janeiro 06, 2012

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TDT  – Todo o processo da Televisão Digital Terrestre é um grande mistério. As premissas técnicas são conhecidas há anos, as possibilidades idem, a data de implementação também. Demorou-se tanto tempo no processo, registaram-se tantos avanços e recuos, anulações de concursos, alterações de condições, que finalmente se tornou no nado-morto a que estamos a assistir. Arons de Carvalho, agora na ERC, estranha tudo o que se passou e lembra que o desenho do serviço público de televisão poderia ser outro, se a TDT tivesse evoluído de outra maneira. Mas ele próprio foi membro do Governo de Guterres, onde se registaram alguns dos problemas que levaram onde estamos, depois bem continuados pelos governos seguintes, sem excepção. O que vai existir em Portugal é uma TDT mitigada, com menos potencial técnico, a que só aderirá quem não tiver condições para ter linha de telefone fixo ou serviço de televisão por subscrição. O que se passa é uma anedota – e a Anacom, responsável de facto pelo processo, devia ser investigada para se saber como aqui se chegou. Quer-me parecer que estamos perante mais um daqueles casos, tão usuais em Portugal, em que toda a gente se queixa e protesta mas nunca se apuram responsabilidades.


 


TELEVISÃO -  Os dez programas de televisão mais vistos em 2011 foram todos de futebol, com predomínio para os jogos da selecção nacional. A TVI liderou em novelas e reality shows, mas a informação foi da RTP. A SIC conseguiu voltar ao segundo lugar e o conjunto dos canais do cabo estabeleceu-se como uma alternativa seguida por um quarto dos espectadores com acesso ao serviço de televisão por subscrição, praticamente já 70 por cento do total do universo.


 


INESPERADO - O caso Pingo Doce/Soares dos Santos mostra três coisas: em primeiro lugar, quem tem discursos moralistas, como o patriarca do grupo, deve ter cuidado com as acções que toma, ainda por cima quando fez há pouco tempo uma campanha publicitária a gabar-se do seu nacionalismo para tentar captar a simpatia de quem prefere comprar português; em segundo lugar, quem faz Fundações que beneficiam de vantagens fiscais na sua actividade podia ser coerente, em relação aos benefícios que recebe numa actividade, no resto dos seus comportamentos e actividades; e, finalmente, quem toma decisões como a que levou o capital do grupo para a Holanda, devia pensar na sua comunicação antes, para depois não vir com discursos atabalhoados – este é um exemplo perfeito de tudo o que não se deve fazer à imagem de uma marca. Quanto ao resto – cada um gere como entende, convém é manter alguma coerência entre as palavras e os actos.


 


AUDIOVISUAL – Como se adivinhava desde a catastrófica gestão de Gabriela Canavilhas na Cultura, o Instituto do Cinema e do Audiovisual não tem condições para abrir novos concursos de financiamento à produção. Na origem desta situação está a forma como foi construído o FICA (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual), por iniciativa da então Ministra Isabel Pires de Lima; paralisado quase desde o início, o FICA viu a sua situação agravar-se durante o consulado Canavilhas, que acabou por sair do Ministério sem tomar nenhuma medida sobre o assunto. Na prática o FICA está de existência suspensa e esta é uma boa altura para repensar todo o edifício dos apoios à produção de obras audiovisuais, adequando-o à realidade dos tempos, mas também, se possível, traçando uma estratégia que estabeleça prioridades e objectivos e não se baseie apenas, como infelizmente tem acontecido, em critérios sempre subjectivos de avaliação de interesse artístico. Esta falência do FICA pode ser a oportunidade de ouro para iniciar uma mudança séria e profunda em toda esta área.


 


TELEFONE – Se há um mês me dissessem que iria passar uma semana sem telefone teria ficado um bocado nervoso. Desde que existem telemóveis nunca me tinha acontecido ficar mais do 24 horas sem o aparelho funcionar. Mas desta vez, numa viagem, o cartão SIM desmagnetizou-se, talvez num dos sistemas de segurança dos aeroportos, e lá fiquei se poder telefonar – felizmente que há wi-fi e que graças ao iPhone conseguia contactar e ser contactado por email. E, tirando não ter recebido a tempo os SMS a desejar Bom Ano, tudo o resto funcionou perfeitamente só por email. Nestes dias sem telefone li, no New York Times, um interessante artigo que espelha este consumo de transmissão de dados e de redes wi-fi – os grandes operadores de cabo norte-americanos, que são também os grandes fornecedores de ligações de internet aos seus clientes, estão a contratar técnicos cada vez mais qualificados - é que dantes bastava esticar o cabo e ligar o aparelho à televisão e agora, quando se faz uma instalação numa casa, é preciso ligar a televisão, mas também criar uma rede wi-fi que alimente os diversos computadores, os  tablets, as consolas de jogos e os smartphones – às vezes mais de uma dezena de aparelhos diferentes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – o que é giro é que o falar é cada vez mais substituído pelo escrever. Tem a sua graça…


 


SEMANADA – Os clubes de futebol profissionais devem 33 milhões de euros ao fisco; uma instituição religiosa que foi burlada pelo BPN vai ser ressarcida com dinheiro dos contribuintes; o Parlamento começou o ano debaixo de uma polémica sobre os serviços secretos e a maçonaria; 376 cursos universitários fecharam por falta de alunos; na última semana de Dezembro, antes da entrada em vigor do novo Orçamento de Estado, aumentou o número de empresas portuguesas que se exilaram na Holanda.


 


ARCO DA VELHA – Na noite de fim de ano, em Albufeira, dois militares da GNR, de folga, alcoolizados, provocaram um atropelamento e em seguida tentaram pôr-se em fuga e simular que nenhum era o condutor.


 


PALAVREADO - «Dos outros Ministros, não me lembro» - Vasco Graça Moura, no seu balanço do ano, depois de deixar elogio a Vitor Gaspar, Paulo Macedo e a Nuno Crato.




LER – A edição norte-americana da revista «Wired» de Janeiro dá a sua capa ao papel das redes sociais nas movimentações políticas e nos protestos, um pouco por todo o mundo. Bill Wasik, o autor do artigo, começa por fazer notar um paradoxo: «a tecnologia pessoal do século XXI – os nossos laptops, tablets, smartphones, browsers e aplicações – fazem tudo o que é possível para nos manter afastado de multidões», desde fazer compras a conhecer novas pessoas ou estabelecer relações. A questão é como se passa deste patamar para a organização de acções colectivas. Vale a pena ler. Outro artigo imperdível desta edição é «Slumdog Economics», uma entrevista com Robert Neuwirth, autor do livro «Stealth Of Nations: The Global Rise of the Informal Economy». A esta economia informal chama o autor o «Sistema D», e afirma que ele existe um pouco por todo o lado, e que, na sua opinião, desenvolve o empreendedorismo, cria emprego e alivia os custos dos Estados mesmo que pouco contribua em impostos. O «Sistema D» movimentará cerca de 10 triliões de dólares por ano e, se fosse um país, seria a segunda maior economia, logo depois dos Estados Unidos. Fascinante e a dar que pensar, mesmo que Vitor Gaspar e os burocratas europeus fiquem com os cabelos em pé só de pensar nisto.


 


OUVIR – Começo o ano com um regresso ao jazz, neste caso a um grupo de músicos brasileiros radicados nos Estados Unidos, que trabalham com o norte-americano Erik Charlston – os JazzBrasil. O disco é uma homenagem ao grande Hermeto Pascoal, de quem interpretam seis temas históricos – os outros dois incluídos no álbum são «Frevo Rasgado» de Egberto Gismonti e «Paraíba», de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, este o único tema cantado. Realce para os arranjos e para a qualidade da interpretação musical e para a forma como o vibrafonista Erik Charlston dirigiu as operações e obteve um resultado invulgar. CD Sunnyside, na iTunes.


 


PROVAR – Tenho um gosto especial por pequenas cervejarias de bairro, simples, despretenciosas, que não se metam em cavalarias demasiado altas e que tenham um serviço simpático e um preço sensato. Está-se mesmo a ver que  esta descrição está feita de propósito para não incluir esse anacronismo que é a Cervejaria da Esquina, em Campo de Ourique. Em contrapartida, assenta às mil maravilhas numa pequena cervejaria de Campolide que tem o natural nome de «Paladares do Mar». Fica na Rua marquês da Fronteira nº173, e tem o telefone 210 505 038. Bifes muito recomendáveis, cerveja impecável, marisco fresco e variado. E uma decoração confortável e simpática.


 


BACK TO BASICS – A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas  (Horácio)


 


(Publicado no JHornal de Negócios de 6 de Janeiro)


 

dezembro 23, 2011

Realidades, segurança, sugestões

BALANÇO  – Estive a rever a mensagem de Natal que José Sócrates dirigiu aos portugueses no Natal de 2010. Ela está no YouTube e é uma peça que merece ser recordada para ver a forma como um Primeiro Ministro andou a iludir este país. Nessa altura José Sócrates ainda negava a necessidade do pedido de ajuda externa, atitude que manteve durante meses. Mas antes do Congresso, que mais uma vez o glorificou, em Matosinhos, no já distante início de Abril de 2011, Sócrates teve mesmo que se render às evidências e fez esse pedido de ajuda. Apesar disso, em Matosinhos, a moção de Sócrates obteve 97,2% dos votos dos delegados, uma unanimidade que ele gostava de cultivar. Passados mais três meses Sócrates foi derrotado nas eleições legislativas antecipadas de Junho e, no Congresso seguinte do Partido Socialista, no início de Setembro, nem sequer se dignou aparecer. Não podemos viver obcecados com o passado, mas é bom lembrarmo-nos do que se passou. Esse discurso do Natal dde 2010 é o retrato vivo do resultado de entregar o Governo à perigosa ilusão de um homem.


 


SEGURANÇA – Esta semana, depois de mais uma vaga de assaltos, reuniram-se os responsáveis de diversas forças de segurança e da reunião pouco mais saíu que um repositório de lugares comuns e de simpáticas declarações de intenções. Os cidadãos acham, com razão, que faltam patrulhas dissuasoras, que em muitos locais a polícia não se vê. A ausência da polícia, já se sabe, torna os criminosos mais afoitos. Há sinais que podem e devem ser dados para mostrar que existe uma atitude de mudança. Vou pegar num caso concreto – todos os lisboetas sabem que o eléctrico 28 é o paraíso dos carteiristas que aí procuram afanosamente turistas descuidados. Os portugueses que utilizam aquela linha como meio de transporte sabem mesmo identificar os ladrões que regularmente ali exercem o seu métier e são capazes de contar vários dos truques utilizados. Todas as semanas vários turistas se queixam de roubos no eléctrico 28 – o que certamente não é bom para a imagem do país. Não me parece que fosse um exercício muito difícil colocar um agente naquele eléctrico – os carteiristas talvez estivessem menos à vontade mas, principalmente, não andariam para cima e para baixo com total impunidade. A função das forças policiais deve ser prevenir – e a sua presença física é a melhor forma de dissuasão. Os senhores comandantes das diversas forças, que se dissolveram em promessas, bem poderiam agir, dar uma amostra de determinação, por mais simples e simbólica que fosse, em vez de, como relataram os jornais esta semana, se preocuparem em ter messes de oficiais com serviço de mesa e messe de agentes em regime de self-service. O ridículo mata.


