já este ano, criando três “pontes” em 2016;  as compras com multibanco subiram 270 milhões de euros no período do natal; o fisco reteve 486 milhões de euros em reembolsos de IVA a empresas em 2015; a dívida pública portuguesa subiu dois mil milhões de euros num mês; especialistas de planeamento urbano de vias circulares às cidades afirmam que a decisão de ajardinar e arborizar a segunda circular, tomada pela Câmara Municipal de Lisboa, coloca questões de segurança e poderá ter um impacto considerável no aumento do trânsito (e da poluição) dentro da cidade; 21 dias é o tempo médio que o Ministério da Educação demora a substituir um professor, por doença ou outros motivos, o que na prática significa um mês inteiro sem aulas; no fim de semana passado a espera em urgências hospitalares chegou a atingir as 12h00; o Governo fez 154 nomeações em 41 dias.


 


ARCO DA VELHA - Há um ano a eurodeputada Ana Gomes propôs ao PS que apoiasse a candidatura presidencial de Maria de Belém, sublinhando que era tempo de ter uma mulher na presidência; agora decidiu aceitar ser a mandatária de Sampaio da Nóvoa.


 


 


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FOLHEAR - Neste Natal houve uma prenda que me tocou especialmente: a nova edição de “Lisboa - cidade triste e alegre”, de Victor Palla e Costa Martins, que foi publicada no último trimestre de 2015 pela Pierre Von Kleist, uma editora consagrada a livros de fotografia. Originalmente o livro foi editado em 1959, na sequência de uma exposição na Galeria Diário de Notícias. A edição original foi feita em fascículos, publicados entre Novembro de 1958 e Fevereiro de 1959. Mais tarde, em 1982, António Sena fez uma exposição chamada “Lisboa e Tejo e Tudo”, na sua galeria Ether, e recuperou e encadernou algumas das colecções integrais de fascículos - e vários exemplares tiveram circulação internacional. O livro agora reeditado reproduz exactamente o original e reúne cerca de 200 fotografias, em que os autores incluíram excertos de poesia Fernando Pessoa, António Botto, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Alberto de Serpa, Cesário Verde, Gil Vicente, e inéditos de Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, Jorge de Sena, entre outros, com destaque também para o texto de abertura de José Rodrigues Miguéis. A reputação internacional do livro surgiria depois, associada à sua inclusão em 'The Photobook: A History, Vol. 1', de Gerry Badger e Martin Parr que o descrevem assim: "Lisboa, Cidade Triste e Alegre é particularmente notável pelo uso de ideias gráficas desenvolvidas por fotógrafos como William Klein ou Ed van der Elsken, criando um livro vibrante, com uma sequência cinemática". Em 2009, para assinalar o cinquentenário da edição original a Pierre Von Kleist fez uma reedição reproduzindo exactamente a original, edição que rapidamente esgotou. E no final do ano passado fez nova reedição, igualmente com uma impecável impressão, desta vez feita na Alemanha. E é esta que folheio regularmente com gosto, deliciando-me com os textos que, no indíce, os autores escreveram sobre a forma como cada imagem foi feita.


 


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VER - Esta semana recomendo três exposições de fotografias. Começo por Lisboa onde “A Pequena Galeria” (Av 24 de Julho 4C, junto à Praça D. Luis), reabre com uma nova montagem da exposição “Sete Fotógrafas & Inéditos”, que apresenta trabalhos de Clara Azevedo, Cristina H.Melo, Diana Laires, Inês Cruz, Letícia Zica, Luísa Ferreira e Maria Simão. Em Cascais, na Fundação D. Luis I - Centro Cultural de Cascais, até 17 de Abril, está a exposiçãoNicolás Muller.Obras-Primas” que integra a programação da MOSTRA ESPANHA 2015 e que fez parte do PhotoEspaña de 2015. Muller foi um fotógrafo húngaro que se fixou em Espanha, depois de ter passado por França – onde conheceu Brassaï e Robert Capa – e ainda por Portugal, onde permaneceu apenas uns meses e realizou um trabalho sobre a zona ribeirinha do Porto, que é parte integrante da exposição em Cascais (na imagem). Finalmente, em Braga, no Teatro Circo, uma exposição de fotografias de António Variações, parte de uma coleção de 300 imagens do cantor que ao longo dos anos foi recolhida por Teresa Couto Pinho , desde ensaios a concertos, passando pelas sessões para as capas de discos. Dentro em breve será editado um livro que reúne a colecção.


