dezembro 23, 2015

POLÍTICA IBÉRICA: RESISTÊNCIA FEITA DE IMOBILISMO, ALIMENTADA A CORRUPÇÃO

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MUDANÇAS - As eleições realizadas em Espanha no fim de semana passado mostram um alteração total do que era o espectro partidário do país. O PSOE caíu estrondosamente, o bipartidarismo foi desfeito, há novas forças políticas que se vão tornando as charneiras possíveis do regime e cuja participação no jogo político é fundamental para existirem entendimentos governativos. Como bem notou Nuno Ribeiro, no Público, “o modelo bipolar falhou porque não fez reformas, no imobilismo residiu a sua resistência e a corrupção foi o seu alimento”. Estas palavras podiam ser aplicadas letra por letra a Portugal. Aqui  ainda não chegámos ao tempo em que surgem novas forças políticas que ganhem relevância - o Bloco de Esquerda de certa forma é um partido já do regime, mas que renasceu, talvez graças a ser “picado” por essa invenção falhada de Boaventura Sousa Santos e de Rui Tavares que acabou por ser um balão cheio de ar, e que no dia das eleições se esvaziou rapidamente sem efeito nem consequência. Em Espanha e em Portugal os partidos do arco da governação, como se chamou aos protagonistas do regime, alimentaram-se reciprocamente e especializaram-se em fazer uma gestão política das maiorias absolutas, arregimentando hordas de fiéis que viviam das suas benesses e rodavam entre si, chamando a isso diálogo político. Na realidade quase nunca se praticou em Portugal a política como uma negociação permanente entre as forças partidárias, único factor que pode garantir uma estabilidade de políticas além dos ciclos eleitorais e que permite que a sociedade desenvolva as suas dinâmicas próprias. Em 40 anos de democracia isso ainda não se conseguiu.


 


SEMANADA - Obama organizou um visionamento do novo Star Wars para famílias de militares americanos mortos em combate e robots Stormtroopers estiveram no palco das conferências de imprensa da Casa Branca;  PSD e PP separaram-se depois de a coligação que constituíram ter vencido as eleições e mesmo assim ter perdido o Governo; José Sócrates regressou à cadeia de Évora para fazer uma visita de Natal aos seus ex companheiros de detenção; num almoço comício em Vila do Conde José Sócrates acusou o PS de estar a ter nas presidenciais uma estratégia que favorece Marcelo Rebelo de Sousa; as autoridades brasileiras pretendem investigar a actividade de José Sócrates na empresa Octapharma por negócios realizados naquele país; Manuel Alegre sentiu-se traído por António Costa na questão do Conselho de Estado; o FMI admitiu que o programa da troika em Portugal foi mal pensado e que teria sido melhor uma reestruturação da dívida; a quota de pesca de sardinha que Portugal perdeu em cinco anos anda perto das 50 mil toneladas; em Portugal há 130 barcos e 2500 pescadores a viverem da pesca da sardinha; a Banca perdeu 7 mil postos de trabalho em cinco anos; nos últimos anos os contribuintes foram chamados a pagar 13 mil milhões de euros devido a problemas surgidos em três bancos e agora vão também ter de pagar o preço das eventuais reversões das privatizações de empresas como a TAP; Paulo Portas considerou que os custos da suspensão da venda da TAP são “um imposto ideológico”; o Banco de Portugal resolveu sempre os problemas surgidos por deficiências da sua própria supervisão ao sistema financeiro atirando a conta para os contribuintes; algo vai mal no funcionamento do Banco de Portugal.


 


ARCO DA VELHA - O ex-espião Jorge Silva Carvalho garantiu em tribunal que 90% do funcionamento dos serviços de informação se baseia em actos ilegais que foram uma constante nos mandatos de vários responsáveis pelas secretas ao longo dos últimos anos.


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FOLHEAR - A revista “Egoísta” distingue-se pelo seu grafismo cuidado, por uma qualidade de impressão acima da média e, claro, por uma riqueza e diversidade de conteúdos que são no fundo a sua razão de ser. Bons conteúdos mal paginados e pior impressos há muitos, conseguir conjugar tudo de uma forma quase perfeita é que é mais difícil e é isso que a “Egoísta” faz há vários anos. A edição agora publicada  tem na capa Sofia Aparício em pose natalícia e lá dentro um magnífico portfolio fotográfico a desenvolver o tema de capa, assinado por Carlos Ramos. Entre os artigos a destacar chamo a atenção para “Hannah”, de Maria do Rosário Pedreira e para o ensaio de António Mega Ferreira sobre as interpretações que, ao longo da História, alguns artistas fizeram da Sagrada Família. Outros destaques para  “Acerca do Bom Despacho”, que tem magníficas ilustrações de Ivone Ralha e palavras de Francisco Duarte Azevedo, para “Sem Remorso”, uma mini banda desenhada de Rodrigo Prazeres Saias com texto de Luisa Jardim e para “E desde então não morri”, de Dulce Maria Cardoso. Finalmente destaque também para os portfólios fotográficos de Luís Barreira e Maria João Gonçalves. A responsabilidade destas coisas vai para o Director e impulsionador da revista, Mário Assis Ferreira, para a editora Patricia Reis, e para a designer gráfica Joana Miguéis, do atelier 004, que assegura a edição e produção da “Egoísta”.


 


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VER - Para quem gosta de artes plásticas, três ideias para prendas de última hora nas áreas da fotografia, azulejo, e múltiplos. Comecemos pela fotografia e pela Barbado Gallery (na imagem), na Rua Ferreira Borges 9A, que mostra actualmente “Facing The Camera: From 1970 to Tomorrow”, obras do finlandês Arno Rafael Minkkinen, pouco conhecido entre nós mas cuja obra tem ganho importância entre os coleccionadores de fotografia - e esta é uma galeria que se dedica a comercializar nomes de referência. Proponho ainda uma visita a O Gabinete, um espaço na Rua Ruben A Leitão 2B, ao Princípe Real, que   edita e promove múltiplos de arte em séries exclusivas e limitadas. Actualmente estão em exposição peças de Hugo Almeida Pinho, para além das novas edições de Rui Toscano e André Cepeda e do acervo fazem parte obras de Joseph Beuys, Michael Biberstein, Helena Almeida, Lawrence Weiner e Julião Sarmento, entre outros. A terminar, e passando para os azulejos, proponho uma ida à Galeria Ratton, na Rua da Academia das Ciências 2C, onde poderá encontrar deliciosos azulejos feitos por Pedro Proença e Andreas Stocklen, além de obras de muitos outros artistas que ao longo dos anos desenharam para esta Galeria como Paula Rego, Júlio Poma, Costa Pinheiro, René Bertholo, Eduardo Batarda, Joana Rosa, José Barrias, Jorge Martins ou Lourdes Castro, entre outros.



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OUVIR - Aline Frazão é angolana e compõe e interpreta, na voz e guitarra as suas próprias composições.É um dos nomes grandes da nova música de Angola, onde nasceu em 1988, vivendo actualmente em Lisboa. A sua estreia discográfica, “Clave Bantu” foi em 2011 e incluía poemas de José Eduardo Agualusa e de Ondjaki. Mas foi em 2013, com o álbum “Movimento”, onde, além das suas composições, cantou textos de Alda Lara e Carlos Ferreira, que ganhou mais notoriedade e começou a fazer espectáculos em África e na Europa. “Insular”, este  seu terceiro disco de originais, foi gravado na Escócia, na ilha de Jura. A capa e as ilustrações do interior são  de António Jorge Gonçalves, no disco participam nomes como Pedro Geraldes, dos Linda Martini. O álbum mistura ritmos envolventes e quentes de origem africana, com sonoridades duras e eléctricas do norte da Europa e inclui poemas de Ana Paula Tavares e Capicua. A maneira de cantar de Aline Frazão e os arranjos que escolheu contêm um ritmo próprio e conferem uma identidade especial ao seu trabalho, diferente dos cânones politicamente correctos da world music. E ainda bem. Edição NorteSul/ Valentim de Carvalho.


 


PROVAR -  O Biomercado é um novo espaço que conjuga um supermercado biológico com um restaurante que se apresenta igualmente biológico. Do lado do comércio estão pães da marca Miolo em várias variedades, desde a alfarroba à espelta. Há uma extensa zona de compotas e de cereais, conservas feitas com produtos biológicos, portuguesas e importadas - e nas portuguesas destaco as da fábrica la Gondola onde, por exemplo, o atum é enlatado em azeite extra virgem biológico. A garrafeira também tem algumas escolhas que suscitam curiosidade. O princípio seguido no Biomercado é ter apenas produtos frescos da época. Nalguns casos há surpresas como um bolo rei feito sem açúcar, apenas adoçado com concentrado de maçã e frutose e sem frutas cristalizadas. Há a possibilidade de encomendar peru biológico, ou seja não submetido a aviário e que cresce como nos tempos antigos. O espaço inclui uma cafetaria com uma boa oferta de saladas, sanduíches e de sumos naturais - o de maçã e gengibre é uma óptima surpresa e ao fim de semana há brunch. Avenida Duque de Ávila 141B, entre a 5 de Outubro e a Avenida da República.


 


DIXIT - “É muito difícil para algumas pessoas darem o braço a torcer”  - José Sócrates.


 


GOSTO - Os sorteios do Fisco deixam de atribuir automóveis e passam a sortear certificados de aforro.


 


NÃO GOSTO - Dos resultados da actuação de supervisão do Banco de Portugal ao longo dos anos


 


BACK TO BASICS - “Uma coisa é certa - os perus não gostam de saber que o Natal está a chegar” - provérbio irlandês.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Dezembro de 2015)

dezembro 18, 2015

A IMPORTÂNCIA DO PEQUENO COMÉRCIO NAS CIDADES


Small business, big city



Image: Nikola Strbac



It’s no surprise that New Yorkers love their bodegas and independent coffee shops but a new study from JP Morgan Chase Institute, which analysed spending habits in more than a dozen cities across the US, shows just how much. A colossal 74.7 per cent of money spent by New Yorkers goes to small and medium-sized shops. (Small businesses in Los Angeles are almost as popular, taking in 71.4 per cent of the spend share in the city.) Contrast this to smaller cities such as Dallas or Columbus where small and medium shops only get 56.5 and 54.4 per cent of the spending share. Thriving small businesses play a vital role in creating jobs and economic growth, which New York and LA have certainly enjoyed. Local governments in smaller cities should take heed and do what they can to encourage and support their small and medium businesses.