 


ASAE  -  Eu acho muito curiosa a forma como a ASAE actua cada vez que sente que há uma máquina registadora a funcionar e uma actividade económica que aparenta ter sucesso. Arranja logo maneira de acabar com o despautério, se possível detendo alguém pelo caminho e encerrando algum estabelecimento. O que se passou, pela mão da ASAE, num restaurante lisboeta nas últimas semanas, mostra como aquela organização prefere punir a fiscalizar, prefere abusar do poder a dialogar, prefere terminar com um negócio a procurar soluções. É sabida a minha opinião – acho desde há muito que a ASAE é governada pela mania da perseguição que o seu responsável, António Nunes, inculcou desde que dirige aquele organismo. Não se preocupa em aferir a razoabilidade das situações, não se preocupa em ver se as leis poderão estar desajustadas da realidade. É cega a reprimir, selectiva a escolher alvos. Se no Ministério da Economia existisse alguém com os pés postos na terra já tinha acabado com esta maneira de funcionar. A recente acção da ASAE é uma prova de força – continua a mostrar que pode abusar. E o Governo, deixa.



SEMANADA – O Hot Clube finalmente reabriu, no nº48 da Praça da Alegria; o roubo de cobre mais que duplicou em oito meses; o programa de preparação para os próximos jogos olímpicos apresenta deficit de 300 mil euros; os CTT já receberam este ano 300.000 cartas dirigidas ao Pai Natal; quase desapareceram os postais de Natal, substituídos por mensagens electrónicas.


 


ARCO DA VELHA – Numa curiosa interpretação do estímulo à exportação, Paulo Rangel defendeu a criação de uma agência governamental que auxilie os portugueses a emigrarem.


 


PALAVREADO - «Pinto da Costa espirra e os árbitros constipam-se» - Eduardo Barroso


 


VER – Quando tiverem um bocadinho visitem a exposição «Portugal connosco – o olhar dos carteiros». A ideia foi dos CTT, que desafiaram 3500 carteiros a andarem pelo país de máquina fotográfica em punho. O resultado foi um conjunto de 86.500 fotografias que um júri reduziu às 200 que agora estão expostas no histórico edifício dos Correios na Rua de S. José, em Lisboa, e recolhidas no livro que entretanto foi editado. As imagens mostram o país que os carteiros vêem todos os dias, nas cidades e no campo, os contrastes, as curiosidades, as pessoas. Eu confesso ter um fascínio pela actividade dos Correios – sou do tempo em que esperava a chegada do carteiro com as revistas que assinava, com as cartas que aguardava. O que já vi destas imagens – e sobretudo a iniciativa em si – parecem-me exemplares na ligação de uma empresa à comunidade.


 


LER – Há muito poucas pessoas a reflectirem sobre política cultural em Portugal e António Pinto Ribeiro (não o ex-Ministro, mas o ensaísta e programador) é uma delas e certamente quem melhor tem explorado o tema ao longo de vários anos e em diversas circunstâncias. Grande parte desse trabalho foi recolhido no livro «Questões Permanentes, ensaios escolhidos sobre cultura contemporânea», editado agora pelos Livros Cotovia. Aqui se repescam escritos sobre diversas áreas da política cultural, desde a formação dos públicos à cultura das elites, passando pelo papel das Universidades, o populismo, as industrias criativas ou a importância dos documentários, para só citar alguns exemplos. Estes textos, muitas vezes escritos num tom provocador que é próprio do autor, são pedradas no charco do lugar comum e do politicamente correcto sobre as questões culturais. Agitam e fazem pensar e isso é a melhor coisa que me ocorre dizer. Já agora o livro publica a aguerrida e interessante polémica de António Pinto Ribeiro e Vasco Graça Moura sobre Património Cultural e Arte Contemporânea, uma série de escritos sobre livrarias que o autor gosta de visitar em diversas cidades de todo o mundo e, a encerrar, uma inédita «Autobiografia com muitas fantasias», uma espécie de ensaio do autor sobre si próprio, com muito pouco de umbigo e muito de ironia.


 


OUVIR – «Pull Up Some Dust And Sit Down» faz lembrar os primeiros discos de Ry Cooder, baseados em versões de Lead Belly e Woody Guthrie. Na realidade, o álbum deste ano de Ry Cooder merece figurar entre os melhores discos de 2011, é um retrato destes tempos de depressão em que vivemos. A faixa «No Banker Left Behind» é o equivalente musical do incontornável documentário «Inside Job», de Charles Ferguson. Firmemente ancorado na melhor folk norte-americana e nos blues, este CD é o género de disco que Woody Guthrie não desdenharia assinar se ainda fosse vivo.


 


PROVAR – Ao almoço, o buffet do restaurante Roda das Sedas, na Rua da Escola Politécnica 231, já quase a chegar ao Rato, merece ser visitado. Por 14 euros temos ao dispor entradas fartas e variadas, uma boa selecção de queijos e propostas de pratos quentes bem elaboradas e declaradamente portuguesas – desde coisas simples como panados até uma honesta massada de peixe ou polvo à lagareiro. Os doces, para quem ainda exerça essa parte da degustação, não desmerecem. Se quisser no bar servem-se petiscos e cocktails. À noite o regime de buffet é substituído por uma carta com sugestões interessantes, desde uma raia com puré de courgettes e aipo e legumes salteados, até uma empada de perdiz. A garrafeira não é muito extensa mas é bem escolhida e tem preços sensatos. Mas, honestamente, o melhor de tudo é o local, as salas que se sucedem, o bar, a bela esplanada, a forma como foi bem aproveitado o edifício da antiga Real Fábrica das Sedas. Telefone 213 874 472.


 


BACK TO BASICS –  Aqueles que não têm respeito pela verdade nas pequenas coisas não podem ser dignos de confiança nos assuntos importantes – Albert Einstein


 

dezembro 20, 2011

GENTE QUE NÃO INTERESSA

Quando um partido político escolhe para vice-presidente da sua bancada parlamentar um deputado que roubou gravadores a jornalistas no decorrer de uma entrevista, que lhe estava a ser incómoda, a coisa parece um bocado estranha; quando um outro vice-presidente da mesma bancada defende publicamente, de forma empolgada, que Portugal não deve pagar as dívidas que contraiu, então a coisa começa a ficar mais séria. Este partido é o PS e esses deputados são Ricardo Rodrigues e Pedro Nuno Santos. Como se pode confiar num Parlamento que funciona assim?




Para usar uma expressão de marketing, se há partido que precisa de fazer um rebranding e voltar a ganhar credibilidade, esse partido é o PS, depois de quinze anos quase seguidos de Governo que levaram o país onde estamos, com compadrios diversos – desde os contentores do Porto de Lisboa até uma série de obras públicas suspeitas e parcerias público-privadas ruinosas.


 


 


 


Mas em vez disso o PS chama para os postos de responsabilidade políticos absolutamente suspeitos, pelos actos e pelas palavras. Nenhum partido está isento de ter nas suas hostes pequenos escroques e oportunistas que vivem dos favores da política para irem fazendo as suas vidinhas. Na realidade todos os partidos deviam fazer periodicamente uma reclassificação de militantes, que depurasse as suas fileiras daqueles que comprovadamente não têm ética por palavras e actos. Mas ninguém tem coragem de fazer isso com medo de ferir susceptibilidades do célebre aparelho.


 


O aparelho é a máquina partidária que elege os líderes e depois apresenta a factura – em negócios de favores locais, regionais ou nacionais, e em colocações. O aparelho é uma máquina de apetite voraz que não tem memória nem coerência. Hoje aplaude um líder num congresso e amanhã aplaude outro da mesma forma, sem se preocupar em saber o que se passou. O aparelho é um monstrinho autofágico que só olha para dentro de si próprio e das vantagens que consegue obter para si e para os seus fiéis. Ou os partidos mudam de funcionamento ou vão ser cada vez mais apenas o refúgio de gente que não olha a meios para atingir os seus fins. Ou seja, gente que não interessa.


 


(publicado no Diário Metro)

COMO CRIAR TRABALHO? COMO MUDAR O CENÁRIO?

TRABALHO – O maior problema que a Europa vai ter nos próximos anos é conseguir conter o desemprego e, ao mesmo tempo, fomentar a criação de novos postos de trabalho – e inacreditavelmente ouço muito poucos responsáveis comunitários a falar deste assunto. Durante décadas a Europa, com poucas excepções, persistiu no modelo da desindustrialização, habituou-se a viver acima das suas possibilidades e, de certa forma, fomentou o desprezo pelas formas mais tradicionais de trabalho, substituindo-as por outras que requerem menos mão de obra e criam menos emprego – e nalguns casos utilizando emigrantes para suprir o afastamento de algumas actividades. O resultado disto é que o sistema passou a ter mais encargos sociais, nomeadamente com os desempregados, e menos receitas já que havia menos gente a contribuir, e, dessa, muita gente a contribuir menos. Inevitavelmente os impostos começaram a subir à medida que os Estados agravaram as suas contas. Cada campanha eleitoral trouxe promessas de novas abundâncias, que geraram novos custos, que provocaram novos desequilíbrios. Medina Carreira dizia esta semana que, na Europa, nos últimos 25 anos, os trabalhadores passaram para os serviços, que exigem menor formação e pagam piores salários, e que a deslocalização da indústria para Oriente levou com ela o investimento. Esta deslocalização, sublinha ainda Medina Carreira, deveu-se em grande parte ao custo das contribuições sociais na Europa, que juntamente com os impostos tiveram grandes aumentos para se manter o Estado Social. O resultado é conhecido: quanto mais impostos houver, menos a economia cresce. Um ex-membro do governo sueco deu esta semana uma entrevista ao «Público», onde explica uma série de coisas que levam a que no seu país a crise seja menor. Uma delas tem a ver com o facto de os apoios a desempregados serem feitos em parceria com os sindicatos – na realidade os sindicatos pagam parte do subsídio de desemprego. Logicamente o interesse de todos os que pagam apoios aos desempregados é que se encontre novo trabalho o mais rapidamente possível – e a falta de trabalho ou a falta de vontade de trabalhar é vista como um estigma social na Suécia, onde a noção ética da importância do trabalho, seja ele qual for, é valorizada.


