novembro 27, 2015

A VELHA POLÍTICA É O PRINCIPAL ADVERSÁRIO

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REGIME - Desde a passada terça-feira é oficial: mudou o modo de funcionamento do regime. A partir de agora pode formar Governo não necessariamente quem ganhe as eleições, mas quem conseguir maiorias parlamentares, mesmo que de geometria variável. Lembram-se de “Borgen”, a série de TV que tantos aplaudiram? Pois António Costa parece que a viu com particular atenção. Efectivamente é ao Parlamento que cabe aprovar ou rejeitar o Governo e o seu programa - e foi nisso que Costa apostou. Na realidade ele conseguiu formar uma coligação pós eleitoral que tem uma maioria sobre a coligação pré-eleitoral. Goste-se ou não se goste, é assim - e esta é uma experiência que em quatro décadas de democracia ainda não se tinha vivido. Se a coligação PCP-BE-PS consegue aguentar-se é outra conversa: depende em primeiro lugar dos sindicatos da CGTP e de como eles conseguirem manobrar o PCP. E, nos dias que correm, estou convencido que é mais o PCP a fazer o papel de  correia de transmissão dos sindicatos que o contrário; e a queda do Governo depende também de algum destes partidos agora coligados querer ter o ónus de deixar cair o executivo. Além disso, daqui a uns meses,  depende também, e bastante, do novo Presidente da República. Acredito que, ao contrário do que se tem dito, se for Marcelo Rebelo de Sousa aposto que ele poderá construir pontes que ninguém imaginou possíveis. Mas há outro argumento a favor de Marcelo - esta alteração de funcionamento do regime vai mostrar a necessidade de rever o sistema político e partidário. Marcelo Rebelo de Sousa é o candidato mais preparado e aquele que está disposto a procurar que os partidos se entendam numa nova lei eleitoral e eventualmente numa revisão constitucional que incida no funcionamento do sistema - por natureza Marcelo gostaria de conseguir coligar o que não parece coligável e construir alguma coisa de novo. Albert Rivera, o líder do interessante partido espanhol Ciudadanos, formulou esta semana uma pertinente questão: “é possível mudar um país sem o governar?”. Ele aposta que sim, e aponta que “a velha política é o principal adversário”. Parece-me que tem razão.


 


SEMANADA - José Sócrates anunciou, num almoço que reuniu 400 apoiantes em Lisboa, que está de volta à política; UGT reconheceu ter perdido 80 mil filiados em quatro anos e a CGTP não divulgou números sobre este tema; existem 23 candidatos anunciados à Presidência da República, que já só têm menos de 30 dias para formalizar a candidatura junto do Tribunal Constitucional; um em cada três inquilinos gasta mais de 40% do rendimento com a casa; 89% das empresas do país empregam menos de 10 pessoas e têm um volume de negócios inferior a 2 milhões de euros; o crédito em risco no BPI, BCP e CGD ascende a 25 mil milhões de euros; as empresas exportadoras significam 6% do tecido empresarial português e concentram mais de um terço do total de todo o volume de negócios; os nove casinos portugueses faturaram 214,7 milhões de euros nos nove primeiros meses do ano, um aumento de 7,2% face ao ano passado; já existem onze candidaturas para operar o jogo online em Portugal; as iluminações de Natal em todo o país custam cercam de um milhão de euros; Cavaco Silva ouviu 31 entidades e no fim fez seis perguntas a António Costa, que lhe respondeu, por carta, no mesmo dia; decorreram mais de 50 dias desde as eleições legislativas; o Presidente da República marcou a posse do novo Governo para a mesma hora de uma sessão plenária do Parlamento.


 


ARCO DA VELHA - A protecção a José Sócrates anda a ser feita por uma empresa que não tem alvará para essa actividade e cujos seguranças não têm a certificação obrigatória emitida pela polícia.


 


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FOLHEAR - Chegou a  edição especial da Monocle de Dezembro/Janeiro, com 300 páginas e dois suplementos - um guia de Viena e o jornal “Monocle Alpine”. Entre as várias entrevistas destaco a do secretário geral da NATO, Jens Stoltenberg, e a da Alcaide de Madrid, uma juíza reformada de 71 anos que saíu da sua zona de conforto para combater a corrupção. De um ponto de vista mais egoísta destaco a entrevista com o editor da New York Review Of Books, Robert B Silvers, que explica como a crítica é uma forma de criatividade. Na lista anual dos países analisados pela forma como o poder funciona Portugal subiu para a10ºa posição, com a recomendação de que o crescimento interno é a próxima meta a alcançar, depois dos resultados das medidas de austeridade. A melhor reportagem da edição é sobre a Baviera - com fotografias que mostram outra vida. Mas a grande peça da revista é a converrsa com o artista norte-americano Ed Ruscha - só isso valia a revista inteira. Finalmente esta Monocle tem ainda o Top 50 das viagens, desde comboios a aeroportos, passando por linhas aéreas, carros, hotéis, roupas e até bicicletas. Portugal consegue uma entrada na posição 45 - a escapadela mais bucólica,  com o Hotel São Lourenço do Barrocal, em Monsaraz, um projecto de recuperação arquitetónica assinado por Souto Moura.


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VER - O destaque esta semana é para a Gulbenkian, que apresenta um conjunto invulgarmente aliciante de exposições - seis para ser mais exacto. Comecemos pelo edifício principal.  Calouste S. Gulbenkian e o Gosto Inglês permite ter uma perspetiva sobre o coleccionismo de Calouste Sarkis Gulbenkian, através de obras que se encontram habitualmente nas reservas do Museu e que evidenciam a sua ligação ao Reino Unido onde estudou e viveu largos anos. Outra exposição é Wentworth-Fitzwilliam. Uma Coleção Inglesa, que agrupa 56 obras de diverso artistas de várias épocas, pertencentes  a uma importante coleção particular, iniciada em 1630 por Thomas Wentworth, 1º Conde de Strafford, e onde se incluem obras de Anton van Dyck, Sir Thomas Lawrence, Canaletto, Claude Lorrain, Claude Joseph Vernet, Hans Memling e George Stubbs, entre outros.  Passando para o Centro de Arte Moderna, destaque para  O Círculo Delaunay (na imagem). Sonia e Robert Delaunay viveram em Portugal desde Agosto de 1915 até Dezembro de 1916, aprofundando as relações, que já mantinham em Paris, com alguns portugueses, nomeadamente Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, José Pacheko e Almada Negreiros e evoca o ambiente criativo que se vivia à época. Hein Semke. Um alemão em Lisboa, apresenta aspetos menos  conhecidos da produção artística de Hein Semke, um alemão nascido em Hamburgo, que em 1932 radica-se em Linda a Pastora e, depois, em Lisboa, e que se torna-se presença regular em exposições coletivas de vulto da capital portuguesa. Willie Doherty. Uma e outra vez, também no CAM, é uma das grandes exposições deste Outono em Lisboa. Willie Doherty é um dos artistas contemporâneos mais proeminentes,  já foi seleccionado duas vezes para o Turner Prize e representou a Irlanda duas vezes na Bienal de Veneza. Trabalhando sobretudo com vídeo e fotografia, explora as relações entre o indivíduo e sociedade e entre natureza e espaço urbano. Finalmente, As Casas na Coleção do CAM mostra como as  casas continuam a distinguir-se por constituirem lugares de intimidade e abrigo. A exposição percorre o século XX, com trabalhos de escultura, pintura, vídeo, fotografia e instalação, de artistas como Ana Vieira, Rachel Whiteread ou José Pedro Croft, entre outros.


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OUVIR - Em 2013 o pianista de jazz Júlio Resende fez um disco com revisitações de temas que haviam sido interpretados e popularizados por Amália Rodrigues, entre os quais uma versão de “Medo” em que o piano de Resende, graças à tecnologia digital, se cruza com a voz de Amália. Desde então o pianista tem feito numerosos concertos, dos quais resultou um registo ao vivo, “Fado & Further”, que conta com a voz de Silvia Perez Cruz, nomeadamente em temas como “Lágrima” e “Cucurrucucu” e novas versões, das quais destaco “Uma Outra Mariquinhas” e “Enfrentar o Medo”. O disco tem uma edição especial, em que além do CD existe um DVD gravado em directo com o título “Amália por Júlio Resende”. “Fado & Further” vai ser apresentado já neste sábado 28 no CCB, com Silvia Perez Cruz e Moreno Veloso como convidados especiais. A edição do disco é da Valentim de Carvalho.


 


PROVAR -  No edifício do Mercado da Ajuda fica o Espaço Açores, que como o nome indica é dedicado à gastronomia do arquipélago. A sala é ampla e luminosa, com vista que desce pela colina da Ajuda até ao rio. Na mesa o couvert inclui queijo da ilha de cura recente, cortado aos cubos, azeitonas indistintas, manteiga bem temperada, pão sem grande história para além de vir a escaldar. As coisas começam bem com umas lapas grelhadas, que estavam no ponto. A seguir vieram uns filetes de abrótea demasiado fritos, o que secou o peixe e lhe apagou o sabor, acompanhado por um esparregado com inhame e batata doce, que acabou por ser o melhor do prato. Na carne o lagarto à micaelense, com batata doce às rodelas revelou uma carne de primeira qualidade e foi o melhor do almoço. O vinho foi servido a copo, branco e tinto da ilha do Pico, a merecer atenção. Inexplicavelmente em vez de ananás dos Açores a casa serve abacaxi de algures. O chá de funcho fez um bom final. A casa serve cozido à moda das furnas às sextas e domingo ao almoço e todas as quintas-feiras há um buffet açoriano. Fica no Largo da Boa-Hora, à Ajuda, e tem o telefone 213 640 881.


 


DIXIT - “Costa antecipa o milagre - dá primeiro as rosas, e depois logo se vê” - Nuno Morais Sarmento


 


GOSTO - Da 6ª Feira do Livro de Fotografia, que se realiza este fim de semana no Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa, na Rua da Palma.


 


NÃO GOSTO - Da confusão armada à volta da devolução da sobretaxa do IRS


 


BACK TO BASICS - “A democracia é um mecanismo que assegura que seremos governados da forma que merecemos” - George Bernard Shaw


 


 

novembro 20, 2015

O MISTÉRIO DA ESFINGE

RECREIO - Daqui a uns anos, quando se fizer a História destes dias que vivemos em Portugal, talvez alguém revele qual foi o equivalente, no Palácio de Belém, nas sucessivas audiências que Cavaco Silva promoveu com banqueiros e outras corporações, ao enigma que a esfinge grega colocava aos viajantes: Que criatura anda com quatro pernas pela manhã, duas pernas à tarde e três pernas ao anoitecer?” . O nosso sistema permite prazos dilatados para a tomada de decisões, quando os define - o que nem sempre é o caso. Sabemos que a justiça é lenta, sabemos que o Parlamento é demorado, que a convocação de eleições tem prazos absurdos no mundo de hoje, que a justiça ignora o que é o tempo, e muito menos o tempo útil. O nosso Estado, de cima a baixo, por definição, prefere ignorar a existência desse anacrónico objecto que é um calendário. Não sei quem será que, na charada em que estamos metidos, fará o papel de Édipo na esfinge de Belém e decifrará o enigma. Na mitologia, quando Édipo acertou na resposta, a esfinge atirou-se de um precipício. O meu maior temor é que no caso português, a esfinge que temos escolha atirar o país para um precipício, salvando-se a ela própria. Quanto maior a demora, maior o precipício; quanto maior a indecisão, maior o risco. Nem quero pensar que a esfinge de Belém resolva ignorar as respostas para poder terminar o seu prazo de validade sem sobressalto.