 


(extraído da newsletter The Monocle Minute


O EFEITO DO BURACO DO BOLO REI NA GOVERNAÇÃO DO PAÍS

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PINHEIRINHOS   - Vamos imaginar assim uma coisa de boa vontade, natalícia: temos governo, é redondo, tem frutas cristalizadas para adoçar, uns frutos secos para temperar, uns brindes para agradar e uma fava para alguém pagar. Parece mesmo um Bolo Rei. Diz-me a história recente que a fava calha sempre aos mesmos - aos contribuintes. Imbuído de espírito natalício só vejo pais natais a escorregarem nas chaminés dos ministérios com montanhas de prendas. Por todo o lado os pinheiros estão engalanados com blocos de bolas e estrelas vermelhas. Vejo a despesa a crescer e sei que, se a receita não crescer agora, vai ter que crescer a dobrar a seguir. Recordo-me de me terem ensinado que só se pode repartir o que existe, repartir o que não há é dar o buraco do meio do Bolo Rei como prenda. Oferecer o vazio é a pior das prendas a não ser que a intenção seja enganar. O que estes primeiros dias indicam são falinhas doces, montanhas de diálogo caramelizado, sonhos de abóbora amargos e coscorões que começam a enrijar. Resta saber quando as filhoses amolecem e  azedam . Será a fase seguinte do processo em curso. Não há almoços grátis e não há benesses sem que o preço seja pago por alguém. Vamos ver quando as renas que puxam este Pai Natal, que nos saíu em brinde como Primeiro Ministro, começam a escoicear.


 


SEMANADA - Sócrates teve dois tempos de antena na TVI, acusou António Costa de não ter saído em sua defesa e afirmou que o PS estava objectivamente a favorecer a candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa; António Costa convidou Manuel Alegre para o Conselho de Estado e depois desconvidou-o, substituindo-o por Carlos César; o grande amigo autárquico de António Costa, Rui Rio, fez constar que se prepara para suceder a Passos Coelho e avisa que “será difícil Passos ganhar eleições”; Passos Coelho optou por contrariar o que estava agendado e falou ele próprio no primeiro debate Parlamentar com Costa, substituindo-se ao líder parlamentar do PSD; no entretanto Passos anunciou que a PAF acabou;  o Futebol Clube do Porto impediu Rui Rio de entrar no seu pavilhão desportivo e obrigou a SIC Notícias a alterar o local de emissão de um programa para o qual Rio estava convidado; Arnaldo Matos retomou o comando do MRPP e anunciou-se defensor do Estado Islâmico; a comissão de honra de Henrique Neto parece um sortido de bolachas araruta constituído por ex-governantes e ex-dirigentes partidários: Campos e Cunha, Nuno Crato, Daniel Bessa, João Salgueiro e Ribeiro e Castro, entre outros; o Nobel Paul Krugman considerou “problemático” o aumento do salário mínimo na situação portuguesa e os rapazes de esquerda, que nos últimos anos o andaram a louvaminhar, ficaram a modos que engasgados; ao longo deste ano foram abertos 65 hotéis novos e remodelados; o petróleo atingiu o menor preço desde 2008; há oito anos que não há escolas públicas no top 10 do ensino secundário.


 


ARCO DA VELHA - José Sócrates disse que não sabe quanto dinheiro deve ao seu amigo Santos Silva.


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FOLHEAR - Pela segunda vez a Monocle edita, nesta altura, a sua antevisão do que será o ano seguinte. Chama-se “The Forecast” e a ideia é fornecer conteúdo que vá sendo folheado ao longo do tempo. Digamos que é uma espécie de versão “The Force Awakens” do portuguesíssimo almanaque “Borda de Água”, cuja nova edição também já está nas bancas. “The Forecast” tem 250 páginas com tendências, ideias de negócios que estão a começar a funcionar e pensamentos para tornar o mundo um bocadinho melhor - desde as casas onde vivemos até ao regresso ao campo ou a alteração nos hábitos e veículos que usamos para nos deslocarmos. Mas, além disso há debate de ideias - como por exemplo o artigo sobre think tanks e em especial a parte sobre a britânica Chatam House, cujas regras foram muito (mal) invocadas por aqui em meados do anterior governo. Adiante. Há um artigo muito interessante sobre uma questão que está cada vez mais na ordem do dia - a persistência da utilização dos livros nesta época de ecrãs, e a proliferação de pequenas editoras independentes com edições surpreendentes. Finalmente, como 2016 vai ser o ano do macaco a página final dá-nos pista sobre o que o símio nos pode trazer.


A finalizar não resisto a umas sugestões de prendas livreiras: “Crónica da Manhã - Um Apontamento de Todos os Dias” que publica 22 crónicas que Agustina Bessa-Luís fez para a RDP em 1978. E, para quem gosta de citações,“O Grande Livro dos pensamentos & das citações”, compilado por Oscar Mascarenhas.


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VER -  O documentário televisivo, bem feito, com bom research, acesso a bons materiais audiovisuais de arquivo e uma boa realização, é algo que me fascina. Se voltasse a fazer alguma coisa em televisão era esta a área a que me dedicava, um segmento da programação infelizmente tão maltratado e esquecido em Portugal, nomeadamente pelo operador de serviço público - apesar de ser daqueles que menor investimento requer. Por ocasião do centenário de Frank Sinatra o canal norte-americano HBO encarregou o realizador Alex Gibney de mostrar a vida da Voz. O resultado é “Sinatra - All Or Nothing At All”, felizmente disponível entre nós num duplo DVD que proporciona quase quatro horas de entretenimento e conhecimento. O documentário reúne entrevistas com Sinatra feitas em vários momentos da sua vida, gravações de concertos e depoimentos de quem o conheceu de perto. Um dos lados curiosos é que parte da construção é feita em torno das canções que Sinatra escolheu para o célebre “Retirement Concert”, de 1971, em Los Angeles, canções que o realizador sinaliza como os marcos que guiaram a vida de Frank Sinatra. Disponível na FNAC e El Corte Ingles ou via Amazon.


 


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OUVIR - Ao longo da História foram surgindo discos que retrataram apenas parcialmente as respectivas sessões de gravação em que foram feitos. Felizmente que muitos arquivos foram sendo salvaguardados e permitem retomar o que na altura ficou como que escondido. No Outono de 1965, há 50 anos, Amália estava a gravar um álbum de canções em inglês, standards do cancioneiro popular norte-americano, acompanhada de orquestra e sob a direcção do grande maestro Norrie Paramor - um projecto que entusiasmava o seu editor, Rui Valentim de Carvalho. A ideia inicial nunca foi finalizada e,  das 12 canções orquestradas por Paramor, apenas oito foram finalizadas e deram origem ao álbum “Amália na Broadway”, editado finalmente 19 anos depois, em 1984, quando Amália se refugiou em Nova Iorque  - foi uma fase difícil da sua vida, entrou em depressão, tentou mesmo suicidar-se e, numa carta de despedida que escreveu, pedia para que “continuassem, na mesma, a seguir com o disco das canções americanas” - assim surgiu “Amália na Broadway”. Agora, graças ao persistente trabalho que Frederico Santiago tem feito nos arquivos da Valentim de Carvalho, esses temas são completados com mais nove faixas, entre elas versões orquestrais gravadas nessa altura de “Ai Mouraria”, “Solidão”, “Lisboa Antiga” e “Coimbra”, que na época funcionaram como experiência quer para os arranjos de Paramor, quer para a relação da voz de Amália com o som da orquestra, e que antes nunca foram editadas. A essas acrescem versões alternativas de temas utilizados no “Broadway” e ainda a gravação incompleta, que Amália sempre deixou inacabada, de “The Man I Love”, um símbolo de uma época que nunca foi verdadeiramente concluída. “Someday”, assim se chama esta nova edição, tem na capa uma fotografia de Eduardo Gageiro e, no interior, um texto de Vítor Pavão dos Santos sobre esses tempos. Quando se ouve, percebe-se como Amália era um talento à parte e à frente do seu tempo.


 


PROVAR - Tinha lá ido uma vez ao princípio, quando o sushi ainda não era uma praga como hoje são os hamburguers gourmet. Lembro-me que na época achei alguma graça à diferença total em relação ao Aya, que era o meu termo de comparação possível. Não era bem sushi - percebi depois que era um sushi bossa-nova, assim, tropicalizado - e diga-se que não deliro com brasileirices. Estou a falar do restaurante “Estado Líquido”. Ao fim de quase uma década regressei lá um destes dias e fiquei agradavelmente surpreendido. Anos depois não está decadente, a mobília não range nem se desconjunta, a parede está sem mossas, a comida mantém a qualidade, os sabores ainda surpreendem, o serviço é absolutamente exemplar e atrás o balcão a concentração e dedicação dos sushimen que estão a preparar os pratos só podem significar que gostam do que estão a fazer e que estão empenhados em servir o cliente. Estas duas coisas são raras nos restaurantes lisboetas e quanto mais da moda, pior. No que toca ao cenário, os sofás do lounge no andar de cima provocam pensamentos atrevidos e espicaçam a curiosidade, Não sei se já repararam mas na maioria dos restaurantes da moda os clientes são vistos como ovnis incómodos, uma espécie de mosquitos fora de época. Balanço final: o “Estado Líquido” continua a merecer uma visita  - Largo de Santos 5A, telefone 213 972 022. Eu acho que a deslocação vale a pena, mas a casa tem um serviço de entregas que pode ajudar a fazer um festival sushi em casa. O telefone é o mesmo e em www.estadoliquido.com pode tirar as dúvidas.


 


DIXIT - “Em 2015 não devemos esperar muito do futuro, porque nós próprios somos responsáveis pelo nosso destino e a nossa responsabilidade, talvez não por nossa exclusiva culpa, não é muita” - Vasco Pulido Valente.


 


GOSTO - De  o Prémio Pessoa ter sido atribuído a Rui Chafes.


 


NÃO GOSTO - Da situação que os estivadores criaram no Porto de Lisboa.


 


BACK TO BASICS - “Aqueles que dizem que o dinheiro é a solução para tudo são os mesmos que  defendem que se pode fazer tudo por dinheiro” - Benjamin Franklin

dezembro 11, 2015

A dúvida de sempre: como colocar os mais novos a votar?