Um pouco diferente daquilo que por aqui se passa.


 


CENÁRIO – Olho para Portugal e imagino que estamos dentro de um programa de televisão, daqueles onde o cenário é de croma e varia conforme as circunstâncias. Os cenários de croma (um fundo de verde ou azul intenso) permitem colocar electronicamente, por cima dos painéis coloridos, cenários virtuais. Assim, o mesmo espaço tem várias aparências. Portugal vive como se estivesse coberto por um enorme telão de croma onde os políticos vão colocando cenários à conveniência do momento. Neste reality show em que o país se transformou, todos os dias somos surpreendidos por novos relatos de desgraças passadas  e de dificuldades futuras. Assistimos, em directo, nas nossas próprias vidas, à Casa dos Segredos, e os políticos, no Governo ou na oposição, estão numa competição desenfreada para nos irem aos poucos contando as revelações que andam a guardar, para estarem sempre a captar a nossa atenção. Não é a falar do passado que vamos resolver as coisas, mas sim a mudar o presente para termos um futuro diferente. Vejo com agrado alguns ministros, como Nuno Crato, a enveredarem por esse caminho; e vejo com preocupação que outros, como o da Economia ou o das Finanças, sejam mais ministros de protecção ao Estado do que Ministros da sociedade em geral. A propósito de Estado, as últimas semanas são férteis em relatos de abusos de cobrança da segurança social e dos impostos – percebe-se que nesta situação se queiram incrementar as receitas, mas o Estado deve ser o primeiro a não dar o exemplo de arbitrariedade. E deve entender que ele próprio tem que emagrecer, e muito, para que o sector privado possa viver e criar emprego.


 


 


TELEVISÃO – Três temas: primeiro, ao contrário do que estava previsto, o novo sistema de monitorização das audiências televisivas não vai estar operacional a partir do princípio de Janeiro, como era previsto, confirmando os piores receios sobre a forma como a escolha da nova entidade responsável por este serviço foi feita. Vale aqui a pena recordar que, por mais paradoxal que isto seja, foi por pressão dos anunciantes (que são quem teoricamente mais precisa de dados seguros para salvaguarda da eficácia dos investimentos publicitários que efectuam) que foi escolhido um sistema não testado em lugar algum por uma mera questão de diferença de preço, ainda por cima reduzida.  Em segundo lugar quero chamar a atenção para a confusão criada na introdução da televisão digital terrestre, um processo que já teve custos enormes, que já vem atrasado, e que agora, da forma que está, serve para muito pouco. E em terceiro lugar registo que no universo do serviço público, nesta semana, a RTP 1 se manteve no segundo lugar de audiências, mas a RTP2 caíu para a 9ª posição no universo do cabo, enquanto a RTP Informação, no mesmo universo do cabo, consegue estar abaixo do canal que só passa em contínuo o reality show Secret Story. Enquanto isto se passa, nada se sabe sobre o modelo que vai ser seguido na privatização, não foi dado nenhum novo passo e muito pouco está efectivamente definido sobre o que deve ser o serviço público de televisão.


 



SEMANADA – Dezenas de galos capões vivos foram vendidos numa feira de Freamunde entre 40 a 50 euros a unidade; os portugueses, juntamente com os mexicanos e romenos são os que tem uma vida sexual mais activa praticando sexo pelo menos duas vezes por semana, segundo um inquérito de uma empresa farmacêutica; na actual conjuntura económica a ASAE voltou a dar nas vistas depois de deter o conhecido empresário Olivier por existir gente a dançar num dos seus restaurantes; o detido anunciou ir preparar uma festa «prison break»; os chineses ofereceram mais que os alemães pela EDP; Ilda Figueiredo, do PCP, deixa de ser deputada europeia ao fim de 12 anos;  a casa de um investigador da PJ que trabalhou no processo Face Oculta foi assaltada e revirada, computadores incluídos, de uma ponta à outra; Alberto João Jardim foi filmado para as televisões a cantar o Jingle Bells.


 


ARCO DA VELHA – Em Vila do Conde um militar da GNR, que era o campeão das multas sobre infracções de trânsito, serviu de motorista ao seu capitão e guiava frequentemente veículos da corporação, até se descobrir que não tinha carta de condução.


 


VER – Numa viagem, entre a estrada e o deserto, as pequenas cidades, as caras e os corpos, os automóveis e os reclames luminosos, as imagens sucedem-se e a fotografia é o melhor diário para registar as sensações – e definir paixões. «Passion» nasce destes registos – e é o título da nova exposição de Albano Silva Pereira, fotógrafo e organizador dos Encontros de Fotografia de Coimbra desde 1985. A exposição - e a viagem é recorrente no trabalho de Albano da Silva Pereira - estará até 30 de Janeiro na Galeria Graça Brandão, na Rua dos Caetanos 26, no Bairro Alto, em Lisboa.


 


LER – A edição de Janeiro de 2012 da revista britânica «Uncut», já à venda, é fundamental para quem queira seguir o estado da música contemporânea – faz um balanço informativo e crítico dos discos de 2011, atribuindo o galardão de melhor CD do ano a «Let England Shake», de P. J. Harvey, que aliás é entrevistada na mesma edição, revisitando toda a sua carreira. A revista é acompanhada por um CD oferta que inclui 15 temas extraídos de outros tantos álbuns de outros tantos artistas, todos indicados entre os melhores deste ano que está a acabar. Por €7.50 é difícil pedir mais.


 


OUVIR – Na última semana o chef Anthony Bourdain fez mais pela divulgação do novo disco dos Dead Combo do que qualquer serviço público. «Lisboa Mulata», editado há cerca de dois meses, é o mais recente trabalho de Tó Trips e de Pedro Gonçalves e foi a banda sonora que acompanhou o conhecido cozinheiro, autor do programa de televisão No Reservations. Espero que a música do programa sobre Lisboa seja deste disco, um dos melhores álbuns portugueses do ano, sobretudo graças a um sentido de festa e de prazer musical raros hoje em dia.


 


BACK TO BASICS –  Um problema não pode ser resolvido no mesmo nível de pensamento que esteve na origem desse problema – Albert Einstein 

dezembro 13, 2011

SEIS MESES DE ABSTINÊNCIA

Estou sentado em casa, ao fim de tarde,  e no meio de um leve dormitar, parece-me  ver Sócrates aparecer num telejornal. A princípio penso que deve ser um pesadelo qualquer – noites mal dormidas, sonos acumulados, tudo isso às vezes pode provocar esta espécie de alucinações.


Mas depois reparo que não estou a dormir, estou acordado e que o homem aparece nos jornais das oito da noite das três televisões e, em todas, repete, em directo de Paris, a mesma ladainha – sobre a dívida, sobre as responsabilidades de quem governou. Esteve três meses em abstinência e voltou ao pecado ainda com mais força.


 


Fico a sorrir – continua igual, ele é que sabe, ele é que tem razão, os outros são todos estúpidos e não o entendem. Reafirma que as dívidas dos estados não são para pagar mas para serem geridas. Claro que não diz uma palavra sobre a forma como geriu a nossa dívida. Fico a acreditar que no vocabulário de José Sócrates gerir é sinónimo de aumentar. A única gestão de Portugal que ele fez foi aumentar a nossa desgraça, aumentar a nossa dívida, aumentar os nossos impostos,  aumentar a irresponsabilidade, aumentar os planos megalómanos.


Mas José Sócrates Primeiro Ministro não aumentou nem o emprego, nem o nosso nível de vida, nem o bem estar dos portugueses – tudo coisas que havia entusiasticamente prometido nas eleições em que foi candidato.


 


Olho para este Sócrates parisiense, a dar palestras numa universidade francesa a estudantes predominantemente latino-americanos, que no fim o aplaudem, e não posso deixar de pensar na forma como se relacionou com outros aldrabões políticos seus contemporâneos, como Hugo Chavez. Imagino este Sócrates, arrogante e cheio de certezas como sempre, a comandar o PS por telemóvel desde os Campos Elíseos, a conspirar com José Lello, ou com Francisco Assis, ou a estimular as piruetas parlamentares de Carlos Zorrinho.


 


Sócrates resistiu seis meses a aparecer de novo nos telejornais e a dar um ar da sua desgraça. Fez uma abstinência  mediática de seis meses e quando foi apanhado em falso não resistiu a declarar-se, mais uma vez, dono da verdade. Ele há coisas extraordinárias – ele em Paris e nós aqui a pagar a factura que ele deixou.


 


(Publicado no diário Metro de 13 de Dezembro)

dezembro 09, 2011

Mudar de vida, política telecomandada e sugestões avulsas

TELECOMANDO - Esta semana o «Correio da Manhã» relatou uma curiosa intervenção pública de José Sócrates, numa Universidade, em Paris, onde defendeu a possibilidade de Portugal não pagar a sua dívida. «Pagar a dívida de um pequeno país como Portugal é uma ideia de criança, as dívidas dos Estados são por definição eternas» - cita o jornal. Imagino a vida de José Sócrates enquanto estuda Ciência Política e profere conferências destas sobre a sua experiência como Primeiro-Ministro para estudantes latino-americanos que, no fim, segundo o mesmo jornal, o aplaudiram. Não me custa imaginá-lo a passear nos Campos Elíseos, de telemóvel em punho, a fazer telecomando político para Lisboa, falando com José Lello, ou Carlos Zorrinho, ou Francisco Assis. Não custa imaginar o que dirá de António José Seguro, não custa imaginar que conversas terá tido nas vésperas do turbilhão que passou no Grupo Parlamentar do PS aquando da votação do Orçamento de Estado. O exilado político mais célebre de Portugal deve sorrir ao imaginar que as tecnologias que sempre o encantaram permitem que continue a ter influência no Largo do Rato, mesmo estando mais longe do que quando habitava na Rua Brancaamp.  


