fevereiro 22, 2013

O sinal dos protestos, inveja urbana, sugestões avulsas

PROTESTOS - Quando uma acção de agitação e propaganda - a grandolada como lamentavelmente já lhe chamam - alcança bons resultados é porque existe disposição para ela ser amplificada. Todos os que passaram por acções destas sabem que não basta uma boa ideia. É preciso conseguir o momento certo para que a boa ideia se multiplique. Hoje, é claro, isso é mais fácil porque o espaço entre a acção e a sua comunicação e massificação se tornou praticamente instantâneo. Mas, continua a ser necessário que exista o momento. E a questão é essa: estamos perante um momento em que a oposição ao Governo varreu fronteiras partidárias, ideológicas e etárias. Se fosse o Bloco de Esquerda ou o PCP, e mesmo também o PS, a oporem-se o facto seria significativo mas não chegaria. O problema é que, nos apoiantes e eleitores do PSD e do PP, também se acumulam críticas a Gaspar, Passos Coelho e outros membros do Governo. A coisa avolumou-se a um ponto em que já não interessa se o objectivo da acção governativa é correcto - e isso é o pior de tudo porque cria o clima para destruir o que se fez e para evitar fazer o que ainda é preciso. O grande problema deste Governo á a falta de política, na realidade a falta de bom senso: é ter julgado que os fins justificam os meios e ter agido sem querer fazer participar as pessoas no processo. O Governo tem o pecado da soberba e julga que a sua razão basta - e teve medo de mobilizar as pessoas porque sabia que ía tomar medidas anti-populares. Alguém lhes devia ter explicado que essas medidas exigiam cuidados redobrados. Quando se vai para  a guerra, faz-se campanha antes, e em vez de promessas que depois se revelam mentira. Como se esqueceram do assunto, em cada esquina nasce naturalmente um protesto. Desde 1974 que não existia esta confluência de pessoas, opiniões, e movimentos num só sentido e este é o elemento novo de todo este processo, novo e preocupante pelo risco que encerra de fazer um curto circuito no sistema político. E a culpa não é de quem protesta, é de quem criou as condições para o protesto ganhar esta dimensão. O regime está a perder a sua base social de apoio e esta não é uma boa notícia.

INVEJA  - Quem me conhece sabe que não sou invejoso. Mas reconheço  que desta maneira de trabalhar e de fazer, tenho muita inveja: aqui fica um resumo de um excelente artigo do Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, publicado esta semana no Linkedin. Entre 2007 e 2011 o número de nova-iorquinos que trabalham em medias digitais cresceu 80% e a cidade é a região norte-americana que captou mais investimento em empresas tecnológicas no mesmo espaço de tempo, mais que Silicon Valley Em parte isto deve-se aos incentivos criados a partir do início da década de 80 do século passado pelo próprio Bloomberg - as coisas demoram o seu tempo a acontecer mas quando a estratégia é certa , elas surgem. A cidade disponibilizou espaço de trabalho para novas empresas a preços acessíveis - e as 500 empresas que se instalaram nessses espaços conseguiram reunir investimentos privado superiores a 90 milhões de dolares. A cidade investiu também nos cursos de teconologia das universidades locais e espera que os novos engenheiros que de lá vão sair ajudem a criar uma nova vaga de empresas. O programa “Made In New York”, lançado por Bloomberg há uns anos para dinamizar a produção e o desenvolvimento das indústrias do audiovisual na cidade, e que tem sido um êxito, foi agora alargado para a comunidade digital. Este programa fornece recursos e oportunidades para start-ups que escolham Nova Iorque para se instalarem. Mais de 900 empresas em fase de lançamento criarão 3000 postos de trabalho, fundamentalmente dirigidos a jovens técnicos e criativos, e as empresas e a sua localização constam de um mapa interactivo que todos podem consultar -  a cidade esforça-se por divulgar as oportunidades que existem. Chama-se a isto planear, acompanhar, estimular, fazer. Algo muito diferente de prometer e passar a vida a papaguear. Acção política em vez de demagogia política.

SEMANADA - A Caixa Geral de Depósitos prevê prejuízos de 334 milhões de euros nos próximos dois anos; segundo um estudo do BPI, se Portugal tiver condições de pagamento dos empréstimos  semelhantes à Grécia poderá poupar até 14,9 mil milhões de euros; num só trimestre desapareceram 125 mil empregos; o desemprego de longa duração aumentou 29,7%; o desemprego afectou mais as profissões qualificadas e há cerca de 60 mil pessoas de profissões intelectuais inscritas nos centros de emprego, mas a maior parte das colocações disponíveis são para trabalhos que exigem habilitações reduzidas;   António José Seguro escreveu  uma carta à troika a pedir que seja feita fuma avaliação política do programa de ajustamento; Carlos Carreiras escreveu que esta atitude de Seguro revela sensatez política; Passos Coelho garantiu que essa avaliação política já é feita ao mais alto nível pelo Governo; António José Seguro foi a Bruxelas dizer a Durão Barroso que a crise em Portugal é grave; desde 1975 que não se verificava uma queda tão acentuada do PIB como em 2012 - 3,2%, mais uma vez acima das previsões; continuando nos enganos de previsões, Vitor Gaspar foi esta semana ao Parlamento dizer que em relação a 2013 a recessão será o dobro da que previu há três meses no Orçamento de Estado.

ARCO DA VELHA - Na semana passada a GNR detectou 13 camionistas a conduzir sem carta, 35 veículos pesados sem seguro e 112 sem inspecção obrigatória.

VER - Desde a sua reconstrução, após o incêndio do Chiado, esta é a primeira vez que o Museu Nacional de Arte Contemporânea faz uma exposição permanente com a sua colecção. Aqui estão obras de artistas portugueses, feitas entre 1850 a 1975, de nomes como Malhoa, Bordalo Pinheiro, mas também Paula Rego ou Pedro Cabrita Reis, mas também Santa Rita Pintor, Mário Eloy,  Almada, Amadeo Souza-Cardoso, Lurdes Castro ou Júlio Pomar, entre outros. Uma centena de obras que têm andado na maior parte escondidas longe dos olhos do público e que agora podem ser visitadas.

OUVIR- Um dos discos mais divertidos que me foi dado ouvir nos últimos tempos é “The Golden Age Of Song”, de Jools Holland & His Rhythm & Blues Orchestra. Jools Holland é um talentoso músico britânico que integrou os Squeeze e já tocou ao lado de nomes como Eric Clapton, Sting ou Mark Knopfler, entre outros. Depois dos Squeeze tem feito uma bela carreira num programa da BBC que é uma das melhores montras de música pop que se pode encontrar no universo da televisão em todo o mundo. Convida regularmente para o seu programa músicos de diversos géneros e proveniências. Além disso é um amante de canções - de maneira que escolheu 17 clássicos, convidou outros tantos nomes e juntou num só disco o resultado. 12 são gravações inéditas feitas em estúdio e cinco são gravações ao vivo, feitas no seu programa. Aqui estão novas interpretações de temas como “The Lady Is A Tramp”, “September In The Rain”, “Mad About The Boy”, “ My Baby Just cares For Me” ou “Something’s Got A Hold On Me”, por exemplo. A melhor de todas as versões, devo dizer, é a de Paul Weller com Amy Winehouse, em “Don’t Go To Strangers”, gravada ao vivo, na BBC. O disco veio da Amazon.

FOLHEAR - Um dos mais importantes livros sobre a imagem que podemos ler é uma colecção de textos de Susan Sontag, “Ensaios Sobre Fotografia”, que foi reeditada pela Quetzal há pouco tempo. A edição orioginal data de 1973, e em tempos já tinha existido uma outra edição portuguesa. Quando estes textos foram escritos a fotografia não era nada do que é hoje - havia película em vez de digital, a experiência tinha o seu quê de magia alquimista, havia polaroids mas não instagrams e ninguém imaginaria que os telefones fotografassem. Apesar de tudo o que mudou, a essência do pensamento sobre a fixação da imagem no processo fotográfico continua actual - e algumas das ideias, como a da acessibilidade da fotografia como meio de expressão, são cada vez mais reais.  Vale a pena sublinhar um ponto desta edição - a excelência da tradução, assinada por José Afonso Furtado.

GOSTO- O português André Carrilho foi o desenhador convidado pela Vanity Fair para fazer um clássico da revista - um painel na praia de Malibu que evoca as figuras marcantes de Hollywood hoje em dia.

NÂO GOSTO - Parece que há fugas de informação no Ministério Público. Quem diria? E só descobriram agora?

BACK TO BASICS - Quem pode protestar e não o faz, torna-se cúmplice dos actos - n’O Talmude.






(Publicado no Jornal de Negócios de  dia 22 de Fevereiro9

fevereiro 19, 2013

LEMBRETE

Assisto com alguma perplexidade ao evoluir das propostas de António José Seguro. Que me recorde, quem pediu a intervenção da Troika e assinou o respectivo memorando foi um Governo do PS, sem coligações, dirigido por José Sócrates. E, sem querer bater no ceguinho – o pedido tardou por tardio e custou-nos algum dinheiro a todos, que estamos a pagar agora. Já nem vou falar das decisões como a nacionalização do BPN, que cada vez levanta mais dúvidas por todo o lado, e que foi um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes. Isto são águas passadas, dirão. É certo, mas tiveram direitos de autor e é bom que não nos esqueçamos de onde veio – do PS.


 


Entre excursões de norte a sul e com uma entronização em mais uma confraria – a semana passada foi a do porco bísaro – António José Seguro vai-se distanciando cada vez mais do cumprimento dos acordos que o PS assinou enquanto Governo. A sua táctica de oposição joga na amnésia dos eleitores e da negação do passado. Gostava, a talhe de foice, de recordar que a coligação PSD/PP, com todos os problemas que tem, está no poder há pouco mais de dois anos e que o PS esteve década e meia quase ininterruptamente a contribuir para o estado das coisas a que chegámos. A memória das gentes é curta e às vezes há que colocar uns lembretes. Este é um lembrete sobre o método de governação do PS e os resultados que obteve. Ficámos melhor do que estávamos no fim dos Governos Sócrates? O único programa que se conhece a  Seguro é acabar com a correcção dos erros cometidos no passado - até porque, se não houve erros, não é preciso corrigir nada... É um programa político aterrador.




(Publicado no diário Metro de 19 de Fevereiro)


 

fevereiro 15, 2013

As facturas, as cidades criativas, os falsos locais gourmet....

FACTURAS - Com C e sem acordo ortográfico - assim é menos politicamente correcto.
Vamos a factos: um comunicado do Ministério das Finanças, emitido quarta-feira para a Rádio Renascença, dizia que “a autoridade tributária está a actuar à saída de estabelecimentos comerciais e já instaurou diversos processos de contra-ordenação a consumidores que não pediram factura”. Os consumidores estão assim a ser transformados em polícias. A lógica do Estado é simples: ter polícias em todo o lado, fazer de cada cidadão um vigilante. A coisa é ainda mais apurada que no antigamente: há umas décadas atrás os funcionários públicos - mas só estes - podiam receber umas gratificações se denunciassem quem não tinha licença de uso de isqueiro. Agora todos são chamados a ter o seu quinhão na colecta de impostos. A melhor de todas as observações sobre este triste episódio que revela a natureza do Estado que este Governo quer, veio do Cão Azul, um fabricante de T shirts, com mensagens irónicas estampadas, que colocou no Facebook, esta observação: “As repartições de finanças não têm mãos a medir com a quantidade de contribuintes que hoje foram pedir a factura do BPN com medo de serem multados por falta de factura do dinheiro que gastaram na privatização do banco".

