março 22, 2013

UMA HISTÓRIA DE SUSPENSE E DE REGRESSO AO LOCAL DO CRIME

SUSPENSE - Existe uma contagem decrescente que está a agitar o país, a que conta os dias que faltam para ser divulgado o parecer do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento de Estado. Os sintomas estão à vista na radicalização das declaraçōes políticas dos mais diversos sectores. Esta semana os pedidos de mudança de executivo vieram de dentro do próprio PSD, o que para alguns foi entendido como um sinal de que circulariam já indícios de que os juízes do Palácio Ratton poderiam colocar o Governo em situação delicada. O Presidente da República, que tem cultivado demais o silêncio, também fez subitamente ouvir críticas sobre o rumo não só do país, mas também da Europa. Se juntarmos todas as peças começam a criar-se as condições para uma crise política. Mais do que provenientes das oposições, os mais preocupantes sinais de crise são aqueles que emanam do agudizar de contradições no ecosistema do poder - ou seja na base política do Governo. De Ângelo Correia a Pires de Lima sucederam-se reparos às opções que têm sido seguidas. Estas contradições, tão públicas e notórias, são a maior ameaça a Passos Coelho. Não deixa de ser espantoso que a oposição interna do PSD esteja a conseguir ser politicamente mais hábil que o aparelho do partido - que anda enredado na complicada teia das próximas autárquicas e da confusão criada em torno da lei de limitação de mandatos. Num clima destes tudo pode acontecer. E, de alguma forma, parte do aparelho prefere que mudanças, a ocorrerem, sucedam depressa. Pode ser que assim ainda se salve a honra do convento a tempo da ida às urnas.




RETORNADO - Fiquei a saber que Sócrates regressa à política, ao local onde já esteve - no caso um comentário semanal na RTP. Não sei se é pesadelo ou se é apenas notório mau-gosto. Mas é completamente absurdo. Não se trata de uma questão partidária, trata-se de bom senso. Sócrates fez o que fez, desapareceu como se sabe. É premiado com um programa onde comentará o que os outros políticos fazem - os do Governo e os do seu partido. Cá para mim António José Seguro deve ter dado saltos de contentamento quando leu a notícia nesta quinta-feira. Imagino, enternecido, Silva Pereira de mão dada com José Lello, embevecidos a olharem para o ecrã enquanto o chefe vai perorando. Vislumbro filas imensas de patrocinadores para o programa de Sócrates, todos interessados em associar as suas marcas ao grande líder. Quanto mais penso nisto, mais certeza tenho que o ridículo mata. E a falta de bom senso tem morto o serviço público.




SEMANADA - A dívida pública directa do Estado ultrapassou os 200 mil milhões de euros e aumenta a um ritmo de quase 100 mil euros por dia; em Portugal existem 735 mil casas vazias e há concelhos onde há mais alojamentos do que habitantes; em 40 concelhos nascem menos de dois bébés por mês; nos últimos três meses foram nomeadas mais de 250 pessoas para vários grupos de trabalho; Angelo Correia, que durante anos apoiou Passos Coelho na sua ascensão política, afirmou esta semana que são necessárias “mudanças profundas no Governo”; António Capucho e Angelo Correia apelaram à convocação do Conselho de Estado; António Pires de Lima disse-se chocado com o estilo do Governo e principalmente com o comportamento de Vitor Gaspar; Alberto João Jardim e Freitas do Amaral defenderam a mudança de Governo, mas sem eleições, e dentro do actual quadro parlamentar; maioria teme crise política depois de conhecida a decisão do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento de Estado; em Chipre há cerca de 200 futebolistas portugueses nos diversos escalões da modalidade, dos quais 51 na 1ª divisão; a utilização de vales de desconto cresceu 40% num só ano.




ARCO DA VELHA - A canção “Cacei o Grilo”, do bracarense Miguel Costa, com o refrão “cacei o grilo na toquinha/cacei o grilo à Zirinha”, levou uma vizinha do artista, de nome Alzira, a processá-lo e a exigir uma indeminização de seis mil euros, por entender que a cantiga lhe é dirigida e que a tornou alvo de chacota popular.

VER - Teresa Gonçalves Lobo desenha com um traço muito particular e o resultado produz um dos efeitos mais complicados de obter: criatividade com simplicidade e elegância. Isto é particularmente evidente na sua nova exposição patente na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva até 24 de Junho próximo - “i em pessoa”. Além de 42 desenhos originais, estão em destaque duas peças de mobiliário basedas na ideia matriz desta exposição, que é a forma da letra i. As peças de mobiliário, uma cadeira e uma chaise longue, foram executadas pelos mestres artífices da Fundação, seguindo os desenhos da artista, e acrescentam uma inesperada tridimensionalidade à obra. A ideia da Fundação é conseguir juntar artistas contemporâneos com os técnicos e os mestres das oficinas da FRESS, num processo integrado de trabalho. Na mesma linha surge um álbum, que agrupa 10 gravuras, assinadas e feitas sobre papel japonês pela artistas, mas depois acabado nas oficinas de encadernação e passamanaria da Fundação.




OUVIR- Quando encontro a expressão “Great American Songbook” penso logo em canções célebres da Broadway ou da idade de ouro de Hollywood - de qualquer forma alguma coisa feita antes do advento do rock. Quando olho para a ficha técnica penso em compositores com nomes como Gershwin, Rodgers, Hart ou Hammerstein. Tony Bennett é o último dos sobreviventes de um grupo que incluía Frank Siantra, Dean Martin ou Sammy Davis, por exemplo. Mantém-se igual a si próprio e nunca precisou de mudar o estilo para permanecer popular. “As Time Goes By - Great American Songbook Classics”, a colectânea agora editada, reúne na maior parte gravações originalmente feitas nos anos 70, quando o cantor resistiu a modernizar o seu estilo. Hoje, estas interpretações, são verdadeiros clássicos, como se constata logo em “Blue Moon”, mas também em “Reflections”, ou “As Time Goes By” - para falar só de alghuns temas de um lote que inclui também “The Lady Is A Tramp” ou “This Can’t Be Love”, por exemplo. Não vejo melhor maneira de começar a Primavera que ouvir este disco ao fim da tarde.




FOLHEAR - Conhecer a história recente nem sempre é fácil, escrever com perspectiva e  distância sobre  assuntos contemporâneos, mais ainda. Evitar que o relato seja enfadonho e conseguir que a história seja atraente é  ainda mais difícil.


“A Cimeira das Lajes: Portugal, Espanha e a Guerra do Iraque”, é um exemplo raro do que pode e deve ser a história recente vista, recordada e interpretada - neste caso por  Bernardo Pires de Lima. Este é um género raro em Portugal mas que fica com um standard estabelecido depois deste livro. As divergências entre Sampaio e Durão  Barroso em matéria de política externa lançam nova luz sobre o errático comportamento do então Presidente e sobre o princípio do fim do regime, a que hoje assistimos com clareza. Percebe-se agora o que levou Bush a manter  o comando da Nato em Oeiras, que concessões foram feitas, o que estava em cima da mesa. Esta é uma visão do que foram as manobras, alianças e guerras internas no Portugal desse tempo. Fica claro que Durão começou então a sua campanha para Presidente da Comissão Europeia. Com a proverbial paciência que se lhe reconhece jogou xadrez melhor que os outros, irritou Sampaio,  contrariou-o e, no fim, literalmente ficou na fotografia. O tempo dirá se ficou bem. Edições Tinta da China.




PROVAR - Uma das mais deliciosas conservas que experimentei nos últimos tempos é o mexilhão fumado, em azeite, produzido pela Tricana. Cada lata custa 3,10 euros e posso garantir que duas latas fazem uma bela entrada para quatro pessoas com uns toques de uma salada apropriada. Em alternativa podem ser bem usadas para tapear, sobre rodelas de batata doce assada. A conjugação de sabores funciona bem, o mexilhão fumado tem um travo delicioso e viciante, e um bom vinho branco levemente frutado, como o magnífico Altano, da Symington, acompanha na perfeição. A Conserveira de Lisboa (Rua dos Bacalhoeiros 34) tem normalmente a gama de produtos da Tricana.




PALAVRAS - “Se Merkel pensasse e ouvisse, antes de agir e exigir, não teria criado tantos problemas” - Luis Campos e Cunha




GOSTO - Nasceu uma nova casa para ver fotografia em Lisboa - A Pequena Galeria, na 24 de Julho, 4C.




NÂO GOSTO - Vitor Gaspar prevê mais cem mil desempregados até final deste ano


BACK TO BASICS -  A minha noção de activismo político não é bem carregar num botão para assinar uma petição online - Jody Williams



(Publicado no Jornal de negócios de 22 de Março)

março 19, 2013

O ADIVINHO

Eu, se fosse aos astrólogos, irritava-me com a comparação que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa fez entre eles e o Ministro Gaspar. Eu acho a afirmação do professor Marcelo muito maldosa para os astrólogos – eles aliás não têm culpa nenhuma do que está a acontecer. Passo a explicar: é que os astrólogos já provaram que são bem mais certeiros nas suas  previsões do que aquilo que o Ministro Gaspar faz.


Neste espaço de dois anos que leva de Governo o Ministro Gaspar ainda não acertou uma previsão – já viram bem? Tudo aquilo que se mete a adivinhar, sai furado. Se o homem tivesse bom senso, deixava de fazer previsões e passava apenas a relatar ocorrências. Sempre ouvi dizer que a astrologia é um caso de estudo, preparação e rigor – não é apenas lançar palpites ao ar, ao sabor das circunstâncias, que é a especialidade do Ministro Gaspar.


 


Por isso os verdadeiros astrólogos têm razão quando se aborrecem com a comparação entre eles e o Ministro. O próprio Fernando Pessoa, que reconheceu em tempos ter havido uma época em que se dedicou a interpretar os astros, havia de dar saltos se o comparassem a Gaspar.  Tudo seria mais simples se Vitor Gaspar  tivesse o título de “Ministro do Erro” em vez de “Ministro das Finanças”. Voltando ao Professor Marcelo a única coisa que me faz sorrir é imaginar Gaspar frente a uma bola de cristal, com olhar intrigado, a querer perceber porque erra tanto; sem encontrar a resposta, acabou por dar uma martelada na bola, para a ver por dentro. Ficou com um monte de cacos à sua frente – mais ou menos o mesmo que está a fazer ao país.


 


(Publicado no Metro de hoje)

março 15, 2013

O SISTEMA NUMA ENCRUZILHADA & SUGESTÕES AVULSAS

SISTEMA - A história recente resume-se a isto: sai um partido, entra outro; sai este, regressa o anterior; os eleitores vivem cada vez pior e o país afunda-se. O sistema não funciona - está feito não para resolver problemas e tomar medidas, mas para votar promessas e pagar favores. Não favorece rupturas, privilegia a continuidade. Quando o mal se instala uma vez, perpetua-se. Em consequência, as pessoas deixam de acreditar nos políticos e nos partidos. Esta semana um grupo de figuras, muito maioritariamente do mesmo lado do espectro político, lançou um “Manifesto Pela Democratização do Regime” que, espero, não se transforme numa espécie de Frente Popular dos desiludidos do PS, Bloco e de algum PC. No entanto, reconheço que dizem coisas com sentido desde o processo de escolha dos candidatos, até ao processo de criação de listas independentes. Afirmam, com razão, que  “a Assembleia da República representa hoje sobretudo – com honrosas excepções – um emprego garantido, conseguido por anos de subserviência às direcções partidárias e de onde desapareceu a vontade de ajuizar e de controlar os actos dos governos.” Mas noutros pontos o Manifesto é conservador ao extremo, ao não admitir que o mundo mudou, que muitos erros foram feitos e têm que ser corrigidos mesmo que isso provoque alterações na vida das pessoas. De um lado propõe mudanças, do outro defende o que existe e, na Europa, persegue ainda a perigosa fantasia que se vai cada vez mais transformando em pesadelo. No fundo é inconsequente. É pena, porque a discussão da mudança da Lei Eleitoral e do funcionamento do sistema é fundamental, e deve incluir o anacrónico semipresidencialismo - levado ao extremo por Cavaco - cujos custos hoje estão bem à vista. Se não conseguirmos mudar o funcionamento, não mudaremos o sistema, que se alimenta da credulidade dos eleitores e do esmagamento dos contribuintes.