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SEMANADA - A adopção gay vai ter a sua quinta votação no Parlamento; Cavaco Silva afirmou, sobre a situação actual, que esteve cinco meses em gestão quando foi Primeiro-Ministro; António Costa afirma não querer governo de gestão; António Barreto disse que “quem tem de estar de acordo com o programa do governo é o Parlamento, não o Presidente da República”; Cavaco Silva afirmou, na Madeira, que não vê na crise política motivo para preocupações; no curto espaço que decorreu depois das promessas eleitorais verifica-se que a prometida devolução da sobretaxa caíu para 0%;  José Sá Fernandes afirmou que “o futuro das cidades está nos candeeiros”; Porto, Setubal e Aveiro lideram o ranking das cidades com maior número de burlas reportadas às autoridades policiais, um total de 20  mil em cinco anos,  72% das quais são praticadas por pessoas que se fazem passar por funcionários de serviços públicos; as burlas informáticas triplicaram nos últimos seis anos; há dez instituições privadas de ensino superior em risco de encerrar por falta de alunos - no total as privadas perderam dez mil alunos em três anos; no âmbito do programa Portugal 20/20 foram aprovados 21 projectos turísticos no valor de 45 milhões de euros; um dos grandes produtores mundiais de cenouras quer instalar-se em Odemira; o número de funcionários públicos aumentou pela primeira vez desde 2011; José Sócrates foi visitar Pinto da Costa ao Porto, em retribuição da visita que este último fez ao ex-primeiro ministro quando estava detido em Évora; o ex-Ministro Miguel Macedo foi acusado de usar o seu cargo para favorecer amigos.


 


ARCO DA VELHA - Centenas de candidatos no exame para a carta de condução pagaram cinco mil euros para passar no teste - eram apetrechados com uma microcâmara na lapela para se poder visualizar, a partir do exterior, o exame que surgia nos ecrãs dos computadores do local dos exames e os candidatos recebiam, através de um sistema de comunicação por auriculares, as respostas certas dadas por especialistas que estariam numa carrinha estacionada perto - ao todo o esquema terá rendido um milhão de euros.


 


FOLHEAR - Da série de livros recentemente editados sobre o BES, o mais interessante é aquele que o historiador Luciano Amaral escreveu, e que foi agora editado pela D.Quixote: “Em Nome do Pai e do Filho… O Grupo Espírito Santo, da privatização à queda”. Luciano Amaral especializou-se em História Económica Portuguesa do Século XX e lecciona na Nova School Of Business And Economics, em Lisboa. Fugindo à habitual ladaínha sobre os acontecimentos de 2014, este trabalho de Luciano Amaral optou por fazer o paralelo entre o a actividade do Grupo Espírito Santo, nos últimos 30 anos, com a evolução da economia portuguesa no mesmo período, e também com os outros grupos económicos portugueses. Muito para além da espuma dos dias mais recentes e da procura de episódios sensacionais, a abordagem é mais distanciada e, também, mais enquadrada - o início do livro parte da actividade como cambista na segunda metade do século XIX e percorre  a expansão ocorrida durante o Estado Novo até à nacionalização de 1975. Mas o grosso do trabalho centra-se no período entre 1985 e 2014, entre o regresso das actividades do GES a Portugal na segunda metade dos anos 80, enquadrando-o no tempo, até ao seu colapso em 2014. Cheio de informação, este livro de Luciano Amaral relata o que aconteceu ao longo dos anos e permite uma imagem tão focada quanto possível desta parte da História recente de Portugal. Ainda por cima está muito bem escrito.


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VER - António Costa Pinheiro, falecido em Outubro passado, foi um dos grandes artistas portugueses, injustamente pouco conhecido entre nós. Na apresentação de uma exposição que reúne oito dezenas das suas obras, e que está na Galeria São Roque até final de Dezembro, o ensaísta e especialista em arte contemporânea Bernardo Pinto de Almeida manifestou a sua estranheza em não se ter feito nos últimos anos, em Portugal, nenhuma grande exposição retrospectiva do trabalho de Costa Pinheiro que permitisse a divulgação e compreensão da sua obra pelos públicos mais recentes. Em 1958 Costa Pinheiro fundou, com René Bertholo, Lourdes Castro, João Vieira, José Escada, Gonçalo Duarte, Jon Voss e Christo, o grupo KWY, que marcou uma época. Trabalhou em Paris e, sobretudo, em Munique. Apesar de estadas regulares em Portugal,  foi na Alemanha que acabou por viver muitos anos, e foi lá que mais regularmente expôs. Agora a Galeria São Roque mostra obras feitas entre 1955 e 1985, e tem o título “Imaginação e Ironia”. Este é também o título do livro agora editado em português pela primeira vez, e que foi originalmente publicado na Alemanha em 1970, com arranjo gráfico do autor. A edição respeita o design gráfico da edição original alemã, que foi premiada pela Fundação Erika-Reuter Lemforde. Galeria São Roque, Rua de S. Bento 269.


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OUVIR - Tori Amos começou a sua carreira musical em 1988 e tem duas dezenas de álbuns na sua discografia. O seu maior sucesso foi o álbum “Little Earthquakes”, de 1992, que vendeu mais de cinco milhões de exemplares. Depois desta sua fase mais popular tornou-se numa cantora de culto, muitas vezes trabalhando a solo com o seu piano. Em 2014 o seu album “Unrepentant Geraldines” mostrou como com o passar do tempo ela tem sabido desenvolver a sua criatividade. Em 2013 lançou-se na criação de uma peça teatral musicada, “The Light Princess”, estreada nesse ano no Reino Unido. A música é de Tori Amos, as palavras foram escritas com Samuel Adamson. Depois das apresentações ao vivo, Tori Amos empenhou-se em fazer a gravação em estúdio de toda a banda sonora, num processo longo que demorou 11 meses e que envolveu, além da orquestra, um conjunto de 26 actores que interpretararm 33 canções -  duas são interpretadas por ela própria -  "Highness in the Sky" e "Darkest Hour", e o resultado é um duplo CD. Tori Amos descreve a peça como um conto de fadas contemporâneo que fala dos problemas actuais dos adolescentes e das suas relações com os adultos. Amos compara-o, na temática e nas reacções que tem tido do público, a “Little Earthquakes”. A experiência era arriscada mas a legião de fãs de Amos ficará surpreendida, mas não desiludida, com este trabalho.


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PROVAR -  A minha família é originária do distrito de Portalegre, de maneira que as minhas memórias gustativas são muito marcadas pela região - do queijo aos enchidos, passando pela doçaria de terras como Nisa, Alpalhão e Amieira do Tejo. Esta região tem ainda muitos pequenos produtores, quase artesanais, e algumas instalações mais industriais. Muitas vezes é difícil encontrar nas grandes superfícies produtos regionais de pequenos produtores - e desta vez consegui descobrir bem no centro de Lisboa um sítio dedicado ao que de melhor há para oferecer no Alto Alentejo. Chama-se “O Cocho - Mercearia Alentejana” e  fica na Rua de S. Bento 239, um pouco acima do Clube Nacional de Natação. Na página www.facebook.com/ocochomerceariaalentejana pode seguir-se o que vai surgindo por lá. Numa visita recente comprei o excelente Bolo Finto(na imagem), oriundo da Urra, Portalegre, uma massa bem temperada com erva doce. Cortado em fatias fica excelente em torradas. Mas o Cocho tem produtos de várias regiões do Alentejo e não apenas na área do petisco - lá se podem encontrar mantas tradicionais, pequenas peças de mobiliário e artesanato. Fiquei cliente.


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DIXIT - “É fundamental que haja um governo que governe, rapidamente, porque há muita coisa parada” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


GOSTO - Da candidatura portuguesa do fabrico de chocalhos a Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, que já obteve parecer positivo da comissão internacional de especialistas do organismo.


 


NÃO GOSTO - Do exagero de comentários por gente impreparada e da subalternização de notícias e factos na cobertura que as TV’s fizeram dos atentados em Paris.



BACK TO BASICS - “Seja o que fôr que os terroristas querem alcançar, de certeza que criar um mundo melhor não está entre os seus objectivos, já que aquilo que fazem é matar inocentes” - Salman Rushdie

novembro 13, 2015

UMA SEMANA DE EMOÇÕES FORTES

GOLPES - A coisa promete. À primeira divergência sobre a condução dos trabalhos parlamentares o apagado Ferro Rodrigues acendeu uma luz e, desajeitado como é seu hábito, disse do alto posto a que o ascensor partidário o levou:  "A democracia também é o respeito pelas maiorias". No fundo este é o pensamento dominante no novo regime que comprou uma maioria nos saldos das eleições. Essa maioria, que já tem umas demarcações de Catarina Martins e continua a ter uns mistérios do PCP, pretende usar em pleno as prerrogativas dadas pela manobra de António Costa. Tenho curiosidade em saber se António Costa teria feito o que fez caso existisse um Presidente da República em pleno gozo das suas faculdades, com possibilidade de dissolver a Assembleia e convocar novas eleições,  Assim se fazem os pequenos golpes palacianos no regime. Esta habilidade tirou ainda mais credibilidade ao sistema eleitoral, aos partidos, ao Parlamento. Muitos dos que votaram há um mês não voltarão a dirigir-se às mesas de voto e eu percebo-os muito bem. Como já vi escrito, o que aconteceu terça-feira no Parlamento foi a estocada final na III República - esse foi o dia em que o sistema bateu no fundo, convenientemente resguardado dos olhares públicos em cerimónias apressadas de assinaturas de acordos apenas parcialmente enunciados. Nesse sentido a coligação de Costa pode ter a maioria mas nasceu num vão de escada, deliberadamente escondida, como se de uma conspiração se tratasse. A procissão da discórdia nesta coligação de oportunistas ainda vai no adro, como a questão da privatização das empresas de transportes deixa adivinhar - bem se sabe que essa foi uma das moedas de troca exigidas pelo PCP, já que com empresas privadas nesta área a possibilidade de a CGTP bloquear os transportes em dia de greve geral seria mais reduzida e muito do efeito propagandístico perder-se-ia. Tenho para mim que este período de queda do regime vai ter consequências no sistema político e partidário. Muito provavelmente as presidenciais vão ser o primeiro palco onde isso se vai notar. Tenho para mim que o capítulo de quem é candidato não está encerrado e que surpresas ainda podem existir. Vai ser curioso observar o que se irá passar nas próximas semanas. E o que se passar terá depois efeitos na progressiva substituição das lideranças nos partidos que inevitavelmente ocorrerá a médio prazo. No entretanto vamos atravessar o caminho das pedras.