CRIAR - Gostava de recordar que no Reino Unido as indùstrias criativas dāo trabalho a milhāo e meio de pessoas, em mais de cem mil empresas, que atingem 41 mil milhōes de euros de facturação e asseguram  exportaçōes no valor de nove mil milhōes de euros. Em Londres, a seguir ao sector financeiro, o sector das indústrias criativas é o mais importante do ponto de vista de volume de negócios. Ali estão incluídos o design, a moda, a música, os filmes, as produções de televisão, a publicidade,  assim como diversas artes. Na Universidade de Londres, seis colégios são dedicados ao ensino de várias destas artes e ofícios e 40 por cento dos seus alunos são estrangeiros, oriundos de 91 países. Empresas do sector das tecnologias de informação,das telecomunicações e do turismo vão lá frequentemente recrutar talento. Em Março, no muito prestigiado e imperial Victoria & Albert Museum, inaugurará uma exposição dedicada a David Bowie, mostrando o seu papel e influência na alteração dos padrões de criação e consumo da cultura popular em várias áreas. E por cá, com tanta conversa sobre indústrias criativas, que se fez? Lisboa que tem para mostrar nesta área?

SEMANADA - António Costa e António José Seguro foram a Coimbra abraçar-se; Mário Soares e Manuel Alegre fizeram as pazes; António José Seguro escolheu para slogan a expressão “Portugal Primeiro”, a mesma que foi utilizada por Passos Coelho em 2012;  cada português gastou 259 euros em medicamentos em 2012, menos 11,7% que em 2011; Portugal aplicou apenas uma das 13 recomendações do Conselho da Europa para melhorar a incriminação de suspeitos e a transparência do financiamento partidário; a área ocupada pelo pinheiro bravo reduziu-se um terço nos últimos 15 anos; uma reportagem de um jornal diário relata que a crise está o provocar enchentes nos consultórios de bruxos e videntes; Portugal é o segundo país europeu com o preço mais baixo de um hamburguer Big Mac, logo a seguir à Estónia; as exportações para a China quase que duplicaram em 2012 em relação ao ano anterior; os países fora da União Europeia são responsáveis por 88% do crescimento de exportaçōes em 2012; no último ano os bancos portugueses cortaram 2350 postos de trabalho e fecharam mais de 150 balcões; os bancos portugueses têm cerca de 23 mil milhões de crédito malparado.

ARCO DA VELHA - A Câmara de Torres Vedras quer candidatar o carnaval da localidade a património da humanidade

VER -  Três sugestões de fotografia para esta semana. No Espaço BES Arte, no Marquês do Pombal, José Medeiros, um dos grande nomes da fotografia brasileira, propõe “O Rio É Uma Festa”, que pode ser visto até 4 de Abril. Na Kameraphoto (Rua da Vinha 43A, Bairro Alto) os brasileiros Fábio Messias, Gio Soifer, Maíra Ramos, Marco A.F. e Otávio Almeida apresentam “Tanto Mar”. E, na Cordoaria Nacional, até 23 de Março, Valter Vinagre apresenta o trabalho que desenvolveu com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) com o objectivo de retratar o universo das vítimas de crime em Portugal.


OUVIR- Rodrigo Amado é um dos mais interessantes músicos de jazz portugueses, com o atractivo suplementar de ter carreiras paralelas enquanto editor e produtor discográfico, crítico e, também, fotógrafo. Mas é o seu mais recente disco, “Live At Jazz Ao Centro”, que aqui merece destaque. O Motion Trio (Rodrigo Amado no saxofone, Miguel Mira no violoncelo, Gabriel Ferrandini na bateria) teve a participação do trombonista Jeb Bishop na actuação realizada no Festival “Jazz Ao Centro” de Maio de 2011, em Coimbra, e o resultado deste cruzamento é uma explosão de improvisação - no primeiro tema Rodrigo Amado e Bishop exploram os respectivos territórios e é o diálogo entre os dois músicos que acaba por ser o ponto alto nos outros dois temas, “Imaging Caverns” e “Red Halo”. É justo sublinhar o trabalho do baterista, permanentemente a servir de ponto de união entre as improvisções, e a sonoridade invulgar conseguida por Miguel Mira no violoncelo, nomeadamente na abertura de “Red Halo”.

FOLHEAR -   A "Aperture" é uma revista norte-americana, que se edita quatro vezes por ano, exclusivamente dedicada á fotografia. Existe graças à Aperture Foundation. que além de uma galeria, mantém uma actividade de edição de livros muito interessante e é ainda responsável por um curioso blog. Se acederam a www.aperture.org poderão ter uma ideia da extensão do projecto. A revista fez agora 60 anos e ao longo das décadas que existe tornou-se uma referência em termos de história e crítica da fotografia. Na ediçāo de Outono (a mais recente disponível na Amazon UK ) destaco um ensaio sobre a fotografia de guerra, um portfolio sobre comunidades rurais na Rússia e fotografias de publicidade na Vogue americana entre 1930 e 1950. Em apenas 80 páginas percorre-se um mundo de imagens.

PROVAR - Uma coisa que me enerva é a utilização abusiva da palavra gourmet aplicada à designação dos restaurantes.  Iludido pela palavra e por maus conselhos, caí um dia destes na Hamburgueria Gourmet, um estabelecimento localizado no 114 da Rua da Alfandega, já a chegar ao Terreiro do Paço. No princípio da refeição nada fazia prever o que aconteceu; a lista incluía promessas de haburgueres que incorporavam queijo da serra, presunto de Chaves e até copita de Barrancos. No entanto, e por estarmos em Lisboa, decidi experimentar o hamburguer Marrare, que imaginei homenagear o bife do mesmo nome criado por um cozinheiro italiano que andou por estas paragens no final do século XVIII. A receita original é simples, mas complicada demais para esta hamburgueria. Vou passar por cima do facto de a cerveja pedida ao mesmo tempo que o bife ter demorado mais de dez minutos a chegar e vou esquecer que estive 35 minutos à espera do tal hamburguer. Passemos à substância: o hamburguer tinha sido grelhado na chapa,  não tinha tempero que se saboreasse nem paladar que se percebesse. Derramava-se em cima de uma alface que entretanto recozeu, e tinha uns pedaços inusitados de tomate e cebola intercalados entre as duas fatias da carne ressequida. A apropriação indevida do nome Marrare vinha de uma tímida colherada de uma pasta, que teoricamente imitava o molho que deu nome ao bife, e que originalmente tinha a particularidade de ser o produto no qual a carne era cozinhada - e não minguamente baptizada, como neste caso. Em resumo, uma experiência a não repetir e que me faz desconfiar de algumas revistas que fazem listas dos melhores sítios para comer hamburgueres e colocam este local em lugar de destaque.

GOSTO - A revista literária Granta vai ter uma edição portuguesa dirigida por Carlos Vaz Marques.

NÂO GOSTO - Do regresso das obras de construçāo de novas rotundas a seis meses das próximas autárquicas.

BACK TO BASICS - Estar na política é parecido com ser treinador de futebol - tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de julgar que se é importante - Eugene McCarthy




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 15 de Fevereiro)

fevereiro 08, 2013

Sobre a prepotência e as preocupações da Europa

PREPOTÊNCIA - Já se sabe que os portugueses adoram ser treinadores de bancada e dar palpites. De certa forma esta é uma tradição que vem das conversas de café, onde à volta de uma mesa encontramos sábios para todos os gostos. Esta propensão para o palpite e para meter a foice em seara alheia é na maior parte das vezes um divertimento inocente e um escape para frustrações diversas, mas volta e meia ultrapassa os limites do ridículo, sobretudo quando é feito em instituições que deviam ser sérias. Os deputados da Assembleia da República, é conhecido, têm problemas de imagem - os eleitores acham, com razão, que o que se passa no Parlamento é muitas vezes absurdo e duvidam da eficácia do voto que levou os senhores ao hemiciclo. Há pouco tempo os deputados já tinham mostrado a sua apetência para se meterem nos meandros do audiovisual quando decretaram, em benefício próprio, um canal, não regulamentado, que à revelia dos processos instituídos se forçou na emissão da televisão digital terrestre. Não contentes com isso, resolveram brincar, na semana passada, a directores de programa de um canal generalista. Vai daí deliberaram a criação de um programa, a emitir pela RTP, dedicado à agricultura e que retome o espírito do antigo TV Rural. Isto tudo podia ser só cómico e absurdo, mas infelizmente é um retrato da prepotência que leva os deputados a imiscuírem-se onde não deviam interferir. Ontem um canal próprio, hoje um programa decretado - amanhã, o quê?

EUROPA - Esta semana li que Bruxelas está francamente preocupada com o bem estar dos suínos em Portugal - e não estou a falar do episódio do GNR a pontapear um porco no meio da estrada. Parece que as criações de suínos não obedecem a algumas normas de bem estar animal e, por via disso, uma série delas terão de ser desmanteladas e muitas, eventualmente, encerradas - mais ou menos o que aconteceu há uns meses com as galinhas poedeiras. Eu acho muito interessante que Bruxelas se preocupe desta maneira com as galinhas e com os porcos. Mas confesso que ficaria mais feliz se Bruxelas também se preocupasse, de facto, com o bem estar das pessoas, nomeadamente com os efeitos do encerramento de explorações pecuárias, fábricas e empresas no bem estar da população. Mas vejo imensas regulamentações sobre o conforto dos animais e vejo muito pouca coisa feita para garantir uma vida decente a quem perdeu o emprego e não consegue encontrar trabalho. Esta Europa, pelos vistos, está boa para os animais mas fraca para as pessoas.


SEMANADA - O número de licenciados desempregados já iguala o número de desempregados com apenas quatro anos de escolaridade; Durão Barroso fez-se fotografar, fazendo músculo e cara durona, ao lado de Arnold Schwarzenegger em Viena, numa iniciativa sobre política ambiental; encerrou a fábrica Steiff, em Oleiros, com 103 trabalhadores, que produzia mais de cem mil ursinhos de peluche por ano; a inovação em Portugal cai para níveis de 2010; um em cada três portugueses nunca usou a internet; a dívida das estradas de Portugal agravou-se em 320 milhões de euros em 2012; a previsão de receitas de portagens da Estradas de Portugal em 2012 era de 516 milhões de euros, mas só atingiu cerca de 270 milhões; a receita fiscal em 2012 ficou 670 milhões abaixo do previsto pelo Ministério das Finanças; a comissão parlamentar sobre a reforma do estado não conseguiu iniciar trabalhos; a PSP tem cinco mil processos disciplinares a correr contra agentes; o líder da UGT, João Proença, fez uma síntese terrível do balanço da concertação na área económica: “Álvaro não tem competências, Gaspar não está interessado e Passos não tem tempo”.

ARCO DA VELHA - A Lei que proibia mulheres de usarem calças em França, em vigor há dois séculos, foi abolida esta semana. A Ministra francesa dos Direitos da Mulher, Najat Vallaud-Belkacem, disse que legislação não era compatível com valores atuais do país. O absurdo é uma constante da Europa.

VER - A Bloco 103 é uma galeria recente, dirigida por Miguel Justino Alves, que fica na Rua Rodrigo da Fonseca 103, em frente da entrada principal do Hotel Ritz. É um espaço pequeno mas muito bem aproveitado e que tem mostrado obras e artistas interessantes. Há dias inaugurou uma exposição de duas artistas da nova geração, Ana Velez e Inês Norton, bem diferentes entre si. Ana Velez utiliza a pintura para explorar formas e mostrar volumes e Inês Norton serve-se da fotografia como matéria prima para estimular a imaginação. A exposição das duas vai estar até 8 de Março.

OUVIR- O novo disco de Brian Eno, o seu primeiro desde 2005, é um conjunto de sonoridades à base de teclados e cordas, dividido em quatro partes, muito semelhantes umas às outras,. A base deste trabalho foi uma instalação sonora que Eno fez para uma galeria de arte em Turim. O “The Guardian” dizia que este trabalho bem se podia chamar “Música Para Galerias”, evocando o título de uma clássica obra de Eno, “Música para Aeroportos”, de 1978. Já houve quem dissesse que este disco era o equivalente musical do movimento “slow food” - algo que se deve saborear num estado de quietude e fora do stress das corridas do dia-a-dia. Reconheço que tudo é feito com uma elegância suprema, que as poucas variações de ritmo ou intensidade são colocadas de forma rigorosa. Brian Eno, por estes dias, dedica-se a fazer aplicações para iPad que permitem aos seus utilizadores desenhar ambientes sonoros num estilo próximo do próprio Eno. Se Hockney baseou a sua última exposição em obras desenhadas com recurso so iPad, porque não imaginar que a máquina serve também para fazer esta música do novo tempo?. CD “Lux”, Brian Eno, Opal, na Amazon.


FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Vanity Fair” tem um artigo perfeitamente maravilhoso sobre os Chefs dedicados a menus de degustação que podem durar uma tarde inteira a serem percorridos. Adequadamente, o título do artigo sobre estes chefs sádicos é “Tirania - Este é o menu do jantar”.  Corby Kummer, um aclamado crítico gastronómico da revista “Atlantic” escreve na Vanity Fair uma das mais brilhantes descrições do exagero dos cozinheiros e dos menus degustação, sintetizando a coisa assim: há chefs que não têm qualquer interesse em cozinhar o que o cliente quer comer numa agradável refeição e que, em vez disso, fazem carreira a impôr os seus gostos aos outros. Eu, que não gosto de menus degustação e os acho insuportáveis, deliciei-me a ler esta meia dúzia de páginas.  Há outros temas de interesse nesta edição da Vanity Fair - por exemplo um a bela peça sobre as mulheres que, com a sua amizade e influência marcaram a vida de Gore Vidal. E, finalmente, uma muito oportuna e interessante nota de Hillary Clinton a evocar o que tem sido a importância da arte e dos artistas americanos na diplomacia dos Estados Unidos - uma boa lição para a Europa, por acaso.

PROVAR - Linda-A-Velha fica mesmo às portas de Lisboa e vale a pena ir lá, à Rua Rangel de Lima nº 2, para descobrir o restaurante Jacó. À frente dos destinos da casa, uma antiga taberna muito bem recuperada há uma dezena de anos, está um italiano, Cesare, e a sua mulher, Carla, angolana, que dirige a cozinha - bem portuguesa, aqui e ali com uns toques de tempero africano. Nos pratos do dia há sempre boas inspirações, como por exemplo ossos com couve lombarda, sopa da pedra, arrozada de ameijoas ou açorda de bacalhau, por exemplo. A ementa vai variando mas no site www.restaurantejaco.com pode ter uma ideia do que o espera em cada semana. Na ementa fixa tem propostas como caril de caranguejo á indiana ou umas tiras de novilho com batata da grelha que são deliciosas. A carta de vinhos é generosa e vale a pena reservar pelo telefone 21 419 52 98.

GOSTO - Da série de humor “Odisseia” na RTP 1, noites de domingo.

NÃO GOSTO - Da rede de apostas ilegais, que envolveu o futebol europeu ao mais alto nível.

BACK TO BASICS - Quase todas as pessoas conseguem enfrentar a adversidade, mas, se quiserem verdadeiramente testar o carácter de um homem, dêem-lhe poder - Lincoln




(Publicado no Jornalk de Negócios de  8 de Fevereiro)

fevereiro 05, 2013

ELEIÇÕES INDEPENDENTES

As próximas autárquicas podem ser um momento de viragem no regime de monopólio que os partidos têm exercido sobre a atividade política. Abundam os sinais de que os eleitores estão cada vez mais descontentes com um regime que vive de promessas, as quais depois não são cumpridas, sem qualquer consequência para quem as deixou cair uma vez obtidos os votos.




Para ultrapassar a boa intenção da Lei que estabelecia limites ao prolongamento de mandatos de autarcas, os partidos transformaram-se em placas giratórias de conveniência, que transportam os candidatos daqui para ali, apenas para os manterem no poder e satisfazerem os aparelhos partidários.




A possibilidade de, no Porto, surgir um candidato independente, que se sobrepõe às lógicas partidárias e se pode dispor a enfrentar os aparelhos partidários, apoiado por figuras de referência, é um sinal do mal-estar que começa a grassar entre muita gente.




Digo sem problemas que, neste momento, em Lisboa, não tenho em quem votar. Se surgisse algum candidato independente com um discurso de ruptura com os interesses instalados e que pensasse no desenvolvimento da cidade e do seu bem estar, não hesitaria em lhe dar o meu apoio. Um candidato que não fosse politicamente correcto mas tivesse a coragem de melhorar a cidade teria o meu voto.




Não me apetece votar numa eleição que está condenada a ser uma peça da disputa nacional e interna dos partidos, com dois candidatos que encaram a cidade como um meio e não um fim - António Costa no PS e Fernando Seara no PSD e PP. Os lisboetas merecem melhor que isto.


 


(Publicado no diário METRO de dia 5 de Janeiro)

fevereiro 01, 2013

QUÍMICOS; LARGO DO RATO, TVs, EUROPA E MAIS O RESTO...

DESCOBERTA - Uma equipa de investigadores químicos, especializados em pavimentos, vai entregar a António Costa um trunfo eleitoral, caso ele afinal decida recandidatar-se à Câmara de Lisboa: trata-se de uma fórmula especial de alcatrão, não solúvel, ao contrário daquele que tem sido utilizado na asfaltagem das ruas da capital. Com efeito depois das semanas de chuva verificadas recentemente constatou-se que em muitos locais se assistia a uma acelerada diluição do alcatrão e ao surgimento de crateras de diversas dimensões. Atenta ao interesse deste fenómeno em termos de atracção turística, a autarquia dedicou especial cuidado à criação de zonas de crateras na Avenida da Índia, já que é uma das artérias onde circulam mais turistas, no percurso ribeirinho para a Torre de Belém e Padrão dos Descobrimentos. Face ao interesse pelo percurso ziguezaguante a que alguns veículos são forçados pelas zonas onde o alcatrão se diluiu mais nas águas pluviais, o vereador das rotundas está já a estudar a adopção de percursos com obstáculos todo o ano, mesmo no verão. Os investigadores têm por isso receio que a sua descoberta possa ignorada pela Câmara de Lisboa, face ao interesse que esta tem manifestado na preservação - e alargamento - dos buracos no asfalto.

MANIFESTAÇÃO - Para assinalar a semana em que os vencimentos começaram a ser reduzidos graças aos novos descontos, o PS decidiu promover manifestações internas na sua sede nacional, no Largo do Rato, para assim poder exercer oposição construtiva sem prejudicar, através de outras formas de contestação, o esforço do executivo em aumentar as receitas fiscais. Esta coluna está em condições de assegurar que a intensa movimentação no Largo do Rato e arredores foi seguida minuto a minuto de Paris por uma nova aplicação de smartphones, um divertido jogo de estratégia intitulado “War of Socrates” que tem registado muitos  “downloads” nas semanas mais recentes.


T’VISÃO - Fontes próximas da Presidência do Conselho de Ministros consideram que deve ser criado um novo Grupo de Estudo do serviço público de televisão, que tenha por objectivo refazer o relatório entregue há cerca de um ano pelo grupo anterior - e que traçou o caminho que até aqui tem sido seguido pela tutela do caso da RTP. O êxito obtido nos objectivos definidos para a RTP graças a esse relatório é a principal causa apontada para a reactivação do Grupo de Estudo. No âmbito do processo de reestruturação em curso, esse Grupo contará agora com a colaboração de altos quadros da empresa, em substituição de elementos dissidentes que se distanciaram das linhas de orientação traçadas para esta área e que têm sido executadas ao milímetro.

EUROPA - Uma notícia inspiradora: nas próximas eleições europeias surgirá um partido transnacional, liderado por Gerard Depardieu, que tem por ponto único do seu programa a luta pelo fim da harmonização fiscal que, num intenso esforço de colaboração, os diversos Governos da Zona Euro têm conseguido implantar, ultrapassando as diferenças que durante tantos anos levaram à mudança de residência e de sedes de empresas de um Estado para outro em busca do desconto perfeito.


SEMANADA - Um fonte da direcção do PS afirmou à imprensa esperar “que António Costa deixe de ser anjinho”; “O mais escurinho”, eis como o líder da CGTP, Arménio Carlos, se referiu-se ao etíope Abebe Selassie, representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) na troika; as marcas próprias já valem um terço das vendas nos supermercados; as Finanças fizeram penhoras a mais de 471 mil salários em 2012, ou seja cerca de oito dezenas de penhoras por dia; as universidades privadas perderam 30% dos alunos na última década; mais de 40 funcionárias que efectuam limpezas na PSP do Porto estão com os salários em atraso; o eucalipto passou a ser a principal espécie florestal portuguesa; no primeiro mês do ano fecharam 62 salas de cinema em todo o país; a RTP foi autorizada a contrair uma dívida de 42 milhões de euros para financiar a sua reestruturação.

ARCO DA VELHA - Um video colocado no You Tube mostra um soldado da GNR a pontapear um porco, depois do despiste de um veículo pesado que transportava estes animais. A GNR anunciou que procura identificar o referido agente.

NAVEGAR  - Se gostam do trabalho de ilustradores, se o trabalho gráfico é alguma coisa que desperta a vossa atenção, não deixem de visitar regularmente o blogue “Almanaque Silva”, da responsabilidade de Jorge Silva, um dos nomes de referência no design gráfico português contemporâneo. Mas este blogue não é um catálogo das suas obras, antes um espelho do interesse de Jorge Silva pela história da ilustração portuguesa, um trabalho feito com afinco e persistência, com dedicação e muita paciência. Desde as colecções de ilustrações coleccionáveis dos jornais diários dos anos 60 até às ilustrações de livros infantis, tudo é mostrado e enquadrado, com as respectivas histórias bem contadas. Uma permanente descoberta fascinante que pode ser seguida em http://almanaquesilva.wordpress.com .

OUVIR- “Indio de Apartamento” é o nome do novo disco de Vinicius Cantuária, editado no final do ano passado. Cantor, compositor, guitarrista e percussionista, Vinicius Cantuária tem tido uma carreira fora dos focos da popularidade de outros músicos, bem menores que ele. De facto, Cantuária, é um talento raro - nas canções que faz, na forma de compôr, na simplicidade das suas letras, no minucioso trabalho de arranjos da secção ritmica. Ao longo da sua carreira já passou pelo rock, mas agora vive num território entre o jazz e a bossa nova, com um toque nova-iorquino. No disco colaboram nomes como Ryuichi Sakamoto, Norah Jones, Bill Frisell, Jesse Harris e Mário Laginha, entre outros. São dez temas originais de Vinicius Cantuária, uma rara colecção de belíssimas canções, envolventes como “Moça Feia”, “Humanos”, “Quem Sou Eu”, ou “Pé na Estrada”, e arrebatadoras como “Indio de Apartamento” ou “This Time”. Para mim este é o mais interessante dos últimos discos de Vinicius Cantuária, (CD Naive, no iTunes).

FOLHEAR - A primeira edição da “Monocle” em 2013 parece dedicada a Portugal - mas na realidade aplica-se que nem uma luva aos países que atravessam crises e é um bom manual de ideias para as pessoas que no meio deste ciclo depressivo procuram saídas, soluções ou uma ideia para mudarem de vida. O talento especial de Tyler Brulé é o de conseguir estar sempre um pouco à frente do que as pessoas procuram, sugerindo caminhos, arriscando ideias que podem parecer impossíveis ou utópicas mas que lá vão funcionado.  “Looking For Lands Of Opportunity - The How To Generation” são os títulos chave que marcam esta edição, onde se fala do que se pode fazer numa eleição local , na recuperação de uma marca, em muitos negócios - da edição ao cinema, passando por galerias. E um dos exemplos de criatividade é a cadeia de lojas “A Vida Portuguesa”. Os casos de sucesso relatados vêm acompanhados por um curto texto e por dicas que deram êxito à concretização de cada ideia. Mais uma edição a guardar.

PROVAR - Esta semana provei o meu primeiro sável frito do ano. Fatias muito fininhas, como devem ser, fritura no ponto, sem gordura a mais, estaladiça. A acompanhar, uma açorda no ponto, bem temperada. Sável frito é dos melhores petiscos que me podem oferecer nesta altura do ano e nem sempre ele está tão perfeito no corte e na fritura como neste caso. Por falar em época do ano, já chegou a lampreia, que costuma andar de braço dado com o sável nas ementas sazonais. A acompanhar o sável, veio um belíssimo branco Burmester. Tudo isto se passou num dos restaurantes emblemáticos da linha - Os Arcos, na sala virada para o mar, com um serviço atento e eficaz. O restaurante fica localizado na Rua Costa Pinto nº 43, em Paço de Arcos, e o telefone é o 214 433 374.

