outubro 11, 2013

O NOSSO AUDIOVISUAL NA SEMANA ANTES DO ORÇAMENTO

AUDIOVISUAL - Parto deste princípio: no mundo contemporâneo, com o principal canal de distribuição de conteúdos a ser a internet, quem não tiver uma produção regular audiovisual perde identidade cultural, apaga o idioma e desaparece do mapa. A resolução para esta questão, decisiva nos nossos dias, não está na sobrevivência dos modelos antigos de serviço público audiovisual, mas sim numa prespectiva estratégica do desenvolvimento de uma indústria de conteúdos. Se numa série de actividades económicas se aceita que a iniciativa privada é mais criativa e eficaz que a estatal, porque é que precisamante na mais determinante das indústrias no critério da consolidação da identidade cultural e linguística se aposta no sector público? Este é o paradoxo de onde partem muitos equívocos - e maus resultados. Não me cansarei de dizer que o serviço público de televisão não precisa de produzir mais, precisa é de ter uma ideia clara sobre o que deve programar, saber o que quer, e, em conformidade, desenvolver uma carteira de encomendas a produtores privados, independentes, que possam desenvolver industrialmente este sector. E só este desenvolvimento assegurará que teremos presença nos consumos audiovisuais, para além de festivais e jogos florais, para além das guerras de audiências efémeras. Se o Estado quiser que o serviço público de televisão desempenhe o seu papel, ponha-o a pensar, escolher e encomendar. E verá como a economia do sector cresce e os resultados aparecem. Vai demorar tempo, mas muito menos do que aquele que já se leva de não fazer nada.


 


SEMANADA - O Banco de Portugal alertou para os efeitos nocivos na economia de cortes salariais; Bispos portugueses manifestaram preocupação com os cortes nas pensões de sobrevivência e viuvez; o FMI reconheceu que a zona Euro pode precisar de mais tempo para reduzir défices, caso o crescimento económico seja pior que o esperado; quatro em cada dez pessoas tiveram corte de salário com a crise; Portugal importa 42 euros por cada 100 euros que exporta; o FMI considera que o aumento das exportações nos paises periféricos da zona zona euro não compensa a quebra da procura interna; uma média de sete imóveis por dia são entregues à banca por incumprimento no pagamento dos empréstimos; referindo-se às afirmações de Rui Machete em Angola, um diplomata português afirmou ao “Público” que pedir desculpa “é uma expressão que não é do léxico da diplomacia”; o PSD ainda não sabe se algum dos três primeiros nomes da lista autárquica do partido no Porto vai assumir o cargo de vereador para o qual foram eleitos naquele município; os depósitos dos particulares caíram 969 milhões em Agosto; as autarquias gastaram 29,2 milhões de euros em obras e iniciativas diversas nos ultimos dias antes das eleições; Passos Coelho anunciou segundo orçamento rectificativo para este ano.




ARCO DA VELHA - O Supremo Tribunal Administrativo reconheceu que as feiras eróticas são arte e como tal devem ser taxadas como produtos culturais, ou seja, com a taxa mínima de 5% de IVA; os festivais e concertos de música são taxados a 13%, incluindo os bilhetes oferecidos e os convites.




VER - Não são muitas as exposições em que uma peça é avassaladora, conceptual e fisicamente. È uma peça invasiva, que se alonga por salas, ocupa o espaço e dá que pensar. O trabalho que André Banha desenvolveu, em termos de concepção e construção, ao longo de meses, pode finalmente ser visto na VPF Cream Art Gallery, na Rua da Boavista 84. Tradicionalmente utilizando a madeira, André Banha vai além do que lhe conhecíamos nesta obra - “revisito-me” -  que é um ponto marcante da atividade desta galeria, este ano. Esta é daquelas exposições que ficará para a memória por causa de uma única peça. E mesmo que no edifício da VPF, o Transboavista,, existam, também neste momento, trabalhos incontornáveis de Jorge Feijão, Fabrizio Matos, Inez Teixeira, Tiago Duarte, ou Luis Alegre, a verdade é que a obra de André Banha se sobrepõe a todas as outras. E mesmo que agora ela passe despercebida, esta vai ser uma das ocasiões em que o tempo vai jogar a favor do risco. Um desafio.




OUVIR- Poucos discos, nos últimos meses, me fascinaram tanto como este  - Peter Gabriel não deixa de surpreender, mesmo quando recorre a terceiros para nos agitar as memórias. Em 2010 Peter Gabriel desenhou a primeira parte deste projecto de troca de canções e chamou-lhe “You Scratch My Back” . Agora aparece com   “And I’ll Scratch Yours” e vai bem mais longe. Ele interpreta temas de David Bowie, Paul Simon, Bon Iver, Lou Reed ou Arcade Fire, Regina Spektor ou Neil Young, entre outros, e reinterpreta os originais não abdicando daquilo que são as suas marcas próprias, musicais e vocais. Ao mesmo tempo, neste duplo CD, do outro lado está um disco onde os autores interpretados se atiram ao cancioneiro de Peter Gabriel, várias vezes de forma absolutamente surpreendente. Nas 12 canções de Gabriel reinventadas não há um falhanço - mas há momentos de génio, como “Blood Of Eden” por Regina Spektor, “Shock The Monkey” por Joseph Arthur, “Games Without Frontiers” pelos Arcade Fire, “Mother oF Violence “ por Brian Eno e sobretudo as três ultimas do disco, três pérolas raras: “Don’t Give Up” por Feist e Timber Timbre, um irreconhecível “Solsbury Hill” por Lou Reed e um emotivíssimo e simples “Biko” por Paul Simon. Duplo CD Realworld/Universal. Se querem saber, este disco, sendo de versões, tem mais novidade que muitos originais e é um dos candidatos a disco do ano - espantoso o que se pode fazer a reciclar material alheio sem fazer sucatices.




FOLHEAR - Esta semana regresso á Wallpaper, que na sua edição de Outubro tem editores convidados: o duo escandinavo Elmgreen & Dragset explora espaços e casas numa viagem entre o sonho e a realidade e a artista e fotógrafa norte-americana Laurie Simmons percorre fantasias com bonecas de prazer. São páginas desafiantes, graficamente bem pensadas, e inesperadas - o que se espera de uma boa revista. A Wallpaper tem voltado a melhorar nestes ultimos meses e esta edição é provavelmente a melhor deste ano. Há bons artigos sobre o ressurgimento de Oslo e da Noruega, sobre Peter Saville, sobre os tapetes desenhados por Alexander McQueen. No que toca a arquitectura, design e interiores a Wallpaper é uma das revistas incontornáveis. E além disso é muito engraçado seguir a evolução da qualidade da publicidade de algumas marcas nas suas páginas - por exemplo a Hyundai está claramente num processo de reposicionamento bem pensado, desde o design dos novos modelos até às novas motorizações. Afinal, qual a revista onde os sapatos da Tod’s coexistem com os ténis da Converse de forma perfeita?




PROVAR - Venho aconselhar-vos a experimentar os produtos da marca José. Isso mesmo: José. As embalagens têm um design fantástico e inesperado e os produtos no seu interior correspondem às expectativas. As conservas, por exemplo, são produzidas pela justamente famosoa fábrica La Gondola, de Perafita, Matosinhos, fundada em 1940. A ideia da José é ir buscar produtos aos melhores fornecedores e embalá-los sob a sua própria marca e fazer uma oferta integrada, como compota de medronho, a célebre aguardente da Lourinhã e vinhos e licores diversos. O site www.josegourmet.com está muito bem organizado e tem bastante informação sobre os produtos disponíveis e os locais de venda. Nas conservas destaque para as petingas picantes, as ovas de sardinha em azeite (há quem lhe chame o nosso caviar…), a ventresca de atum ou as cavalinhas em azeite - eu sou um fã de conservas e acho sempre que se a conserva for das boas, como estas,  uma lata e uma salada resolvem uma refeição de ultima hora. Além disso há azeites e vinagres de várias regiões, aguardentes, ginjas e moscatel, mel e compotas - como a tal de medronho. Eu encontrei os produtos na loja Gourmet do El Corte Ingles. Mas pelo site descobrem-se mais pontos de venda. E dá gosto pensar que no meio desta crise ainda há que se atreva a concretizar boas ideias como esta.




DIXIT - “Não temos um Governo, temos um conjunto de pessoas agarrado a um manual de instruções” - Felix Ribeiro, economista




GOSTO - Do projecto “Do sonho à realidade” da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que se destina a proporcionar a idosos, utentes de lares ou de centros de dia, a concretização dos seus sonhos.




NÃO GOSTO - Da confusão e da demagogia existente em torno da peregrina ideia de uma manifestação em cima da Ponte 25 de Abril.



BACK TO BASICS - A política é talvez a única profissão para  a qual não é necessária nenhuma espécie de preparação - Robert Louis Stevenson

outubro 08, 2013

SOBRE ELEIÇÕES; ABSTENÇÕES; ELEITOS, DERROTADOS e ANULADOS

TEMA - Sinceramente não sei que dizer esta semana. Tirando Rui Moreira, no Porto, as eleições não trouxeram grandes surpresas. Confirmou-se o que se sabia - más escolhas de candidatos, intrigas palacianas nas sedes dos partidos a sobreporem-se às sensibilidades locais, desfasamento entre o sistema, os partidos e os eleitores, revoltas internas que deram independentes vencedores. Tudo isto se adivinhava e vai agudizar-se ao ritmo a que as conspirações internas reduzirem a actividade política a um jogo de bastidores incompreensível para a maioria das pessoas. Nos últimos anos as propostas políticas que têm a ver com o dia a dia das pessoas foram evoluindo para promessas desgarradas esquecidas no dia seguinte à votação e, principalmente, para politiquices que só têm a ver com jogos de poder de indivíduos ou de grupos. A noção de serviço público da política está bem guardada num baú e o que sobra é um fanatismo de seita, que não anda muito distante da clubite futebolística e das guerras com os árbitros que servem para distrair o país e aliviar da troika. à margem de tudo isto o mundo move-se e avaça -  como dizia o poeta e a PT fez, bem, questão de demonstrar. E já agora, em termos comunicacionais, reparem no timing: a notícia do entendimento entre a Oi e a PT para a fusão das duas empresas surgiu no dia a seguir à assembleia geral fundadora da Zon-Optimus.




SEMANADA - Foram vendidas 5,1 milhões de embalagens de anti-depressivos nos primeiros oito meses do ano; a abstenção foi a maior de sempre em autárquicas;  o numero de votos nulos e em branco mais que duplicou comparando com as anteriores autárquicas de 2009; a soma das abstenções e dos votos brancos e nulos ultrapassa os 54%; aumentou o número de independentes que se tornaram presidentes de Câmara; a distribuição de votos na Madeira teve a maior alteração de sempre e o PSD perdeu a Câmara do Funchal; em Lisboa, em 2009, o PSD obteve 26 presidências de junta de freguesia e o PS conseguiu 22; mas em 2013, após a reorganização da cidade, o PS ganhou 17 das 24 novas freguesias;  40% das autarquias leva mais de três meses a pagar dívidas; 33% das casas, cerca de 650 mil habitações, não estão ligadas à rede de abastecimento de água; gastos das familias com impostos subiram 35% na primeira metade de 2013; já depois de estar nacionalizado o BPN concedeu 135 milhões de euros de crédito de risco; segundo o Eurostat em Agosto existiam em Portugal 877 mil desempregados; a Universidade de Aveiro deixou de estar na lista das 400 melhores instituições de ensino superior de todo o mundo.




ARCO DA VELHA - O Estado português terá que pagar um milhão de euros por danos morais infligidos a 217 cidadãos que estão há 18 anos à espera de uma decisão do tribunal sobre a falência de uma empresa hoteleira




VER - A partir de 10 de Outubro poderemos descobrir no Museu Nacional de Arte Antiga os retratos dos Reis Carlos IV de Espanha e Maria Luisa de Parma, concebidos por Goya a pedido da Real Fábrica de Tabacos de Sevilha, em 1789. Esta mostra insere-se num ciclo de exposições trimestrais realizada pelo Museu Nacional de Arte Antiga denominado “Obras Convidadas”, cujo objectivo é dar a conhecer obras de mestres da pintura ocidental que raramente foram expostas em Lisboa, provenientes e museus do mundo inteiro, um interessante programa de intercâmbio que é dos pontos altos da actividade actual do MNAA. Em troca destes dois retratos de Goya irá o nosso tríptico de Bosch para o Prado, lá mais para a frente. Ganha-se com a troca e com o poder descobrir a luz destes retratos de Goya.