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SEMANADA (EM TÍTULOS)  SEGUNDA-FEIRA: “Perestroika no PCP”(i); “PCP dá apoio ao Governo do PS por quatro anos” (JN);”PS tem condições para formar Governo” (Negócios);  “Comunistas apoiam Governo de Costa” (Economico); “PS avança com moção de rejeição própria ao programa do Governo” (Público); “Jerónimo dá luz verde a governo PS” (DN); “PCP dá quatro a nos a governo de António Costa (CM); “Acordos à Esquerda só depois de derrubado o Governo” (Observador) TERÇA-FEIRA: “Governo do PS promete oásis” (i); “Seis horas de debate com Costa em silêncio”(JN); “António Costa com pouca margem para imprevistos” (Negócios); “Cavaco vai ouvir conjunto alargado de personalidades antes de decidir “ (Económico); “Governo é derrubado hoje quatro vezes seguidas” (DN); “2 mil milhões fogem da Bolsa” CM)”; “ Estupefeçao e revolta - como a direita viu a queda” (Observador); “Acordos à Esquerda blindam governo PS de moções de censura” (Público);  QUARTA-FEIRA: “Bloco e PCP mantêm em aberto possibilidade de deixar cair Costa” (DN);  “PCP impõe acordo secreto” (CM); “Caiu” (Publico); ”11 dias, 5 horas e 40 minutos” (JN); “Fractura”  (Económico); “À espera de Cavaco” (Negócios);  “Cavaco sem pressa deixa esquerda em suspenso” (i); “Sampaio decidiu depois de 10 dias e 17 audiências” (Observador); ORGÃOS CENTRAIS: “Força do Povo derrota Governo” (Avante!); “São demasiados os exemplos de que o PS não aprendeu a lição de 2011” (Folha CDS); “O papel do Bloco na transformação que o país precisa” (Portal do Bloco de Esquerda); “XX Governo Constitucional tomou posse” (Povo Livre); “PS propõe isenção temporária das taxas moderadoras” (Portugal Socialista).


 


ARCO DA VELHA - Um funcionário da segurança social de Lisboa aumentava reformas de particulares, anulava dívidas de empresas e atribuía falsos subsídios de desemprego a troco de “luvas”,  que recebia em dinheiro vivo em envelopes fechados, tudo isto com a ajuda de um tio que angariava clientes.


 


FOLHEAR - Milo Manara é um notável autor italiano de banda desenhada, conhecido primordialmente pela sua extensa obra erótica. No entanto nas suas nove dezenas de obras publicadas tem vários livros sobre episódios históricos, algumas biografias e, é certo, muitas histórias eróticas onde a sua forma de desenhar e utilizar o corpo feminino na narrativa dramática o tornaram autor de um estilo muito peculiar - que inclusivamente chegou a levar Fellini a querer adaptar ao cinema uma das suas novelas gráficas, “Viagem a Tulum”, o que acabou por não acontecer. Manara, agora com 70 anos, acabou de lançar o seu mais recente trabalho, uma história da vida do pintor Caravaggio. Manara é um daqueles autores de banda desenhada que tem um traço meticuloso e uma utilização cuidada da côr. Caravaggio era uma velha obsessão - Manara descobriu o pintor aos seis anos através de uma reprodução de “A crucificação de S.Pedro” Desde aí nunca deixou de descobrir e estudar a obra de Caravaggio. O livro agora editado, também em Portugal, “Caravaggio, O Pincel E A Espada” é a primeira parte de uma saga em dois volumes, inspirada nas cores e luzes do pintor milanês, aqui no ambiente de Roma onde a sua fama nasceu e de onde fugiu em 1606, depois de ter morto um homem numa luta de rua. Quatro anos depois, em 1610, ele próprio foi morto em circustâncias desconhecidas. Este primeiro volume termina com a fuga de Roma, o próximo contará os quatro derradeiros e mais produtivos anos da vida de Caravaggio enquanto pintor. A edição portuguesa é da Arte de Autor, que assim se estreia.


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VER - Hoje vou recomendar uma exposição que retrata o país, mostrando o que muitas vezes é desconhecido. Trata-se de uma exposição em forma de filme e chama-se “Portugal, um dia de cada vez”. Foi realizado por João Canijo, filmado por Anabela Moreira, com edição de João Braz e produção de Pedro Borges. Inspirado nos célebres Guias de Portugal criados por Raul Proença e, editados pela Gulbenkian, Canijo e Anabela Moreira seguem os volumes sobre Trás Os Montes e Alto Douro e revisitam-nos em 2014, 45 anos depois da edição original.


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O filme faz retratos de pessoas e não a descrição minuciosa de paisagens como os livros originais. Mas esses retratos de pessoas e de sítios mostram um outro Portugal, bem longe das ideias dos políticos das distritais partidárias das grandes cidades ou, no caso do cinema recente, do folclorismo de Miguel Gomes nas suas “Mil E Uma Noites”. Este “Portugal, um dia de cada vez” é uma mostra de um Portugal afastado da Europa, a não ser pelos emigrantes romenos que surgem a trabalhar nas vinhas e nas obras. Pode ser um choque, mas é um testemunho de uma realidade, rural e sobrevivente, alicerçada nas festas religiosas, na terra e no trabalho, que existe provavelmente mais do que aquilo que pensamos. Os testemunhos são marcantes, a fotografia arrasta-nos para dentro do ecrã e o momento em que Amália interpreta o “Com Que Voz”, em cima de imagens do nosso tempo, é um sinal de como o filme, distante de Lisboa, se aproxima do nosso momento político presente. No Cinema Ideal, ao Chiado.


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OUVIR - Em apenas oito anos os Beatles conseguiram que 27 canções suas fossem nº1 nos tops de vendas de singles do Reino Unido e dos Estados Unidos - uma média sensívelmente de um êxito de quatro em quatro meses. Estas canções foram gravadas entre Setembro de 62 e Janeiro de 69, de “Love Me Do” a “The Long And Winding Road”. 26 destas canções foram escritas por John Lennon e Paul McCartney e George Harrison escreveu o único Top One  que escapou à dupla, a balada “Something”. George Martin, hoje com 89 anos, conhecido como o quinto Beatle,  esteve envolvido na produção de todas elas, e o seu filho, Giles Martin, pegou nas fitas originais e fez agora novas remisturas stereo de todas as canções, excepto das três primeiras, “Love Me Do”, “From Me To You” e “She Loves You”, que foram mantidas em mono, como nos registos originais.O livrinho que acompanha esta nova edição remasterizada e remisturada de “The Beatles 1”, colectânea originalmente lançada em 2000, inclui reproduções das capas dos singles lançados em diversos países, muitas vezes com os títulos originais traduzidos para os idiomas locais. O som melhorou graças às novas capacidades tecnológicas e mesmo que alguns puristas torçam o nariz esta é uma grande forma de mostrar o legado dos Beatles às gerações que mal os conheceram - o último top one aconteceu há 45 anos. (CD Universal Music)


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PROVAR - Um dos meus restaurantes favoritos de dia a dia é o De Castro Elias. Este verão mudou a decoração e refrescou o ambiente, há poucas semanas introduziu umas novidades na carta que, agora, para além dos clássicos, inclui a categoria de itinerantes. Dos clássicos fazem parte especialidades como o polvo à galega nas entradas ou o arroz de fígados de pato salteados com enchidos e cogumelos ou ainda as célebres ameijoas com feijão manteiga, de Miguel Castro e Silva. Na nova lista, sob a tal designação “itinerantes”, há boas novidades. Ao almoço por exemplo há uma salada de lulinhas fritas com molho de iogurte, gengibre e lima para quem quer uma opção mais leve e um belíssimo hamburguer com bacon, ovo estrelado,cebola e batata frita para uma versão slow food de um prato típico da fast food;  a opção vegetariana  é um arroz carolino de verduras. Ao jantar há uma açorda de bacalhau com ameijoas e um esparguete com ovo, barriga de porco e trufas, ou um bife à portuguesa com batata frita; a opção vegetariana é brás de verduras com salada. Nas sobremesas pontifica sempre o bolo de chocolate sem farinha e a tarte de laranja acompanhada de laranja em calda. A carta de vinhos é suficiente e os preços foram revistos em baixa - e há várias opções de vinho a copo. Eu recomendo nos tintos o Confidencial Reserva e nos brancos o Confidencial, ambos da casa Santos Lima e com uma excelente relação qualidade-preço. Av Elias Garcia 180, telefone 217 979 214.


 


DIXIT - “Este Parlamento mete dó!” - António Barreto


 


GOSTO - O Inquérito Nacional de Saúde 2014 do INE indica que a percentagem de fumadores na sociedade portuguesa está a diminuir.


 


NÃO GOSTO - O Inquérito Nacional de Saúde 2014 do INE indica que a percentagem de obesos na sociedade portuguesa está a aumentar.


 


BACK TO BASICS - “Os homens sábios falam quando têm alguma coisa a dizer; os tolos porque acham que devem sempre dizer alguma coisa” - Platão

novembro 10, 2015

A ESTRATÉGIA DIGITAL DE OBAMA – NA CAMPANHA E NO PODER

Com eleições presidenciais à porta é curioso recordar o caso americano na relação dos candidatos com as redes sociais. Está por demais contada a história de como uma estratégia digital ousada de Barack Obama foi uma das chaves da sua reeleição. De facto uma utilização criativa da tecnologia aplicada à política tem sido crucial para a carreira de Obama. A sua campanha foi pioneira, entre os vários candidatos, na utilização da análise de dados – o que lhe permitiu, na recta final, fazer acções dirigidas nas zonas do país e sem segmentos do eleitorado onde se sabia que ele estava debaixo de maior pressão e com mais problemas potenciais em assegurar a vitória. No período pós eleitoral surgiram muitos artigos a revelar como uma utilização inteligente das bases de dados, dos emails e das rêdes sociais foi absolutamente decisiva para conquistar os votantes de última hora, sobretudo dentro de algumas faixas etárias. Obama foi aliás o primeiro presidente norte-americano a ter oficialmente uma conta de email da Casa Branca e foi também o primeiro a criar uma equipa que incluía um Chief Digital Officer, Jason Goldman, um ex-executivo do Twitter, que desenvolveu toda a estratégia digital do Presidente dos Estados Unidos.