 


MUDAR – No período em que vivemos fico surpreendido cada vez que percebo que nas nossas escolas – nomeadamente nas universidades – se dedica muito pouca atenção à necessidade de preparar as pessoas para trabalharem e criarem alguma coisa, e não apenas para irem à procura de um emprego com um certificado na mão. Ainda vou a meio da biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson mas já deu para perceber que, mesmo nos anos 60, as universidades americanas inculcavam um espírito de desafio aos seus alunos que os levava a arriscar – em experiências ou em negócios próprios. Aqui há tempos fui convidado para falar numa escola superior, no âmbito da minha actividade, planeamento estratégico de publicidade, e fiquei espantado como alunos já no fim do curso ignoravam coisas básicas do dia a dia de uma empresa, na facturação ou nas cobranças – como dia um amigo meu, esta malta nem sequer sabe o que é o IVA e depois não conseguem fazer nada direito. Isto não é uma coisa menor – não estão preparados para, por exemplo, iniciarem uma actividade própria. Com a enorme mudança a que estamos a assistir, com o fim dos empregos garantidos, o que é preciso é estimular a capacidade de empreender, desenvolver ideias, arriscar, avançar. Um livro bem recente, «Mudar de Vida», conta as histórias de 17 pessoas, já com anos de experiência, que na actual conjuntura ficaram sem trabalho de um momento para o outro ou quiseram fazer algo de diferente. São 17 histórias de sucesso, de pessoas que arregaçaram as mangas e procuraram resolver os problemas – não ficaram à espera que ninguém os resolvesse por elas. É isto que nos falta, enquanto país – e sobretudo aos mais novos: procurar soluções em vez de ficar sentado à espera que elas caiam ao colo. Vou acabar com um exemplo, que pode ser aplicado ao sector da Cultura. Há poucos dias recebi um mail a anunciar que os túneis perto do teatro Old Vic, em Londres, vão estar neste Natal com animação – desde vendedores diversos até petiscos. Tudo se passa ao ar livre, com temperaturas bem mais baixas do que em Lisboa, mas as pessoas procuram fornecer motivos para atrair públicos e surpreendê-los, angariando receitas suplementares em vez de pedir mais subsídios. Da mesma forma alguns museus, em várias cidades europeias, sugerem como prenda de Natal cartões-assinatura de entrada nas suas exposições durante um período determinado – é uma prenda simpática e útil. Têm iniciativa, procuram clientes, dão sugestões, em vez de lamuriarem ou exigirem mais apoios. Há uns anos que aprenderam como é importante mudar de vida.


 



SEMANADA – Esta semana só títulos tirados jornais diários: Cátia Palhinha é evangélica e lê a Bíblia em casa;Craque do Benfica namora à beira rio; Carla Salgueiro perdeu peso a dançar flamenco; Irina Shayk aquece o Natal dos portugueses; PSP precisaria de 17 milhões para pagar todas as dívidas; Jardim promete rigor financeiro; enriquecimento ilícito pode ser crime para todos; Portugal é líder europeu no fosso entre ricos e pobres; Bárbara Guimarães preparada para o frio; Obama assume paixoneta antiga por Meryl Streep.


 


ARCO DA VELHA – O presidente da Câmara de Amares construíu, para si próprio, uma casa de consideráveis dimensões, numa zona de reserva agrícola nacional, em violação de toda a legislação existente, mas confessa-se tranquilo porque a revisão do PDM, da autarquia a que preside, regularizará a situação.


 


VER - Com curadoria do britânico Peter Cherry , «A Perspectiva das Coisas» dedica-se à natureza morta na Europa através de diversos artistas, a partir de obras produzidas entre 1840 e 1955, e estará na Fundação Gulbenkian até 8 de Janeiro. Antes de irem ver a exposição espreitem o magnífico mini-documentário realizado por Filipe Araújo e que está no You Tube. Basta pesquisar  «Documentário sobre a exposição A Natureza-Morta na Europa» e encontram-no logo – tem quase oito minutos e é magnífico. E a exposição ainda sabe melhor se o tiverem visto antes.


 


LER – Há muito tempo que não me passava um almanaque pelas mãos, de maneira que fiquei contente  com uma publicação intitulada XXI e que é uma espécie de almanaque dos tempos actuais – ou um resumo do estado da nação, se quiserem. Da responsabilidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com edição de António Barreto, direcção de José Manuel Fernandes e colaborações de nomes como Ricardo Cabral, Pedro Santos Guerreiro, António Pedro Ferreira, Jorge Calado e Jorge Barreto Xavier, entre outros, a publicação tem o título genérico de «Dias Inquietos» e é um testemunho da época conturbada que vivemos. Textos de referência (destaco os sobre a banca, sobre a dívida, sobre tibunais, sobre a cultura e sobre a criação), boa fotografia (destaco o portfolio sobre os  portugueses), boa ilustração e boa paginação (de Jorge Silva). Só tenho pena que o formato seja tão pouco dado a guardar uma edição que merece ser preservada. Podia ser mais pequena em altura, assim quase como um livro, que encaixasse na estante e se fosse guardando ao longo dos anos, nas sucessivas edições. Espero que o projecto continue que eu ando deliciado a ler as suas 200 páginas. Custa 5 euros e está nas bancas de jornais.


 


OUVIR – Hoje vou socorrer-me de uma nota do blogue de Pedro Rolo Duarte, a propósito do novo disco de Rodrigo Leão, «A Montanha Mágica»: « Já lí criticas absurdas sobre o Rodrigo Leão “refém” do estilo que criou – como se isso não fosse o melhor que um compositor pode ter e ser, ele próprio no universo musical que criou para si». Também já eu ouvi estes reparos e admito até que nos primeiros instantes pensei que a coisa estava muito igual. Mas depois fui descobrindo os momentos de encanto e, sobretudo, tenho tido o maior gôzo do mundo em ouvir o disco vezes sem fim – anda comigo sempre no iPhone, ouço-o literalmente por todo o lado. Confesso que quando o ía comprar numa discoteca e percebi que custava entre 17 e 20 euros, dependendo dos sítios, e tinha um DVD que não me interessava para nada, resolvi o problema no iTunes por menos de 10 euros e  tive o disco no minuto. Gosto cada vez mais de o ouvir – e é curioso que Rodrigo Leão tenha voltado a tocar baixo, como fazia nos Sétima Legião. Maioritariamente instrumental, com arranjos mais simples, o CD tem três temas cantados – um pelo brasileiro Thiago Pethit, outro pelo australiano Scott Matthew e finalmente, algo inesperadamente, o terceiro pelo autor da capa do disco, o ilustrador Miguel Filipe,  e que acaba por ser uma boa surpresa. E assim se vê que a aparente igualdade é afinal feita de muitas diferenças.


 


PROVAR – Vou fazer uma confissão: sou fã de caracóis – daqueles que se cosem com ervas e nalgumas localidades são conhecidos por “vagarosos”, mas também dos bolos – a massa suave, enrolada de forma concêntrica, com pequenos pedaços de fruta cristalizada pelo meio, de preferência levemente tostada. Até prova em contrário acho que os caracóis (bolos) da Versailles, na Avenida da República, são os melhores que há. Alguém devia lá ter levado o “chef” Anthony Bourdain, que nos últimos dias andou por Lisboa a filmar petisquices diversas – ainda para mais o prédio da Versailles está restaurado de novo em toda a sua grandeza, mostrando sem vergonhas como é um dos mais bonitos edifícios de Lisboa. E com o melhor caracol… Acho que tinha ficado bem no programa televisão que Bourdain cá veio filmar.


 


BACK TO BASICS –  O socialismo terá valor simplesmente porque levará ao individualismo – Oscar Wilde


 


 


 


 


 


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Dezembro) 


 


 


 

Voltar às origens

Experimentem ver com atenção as bancas de frutas, legumes e frescos dos supermercados. A maioria dos produtos vem de Espanha e de outras origens. São raros os casos de origem portuguesa. Por mais que me expliquem que a situação tem a ver com preço, uniformidade do tamanho, embalagens estandardizadas, nada disto me convence. Ainda por cima em muitos casos tenho que comprar uma quantidade que não me interessa ter, porque só se vendem as embalagens inteiras e não se pode comprar a peso. A coisa agrava-se quando se percebe que muita da fruta é descongelada e nunca atingirá o seu ponto de maturação ideal, passando a podre com enorme velocidade. Alguma da comida que se compra assim, embalada, acaba muitas vezes por se estragar antes de ser consumida.




Mas, em muitas lojas de bairro e nos pequenos mercados continuo a ver produtos portugueses, que se podem comprar ao peso. Os vendedores vão comprar os produtos frescos aos mercados abastecedores. No comércio de rua e nos mercados, ao contrário dos supermercados, a maioria dos produtos vem de Portugal. Muitas vezes as maçãs não são todas iguais, mas sabem melhor e são mais frescas – viveram sem a agressão do frio.


Vejo com agrado que nalgumas zonas, muitas bem perto de Lisboa, lentamente estão a ressurgir produtos artesanais – desde doces a queijos e a pão, passando por pequenas produções de fruta ou de legumes, que se podem comprar no comércio local e às vezes dentro das próprias explorações.


 


Vou dar o exemplo de um produtor de morangos que, na época,  vende na sua propriedade os melhores morangos que conheço, colhidos diariamente e vendidos por ele próprio. São incomparáveis, em sabor e textura aos que se vendem nos supermercados das proximidades e são mais baratos.  E mais -  ele criou quase por acaso uma rede de pequenos produtores nacionais e recebe fruta de outros locais, como do Algarve, em que a qualidade é também superior. E agora, mesmo quando não tem morangos, faz negócio.


 


(Publicado no diário Metro de 5 de Dezembro)

dezembro 02, 2011

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VIOLÊNCIA – A semana passada encerrou com os ecos da greve geral e das manifestações, com algumas pessoas preocupadas com a eventualidade de alastrarem confrontos violentos. Um dia depois percebia-se que a maior violência está, afinal, nos campos de futebol, nas claques acicatadas por dirigentes sem escrúpulos e por provocações grosseiras. Mas a violência é também mais preocupante nos crimes domésticos que crescem de dia para dia, nos assaltos violentos que proliferam – e a preocupação das autoridades deve estar mais dirigida para aí, para o combate à insegurança nas ruas, do que para conspirações saídas dos livros de espionagem ou de manuais de guerrilha urbana. O que as pessoas querem é maior segurança nas ruas, maior protecção às suas casas e aos seus bens, não é mais polícias nas manifestações. Se os responsáveis pelas autoridades alinharem nas conspirações, vão estar a desproteger os cidadãos do roubos e violência, e isso sim é que é grave. Quem manda nas polícias tem um clima de insegurança para resolver – mas esse clima não vem dos protestos, vem de actividades criminosas. Concentrem-se nisso – e em fazer funcionar a justiça, para evitar que os criminosos sejam soltos quase à velocidade a que são detidos - que os contribuintes agradecem.


