junho 20, 2014

O TRIUNFO DOS PORCOS

Foto: O TRIUNFO DOS PORCOS em Lisboa.Imaginem isto aplicado ao país !


 


(foto Luiz Carvalho)


 


POCILGA -  António Costa iniciou a sua campanha eleitoral em Lisboa entregando a cidade aos porcos. Imagina-se o que fará se tiver o país nas mãos. Num dos únicos pronunciamentos programáticos que fez, António Costa manifestou-se a favor de uma “terceira via”, de  aposta no crescimento das receitas, como alternativa à política de cortes na despesa ou aumento dos impostos. Não explicou, no entanto, se esse crescimento de receitas se deveria aos favorecimentos, como o que concedeu ao entregar à Sonae a Avenida da Liberdade e parte do Terreiro do Paço, para pocilga, durante uma semana. Num outro momento particularmente ilustrativo da sua modernidade, Costa foi apoiado entusiasticamente por Mário Soares e por Ferro Rodrigues, que lhe irão dar testemunho de inquebrantável fé na tradição, na retórica e na falta de ideias como forma de resolver os problemas nacionais - trata-se de uma clara e disruptiva aposta na dignificação de uma nova geração de políticos que possa regenerar o país. Enquanto tudo isto se passa, o Tribunal de Contas anuncia, com a pompa e circustância que gosta de imprimir às suas rábulas, que lava as mãos, como Pilatos, das consequências dos seus actos. Por junto não quer saber dos efeitos das acções que toma, nem quer fazer ideia de como se resolvem as situações que cria. Digamos que tem uma grande convergência, neste aspecto, com António Costa: quem atrás de mim vier, que feche a porta, como outros antes fizeram. Sócrates, esse, sorri e vai deixando umas frinchas abertas por onde passa.


 


SEMANADA - Alberto Martins, dirigente socialista, diz que “o PS deve excluir o bloco central e coligar-se à esquerda se não tiver maioria” nas próximas legislativas; António Arnaut, ex-dirigente socialista teme “que o PS entre num estado de letargia”; o Teatro Capitólio, que o vereador Manuel Salgado, eleito pelo PS, garantiu desejar ter pronto em finais de 2009, continua com as obras paradas e muito atrasado; o PS considera que o resultado positivo apresentado nas contas de Rui Rio na Cãmara Municipal do Porto revela má gestão; Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que as legislativas deviam ser realizadas antes do verão de 2015; Jerónimo de Sousa foi ao Palácio de Belém pedir a demissão do Governo; Marcelo Rebelo de Sousa criticou Passos Coelho por este ter faltado ao jogo inaugural da selecção portuguesa; Merkel esteve no estádio a torcer pela Alemanha; o preço das casas em Portugal caíu 3,3% no último ano; os produtores de Sever do Vouga estão a vender os mirtilos a quatro euros o quilo, mas nas grandes superfícies são vendidos a 24 euros o quilo; o salário médio sofreu um corte de 400 euros por ano devido às alterações das leis laborais em 2012; todos os dias 341 portugueses, em média, abandonam o país; o Provedor de Justiça queixa-se de falta de meios para garantir a defesa dos direitos dos presos; dois reclusos suicidaram-se em seis dias na cadeia de Paços de Ferreira;  no ano passado registaram-se 13 suicídios nas prisões portuguesas; a PSP pediu ajuda às juntas de freguesia de Lisboa para comprar carrinhas que sirvam de esquadras móveis, depois de ter decidido fechar uma série de esquadras na cidade.


 


ARCO DA VELHA - Vários reclusos queixaram-se às Finanças do comportamento da cantina do Estabelecimento Prisional de Lisboa, que se recusa a dar-lhes factura da despesa lá efectuada. Os detidos queixosos consideram que assim ficam descriminados e prejudicados em relação ao sorteio dos Audi atribuídos pelo Fisco aos contribuintes que pedem factura identificada.


 


FOLHEAR - Existe uma lenda à volta da revista “Holiday”, nascida nos anos 40 do pós guerra. Contratava os melhores escritores  e fotógrafos e enviava-os para destinos fantásticos com contas de despesa ilimitadas. O resultado foi brilhante durante várias décadas, até meados dos anos 60, graças ao génio de um editor visionário, Ted Patrick, e de um director de arte atrevido, Frank Zachary. Pelas mãos destes dois homens passaram talentosas peças de nomes como Hemingway, Steinbeck, Kerouac ou Cartier-Bresson, Robert Capa e Edward Steichen. A Holiday era a revista do sonho, da viagem, da descoberta. Morreu quando a televisão entrou no seu domínio. A boa notícia é que agora ressurgiu, com duas edições por ano, feitas em Paris - deve ser a melhor coisa a sair da capital francesa nos últimos tempos. Neste número, que tem por tema ícones de 1969, destacam-se as canções de Gainsbourg, o Aston Martin DBS e uma interessante playlist da época assinada por Etienne Daho. E claro, há um belo portfolio sobre a história antiga da própria revista, que só por si merece a compra desta edição.


 


VER - Hoje, vai um roteiro. Começo pelo Arquivo Municipal de Fotografia, na Rua da Palma (a instituição já não se chama assim, mas o nome era apropriadamente este antes de uma reforma que lhe tirou a identidade) - ali está o núcleo central da obra de Artur Pastor (na imagem), que documentou Portugal nos anos 40 e 50. Regente Agrícola por formação, descobriu a fotografia como auxiliar do seu trabalho em 1942. Está a decorrer, até 31 de Agosto, uma exposição com a sua obra, constituída por três núcleos, apresentados em três espaços distintos da cidade: Arquivo Fotográfico da Rua da Palma, o Pavilhão preto do Museu da Cidade no Campo Grande e o espaço da loja Colorfoto na Praça de Alvalade.


Mudando de rumo sugiro que descubram uma colectiva intitulada "O Caminho Estreito Para o Sul Profundo", com trabalhos de Ana Morgadinho, Angela Dias, Pedro Calhau, Ricardo Pires, e Vasco Futscher. Finalmente, em Belém, nao Projecto Travessa da Ermida, apresenta-se um filme , “Vintage Drawings & Current Graphic Works”, de André Romão, Pedro barateiro e André Valentim. A terminar, sugiro   os novos trabalhos de Manuel João Vieira na Casa da Cerca em Almada.


 


OUVIR - Contido nas palavras, ora exuberante ora discreto nos arranjos, o brasileiro Gui  Amabis é sempre intenso. “Trabalhos Carnívoros”, o seu novo disco, lançado agora em Portugal, em simultâneo com um concerto que fará dia 8 de Julho, na Casa Independente, em Lisboa, é exemplo disso mesmo. Compositor e músico, Gui Amabis é também produtor - foi ele que trabalhou no novo disco de Rita Red Shoes, “Life Is A Second Of Love”. Regressando a “Trabalhos Carnívoros”, destaco a forma como Amabis consegue conjugar um lado electrónico, quase experimental, como no tema título “Trabalhos Carnívoros”, com a suave forma de encantar em “Um Bom Filme” e, sobretudo, em “Menino Horrível”.As palavras das suas canções - as letras como se diz - valem a pena. São declarações sintéticas, descrições de estados de espírito, como “Crespúsculo”, ou de diagnóstico irónico, como “Consulta Mental”. Gui Amabis é uma boa surpresa e este seu “Trabalhos Carnívoros” é um bom momento.


 


PROVAR - Antigamente chamava-se Masstige, hoje em dia o conceito mudou, chama-se Lateral, o espaço está semelhante mas é um pouco mais descontraído. Há imagens nas paredes que parecem saídas de um cinema antigo, a clientela tem um mix de  idades e origens bem engraçado, pelo menos ao almoço. A comida é um oásis de simplicidade, bom senso e boas matérias primas no meio de sub-chefes cada vez mais espumosos. Aqui há  petiscos como croquetes de alheira e mel, ou polvo à Galega; há saladas de frango panado com mel, ervas e parmesão; há hamburgueres variados (de 170 a 350 gramas), linguinis e crepes, bruschettas e batatas fritas sublimes, aos palitos, fininhas, estaladiças e temperadas com ervas. Como gosto de hamburgueres de boa carne, mal passados, sou suspeito - porque estes são muito bons. Gosto do hamburguer de cogumelos, simples. A cerveja, apesar de ser espanhola, a Estrella Damm, sai sempre bem tirada. Aqui está um sítio que não me desilude e que me refresca o espírito. 15 valores em 20. Avenida  Barbosa du Bocage  107 A, reservas por sms pelo 914 327 572


 


DIXIT - “Temos de saber gerir os momentos de jogo em função do clima e de outros fatores” - Paulo Bento, antes do jogo com a Alemanha


 


GOSTO - Da homenagem a António da Cunha Telles na Cinemateca Portuguesa


 


NÃO GOSTO - Da falta de resposta da EMEL às reclamações que os seus utilizadores lhe enviam por email.


 


BACK TO BASICS - É preciso acabar com o mito do poeta inspirado - Álvaro de Campos


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Junho)


 


 


 


 

junho 12, 2014

SOBRE O EFEITO CAMALEÃO NAS ESTRUTURAS PARTIDÁRIAS

APOSTAS - Um amigo meu, do PS. dizia-me logo após as europeias, quando as intenções de Costa despontaram, que o candidato teria dificuldades porque Seguro controlava bem o aparelho e as distritais . Escassas semanas passadas um jornal titulava que "uma a uma as distritais afastam-se de Seguro e aproximam-se de Costa”. Um dos grandes problemas do nosso sistema político é que isto acontece em todos os partidos. Lembro-me ainda dos jantares de Passos Coelho na sua primeira campanha para disputar a liderança do PSD, que perdeu. Tinham mais independentes que militantes e aparelho. Uns anos depois, quando Sócrates já estava em queda e o aparelho laranja cheirava o poder, começou a surgir todo o lastro que andou desaparecido. Esta volatilidade dos aparelhos dos partidos, esta dependência de estruturas desfasadas da sociedade e que vivem em circuito fechado a olhar para o umbigo tem os nefastos efeitos que conhecemos desde o início do actual Governo - feito de compromissos internos. Hoje em dia acontece o mesmo no PS - o aparelho já acha que com Seguro não lhe sai a rifa e aposta que Costa pode premiar melhor. É uma aposta, não é política. Falamos de coisas venais e não de convicções. Esse é o grande problema dos partidos e dos seus dirigentes, que vivem desse expediente de distribuição de benesses e recompensa de favores. Programa político? Reformas? Esqueçam isso - dá trabalho e não dá votos.


 


SEMANADA - Marcelo prometeu, a propósito das perguntas enviadas para o Constitucional,  dar um raspanete a um assistente seu em Direito, hoje em dia assessor do Governo, quando ele voltar à Faculdade “daqui a uns meses”, uma maneira airosa de dizer que não acredita na continuação da coligação; o consumo já subiu e os depósitos das famílias caíram em finais de Abril para mínimos de um ano; numa sondagem recente 56% dos inquiridos consideram o atual Governo pior do que esperavam; a Câmara de Sintra conta cinco mil processos parados no seu Departamento de Urbanismo, vários há mais de uma década, e o atraso agravou-se no período em que Fernando Seara foi presidente da autarquia; esta semana Fernando Seara não conseguiu chegar à fase final das eleições para a Liga de Futebol porque  a candidatura da sua lista foi apresentada incompleta; nos últimos cinco anos perderam-se 372 postos de trabalho por dia; 28% dos salários em Portugal foram congelados entre 2012 e 2013; O Governo, através do Ministério da Administração Interna, deve meio milhão de euros a agentes policiais por serviços gratificados, que não estão a ser pagos desde há oito meses; o fisco já vendeu 23 mil carros penhorados este ano; a economia portuguesa caíu 0,6% no primeiro trimestre de 2014; o Estado paga em média 20 milhōes de euros por ano a cidadāos prejudicados por erros judiciários;  os seguranças de Cavaco Silva impediram impediram a obtenção de imagens em local público e mandaram mesmo apagar as fotografias a alguns repórteres fotográficos que estavam mais perto no local onde o Presidente se sentiu indisposto nas comemorações do 10 de Junho.