Um recente artigo do New York Times, “A Digital Team Is Helping Obama Find His Voice Online”, revela alguma coisa do que se está a passar. Por exemplo Obama está a aumentar a sua presença nas redes sociais com o objectivo de criar uma ideia de espontaneidade e acessibilidade em relação àquilo que o jornal classifica como “um dos cargos políticos do planeta mais coreografados e regulados”. A conta de Obama no Twitter, @POTUS, tem cinco milhões de seguidores e a execução da estratégia digital da Casa Branca é garantida por uma equipa de 20 assessores dedicadas a gerirem a Twitter presidencial, assim como a página da Casa Branca no Facebook, no Instragram e o canal no YouTube. Uma das tarefas desta equipa é transformar em twitters síntese, de 140 caracteres, segmentos dos discursos do presidente, mas também estudar os dados analíticos que permitem identificar quais os temas políticos e sociais que podem interessar mais em cada momento e desenvolver conteúdos de video ou gráficos de acordo comas informações recolhidas.


Para os responsáveis desta equipa, citados pelo New York Times, o objectivo é estabelecer uma identidade digital clara para Barack Obama, torneando o que consideram ser a perda de eficácia dos fórmulas tradicionais de discurso solene, declaração à televisão ou uma entrevista exclusiva a um jornal. O trabalho desta equipa de especialistas e o seu estudo dos dados que vão recolhendo conseguiu convencer os responsáveis da Casa Branca que a exposição do Presidente nas redes sociais e em outros meios digitais, como o You Tube, tem tido resultados muito positivos, como aconteceu este ano no habitual discurso sobre o Estado da União. Noutras ocasiões o Presidente ele próprio escreveu no Twitter a sua reacção a acontecimentos importantes e é frequente que quando está a fazer campanha sobre um tema, por exemplo sobre o controlo da venda de armas de fogo, a casa Branca utilize estes meios para fazer passar factos e estatísticas que fundamentam a sua posição. O resultado, dizem os especialistas ouvidos pelo New York Times, não podia ter sido melhor.


Em última análise tudo isto tem a ver com “encontrar formas de comunicar com as pessoas numa época em que se assiste a uma grande desagregação dos media, o que faz com que a comunicação pelos meios tradicionais seja muito insuficiente” – afirma Dan Pfeiffer, um dos arquitectos da estratégia digital de Obama.


Uma das minhas curiosidades na campanha presidencial portuguesa que se avizinha é perceber como os candidatos irão utilizar as redes sociais, qual será a sua estratégia digital. Vamos ver, daqui a pouco tempo se saberá.


publicado originalmente em buzzmedia.pt


 


 

novembro 06, 2015

DE VILA REAL A LISBOA, PASSANDO PELA MEALHADA - A SEMANA DO PS

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SEMANADA - Concluíu-se a perfuração do túnel do Marão; ainda não se conhecem os termos do acordo entre PS, PC e Bloco; o PS admitiu fazer acordos diferentes com o Bloco de Esquerda e o PCP; António Costa fez uma acção de charme para seduzir os banqueiros; Francisco Assis organizou para este fim de semana um encontro na Mealhada dos críticos da aliança à esquerda;  José Sócrates vai fazer uma conferência em Vila Real de Trás Os Montes para analisar o estado da nação; em resposta António Costa convocou para sábado e domingo a Comissão Nacional e a Comissão Política Nacional do PS para debater os acordos com PC e Bloco; Francisco Assis antecipou o almoço da Mealhada de sábado para sexta; Sócrates não cancelou a conferência de Vila Real; Santos Silva, o amigo de Sócrates, levantou 1,1 milhões de euros em numerário no espaço de três anos, cerca de 30 mil euros por mês; a emigração cresceu mais de 50% entre 2010 e 2013; o autódromo do Algarve, em Portimão, um projecto de 200 milhões de euros acarinhado por Manuel Pinho e José Sócrates, acabou por se revelar um enorme buraco e entrou em processo especial de de revitalização para evitar a falência, sem nunca ter conseguido atingir o que se propunha em termos de criação de emprego e dinamização da economia; o Futebol Clube do Porto ofereceu roupões de turco personalizados com os respectivos nomes aos membros da equipa de arbitragem de um jogo recente no Dragão; o deputado do PAN finalmente tomou posição e manifestou-se contra a utilização da águia Vitória nos jogos do Benfica; o tempo tem estado de chuva - na política e fora dela.


 


ARCO DA VELHA - Em recentes acções de fiscalização a ASAE detectou a comercialização de produtos apresentados como bife de peru, mas que não tinham vestígio de qualquer espécie de carne, e de queijo que nunca viu leite por perto e era feito de pasta vegetal.


 


LER - José Manuel Félix Ribeiro, economista e especialista em geo-estratégia, é conhecido por não ser de falas brandas e por dizer já o que se arrisca a acontecer mais à frente. Não poucas vezes tem acertado em cheio. O seu novo livro, “EUA versus China, confronto ou coexistência? - a globalização e os desafios do novo milénio” defende isto: A China é como se fosse uma cobra que está a mudar de pele, a China vai mudar de modelo de cres­ci­mento e de equi­lí­brio polí­tico, e ao mesmo tempo está a andar muito depressa no meio da terra à pro­cura de um sítio onde esteja pro­te­gida e onde possa olhar de frente para o seu adver­sá­rio que são os Esta­dos Uni­dos, para ata­car quando for pos­sí­vel.”. No seu livro anterior, “Portugal, A Economia de Uma Nação Rebelde”, ficava dentro das nossas fronteiras, aqui analisa o que na sua opinião está a acontecer no mundo, cruzado por guerras civis, religiosas e civilizacionais. Félix Ribeiro considera que a viabilidade do reforço da integração europeia, ocorrida como resposta à reunificação da Alemanha é cada vez menos reconhecível e sublinha que neste contexto os EUA são o pilar-chave do Ocidente e será em torno deles - e não de um qualquer império eurocontinetal - que se irá organizar o futuro da globalização e da emergência de novos actores como a Índia e o regresso de velhos actores como a Rússia.


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O livro, como frequentemente acontece com os escritos do autor, é polémico e dá que pensar. Como curiosidade editorial diga-se que na contra capa do livro está um QR Code que lhe permite aceder a uma vasta documentação do autor sobre a actuação externa dos EUA e a transformação do seu modelo nas décadas de 70, 80 e 90. A edição é da Guerra & Paz. O último capítulo chama-se “ Horizonte 2030: a deslocação do mapa de competições e rivalidades” - não deixem de o ler.


 


FOLHEAR - A revista “Vanity Fair” de Novembro tem Rhianna na capa, fotografada em Havana por Annie Leibowitz, mas isso está longe de ser o mais interessante desta edição, apesar do superior trabalho de Leibowitz. O meu primeiro destaque vai para o relato de um almoço com Patti Smith em que ela sublinha “não ser como Judy Garland”. Muito bom o artigo “Cinema Politico” que recorda os documentários sobre a campanha de nomeação de Kennedy, “Primary”, e “The War Room”, o documentário sobre a primeira campanha de Bill Clinton. Por falar em presidenciais outro artigo interessante é sobre a forma como está a ser montada a campanha de Hillary Clinton - e há ainda uma história sobre os paradoxos de Donald Trump. Olho para todos estes artigos e não posso deixar de pensar na diferença que existe na abordagem editorial de uma campanha presidencial e dos seus candidatos nos Estados Unidos e por cá - e não é uma questão de dinheiro ou de dimensão - é meramente de ideias.


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Saindo da política, para um grupo de amigos meus que têm o ritual de viajarem para conhecer os restaurantes com estrelas Michelin, recomendo “The Fault In Their Stars”, uma bela viagem ao efeito “Guerra das Estrelas” do mais famoso guia de restaurantes do mundo. Mas confesso que o artigo que mais me deliciou foi uma viagem pelo universo de Tom Wolfe, através dos seus arquivos pessoais, agora disponibilizados - uma história do homem que mudou a forma de contar histórias.


 


VER - Esta semana várias sugestões. Atravessando o Tejo, rumo a Almada, podemos ir ver “4 Fotógrafos de Moçambique”- Moira Forjaz, José Cabral, Luis Basto e Filipe Branquinho. Alexandre Pomar esteve na sua origem e está na Galeria Municipal de Arte, Avenida Álvares Pereira 4 -   integra o mês da fotografia de Almada.


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Mais a sul ainda, em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, Daniel Blaufuks apresenta em 20 fotografias marcantes com a sua visão do Convento da Cartuxa, o único mosteiro contemplativo masculino em Portugal. Em Lisboa, e só de 6 a 9 de Novembro, na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27, Alvalade), Albano da Silva Pereira apresenta Life Goes On, uma mostra de fotografias paralela à exibição no DocLisboa do documentário feito pelo mesmo autor, e com o mesmo título, sobre a obra de Robert Frank. Para terminar duas exposições sobre objectos do quotidiano - a primeira é  “Móveis Olaio, Produção, Inovação E Qualidade”, que está no Museu da Cerâmica de Sacavém até final de Dezembro, e a outra é a exposição-homenagem à cadeira portuguesa, na Casa de Santa Maria, em Cascais e que, entre muitas peças, tem um exemplar original da célebre cadeira Gonçalo, que povoou as esplanadas portuguesas nos anos 50 e 60 e que agora regressou e é produzida pela Arcalo.


 


OUVIR - Rodrigo Leão compõe normalmente com o seu sintetizador e o computador e nos seus primeiros discos chegou a usar um teclado Casio básico. Desta vez as suas composições passaram da máquina para uma orquestra e o novo disco, “O Retiro”, o seu primeiro para a prestigiada editora Deutsche Grammophone, foi gravado com a Orquestra e Côro da Gulbenkian no Grande Auditório da Fundação. Além da Orquestra, Rodrigo Leão recorreu ao seu habitual quarteto de cordas (Viviena Tupikova, Bruno Silva, Carlos Tony Gomes e Denys Stetsenko) e a parceiros habituais como Celina da Piedade e Selma Uamusse, que interpreta "Melancolia".


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Os arranjos orquestrais são de  Steve Bartek , ex Oingo Bongo. Rodrigo Leão, que tem uma carreira já com três décadas, consegue com “O Retiro” uma das suas ambições - um disco que capte os seus ambientes sonoros habituais, com outros recursos e que leve a sua música a um outro patamar. O disco inclui o tema “florestas submersas”, criado expressamente para a exposição com o mesmo nome desenvolvida por Takashi Amano para o Oceanário de Lisboa. Eu, que sigo desde o início o percurso musical de Rodrigo Leão, e que assisti a várias provas da sua capacidade, fiquei impressionado com a criatividade, a sensibilidade e a energia deste disco. Ele vai apresentá-lo ao vivo, com os intervenientes na gravação, no próximo dia 18 no Coliseu do Porto e nos dias 20 e 21 no Coliseu dos Recreios em Lisboa.