 


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OUVIR - Frank Zappa foi um dos génios da música norte-americana da segunda metade do século passado. Percorreu vários géneros musicais, sozinho ou com os Mothers Of Invention, fez canções, encenou provocações, e escreveu peças de música contemporânea, muitas sob a influência de Edgard Varèse, algumas interpretadas por nomes como Pierre Boulez, desaparecido esta semana. Uma delas, a mais célebre, é a ópera “200 Motels”, inicialmente editada em 1971 numa versão rock, e que agora foi gravada pela orquestra Filarmónica e Côro de Los Angeles, dirigidos por Esa-Pekka Salonen. 22 anos depois da sua morte Zappa continua a surpreender, quando nos reencontramos com o seu talento musical nesta reinterpretação de uma das suas peças mais emblemáticas, escrita ao longo de cinco anos e que relata a passagem de uma banda rock por uma cidade imaginária, Centerville, pretexto para um retrato irónico sobre o quotidiano da América de então, desde os habitantes da cidade aos membros da banda, passando pelo próprio Zappa ou os jornalistas que escrevem sobre a digressão. A versão de Salonen fez algumas alterações  na ordem de apresentação das diversas cenas e privilegiou a abordagem orquestral. Menos enérgica que  a versão original, ela é no entanto mais coerente do ponto de vista da narrativa e, sobretudo, permite divulgar e dar nova vida a uma das maiores obras de Zappa, mostrando toda a sua genialidade, quer na escrita musical quer na ironia do libretto. A gravação foi efectuada em 2013, editada no final do ano passado e produzida por Frank Filipetti e Gail Zappa, a filha do compositor.(“200 Motels- The Suites”, duplo CD Zappa Records, Edição Universal Music, na FNAC e El Corte Ingles).


 


DIXIT -  “Não estou a concorrer a líder partidário” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


GOSTO - Das reflexões e opiniões que podem ser vistas no novo site www.clubedeimprensa.pt


 


NÃO GOSTO - Num debate televisivo o candidato do PCP, Edgar Silva, evitou responder frontalmente quando interrogado sobre se considerava a Coreia do Norte uma democracia.


 


BACK TO BASICS - “Numa disputa sem sentido não há qualquer espécie de valor” - William Shakespeare.


 

dezembro 30, 2015

COISAS DO ANO QUE ESTÁ A ACABAR

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PRESIDENTE - Se há alguém que no sistema político português precisa de ter uma apurada sensibilidade política e uma capacidade negocial e de influência considerável, esse alguém é o Presidente da República. Um Presidente não pode ser um anti-político nem um tecnocrata - a sua função é conciliar os cidadãos com o país, os dirigentes partidários com os seus eleitores, os governantes com o equilíbrio e o bom senso. Quem conseguir desempenhar assim o seu mandato, ficará na História, já que nestas últimas quatro décadas, e sobretudo nas duas últimas, com Sampaio e Cavaco, andou-se bem distante de tudo isto que um Presidente deveria ser. Quando o Governo não tem a sensibilidade social no seu DNA cabe ao Presidente fazer-lhe esse diagnóstico e recordar que a sociedade só pode evoluir a bem e nunca à força. Vem tudo isto a propósito das reflexões que o caso da morte ocorrida no Hospital de S. José despoletaram. Um Presidente que exerça o seu mandato deve ponderar a forma como são feitos cortes orçamentais em sectores essenciais, sobretudo quando se constata que os cortes verificados no sector da saúde não são nada quando comparados com o custo suportado pelos contribuintes em sucessivos escândalos com bancos ao longo dos últimos anos. Independentemente das guerras corporativas que também explicam o mau funcionamento de alguns hospitais, e em particular este caso, esta frase, dita por Marcelo Rebelo de Sousa numa visita recente ao Hospital de S. José, é o melhor manifesto eleitoral de qualquer dos candidatos presidenciais: “Pode-se poupar em muita coisa, mas poupar na saúde dos portugueses não é um bom princípio para quem quer afirmar a justiça social e construir um Estado democrático mais justo".