 


ARCO DA VELHA - António Costa, que desistiu de se preocupar com o lixo em Lisboa e já quase deixou de ser visto na capital,  anunciou ao país que se orgulha “da estratégia e do impulso reformista dos governos” de Guterres e de Sócrates.  


 


FOLHEAR - Nos últimos anos fui assistindo ao lento declínio da “Newsweek”, uma revista que leio há umas boas três décadas. De repente, há pouco tempo, a “Newsweek” reapareceu com um novo grafismo e um conceito editorial diferente, baseado numa edição fotográfica sólida e naquilo a que se tem chamado “long stories”, com um pé na actualidade e com outro na reflexão sobre os acontecimentos. Tenho na mão a edição com a data de 13 de Junho, na capa está o título “Finding The Next Facebook - Meet The Tech Investors With The Midas Touch”. Neste novo formato fotografias de página inteira são frequentes (a livraria Lello, do Porto, está numa delas num artigo sobre as livrarias que tentam novos modelos de negócio). Aliás as primeiras páginas da revista funcionam sob o título “Big Shots” e são fotos em página dupla de temas da semana. Há um ângulo diferente nas coisas - por exemplo, o mundial de futebol é olhado do ponto de vista da equipa da Bósnia, que chega à competição pela primeira vez. O artigo sobre as start-ups surge como um verdadeiro manual, de tão bem informado que é. E, contrariando o habitual comportamento politicamente correcto a revista dá conta de como o cientista que chamou a atenção para o degelo na Antártica considera que o aquecimento global pode ter vantagens.


 


VER - Quando lhe apetece ir ver arte e não sabe onde ir há-de ter uma vida difícil pela frente se seguir apenas os jornais, quer diários, quer semanais. Se existe uma área da actividade cultural que é mal coberta, essa área é a das galerias e das exposições, quer se realizem em pequenos locais ou em grandes museus. Apenas alguns nomes consagrados e mega eventos conseguem ganhar atenção e espaço mediático. A crítica é cada vez menos crítica e a divulgação pouco existe. E isto acontece apesar de as galerias de arte serem, já o tenho aqui escrito, um importante serviço público - proporcionam-nos, gratuitamente, a possibilidade de nos confrontarmos com a criação contemporânea - é nas galerias que aparecem as obras que significam rupturas, que trazem novidades, que experimentam novos caminhos. E, apesar disto, sabemos pouco delas. Desde há uns anos existe um site português - www.gategalleries.com - que é um guia precioso para saber o que se passa (na sua secção de agenda) e que tem um directório muito completo de todos os locais que se dedicam a artes plásticas por todo o país. Criado e dirigido por Maria Lacerda, o GateGalleries é de visita obrigatória para quem quer saber onde ir. Foi tecnicamente remodelado há pouco tempo, tem visualização fácil nos vários formatos de dispositivos móveis e navegação rápida num grafismo simples. Ali estão todas as possibilidades, cabe-lhe a si decidir.


 


OUVIR - Não é muito frequente encontrar um disco onde mãe e filho se juntam - mas “Childhood Home”, de Ben Harper e da sua mãe Ellen, é isso mesmo. Uma visita ao passado, com canções assinadas pelos dois, integralmente acústicas, com forte matriz folk e cujos temas são as recordações e as mamórias de tempos que já passaram. Ouvindo Ellen a tocar, e escutando algumas das canções que ela compôs, sobretudo “City Of Dreams” e “Altar Of Love”, percebe-se onde Ben foi buscar o seu talento. O disco tem dez canções, seis de Ben Harper e quatro de Ellen e o tema de entrada, “A House Is A Home” é logo uma bem sucedida declaração de intenções. Outro tema a registar é “Born To Love You”. O disco evita piegices e complacências maternais. Não é por acaso que Ben Harper descende de uma família de músicos - os seus avós fundaram em Claremont o California’s Folk Music Center and Museum , onde a sua mãe trabalhou toda a vida e onde o jovem Ben se cruzou com nomes como Ry Cooder ou Taj Mahal, que eram visitas habituais.


 


PROVAR - O brunch é essa mistura de breakfast e lunch que vai ganhando adeptos ao fim de semana e feriados. Depois de uma busca pela net, a escolha recaíu no "Pāo Nosso" , que fica nas avenidas novas, na Rua Marquês Sá da Bandeira 46, com uma pequena esplanada em frente ao jardim da Gulbenkian. O seu brunch ganhou fama no admirável mundo digital. Há três variedades de brunch, uma é dupla e foi a escolhida. Inclui um cesto de pāo bem aviado e uma tábua com três variedades de queijo, além de presunto, salmāo fumado, manteiga, um bom azeite, mel de rosmaninho e doce. Nos quentes deveria haver quiche com salada, mas como às duas e um quarto já estava esgotada, foi sugerida uma tiborna acompanhada por salada e tomate recheado com queijo de cabra - a tiborna estava apenas um pouco acima de mediana, sobretudo por defeito no corte e preparação do pão. Para rematar, além de um iogurte natural com mel, também já esgotado à mesma hora, vale a pena experimentar  a tarte de maçā - a salada de frutos, outra possibilidade, é sensaborona. A ementa deste brunch duplo inclui bebidas frias e quentes para duas pessoas e, sem extras, fica nos 28 euros. Se nāo quiser o brunch, que é servido do meio dia às quatro, pode sempre optar por uma das sanduíches da casa - estas existem todos os dias da semana. O balanço do brunch do Pão Nosso, no dia visitado, foi de 13 em 20. Fraco para os elogios lidos na net. Para informações o telefone é 210 107 222.


 


DIXIT - “Necessitamos de política e de jornalismo mais reflexivo...Ser moderno não é utilizar corretamente e eficazmente o Twitter ou dar bons soundbites. Ser moderno é ter coragem de pensar, discutir e falar acertadamente”. - João Adelino Faria.


 


GOSTO - Do regresso de Pedro Rolo Duarte à televisão, pela mão da RTP2 e do programa “Tanto Para Conversar”, ao fim da noite das terças feiras.


 


NÃO GOSTO - Do abuso de poder, completamente ilegsl, da segurança de Cavaco, ao ordenar a um fotojornalista que apagasse a fotografia do desmaio presidencial.


 


BACK TO BASICS - “A renúncia é a libertação. Não querer é poder” - Fernando Pessoa  

junho 06, 2014

SOBRE O PROGRAMA DE GOVERNO DO...TRIBUNAL CONSTITUCIONAL

GOLPISTAS - No dia em que o Tribunal Constitucional decidiu propôr o aumento de impostos, como medida alternativa às medidas de redução da despesa que reprovou, entrou no caminho de querer impôr um programa de Governo. Esse caminho, para que não existam dúvidas, é o percurso que leva aos golpes de Estado. O Tribunal Constitucional passou a ser desde a semana passada candidato a putschista. Não é uma boa notícia. Na sala onde o Tribunal Constitucional anuncia as suas decisões, sempre com atraso sobre a hora marcada (o que diz muito sobre o respeito dos juízes pelos cidadãos), há uma tapeçaria criada a partir de uma obra de Eduardo Batarda que é bem simbólica - linhas que se cruzam e enredam num novelo difuso e confuso, impossível de destrinçar. É a imagem ideal para ilustrar o Tribunal Constitucional que temos. Os impostos que o Tribunal deseja, como bem lembrou neste jornal Fernando Sobral, transferem rendimentos de todos para uma entidade que os esbanja, e que é o Estado. Na realidade os impostos espremem o trabalho e estrangulam o investimento. Neste terceiro ano da legislatura percebem-se bem os nefastos efeitos da falta de reforma do Estado - cuja ausência é na realidade  o chapéu de chuva onde se abriga a parte do Tribunal Constitucional que quer governar. Como bem escreveu Miguel Cadilhe esta semana a nossa Constituição obriga o Estado a prosseguir muitos fins mas nunca se refere aos meios necessários para os alcançar. Esse é o nosso problema. Mas pelos vistos o Tribunal Constitucional não tem essa preocupação porque acha que a receita é simples: mais impostos. Quererão os juízes formar uma junta governativa? Serão eles os golpistas contemporâneos? O regime chegou ao pior dos impasses.


 


SEMANADA - Com o golpe anunciado pelo Tribunal Constitucional, António Costa, esperto, diz querer clarificar tudo no PS ainda nesta semana; António José Seguro diz que antes de Setembro não há primárias; vários lideres distritais do PS marcaram reunião à revelia da direcção de Seguro; Augusto Santos Silva critica “incapacidade do PS” de Seguro; Seguro diz que “se anulou” no PS para manter a paz interna; segundo José Sócrates “liderança bicéfala só no Vaticano, que tem dois papas”; depois de ter considerado em Maio de 2011 que a saída de Portugal do euro seria inaceitável por ser a pior das soluções, Francico Louçã regressou à política para sugerir agora que a saída da moeda única poderá ser a única  solução para Portugal; Rui Tavares, líder do “Livre”, anunciou em entrevista que vai estudar latim; soube-se esta semana que um Manual do SIS recomenda aos espiões a violação da lei em matérias como os dados bancários e dados das operadoras telefónicas; esta semana a Presidente da Assembleia da República foi desautorizada duas vezes na conferência de líderes parlamentares; mesmo assim a Assembleia da República encontrou tempo para aumentar em 38% os membros da Comissão Nacional de Eleições responsáveis pela confusão em torno dos debates eleitorais e co-responsáveis, com os partidos, pelo desinteresse face aos actos eleitorais.


 


ARCO DA VELHA - O presidente do Sporting comparou esta semana o futebol a um“ânus”, com duas “nádegas imponentes de onde ou sai vento mal cheiroso ou trampa”.


FOLHEAR - Na “Vanity Fair” de Junho, destaco dois artigos - o perfil de Jon Hamm, o actor que protagoniza Don Draper em Mad Men, e que agora começa uma carreira no cinema com “Million Dollar Arm”, e um magnífico relato da vida do fotojornalista Robert Capa, centrado na sua cobertura do desembarque aliado na Normandia. Outra peça muito interessante é aquela em que Matt Bernan recorda os tempos em que foi o director criativo da revista “George”, criada por John F Kennedy Jr em 1995. Diane Keaton é quem responde este mês ao dicionário de Proust na última página da revista e o retrato de Annie Leibowitz vai para Sting. Dois dos casos noticiosos dos anos 90 - o incidente do vestido azul de Monica Lewinski e a fuga de O.J. Simpson coberta em directo pelas televisões - são pretexto para visitar a década que vulgarizou a tabloidização da informação. Para quem gosta de espionagem industrial o relato da guerra entre a Apple e a Samsung é uma peça imperdível.