 


PROVAR - O Hotel Yeatman é todo um episódio, ligado à história do Douro -  o seu nome vem da família Yeatman, ligada ao comércio do Vinho do Porto desde 1838. Trata-se de um dos melhores hotéis portugueses, situado em Gaia, com vista para o Porto. Foi planeado de raiz para a função e foi inaugurado em 2010. Desde o início procurou a excelência no serviço e o conforto no acolhimento. No projecto foi pensado um restaurante que conjugasse o melhor da gastronomia com uma cuidada selecção de vinhos - o hotel tem aliás uma garrafeira invejável e desenvolveu parcerias com os melhores produtores nacionais. O restaurante, que conquistou uma estrela Michelin continuadamente em 2012. 2013, 2014 e 2015,  é dirigido pelo chef Ricardo Costa, natural de Aveiro. Anteriormente Ricardo Costa havia sido já distinguido com estrelas Michelin em 2009 e 2010 no restaurante da Casa da Calçada, em Amarante. Ao almoço está disponível um menu sazonal, com seis pratos. Os menus de degustação começam no Menu do Chef com dez pratos, e nas suas variantes - uma selecção de seis ou quatro pratos a partir do menu do Chef. Em todos os casos são propostas selecções de vinhos adequadas aos menus escolhido. E, claro, se não quiser o menu degustação, tem ainda a possibilidade de  escolher na carta pratos de referência do Yeatman, como o foie gras com pera bêbada, o arroz caldoso de lavagante ou a caldeirada de peixe galo, ovas e carabineiro. Este é um daqueles restaurantes onde tudo corre bem do princípio ao fim e, mesmo sendo a conta inevitavelmente pesada, apesar da extensão dos menus, a cozinha é ligeira e, não poucas vezes, uma descoberta.


 


DIXIT - “Lei da calamidade pública não é para qualquer coisinha” - Calvão da Silva, Ministro da Administração Interna, a propósito das cheias em Albufeira, que comentou dizendo que “Deus nem sempre é amigo”.


 


GOSTO - Da criação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, no Porto, que vai juntar três grandes unidades científicas e 800 investigadores.


 


NÃO GOSTO - Putin lidera a lista dos mais poderosos do mundo elaborada pela Forbes.


 


BACK TO BASICS - Bonitas palavras e uma aparência insinuante raramente estão associadas à verdadeira virtude - Confúcio



(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Outubro)

outubro 30, 2015

OS ANJOS DE BOTTICELLI ENLEADOS EM ANTÓNIO COSTA

 



PAISAGEM - Quando olho para o que se passa à minha volta fico com a sensação que os loucos tomaram conta do manicómio e o fenómeno varre todos os escalões do sistema. Por exemplo, o Bloco e o PCP, que em Lisboa parecem anjos de Botticelli nas reuniões com o PS,  chegam a Estrasburgo, ao Parlamento Europeu, e apresentam propostas conjuntas de rejeição do tratado orçamental europeu e de apoios à saída do Euro, enquanto aqui continuam a fazer juras à estabilidade com a maior cara de pau. Um dos nossos grandes problemas é que, em geral, os políticos que temos dedicam-se com afinco à nobre arte de desenvolver o espírito de seita, defendendo o interesse das respectivas clientelas partidárias e os seus poderzinhos pessoais, acima de qualquer outra coisa. O sistema partidário português sofre dos vícios do futebol - tem clubismo a mais e racionalidade a menos. Exarceba-se o que divide e evita-se o que une. Não está habituado a conversar e a dialogar, o parlamento reduziu-se a um circo que serve apenas para cada um arengar e atacar as outras bancadas. Na política parece só haver bem e mal, como se fosse uma religião maniqueísta. E, consequentemente, há uns que são pecadores e outros que são devotos cumnpridores. Da nossa paisagem política e partidária está ausente o pensamento sobre o país e exacerbado o ego de cada grupo rival. Nada disto faz sentido e tudo isto nos levará para dificuldades maiores do que aquelas por onde ainda estamos a passar.


 


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SEMANADA - Os juros da dívida pública de Portugal estão a subir em todos os prazos, ao contrário do que se passa com Espanha e Itália; Teixeira dos Santos, ex-Ministro das Finanças de Sócrates, alertou Bruxelas para a estagnação de crescimento da zona Euro; há 700 mil pessoas com contratos a prazo; metade das famílias portuguesas vive com menos de mil euros por mês; o Estado deve 170 milhões de euros de IVA às empresas; 16% das exportações nacionais são asseguradas por cinco empresas; o crescimento das empresas exportadoras recuou 70,7% em 2014; o crédito às famílias, nomeadamente o crédito à habitação, subiu em Setembro, o que já não acontecia desde Abril de 2011; Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, quer que os lisboetas paguem no próximo ano mais 148 euros em taxas e impostos; cada português consome 108 quilos de carne por ano; um terço dos enfermeiros portugueses licenciados em 2013 foi trabalhar para o Reino Unido; no ano passado, houve cerca de 110 mil portugueses que emigraram, o mesmo que em 2013; Portugal é o 8º país do mundo com maior número de idosos (+65 anos) por 100 indivíduos em idade activa (dos 15 aos 64 anos); o acordo do PS com os partidos à sua esquerda continua secreto; António Costa almoçou com Freitas do Amaral na terça-feira passada; Capoulas Santos disse que Cavaco fez mais pela unidade do PS em 24 horas que o próprio PS no último ano.


 


ARCO DA VELHA - A Direcção Geral do Património Cultural abriu novo processo de classificação do Cinema São Jorge porque o anterior, de 1989, se extraviou e não se encontra.


 


FOLHEAR - Só o título já é uma história: “Tinha Tudo Para Correr Mal (memórias de um comunicador acidental)”. No livro Luis Paixão Martins fala da sua vida, da paixão de comunicar desde os bancos do Liceu Camões (onde fomos contemporâneos) até à sua LPM, passando pela escola que foi a Rádio Universidade, a Renascença, as agências de notícias - e aí voltei a cruzar-me com ele. Amigos, cruzámo-nos várias vezes ao longo dos anos, umas vezes por razões profissionais, outras em escritas para que ele me desafiou. E agora, de novo a seu convite, cruzamo-nos no Newsmuseum que nascerá em 2016 por sua iniciativa - e este livro faz parte desse projecto. Na história das agências de comunicação em Portugal há uma época antes do Luis Paixão Martins ter começado a trabalhar no sector e, depois, há uma estratégia e um método de actuação que fazem toda a diferença. Ele é, aliás, o profissional do sector que mais escreveu sobre a actividade que desenvolve, partilhando conhecimentos, relatando experiências, um caso raro no panorama português onde muita gente guarda para si tudo o que pode. Na badana deste “Tinha Tudo para Correr Mal” explica-se que estas são as memórias de um consultor de imagem que aconselhou José Sócrates, Aníbal Cavaco Silva, Ricardo Salgado, Jorge Nuno Pinto da Costa e Isabel dos Santos. Luis Paixão Martins tem um humor cortante e é um contador de histórias. Sabe-se isso da sua actividade profissional, quer como jornalista, quer como consultor de comunicação. E, como este livro mostra, ele é capaz de fazer uma reportagem sobre a sua própria vida sem perder o espírito de observação e humor que o caracteriza.


 


VER - Há livros que além de lidos merecem ser vistos, apalpados, observados, folheados para a frente e para trás, à procura dos pormenores que podem ter escapado. Eu sou um apaixonado pelo design gráfico, pelas maravilhas que se podem fazer me papel impresso. Manuel S. Fonseca, da Guerra e Paz, é um editor atrevido que aposta em obras especiais e é um apaixonado por Fernando Pessoa. No ano passado fez uma edição de “As Flores do Mal”, com capa em madeira gravada a fogo e fotografias de Pedro Norton. Este ano surpreende de novo com a edição de “Minha Mulher, A Solidão”, uma recolha de 47 textos de Pessoa nos seus diversos heterónimos em que a mulher e o amor são centrais - e que leva por subtítulo o delicioso “Conselhos A Casadas, Malcasadas e Algumas Solteiras”.


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Manuel S. Fonseca faz anteceder a selecção dos textos sobre “o casamento, a intriga amorosa e a desregulação sexual”, num prefácio que intitulou “Toda a Volúpia É Mental”. Antes vem um poema de Eugénia de Vasconcellos , “Ele Falava Em Voz Baixa”, e, antes ainda, logo no início, surge a reprodução de uma obra original de Ana Vidigal, uma técnica mista sobre papel.O livro tem capa dura, lombada solta, três tipos de papel da melhor qualidade, mais outro papel de jornal que em seis pequenos cadernos espalhados pela edição, tudo isto mobilizando as artes de três impressoras diferentes - uma delas a fazer o acabamento manual e o encadernamento. O grafismo vem assinado por Ilídio Vasco, que trabalhou com afinco neste projecto com  Manuel S. Fonseca. São 1800 exemplares, numerados, com um preço de venda de 55 euros. É preciso abri-lo, para se perceber a obra que aqui está. É preciso vê-lo para se perceber como esta é uma espécie de exposição ilustrada de uma parte da obra de Fernando Pessoa


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OUVIR - Frederico Santiago, que tem feito um notável trabalho nos arquivos de gravações da Valentim de Carvalho, descobriu o registo de um concerto de homenagem a Filipe Pinto, que aconteceu em 28 de Novembro de 1962 no Teatro Tivoli em Lisboa. Filipe Pinto foi fadista, mas foi sobretudo um “mestre de cerimónias do meio fadista”, um animador de vários retiros onde o fado era rei, compositor ocasional, amigo de uma geração única de intérpretes e, diz-se o autor da célebre frase “silêncio, que se vai cantar o fado”. O registo, agora editado em CD, recupera esse concerto de 1962, que se diz ter sido organizado pela própria Amália Rodrigues, sua grande amiga. Por aqui passam as vozes de Fernando Farinha, Lucília do Carmo, Alfredo Marceneiro, de Rogério Paulo, do próprio Filipe Pinto e de um mini-recital de Amália com oito interpretações suas, desde o clássico “Estranha Forma de Vida” até “Maria Lisboa”. O registo capta o ambiente de festa e amizade que marcou a homenagem e é um documento único para se compreender como era o fado então, em Lisboa.


 


PROVAR -  A Casa de Chá da Boa Nova foi construída entre 1958 e 1963 em Leça da Palmeira, sobre os rochedos, a dois metros do mar. O local foi escolhido por Fernando Távora, que havia ganho o concurso de arquitectura e o projecto foi de Siza Vieira, no início da sua carreira de arquitecto. Depois de anos ao abandono, o chef Rui Paula, que fez fama no DOP, do Douro, recuperou este espaço e inaugurou-o no Verão de 2014. Aqui beneficia da proximidade da lota de Matosinhos e faz uma aposta no peixe e no marisco. Há três menus degustação - o Mar e Terra, o Atlântico e o Boa Nova (mais pequeno) e além disso há três propostas fixas na lista - o arroz caldoso de peixe e lavagante da nossa costa, cataplana de peixe e marisco, e robalo ao sal, todos para duas pessoas e ao preço de 80 euros. Como não sou muito fã de menus degustação, optei pelo arroz caldoso de lavagante e peixe e não nos arrependemos. Simplesmente perfeito. Claro que enquanto não chega o arroz há pequenas entradas, ofertas do chef e um couvert delicado, tudo a fazer as vezes de uma mini degustação. O local é magnífico, a cozinha é superior, a qualidade dos ingredientes é excepcional e o serviço é exemplar. O vinho escolhido para acompanhar foi um Soalheiro que se portou muito bem. Fecha ao Domingo todo o dia e segunda ao almoço.  Fica em Leça da Palmeira, na Avenida da Liberdade, junto ao farol, e tem o telefone 229 940 066.



