março 21, 2014

SOBRE A INFLUÊNCIA DA PRIMAVERA NA POLÍTICA

TEMA - Quanto mais o sol brilha, mais me parece que este país precisa de uma primavera política. Olho à volta, vejo os deputados comentadores dos canais de televisão e confirmo que os nossos políticos são invernais, quanto muito outonais, mas sempre cinzentos, tristes e com uma previsibilidade de ideias assustadora. Levam-se demasiado a sério, interpretam muito, analisam imenso, alguns reproduzem o que lhes dizem, há quem apenas diga o que outros querem ouvir. Falam para o umbigo dos partidos. Não admira que os programas  de debate sobre futebol tenham maior audiência nos canais de informação que os debates entre políticos - são mais bem humorados, fazem poucas promessas e são bem mais sinceros. O actual Governo cumpriu os seus primeiros mil dias de existência e, para mim, o seu pecado capital é ter-se esquecido que a parte mais importante da governação é convencer as pessoas, procurar ganhar o seu apoio, explicar o que se faz e o que nos espera à frente. Não há política possível sem ter em conta as pessoas e lembrarem-se apenas delas nos momentos eleitorais tem levado o país ao estado em que está. Em vez de programas fazem-se promessas; em vez de estratégias fazem-se manobras tácticas; em vez de reformas fazem-se manobras. Portugal vive em ciclos, é um país bipolar inconstante, e acaba sempre por penalizar quem não deve, deixando impune quem  merecia castigo.


 


SEMANADA - Em 2012 o tempo médio para resolver uma acção em tribunal foi de 860 dias ou 2,3 anos em 2012; os tribunais portugueses levam em média dois anos para decretar uma insolvência; os tribunais custam 45 euros por ano a cada português; após três horas de reunião soube-se que  o estado da nação é uma divergência insanável; 48% dos portugueses manifestam-se a favor de maior transparência na vida política; um relatório da OCDE diz que 15% dos jovens portugueses entre os 15 e 24 anos não tem qualquer ocupação; o mesmo relatório diz que seis em cada dez desempregados não recebem subsídio e 49% dos 850 mil desempregados estão sem trabalho há mais de um ano; 36% dos espanhóis confiam no Governo do seu país e em Portugal o número é de 26%, o segundo mais baixo da Europa; a despesa em saúde publica per capita em Portugal é a segunda mais baixa da Europa; mais de 60% das obras públicas derrapam nos prazos; em 2012 o procedimento adoptado em 96,2% de todos os contratos públicos foi o ajuste directo; o Presidente da República marcou as eleições para o Parlamento Eurtopeu para 25 de Maio, apelou à participação dos eleitores e recomendou contenção aos partidos; António Costa recomendou ao Governo que deixe em paz o lixo de Lisboa; existem cerca de três mil ninhos de cegonhas em torres de distribuição eléctrica.


 


ARCO DA VELHA - Retrato instantâneo da crise da imprensa: três quartos dos portugueses têm acesso a canais de cabo e quase 30% dos espectadores preferem-nos -  mas grande parte da imprensa ainda só dá informação regular sobre a programação dos canais generalistas.


 


FOLHEAR - Habituei-me a ver em José Manuel Felix Ribeiro um dos poucos economistas que, além de fazer o diagnóstico da situações, elenca estratégias possíveis e propõe soluções concretas. Isso distingue-o dos econo-políticos que desgraçadamente povoam o arco da governação. O seu novo livro, “Portugal - A Economia de Uma Nação Rebelde” é um belo guia de ideias para estes tempos que atravessamos - “findos os primeiros quarenta anos do regime democrático, está na altura de definir um novo conjunto de escolhas fundadoras para as próximas décadas”, como diz o autor nesta sua obra que, salvaguardadas a distância e o contexto, bem podia ser encarada como uma espécie de “Portugal E O Futuro” contemporâneo. “Portugal - e o espaço lusófono - só sobreviverão com relevância mundial num quadro da  globalização, naturalmente organizado em torno dos oceanos. E por isso é que Portugal e o espaço lusófono têm como aliados naturais o espaço anglo-saxónico (e os Estados que com ele se articulam)” - sublinha Felix Ribeiro, para depois afirmar: “A proposta de uma parceria transatlântica de comércio e investimento proposta pela Administração dos EUA é o futuro que nos interessa explorar. Do mesmo modo que são as relações históricas múltiplas com Estados da Ásia que constituem o elemento mais diferenciador de Portugal no contexto europeu - relações históricas com a Índia, o Japão, a China e a Malásia”. O livro analisa e elenca sectores, traça prioridades e culmina com a proposta de um novo mapa de alianças para crescer na globalização. São ideias e propostas invulgares, algumas polémicas, outras de uma desarmante evidência. Mas merecem ser conhecidas e debatidas, em vez das estéreis discussões de conveniência que por aí abundam. Aqui está boa matéria de discussão nas europeias.


 


VER - Vai-se a um dos bons Hotéis de Lisboa, o Tivoli, e entra-se no seu restaurante do piso de entrada, a Brasserie Flo, cujas janelas dão sobre a Avenida da Liberdade - e onde se podem degustar das melhores ostras de Lisboa e um bife tártaro exemplar. Agora este espaço do Tivoli passou a apresentar regularmente obras de arte contemporânea. A estreia coube a Inez Teixeira com a exposição de pintura e desenho “O Jogo das Nuvens”, que estará exposta no restaurante até 15 de Junho. Depois seguir-se-ão fotografias de Pauliana Valente Pimentel. A exposição compreende 3 impressões digitais sobre tela a partir de desenhos e dois originais, de acrílico cobre tela. A paisagem volta a ser o tema dominante nestes desenhos e pintura que mostram mais uma vez como o olhar meticuloso de Inez Teixeira interpreta o mundo à sua volta.


 


OUVIR - Anne Clark toca 13 diferentes instrumentos mas é na guitarra eléctrica que verdadeiramente ela dá cartas e mostra um talento, discreto, mas constante. A forma como canta também contribui para a sonoridade que é a sua imagem de marca. Este seu quinto disco, “St. Vincent” é porventura aquele onde ela consegue mostrar de forma mais saliente a progressão na composição e interpretação das suas canções, em simultâneo com a consolidação de um estilo próprio. A sua imagem ficou marcada pelas colaborações com David Byrne em 2012, que lhe deram notoriedade mas puseram à sombra da fama alheia. Neste novo disco ela sai da sombra e afirma-se, logo desde a faixa de abertura, “Ratllesnake”, marcada pela electrónica, até ao humor cáustico da letra de “Digital Witness” ou da deliciosa balada com que finaliza o disco, “Severed Crossed Fingers”. É justo destacar ainda a forma como ela toca guitarra em “Birth In Reverse”, o esplendor de “i Prefer Your Love” ou os desafios de “Prince Johnny”. 40 minutos de grandes canções.


 


PROVAR - Até aqui o Largo da Anunciada, em Lisboa era conhecido por duas coisas: ficava perto desse clássico que é o “Solar dos Presuntos” e da Ervanária da Anunciada, casa de pergaminhos em produtos naturais. Agora adiciona-se à lista de pontos de interesse do local a “Champanheria do Largo”, um misto de wine bar com restaurante, onde petiscos se conjugam com ampla selecção de champagnes e espumantes e uma curta mas bem escolhida lista de vinhos. Muita desta existência está disponível a copo. Existe ainda a changria que como o nome indica é uma sangria de champagne e uma champirinha que por estas horas já adivinharam o que é. A lista de petiscos é extensa e variada, a decoração é contemporânea e confortável, existe uma pequena esplanada, o serviço é atento.  A Champanheria é dos mesmos proprietários do Avenue, que fica do outro lado da Avenida da Liberdade, quase em frente. A clientela tem estrangeiros encaminhados dos hotéis que são próximos, mas pode também ter figuras como o Chef Rui Paula, do DOC e do DOP, recentemente a ganhar fama de júri televisivo - a bem dos seus restaurantes espero que a prestação televisiva não o faça descurar aquilo que lhe deu notoriedade.


Uma recente visita permitiu provar, com agrado, uns peixinhos da horta de fritura impecável e de tempero aromático inesperado, vieiras frescas na chapa, mini hamburgueres de pato acompanhados de batata doce frtta às rodelas finíssimas, uns muito bem apanhados croquetes de ostra e, a rematar, uma sopa de frutos vermelhos com papos de anjo. A petisquice foi acompanhada pelo transmontano Vértice, o nosso espumante que não se apaga ao lado de muitos champagnes. Largo da Anunciada 20, telefone 213 470 392, encerra às segundas, aberto entre as 12 e as 24.


 


DIXIT - “A primeira qualidade que por aí acham que um Primeiro Ministro deve ter não é a lucidez. Nunca dizem: "Vou dar o máximo para manter a capacidade de lucidez." Em vez disso, a primeira frase que se ouve sobre os nossos últimos PM's é: "Vejam a coragem das medidas que está a tomar" - José Medeiros Ferreira em entrevista ao Negócios em 2012.


 


GOSTO - “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável” - frase final do livro “O Segredo do Hidroavião”, de Fernando Sobral


 


NÃO GOSTO - Em 15 hospitais portugueses há falta de anestesistas.


 


BACK TO BASICS - O talento acerta num alvo onde mais ninguém consegue acertar, mas o génio atinge um alvo que ninguém conseguia ver  - Arthur Schopenhauer


 

março 14, 2014

SINAIS DOS TEMPOS NAS PRIMEIRAS PÁGINAS DOS JORNAIS

SINAIS - As primeiras páginas dos jornais desta semana oscilaram entre as imagens de um cabo da GNR, inicialmente fardado a preceito, a fazer strip tease numa ladies night de uma discoteca de Oliveira de Azeméis, uma foto de Maria e Aníbal Cavaco Silva de pacote Cerelac na mão depois de o Presidente da República ter garantido que a austeridade era para ficar, e as variadas notícias e consequências de um manifesto a favor da reestruturação da dívida, que já provocou baixas entre os consultores do Presidente da República que acharam por bem subscrevê-lo.  O dia a dia do país assemelha-se a um reality show - as semanas ficam marcadas por imagens ridículas e actos manhosos. Sucedem-se os escândalos, as prescrições de justiça, ouvem-se os mesmos de sempre a dizerem a mesma coisa, num ensaio geral de palavreado para umas eleições europeias que suscitam desinteresse e bocejos generalizados. De dentro dos partidos que apresentam candidatos surgem vozes clamando contra a má qualidade das respectivas listas e o tema mais quente do momento continua a ser debater quem irá a votos nas próximas eleições presidenciais. Se um marciano aqui passasse diria que Portugal está virado do avesso. Muito provavelmente é isso mesmo que acontece.


 


SEMANADA - Cavaco Silva começou a semana a fazer futurologia sobre os próximos 20 anos e, contra os objectivos que o próprio anunciou, criou uma tempestade em vez de promover consenso; em resposta 70 pessoas, de quadrantes bem diversos, pediram para se equacionar uma reestruturação da dívida, num movimento de diálogo bem maior que qualquer iniciativa presidencial; Morais Sarmento criticou o desempenho  de Cavaco enquanto Presidente da República; Santana Lopes disse que Cavaco Silva manifesta falta de força política; Mário Soares recebeu o prémio “personalidade do ano da imprensa estrangeira” e, na cerimónia, foi notada a presença de José Sócrates e a ausência de António José Seguro; José Sócrates anunciou que irá colaborar na campanha eleitoral do PS para as europeias; em contraponto Paulo Rangel invocou os 101 dálmatas na apresentação do seu manifesto eleitoral para as europeias; os directores de informação das três estações de televisão generalistas anunciaram que consideram “abdicar novamente de fazer a cobertura das campanhas eleitorais ou realizar debates entre os candidatos” porque o novo projecto de Lei no parlamento restringe e condiciona a liberdade editorial; no último ano os bancos cortaram 35% do crédito a empresas; em Portugal o PIB está a níveis de 2000 e o emprego já recuou até aos níveis de 1996; desde que a troika chegou desapareceram 328 mil postos de trabalho; o desemprego estrutural atinge 630 mil pessoas; a DECO recebeu meio milhão de reclamações de consumidores em 2013, mais 15% que no ano anterior.