OUVIR- Sting não fazia um disco de originais  há uma dezena de anos e saíu-se com um projecto de uma peça de teatro, musical, que estreará na Broadway no próximo ano. As onze novas canções do CD são parte da banda sonora, que em palco terá cerca de duas dezenas de composições. A ideia é contar a história do declínio da indústria de construção naval em Newcastle, onde Sting cresceu. Há uma forte influência de música folk, nem me atrevo a dizer que alguém se poderia ter lembrado de fazer em Viana do Castelo um disco com inspiração no Vira do Minho. Adiante - as canções não são para brincadeiras, contam histórias duras, abordam rupturas familiares e tensões dentro da comunidade, mas também casos de amor e desejo, como em “I Love Her So But She Loves Someone Else”. Noutro registo gosto especialmente dos duetos duetos “What Have We Got”, com, Jimmy Nail,  e “So To Speak” com Betty Unthank, ssim como o primeiro single, “Practical Arrangement” ou o estimulante  “The Night The Pugilist Learned To Dance”. É melhor que as anteriores incursões de Sting noutros terrenos musicais (CD Cherry Tree/Universal).


 


FOLHEAR - A edição de Outubro da revista “Monocle” é dedicada ao pequeno comércio ou, se preferirmos, à reinvenção do comércio de rua, ideias que estão a dinamizar negócios, soluções de proximidade. Trata-se de um verdadeiro manual que, em muitas coisas podia ser bem aplicado por aqui. Não vou citar muito o que está no interior da revista (como a livraria XYZ de Lisboa especializada em fotografia), e prefiro respigar estas passagens do editorial de Tyler Brulé, dedicando-as em especial ao reeleito Presidente da Cãmara Municipal de Lisboa: “Enquanto o comércio independente continua a estar ameaçado pelas grandes cadeias de supermercados e centros comerciais ou pelo comércio eléctrónico, bairros inteiros são também ameaçados por um conceito de planeamento urbanístico pobre que coloca demasiado enfase em tirar os carros das ruas, ignorando a importância do movimento no comércio. Claro que o paraíso urbano é um local onde todos possamos viver a cinco minutos a pé de boas lojas e serviços e onde exista um esquema de partilha de carros e um serviço de transportes públicos com uma paragem à porta de casa. É evidente que nada disto acontecerá na maior parte das grandes cidades e há uma boa razão para isso: eliminem o transporte automóvel privado das áreas de comércio tradicional e habitacionais e um número de coisas pouco atraentes começam a acontecer: em primeiro lugar diminui a frequência de quem passa e pára para comprar; depois as lojas começam a fechar porque há uma diminuição de fregueses; a seguir os preços das casas começam a cair porque as zonas deixam de ser interessantes; finalmente a paisagem das ruas passa a ser desoladora e perigosa de frequantar quer de dia ou de noite. Tudo isto culmina no surgimento num qualquer suburbio de um grande centro comercial que atrai as mães que querem segurança, conveniêcia e conforto. Já agora muitos planeadores urbanos estão a descobrir que eliminar os automóveis torna muito difícil a mobilidade das pessoas, criar crianças no centro da cidade e também garantir o abastecimento de produtos básicos de consumo.”




PROVAR - O chef José Avillez tomou conta do Chiado e em cerca de dois anos ali abriu quatro restaurantes. O mais recente fica num foyer do Teatro de S. Carlos e posiciona-se entre “O Cantinho do Avillez” e o “Belcanto”. Chama-se Café Lisboa e serve aperitivos, cocktails, petiscos,  almoços, jantares, ou, adequadamente, ceias depois da ópera. Além de cocktails há a intensa cerveja artesanal Sovina, e o vinho da casa resulta de uma parceria entre o chef e José Bento dos Santos. Cumpre com garbo no branco e no tinto, embora na lista existam outras sugestões. Um dos ex-libris da casa é o pastel Lisboa, um rebatizado pastel de massa tenra, com a dita finíssima e estaladiça e o recheio solto e bem temperado. Pode ser servido à unidade ou em prato com um arroz de grelos inatacável e em qualquer dos formatos são sempre servidos acabados de fritar, bem quentinhos - o mesmo se pode dizer dos croquetes de vitela, magníficos. Na lista estão ainda diversos bifes tradicionais e um bacalhau à braz com azeitonas explosivas - uma brincadeira saborosa que se tem tornado numa das imagens de marca de Avillez. Bom sítio, sala pequena mas confortável (com uma peça de Joana Vasconcelos), esplanada ampla. Largo de São Carlos 23, telef 211914498.




DIXIT - “Se os partidos não perceberam o que se passou aqui, não perceberam nada”- Rui Moreira, candidato vencedor à Câmara Municipal do Porto.




GOSTO - A vitória do tenista João Sousa na Malásia  conseguiu que pela primeira vez os três diários desportivos colocassem a modalidade em manchete.




NÃO GOSTO - Os cartazes das autárquicas ainda estão maioritariamente por retirar, quase uma semana depois do fim da campanha eleitoral - e como são bastante horriveis e transbordantes de mau photoshop são fortes poluidores visuais.




BACK TO BASICS - É certo que o conhecimento pode criar problemas, mas também é certo que não é através da ignorância que seremos capazes de os resolver - Isaac Asimov

outubro 01, 2013

E DEPOIS DE DOMINGO?

As eleições autárquicas aconteceram mais ou menos a meio do ciclo normal das legislativas e, mesmo contando com o peso, pela proximidade, que os candidatos locais têm nos eleitores, existiu um efeito de penalização do partido que lidera a coligação e que tem em mãos o cumprimento do programa fixado com a troika. Que tenha sido o PS, de Sócrates, a chamar a Troika e a definir os termos gerais do programa a que estamos sujeitos é coisa que já se varreu da cabeça dos eleitores, como este Domingo comprovou.


 


Mas há aqui algumas coisas a reter: a queda eleitoral do PSD  coexistiu com o aumento de presidências de câmara da CDU e do PP, com o desaparecimento autárquico do Bloco de Esquerda e, claro, com o número de cisões nos partidos políticos que criaram uma chuva de independentes – alguns deles a conseguirem ganhar às suas ex-organizações.


 


Outro dado a reter é o resultado obtido pelos candidatos que o PSD escolheu no Porto e em Lisboa. Apesar de todas as críticas e alertas, a direcção e as respectivas distritais insistiram em candidatos que foram rejeitados sem contemplação. Em resultado destas escolhas, em Lisboa e no Porto, o PSD perdeu mais de metade dos votos que tinha obtido em 2009.


 


Se há coisa que estas eleições comprovaram é um crescente distanciamento dos partidos em relação ao sentir dos seus apoiantes e simpatizantes – e que constituíu a razão da maioria das tais cisões. As consequências destas rupturas no eleitorado ficaram à vista ontem. É exagerado dizer-se que o sistema partidário como o conhecemos está em vias de extinção – mas é absolutamente claro que os partidos, o sistema político e a lei eleitoral precisam de se adaptar aos tempo – ninguém vive só de promessas.


 


(Publicado na edição de 1 de Outubro do diário Metro)

setembro 27, 2013

SOBRE O SENTIDO DO VOTO



ABSTENÇÃO - Um amigo meu disse-me esta semana que não tem intenção de votar em Lisboa, onde vive, baseado numa máxima que tem seguido toda a vida: “voto em quem limpou, não voto em quem promete limpar, promessas leva-as o vento”. Eu não posso estar mais de acordo e faço minhas as suas palavras. Também não votarei. Ainda agravo mais os meus sentimentos quando olho à volta e vejo ruas muito alcatroadinhas de fresco após anos de buracos, e dou comigo a pensar: mais vale aproveitá-las antes que chegue a chuva forte e o alcatrão se comece a diluir no inverno, como é hábito e tradição lisboeta. Só daqui a quatro anos, nas autárquicas que hão-de vir, é que havemos de ter alcatrão novo como este, que é afinal o maior cartaz da campanha eleitoral - e que não é pago pelos partidos, mas pelos contribuintes. O período pré-eleitoral caracteriza-se por  promover rapidamente obras que há muito deviam ter sido feitas e por fazer toda a espécie de promessas. Por exemplo, Hernâni Dias, candidato do PSD à Câmara de Bragança, promete construir uma auto-estrada de Quintanilha até Zamora, em Espanha, num curioso caso de promessa de exportação de obra pública; e Miranda Calha, candidato do PS à freguesia de Belém/Restelo, garante  que, se ganhar, na sua Junta os estudantes terão cursos de mergulho e de carta de marinheiro, certamente inspirado pela vocação marítima emanada da Torre de Belém. Estas eleições hão-de ficar recordadas por slogans disparatados e pelo uso excessivo de photoshop em péssimos cartazes. Mas estas são também as eleições em que os partidos se abstiveram de clarificar a lei sobre os dinossauros autárquicos, em que a CNE se recusou a encarar a realidade e em que as televisões privadas resistiram a serem programadas pelos políticos. Nesta véspera de voto quero recordar o que  Antònio Sérgio Rosa de Carvalho escreveu no Público a 22 de Agosto: “O papel da cidadania participativa é o de exclusivamente estimular de forma critica e permanente a reforma do sistema de representatividade política e de representar, sem o constrangimento dos compromissos, as verdadeiras ansiedades dos cidadãos, transformados posteriormente em votantes.”






SEMANADA - A receita do IVA desceu 2% este ano; a colecta de IRS aumentou 30% ; o aumento da despesa com o subsídio de desemprego foi de 10%; o Tribunal da Relação do Porto absolveu um contribuinte que dirigiu um email classificando as Finanças de “ladrões”; o investimento público caíu 500 milhões de euros até Agosto; a dívida directa do Estado aumentou mais de 19 mil milhões de euros nos ultimos 12 meses; o numero de dormidas em hotéis de 5 e 4 estrelas aumentou 16,8% em Julho; o vencimento líquido médio em Portugal é de 803 euros; a revista Reader’s Digest fez um ranking de honestidade de 16 cidades e Lisboa ficou em ultimo lugar na devolução de carteiras perdidas; Álvaro Santos Pereira anunciou estar em fase avançada a escrita das suas memórias de dois anos no Governo e disse ter retomado a escrita de um romance; em 82% das câmaras municipais há um presidente ou vice presidente que se candidata de novo, há 151 presidentes recandidatos, há 20 Presidentes que substituíram os anteriores e que vão a votos pela primeira vez, e apenas 35 candidatos novos; o Índice da Economia Paralela de 2012, revela que o valor da economia paralela nesse ano foi de 44,28 mil milhões de euros, 26,74% do PIB, o que representa  um crescimento de mil milhões de euros face ao ano anterior.


ARCO DA VELHA - António Costa reclamou da decisão do Tribunal Constitucional que o obriga a entregar ao diário Publico um relatorio dos serviços camarários, pedido por um jornalista e que o Presidente da Câmara de Lisboa se recusa a fornecer. O relatorio, feito por um seu vereador, é sobre a adjudicação por ajuste directo, a um reduzido numero de empresas, de obras da autarquia. Como diz o cartaz, ele precisa de uns votos para continuar a fazer habilidades.




VER - O roteiro desta semana começa pela exposição “Youth Of Athens” da fotógrafa Pauliana Valente Pimentel, na Galeria Boavista (Rua da Boavista 50). Ao longo do tempo Pauliana Valente Pimentel tem vindo a desenvolver a abordagem aprofundada de temas contemporâneos através da imagem fotográfica (e também do video), um trabalho para além de uma reportagem de circunstância, mais próximo da tradição do ensaio fotográfico que se foi perdendo com a descaracterização da utilização de fotografia em jornais. Uma outra galeria a visitar é a Baginski, no Beato (Rua Capitão Leitão 51), onde coexiste uma exposição de André Romão com uma das mostras mais interessantes da Trienal de Arquitectura, Traço de Arquitecto, que aborda o processo criativo do português Manuel Aires Mateus e do brasileiro Marcio Kogan, muito focada no desenho de ambos - “pensar a desenhar e desenhar para pensar”. Finalmente até este fim de semana ainda podem viver a Lisbon Week, com numerosas propostas por toda a cidade, que podem ser exploradas em www.lisbonweek.com.