DIXIT - “Não há liberdade de expressão sem expressão da liberdade”  - Carlos Magno, Presidente da ERC, no Facebook, fotografado ao lado de um cartaz do Correio da Manhã.


 


GOSTO - O Museu Nacional de Arte Antiga lançou uma campanha para obter através de doações os 600 mil euros necessários para que “A Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira, não seja vendida para o estrangeiro e fique naquele museu.


 


NÃO GOSTO - A pedido de Sócrates, através dos seus advogados, a juíza Florbela Moreira Lança proibiu o Correio da Manhã e as outras publicações da Cofina de publicarem informações sobre a investigação da Operação Marquês.


 


BACK TO BASICS - “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Tudo o resto é publicidade” - George Orwell.


 


 


 

outubro 23, 2015

SOBRE AS FORMAS DE GANHAR JOGOS NA SECRETARIA

GOLPE - Em futebol, chama-se, à manobra de Costa, querer ganhar o jogo na secretaria. Trata-se de um género de actividade que não fica bem a quem é desportista. É boa para batoteiros e anda ao mesmo nível de quem compra árbitros. O futebol, que há muito deixou de ser um desporto e passou a ser um mero palco de negociatas, vive disso - logo a começar nos clubes, passando por quem facilita o apito nos jogos, e também pelos agentes e pelas direcções dos organismos que, em vez de o regularem, apenas o manobram. É este espírito de golpaça que foi introduzido na política portuguesa. Quem achava que já tinha visto tudo, pode desenganar-se. Nos tempos de Sampaio a coisa fazia-se manobrando o árbitro do regime, como se viu quando esperou que o PS estivesse a postos, para apenas depois convocar eleições e levar Sócrates ao altar, com os danos colaterais que se conhecem. Agradeçam pois a esse santo milagreiro. Agora faz-se mesmo, mas na secretaria. Os campeões de secretaria correm pouco quando o jogo é a sério, claudicam, e vivem de expedientes. Não é um golpe de Estado, mas é um golpe. O golpe do Costa. O futuro não é risonho.


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SEMANADA - As queixas de violência no namoro superam as do casamento; este ano registam-se, por hora,  três queixas de violência doméstica; a PJ deteve 190 suspeitos de violarem crianças num ano;  a GNR já recebe queixas através do messenger do facebook; o filme “Regresso ao Futuro II” fez 30 anos; a primeira bébé proveta, Louise Brown, já tem 37 anos; o número de escolas públicas caíu para metade desde 2000 e só no ano passado foram encerradas 535; o Ministério da Educação deve 6 milhões de euros a alunos do Ensino Superior relativos a 2400 bolsas de mérito; os salários de magistrados e políticos foram os que mais subiram desde 2011; médicos, enfermeiros, conservadores e notários foram os que mais perderam; 2015 é o melhor ano de vendas da Porsche em Portugal; o número de falsos recibos verdes aumentou 200%; em Setembro foi ultrapassada pela primeira vez a marca dos 20 mil milhões de euros investidos em certificados de aforro e tesouro; a Câmara de Lisboa não teve ofertas para a primeira tentativa de venda dos terrenos da Feira Popular, que deixou de funcionar há 12 anos; Paulo Portas ofereceu o seu lugar no Governo a António Costa; Marcelo Rebelo de Sousa desafiou Ferreira Fernandes a escrever um novo folhetim sobre eleições, desta vez sobre as próximas Presidenciais; Mário Soares afirmou que a situação do país “é uma confusão efetiva que tem que ser resolvida”; José Sócrates inicia um road-show este sábado em Vila Velha de Rodão com uma conferência sobre justiça e política.


 


ARCO DA VELHA -  Fabricar uma moeda de um cêntimo custa 1,65 cêntimos e  produzir uma de dois cêntimos custa 1,94 cêntimos - o Banco de Portugal não pensa deixar de as fazer, ao contrário de sete países europeus.


 


FOLHEAR - Gosto confessadamente de policiais. Olho para as histórias que eles contam com especial interesse. Encaro-os como um desafio, uma espécie de jogo de adivinhas. Fernando Sobral, que escreve diariamente neste jornal, é um dos autores portugueses que nos últimos anos se tem dedicado ao tema. Tem a particularidade de colocar o seu herói e as suas histórias nas memórias de um Portugal que já não existe. Damasceno Alves, o herói que desenha nas suas palavras, já passou por Macau e, na nova história, agora publicada, “As Jóias de Goa”, vive os derradeiros tempos da presença portuguesa na Índia. É um livro fascinante sobre essa terra que se fez mito, sobre o que foi parte da nossa presença. Fernando Sobral coloca os personagens dos seus livros a reflectirem sobre o momento em que a acção decorre - e essas reflexões parecem muitas vezes estranhamento actuais. Não vou contar o fim, mas recomendo que o leiam todo, com o mesmo prazer que ele me deu. Edição Parsifal


 


Outras leituras - “Vamos Ao Que Interessa” é uma recolha de crónicas escritas ao longo do tempo, entre 2008 e 2015, por João Pereira Coutinho para a Folha de S. Paulo - com observação certeira, humor fino e uma perspectiva que a distância entre o lugar da publicação e o lugar da acção estimula. João Pereira Coutinho é um bom cronista dos tempos que vivemos e se o mundo fôr justo a História far-se-à um dia recordando aquilo que escreveu. Edição D.Quixote.


 


VER - Os smartphones tornaram o modo fotográfico de ver uma coisa natural no dia a dia. De certa maneira, perdoem-me os puristas, o iPhone 6 está para as máquinas fotográficas como as primeiras Leicas de 35 mm estiveram para os aparelhos fotográficos pesadões da época. Registar o que se vê - e mostrar como todos os olhares sobre uma mesma coisa podem ser tão diferentes - é hoje muito acessível. Na realidade há um enorme e crescente número de pessoas que anda com uma máquina fotográfica no bolso, e que cada vez mais a vai usando em situações onde antes não lhes passaria pela cabeça fotografar. Há uns anos o New York Times produziu uma edição inteira apenas com fotografias feitas com iPhones. O sucesso do Instagram é a prova da total democratização da imagem fotográfica, a um ponto que nem Susan Sontag imaginou quando escreveu o seu “Ensaio Sobre Fotografia” em 1977. Alexandra Calapez, que passou uma vida a ensinar  ciências e biologia, tem, por isso, um olhar quase microscópico sobre o mundo que a rodeia, uma visão de observador de experiências e de descobridora de acasos da natureza. Há uns meses decidiu começar a ver com o seu iPhone e uma selecção das fotografias que tem feito, com o título “ping_pang_pong” está até 31 de Dezembro na Galeria do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. É muito interessante poder perceber assim o que as pessoas vêem em seu redor.


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OUVIR - A capa deste disco pode enganar - alguém pode pensar que se trata de um best of de árias célebres. Mas não, trata-se de uma recolha cuidada de canções, originalmente para voz e piano, e aqui interpretadas com versão orquestral. Rolando Villazón escolheu um repertório pouco conhecido mas importante do bel canto,  e optou pela orquestra do Maggio Musicale Fiorentino, dirigida por Marco Armiliato Há canções de Vincenzo Bellini, da fase inciial da carreira de Giuseppe Verdi e outras, mais interessantes, de Gaetano Donizetti e, sobretudo de Gidachinno Rossini. O destaque vai para o dueto final, “Tirana por deux voix (les Amants de Seville)”, em que Rolando Villazón faz um dueto arrebatador com Cecilia Bartoli.  CD Deutsche Grammophon, disponível em Portugal.


 


PROVAR - Já lá vai o tempo dos chop suey como petisco único nos restaurantes chineses. Agora as coisas evoluíram felizmente e a oferta começa a ser maior. Na Rua D. João V, às Amoreiras, abriu recentemente um novo Yum Cha Garden, continuador do estabelecimento do mesmo nome que há uns tempos existe em Oeiras. A casa ganhou fama pelos seus dim sum e pela confecção de pratos pouco vistos por cá, como a sopa de porco no forno. Numa recente visita fiquei bem impressionado com uns dim sum de gambas e, mais ainda, com uns raviolis de tubarão, perfeitos no tempero.. Aqui pratica-se a cozinha ao vapor e os sabores resultam mais puros. Uma vieiras salteadas acompanhadas de aipo ao vapor são bem um exemplo disso mesmo e foram muito apreciadas. Há uma selecção suficiente de vinhos portugueses e cerveja e coca cola chinesas. A terminar veio um bolo de chocolate em bola, recheado de gelado de chá verde, que foi um final perfeito.  Mesas amplas, serviço impecável, preço honesto. Yum Cha Garden, Rua D. João V nº31, tel. 211 350 006, aberto todos os dias.


 


DIXIT - “Ontem à noite não resisti ligar a TV nos vários canais, à hora em que normalmente eu comentaria. E pensei, de mim para mim, que grande momento de comentador estou a perder” - Marcelo Rebelo de Sousa, no Festival Internacional de Literatura, de Óbidos.


 


GOSTO - Da ideia de colocar peças gigantes da cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro nas ruas das Caldas da Rainha.


 


NÃO GOSTO - Os portugueses são os europeus que mais utilizam o telemóvel enquanto conduzem  - revela um estudo da Organização Mundial de Saúde


 


BACK TO BASICS - “Os factos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles” - Clarice Lispector


 

outubro 16, 2015

ESTAMOS TODOS NUM TÚNEL ESCURO

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 TÍTULOS: “Vem aí a frente popular?” - Manuel Villaverde Cabral no Observador, 19 de Setembro;  “Namoro entre PS, PCP e Bloco deixa Coligação assustada” - i, sexta-feira ; “Santana Lopes quer que o Presidente da República trave já António Costa” - DN, Sábado; “Acordo à esquerda divide PS de Costa” - Correio da Manhã, Domingo; “PS e BE negoceiam hoje Governo apoiado pela esquerda” - Público, segunda-feira; “Forças à Esquerda do PS não dão garantias de estabilidade” - Carlos Silva, Secretário Geral da UGT,  “Diário Económico”, segunda-feira); “Costa tenta convencer Cavaco a aceitar Governo de Esquerda” - i, terça-feira; “Eleitores do PS não votaram para um governo com PCP e Bloco” - Durão Barroso, Diário Económico, terça-feira; “Coligação envia mais de 20 propostas ao PS e ainda confia num acordo” - Público,  terça-feira; Propostas de Passos a Costa custam €1309 milhões em quatro anos. Coligação disposta a aceitar todas as condições de Costa - Expresso Diário,  terça-feira; “Costa assusta investidores” - Negócios,  terça-feira;  “Esquerda Unida - PS tenta acalmar UE e investidores” - Observador,  quarta-feira; “Ora aí está ela, a esquerda unida” - Manuel Villaverde Cabral, Observador, terça-feira; “Sem acordo à esquerda ou à direita, PS deixa passar governo de coligação” - Público , quarta-feira; “Costa prepara Europa para governo de esquerda” - Diário de Notícias, quarta-feira; “Impasse agrava tensão política - Costa classificou de insuficiente a proposta de Passos e Portas” - Negócios,  quarta-feira; “Passos bate com a porta a Costa” - Correio da Manhã, quinta-feira.