 


SEMANADA - Em 2015 os piropos tornaram-se crime puníveis até três anos de prisão, no seguimento de uma proposta legislativa do PSD; em contraste, os piropos recíprocos entre PS, PCP e Bloco deram na formação de um Governo;  nos últimos quatro anos 400 mil portugueses emigraram, tantos quanto a totalidade dos emigrantes nos últimos 40 anos; ao fim do primeiro mês de Governo PS, o PSD viabilizou o orçamento rectificativo apresentado por António Costa e disse que não quer crises políticas; Paulo Portas anunciou que abandona a liderança do PP; nos últimos quatro anos os serviços básicos subiram 25% e os salários nem 2%; um em cada onze empregos em todo o mundo está no sector do turismo; em 2014 a Cultura representou 1,7% da riqueza produzida em Portugal, próxima de sectores como as telecomunicações, que representaram 1,9%, enquanto a construção valia 4%; as duas principais operadoras de telecomunicações   anunciaram, nos últimos dois meses do ano, investimentos de quase novecentos milhões de euros em direitos de transmissão de jogos de futebol, valor que deverá ainda subir nas próximas semanas;  para começar bem o novo ano o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário convocou uma greve para sexta-feira dia 1 de Janeiro.


 


ARCO DA VELHA - A Refer foi condenada a pagar uma  indemnização de 80 mil euros a um seu ex-funcionário que foi despedido da empresa, por  falsificar pesagens de carris a favor do sucateiro Manuel Godinho. O mesmo ex-funcionário foi condenado a cinco anos e três meses de prisão pelo Tribunal de Aveiro, no âmbito do processo Face Oculta. Mesmo assim a empresa terá de o indemnizar por um outro tribunal o ter considerado despedido sem justa causa.


 


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FOLHEAR - Este ano que passou trouxe-nos alguns factos curiosos em matéria de leituras. Se é certo que a queda de circulação das edições impressas dos jornais diários continua a verificar-se, também é certo que o tempo médio gasto na leitura das suas edições digitais tem aumentado, sobretudo nas suas versões para dispositivos móveis. Por outro lado, e curiosamente, além das notícias de actualidade, os artigos mais longos, mais explicativos - aquilo que se enquadra na classificação de “long reading”, estão a captar mais leitores. Hoje em dia, numa edição digital, é possível ver quais os artigos e os assuntos que os leitores vão ler com maior frequência, mas também aqueles a que consagram maior tempo de leitura. Finalmente as publicações digitais mais actualizadas desenvolveram sistemas de interacção com os seus leitores, baseadas no que são o comportamento e as preferências típicas de cada um. Um dos mais flagrantes exemplos disso vem de um facto recente: apesar da sofisticação técnica e da qualidade do jornalismo do New York Times, e que o levou a ser um exemplo e um líder mundial na imprensa digital, nos últimos meses o Washington Post tem alcançado números de circulação digital já superiores ao do NYT. Para compreender o porquê desta surpreendente recuperação do WT é preciso andar um pouco para trás, quando o criador da Amazon, Jeff Bezos (na imagem), o adquiriu. Sem grandes alardes nem ruído, com uma reestruturação interna relativamente pequena e sem interferências conhecidas na sua orientação editorial, a verdade é que Bezos mudou uma coisa: o departamento digital do WT foi alvo do trabalho dos engenheiros e programadores da Amazon, que criaram sistemas de rastreamento e acompanhamento de cada leitor digital do jornal, fornecendo-lhes sistematicamente sugestões e envolvendo-os cada vez mais - tal como a Amazon faz aos seus clientes. Os resultados estão à vista, ao fim de poucos meses. Na maior parte dos indicadores digitais o Washington Post supera agora o New York Times. Começa a perceber-se o que Jeff Bezos queria fazer. Aguardam-se os próximos episódios.