PRESIDENCIAIS - Daqui a pouco mais de um mês realiza-se a primeira volta das eleições presidenciais. Sobre ela paira o espectro de um Governo feito em circunstâncias pouco usuais e que reflecte uma leitura diferente, mas possível, dos resultados eleitorais das legislativas, num corte súbito em relação ao que era feito desde há quatro décadas. Por isso veio para primeiro plano a definição daquilo que os  candidatos pretendem fazer deste Governo, o que é, no mínimo, um exercício redutor - e perigoso - sobre a função presidencial. Os candidatos presidenciais não apresentam, por definição, um programa político - defendem um comportamento face à evolução da situação social e da realidade nacional, uma metodologia para que o regime funcione dentro do descalabro crescente do sistema político, do descrédito dos partidos e, se possível, que se consiga conquistar para a participação cívica, a começar pelo voto, as gerações mais novas que não vêem à sua volta grandes motivos de júbilo nem de participação. Ora este ponto - o do voto das gerações -  é, no caso das presidenciais, absolutamente crucial. Quem conseguir mobilizar o eleitorado abaixo dos 35 anos pode subverter as tradicionais maiorias sociológicas do voto, os dogmas instalados e exercer um mandato diferente. Estamos sobretudo a falar daquilo a que os americanos chamam a geração Z, criada já no mundo digital. São eles, se votarem, que podem alterar o jogo tradicional. Mas isso só acontecerá se os candidatos conseguirem comunicar com esses eleitores - e, do que vejo a ser feito, ninguém está a trabalhar neste assunto.


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SEMANADA - A Frente Nacional ganhou a primeira volta das eleições regionais francesas menos de um mês depois dos atentados de Paris; a greve do Metro foi desconvocada dando o primeiro sinal de como vai ser o jogo do gato e do rato entre sindicatos e Governo PS; todos os meses dão entrada na Procuradoria Geral da República cem novos casos de corrupção; o Bloco de Esquerda anunciou pretender assento no Conselho de Estado; o PCP ficou publicamente calado sobre o tema; o PS deseja que a sua área política eleja três membros do Conselho de Estado;  o PS precisa de negociar à direita para efectuar diversas nomeações para cargos políticos; o Oscar da hipocrisia foi para o sorridente aperto de mão do Ministro Mário Centeno com  Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo; os parceiros comunitários indicaram a Mário Centeno, na reunião do Eurogrupo, a necessidade da redução do défice português; o risco do crédito malparado no Sul do país supera os 30% e é quase o dobro da média nacional - um terço das empresas algarvias com empréstimos não paga à Banca; Pacheco Pereira foi desafiado a sair do PSD por ter estado num debate com a candidata presidencial do Bloco; numa entrevista, Pacheco Pereira elogiou Marcelo Rebelo de Sousa; Marcelo disse que “faria o possível para o governo ser duradouro”; ao longo do ultimo quarto de século os Governos alteraram impostos 19 vezes por ano; o poder de compra em Lisboa é 45,5% inferior ao de Nova Iorque;  23% dos portugueses entre os 64 e 74 anos utilizam regularmente o computador; 600 pessoas foram ver Cicciolina, de 64 anos, a despir-se, em Lisboa,  no Café Teatro Santiago Alquimista; o álbum “Rubber Soul”, dos Beatles, fez 50 anos.


 


ARCO DA VELHA - O secretário Geral do PCP, Jerónimo de Sousa, disse que o actual Governo é da responsabilidade do PS, rejeitando que possa ser considerado como um Governo de coligação ou de esquerda.


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FOLHEAR - Há meses que vou seguindo no Facebook uma página intitulada “Humans Of New York”. A página do Facebook deriva, por sua vez,  de um  blog. O seu autor, Brandon Stanton, vem a desenvolver este trabalho há cinco anos. Humans of New York começou por ser um projecto de fotografia e depois evoluíu para um local onde se contam histórias de quem vive na cidade. Ao longo de cinco anos foram mais de dez mil fotografias, muitas delas com pequenas histórias sobre os fotografados. Stanton conta que muitas vezes fica a conversar 15 a 20 minutos depois de cada fotografia para perceber o que pode escrever sobre cada pessoa. O que ele faz é contar histórias de pessoas que lhe são completamente estranhas e que encontra por acaso nas ruas. Numa cidade como Nova Iorque há gente de todo o mundo e o blog, a página do Facebook e o segundo livro que daí saíu, publicado há pouco tempo, e que é o motivo destas linhas, fala disso mesmo. Se o primeiro livro era quase só fotográfico, este é um repositório de histórias e de imagens, bem diferente. O blog e as redes sociais de Humans Of New York são seguidos diariamente por mais de 15 milhões de pessoas em todo o mundo. “Humans Of New York - Stories”, o livro, com cerca de 400 páginas, foi editado há poucos meses pela St. Martin’s Press e é um dos melhores exemplos da ligação cada vez maior entre o online e o offline e como ambos os mundos se podem cruzar e complementar. Está disponível na Amazon inglesa. Resta dizer que Brandon Stanton foi considerado uma das 30 pessoas mais influentes na Internet pela revista Time. Termino com uma citação de um dos fotografados : “O melhor de Nova Iorque é que, se ficarmos tempo suficiente sentado num mesmo local, parece que o mundo inteiro vem ter consigo”.


 


VER - A Magna Carta foi elaborada em 1215 em Inglaterra pelo Rei João e hoje em dia é tida como o pilar da democracia. Foi graças a ela que, séculos mais tarde, em 1628, se garantiu que os impostos deviam ter aprovação parlamentar, que não se podiam fazer prisões de forma arbitrária, que toda a gente tinha direito a um julgamento e que os poderes do Estado têm que ter limites. É pois particularmente simbólico, e uma feliz coincidência, que por estes dias um exemplar do original da Magna Carta esteja em exposição em Lisboa, na Torre do Tombo. Era bem bom que os dirigentes partidários percebessem a essência do histórico documento: o Poder tem limites - uma descoberta que está por fazer, na generalidade dos casos, em Portugal. A passagem do documento por Lisboa, onde chegou no início da semana, prolonga-se apenas até dia 12, mas a sua exibição foi pretexto para que dela se falasse e para que muitos protagonistas políticos, que a desconhecem ou, conhecendo-a, a ignoram, fossem confrontados com a sua existência e o seu significado.


Outra sugestão: uma exposição de fotografias dedicada a autores, intérpretes e músicos  do Fado - são ao todo 128 imagens de outras tantas personalidades. Chama-se Álbum de Família, parte de um trabalho de Aurélio Vasques, e está no Museu do Fado, Largo do Chafariz de Dentro nº1.


 


OUVIR - Sérgio Godinho e Jorge Palma são dois dos músicos portugueses mais marcantes das últimas décadas. As suas canções são conhecidas por várias gerações e muitas delas merecem figurar no lote do que de melhor se compôs em Portugal. O facto de os dois, que são personalidades diferentes, com estilos musicais diversos e abordagens poéticas distintas, se terem juntado para um concerto conjunto é um desafio que ultrapassa a mera soma de talentos. “Jorge Palma & Sérgio Godinho - Juntos ao Vivo no Theatro Circo” foi gravado em Setembro deste ano em Braga e foi agora editado pela Universal. Inclui 17 temas, 9 de Sérgio Godinho e 8 de Jorge Palma, todos com a participação do mesmo grupo de seis músicos que, através da interpretação que fazem, muitas vezes distante das canções originais, contribuem para que este disco seja um bom exemplo de uma gravação ao vivo exemplar. Devo dizer que nos últimos dias este CD está no primeiro lugar dos mais ouvidos cá em casa. Há uma edição especial que inclui um DVD com a gravação video do concerto.


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PROVAR -  A Touriga Nacional é uma das castas portuguesas de uvas mais importantes e daquelas que tem uma individualidade mais marcada nos vinhos em que é utilizada. José Bento dos Santos, o produtor dos vinhos da Quinta do Monte D’Oiro, é um homem dado a desafios. Daí veio a ideia de fazer um vinho - o Aurius - que utilizasse primordialmente a casta nacional e incorporasse outras estrangeiras, inicialmente Syrah e Petit Verdot, e, mais recentemente, apenas Touriga Nacional e Syrah, que são a matéria prima do Aurius 2011, agora lançado no mercado. A Touriga é dominante e bem presente, o Syrah dá-lhe um toque inesperado e o resultado é surpreendente. O vinho foi elaborado apenas com uvas da propriedade, sob a orientação da enóloga Graça Gonçalves, com o apoio técnico de Grégory Viennois, que tem acompanhado a produção da Quinta do Monte D’Oiro. O vinho foi feito por vindima manual com desengace sem esmagamento, fermentação em cubas de inox e estágio de 14 a 16 meses em barricas de carvalho francês, das quais um terço eram novas, a estrear. Foram produzidas 4.000 garrafas. Vai ficar a ganhar se o provar.


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DIXIT - “Trágico movimento o dos que julgam amar o poder, quando só amam os seus conflitos! São muito menos de temer os que amam o poder do que aqueles que só o servem” - Agustina Bessa Luis


 


GOSTO - Sobrinho Simões foi considerado o patologista mais influente do mundo.


 


NÃO GOSTO -Portugal queimou 700 milhões de toneladas de combustíveis fíosseis em 125 anos.


 


BACK TO BASICS - “Os partidos políticos não são todos iguais. Só quando chegam ao poder” - Pedro Santos Guerreiro

dezembro 04, 2015

PODERÃO CRESCER FLORES NUM CAMPO DE MINAS & ARMADILHAS ?

MINAS & ARMADILHAS - A CGTP regressou esta semana, com estrondo, ao centro da actividade política. O pontapé de saída foi dado, com a elegância que se lhe conhece, por Arménio Carlos à porta do Conselho Permanente da Concertação. Ali defendeu que aquele organismo, onde a CGTP participa, não vale para nada e o que interessa é o Parlamento, Segundo o líder da CGTP só os deputados devem ter palavra a dizer sobre aumentos, impostos, reformas ou leis laborais e não há necessidade de acordos de concertação social. Este pronunciamento mostra o estado de espírito deste sector político: alteram-se as regras do jogo conforme as conveniências e aproveitam-se as circunstâncias para subverter o funcionamento anteriormente aceite e até perfilhado. As declarações de Arménio Carlos mostram o guião que o PCP vai seguir: pressionar o PS, fazer depender o seu voto parlamentar do cumprimento de medidas que serão apresentadas por reivindicações populares, desde que, bem entendido, venham da CGTP. É como se fosse Arménio Carlos a comandar Jerónimo de Sousa, confirmando que a CGTP reverteu a relação com o PCP e que foi este partido que passou a ser a correia de transmissão da central sindical e não o contrário, como aconteceu durante anos. A nova narrativa mostra desta vez um PCP que está sossegado, sentado no Parlamento, parecendo empenhado em actuar de forma construtiva na nova maioria mas, claro, atento ao clamor popular. Na dúvida a CGTP já começou a criar amplificadores para o fabrico do seu muito próprio e dedicado clamor popular, convocando greves no sector dos transportes, na CP, SGTP e Metro de Lisboa, ao longo deste mês de Dezembro, por acaso com início uma escassa dezena de dias depois da votação do programa de Governo da nova coligação na Assembleia. O pontapé de saída está dado. Vamos ver como Costa joga em campo minado depois de lá ter semeado flores.