SEMANADA - Segundo dados da PSP, no último ano ocorreram em Lisboa  1,5 manifestações por dia, em média; a recessão está a destruir 535 empregos por dia ao longo do último ano; a procura interna registou uma quebra de 6,8%; estão a sair do país, em busca de trabalho no estrangeiro, 180 pessoas por dia; a PSP do Porto tem 200 viaturas paradas à espera de reparação, quase metade da sua frota; uma mulher de 30 anos foi detida em Barcelos quando levava a filha à escola às 9 da manhã, com uma taxa de alcoolémia de 2,85; a Câmara Municipal de Lisboa pretende concessionar o Pavilhão dos Desportos para instalação de uma discoteca; o Ministério da Educação já perdeu 150 acções judiciais por não pagar a professores; no sector da construção o crédito malparado já atinge 19,3% do volume dos empréstimos; Fronteira, Vidigueira e Alvito são as zonas do país onde se verificam taxas mais altas de insucesso escolar; a administração pública está a demorar, em média, 140 dias a liquidar as facturas aos fornecedores - contra os 61 dias da média comunitária.



ARCO DA VELHA - A China produz 85 mil milhões de pauzinhos de madeira, o que significa o abate de pelo menos 20 milhões de árvores para os fabricar;.



VER - Uma boa surpresa é o que chamo à  exposição “Fotógrafos do Mundo Português, 1940”, que até 26 de Maio está no Padrão dos Descobrimentos, em Belém. Gostei de, num domingo destes, ver o Padrão cheio de visitantes, portugueses e estrangeiros , e de ver esta exposição seguida com atenção. Tem imagens hoje surpreendentes, que acompanham a construção e a realização da “Exposição do Mundo Português”, que foi inaugurada a 23 de Junho de 1940. esta exposição do Padrão recolhe o trabalho de nove destacados fotógrafos da época ao longo dos dois anos que demorou a pôr de pé a Exposição do Mundo Português, culminando na sua abertura ao público - Horácio e Mário Novais, Eduardo Portugal, Paulo Guedes, Kurt Pinto, António Passaporte, Ferreira da Cunha, Abreu Nunes e Casimiro Vinagre são os autores representados. Bem enquadrada por um texto de Margarida Acciaiuoli sobre a época e os trabalhos apresentados, cito como ela sublinha o poder da fotografia nestas imagens - “a fotografia de um evento ultrapassa sempre o próprio evento”. A entrada custa três euros mas além das exposições dá direito a subir ao alto do Padrão, de onde se tem uma vista única sobre Lisboa e o estuário do Tejo.



OUVIR- De repente, e de forma algo inesperada, David Bowie colocou a circular em Janeiro, na altura do seu 67º aniversário,  a primeira canção de um novo disco. A canção, intitulada “Where Are We Now”, é uma evocação dos seus álbuns na época em que viveu em Berlim. A capa do novo CD, uma destruição da capa de “Heroes”, o segundo dos discos da trilogia berlinense, evoca esse olhar, destacado pela frase “The Next Day”, que é o título do álbum e também da primeira canção, um olhar sobre a mortalidade e transitoriedade da vida. A mortalidade é aliás o tema que percorre este 24º disco de Bowie, no ano em que uma exposição no Vistoria & Albert Museum de Londres (até 11 de Agosto) lhe dá um estatuto invulgar no panorama da cultura popular. Primeiro disco de originais dos últimos 10 anos, surge numa altura que em muitos podiam bem pensar que David Bowie se encontrava a gozar uma tranquila reforma. Mas a energia e qualidade deste trabalho voltam a colocar em questão a ideia feita de que as estrelas da cultura popular  desaparecem rápido. Os últimos anos têm assistido à demonstração do contrário e Bowie mostra como está ao seu melhor nível em canções como as já referidas, ou ainda “Dirty Boys”, “You Feel So Lonely You Could Die”, “If You Can See Me”, “Love Is Lost”, “I’d Rather Be High” ou a belíssima “Heat” que encerra o disco, e que é um manual de tudo o que fascina na criatividade de Bowie. Um crítico inglês resumiu bem a situação, descrevendo “The Next Day” como “inovativo, sombrio, arrojado e criativo - um álbum como apenas Bowie podia fazer”. (CD Sony Music na Amazon ou iTunes).



FOLHEAR - A revista “Intelligent Life”, do grupo “The Economist”, tem uma bela edição para iPad totalmente gratuita, financiada por publicidade exclusiva do Crédit Suisse. Na edição de Março/Abril a capa é dedicada ao maestro venezuelano Gustavo Dudamel, cuja história é bem contada, percebendo-se o impacto que ele está a ter na forma de divulgar a música clássica. Numa área completamente diferente há uma recolha da opinião de seis escritores sobre quais são os melhores cheiros do mundo - de rosas a bacon a fritar, passando pelo cheiro do pão a fazer ou da chuva no meio do campo. O guia da cidade nesta edição é dedicado a Copenhague, há uma bela história sobre fechos éclair e outra sobre o surgimento do novo Jaguar F, traçando o paralelo com o nascimento do jaguar E em 1961. A terminar, destaque para um artigo sobre a cultura do cacau em São Tomé e Princípe ao longo da história, da escravidão aos tempos actuais - com citações de Claudio Corrallo, o italiano que tem ajudado a recolocar o arquipélago no mapa como o produtor do melhor cacau - e do melhor chocolate do mundo. Na música, uma lista imperdível de canções para dias de chuva, uma pérola nos tempos húmidos que correm.



PROVAR - Já aqui tenho dito que o Salsa & Coentros, em Alvalade, é dos meus restaurantes preferidos em Lisboa. Em matéria de restauração estou cada vez menos inclinado a experimentar extravagâncias e mais inclinado a manter-me fiel aos clássicos. E uma coisa engraçada é que no Salsa & Coentros, que desde 2006 é um porto seguro, além das sólidas propostas tradicionais da ementa, existem volta e meia umas novidades - e tudo funciona a preços sensatos. Já  elogiei a empada de cozido que me deram a experimentar há uns meses e desta vez venho partilhar o arroz de tordos. Aqui está um petisco que não me passava á frente há muitos anos. Estava impecável, no tempero, no ponto da carne, na cozedura do arroz. Nada a dizer. Soube-me mesmo muito bem. Quando lá forem perguntem sempre o que há, e que não esteja na lista - o Sr. Duarte tem sempre umas surpresas guardadas.  Rua Coronel Marques Leitão, 12, telef 218 410 990.




GOSTO- Da recolha de música portuguesa “Deem-me duas velhinhas, Eu Dou-vos o Universo” que agrupa 26 temas populares feita por Tiago Pereira, com o apoio da Optimus.



NÂO GOSTO - Lisboa está outra vez toda suja e esburacada e não vejo António Costa a fazer nada sobre o assunto.


BACK TO BASICS - O verdadeiro mistério do mundo está no que é visível, não naquilo que é invisível - Oscar Wilde

março 12, 2013

POR UMA CANDIDATURA ANTI- EMEL

Uma das coisas que falta nas próximas autárquicas de Lisboa é uma posição clara, dos vários candidatos, sobre essa aberração chamada EMEL, uma entidade especializada em dar cabo da vida dos lisboetas – dos contribuintes que aqui pagam imposto automóvel, que aqui vivem, que aqui pagam taxas municipais de esgotos e de tudo o resto, que aqui pagam IMI e que por persistirem em continuar a viver em Lisboa, apesar de todos os atropelas, são penalizados.


 


Em Abril de 2011, na sequência de alterações solicitadas pela EMEL e patrocinadas pelo executivo municipal, a Assembleia Municipal lamentavelmente aprovou alterações à atribuição do cartão de estacionamento de residente, que dificultam ainda mais a vida dos lisboetas e permitem a intromissão abusiva na sua esfera privada.  As alterações são uma maneira de, a coberto de pretextos burocráticos, interferir na vida pessoal dos cidadãos. De facto, se um cidadão residir em Lisboa, estiver registado na sua morada, mas se por uma qualquer razão – vida em comum por exemplo -  viver noutro local da cidade mantendo no entanto a residência anterior, fica proibido de pedir estacionamento na nova morada, ao contrário do que acontecia anteriormente.


 


Qualquer cidadão com residência em Lisboa, eleitor e contribuinte registado na cidade, devia poder, enquanto mantiver essa qualidade, solicitar o seu direito a estacionamento noutro local se a vida o levar a isso e anulando a localização anterior, bem entendido. Tudo o resto é absoluta intromissão na esfera privada e é um abuso burocrático – daqueles que os inventores das rotundas anacrónicas e da caça cega às multas gostam de fazer para verem se conseguem que Lisboa fica ainda com menos habitantes. Quem avança contra  a EMEL?




(Publicado no Metro de dia 12 de Março)

março 08, 2013

A ATRACÇÃO PELO ABISMO EM LISBOA, O VAZIO ITALIANO E NOTAS AVULSAS

LISBOA - Quando um partido chama para candidato autárquico o ex-trunfo eleitoral trágico-cómico de um candidato derrotado a um clube de futebol, está tudo dito. Seara fica o equivalente PSD do sportinguista Dias Ferreira ao convidar Paulo Futre para presidente da Junta de Freguesia de Campolide. E quem, nos partidos que apoiam a candidatura de Seara, assobia para o ar enquanto a avançada de Futre se desenrola, fica potencialmente fora de jogo por melhores intenções que tenha. Assim já temos um cómico nas autárquicas em Lisboa - e ainda a procissão vai no adro. O autismo dos protagonistas políticos é aquilo que mais facilita o discurso contra os partidos. E quando um discurso nasce por isto, não é um discurso contra a democracia, mas apenas uma chamada de atenção para a tentar salvar. A democracia não se fortalece com a indiferença face a imbecilidades.

ITÁLIA - Não resisto a transcrever este excerto que dá o mote a um brilhante artigo de um colunista do Corriere Della Sera, Beppe Severgnini, publicado esta semana na revista Time: “Em Roma não há Papa, o Primeiro Ministro Mario Monti está de saída, o recém eleito Parlamento parece irremediavelmente comprometido, e o Presidente Giorgio Napolitano está a dez semanas de se reformar, o que quer dizer que já não tem poderes constitucionais para convocar novas eleições - e pode até acontecer que saia de cena mais cedo que planeado, deixando a Itália completamente sem liderança.”

SEMANADA - A venda de casas já caíu cerca de 50%; o valor médio das transacções de imobiliário caíu 20% em 2011 e cerca de 25% no ano passado; Lisboa registou a maior queda, com 61% de queda, seguida do Algarve com 57%; o Estado tem já mais pensionistas que funcionários activos; actualmente, em Portugal, há 16 vezes mais pessoas insolventes que em 2008; a A5 teve uma quebra de circulação de 6 mil veículos por dia em 2012; o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana recebe cerca de 300 pedidos de esclarecimento diários, de inquilinos e senhorios, sobre a nova Lei das Rendas; Merkel vai ter de defrontar nas próximas eleições um partido anti-euro, “Alternativa Para a Alemanha”, criado à volta das figuras que quiseram vetar a participação do país no primeiro resgate à Grécia; Vitor Gaspar defende que o esforço de Portugal no pagamento da dívida à troika deve ser maior que o da Irlanda; pelas contas do Governo, Portugal vai levar quatro décadas a colocar a dívida pública em 60% do PIB; numa feira industrial de calçado em Milão estão 114 marcas portuguesas, que exportam 500 milhões de euros e empregam 6000 pessoas.

ARCO DA VELHA - Em Tomar um advogado levou uma arma para a sala de audiências, na leitura de uma sentença, afirmanndo que não sente confiança na segurança dos tribunais portugueses.

VER - Nestes tempos conturbados há uma exposição que merece uma visita: “Cartazes de Propaganda Chinesa - A Arte Ao Serviço da Política”. A exposição está no Museu do Oriente até final de Outubro e mostra uma centena de cartazes de propaganda política chinesa, produzidos entre 1959 e 1981 e que constituem um documento histórico da celebração da agitação e propaganda, no período que vai do Grande Salto em Frente e da criação das Comunas Populares ao fim da Revolução Cultural. Esta centena de cartazes integra a Colecção Kwok On da Fundação Oriente e mostra os temas mais correntemente abordados à época, como a glorificação do presidente Mao Zedong e dos heróis comunistas, a prosperidade da economia, a luta contra o imperialismo, a felicidade do povo e o poder do exército. Alguns destes cartazes tinham tiragens enormes, da ordem das dezenas de milhar de exemplares e integravam o quotidiano das cidades chinesas. Eram na realidade peças de arte ao serviço da política, evidenciando o impacto que a imagem pode ter na comunicação. É curioso também notar a influência do grafismo destes cartazes na propaganda portuguesa nos anos a seguir a 1974 e, já agora, é muito curioso comparar com o que é feito hoje em dia - graficamente mais pobre, predomínio da palavra sobre a imagem, desaparecimento de figuras heróicas ou exemplares. Como quase tudo na vida, a tendência ressurgirá um dia destes. Imperdível para quem se interesse por comunicação política. E pela agitação que deve inspirar a propaganda.