 


ARCO DA VELHA - A Câmara Municipal da Guarda tornou-se a campeã nacional da piratagem informática ao utilizar nos seus serviços programas de computador não autorizados, o que levou a Microsoft a reclamar 336 mil euros de compensação por uso ilegal do seu software.


 


FOLHEAR - Nos últimos meses a revista “Wallpaper” parece ter ganho uma nova vida: temas mais interessantes com uma produção mais cuidada e uma direcção editorial mais atenta. Fazendo do design e da arquitectura os seus dois principais focos de interesse, a revista persegue tendências e mostra novos caminhos. Esta é uma revista luxuosa que gosta de falar - e de mostrar - o luxo. Na edição de Março um dos destaques vai para a nova sede da marca de jeans G Star Raw, em Amsterdão, um projecto do atelier OMA de Rem Koolhas. Situado numa das principais auto-estradas de acesso a Amsterdão, o edifício foi desenhado como um espaço multifuncional e o método utilizado pelo arquitecto para definir as traves mestras do projecto é explicado com algum detalhe. Outro artigo muito interessante dedica-se a mostrar exemplos de pequenas editoras de livros que vivem no meio de tiragens limitadas na Austrália, em França, Alemanha ou Estados Unidos, por exemplo. Colónia é a cidade em destaque, com uma reportagem que detalha o trabalho de designers, artesãos , fotógrafos e desenhadores de jóias, curadores de arte, ou estilistas que marcam o seu quotidiano. Finalmente nesta edição sugiro uma boa leitura para muitos responsáveis de edifícios com valor patrimonial e actividade cultural - a história de como Gwin Miles conseguiu inverter o ciclo de decadência da Somerset House de Londres, com muito pouco orçamento e bastantes boas ideias.


 


VER - Desde o passado fim de semana a Pousada da Cidadela de Cascais, do Grupo Pestana, passou a acolher, de forma permanente, galerias de arte, lojas de marca, e ateliers de seis artistas. Dentro da Pousada, agora designada por “Cidadela Historic Hotel & Art District”, seis quartos tiveram intervenções destes artistas e ao longo dos espaços comuns existem também obras de arte de outros autores. Um Art Concierge está disponível para enquadrar os visitantes nas obras apresentadas e no projecto. O trabalho de recuperação do antigo forte da Cidadela em Pousada é notável e esta ideia de incorporar a criação e divulgação artística neste espaço é um bom exemplo do que se pode fazer quando há vontade e criatividade. Nas áreas dedicadas às galerias e marcas estão nomes como a histórica, mas inovadora Viarco, a Magnetica Magazine a livraria Espaço Branco, e galerias como a Raw Art, a Cinco e a Allarts. Os artistas que estão nos open studios, que podem ser sempre visitados, são Duarte Amaral Netto, Paulo Arraiano, Bruno Pereira, Pedro Matos, Susana Anágua e Paulo Brighenti.


 


OUVIR - Um título malandro - “A Bunch Of Meninos”,  uma guitarra que logo nos primeiros acordes do disco dá um ar gingão, um disco que é um manifesto de inquietude, uma guitarra e um baixo que falam um com o outro como se vivessem em permanente romance - é isto o novo trabalho dos Dead Combo, o duo de Pedro Gonçalves e Tó Trips que há uma década cometem repetidamente a heresia de fazerem discos predominantemente instrumentais. Há muito que gosto deste estilo, aqui reforçado com  as colaborações cruzadas com o percussionista António Serginho e o baterista Alexandre Frazão, que aparecem pontualmente nalguns dos 13 temas. Os meus preferidos são “Waiting For Nick At Rick’s Cafe”, “Povo Que Cais Descalço”, “Zoe Llorando”, “B.Leza”, “A Bunch Of Meninos”, “Welcome Simone” e “Mr. Snowden’s Dream”. Os títulos das canções são, já se vê, são um episódio. As fotografias que visualizam o ambiente do disco são de Pauliana Valente Pimentel, um dos nomes promissores da fotografia portuguesa. E evitem por favor a tentação de dizer que Tó Trips evoca o fado com a sua guitarra. Isto é outra coisa.


 


PROVAR - Um dos meus petiscos favoritos é pregado frito acompanhado de açorda. Um dos locais onde a escolha é certeira é o restaurante Mar do Inferno, em Cascais, mesmo ao lado da Boca do Inferno. Numa recente visita provou-se o pregado frito e também uns crepes de lagosta panados, que satisfizeram. Situado em cima do mar, e ao contrário de outros restaurantes desta zona, o local é despretencioso, a matéria prima marítima é de primeira qualidade, o serviço é simpático e a casa é honesta nos preços e na confecção. A lista de vinhos é equilibrada. Apesar da dimensão sente-se a gestão familiar de Lurdes Tirano e dos seus filhos, nesta casa que leva já três décadas de vida. Encerra às quartas-feiras, fica na Avenida Rei D. Humberto e o telefone é 214 832 218.


 


DIXIT - "O primeiro-ministro diz que (o Manifesto dos 70) morreu à nascença, mas como eu sou cristão acredito na ressurreição"  - Bagão Félix


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GOSTO - Das criações de Filipe Faísca na recente Moda Lisboa, a confirmar que ele é dos valores mais sólidos entre os estilistas portugueses.


 


NÃO GOSTO - Da lentidão da justiça que numa só semana permitiu prescrições em dois casos ligados à Banca.


 


BACK TO BASICS - O Universo é feito de mudança e a nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos forem capazes de fazer dela - Marcus Aurelius Antoninus

março 07, 2014

O MUNDO MUDOU E A PUBLICIDADE JÁ NÃO É O QUE ERA

TRUQUE - Um bom exemplo do que são as novas formas de fazer publicidade aconteceu na noite dos Oscares - o momento em que a apresentadora Ellen deGeneres promoveu uma selfie (fotografia tirada a si própria), que correu mundo e foi um fenómeno impressionante de partilha nas redes sociais. A história que apareceu no dia a seguir é curiosa: durante toda a emissão da entrega dos Oscares, Ellen deGeneres brincou com um telemóvel Samsung Galaxy Note branco que tinha na mão - e foi esse aparelho que ela passou ao actor Bradley Cooper para ele fazer a selfie que correu mundo, ao lado de estrelas como Brad Pitt, Meryl Streep, Kevin Spacey e Jennier Lawrence, para além da própria deGeneres, à sua volta . O momento da selfie foi filmado e emitido na transmissão televisiva e lá está bem visível o logo da Samsung. Acontece que a Samsung investiu cerca de 20 milhões de dolares em spots que passaram nos intervalos da transmissão da entrega dos Oscares deste ano e a presença em palco do Galaxy fazia parte do pacote negociado. Mas a marca não se ficou por aí e preparou a sua presença em ecrã, desde pessoas que o usavam na passadeira vermelha a fazer fotografias e a filmar, até ao momento da selfie. Segundo o “Wall Street Journal” a selfie terá sido ideia de Ellen deGeneres, mas a cadeia ABC, detentora dos diretos da transmissão e comercialização da publicidade, sugeriu que ela o fizesse com um Samsung Galaxy Note, e responsáveis da Samsung estiveram nos ensaios e ensinar Ellen deGeneres a familizar-se com o aparelho para que na altura certa o pudesse utilziar de forma bem visível. Na realidade o selfie não foi uma coisa espontânea, foi um product placement bem pensado e trabalhado que deu um enorme retorno à marca coreana. A foto foi retweetada quase três milhões de vezes na segunda feira à tarde e a Samsung chegou a ser mencionada 900 vezes por minuto nas redes sociais durante esse espaço de tempo. É impossível quantificar o valor que isto significa - mas excede em muito aquilo que foi pago pelos spots exibidos nos intervalos da emissão.






SEMANADA - Existem 36 câmaras municipais em risco de falir pela segunda vez, mesmo depois dos mil milhões de euros do programa de apoio à economia local, desenhado pelo Governo para ajudar os municípios a pagar dívidas aos fornecedores; por causa do mau tempo alguns municípios adiaram os corsos de carnaval para depois da quaresma, para domingo que vem; “as coisas estão feitas, só não as ouve quem não quer” - disse Fernando Tordo, sobre a falta de audiência para as suas obras gravadas, na mesma entrevista em que afirmou que receber o emblema de 75 anos de sócio do Benfica é um dos seus projectos de vida; a PSP admitiu que o consumo de álcool por agentes durante a anterior manifestação de polícias foi a principal causa dos problemas ocorridos frente à Assembleia da República;  no início desta semana, o Ministro da Administração Interna terá perguntado ao director nacional da PSP se a polícia tinha agora condições para evitar incidentes semelhantes aos da última manifestação; em Portugal, em 206, seremos apenas sete milhões de pessoas se a evolução demográfica continuar ao ritmo actual; as vendas de automóveis aumentaram 44,3% em Fevereiro; este Governo criou 208 grupos de trabalho em dois anos e meio e, desses,  há 58 grupos que não divulgaram relatórios.


 


ARCO DA VELHA - As empresas cotadas na bolsa com ligações a ex-governantes e dirigentes partdiários têm quase o triplo do volume de negócios das restantes e 47% dos políticos que integram orgãos sociais das empresas cotadas passaram por um Governo.


 


FOLHEAR - A edição de Março da revista “Monocle” é dedicada à Itália e um dos artigos mais engraçados mostra-nos cinco pessoas que  estão a provocar mudanças importantes - desde um banqueiro que criou um funbdo de auxílio a pequenos negócios, até à mulher que saíu do Banco de Itália para dirigir a RAI e provocar uma revolução no operador de serviço público de televisão, passando por novos talentos na área do design e até política e que estão alterar os padrões existentes. Mas este artigo é apenas o cartão de visita e o aperitivo de uma edição que percorre algumas cidades italianas, os artesãos de Nápoles, que indica dez áreas de excelência nas quais a Itália contínua a ser líder, passando por exemplos a seguir na indústria, nos media e na cultura - e na área dos media o destaque vai para esse fenómeno que é a Gazzetta dello Sport, o jornal italiano mais lido - que na opinião de Andrea Monti, o seu Director, é não apenas um jornal mas uma organização noticiosa multi plataforma. Claro que não faltam referências a algumas das grandes marcas italianas, assim como se recomendam percursos de viagens, restaurantes e lojas diversas. Se planeia ir em breve a Itália, vale bem a pena ler esta edição antes, para fugir ao óbvio e procurar o que pode ser mais interessante.


 


VER - No espaço BES Arte & Finança, no Marquês do Pombal, até 15 de Abril, vale a pena visitar a exposição “Amar as Diferenças”, de Michelangelo Pistoletto e Marco Martins. Com curadoria do Centro de Criação de Teatro e Artes de Rua, a exposiçãoé fruto de uma parceria entre o cineasta Marco Martins e o artista Michelangelo Pistolette. Esta é a primeira apresentação deste projecto multidisciplinar, na realidade uma instalação entre o cinema e as artes plásticas.  São apresentadas obras de Michelangelo Pistoletto exibidas em diversos museus internacionais e, em simultâneo, é projectado ininterruptamente o filme criado por Marco Martins que já esteve em exibição no Museu do Louvre, DOC Lisboa, Festival Internacional de Cinema de Roma e a Arte Fiera, de Bolonha. Poder ver em Lisboa obras de Pistoletto, ainda por cima num contexto de cruzamento com o trabalho de um cineasta português, é um momento raro, que infelizmente tem passado algo despercebido. A exposição, que conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, estará patente ao público de segunda a sexta, das 9h às 19h, até ao dia 15 de abril.


 


OUVIR - A Deutsche Grammophon resolveu juntar numa só edição, em duplo CD, as gravações feitas, em diversos momentos, por Lang Lang, um dos mais aclamados pianistas contemporâneos, das obras de Sergei Rahmaninov, um expoente do romantismo russo. Este duplo CD reúne edições originais de 2005 da própria Deutsche Grammophon e de 2001, da Telarc,. No primeiro disco, da DG, estão o Concerto para piano nº2, a célebre Rapsódia Paganini (gravada ao vivo em 2004 com a orquestra do Mariinsky Theatre dirigida por Valery Gergiev), e a terminar  o “Trio Élégiaque” em que Lang Lang é acompanhado por Vadim Repin no violino e por Mischa Meisky no violoncelo. O Concerto para piano nº3 e a Sonata para piano nº2, estes últimos que integravam a gravação da Telarc, foram gravados ao vivo respectivamente no Royal Albert Hall e no Seijio Ozawa Hall. Todas estas gravações, aqui reunidas pela primeira vez na mesma edição, são uma prova do virtuosismo e da capacidade de interpretação de Lang Lang.