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SEMANADA - A economia portuguesa continua baseada na procura interna e são o consumo e o investimento que marcam o ritmo do país - revelam números divulgados esta semana pelo INE; os lucros das empresas portuguesas do PSI 20 aumentaram 1,1 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano;  o investimento em produtos associados à inovação caíu nos primeiros três trimestres deste ano face ao período homólogo de 2014; segundo um estudo da OCDE e da UE, os portugueses, sobretudo os mais jovens, estão mais confiantes que a média europeia na capacidade de lançar negócios; o desemprego está estável nos 12,4%; os portugueses compraram mais 39 mil carros em 2015; a receita mensal dos operadores de telecomunicações com pacotes de serviços subiu 18%, segundo a ANACOM; a NOS fechou um negócio que pode chegar aos 400 milhões de euros pelos direitos televisivos do Benfica; os prejuízos das empresas públicas no primeiro semestre de 2015, recuou 30% face ao mesmo período de  2014; os portugueses são quem mais recorre às urgências hospitalares entre os 21 países da OCDE; a nova Ministra da Justiça defende correcções ao mapa judiciário implementado pelo anterior Governo; Sampaio da Nóvoa prometeu ser aliado do novo Governo;  foram instaladas 2,1 milhões de lampadas nas iluminações de Natal em Lisboa; o aeroporto do Porto quadriplicou passageiros numa década; o fabrico de chocalhos no Alentejo foi classificado como Património Imaterial da Humanidade depois de chocalheiros de Alcáçovas terem ido tocar à Namíbia.


 


ARCO DA VELHA - Cerca de 100 pessoas estão inscritas para uma corrida nocturna a realizar nos túneis do Metropolitano de Lisboa, entre as estações de São Sebastião e o Aeroporto, na madrugada do dia 13, logo a seguir à greve.


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FOLHEAR - A edição de Dezembro da revista Wallpaper tem esta belíssima capa desenhada pelo Studio Job, uma dupla de designers holandeses, sob o mote House Of Fun, desenvolvido no interior da edição - que tem por tema o entretenimento. Revista de design e arquitectura por excelência, a Wallpaper (que foi fundada por Tyler Brulé, hoje a dirigir a Monocle), ocupa um lugar único, acompanhando as mais modernas tendências e divulgando novos criadores, que seja em Amsterdão, no México ou em Miami, como se pode ver nesta edição. Como parte do entretenimento passa pela mesa, a Wallpaper de Dezembro dedica parte da sua edição a utensílios relacionados com o vinho, sugestões de bebidas, restaurantes e até algumas receitas culinárias. Esta é também a edição onde está a selecção dos melhores cinco novos hotéis de 2015 que são a Soho House em Istambul, o Aman em Tóquio, , a Blossom Hill Inn em Hangzhou, o Riad Goloboy de Marrakech e o Miami Beach Edition, em Miami. Há ainda 30 dezenas de sugestões de hotéis a seguir, entre os quais está o Vincci Hotel do Porto e o Principal, de Madrid.


 


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VER - Hoje proponho uma exposição invulgar. É feita a partir de marcas portuguesas e dos seus autores, no caso Carlos Coelho e Paulo Rocha, da Ivity Brand Corp, que antes, há 30 anos, fundaram a Novodesign, e depois, a Brandia. A aventura dos dois data portanto de há três décadas e esse foi o pretexto para esta exposição onde Catarina Piteira, uma artista portuguesa que trabalha em Londres, reinterpretou algumas dessas marcas feitas ao longo dos tempos. De facto foram Carlos Coelho e Paulo Rocha, ambos também retratados por Carolina Piteira, que nos puseram na memória as imagens que hoje temos de marcas como o Multibanco, a Fidelidade, a Telecel, a Yorn, a RTP, a Leya, a TAP, os cafés Delta, a Sonae, o Licor Beirão ou os papéis Navigator, entre outros. A venda destas obras de Carolina Piteira reverte para a Associação Portugal Genial, fundada por Carlos Coelho e Paulo Rocha, e que vai apoiar projectos que contribuam para uma economia mais criativa e para a divulgação do melhor que Portugal tem para oferecer. A exposição está patente até 20 de Janeiro no Espaço Fidelidade, Largo do Chiado 8.


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OUVIR - Vladimir Horowitz foi um dos mais brilhantes pianistas do século XX, Nascido na Ucrânia, ele fez carreira primeiro na Alemanha e depois, fundamentalmente, a partir dos Estados Unidos. Em Chicago actuou 37 vezes entre 1928 e 1986. O seu derradeiro concerto na cidade foi precisamente em 1986 - e três anos depois ele morria aos 86 anos. Como homenagem ao seu público de Chicago, Horowitz quis que esse derradeiro concerto na cidade fosse transmitido por uma rádio local, focada na música erudita, a WFMT. O recital foi transmitido em directo , a 26 de Outubro de 86, e emitido apenas mais uma única vez. Desde então a gravação estava nos arquivos da estação, de onde foi descoberta em Outubro de 2013 pelo produtor Jon M. Samuels, que se entregou à sua edição. A gravação, restaurada e agora editada pela Deutsche Grammophon, num duplo CD, é um tributo à última fase da carreira de Horowitz, que interpreta com a sua forma vibrante, Scarlatti, Mozart, Scriabin, Schumann, Liszt, Chopin e Moszkowski. O segundo CD inclui ainda duas entrevistas com Horowitz, uma feita na véspera do recital e da sua transmissão e outra, realizada anos antes, e conduzida pelo crítico de música clássica do Chicago Tribune. Ambas são documentos excepcionais.


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PROVAR - Nos últimos anos assistimos ao ressurgir da indústria conserveira portuguesa e algumas marcas praticamente extintas ressurgiram. As conservas Nero fizeram história com marcas como a Georgette, a Naval, a Luças e a Catraio. José Nero decidiu há alguns anos regressar à actividade e voltar a comercializar as marcas que fizeram a história da família, não descurando de inovar. É o caso da Georgette que comercializa petiscos como um delicioso salmão em azeite, temperado com tomilho bela-luz da serra da Arrábida, e a marca Nero que apresenta filetes de anchova em moscatel do Douro. Ambas são um petisco que recomendo. Acompanhadas de bom pão e uma salada simples fazem uma belíssima entrada. Sugiro que se juntem a um vinho jovem, de qualidade, como o Lybra, da Quinta do Monte d’Oiro, feito a partir da casta Syrah e envelhecido pelo menos 12 meses em barricas de carvalho francês. Vão ver que a combinação resulta bem.


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DIXIT - “A culpa (da demora na indicação de António Costa para Primeiro Ministro) é do sistema republicano e semipresidencialista, que torna obrigatória a interferência do Chefe de Estado no exercício democrático e parlamentar dos partidos eleitos” - Miguel Esteves Cardoso


 


GOSTO - Da escolha de Maria José Morgado para Procuradora Geral Distrital de Lisboa


 


NÃO GOSTO - Em Portugal as mulheres que, para cuidar dos filhos, ficam durante dez anos fora do mercado de trabalho, perdem até um quinto da valor da reforma e são as mais prejudicadas nos 34 países da OCDE.


 


BACK TO BASICS - Há diferenças significativas entre o ser humano e outros animais: os animais têm instintos, nós temos impostos - Erving Goffman   

novembro 27, 2015

A VELHA POLÍTICA É O PRINCIPAL ADVERSÁRIO

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REGIME - Desde a passada terça-feira é oficial: mudou o modo de funcionamento do regime. A partir de agora pode formar Governo não necessariamente quem ganhe as eleições, mas quem conseguir maiorias parlamentares, mesmo que de geometria variável. Lembram-se de “Borgen”, a série de TV que tantos aplaudiram? Pois António Costa parece que a viu com particular atenção. Efectivamente é ao Parlamento que cabe aprovar ou rejeitar o Governo e o seu programa - e foi nisso que Costa apostou. Na realidade ele conseguiu formar uma coligação pós eleitoral que tem uma maioria sobre a coligação pré-eleitoral. Goste-se ou não se goste, é assim - e esta é uma experiência que em quatro décadas de democracia ainda não se tinha vivido. Se a coligação PCP-BE-PS consegue aguentar-se é outra conversa: depende em primeiro lugar dos sindicatos da CGTP e de como eles conseguirem manobrar o PCP. E, nos dias que correm, estou convencido que é mais o PCP a fazer o papel de  correia de transmissão dos sindicatos que o contrário; e a queda do Governo depende também de algum destes partidos agora coligados querer ter o ónus de deixar cair o executivo. Além disso, daqui a uns meses,  depende também, e bastante, do novo Presidente da República. Acredito que, ao contrário do que se tem dito, se for Marcelo Rebelo de Sousa aposto que ele poderá construir pontes que ninguém imaginou possíveis. Mas há outro argumento a favor de Marcelo - esta alteração de funcionamento do regime vai mostrar a necessidade de rever o sistema político e partidário. Marcelo Rebelo de Sousa é o candidato mais preparado e aquele que está disposto a procurar que os partidos se entendam numa nova lei eleitoral e eventualmente numa revisão constitucional que incida no funcionamento do sistema - por natureza Marcelo gostaria de conseguir coligar o que não parece coligável e construir alguma coisa de novo. Albert Rivera, o líder do interessante partido espanhol Ciudadanos, formulou esta semana uma pertinente questão: “é possível mudar um país sem o governar?”. Ele aposta que sim, e aponta que “a velha política é o principal adversário”. Parece-me que tem razão.


 


SEMANADA - José Sócrates anunciou, num almoço que reuniu 400 apoiantes em Lisboa, que está de volta à política; UGT reconheceu ter perdido 80 mil filiados em quatro anos e a CGTP não divulgou números sobre este tema; existem 23 candidatos anunciados à Presidência da República, que já só têm menos de 30 dias para formalizar a candidatura junto do Tribunal Constitucional; um em cada três inquilinos gasta mais de 40% do rendimento com a casa; 89% das empresas do país empregam menos de 10 pessoas e têm um volume de negócios inferior a 2 milhões de euros; o crédito em risco no BPI, BCP e CGD ascende a 25 mil milhões de euros; as empresas exportadoras significam 6% do tecido empresarial português e concentram mais de um terço do total de todo o volume de negócios; os nove casinos portugueses faturaram 214,7 milhões de euros nos nove primeiros meses do ano, um aumento de 7,2% face ao ano passado; já existem onze candidaturas para operar o jogo online em Portugal; as iluminações de Natal em todo o país custam cercam de um milhão de euros; Cavaco Silva ouviu 31 entidades e no fim fez seis perguntas a António Costa, que lhe respondeu, por carta, no mesmo dia; decorreram mais de 50 dias desde as eleições legislativas; o Presidente da República marcou a posse do novo Governo para a mesma hora de uma sessão plenária do Parlamento.