 


VER - No momento em que Délio Jasse é um dos finalistas do BES Photo deste ano, com a sua participação exposta no Museu Berardo, a Galeria Baginski, que representa o artista, dá provas da sua atenção á actualidade e apresenta uma exposição inédita, “Terreno Ocupado”, que mostra duas facetas da obra do artista. Délio Jasse usa a fotografia para expressar a sua interpretação do mundo. Não documenta, fica-se por mostrar, juntar peças e propôr uma leitura. Consegue fazê-lo de duas formas diferentes - fantasiando e propondo quase colagens de imagens na série “Os Tinhas” e nas duas peças sem título de película sobre acrílico; e, por outro lado, mostrando uma visão do quotidiano, distorcida de várias formas, na série “Hora do Comércio” e, sobretudo, na série que dá título à exposição, “Terreno Ocupado”, onde por vezes se sente a proximidade com o trabalho de manuseamento da realidade de Ed Ruscha na California do final dos anos 60. O “Terreno Ocupado” (na imagem aqui reproduzida) de Délio Jasse, é a Luanda que ele quer mostrar.


 


OUVIR - Um académico chileno desenvolveu uma teoria chamada “o género portuário” - diz ele que alguma da música que se ouve nas docas de várias cidades costeiras da América do Sul tem origem na guitarra e na voz do fado -  nomeadamente estará na origem do tango, do bolero ou da ranchera. Daniel Gouveia, que em 2001 acolheu esse académico, Miguel Angel Vera Sepulveda, no I Colóquio Internacional do Fado, em Lisboa, e que foi o lado português das investigações do etnomusicólogo chileno, explica como tudo aconteceu nas notas introdutórias de “Amália, de Porto em Porto”, um novo CD que reúne um conjunto de gravações inéditas em disco. São 16 canções, muitas delas gravadas de forma rudimentar e maioritariamente cantadas em castelhano. Aqui estão clássicos como “Fallaste Corazon” (que Amália interpretaria várias vezes ao vivo, apresentando o tema como um fado mexicano), “Por Un Amor”, “No Llamarme Petenera”, “Mala Suerte”, “La Cama de Piedra” ou “Tres Palabras”, além de uma deliciosa versão de “Lisboa Não sejas francesa”. Estas gravações foram feitas no México, em 1950, e são agora editadas em CD, pela primeira vez, pela Valentim de Carvalho. A edição inclui ainda um texto de Miguel Angel Vera Sepulveda onde ele relata como foi descobrindo etas gravações, as suas conversas com Amália e a sua convicção das relações do fado com estas canções portuárias.


 


PROVAR - Este é um restaurante especial - ao almoço há um buffet a preço económico e ao jantar há escolha entre três menus - um filipino, outro italiano e um português. A responsabilidade da variedade geográfica da escolha é do Chef, um cozinheiro filipino que esteve anos no La Trattoria e aí se dedicou à cozinha italiana. O buffet muda todos os dias, custa seis euros, tem várias entradas e pelo menos cinco pratos principais em opção, que vão variando ao longo dos dias da semana. Escolhi o menu filipino e depois de uns bons crepes de vegetais, bem  crocantes, acompanhados de chutney, veio um frango em molho de soja e tamarindo;a  terminar,  torta doce. Do outro lado da mesa a esolha foi italiana . um carpaccio, ligeiramente ácido em demasia, um risotto que estava honesto e um tiramisú. Mas é na cozinha filipina que este restaurante brilha - exemplos são o kare-kare, um osso buco com estufado de couves, com molho de amendoim e farinha de arroz torrada. Na mesa ao lado olhei com inveja para uns camarões na chapa com alho, pimentos e cebola e noutra mesa estava uma salsicha filipina, de carne de porco com especiarias e cana de açucar, acompanhada de um ovo estrelado. O tradicional bife tem um toque filipibo - o adobong baka  é um bife de vaca à portuguesa temperado com a acidez do tamarindo. Dois menus e vinho, ficou tudo por 35 euros. O restaurante encerra á segunda-feira e senta 40 pessoas numa sala confortável com um tranquilo tom de azul. Normalmente tem mais gente ao almoço que ao jantar, a escolha de vinhos é curta mas os preços são razoáveis, a cerveja é bem tirada, e é evidente que acolhe muita clientela de bairro. O Kababayan fica na Rua Marquês da Fronteira 173 A, telefone 218 220 209.


 


DIXIT - Comentando a decisão do Tribunal Constitucional, o constitucionalista Vital Moreira, declarou-se preocupado com “o facto de as regalias da função pública terem de ser pagas pelos contribuintes, incluindo os que, no setor privado, não gozam da mesma proteção no emprego nem das mesmas remunerações do setor público”.


 


GOSTO - Da declaração de voto de Maria Lúcia Amaral no Tribunal Constitucional.


 


NÃO GOSTO - Da apetência de Joaquim Sousa Ribeiro, presidente do Tribunal Constitucional, pelo confronto político.



BACK TO BASICS - Nunca devemos pedir aquilo que temos poder e capacidade de obter sem ajuda - Miguel de Cervantes

maio 30, 2014

ESTE VAI SER UM ANO DE GUERRILHA

GUERRILHA _ Vamos ter um ano bem agitado em matéria de política até às próximas legislativas, em 2015 - guerrilhas internas nos partidos, mudanças nas suas direcções, a começar pelo que já está à vista no PS, e alguma conversa de ocasião sobre a necessidade de mudanças no sistema político, provavelmente uma remodelação estival do Governo. O movimento vai ser contagiante a todo o espectro e a reunião do Conselho Nacional do PSD mostrou que Passos Coelho preferiu ser o primeiro a falar de necessidade de proceder a alterações, pelo menos na forma de agir.  Desta vez os partidos do chamado arco da governação, ou o Bloco Central se preferirem, apanharam um susto: a abstenção foi maior do que temiam e aqui, como noutros países, movimentos à margem dos sistema foram os únicos a poder verdadeiramente reclamar vitória - é o caso de Marinho Pinto. Se juntarmos a abstenção, os votos brancos e os nulos chegamos à conclusão que só 26,5% dos eleitores votaram num dos concorrentes. O que se passa no fundo é simples: muitos eleitores preferiram não votar a votarem contrariados e isso atingiu de forma dura o PS, a coligação e o Bloco de Esquerda que, cada um à sua maneira, se tornaram incómodos para a sua própria base eleitoral. O que se passa é que com o andar dos anos os partidos viraram-se para dentro e vivem centrados nos seus umbigos - preocupam-se mais com as eleições internas, com o apoio das distritais e do aparelho, do que com a relação com os eleitores, com os seus simpatizantes e votantes. No fundo os partidos desprezam o regime e só se lembram dele quando os votos se tornam num bem escasso. Nas legislativas, ao contrário do que se podia pensar há uns meses, está tudo em aberto e a única certeza que pode agora existir é que vão ser renhidas e a campanha vai ser longa - começa já agora.


 


SEMANADA - A transmissão da final da Champions League na TVI teve mais espectadores que a noite eleitoral nos três canais (RTP, SIC e TVI) em conjunto; a análise de algumas sondagens indicia que a entrada de Sócrates na campanha do PS teve por efeito uma queda nas intenções de voto nos socialistas; Marinho Pinto admite ser candidato presidencial; Miguel Relvas voltou a intervir no Conselho Nacional do PSD, disse que nas eleições de domingo “perderam todos” e defendeu a reforma do sistema político; no domingo o PS falava em vitória, e segunda já tinha começado a discutir a convocação de um congresso extraordinário;  Manuel Alegre diz que Seguro “não tem que ter medo do congresso”; Edite Estrela diz que “é necessário que haja um congresso”; Francisco Assis diz que “não se deve colocar a questão da liderança”; Carlos Zorrinho diz que se revê no que disse Francisco Assis; Ana Gomes diz ser “inoportuna e desajustada” a disputa pela liderança do PS; António Galamba diz que não há condições “para andar todos os dias a brincar aos congressos”; Vieira da Silva diz desejar que se clarifiquem as posições; João Galamba sublinhou que nas eleições “o povo disse que este PS não chega, é preciso mais”; Mário Soares considerou o resultado do PS nas europeias uma “vitória de Pirro”; João Soares disse no Facebook que “o PS português teve uma clara e boa vitoria nas eleições europeias de domingo” e considerou a possibilidade de um congresso extraordinário “um disparate total”; Jorge Lacão demitiu-se da direcção do PS, defendendo a realização de um Congresso extraordinário; No Rato António José recebeu António Luís, que llhe solicitou a convocação de um Congresso e, em resposta, Seguro emitiu um comunicado onde diz que “o Secretário Geral do PS registou a posição do Dr. António Costa”.


 


ARCO DA VELHA - Em Lisboa um carro da PJ, identificado e em serviço, cujos agentes iam fazer uma detenção, foi considerado mal estacionado e rebocado pela PSP; uma casa de alterne, na região de Felgueiras, que esta semana foi alvo de uma acção policial, era o patrocinador oficial das camadas jovens de futebol da Lixa, localidade onde estava instalado o Impetus Bar.


 


FOLHEAR - Editado originalmente em 1918, e agora reeditado, o livro  “A Malta das Trincheiras” é um espantoso documento sobre a  I Grande Guerra, escrito por André Brun, um português de origem francesa que foi levado a combater em França. André Brun foi um cronista da sua época, assinou como dramaturgo obras como ”A Maluquinha de Arroios”, foi argumentista de filmes como “A Vizinha do Lado” e foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores. André Brun foi ainda um dos combatentes do corpo expedicionário português, onde ganhou a medalha da Cruz de Guerra. O título original do livro é “A Malta das Trincheiras - Migalhas da Grande Guerra: 1917-1918”. É  um livro de relatos de guerra, que vive de um grande poder de observação, feito em pequenos capítulos, cada um deles uma história,  reconstituindo o ambiente das trincheiras. Mais que uma reportagem, relata numa prosa elegante episódios do quotidiano, a convivência com soldados de outras nacionalidades, mas também a vida nas pequenas quintas que serviam de abrigoa, ou as dificuldades do diálogo em línguas diferentes. Não são escondidos os mortos nem os feridos, são relatados os problemas e os casos, é contado o medo e o humor em tempo de guerra, a aventura de manter a vida em cidades e terras transformadas em lugares mortos por onde se sobrevive. Uma edição Guerra & Paz.


 


OUVIR - Depois de três álbuns de inspiração clássica, o 14º registo de estúdio de Tori Amos volta ao formato que lhe deu notoriedade, baseado na sua voz e no piano, que alterna entre momentos de uma grande intensidade, outros de uma enorme melancolia e outros de uma desarmante intimidade. “Unrepentant Geraldines”, agora editado, parte de ambientes inspirados pelas artes visuais, para abordar temas como a religião, ou o envelhecimento e o sexo, com a elegância da fantasia. A canção título, “Unrepentant Geraldines” é uma viagem ao passado musical de Tori Amos e as canções mais simples, baseadas na voz e piano, como “Oysters”, “Invisible Boy” e “Selkie” são bem conseguidas, e “Wild Way” ou “Wedding Day” são marcantes, confessionais quase, enquanto “16 Shades of Blue” ou “Giant’s Rollin Pin” são de um experimentalismo inesperado. Em qualquer dos casos há um ponto comum - a qualidade das interpretações vocais mostra que Tori Amos, a cantora, está em grande forma.


 


VER - De entre os trabalhos de Délio Jasse, José Pedro Cortes e de Letícia Ramos sairá o vencedor deste ano do BES PHOTO, que vai na sua décima edição -  e a respectiva exposição inaugurou esta semana no Museu Berardo. No MUDE, Rua Augusta 24, apresenta-se a moda dos anos 80  Estão representadas criações de  Vivienne Westwood e Malcom McLaren, empresário dos Sex Pistols, mas também de John Galliano, Claude Montana. Thierry Mugler, Alain Mikli, Azedine Alaïa, Romeo Gigli, Sonia Rykiel, Comme des Garçons, Issey Miyake e Jean-Charles de Castelbajac. “Os Iconoclastas dos Anos 80", a exposição que reúne estas peças exibidas em conjunto pela primeira vez em Lisboa, pode ser vista no piso 1 do Museu do Design e da Moda, até ao dia 31 de agosto. Finalmente neste fim de semana inaugura na Galeria das Salgadeiras (Bairro Alto, Rua das Salgadeiras 24, até 31 de Julho) a exposição “Leve Linha” de Teresa Gonçalves Lobo, composta por desenhos a tinta da china (aqui mostrado na imagem) , que são uma imagem de marca da artista.