OUVIR- “Apetece-me tanto ouvir Schubert”, dizia ela num Domingo de manhã. Por sorte estava aqui o disco - o novo trabalho de Maria João Pires, onde  interpreta  duas das sonatas mais célebres de Schubert . A Sonata n.º 16, em Lá menor, foi apresentada pelo próprio compositor como a sua “Primeira Grande Sonata”; e  a Sonata n.º 21 em Si Bemol maior, a derradeira do compositor, concluída pouco tempo antes da sua morte, considerada uma das mais substanciais obras para piano da última fase de Schubert. As gravações foram feitas em estúdio, em Hamburgo, em 2011, e são um exercício de maturidade da pianista, ao preferir, nas suas próprias palavras, "não tomar cada obra como um todo, mas simplesmente tocá-la tal como ela é dada” pelo compositor. O exercício resulta, e é uma prova de comedimento e de modéstia, coisas que os intérpretes exuberantes não apreciam. Felizmente Maria João Pires não alinha nessa categoria. A sua interpretação mostra a expressividade da música de Schubert, mas respeita as suas nuances, o seu colorido. Sobretudo no final da segunda sonata percebe-se a sensibilidade de Maria João Pires, a sua técnica colocada ao serviço do respeito pela música, tal como ela foi imaginada. CD Deutsche Grammophon.

FOLHEAR - Em plena hecatombe europeia, este é um dos números mais provocantes da revista mensal Monocle. O título diz tudo: “Why The World Needs The New Germans”. Em destaque estão 12 personalidades alemãs contemporâneas que “o mundo deve conhecer”, desde arquitectos a apresentadores de televisão, passando por designers de automóveis, artistas, cientistas, directores de museus e até uma jogadora de futebol. Mas esta “Monocle” dedica-se também a contar a história de ícones alemães, como os lápis da Faber ou os ursos doces da Haribo. Há também um portfolio que representa empresas industriais de pequena e média dimensão, que se distinguem pelo contributo que dão para a economia - desde um fabricante de orgãos para igrejas, até material científico para escolas, máquinas tipográficas como a histórica Heidelberg ou, até, uma fábrica de trelas para cães e outra de torneiras. Claro que há muito mais para ler, desde propostas culinárias e gastronómicas até às obrigaçōes e estratégia das emissões internacionais da televisão pública alemã (um artigo bem engraçado na nossa conjuntura...) ou, finalmente, o movimento de ressurgimento das artes na Baviera.

PROVAR - Em Lisboa, ao contrário de outras cidades, não há muitos bares equipados com vários ecrãs para nas noites europeias se verem os diversos jogos ao mesmo tempo. Pois fiquem, sabendo que agora existe um lugar assim no Hotel Real Parque, na Avenida Luis Bivar 67. Em tempos já aqui elogiei o restaurante deste hotel, louvaminhando em especial o cozido à portuguesa das terças-feiras. Mas hoje o assunto é como passar um fim de tarde com  amigos a olhar para o ecrã- O Real Sports Bar é um sítio raro, onde tanto se pode comer um belo prego em bolo do caco, prego do lombo acondicionado em manteiga de alho - uma coisa pecaminosa. Ou, então, um belo de um um hamburguer feito de carne da vazia com bacon, bom queijo, cebola, alface, servidos numa simples focaccia, com toques de rúcula e o natural acompamnhamento da batata frita. Se nada disto atrai peçam uma tábiua de queijos ou um prato de carnes frias e um copo de vimnho. Get ready. Esta cidade anda pasmada e sítios assim ajudam a recuperar da crise. A bons preços, esclareço.

GOSTO - Várias marcas de luxo, nos têxteis e calçados, abandonaram as fábricas da Ásia e voltaram a produzir em Portugal, não pelo preço, mas pela qualidade;

NÃO GOSTO - Da atitude de laxismo do Estado na recuperação dos créditos do antigo BPN;

PALAVREADO - Mais vale cavalo na lasanha que asnos no poder - cartaz de uma manifestação recente em França

BACK TO BASICS - A pobreza apadrinha a revolução e o crime - Aristóteles




(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Março)

março 05, 2013

TRAGICOMÉDIA POLÍTICA

Quando um cómico tem bom resultado eleitoral  fica provado que a política se transformou por completo em comédia. A culpa disso não é do cómico, neste caso de Beppe Grillo, e do seu movimento “Cinco Estrelas”. A culpa é dos políticos que desacreditaram o funcionamento do sistema até ao ponto em que as pessoas ou deixam de votar ou votam de uma forma cáustica, para mostrarem a sua distância em relação aos partidos tradicionais.


 


Beppe Grillo, que ganhou fama na televisão, desde há anos que faz da crítica à corrupção na política o tema do seu humor cáustico, mas foi a sua intervenção, primeiro num blogue, e, depois, no facebook  e noutras redes sociais que massificou verdadeiramente o seu posicionamento político e o do seu movimento.


 


Mais cedo ou mais tarde um fenómeno semelhante repetir-se-à noutros países – e o sucesso obtido nestas eleições italianas vai servir de catalisador para surgirem localmente candidatos a assumirem o papel de Beppe Grillo. Não me admiraria se nestas autárquicas alguma coisa surgisse já – aliás foi precisamente pelas eleições autárquicas de há uns anos atrás que o movimento de Grillo iniciou a sua intervenção política em actos eleitorais.


 


Durante uns anos o Bloco de Esquerda foi o refúgio dos descrentes, mas ele acabou por se institucionalizar e existe um vazio no espectro partidário – com a particularidade de poder ser abrangente em termos ideológicos,  já que o protesto contra a desgraça do sistema e dos partidos que existem é o ponto de partida de tudo. Vamos ver quem assumirá o papel de Beppe Grillo na tragicomédia em que se tem transformado a política em Portugal.


 


(Publicado no diário Metro de 5 de Março)

março 01, 2013

Sobre cavalos, incoerências, exposições, ben harper, hollywood e petiscos

DESCARAMENTO - A afirmação mais extraordinária desta semana vem do Sr. Seguro: diz ele que o Sr. Coelho tem que pedir desculpa pelo que anda a fazer. Gostaria de ter ouvido o Sr. Seguro dizer o mesmo ao Sr. Sócrates - ou pelo menos não ter a desfaçatez de exigir desculpas sem antes ter reconhecido os erros. A súbita determinação do Sr. Seguro surge na semana em que a oposição se junta para se manifestar contra as medidas que o PS subscreveu quando chamou a Troika. Eu não gosto especialmente de muito do que este Governo tem feito - e admito que até me desagrada mais a forma que o conteúdo. Mas desagrada-me ainda mais aqueles que não querem mudar a situação que nos trouxe até aqui e não fazem uma só proposta concreta. O Sr. Seguro só me faz pensar que são verdadeiras as minhas piores suspeitas sobre a falta de decoro dos políticos. A amnésia. na política, é o veneno que mata a democracia. Por falar nisso registemos, para memória futura, o que o Sr. Sócrates anda a fazer na sua nova vida profissional, como facilitador de compras de medicamentos por estados sul-americanos.




CAVALAR - Pelo andar que as coisas levam, qualquer dia arriscamo-nos a que comece a ser retirada do mercado carne de cavalo devidamente identificada por nela terem sido encontrados vestígios da carne de burro. Este episódio da mistela de carnes é uma bom retrato da Europa da Política Agrícola Comum - talvez fosse melhor chamar-lhe da máxima aldrabice comum. Há duas certezas nisto: os sistemas de regulação não funcionam e os fabricantes e vendedores não se preocupam em ter a certeza daquilo que utilizam e vendem. Acessoriamente percebe-se que nunca foi tão verdade o princípio de vender gato por lebre, garantindo a utilização de matéria prima mais barata, aldrabando os consumidores sobre a sua origem. Por cá o extraordinário Sr. Nunes da ASAE, que durante meses perseguiu as colheres de pau e as chouriças, acordou pressuroso a levantar autos que são a confirmação de que antes não fez o trabalho de casa nem se preocupou. Preferiu sempre o mais fácil e espalhafatoso, ao mais necessário. Por isso mesmo é que estamos a comer almondegas de cavalo em lojas de mobiliário. É um sinal dos tempos e uma boa descrição da Europa.  

SEMANADA - Em dois anos Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo feito uma redução de 3,7 mil milhões de euros; a massa salarial do Estado deve cair 2,4% no próximo ano, a maior redução na Europa; as previsões da Comissão Europeia sobre o défice orçamental português são maiores que aquelas que o Governo assume; em 2012 o custo dos juros da dívida do Estado vai ser de 732 euros por cada cidadão português; em 2012 a nacionalidade portuguesa foi atribuída a 84 mil pessoas; 24% da população lisboeta tem mais de 65 anos de idade;  a capital tem a população mais idosa do país; 16% do parque habitacional de Lisboa está vazio; Lisboa tem hoje menos de um terço dos habitantes que tinha em 1960; 90 por cento do corpo de segurança especial da PSP passou a estar destacado para proteger membros do Governo e Presidente da República; 58 agentes da GNR e PSP foram expulsos por corrupção (a maioria), violência doméstica e até homicídio; antigos para-quedistas vão entregar uma providência cautelar para suspender um concurso de compra de 11 mil boinas verdes para a GNR, considerando que a escolha da cor pela GNR é uma ofensa à sua honra.

ARCO DA VELHA - Portugal é o único país em que quase se abre uma crise política em torno de uma diferença numa letra escrita numa Lei.  Saber se essa Lei se refere a “de” ou a “da” seria cómico, se não fosse trágico. Espantosamente a descoberta da diferença na letra veio do Presidente da República, mas todos os partidos ficaram insensíveis à novidade.

VER - A nova exposição de Inez Teixeira propõe uma viagem pelo mundo do fantástico, com referências pop e à banda desenhada. A definição pode parecer simplista, mas revela o que senti. E senti-me muito bem a ver estes trabalhos, feitos de um imenso pormenor e da exploração dos limites da  imaginação, desafiando a realidade. No trabalho de Inez Teixeira fascina-me esse pormenor, o detalhe, o sentido insinuado da fantasia que surge para além das aparências. Se puderem não a percam, nas salas Cinzeiro 8 do Museu da Electricidade até 26 de Maio.

DESCOBRIR - Manuel João Vieira pegou na sua casa e levou-a para a Cordoaria. Não estou a exagerar - levou o recheio do seu apartamento e replicou o seu espaço doméstico, encenando-o com um a teia complexa de paredes simuladas por carpintaria, onde agora reside o que tinha na sua casa num pacato bairro lisboeta. Levou tudo - as guitarras, os bandolins, os amplificadores, o piano. Levou a cama, o fogão e o frigorífico. Levou os discos, os livros, as roupas e os chinelos. Levou-se também a ele próprio, que agora lá vive, à vista de todos. Os visitantes passeiam-se nesta exposição como na sua casa - quer dizer, visitam a sua vida. É uma instalação radical, de íntima e exposta que fica.  Há muito que não via uma imaginação assim em movimento, provocadora, estimulante. Exposição mais interactiva que esta, não há.

OUVIR- Ben Harper tem feito os seus melhores discos sempre na companhia de alguém. Agora chamou para o seu lado Charlie Musselwhite, um lendário bluesman, que acompanhou com a sua harmónica nomes como John Lee Hooker. A BBC chamou a este novo disco de Ben Harper, “Get Up!”, um exemplo de blues do século XXI. A coisa pode parecer exagero mas na realidade há muito que não sentia os blues assim tocados. O dueto entre a harmónica de Musselwhite e a voz e guitarra de Ben Harper é um exemplo de entusiasmo e do melhor que se pode fazer na música popular quando o tema é reinterpretar a tradição, inovando-a - algo que se tem tornado a especialidade de Ben Harper ao longo das duas décadas que já leva de carreira.