 


ARCO DA VELHA - A protecção a José Sócrates anda a ser feita por uma empresa que não tem alvará para essa actividade e cujos seguranças não têm a certificação obrigatória emitida pela polícia.


 


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FOLHEAR - Chegou a  edição especial da Monocle de Dezembro/Janeiro, com 300 páginas e dois suplementos - um guia de Viena e o jornal “Monocle Alpine”. Entre as várias entrevistas destaco a do secretário geral da NATO, Jens Stoltenberg, e a da Alcaide de Madrid, uma juíza reformada de 71 anos que saíu da sua zona de conforto para combater a corrupção. De um ponto de vista mais egoísta destaco a entrevista com o editor da New York Review Of Books, Robert B Silvers, que explica como a crítica é uma forma de criatividade. Na lista anual dos países analisados pela forma como o poder funciona Portugal subiu para a10ºa posição, com a recomendação de que o crescimento interno é a próxima meta a alcançar, depois dos resultados das medidas de austeridade. A melhor reportagem da edição é sobre a Baviera - com fotografias que mostram outra vida. Mas a grande peça da revista é a converrsa com o artista norte-americano Ed Ruscha - só isso valia a revista inteira. Finalmente esta Monocle tem ainda o Top 50 das viagens, desde comboios a aeroportos, passando por linhas aéreas, carros, hotéis, roupas e até bicicletas. Portugal consegue uma entrada na posição 45 - a escapadela mais bucólica,  com o Hotel São Lourenço do Barrocal, em Monsaraz, um projecto de recuperação arquitetónica assinado por Souto Moura.


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VER - O destaque esta semana é para a Gulbenkian, que apresenta um conjunto invulgarmente aliciante de exposições - seis para ser mais exacto. Comecemos pelo edifício principal.  Calouste S. Gulbenkian e o Gosto Inglês permite ter uma perspetiva sobre o coleccionismo de Calouste Sarkis Gulbenkian, através de obras que se encontram habitualmente nas reservas do Museu e que evidenciam a sua ligação ao Reino Unido onde estudou e viveu largos anos. Outra exposição é Wentworth-Fitzwilliam. Uma Coleção Inglesa, que agrupa 56 obras de diverso artistas de várias épocas, pertencentes  a uma importante coleção particular, iniciada em 1630 por Thomas Wentworth, 1º Conde de Strafford, e onde se incluem obras de Anton van Dyck, Sir Thomas Lawrence, Canaletto, Claude Lorrain, Claude Joseph Vernet, Hans Memling e George Stubbs, entre outros.  Passando para o Centro de Arte Moderna, destaque para  O Círculo Delaunay (na imagem). Sonia e Robert Delaunay viveram em Portugal desde Agosto de 1915 até Dezembro de 1916, aprofundando as relações, que já mantinham em Paris, com alguns portugueses, nomeadamente Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, José Pacheko e Almada Negreiros e evoca o ambiente criativo que se vivia à época. Hein Semke. Um alemão em Lisboa, apresenta aspetos menos  conhecidos da produção artística de Hein Semke, um alemão nascido em Hamburgo, que em 1932 radica-se em Linda a Pastora e, depois, em Lisboa, e que se torna-se presença regular em exposições coletivas de vulto da capital portuguesa. Willie Doherty. Uma e outra vez, também no CAM, é uma das grandes exposições deste Outono em Lisboa. Willie Doherty é um dos artistas contemporâneos mais proeminentes,  já foi seleccionado duas vezes para o Turner Prize e representou a Irlanda duas vezes na Bienal de Veneza. Trabalhando sobretudo com vídeo e fotografia, explora as relações entre o indivíduo e sociedade e entre natureza e espaço urbano. Finalmente, As Casas na Coleção do CAM mostra como as  casas continuam a distinguir-se por constituirem lugares de intimidade e abrigo. A exposição percorre o século XX, com trabalhos de escultura, pintura, vídeo, fotografia e instalação, de artistas como Ana Vieira, Rachel Whiteread ou José Pedro Croft, entre outros.


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OUVIR - Em 2013 o pianista de jazz Júlio Resende fez um disco com revisitações de temas que haviam sido interpretados e popularizados por Amália Rodrigues, entre os quais uma versão de “Medo” em que o piano de Resende, graças à tecnologia digital, se cruza com a voz de Amália. Desde então o pianista tem feito numerosos concertos, dos quais resultou um registo ao vivo, “Fado & Further”, que conta com a voz de Silvia Perez Cruz, nomeadamente em temas como “Lágrima” e “Cucurrucucu” e novas versões, das quais destaco “Uma Outra Mariquinhas” e “Enfrentar o Medo”. O disco tem uma edição especial, em que além do CD existe um DVD gravado em directo com o título “Amália por Júlio Resende”. “Fado & Further” vai ser apresentado já neste sábado 28 no CCB, com Silvia Perez Cruz e Moreno Veloso como convidados especiais. A edição do disco é da Valentim de Carvalho.


 


PROVAR -  No edifício do Mercado da Ajuda fica o Espaço Açores, que como o nome indica é dedicado à gastronomia do arquipélago. A sala é ampla e luminosa, com vista que desce pela colina da Ajuda até ao rio. Na mesa o couvert inclui queijo da ilha de cura recente, cortado aos cubos, azeitonas indistintas, manteiga bem temperada, pão sem grande história para além de vir a escaldar. As coisas começam bem com umas lapas grelhadas, que estavam no ponto. A seguir vieram uns filetes de abrótea demasiado fritos, o que secou o peixe e lhe apagou o sabor, acompanhado por um esparregado com inhame e batata doce, que acabou por ser o melhor do prato. Na carne o lagarto à micaelense, com batata doce às rodelas revelou uma carne de primeira qualidade e foi o melhor do almoço. O vinho foi servido a copo, branco e tinto da ilha do Pico, a merecer atenção. Inexplicavelmente em vez de ananás dos Açores a casa serve abacaxi de algures. O chá de funcho fez um bom final. A casa serve cozido à moda das furnas às sextas e domingo ao almoço e todas as quintas-feiras há um buffet açoriano. Fica no Largo da Boa-Hora, à Ajuda, e tem o telefone 213 640 881.


 


DIXIT - “Costa antecipa o milagre - dá primeiro as rosas, e depois logo se vê” - Nuno Morais Sarmento


 


GOSTO - Da 6ª Feira do Livro de Fotografia, que se realiza este fim de semana no Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa, na Rua da Palma.


 


NÃO GOSTO - Da confusão armada à volta da devolução da sobretaxa do IRS


 


BACK TO BASICS - “A democracia é um mecanismo que assegura que seremos governados da forma que merecemos” - George Bernard Shaw


 


 

novembro 20, 2015

O MISTÉRIO DA ESFINGE

RECREIO - Daqui a uns anos, quando se fizer a História destes dias que vivemos em Portugal, talvez alguém revele qual foi o equivalente, no Palácio de Belém, nas sucessivas audiências que Cavaco Silva promoveu com banqueiros e outras corporações, ao enigma que a esfinge grega colocava aos viajantes: Que criatura anda com quatro pernas pela manhã, duas pernas à tarde e três pernas ao anoitecer?” . O nosso sistema permite prazos dilatados para a tomada de decisões, quando os define - o que nem sempre é o caso. Sabemos que a justiça é lenta, sabemos que o Parlamento é demorado, que a convocação de eleições tem prazos absurdos no mundo de hoje, que a justiça ignora o que é o tempo, e muito menos o tempo útil. O nosso Estado, de cima a baixo, por definição, prefere ignorar a existência desse anacrónico objecto que é um calendário. Não sei quem será que, na charada em que estamos metidos, fará o papel de Édipo na esfinge de Belém e decifrará o enigma. Na mitologia, quando Édipo acertou na resposta, a esfinge atirou-se de um precipício. O meu maior temor é que no caso português, a esfinge que temos escolha atirar o país para um precipício, salvando-se a ela própria. Quanto maior a demora, maior o precipício; quanto maior a indecisão, maior o risco. Nem quero pensar que a esfinge de Belém resolva ignorar as respostas para poder terminar o seu prazo de validade sem sobressalto.


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SEMANADA - A adopção gay vai ter a sua quinta votação no Parlamento; Cavaco Silva afirmou, sobre a situação actual, que esteve cinco meses em gestão quando foi Primeiro-Ministro; António Costa afirma não querer governo de gestão; António Barreto disse que “quem tem de estar de acordo com o programa do governo é o Parlamento, não o Presidente da República”; Cavaco Silva afirmou, na Madeira, que não vê na crise política motivo para preocupações; no curto espaço que decorreu depois das promessas eleitorais verifica-se que a prometida devolução da sobretaxa caíu para 0%;  José Sá Fernandes afirmou que “o futuro das cidades está nos candeeiros”; Porto, Setubal e Aveiro lideram o ranking das cidades com maior número de burlas reportadas às autoridades policiais, um total de 20  mil em cinco anos,  72% das quais são praticadas por pessoas que se fazem passar por funcionários de serviços públicos; as burlas informáticas triplicaram nos últimos seis anos; há dez instituições privadas de ensino superior em risco de encerrar por falta de alunos - no total as privadas perderam dez mil alunos em três anos; no âmbito do programa Portugal 20/20 foram aprovados 21 projectos turísticos no valor de 45 milhões de euros; um dos grandes produtores mundiais de cenouras quer instalar-se em Odemira; o número de funcionários públicos aumentou pela primeira vez desde 2011; José Sócrates foi visitar Pinto da Costa ao Porto, em retribuição da visita que este último fez ao ex-primeiro ministro quando estava detido em Évora; o ex-Ministro Miguel Macedo foi acusado de usar o seu cargo para favorecer amigos.


 


ARCO DA VELHA - Centenas de candidatos no exame para a carta de condução pagaram cinco mil euros para passar no teste - eram apetrechados com uma microcâmara na lapela para se poder visualizar, a partir do exterior, o exame que surgia nos ecrãs dos computadores do local dos exames e os candidatos recebiam, através de um sistema de comunicação por auriculares, as respostas certas dadas por especialistas que estariam numa carrinha estacionada perto - ao todo o esquema terá rendido um milhão de euros.