 


PROVAR - Eu gosto de iscas, de iscas bem temperadas, cortadas finas, às vezes com elas tradicionais, às vezes com elas fritas. Elas, claro, são as batatas - cozidas aos quartos ou fritas aos palitos. As iscas são um prato oriundo das velhas casas de pasto, finas fatias de fígado, inicialmente de bovinos e , depois das vacas loucas, apenas de fígado de porco. Têm que ser finas em toda a extensão , não se aceitam iscas aos zigue-zagues com pedaços mais grossos. O molho há-de levar o toque certo de vinagre, que realça o paladar e terá que ser espesso. As iscas, bem temperadas, são um coisa única, um petisco. Os restaurantes populares com boa cozinha são os que melhor as confeccionam. Vou dar dois exemplos diferentes, mas afamados. Um fica nas Avenidas Novas e outro em Campo de Ourique. Na Avenida Conde de Valbom 87, em boa hora fechada ao trânsito no tempo em que João Soares era Presidente da Câmara, fica o Jaguar, casa afamada, sala estreita de entrada, ampla no final, agora também com esplanada convidativa. O Jaguar é uma referência das avenidas novas, local manda a tradição culinária e onde as iscas existem sempre e são dos pratos mais procurados. O outro, na Rua Coelho da Rocha 91, é o Bar Venezuela, casa mais pequena, interclassista assumida, com cozinha bem portuguesa e familiar, com um inesperado mas interessante toque de piri-piri no tempero das iscas, servidas como prato do dia às segundas-feiras. Os dois restaurantes vivem de receitas populares e tradicionais e primam pela boa confecção. E são módicos no preço e abastados na simpatia.


 


DIXIT - “Lá vamos ter novamente António José Seguro a ficar António José Inseguro” - Morais Sarmento nos comentários da noite eleitoral.


 


GOSTO - Da abstenção tomada como um aviso


 


NÃO GOSTO - Da indiferença dos partidos face aos resultados eleitorais, como se a culpa fosse dos eleitores



BACK TO BASICS - “O linguajar dos políticos é feito de forma a fazer parecer que as mentiras são verdades e o assassínio algo de respeitável, e também para dar um ar de solidez a coisas que mais não são que vento” - George Orwell

maio 23, 2014

SOBRE A AGITAÇÃO DO FIM DE SEMANA

ABSTENÇÕES - Neste fim de semana os portugueses vão dividir-se entre os que seguirão a final da Champions League nas suas várias vertentes, no sábado,  e os que seguirão o acto eleitoral de domingo. Aposto que o futebol vai ganhar às eleições. Não me surpreendo graças a uma campanha sem ideias, feita de chavões e lugares comuns. Se fizermos bem as contas, apenas nove dos 18 partidos que se apresentam nas eleições têm alguma espécie de existência e, destes, pouco mais de metade tem alguma actividade política e cívica regular - nos outros há de tudo, até barrigas de aluguer que é aquilo em que o MPT se transformou. As campanhas eleitorais foram miseráveis - a propaganda política desceu a níveis ainda mais baixos que aquilo que se podia imaginar. A Comissão Nacional de Eleições continuou a cumprir o seu papel de guardiã do absurdo: num cenário em que apenas meia dúzia de concorrentes têm alguma existência palpável, como é que se pode defender debates entre todos os participantes? Como se pode defender a igualdade de tratamento a quem não tem igualdade de presença na sociedade nem igualdade de comportamento? Tudo isto é criminosamente ridículo - ainda para mais com o completo desfasamento entre a realidade dos media actuais e a lei existente. Prova disso é que houve mais debate em meios exclusivamente digitais do que nos media tradicionais.  Quando se fizer a contabilidade das abstenções no próximo Domingo os políticos e os partidos escusam de se lamentar - a culpa do desinteresse das pessoas é deles, é estimulada por eles e dá-lhes jeito para que o círculo fique cada vez mais estreito. Como dizia Vasco Pulido Valente, “para a generalidade dos portugueses uma cara é uma cara e um político é um intruso que nos fala sem razão ou autorização”.


 


SEMANADA - António Capucho apoia o PS; Joana Amaral Dias saíu do Bloco de Esquerda para apoiar o PS; O tal Zé que fazia falta ao Bloco de Esquerda, foi agora plantar papoilas, que é como quem diz, apoia o Livre de Rui Tavares; a candidata do Bloco de Esquerda às eleições europeias defendeu que o surf devia ser incluído nos currículos escolares; um partido anti União Europeia aparece à frente nas sondagens da Grã Bretanha, onde se prevê que a abstenção possa chegar aos 75%; em 2013 a carga fiscal chegou aos 34,9% do PIB, contra 32,4 em 2012; a carga fiscal sobre as famílias aumentou 35% desde 2010; António José Seguro divulgou 80 promessas para o caso de vir a ser Governo que significam um aumento de despesa de 830 milhões de euros por ano; o ajustamento da troika estava previsto vir dois terços do lado da despesa e um terço da receita mas acabou com quatro quintos do lado da receita e um quinto do lado da despesa; em cinco anos fecharam nove mil reatuarantes; 300 mil portugueses emigraram: a taxa de desemprego subiu para 16,3%; o Conselho de Estado não reúne há um ano; metade das famílias ganha menos de 835 euros por mês; em Portugal, 41% do IRS é pago por 13% das famílias; metade do IRS foi pago por quem tem salário até 1500 euros; só uma em cada quatro famílias ganha mais de 19.000 euros por ano; 44% das receitas de cinema são feitas na zona da Grande Lisboa, segundo a Marktest; Mick Jagger tornou-se bisavô a poucos dias de actuar de novo em Lisboa.


 


ARCO DA VELHA - Em nove meses, entre Julho de 2013 e Março deste ano o comboio Celta, que assegura a ligação directa entre Porto e Vigo duas vezes por dia transportou uma média de 26 passageiros em  cada viagem, o que significa uma taxa de ocupação de 12% em relação aos 228 lugares disponíveis. O prejuízo registado nestes nove meses foi de 1,2 milhões de euros.


 


FOLHEAR - Tenho um palpite que os responsáveis da TAP devem andar todos contentes a comprar exemplares da edição de Junho da “Monocle”, tal é o elogio que lá é feito à companhia aérea portuguesa. Na razão do elogio está o número de ligações para o Brasil, que cresceu para 12 rotas com 82 vôos semanais incluindo, sublinha a revista,  destinos pouco usuais noutras linhas aéreas como Manaus e Belém. A TAP é caracterizada pela “Monocle” como a companhia que liga um continente do norte, a Europa, a dois continentes a sul, África e América do Sul. Para além da TAP, Portugal aparece referido mais duas vezes: no bem concebido especial de 12 páginas sobre a Taça do Mundo no Brasil há um destaque sobre a cobertura de TV e Rui Tovar aparece bem apresentado como uns decanos do jornalismo desportivo. Finalmente uma oficina de marcenaria artesanal no Porto, dedicada à produção de exemplares únicos de cadeiras pela mão de Alípio de Sousa, completa o leque de referências lusitanas. Outros pontos de interesse são a Feira de Arte Contemporânea de Silicon Valley, o novo conceito de centro comercial surgido no remodelado Bikini Berlim e, para rematar, uma bela conversa entre o produtor Jeremy Thomas e o realizador Ben Wheatley sobre o estado do Cinema.


 


VER - Até 28 de Setembro pode descobrir os “Olhares Contemporâneos” que o colectivo de fotografia kameraphoto fez sobre o acervo do Museu Nacional de Arte Antiga. O projecto insere-se numa residência feita sob a égide da Fundação EDP. Os elementos da Kameraphoto tiveram oportunidade de contactar com os conservadores e técnicos do Museu, de descobrir o acervo e as diversas colecções, percorrendo o dia a dia dos bastidores do Museu Nacional de Arte Antiga, fazendo o papel de visitantes. Nelson D’Aires, Augusto Brázio, Valter Vinagre, Pauliana Valente Pimentel, Céu Guarda, Alexandre Almeida, Guillaume Pazat e Jordi Burch.


 


OUVIR - Na criação artística existe um talento inato e existe o talento adquirido. Os melhores artistas são os que surpreendem no princípio da carreira e depois continuam a procurar formas de exprimir a sua criatividade, procurando sempre surpreender. São os que se preocupam com a evolução da sua obra, que amadurecem ideias e continuam inconformistas, evitando acomodarem-se. Isto acontece com escritores, actores, realizadores, pintores… e músicos. Rita Red Shoes mostra os seus progressos neste seu terceiro disco, “Life Is A Second Love”, uma prova da sua evolução que também se evidencia na escolha do produtor, o brasileiro Gui Amabis que assina a única canção que não é da própria Rita Red Shoes, “Curve Dance Dreams”. É certo que eu pessoalmente desejaria que o amadurecer de Rita a levasse a cantar em português para que todos percebam como ela não gosta de ficar sentada à espera que as coisas sucedam. Enquanto issso não acontece vale a pena ouvir este disco musicalmente tão interessante e parar um pouco em torno de canções como “No Matter What”,  “Words Words”, “Floret” ou “In This White Room”.


 


PROVAR - Restaurantes com boa vista são já de si raros; com boa vista e boa comida ainda mais; com boa vista, boa comida e boa garrafeira a coisa torna-se inusitada; se juntarmos a isto uma cozinha capaz de preparar uma refeição em condições para duas dezenas de pessoas em simultâneo tudo fica mais invulgar. Esta semana regressei ao Claro, no Hotel das Palmeiras, em Paço de Arcos, onde há pouco mais de dois anos o chefe Vitor Claro vem ganhando cada vez melhor reputação. Tratava-se de um aniversário e a celebração gastronómica correu bem - desde os aperitivos iniciais (pequenas sanduíches de pataniscas e pimentos que alternavam com outras, de salmão fumado) até ao pudim de água, simples e perfeito, passando por uns ovos mexidos com cogumelos que estavam superiores. Mas confesso que o que mais me espantou foi a forma perfeita como o robalo do mar, cozinhado ao vapor, apareceu no ponto perfeito, fresquíssimo e saborossíssimo, em simultâneo para 20 pessoas. Já em anteriores ocasiões tinha gostado do local, onde na varanda o sol se põe sobre o mar, na marginal, com uma luminosidade única. Mas a verdade é que a cozinha supera a vista e acreditem que neste caso o desafio não é fácil. Restaurante Claro, Avenida Marginal, Curva dos Pinheiros, telefone 214 414 231. Já agora fiquem a saber que o afamado pão do chef Claro, assim como alguns dos vinhos que o excanção Ricardo Morais recomenda, e petiscos diversos, de queijos a compotas, podem ser encontrados na loja Momentos do Paço, no centro histórico de Paço de Arcos, na Rua Costa Pinto 27.


 


DIXIT - “Só para dizer que, se me obrigarem a escolher, prefiro o Jorge Jesus a falar da Paula Rego do que o Sócrates a falar de Rimbaud” - Ana Cristina Leonardo, no Facebook.


 


GOSTO - De recordar que a liberdade de voto inclui a liberdade de abstenção


 


NÃO GOSTO - Da existência de eleições europeias para eleger um largamente inútil parlamento europeu.