 


SEMANADA -  O mercado dos livros escolares movimenta entre 120 e 200 milhões de euros por ano; as alheiras de Mirandela movimentam 30 milhões de euros por ano, só no concelho de Mirandela; Portugal é o país da Europa que menos investe nos idosos, só 0,1% do PIB; só 23% das pessoas com mais de 65 anos utilizam a internet; um relatório da OCDE mostra que o país perdeu qualidade de vida entre 2009 e 2015; os hospitais fazem duas vezes mais urgências do que primeiras consultas; trinta pessoas foram infectadas nos últimos dois meses por uma bactéria , no Hospital de Vila Nova de Gaia, oito acabaram por morrer e há 13 ainda internados; mais de 110 mil pessoas emigraram em 2014; em Portugal as pequenas e médias empresas registaram mais crescimento em 2014 do que as grandes empresas; 51 mil portugueses têm património superior a 900.000 euros; Maria de Belém apresentou a sua candidatura com uma imagem gráfica copiada da campanha de Obama; “Podem contar comigo para tudo no PS” - disse Francisco Assis em entrevista à  RTP3; um terço das empresas municipais ainda tem prejuízo e há 17 que têm de fechar as porta devido à sua situação financeira; a receita do IMI subiu o dobro do que estava previsto; a Câmara Municipal de Lisboa pretende criar uma taxa de protecção civil; mais de um quinto das câmaras municipais empola receitas para gastar mais.


 


ARCO DA VELHA - O MRPP quer suspender Garcia Pereira sob a acusação de “incompetência e anticomunismo primário”.


 


FOLHEAR - A”Monocle” leva oito anos de vida e está agora a entrar na fase de amadurecimento do seu projecto. Desde quase o início tornou-se claro que Tyler Brilé, o fundador da revista, queria criar uma comunidade, baseada em alguns valores, como a qualidade de vida, a cuidada recuperação das cidades, o comércio tradicional, a produção artesanal, bons transportes públicos e o empreendedorismo numa combinação de criatividade com tradição. Com uma fórmula editorial baseada na revelação de descobertas à comunidade de leitores, na elaboração de listas exemplares em diversas áreas (de cidades a aeroportos, passando por hotéis) e numa selecção cuidada de locais a visitares em diversos países, a “Monocle” afirmou-se. Combinando artigos longos e reportagens com notas breves e conselhos, a revista cria o desejo de conhecer locais de que fala.  O número de Outubro é a edição anual dedicada a bons exemplos de comércio e Lisboa lá figura com o renascimento da Rua do Poço dos Negros, de que provavelmente muitos lisboetas ainda nem se aperceberam. Ao mesmo tempo que partilha os seus segredos na edição impressa, a Monocle tem uma radio em streaming - Monocle 24 - e no seu site há uma área de filmes com bastantes mini-documentários sobre diversos temas, a maioria com uma qualidade de edição exemplar - que sugere o embrião de uma estação de televisão dedicada à mesma comunidade. Além de lojas Monocle em diversos países, em Londres abriu agora um conceito que promete exportar e que combina um café sofisticado com um escaparate das melhores revistas que se editam pelo mundo, o Kioskafé (31 Norfolk Place). Por último, há pouco tempo, iniciou a newsletter diária  “Monocle Minute” que proporciona uma selecção de temas fora do mainstream noticioso, mas com assuntos muito interessantes - e que é um exemplo de capacidade editorial no digital. Tudo isto cria um ecosistema “Monocle”, que permite à comunidade ter diversos pontos de contacto e manter a fidelidade à marca.


 


VER - Hoje proponho-vos uma visita a um site absolutamente espantoso pelo trabalho de recolha e organização de duas colecções fotográficas  incontornáveis na história da fotografia e na documentação de períodos cruciais dos Estados Unidos da América. Sugiro que busquem e que visitem Photogrammar, uma plataforma digital que agrupa 170.000 fotografias feitas entre 1935 e 1945 para a United States Farm Security Administration e para o Office of War Information, agora depositadas na Library Of Congress. Se o primeiro foi um projecto exemplar que visava documentar o que era a vida no interior dos Estados Unidos, nas zonas rurais, durante a época da Grande Depressão, o segundo recolhia o trabalho dos grandes fotojornalistas e de militares que registaram as imagens da II Grande Guerra. Para a Farm Security Administration trabalharam nomes incontornáveis da fotografia, que deixaram a sua marca em revistas como a Life. O site tem uma organização absolutamente extraordinária e explorar todas as suas potencialistas e informação é verdadeiramente um prazer para quem gosta de fotografia documental. Aqui fica uma fotografia de Dorothea Lange, no Novo México, em 1935.


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 Outras sugestões - “Afinidades Electivas, Julião Sarmento Coleccionador”, na Fundação EDP e na Fundação Carmona e Costa. No Atelier Museu Julio Pomar, “Desenhar - Julio Pomar e Rui Chafes” (Rua do Vale 7). Na Miguel Justino Contemporary Art - “Les Voyeurs”, de Mário Ritta, Rua Rodrigues Sampaio 31, 1º Esq.


 


OUVIR - Há muito tempo que um disco não me dava tanto gôzo como “Music Complete”, dos New Order, o seu primeiro álbum de originais desde há dez anos, que agora anda em repeat no carro, em casa, no iPhone. É o primeiro sem o baixista Peter Hook, que fez muito do som do grupo, aqui bem substituído por Tom Chapman. Na produção há algumas incursões de Tom Rowlands, dos Chemical Brothers, e Bernard Sumner , a alma dos New Order, recuperou o teclista Gillian Gilbert para refazer o som da banda, o que fez com sucesso. É impressionante como ao fim de 30 anos de actividade os New Order conseguem continuar a fazer alguma da mais entusiasmante música de dança, com palavras do mais puro pop - “I want a nice car / A girlfriend who’s as pretty as a star” -  isto conjugado com ritmos que fazem dançar e com surpresas que vão da presença de Iggy Pop num tema de spoken word (“Stray Dog”) a Elly Jackson, das La Roux, em três faixas, entre as quais a  irresistível “Tutti Frutti”. Mas o grande momento do disco é “Plastic”, uma faixa de quase sete minutos que é um manual perfeito de música para pistas de dança. A faixa inicial, “Restless”, e a final, “Superheated” (esta com uma participação de Brandon Flowers dos The Killers), são material do melhor que Sumner tem feito. Um disco incontornável, que eu vou consumindo no Spotify. A capa, claro, é de Peter Saville.


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PROVAR -  Estamos em plena época de dois frutos do Outono de que gosto particularmente: marmelos e romãs. Para além da tradicional marmelada, a geleia de marmelo com nozes e o marmelo aos quartos, cozido ou assado, enaltecem as potencialidades deste fruto. Mas o petisco de que mais gosto é de um queijo bem curado, duro, Serpa de preferência, acompanhado com marmelada fresca feita há poucos dias - como por exemplo a que se vende na loja Afinidades, na Quinta do Anjo, em Palmela. Se este petisco for acompanhado por um Moscatel Roxo da Casa Horácio Simões, que se encontra na mesma loja, então alcança-se facilmente um estado de grande satisfação. Quanto às romãs, que ainda por cima provêem de uma árvore lindíssima e têm propriedades anti-oxidantes, experimentem misturá-las com uma mousse de chocolate de facto caseira, espessa e escura. O que sobrar das romãs, se sobrar alguma coisa, vai muito bem com o iogurte do pequeno almoço. (Afinidades, Rua João de Deus nº10, Quinta do Anjo, Palmela).


 


DIXIT - O sector da Cultura representa cerca de 1,9% do PIB português e 3,4% do PIB espanhol - Belén Rodrigo, na revista Actualidad - Economia Iberica


 


GOSTO -  De Rui Rio ter desistido de se candidatar à Presidência da República.


 


NÃO GOSTO - Da transformação da política num jogo de poker fechado.


 


BACK TO BASICS - A democracia é a arte e a ciência de governar o circo a partir da jaula dos macacos - H. L. Mencken


 


 






O IMPARÁVEL AVANÇO DO MOBILE IMPULSIONA A UTILIZAÇÃO DE BIG DATA

Onde nos está a ler? Em casa, no escritório, na rua? Em que dispositivo? A probabilidade de estar a ler estas linhas num tablet ou smartphone é grande e o número de pessoas que usam dispositivos móveis não pára de crescer. Este facto só por si provoca mudanças estrturais nas formas de comunicação, da informação à publicidade. A mudança de hábitos e de comportamentos é mais rápida que nunca.


O mais recente relatório da Anacom, relativo ao segundo trimestre de 2015, indica que em Portugal  62,2% dos telefones móveis já são smartphones, o que significa cerca de 5 milhões de smartphones (no mesmo período do ano passado a percentagem era de 46,4% do total). Ainda segundo o mesmo relatório, 51,8% dos acessos domésticos à internet são feitos a partir de dispositivos móveis (smartphones ou tablets). Por outro lado o acesso à internet de banda larga via dispositivos móveis aumentou 30,5% face ao segundo trimestre de 2014 – ou seja, há 5,2 milhões de utilizadores de banda larga móvel. Finalmente no final do segundo trimestre de 2015 a fibra óptica significava já 20,8% do total das subscrições de cabo, um crescimento de 51% em relação ao início de 2014. Estes números espelham bem como estas transformações atingem o mercado português.


Segundo a eMarketer, no próximo ano, a nível global, o investimento em publicidade em dispositivos móveis vai ultrapassar o investimento em publicidade feita em computadores tradicionais. Todas estas transformações levam a uma conclusão: o mobile não é apenas mais um canal, é uma forma de distribuição e utilização de comunicação completamente diferente. Conseguir estabelecer a comunicação com as pessoas certas para determinado produto passa a ser mais fácil. O crescimento da utilização de dispositivos móveis proporciona a captação de mais dados, mais fiáveis e mais utilizáveis.