 


FOLHEAR - Da série de livros recentemente editados sobre o BES, o mais interessante é aquele que o historiador Luciano Amaral escreveu, e que foi agora editado pela D.Quixote: “Em Nome do Pai e do Filho… O Grupo Espírito Santo, da privatização à queda”. Luciano Amaral especializou-se em História Económica Portuguesa do Século XX e lecciona na Nova School Of Business And Economics, em Lisboa. Fugindo à habitual ladaínha sobre os acontecimentos de 2014, este trabalho de Luciano Amaral optou por fazer o paralelo entre o a actividade do Grupo Espírito Santo, nos últimos 30 anos, com a evolução da economia portuguesa no mesmo período, e também com os outros grupos económicos portugueses. Muito para além da espuma dos dias mais recentes e da procura de episódios sensacionais, a abordagem é mais distanciada e, também, mais enquadrada - o início do livro parte da actividade como cambista na segunda metade do século XIX e percorre  a expansão ocorrida durante o Estado Novo até à nacionalização de 1975. Mas o grosso do trabalho centra-se no período entre 1985 e 2014, entre o regresso das actividades do GES a Portugal na segunda metade dos anos 80, enquadrando-o no tempo, até ao seu colapso em 2014. Cheio de informação, este livro de Luciano Amaral relata o que aconteceu ao longo dos anos e permite uma imagem tão focada quanto possível desta parte da História recente de Portugal. Ainda por cima está muito bem escrito.


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VER - António Costa Pinheiro, falecido em Outubro passado, foi um dos grandes artistas portugueses, injustamente pouco conhecido entre nós. Na apresentação de uma exposição que reúne oito dezenas das suas obras, e que está na Galeria São Roque até final de Dezembro, o ensaísta e especialista em arte contemporânea Bernardo Pinto de Almeida manifestou a sua estranheza em não se ter feito nos últimos anos, em Portugal, nenhuma grande exposição retrospectiva do trabalho de Costa Pinheiro que permitisse a divulgação e compreensão da sua obra pelos públicos mais recentes. Em 1958 Costa Pinheiro fundou, com René Bertholo, Lourdes Castro, João Vieira, José Escada, Gonçalo Duarte, Jon Voss e Christo, o grupo KWY, que marcou uma época. Trabalhou em Paris e, sobretudo, em Munique. Apesar de estadas regulares em Portugal,  foi na Alemanha que acabou por viver muitos anos, e foi lá que mais regularmente expôs. Agora a Galeria São Roque mostra obras feitas entre 1955 e 1985, e tem o título “Imaginação e Ironia”. Este é também o título do livro agora editado em português pela primeira vez, e que foi originalmente publicado na Alemanha em 1970, com arranjo gráfico do autor. A edição respeita o design gráfico da edição original alemã, que foi premiada pela Fundação Erika-Reuter Lemforde. Galeria São Roque, Rua de S. Bento 269.


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OUVIR - Tori Amos começou a sua carreira musical em 1988 e tem duas dezenas de álbuns na sua discografia. O seu maior sucesso foi o álbum “Little Earthquakes”, de 1992, que vendeu mais de cinco milhões de exemplares. Depois desta sua fase mais popular tornou-se numa cantora de culto, muitas vezes trabalhando a solo com o seu piano. Em 2014 o seu album “Unrepentant Geraldines” mostrou como com o passar do tempo ela tem sabido desenvolver a sua criatividade. Em 2013 lançou-se na criação de uma peça teatral musicada, “The Light Princess”, estreada nesse ano no Reino Unido. A música é de Tori Amos, as palavras foram escritas com Samuel Adamson. Depois das apresentações ao vivo, Tori Amos empenhou-se em fazer a gravação em estúdio de toda a banda sonora, num processo longo que demorou 11 meses e que envolveu, além da orquestra, um conjunto de 26 actores que interpretararm 33 canções -  duas são interpretadas por ela própria -  "Highness in the Sky" e "Darkest Hour", e o resultado é um duplo CD. Tori Amos descreve a peça como um conto de fadas contemporâneo que fala dos problemas actuais dos adolescentes e das suas relações com os adultos. Amos compara-o, na temática e nas reacções que tem tido do público, a “Little Earthquakes”. A experiência era arriscada mas a legião de fãs de Amos ficará surpreendida, mas não desiludida, com este trabalho.


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PROVAR -  A minha família é originária do distrito de Portalegre, de maneira que as minhas memórias gustativas são muito marcadas pela região - do queijo aos enchidos, passando pela doçaria de terras como Nisa, Alpalhão e Amieira do Tejo. Esta região tem ainda muitos pequenos produtores, quase artesanais, e algumas instalações mais industriais. Muitas vezes é difícil encontrar nas grandes superfícies produtos regionais de pequenos produtores - e desta vez consegui descobrir bem no centro de Lisboa um sítio dedicado ao que de melhor há para oferecer no Alto Alentejo. Chama-se “O Cocho - Mercearia Alentejana” e  fica na Rua de S. Bento 239, um pouco acima do Clube Nacional de Natação. Na página www.facebook.com/ocochomerceariaalentejana pode seguir-se o que vai surgindo por lá. Numa visita recente comprei o excelente Bolo Finto(na imagem), oriundo da Urra, Portalegre, uma massa bem temperada com erva doce. Cortado em fatias fica excelente em torradas. Mas o Cocho tem produtos de várias regiões do Alentejo e não apenas na área do petisco - lá se podem encontrar mantas tradicionais, pequenas peças de mobiliário e artesanato. Fiquei cliente.


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DIXIT - “É fundamental que haja um governo que governe, rapidamente, porque há muita coisa parada” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


GOSTO - Da candidatura portuguesa do fabrico de chocalhos a Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, que já obteve parecer positivo da comissão internacional de especialistas do organismo.


 


NÃO GOSTO - Do exagero de comentários por gente impreparada e da subalternização de notícias e factos na cobertura que as TV’s fizeram dos atentados em Paris.



BACK TO BASICS - “Seja o que fôr que os terroristas querem alcançar, de certeza que criar um mundo melhor não está entre os seus objectivos, já que aquilo que fazem é matar inocentes” - Salman Rushdie

novembro 13, 2015

UMA SEMANA DE EMOÇÕES FORTES

GOLPES - A coisa promete. À primeira divergência sobre a condução dos trabalhos parlamentares o apagado Ferro Rodrigues acendeu uma luz e, desajeitado como é seu hábito, disse do alto posto a que o ascensor partidário o levou:  "A democracia também é o respeito pelas maiorias". No fundo este é o pensamento dominante no novo regime que comprou uma maioria nos saldos das eleições. Essa maioria, que já tem umas demarcações de Catarina Martins e continua a ter uns mistérios do PCP, pretende usar em pleno as prerrogativas dadas pela manobra de António Costa. Tenho curiosidade em saber se António Costa teria feito o que fez caso existisse um Presidente da República em pleno gozo das suas faculdades, com possibilidade de dissolver a Assembleia e convocar novas eleições,  Assim se fazem os pequenos golpes palacianos no regime. Esta habilidade tirou ainda mais credibilidade ao sistema eleitoral, aos partidos, ao Parlamento. Muitos dos que votaram há um mês não voltarão a dirigir-se às mesas de voto e eu percebo-os muito bem. Como já vi escrito, o que aconteceu terça-feira no Parlamento foi a estocada final na III República - esse foi o dia em que o sistema bateu no fundo, convenientemente resguardado dos olhares públicos em cerimónias apressadas de assinaturas de acordos apenas parcialmente enunciados. Nesse sentido a coligação de Costa pode ter a maioria mas nasceu num vão de escada, deliberadamente escondida, como se de uma conspiração se tratasse. A procissão da discórdia nesta coligação de oportunistas ainda vai no adro, como a questão da privatização das empresas de transportes deixa adivinhar - bem se sabe que essa foi uma das moedas de troca exigidas pelo PCP, já que com empresas privadas nesta área a possibilidade de a CGTP bloquear os transportes em dia de greve geral seria mais reduzida e muito do efeito propagandístico perder-se-ia. Tenho para mim que este período de queda do regime vai ter consequências no sistema político e partidário. Muito provavelmente as presidenciais vão ser o primeiro palco onde isso se vai notar. Tenho para mim que o capítulo de quem é candidato não está encerrado e que surpresas ainda podem existir. Vai ser curioso observar o que se irá passar nas próximas semanas. E o que se passar terá depois efeitos na progressiva substituição das lideranças nos partidos que inevitavelmente ocorrerá a médio prazo. No entretanto vamos atravessar o caminho das pedras.


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SEMANADA (EM TÍTULOS)  SEGUNDA-FEIRA: “Perestroika no PCP”(i); “PCP dá apoio ao Governo do PS por quatro anos” (JN);”PS tem condições para formar Governo” (Negócios);  “Comunistas apoiam Governo de Costa” (Economico); “PS avança com moção de rejeição própria ao programa do Governo” (Público); “Jerónimo dá luz verde a governo PS” (DN); “PCP dá quatro a nos a governo de António Costa (CM); “Acordos à Esquerda só depois de derrubado o Governo” (Observador) TERÇA-FEIRA: “Governo do PS promete oásis” (i); “Seis horas de debate com Costa em silêncio”(JN); “António Costa com pouca margem para imprevistos” (Negócios); “Cavaco vai ouvir conjunto alargado de personalidades antes de decidir “ (Económico); “Governo é derrubado hoje quatro vezes seguidas” (DN); “2 mil milhões fogem da Bolsa” CM)”; “ Estupefeçao e revolta - como a direita viu a queda” (Observador); “Acordos à Esquerda blindam governo PS de moções de censura” (Público);  QUARTA-FEIRA: “Bloco e PCP mantêm em aberto possibilidade de deixar cair Costa” (DN);  “PCP impõe acordo secreto” (CM); “Caiu” (Publico); ”11 dias, 5 horas e 40 minutos” (JN); “Fractura”  (Económico); “À espera de Cavaco” (Negócios);  “Cavaco sem pressa deixa esquerda em suspenso” (i); “Sampaio decidiu depois de 10 dias e 17 audiências” (Observador); ORGÃOS CENTRAIS: “Força do Povo derrota Governo” (Avante!); “São demasiados os exemplos de que o PS não aprendeu a lição de 2011” (Folha CDS); “O papel do Bloco na transformação que o país precisa” (Portal do Bloco de Esquerda); “XX Governo Constitucional tomou posse” (Povo Livre); “PS propõe isenção temporária das taxas moderadoras” (Portugal Socialista).


 


ARCO DA VELHA - Um funcionário da segurança social de Lisboa aumentava reformas de particulares, anulava dívidas de empresas e atribuía falsos subsídios de desemprego a troco de “luvas”,  que recebia em dinheiro vivo em envelopes fechados, tudo isto com a ajuda de um tio que angariava clientes.