BACK TO BASICS - “Aparentemente a democracia é uma situação em que são realizadas numerosas eleições, com custos elevados, sem temas evidentes e com candidatos que passam a vida a saltar de um lugar para outro”  Gore Vidal

maio 16, 2014

A tentação totalitária do futebol: quanto mais conversa, menos informação - ou como a bola rolando sobre o relvado se torna monopolista da informação

DIÁRIO - Estamos em plena campanha eleitoral e quando chego ao fim do dia gostava de saber o que se passa por aí - o que os governantes disseram em campanha, o que o Presidente disse na China (no Facebook é mais fácil segui-lo), o que alguns Ministros fizeram - se governaram ou se campanharam. Vamos imaginar que uma pessoa acaba de trabalhar por volta das sete e meia. Dá uma volta antes de ir para casa, fica a apreciar o pôr do sol e não segue a missa dos noticiários das oito.  Quando chega a casa faz um jantar simples, come devagar a ouvir uma música, conversa, conta o seu dia e ouve como foi o outro dia; um pouco antes das dez, acende a televisão para ver se há notícias nalgum dos vários canais informativos -  Portugal, por acaso, é o país europeu que tem mais canais informativos para o número de espectadores que possui. Percorre um canal após outro e constata que pelas dez da noite não há notícias - a RTP2 deu-as às nove, por cima do final dos outros noticiários, e SIC Notícias, TVI 24 e até RTP Informação estão todas elas empolgadas a falar sobre o jogo do Benfica com o Sevilha que vai acontecer. No dia a seguir estarão a falar do jogo que aconteceu, e por aí fora. É certo que posso ir à internet espreitar os sites - mas é por isso que os meios tradicionais perdem destaque noticioso e o entregam de bandeja a outros ecrãs. Espartilhados entre uma legislação absurda que regulamenta da pior forma a cobertura eleitoral e canais que se copiam uns aos outros, resta pouco de informação. Depois admiram-se da abstenção e de os candidatos enfrentarem ruas e salas vazias. As maiores manifestações deste ano celebraram vitórias desportivas e qualquer clube não precisa de oferecer jantares para ter gente a assistir mesmo aos treinos. Quando perceberem o tamanho da abstenção escusam de pensar muito nas causas. Elas estão à vista. A participação cívica na efeméride das célebres quatro décadas resume-se a ouvir os intelectuais da bola e pouco mais.


 


SEMANADA - 16 listas candidatas às eleições para o Parlamento Europeu disputam 21 lugares, menos um que nas anteriores; desde 1994 que a abstenção nas eleições europeias não baixa de 60% e há indicadores que apontam para que este ano posa aumentar bem além dos 65%; mais de um terço dos eleitores portugueses têm uma conta activa no Facebook; 53% dos italianos dizem não se sentir cidadãos da União Europeia; 47% dos cidadãos da União Europeia consideram que em matéria de dificuldades o pior ainda está para vir; o consumo anual per capita de bebidas alcoólicas em Portugal é de 12,9 litros, acima da média europeia de 10,9 litros; na administração central, regional e local há 563 595 funcionários, o que quer dizer que uma em cada dez pessoas que constituerm a população activa portuguesa tem empregio no Estado; António Guterres admitiu poder vir a concorrer à Presidência da República; Armando Vara, ex-governante no tempo de Guterres, foi condenado a pagar multa por causa de créditos a clientes para investimentos bolsistas que aprovou quando, anos mais tarde, foi graduado a vice-presidente da CGD; um assessor do Primeiro Ministro, num post escrito no Facebook, aconselhou “juízo e recato” a Mira Amaral e a Bagão Felix; o Estado está com dificuldades em encontrar quem o represente no duelo jurídico com a GALP porque a empresa contratou alguns dos maiores escritórios de advogados; soube-se que agora são as próprias Finanças a travarem a classificação de imóveis do Estado como monumentos nacionais para os poderem vender sem problemas.


ARCO DA VELHA - A revista “Risk”, especializada em mercados financeiros, considerou o swap vendido pelo Santander ao Metro do Porto como um exemplo de venda enganosa e candidato a pior contrato swap de todos os tempos.


 


FOLHEAR - Hoje recomendo um livro particularmente adequado aos tempos que correm e que tem passado despercebido, de incómodo que pode ser para quem gosta de ideias feitas. É, na conjuntura nacional, uma lufada de ar fresco - trata-se de um ensaio político, género raro nesta terra onde o pensamento é destratado. Ainda por cima este livro é muito bem escrito, porque o seu autor escreve muito bem, sem muletas nem complicações desnecessárias. Lê-se como se lê um bom livro de História - e na verdade é em parte disso que se trata. Falo de “Conservadorismo”, de João Pereira Coutinho, editado primeiro no Brasil e,  agora a seguir, em Portugal. No Brasil, onde escreve para a Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho é talvez mais conhecido e estimado que em Portugal. É pena, e tenho a secreta esperança que esta História de ideias conservadoras que agora publicou ajude a rectificar essa injustiça. Existe infelizmente a absurda ideia de que o conservadorismo é uma coisa antiga e fora destes tempos - e um dos grandes méritos deste livro é precisamente o de nos levar a visitar o pensamento conservador contemporâneo. João Pereira Coutinho mostra como é possível “ser um conservador em política e um radical em tudo o resto” e sublinha que “ a actividade política não pode ser o pretexto ideal para cumprir um projecto particular, qualquer que ele seja e por mais nobre- em teoria - que ele seja” (edição Dom Quixote, Leya).


 


VER - É muito engraçado como uma ideia fora do que é rotina pode criar milagres de afluência de público que raramente visita galerias de arte contemporânea - foi o que aconteceu na inauguração de “Alice do Outro Lado da Passerelle” na  Galeria Luis Serpa Projectos, que apresenta até 19 de Junho uma exposição de uma centena de fotografias de João Bacelar, realizadas nos bastidores da Moda Lisboa. Esta é a terceira exposição do ciclo “Olho por olho, mente por mente”, comissariado por António Cerveira Pinto para os 30 anos da Galeria Luís Serpa (Rua Tenente Raul Cascais nº1, ao lado do Teatro da Cornucópia). Mais para cima, no Chiado, a Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, frente ao Grémio Literário), apresenta até 27 de Junho uma exposição de desenhos de João Jacinto, “S&M e Outras Histórias”, à qual pertence a imagem aqui mostrada, e que promete também agitar as águas com as suas referências ao universo sado-masoquista.


 


OUVIR - O compositor Max Richter tornou-se conhecido com as suas obras para cinema, sobretudo com o trabalho para “Prometheus”, de Ridley Scott. Nascido na Alemanha, estudou composição no Reino Unido e em Itália. Recentemente a Deutsche Grammophon reeditou as suas primeiras obras a solo - “Infra”, “24 Postcards in Full Colour”, “Songs from Before and The Blue Notebooks”, inicialmente lançadas numa editora independente. Em simultâneo a Deutsche Grammophon editou a recomposição efectuada por Max Richetr sobre as “Quatro Estações”, de Vivaldi, aqui executadas com violino, orquestra de câmara e um sintetizador moog, tocado pelo próprio Richter. A coisa, em palavras, pode parecer estranha, mas o resultado final é surpreendente e mostra a capacidade criativa de Richter que aplica o seu talento encarando as composições clássicas como base de trabalho e território de misturas. Além do CD, esta edição de “Vivaldi Recomposed” inclui um DVD com uma performance de Max Richter e do violinista Daniel Hope, filmada em Berlim. Está ainda disponível uma app para iPhone que permite comprara o original de Vivaldi com a recomposição de Richter e seguir comentários, assim como ter acesso aos ensaios que levaram a esta obra. (Edição de CD e DVD disponível na FNAC e El Corte Ingles).





PROVAR - Nestes dias de primavera, quando o sol começa a aquecer, é bom encontrar uma esplanada no centro de Lisboa onde a sombra é dada por árvores e ramadas de arbustos que se envolvem entre si. Existe um lugar assim na Praça de Espanha, no restaurante Gondola.  Nos últimos tempos a casa evoluiu da quase decandência em que esteve há uns anos, modernizou-se sem perder a tradição e melhorou substancialmente. A lista continua a ser um reflexo das influências italianas que sempre teve, com algumas incursões à tradição gastronómica portuguesa. Na mesa, no couvert, além das boas azeitonas, o tomate seco mergulhado em bom azeite a acompanhar o queijo fresco é uma excelente ideia. Vale sempre a pena perguntar o prato do dia - coube-me  raviolaci frescos de robalo com um molho de tomate leve. Estava perfeito e funcionou muito bem com um branco seco. O serviço é atento, o ambiente é tranquilo e fica a apetecer ficar por ali mais um bocado da tarde. O estacionamento é fácil.


 


DIXIT - Reformar é ter melhores serviços públicos com menos impostos, e não cortá-los enquanto se aumenta impostos - Fernando Sobral


 


GOSTO -  A Católica Lisbon School of Business & Economics volta a integrar a lista das 50 melhores business schools do mundo na formação de executivos no ranking do "Financial Times" .


 


NÃO GOSTO - A grande maioria dos organismos da administração pública, mais de 80%, continua a não prestar contas sobre a sua actividade, violando a legislação.


 


BACK TO BASICS - Fazer política é como ser treinador de futebol: tem que se compreender o jogo e tem que se ser suficientemente idiota para se achar que é importante - Eugene McCarthy.


 


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maio 09, 2014

A NAU CATRINETA E AS SOLUÇÕES DO COSTUME PARA OS PROBLEMAS DO COSTUME

SINAIS - Uma síntese séria dos últimos dias resume-se a isto: os problemas do costume (excesso de despesa) foram resolvidos pelo método do costume (aumento de impostos). O resto, é folclore. À falta de ideias políticas, os protagonistas da vida nacional, num amplo espectro, aproveitaram também estes dias para provar que o ridículo não tem fronteiras ideológicas. Começo pelas “selfies” ao pé da estátua de Pessoa no Chiado tiradas por essa conjugação de interesses que incluíu Francisco Assis, António José Seguro, António Costa e Martin Schulz, um grupo que há-de ter feito o poeta dar saltos na tumba. E, claro, não posso deixar de referir a nau catrineta, essa extraordinária imagem da epopeia das descobertas recriada pelo poder contemporâneo. Eu, ao princípio, achei que aquilo devia ser um trabalho de photoshop. Depois garantiram que não. Eu não queria acreditar que os 40 anos do PSD fossem marcados por uma imagem destas - mas foi isso que aconteceu. Não encontro melhores palavras que as de Ferreira Fernandes, no “Diário de Notícias”, para descrever o momento: “Seis homens e outras tantas gravatas, entre empresário, primeiro-ministro, secretário de Estado da Cultura. guarda-costas e desconhecidos, encafuados numa caravela do tamanho de um táxi não dão boa imagem” . Sinceramente não consigo entender esta vontade e esta persistência de todos estes políticos em criarem caricaturas de si próprios. Termino com outra citação, que resume o que é, provavelmente o sentimento de muitos: “Francamente, não faz sentido condenar o programa de ajustamento com o argumento de que "Portugal está pior do que antes", pois isso era inevitável, em consequência do aperto de cinto orçamental e da recessão económica. Nenhum Governo poderia ter evitado isso. O que se pode questionar, sim, é, por um lado, saber se a gestão do programa de ajustamento não poderia ter sido melhor, menos penosa e mais equitativa”. As palavras são de Vital Moreira, que sobre esta matéria tem sido lúcido e partidariamente desapaixonado.