 


PROVAR - Vão proliferando as cervejas artesanais, sobretudo oriundas do norte de Portugal. Depois da estimada cerveja Sovina, já aqui comentada há uns meses, surgiu mais recentemente, no Minho, a “letra” (www.cervejaletra.pt) . O nome vem do facto de as diversas variedade serem identificadas por uma letra: a A é uma Weiss, de maltes de trigo e cevada, a B é uma Pilsner, de Cevada; a C é a Stout, de maltes de cevada, trigo e chocolate torrado e a D é uma Red Ale, à base de Cevada e Cristal. Provei a A e a B, ambas aromáticas, de sabor cheio e envolvente. Prefiro a Pilsner, mais leve, mas igualmente saborosa e intensa. Os métodos de fabrico são artesanais, os ingredientes são 100% naturais.


 


DIXIT - “Como na salada dos pais do imortal Basílio, o acordo foi mexido por uns cegos e temperado por uns loucos” - Vasco Graça Moura, a propósito do acordo ortográfico.


 


GOSTO - A previsão meteorológica aponta para temperaturas de 20º no fim de semana.


 


NÃO GOSTO - Uma em cada três mulheres da União Europeia é vítima de violência.


 


BACK TO BASICS - Há quem diga que o tempo muda as coisas, mas a verdade é que somos nós que temos que provocar essas mudanças - Andy Warhol

fevereiro 28, 2014

EM BUSCA DAS REFORMAS POR FAZER

 


REFORMISMO - Até mais ver a maior e quase única reforma do Estado tem a ver com a forma como foram atingidas as reformas dos cidadãos. É pena, mas é verdade. Até pode haver boas razões para tudo o que tem sido feito, mas o que motivou as decisões foi sempre a facilidade e o cuidado em não atingir as clientelas políticas que vivem directamente do Estado - no aparelho central e nas autarquias.. As alterações feitas até agora - prefiro não lhes chamar reformas - tocaram sobretudo em pontos que não provocavam clivagens políticas profundas nas máquinas partidárias e nas suas centrais de colocação de militantes dedicados e obedientes.. Por isso se pegou nas freguesias e não nos municípios, como António Barreto bem explicou numa entrevista que concedeu esta semana - na verdade quem tem dinheiro e poder são os municípios, que agora, como se vê por estes dias, contrariam o que está decidido a nível nacional, sobre horários e sobre feriados. Quando se olha para o que tinha que se fazer e para o que foi feito tem-se a sensação de que existem duas estradas paralelas, que dificilmente se encontrarão - as reformas que o memorando da troika exigia vão por um lado  e as mudanças feitas na administração pública vão por outro, numa via paralela, noutra velocidade - as duas estradas dificilmente se encontrarão. A grande questão aqui é que, por ter seguido esta via de proteger o sistema partidário vigente e ter desprezado os eleitores, está-se a matar o funcionamento do sistema político. É um assassínio premeditado. Na semana passada, um estrangeiro, na conferência promovida pelo The Economist, perguntava:”Who buys these reforms?” - pois, o problema é esse.


 


SEMANADA - Na ressaca da apresentação do seu livro Vítor Gaspar considerou insultuoso que alguém o pudesse classificar, a ele, como o quarto elemento da Troika; a propósito do lançamento da edição portuguesa de um dos seus livros, o astrofísico Hubert Reeves afirmou que “se um país como Portugal corta o apoio a escolas, professores e alunos, vai ficar a depender mais da tecnologia do exterior”; Portugal caíu mais um lugar no ranking e passou a nono país mais pobre da União Europeia, tendo sido ultrapassado pela Lituânia; no mês de Janeiro o Governo cobrou quase 100 milhões de euros por dia em impostos, um aumento de mais de 10% em relação ao mesmo mês do ano passado; em Espanha os rendimentos até 12 mil euros por ano não pagam IRS; mais de 300 mil portugueses acima dos 60 anos já foram vítimas de violência no ano passado e 160 mil foram alvo de furto ou desapropriação de bens em contexto familiar; em Portugal há 625 mil casas para vender, há 110 mil casas vagas e no total há 15 milhões de habitações para 10,6 milhões de habitantes; a idade de reforma dos funcionários públicos aumentou para os 66 anos; das 18 capitais de distrito apenas duas vão ter os serviços dependentes da autarquia em funcionamento na próxima terça-feira já que os respectivos municípios ignoram as orientações do Governo e dão tolerância de ponto no Carnaval.


 


ARCO DA VELHA - Em Loures um homem de 39 anos matou um vizinho de 35 anos a tiro por causa de uma discussão sobre o lugar de estacionamento do carro da vítima.


 


FOLHEAR - Confesso que a minha edição preferida da revista “Vanity Fair” é a do mês de Março, o célebre “Hollywood Issue”, dedicado aos Oscars do cinema. Desde a produção fotográfica da capa e do interior, até à escolha dos temas e dos intervenientes, esta é sempre uma edição espantosa. A capa, desdobrável, com o triplo do tamanho habitual, é feita mais uma vez, por Annie Leibowitz - que por estes dias vê a Taschem editar a edição especial de uma colectânea de retratos que ela fez ao longo de 40 anos numa edição especial de 476 páginas, com 70 cms de altura, cerca de 25 kgs de peso e que é vendido em conjunto com uma mesa de apoio desenhada por Marc Newson; algumas dessas fotografias estão nesta edição da “Vanity Fair”. Mas voltemos à revista - logo de entrada há quatro dezenas de páginas de fantástica publicidade das melhores marcas de moda. O tradicional retrato do mês mostra Ellen de Generis - e o editor Graydon Carter explica porque é que a escolha não recaíu, por exemplo, em Gwineth Paltrow, numa das suas melhores “Editor’s Letter” que me lembro de ler. Mas o prato forte desta revista é o portfolio do fotógrafo Chuck Close que mostra 20 retratos de estrelas do cinema - eu destaco a maneira como ele mostra Brad Pitt, Robert de Niro, Martin Scorsese,  Julia Roberts, Forest Whitaker, Bruce Willis, Sean Penn, Dustin Hoffman, Jessica Lange, Javier Barden, Herrison Ford e Steven Spielberg. Outro fotógrafo em destaque nesta edição é Sid Avery com as suas fotografias do quotidaino - como Brando a levar o lixo, Paul Newman em casa ou Elisabeth Taylor num intervalo de filmagens.


 


VER - Para mim, Rui Chafes aborda sempre a sua produção artística como uma reflexão filosófica - pelo menos é isso que sinto e é isso que me atrai nele desde que comecei a ver as suas obras - e as primeiras que vi foram as do hall de entrada do então recém inaugurado CCB. Trabalhando a escultura em metal, Rui Chafes paradoxalmente desafia a massa específica do material que usa e dedica-se a criar aparências de leveza. Por isso é tão bem achado o título desta exposição, “O Peso do Paraíso”, que mostra trabalhos feitos ao longo dos 25 anos de carreira de Rui Chafes, e que até 18 de Maio vai estar no interior do centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian e no jardim que rodeia o edifício. São peças notáveis - umas pela dimensão, outras pelo equilíbrio, outras pelo desafio. Não se fica indiferente face a uma obra de Rui Chafes e quem visitar esta exposição perceberá a forma como ele envolve, sem ser exibicionista. O equilíbrio, quando é delicado, fica sempre no pensamento.


 


OUVIR - Beck Hansen vive em Laurel Canyon, estrada de artistas de vários ofícios. O grande bluesman John Mayall fez em tempos, nos final dos anos 60, um álbum com o nome desta estrada. Dali vê-se Los Angeles e vislumbra-se Hollywood. Beck sempre quis ser um trovador moderno mas nunca esteve tão perto de o conseguir como neste seu 12º disco, “Morning Phase”. Há seis anos que não vinham novidades do seu lado, desde “Modern Guilt” de 2008. Mas aqui há de alguma forma um revisitar do seu trabalho de 2002, “Sea Change”. Há neste novo disco rastos mais evidentes e claros dos Byrds, de Neil Young é claro, mas também de Crosby, Stills & Nash ou dos Mamas & The Papas - e arrisco dizer que Buffalo Springfield passou por aqui - este é um revisitar do melhor que a west coast tinha para oferecer na segunda metade dos anos 60 e no início dos anos 70. Destaco “Heart Is A Drum”, “Turn Away” e sobretudo o poderoso “Blue Moon!”, cujo verso inicial resume tudo: “I’m So Tired Of Being Alone”. A primeira canção, “Morning”, conta a origem das coisas: “”Woke up this morning/ from a long night in the storm”. Este é um daqueles discos que vai estar na lista dos melhores deste 2014. (CD Capitol/ Universal)


 


PROVAR - Em Lisboa, nas Avenidas Novas, abriu já este ano uma mercearia e restaurante que é uma tentação a qualquer dieta. Chama-se “Aromas da Beira Baixa” e propõe pratos do dia como maranhos, lombo de porco com arroz de carqueja ou bucho recheado da Sertã - e tudo feito com preceito. Para os apreciadores de petisco há tábuas de queijos e enchidos, tapas variadas e as tradicionais tibornas. Na zona da mercearia, para quem quiser levar os petiscos para casa, estes “Aromas” oferecem uma selecção de queijo e de enchidos, entre os quais o célebre queijo amarelo da Beira Baixa, ainda recentemente louvado pela revista norte-americana “Saveur”. Para acompanhar propõe o afamado pão de Penha Garcia, estando igualmente disponível uma iguaria que é a bica de azeite (noutras regiões conhecido como bolo de azeite). Para rematar há biscoitos, compotas, chás de cultivo biológico da marca Ervas de Zoé, como um de Erva Príncipe. Nas compotas destaque para umas de ginja e de cereja recomendáveis a diabéticos e ainda uma de maçã e castanhas recomendada a todos. Nas prateleiras há ainda vinhos e azeites da região, tudo a preços sensatos. O almoço com o prato do dia, sopa e sobremesa fica por sete euros. A casa é simples e despretenciosa, o serviço é atencioso e simpático, quase familiar. Estes “Aromas da Beira Baixa” estão abertos de segunda a sábado, das 11 às 20, na Av. Marquês de Tomar nº 38.


 


DIXIT -  “Sem ir aos municípios, que são o osso duro de roer, não há reforma do Estado - com as freguesias era só riscar, não se ganha nada porque os municípios continuam a gastar” - António Barreto


 


GOSTO - Da assinatura da nova campanha publicitária da EDP, “a energia que nos une”.


 


NÃO GOSTO - Portugal tem a quarta maior taxa de desemprego da União Europeia



BACK TO BASICS - Não interessa se vamos muito devagar, o que interessa é nunca parar - Confúcio

fevereiro 21, 2014

E SE O CARRO DOS SORTEIOS CALHA A QUEM NÃO TEM CARTA?

COISAS - Esta semana dei comigo a pensar que os sorteios em que o Fisco vai oferecer carros aos contribuintes bem comportados pecam por poderem incorrer num agravar de desigualdades: e se os carrinhos saírem a cidadãos sem carta de condução, que podem eles fazer com os veículos? Estava eu a remoer  nisto dos veículos quando, num destes dias de chuva farta, reparei numa diligente brigada da EMEL bloqueando carros, que estavam bem estacionados, mas já com o tempo da vinheta excedido: de repente fez-se-me luz! O fisco oferece carros para contribuir para o aumento das receitas das multas e, no caso de Lisboa, para ver se consegue melhorar a situação financeira da EMEL.  Ocorreu-me então que se a Câmara Municipal de Lisboa fosse tão diligente a reparar as crateras que infestam as ruas lisboetas, como os esbirros da EMEL são pressurosos a passar multas e a bloquear, seria um prazer confortável andar de automóvel em Lisboa, em vez do presente raid de todo o terreno oferecido pela autarquia: atribulada é a estrada que leva a Belém - metaforicamente falando no caso de António Costa, muito na realidade constantando no caso dos condutores alfacinhas que para lá se queiram dirigir. Estava eu absorto a pensar nestas coisas quando constatei que foi em vésperas do Congresso do PSD que Vitor Gaspar apareceu numa encenação perfeita da recomposição do bloco central: o livro sobre as amarguras de um ex-Ministro das Finanças, designado pelo PSD, foi didaticamente apresentado por António Vitorino, um ex-Ministro socialista que se demitiu por uma questão relacionada com um pagamento de sisa ao Fisco. A plateia estava repleta de ilustres do PSD e sem uma alma próxima do CDS/PP. Olhando para o cenário ocorreu-me que gostava de saber se Rui Rio e António Costa trocarão SMS’s sobre os seus respectivos futuros durante o conclave do PSD que neste fim de semana abrilhanta o cartaz do Coliseu dos Recreios, em Lisboa. A História segue dentro de momentos.