OUVIR- Nos últimos anos Elvis Costello fez mais coisas insípidas que discos interessantes. Quando soube que se tinha envolvido numa colaboração com The Roots, fiquei expectante. O disco redime-o de alguns deslizes recentes e mostra que a soma de dois talentos pode ser maior do que se imagina. “Wise Up Ghost”, assim se chama o novo álbum, vem assinado por  Elvis Costello & The Roots e a marca de hip-hop que os Roots trouxeram é bem marcada e encaixa que nem uma luva na dureza e tom cáustico e crítico das palavras de Costello - que continua a ser um mestre da escrita. Este conceito musical faz sair Costello da sua zona de conforto e obriga-o a ir a jogo na forma de escrever, que se adapta ao hip-hop nativo dos Roots, apesar de manter muitas referências, recorrentes na obra e em canções antigas de Costello. O momento mais inesperado  e mais interessante é o extraordinário dueto com a mexicana La Marisoul, “Cinco Minutos Con Vos”. Também gosto de outros temas, como “Stick Out Your Tongue”, “Satellite” ou “Tripwire”. Som forte, provocador por vezes, este CD não é garantidamente conformista e rotineiro. Não me admirava se “Wise Up Ghost” estiver na lista dos melhores discos deste ano. (CD Blue Note/ Universal)





FOLHEAR - A revista norte-americana “Vanity Fair” está a completar cem anos de vida, a edição de Outubro é dedicada ao centenário e a capa é uma fotografia de Annie Leibowitz com uma tentadora Kate Upton a segurar o bolo e a vela. Gostei que este número não seja um repositório do passado, deixando o lado de evocação ao livro que Graydon Carter, o brilhante editor da revista nos últimos anos, preparou e que devrá sair este Natal sob o título “Vanity Fair 100 Years”.  Destaques desta edição: Bob Colaccello faz um artigo sobre o rei Juan Carlos de Espanha que vai dar que falar, uma entrevista com Romam Polanski aborda as acusações de sexo com menores, um artigo sobre Julian Assange aborda as suas ambições políticas e eventual participação em eleições, além de uma bela nota sobre a exposição evocativa do surrealista René Magritte no Moma de Nova York. Claro que há um especial que evoca como a Vanity Fair abordou os grandes factos da História dos últimos 100 anos - e eu costumo dizer que, se pudesse, era este modelo de revista que eu ambicionava fazer: inteligente, textos bem escritos, reportagens bem investigadas, entrevistas reveladoras e grande fotografia. Em matéria de revistas a Vanity Fair é a que fica mais perto da perfeição.





PROVAR - Andava há uns meses para experimentar este restaurante e fico contente porque, um dia destes, ao almoço, não frustrou as minhas expectativas. O “Mercado 1143” fica na LX Factory, é um espaço amplo, confortável e bem decorado. À noite fica cheio, dizem-me que é preciso reservar e que às vezes é um pouco mais confuso, mas ao almoço nem por isso. Na mesa o couvert era constituído por boas azeitonas, azeite e pão decente. Pediu-se polvo ao vapor com legumes - e quer o polvo, quer os legumes tiveram nota alta. O vinho branco que acompanhou era o da casa e cumpriu muito bem. A lista etílica não é enorme mas satisfaz e existe à disposição a já célebre cerveja artesanal Sovina. Aos almoços há saladas e outros petiscos leves e ao jantar a coisa muda naturalmente de figura e podem surgir petiscos como os raviolis de sardinha ou umas pataniscas de enchidos. O serviço foi atento, simpático e eficaz - três pontos que nem sempre andam juntos. Para reservas o telefone é o 215 900 963 e os detalhes podem ser observados em www.mercado1143.pt ou no habitual facebook.




DIXIT - “Devemos escolher pessoas que não nos tragam problemas, aventuras e dívidas” - Paulo Portas, numa acção de campanha eleitoral em Sintra, com Pedro Pinto




GOSTO - Em três dias a Apple vendeu nos Estados Unidos nove milhões de unidades dos seus novos modelos de telemóveis, praticamente a população portuguesa.




NÃO GOSTO - Em termos mundiais o rácio entre a população com mais de 65 anos e a população até 14 anos (índice de envelhecimento) atingiu o seu ponto mais elevado, alcançando 131%. Em 2000 era de 102% e em 1990 de 68%.




BACK TO BASICS - “Ter dinheiro é melhor que ser pobre - quando mais não seja por razões financeiras” - Woody Allen

setembro 24, 2013

UM EXEMPLO DE VISÃO

A Portugal Telecom inaugurou ontem, na Covilhã, o maior centro de dados da Europa. É a consequência natural de uma estratégia que começou a ser traçada há alguns anos e que transformou a PT, de uma empresa que providenciava linhas telefónicas em casa, para uma empresa que tem uma oferta integrada onde o processamento e a distribuição de dados são uma parte fundamental. Hoje em dia, como Zeinal Bava disse recentemente em entrevistas à BBC e à CNN, a PT deixou de ser uma empresa essencialmente telefónica para ser uma empresa que abraçou a convergência entre o digital e a televisão e onde o entretenimento está no centro da actividade. Na realidade a distribuição de canais de televisão através do MEO e a possibilidade de os seus clientes criarem canais próprios (e nesta campanha eleitoral surgiram muitos candidatos a aproveitar esta capacidade tecnológica), levaram a empresa para um patamar diferente, um patamar que necessita de armazenar, processar e distribuir dados – um negócio que vai crescer, como referiu o presidente da PT e da OI, nas entrevistas já referidas. Nesta actividade o tempo é precioso – e a PT posicionou-se onde outros ainda não estão, ganhou tempo e vantagem. Mais: a PT está a desenvolver capacidades portuguesas em tecnologias de ponta e provavelmente a criar uma nova indústria exportadora, tecnologicamente sofisticada e diferenciadora. Mais do que muitos discursos esta decisão de investimento da PT prova que, quando queremos, temos visão, capacidade de transformação e de realização. Não estamos condenados a viver dos restos nem do passado.

PS – Resolvi nem falar das eleições. Prefiro votar em quem limpou do que em quem promete limpar. E não vejo nada limpo.

setembro 20, 2013

SOBRE O CAOS PRÉ ELEITORAL E A CNE

CNE - A pior coisa que existe na política é a hipocrisia. Como se nāo fosse revoltante a hipocrisia de numerosos candidatos, agora temos a suprema hipocrisia da entidade que é suposta fiscalizar as eleiçōes, a CNE. Vou explicar a razāo desta minha convicçāo: a lei eleitoral proíbe o recurso a publicidade comercial durante um período de tempo que excede a campanha propriamente dita. Acontece que na época em que a lei foi feita a realidade da comunicaçāo em geral, e da actuaçāo política partidária em particular, era bem diferente do que é hoje - nomeadamente o esforço e disponibilidade dos militantes. O que acontece actualmente, e que é usado pela maioria dos partidos parlamentares, é o recurso a organizaçōes comerciais especializadas na afixaçāo de propaganda e na sua distribuiçāo por várias formas, nomeadamente a colocaçāo de suportes para cartazes de grande e média dimensāo e sua utilizaçāo. Estes serviços sāo pagos, como se se tratasse de um operador de publicidade exterior - na realidade o que aparentemente parece tratar-se de actividade militante é, na maioria dos casos, uma operaçāo comercial que cobra a instalaçāo, o aluguer, a manutençāo e afixaçāo nos referidos suportes dos cartazes partidários. É uma operaçāo de facto de publicidade exterior paga, com a agravante de os referidos operadores nāo precisarem de licenças nem alvarás e de nāo pagarem taxas - uma espécie de concessionários de publicidade exterior clandestinos. Pois a mesma CNE que fecha os olhos a esta realidade que dura há anos, é a que tomou as posiçōes que se conhecem sobre a utilizaçāo do Facebook e de mensagens de email ou sms pelas campanhas. É a mesma CNE que, sobre a cobertura noticiosa destas eleiçōes, se pronunciou no sentido de, no período eleitoral, nāo se aplicarem critérios editoriais pelas direcçōes de informaçāo, limitando assim o exercício da actividade jornalística. E foi ainda a que anunciou ir perseguir quem, no período final antes de eleiçōes, o chamado tempo de reflexāo, opinar nas redes sociais sobre a política e o acto eleitoral. Palpita-me que vāo ter muito que fazer - a menos que, como acontece em alguns países, o Presidente da CNE, Fernando Costa Soares, passe a defender a proibiçāo do Facebook ou do Twitter no território nacional. A actuaçāo deste senhor começa a ser matéria de estudo sobre os efeitos da ausência de percepçāo da realidade no exercício de cargos públicos e políticos.




SEMANADA - Os juros da dívida a dez anos andam de novo acima dos 7%; o fisco ganhou 404 milhões de euros em processos nos tribunais, 60% dos quais em processos nos quais estão em causa cobranças acima de um milhão de euros; devido à quebra de procura nos mercados internacionais a Auto-Europa deverá produzir este ano menos 20% de veículos que os fabricados no ano passado; a venda de automóveis em Portugal cresceu 16% em Agosto, a segunda maior subida em toda a União Europeia;  a Ministra das Finanças continuou a meter os pés pelas mãos no caso dos swaps; Luis Filipe Menezes já excedeu em 70%, só na pré campanha, o orçamento para propaganda de rua; as autarquias ainda devem mais de 200 milhões de despesas relacionadas com o Euro 2004; 120 autarcas já se reformaram mas continuam em funções; certamente pensando no Marquês do Pombal e na Avenida da Liberdade António Costa sublinhou que o seu programa eleitoral "nāo é o da grande obra, tem sido o de fazer as pequenas obras que mudam a vida das pessoas"; Reboredo Seara, referindo-se a comentários sobre notícias que nos últimos meses colocaram dúvidas sobre a possibilidade legal da sua candidatura, avisou que por sua iniciativa "alguma gente há-de ir aos tribunais".




ARCO DA VELHA - O Presidente da Câmara de Esposende ofereceu a idosos da autarquia 2000 terços numa festa que incluíu uma viagem a Fátima, tudo com um custo de cerca de 20 mil euros.




VER - Esta semana destaco a abertura de uma galeria que coexiste com uma editora, a Abysmo, dinamizada por João Paulo Cotrim e que tem no desenho e na banda desenhada uma das suas razões de ser. Pois a Abysmo mudou há uns meses para o nº 40 da  Rua da Horta Seca, ao Largo de Camões, e esta semana inaugurou o seu espaço de exposição - dedicado aos desenhos que Álvaro Siza fez para a edição de “A Casinha dos Prazeres”, de Jean-François de Bastide. Outros pontos altos da semana são a abertura da exposição de Miguel Navas na Bloco 103 (Rua Rodrigo da Fonseca 103) e a mostra evocativa dos 40 anos do AR.CO, que está desde esta semana no Museu do Chiado e que inclui, entre outros,  trabalhos de Ana Jotta, Miguel Branco, Pedro Sousa Vieira e Rui Sanches. Finalmente, vale a pena conhecer a exposição que André Gomes criou para a Casa Museu Anastácio Gonçalves e que pode ser vista até Novembro -  uma narrativa de imagens intitulada “A Sesta de Um Fauno”, que, ao contrário do que era a sua prática anterior, nāo sāo originalmente feitas a partir de polaroids, mas sim de fotografias digitais posteriormente manipuladas.


 


OUVIR- "Sunrise" tem a particularidade de ser o disco de estreia do pianista Masabumi Kikuchi na editora ECM e, também, o de ter sido o último registo gravado em estúdio (em 2009) pelo baterista Paul Motian, que com o baixista Thomas Morgan completava o trio que gravou este CD. Editado no final de 2012, um ano depois da morte de Motian, “Sunrise” é uma montra de talentos, das capacidades destes três músicos, mas sobretudo da inesperada forma que Masabuki Kikuchi tem de lançar temas e guiar improvisações. Neste disco é disso que se trata: três músicos que bem se entendem, e todos de gerações diferentes, sendo Thomas Morgan o mais novo, improvisam sobre dez temas que se vão desenrolando ao longo de quase uma hora. Uma das notas que li sobre esta gravação sintetiza assim o que se passa: “ este trabalho favorece a substância ao estilo, o significado aos malabarismos e o espaço à densidade”. Mas sobretudo o que cativa é o espaço e o tempo dado à improvisaçāo, num gesto raro, hoje em dia, de exercício colectivo. (CD ECM, na Amazon.)