 


SERVIÇO PÚBLICO – Os estudiosos do serviço público de televisão e os fanáticos da impossibilidade de mudar o que quer que seja fariam bem em olhar para o que se está a passar na PBS, o Public Broadcasting Service, criado nos Estados Unidos e que agora, espante-se, está também disponível no Reino Unido, terra da sacro santa BBC. O novo canal, com uma programação autónoma e distribuído pela British Sky Broadcasting e pela Virgin Media, chama-se PBS UK e tem uma participação a nível de investimento do Quadra Group. Pretende atingir um público com exigências a nível da cultura e da informação, educado e com capacidade económica e irá incluir serviço informativos produzidos localmente sob o princípio da objectividade e independência que caracterizam a estação norte-americana. Os nossos estudiosos também poderão reparar que a PBS planeia já distribuir o canal para outras regiões, incluindo a India, Escandinávia e África. Tudo isto acontece quando continuamos sem saber o que será no futuro o serviço público de televisão em Portugal – nem a questão da publicidade nem do número de plataformas de distribuição é factor essencial, o fundamental é acordar que tipo de conteúdos e de serviços queremos, nos programas e na informação, e depois podemos começar a perceber que canais podem e não podem existir, que estruturas são necessárias e como se organiza o modelo de gestão. O que eu sei é que agora estamos numa altura em que a RTP2, entre os espectadores do cabo, e que já são a maioria, fica atrás da SIC Notícias, Hollywood e Sport TV e praticamente empatada com o AXN. O que quer dizer que é mesmo importante repensar todos os modelos e começar a desenhar de novo o que se quer fazer – até porque falta apenas um ano – pouco tempo em matéria de televisão – para que algumas medidas concretas têm que ser tomadas – como a privatização, que também ainda ninguém explicou bem o que vai ser.


 


PROVA -  O recibo de salário de Dezembro deste ano vai ficar como prova e testemunho do que a irresponsabilidade e a megalomania de um homem podem fazer. Por mais crise internacional, por mais mau estado das finanças públicas, por mais heranças que tenha encontrado,  José Sócrates andou a alargar o buraco – e muito - em vez de o reparar. O PS, que agora brada aos céus, empurrado por Soares e comandado via telemóvel dos Campos Elíseos pelo próprio Sócrates, foi cúmplice e  entusiástico apoiante de todas as políticas mais ruinosas que vimos nos últimos anos – ou estão esquecidos do congresso unanimista que reelegeu Sócrates e o colocou num pedestal?




SEMANADA – Semanas antes de sair do Governo, o ex-secretário de estado da energia do muito ambientalista governo de Sócrates encomendou para o Governo um Audi de cilindrada elevada e motor de combustão e, apesar do entusiasmo retórico, não escolheu nem um híbrido nem um veículo de motor eléctrico; ao longo da última década a carga fiscal subiu em Portugal o dobro do que desceu na OCDE, ou seja o peso das receitas de impostos sobre o PIB subiu dois pontos percentuais; aos poucos recomeça o folhetim da regionalização – agora Rui Rio veio propor que além da região Norte seja também criada uma região Porto; o vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, Norberto Rosa, foi vítima de carjacking perto de Lisboa e obrigado a ir levantar dinheiro com os seus cartões a caixas multibanco.




ARCO DA VELHA – O Supremo Tribunal de Justiça comprou em 2004, para o gabinete do seu Presidente, um quadro da pintora Vieira da Silva por 80.000 euros e metade deste montante foi coberto por facturas falsas, com a conivência dos serviços, do Presidente e dos juízes que integravam o Conselho de Administração do STJ.


 


OUVIR –Editado em Outubro de 1973, «Quadrophenia» foi o sexto álbum de originais dos Who e a sua segunda opera rock – a primeira havia sido «Tommy» (1969). Localizada nos anos 60, «Quadrophenia» desenvolve-se em torno da história de um mod, de seu nome Jimmy - os mods eram os rivais dos rockers, gostavam de ryhtm’n’blues,  soul e reggae, casacos de bom corte e preferiam as Vespa às motos Triumph ou BSA. Mods e rockers envolviam-se frequentemente em zaragatas, e algumas, ocorridas em Brighton, ficaram célebres e inspiraram parte da história do disco. Jimmy é de facto a figura central da obra e é ele que conta a sua própria história, na primeira pessoa – as suas dúvidas, as suas angústias, as suas frustrações e as suas inseguranças. Marca de uma geração, montra do talento e do excesso de Pete Townshend, o líder dos Who, bem acompanhado por Keith Moon, Roger Daltrey e John Entwistle. Há temas históricos neste disco - «The Real Me», «o tema –título «Quadrophenia», «Cut My Hair», «Doctor Jimmy» e o intrigante «The Rock». Originalmente um duplo LP, surge agora uma edição em duplo CD que inclui todos os temas originais, remasterizados, e 11 versões demo inéditas e todo o material gráfico original da edição em LP.


 


LER – A edição especial Dezembro/Janeiro da revista «Monocle» já está nas boas bancas de revistas, tem 314 páginas e um suplemento especial sobre a Dinamarca, que é absolutamente para guardar e levar na próxima visita a Copenhaga. Além disto a revista estreia uma lista das 100 pessoas, produtos e lugares que influenciarão o próximo ano, um guia dos 50 locais a conhecer em viagem e um guia de presentes de natal. Esta é também a edição que faz o relatório dos 30 países com «soft power» - que no conceito dos editores da revista tem em conta os recursos naturais combinados com a criatividade e o pensamento contemporâneo. A revista testou os países em 50 segmentos de análise, desde a percentagem do PIB investida em ajuda externa até ao património classificado pela Unesco, passando pelo número de medalhas obtidas nos Jogos Olímpicos, número de utilizadores de internet ou taxa de criminalidade – são 20 indicadores ao todo. Os Estados Unidos estão no primeiro lugar, seguidos do Reino Unido, França, Alemanha, Austrália e Suécia. Portugal entrou este ano no ranking na 25ª posição, descrito como a potencial Califórnia da Europa (o Pedro Bidarra deve estar contentinho…) mas com um grave problema de falta de dinheiro. A Espanha ficou na 13ª posição, o Brasil na 21ª e atrás de nós ficaram Israel, Índia, Rússia, República Checa e Grécia.


 


PROVAR – Gostam de amêndoas? – não estou a falar das de Páscoa – mas de amêndoas cortadinhas, espalhadas numa bela massa, dura q.b. e tostada, formando uma gloriosa tarte? Se é esse o caso podem dar um salto à Mercearia Criativa às 16h00 de Domingo dia 4, Avenida Guerra Junqueiro 4A. Esta tarte tem marca: A Tarte, com o subtítulo A Melhor Tarte de Amêndoa. Eu já provei e garanto que é candidata ao título de sobremesa do ano. Para além da Mercearia Criativa, A Tarte está disponível no Gelato Mio de Miraflores e no QB Essence, em Oeiras. Mas o mais fácil é irem ao Facebook, onde está tudo explicado sobre A Tarte, como a comprar, onde a encontrar – basta ir a facebook.com/amelhortartedeamendoa e na secção de informações encontram o que é preciso para se viciarem neste doce. E não é exagero meu.


 


BACK TO BASICS –  O imposto é a arte de depenar o ganso fazendo-o gritar o menos possível e obtendo a maior quantidade de penas – John Pollard

novembro 29, 2011

COMO A EMEL ARRUÍNA LISBOA

No sábado passado resolvi aproveitar a manhã para ir fazer algumas compras em lojas de rua, no comércio tradicional. Quando ía a chegar, um carro que estava estacionado, saíu. Aproveitei e estacionei. Um pouco à frente estava um carro em dupla fila e um pouco atrás estava outro, em cima do passeio. A zona onde parei, Avenida António Augusto de Aguiar, tinha parquímetros e eu não tinha moedas. Ao lado havia um café e eu, pobre ingénuo, pensei assim: tomo um café, compro o jornal, fico com trocos e já cá venho. Ainda olhei à volta a ver se via algum EMEL, para o avisar, mas nada. Estacionei em cima das 11h00. Demorei no máximo dez minutos a tomar o café. Quando cheguei tinha um aviso no carro, com indicação de que era das 11h05. Não havia rasto de nenhum agente da EMEL. Presumo que estivesse emboscado antes, à espreita, e que depois tivesse zarpado, muito contente com o seu feito. O carro em dupla fila continuava no mesmo sítio e em cima do passeio estava o outro. Nenhum deles tinha multa nem aviso da EMEL.


 


Dei comigo a pensar que é assim que se dá cabo de uma cidade. António Costa prometeu há uns anos acabar com os carros em segunda fila. Como todos sabemos a segunda fila tem crescido ao mesmo ritmo do aumento de poderes da EMEL e da sua intransigente perseguição aos lisboetas.




Depois do incidente de sábado dei comigo a pensar nisto: o racional da EMEL é evitar que entrem tantos veículos para estacionar em Lisboa. Ora, ao sábado de manhã, a entrada de carros na cidade é muito diminuta quando comparada com os outros dias. E é legítimo pensar que a maioria dos carros que circulam ao sábado de manhã na cidade são de residentes. Por isso acho que seria uma medida positiva para o comércio de rua da cidade que ao sábado não se pagasse estacionamento – até porque é mais barato estacionar no parque de um centro comercial que na rua. Ao perseguir e punir munícipes ao sábado de manhã a EMEL acaba por ser inimiga do comércio tradicional e beneficiar os centros comerciais e as grandes superfícies. É Esta a cidade que queremos?


 


(Publicado no diário Metro de 29 de Novembro)

novembro 25, 2011

Frente Única, Mário Soares e a Espiral da Crise

FRENTISMO – Nos anos 30, muito por inspiração dos partidos comunistas, através dos sindicatos, e perante a cumplicidade dos partidos socialistas (ou social-democratas na época), desenvolveu-se a política da Frente Única, que se destinava a juntar as forças de esquerda contra a direita e o capitalismo. Nalguns países a Frente Única teve vitórias eleitorais, noutros ganhou identidade como forma de resistência, já a guerra despontava ou estava em pleno.


 


Assistimos nestes dias a um ressurgir das ideias e práticas da Frente Única, bem expressas no Manifesto encabeçado por Mário Soares contra as políticas de austeridade. Há aqui um fenómeno curioso – nos anos 30 a Frente Única reivindicava protecção social, melhores salários, horários mais reduzidos. Anos mais tarde, no pós-guerra, muitos desses objectivos foram conseguidos criou-se na Europa o Estado Social, que acabou por chegar a Portugal mesmo no anterior regime, e com a satisfação de reivindicações as águas separaram-se e as várias partes da Frente Única seguiram cada uma o seu rumo. O progresso social foi enorme – o problema foi ter deixado crescer a protecção do Estado muito para além das posses do próprio Estado – quase sempre com o pano de fundo do acenar promessas eleitorais. Quem rejeita a ideia de viver melhor? E quem disse quais os custos que muitas medidas teriam a longo prazo? Quase oito décadas depois, e um pouco por todas as economias em crise, ensaiam-se novas frentes únicas – com mais ou menos indignados.