SEMANADA - Uma sondagem do “Correio da Manhã” revela que três em cada quatro portugueses não tem confiança na CRESAP, o organismo que faz a selecção de recrutamentos para a administração pública, dirigido pelo senhor Bilhim; no final de 2013 o Estado totalizava 563 595 funcionários, menos 123 mil que em 2011; diversos tipos de fraudes lesam o Serviço Nacional de Saúde em mais de 200 mil euros por dia; a banca portuguesa eliminou mais de quatro mil postos de trabalho em três anos; Portugal foi o segundo país europeu com maior queda no consumo de energia, uma diminuição de 15,2% entre 2006 e 2012; a entrada de imigrantes indocumentados nos países da União Europeia aumentou 48% no ano passado; foi descoberta uma rede que proporcionava noivas portuguesas a imigantes ilegais a troco de 11 mil euros; perto de 30 municípios precisam de ajuda financeira urgente;  a Câmara de Cascais assinou um acordo para manter o horário de 35 horas semanais, em vez das 40 preconizado pelo Governo; o novo Presidente da Câmara Municipal de Gaia anunciou não dispôr de um milhão de euros para financiar o Mundial de Futebol de Praia em 2015, que tinha sido negociado por Luis Filipe Menezes com a Federação Portuguesa de Futebol; comentando a legislação que estabele a transferência de competências dos municípios para as freguesias, o Presidente da Cãmara de Aveiro, Ribau Esteves, afirmou que “esta lei foi feita de forma desgarrada com aquilo que é a sustentabilidade financeira para a executar”.


 


ARCO DA VELHA - Uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça considerou, num processo de divórcio baseado nas queixas de uma mulher que foi vítima de violência doméstica, que o facto de a mulher não ter saído de casa após o espancamento significa que a vítima perdoou ao marido.


 


FOLHEAR - Henri Cartier-Bresson, um dos maiores nomes da fotografia, morreu em 2004 e agora, no décimo aniversário da sua morte o Centre Georges Pompidou mostra uma exposição sobre toda a sua carreira, desde as primeiras fotografias que fez em finais dos anos 20, até aos desenhos, a que regressou no fim da vida. A exposição tem cerca de 500 trabalhos e documentos e mostra que não existiu apenas um Cartier-Bresson, evidenciando a evolução e as transformações que o seu trabalho foi tendo ao longo dos anos. A exposição estará patente até 9 de Junho e foi o pretexto para uma edição especial, fora-de-série, da revista semanal francesa “Le Nouvel Observateur”. Sob o título “O fotógrafo do século”, esta edição recolhe textos e depoimentos de contemporânneos de Cartier-Bresson, como Raymond Depardon, Sebastião Salgado e Josef Koudelka, evoca algumas das suas grandes reportagens, como nos Estados Unidos, México, União Soviérica e China, percorre a aventura que foi a fundação da agência fotográfica Magnum e fala de outras aspectos mais pessoais da sua vida. A exposição foi comissariada por Clément Chéroux, que dirigiu o catálogo (que pode ser adquirido na Amazon França), assim como o documentário “Le Siécle de Cartier-Bresson”, realizado porPierre Assouline para a ARTE. A edição especial da revista está já disponível em Portugal por €8.20 e tem 106 páginas. Uma edição para guardar.


 


VER - Estamos em época alta de exposições - por exemplo Rui Chafes na Gulbenkian, Ana Jotta na Culturgest, Michaelangelo Pistoletto no BES ART. Menos mediatizada mas muito interessante é a exposição de  Rui Sanches na Fundação Carmona e Costa, “Dentro do Desenho”, comissariada por João Pinharanda. Mais conhecido pelas suas esculturas, Rui Sanches apresenta aqui 60 desenhos, feitos ao longo dos últimos 30 anos. Quem tem seguido a sua obra sabe que o desenho surge naturalmente a par das suas esculturas e recorre a diversas técnicas e materiais que utiliza sobre o papel que lhe serve de base de trabalho. “Como síntese de uma atitude que abrange toda aobra de Rui Sanches, assistimos a uma organização do ver pensada do interior para o exterior” - escreve João Pinharanda no catálogo da exposição, sublinhando: “Tudo passa para dentro do desenho, tudo se passa dentro do desenho, tudo passa de dentro do desenho para fora dele”. A exposição está no Espaço Arte Contemporãnea da Fundação Carmona e Costa até 22 de Março, sempre de quarta a sábado, entre as 15 e as 20 horas. No mesmo local, mas no Espaço Artes Decorativas, fica até final do ano um projecto de Paulo Brighenti, “Pó”, neste caso um desenho de grande escala e uma caixa com cinco desenhos, ambos surpreendentes.


 


OUVIR - O quarteto do pianista de jazz norueguês Tord Gustavsen tornou-se particularmente notado com o seu disco “The Well”, de 2012. Já no início deste ano editou “Extended Circle” e mais uma vez faz da elegância e descrição da sua música o maior argumento. Há algo de tímido na sua sonoridade, entre o gospel e o insinuante funk do piano, há algo de orgulhoso no timbre do saxofone, há algo de magnético no entendimento do baixo e da bateria.  E sobretudo há uma forma apaixonada - e mais jazzística do que nele é costume - de percorrer o piano, desenhando suaves e intensas baladas. Dos 12 temas, nove são originais de Gustavsen, dois são improvisações do quarteto e há uma versão de um tema tradicional norueguês - e todas se sucedem de forna natural, na continuidade uma da outra, formando uma obra única. (CD ECM, na Amazon).


 


PROVAR - Em Lisboa, já se sabe, existem muitas nações e evocações de lugares distantes.  Em plena Pampulha, na intersecção da Infante Santo com o fim da Rua do Sacramento a Alcântara e o início da Rua Presidente Arriaga, há um pequeno restaurante nepalês, com uma escassa dúzia de mesas. A clientela é variada, desde diplomatas fardados de espiões (certamente saídos do vizinho Ministério dos Negócios Estrangeiros), até passantes de ocasião ou orientalistas dedicados. No local há as cores e fragrâncias da Ásia. Os pratos do dia podem incluir um caril de javali ou de veado, o pão com alho é delicioso e feito em forno de carvão, os preços são módicos. A comida é fundamentalista, o arroz é feito ao vapor, vem solto e aromático,  e é perfeito. Está aberto todos os dias, só encerra no Domingo ao almoço. Chama-se Himchuli e fica na Rua do Sacramento a Alcantara nº13, com o telefone 213 901 722.


 


DIXIT - "Quando alguém, no Canal do Panamá, abre a janela, que vê em frente? - Sines, um porto very beautiful" - António José Seguro na conferência da revista The Economist, em Cascais.


 


GOSTO - Do livro “Escrita Íntima”, que recolhe correspondência de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, entre 1932 e 1961.


 


NÃO GOSTO - Há 44 autarcas investigados por corrupção pela Procuradoria Geral da República, e há cerca de 80 processos de investigação que envolvem corrupção no poder local


 


BACK TO BASICS - “O que já fiz não me interessa. Só penso no que ainda não fiz” - Pablo Picasso


 

fevereiro 14, 2014

Sobre exemplos e disciplina na política à portuguesa

DISCIPLINA - Quem se coloca na posição de querer exigir disciplina tem que ser um exemplo - deverá dar-se ao respeito, tomar decisões de forma acertada, procurar persuadir em vez de impôr, explicar em vez de obrigar. Estas coisas de senso comum não são no entanto bem entendidas pelos partidos políticos, que desenvolvem e radicalizam um sistema de obediência cega sob o pretexto de conseguir a unidade na acção, nomeadamente quando se entende por acção tomar o poder, mesmo que seja por votos. O sistema de obediência e de seguidismo acentua-se à medida que os partidos se cristalizam no exercício do poder e se tornam máquinas distanciadas dos comuns dos mortais. Como bem se sabe a vida interna da generalidade dos partidos parlamentares resume-se a processos de tomada de poder a nível local, depois regional e, com sorte, a nível nacional. Discussão há pouca, os Congressos são momentos mediáticos e de exaltação dos dogmas e há muito tempo que não proporcionam surpresas. Em todo este processo o sistema de escolha de candidatos é uma das grandes paródias, destinado a alimentar clientelas de apoiantes e a fazer uma distribuição de influências. Em resumo, anulam-se os opositores e promovem-se os apoiantes. Quem não concorda deve ficar calado e obedecer. Quem se rebela tem por destino a excomunhão, que nestas coisas estatutárias recebe o nome de expulsão. Nas mais recentes eleições autárquicas o PSD escolheu, numa série de locais, candidatos que não eram desejados por muita gente do partido, com maior ou menor influência; em resultado disso surgiram diversas listas independentes que arregimentavam apoios diversos e que, em alguns casos politicamente significativos, derrotaram os candidatos oficiais que foram impostos pela direcção nacional. O mais extraordinário desta história é que os responsáveis pelo desaire eleitoral do PSD nesses locais, os que traçaram a estratégia autárquica, e aqueles que impuseram nomes e listas, não são penalizados por terem provocado cisões; mas aqueles que, em nome da sua consciência, agiram contra as ordens partidárias, são agora expulsos. Eu acho que isto é ver o mundo ao contrário, mas pelos vistos isso é o que está a dar nos tempos que correm.


 


SEMANADA - Entre 2019 e 2013 o endividamento público aumentou mais de 71,5 mil milhões de euros, ou seja um crescimento de cerca de 54%; o número de insolvências caíu 10% em 2013; os empréstimos da banca às empresas aumentaram 18%; mais de 16 mil famílias saíram da situação de incumprimento no ano passado; em 2013 entraram em incumprimento 2046 empresas; os tribunais apenas conseguem cobrar 7,6% das dívidas das empresas; a previdência paga subsídios e pensões a quatro milhões de beneficiários; a segurança social perdeu 350 mil contribuintes desde 2008; inquérito a crimes de corrupção cresceu quase 40% em três anos, mas as taxas de acusação estão abaixo dos 25%; em 2013 registaram-se  557 crimes por dia em Lisboa; Vitor Gaspar afirmou, numa entrevista para um livro, que o facto de ter corrigido ideias de Catroga antes das eleições foi uma das razões para ter sido escolhido para Ministro; dias mais tarde Eduardo Catroga desmentiu a versão de Vitor Gaspar sobre o contributo que este teria dado para o programa eleitoral do PSD; Vitor Gaspar classificou Paulo Portas como uma pessoa com “uma enorme ambição”; Fernando Tordo anunciou que irá viver para o Brasil por estar “cansado de ser governado por incompetentes”; segundo a Marktest, ao longo do segundo semestre de 2013, acederam a sites de jornais, revistas e de informação online cerca de 5 milhões de portugueses; uma colecção de uma centena de obras emblemáticas da chamada “arte povera”, pertencentes a um casal de coleccionadores italiano, foi vendida terça-feira passada em Londres pela Christie’s sem escândalo nem polémica.


 


ARCO DA VELHA - Rui Rio apoiou politicamente a eleição de Rui Moreira no Porto, contra um candidato do PSD, e não lhe aconteceu nada; António Capucho fez o mesmo em Sintra e foi expulso do partido.