GOSTO - “Sem reforma do sistema político vejo com cepticismo uma reforma da Admistração Pública” - Campos e Cunha

NÂO GOSTO - Falha na Lei impede multas a autocarros sem cintos de segurança para passageiros

BACK TO BASICS - Os partidos políticos destinam-se a dar uma aparência sólida a uma ventania de palavras - George Orwell




(Publicado no Jornal de negócios de dia 1 de Fevereiro)

janeiro 29, 2013

UMA POLÍTICA CONFUSA

A paisagem política portuguesa tem momentos muito curiosos. No momento presente temos pela frente uma coligação no poder, que obteve a maioria nas eleições, que dispõe de confortável maioria parlamentar, e uma oposição que não se consegue fazer ouvir de forma eficaz, mesmo perante o cenário de austeridade, aumento de impostos e diminuição de rendimentos. Todos achariam que este poderia se o momento ideal para um líder da oposição dar nas vistas. Seria natural.




Mas o que acontece é que o líder natural da oposição, o secretário-geral do PS, anda aflito a conseguir afirmar-se dentro do seu próprio partido. A crise interna do PS é, no momento actual, maior que qualquer crise que possa existir na coligação, e isso é uma das curiosidade da política à portuguesa.




Reparemos nisto: é no momento em que o desconforto dos contribuintes se vai revelar mais – porque vão agora receber os seus vencimentos ou pensões com as novas tabelas – que dentro do PS começa uma desregrada luta pelo poder interno, ainda por cima com várias matizes: de um lado os que entendem que Seguro deve continuar, do outro os amigos de Sócrates que querem fazer já uma fogueira num próximo e rápido Congresso; e finalmente, tentando navegar entre os dois, António Costa que tenta equilibrar a sua participação nas próximas autárquicas com a sua vontade de um dia liderar o PS.




No campeonato nacional de tiros no pé não é só o PS a competir. Também o líder da CGTP, Arménio Carlos, alcançou esta semana posição de relevo ao classificar o chefe da missão do FMI, o etíope Abebe Selassié, como um  “escurinho “.  Ele há coisas…




(Publicado no Diário Metro)

janeiro 25, 2013

Sobre a semelhança entre a política e um concurso de misses

MISSES - Por estes dias li um comentário que me ficou no ouvido: se as eleições pudessem mudar alguma coisa, há muito teriam sido ilegalizadas. Quanto mais olho para o que se passa à volta, mais me convenço que este comentário está cheio de razão. Já aqui tenho dito isto várias vezes, mas um sistema político que se baseia na votação de promessas, que sistematicamente não são cumpridas pelos eleitos, e em que não existe nenhuma punição para além dos votos, é um sistema que facilita a desonestidade cívica. As eleições foram substituídas por uma espécie de concurso de popularidade, ou, se quiserem, uma disputa de misses. Só que em vez de misses desfilam políticos e, em vez de medidas tentadoras, há promessas enganadoras: “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”  - nunca o desabafo escrito por Eça de Queiroz em “A Relíquia” se aplicou de forma tão certeira aos partidos que temos e às políticas que fazem.

TPC - Portugal anda a ficar parecido com a China de há uns anos atrás - um país, dois regimes. Por cá o regime que Vitor Gaspar enaltece é diferente daquele que Álvaro Santos Pereira procura, e isso dá cada vez mais nas vistas. Esta semana, desdizendo tudo o que havia proclamado há poucas semanas, lá foi Gaspar ao reino de Bruxelas renegociar a dívida, montado, com abuso e fulgor, no regresso do país aos mercados - que pode vir a ser boa notícia. Se alguém tem que levar parabéns pelo tal regresso aos mercados são todos os que recebem menos, deixaram de ter trabalho ou pagam mais impostos para um Estado que, na essência, graças ao facilitismo gasparista, continua igual. Do trabalho de casa, o Governo só soube até agora conjugar bem o verbo tirar, ainda não conseguiu chegar à letra P, de poupar.


TV - A RTP anda num grande movimento de mudanças internas, fundindo ou extinguindo direcções, fazendo novas nomeações, mudando programas do norte para o sul e vice -versa, mesmo que por enquanto algumas mudanças sejam mais no papel que na realidade. Mas não vi ainda um movimento que seria o fundamental para um serviço público de televisão, com um papel estratégico no desenvolvimento da produção audiovisual: descontinuar a produção interna, passá-la para os produtores independentes. Continua sem existir uma reflexão orientadora e clara sobre a missão que a RTP deve desempenhar - mas lá se vão fazendo mudanças, exonerações e nomeações, mesmo sem saber exatamente o objectivo e o propósito.

SEMANADA - 2,6 mil milhões de euros foi o total pago em 2012 com o subsídio de desemprego; o número de casas entregues aos bancos baixou 21% em 2012; o mau tempo fez cair quatro árvores por minuto no sábado passado; PSP e GNR detêm uma média de 200 pessoas em cada mês por desobediência; António José Seguro diz que só com maioria absoluta será capaz de aplicar o seu programa; António Pires de Lima diz que António Costa está a provocar que António José Seguro tome “posições cada vez mais demagógicas e populistas”; António Capucho diz que “a confusão no Governo é total”; Passos Coelho diz que “ninguém aconselhou os portugueses a emigrarem”; o número de portugueses que emigrou em 2011 aumentou 85% em relação a 2010 e a faixa etária mais numerosa é a dos 25 aos 29 anos; as remessas dos emigrantes em 2012, efectuadas até Novembro, ultrapassaram os valores totais de 2009, 2010 e 2011;  55% dos reformados do Estado em 2012 têm menos de 60 anos; no ano passado, quase 28 mil negócios fecharam as portas e a criação de sociedades abrandou 11,6%.

ARCO DA VELHA - António José Seguro diz que “grande parte dos políticos portugueses está concentrada na trica e na intriga”.

FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Wallpaper”, já disponível, é dedicada aos prémios de design que a publicação atribui anualmente. Mas, apesar de ser indiscutivelmente interessante ver os premiados nas diversas categorias (livrarias, objectos, rebranding, lojas, utensílios e ideias diversas), o ponto alto da revista é um especial de duas dezenas de páginas dedicado à obra de Oscar Niemeyer - que foi uma presença repetida nas páginas da “Wallpaper” ao longo dos anos. Não se trata de uma homenagem vulgar - é um portfolio de fotografias da obra do arquiteto, feitas por Todd Eberle, um fotógrafo de arquitectura que seguiu com persistência e sensibilidade a obra de Niemeyer. Além de uma conversa com Eberle, a revista publica dezenas de fotografias,  a maior parte das quais inéditas, que são um documento precioso. Só por isso vale a pena dar os nove euros que custa a “Wallpaper”.


VER - "Chama Dupla" é o título da exposiçāo de Paulo Brighenti que inaugurou esta semana na Galeria Baginski (Rua Capitāo Leitāo 51-53, ao Beato). Brighenti, um lisboeta que expōe regularmente desde meados da década de 90, ocupa as duas grandes salas da galeria com trabalhos onde explora a natureza da côr e a maneira como as suas variaçōes podem afectar a evocaçāo das paisagens que retrata. A técnica que utiliza privilegia a referência à memória, em detrimento da reproduçāo da realidade e, como se vê nas pequenas aguarelas que sāo o estudo das pinturas, o método é seguido desde o início da concepçāo de cada obra. O resultado é emocionante, e esta capacidade de transmitir sentimentos é o ponto marcante desta nova exposiçāo na Baginski

OUVIR- Numa época em que se tornou hábito as estrelas pop revisitarem repertórios alheios, o mais recente disco de Brian Feery é baseado num conceito surpreendente: em vez de revistar obra de terceiros, Ferry propōe temas de várias épocas da sua carreira, com os Roxy Music ou a solo, mas baseado na sonoridade do jazz dos anos 20 e 30 e com influências claras do tipo de arranjo que era praticado por Duke Ellington ou preferido por Louis Armstrong. No disco, Brian Ferry não canta - os 13 temas, de “Do The Strand” a “Virginia Plain”, passando por “Avalon”, “ Slave To Love”, “The Bogus Man”  ou “Don’t Stop The Dance”, são apenas instrumentais, muito transfigurados em relaçāo aos originais, e ganham aqui uma nova dimensão - surpreendente e que dá que pensar sobre a forma como Ferry incorporou, desde o início dos Roxy Music, o que se sabia serem as suas referências e influências. A direcção musical é de Colin Good, que já tinha sido, com Ferry, o responsável pelos arranjos no disco de interpretações de standards “As Time Goes By”. É muito estimulante que ao fim de todos este anos Bryan Ferry continue a ser capaz de surpreender, como faz com este “The Jazz Age”. (CD BMG na Amazon).

PROVAR - As cafetarias são uma espécie de pastelarias modernas, um pouco mais básicas, mas com os seus encantos. Perto do Saldanha, a um escasso quarteirão da Versailles, nasceu a a Choupana Caffé, um conceito engraçado que junta uma cafetaria, padaria,  pastelaria de fabrico próprio, um balcão de iogurtes e aquilo a que com imaginação chamam mercearia. Entre as sete da manhã e as oito da noite, todos os dias da semana, pode-se ali petiscar - e aos fins de semana os seus brunch estão a ganhar boa reputação. Durante a semana, ao almoço, é vulgar ver-se gente à espera de uma mesa. Um dia destes provei lá um honestíssimo bagel com queijo philadélfia, alcaparras e rúcula, precedido de uma boa sopa de espinafres - acompanhado por água e finalizado por um café e um pastel de nata - a coisa andou pelos dez euros. Os scones, os croissants, as panquecas com nutella ou os iogurtes biológicos com cereais, frutos secos e mel são já êxitos da casa. Espero que com o tempo o serviço melhore - não é por falta de empregados, andam é todos a correr de um lado para o outro e a fazer as mesmas coisas. No espaço, logo à entrada, existe uma zona de venda de produtos, desde vinhos a azeites, passando por compotas (tem uma de figo que ainda hei-de provar...) e biscoitos a peso - a tal mercearia. A Choupana fica na Avenida da República 25 A e o telefone é o 213 570 140.


GOSTO - Em 2012 a Amazon vendeu 114 ebooks por cada 100 livros impressos.


NÂO GOSTO - Do espalhafato à volta de uma conversa telefónica entre Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Soares


BACK TO BASICS - “Vi mais do que aquilo de que me recordo , lembro-me de coisas para além do que vi” - Benjamim Disraeli




(Publicado no Jornal de Negócios de 25 de Janeiro)



janeiro 22, 2013

O FIM DA METEOROLOGIA, OU A QUESTÃO DOS NOMES SEM SENTIDO


Um dos fenómenos que me intriga é a mudança de nomes tradicionais de organismos do Estado. Alguns eram boas marcas, fáceis de memorizar e directamente relacionados com a actividade. Não havia que enganar.Quando se queria saber o estado do tempo ía-se à metereologia e o caso ficava arrumado.



A designação foi popularizada durante anos em apontamentos de previsão metereológica na televisão, na rádio e nos jornais. Técnicos do Instituto de Meteorologia tornaram-se até figuras populares, e respeitadas, graças à televisão.



Pois no ano passado o Instituto de Meteorologia e Geofísica foi transformado em Instituto Português do Mar e da Atmosfera - IPMA. Dificilmente se encontraria um nome tão pomposamente gongórico como este, tão anormal em termos de objecto e de comunicação. E a mudança é coisa para ter custado uns cobres aos contribuintes...



Mas o mais curioso é percorrer os nomes de duas dezenas e meia de instituições europeias semelhantes e descobrir que apenas a nóvel instituição portuguesa omite da sua nomenclatura a palavra meteorologia ou suas abreviaturas. A criatividade dos nossos burocratas não pára de me surpreender. Tornámo-nos assim verdadeiramente um país percursor que faz da meteorologia uma ciência tão oculta que até o seu nome é escondido da designação.