FOLHEAR -  A edição especial de Março da revista norte-americana “Vanity Fair” é sempre dedicada a Hollywood, tendo por pretexto a atribuição anual dos Oscars. Não interessa aqui quem ganhou - o objectivo é dar uma outra visão de tudo o que rodeia o mundo do cinema norte-americano, que culmina naquela cerimónia de prémios. Na capa estão Ben Affleck, Emma Stone e Bradley Cooper, fotografados por Bruce Weber, que assina o portfolio desta edição especial. Destaque também para a história da vida de Merv Adelson, um dos grandes produtores de televisão (Dallas por exemplo) e da forma como esteve ligado à Mafia - curiosa reportagem numa edição dedicada a Hollywood. Para além do cinema, destaque para um perfil de Rahm Emanuel, que de braço direito do Presidente passou para mayor de Chicago e se posiciona como um dos mais importantes políticos americanos.Robert de Niro responde ao tradiciopnal questionário de Proust que encerra a revista e o desenhador português André Carrilho tem honras de convidado especial para desenhar quem é quem hoje em dia em Hollywood.

PROVAR - Durante meses tentei, sem sucesso, ir jantar ao Cantinho do Avilez, no Chiado - esbarrei sempre na exigência irritante dos dois turnos - um às oito, cedo demais, outro às dez, demasiado tarde. Por um golpe de sorte, um dia destes, passava no local à hora de almoço num fim de semana e havia mesa para dois. Valeu bem a pena - logo no começo, desde as azeitonas (tão bem temperadas), às tostas finíssimas, quase rendilhadas, até ao creme de tomate com azeite e alho que também vem no couvert. Na mesa ao lado havia uns peixinhos da horta que faziam água na boca, mas ajuizadamente ficámos por uma vieiras na frigideira com batata doce (que me disseram estar soberbas) e eu por um bife à portuguesa com batata frita - tudo honestíssimo - do tempero à qualidade da carne, passando pela impecável fritura das batatas. Fritar bem é coisa rara e este Cantinho sabe do que fala. A escolha dos vinhos a copo é ampla e o tinto de José Avilez em parceria com Bento dos Santos, que surge como a recomendação da casa, tem uma excelente relação de qualidade-preço. O serviço é simpático e atento, e na mesa ao lado um americano bonacheirão deliciava-se com petiscos, bem explicados em inglês pelos empregados.Enquanto o americano se espantava com o preço módico do copo de vinho, eu finalizava em beleza com um sorvete de limão com mangericão. O Cantinho do Avilez fica na Rua dos Duques de Bragança nº7 e tem o telefone  211 992 369. Hei-de lá voltar, se tiver a sorte de arranjar lugar.

GOSTO - Mais de 500 mil visitantes chegam anualmente ao Porto de Lisboa em cruzeiros turísticos.

NÂO GOSTO - De ver militares, oficiais e generais, em jantares de pressão política.

BACK TO BASICS - O maior medo que se pode ter na vida é temer constantemente que se possa errar - Elbert Hubbard




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 1 de Março)

fevereiro 26, 2013

MANUAL DA OPOSIÇÃO

Esta semana vai ser quentinha – não estou a falar das condições atmosféricas, refiro-me à situação política e social. As manifestações convocadas para o próximo sábado já não são iniciativas espontâneas, como aconteceu há uns meses. Agora há apoios de sindicatos, de associações, de partidos, existe uma grande confluência, digamos, de vontades e de espíritos. O que a anterior manifestação tinha de fator aglutinador, esta tem de fator redutor. Alguns partidos foram incapazes de resistir à tentação de meter a foice em seara alheia. Surpreendidos há uns meses pela dimensão e abrangência do protesto, aborrecidos por tudo ter acontecido à sua margem, ei-los agora a tomar conta da ocorrência. Esta não é uma boa notícia: a partidarização desta iniciativa, já inevitável no estado em que as coisas estão, vai reduzir o seu alcance, apesar de ter que se reconhecer que a construção da imagem frentista está a ser feita com arte: desde as cantilenas de protesto, aos apoios diários que se sucedem, passando pelos murais pintados em direto para a televisão ou os episódios encenados deixados no YouTube, cria-se a sensação de uma grande frente. Há menos improviso, mais coordenação – notoriamente existe uma organização. A imagem que agora está a ser construída é diferente da anterior: trata-se de uma campanha de esquerda, com símbolos tradicionais da esquerda, com recurso a métodos tradicionais das organizações de esquerda, contra um governo de direita. Deixou de ser um protesto dos descontentes, passou a ser um protesto da oposição. Esta diferença é grande. Vamos a ver no que resulta.


 


(Publicado no diário Metro de 26 de Fevereiro)

fevereiro 22, 2013

O sinal dos protestos, inveja urbana, sugestões avulsas

PROTESTOS - Quando uma acção de agitação e propaganda - a grandolada como lamentavelmente já lhe chamam - alcança bons resultados é porque existe disposição para ela ser amplificada. Todos os que passaram por acções destas sabem que não basta uma boa ideia. É preciso conseguir o momento certo para que a boa ideia se multiplique. Hoje, é claro, isso é mais fácil porque o espaço entre a acção e a sua comunicação e massificação se tornou praticamente instantâneo. Mas, continua a ser necessário que exista o momento. E a questão é essa: estamos perante um momento em que a oposição ao Governo varreu fronteiras partidárias, ideológicas e etárias. Se fosse o Bloco de Esquerda ou o PCP, e mesmo também o PS, a oporem-se o facto seria significativo mas não chegaria. O problema é que, nos apoiantes e eleitores do PSD e do PP, também se acumulam críticas a Gaspar, Passos Coelho e outros membros do Governo. A coisa avolumou-se a um ponto em que já não interessa se o objectivo da acção governativa é correcto - e isso é o pior de tudo porque cria o clima para destruir o que se fez e para evitar fazer o que ainda é preciso. O grande problema deste Governo á a falta de política, na realidade a falta de bom senso: é ter julgado que os fins justificam os meios e ter agido sem querer fazer participar as pessoas no processo. O Governo tem o pecado da soberba e julga que a sua razão basta - e teve medo de mobilizar as pessoas porque sabia que ía tomar medidas anti-populares. Alguém lhes devia ter explicado que essas medidas exigiam cuidados redobrados. Quando se vai para  a guerra, faz-se campanha antes, e em vez de promessas que depois se revelam mentira. Como se esqueceram do assunto, em cada esquina nasce naturalmente um protesto. Desde 1974 que não existia esta confluência de pessoas, opiniões, e movimentos num só sentido e este é o elemento novo de todo este processo, novo e preocupante pelo risco que encerra de fazer um curto circuito no sistema político. E a culpa não é de quem protesta, é de quem criou as condições para o protesto ganhar esta dimensão. O regime está a perder a sua base social de apoio e esta não é uma boa notícia.

INVEJA  - Quem me conhece sabe que não sou invejoso. Mas reconheço  que desta maneira de trabalhar e de fazer, tenho muita inveja: aqui fica um resumo de um excelente artigo do Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, publicado esta semana no Linkedin. Entre 2007 e 2011 o número de nova-iorquinos que trabalham em medias digitais cresceu 80% e a cidade é a região norte-americana que captou mais investimento em empresas tecnológicas no mesmo espaço de tempo, mais que Silicon Valley Em parte isto deve-se aos incentivos criados a partir do início da década de 80 do século passado pelo próprio Bloomberg - as coisas demoram o seu tempo a acontecer mas quando a estratégia é certa , elas surgem. A cidade disponibilizou espaço de trabalho para novas empresas a preços acessíveis - e as 500 empresas que se instalaram nessses espaços conseguiram reunir investimentos privado superiores a 90 milhões de dolares. A cidade investiu também nos cursos de teconologia das universidades locais e espera que os novos engenheiros que de lá vão sair ajudem a criar uma nova vaga de empresas. O programa “Made In New York”, lançado por Bloomberg há uns anos para dinamizar a produção e o desenvolvimento das indústrias do audiovisual na cidade, e que tem sido um êxito, foi agora alargado para a comunidade digital. Este programa fornece recursos e oportunidades para start-ups que escolham Nova Iorque para se instalarem. Mais de 900 empresas em fase de lançamento criarão 3000 postos de trabalho, fundamentalmente dirigidos a jovens técnicos e criativos, e as empresas e a sua localização constam de um mapa interactivo que todos podem consultar -  a cidade esforça-se por divulgar as oportunidades que existem. Chama-se a isto planear, acompanhar, estimular, fazer. Algo muito diferente de prometer e passar a vida a papaguear. Acção política em vez de demagogia política.

SEMANADA - A Caixa Geral de Depósitos prevê prejuízos de 334 milhões de euros nos próximos dois anos; segundo um estudo do BPI, se Portugal tiver condições de pagamento dos empréstimos  semelhantes à Grécia poderá poupar até 14,9 mil milhões de euros; num só trimestre desapareceram 125 mil empregos; o desemprego de longa duração aumentou 29,7%; o desemprego afectou mais as profissões qualificadas e há cerca de 60 mil pessoas de profissões intelectuais inscritas nos centros de emprego, mas a maior parte das colocações disponíveis são para trabalhos que exigem habilitações reduzidas;   António José Seguro escreveu  uma carta à troika a pedir que seja feita fuma avaliação política do programa de ajustamento; Carlos Carreiras escreveu que esta atitude de Seguro revela sensatez política; Passos Coelho garantiu que essa avaliação política já é feita ao mais alto nível pelo Governo; António José Seguro foi a Bruxelas dizer a Durão Barroso que a crise em Portugal é grave; desde 1975 que não se verificava uma queda tão acentuada do PIB como em 2012 - 3,2%, mais uma vez acima das previsões; continuando nos enganos de previsões, Vitor Gaspar foi esta semana ao Parlamento dizer que em relação a 2013 a recessão será o dobro da que previu há três meses no Orçamento de Estado.

ARCO DA VELHA - Na semana passada a GNR detectou 13 camionistas a conduzir sem carta, 35 veículos pesados sem seguro e 112 sem inspecção obrigatória.

VER - Desde a sua reconstrução, após o incêndio do Chiado, esta é a primeira vez que o Museu Nacional de Arte Contemporânea faz uma exposição permanente com a sua colecção. Aqui estão obras de artistas portugueses, feitas entre 1850 a 1975, de nomes como Malhoa, Bordalo Pinheiro, mas também Paula Rego ou Pedro Cabrita Reis, mas também Santa Rita Pintor, Mário Eloy,  Almada, Amadeo Souza-Cardoso, Lurdes Castro ou Júlio Pomar, entre outros. Uma centena de obras que têm andado na maior parte escondidas longe dos olhos do público e que agora podem ser visitadas.

OUVIR- Um dos discos mais divertidos que me foi dado ouvir nos últimos tempos é “The Golden Age Of Song”, de Jools Holland & His Rhythm & Blues Orchestra. Jools Holland é um talentoso músico britânico que integrou os Squeeze e já tocou ao lado de nomes como Eric Clapton, Sting ou Mark Knopfler, entre outros. Depois dos Squeeze tem feito uma bela carreira num programa da BBC que é uma das melhores montras de música pop que se pode encontrar no universo da televisão em todo o mundo. Convida regularmente para o seu programa músicos de diversos géneros e proveniências. Além disso é um amante de canções - de maneira que escolheu 17 clássicos, convidou outros tantos nomes e juntou num só disco o resultado. 12 são gravações inéditas feitas em estúdio e cinco são gravações ao vivo, feitas no seu programa. Aqui estão novas interpretações de temas como “The Lady Is A Tramp”, “September In The Rain”, “Mad About The Boy”, “ My Baby Just cares For Me” ou “Something’s Got A Hold On Me”, por exemplo. A melhor de todas as versões, devo dizer, é a de Paul Weller com Amy Winehouse, em “Don’t Go To Strangers”, gravada ao vivo, na BBC. O disco veio da Amazon.