 


FOLHEAR - A “Aperture” é uma das melhores revistas sobre fotografia. É publicada quatro vezes por ano, cada edição com o nome da estação respectiva. Cada número tem um tema, que lhe dá título, o deste Inverno é “Photography as you don’t know it”. O editorial, com o mesmo título, começa com uma pergunta: “Será que a história da fotografia está a chegar ao fim, ou estará apenas no seu início?”. Com a transição da película para o digital e, depois, com a vulgarização da captação de imegam nos telemóveis e em aparelhos com permanente ligação à internet, a pergunta ganha uma dimensão especial - e ao longo deste número a “Aperture” tenta mostrar exemplos da vitalidade e diversidade da fotografia. Permito-me destacar o artigo de Joel Smith, precisamente sobre a História da Fotografia e destaco ainda a entrevista com Quentin Bajac que deixou Paris e o Centro Pompidou para ser o novo Conservador principal de Fotografia no MOMA, em Nova York. Muito acertadamente sublinha que a grande questão que se lhe coloca hoje em dia é conseguir seleccionar o que vale a pena num fluxo cada vez maior de imagens fotográficas, que todos os dias aumenta. A secção Pictures desta edição mostra o trabalho de dez fotógrafos pouco conhecidos, cada um com um portfolio, acompanhado por um texto que enquadra o autor. Um deles é o fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel (1924-2009) e o texto que o apresenta foca a sua importância no contexto da fotografia africana, nomeadamente do fotojornalismo na época colonial. Oito fotografias, da década de 60 e 70 exemplificam o seu trabalho, hoje depositado no Centro de Formação Fotográfica de Maputo.


 


VER - Desde há mais de duas décadas José Maçãs de Carvalho vem fazendo fotografia, primeiro na sua zona de conforto, da terra onde nasceu e cresceu, e depois alargando o olhar, sobretudo a Oriente nos anos mais recentes. Ao mesmo tempo faz incursões no universo de video, mas sempre com o espírito de observação que é a sua imagem de marca. O Arquivo Fotográfico de Lisboa mostra até 8 de Março a exposição “Arquivo e Domicílio”, que percorre a sua carreira, juntando imagens de várias épocas que podem ter leituras comuns ou complementares. Desenvolvendo-se nos dois pisos do Arquivo, a exposição permite ver no piso inferior os mosaicos que compõem a memória de imagens do autor, e, no piso superior, memórias mais pessoais ligadas à história das próprias fotografias mostradas - quase apontamentos visuais. Neste sábado, 15 de Fevereiro, pelas 15h00, José Maçãs de Carvalho apresenta no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246, quase a chegar ao Martim Moniz), o livro “Unpacking - A Desire For The Archive” que percorre o tema da exposição - o processo de significação das imagens fotográficas do arquivo do autor. Trata-se de uma edição limitada a 50 exemplares, cada um manuscrito, o que os torna em objectos únicos.


 


OUVIR - Se eu entrasse numa sala e estivesse a tocar o álbum “Saturday Morning”, dificilmente diria que o pianista que comanda as operações tem 83 anos - mas essa é a verdade. Ahmad Jamal consegue ainda surpreender - como um jornal norte-americano dizia, depois de anos de aquecimento ele está em grande forma. Em 2011, no álbum “Blue Moon”, Jamal interpretava temas de filmes e de espectáculos da Broadway, mas neste novo registo, efectuado em França, no estúdio La Buissonne, a maioria dos temas - sete em onze - são originais seus (e mesmo os que tinham já sido anteriormente gravados, aparecem aqui em novas versões). Os outros temas incluem três baladas - “I’ll Always Be With You” (numa fantástica interpretação), “I’m In The Mood For Love” e “I Got It Bad Ana That Ain’t Good”, e ainda um dos temas preferidos do pianista, “One”, de Sigidi. Ao longo de todo o disco Ahmad Jamal toca com um à vontade notável, claramente satisfeito com os músicos que o acompanham - Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria e Manolo Badrena na percussão. Ainda inesperado, ainda inovador, dando espaço à improvisação, Ahmad Jamal tem aqui um dos discos mais representativos do seu estilo e mais elucidativos sobre o seu talento e técnica.


 


PROVAR - Que fazer numa tarde de fim de semana de chuva e algum vento, quando se quer comer peixe fresco ao pé do mar e não muito longe de Lisboa? Uma boa possibilidade é ir ao Bar do Peixe, em Alfarim, no Meco. Para quem gosta de ver o mar no Inverno, poucos restaurantes da costa portuguesa aliam a localização privilegiada do Bar do Peixe à qualidade da matéria prima - peixe fresco, bem confeccionado, com bom serviço numa sala quente e confortável. Na circunstância as honras da casa foram feitas por umas ameijoas à Bulhão Pato que estavam impecáveis no tamanho e no tempero, seguidas de um pregado delicioso, acompanhado por verduras salteadas. Uma torta de laranja rematou o repasto, bem acompanhado por um branco da região de Azeitão. Eu, por mim, gosto mais de ver o mar sem ser no Verão, de preferência confortávelmente sentado, em boa companhia, com uma boa conversa servida por uma refeição sem mácula. Foi uma bela tarde de sábado. Bar do Peixe, telefone 212 684 732.


 


DIXIT - “Falta cumprir uma reforma do Estado inteligente” - Pedro Reis


 


GOSTO - Da nomeação de José Manuel Costa para a Cinemateca Portuguesa.


 


NÃO GOSTO - Em Lisboa os casos de violência na escola aumentaram 21,6% em 2013.



BACK TO BASICS - Os factos são incontornáveis, as estatísticas são mais maleáveis - Mark Twain

fevereiro 07, 2014

HABILIDADES DE COLECCIONADORES DE OPORTUNIDADES POLÍTICAS

HABILIDADES - Esta semana tive momentos em que me assaltou uma curiosidade enorme: quantos dos activistas anti-venda dos Mirós, que alguma vez estiveram em Barcelona, foram nessa ocasião visitar a Fundação Juan Miró no Parque de Montjuic e dedicaram verdadeiro interesse ao artista? Quantos destes activistas eram capazes de responder, sem pestanejar, quem desenhou o símbolo que Espanha usa nos seus cartazes turísticos? - sim, foi Miró, mas quantos o sabiam? A única coisa interessante de toda esta polémica é que nunca se falou tanto de Miró em Portugal como agora. Pelos menos alguns deputados são capazes de ter olhado para algumas reproduções e aumentado a sua cultura pictórica.


 


Mas convém recordar a origem destes quadros - um stock de obras, não verdadeiramente uma colecção. A maior parte será proveniente do acervo de uma galeria de Nova York, vendido em bloco quando a galeria encerrou, no início dos anos 80, a uma leiloeira internacional; o lote das obras de Miró terá ido posteriormente para Paris, e depois para o Japão, onde essas obras estiveram a partir do início da década de 90, até serem compradas pelo BPN na primeira metade da primeira década deste século. Pelo meios vários “marchands” esfregaram a mão de contentes, em França e em Portugal e foram fazendo circular e inflaccionar as obras.


 


Muito haveria para contar sobre o processo de constituição da colecção de arte que o BPN então quis fazer - quem aconselhou a compra, que a intermediou e quem ganhou as respectivas comissões. Nada disto releva de amor à arte ou ao coleccionismo, apenas especulação habilidosa que viveu do escasso conhecimento dos compradores sobre obras de arte. O resto, a que assistimos nestes dias, é oportunismo. A deputada Canavilhas, agora ululante, era à época da nacionalização do BPN Ministra da Cultura e há-de ter sabido da colecção - que conste conviveu com o arrolamento dos quadros para pagamento das falcatruas do Banco, e não há indício de ter tomado qualquer iniciativa para expôr as obras sobre as quais agora tantas lágrimas deramou. Alexandre Pomar, um respeitado crítico de arte, escreveu no seu facebook que o acervo de Miró no BPN era de fraca qualidade e que por isso logo se previu a sua venda após a nacionalização do Banco, admitindo, que, quanto muito, haja dois ou três quadros que talvez tivessem algum interesse. João Miguel Tavares, num artigo no Público, pôs o dedo na ferida: "Se tivesse 36 milhões de euros à sua disposição, preferia gastá-los em quadros do mesmo pintor, ou daria algumas oportunidades a outros artistas? E, se assim fosse, estou capaz de apostar que a paixão por Miró esmoreceria num ápice."


 


SEMANADA - Há 81 mil licenciados sem trabalho há mais de um ano, num total de 146 mil desempregados com curso superior; a RTP, a SIC e a TVI disputam a transmissão dos sorteios de automóveis do Fisco, que estão a ser preparados em colaboração com os Jogos da Santa Casa; a televisão por subscrição, vulgo cabo, aumentou de novo em 2013 e já cobre 79% dos lares portugueses; a penetração do Facebook em Portugal duplicou nos quatro últimos anos; nove em cada dez empresas em Portugal, Itália e Grécia dizem que subornos são prática generalizada entre políticos; dos 838 casos de corrupção que chegaram aos tribunais portugueses entre 2004 e 2008 apenas 8,5% tiveram conclusão até 2010 e apenas 6,9% resultaram numa condenação; o sistema judicial deixou prescrever sete mil crimes em cinco anos; os hospitais do serviço Nacional de Saúde terminaram 2013 com menos 1648 camas do que as que estavam instaladas há quatro anos; a população espanhola cresceu sete vezes mais que a portuguesa na última década; o PIB per capita em Portugal é 15.600 euros e em Espanha é de 22.300 euros; cada trabalhador português trabalha em média 42,6 horas por semana e em Espanha o horário médio de trabalho é de 41,6 horas semanais; em dois anos o PSD perdeu mais de 30% dos  seus militantes em Lisboa; a direcção do PS enviou um email a estruturas do partido a garantir não estar assustada com as eleições europeias.


 


ARCO DA VELHA - João Rendeiro disse que os seus clientes que se queixam do Banco Privado Português se sentem lesados por serem gananciosos.


 


FOLHEAR - Há quase 20 anos Edson Athayde, um publicitário que em 1991 havia vindo do Brasil para Portugal, editou “A Publicidade Segundo O Meu Tio Olavo”. O livro foi um sucesso imediato - a foma despretenciosa como estava escrito e a maneira como contava histórias eram irresistíveis e, à época, pouco usuais. Nalgumas escolas onde se ensinava publicidade e comunicação o livro passou a fazer parte do plano de estudos. Desde há muito que estava fora de mercado e o seu autor decidiu agora fazer uma nova edição revista, actualizada com novos exemplos, expurgada de dados que entretanto se desactualizaram. De igual apenas a mesma forma de escrita, o mesmo prazer de contar histórias e de partilhar experiências e conhecimento. Aqui está um novo guia para os próximos anos, destinado a quem gosta da publicidade, a quem vive a comunicação. Como diria o Tio Olavo, citado por Edson Athayde nas primeiras páginas do livro, “Difícil é aprender a ler. O resto está escrito” (Edição Chiado Editora)


 


VER - A galeria João Esteves de Oliveira, de arte moderna e contemporânea, dedica-se a trabalhos sobre papel. É uma das mais simpáticas a acolhedoras galerias lisboetas, em pleno Chiado. Sobretudo depois das obras de ampliação que teve há alguns anos, e que permitiram aumentar a sua área de exposição, ganhou uma outra dimensão. O seu fundador e proprietário, João Esteves de Oliveira, fez boa carreira na Banca mas em 2002 decidiu que esta seria a sua nova vida e desde então juntou um significativo leque de artistas e um público fiel. A especialização em trabalhos sobre papel permitiu-lhe também um posicionamento especial, que tem conseguido manter. Na semana passada inaugurou uma das mais marcantes exposições que lá vi nos últimos anos - “Terra”, de Miguel Branco. Na maioria são desenhos a carvão sobre papel - muito intensos, misturando referências da cultura popular com a história natural, percorrendo lugares diversos e remetendo para memórias de saberes acumulados. Seria simplista dizer que esta é uma viagem pelas teorias de Darwin e pelas polémicas livrescas, académicas e teológicas que elas desencadearam ao longo dos séculos.  É talvez melhor remeter para o título, e para o que ele evoca de história da Terra e de quem a habita. (até 15 de Março, Rua Ivens 38).