 


Esta nova vaga de protestos acontece porque o Estado Social ameaça ruína e aquilo que se dava por garantido, afinal já não está seguro nem certo. A evolução das sociedades industriais na Europa e o próprio progresso tecnológico aceleraram de forma dramática o desemprego – sem grandes possibilidades de criação em massa de novos postos de trabalho. Em muitos países a produção industrial quase desapareceu. O abandono dos campos, a concentração nas cidades, a ilusão da abundância, alteraram o precário equilíbrio das sociedades – e Portugal, com a desertificação do interior, o abandono das pescas e da agricultura, a falência de sectores da indústria, é um case study do crescimento desorganizado – e fora de tempo – de uma sociedade. A Frente Única, ontem ensaiada na greve, quer que o papel do Estado não mude, apesar de o Estado manifestamente não ter dinheiro. ~


 


Aquilo a que assistimos – e que nos atinge a todos - resulta de anos de encargos excessivos, de deficits acumulados, de dívidas aumentadas. Não se pode distribuir aquilo que se não tem, e distribuir com base em dívida é sempre uma péssima solução como agora vemos – é isto que a Frente Única não percebe, e que Soares bem sabe mas que quer aproveitar em mais um esforço para voltar a ser protagonista da História. Acontece que, em boa parte, foram os seus amigos socialistas, por essa Europa fora, que inspiraram ou incentivaram esta economia cronicamente deficitária, em nome de uma ilusória distribuição da riqueza, que afinal não existia. E em Portugal foram eles que, nos últimos 15 anos, conduziram alegremente o aumento exponencial da dívida, dos encargos do Estado, da falsa prosperidade. A Frente Única é uma receita do passado – e numa certa medida a responsável pela situação que se desenvolveu e que nos conduziu aqui – a do Estado gastar mais do que aquilo que podia. A geração de políticos do pós guerra construiu este modelo e deixou de herança os encargos. E agora aparece, sobressaltada, a querer revisitar o passado sem se preocupar, mais uma vez, com o futuro.


 


ESPIRAL – O sistema financeiro tem evidentes culpas no cartório, os reguladores dos mercados têm evidentes culpas no cartório, mas é justo reconhecer que os Estados têm também uma boa parte dessas culpas. Para satisfazerem os compromissos crescentemente deficitários com as políticas sociais – desemprego, saúde, educação, subsídios diversos – e também para pagarem obras muitas vezes desnecessárias e políticas incompreensíveis, os Estados foram pedindo mais e mais dinheiro aos bancos, já que as receitas não chegavam para a despesa; os bancos acharam que emprestar aos diversos Estados era um negócio seguro, que rendia bons juros e, de certa forma infindável – os deficits aumentavam, o serviço da dívida aumentava, cada vez era preciso maior financiamento. Desta forma os bancos alegremente compraram dívida pública de vários países. Pior, toda a sociedade se habituou a viver de dinheiro que não existia – os particulares com créditos de consumo, as empresas com créditos para toda a espécie de projectos - muitas vezes baseados em planos de negócio utópicos. Criou-se a prosperidade aparente baseada num sistema de dívida crescente.


 


Quando alguém se lembrou de fazer contas e disse que os devedores não tinham dinheiro para pagar as dívidas, o mundo ficou em estado de choque. A espiral tinha tomado conta da situação. Essa é a situação em que nos encontramos e esse é o grande problema – que fez surgir o apetite cada vez maior pela especulação e que acelerou a crise na zona Euro – uma zona artificialmente criada e que, agora, para sobreviver, substitui governos eleitos por técnicos escolhidos. O aprofundamento da Democracia, que a Europa era suposta proporcionar, afinal está a cair por terra.




SEMANADA – Jardim vai gastar três milhões de euros em iluminações de Natal e fogo de artifício; Paulo Penedos recebeu 1,2 milhões de Manuel Godinho; funcionários do parlamento ponderam fazer greve no dia da votação do Orçamento de Estado; em 2010 a violação do segredo de justiça deu origem a um processo por semana.




ARCO DA VELHA – Parece que em 2012 vão desaparecer os incentivos para a compra de carros eléctricos. E agora para que servem os electrões que andam aí pelas ruas a ocupar bons lugares de estacionamento? E o dinheirão que se gastou naqueles equipamentos todos?  - há mais carregadores que carros…


 


VER– Até Domingo à noite, no Pavilhão 1 da FIL, no Parque das Nações, decorre a Arte Lisboa – ainda não percebi porque não realizam esta Feira na Junqueira; Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, fotografias de Pedro Medeiros e de Mauro Cerqueira; na Galeria Avenida 211 (Avenida da Liberdade 211, 1º-esq) fotografias de Álvaro Rosendo (que bom rever o seu trabalho!), de José Drummond e instalações de Edgar Massul; na re-searcher gallery (Rua da Madalena 80D), Luis Miguel Castro expõe curiosos retratos de figuras portuguesas, de Mário de Sá Carneiro ao Marquês do Pombal, num traço onde a ironia e a observação se complementam.


 


OUVIR – Gordon Sumner nasceu em 1951 e a partir de 1977 começou a ser conhecido como Sting, quando os Police iniciaram o seu percurso musical e rapidamente ganharam fama. Na sua carreira Sting tem mais de 100 milhões de discos vendidos e recebeu 16 grammys. A sua música foi oscilante, mas ele é indiscutivelmente um grande compositor de canções, daquelas que ficam associadas a épocas ou episódios da vida de cada um. Para assinalar os seus 25 anos de carreira a solo e 60 de idade foi agora editado um duplo CD com 31 temas dos seus discos, desde “If You Love Somebody Set Them Free», de 1985, até «End Of The Game» de 1910, passando por «Moon Over Bourbon Street», «Englishman In New York» ou «Mad About You». Todos os temas foram remasterizados e  algumas, do primeiro disco, foram remisturadas. Edição AM/Universal


 


LER – Na Vanity Fair deste mês a capa é uma bela fotografia de Scarlett Johansson feita por Mario Sorrenti. Lá dentro a actriz fala do seu novo filme «We Bought A Zoo» de Cameron Crowe, do trabalho com Woody Allen e até dos seus percalços na internet. Outros artigos de interesse abordam os mitos de Jacki Kennedy, uma revisitação dos anos em que Margaret Thatcher esteve no poder e as guerras de sucessão no império Murdoch. Finalmente, aqueles que se interessam pelos negócios do desporto gostarão de ler sobre o método de trabalho de Billy Beane, o homem que revolucionou a gestão da equipa de baseball Oakland A’s com base na psicologia cognitiva.


 


PROVAR – As Conservas Nero renasceram da cinza e propõem dois petiscos: a Muxama de Atum Catraio em conserva e o Peixe Espada Preto de Sesimbra em conserva de azeite. Ambas resultam muito bem em cima de pão tostado, com um bocadinho de azeite e umas gotas de limão. Nestes últimos anos a tradição conserveira portuguesa está a renascer e isso é uma boa notícia. Com estas conservas pode preparar-se uma bela entrada ou até, no caso do peixe espada preto,  uma salada com um toque inesperado. Em época de crise as conservas tradicionais são uma boa alternativa para manter o espírito gourmet numa versão low budget.


 


BACK TO BASICS –  Falar por soundbytes é o estado contemporâneo da política e isso não acrescenta informação nem enriquece o debate – Sting.


 


(publicado no Jornal de Negócios de 25 de Novembro)


 

novembro 22, 2011

GASTAR É FÁCIL

Na semana passada foram conhecidas as contas dos gastos partidários nas eleições legislativas deste ano. Poucos cumpriram, vários excederam, e, no caso do PS, a situação das finanças partidárias é caótica e se em vez de um partido político fosse uma empresa, teria que fechar portas.


 


É terrível ver como muitos dirigentes partidários e políticos, nos seus partidos e nas funções oficiais a que são chamados, seja em autarquias, no Governo ou em empresas públicas, geram mais despesa do que a receita que conseguem obter.


 


Penso que existe uma explicação para este estado de coisas, que corrói a sociedade portuguesa: o grande problema de muitos políticos é que o dinheiro que usam (e de que abusam), não é deles – seja no partido, seja no Estado. O princípio geral que é seguido nestes casos é que alguém há-de, um dia, pagar. Usam o dinheiro dos outros de uma forma despreocupada.


 


Estamos a viver as consequências deste laxismo – nas empresas públicas, no sistema de saúde, na educação, nas autarquias. E como o dinheiro dos outros vem sempre do mesmo sítio, o resultado é sempre o mesmo: aumentar taxas, impostos, inventar forma de ir buscar mais dinheiro ao bolso dos contribuintes. O Estado é mais criativo na forma de nos tirar dinheiro da algibeira do que em encontrar soluções para os gastos.


 


Nos últimos tempos tem sido evidente uma outra situação – muitos políticos que foram chamados a assumir funções de gestão em empresas ou que criaram os seus próprios negócios meteram-se em maus lençóis. Hoje em dia existem muitos casos em que se tornou claro que os maus hábitos e más práticas que tinham no Estado se passaram de armas e bagagens para a sua actividade privada. Mas porventura o mais chocante é a forma como alguns políticos centraram a sua actividade empresarial privada exclusivamente em actividades especulativas e em obtenção de contratos de favor.


 


Uma democracia, para funcionar, precisa de políticos, competentes, sérios e dedicados à causa pública. Nos últimos anos têm sido raros.


 


(Publicado no diário Metro de 22 de Novembro)

novembro 18, 2011

O Grupo de Trabalho, o Sr. Duque e sugestões avulsas

O GRUPO – Foi finalmente conhecido o relatório do Grupo de Trabalho sobre o serviço público de comunicação. Dedica mais atenção à televisão do que à rádio e agência noticiosa, mas isso reflecte o peso das audiências nas decisões políticas. De uma forma geral a primeira constatação é que o estudo é muito marcado pela conjuntura e é bastante mais pródigo em recomendações tácticas do que numa reflexão estratégica assente no estudo comparado de vários modelos e virada para o futuro. Embora use muito palavreado digital, a nova realidade dos media é de facto pouco analisada e, de uma forma geral, a repercussão desta realidade no futuro da comunicação é vista de passagem. É pena, porque se isto é para ser aplicado depois de 2012, como já disse o Ministro Miguel Relvas, este seria o caminho mais interessante a explorar, porque o resto já se encontra decidido pelo Governo – talvez por saber isto mesmo o estudo faz recomendações para o curto prazo, numa espécie de afirmação de demarcação do executivo. O melhor do estudo é apontar um caminho de não concorrência do serviço público aos operadores privados; o pior do estudo é uma sugestão de interferência demasiado grande nas políticas de programação e editoriais, algo que não se esperava. Para resumir de outra maneira, o estudo preocupa-se mais com a forma de distribuição dos conteúdos do que com os conteúdos em si – e essa é a sua maior falha.