FOLHEAR - Um dos mais importantes livros sobre a imagem que podemos ler é uma colecção de textos de Susan Sontag, “Ensaios Sobre Fotografia”, que foi reeditada pela Quetzal há pouco tempo. A edição orioginal data de 1973, e em tempos já tinha existido uma outra edição portuguesa. Quando estes textos foram escritos a fotografia não era nada do que é hoje - havia película em vez de digital, a experiência tinha o seu quê de magia alquimista, havia polaroids mas não instagrams e ninguém imaginaria que os telefones fotografassem. Apesar de tudo o que mudou, a essência do pensamento sobre a fixação da imagem no processo fotográfico continua actual - e algumas das ideias, como a da acessibilidade da fotografia como meio de expressão, são cada vez mais reais.  Vale a pena sublinhar um ponto desta edição - a excelência da tradução, assinada por José Afonso Furtado.

GOSTO- O português André Carrilho foi o desenhador convidado pela Vanity Fair para fazer um clássico da revista - um painel na praia de Malibu que evoca as figuras marcantes de Hollywood hoje em dia.

NÂO GOSTO - Parece que há fugas de informação no Ministério Público. Quem diria? E só descobriram agora?

BACK TO BASICS - Quem pode protestar e não o faz, torna-se cúmplice dos actos - n’O Talmude.






(Publicado no Jornal de Negócios de  dia 22 de Fevereiro9

fevereiro 19, 2013

LEMBRETE

Assisto com alguma perplexidade ao evoluir das propostas de António José Seguro. Que me recorde, quem pediu a intervenção da Troika e assinou o respectivo memorando foi um Governo do PS, sem coligações, dirigido por José Sócrates. E, sem querer bater no ceguinho – o pedido tardou por tardio e custou-nos algum dinheiro a todos, que estamos a pagar agora. Já nem vou falar das decisões como a nacionalização do BPN, que cada vez levanta mais dúvidas por todo o lado, e que foi um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes. Isto são águas passadas, dirão. É certo, mas tiveram direitos de autor e é bom que não nos esqueçamos de onde veio – do PS.


 


Entre excursões de norte a sul e com uma entronização em mais uma confraria – a semana passada foi a do porco bísaro – António José Seguro vai-se distanciando cada vez mais do cumprimento dos acordos que o PS assinou enquanto Governo. A sua táctica de oposição joga na amnésia dos eleitores e da negação do passado. Gostava, a talhe de foice, de recordar que a coligação PSD/PP, com todos os problemas que tem, está no poder há pouco mais de dois anos e que o PS esteve década e meia quase ininterruptamente a contribuir para o estado das coisas a que chegámos. A memória das gentes é curta e às vezes há que colocar uns lembretes. Este é um lembrete sobre o método de governação do PS e os resultados que obteve. Ficámos melhor do que estávamos no fim dos Governos Sócrates? O único programa que se conhece a  Seguro é acabar com a correcção dos erros cometidos no passado - até porque, se não houve erros, não é preciso corrigir nada... É um programa político aterrador.




(Publicado no diário Metro de 19 de Fevereiro)


 

fevereiro 15, 2013

As facturas, as cidades criativas, os falsos locais gourmet....

FACTURAS - Com C e sem acordo ortográfico - assim é menos politicamente correcto.
Vamos a factos: um comunicado do Ministério das Finanças, emitido quarta-feira para a Rádio Renascença, dizia que “a autoridade tributária está a actuar à saída de estabelecimentos comerciais e já instaurou diversos processos de contra-ordenação a consumidores que não pediram factura”. Os consumidores estão assim a ser transformados em polícias. A lógica do Estado é simples: ter polícias em todo o lado, fazer de cada cidadão um vigilante. A coisa é ainda mais apurada que no antigamente: há umas décadas atrás os funcionários públicos - mas só estes - podiam receber umas gratificações se denunciassem quem não tinha licença de uso de isqueiro. Agora todos são chamados a ter o seu quinhão na colecta de impostos. A melhor de todas as observações sobre este triste episódio que revela a natureza do Estado que este Governo quer, veio do Cão Azul, um fabricante de T shirts, com mensagens irónicas estampadas, que colocou no Facebook, esta observação: “As repartições de finanças não têm mãos a medir com a quantidade de contribuintes que hoje foram pedir a factura do BPN com medo de serem multados por falta de factura do dinheiro que gastaram na privatização do banco".

CRIAR - Gostava de recordar que no Reino Unido as indùstrias criativas dāo trabalho a milhāo e meio de pessoas, em mais de cem mil empresas, que atingem 41 mil milhōes de euros de facturação e asseguram  exportaçōes no valor de nove mil milhōes de euros. Em Londres, a seguir ao sector financeiro, o sector das indústrias criativas é o mais importante do ponto de vista de volume de negócios. Ali estão incluídos o design, a moda, a música, os filmes, as produções de televisão, a publicidade,  assim como diversas artes. Na Universidade de Londres, seis colégios são dedicados ao ensino de várias destas artes e ofícios e 40 por cento dos seus alunos são estrangeiros, oriundos de 91 países. Empresas do sector das tecnologias de informação,das telecomunicações e do turismo vão lá frequentemente recrutar talento. Em Março, no muito prestigiado e imperial Victoria & Albert Museum, inaugurará uma exposição dedicada a David Bowie, mostrando o seu papel e influência na alteração dos padrões de criação e consumo da cultura popular em várias áreas. E por cá, com tanta conversa sobre indústrias criativas, que se fez? Lisboa que tem para mostrar nesta área?

SEMANADA - António Costa e António José Seguro foram a Coimbra abraçar-se; Mário Soares e Manuel Alegre fizeram as pazes; António José Seguro escolheu para slogan a expressão “Portugal Primeiro”, a mesma que foi utilizada por Passos Coelho em 2012;  cada português gastou 259 euros em medicamentos em 2012, menos 11,7% que em 2011; Portugal aplicou apenas uma das 13 recomendações do Conselho da Europa para melhorar a incriminação de suspeitos e a transparência do financiamento partidário; a área ocupada pelo pinheiro bravo reduziu-se um terço nos últimos 15 anos; uma reportagem de um jornal diário relata que a crise está o provocar enchentes nos consultórios de bruxos e videntes; Portugal é o segundo país europeu com o preço mais baixo de um hamburguer Big Mac, logo a seguir à Estónia; as exportações para a China quase que duplicaram em 2012 em relação ao ano anterior; os países fora da União Europeia são responsáveis por 88% do crescimento de exportaçōes em 2012; no último ano os bancos portugueses cortaram 2350 postos de trabalho e fecharam mais de 150 balcões; os bancos portugueses têm cerca de 23 mil milhões de crédito malparado.

ARCO DA VELHA - A Câmara de Torres Vedras quer candidatar o carnaval da localidade a património da humanidade

VER -  Três sugestões de fotografia para esta semana. No Espaço BES Arte, no Marquês do Pombal, José Medeiros, um dos grande nomes da fotografia brasileira, propõe “O Rio É Uma Festa”, que pode ser visto até 4 de Abril. Na Kameraphoto (Rua da Vinha 43A, Bairro Alto) os brasileiros Fábio Messias, Gio Soifer, Maíra Ramos, Marco A.F. e Otávio Almeida apresentam “Tanto Mar”. E, na Cordoaria Nacional, até 23 de Março, Valter Vinagre apresenta o trabalho que desenvolveu com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) com o objectivo de retratar o universo das vítimas de crime em Portugal.


OUVIR- Rodrigo Amado é um dos mais interessantes músicos de jazz portugueses, com o atractivo suplementar de ter carreiras paralelas enquanto editor e produtor discográfico, crítico e, também, fotógrafo. Mas é o seu mais recente disco, “Live At Jazz Ao Centro”, que aqui merece destaque. O Motion Trio (Rodrigo Amado no saxofone, Miguel Mira no violoncelo, Gabriel Ferrandini na bateria) teve a participação do trombonista Jeb Bishop na actuação realizada no Festival “Jazz Ao Centro” de Maio de 2011, em Coimbra, e o resultado deste cruzamento é uma explosão de improvisação - no primeiro tema Rodrigo Amado e Bishop exploram os respectivos territórios e é o diálogo entre os dois músicos que acaba por ser o ponto alto nos outros dois temas, “Imaging Caverns” e “Red Halo”. É justo sublinhar o trabalho do baterista, permanentemente a servir de ponto de união entre as improvisções, e a sonoridade invulgar conseguida por Miguel Mira no violoncelo, nomeadamente na abertura de “Red Halo”.

FOLHEAR -   A "Aperture" é uma revista norte-americana, que se edita quatro vezes por ano, exclusivamente dedicada á fotografia. Existe graças à Aperture Foundation. que além de uma galeria, mantém uma actividade de edição de livros muito interessante e é ainda responsável por um curioso blog. Se acederam a www.aperture.org poderão ter uma ideia da extensão do projecto. A revista fez agora 60 anos e ao longo das décadas que existe tornou-se uma referência em termos de história e crítica da fotografia. Na ediçāo de Outono (a mais recente disponível na Amazon UK ) destaco um ensaio sobre a fotografia de guerra, um portfolio sobre comunidades rurais na Rússia e fotografias de publicidade na Vogue americana entre 1930 e 1950. Em apenas 80 páginas percorre-se um mundo de imagens.

PROVAR - Uma coisa que me enerva é a utilização abusiva da palavra gourmet aplicada à designação dos restaurantes.  Iludido pela palavra e por maus conselhos, caí um dia destes na Hamburgueria Gourmet, um estabelecimento localizado no 114 da Rua da Alfandega, já a chegar ao Terreiro do Paço. No princípio da refeição nada fazia prever o que aconteceu; a lista incluía promessas de haburgueres que incorporavam queijo da serra, presunto de Chaves e até copita de Barrancos. No entanto, e por estarmos em Lisboa, decidi experimentar o hamburguer Marrare, que imaginei homenagear o bife do mesmo nome criado por um cozinheiro italiano que andou por estas paragens no final do século XVIII. A receita original é simples, mas complicada demais para esta hamburgueria. Vou passar por cima do facto de a cerveja pedida ao mesmo tempo que o bife ter demorado mais de dez minutos a chegar e vou esquecer que estive 35 minutos à espera do tal hamburguer. Passemos à substância: o hamburguer tinha sido grelhado na chapa,  não tinha tempero que se saboreasse nem paladar que se percebesse. Derramava-se em cima de uma alface que entretanto recozeu, e tinha uns pedaços inusitados de tomate e cebola intercalados entre as duas fatias da carne ressequida. A apropriação indevida do nome Marrare vinha de uma tímida colherada de uma pasta, que teoricamente imitava o molho que deu nome ao bife, e que originalmente tinha a particularidade de ser o produto no qual a carne era cozinhada - e não minguamente baptizada, como neste caso. Em resumo, uma experiência a não repetir e que me faz desconfiar de algumas revistas que fazem listas dos melhores sítios para comer hamburgueres e colocam este local em lugar de destaque.

GOSTO - A revista literária Granta vai ter uma edição portuguesa dirigida por Carlos Vaz Marques.

NÂO GOSTO - Do regresso das obras de construçāo de novas rotundas a seis meses das próximas autárquicas.

BACK TO BASICS - Estar na política é parecido com ser treinador de futebol - tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de julgar que se é importante - Eugene McCarthy




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 15 de Fevereiro)

fevereiro 08, 2013

Sobre a prepotência e as preocupações da Europa

PREPOTÊNCIA - Já se sabe que os portugueses adoram ser treinadores de bancada e dar palpites. De certa forma esta é uma tradição que vem das conversas de café, onde à volta de uma mesa encontramos sábios para todos os gostos. Esta propensão para o palpite e para meter a foice em seara alheia é na maior parte das vezes um divertimento inocente e um escape para frustrações diversas, mas volta e meia ultrapassa os limites do ridículo, sobretudo quando é feito em instituições que deviam ser sérias. Os deputados da Assembleia da República, é conhecido, têm problemas de imagem - os eleitores acham, com razão, que o que se passa no Parlamento é muitas vezes absurdo e duvidam da eficácia do voto que levou os senhores ao hemiciclo. Há pouco tempo os deputados já tinham mostrado a sua apetência para se meterem nos meandros do audiovisual quando decretaram, em benefício próprio, um canal, não regulamentado, que à revelia dos processos instituídos se forçou na emissão da televisão digital terrestre. Não contentes com isso, resolveram brincar, na semana passada, a directores de programa de um canal generalista. Vai daí deliberaram a criação de um programa, a emitir pela RTP, dedicado à agricultura e que retome o espírito do antigo TV Rural. Isto tudo podia ser só cómico e absurdo, mas infelizmente é um retrato da prepotência que leva os deputados a imiscuírem-se onde não deviam interferir. Ontem um canal próprio, hoje um programa decretado - amanhã, o quê?