 


FOLHEAR - Milo Manara é um notável autor italiano de banda desenhada, conhecido primordialmente pela sua extensa obra erótica. No entanto nas suas nove dezenas de obras publicadas tem vários livros sobre episódios históricos, algumas biografias e, é certo, muitas histórias eróticas onde a sua forma de desenhar e utilizar o corpo feminino na narrativa dramática o tornaram autor de um estilo muito peculiar - que inclusivamente chegou a levar Fellini a querer adaptar ao cinema uma das suas novelas gráficas, “Viagem a Tulum”, o que acabou por não acontecer. Manara, agora com 70 anos, acabou de lançar o seu mais recente trabalho, uma história da vida do pintor Caravaggio. Manara é um daqueles autores de banda desenhada que tem um traço meticuloso e uma utilização cuidada da côr. Caravaggio era uma velha obsessão - Manara descobriu o pintor aos seis anos através de uma reprodução de “A crucificação de S.Pedro” Desde aí nunca deixou de descobrir e estudar a obra de Caravaggio. O livro agora editado, também em Portugal, “Caravaggio, O Pincel E A Espada” é a primeira parte de uma saga em dois volumes, inspirada nas cores e luzes do pintor milanês, aqui no ambiente de Roma onde a sua fama nasceu e de onde fugiu em 1606, depois de ter morto um homem numa luta de rua. Quatro anos depois, em 1610, ele próprio foi morto em circustâncias desconhecidas. Este primeiro volume termina com a fuga de Roma, o próximo contará os quatro derradeiros e mais produtivos anos da vida de Caravaggio enquanto pintor. A edição portuguesa é da Arte de Autor, que assim se estreia.


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VER - Hoje vou recomendar uma exposição que retrata o país, mostrando o que muitas vezes é desconhecido. Trata-se de uma exposição em forma de filme e chama-se “Portugal, um dia de cada vez”. Foi realizado por João Canijo, filmado por Anabela Moreira, com edição de João Braz e produção de Pedro Borges. Inspirado nos célebres Guias de Portugal criados por Raul Proença e, editados pela Gulbenkian, Canijo e Anabela Moreira seguem os volumes sobre Trás Os Montes e Alto Douro e revisitam-nos em 2014, 45 anos depois da edição original.


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O filme faz retratos de pessoas e não a descrição minuciosa de paisagens como os livros originais. Mas esses retratos de pessoas e de sítios mostram um outro Portugal, bem longe das ideias dos políticos das distritais partidárias das grandes cidades ou, no caso do cinema recente, do folclorismo de Miguel Gomes nas suas “Mil E Uma Noites”. Este “Portugal, um dia de cada vez” é uma mostra de um Portugal afastado da Europa, a não ser pelos emigrantes romenos que surgem a trabalhar nas vinhas e nas obras. Pode ser um choque, mas é um testemunho de uma realidade, rural e sobrevivente, alicerçada nas festas religiosas, na terra e no trabalho, que existe provavelmente mais do que aquilo que pensamos. Os testemunhos são marcantes, a fotografia arrasta-nos para dentro do ecrã e o momento em que Amália interpreta o “Com Que Voz”, em cima de imagens do nosso tempo, é um sinal de como o filme, distante de Lisboa, se aproxima do nosso momento político presente. No Cinema Ideal, ao Chiado.


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OUVIR - Em apenas oito anos os Beatles conseguiram que 27 canções suas fossem nº1 nos tops de vendas de singles do Reino Unido e dos Estados Unidos - uma média sensívelmente de um êxito de quatro em quatro meses. Estas canções foram gravadas entre Setembro de 62 e Janeiro de 69, de “Love Me Do” a “The Long And Winding Road”. 26 destas canções foram escritas por John Lennon e Paul McCartney e George Harrison escreveu o único Top One  que escapou à dupla, a balada “Something”. George Martin, hoje com 89 anos, conhecido como o quinto Beatle,  esteve envolvido na produção de todas elas, e o seu filho, Giles Martin, pegou nas fitas originais e fez agora novas remisturas stereo de todas as canções, excepto das três primeiras, “Love Me Do”, “From Me To You” e “She Loves You”, que foram mantidas em mono, como nos registos originais.O livrinho que acompanha esta nova edição remasterizada e remisturada de “The Beatles 1”, colectânea originalmente lançada em 2000, inclui reproduções das capas dos singles lançados em diversos países, muitas vezes com os títulos originais traduzidos para os idiomas locais. O som melhorou graças às novas capacidades tecnológicas e mesmo que alguns puristas torçam o nariz esta é uma grande forma de mostrar o legado dos Beatles às gerações que mal os conheceram - o último top one aconteceu há 45 anos. (CD Universal Music)


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PROVAR - Um dos meus restaurantes favoritos de dia a dia é o De Castro Elias. Este verão mudou a decoração e refrescou o ambiente, há poucas semanas introduziu umas novidades na carta que, agora, para além dos clássicos, inclui a categoria de itinerantes. Dos clássicos fazem parte especialidades como o polvo à galega nas entradas ou o arroz de fígados de pato salteados com enchidos e cogumelos ou ainda as célebres ameijoas com feijão manteiga, de Miguel Castro e Silva. Na nova lista, sob a tal designação “itinerantes”, há boas novidades. Ao almoço por exemplo há uma salada de lulinhas fritas com molho de iogurte, gengibre e lima para quem quer uma opção mais leve e um belíssimo hamburguer com bacon, ovo estrelado,cebola e batata frita para uma versão slow food de um prato típico da fast food;  a opção vegetariana  é um arroz carolino de verduras. Ao jantar há uma açorda de bacalhau com ameijoas e um esparguete com ovo, barriga de porco e trufas, ou um bife à portuguesa com batata frita; a opção vegetariana é brás de verduras com salada. Nas sobremesas pontifica sempre o bolo de chocolate sem farinha e a tarte de laranja acompanhada de laranja em calda. A carta de vinhos é suficiente e os preços foram revistos em baixa - e há várias opções de vinho a copo. Eu recomendo nos tintos o Confidencial Reserva e nos brancos o Confidencial, ambos da casa Santos Lima e com uma excelente relação qualidade-preço. Av Elias Garcia 180, telefone 217 979 214.


 


DIXIT - “Este Parlamento mete dó!” - António Barreto


 


GOSTO - O Inquérito Nacional de Saúde 2014 do INE indica que a percentagem de fumadores na sociedade portuguesa está a diminuir.


 


NÃO GOSTO - O Inquérito Nacional de Saúde 2014 do INE indica que a percentagem de obesos na sociedade portuguesa está a aumentar.


 


BACK TO BASICS - “Os homens sábios falam quando têm alguma coisa a dizer; os tolos porque acham que devem sempre dizer alguma coisa” - Platão

novembro 10, 2015

A ESTRATÉGIA DIGITAL DE OBAMA – NA CAMPANHA E NO PODER

Com eleições presidenciais à porta é curioso recordar o caso americano na relação dos candidatos com as redes sociais. Está por demais contada a história de como uma estratégia digital ousada de Barack Obama foi uma das chaves da sua reeleição. De facto uma utilização criativa da tecnologia aplicada à política tem sido crucial para a carreira de Obama. A sua campanha foi pioneira, entre os vários candidatos, na utilização da análise de dados – o que lhe permitiu, na recta final, fazer acções dirigidas nas zonas do país e sem segmentos do eleitorado onde se sabia que ele estava debaixo de maior pressão e com mais problemas potenciais em assegurar a vitória. No período pós eleitoral surgiram muitos artigos a revelar como uma utilização inteligente das bases de dados, dos emails e das rêdes sociais foi absolutamente decisiva para conquistar os votantes de última hora, sobretudo dentro de algumas faixas etárias. Obama foi aliás o primeiro presidente norte-americano a ter oficialmente uma conta de email da Casa Branca e foi também o primeiro a criar uma equipa que incluía um Chief Digital Officer, Jason Goldman, um ex-executivo do Twitter, que desenvolveu toda a estratégia digital do Presidente dos Estados Unidos.


Um recente artigo do New York Times, “A Digital Team Is Helping Obama Find His Voice Online”, revela alguma coisa do que se está a passar. Por exemplo Obama está a aumentar a sua presença nas redes sociais com o objectivo de criar uma ideia de espontaneidade e acessibilidade em relação àquilo que o jornal classifica como “um dos cargos políticos do planeta mais coreografados e regulados”. A conta de Obama no Twitter, @POTUS, tem cinco milhões de seguidores e a execução da estratégia digital da Casa Branca é garantida por uma equipa de 20 assessores dedicadas a gerirem a Twitter presidencial, assim como a página da Casa Branca no Facebook, no Instragram e o canal no YouTube. Uma das tarefas desta equipa é transformar em twitters síntese, de 140 caracteres, segmentos dos discursos do presidente, mas também estudar os dados analíticos que permitem identificar quais os temas políticos e sociais que podem interessar mais em cada momento e desenvolver conteúdos de video ou gráficos de acordo comas informações recolhidas.


Para os responsáveis desta equipa, citados pelo New York Times, o objectivo é estabelecer uma identidade digital clara para Barack Obama, torneando o que consideram ser a perda de eficácia dos fórmulas tradicionais de discurso solene, declaração à televisão ou uma entrevista exclusiva a um jornal. O trabalho desta equipa de especialistas e o seu estudo dos dados que vão recolhendo conseguiu convencer os responsáveis da Casa Branca que a exposição do Presidente nas redes sociais e em outros meios digitais, como o You Tube, tem tido resultados muito positivos, como aconteceu este ano no habitual discurso sobre o Estado da União. Noutras ocasiões o Presidente ele próprio escreveu no Twitter a sua reacção a acontecimentos importantes e é frequente que quando está a fazer campanha sobre um tema, por exemplo sobre o controlo da venda de armas de fogo, a casa Branca utilize estes meios para fazer passar factos e estatísticas que fundamentam a sua posição. O resultado, dizem os especialistas ouvidos pelo New York Times, não podia ter sido melhor.


Em última análise tudo isto tem a ver com “encontrar formas de comunicar com as pessoas numa época em que se assiste a uma grande desagregação dos media, o que faz com que a comunicação pelos meios tradicionais seja muito insuficiente” – afirma Dan Pfeiffer, um dos arquitectos da estratégia digital de Obama.