FOLHEAR - “Playtime” é o título de capa da edição 212, de Outono, do Aperture Magazine, uma das mais estimulantes revistas dedicadas à fotografia e que pode ser adquirida através da Amazon. Nesta edição há um artigo excelente sobre as ligações dos planos cinematográficos do filme “Playtime” de Jacques Tati com a fotografia e um outro, muito curioso, que analisa a relutância de muitos fotógrafos ao humor. Mas o mais estimulante dos artigos é o que fala da relação de Italo Calvino com a fotografia, por exemplo através da evocação que fez da obra “Camera Lucida” de Roland Barthes, mas sobretudo por um pequeno conto que Calvino publicou em meados dos anos 50, intitulado “A Aventura de Um Fotógrafo”, que mais tarde veio a ser incluído na colectânea “Difficult Loves”. O autor deste artigo da Aperture, Aveek Sen, um ensaísta premiado pelo International Center Of Photography, defende que este conto de Calvino é mais importante para a compreensão do meio fotografia que os textos posteriores de Barthes e de Susan Sontag, sobretudo pela ideia expressa de que tudo o que não é fotografado inevitavelmente se perde.  O fotógrafo que protagoniza a aventura de Calvino vive entre a obsessão de não conseguir fixar todas as imagens da realidade à sua volta e o desejo da encenação de imagens que são a sua própria fuga a essa realidade - aquilo que sāo as duas correntes opostas que têm marcado a fotografia das últimas décadas. Nesta ediçäo da Aperture destaque ainda para seis portfolios de outros tantos fotógrafos de várias nacionalidades, que mostram de forma elucidativa os diversos caminhos que a fotografia contemporânea percorre.




PROVAR - Quando a fome aperta a meio da noite uma das possibilidades recomendáveis em Lisboa é o Café do Paço. O grosso da equipa veio há uns anos do D. Pedro V, que ficava na rua do mesmo nome. Este fica no Paço da Rainha, ao Campo dos Mártires da Pátria, e tem estacionamento facilitado. Só abre ao fim da tarde, para bar, jantar e ceias. Tem um ambiente confortável e acolhedor, boa iluminação e uma acústica excelente, ideal para uma conversa sossegada ao fim de um dia agitado. Recomendam-se os bifes, um impecável prego no pão e os já históricos pastéis de bacalhau com arroz de tomate e o pato assado à Alice. Os preços são sensatos, a garrafeira é curta mas equilibrada, o serviço é muito bom. Da clientela fazem parte políticos e jornalistas. Paço da Rainha 62-A, tel. 218 880 185.




DIXIT - “Enquanto não houver solução para o crescimento da dívida, Portugal está pior” - Daniel Bessa




GOSTO - O mestrado em gestão da Universidade Nova foi considerado o 7º melhor do mundo




NÃO GOSTO - 43% do total dos processos crime por corrupção envolvem Câmaras Municipais




BACK TO BASICS - Uma coisa é passar a vida a falar, outra coisa é falar quando é mesmo preciso - Sófocles



setembro 17, 2013

O CAOS

As estatísticas são o que são e podem ter sempre várias leituras, mas é difícil convencerem-me que este número pode ter várias interpretações: 43% dos crimes por corrupção envolvem câmaras municipais – e as muitas centenas de investigações realizadas vão desde turismo sexual patrocinado, até ao lançamento de concurso público depois de uma obra já estar feita. É certo que o justo não pode ser confundido com o pecador, mas a verdade é que o peso das autarquias no esbanjamento do dinheiro público, como também várias estatísticas demonstram, é enorme. Todos conhecemos os casos das rotundas, e é raro o mês que não ouço falar de um equipamento que foi construído algures mas que está vazio porque a ânsia de fazer obra foi maior que a de acautelar o seu uso futuro.


 


Nos últimos dias tenho visto boas reportagens sobre o estado da nação, sobre a forma como as autarquias são geridas – e chego à conclusão que muitas Câmaras são um problema que vai de funcionários a mais a eficiência a menos, passando por dívida incomportável. Aquilo que se fez no país em matéria de esbanjamento, replicou-se a nível local e esse fardo ainda o vamos carregar durante anos. Mas ao mesmo tempo que vejo o inacreditável acontecer em muitos  municípios, percebo que nas juntas de freguesia a realidade é bem diferente. As juntas fazem um trabalho de proximidade, muitas funcionam exemplarmente, desempenham funções e apoios à população para além daquilo que era esperado. Sobretudo nas zonas rurais prestam serviços que mais ninguém fornece e são tanto mais importantes quanto a desertificação do interior aumenta. Quanto mais penso no assunto, mais acho que a reforma do Estado tem que passar por aumentar a proximidade e não cavar novas distâncias.




(publicado na edição de hoje do diário Metro)


 

setembro 13, 2013

CIDADES, ELEIÇÕES E A IMPORTÂNCIA DA IMAGINAÇÃO

CIDADES  - Infelizmente não vejo nenhum candidato a Lisboa dizer que defende uma cidade mais confortável e amigável para os que cá vivem e cá pagam impostos. Nestas autárquicas, or esse país fora, vejo muitas proclamações generalistas mas poucas propostas concretas. A propósito, em boa hora chegou-me às mãos um belíssimo trabalho da consultora McKinsey, na sua newsletter mensal,  de Setembro, que tem por tema “How To Make Cities Great”. Com a devida vénia reproduzo de seguida algumas ideias que retive deste estudo da McKinsey, que devia ser leitura obrigatória para os candidatos autárquicos sérios - eu sei, a expressão é quase um paradoxo nos tempos que correm. Pois bem, actualmente metade dos habitantes mundiais, 3.6 mil milhões de pessoas, vive em cidades e, em 2030, esse número deve atingir os 5 mil milhões - as cidades vão crescer ainda mais e serão o principal factor de crescimento económico e de produtividade - e, também, o maior território de consumo. Por isso são encaradas como o palco do desenvolvimento e da transformação dos paises. Na governação de uma cidade, sublinha o estudo, há três mandamentos: conseguir um crescimento inteligente, fazer mais com menos, e conseguir ganhar o apoio da população, e dos funcionários da cidade,  para a mudança. Este programa ambicioso implica mais oportunidades para todos, melhor aproveitamento da tecnologia, um pensamento ambiental permanente, a procura ativa e produtiva de consensos com habitantes e com os negócios locais e uma cultura de responsabilidade nas equipas que dirigem as cidades. Claro que é preciso identificar clusters competitivos, criar centros de inovação, acolher universidades de ponta, ter bons transportes, garantir a segurança e facilidade na mobilidade. Mas é também preciso fazer uma formação intensiva nos funcionários dos municípios, estudar os melhores exemplos de como outras cidades atraíram investimentos. No fundo - e esta parte é tão desprezada entre nós -  é fundamental perceber que as cidades têm que fornecer serviços aos seus clientes. E os clientes das cidades são as empresas que as escolhem e as pessoas que lá vivem. Isto implica não ser precipitado, ter objectivos de longo prazo, ter noção das necessidades de pessoas e empresas, assumir procupações ambientais de forma realista, o que quer dizer  diminuir as emissões de carbono e, portanto, ter cuidado com a congestão de tráfego, ter consciência da realidade da vida das pessoas e não operar por decreto de cima para baixo. Tudo se resume a criar condições para que as pessoas vivam dentro da cidade,  preocupar-se mais com a rede interna de trasnportes e a circulação interna do que com o acesso de quem vem de fora.  Tudo isto pode parecer utópico - mas a McKinsey explica como as cidades que melhor prosperaram passaram por este caminho.




SEMANADA - Um estudo do Banco de Portugal indica que uma em cada cinco empresas gostaria de cortar salários; o sector da construção perde 198 empregos por dia; o preço médio das casas em Espanha caíu 38,6% desde 2007; em Espanha as dívidas das seis maiores empresas construtoras ultrapassam os 40 mil milhões de euros; o crédito malparado em Portugal atingiu o valor de 17 mil milhões de euros no final de Julho, um valor recorde; 66 cursos do ensino superior não tiveram nenhum candidato na primeira fase das inscrições e outros 48 cursos registaram apenas uma inscrição; no primeiro semestre deste ano as vendas de smartphones em Portugal ultrapassaram pela primeira vez as de telemóveis tradicionais; em Portugal as vendas de antidepressivos e ansiolíticos continuam a aumentar; estimativas apontam para a existência nos cadernos eleitorais de um milhão de eleitores fantasmas. já falecidos ou emigrados, num total de 9,4 milhões; o património imobiliário dos partidos políticos soma mais de 20 milhões de euros com o PCP a liderar com 13 milhões, seguido do PS com 7,7 e do PSD com 6 milhões - e nenhum paga IMI; aos 21 anos cerca de 18% dos jovens já agrediram namorado, 64% já se embriagaram e 34% já tiveram um acidente; o PS conseguiu dizer, primeiro que o Bloco de Esquerda, que votará contra o Orçamento, antes mesmo de o conhecer; slogans da semana: “Cabeçudo, por ti, tudo!” e “ser tripeiro é um mundo”.




ARCO DA VELHA - Estou para ver se os comentadores televisivos que se candidatam nas próximas eleições autárquicas vão permanecer em ecrã durante a campanha e que diz a sapiente Comissão Nacional de Eleições sobre o assunto.




VER - Esta é uma semana abundante em recomendações. Em Lisboa abre a Trienal de Arquitectura - no MUDE, na Rua Augusta, e no Carpe Diem, na Rua do Século, há espaços que vale a pena visitar. Por falar em arquitectura, no CCB, no espaço Garagem Sul, abriu uma imperdível exposição do arquitecto japonês Sou Fujimoto,  “Futurospective Arquitecture”, concebida pelo próprio. Outras ideias: na Fundação EDP, Museu da Electricidade,  inaugurou “Stop Making Sense”, uma exposição da artista plástica Mariana Gomes. Ainda em Lisboa decorrem hoje, sexta, e amanhã, sábado, as Noites de São Bento, um bom pretexto para visitar na  Galeria São Roque a “Exaltação da Sombra” de Lourdes Castro. E finalmente, na Fundação D. Luis I, no Centro Cultural de Cascais, inaugurou uma exposição com curadoria de Luis Serpa,  “Manta, Retratos de Família”, que agrupa obras de Abel Manta, da sua mulher Clementina Carneiro de Moura Manta, do seu filho João Abel Manta,  e da sua neta Isabel Manta. E, para terminar com fotografia, A Pequena Galeria, na 24 de Julho,  retoma o Salão Lisboa a partir de dia 19. Não há falta de boas coisas para ver. E ver, como dizia o outro, é meio caminho andado para aprender.




OUVIR- Nestes tempos Madonna parece como que apenas uma discreta virgem, quando comparada com as travessuras de replicantes como Miley Cirus. E no entanto, como vem provando desde os anos 80, é bem mais consistente que os sucedâneos entretanto surgidos. A sua digressão de 2012, “MDNA World Tour” teve 88 concertos e as receitas de bilheteira ultrapassaram os 300 milhões de dolares em todo o mundo - tornando esta a digressão que mais receita produziu no ano passado. A concepção do espectáculo, bem diferente de digressões anteriores da artista, foi descrita por Madonna como “a viagem espiritual da escuridão para a luz” e incluía três partes - a profecia, o masculino/feminino em que se reproduzia um ambiente de cabaret e eram interpretadas algumas das canções mais marcantes da sua carreira, e a redenção, cenografada como uma grande festa. A digressão foi cuidadosamente gravada e filmada - o resultado é um duplo CD e um DVD, já disponíveis em Portugal. A edição de imagem, algum material de bastidores, a montagem, tornam o DVD uma peça bem diferente do simple registo de um concerto. Desde os pormenores das coreografias aos cenários, passando pela actuação da cantora, o DVD do MDNA Tour é uma peça que testemunha a criatividade e o talento de Madonna e a forma como ela concebe o espectáculo. (CD e DVD Interscope/Universal).