EUROPA - Esta semana li que Bruxelas está francamente preocupada com o bem estar dos suínos em Portugal - e não estou a falar do episódio do GNR a pontapear um porco no meio da estrada. Parece que as criações de suínos não obedecem a algumas normas de bem estar animal e, por via disso, uma série delas terão de ser desmanteladas e muitas, eventualmente, encerradas - mais ou menos o que aconteceu há uns meses com as galinhas poedeiras. Eu acho muito interessante que Bruxelas se preocupe desta maneira com as galinhas e com os porcos. Mas confesso que ficaria mais feliz se Bruxelas também se preocupasse, de facto, com o bem estar das pessoas, nomeadamente com os efeitos do encerramento de explorações pecuárias, fábricas e empresas no bem estar da população. Mas vejo imensas regulamentações sobre o conforto dos animais e vejo muito pouca coisa feita para garantir uma vida decente a quem perdeu o emprego e não consegue encontrar trabalho. Esta Europa, pelos vistos, está boa para os animais mas fraca para as pessoas.


SEMANADA - O número de licenciados desempregados já iguala o número de desempregados com apenas quatro anos de escolaridade; Durão Barroso fez-se fotografar, fazendo músculo e cara durona, ao lado de Arnold Schwarzenegger em Viena, numa iniciativa sobre política ambiental; encerrou a fábrica Steiff, em Oleiros, com 103 trabalhadores, que produzia mais de cem mil ursinhos de peluche por ano; a inovação em Portugal cai para níveis de 2010; um em cada três portugueses nunca usou a internet; a dívida das estradas de Portugal agravou-se em 320 milhões de euros em 2012; a previsão de receitas de portagens da Estradas de Portugal em 2012 era de 516 milhões de euros, mas só atingiu cerca de 270 milhões; a receita fiscal em 2012 ficou 670 milhões abaixo do previsto pelo Ministério das Finanças; a comissão parlamentar sobre a reforma do estado não conseguiu iniciar trabalhos; a PSP tem cinco mil processos disciplinares a correr contra agentes; o líder da UGT, João Proença, fez uma síntese terrível do balanço da concertação na área económica: “Álvaro não tem competências, Gaspar não está interessado e Passos não tem tempo”.

ARCO DA VELHA - A Lei que proibia mulheres de usarem calças em França, em vigor há dois séculos, foi abolida esta semana. A Ministra francesa dos Direitos da Mulher, Najat Vallaud-Belkacem, disse que legislação não era compatível com valores atuais do país. O absurdo é uma constante da Europa.

VER - A Bloco 103 é uma galeria recente, dirigida por Miguel Justino Alves, que fica na Rua Rodrigo da Fonseca 103, em frente da entrada principal do Hotel Ritz. É um espaço pequeno mas muito bem aproveitado e que tem mostrado obras e artistas interessantes. Há dias inaugurou uma exposição de duas artistas da nova geração, Ana Velez e Inês Norton, bem diferentes entre si. Ana Velez utiliza a pintura para explorar formas e mostrar volumes e Inês Norton serve-se da fotografia como matéria prima para estimular a imaginação. A exposição das duas vai estar até 8 de Março.

OUVIR- O novo disco de Brian Eno, o seu primeiro desde 2005, é um conjunto de sonoridades à base de teclados e cordas, dividido em quatro partes, muito semelhantes umas às outras,. A base deste trabalho foi uma instalação sonora que Eno fez para uma galeria de arte em Turim. O “The Guardian” dizia que este trabalho bem se podia chamar “Música Para Galerias”, evocando o título de uma clássica obra de Eno, “Música para Aeroportos”, de 1978. Já houve quem dissesse que este disco era o equivalente musical do movimento “slow food” - algo que se deve saborear num estado de quietude e fora do stress das corridas do dia-a-dia. Reconheço que tudo é feito com uma elegância suprema, que as poucas variações de ritmo ou intensidade são colocadas de forma rigorosa. Brian Eno, por estes dias, dedica-se a fazer aplicações para iPad que permitem aos seus utilizadores desenhar ambientes sonoros num estilo próximo do próprio Eno. Se Hockney baseou a sua última exposição em obras desenhadas com recurso so iPad, porque não imaginar que a máquina serve também para fazer esta música do novo tempo?. CD “Lux”, Brian Eno, Opal, na Amazon.


FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Vanity Fair” tem um artigo perfeitamente maravilhoso sobre os Chefs dedicados a menus de degustação que podem durar uma tarde inteira a serem percorridos. Adequadamente, o título do artigo sobre estes chefs sádicos é “Tirania - Este é o menu do jantar”.  Corby Kummer, um aclamado crítico gastronómico da revista “Atlantic” escreve na Vanity Fair uma das mais brilhantes descrições do exagero dos cozinheiros e dos menus degustação, sintetizando a coisa assim: há chefs que não têm qualquer interesse em cozinhar o que o cliente quer comer numa agradável refeição e que, em vez disso, fazem carreira a impôr os seus gostos aos outros. Eu, que não gosto de menus degustação e os acho insuportáveis, deliciei-me a ler esta meia dúzia de páginas.  Há outros temas de interesse nesta edição da Vanity Fair - por exemplo um a bela peça sobre as mulheres que, com a sua amizade e influência marcaram a vida de Gore Vidal. E, finalmente, uma muito oportuna e interessante nota de Hillary Clinton a evocar o que tem sido a importância da arte e dos artistas americanos na diplomacia dos Estados Unidos - uma boa lição para a Europa, por acaso.

PROVAR - Linda-A-Velha fica mesmo às portas de Lisboa e vale a pena ir lá, à Rua Rangel de Lima nº 2, para descobrir o restaurante Jacó. À frente dos destinos da casa, uma antiga taberna muito bem recuperada há uma dezena de anos, está um italiano, Cesare, e a sua mulher, Carla, angolana, que dirige a cozinha - bem portuguesa, aqui e ali com uns toques de tempero africano. Nos pratos do dia há sempre boas inspirações, como por exemplo ossos com couve lombarda, sopa da pedra, arrozada de ameijoas ou açorda de bacalhau, por exemplo. A ementa vai variando mas no site www.restaurantejaco.com pode ter uma ideia do que o espera em cada semana. Na ementa fixa tem propostas como caril de caranguejo á indiana ou umas tiras de novilho com batata da grelha que são deliciosas. A carta de vinhos é generosa e vale a pena reservar pelo telefone 21 419 52 98.

GOSTO - Da série de humor “Odisseia” na RTP 1, noites de domingo.

NÃO GOSTO - Da rede de apostas ilegais, que envolveu o futebol europeu ao mais alto nível.

BACK TO BASICS - Quase todas as pessoas conseguem enfrentar a adversidade, mas, se quiserem verdadeiramente testar o carácter de um homem, dêem-lhe poder - Lincoln




(Publicado no Jornalk de Negócios de  8 de Fevereiro)

fevereiro 05, 2013

ELEIÇÕES INDEPENDENTES

As próximas autárquicas podem ser um momento de viragem no regime de monopólio que os partidos têm exercido sobre a atividade política. Abundam os sinais de que os eleitores estão cada vez mais descontentes com um regime que vive de promessas, as quais depois não são cumpridas, sem qualquer consequência para quem as deixou cair uma vez obtidos os votos.




Para ultrapassar a boa intenção da Lei que estabelecia limites ao prolongamento de mandatos de autarcas, os partidos transformaram-se em placas giratórias de conveniência, que transportam os candidatos daqui para ali, apenas para os manterem no poder e satisfazerem os aparelhos partidários.




A possibilidade de, no Porto, surgir um candidato independente, que se sobrepõe às lógicas partidárias e se pode dispor a enfrentar os aparelhos partidários, apoiado por figuras de referência, é um sinal do mal-estar que começa a grassar entre muita gente.




Digo sem problemas que, neste momento, em Lisboa, não tenho em quem votar. Se surgisse algum candidato independente com um discurso de ruptura com os interesses instalados e que pensasse no desenvolvimento da cidade e do seu bem estar, não hesitaria em lhe dar o meu apoio. Um candidato que não fosse politicamente correcto mas tivesse a coragem de melhorar a cidade teria o meu voto.




Não me apetece votar numa eleição que está condenada a ser uma peça da disputa nacional e interna dos partidos, com dois candidatos que encaram a cidade como um meio e não um fim - António Costa no PS e Fernando Seara no PSD e PP. Os lisboetas merecem melhor que isto.


 


(Publicado no diário METRO de dia 5 de Janeiro)

fevereiro 01, 2013

QUÍMICOS; LARGO DO RATO, TVs, EUROPA E MAIS O RESTO...

DESCOBERTA - Uma equipa de investigadores químicos, especializados em pavimentos, vai entregar a António Costa um trunfo eleitoral, caso ele afinal decida recandidatar-se à Câmara de Lisboa: trata-se de uma fórmula especial de alcatrão, não solúvel, ao contrário daquele que tem sido utilizado na asfaltagem das ruas da capital. Com efeito depois das semanas de chuva verificadas recentemente constatou-se que em muitos locais se assistia a uma acelerada diluição do alcatrão e ao surgimento de crateras de diversas dimensões. Atenta ao interesse deste fenómeno em termos de atracção turística, a autarquia dedicou especial cuidado à criação de zonas de crateras na Avenida da Índia, já que é uma das artérias onde circulam mais turistas, no percurso ribeirinho para a Torre de Belém e Padrão dos Descobrimentos. Face ao interesse pelo percurso ziguezaguante a que alguns veículos são forçados pelas zonas onde o alcatrão se diluiu mais nas águas pluviais, o vereador das rotundas está já a estudar a adopção de percursos com obstáculos todo o ano, mesmo no verão. Os investigadores têm por isso receio que a sua descoberta possa ignorada pela Câmara de Lisboa, face ao interesse que esta tem manifestado na preservação - e alargamento - dos buracos no asfalto.

MANIFESTAÇÃO - Para assinalar a semana em que os vencimentos começaram a ser reduzidos graças aos novos descontos, o PS decidiu promover manifestações internas na sua sede nacional, no Largo do Rato, para assim poder exercer oposição construtiva sem prejudicar, através de outras formas de contestação, o esforço do executivo em aumentar as receitas fiscais. Esta coluna está em condições de assegurar que a intensa movimentação no Largo do Rato e arredores foi seguida minuto a minuto de Paris por uma nova aplicação de smartphones, um divertido jogo de estratégia intitulado “War of Socrates” que tem registado muitos  “downloads” nas semanas mais recentes.


T’VISÃO - Fontes próximas da Presidência do Conselho de Ministros consideram que deve ser criado um novo Grupo de Estudo do serviço público de televisão, que tenha por objectivo refazer o relatório entregue há cerca de um ano pelo grupo anterior - e que traçou o caminho que até aqui tem sido seguido pela tutela do caso da RTP. O êxito obtido nos objectivos definidos para a RTP graças a esse relatório é a principal causa apontada para a reactivação do Grupo de Estudo. No âmbito do processo de reestruturação em curso, esse Grupo contará agora com a colaboração de altos quadros da empresa, em substituição de elementos dissidentes que se distanciaram das linhas de orientação traçadas para esta área e que têm sido executadas ao milímetro.

EUROPA - Uma notícia inspiradora: nas próximas eleições europeias surgirá um partido transnacional, liderado por Gerard Depardieu, que tem por ponto único do seu programa a luta pelo fim da harmonização fiscal que, num intenso esforço de colaboração, os diversos Governos da Zona Euro têm conseguido implantar, ultrapassando as diferenças que durante tantos anos levaram à mudança de residência e de sedes de empresas de um Estado para outro em busca do desconto perfeito.


SEMANADA - Um fonte da direcção do PS afirmou à imprensa esperar “que António Costa deixe de ser anjinho”; “O mais escurinho”, eis como o líder da CGTP, Arménio Carlos, se referiu-se ao etíope Abebe Selassie, representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) na troika; as marcas próprias já valem um terço das vendas nos supermercados; as Finanças fizeram penhoras a mais de 471 mil salários em 2012, ou seja cerca de oito dezenas de penhoras por dia; as universidades privadas perderam 30% dos alunos na última década; mais de 40 funcionárias que efectuam limpezas na PSP do Porto estão com os salários em atraso; o eucalipto passou a ser a principal espécie florestal portuguesa; no primeiro mês do ano fecharam 62 salas de cinema em todo o país; a RTP foi autorizada a contrair uma dívida de 42 milhões de euros para financiar a sua reestruturação.