 


OUVIR - Existe uma velha discussão sobre se mandolim se deve traduzir por bandolim em português. A origem da palavra é italiana mas a questão tem também a ver com a forma e a sonoridade do instrumento musical - no fundo é um pequeno instrumento com quatro cordas duplas. O bandolim tem uma caixa mais circular, o mandolim é mais oval. Para o caso estou a falar de um músico israelita, Avi Avital, que toca mandolim e que faz adaptações muito livres de temas clássicos. O ano passado fez um disco com arranjos de composições de Bach e este ano aventurou-se em composições de Bela Bartok, Heitor Villa Lobos, Astor Piazzolla, Manuel de Falla, Antonin Dvorak, Sulkhan Tsintsadze, Ernest Bloch, Vittorio Monti, Ora Bat Chaim e temas tradicionais da Bulgária e do País de Gales. Em alguns temas, como na “Aria Cantilena” de Villa Lobos, , em vez da orquestra existe o mandolim, um duplo baixo e um acordeão, no caso tocado por Richard Galliano, que participa em três temas do disco - os outros dois são de Piazzolla e de Vittorio Monti, ambos igualmente surpreendentes. (Between Worlds, Avi Avital, CD Deutsche Grammophon


 


PROVAR - Embora seja um grande apreciador das conservas portuguesas em geral, e das de anchovas em particular, confesso que nesta especialidade as anchovas do Cantábrico, de Espanha, são um caso à parte. Experimentem-nas em cima de um pedaço de bom pão levemente tostado, acompanhem com um branco do Douro, tenham por perto umas azeitonas retalhadas, e está feito um belo petisco. Se quiserem levar a coisa ainda mais a sério incluam também uns boquerones e fica o caso arrumado. Experimentem isto na próxima vez que tiverem amigos em casa e verão o sucesso - em vez de uma entrada clássica, umas tapas destas para picar. Na loja Gourmet do El Corte Ingles encontram estas anchovas do Cantábrico que estão na fotografia e também belíssimos boquerones.


 


DIXIT - “Entre Pessoa e Almada, os portugueses votaram, aliás, em Salazar” - descrição do Portugal do século XX em dez palavras por José Augusto França, no “Expresso”


 


GOSTO - O governo espanhol anunciou que está a estudar uma descida de 11 pontos percentuais do IVA no sector da cultura, que assim poderá ficar nos 10% para bilhetes de teatro e espectáculos musicais. Em Portugal aplica-se nestes casos o IVA de 23%.


 


NÃO GOSTO - A corrupção na zona Euro custa 120 mil milhões de euros por ano aos respectivos Estados, e o financiamento dos partidos e a integridade da classe política estão no topo das suas causas.


 


BACK TO BASICS - “É das coisas mais simples que nascem as melhores ideias” - Juan Miró


 

janeiro 31, 2014

Porque hão-de ser os partidos, e não os eleitores, a escolher os eleitos?

ESCOLHA - Numa edição recente da revista do “Expresso” o sociólogo Pedro Magalhães fez uma das mais interessantes propostas que tenho visto nos últimos tempos. O que ele preconiza é que os eleitores possam escolher os deputados em que votam - ou seja, que depois de escolherem o partido em que querem votar, possam ordenar os deputados da respectiva lista pela sua ordem de preferência e não pela ordem decidida pelo aparelho partidário. Ora quer-me parecer que isto acabava com aquela triste cena das guerrinhas nos aparelhos partidários pelos lugares elegíveis, guerrinha que já se está a ver a ferver por causa das próximas eleições europeias - e ainda a procissão vai no adro. A mim agrada-me a ideia de não ter que votar em candidatos de que não gosto e escolher apenas aqueles com que mais me identifico - assim acabavam-se os deputados mudos, que passam uma legislatura sem abrirem o bico e que conseguem ir a votos sem que ninguém saiba o que pensam. Por exemplo, assim, mesmo que votasse no PSD, poderia não votar no deputado referendário Hugo Soares.. Talvez esta simples medida - que aliás já está em prática em alguns países - nos poupasse a espectáculos tristes.


 


SEMANADA - As mortes por pneumonia subiram 25% no espaço de um ano; as queixas de negligência médica quintuplicaram desde 2001; em Coimbra uma cozinheira do estabelecimento prisional levava substãncias ilícitas para distribuir dentro da cadeia; na cadeia de Custóias um guarda prisional cobrava aos detidos 200 euros por cada placa de 250 gramas de haxixe; os processos de falência, insolvência e recuperação de empresas cresceram 426,3% em seis anos; o crédito malparado das empresas triplicou entre o final de 2010 e o final de 2013; a Inspecção Geral de Finanças identificou 225,9 mil euros pagos indevidamente em subsídios para bilhetes aéreos a residentes nos Açores; a fiscalização a escolas de condução, centros de exame e centros de inspecção automóvel está quase parada por falta de carros de serviço para as deslocações; em Janeiro os 49 vistos “gold” renderam 27 milhões de euros de investimento; Passos Coelho foi reeleito líder do PSD com metade dos votos que tinha obtido em 2010 e também menos que os obtidos em 2012; “nesta fase do campeonato ficar-se pelos preliminares é de facto muito pouco” - disse Miguel Cadilhe sobre a Reforma do Estado;


no último ano os portugueses pagaram mais impostos sobre o tabaco do que sobre os combustíveis.


 


ARCO DA VELHA - “Nunca houve praxes violentas. Correu aliás sempre tudo muito bem nas brincadeiras que fizeram” - Manuel Damásio, administrador da Lusófona, em declarações feitas esta semana


 


FOLHEAR - Continuo a gostar de esperar todos os meses pela “Monocle”. Gosto de a folhear, ver o que tem a sugerir, ir descobrindo as suas páginas. Mesmo sabendo que muitas das matérias são fruto de iniciativas comerciais (que os nossos vizinhos espanhóis sabem bem explorar) e são uma espécie sofisticada de publicidade redigida, gosto do critério, da escolha, do alinhamento. Nesta edição, de Fevereiro Lisboa aparece bem representada e fala-se da Mouraria, do Martim Moniz, do reviver de toda aquela zona da cidade. É engraçado porque um estrangeiro consegue descobrir na nossa cidade encantos que nós menosprezamos e para os quais nem olhamos bem. Ao ver estas três páginas dedicadas à Mouraria, fico contente. Este número tem por tema a descoberta do mundo, sobretudo daqueles locais que são menos evidentes, ou mais arredados das rotas turísticas. Aquilo que gosto mais de ler, edição após edição desta revista, são as histórias de pessoas que mudam de vida para criarem alguma coisa de novo e pessoal, histórias de pequenas empresas baseadas em ideias simples e que permitem tornar-nos a todos mais humanos e mais próximos uns dos outros. Só por isso vale a pena seguir a “Monocle”.


 


VER - Gosto de visitar galerias, gosto de ver o esforço dos galeristas em descobrir e apresentar novos artistas, às vezes em os misturarem com nomes firmados. As galerias são locais onde se pode desfrutar arte sem nada pagar - a menos que possamos e queiramos comprar uma das obras expostas. São um verdadeiro serviço público, há muito mal tratado pelo Estado - que aliás prefere ir subsidiando autarquicamente uns festivais e feiras a apoiar uma actividade continuada. Já aqui ao lado, em Espanha, o IVA das transacções de obras de artes plásticas desceu para metade, ficando abaixo do português. Uma das coisas que me dá prazer é ver uma galeria a crescer -  gosto do ambiente das noites inaugurais, quando os artistas se cruzam com os seus coleccionadores, gosto dos fins de tarde a olhar para o que de novo se faz. Uma das mais recentes galerias de Lisboa - abriu há um ano - é a Belo-Galsterer, na Rua Castilho 71, r/c esq. Por estes dias podem lá ver a exposição “paperworks”, que junta trabalhos de Ana Jotta, Carolina Almeida, Cristina Ataíde (é dela o desenho na foto), Friederike Just, Juliane Solmsdorf, Marcelo Costa, Mário Macilau, Mel O'Callaghan, Miguel Branco, Pedro Calapez, Pedro Proença, Pedro Sousa Vieira, Rui Sanches e Susana Anágua. Nos próximos sábados decorrem encontros com artistas, sempre às 17h00 - amanhã, dia 1 com Miguel Branco, dia 8 com Cristina Ataíde, dia 15 com Pedro Proença e dia 1 com Ana Jotta e Rui Sanches.


 


OUVIR - O novo álbum dos Capitão Fausto, “Pesar o Sol”, revela uma assinalável evolução e maturidade face ao disco anterior, de estreia. Instrumentalmente mais coesos, sob um pano de fundo assumidamente rock, com evocações não saudosistas da pop portuguesa dos anos 70 e 80 (sentem-se momentos da Filarmónica Fraude e até mesmo, pontualmente, do Quarteto 1111), os Capitão Fausto são uma das poucas bandas que nos últimos anos conseguiram entrar no circuito dos festivais a cantar português, procurando uma sonoridade própria e fugindo aos estereotipos das modas internacionais. Só por isso merecem ser ouvidos. E este álbum, “Pesar o Sol”, tem boas canções como “Nunca Faço Nem Metade”, “Litoral” e sobretudo “Lameira”.


 


(DESA)PROVAR - Mal influenciado pelo blogue Mesa Marcada fui experimentar o Aron Sushi, a São Sebastião da Pedreira. Foi uma má decisão, em má hora tomada. O corte do peixe é rudimentar, a tempura é desinteressante e o arroz - critério decisivo neste género de casas - é absolutamente sensaborão. Acresce que o serviço, embora simpático, é distraído - e a lentidão da cozinha, mesmo com sala apenas meia cheia,  está na proporção inversa da qualidade e interesse do que de lá sai. Na realidade a coisa revelou-se msnos interessante que os sushis abrasileirados que por aí vão proliferando. É uma experiência que não irei repetir e que vivamente não aconselho. Mas, também, quem me manda acreditar num blogue que continua a elogiar o trabalho de Vitor Sobral na Cervejaria da Esquina?


 


DIXIT - “Neste momento, esperava-se uma estratégia concreta para atacar os grandes desafios da RTP (...) em vez disso optou-se pela criação de um Conselho Geral, uma nova estrutura que assumirá quase todas as competências da tutela, diluindo a responsabilização e tornando confusa a linha de comando. Só por sorte este orgão (...) contribuirá para um melhor serviço público” - Gonçalo Reis


 


GOSTO - O fotógrafo português João Pina viu o seu trabalho sobre as ditaduras sul americanas, “Operation Condor”, ser elogiado pelo blog de fotografia do New York Times e pelo ICP - International Center Of Photography.


 


NÃO GOSTO - O PSD anunciou que vai insistir no referendo que propôs sobre a adopção e coadopção mesmo que o Tribunal Constitucional o chumbe.


 


BACK TO BASICS - É muito importante sermos capazes de falar com pessoas com as quais discordamos, nem toda a gente tem que ser capaz de cantar a mesma melodia - Pete Seeger

janeiro 24, 2014

Manual de como como criar sururu parlamentar e baralhar as presidenciais

DRAMATURGIA - No espaço de uma semana Pedro Passos Coelho conseguiu que acontecessem duas coisas inesperadas: primeiro, com a inabilidade com que tratou da proposta senil de um referendo sobre a co-adopção, levou a que uma sua fiel apoiante, Teresa Leal Coelho, se visse obrigada a demarcar-se da forma como os deputados foram obrigados a disciplina de voto - a deputada manteve a coerência, demitiu-se de vice presidente da bancada social-democrata e o PSD mostrou o seu lado mais oportunista; e, em segundo lugar, com as considerações que o líder do PSD fez sobre as características que no seu entender deve ter um candidato presidencial, deu a Marcelo Rebelo de Sousa a oportunidade de encenar o seu momento irrevogável, abriu campo para que ele fique a controlar o tabuleiro do xadrez político e precipitou um debate interno sobre os candidatos presidenciais quando ainda nem os europeus se conhecem. A dúvida está em saber se tudo isto são sinais de desorientação ou apenas o regresso da arrogância do poder. Sob o signo do unanimismo, da obediência cega e de guiões preparados com definições de personagens muito fechadas, o próximo congressos do PSD promete ter o contexto dramático de uma farsa. Quando os políticos preferem fazer teatro a discutir ideias abrem o caminho para o desinteresse dos que não precisam dos partidos para viverem. Ficam com a plateia cheia dos que são pagos para bater palmas.