 


SEMANADA - Mais de 400 farmácias estão alvo de penhoras ou insolventes; mais de 1500 farmácias estão com o fornecimento de medicamentos suspensos por pagamentos em atraso; a mortalidade materna em Portugal caíu 44% desde 1990; há 58 agressores de mulheres internados por ordem judicial; em Estremoz um homem matou à pancada a advogada que estava a tratar do divórcio da sua ex mulher; em Lisboa alugam-se quartos a 2200 euros por uma noite na final da Liga dos Campeões; o fisco vai disfarçar inspectores na caça aos arrendamentos ilegais no turismo; o concurso para director-geral do fisco vai ser repetido por falta de “candidatos com mérito” para a função entre as 11 pessoas que concorreram; em Portugal as remunerações recebidas por cada cidadão até 6 de Junho destinam-se integralmente ao fisco, mais oito dias que em 2011 e mais 3 que no ano passado; o Ministro da Defesa classificiou de “maligno” o aumento de impostos; o Presidente da República utilizou o Facebook do cidadão Cavaco Silva para comentar, em tom satisfeito com a solução obtida, o anúncio de saída limpa de Portugal do programa de ajustamento; Pacheco Pereira perguntou, na “Sábado”, “porque razão toda a gente, inclusive vários membros do Governo, o Presidente, os principais responsáveis económicos nacionais e europeus e as agências de rating, defendia a existência de um plano cautelar, mesmo quando os juros já estavam baixo, e tal acabou por não acontecer?”; segundo a Marktest, no mês de Março 3 milhões e 683 mil portugueses acederam a sites de jornais e revistas, com um tempo médio diário de navegação nesses sites, por utilizador, de uma hora e sete minutos; a transmissão do Juventus-Benfica pela SIC foi vista por quase três milhões de pessoas.


 


ARCO DA VELHA - A junta de freguesia de Arruda dos Vinhos deve 114 mil euros à Caixa Geral de Aposentações, por descontos efectuados a funcionários entre 2000 e 2013 que não foram entregues à CGA,  e arrisca-se a ver o seu edifício sede penhorado e vendido em hasta pública.


 


FOLHEAR - A edição de Maio da revista “Wallpaper” é dedicada ao salão do móvel e do design de Milão mas verdadeiramente a parte mais interessante é uma reportagem sobre o que está a acontecer numa zona de Paris, em torno de uma rua, que está a ser inteiramente recuperada e a atrair uma nova geração de lojiistas. A iniciativa chama-se La Jeune Rue e desde restaurantes, pastelarias, cafés, um cinema, lojas de roupa, uma loja de vinhos e outra de queijos, livrarias, papelarias a geladarias, há de tudo um pouco. A ideia partiu de Cédric Naudon, um financeiro francês que depois de trabalhar nos Estados Unidos decidiu voltar a Paria e abrir um restaurante, “Le Sergent Recruteur”, que rapidamente ganhou uma estrela Michelin. A seguir abriu uma trattoria e depois começou a comprar lojas que estavam livres na rue de Vertbois - chegou às três dezenas. Naudon  decidiu apostar que as remodelações urbanas que deixam marcas partem da junção de pequenos projectos, uma ideia defendida pelo arquitecto italiano Andrea Brazi. Antes desta intervenção, o local onde tudo se vai passar era uma zona de comércio de roupa barata. La Jeune Rue vai bucar o seu nome a um poema de Guillaume Apollinaire e até a Wallpaper vai ter ali a sua primera loja. A reconversão  foi sempre feita por arquitectos escolhidos a dedo e em muitos casos este novo comércio vai vender produtos naturais, a partir de uma rede de 450 fornecedores escolhidos pela equipa de Naudon. La Jeune Rue está a estabelecer um novo conceito de comércio, animando toda uma zona e proporcionando aos seus habitantes uma oferta qualificada que antes não tinham. Aqui está um bom exemplo e uma boa razão para ler esta “Wallpaper” com atenção.


 


VER -  Semana preenchida com novas exposições para ver. Começo por “Passagem Para Um Outro Lado”, inesperadas marionetas construídas pela designer de jóias Teresa Milheiro e que vão estar no Sala do Claustro do Museu da Marioneta (Convento das Bernardas, Rua da Esperança 146) até 31 de Agosto. Inserida nas actividades do 30º aniversário da Galeria Luis Serpa Projectos (Rua Tenente Cascais 1B), João Bacelar apresenta “Alice do outro lado da passerelle” até 19 de Junho. Em “A Pequena Galeria” (Av 24 de Julho 4C), José M. Rodrigues apresenta, sob a forma de uma instalação pensada para o local, uma série de imagens fotográficas. Ainda na 24 de Julho, mas no 54 1º esq, a Vera Cortês Art Agency inaugura este sábado  a exposição “Shadow Piece” de Sophie Whettnall, que fica até 27 de Junho. Finalmente a partir da quinta-feira da próxima semana, nova série de exposições na Transboavista, Rua da Boavista 84, com exposições de João Fonte Santa, João Pina e Ana Rosa Hopkins, além de duas colectivas. Depois disto quem pode dizer que nada se passa nesta terra?


 


OUVIR - Vale a pena ouvir o inesperado “Taming The Dragon”, dos Mehliana. E o que é isso? Pois é a junção do pianista de jazz  Brad Mehldau com o baterista de jazz mas também percussionista de hip-hop e drum’n’bass Mark Guiliana. Com Mehldau a trocar o piano acústico pela electrónica dos teclados e Guiliana a trocar a bateria por máquinas de ritmo, em certos momentos, quando o ambiente do Fender Rhodes é dominante, como em “Luxe”, é impossível não pensar nas sonoridades de fusão dos Weather Report: Este disco mistura evocações de melodias pop com improvisações arrebatadoras e com temas densos como “Hungry Ghost” ou “Just Call Me Nige”. Os dois músicos entendem-se bem nesta inesperada reunião que já leva um ano de concertos ao vivo. Há uma década atrás Mehldau tinha-se aventurado pela electrónica com “Largo”, mas aqui o exercício não é uma aventura, é um manifesto de diferença.


 


PROVAR - Com o verão nasce a vontade de um vinho que possa acompanhar bem peixe e carne, que seja leve e fresco, de graduação moderada. Um vinho assim é o Quinta do Monte d’Oiro Lybra Rosé, saboroso, com leves aromas de frutos e com uma cuidada acidez,  feito a partir de uvas da casta Syrah, bonito de cor e com 11,5%. Não o encontrarão em supermercados, mas em garrafeiras escolhidas, a um preço que rondará os 8 euros. É extraordinário para acompanhar petiscos, saladas e até, já agora, algumas das novas conservas da marca José Gourmet e que incluem moelas de pato, caril de lulas, ventresca de atum ou petingas fumadas em azeite, e que se podem encontrar nas lojas de A Vida Portuguesa (Chiado e Intendente), no Delicatu - Avenida de Berna 42 A ( frente à Fundação Gulbenkian) e no Gourmet do El Corte Ingles, por exemplo.


 


DIXIT - “A posição do Bloco (de Esquerda) é fácil de explicar mas não sei se é percebida” - Marisa Matias, candidata bloquista ao Parlamento Europeu


 


GOSTO - Na semana em que Lisboa foi invadida por grandes navios de cruzeiros realiza-se no Campo Pequeno, de 9 a 11 de Maio, a Feira das Viagens.


 


NÃO GOSTO - As previsões apontam para que em 2014 e 2015 o PIB português cresça menos 0,4% do que a média da zona Euro


 


BACK TO BASICS - “A melhor forma de conseguir prever o futuro é sermos nós próprios a criá-lo” - Peter Drucker


 


 


 

maio 02, 2014

Sobre a importância do equilíbrio na política

POLÉMICA - Uma estranha polémica consome desde há algumas semanas dois sectores do Governo : de um lado aqueles que querem aplicar taxas sobre alimentos considerados poucos saudáveis e, do outro, entre os quais os Ministros da Economia e da Agricultura, aqueles que consideram tais taxas um perfeito disparate. Se outra coisa não houvesse, esta polémica aparentemente esotérica, serviria para mostrar as clivagens que existem no executivo em torno de questões que têm a ver com a forma como o Estado se posiciona face às opções dos cidadãos. Não vou elaborar muito sobre esta questão, até porque acho mais interessante sublinhar que em grande parte das civilizações orientais o equilíbrio perfeito entre o sal e  o açucar é o segredo para explorar sabores e assegurar uma vida harmoniosa, Recordo apenas que para os chineses, numa refeição, um prato deve ser doce (yin) e o outro salgado (yang); um quente (yang) e o outro frio (yin); um macio (yin) e outro crocante (yang). Na realidade os chineses acreditam que o equilíbrio entre esses dois elementos garante não apenas uma boa refeição, mas uma boa saúde. Pode ser que com estas notas se consiga uma maior unidade na acção do Governo. Ou então estamos perante um caso de equilíbrio entre opostos no governo, com um lado a fazer de yang e outro de yin. Resta saber quem, a seguir, vai saborear o repasto.


SEMANADA - Os tribunais penhoraram 181 mil reformas no ano passado; as dividas por cobrar nos tribunais já atingem 7,2 mil milhoes de euros; três juízas foram acusadas de forçarem insolvências de famílias, sob suspeita de que essas decisões são tomadas em benefício dos administradores de insolvência; piratas informáticos entraram no sistema do Ministério Público e publicaram na net os contactos pessoais de todos os procuradores numa operação a que chamaram “Apagão Nacional”; a criação de novas empresas caíu 12% no primeiro trimestre deste ano; a factura da austeridade aplicada nos últimos três anos ascende a 30 mil milhões de euros e apesar disso o défice e a dívida pública estão longe das metas definidas no início do programa da troika; segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2012, cerca de 24% das crianças estavam em risco de pobreza; em Portugal há 4.522.552 empréstimos concedidos a famílias; António Nogueira Leite considerou que era muito importante que Portugal tivesse um programa cautelar, e defendeu que Portugal não deve ser considerado pelo FMI como uma espécie de Vietname da Europa; o Ministro da Economia disse no início da semana que a descida de impostos deve ser uma das metas do Governo para o próximo ano; a Ministra das Finanças anunciou quarta-feira um aumento de impostos para 2015; a Albania decidiu fazer um rebranding; a freguesia de Alvalade, em Lisboa, também.


 


ARCO DA VELHA - O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi o responsável directo pela ocultação, ao longo de dois anos e meio, de relatórios internos da autarquia que descreviam práticas irregulares de serviços da câmara no domínio da adjudicação de obras, e isto apesar da existência de várias decisões judiciais estabelecendo que os documentos deviam ser facultados ao jornalista do “Público” que os solicitou.


 


FOLHEAR - A Monocle de Maio é a edição anual da revista que é dedicada ao Design - quem se interessa pela área tem muito que ler, desde o design aplicado a casas ou lojas até àquele que é aplicado em objectos de utilização quotidiana. Mas os encantos desta edição não se esgotam aí - há uma curiosa reportagem sobre o reino do Butão, um bom artigo sobre o que agências de publicidade brasileiras estão a fazer à volta do Mundial de Futebol, uma auscultação das novas tendências gastronómicas dos bistrots parisienses e uma elucidatava visita a uma estação de televisão que molda a imagem actual da Rússia e dos políticos de  Moscovo, o canal noticioso RT (Russia Tday), que já alcança uma centena de países, explicando os porquês de qualque acto de Putin..Num outro campo há uma boa conversa entre os criadores de duas séries emblemáticas da ficação televisiva - “House Of Cards” e a dinamarquesa “Borgen”. Como curiosidade refira-se que a sempre interessante rubrica dedicada aos meios de deslocação de governantes de diversos países é nesta edição dedicada a Xanana Gusmão (que usa um Toyota Land Cruiser nas viagens oficiais em Timor). O portfolio fotográfico que encerra cada edição é dedicado aos clubes de correspondentes estrangeiros de Toquio e Banguecoque.