ARCO DA VELHA - Um video colocado no You Tube mostra um soldado da GNR a pontapear um porco, depois do despiste de um veículo pesado que transportava estes animais. A GNR anunciou que procura identificar o referido agente.

NAVEGAR  - Se gostam do trabalho de ilustradores, se o trabalho gráfico é alguma coisa que desperta a vossa atenção, não deixem de visitar regularmente o blogue “Almanaque Silva”, da responsabilidade de Jorge Silva, um dos nomes de referência no design gráfico português contemporâneo. Mas este blogue não é um catálogo das suas obras, antes um espelho do interesse de Jorge Silva pela história da ilustração portuguesa, um trabalho feito com afinco e persistência, com dedicação e muita paciência. Desde as colecções de ilustrações coleccionáveis dos jornais diários dos anos 60 até às ilustrações de livros infantis, tudo é mostrado e enquadrado, com as respectivas histórias bem contadas. Uma permanente descoberta fascinante que pode ser seguida em http://almanaquesilva.wordpress.com .

OUVIR- “Indio de Apartamento” é o nome do novo disco de Vinicius Cantuária, editado no final do ano passado. Cantor, compositor, guitarrista e percussionista, Vinicius Cantuária tem tido uma carreira fora dos focos da popularidade de outros músicos, bem menores que ele. De facto, Cantuária, é um talento raro - nas canções que faz, na forma de compôr, na simplicidade das suas letras, no minucioso trabalho de arranjos da secção ritmica. Ao longo da sua carreira já passou pelo rock, mas agora vive num território entre o jazz e a bossa nova, com um toque nova-iorquino. No disco colaboram nomes como Ryuichi Sakamoto, Norah Jones, Bill Frisell, Jesse Harris e Mário Laginha, entre outros. São dez temas originais de Vinicius Cantuária, uma rara colecção de belíssimas canções, envolventes como “Moça Feia”, “Humanos”, “Quem Sou Eu”, ou “Pé na Estrada”, e arrebatadoras como “Indio de Apartamento” ou “This Time”. Para mim este é o mais interessante dos últimos discos de Vinicius Cantuária, (CD Naive, no iTunes).

FOLHEAR - A primeira edição da “Monocle” em 2013 parece dedicada a Portugal - mas na realidade aplica-se que nem uma luva aos países que atravessam crises e é um bom manual de ideias para as pessoas que no meio deste ciclo depressivo procuram saídas, soluções ou uma ideia para mudarem de vida. O talento especial de Tyler Brulé é o de conseguir estar sempre um pouco à frente do que as pessoas procuram, sugerindo caminhos, arriscando ideias que podem parecer impossíveis ou utópicas mas que lá vão funcionado.  “Looking For Lands Of Opportunity - The How To Generation” são os títulos chave que marcam esta edição, onde se fala do que se pode fazer numa eleição local , na recuperação de uma marca, em muitos negócios - da edição ao cinema, passando por galerias. E um dos exemplos de criatividade é a cadeia de lojas “A Vida Portuguesa”. Os casos de sucesso relatados vêm acompanhados por um curto texto e por dicas que deram êxito à concretização de cada ideia. Mais uma edição a guardar.

PROVAR - Esta semana provei o meu primeiro sável frito do ano. Fatias muito fininhas, como devem ser, fritura no ponto, sem gordura a mais, estaladiça. A acompanhar, uma açorda no ponto, bem temperada. Sável frito é dos melhores petiscos que me podem oferecer nesta altura do ano e nem sempre ele está tão perfeito no corte e na fritura como neste caso. Por falar em época do ano, já chegou a lampreia, que costuma andar de braço dado com o sável nas ementas sazonais. A acompanhar o sável, veio um belíssimo branco Burmester. Tudo isto se passou num dos restaurantes emblemáticos da linha - Os Arcos, na sala virada para o mar, com um serviço atento e eficaz. O restaurante fica localizado na Rua Costa Pinto nº 43, em Paço de Arcos, e o telefone é o 214 433 374.

GOSTO - “Sem reforma do sistema político vejo com cepticismo uma reforma da Admistração Pública” - Campos e Cunha

NÂO GOSTO - Falha na Lei impede multas a autocarros sem cintos de segurança para passageiros

BACK TO BASICS - Os partidos políticos destinam-se a dar uma aparência sólida a uma ventania de palavras - George Orwell




(Publicado no Jornal de negócios de dia 1 de Fevereiro)

janeiro 29, 2013

UMA POLÍTICA CONFUSA

A paisagem política portuguesa tem momentos muito curiosos. No momento presente temos pela frente uma coligação no poder, que obteve a maioria nas eleições, que dispõe de confortável maioria parlamentar, e uma oposição que não se consegue fazer ouvir de forma eficaz, mesmo perante o cenário de austeridade, aumento de impostos e diminuição de rendimentos. Todos achariam que este poderia se o momento ideal para um líder da oposição dar nas vistas. Seria natural.




Mas o que acontece é que o líder natural da oposição, o secretário-geral do PS, anda aflito a conseguir afirmar-se dentro do seu próprio partido. A crise interna do PS é, no momento actual, maior que qualquer crise que possa existir na coligação, e isso é uma das curiosidade da política à portuguesa.




Reparemos nisto: é no momento em que o desconforto dos contribuintes se vai revelar mais – porque vão agora receber os seus vencimentos ou pensões com as novas tabelas – que dentro do PS começa uma desregrada luta pelo poder interno, ainda por cima com várias matizes: de um lado os que entendem que Seguro deve continuar, do outro os amigos de Sócrates que querem fazer já uma fogueira num próximo e rápido Congresso; e finalmente, tentando navegar entre os dois, António Costa que tenta equilibrar a sua participação nas próximas autárquicas com a sua vontade de um dia liderar o PS.




No campeonato nacional de tiros no pé não é só o PS a competir. Também o líder da CGTP, Arménio Carlos, alcançou esta semana posição de relevo ao classificar o chefe da missão do FMI, o etíope Abebe Selassié, como um  “escurinho “.  Ele há coisas…




(Publicado no Diário Metro)

janeiro 25, 2013

Sobre a semelhança entre a política e um concurso de misses

MISSES - Por estes dias li um comentário que me ficou no ouvido: se as eleições pudessem mudar alguma coisa, há muito teriam sido ilegalizadas. Quanto mais olho para o que se passa à volta, mais me convenço que este comentário está cheio de razão. Já aqui tenho dito isto várias vezes, mas um sistema político que se baseia na votação de promessas, que sistematicamente não são cumpridas pelos eleitos, e em que não existe nenhuma punição para além dos votos, é um sistema que facilita a desonestidade cívica. As eleições foram substituídas por uma espécie de concurso de popularidade, ou, se quiserem, uma disputa de misses. Só que em vez de misses desfilam políticos e, em vez de medidas tentadoras, há promessas enganadoras: “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”  - nunca o desabafo escrito por Eça de Queiroz em “A Relíquia” se aplicou de forma tão certeira aos partidos que temos e às políticas que fazem.

TPC - Portugal anda a ficar parecido com a China de há uns anos atrás - um país, dois regimes. Por cá o regime que Vitor Gaspar enaltece é diferente daquele que Álvaro Santos Pereira procura, e isso dá cada vez mais nas vistas. Esta semana, desdizendo tudo o que havia proclamado há poucas semanas, lá foi Gaspar ao reino de Bruxelas renegociar a dívida, montado, com abuso e fulgor, no regresso do país aos mercados - que pode vir a ser boa notícia. Se alguém tem que levar parabéns pelo tal regresso aos mercados são todos os que recebem menos, deixaram de ter trabalho ou pagam mais impostos para um Estado que, na essência, graças ao facilitismo gasparista, continua igual. Do trabalho de casa, o Governo só soube até agora conjugar bem o verbo tirar, ainda não conseguiu chegar à letra P, de poupar.


TV - A RTP anda num grande movimento de mudanças internas, fundindo ou extinguindo direcções, fazendo novas nomeações, mudando programas do norte para o sul e vice -versa, mesmo que por enquanto algumas mudanças sejam mais no papel que na realidade. Mas não vi ainda um movimento que seria o fundamental para um serviço público de televisão, com um papel estratégico no desenvolvimento da produção audiovisual: descontinuar a produção interna, passá-la para os produtores independentes. Continua sem existir uma reflexão orientadora e clara sobre a missão que a RTP deve desempenhar - mas lá se vão fazendo mudanças, exonerações e nomeações, mesmo sem saber exatamente o objectivo e o propósito.

SEMANADA - 2,6 mil milhões de euros foi o total pago em 2012 com o subsídio de desemprego; o número de casas entregues aos bancos baixou 21% em 2012; o mau tempo fez cair quatro árvores por minuto no sábado passado; PSP e GNR detêm uma média de 200 pessoas em cada mês por desobediência; António José Seguro diz que só com maioria absoluta será capaz de aplicar o seu programa; António Pires de Lima diz que António Costa está a provocar que António José Seguro tome “posições cada vez mais demagógicas e populistas”; António Capucho diz que “a confusão no Governo é total”; Passos Coelho diz que “ninguém aconselhou os portugueses a emigrarem”; o número de portugueses que emigrou em 2011 aumentou 85% em relação a 2010 e a faixa etária mais numerosa é a dos 25 aos 29 anos; as remessas dos emigrantes em 2012, efectuadas até Novembro, ultrapassaram os valores totais de 2009, 2010 e 2011;  55% dos reformados do Estado em 2012 têm menos de 60 anos; no ano passado, quase 28 mil negócios fecharam as portas e a criação de sociedades abrandou 11,6%.

ARCO DA VELHA - António José Seguro diz que “grande parte dos políticos portugueses está concentrada na trica e na intriga”.

FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Wallpaper”, já disponível, é dedicada aos prémios de design que a publicação atribui anualmente. Mas, apesar de ser indiscutivelmente interessante ver os premiados nas diversas categorias (livrarias, objectos, rebranding, lojas, utensílios e ideias diversas), o ponto alto da revista é um especial de duas dezenas de páginas dedicado à obra de Oscar Niemeyer - que foi uma presença repetida nas páginas da “Wallpaper” ao longo dos anos. Não se trata de uma homenagem vulgar - é um portfolio de fotografias da obra do arquiteto, feitas por Todd Eberle, um fotógrafo de arquitectura que seguiu com persistência e sensibilidade a obra de Niemeyer. Além de uma conversa com Eberle, a revista publica dezenas de fotografias,  a maior parte das quais inéditas, que são um documento precioso. Só por isso vale a pena dar os nove euros que custa a “Wallpaper”.


VER - "Chama Dupla" é o título da exposiçāo de Paulo Brighenti que inaugurou esta semana na Galeria Baginski (Rua Capitāo Leitāo 51-53, ao Beato). Brighenti, um lisboeta que expōe regularmente desde meados da década de 90, ocupa as duas grandes salas da galeria com trabalhos onde explora a natureza da côr e a maneira como as suas variaçōes podem afectar a evocaçāo das paisagens que retrata. A técnica que utiliza privilegia a referência à memória, em detrimento da reproduçāo da realidade e, como se vê nas pequenas aguarelas que sāo o estudo das pinturas, o método é seguido desde o início da concepçāo de cada obra. O resultado é emocionante, e esta capacidade de transmitir sentimentos é o ponto marcante desta nova exposiçāo na Baginski

OUVIR- Numa época em que se tornou hábito as estrelas pop revisitarem repertórios alheios, o mais recente disco de Brian Feery é baseado num conceito surpreendente: em vez de revistar obra de terceiros, Ferry propōe temas de várias épocas da sua carreira, com os Roxy Music ou a solo, mas baseado na sonoridade do jazz dos anos 20 e 30 e com influências claras do tipo de arranjo que era praticado por Duke Ellington ou preferido por Louis Armstrong. No disco, Brian Ferry não canta - os 13 temas, de “Do The Strand” a “Virginia Plain”, passando por “Avalon”, “ Slave To Love”, “The Bogus Man”  ou “Don’t Stop The Dance”, são apenas instrumentais, muito transfigurados em relaçāo aos originais, e ganham aqui uma nova dimensão - surpreendente e que dá que pensar sobre a forma como Ferry incorporou, desde o início dos Roxy Music, o que se sabia serem as suas referências e influências. A direcção musical é de Colin Good, que já tinha sido, com Ferry, o responsável pelos arranjos no disco de interpretações de standards “As Time Goes By”. É muito estimulante que ao fim de todos este anos Bryan Ferry continue a ser capaz de surpreender, como faz com este “The Jazz Age”. (CD BMG na Amazon).