 


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VER - Fundado em 1774, o British Museum tornou-se numa referência mundial. Recentemente fez uma parceria com o Google Cultural Institute e dessa parceria saíu um novo site do museu, que é absolutamente revolucionário e permite que, em qualquer ponto do mundo, a partir de um computador, tablet ou smartphone, se possa literalmente percorrer o interior do museu, voltando atrás ou parando frente a uma obra. O novo site fez do British Museum o maior espaço coberto visível pelo Google Street View , a tecnologia que permite visitar os nove andares e 85 galerias permanentes do museu, exibindo cerca de 80.000 peças, tal como ela estão apresentadas ao público no local. Adicionalmente foi construída uma timeline que incorpora cerca de 4500 objectos ao longo da cronolgia,  que permite ampliações de cada uma das peças e a sua localização nas épocas da História em que foram produzidas. Se quiser visitar este British Museum virtual basta ir a www.google.com/culturalinstitute/collection/the-british-museum .


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OUVIR - Neste Natal os responsáveis pelo catálogo dos Beatles disponibilizaram finalmente todas as suas gravações nas plataformas de streaming - Spotify, Apple Music, Google Play, Amazon Prime, Slacker, Tidal, Groove, Rhapsody e Deezer. Independentemente da plataforma utilizada o streaming é a nova forma de ouvir música que cada vez cativa maior número de utilizadores - e este ano o lançamento da Apple Music veio alargar ainda mais esta tendência. Eu continuo a comprar discos e a ouvir CD’s, mas muitas vezes vou primeiro ouvir um disco acabado de lançar em streaming a ver se vale a pena. Por exemplo, já fui ouvir uma das novas canções de David Bowie, “Lazarus” do álbum “Blackstar” que sairá em Janeiro. Depois fui à descoberta do quarteto do saxofonista Donny McCaslin, cujos músicos participam em “Blackstar” e em pouco tempo fiquei a perceber a nova direcção de Bowie, que aos 69 anos permanece sempre atento. No carro continuei a ouvir o Spotify com a gravação de um concerto de Rufus Wainright e quando à noite resolvi ler coloquei uma das playlists de jazz que o Spotify me propõe. O iPad ou o iPhone que utilizo estão ligados ao sistema de som do carro e ao de casa por Bluetooth. E as minhas descobertas de novas músicas, de repente, ficaram mais fáceis.


 


PROVAR -  Portugal vai tendo novos bons restaurantes, há mais chefs portugueses que são apreciados e distinguidos com as ambicionadas estrelas Michelin, mas a verdade é que nas coisas mais simples, de dia-a-dia, há muito pouca inovação. Por exemplo, as sanduíches: comer uma boa sanduíche em Lisboa é difícil. Na esmagadora maioria dos casos apresentam-nos uma carcassa aborrachada - ou um pão de forma cheio de ar - com tímidas e transparentes fatias de fiambre ou de queijo indistinto. As mais das vezes nem o fiambre é do melhor nem o queijo passa do flamengo mais barato - mas são sempre em quantidade mínima. Numa terra de bons enchidos e fumados são raras as casas que apresentam uma sanduíche que misture um bom paio ou uma boa paiola, em quantidade honesta, com um pão fresco e estaladiço de qualidade, que possa também receber um queijo da ilha ou um queijo de serpa curado, enriquecido por algum legume adequado e com algum tempero que passe da simples manteiga - e isto quando escapamos ao calvário da margarina. Recordo om inveja as fotografias das sanduíches de abundante pastrami, em pão estaladiço. Os cafés e as cafetarias portuguesas não sabem usar os nossos melhores produtos para fazer uma sanduíche condigna e os nossos padeiros não sabem fazer um pão adequado a essa função - que não tenha demasiado miolo, que seja possível trincar sem deslocar o maxilar. Boas sanduíches, precisam-se.


 


DIXIT - “ O resultado, na minha opinião, foi desastroso” - Jorge Tomé sobre a medida de resolução aplicada ao Banif, que liderou.


 


GOSTO - Em 2014 os turistas deixaram em Portugal 32,6 milhões de euros por dia.


 


NÃO GOSTO - Da ineficácia, dos erros, dos disparates, da falta de bom senso, dos lapsos e dos atrasos de todo o sistema judicial, porventura o pior de todos os males do Estado português.


 


BACK TO BASICS - “Um optimista fica acordado para viver a entrada do novo ano; um pessimista quer ter a certeza que o ano velho se vai de vez” - Bill Vaughan


 


(Publicado no Jornal de Negócios de30 de Dezembro de 2015)