FOLHEAR - A edição de Setembro da “Monocle” tem por tema o empreendedorismo e está recheada de exemplos de uma nova geração que procura negócios fora do comum ou que se dedica a recuperar velhas tradições e a torná-las rentáveis. Sob o lema “Do Your Own Thing”, a revista guia os leitores, através de exemplos, no processo de como escolher e iniciar o negócio, como gerir de forma moderna e eficiente e, finalmente, como conseguir negociar e estabelecer parcerias que ajudem a empresa a crescer. Tudo é acompanhado do relato de numerosos casos de sucesso um pouco por todo o mundo. Há outros temas de interesse, desde a renovação urbana como factor de desenvolvimento de negócios locais até à forma como as universidades de Vancouver, Aarhus na Dinamarca ou Tóquio estão a mudar o conceito e a forma dos seus MBAs, para melhorar prepararem os seus alunos - e o exemplo de Aarhus  é particularmente interessante e bem que podia ser seguido por algumas escolas portuguesas.




PROVAR - Uma das cervejarias emblemáticas da Avenida de Roma nos anos 70 e 80, “O Pote”, é agora um restaurante familiar e sossegado, bem longe das noites animadas que durante anos acolheu. Ao longo do seu meio século de história, acolheu tertúlias e a sua esplanada era ponto de encontro garantido. Aberto todos os dias, O Pote tem uma cozinha que não engana, baseada em valores seguros da culinária portuguesa - o destaque vai para o arroz de polvo, a carne de porco frita com açorda e, por exemplo, o clássico pica-pau do lombo. Os preços são justos, as doses generosas e o serviço é familiar e acolhedor. Está aberto todos os dias, mesmo no Domingo ao jantar, o que vai sendo raridade, e-dispõe de uma sala para fumadores. Fica no nº7 da Avenida João XXI e o telefone é o 218486397. Para mais informações ver opoterestaurante.com .




DIXIT - “Portugal é um país congelado - com o Governo e o PS a lutarem pelo papel do capitão Iglo” - Fernando Sobral, aqui no “Negócios”.




GOSTO - Da nova estratégia de produtos da Apple




NÃO GOSTO - Da posição da ERC sobre a cobertura das eleições, que contraria a liberdade editorial




BACK TO BASICS - A imaginação é mais importante que o conhecimento - Albert Einstein



setembro 10, 2013

PARA QUÊ VOTAR NAS AUTÁRQUICAS?

Para que serve um voto nas autárquicas? Basicamente para ver se as cidades, vilas e freguesias onde vivemos ficam mais apetecíveis para todos nós, se ficam mais confortáveis para o dia-a-dia, se os órgãos autárquicos nos ajudam em vez de nos atrapalharem, se existe uma acção social capaz, se é estimulada de alguma forma a criação de emprego e o desenvolvimento económico e social.


Portanto este é o momento exacto para pensar: estes que lá estão há quatro anos facilitaram-me a vida ou infernizaram-me a cabeça? Gastaram bem o dinheiro dos nossos impostos ou andaram a desperdiçá-lo em manias? Têm noção do que é a vida hoje em dia e querem ajudar, ou vivem numa qualquer utopia e querem dificultar?


 


Os que lá estão há quatro anos, que fizeram pela limpeza das ruas, pela segurança, pela recuperação e conservação? E  os pavimentos das estradas – foram só arranjados em véspera de eleições, ou são regularmente conservados e mantidos para que existam menos acidentes e se causem menos prejuízos ao veículos?


 


Se cada um de nós pensar desta forma, poderá fazer um juízo rápido sobrem que dirigiu a sua câmara e a sua freguesia. Será que vale a pena continuarem estes,  ou é melhor escolher outros? Nestas eleições os programas partidários contam menos que a capacidade das pessoas. Eu, na minha Câmara e na minha Freguesia, quero quem me ajude, não quero quem me dificulte a vida, quero quem empregue bem o dinheiro sem ser em obras incompreensíveis, quero quem me ajuda a poupar, em vez de me meter mais multas e limitações em cima.


 


Eu, onde voto, preocupo-me mais com o que fizeram ao meu dia a dia do que com aquilo que fizeram para os visitantes e forasteiros. Quero quem cuide de cá vive em vez de quem cuide de fazer show off.


 


(Publicado na edição de hoje do diário METRO)

setembro 06, 2013

O Gato e o Rato na política portuguesa

O GATO E O RATO - A saga do Governo com o Tribunal Constitucional parece a história do gato e do rato. Neste caso o rato é o Governo e o gato é o Tribunal Constitucional. Por três vezes, em tempos recentes, o gato já caçou o rato. E o rato, em vez de pensar como pode escapar do gato, coloca-se vez após vez nas suas garras. Saindo deste tom de fábula, mas que no meu entender retrata a realidade, parece evidente que o rato não se tem preparado - e preparar aqui é fazer política, encontrar opinião semelhante que o defenda, estudar, debater, comunicar, procurar um caminho de fuga, um plano B - tudo o que é preciso para não ser apanhado e deixar o gato no beco sem saída onde o rato se deixou encurralar. Não chega dizer que se vai fazer - é preciso, antes, mostrar que há alguma coisa que se tem de fazer para que outras não aconteçam. É isto que tem faltado ao rato da nossa história. Ainda por cima ele tenta escapar-se de um gato sabidola, ágil e traiçoeiro. A questão é que o gato da nossa história, o Tribunal Constitucional, tem dois problemas - toma decisões ideológicas, porque a contituição é ideológica; e, esta é a pior parte, tem os dois pés fora da realidade. O Tribunal Constitucional é do tempo em que se fabricavam notas nas máquinas da Casa da Moeda e não interiorizou que o dinheiro não nasce por decreto nem por acordão. Ainda por cima é preguiçoso, como o seu processo de trabalho vai demonstrando. Mas o pior de tudo é que, mesmo agora, o Tribunal Constitucional tem entre mãos diplomas com um impacto de mil milhões/ano na despesa do Estado - e continua sem conseguir ver as diferenças entre o Estado e a sociedade. Na realidade continua sem perceber o que é, agora, este país.




SEMANADA - Portugal perdeu cerca de 30 mil professores desde a chegada da troika em 2011; a dívida das autarquias às Águas de Portugal subiu cerca de 5% nos últimos seis meses para 535 milhões de euros; as dívidas fiscais paradas nos tribunais aumentaram 7% este ano; a área ardida este ano, até final de Agosto, é 25% superior em relação à do ano passado; o número de mortos em incêndios este ano já se eleva a seis e existem seis feridos em estado grave; entre 2007 e 2011 foram condenadas 280 pessoas por provocarem incêndios florestais, mas dessas apenas 14 foram condenadas a penas de prisão efectivas e a maioria é condenada a penas suspensas e multas; a segurança da PSP a José Sócrates, de cada vez que se desloca à RTP, ocupa uma equipa de sete agentes; 10% da frota automóvel da PSP está avariada, ao todos 500 veículos estão fora de serviço; por falta de conservação aluíu o pavimento do pátio de entrada do comando distrital de Évora da PSP; Carlos Tavares, presidente da CMVM considera que “a supervisão dos SWAPS não é satisfatória”; 70 concelhos têm falta de médicos de família; as vendas dos smartphones em Portugal cresceram este ano 74%; Alfredo Barroso publicou no diário “i” um artigo intitulado “O PS política e ideologicamente à deriva”.




ARCO DA VELHA - 560 mil imóveis estão isentos de Imposto Municipal desde sedes dos partidos políticos a estádios de futebol, passando por embaixadas ou edifícios detidos por sindicatos e associações patronais, entre outros.




VER - No dia 17 de Agosto abriu no Museum Of Modern Art (MoMa) em Nova York, uma exposição dedicada ao modernismo americano, que revisita a colecção do Museu, com obras que vão de 1015 a 1950, ou, como diz o subtítulo da exposição, “American Modern: Hopper to O'Keeffe” - é de Hopper a imagem junto a esta nota, “House By The Railroad”, de 1925, um dos pontos altos da exposição. Ao mesmo tempo o MOMA continua a apresentar uma retrospectiva sobre a obra do arquitecto Le Corbusier. Se visitarem o site www.moma.org poderão vislumbrar outras exposições, como a que é dedicada à fotografia de Walker Evans ou às novas aquisições para a colecção de fotografia do MoMa. Bem sei que não é a mesma coisa, mas na realidade esta possibilidade de, por via digital, pelo menos vislumbrarmos o que se passa em sítios onde não estamos é uma das maravilhas destes tempos que correm.




OUVIR- Para assinalar o 60º aniversário da editora discográfica Riverside a Concorde Records, que entretanto ficou com esse precioso catálogo de jazz, tem estado a fazer uma série de boas reedições. Chegou agora a vez de “So Much Guitar!”, um LP originalmente editado em 1962, o sexto na discografia do guitarrista Wes Montgomery, um dos responsáveis por tornar a guitarra eléctrica um instrumento musical respeitado (e inovador) no jazz contemporâneo. Este disco tem todos os temas da edição original de “So Much Guitar”, mais um registo ao vivo, “The Montgomery Brothers In Canada”, gravado em Vancouver na Primavera de 1961. Os oito temas de “So Much Guitar” incluem basicamente um repertório de standards e alguns originais, nos quais Wes Montgomery é acompanhado por um então promissor baixista Ron Carter, pelo pianista Hank Jones e os percussionistas Lex Humphries e Ray Barretto - ou seja uma espécie de laboratório de ensaio de alguns dos nomes que haviam de moldar o jazz na década seguinte. Ao ouvirmos as suas interpretações de temas como Twisted Blues ou Something Like Bags, percebemos a época única de explosão de talentos que então se vivia. (CD Riverside/Concorde, distribuído em Portugal pela Universal).




FOLHEAR - Tradicionalmente as edições de Setembro da “Vogue” são o ponto alto  do mundo das grandes revistas de moda. Por isso mesmo a “Vogue” promove em Setembro, em várias cidades, a “Vogue Fashion Night Out”, que na próxima quinta-feira dia 12 chega a Lisboa, pelo quarto ano consecutivo. Avenida da Liberdade, Chiado, Camões, Principe Real, serão as zonas em movimento. Enquanto isso não acontece, vale a pena destacar a edição norte-americana da Vogue de Setembro, uma recordista habitual em tamanho e número de páginas de publicidade. A coisa é de tal forma que já se fez um documentário, “The September Issue”, que relata o processo de produção da edição da Vogue em Setembro de 2007. Pois bem a edição deste ano tem 902 páginas, e nas primeiras 400 praticamente só existe publicidade - mas é preciso dizer que muita desta publicidade é especialmente concebida, fotografada e produzida apenas para esta edição, o que torna muitas das páginas magníficos objectos gráficos. A honra de capa coube a Jennifer Lawrence, um das novas actrizes americanas (nasceu em 1990), e uma outra chamada de capa é para uma exemplar reportagem sobre Marissa Mayer, a mulher que veio da Google para gerir a Yahoo!. Outros destaques vão para bastidores de grandes casas de moda como a Valentino ou a Loewe. Mas há também um trabalho sobre a obra do grande fotógrafo Irving Penn, para não falar de numerosos artigos sobre viagens, restaurantes e as novas estrelas do teatro, das artes plásticas ou da televisão. A Vogue fala de moda - onde quer que ela se manifeste. Em Portugal esta magnífica edição custa 17.60€.




PROVAR - Aqui há uns anos, no meio de uma resolução burocrática na Baixa, resolvi levar o meu filho Gonçalo, que me acompanhou nessa expiação das teias que o Estado tece, a conhecer uma petisqueira. Apontámos à Rua dos Douradores e apresentei-o à Adega dos Lombinhos. Ainda hoje, e já lá vão uns anitos bons, ele se lembra da emoção do lugar - a fauna local e a visitante, o jeito dos empregados, o sabor da carne e das batatas. Volta e meia, esporadicamente, quando estou por aqueles lados, ali vou - prefiro de longe aqueles lombinhos às hamburguerias mal engedradas adjacentes. A Adega dos Lombinhos é uma das derradeiras petisqueiras originais da Baixa e vai desaparecer, engolida numas obras de remodelação que, no prédio onde está instalada, criarão um novo hotel. Essa é uma parte boa e que tem a ver com a cidade - dará conforto aos seus visitantes, sem cuidar do conforto dos habitantes - uma constante da política costista. Se eu fosse ao futuro Hotel mantinha o pessoal da Adega dos Lombinhos no activo, ali no rés do chão do número 52 da Rua dos Douradores, e garanto que rapidamente seriam estrelas num suplemento de viagens do Guardian ou do New York Times. Nem sequer lhe mudava muito o ambiente.