Isto pode parecer um preciosismo, mas não é. O nome das instituições deve ser claro sobre elas e a sua missão, deve ser amigável e claro para os utilizadores, confortável e conveniente para nacionais e estrangeiros. Tudo o que a bizantina designmação IPMA não é.




(Publicado no diário Metro de 22 de Janeiro)

janeiro 18, 2013

INTENSO TIROTEIO NO SEIO DO PODER, PERGUNTAS E DESABAFOS

TIROTEIO - Ouvi dizer que o PSD está no Governo, mas há dias em que, quando abro os jornais, acho que estará na oposição- todas as semanas há um novo episódio  daquela fantástica história “Eu gosto de dar tiros nos pés”. A coisa é de tal forma que já existem guionistas e produtores a prepararem uma série de ficção para o serviço público com o título “Sapatos furados deixam entrar água”. Por causa disso mesmo um dos pontos fortes da reindustrialização, ultimamente muito acarinhada, é a construção de uma fábrica de sapatos à prova de bala.  Os primeiros protótipos estão já em ensaio na Presidência do Conselho de Ministros e no Ministério das Finanças. Estes sapatos blindados serão distribuídos a membros do governo, seus assessores de comunicação, líderes da oposição, deputados e membros seleccionados dos gabinetes governamentais e de algumas autarquias - António Costa já manifestou também intenção em oferecer um par ao vereador Nunes da Silva e consta que antes de ir para o Largo do Rato enviará uns ao seu amigo José Lello (que aliás já tinha pedido uns para António José Seguro). Os sapatos saídos desta nova indústria serão também resistentes ao efeito de ricochete ocorrido esta semana na conferência do silêncio, perdão,  “Pensar o Futuro”. Existirão vários modelos destes sapatos à prova de bala, para homem e senhora. Está em estudo também um modelo de sapatos de corrida, blindados, que será oferecido a José Sócrates no seu próximo período de férias escolares em Portugal, e o modelo de havainas com blindagem transparente, para os políticos que gostam do verão brasileiro, também deverá ser disponibilizado em breve.

SEMANADA - O Banco de Portugal previu o desaparecimento de 88.500 postos de trabalho este ano; há 34 mil pedidos de reforma pendentes na Função Pública, dos quais 25 mil são de reformas antecipadas; um inquérito recente mostra que 49% dos portugueses não conseguem poupar para a reforma; no quarto trimestre de 2012 a economia alemã registou uma contracção de 0,5% devido ao abrandamento considerável na actividade económica dos parceiros europeus; as salas de cinema portuguesas perderam 8% de receitas em 2012 e registaram menos 12,3% de espectadores que no ano anterior; os novos escalões do IRS provocam diminuição dos rendimentos a perto de 300.000 lares; o Primeiro Ministro prometeu um “alívio fiscal permanente” na mesma semana em que foram publicadas as tabelas de retenção do IRS, com os maiores valores de sempre; 10,5% dos portugueses têm falta de interesse sexual, sendo o grupo etário mais afectado o dos 30 aos 39 anos (mais de 24%), e o cansaço e o stress são as principais causas apontadas.

ARCO DA VELHA - Em Lisboa há cada vez mais lugares vagos no estacionamento mas o Presidente da Câmara conseguiu observar que existem mais viaturas em circulação - que devem andar em movimento contínuo e nunca estacionam, provavelmente com medo das tarifas da EMEL.

VER - Enquanto não começa o novo ciclo de exposições, dedico-me a ver fotografia num dos melhores sítios que conheço para o efeito. Chama-se ASX e pode ser localizado em www.americansuburbx.com. Aí pode encontrar uma diversidade de notícias, portfolios e ensaios sobre fotógrafos e a fotografia. Há uma e-newsletter diária, que recebo há uns meses, cuja visualização é sempre um dos pontos altos do meu dia.  A diversidade de material disponível é impressionante, e vai desde obras recentes de Eggleston até revisitaçlões de trabalhos de Nan Goldin ou de Ralph Eugene Meatyard. Cá pelo burgo tenho curiosidade em ver as “Casas Vazias”, de Filipe Condado, que inaugura no fim do mês na Sala do Veado (rua da Escola Politécnica) e cujas amostras já publicadas no Facebook são muito curiosas. E, já agora, a curiosidade também existe em relação à exposição “O Rio É Uma Festa”, do fotógrafo brasileiro José Medeiros, que abre por estes dias no espaço BES Arte & Finança, no maltratado Marquês do Pombal.

PROVAR - Hoje vou falar de um restaurante de que gostava muito, o Gemelli, por cima do Mercado de S. bento, frente à Assembleia da República. Pois o Gemelli fechou portas e o seu proprietário, o chef Augusto Gemelli, explicou Domingo passado no Facebook as razões que o levaram a fechar aquele que para mim era o melhor restaurante italiano da cidade, a milhas de todos os outros. Ficam aqui as suas palavras, que eu tomo a liberdade de dedicar aos deputados, que no palacete frente ao local do restaurante, consentem este estado de coisas. “Sem querer alegar desculpas, quero só dizer que a pressão exercida desde o ano 2008 sobre a indústria da restauração e o mundo do turismo no geral chegou a um ponto limite insuportável e o reflexo disto é a autêntica razia que está a levar ao encerramento de tantos restaurantes de bom nível, em todo o país. Nós também temos as nossas culpas e sem dúvida fizemos alguns erros de gestão, mas em situações complicadas, às vezes é difícil tomar a decisão certa. Quando o negócio começou a entrar em crise, nunca fiquei à espera passivamente e sempre tentei modificar a minha proposta como restaurante com o objetivo de continuar a dar-vos a melhor qualidade possível, mas agora que já não consigo fazer isto mais, tomei a decisão de fechar as portas.”

OUVIR - Maria Rita anda há uma década a construir uma carreira graças ao seu talento - mesmo que a semelhança das vozes evoque sempre a sua mãe, Elis Regina. Ao fim destes dez anos, Maria Rita resolveu dar o passo que faltava - perder o medo de cantar as canções que tornaram célebre Elis. Para isso montou um espectáculo, “Redescobrir”, que fez digressão no Brasil, foi gravado e depois editado em duplo CD, com 28 temas clássicos (existe também um DVD). O jornal brasileiro “Globo” fez a descrição exacta deste “Redescobrir” : “Elis está sempre com ela, no seu timbre, nos arranjos e interpretações que, a despeito de serem efectivamente novos, remetem às gravações clássicas da mãe. Há um desejo consciente de humildade e de adequação ao projeto-tributo, mas que tira um tanto das possibilidades artísticas do show.”.

FOLHEAR - Como é costume a “Monocle” fez uma edição especial em meados de Dezembro, em formato de jornal, dedicada ao inverno.  Este ano tive a bela surpresa de receber uma assinatura da revista como prenda de Natal, e isso é a garantia de que aqui continuarei a falar de uma publicação que me fascina desde o início, faz em Fevereiro sete anos. A revista de Tyler Brulé dedica uma atenção especial à evolução das tendências de vida e tem um fascínio pelas cidades, mas também pela manutenção das tradições. Nesta edição especial “Monocle-Alpine” há um artigo que eu verdadeiramente gostava que fosse lido por alguns dos obreiros das nossas desgraças económicas. O artigo fala da recuperação da Islândia, depois do colapso de 2008, uma recuperação baseada em pequenos negócios focados nas comunidades onde estão inseridos, recuperando postos de trabalho e dinamizando a economia. A revista tem feito reportagens regulares sobre a evolução da Islândia depois do colapso dos seus três maiores bancos, e tem seguido algumas pessoas que têm tentado dar a volta à vida. Uma delas, de que esta reportagem fala, era concessionário de boas marcas automóveis até 2008, ano em que o seu negócio se tornou redundante; depois dedicou-se a uma pequena empresa de serviços na área do turismo, que acabou por se especializar no apoio à produção audiovisual internacional, que, graças aos incentivos fiscais, está a ir para a ilha. De concessionário falido até interlocutor de Ridley Scott, como foi o caso recente, vai um belo passo. A reportagem tem outros bons exemplos de pessoas que mudaram de vida e criaram coisas novas - como um arquitecto que agora se dedica a vender bicicletas que ele próprio transforma e personaliza. Sem financiamentos do Estado mas com uma fiscalidade que ajuda quem começa um negócio.

PERGUNTINHA - Costa vai ficar a inventar mais rotundas ou segue direito para o Largo do Rato?

GOSTO - De ser rectificado o trânsito na faixa central da Avenida, voltando ao que era antes do caos Costista;

NÃO GOSTO - Da persistente teimosia do caos Costista nas rotundas do Marquês;

BACK TO BASICS - “Aqueles que não se conseguem disciplinar a si próprios,
depressa encontrarão alguém que o faça por eles.” - Friedrich Nietzsche

janeiro 15, 2013

QUERO, POSSO E MANDO

O Governo anda há 18 meses a desbaratar tempo. Em vez de ter logo começado, em Junho de 2011, a trabalhar na reforma do Estado, foi deixando sempre isso para segundo plano; preferiu ir aumentando os impostos, com os resultados que se conhecem, e que não são bons – nem mesmo a nível da receita fiscal, que não é a esperada.


 


Pelo caminho dificultou a vida às pequenas empresas – muitas tiveram que fechar, outras vêem-se aflitas para conseguirem cumprir tudo o que lhes é obrigado. Pelo meio encerram estabelecimentos, cria-se mais desemprego, numa cascata que agrava a situação económica em que vivemos.


 


O Governo, em vez de ir analisando onde e como cortar no Estado, deixou o assunto para o fim. Não negociou cortes de boa fé com os parceiros sociais, habituou-se a anunciar medidas pela comunicação social, em vez de as debater e consensualizar primeiro. Para os devidos efeitos práticos é como se agisse segundo o princípio do “Quero, posso e mando”, sem atender às consequências dos seus atos.


 


O triste espetáculo da semana passada, em que os ministros se contradisseram sobre o relatório do FMI, e a forma como finalmente foi apresentado, são fatais. Se quisessem boicotar qualquer mudança séria do Estado, não fariam melhor.


 


A reforma do Estado tem que se fazer. Tem que perder peso, regimes de exceção e ganhar racionalidade. Não vale a pena querer negá-lo, como faz o PS; nem vale a pena querer faze-lo de qualquer maneira, como o Governo tem evidenciado. Cada vez mais se percebe que lidar com a realidade é um problema para o Governo, mas também para o PS - por razões distintas, mas o resultado é o mesmo.