 


VER - José Manuel dos Santos, director cultural da Fundação EDP, apresentou a exposição da edição deste ano do World Press Photo como “uma espécie de retrato do mundo dos nossos tempos”. É uma boa descrição não só desta exposição, mas também do que é o fotojornalismo. A fotografia vencedora deste ano, e que correu mundo, é “Signal”, de John Stanmeyer e mostra migrantes africanos na costa do Djibouti a tentar apanhar a rede de telemóvel mais barata da vizinha Somália. A exposição tem perto de 130 fotografias de 51 fotógrafos e mostra deste a actualidade - da guerra, de desastres naturais ou do desporto - até ensaios fotográficos, passando por retratos e fotografia de viagem. Ano após ano conseguem detectar-se no World Press Photo as tendências dos editores fotográficos, a evolução dos diversos géneros da fotografia e, no fundo, aquilo que os jornais e revistas procuram e publicam. Este ano a exposição é paga, a dois euros o ingresso, e todas as receitas revertem para  as Unidades Móveis de Apoio ao Domícilio da Fundação do Gil, que apoia crianças vítimas de doença prolongada. A exposição fica no Museu da Electricidade até 25 de Maio e, se tem um iPad ou iPhone pode fazer download da aplicação que está disponível e ver a exposição, ouvindo os autores das imagens a falarem sobre o seu trabalho.


 


OUVIR - Parece que Caetano Veloso deu um concerto fora de série, há alguns dias, no Coliseu. Quem não foi lá pode ter uma ideia do que se passou graças à recente edição de  "Multishow Ao Vivo - Caetano Veloso - Abraçaço" , que reproduz o concerto criado para a digressão de “Abraçaço”, o disco de originais de Caetano editado em 2102 e que no ano seguinte ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de cantor-compositor. “Abraçaço” era um disco excepcional, ouso dizer quase a síntese de uma carreira onde a inovação tem estado sempre presente. Para o registo ao vivo, efectuado no final do ano passado no Vivo Rio, com a sua Banda Cê, Caetano retoma os temas de “Abraçaço”, mas vai buscar também, e reinventar, temas seus clássicos e incontornáveis, como “Triste Bahia”, “Reconvexo”, “Alguem Cantando” ou “Você Não Entende Nada”. A captação de som (e de imagem, porque e xiste um DVD) são muito boas e reproduzem bem o ambiente de um concerto. Aqui está uma maneira de sentir Caetano ao vivo, mesmo que o não tenha visto nos Coliseus. (CD Universal)


 


PROVAR - Nesta altura do ano Sesimbra é um magnífico local para passear à beira mar. Andando na marginal, a seguir ao forte e em direcção à doca dos pescadores, encontra-se o restaurante “Mar e Sol”. O interior tem uma sala ampla e no exterior fica uma esplanada simpática, resguardada, com uma vista óptima sobre o mar. Para a mesa vieram como entradas uma sapateira recheada que estava honesta e uma salada de mexilhão que estava muito boa, mais pão fresco da região e azeitonas bem temperadas. Nos pedidos seguiu-se a recomendação da casa e provou-se um salongo grelhado, que estava no ponto e foi muito apreciado - relativamente pouco conhecido o salongo é um peixe suave, de cor avermelhada, de carne saborosa, abundante na região. Este estava fresquíssimo e bem preparado. O outro pedido foi um arroz de robalo, com o peixe também no ponto certo, com o arroz cozinhado por forma a não tapar o sabor do robalo e a deixá~lo brilhar - coisa que nos arrozes muito refogados e temperados nem sempre se consegue. Este estava suave e deixava o primeiro plano, como compete, para o saboroso peixinho. A refeição foi acompanhada por Catarina, um branco da região de Azeitão, baseado nas castas Fernão Pires, Chardonnay e Arinto. A conta foi equilibrada e um passeio pela marginal que se lhe seguiu rematou bem a refeição.


 


DIXIT - "A Portugal está a faltar muita poesia. Não enche a barriga, mas pode ajudar a encher o espírito" - Vasco Graça Moura.


 


GOSTO - Da escultura “Liberdade”, de Cristina Ataíde, colocada há dias num jardim de Sesimbra (ver a fotografia que ilustra a “semanada” aqui ao lado).


 


NÃO GOSTO - O Ministério Público confessou-se impotente para combater crimes na net.


 


BACK TO BASICS - “A política é a arte de simular e dissimular” - Cardeal Mazzarino

abril 24, 2014

40 ANOS - A IDADE DA INDIFERENÇA ?

CICLOS - O 25 de Abril foi há 40 anos, menos oito que o total do tempo de poder do antigo regime. O que se passou antes de 1974 já não pode, em boa verdade, ser invocado como desculpa para o estado em que o país agora se encontra. O novo regime tem vivido em zigue-zagues, mas há uma substancial diferença entre os primeiros 20 anos e as duas décadas seguintes, as mais recentes. Em pouco mais que as duas primeiras décadas pós 74 fizeram-se reformas e alterações estruturais na saúde, na educação em infra-estruturas básicas; nas décadas seguintes, marcadas pela adesão à União Europeia em 1986, engordou-se o Estado, os partidos engordaram os seus aparelhos e perderam militância, as obras públicas consumiram demasiados recursos, as empresas de construção cresceram enquanto as indústrias exportadoras encolheram; a pesca diminuíu e a agricultura foi subsidiada nuns anos para arrancar o que noutros anos era plantado com outros subsídios. O Bloco Central, que fez alternar no poder PS e PSD, fomentou auto-estradas para além do necessário, construíu aeroportos que não têm utilização, permitiu bancos que enganaram depositantes e o Estado não melhorou a Justiça. O Estado, aliás, destacou-se por gastar o que tinha e, sabe-se agora, o que não tinha. De tudo o que delapidou, sobretudo dos finais dos anos 90 para cá, sobra pouco. Não admira que as pessoas se afastem da política e não queiram ter participação cívica, como estudos recentes bem revelam. Mas nem eram precisos estudos: quando mais facilmente se juntam milhares de pessoas para celebrar na rua, à noite, uma vitória futebolística, do que aquelas que protestam e agem, dia a dia, contra a corrupção, a prescrição de processos de milhões, a falta de justiça ou a ingerência, está tudo dito sobre os 40 anos que passaram desde 25 de Abril de 1974. As pessoas não se importam e o Estado agradece.


 


SEMANADA - A Associação de Inspectores de Jogos acusa o sorteio do fisco de falta de transparência e afirma que não está a ser cumprida a lei; uma parte do governo quer taxar o consumo do açucar e do sal, outra parte quer taxar o consumo de alcoól e tabaco; ao longo desta legislatura o Governo tem ignorado um terço das perguntas dos deputados; o deputado socialista Miguel Coelho publicou esta semana a sua tese de doutoramento onde defende que o recrutamento partidário no caso do PS e do PSD está nas mãos de um núcleo restrito, que é quem comanda o acesso a cargos políticos remunerados; António Costa defendeu eleições primárias no PS abertas a não militantes e uma reforma dos sistema eleitoral; numa sondagem da Universidade Católica publicada esta semana 86% dos portugueses dizem não ter qualquer actividade política actualmente e apenas 2% afirmam ter actividade política regular - os outros 12% apenas de forma esporádica.; a mesma sondagem indica que 83% dos portugueses estão insatisfeitos com o funcionamento da democracia; no mesmo estudo de opinião os Tribunais foram considerados a instituição com pior funcionamento e 73% dos inquiridos manifestaram confiança na imprensa; a Autoridade para as Condições do Trabalho inspeccionou 37 mil locais de trabalho em 2013 e apurou 37 milhões de euros de salários em atraso, um aumento de 66% em relação ao ano anterior; nos últimos dez anos a CP comprou 25 locomotivas de mercadorias por 105 milhões de euros e deixou de utilizar 26 locomotivas, também de mercadorias, usadas, mas que tinham tido um forte investimento de reparação e modernização e estavam em bom estado.


 


ARCO DA VELHA - Uma juíza do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa deixou acumular 8 mil processos atrasados em 2010, mais que a soma de todos os que estavam pendentes em todos os juízos daquele Tribunal.


 


FOLHEAR - “A Liberdade Livre” é o título de um livro dedicado a Cruzeiro Seixas, um dos mais importantes artistas surrealistas portugueses, e que é baseado numa conversa com José Jorge Letria. O livro começa com uma citação de Cruzeiro Seixas que não resisto a reproduzir: “Sonho com uma bola perfeita toda feita de ar. Por agora só nos faltam os argumentos suficientemente convincentes para convencer o ar”. E ainda esta: “por toda a parte há sonhos a empurar outros sonhos para o abismo”. O livro tem numerosas fotografias do autor, muitas na companhia de outros membros do grupo dos surrealistas, como Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria ou António Maria Lisboa, além de reproduções de algumas obras do artista. A conversa com José Jorge Letria recorda o percurso de Cruzeiro Seixas, mas também um relato dos tempos que viveu, a forma como o grupo dos surrealistas marcou uma época. E Seixas recorda episódios, encontros que teve, conversas que lhe ficaram na memória, como uma com Amália Rodrigues, em que ele, referindo-se à fadista, termina assim “Acho extraordinária a voz dela. É como a voz deste país, se este país tivesse voz”.


 


VER - Algumas sugestões para estes dias. Começo pela exposição que abriu na Gulbenkian no dia 23 de Abril, integrada nas comemorações dos 450 anos do nascimento de William Shakespeare e que, entre outras edições, apresenta um exemplar da tragédia Hamlet, traduzida para francês e apresentada por André Gide, com ilustrações gravadas a buril por Albert Decaris. Este exemplar desta obra foi adquirido por Calouste Gulbenkian, em 1947.  Ainda na Gulbenkian destaque para a exposição “Os Czares e o Oriente”, que reúne um conjunto de peças da coleção do Kremlin de Moscovo composto pelas ofertas aos czares provenientes do Irão safávida e da Turquia otomana dos séculos XVI e XVII. Em exibição estão 66  peças entre joias, tecidos, armas e arreios de cavalo, utilizadas nos atos cerimoniais dos czares russos, na vida da corte, nas campanhas militares, e nos ofícios divinos celebrados nas igrejas do Kremlin. Anteriormente apresentada na Arthur M. Sackler Gallery da Smithsonian Institution em Washington, é a primeira vez que estas coleção é vista na Europa. Finalmente estes são os últimos dias para ver a colecção de máscaras portuguesas, do actor André Gago, que até Domingo estão expostas no Museu da Marioneta, que fica no Convento das Bernardas, Rua da Esperança 46.