DIXIT - “Com os mesmos de sempre não espere nada diferente” - cartaz da Plataforma Cidadania Lisboa




GOSTO - Do dinossauro introduzido por Luis Afonso na tira de BD Bartoon.




NÃO GOSTO - Da ideia da criminalização dos piropos.




BACK TO BASICS - O maior erro que alguém pode cometer na vida é estar permanentemente com medo de errar  - Elbert Hubbard

setembro 03, 2013

O VAZIO DA CAMPANHA ELEITORAL

As próximas eleições autárquicas estão a revelar-se um repositório de lugares comuns. Os cartazes então são cada vez mais confrangedores. Ainda não vi um com uma ideia, apenas vejo um rol de banalidades, não se vislumbra uma proposta política. Em Lisboa a coisa é terrível – começa por Seara que tem por lema “Em Lisboa Com Os Dois Pés”. Por muito que me esforce não consigo traduzir isto em medidas concretas – será que pretende distribuir pontapés pela cidade fora? António Costa não é muito melhor – “Juntos Fazemos Lisboa” não quer dizer nada a não ser que deve estar contente com o que fez ao Marquês do Pombal e à Avenida da Liberdade e que se propõe continuar a fazer mais do mesmo. Até o Bloco de Esquerda abdicou da política e de propostas para se limitar a dizer “Queremos Lisboa”, uma coisa que fica sempre bem mas que não quer dizer mesmo nada. Desta vez nem a CDU escapa com o seu vaguíssimo “Cidade Para Todos”.


 


Mas não se pense que isto só acontece em Lisboa. O belíssimo e educativo blogue imagensdecampanha.blogs.sapo.pt recolhe pérolas como “Esperança no Futuro” para a candidatura do PS no Montijo ou “Juntos pelo Montijo”, para  a candidatura do PSD. Em Constância o PS proclama “Juntos Vamos Mudar Constância” e o PSD diz “Mais Juventude, Mais Futuro”. Também gosto muito do slogan do PS “Mudar o Porto” (será para Gaia?), acho curioso o do PS em Loulé “Ninguém Ficará para Trás” e parecem-me muito criativos estes do PSD -  “Afirmar Amarante”  e “Por Angra”.


 


Mas pior que tudo é a mania de adaptar músicas para hinos de campanha sem autorização dos autores. Cá para mim candidatos que usurpam direitos de autor deviam ser impedidos de se candidatarem – estão a usar o que não é seu com desplante e descaramento.

agosto 30, 2013

Sobre a abstenção dos políticos e sugestões de fim de verão

(DES) POLÍTICA - A um escasso mês das eleições autárquicas continua sem se saber exactamente o que irá acontecer em relação a uma série de candidaturas, suspensas de uma decisão do Tribunal Constitucional sobre a lei de acumulação de mandatos. Não vou tecer comentários sobre a posição dos privilegiados juízes do Palácio Ratton, que estão, na maioria, a banhos em parte incerta e sem sinais de quererem interromper o seu lazer - a coisa é apenas um retrato de um sistema completamente caduco. Mas o que me deixa estarrecido neste processo, desde o início, é a forma como os políticos abdicaram de fazer política e passaram esta responsabilidade para os tribunais. As dúvidas sobre a Lei, feita pelo PS, PSD e CDS na Assembleia da República, deviam ter sido esclarecidas e eventualmente corrigidas pelos seus autores no mesmo sítio onde essa legislação nasceu - o Parlamento. Mas em vez de chamarem a si a responsabilidade, no que parecia uma decisão política óbvia, os nossos políticos, os seus partidos e os respectivos líderes parlamentares deram uma tristíssima imagem de si próprios ao abdicarem da sua qualidade de legisladores, remetendo uma decisão política para os tribunais. Quando isto acontece numa época em que tanto se fala - com preocupação e razão - da judicialização da política, é elucidativo o facto de serem os próprios políticos a, abstendo-se de cumprirem o seu mandato e aquilo que deles se espera, surgirem a promover essa judicialização numa questão básica do regime como é  uma Lei Eleitoral. Em vez de política frontal preferiu-se a vergonha dos arranjos de interesses, da criação de confusão na mais vergonhosa demonstração de cobardia política generalizada de que tenho memória. Não se queixem agora os políticos das férias dos juízes do Constitucional - são eles, os políticos, que deixaram de fazer o que deviam.




SEMANADA - Nas cerca de três centenas de municípios há 80 candidaturas independentes, não apresentadas por partidos, totalizando cerca de 25% do total e representando cerca de 33% do número de eleitores; mais de 80 candidatos têm canais pessoais no Meo Kanal, e o PS é o partido que mais usa esta plataforma tecnológica; Manuela Moura Guedes foi escolhida pela RTP para apresentar a nova série do concurso “Quem quer Ser Milionário”; 27 por cento dos trabalhadores por conta de outrem tiveram cortes salariais em 2012; nos últimos 25 anos o número de casamentos diminuíu 40%; cerca de ⅓ dos serviços do Estado falharam o prazo para a entrega nas Finanças das propostas de orçamento para o próximo ano e o Ministério da Educação foi o recordista nos atrasos; encargos com a saúde na ADSE diminuíram 100 milhões de 2011 para 2012; a circulação de veículos nas auto-estradas caíu 6,3 por cento no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado; a polícia russa confiscou na segunda-feira um quadro satírico em que o Presidente Vladimir Putin surgia a pentear o primeiro-ministro Dmitry Medvedev, ambos vestidos apenas com roupa interior feminina; o Skype fez dez anos e liga 300 milhões de pessoas.




ARCO DA VELHA - No meio do inferno dos incêndios soube-se que um homem ateou uma dezena de fogos ao saber-se traído pela mulher.




VER - Apenas a carolice e a dedicação de uma pessoa, José Delgado Martins, explicam a persistência de um local como a “Casa das Artes de Tavira”. Delgado Martins, que há quase 30 anos é responsável por este espaço, fez com que ele se afirmasse como um porto seguro onde se pode ir vendo, em Tavira, obras de artistas contemporâneos portugueses. O horário de verão é pensado em função dos hábitos estivais, o que faz com que a Galeria esteja encerrada nas horas do calor e que à noite esteja disponível para visitas. Por estes dias, até 7 de Setembro, podem ali descobrir obras recentes de Pedro Calapez sob o título “Espaço Moldado”, numa montagem ritmada e cativante nas três salas por onde as peças se distribuem. Tudo isto se passa na rua João Vaz Corte Real 96, em Tavira.




OUVIR- Rokia Traoré, guitarrista e cantora do Mali, da etnia Bambara, é um dos nomes grandes da música africana contemporânea, tendo começado a sua carreira no final dos anos 90. Desde cedo se interessou por utilizar a tradição musical do seu país em fusão com a música popular de origem anglo-americana. “Beautiful Africa”, o seu novo disco, o quinto, é aquele que mais influências rock aparenta em toda a sua obra, foi produzido por John Parish, que fez carreira e ganhou fama ao lado de nomes como P.J. Harvey, desempenha aqui a função de guitarrista convidado e, sobretudo, como produtor, tem uma influência decisiva na sonoridade final do disco. Traoré canta em inglês, mas também em bambara, e tanto usa instrumentos ocidentais como o tradicional n.gori e, além de Parish, é acompanhada por um grupo de músicos africanos. O resultado é um conjunto de canções de invulgar qualidade e onde me permito destacar os temas Kuama, Melancolie e, sobretudo, a faixa título, sobre a situação no Mali, “Beautiful Africa”. CD Nonesuch, na Amazon.




FOLHEAR - Todos os anos, por esta altura, a revista semanal norte-americana “Time” publica um número duplo, de Verão. Este ano o tema escolhido foi o aniversário dos 50 anos da marcha pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos, em Washington, liderada por Martin Luther King. Este número da revista, ainda em distribuição, é um exemplo  - da capa à escolha das fotografias ou à concepção de toda a edição - a escolha dos artigos, a forma como são paginados, a sequência com que são publicados - tudo é um exemplo de grande jornalismo e de grande imprensa. Esta edição da “Time” é a prova de que em nenhum outro media se consegue fazer o que se faz na imprensa - seja hoje em papel ou amanhã em digital. A capacidade de contar histórias, escritas e mostradas nas fotografias, é bem maior aqui que num flash rápido de qualquer estação de televisão. Basta ler a descrição de como nasceu o célebre discurso “I Have A Dream” para se perceber como a maneira de bem contar uma história faz toda a diferença.




PROVAR - O restaurante “O Cesteiro” vive em Vilamoura há mais de duas décadas, constantemente a dar provas de qualidade nos produtos que apresenta e confecciona. Logo na entrada há um balcão onde o fresquíssimo pescado do dia se apresenta à escolha dos clientes. A casa tem uma varanda larga, com vista sobre a Marina de Vilamoura (o restaurante é num primeiro andar), e uma sala ampla e confortável, com uma decoração intemporal que tem resistido bem ao passar dos anos. A relação de qualidade/preço de “O Cesteiro” é assinalável e é certamente uma das razões que levam a casa a manter-se. Mas ficaria mal com a minha consciência se não louvasse a competência do grelhador que, sem escalar o peixe, desempenhou a sua função acima da média: o resultado foi uma dourada fresquíssima bem grelhada, suculenta, sem perder nada do seu sabor ou textura. Antes tinham vindo para a mesa umas honestas ameijoas e umas lulinhas fritas absolutamente sublimes. O telefone do local, no Edifício Vilamarina, é 289 312 961.




DIXIT - “Magistrados do Constitucional deixam-se influenciar por motivações políticas" - Daniel Proença de Carvalho.




GOSTO- Da determinação e do esforço dos Bombeiros


NÃO GOSTO - Da ideia de, em plena época de fogos, ter assinalado os 25 anos do incêndio do Chiado com um simulacro da sua repetição.


BACK TO BASICS - Quando fôr preciso agarrar uma cobra venenonsa usem sempre a mão do vosso inimigo (provérbio persa)

agosto 16, 2013

A Esquina À Beira das Autárquicas

CONCURSOS PÚBLICOS - A Comissão Nacional de Eleições (CNE) lançou em Março passado um concurso público para escolher quem asseguraria uma campanha publicitária para apelar à participação dos cidadãos no próximo acto eleitoral, as autárquicas. Após meses de impugações e atribulações diversas, a decisão foi tomada apenas na semana passada. Este concurso público previa inicialmente, em Março, 3.4 milhões de euros destinados à criatividade e a plano de meios em simultâneo. O objectivo era então criar uma campanha que apelasse ao recenseamento e à participação no acto eleitoral e explicasse a reorganização administrativa das freguesias. A primeira campanha arrancaria em Maio mas o concurso foi impugnado, no meio de numerosas acusações de que o caderno de encargos estaria feito para uma determinada entidade. O montante acabou por ser reduzido e nesta fase foi apenas adjudicada, e com polémica,  a criatividade, existindo alguma dúvida sobre o que se passará com o plano de meios - isto a cerca de dois meses das eleições às quais a iniciativa se destinava. Este é apenas um dos casos de concursos, no âmbito da actividade publicitária, lançados por organismos públicos, e que claramente partem, do ponto de vista técnico, de bases erradas, sem nenhuma relação com a realidade de funcionamento do mercado - a primeira das quais é persistir ainda hoje em juntar a criatividade com a planificação de meios. Depois, e cada vez mais frequentemente, há concursos públicos que  determinam a utilização, paga pelo Estado português, de empresas internacionais que são alvo de reparos na Europa por utilizarem esquemas fiscais que as livram de pagar impostos nos países onde actuam - o Google é uma dessas empresas, que surge repetidamente como de utilização recomendada ou obrigatória em concursos que envolvem fundos públicos, dinheiro dos contribuintes que, eles sim, pagam aqui os seus impostos que assim esvoaçam... Ainda em relação aos Concursos Públicos, a série de plataformas privadas que foram criadas para os acolher, e cuja utilização é paga pelas empresas que pretendem participar nas consultas, é demasiado alargada - quem quiser estar a par dos concursos lançados tem que subscrever os serviços de uma meia dúzia de entidades, todas elas com um funcionamento com diversas falhas, demoras e problemas técnicos que dificultam e tornam o processo muito pouco transparente. Este caso da Comissão Nacional de Eleições -  que já teve consultas anteriores no mínimo polémicas - é o exemplo de como um orgão que está no coração do regime, que é essencial à participação dos cidadãos em eleições, e que devia estar acima de qualquer suspeita, se torna num elemento perturbador e gerador de desconfianças sobre o funcionamento do Estado.