Uma das minhas curiosidades na campanha presidencial portuguesa que se avizinha é perceber como os candidatos irão utilizar as redes sociais, qual será a sua estratégia digital. Vamos ver, daqui a pouco tempo se saberá.


publicado originalmente em buzzmedia.pt


 


 

novembro 06, 2015

DE VILA REAL A LISBOA, PASSANDO PELA MEALHADA - A SEMANA DO PS

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SEMANADA - Concluíu-se a perfuração do túnel do Marão; ainda não se conhecem os termos do acordo entre PS, PC e Bloco; o PS admitiu fazer acordos diferentes com o Bloco de Esquerda e o PCP; António Costa fez uma acção de charme para seduzir os banqueiros; Francisco Assis organizou para este fim de semana um encontro na Mealhada dos críticos da aliança à esquerda;  José Sócrates vai fazer uma conferência em Vila Real de Trás Os Montes para analisar o estado da nação; em resposta António Costa convocou para sábado e domingo a Comissão Nacional e a Comissão Política Nacional do PS para debater os acordos com PC e Bloco; Francisco Assis antecipou o almoço da Mealhada de sábado para sexta; Sócrates não cancelou a conferência de Vila Real; Santos Silva, o amigo de Sócrates, levantou 1,1 milhões de euros em numerário no espaço de três anos, cerca de 30 mil euros por mês; a emigração cresceu mais de 50% entre 2010 e 2013; o autódromo do Algarve, em Portimão, um projecto de 200 milhões de euros acarinhado por Manuel Pinho e José Sócrates, acabou por se revelar um enorme buraco e entrou em processo especial de de revitalização para evitar a falência, sem nunca ter conseguido atingir o que se propunha em termos de criação de emprego e dinamização da economia; o Futebol Clube do Porto ofereceu roupões de turco personalizados com os respectivos nomes aos membros da equipa de arbitragem de um jogo recente no Dragão; o deputado do PAN finalmente tomou posição e manifestou-se contra a utilização da águia Vitória nos jogos do Benfica; o tempo tem estado de chuva - na política e fora dela.


 


ARCO DA VELHA - Em recentes acções de fiscalização a ASAE detectou a comercialização de produtos apresentados como bife de peru, mas que não tinham vestígio de qualquer espécie de carne, e de queijo que nunca viu leite por perto e era feito de pasta vegetal.


 


LER - José Manuel Félix Ribeiro, economista e especialista em geo-estratégia, é conhecido por não ser de falas brandas e por dizer já o que se arrisca a acontecer mais à frente. Não poucas vezes tem acertado em cheio. O seu novo livro, “EUA versus China, confronto ou coexistência? - a globalização e os desafios do novo milénio” defende isto: A China é como se fosse uma cobra que está a mudar de pele, a China vai mudar de modelo de cres­ci­mento e de equi­lí­brio polí­tico, e ao mesmo tempo está a andar muito depressa no meio da terra à pro­cura de um sítio onde esteja pro­te­gida e onde possa olhar de frente para o seu adver­sá­rio que são os Esta­dos Uni­dos, para ata­car quando for pos­sí­vel.”. No seu livro anterior, “Portugal, A Economia de Uma Nação Rebelde”, ficava dentro das nossas fronteiras, aqui analisa o que na sua opinião está a acontecer no mundo, cruzado por guerras civis, religiosas e civilizacionais. Félix Ribeiro considera que a viabilidade do reforço da integração europeia, ocorrida como resposta à reunificação da Alemanha é cada vez menos reconhecível e sublinha que neste contexto os EUA são o pilar-chave do Ocidente e será em torno deles - e não de um qualquer império eurocontinetal - que se irá organizar o futuro da globalização e da emergência de novos actores como a Índia e o regresso de velhos actores como a Rússia.


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O livro, como frequentemente acontece com os escritos do autor, é polémico e dá que pensar. Como curiosidade editorial diga-se que na contra capa do livro está um QR Code que lhe permite aceder a uma vasta documentação do autor sobre a actuação externa dos EUA e a transformação do seu modelo nas décadas de 70, 80 e 90. A edição é da Guerra & Paz. O último capítulo chama-se “ Horizonte 2030: a deslocação do mapa de competições e rivalidades” - não deixem de o ler.


 


FOLHEAR - A revista “Vanity Fair” de Novembro tem Rhianna na capa, fotografada em Havana por Annie Leibowitz, mas isso está longe de ser o mais interessante desta edição, apesar do superior trabalho de Leibowitz. O meu primeiro destaque vai para o relato de um almoço com Patti Smith em que ela sublinha “não ser como Judy Garland”. Muito bom o artigo “Cinema Politico” que recorda os documentários sobre a campanha de nomeação de Kennedy, “Primary”, e “The War Room”, o documentário sobre a primeira campanha de Bill Clinton. Por falar em presidenciais outro artigo interessante é sobre a forma como está a ser montada a campanha de Hillary Clinton - e há ainda uma história sobre os paradoxos de Donald Trump. Olho para todos estes artigos e não posso deixar de pensar na diferença que existe na abordagem editorial de uma campanha presidencial e dos seus candidatos nos Estados Unidos e por cá - e não é uma questão de dinheiro ou de dimensão - é meramente de ideias.


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Saindo da política, para um grupo de amigos meus que têm o ritual de viajarem para conhecer os restaurantes com estrelas Michelin, recomendo “The Fault In Their Stars”, uma bela viagem ao efeito “Guerra das Estrelas” do mais famoso guia de restaurantes do mundo. Mas confesso que o artigo que mais me deliciou foi uma viagem pelo universo de Tom Wolfe, através dos seus arquivos pessoais, agora disponibilizados - uma história do homem que mudou a forma de contar histórias.


 


VER - Esta semana várias sugestões. Atravessando o Tejo, rumo a Almada, podemos ir ver “4 Fotógrafos de Moçambique”- Moira Forjaz, José Cabral, Luis Basto e Filipe Branquinho. Alexandre Pomar esteve na sua origem e está na Galeria Municipal de Arte, Avenida Álvares Pereira 4 -   integra o mês da fotografia de Almada.


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Mais a sul ainda, em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, Daniel Blaufuks apresenta em 20 fotografias marcantes com a sua visão do Convento da Cartuxa, o único mosteiro contemplativo masculino em Portugal. Em Lisboa, e só de 6 a 9 de Novembro, na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27, Alvalade), Albano da Silva Pereira apresenta Life Goes On, uma mostra de fotografias paralela à exibição no DocLisboa do documentário feito pelo mesmo autor, e com o mesmo título, sobre a obra de Robert Frank. Para terminar duas exposições sobre objectos do quotidiano - a primeira é  “Móveis Olaio, Produção, Inovação E Qualidade”, que está no Museu da Cerâmica de Sacavém até final de Dezembro, e a outra é a exposição-homenagem à cadeira portuguesa, na Casa de Santa Maria, em Cascais e que, entre muitas peças, tem um exemplar original da célebre cadeira Gonçalo, que povoou as esplanadas portuguesas nos anos 50 e 60 e que agora regressou e é produzida pela Arcalo.


 


OUVIR - Rodrigo Leão compõe normalmente com o seu sintetizador e o computador e nos seus primeiros discos chegou a usar um teclado Casio básico. Desta vez as suas composições passaram da máquina para uma orquestra e o novo disco, “O Retiro”, o seu primeiro para a prestigiada editora Deutsche Grammophone, foi gravado com a Orquestra e Côro da Gulbenkian no Grande Auditório da Fundação. Além da Orquestra, Rodrigo Leão recorreu ao seu habitual quarteto de cordas (Viviena Tupikova, Bruno Silva, Carlos Tony Gomes e Denys Stetsenko) e a parceiros habituais como Celina da Piedade e Selma Uamusse, que interpreta "Melancolia".


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Os arranjos orquestrais são de  Steve Bartek , ex Oingo Bongo. Rodrigo Leão, que tem uma carreira já com três décadas, consegue com “O Retiro” uma das suas ambições - um disco que capte os seus ambientes sonoros habituais, com outros recursos e que leve a sua música a um outro patamar. O disco inclui o tema “florestas submersas”, criado expressamente para a exposição com o mesmo nome desenvolvida por Takashi Amano para o Oceanário de Lisboa. Eu, que sigo desde o início o percurso musical de Rodrigo Leão, e que assisti a várias provas da sua capacidade, fiquei impressionado com a criatividade, a sensibilidade e a energia deste disco. Ele vai apresentá-lo ao vivo, com os intervenientes na gravação, no próximo dia 18 no Coliseu do Porto e nos dias 20 e 21 no Coliseu dos Recreios em Lisboa.


 


PROVAR - O Hotel Yeatman é todo um episódio, ligado à história do Douro -  o seu nome vem da família Yeatman, ligada ao comércio do Vinho do Porto desde 1838. Trata-se de um dos melhores hotéis portugueses, situado em Gaia, com vista para o Porto. Foi planeado de raiz para a função e foi inaugurado em 2010. Desde o início procurou a excelência no serviço e o conforto no acolhimento. No projecto foi pensado um restaurante que conjugasse o melhor da gastronomia com uma cuidada selecção de vinhos - o hotel tem aliás uma garrafeira invejável e desenvolveu parcerias com os melhores produtores nacionais. O restaurante, que conquistou uma estrela Michelin continuadamente em 2012. 2013, 2014 e 2015,  é dirigido pelo chef Ricardo Costa, natural de Aveiro. Anteriormente Ricardo Costa havia sido já distinguido com estrelas Michelin em 2009 e 2010 no restaurante da Casa da Calçada, em Amarante. Ao almoço está disponível um menu sazonal, com seis pratos. Os menus de degustação começam no Menu do Chef com dez pratos, e nas suas variantes - uma selecção de seis ou quatro pratos a partir do menu do Chef. Em todos os casos são propostas selecções de vinhos adequadas aos menus escolhido. E, claro, se não quiser o menu degustação, tem ainda a possibilidade de  escolher na carta pratos de referência do Yeatman, como o foie gras com pera bêbada, o arroz caldoso de lavagante ou a caldeirada de peixe galo, ovas e carabineiro. Este é um daqueles restaurantes onde tudo corre bem do princípio ao fim e, mesmo sendo a conta inevitavelmente pesada, apesar da extensão dos menus, a cozinha é ligeira e, não poucas vezes, uma descoberta.


 


DIXIT - “Lei da calamidade pública não é para qualquer coisinha” - Calvão da Silva, Ministro da Administração Interna, a propósito das cheias em Albufeira, que comentou dizendo que “Deus nem sempre é amigo”.


 


GOSTO - Da criação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, no Porto, que vai juntar três grandes unidades científicas e 800 investigadores.


 


NÃO GOSTO - Putin lidera a lista dos mais poderosos do mundo elaborada pela Forbes.


 


BACK TO BASICS - Bonitas palavras e uma aparência insinuante raramente estão associadas à verdadeira virtude - Confúcio



(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Outubro)