 


(Publicado no diário Metro de 15 de Janeiro)

janeiro 11, 2013

A POLÍTICA, A FANTASIA, SUGESTÕES AVULSAS

POLÍTICA - O expediente é conhecido: quando uma administração de uma empresa quer tomar uma decisão, que já sabe poder provocar rupturas, pede a uns consultores para analisarem a situação a seu contento. E, depois, anuncia que os sábios opinaram naquele sentido e lamenta dizer que, para garantir a sobrevivência, o único caminho é aquele.  Isto foi o que o Governo fez com os consultores do FMI - lêem-se os agradecimentos do estudo e percebe-se como saíu este resultado. Não é uma surpresa: quando Passos Coelho anunciou a refundação do memorando, no início de Novembro, era dos preliminares deste estudo que falava, como agora se percebe.
O Estado tem que ser cortado - isso já se sabe. Mas sendo assim, porque é que o Governo de Passos Coelho, que tomou posse a 21 de Junho de 2011, durante um ano e meio nada fez para diminuir o peso do Estado? O curioso é que, quando se lê o estudo do FMI, não se encontram novidades na análise da situação. Para fazer isto, bem podiam ter feito logo o serviço em 2011 - mas isso era desagradável, porque Passos Coelho tinha ganho as eleições com um programa onde não falava em nada disto e tinha escrito um livro, “Mudar”, editado há precisamente três  anos,  onde o cenário agora traçado não se vislumbrava.
Ninguém se pode queixar de falta de informação. Em 2005, Miguel Cadilhe, num artigo no “Expresso”, explicava como a reforma do sistema remuneratório da função  pública, implementada no final dos anos 80 por influência directa de Cavaco, era responsável pelo crescimento do défice das contas do Estado. Segundo o historiador António José Telo, na sua “História Contemporânea”, o lema central do cavaquismo era "Menos Estado, Melhor Estado" - mas a realidade foi completamente diferente: Cavaco aumentou os funcionários em salário e em número, e criou um monstro despesista que foi continuado por António Guterres.  Desde 1985, ano em que chegou ao governo, até 1995, no terceiro e último executivo de Cavaco Silva, os funcionários públicos passaram de 464.321 para 639.044, um crescimento de 174.723 funcionários em dez anos -  87 mil por legislatura, mais do que os 75 mil de Guterres (os números são da Pordata). Como tudo isto já era conhecido, o relatório do FMI foi largado na velha táctica política de atirar o barro à parede. Diz-se o pior cenário possível, para depois qualquer recuo dar a sensação de uma vitória aos seus opositores. Não deixa de ser curioso notar que este atirar de barro à parede é feito no dia a seguir ao discurso optimista de Passos Coelho sobre o QREN, por acaso também no dia a seguir a Paulo Portas ter constatado  que “há sintomas de desalento e desânimo da sociedade que é preciso contrariar com sensibilidade”. A sensibilidade viu-se - e o mínimo que se pode dizer é que de certeza esta não é a melhor forma de começar uma discussão séria sobre a redução do peso do Estado - que de facto é necessária. Temos vivido numa ilusão, e querem dar-nos outra. Um país, por muito que tenha que ser bem gerido, não é exatamente uma empresa. José Adelino Maltez fez notar que o relatório do FMI apenas numa única nota de pé de página utiliza a expressão “democracia”. E não usa as palavras “justiça”, “nação” ou “igualdade”, já para nem mencionar “liberdade”. Isto traz-nos à questão de fundo: temos que reduzir o peso do Estado, mas temos que o fazer dentro dos mecanismos do regime em que vivemos. Quem se mete na política tem que conhecer as suas regras.

SEMANADA - Os transportes públicos de Lisboa registaram uma quebra de 25% de utilizadores; nas autoestradas portuguesas circulam menos 245.000 carros por dia que há um ano; a Segurança Social registou um défice de 857 milhões em 2012; a receita fiscal continua muito abaixo das previsões;  o Presidente da Republica enviou o Orçamento para o Tribunal Constitucional; o PS mandou o Orçamento ao Tribunal Constitucional; o Bloco de Esquerda, os Verdes e o PC deixaram o Orçamento no Tribunal Constitucional; o Provedor de Justiça entregou o Orçamento ao Tribunal Constitucional; o Secretário de Estado do Orçamento fez uma declaração a avisar o Tribunal Constitucional dos perigos em que pode incorrer se rejeitar o Orçamento; Vital Moreira escreveu no seu blog que o Orçamento, na sua opinião, não é inconstitucional; a taxa de desemprego em Portugal é de 16,3% e a média da União Europeia é 10,7%; a taxa de desemprego entre os jovens com menos de 25 anos é de 38,7%; as Presidenciais são em 2016 e Guterres regressou a funções em Portugal, no Conselho de Administração da Gulbenkian.

ARCO DA VELHA - Josualdo Ferreira é o quarto treinador do Sporting nesta época em que o clube, em sete jogos, leva apenas duas vitórias na Liga. Traduzindo por miúdos: treinadores - 4; Sporting - 2.

OUVIR - Gosto muito de ouvir discos só de guitarra e “Mel Azul”, de Norberto Lobo, é uma bela descoberta. Não é fundamentalista, é arriscado, oscila de ritmos e influências, passa dos sos de Lisboa para os de África, os tropicais ou os blues com à vontade e sem visrtuosismos de pacotilha. É garantidamente um belo trabalho - dá prazer a ouvir e percebe-se ter sido feito com igual prazer e empenho.

VER - Alguns livros, como os que mostram obras de fotografia, são uma espécie de exposições portáteis, que podemos revisitar em casa quando apetece. “A Cortina dos Dias”, de Alfredo Cunha, é um desses livros. Mostra imagens do foto-jornalista Alfredo Cunha, feitas entre 1970 e 2012 e é uma espécie de compêndio visual da História recente de Portugal. Alfredo Cunha foi testemunha de excepção de muitos dos momentos  marcantes das últimas quatro décadas - primeiro no “Século”, depois nas agências noticiosas, mais tarde no Público, na Visão e no Jornal de Notícias, para além de uma passagem como fotógrafo oficial dos Presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. No prefácio do livro, João Silva, fotojornalista do new York Times, cita Richard Avedon: “Todas as fotografas são verdadeiras. nenhuma delas é a verdade”. As centenas de imagens deste livro são a preto e branco - como eram impressos muitos dos jornais e revistas onde originalmente foram publicadas. Alfredo Cunha tem uma maneira de ver - não se limita a registar. E é precisamente a existência desta maneira de ver que faz dele um dos grandes foto-jornalistas portugueses.

FOLHEAR - “Debaixo das Tílias” é o segundo volume das poesias de Henrique Segurado, de 1990 a 2010. Há um ano tinha surgido o primeiro volume, que ía de 1969 a 1989 e tinha por título “Almocreve das Palavras”. À semelhança do primeiro volume este tem também ilustrações de Rui Sanches, mas há uma clivagem entre os dois - fruto das épocas e dos momentos de escrita, fruto das diferenças dos tempos e situações. São poesias do quotidiano, um bloco notas de emoções, como um diário que se vai espalhando por folhas soltas.

PROVAR - Durante alguns anos habituei-me, por facilidade logística e genuíno prazer, a almoçar no Cervejanário, um restaurante situado no passeio de Neptuno, loja 9 e 10, em frente à marina da Expo. Além de bifes diversos, a casa fazia jus ao nome com uma boa colecção de cervejas de várias geografias e com uma cozinha portuguesa que tinha sempre bons pratos do dia. Há pouco tempo Joaquim Amaral Marques, o fundador, um homem com história na televisão, passou o testemunho a Carlos Rodrigues. O novo responsável optou por não mexer no que estava a funcionar bem. A casa usa boa matéria prima e a confecção é cuidada - como um polvo à lagareiro atestou um destes dias. Outros pratos usuais são salsichas frescas com couve lombarda, bacalhau à Braz, arroz de polvo.  A garrafeira tem preços sensatos e além disso o serviço é atento e expedito, mesmo quando existe um grupo grande na sala, como era o caso. Gozando de uma localização privilegiada, junto ao rio, com vista directa para a marina, o local é ideal para espairecer ideias a meio de um dia de trabalho ou para juntar amigos ao fim de semana.  Aberto sempre para almoços, e para jantares mediante marcação prévia, o Cervejanário às vezes mostra os seus pratos do dia no Facebook e pode ser contactado pelo telefone 218 946 044.

GOSTO - Do video do tema “Incomplete”, com Rodrigo Leão e Scott Matthew.

NÃO GOSTO - Do video “Lisbon Soul Of The World” que pretende apresentar a cidade como destino ideal para a instalação de criadores e de indústrias criativas.

BACK TO BASICS- «O que é ilegal faz-se rapidamente; o que é inconstitucional leva um bocadinho mais de tempo»  - Henry Kissinger

janeiro 08, 2013

UMA ESTRADA DESCONHECIDA

Poucas alturas do ano têm tantas mensagens como esta. O Natal, o novo ano e até o Dia de Reis (pelas Janeiras), são pretexto para declarações diversas. Nas últimas semanas assistimos a um verdadeiro ping-pong de palavras entre o Presidente da República, o Primeiro Ministro, o líder da oposição e até alguns ministros e secretários de Estado. O tema andou sempre entre o Orçamento de Estado, o futuro próximo, o prazo de permanência da troika e todo o pano de fundo que conhecemos – privatizações, as novas nacionalizações, a falta de rumo e a incógnita cada vez maior que nos cerca.


 


Não quero parecer pessimista, mas por estes dias, cada vez que ouvia um dos nossos distintos políticos a falar, só me lembrava de uma canção dos Talking Heads, chamada “Road To Nowhere” e que rezava assim:


“They can tell you what to do


But they’ll make a fool of you


And it’s all right baby, baby it’s allright


We’re on a road to nowhere.”


 


O problema é este mesmo: é raro o dia em que não sentimos que o caminho que está a ser trilhado não tem direcção nem destino e é muitas vezes contraditório.


 


Por exemplo, percebo o que leva o Governo a prestar apoio a Bancos – mas são de qualquer forma um apoio a empresas privadas. E choca-me que ao mesmo tempo que apoia umas empresas privadas, dificulte tanto a vida a tantas outras – em tantos sectores. Às vezes, para apoiar tantos sectores produtivos, e geradores de emprego e de actividade, nem era preciso financiá-los, como à Banca – bastava que o seu dia a dia fiscal fosse mais leve, que existissem incentivos em vez de constrangimentos, que o Estado fosse menos tirânico.


 


Este país está a viver a dois pesos e a duas medidas. E é esse o caminho seguro para um beco sem saída.


 


(Publicado no diário Metro de 8 de Janeiro)

janeiro 04, 2013

O FUTURO, ORTOGRAFIA, AQUILO & SUGESTÕES AVULSAS

FUTURO - Esta primeira “Esquina” de 2013 é dedicada ao futuro. A primeira coisa que me ocorre dizer é que, de certeza, isto não vai ser pêra doce; a segunda, é que o futuro se vai fazer com algumas coisas do passado e muito poucas do presente - e isto também se aplica ao Sporting...; e a terceira é que ou mudamos de método, de protagonistas e de funcionamento, ou o nosso futuro vai ser mesmo amargo. Começo a estar um pouco farto de aprendizes de políticos que utilizam a palavra “colossal” em discursos, como se estivessem a resolver apenas um problema de palavras cruzadas. Para seguir com a linha de palavreado como colossal, eu gostava de dizer que tenho um titânico desprezo pelos falhanços descomunais das previsões, além de um gigantesco desagrado pelas manifestações de hercúleo desrespeito das promessas eleitorais. As eleições, que, permito-me recordar, regressarão neste ano, são, recorrentemente, uma barrigada de promessas. Acontece que estas barrigadas têm sido avassaladoramente indigestas nos últimos anos. O cúmulo é que neste Natal não houve sequer sonhos para provar: umas rabanadas...., e basta. O futuro é pensar quanto custa um mau Governo e ver se descubro porque é que a factura cai em cima de mim e não deles. Estar no Governo, quer-me parecer,  é a única situação em que quem cava o buraco consegue evitar cair nele e escapar-se a tapá-lo. O meu desejo é que o sistema mude, que os partidos mudem e que os políticos de serviço se reformem - compulsivamente, de preferência. E quando se reformarem, que fiquem caladinhos por favor para não fazerem a triste figura dos seus antecessores.

ESCREVER - Desde há uns meses ando a ver se aprendo a escrever de acordo com as novas regras. E, sinceramente, já não tenho idade para tanta imposição nova. Ainda se fossem regras  lógicas, podia entender - mas, absurdas como são, só me fazem desprezar ainda mais quem as criou. Foi com um sorriso, confesso, que esta semana dei por mim a abençoar as autoridades brasileiras que tiveram o bom senso de dizer o óbvio - que o novo acordo ortográfico tresanda a asneira e vai ter que esperar para ser aplicado. É assim como que uma imensa bofetada de luva branca, tão grande que atravessou o Atlântico. Já não sou crédulo que chegue para imaginar que quem nos governa se preocupe com estas minudências do idioma ou da gramática. Mas gostava que ao menos não aplicassem à língua portuguesa o que estão a fazer a Portugal, que é deixá-lo cair aos poucos.

AQUILO - Prometi a mim mesmo que não iria escrever sobre aquilo. O tabu anunciado. Isso. A mensagem na véspera do anúncio. A decisão na véspera da revelação. A maneira de dizer e não dizer. A forma de não fazer, fazendo. O estilo de deixar correr sem remorsos.  