PROVAR - As cafetarias são uma espécie de pastelarias modernas, um pouco mais básicas, mas com os seus encantos. Perto do Saldanha, a um escasso quarteirão da Versailles, nasceu a a Choupana Caffé, um conceito engraçado que junta uma cafetaria, padaria,  pastelaria de fabrico próprio, um balcão de iogurtes e aquilo a que com imaginação chamam mercearia. Entre as sete da manhã e as oito da noite, todos os dias da semana, pode-se ali petiscar - e aos fins de semana os seus brunch estão a ganhar boa reputação. Durante a semana, ao almoço, é vulgar ver-se gente à espera de uma mesa. Um dia destes provei lá um honestíssimo bagel com queijo philadélfia, alcaparras e rúcula, precedido de uma boa sopa de espinafres - acompanhado por água e finalizado por um café e um pastel de nata - a coisa andou pelos dez euros. Os scones, os croissants, as panquecas com nutella ou os iogurtes biológicos com cereais, frutos secos e mel são já êxitos da casa. Espero que com o tempo o serviço melhore - não é por falta de empregados, andam é todos a correr de um lado para o outro e a fazer as mesmas coisas. No espaço, logo à entrada, existe uma zona de venda de produtos, desde vinhos a azeites, passando por compotas (tem uma de figo que ainda hei-de provar...) e biscoitos a peso - a tal mercearia. A Choupana fica na Avenida da República 25 A e o telefone é o 213 570 140.


GOSTO - Em 2012 a Amazon vendeu 114 ebooks por cada 100 livros impressos.


NÂO GOSTO - Do espalhafato à volta de uma conversa telefónica entre Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Soares


BACK TO BASICS - “Vi mais do que aquilo de que me recordo , lembro-me de coisas para além do que vi” - Benjamim Disraeli




(Publicado no Jornal de Negócios de 25 de Janeiro)



janeiro 22, 2013

O FIM DA METEOROLOGIA, OU A QUESTÃO DOS NOMES SEM SENTIDO


Um dos fenómenos que me intriga é a mudança de nomes tradicionais de organismos do Estado. Alguns eram boas marcas, fáceis de memorizar e directamente relacionados com a actividade. Não havia que enganar.Quando se queria saber o estado do tempo ía-se à metereologia e o caso ficava arrumado.



A designação foi popularizada durante anos em apontamentos de previsão metereológica na televisão, na rádio e nos jornais. Técnicos do Instituto de Meteorologia tornaram-se até figuras populares, e respeitadas, graças à televisão.



Pois no ano passado o Instituto de Meteorologia e Geofísica foi transformado em Instituto Português do Mar e da Atmosfera - IPMA. Dificilmente se encontraria um nome tão pomposamente gongórico como este, tão anormal em termos de objecto e de comunicação. E a mudança é coisa para ter custado uns cobres aos contribuintes...



Mas o mais curioso é percorrer os nomes de duas dezenas e meia de instituições europeias semelhantes e descobrir que apenas a nóvel instituição portuguesa omite da sua nomenclatura a palavra meteorologia ou suas abreviaturas. A criatividade dos nossos burocratas não pára de me surpreender. Tornámo-nos assim verdadeiramente um país percursor que faz da meteorologia uma ciência tão oculta que até o seu nome é escondido da designação.



Isto pode parecer um preciosismo, mas não é. O nome das instituições deve ser claro sobre elas e a sua missão, deve ser amigável e claro para os utilizadores, confortável e conveniente para nacionais e estrangeiros. Tudo o que a bizantina designmação IPMA não é.




(Publicado no diário Metro de 22 de Janeiro)

janeiro 18, 2013

INTENSO TIROTEIO NO SEIO DO PODER, PERGUNTAS E DESABAFOS

TIROTEIO - Ouvi dizer que o PSD está no Governo, mas há dias em que, quando abro os jornais, acho que estará na oposição- todas as semanas há um novo episódio  daquela fantástica história “Eu gosto de dar tiros nos pés”. A coisa é de tal forma que já existem guionistas e produtores a prepararem uma série de ficção para o serviço público com o título “Sapatos furados deixam entrar água”. Por causa disso mesmo um dos pontos fortes da reindustrialização, ultimamente muito acarinhada, é a construção de uma fábrica de sapatos à prova de bala.  Os primeiros protótipos estão já em ensaio na Presidência do Conselho de Ministros e no Ministério das Finanças. Estes sapatos blindados serão distribuídos a membros do governo, seus assessores de comunicação, líderes da oposição, deputados e membros seleccionados dos gabinetes governamentais e de algumas autarquias - António Costa já manifestou também intenção em oferecer um par ao vereador Nunes da Silva e consta que antes de ir para o Largo do Rato enviará uns ao seu amigo José Lello (que aliás já tinha pedido uns para António José Seguro). Os sapatos saídos desta nova indústria serão também resistentes ao efeito de ricochete ocorrido esta semana na conferência do silêncio, perdão,  “Pensar o Futuro”. Existirão vários modelos destes sapatos à prova de bala, para homem e senhora. Está em estudo também um modelo de sapatos de corrida, blindados, que será oferecido a José Sócrates no seu próximo período de férias escolares em Portugal, e o modelo de havainas com blindagem transparente, para os políticos que gostam do verão brasileiro, também deverá ser disponibilizado em breve.

SEMANADA - O Banco de Portugal previu o desaparecimento de 88.500 postos de trabalho este ano; há 34 mil pedidos de reforma pendentes na Função Pública, dos quais 25 mil são de reformas antecipadas; um inquérito recente mostra que 49% dos portugueses não conseguem poupar para a reforma; no quarto trimestre de 2012 a economia alemã registou uma contracção de 0,5% devido ao abrandamento considerável na actividade económica dos parceiros europeus; as salas de cinema portuguesas perderam 8% de receitas em 2012 e registaram menos 12,3% de espectadores que no ano anterior; os novos escalões do IRS provocam diminuição dos rendimentos a perto de 300.000 lares; o Primeiro Ministro prometeu um “alívio fiscal permanente” na mesma semana em que foram publicadas as tabelas de retenção do IRS, com os maiores valores de sempre; 10,5% dos portugueses têm falta de interesse sexual, sendo o grupo etário mais afectado o dos 30 aos 39 anos (mais de 24%), e o cansaço e o stress são as principais causas apontadas.

ARCO DA VELHA - Em Lisboa há cada vez mais lugares vagos no estacionamento mas o Presidente da Câmara conseguiu observar que existem mais viaturas em circulação - que devem andar em movimento contínuo e nunca estacionam, provavelmente com medo das tarifas da EMEL.

VER - Enquanto não começa o novo ciclo de exposições, dedico-me a ver fotografia num dos melhores sítios que conheço para o efeito. Chama-se ASX e pode ser localizado em www.americansuburbx.com. Aí pode encontrar uma diversidade de notícias, portfolios e ensaios sobre fotógrafos e a fotografia. Há uma e-newsletter diária, que recebo há uns meses, cuja visualização é sempre um dos pontos altos do meu dia.  A diversidade de material disponível é impressionante, e vai desde obras recentes de Eggleston até revisitaçlões de trabalhos de Nan Goldin ou de Ralph Eugene Meatyard. Cá pelo burgo tenho curiosidade em ver as “Casas Vazias”, de Filipe Condado, que inaugura no fim do mês na Sala do Veado (rua da Escola Politécnica) e cujas amostras já publicadas no Facebook são muito curiosas. E, já agora, a curiosidade também existe em relação à exposição “O Rio É Uma Festa”, do fotógrafo brasileiro José Medeiros, que abre por estes dias no espaço BES Arte & Finança, no maltratado Marquês do Pombal.

PROVAR - Hoje vou falar de um restaurante de que gostava muito, o Gemelli, por cima do Mercado de S. bento, frente à Assembleia da República. Pois o Gemelli fechou portas e o seu proprietário, o chef Augusto Gemelli, explicou Domingo passado no Facebook as razões que o levaram a fechar aquele que para mim era o melhor restaurante italiano da cidade, a milhas de todos os outros. Ficam aqui as suas palavras, que eu tomo a liberdade de dedicar aos deputados, que no palacete frente ao local do restaurante, consentem este estado de coisas. “Sem querer alegar desculpas, quero só dizer que a pressão exercida desde o ano 2008 sobre a indústria da restauração e o mundo do turismo no geral chegou a um ponto limite insuportável e o reflexo disto é a autêntica razia que está a levar ao encerramento de tantos restaurantes de bom nível, em todo o país. Nós também temos as nossas culpas e sem dúvida fizemos alguns erros de gestão, mas em situações complicadas, às vezes é difícil tomar a decisão certa. Quando o negócio começou a entrar em crise, nunca fiquei à espera passivamente e sempre tentei modificar a minha proposta como restaurante com o objetivo de continuar a dar-vos a melhor qualidade possível, mas agora que já não consigo fazer isto mais, tomei a decisão de fechar as portas.”

OUVIR - Maria Rita anda há uma década a construir uma carreira graças ao seu talento - mesmo que a semelhança das vozes evoque sempre a sua mãe, Elis Regina. Ao fim destes dez anos, Maria Rita resolveu dar o passo que faltava - perder o medo de cantar as canções que tornaram célebre Elis. Para isso montou um espectáculo, “Redescobrir”, que fez digressão no Brasil, foi gravado e depois editado em duplo CD, com 28 temas clássicos (existe também um DVD). O jornal brasileiro “Globo” fez a descrição exacta deste “Redescobrir” : “Elis está sempre com ela, no seu timbre, nos arranjos e interpretações que, a despeito de serem efectivamente novos, remetem às gravações clássicas da mãe. Há um desejo consciente de humildade e de adequação ao projeto-tributo, mas que tira um tanto das possibilidades artísticas do show.”.

FOLHEAR - Como é costume a “Monocle” fez uma edição especial em meados de Dezembro, em formato de jornal, dedicada ao inverno.  Este ano tive a bela surpresa de receber uma assinatura da revista como prenda de Natal, e isso é a garantia de que aqui continuarei a falar de uma publicação que me fascina desde o início, faz em Fevereiro sete anos. A revista de Tyler Brulé dedica uma atenção especial à evolução das tendências de vida e tem um fascínio pelas cidades, mas também pela manutenção das tradições. Nesta edição especial “Monocle-Alpine” há um artigo que eu verdadeiramente gostava que fosse lido por alguns dos obreiros das nossas desgraças económicas. O artigo fala da recuperação da Islândia, depois do colapso de 2008, uma recuperação baseada em pequenos negócios focados nas comunidades onde estão inseridos, recuperando postos de trabalho e dinamizando a economia. A revista tem feito reportagens regulares sobre a evolução da Islândia depois do colapso dos seus três maiores bancos, e tem seguido algumas pessoas que têm tentado dar a volta à vida. Uma delas, de que esta reportagem fala, era concessionário de boas marcas automóveis até 2008, ano em que o seu negócio se tornou redundante; depois dedicou-se a uma pequena empresa de serviços na área do turismo, que acabou por se especializar no apoio à produção audiovisual internacional, que, graças aos incentivos fiscais, está a ir para a ilha. De concessionário falido até interlocutor de Ridley Scott, como foi o caso recente, vai um belo passo. A reportagem tem outros bons exemplos de pessoas que mudaram de vida e criaram coisas novas - como um arquitecto que agora se dedica a vender bicicletas que ele próprio transforma e personaliza. Sem financiamentos do Estado mas com uma fiscalidade que ajuda quem começa um negócio.

PERGUNTINHA - Costa vai ficar a inventar mais rotundas ou segue direito para o Largo do Rato?

GOSTO - De ser rectificado o trânsito na faixa central da Avenida, voltando ao que era antes do caos Costista;

NÃO GOSTO - Da persistente teimosia do caos Costista nas rotundas do Marquês;

BACK TO BASICS - “Aqueles que não se conseguem disciplinar a si próprios,
depressa encontrarão alguém que o faça por eles.” - Friedrich Nietzsche