 


SEMANADA - O Tribunal Constitucional aceitou que nos Açores, em nome da insularidade, os funcionários públicos recebam subsídios do Governo Regional que compensam os cortes orçamentais; depois de Lisboa, a Câmara Municipal de Sintra decidiu manter o horário de 35 horas semanais para todos os funcionários municipais; as exportações portuguesas para Espanha subiram 9,8% nos primeiros 11 meses de 2013; a dívida pública espanhola caíu para 93,12% do PIB; segundo as previsões do Eurostat a dívida pública portuguesa rondará os 128% do PIB; o número de desempregados no final de Dezembro era de 690.535, menos 2,8% que no final de 2012; o número de licenciados no desemprego é de 93 mil, mais 5,3% que há um ano; os hipermercados extinguiram em dois anos mais de seis mil empregos; o investimento de portugueses em produtos de poupança do Estado ficou 813 milhões de euros acima do previsto; a Inspecção Geral da Administração Interna acusou escola de oficiais da PSP de más práticas de gestão; os colégios  do grupo GPS, suspeitos de uso ilegal de dinheiro do Estado, estavam ligados a responsáveis da área da educação de governos PS e PSD e receberam financiamentos públicos no valor de 81 milhões de euros em 2012 e 2013; o ex-bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, é candidato às eleições europeias pelo Partido da Terra, que no anterior acto eleitoral obteve 0,66% dos votos.


 


ARCO DA VELHA - A Casa Fernando Pessoa e a Egeac, a empresa municipal que a gere, adjudicaram vários serviços por ajuste directo, desde o final de 2012, a uma empresa que está sedeada em casa da sua directora, a escritora Inês Pedrosa.


 


FOLHEAR - Chama-se “Fragmentos - Poemas, Cartas e Notas Íntimas de Marilyn Monroe” e são 270 páginas de memórias de Marilyn. O livro já foi editado há algum tempo mas só agora me chegou às mãos. A direcção de edição é de Stanley Buchtal e Bernard Comment e foi editado pela Objectiva. O prefácio desta edição, intitulado “O Pó da Borboleta” foi escrito por António Tabucchi e ele salienta: “A imagem que Marilyn Monroe deixou no mundo das imagens esconde uma alma de que poucos suspeitavam (...) Este livro, com os documentos inéditos que contém, revela a complexidade que está por detrás da imagem”. O livro termina com o elogio fúnebre de Lee Strasberg na morte de Marilyn, onde ele diz: “Ela tinha uma qualidade lumninosa, uma combinação de melancolia, de esplendor e de desejo, que a colocava numa categoria à parte e, no entanto, dava a todos o desejo de participar, de partilhar esta ingenuidade infantil ao mesmo tempo tão tímida e tão vibrante. Esta qualidade era ainda mais evidente quando estava no palco (...) Não há dúvida de que se tornaria numa das maiores actrizes do teatro”.


O livro inclui reproduções de páginas dos cadernos pessoais de Marilyn - as suas notas mas também os seus desabafos, poemas que foi escrevendo, sobretudo nos anos 50, referências às leituras que ía fazendo, algumas inesperadas para muitos. Tem também relatos que ela foi escrevendo de episódios da sua vida, numerosas fotografias, descrições do quotidiano. No fim, o que nos fica é uma imagem de sensibilidade, para além do mito do desejo.


 


VER - A partir desta semana e até 15 de Março a Galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato) acolhe duas exposições bem diversas. De um lado está Cecília Costa, na sua quarta mostra individual na Galeria, desta vez constituída exclusivamente por fotografia, e que ilustra esta nota. São imagens trabalhadas em torno da luz, a luz que marca o instante em que foram feitas. São olhares intímos sobre momentos apenas aparentemente banais, sempre a deixar alguma coisa subentendida para além da imagem evidente - como aliás acontece também nos seus desenhos. Do outro lado da Baginski está "A Viagem da Sala 53", um projecto com curadoria de João Silvério onde se destaca a peça de Ana Vidigal, mais uma vez construída de frases banais mas certeiras e intencionais, elas próprias fragmentos de memórias, colocadas sobre documentações que evocam tempos reais e já passados, numa dimensão impositiva, tanto quanto permite a rotina de folhas seguidas de um livro de registos tiradas do seu contexto e forma.


 


OUVIR -  Leyla McCalla tem formação clássica como violoncelista e foi criada em Nova Iorque numa família de origem haitiana. Nesta sua estreia em disco a solo pegou em poemas de Langston Hughes, um dos mais influentes representantes de uma movimento dos anos 20 do século passado que ficou conhecido como Harlem Rennaissance - poeta, dramaturgo, novelista, colunista, Hughes desenvolveu nos seus poemas, feitos a pensar no jazz, um estilo lacónico e sincopado. E é a partir dos seus poemas que McCalla trabalhou e compôs, para os interpretar de forma inesperada. Como ela agora vive em Nova Orleães escolheu também cinco canções creoulas tradicionais que funcionam como contraponto às de Hughes. O resultado, muito graças ao estilo vocal de McCalla, desprendido, simples, mas quente e aveludado, é surpreendente - tal como os arranjos: ela dedilha o violoncelo, usa um pouco de banjo e de baixo e umas percussões ocasionais. Procurem o video de uma das melhores canções do disco, “Heart Of Gold” no YouTube e, se gostarem, encomendem o CD na Amazon, que por cá dificilmente o encontram. Uma curiosidade, o álbum chama-se “Vari-Colored Songs: a Tribute to Langston Hughes” e foi fruto de um processo de crowd funding, pela plataforma kickstarter, que angariou cerca de 20 mil dolares e que permitiu a Leyla concretizar o projecto.


 


PROVAR - Localizado no Cais do Sodré, onde durante anos funcionou o Bar do Rio, o novo Station combina um restaurante no piso térreo com um bar de música no primeiro andar - um palco para DJ’s, ou não fosse Tó Ricciardi um dos promotores desta casa. O restaurante, dirigido pela chef Leonor Manita baseia-se em sabores asiáticos, principalmente o tailandês e o vietnamita. Comecemos pela sala - confortável e espaçosa, o serviço é simpático e as empregadas de mesa usam uns originais aventais da G Star Raw. A lista de vinhos é comedida na variedade e honesta nos preços. Provou-se, de entrada, uma sopa tailandesa com camarão, citronela e coentros, que excedeu as expectativas, e umas espetadas de camarão grelhado com molho teriaki, que estavam um pouco secas. Nos pratos principais muito boa nota para o caril vermelho de gambas, vieiras e lulas, uma receita tailandesa, e também para uma phad thai, uma massa com frango e gambas que estava bem no ponto. Para rematar, o gelado de manjericão - que era o gelado do dia - ganhou aplauso. A banda sonora foi soul music em bom nível e a vista, magnífica, do Tejo esteve em pano de fundo. Era uma quinta feira à noite e o restaurante estava praticamente cheio. Aqui está um local onde voltarei com prazer. Reservas pelo telefone 210 116 546 ou o mailreservas@station-club.com .


 


DIXIT - “Teremos uma campanha populista como poucas vezes se viu em Portugal” - Francisco Louçã, na SIC Notícias, sobre as próximas eleições europeias.


 


GOSTO - Da vivacidade com que o novo ano começa em termos de novos projectos de informação, com o sector digital particularmente animado.


 


NÃO GOSTO - De praxes académicas, da mesma forma que nāo gosto de praxes em geral, e da mesma forma que nāo entendo como podem as universidades tolerar a humilhaçāo como uma rotina.


 


BACK TO BASICS - Os políticos deviam ler ficção científica em vez de cobóiadas, histórias de aventuras e romances policiais - Arthur C. Clarke


 


(Publicado n'A Esquina do Rio, caderno Weekend, Jornal de Negócios de 24 de Janeiro)

janeiro 10, 2014

SOBRE A DIVERSÃO EUROPEIA

KÊÊÊÊ ? - Este ano, lá para Maio, acontecem as eleições para o Parlamento Europeu, uma instituição à espera que se descubra para que serve e qual o contributo que proporciona aos europeus, para além de garantir uma sinecura àquele pessoal político que os partidos querem recompensar ou exilar para Bruxelas, dois verbos que no europês têm tendência a confundirem-se. Uma coisa que a crise em curso fez evidenciar é a inutilidade do Parlamento Europeu face às instâncias não eleitas, das troikas aos bancários centralistas como o nosso estimado Constâncio que, por cá, no Banco de Portugal, foi suficientemente míope para não ver o elefante em loja de porcelana que se desenhava no BPN. No Parlamento Europeu pouco se faz além de preparar conspirações, como a que o prezado Rui Tavares urdiu em relação ao Bloco. O resultado da inutilidade deste orgão flutuante entre Bruxelas e Estrasburgo e a alegada importância do seu simbolismo político (que costuma ser o argumento dos seus defensores) vão cair redondos por terra quando a maioria dos seus novos deputados fôr de uma direita pouco ortodoxa e completamente fora dos cânones dos poderes vigentes, como provavelmente se verá nos idos de Maio. Não é a primeira vez que a Europa faz de coveira de si própria, mas desta feita a coisa arrisca-se a ser mais ruidosa porque a menina Le Pen não é rapariga para fica descansadinha a um canto sem se fazer ouvir - sobretudo quando se sentir muito acompanhada e aconchegada. O nosso calendário é este: uma aflição em Maio nas eleições europeias, uma incógnita em Junho com a saída da troika e uma festa permanente em Julho com o Mundial de Futebol. Uma animação…


 


SEMANADA - Um dos efeitos colaterais da troika foi tornar a palavra “recalibrar” uma dos termos mais usadas no início de 2014; numa reunião com membros do Parlamento Europeu sobre a avaliação da intervenção da troika  José Sócrates recusou-se a assumir erros na definição das metas propostas no memorando que então assinou; na mesma reunião Sócrates excluiu Teixeira dos Santos da delegação de ministros do seu Governo que estiveram ligados ao pedido de resgate; em 2012 quase metade dos proprietários de lojas de rua em Lisboa foi vítima de furto, injúrias ou vandalismo; as compras com multibanco no Natal aumentaram 4,6%; em 2013 foram constituídas 35.296 empresas, o que representa um crescimento de 12,8% face a 2012; 2013 foi o primeiro ano desde 2009 em que se verificou uma descida do numero de insolvências face ao ano anterior; numa escola de Lisboa um erro informático deixou 30 crianças sem almoço; uma empregada de limpeza roubou 30 telemóveis nas instalações da Polícia Judiciária; os sindicatos dos trabalhadores do Município de Lisboa e da Administração Local fizeram um balanço positivo da greve à recolha de lixo e admitem novas formas de luta.


 


ARCO DA VELHA - Um relógio de contagem decrescente, que aponta os dias até à saída da troika, inaugurado por Paulo Portas, apareceu errado e dava aos credores mais um mês de permanência em Portugal.


 


FOLHEAR - Julian Barnes é um dos escritores de que gosto.  Escreveu recentemente “Os Níveis da Vida”, “Levels of Life” no original e, com ele,  ganhou o Man Booker Prize. O prémio é absolutamente merecido porque se trata de um dos mais apaixonantes livros de amor que li nos últimos anos e bons livros de amor, uma coisa rara,  ultrapassam qualquer prémio. Algumas pessoas podem pensar que é um livro sobre a morte, da mulher de Barnes, Pat Kavanagh, que foi a sua agente literária.  Mas não - esta é uma obra sobre o amor e o vazio, que é outro lado do amor. Não me lembro de ter lido livro tão duro e tão apaixonante como este nos últimos tempos. É curto, lê.se numa noite e fica toda a vida, marcado entre os devaneios sobre as aventuras  dos balões que atravessam o canal da Mancha e as fotografias de Nadar que preparam o terreno para esta coisa tão simples - e tão rara - que é gostar perdidamente de alguém, gostar ao ponto de todos os minutos serem uma aventura vivida.


 


VER - Estava para escrever sobre umas exposições que vão abrir, depois sobre o Salão de Inverno d’A Pequena Galeria (fotografia, Avenida 24 de Julho 4C), mas no fim desisti porque não encontrei nada que me seduzisse e porque gosto pouco das fotografias recentes de Augusto Alves da Silva, que aparece a abrir o respectivo site. Como hoje em dia gosto de ver exposições virtuais e digitais (deve ser efeito da crise…) fico-me assim  por um site e uma aplicação para iPhone intitulada Artsy (aqui mostrada em imagem), que nos dá acesso a galerias de todo o mundo e a obras que lá estão expostas. Podemos escolher locais, géneros,  e também percorrer as sugestões apresentadas, ver uma selecção de obras, da fotografia à escultura, que estão á venda e ter uma ideia do seu preço. É como ter uma galeria no bolso ou no ecrã do computador. Por estes dias o patrocinador da aplicação é o museu de Arte de Singapura e a sua Bienal. Percorrendo a aplicação vemos obras que estão à venda em galerias em todo o mundo e podemos ter uma ideia melhor do que se vai passando por esse mundo fora.