SEMANADA - Em 2012, venderam-se menos de 100 mil ligeiros de passageiros novos, o que não acontecia desde 1985; o custo potencial das dúvidas constitucionais colocadas pelo Presidente da República rondará os 1,7 mil milhões de euros, mais ou menos 0,7% do PIB; Estão a ser declaradas 52 falências judiciais por dia; registaram-se 30 casos graves provocados por drogas legais em dois meses; segundo o INE, em 2011, os jornais diários registaram menos cinco títulos e os não diários menos 152, enquanto as revistas perderam 162 títulos; na área da cultura, o Instituto Nacional de Estatística regista a diminuição de 5,2% do número de espectadores no cinema em 2011, relativamente a 2010; no mesmo período o número de sessões aumentou ligeiramente (0,1%); entre 2005 e 2011, o número médio de espectadores que assistiram a espectáculos ao vivo baixou 11,2%; existem perto de cinco milhões de emigrantes portugueses espalhados pelo mundo;
em 2011 saíram cem mil emigrantes e o destino mais procurado foi Angola, seguido do Reino Unido, França e Suiça ;  o Brasil veio no fim da lista. a par com a Holanda.

ARCO DA VELHA - “Balas & Bolinhos” foi o filme português mais visto em 2012, com 255 548 espectadores, seguido de “Morangos com Açucar” com 236 856, enquanto o “Consul de Bordéus” registou 50 740, as “Linhas de Wellington” conseguiu 49 343 e “Florbela” ficou-se nos 40 875.

VER - Uma maneira fácil de ir seguindo boa fotografia é ver o site do British Journal Of Photography. Apesar da solenidade do nome, e do peso histórico que carrega, o conteúdo é bem contemporâneo, a atenção à evolução da forma e da técnica é constante, e a maneira como são mostrados novos talentos e obras consagradas é assinalável. A revista em papel é luxuosa, o site é dinâmico e a aplicação para iPad funciona bem. Mas nada seria relevante se a dedicação à fotografia não fosse tão exemplar como de facto é.

OUVIR - Não usei muitas vezes a expressão “the next big thing” referindo-me à música. Mas desde que ouvi um disco chamado “Manuel Fúria contempla os Lírios do Campo” que ela não me sai da cabeça. Manuel Fúria é o nome do homem de sete instrumentos que fez este disco, estas nove músicas. Soube ouvir, sabe pensar e sabe fazer. E sabe escrever canções que se podiam dizer vestidas de metralhadora - tiros em rajada, certeiros, com palavras que ficam. Eu gosto disto e é um belo começo para a música portuguesa em 2012.

FOLHEAR - Volta e meia regresso à “Wallpaper” e a edição deJaneiro é precisamente dedicada ao futuro - e registo, contente, que um dos locais recomendados é a Miss’Opo, uma guest house, ou casa de hóspedes para usarmos o vernáculo antes que se perca. Não me vou demorar a dizer o que a revista tem - e tem muito - e fico-me pelo editorial. O escrito pega num triângulo com três vértices: bom, barato e rápido. E conclui aquilo que nunca devemos esquecer: posso fazer as coisas bem e de forma rápida, mas não vai ser barato; posso fazer as coisas muito bem e por bom preço - mas não vai ser rápido; e finalmente podemos ter as coisas feitas depressa e por bom preço - mas então raramente serão boas. Há quem se esqueça disto - desde pedidos de propostas até medidas de Governo. O resultado está à vista e podia chamar-se Portugal.

PROVAR - Num tempo de contenção, um restaurante com boa onda e que vive do reaproveitamento gastronómico das conservas portuguesas, merece aplauso e destaque. Os leitores destas páginas sabem do apreço que tenho pelas boas conservas portuguesas. Folgo em registar que  é o mesmo sentimento que Rui Pregal da Cunha, o vocalista dos Heróis do Mar, mais tarde publicitário e homem de vários ofícios, resolveu professar no seu restaurante “Can The Can”. O nome é uma graçola feita a partir de uma canção da época “glam-rocak”, por Suzi Quatro, uma rapariga notoriamente à frente do seu tempo. Já agora o trocadilho da canção aplica-se que nem uma luva às latinhas das conservas. Tenho ouvido louvaminhar a tiborna de atum e um dia destes vou mesmo passar pelo “Can The Can”. É fácil, fica no Terreiro do Paço, ali pelo número 82, para os lados do Ministério das Finanças. Dizem-me que nem a Troika nem o Raspar (perdão, Gaspar...) por lá costumam passar, o que é sempre uma boa carta de apresentação. O telefone é o 914007100, que pode ser usado para marcações, para também para saber se na noite em que lá quiserem ir canta alguém, o que por vezes acontece - sem causar indigestões.

GOSTO - De assistir à série “The Hour” na Fox Life.

NÃO GOSTO - De nenhum dos putativos candidatos autárquicos em Lisboa.

BACK TO BASICS- A gente tem sempre tempo de esperar algum tempo, de saber quem é que se afunda e desaparece, quem é que fica - Jorge de Sena

dezembro 28, 2012

UM REGIME BURLESCO

BURLESCO - O ano acabou com duas novelas: o estranho caso da venda da TAP, que não aconteceu depois de estar prometida a Germán Efromovich, por este não ter prestado a garantia bancária exigida para o negócio, após ter andado semanas a encher a boca e os nossos ouvidos de milhões e milhões que nos iria dar; e o estranho caso do orador Artur Baptista da Silva, que vigarizou meio mundo e teve uma meteórica carreira em eventos, de conferências no insigne Grémio Literário ao Congresso da Felicidade, no Porto, onde foi convidado a botar faladura. Vivemos num país crédulo - alguma razão há-de existir para os actos eleitorais das últimas décadas terem dado os resultados que estão à vista.  Não sei porquê, encontro parecenças entre os dois. Ambos sugerem milagreiros de ocasião, actores de uma comédia falhada. Mas o que é certo é que ambos conseguiram protagonizar momentos decisivos, ambos encheram páginas de jornais, ambos tiveram honras de televisão. Alguma coisa vai terrivelmente mal quando tudo isto acontece. Num dia destes Adelino Maltez afirmava que vivíamos no reino do burlesco. Com a devida vénia, cito uma entrada no seu Facebook, colocada em jeito de comentário a posts politico-natalícios contemporâneos: “No primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores" (expressão do Almirante Américo Tomás nas suas memórias e que inspira todos os teatros de Estado das mensagens de Natal e Ano Novo dos anos subsequentes...)”

REGIME - Quando vejo o que se passa e quando pensa no que tem acontecido fico com a certeza que o regime está caduco e que os partidos que o sustentam caducos estão. Por estes dias dei comigo a pensar que, entre 1969 e 1974, Marcelo Caetano teve mais consciência das limitações do regime que herdou, do que os políticos actuais  - que como os velhos do regime querem perpetuar o estado das coisas porque esse é o garante do compadrio de influências que é a sua razão de ser. 2012 fica para a História como o ano em que se agudizou o desrespeito do Estado pelos contratos implícitos que estabelece com a sociedade e os contribuintes. A narrativa política oscilou mais que um barco à vela no meio de uma tempestade. Em numerosos casos, de sectores e de importância diversas, o Estado desdisse o que tinha anunciado. Temos um Ministro das Finanças que é pior a fazer previsões que um quiromante de vão de escada a fazer horóscopos. Gaspar já não consegue acertar nem numa folha de excel, quanto mais no mundo real. Em cada mês que passa, por cada nova previsão falhada, confirma-se que nem bom técnico deve ser. Um político é suposto ter visão e não ser conformista. Não é isso que se passa com os políticos que temos no activo, em todos os quadrantes. Vivemos um reality show político tão mau que consegue perder audiências em vez de suscitar interesse. Há uma dupla perca de credibilidade - pela falta de cumprimento das promessas e pelas sucessivas falhas nas previsões, que se usam para justificar as políticas. Há muito que deixámos de ter uma estratégia, limitamo-nos a um zigue -zague.

SEMANADA - Depois de um ano bem atribulado e pouco secreto, o Diretor do SIS propôs a fusão das secretas; mais de um milhão de portugueses emigraram desde 1998 e a vaga de emigração está nos níveis dos anos 60; o regresso aos mercados pode ser adiado para 2014; o Governo prepara cortes nos salários se o Orçamento derrapar no próximo ano; Vitor Gaspar continua a falhar previsões de receita e de défice; Passos Coelho disse no parlamento que 2013 vai ser um ano de grandes dificuldades e comparou os portugueses a soldados num cenário de guerra; dias mais tarde Passos Coelho escreveu no Facebook que “este não foi o natal que merecíamos”;  em 2012 estão a vender-se menos 30 mil jornais por dia que no ano passado; Joe Berardo deu uma entrevista para dizer que  “este governo está a perseguir as pessoas do dinheiro” e para garantir que a sua “verdadeira situação financeira é muito boa”; 75% das codornizes consumidas em Portugal são criadas na freguesia do Landal, nas Caldas da Rainha, e são vendidas pelos criadores a cerca de 70 cêntimos cada animal - ao todo são cerca de três milhões de aves por ano; os calotes a condomínios já atingem mil milhões de euros ; no ano passado, em Lisboa, 1203 idosos morreram sozinhos, sem qualquer tipo de assistência medica.

ARCO DA VELHA - “Vertigo”, de Alfred Hitchcok, considerado o melhor filme de todos os tempos pelo British Film Institute, não foi considerado filme de qualidade pela Inspecção Geral das Actividades Culturais.

FOLHEAR - Pelo caminho que as coisas levam, vou começar a coleccionar derradeiras edições de revistas. O começo da colecção não podia ser melhor: “#LAST PRINT ISSUE” - este é o título da derrradeira edição em papel da revista semanal “Newsweek”, letras a branco e vermelho colocadas por cima de uma fotografia a preto e branco com o arranha-céus de Manhattan, que alojou a redacção da revista, em primeiro plano. A partir de Janeiro a Newsweek passará exclusivamente a ter vida em edição digital - na realidade é  a primeira revista de informação global a migrar do papel para o digital. Acredito que esta não é uma derrota, mas um acto de visão. A célebre página “Perspectives”, que ao longo dos anos recolheu citações e observações, recorda nesta edição especial uma ideia defendida em 1995 por Nicolas Negroponte, o director do Media Lab do Massacchussets Institute of Technology. Dizia ele, há quase duas décadas, perante o cepticismo de quem o ouvia, que dentro de pouco tempo as pessoas passariam a comprar e a ler livros , jornais e revistas na Internet. Pois esse tempo foi chegando e agora não há muita volta a dar e, em vez de erguer um muro de lamentações, mais vale aproveitar as potencialidades do mundo novo que está à nossa volta. Tina Brown, a carismática directora da revista, que lhe pegou numa época difícil há cerca de um ano, assina um editorial onde afirma o que devia já ser óbvio para todos: “às vezes a mudança não é somente positiva, é necessária”.

OUVER (Não é gralha, é para ver e ouvir...)  - Acho muito engraçado ver a evolução das listas de discos mais vendidos nos últimos anos. Quem seguir as tabelas da FNAC em Portugal verá que em muitas semanas, à frente da tabela, estão discos de fado, de jazz vocal e, como aconteceu há pouco tempo, até de música clássica. Isto tem uma razão: são as pessoas acima dos 35 anos que hoje em dia mais compram discos em suporte físico,  em vez de fazerem o seu download - porque ainda não se sentem confortáveis a fazê-lo. Por isso mesmo Cecilia Bartoli liderou há pouco tempo a tabela de vendas com o seu “Mission”, uma produção dedicada à música de Agostini Steffani, um compositor barroco, além de diplomata, espião e missionário. Depois do sucesso alcançado pelo CD, eis que agora aparece o DVD, numa estratégia de edição pensada ao pormenor desde o início. Na realidade o DVD é um filme, rodado em Versailles, partindo de uma visita ficcionada do compositor à corte do Rei Sol no final do século XVII. Bartoli tem-se dedicado a fazer descobrir compositores quase desconhecidos e este seu trabalho, completo e apaixonado, sobre Agostino Steffani é exemplar do ponto de vista da capacidade de um intérprete em explorar diversos meios para fazer chegar a sua obra a diversos públicos. O filme, co-produzido pela ARTE, foi escrito e realizado por Olivier Simonnet (e dá que pensar sobre a utilidade de incentivar a produção audiovisual - mas isso, são outras músicas, por cá bastante desafinadas). O DVD “Mission” já está disponível por cá e é a minha sugestão para a noite de fim de ano.