SEMANADA – A propósito da audiência com Obama, o “Washington Post” fez esta tradução fonética do nome do Presidente português Anibal Cavaco Silva: ah-NEE’-bal ca-va-COO’ SEEL’-vuh; terça feira de manhã o Ministro Santos Pereira anunciou o fim da crise; no mesmo dia, já depois de almoço, anunciou que afinal era apenas o início do fim da crise;  segundo o Eurostat Portugal é o único país da zona Euro em recessão técnica; em Viseu a PSP não conseguiu efectuar uma perseguição porque todos os seus carros estavam avariados.


 


ARCO DA VELHA –  O coordenador e porta-voz do grupo de trabalho sobre o serviço público de televisão preconizou, na TSF, que  a informação emitida pela RTP Internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” pelo Governo, sublinhando que esse tratamento “não deve ser questionado” e tudo isto, como salientou, «a bem da nação».


 


VER – «Sangue do Meu Sangue», de João Canijo, é um dos mais brilhantes filmes portugueses que me lembro de ter visto. É uma crónica contemporânea do que se passa ao lado das grandes cidades. Eça de Queiroz escrevia sobre os conflitos na burguesia da província, mais de um século depois Canijo filma a tensão nos bairros periféricos. Mas, em épocas e com meios diferentes, ambos acabam por ter pontos comuns, fruto da condição humana e da persistência dos comportamentos. Este não é um filme passadista, é muito actual e real. Canijo é dos realizadores portugueses que mais filmou, graças aos anos em que trabalhou como assistente de realização de Manoel de Oliveira e isso sente-se no domínio da técnica, algo que, no cinema, só vem com o tempo. Mas sente-se nele também a influência da cultura popular urbana, que apareceu em filmes e na música inglesa nos anos 90, e cujos exemplo e linguagem visual João Canijo assume. A ideia do argumento funciona e os diálogos – escritos num processo colaborativo com os actores – são quase perfeitos e, mesmo nas cenas mais duras, são naturais. No filme é muito curiosa a opção, em diversos momentos, por fazer decorrer duas acções diferentes em simultâneo, com recurso a soluções de enquadramento ou de cenário que são uma mais valia da realização. A produção – exemplar, assinada por Pedro Borges – acompanha este esforço de realização ao garantir meios para uma captação sonora que facilitou a criação de ambientes diferentes, ou, ainda, pelo cuidado posto no guarda roupa. E, claro, o filme vive também da intensidade e qualidade da interpretação de Rita Blanco, Cleia Almeida, Rafael Morais, Anabela Moreira, Fernando Luís ou Nuno Lopes. E, também, deve muito à fotografia de Mário Castanheira. «Sangue do Meu Sangue» foge a moralismos fáceis ou cartilhas de encomenda. É um retrato do que se passa à nossa volta e que por vezes muitos não querem ver.


 


OUVIR – Jorge Palma é um dos maiores talentos da música portuguesa e um dos compositores que melhor sabe usar a língua portuguesa, uma fonética nem sempre fácil para canções. Muita gente considera que os melhores poetas dos tempos que correm são os que escrevem grandes canções. Se isso é assim – e eu acho que sim – Jorge Palma é um desses grandes poetas modernos da língua portuguesa. Mas neste disco fez questão de cantar outras escritas, como a de José Luis Peixoto em «Pensámos em nada», ou o marcante «Uma Alma Caridosa» de Carlos Tê, que começa logo assim: “Recebi um postal com carimbo do Estado/ Sem razão para tal senti-me logo culpado/fui a quem de direito pedir explicações/ninguém sabia do meu caso nas repartições.” Haverá melhor retrato do nosso Estado do que este? Este novo disco de Jorge Palma, «Com Todo o Respeito», é também surpreendente do ponto de vista musical, na mistura de gerações e influências, de Flak (ex Rádio Macau), que produziu, aos jazzmen Carlos Bica e Carlos Barreto, ao Gabriel Gomes e o seu acordeão, a voz fadista de Cristina Branco e o sólido rock d’Os Demitidos. Tenho o disco há uma semana e é raro o dia em que não o oiço. Destaques: «Página em Branco», «Tudo por Um Beijo», «Anjos de Berlim», «Pensámos em Nada», «Uma Alma Caridosa» e «Soltos do Chão». Aos 55 anos de idade Jorge Palma faz um dos seus melhores discos – e leva dezena e meia no activo.


 


LER – «Cartas do Meu Magrebe», de Ernesto de Sousa, é um livro que de início me aborreceu  – parecia a descrição de alguém encantado com os bons selvagens e irritado com o som dos transístores nas ruas de Marrocos e da Argélia. Depois a coisa suaviza, mas nunca se perde o sentimento do ocidental que foi ver uma revolução anti-colonial no terceiro mundo num estado de algum encantamento. O interessante da história é que tudo isto se passa no início dos anos 60, em crónicas de viagem ao estilo de curtas reportagens, enviadas para o «Jornal de Notícias» - que publicou 17 e guardou outras seis na gaveta porque entretanto começou a Guerra Colonial e a Argélia tinha uma posição contrária a Portugal. As crónicas mais interessantes são as menos políticas, as que derivam mais da observação e de conversas do que de reflexões. Mas na realidade o ponto alto do livro são algumas das fotografias do próprio Ernesto de Sousa, nomeadamente a da página 26, «o amigo marroquino». “Nunca fui um bom turista”, escreve Ernesto de Sousa numa das crónicas deste livro – não esperem por isso encontrar aqui o tradicional livro de viagens. No regresso a Portugal Ernesto de Sousa enveredou decididamente pelo cinema (nessa altura já tinha feito “Dom Roberto”), pela fotografia e pela vídeo arte, de que foi um precursor. Este é apenas um episódio curioso na sua vida.  Edição Tinta da China.


 


PROVAR – O SoulFood Café é aquilo a que se poderia chamar uma cafetaria moderna. Também serve cafés, umas boas empadas e uns apreciáveis pastéis de nata, mas basicamente é um belo sítio para almoçar, comer umas tapas ao fim da tarde e eventualmente fazer um sossegado jantar de amigos. Há sugestões de pratos do dia ao almoço e também uma lista com sanduíches, tostas, massas e saladas, além de hambúrgueres (bons, caseiros, bem temperados) e um honestíssimo pica-pau. Os pratos da lista podem ser pedidos a qualquer hora, das 11 às 23. Ao almoço há sopa de legumes sempre fresca e  nos pratos do dia o campeão das preferências é o Bacalhau SoulFood mas, para mim, o mais surpreendente é o arroz de pato, invulgar e cativante. Todos os dias há sobremesas diferentes, e do bar, além do trivial engarrafado,  pode pedir um smoothie ou um sumo natural, ou uma das boas sugestões de vinho a copo. O serviço é muito simpático, o trabalho da cozinha é atento e criativo e a matéria prima é boa. Os preços são adequados à crise. Falta dizer que a música ambiente é basicamente soul e jazz e que no ecrã de plasma passa muitas vezes a Fashion TV. O ambiente é agradável e confortável – a sala é comandada por Joana Costa e Pedro Pereira e a cozinha por Luísa Sousa. Av. Miguel Bombarda 133 B, telefone 213 161 163


 


BACK TO BASICS – O primeiro sinal da decadência de uma sociedade é fazer crer que os fins justificam os meios – Georges Bernanos


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 18 de Novembro)


 

novembro 15, 2011

Os transportes que temos e os tempos que vivemos

Se é utilizador de transportes públicos, provavelmente as greves recentes afectaram o seu conforto e prejudicaram o seu trabalho. Também se sente afectado pelas medidas de austeridade, e agora está na dúvida entre as medidas e os protestos contra essas medidas. Provavelmente já percebeu que a vida de todos nós está a mudar e que muito pouca coisa continuará como dantes.


 


Usando uma expressão popular, acabaram os anos das vacas gordas - só que essas vacas engordaram à custa de uma ilusão, de empréstimos atrás de empréstimos, para pagar despesas que nunca deviam ter sido criadas, encargos absurdos.


 


Os transportes públicos – comboios, metro, autocarros, estão todos numa situação próxima da falência. Se nada for feito o risco é que eles deixem de poder funcionar ou que funcionem em moldes muito mais reduzidos.


 


Os sindicatos também têm uma quota de responsabilidade na situação criada – aqui, como noutros sectores da esfera pública, reivindicaram remunerações, prémios, bonificações e subsídios que tornaram os custos de pessoal num pesadelo – nalgumas empresas de transportes, e nalgumas categorias profissionais operacionais, existe um prémio por comparecer ao trabalho, para além da remuneração normal. Além de poder ter havido má gestão, houve também uma total falta de noção da realidade. A recusa da realidade tem custos e são eles que aí estão agora, a pôr em causa um sistema e a comodidade dos passageiros.


 


Durante anos o Estado recusou-se a encarar o facto de os preços dos bilhetes e dos passes estar desactualizado face ao aumento dos custos de pessoal, de combustível e de exploração das redes existentes. Os prejuízos acumulados criaram esta situação insustentável. Uma parte dos impostos de todos é consumida a subsidiar estas empresas de transportes, que mesmo assim foram acumulando elevados prejuízos. Não é preciso ser vidente para perceber que as coisas não podem continuar assim. Os tempos mudaram e todos temos que nos adaptar a eles.


 


(Publicado no jornal Metro de hoje)


 


 

novembro 11, 2011

Sobre deveres, uma geração e sugestões avulsas

DEVERES – Cada vez que se fala em direitos lembro-me logo do pouco que se fala em deveres. Os direitos não são coisas abstractas – têm consequências práticas e fazem parte daquilo que deve ser o comportamento de cada um na sociedade – por isso mesmo não são imutáveis porque existem num conceito sujeito a mudanças. Muitas vezes não se pensa nisto, mas os direitos têm também muitas vezes repercussão económica - e devia ser um dever ter em consideração se eles são ou não suportáveis e sustentáveis.


 


Nos últimos dias assistimos a acções, no sector dos transportes, que me parecem carecer de algumas notas: muitos trabalhadores destes sectores acumularam ao longo dos anos uma série de prémios e bonificações, para além da sua remuneração contratada, que manifestamente os beneficia em relação a outros cidadãos; há casos em que existem prémios simplesmente por se comparecer ao trabalho – como no caso do Metro de Lisboa em algumas funções -  e, de uma forma geral, foi montado um sistema complexo de adicionais que contribuíu para levar as empresas de transportes ao estado de falência técnica em que se encontram, com custos fixos de pessoal incomportáveis.