 


OUVIR - “Crónicas da Grande Cidade”, de Miguel Araújo, é o contraponto rural aos discos contemporâneos, mais urbanos. Aqui contam-se histórias da terra e o espanto pela vida na cidade. Miguel Araújo é um bom contador de histórias, as canções são construídas como episódios de uma série que conta a viagem de alguém que veio do interior para a grande cidade. Há momentos em que, na música, nas palavras e até na forma de cantar, este disco faz lembrar o primeiro trabalho dos “Rio Grande”. Não se pode dizer que isto seja música folk, nem que esteja particularmente baseado na música tradicional portuguesa - mas há lá sinais de tudo isto, desde os instrumentos à forma de cantar, passando pelos arranjos. É curioso notar o enorme contraste entre este disco e outro grande trabalho de histórias cantadas, já aqui referido, que é o disco de Capicua. Um, o dela, completamente urbano, musicalmente contemporâneo; outro, de forte influência rural, musicalmente conservador. Estas características não fazem com que um seja melhor que o outro - mas mostram a diversidade da música que hoje se está a fazer em Portugal. O facto de os dois cantarem em português, e de ambos serem bem escritos, contradiz aqueles que por preguiça evitam o português e se escondem no inglês. Tenho sempre a sensação de que quem o faz, não é capaz de assumir dizer coisas simples na nossa língua - como “gosto de ti”, preferindo sempre dizer o mesmo em inglês. As minhas canções preferidas são “Cidade Grande (Canção de Acordar)”, “Romaria das Festas de Santa Eufémia”, “Cartório”, “Contamina-me” e “Valsa Redonda”. É bem curioso que este disco saia precisamente nesta altura do calendário comemorativo. Não há-de ter sido por acaso. Tem um lado de saudade.


 


PROVAR - A partir desta semana o Sky Bar voltou a ser uma possibilidade para um aperitivo ao fim da tarde ou para uma refeição ligeira da carta concebida para o local. O Sky Bar é já uma tradição que vai das primeiras semanas da Primavera ao fim do Verão e que fica no último andar do Hotel Tivoli, da Avenida da Liberdade, ao fundo da sala do restaurante “Terraço”. O Sky Bar este ano tem algumas mudanças - na localização do bar por exemplo, e é garantidamente um dos locais com melhor vista sobre Lisboa. Quando o tempo está bom não há melhor local para passar o fim de tarde ou o início da noite. Nas noites de 5ª, 6ª e sábado há DJ’s convidados.


Num registo completamente diferente, e se estiver em Lisboa no sábado à tarde, não perca o “Levar a Vida a Degustar” que a Vida Portuguesa do Largo do Intendente promove - pelas 16h00 há provas de cerveja artesanal “Letra” e as novas conservas da marca José Gourmet - moelas de pato, rojões à minhota, lampreia à bordalesa ou caril de lulas.


 


DIXIT - “Hoje a legislação laboral não constrange a actividade económica” - António Saraiva, Presidente da CIP


 


GOSTO - Da forma como Ricardo Araújo Pereira e Miguel Guilherme fazem “Melhor Do Que Falecer”.


 


NÃO GOSTO - De quem autorizou fogo de artifício depois da meia noite, no centro de Lisboa, em véspera de dia de trabalho.


 


BACK TO BASICS - Aqueles que prescidem das liberdades fundamentais invocando a necessidade de assegurar temporariamente a segurança não merecem ter nem liberdade nem segurança - Benjamin Fraklin


 


 

abril 17, 2014

OS CONSERVADORES ESTÃO ONDE MENOS SE ESPERA

CONSERVADORES - Em 1994 Mira Amaral, então Ministro da Indústria de um Governo de Cavaco Silva, convidou Michael Porter, um Professor de Harvard, a fazer um estudo sobre a economia portuguesa. O relatório Porter, como ficou conhecido, foi feito já há 20 anos e defendia a aposta imediata nos sectores tradicionais, identificando “clusters” estratégicos: calçado, têxteis, cortiça, indústria automóvel, turismo, madeira e vinho, que deviam conviver com melhorias na educação, na capacidade de investigação científica, no desenvolvimento da tecnologia aplicada à realidade económica, na capacidade de gestão, em financiamentos mais acessíveis e numa melhor gestão florestal. Ao fim de 20 anos percebemos que se perdeu muito tempo a evitar seguir as recomendações que hoje se verificam, no essencial, acertadas. Pouco tempo depois do estudo ser divulgado, em 1995, Guterres era eleito Primeiro Ministro e guardou as recomendações na gaveta, deslumbrando-se com modas passageiras - modas que ainda hoje pesam no nosso dia-a-dia. Foram precisos vários anos e crises duras nestes sectores tradicionais para que eles começassem a recuperar - incorporando tecnologia, design, melhor gestão e melhor promoção. Fica aqui este número para mostrar o que há 20 anos alguns não quiseram ver:  em 2013 a indústria portuguesa de calçado exportou mais de 75 milhões de pares de sapatos, no valor de 1700 milhões de euros, para 132 países. No fundo conservadores foram os que fugiram a desenvolver aquilo que sabíamos fazer e que foram imitar o que outros já tinham. Deu mau resultado, como agora se sabe.


 


SEMANADA -  Foi anunciado que o Hospital de Santa Cruz, uma unidade especializada em cardiologia e que por isso mesmo se notabilizou, pode perder a valência de cirurgia cardiotoráxica;  o centro hospitalar de Lisboa norte deixou prescrever 4,6 milhões de euros em taxas moderadoras; 439 escolas com menos de 21 alunos estão em risco de fechar e seis mil crianças poderão ter de mudar de local de ensino no próximo ano lectivo; depois das mudanças introduzidas pelo Ministério da Educação a disciplina de Inglês deixou de chegar a todos os alunos do 1º ciclo; uma estimativa de uma associação do sector considera que em Portugal existem cerca de três mil lares de idosos ilegais; segundo dados do INE existem 1,9 milhões de pessoas em risco de pobreza e 120 mil crianças têm alimentação deficiente; a maioria dos elementos do gangue do multibanco recebia rendimento social de inserção; a justiça arquivou 45% dos casos de corrupção; 39,7% dos processos relativos a corrupção dizem respeito a autarquias; em Portugal foram apresentadas 16 listas concorrentes às eleições europeias, meia dúzia delas de novas organizações ou de organizações sem actividade política regular; cada lista concorrente pode gastar até 2,9 milhões de euros na campanha eleitoral; António Barreto deixou a Fundação Francisco Manuel dos Santos em divergência com o dono do Pingo Doce e da Fundação, Alexandre Soares dos Santos.


 


ARCO DA VELHA - As obras de remodelação da estação de Metro do Areeiro, em Lisboa, estão a decorrer desde 2009 e, ao fim de cinco anos de transtornos constantes para quem vive  no local, foram suspensas devido a um litígio judicial com o empreiteiro.


 


FOLHEAR - “1914 - Portugal no ano da Grande Guerra”  é uma viagem do jornalista Ricardo Marques ao dia a dia de há um século atrás. Ele leva-nos aos usos e costumes do ano em que começou a I Grande Guerra e diz-nos como viviam as pessoas, fala do que se relatava nos jornais, abundantemente citados. Por ali se encontram notícias da  Lisboa do tempo da febre tifóide, e também se  fica a saber que já então a Universidade de Coimbra pensava acabar com as praxes ou que havia um movimento contra as touradas. Ricardo Marques, que nasceu em 1974, percorreu arquivos em busca do passado para nos fazer uma reportagem do tempo que não vive nas nossas memórias. Ao longo de 300 páginas, com ilustrações da época, recorda-nos como era então encarada a ciência e vista a natureza, como se passava a vida pública e a vida privada - das lutas operárias às festas e às modas, passando pelo mundo visto a partir de Portugal e, inevitavelmente, pela Guerra que então começava. (Edição Oficina do Livro)


 


VER - “O Burel da cortina antepara o céu opaco” é o título da exposição de obras de Pedro Calapez que podem ser vistas na galeria Appleton Square até 10 de Maio. Nas obras expostas, quase uma instalação, o desenho a computador  mistura-se com a pintura a pincel japonês sobre papel e  o preto, branco e cinzentos contrastam com explosões de côr. Nos dois momentos da exposição, no piso de entrada e na sala do piso inferior,  evidencia-se a variedade e o contraste do trabalho contemporâneo de Calapez, que continua com uma agenda de exposições com um ritmo invulgar, em Portugal e no estrangeiro. A Appleton Square fica em Alvalade, na Rua Acácio Paiva 27.


 


OUVIR - “Yellow Brick Road”, o álbum de 1973 de Elton John, oitavo disco da sua carreira,  foi o seu primeiro grande sucesso discográfico - e o álbum figura aliás em diversas listas dos melhores discos pop de sempre. Talvez se possa dizer, mesmo à distãncia de quatro décadas, que este foi o ponto mais alto da colaboração com Bernie Taupin, o co-autor de todas estas canções e que muitas vezes é injustamente esquecido. Aqui estão temas como “Candle In The Wind” e a faixa título “Goodbye Yellow Brick Road”, além de outras como “Saturday Night’s Allrright For Fighting”, “Roy Rogers”, “Your Sister Can’t Twist (But She Sure Can Rock ‘n’ Roll”, o provocador ”All The Girls Love Alice” e “Bernie The Jets” - esta tornou-se um êxito nas estações de rádio de soul music dos Estados Unidos. Elton tinha 26 anos quando o disco foi gravado e o êxito de algumas das canções fez esquecer como o álbum, no seu conjunto é uma obra consistente - e como a canção título é, afinal, sobre o facto de a fama e o sucesso serem uma coisa tão difícil de gerir e de viver - como a sua carreira ao longo das últimas décadas sobejamente tem provado. Por ocasião do 40º aniversário do lançamento original do álbum foi agora lançada uma edição especial, com uma nova remasterização digital e um CD extra que inclui diversas versões de canções pouco conhecidas de Elton John por alguns nomes contemporâneos. Há várias boas versões mas eu destaco a de John Grant em “Sweet Painted Lady”, embora as pretações de Imelda May e Emeli Sandé também mereçam destaque. Finalmente este disco extra ainda inclui alguns clássicos da carreira de Elton John, gravados ao vivo no Hammersmith Odeon, em Londres, em Dezembro de 1973.


 


PROVAR - Aqui há uns anos a Rua Barata Salgueiro, era a rua da Sociedade Nacional de Belas Artes e da Cinemateca. Agora é conhecida pelos três restaurantes que nos últimos anos ali abriram - o Guilty, que entretanto perdeu a graça, o D’Oliva, que continua engraçado e o Sushi Café que mantém uma qualidade constante e que do ponto de vista do conforto e decoração é o melhor de todos. As origens do D’Oliva, estão no Porto, em Matosinhos, onde os seus proprietários, sob o mesmo nome, fizeram fama e ganharam experiência antes de virem para Lisboa, há 4 anos. Ao almoço há um menu executivo a 18 euros e à noite o serviço é apenas à carta. Teoricamente este é um restaurante italiano, mas a lista tem muitas e boas aventuras portuguesas. Com o correr dos tempos o D’Oliva tornou-se num daqueles sítios que grupos de amigos escolhem para se encontrarem, o que leva a que por vezes à noite não seja o sítio mais sossegado do mundo. A sala de cima tem um confortável balcão, há vinho a copo de várias boas proveniências e a cerveja é bem tirada. Também há cocktails e as numerosas entradas da lista são bons petiscos. Na lista a alhada com raia é muito decente e o bife de lombo alentejano é decentíssimo, assim como os mini hamburgueres. O serviço é simpático, há zona de fumadores e não fumadores - a de não fumadores acaba inevitavelmente por ser mais sossegada. Feitas as contas, continua a valer a pena lá ir. Rua Barata Salgueiro 37, telefone 21 352 8292.


 


DIXIT - “Toda a gente crê que a democracia garante o bom governo, quando na verdade apenas garante que podemos mudar de Governo” - Felipe Gonzalez, na conferência promovida pelo “Expresso”, na Gulbenkian.


 


GOSTO - Os prémios Pulitzer foram atribuídos aos jornais “The Washington Post” e “The Guardian” pelo conjunto de notícias sobre os programas de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.


 


NÃO GOSTO - Das confusões e constantes alterações daquilo que o Governo diz sobre as pensões e reformas.


 


BACK TO BASICS - Não se pode dar um aperto de mão com o punho fechado - Indira Gandhi