SEMANADA - Os cadernos eleitorais para as autárquicas de setembro contam com mais de 9,4 milhões de inscritos, enquanto os dados dos últimos Censos indicam que, em 2011, residiam em Portugal apenas 8,6 milhões de pessoas; continua a barafunda em torno da aplicação da Lei de Limitação de Mandatos Autárquicos, com uns candidatos a serem autorizados por uns juízes e, outros, a serem recusados por outros juízes; a Segurança Social gastou 55,6 milhões de euros no primeiro semestre deste ano para pagar salários e compensações em atraso a trabalhadores de empresas em situação económica difícil ou que encerraram; a nova versão do Código de Processo Civil, que entra em vigor daqui a cerca de três semanas, já teve 14 rectificações, apenas mês e meio depois de ter sido inicialmente aprovada no Parlamento; a Banca cortou quatro mil funcionários desde a chegada da Troika; as seguradoras lucraram 464 milhões no primeiro semestre do ano, mais 176% do que no período homólogo do ano passado; o custo dos seguros para despesas com tratamentos de bombeiros poderá duplicar jé em 2014; a provedora dos animais de Lisboa, Marta Rebelo, nomeada por António Costa há dois meses, demitiu-se alegando falta de condições para actuar.




ARCO DA VELHA - A ERC - Entidade Reguladora da Comunicação - edita uma newsletter em formato digital, para informar sobre as suas actividades.  As newsletters 70, 71 e 72, respectivamente de Janeiro-Fevereiro, Março-Abril e Maio Junho, foram enviadas por email, em simultâneo, no passado dia 5 de Agosto. Qual a eficácia desta comunicação e desta ERC?




VER - Estão com vontade de ver boas exposições de arte contemporânea e não sabem como? Experimentem visitar http://www.saatchigallery.com/ e poderão descobrir a actividade daquele que é considerado um dos cinco melhores museus no Facebook e Twitter. Criado a partir da colecção privada dos irmãos Saatchi, localizado no centro de Londres, junto a Sloane Square, numa antiga instalação militar, a Saatchi Gallery apresenta sempre obras provocantes e procura desbravar caminhos. É o caso da exposição “New Order”, sobre artistas emergentes do Reino Unido ou de “Paper”, que apresenta obras, em diversos formatos e conceitos, mas sempre como papel como suporte.




OUVIR- Andava há uns meses para escrever sobre este disco, uma compra ainda primaveril na Amazon e que me deu boas alegrias nestes tempos recentes. Trata-se de um disco de blues, assinado pelo lendário Dr. John, que aos seus 71 anos nos mostra o que é sentir e tocar Rythm’n’Blues. A produção é de um outro apaixonado pelos blues, o guitarrista dos Black Keys, Dan Auerbach. Malcolm John Rebennack Jr., assim se chama de facto Dr. John, fez com este disco a sua melhor gravação dos últimos anos. Fundamentalmente esta é uma jam session onde brilham tanto a criatividade de Dr. John, como a capacidade técnica de Auerbach. A forma como Dr. Joh toca piano eléctrico e com ele imprime uma personalidade própria a canções como “Revolution” , “Getaway”, “Big Shot” ou “Ice Age” não deixa de me espantar, quase que diria década pós década.




FOLHEAR - A edição de Verão da Monocle em formato jornal, a “Monocle Mediterraneo” vem cheia de boas ideias e de algumas referências a Portugal. É engraçado notar que a empresa editora da Monocle deixou de ser apenas uma editora de imprensa e passou a ser uma empresa de media com conteúdos em papel, na webradio e no digital. Arrisco dizer que é a primeira companhia nascida já nesta década a assumir-se desta forma e não deixa de ser extraordinário que os seus anunciantes de maior destaque sejam cada vez mais marcas tecnológicas - de carros a telemóveis. Nesta edição gostei do ponto de situação sobre a Grécia, menos catastrofista do que é habitual sobre o mesmo tema - é aliás curioso notar que a “Monocle” fala quase sempre de forma positiva sobre as coisas, estimula, dá bons exemplos - nos negócios, na cultura. na criatividade e, sobretudo, no desenvolvimento de pequenos negócios auto sustentáveis. Uma das boas peças desta edição é dedicada à indústria italiana de construção de iates e de barcos de recreio. Nós, que temos uma das maiores costas europeias, que temos tradição de construção naval, porque é que nunca desenvolvemos esta vertente, nos estaleiros que vivem em dificuldades? É um mistério que ainda hoje me persegue. Adiante: Madrid continua a investir forte na “Monocle” e esta edição não é excepção com uma página inteira de publicidade, com conteúdos, da gastronomia à música. Portugal é falado por causa das boas conservas Nero, por causa da já inevitável Comporta e duas suas CasasNaAreia e, claro, por causa do potencial surfista da Ericeira. Tudo isto, se não se recordam, se desenvolveu já nesta década.




PROVAR - Prossigo nas minhas refeições leves de verão. Desta vez foram filetes de cavala fumados em azeite, da marca Tricana, disponível desde há 80 anos na Conserveira de Lisboa. Estas conservas de fumados da Tricana são qualquer coisa de especial (já aqui falei, há umas semanas, dos belíssimos mexilhões fumados). Duas latas desta cavala (um peixa injustamente pouco considerado) e uma endívia bem cortada em salada deram um excelente jantar para duas pessoas. Uma garrafa de vinho verde Muralhas fez as honras da casa a pleno contento e uma melancia aos cubos, refrescada, completou o assunto.




DIXIT - “A política, ao pé do desporto, é um convento de freiras” - Pedro Santana Lopes




GOSTO- Dos concertos do Meo Out Jazz, que acontecem aos domingos a partir das 17h00 no Parque Eduardo VII, em Lisboa.




NÃO GOSTO - De quem vai para a política depois de ter feito carreira em negociatas que lesam os contribuintes.


BACK TO BASICS - “A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora” - Eça de Queiroz

agosto 09, 2013

UM DESAFIO A COSTA; O VERÃO QUENTE E SUGESTÕES AVULSAS

DESAFIO  A ANTÓNIO COSTA  - Já que não vejo razão para votar em Reboredo Seara, assumo desde já que estou disposto a votar António Costa se ele vier dar uma volta de moto comigo e uns amigos meus (pode vir escoltado pela Polícia Municipal desde que de moto), num trajecto urbano não superior a 25 kms, onde se vejam e sintam os perigos e incomodidades que os motociclistas sofrem em Lisboa, e se ele fizer um compromisso escrito de reparação de dez situações graves no espaço de um ano; reafirmo que voto Costa se, a José Sá Fernandes, fôr retirado o pelouro dos espaços públicos da cidade; voto António Costa se a EMEL admitir que cada cidadão residente e contribuinte em Lisboa pode ter direito a duas zonas de estacionamento não contínguas, com definição pelo próprio de qual a principal e qual a secundária, que poderá ter um pagamento anual equivalente ao valor actual de uma segunda viatura na mesma morada; voto António Costa se a EMEL garantir um tempo de resposta ao desbloqueamento não superior a 15 minutos após contacto telefónico, sob pena de não cobrança de custos de desbloqueamento nem de multa - o equivalente à tolerância que a empresa dá. A mim parecem-me propostas razoáveis. O desafio é público, espero a resposta do candidato, que não deixarei de divulgar se -  e - quando surgir.


 


VERÃO QUENTE - Citando o que João Gonçalves escreveu no Facebook, “o apodrecimento do regime não tira férias”, constato que este ano voltámos aos verões quentes da política. Olho para o Ministério das Finanças e vejo uma sucessão de bonecas matrioshkas, daquelas que se encaixam umas nas outras, mas que têm “swaps” escrito na testa. A Ministra, que não é isenta de ocorrências em matéria de swaps, tem juntado à sua volta, com notável falta de bom senso, um clã de swapistas. Nunca hei-de perceber o que leva alguém a escolher para o Governo um cidadão, por mais honesto e boa pessoa que se assuma, que na sua vida, por um só momento que seja,  tenha sido parte de uma venda de  aldrabices aos contribuintes - e não me parece que o caso possa ser analisado por quem esteve envolvido na operação. O Ministério das Finanças continua a precisar de uma limpeza - e não será o Ministério Público, essa instituição de carácter humanitário que arquiva os processos todos, citando uma feliz expressão que também li no facebook, que poderá resolver o assunto. A questão de fundo é esta: Joaquim Pais Jorge será certamente um excelente profissional na área da banca e uma boa pessoa. Acontece que, certamente por razões profissionais, esteve, mesmo que indirectamente, ligado a uma operação que visava iludir os contribuintes portugueses - no montante do défice e em custos financeiros, a proveito da instituição para  a qual trabalhava. Na posição que ocupava, era difícil não saber, e avalizar, os detalhes da operação. Mesmo que não tenha sido ele a escrever, tinha que saber o que foi escrito. Dou de barato que até pode não ter estado presente nalguns momentos. Mas, a menos que não cumprisse as suas funções, não pode negar conhecimento e co-responsabilidade nas propostas apresentadas. E é de responsabilidade que estamos a falar. Ao demitir-se demonstrou que tem carácter e, nos tempos que correm, reconheço que  lhe sobra aquilo que a outros falta.


 


SEMANADA - As pensões do Estado acima dos 600 euros sofrem um corte de 10% a partir de 2014; a medida vai abranger 500 mil reformados; no entanto, juízes e diplomatas jubilados são considerados caso excepcional e escapam a este corte das pensões;  Portugal é o quarto país mais envelhecido da União Europeia; o Governo anunciou querer aumentar a idade da reforma para 66 anos já em 2014; o Presidente da República tem o estatuto de reformado, assim como a Presidente da Assembleia da República é reformada, e também os presidentes de três bancos privados, que por acaso são reformados da Caixa Geral de Depósitos; os presos VIP da cadeia da Carregueira fizeram acções de protesto contra a greve dos guardas prisionais; em Amarante um casal em que ambos eram candidatos por listas diferentes entrou em divergência política e separou-se - rompeu-se a coligação que os unia; nos ultimos


três anos foram detectadas em casas particulares cinco jibóias e seis cobras pitão e foram apreendidos a particulares seis tigres, dois leões e um hipopótamo.


 


ARCO DA VELHA -O Presidente da Liga de Clubes de Futebol Profissional, Mário Figueredo, foi acusado de, num acesso de fúria, ter atirado um telemóvel a um funcionário da FNAC do Norte Shopping, provocando-lhe um hematoma.


 


VER - Nesta semana em que se tornou patente que existe uma ruptura sobre o sistema de financiamento da nova Lei do Cinema, é  particularmente interessante ver “A Gaiola Dourada”, de Ruben Alves, um filme sobre portugueses, maioritariamente filmado em França, maioritariamente com financiamento francês. Hesito em dizer que se trata de uma comédia, porque aborda assuntos sérios - um olhar cáustico sobre Portugal, particularmente actual com o aumento que a nova emigração tem tido. Mas também certeiro porque mostra a nossa complacência e brandos costumes e revela a imagem que projectamos além fronteiras. Eu gostei do filme, tecnicamente escorreito, com boas interpretações - sobretudo de Rita Blanco e de Joaquim de Almeida - dois actores que não receiam sê-lo em vez de parecer, como infelizmemte se tornou prática, por ignorância ou arrogância. E, gostei da realização e da montagem. Se mais filmes assim existissem, com princípio, meio e fim e uma ideia bem comunicada, menos guerra existiria para que o financiamento do cinema português se concretizasse. Grave mesmo, é impôr cobrança sem definir para que serve o dinheiro cobrado - sobretudo garantindo um princípio básico: o primado do produtor e a adequação da obra ao meio que a financia.