 


OUVIR - Não gostava geralmente de discos pop portugueses cantados em inglês. Pareciam-me uma incongruência, mas estou disposto a achar que nesta segunda década deste século é um bocado absurdo ter os pruridos dos anos 80 do século passado. Já tinha gostado do disco anterior de uma banda portuguesa chamada You Can’t Win Charlie Brown, mas o seu novo trabalho, “Diffraction”, supera as minhas expectativas e reconcilia-me com o pop português. Nem sei se a banda acha graça a que eu lhe  chame pop - mas na minha cabeça, e com muito elogio incorporado, é isso mesmo que eles são - fazem canções que podem ser bem populares, bem construídas sem serem foleiras, atraentes sem serem corriqueiras. Ouve-se “Post Summer Silence” e apetece sentir o sabor dos tempos que vivemos. Ouve-se “Heartt” e sente-se a pele. Ouve-se “Under” e sente-se o corpo. Gosto desta banda, gosto deste disco. Vão tocar proximamente no CCB. Estejam atentos


 


PROVAR - Isto hoje é uma receita, simples, aliás. Foi executada horas antes destas páginas ficarem escritas. Começo por explicar que gosto de massas, sobretudo de penne, aqueles pequenos cilindros que absorvem bem paladares. Estes eram da marca Barilla e, na embalagem, requerem 11 minutos de cozedura que eu geralmente reduzo a 9. Foram cozidos em água com azeite, sal e piri piri. A água tinha antes servido para cozinhar pequenos camarões congelados, que foram extraídos antes de a massa entrar na água já em ebulição. Ao mesmo tempo que uma tigela de penne, atirei para  a água meia dúzia de tomates cherry maduros cortados ao meio. No entretanto abri e escorri uma lata dos magníficos mexilhões fumados da marca Tricana. Coloquei esses mexilhões e  os camarões num escorredor, para onde, no fim, deixei cair a massa e a sua água. Sem deixar escorrer demais voltei a colocar tudo na panela, ainda quente, remexendo com um pouco de bom azeite. Servi a seguir e acompanhei com um branco do Dão, que já me tinha feito companhia na preparação. Regalei-me. E no fim comi duas belas e nacionais clementinas. Alea jacta est, como diria um romano. Ao café ainda trinquei uma raiva - o lusitano biscoito, escusam de ficar com maus pensamentos.





DIXIT - “No primeiro semestre Passos Coelho encontrará um sapo muito  feio a quem dará um beijo de amor. E o anfíbio transformar-se-à num lindo superavit da balança comercial” - Ricardo Araújo Pereira, na Visão.


 


GOSTO - Da proposta do sociólogo Pedro Magalhães que preconiza um sistema já existente em alguns países,  em que os eleitores, quando escolhem o "seu" partido, podem ordenar os candidatos a deputados pela sua preferência e não pela ordem imposta pelas listas partidárias.


 


NÃO GOSTO - Que o antigo Cinema Londres passe a ser uma loja de roupas e de outras importações da China.


 


BACK TO BASICS - Há muito a reter daquele conhecimento que é aparentemente inútil - Bertrand Russell

janeiro 03, 2014

QUEM DESGOVERNA UMA CIDADE PODE GOVERNAR O PAÌS?

COSTISMO - Nos últimos dias de 2013 Lisboa assistiu à demonstração do que é o Costismo: mais uma vez medidas tomadas sem acautelar como podem ser cumpridas - no caso a transferência de obrigações da Câmara Municipal para as Juntas de Freguesia. Não houve cuidado na preparação, não houve cuidado na negociação com as partes interessadas, não houve cuidado na criação de mecanismos sustentáveis que permitissem uma mudança de competências sem atribulações. António Costa é o exemplo do improviso - na decisão e na execução. E, depois, no laxismo na resoluçāo dos problemas criados. O estado a que Lisboa chegou nestes dias deixa antever o que poderia acontecer ao país se Costa assumir outras responsabilidades. Para os lisboetas Costa é sinónimo de caos no trânsito, de lixo nas ruas, da "política do quero, posso e mando"; é também quem deixou as ruas da cidade cheias de folhas e detritos que entupiram as sargetas, perpetetuamente por limpar, e provocaram inundações às primeiras chuvas. É quem piorou o trânsito na Avenida da Liberdade, onde agora há ainda mais engarrafamentos nos acessos das laterais, mais engarrafamentos nas faixas centrais, mais carros estacionados em segunda fila - tudo isto com um custo de centenas de milhar de euros para obras que apenas satisfizeram as vaidades do poder autárquico e nos transformaram a todos em cobaias. Cada vez que ouço que Costa é o putativo protagonista escolhido pelo PS para o próximo ciclo de poder no país fico a temer o que se passará: se ele não é capaz de governar uma cidade, o que sucederá se lhe cabe o país na rifa das eleições? É certo que discutir política não é discutir pessoas - mas as políticas avaliam-se com as acçōes feitas e as acções políticas de António Costa fazem um mau currículo de poder.


 


SEMANADA - No início de 2014 a despesa pública continua excessiva e a reforma do Estado continua por fazer; os preços da electricidade e do gás subiram dia 1 de Janeiro; o Presidente da República promulgou o orçamento de Estado e fez mais uma intervençāo vazia; o orçamento de Estado deixou de destinar verbas à RTP;  para compensar, o Ministro Maduro transferiu despesa do Estado para os cidadãos, aumentando a contribuição obrigatória para a RTP que todos pagam na fatura da electricidade; só restam cinco dos 16 secretários de estado independentes do primeiro Governo de Passos Coelho; registaram-se nove alterações na composição do Governo desde Junho de 2011; cinco secretarias de estado já mudaram três vezes de detentor; em 2013 realizaram-se 81 greves nas empresas de transportes e comunicações; o Metropolitano de Lisboa fez 13 paralisações e a CP realizou 12;  em dez anos a Beira Interior perdeu dez mil habtitantes; 170 idosos foram dados como desaparecidos nos últimos 12 meses;  em 2013 verificaram-se 67 ataques a caixas multibanco; em três meses verificaram-se 29 roubos a carrinhas de transporte de tabaco; o tribunal da relação do Porto recusou classificar de jogo ilegal de fortuna e azar os casinos onde se joga mahjong; Portugal já atribuíu 471 vistos “gold”, dos quais 295 a chineses, cerca de três quartos do total; já no ano passado um Tribunal de Guimarães havia decidido que a “lerpa” não é um jogo de fortuna e azar.


 


ARCO DA VELHA - Graças a malabarismos estatísticos por cada euro a menos no défice a dívida pública sobe 1,1 euros porque o Governo e a troika optaram por meter na díviuda o que não querem mostrar no défice.


 


FOLHEAR - Neste começo de ano destaco uma frase impressa, em jeito de manifesto, na primeira página da edição especial de inverno da Monocle, em formato jornal: “A Monocle acredita no poder da imprensa impressa e do papel que se folheia”. Por muito que goste do digital e o use, sei que encontro refúgio seguro no papel quando quero ler alguma coisa mais profunda - algum dossier de investigação, um portfolio de fotografias, uma reportagem. A internet trouxe-nos a informação imediata, mas a reflexão e a descoberta ainda nos chegam pelo papel - e é no equilíbrio entre as duas coisas que reside o futuro da comunicação escrita. Por isso as grandes marcas da informação - as que ganharam prestígio e reputação, as que apostam na qualidade e diversidade dos conteúdos, são as que estão melhor posicionadas para conseguirem estabelecer um bom modelo de negócio nos anos mais próximos. A importância crescente dos dispositivos móveis no consumo imediato de informação, provoca o aumento de utilização de aplicações agregadoras de conteúdos como o Zte ou o Pulse - que vivem da citação de conteúdos de marcas informativas de prestígio. Hoje lê-se mais que se lia há uns anos - e essa é uma realidade. Mas só se lê, aquilo que tiver interesse e qualidade. Sem bons conteúdos o ciclo inverte-se. É a história mais velha do mundo, a seguir à outra que todos conhecemos.


 


VER - Estes são os últimos dias, até 5 de Janeiro, para ver no Museu Berardo uma exposição que reúne, sob o mote das relações entre a fotografia e o arquivo nas práticas artísticas contemporâneas, o trabalho de cerca de vinte artistas, de várias épocas e localizações geográficas, como Helena Almeida, Daniel Blaufuks, Christian Boltanski, Marcel Duchamp, Tracy Moffatt, Umrao Singh Sher-Gil, Hiroshi Sugimoto, Vivan Sundaram, Jemima Stehli, Robert Wilson ou Francesca Woodman. Se lá fôr aproveite para  visitar a  exposição “O Consumo Feliz -  Publicidade e sociedade no século XX”, que apresenta uma seleção de mais de 350 obras da Coleção Berardo de Arte Publicitária, que no total reúne um conjunto de cerca de 1500 itens. Este acervo reúne exclusivamente originais de publicidade pintados à mão, As duas exposições, bem diferentes entre si, são um belo pretexto para passar pela área de exposições do Centro Cultural de Belém.


 


OUVIR -  Acho sempre curioso quando um disco de que gosto especialmente falha na lista das edições do ano do venerando “Atual” do Expresso. Acho isso ainda mais interessante quando o disco em causa provém de um país de cuja música se fala pouco - no caso a Dinamarca. E ainda acho a coisa mais engraçada quando o disco não foi alvo de promoção especial e portanto os críticos não o recebram na caixa de correio - tiveram que o comprar, em formato físico, em digital ou então ouvi-lo em streaming. O pretexto para esta conversa é “Aventine”, da dinamarquesa Agnes Obel - cuja educação clássica como pianista foge aos cânones da pop contemporânea. Neste seu segundo disco, onde é maioritariamente acompanhada por um violoncelo, esporadicamante por violino, guitarra e harpa, retoma a criação de ambientes sonoros inesperados, pouco convencionais e onde a inquietação e a procura andam de mãos dadas - neste caso num cruzamento de rara


sensibilidade entre a palavra, a forma de cantar e os arranjos musicais. CD Play It Again Sam, na Amazon.


 


PROVAR - Se gostam da tradição culinária japonesa devem conhecer o Tomo, em Algés. Digo de propósito tradição culinária porque no Tomo a oferta não se reduz ao sushi, ao sashimi ou à tempura - tudo aliás excelente. Ali há tembém pratos cozinhados, na tradição de Quioto, de acordo com o que está disponível no dia. O menu kaiseki reflecte isso mesmo e deve ser encomendado com antecedência. Atrás do balcão está Tomoaki Kanazawa (na imagem) que, há década e meia em Portugal, decidiu há uns anos arriscar no seu próprio restaurante, depois de ter sido chef na Embaixada do Japão em Lisboa e mais tarde ter trabalhado no Aya original, da Rua das Trinas. O restaurante é despretencioso, não alinha em modas de sushi-fusão, é austero na decoração e exuberante na qualidade. Para os apreciadores da comida japonesa, o Tomo é o que resta de mais fiel às tradições deixadas por mestre Yoshitaki, o fundador do Aya. É na simplicidade das coisas que se vê e sente a diferença - é o que se passa no Tomo onde os caldos, a sopa e o arroz são diferentes do que geralmente se encontra por aí - na consistência, no sabor, na intensidade, na subtileza. Se tiver dúvidas face à lista peça conselho a Saif, o chefe de sala, de origem paquistanesa, que lhe dará sugestões. No fim aceite o que ele recomendar de sobremesa - é que o Tomo é o único restaurante japonês que se pode gabar de ter uma especialista em doçaria tradicional japonesa, Kayo Iwasaki,  O Restaurante Tomo fica na Avenida dos Bombeiros Voluntários 44, em Algés, o telefone é o 213 010  705 e encerra aos Domingos.


 


DIXIT - Citação elegante do ano:  “Não aceito lições de quem nunca fez a ponta de um corno” - Carlos Silva, secretário geral da UGT, sobre Pedro Passos Coelho.


 


GOSTO - As IPSS (Instituições Privadas de Solideriedade Social) criaram 1400 novos equipamentos sociais, incluindo creches e lares de idosos, entre 2000 e 2012.


 


NÃO GOSTO - Quase metade dos desempregados de longa duração irão ficar sem trabalho para o resto da vida


 


BACK TO BASICS - A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo - Alan Kay