Ao empresas de media – desde as que distribuem informação às redes sociais – apuram cada vez mais os dados que obtêm dos seus utilizadores. Para as marcas isto proporciona uma maneira completamente diferente de contactar os seus consumidores. Com a sofisticação na utilização dos dados já não é só a quantidade de contactos que se procura, é sobretudo a sua qualidade. Está a passar o tempo em que a medida fundamentar era o número de clicks. A quantidade está a ser substituída pela qualidade e o futuro é de quem conseguir utilizar os dados por forma a estabelecer uma relação comercial directa entre o consumidor e as marcas. Nesta panorama a integração de dados entre  publishers, agências e as marcas é fundamental para alcançar objectivos concretos. Este é o novo desafio e a nova fronteira da comunicação publicitária. Os pontos de contacto entre marcas e consumidores deixaram de ser uma hipótese abstracta e já são em muitos casos certezas efectivas. E, á medida que cada vez maior número de pessoas está on line permanentemente, mais isso é uma verdade.


 (Publicado na Buzzmedia de 13 de Outubro 2015)


 


 

outubro 09, 2015

SOBRE A MENTIRA NA POLÍTICA & sugestões avulsas nada políticas

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PROPAGANDA _ Quando se regulamentaram em Portugal as campanhas eleitorais, há quarenta anos, houve a preocupação de tentar garantir, com base na realidade da paisagem mediática da época, um acesso semelhante de oportunidades para as várias forças concorrentes. Proibíu-se a publicidade comercial e estimulava-se a participação da militância nas campanhas. Havia apenas um canal de televisão e a generalidade da comunicação social estava nas mãos do Estado. Os tempos de antena eram momentos de propaganda disputados e os debates entre todas as forças eram imperativos indiscutíveis. Hoje tudo é diferente - os tempos de antena são quase ignorados e deixaram de ter importância; a militância, salvo casos raros, desapareceu da afixação de cartazes e de acções de campanha; e os debates redundaram no desastre que agora se viu. A legislação eleitoral não se adaptou à evolução dos tempos, desde logo nas obrigações impostas aos orgãos de comunicação social uma vez praticamente desaparecido o Estado do sector, menos se adaptou ao surgimento do universo digital. Qualquer partido pode ter um site, um blog, um canal de televisão próprio on line e presença nas redes sociais por um custo inferior ao de uma série de tempos de antena há 40 anos. Um estudo publicado durante a recente campanha estimava em 8,8 milhões de euros o valor que todos os partidos iriam gastar no decurso das respectivas campanhas eleitorais, desde material de propaganda a comícios, passando por consultores, por estudos de opinião e outdoors. A noção de que as campanhas estão proibidas de ter custos de publicidade tornou-se uma mentira consentida, desde logo nos outdoors, mas também online, com a gestão de redes sociais ou estratégias de utilização de dados. Nas campanhas continua tudo como no início do último quarto do século passado. Ou seja, também aqui, o sistema político vive numa mentira.


 


SEMANADA -  Apesar de existirem cem mil novos eleitores as abstenções voltaram a subir; a coligação PàF venceu as eleições depois de ter estado no Governo quatro anos a praticar uma política de austeridade; o PS não conseguiu nem sequer a maioria relativa, muito menos a absoluta que António Costa pretendia; António Costa perdeu no concelho de Lisboa, onde foi Presidente da Câmara vários anos e de cuja governação se gaba; o Bloco de Esquerda passou a ser a terceira força política mais votada; o Presidente da República mostrou que tem uma enorme falta de jeito para procurar consensos; no PS já começaram os sinais de conspiração interna; António Costa  é contra a partilha de soluções governativas entre as principais forças políticas, “a menos que haja invasão de marcianos” - mas na Europa há Governos de coligação com três ou mais partidos em 13 países que não consta terem sido invadidos por extra-terrestres; o PCP anunciou que irá apresentar uma proposta de rejeição do Programa do Governo da coligação; António Costa na campanha havia dito que votaria contra o Orçamento proposto pelo Governo se a coligação ganhasse; o PCP declarou que viabilizaria um Governo PS; o Livre não teve condições para avançar; as exibições de Joana Amaral Dias não tiveram efeito eleitoral; segundo o Programa de Estabilidade, aprovado este ano, o próximo Governo, seja ele qual fôr, terá de incluir no Orçamento de Estado medidas de austeridade de pelo menos 700 milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA - Com a quantidade de cães e gatos que andam pelo Facebook a eleição de um deputado do Pessoas-Animais-Natureza acaba por não ser uma surpresa.


 


VER - Se forem a Madrid não deixem de ver a magnífica exposição de fotografias de Josef Kouldelka, um checoslovaco que fugiu para Paris depois da invasão de Praga pela URSS em 1968 - amplamente documentada na exposição. Em Paris, Koudelka aderiu à agência Magnum e dedicou-se a temas como as migrações ciganas. A exposição (na imagem) está até 29 de Novembro na Fundación Mapfre, mesmo ao pé do Museu Reina Sofia, em Madrid, e traça a carreira de Koudelka, desde os seus tempos a fotografar teatro até às paisagens abrangentes que hoje em dia o inspiram. Ao ver esta mostra pensei como Portugal ainda está fora do roteiro destas grandes exposições internacionais de fotografia. Para além do World Press Photo, das exposições de Sebastião Salgado e de uma ou outra ocasional, o que de melhor se mostra por esse mundo fora passa-nos ao lado - um lugar que no futuro a Fundação EDP bem podia ocupar.


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Outras sugestões - Na Galeria Quadrado Azul, de Lisboa, até 24 de Dezembro, “Make Do”, fotografias de Paulo Nozolino realizadas entre 1974 e 2013, uma selecção que rompe com as mostras mais recentes do artista - Rua Reinaldo Ferreira 20, em Alvalade; Na Casa da América Latina, Avenida 24 de Julho 118 B, Luisa Ferreira apresenta “Quatro Dias e meio. Increíble” - fotografias de uma viagem à Cidade do México.


 


FOLHEAR - A Vanity Fair de Outubro é a edição anual dedicada à lista das personalidades que, na opinião da revista, constituem o “New Establishment”. O líder da lista deste ano é Mark Zuckerberg, que obviamente é a figura da capa da revista e é a personalidade mais jovem que alguma vez liderou a lista. Elon Musk, que era o nº1 do ano passado, está agora na sexta posição e o fundador da Uber, Travis Kalanick ocupa o segundo posto, logo seguido no terceiro lugar por Jeff Bezos da Amazon. O artigo que antecede a lista, “Unicorns And Rain Clouds”, de Nick Bilton, que escreve regularmente  sobre tecnologia para o New York Times, vale a revista só por si, estabelecendo comparações entre esta época de rupturas e saltos digitais com a revolução industrial do século XIX e analisando o que foi a bolha de 1999 e suas eventuais parecenças com a situação actual. Outro artigo que vale a pena ler é sobre o investimento de dois mil milhões de dolares do Facebook na realidade aumentada, numa empresa chamada Oculus Rift, cujo produto, um aparelho que nos permite experimentar viver outras realidades, Zuckerberg aposta que  vai ser o próximo responsável por uma nova transformação na forma como as pessoas se relacionam e comunicam entre si. Por isso comprou a Oculus Rift para ser integrada no ecosistema que o Facebook está a criar. Uma história incontornável.


 


OUVIR - A improvisação está quase sempre no ponto de partida dos discos de Rodrigo Amado - e já vai em 15. Em “This Is Our Language”, o seu novo CD, Amado rodeia-se de músicos notáveis - o saxofonista Joe McPhee, o baixista Kent Kessler e o baterista Chris Cossano. McPhee, que aqui também toca trompete nalguns momentos, além dos diálogos que o seu sax alto proporciona com o sax tenor de Amado, é, aos 75 anos, uma das grandes figuras do jazz de vanguarda. “This is Our Language”, o nome deste CD, parece remeter para “This Is Our Music”, de Ornette Coleman em 1961 - tem o selo da editora Polaca Not Two, foi gravado em estúdio, mas surge na continuidade do concerto realizado pelo quarteto no CCB, em Dezembro de 2012. Rodrigo Amado, que além de músico é também um fotógrafo com obra assinalável, está numa fase particularmente criativa e este disco é uma espécie de manifesto das ideias musicais que professa - a improvisação, o jazz de vanguarda, a tradição de nomes como Coleman ou Albert Ayler, que aqui se faz sentir. Entre as cinco faixas do disco escolho a primeira, “The Primal Word”, a faixa título “This Is Our Language” e a última, “Human Behavior”. São, digo eu, as que mais representam o espírito em que o álbum parece ter sido criado.


 


PROVAR - Ultimamente os novos restaurantes de hamburguers parecem saídos de uma experiência de química nascida na imaginação delirante do professor Pardal. Felizmente no Ground Burger, bem perto do Corte Inglés e da entrada do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, a tradição ainda é o que era. A lista inclui nova hamburguers, que vão do mais simples, só com carne, pickles, cebola, ketchup e mostarda, até ao Chili (obviamente picante) e o Philly, que leva queijo filadelfia. Da lista faz parte uma opção vegetariana e outra para crianças, de tamanho reduzido. Há ainda uma opção Hamburguer do Mês que, essa sim, inclui algumas habilidades. Toda a carne utilizada é de Black Angus, o pão do hamburguer é muito bom,  e os preços vão de 7.50€ até 10.50€, com os acompanhamentos à parte - batatas bem fritas em alho e alecrim, anéis de cebola temperados ou salada. Para beber há uma variedade de milk shakes e cervejas de várias proveniências, incluindo algumas artesanais portuguesas. No caso optei por uma norte-americana Samuel Adams Boston Lager, à pressão, que foi muito bem com o Ground Burguer, receita tradicional que é o emblema da casa. Atenção que, se gosta de carne mal passada, o melhor é mesmo sublinhar o tema - a opção médio-mal não chega. Nas sobremesas há gelados, o café é bom e o serviço é muito acima da média. Fica já dito que neste momento é a minha hamburgueria preferida. A sala é luminosa, confortável e simpática. Avenida António Augusto de Aguiar 148A, telef. 213 717 171.


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DIXIT - “A cada vez menor dimensão do Estado está a retirar ao PS o seu eleitorado natural e a austeridade está a cindir a sociedade entre os que velam pelos seus interesses materiais e os que se radicalizam porque se sentem excluídos e precários” - Fernando Sobral, no Pulo do Gato, aqui no Negócios.


 


GOSTO -  Há mais gente a andar de comboio - nos primeiros oito meses do ano a CP transportou 73,5 milhões de passageiros, mais 2,8% que em igual período do ano passado.


 


NÃO GOSTO - O Benfica oferece prendas aos árbitros no final de cada jogo, incluindo vales para jantares para cada membro da equipa de arbitragem e acompanhante; o Conselho de Arbitragem sabia de tudo e nada disse.


 


BACK TO BASICS - Uma das razões pelas quais as pessoas se afastam da política é porque a verdade é muito raramente o objectivo dos políticos, cuja preocupação é só um bom resultado eleitoral e o poder - Cai Thomas.