PROVAR - A bem do equilíbrio da nossa balança de pagamentos sugiro que em vez de comprarem sucedâneos de caviar (já nem falo do verdadeiro...) experimentem as ovas de bacalhau e de sardinha, ambas da fábrica conserveira “la Gondola”, em Perafita, Matosinhos. Garanto que não se arrependem se no fim de ano experimentarem este petisco, acompanhado, por exemplo, por um Alvarinho, como o Deu La Deu. Eu pessoalmente prefiro as de sardinha, mas reconheço que ambas são muito boas - nomeadamente com um bocadinho da indispensável e saudável broa de milho. A todos um 2013 melhor do que aquilo que esperamos e nos prometem!

GOSTO - Dos elogios às novas formas de utilização da cortiça por criadores portugueses, numa recente edição do Wall Street Journal.


NÃO GOSTO - Da maneira atabalhoada como foi feita a reforma do poder local.

BACK TO BASICS - “Não me façam perguntas; assim não me ouvirão mentir” - Oliver Goldsmith

dezembro 21, 2012

UMA ESPÉCIE DE BALANÇO

MUNDO - Começo por vos dizer que, se me estão a ler, é sinal que o mundo ainda não acabou, apesar da profecia que vem do tempo dos Maias. Mas, se isso é verdade, não é menos verdade que este final de ano está cheio de sinais de rupturas. O mundo pode não ter acabado, mas, este ano, para muita gente, mudou de uma forma tal que o modo de vida que tinham acabou mesmo. Nuns casos isso é bom, noutros nem por isso. No espaço de pouco mais de um ano um número assinalável de indicadores regrediu para valores de há uma década, e esse  movimento de regressão vai continuar. É um ajustamento que está a ter repercussões no dia a dia, nas questões mais básicas. Atinge também áreas que muitos consideram marginais, como a criatividade, a expressão artística, a cultura. Gostava, quase a começar um ano que quero encarar como o princípio inevitável de um novo mundo, de recordar estas palavras de Mario Vargas Llosa: “É muito importante que haja participação cívica, fiscalização constante do poder e que este esteja impregnado de ideias, não só de paixões. Para isso, é indispensável a cultura, que dá à política padrões morais.”

PRÉMIOS - Prémio “não sei quem é o Sócrates” para António José Seguro; prémio “Quem? Eu?” para Miguel Relvas; prémio “vou fazer do serviço público um canal horeca” para Alberto da Ponte; prémio  “já vos tramo a todos que vos ponho às voltas no Marquês” para António Costa; prémio “não sei porque não gostam de mim” para Godinho Lopes;  prémio “eu faço tudo bem e vocês não me compreendem” para Pedro Passos Coelho”; prémio “o melhor da raspadinha” para Vitor Raspar, perdão, Vitor Gaspar; prémio “mais vale tarde que nunca” para Cavaco Silva; prémio “a ver se não me molho” para Paulo Portas; prémio  “onde está o Louçã” para Daniel Oliveira; prémio “lá vamos cantando e rindo” para o grupo parlamentar do PSD; prémio “em busca do tempo perdido” para Álvaro dos Santos Pereira.

ARCO DA VELHA - Na mesma noite em que o Conselho Nacional do PSD se reunia em Lisboa, num hotel da capital, soube-se que António Nogueira leite se havia demitido da vice-presidência da caixa Geral de Depósitos. João Gonçalves, um blogger acutilante, escreveu estas palavras que aqui reproduzo, com a devida vénia: “A saison, não o horrível natal, vai "animada" com uma sucessão de demissões. Do director de informação de um operador televisivo a um director-geral de outro, de um inspector-geral passando pela administração da Casa da Música e por um administrador executivo da CGD, constato que nem todos os que pedem a demissão a deviam ter pedido, ao mesmo tempo que alguns que a deviam pedir o não fazem. O pensamento que calcula, para recorrer à expressão de Heidegger, pesa mais que qualquer outro pensamento nos tempos que correm. Muitas vezes, nem sequer vale a pena falar em pensamento, para não ofender o conceito. A ver vamos como dizia o cego.”



OUVIR - Estamos num tempo em que existe uma oscilação, por vezes confusa, entre nostalgia e repetição. Mas é muito curioso que alguns dos melhores registos do ano venham, em várias áreas da música popular, de nomes, digamos, antigos. Neil Young fez um disco absolutamente brilhante com “Psychedelic Pill”; Bob Dylan mostrou que continua surpreendente com “Tempest”. Bruce Springsteen mostrou como continua atento com “Wrecking Ball”. Bobby Womack ressuscitou com “The Bravest Man In The Universe” , Bill Fay volta a dar uma lição em “Life Is People”. Leonard Cohen, coerentemente, mostrou a vitalidade de “Old Ideas”. E, mesmo com o ano a chegar ao fim, Caetano Veloso ofereceu-nos um “Abraçaço” que confirma a sua criatividade e o seu génio. Mas há também outros grandes discos - “Blunderbuss” de Jack White, “Idler Wheel....” de Fiona Apple, “Sun”, de Cat Power. No jazz gostava de recordar “The Cherry Thing” de Neneh Cherry, “Ode” de Brad Mehldau. Por cá, Orelha Negra, Wray Gunn, António Zambujo e Ana Moura foram os portugueses cujos discos mais me fizeram vibrar neste ano de 2012, mas há várias bandas novas, a despontar, que merecem atenção. Bem vistas as coisas, os mais antigos deram uma boa prova de vida, mas a música popular, nas suas várias vertentes, continua vibrante. Muito do que este ano ouvi já não foi em suporte físico - foram discos comprados no iTunes, por impulso, no momento, porque me apetecia descobri-los. Conseguir tê-los tão facilmente mostra também a mudança que vivemos.

FOLHEAR - O que li este ano? Alguns policiais, alguns livros de História, e, claro, muitas revistas e jornais. O kindle e o iPad mudaram de facto a minha vida. Agora vou descobrindo os novos policiais graças ao Kindle e vou folheando revistas e jornais no iPad - algumas descubro em agregadores como o Zite ou o Pulse, que me permitem estar mais informado que pensava possível. Volto e meia descubro também alguma coisa no Twitter. Divirto-me com prazer com  boas edições digitais como a da “Wired”, ou a “Intelligent Life”, mesmo que os seus efeitos sonoros inesperados provoquem sobressaltos no dormir de outrem - problemas de quem gosta de ler na cama. Mas não desprezo boas surpresas em papel como a Monocle, que continua a ser um exemplo e uma referência, a portuguesa “Egoísta” e, se tiver que escolher um livro em papel, vou pelo álbum do ano, que é o LX 60, uma viagem a Lisboa na década de 60.

VER - A Estação Imagem, de Mora, fruto do entusiasmo do fotojornalista Luis Vasconcelos, merece destaque este ano - pela persistência do seu trabalho, pela forma como tem divulgado a fotografia, como tem promovido exposições e edições, como tem estado activa e presente, sem beneficiar nem de financiamentos extraordinários nem de recorrer a lamechices na praça pública. O seu lema, bem presente no site, é uma frase de W. Eugene Smith: “Nunca encontrei limites ao potencial da fotografia”. Nos dias que correm é engraçado vermos como as novas formas de fotografia, como o Instagram, provocam adesão e polémica, como a vulgarização da fotografia digital permite tornar ainda mais realidade o facto de ela ser a forma de expressão visual mais democrática, no sentido de ser acessível a todos. Da mesma forma que com os sms, os messenger, os emails e o Facebook a escrita voltou a ganhar um lugar na comunicação, a fotografia, a imagem fixada do instante, a forma de ver, voltaram a estar na ordem do dia. Esta organização, que hoje destaco, chama-se “Estação Imagem” porque a sua sede é numa antiga estação de caminhos de ferro, entretanto desactivada, em Mora. É de lá que ela irradia actividade, como uma bem visivel em Lisboa, agora por estes dias: na Fábrica de Braço de Prata está a participação portuguesa no projeto Aday - 15 fotógrafos visitaram - documentando-o - um dia na vida de mulheres em Portugal. Dali nasceu um livro e uma exposição. Eu gosto de quem, no meio da crise, encontra espaço para trabalhar e fazer - sejam canções, discos, livros, revistas ou exposições. Apesar do Estado, muitas vezes contra o Estado, tudo isto existe.

PROVAR - Ao pé do escritório onde trabalho, nas Avenidas Novas, fecharam nos últimos meses meia dúzia de restaurantes. Alguns tinham aberto há menos de um ano, eram tentativas, algumas bem engraçadas, de criar pequenas empresas que geravam meia dúzia de empregos. Nasceram no momento errado e não sobreviveram. Em alguns deles passei bastantes almoços solitários este ano - uma experiência que gosto de ter, a olhar para os sítios e as pessoas que os frequentam, a provar o que nos põem na mesa. A vida dos restaurantes é dura - um dos livros que me divertiu e educou nestas férias foi “Cozinha Confidencial” de Anthony Bourdain. Depois de o ler passei a olhar para os restaurantes e para quem lá trabalha de outro modo. Por isso mesmo, nestes tempos em que fecham restaurantes, apetece-me elogiar quem se mete a essa aventura, num projecto que ao fim de poucos meses ganhou logo uma estrela Michelin. Não é que eu ligue muito a estas condecorações - mas reconheço que José Avillez e o seu Belcanto merecem elogios - pela coragem de um investimento destes nesta altura, mas também pelo cuidado posto para que cada cliente se sinta especial. E porque lá se come de facto muito bem.

GOSTO -  Dos que, em todas as áreas, se esforçam por criar ou manter empresas, postos de trabalho e actividade, apesar de tudo o que o Estado inventa.

NÃO GOSTO - Do estado da Justiça, da banalidade com que a responsável do Departamento de Investigação e Acção Penal considera que não se conseguem combater as fugas de informação.

BACK TO BASICS- “Eis ao que leva o intervencionismo do Estado: o povo converte-se em carne e massa que alimenta o simples artefacto e máquina que é esse Estado” - José Ortega Y Gasset

dezembro 18, 2012

A CALCULADORA AVARIADA

Este Natal não posso deixar de pensar em quem nos trouxe até aqui – nos políticos, que, por boas ou más intenções, embarcaram na desgraça do Euro e da Comunidade Europeia, que desmantelaram a nossa indústria, a nossa agricultura e as nossas pescas, comprometeram o futuro a troco de subsídios de Bruxelas e do seu quinhão na partilha do poder. Olho para os últimos 20 anos e tenho a sensação de olhar para uma farsa, para uma espiral de demência, em que os políticos se entretiveram a brincar.


 


Olho para trás e vejo como a justiça não melhorou, como a nossa sociedade se continua a basear em atropelos, atrasos, julgamentos na praça pública, fugas de informação e toda a espécie de desmandos – onde se pretende fazer justiça pouco mais existe que um arremedo. Olho para o aparelho judicial e não acredito nele – do Ministério Público aos juízes. Em Portugal a justiça é uma estado de espírito mas nunca chega a ser uma realidade – e este é bem capaz de ser o maior dos problemas que temos para conseguir mudar o funcionamento do país. Ninguém é responsabilizado, só os fracos são punidos.


 


Olho para estes partidos que existem e vejo como estão fechados em si mesmos, mais interessados no seus próprios aparelhos do que em delinear medidas, reformas, soluções. A política deixou de ser um fim nobre e passou apenas para um jogo, tipo monopólio, onde se repartem fatias do país.


 


Eleição após eleição assisto a programas e promessas que são imediatamente deitadas para o lixo e contrariadas mal se conhecem os resultados e os novos inquilinos chegam ao poder. Em cada eleição deteriora-se a forma como os cidadãos são tratados, aumenta o engano e aumenta o peso do Estado. Tudo o resto diminui. O país tornou-se numa calculadora que só tem uma função ativa: a subtração.


 


(Publicado no diário Metro de 18 de Dezembro)