 


OUVIR- Pega-se no disco e saltam nomes à vista: George Duke, Stanley Clarke, Kurt Elling, Dave Grusin, Marcus Miller, Chick Corea e Nathan East são apenas alguns dos mais de 20 músicos envolvidos nestas “Rhythm Sessions”, que se desenvolvem à volta de Lee Ritenour, um dos grandes nomes da guitarra eléctrica no jazz. Todo o disco é um exercício de virtuosismo dos diversos instrumentistas, qualquer deles pronto a figurar na lista dos melhores músicos que compreendem - e executam - a música contemporânea. Permito-me destacar uma das faixas cantadas, “River Man”, um original de Nick Drake, aqui numa extraordinária interpretação de Kurt Elling. Se por mais não fosse, este tema valia para guardar este disco na memória. (CD Concorde, na Amazon).


 


FOLHEAR - A revista NAU XXI passa para papel a conversa abundante sobre a vocação marítima que volta e meia assola o país. Oriunda de um destino atlântico, açoreana, consegue concretizar essa atracção pelo mar - nos conteúdos, bem servidos por um grafismo envolvente e a um ritmo de paginação que, infelizmente, hoje em dia é uma raridade. Gosto deste desafios, de revistas que nascem contra o tempo e a contra a lógica das coisas, que desafiam as ideias feitas e surgem como propostas inesperadas. Este número 2 da NAU XXI tem o peixe português como tema e muito que ler - e bastante por descobrir. Gosto disto, que mais vos posso dizer?


 


PROVAR - Nas noites em que escrevo esta coluna gosto de petiscar alguma coisa simples, em casa. Quis o acaso que esta semana me defrontasse num supermercado com esta belíssima caixa de conservas, filetes de chaputa em escabeche. Desde o tempo em que havia uns magníficos anúncios radiofónicos do peixe congelado, que apregoavam as qualidade da chaputa, que o raio do peixe me persegue. Assim, quando vi uma embalagem de chaputas em escabeche à mão de semear, não hesitei. A confecção vem das conservas La Gondola, que aqui assinam Luças, de Matosinhos, anunciando no grafismo irresistível que desde 1920 dão o seu melhor no preparo do peixe. Este escabeche é leve e deixa solto o bom sabor da chaputa. Acompanhei com uma salada e regalei-me com um branco D. Ermelinda bem fresquinho. Rematei com um pêssego, da região de Palmela. Fiquei satisfeito, vim escrever.


 


DIXIT - “Tubo de ensaio é pouco, fomos um esgoto de ensaio” - Helena Sacadura Cabral sobre a intervenção da troika em Portugal.


 


GOSTO - As listas apartidárias às autárquicas cresceram 35% em relação a 2009

NÃO GOSTO - As mulheres representam apenas 10% do total de candidatos a cargos dirigentes em autarquias.


 


BACK TO BASICS - Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo- provérbio popular

agosto 02, 2013

Pobre Lisboa que tanto te invocam em vão - e outros desabafos

LISBOA - Se há coisa que não percebo é o que se passa em Lisboa, em termos autárquicos. Enquanto o PSD optou por uma espécie de candidato mistério, já se percebeu que António Costa fez uma lista à medida para se poder ir embora tratar do PS, quando as querelas entre Mário Soares e António José Seguro se tornarem insuportáveis. O mais engraçado desta crispação socialista é o facto de ter sido a crise na coligação que levou ao forte agudizar das divergências e tensões internas no PS. A nova equipa anunciada pela coligação “Juntos Fazemos Lisboa”, que agrupa gente do PS, simpatizantes do PS e penduras do PS,  dá o palco a Fernando Medina, considerado um delfim de António Costa, capaz de o substituir se ele tiver que trocar o Intendente ou a  Praça do Município pelo Largo do Rato. A Costa, vontade não lhe falta, a lista apresentada comprova que será apenas uma questão de oportunidade. Há saídas curiosas como a de Nunes da Silva, o homem que fez o caos do Marquês de Pombal e deu rédea solta à EMEL, ou de Helena Roseta, a  mulher que muito fala e pouco fez na área da habitação e do desenvolvimento social. Há também manutenções estranhas, como a do cómico de serviço aos espaços públicos e ambiente urbano, o Zé que não faz falta.  A única surpresa desta lista do PS é o facto de ela confirmar que António Costa se colocou com meio pé fora da Câmara – o que transforma o acto eleitoral numa farsa: se escolherem Costa, os eleitores arriscam-se a votar em alguém que sairá do governo da cidade mal receba um SOS do PS.




SEMANADA - Prosseguiu o folhetim dos swaps; Vitor Gaspar contou uma história diferente da que foi contada por Maria Luis Albuquerque; Rui Rio criticou a forma como Maria Luis Albuquerque tem agido; Rui Rio criticou a candidatura de Luis Filipe Menezes; Rui Rio considerou que Maria Luis Albuquerque é uma pedra no sapato do Governo; Rui Rio disse que Luis Filipe Menezes “fez pior a Gaia do que o PS ao país”; os partidos da maioria aprovaram uma moção de confiança ao Governo remodelado; a troika também foi remodelada;  disseram-me que uma boa parte dos contratos de swaps surgiram porque as empresas públicas precisavam de empréstimos e alguns bancos só os concediam se também se celebrassem contratos de swaps tóxicos- coisa que na época foi considerada um mal menor; se os estupefacientes são punidos por lei porque é que produtos financeiros tóxicos também não são?;  a CGD pediu  à Polícia Judiciária que investigasse negócios imobiliários do grupo; o Tribunal de Contas considera que os PPP na saúde vão custar mais seis mil milhoes de euros do que o previsto; os tribunais portugueses declararam, na primeira metade do ano, 3311 empresas insolventes, das quais 26% eram da  construção, 18% dos serviços e 17% do retalho; Silva Carvalho diz que a nova lei das secretas “é um projecto silly, feito por gente silly”; o  investimento directo  estrangeiro caíu 65% no primeiro trimestre do ano.




ARCO DA VELHA - “Vamos convir que o trabalho não é agradável”, escreveram os desembargadores Eduardo Petersen Silva, Frias Rodrigues e Paula Ferreira Roberto no seu acordão, salientando: “Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos” - excertos de um acordão do Tribunal da Relação do Porto, sobre o despedimento de um trabalhador etilizado de uma empresa de recolha do lixo, alvo de um processo após um acidente.




VER - Uma exposição que vale a pena ver é “Sob o Signo de Amadeo, Um Século de Arte”, a peça forte da celebração dos 30 anos do Centro de Arte Moderna (CAM)  da Fundação Gulbenkian. Pela primeira vez é exposta a totalidade do acervo de Amadeo Souza-Cardoso, uma obra pioneira na história do modernismo em Portugal - evocando aliás a mostra inaugural do CAM há 30 anos atrás. Ocupando todo o espaço do edifício do CAM, entre 26 de Julho de 2013 e 19 de Janeiro de 2014, encontra-se exposta cinco por cento da coleção de arte moderna e arte contemporânea da Gulbenkian, que, trinta anos depois da inauguração do CAM , conta com mais de dez mil obras. Destaque também para  uma exposição que se desenrola em simultâneo, na Biblioteca de Arte, intitulada “CAM - 30 Anos de Catálogos e Posters”.




OUVIR-  Silvia Pérez Cruz é uma daquelas cantoras que, á primeira audição, ficam retidas na memória. A forma de cantar, o despojamento, a capacidade de dizer as palavras ultrapassam aquela mania das boas vozes. Costumo dizer que de boas vozes está o mundo cheio, cantores que saibam cantar há que há poucos. Felizmente esta catalã sabe o que faz, e faz muito bem o seu cantar. Às vezes, faz-me Maria del Mar Bonnet - como ela é intrigante, elegante e sedutora. “11 de Novembre”, editado em 2012 e agora distribuído em Portugal pela Universal, é o seu primeiro disco. Tem canções em catalão, português, castelhano e galego. Em “Não Sei”, que ela própria escreveu, canta com António Zambujo, que reincide em “Meu Meniño”. Este é um daqueles discos que nos acompanha umas horas depois de acabarmos de o ouvir - dei comigo a pensar que Silvia Pérez Cruz é catalã, mas também tropical. Pelo meio cruza influências, uma jogada sempre arriscada, e sai-se bem do assunto.




FOLHEAR - Já houve uma altura em que gostaria de poder ter feito uma revista como a “Vanity Fair”, essa combinação subtil de conteúdos entre a evidente futilidade e a profundidade de uma grande reportagem. A capa da revista, fotografia de piscina, é dada a Kerry Washington, a actiz que fez de mulher de Ray Charles e de Idi Amin, mas também de escrava em Django Unchained e, ainda, de Olivia Pope, na muito politizada série televisiva “Scandal”. No seu sempre incontornável editorial, Graydon Carter, o editor da revista, reflecte como Washington mudou de forma acentuada nos últimos anos, como se pode ver na forma como foi evoluindo a sua presença, enquanto cenário de intrigas em filmes e séries de televisão - uma análise bem mostrada numa das grandes peças desta edição de Agosto da Vanity Fair, “Washington Noir”, a estabelecer múltiplos paralelos entre a política, o poder e o cinema e televisão, de uma forma que de repente me fez lembrar alguns dos grandes editoriais de Vicente Jorge Silva na forma primitiva da Revista do Expresso. Outro artigo curioso é a história da biografia do presidente Wilson, escrita por Scott Berg - o que nos coloca a questão de ser legítimo querermos saber porque em Portugal trabalhamos tão pouco sobre as figuras da nossa História recente. A terminar, o questionário de Proust é com John Malkovich que diz sem rodeios que mente, sempre que precisa de o fazer. Como bem sabemos, não é o único.




PROVAR - Num dia em que estão 30 graus, que fazer? Que tal ir a um local com bom ar condicionado e onde exista um belíssimo cozido à portuguesa? Pois foi o que me aconteceu nesta quarta-feira, no Solar dos Presuntos. O começo foi um queijo da ilha, de S. Jorge, na maturação certa e muito bem fatiado, ao lado de umas azeitonas verdes carnudas e saborosas. O cozido que se lhe seguiu, de carnes magras, a pedido, e com reforço das couves, nabo e farinheira, cumpriu superiormente a missão de nos criar ânimo para um jejum até Setembro - que em Agosto ali não há cozido. A refeição rematou com um melão em condições e foi acompanhada por vinho do Douro, bem achado e por sugestão da casa. Companhia amiga, conversa solta. Bom sítio, onde vale sempre a pena voltar. Solar dos Presuntos - Telefone 21 342 42 53, Rua das Portas de Santo Antão, 150.


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DIXIT - Quando penso na RTP e no serviço público audiovisual, e no dinheiro que todos pagamos para que ele exista, vem-me à mente esta citação de Steve Jobs que, tendo sido dita noutro contexto, se pode aplicar que nem uma luva ao que o serviço público devia ser: “A minha paixão tem sido pôr de pé uma empresa que resista ao tempo e onde as pessoas estejam motivadas para fazer grandes produtos. Tudo o resto foi secundário. É claro que é fantástico conseguir lucro, porque é ele que nos permite fazer esses grandes produtos. Mas foram sempre os produtos, e não o lucro, a minha motivação”.




GOSTO- Do festival de arte de rua Walk & Talk, nos Açores - um bom exemplo de descentralização, criatividade e ousadia, a romper convenções, em território arriscado - um exemplo para o país, a começar por Lisboa e o Porto.




NÃO GOSTO - Do slogan “Em Lisboa Com os Dois Pés” escolhido pela lista de Fernando Seara a Lisboa. Deve ser fruto do pendor futebolista do eventual candidato e da maneira como ele entra em campo nos debates clubísticos.


 


BACK TO BASICS - “É muito perigoso para qualquer político dizer coisas de que as pessoas se venham a recordar” - Eugene McCarthy