 


O que me parece claro é que os direitos que alguns reclamam não vão de certeza existir se estas empresas falirem e fecharem. Os sindicatos, que patrocinaram e instigaram as reivindicações que levaram a esta situação ajudaram a pôr em causa o equilíbrio destas empresas e em boa lógica devem também ser responsabilizados por isso. E agora, sabendo perfeitamente o que se passa nessas empresas, no sector público e no país, alguns sindicatos estão a reproduzir o modelo clássico de oposição, persistindo em reivindicar o que já é utópico e com o mesmo método de sempre: greves em sectores críticos para agravar o descontentamento popular, preparando terreno para uma greve geral, anunciada para dia 24. Este esquema, tradicional, tem o objectivo de conseguir uma grande mobilização – daí as greves sectoriais, para criarem efeito bola de neve.


 


Acontece que  a evolução demográfica, o agravamento do desemprego, o progressivo afastamento das organizações sindicais das novas formas de trabalho e das novas profissões pode começar também a criar um efeito paradoxal – aumentar o número daqueles que são contra a greve geral e contra a ausência de perspectiva de realidade nas reivindicações apresentadas. Estou com curiosidade de ver como isto evolui – e de observar como fora dos sectores tradicionais, da órbita do Estado e das empresas públicas, a adesão à greve se concretiza. Os sindicatos estão a conduzir muitos cidadãos a desconfiarem cada vez mais de quem trabalha no sector público – e esse não é um bom serviço que estão a prestar a esses trabalhadores.



GERAÇÃO – Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, Jorge Moreira da Silva, Pedro Pinto e alguns outros menos conhecidos fazem parte de uma das primeiras gerações de quadros da JSD que têm uma coisa em comum: há muitos anos atrás participaram em acções de formação política patrocinadas e orientadas por parceiros internacionais do PSD e por organismos ligados aos social-democratas em Portugal.


 


No decurso desse período criaram sólidos laços uns com os outros, desenvolveram um corpo de pensamento, aperfeiçoaram um método de de actuação política e estabeleceram convicções ideológicas que hoje moldam de forma clara o posicionamento do PSD, mais do que na generalidade das anteriores direcções dos social-democratas.


 


De certa maneira quase se poderia dizer que esta é a direcção mais ideológica que o PSD tem, aquela que ensaia a ruptura com as questões paroquiais para se posicionar de uma forma mais globalizada. A minha dúvida é se esta ruptura e este posicionamento não vêm tarde, quando globalmente o posicionamento já é outro.


 


De qualquer forma é interessante seguir este percurso, observar como as formas de actuação são diferentes de anteriores Governos e como no PSD existe um posicionamento ideológico mais vincado e pouco tradicional no partido, por natureza eclético e muito mais táctico que estratégico. Será interessante também perceber como o PP conseguirá manter o seu terreno próprio, bem demarcado nos últimos anos, no meio desta nova forma de intervenção do PSD.


 


SEMANADA – Realizou-se a cimeira do G20; o primeiro ministro grego saíu de cena; os juros da dívida pública italiana continuaram a subir; o primeiro-ministro italiano anunciou ir sair de cena; a Espanha está em vias de mudar de Governo; o euro acentuou perdas face ao dólar; Armando Vara admitiu em tribunal ter recebido robalos e pão de ló de Manuel Godinho, que no anterior regime fez fortuna a comprar sucatas.


 


ARCO DA VELHA – Angela Merkel disse quarta-feira passada num discurso, em Berlim, que a Europa deve agir rapidamente para travar a crise.


 


VER – A pintora mexicana Frida Khalo é uma lenda – confunde-se às vezes o seu génio com a sua saga pessoal. No Museu da Cidade, ao Campo Grande, até 29 de Janeiro está patente uma exposição constituída por 250 fotografias do arquivo da Casa Azul/Museu Frida Kahlo, no México e que permite ter uma visão mais alargada da intimidade da artista. A exposição mostra ainda a forma como alguns fotógrafos viram a pintora – de Man Ray a Manuel Alvarez Bravo, passando por Edward Weston ou Brassai.


 


OUVIR – Isto é que nos faz velhos: perceber que um disco de que gostámos muito quando saíu, e que continua fresco na memória, afinal já foi editado há 20 anos. É isso que se passa com «Achtung Baby» dos U2, na minha opinião o seu melhor trabalho e o pico de uma carreira que a partir daí se centrou mais na glorificação de Bono e na criação de uma máquina bem oleada, mas bem menos criativa. Por ocasião deste 20º aniversário foi feita uma edição especial com dois CD’s, o primeiro a reproduzir os 12 temas da edição original e o segundo com lados B dos singles da época e misturas alternativas. Uma peça de colecção.


 


LER – A revista Monocle do mês de Novembro é muito oportunamente dedicada aos prazeres da comida – quase sem falar de restaurantes, mas abordando o aparecimento de lojas onde estão disponíveis produtos de qualidade, de produção local e biológicos, onde o serviço é um elemento diferenciador e onde a criatividade pode ser decisiva para captar clientes. De certa forma é o reverso da globalização encarnada pelos hipermercados onde existe tudo mas nada tem sabor. É parte do movimento do aproximar a produção de quem a consome. Para além deste tema de capa, a nova edição da revista tem outros pontos de interesse como o nascimento de novos negócios no Egipto, novas formas de trabalho e novas atitudes dos diplomatas (um artigo que seria muito útil para muitos embaixadores portugueses) e uma estimulante reportagem sobre a criação artística contemporânea em Los Angeles. Como a Monocle é essencialmente um sinalizador de tendências, vale a pena destacar a nova aventura dos editores da revista: depois da edição em papel e na internet, eis que surge uma aplicação para iPhone e iPad que permite ouvir a rádio Monocle, uma estação digital que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Consultem detalhes no site da revista, www.monocle.com, através do qual também podem ouvir as emissões.


 


PROVAR – O Tamarind (Rua da Glória 43) é um dos mais interessantes e peculiares restaurantes de gastronomia indiana em Lisboa, já aqui elogiado. É um espaço pequeno, que foi construindo a fama ao longo dos anos e que é dirigido pelo chef Hardev Walia, nascido na Tanzânia e com formação e experiência adquiridas em Londres. Há uns anos atrás rumou a Lisboa e abriu o Tamarind, que cedo deu que falar. Até dia 15, no âmbito da semana gastronómica da Índia, Hardev Walia mudou-se de armas e bagagens para o Restaurante Terraço, no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. Ao almoço funciona um buffet e ao jantar a lista é quem mais ordena – estimulada por danças indianas ao longo da noite. São já célebres as entradas vegetarianas, ou de carne e marisco, os papadums com molho de tamarindo, iogurte e chutney de manga, assim como o caril de camarão malai ou a galinha tikka masala. Podem ser feitas reservas para o Terraço do Tivoli para o telefone 213 198 934.


 


BACK TO BASICS – A forte convicção de que em todas as circunstâncias alguma coisa tem que ser feita, está na origem de muitas más decisões (Daniel Webster)


 


(Publicado dia 11 do 11 de 2011 no Jornal de Negócios)

novembro 08, 2011

SOBRE A RESPONSABILIDADE

Começo com uma citação, extraída de um artigo de opinião de Manuel Maria Carrilho, publicado na semana passada, sob o título “Opções Inadiáveis”.  Carrilho, que foi dirigente do PS e Ministro no Governo de Guterres, chama a atenção para a necessidade de os políticos assumirem as suas responsabilidades, “não tanto a responsabilidade pela assinatura do Memorando com a troika, mas a responsabilidade pelas opções que o tornaram incontornável e inegociável para Portugal”.


 


E sublinha: “A prolongada negação da crise e das suas consequências, em 2008, e a total desvalorização do endividamento do País e dos seus efeitos, em 2009 e 2010, fizeram o País perder tempo precioso. Foram erros nacionais, que a crise internacional não explica. E os portugueses não esquecerão tão cedo estas opções - nem o líder que as tomou, nem o Partido em nome do qual governava. Não há como contornar ou relativizar esta questão. Ela exige um sério exame de consciência e uma tão humilde como clara assunção de responsabilidades perante o País.”


 


Muitas vezes discordo de Carrilho, mas nisto ele tem toda a razão – no texto refere-se obviamente aos Governos de Sócrates, cuja actuação aliás criticou, mas eu tomo como boas as suas palavras em relação a todos os que tiveram responsabilidades políticas.


 


E é por achar estas palavras tão certeiras que fico chocado com a atitude daqueles que dentro do PS, como José Lello e outros, vieram apelar ao voto dos socialistas contra o orçamento, um voto que teria um duplo significado: em primeiro lugar sinaliza que o PS não quer cumprir o acordo com a troika; e em segundo lugar, e isso é que é mais interessante, mostra que aqueles que preferiam votar contra não vêem motivos de censura naquilo que o Governo do PS andou a fazer ao longo dos anos em que negou a realidade e permitiu que as coisas se degradassem ao ponto onde chegaram. Sabe-se que o próprio José Sócrates andou a instigar esta posição do voto contra, entre recados e encontros, mostrando assim que assumir responsabilidades é coisa que o continua a incomodar .


 


 (publicado no Metro de 8 de Novembro)

outubro 28, 2011

Sobre a reestruturação da RTP

TELEVISÕES - Que a RTP precisa de ser reestruturada – e muito – ninguém duvida. Que a reestruturação tem que ser feita por forma a não provocar danos irreversíveis no sector dos Media em Portugal é que é o ponto da questão, e esse é o tema que o Ministro Miguel Relvas persiste em iludir. A solução apresentada no início da semana pelo Presidente da RTP, Guilherme Costa, e que foi anunciada como tendo luz verde do Governo, é, a ser executada, uma bomba que deixará marcas em todas as áreas – provavelmente com maior intensidade na imprensa e na redução da diversidade dos orgãos de informação actualmente existentes.


 


Existem neste momento duas questões diferentes: a alienação da concessão de um canal e a forma como a RTP passará a viver e que tipo de serviço público prestará. Em relação à primeira, e se o Governo não puxar uns cordelinhos ou estimular uns accionistas, não se vislumbra grupo de media em Portugal interessado em correr o risco; em relação à segunda uma questão fulcral desde o início é libertar de vez o Serviço Público de publicidade, afastando-o do espectro de concorrência de audiências e da concorrência com os privados no mercado publicitário – basta aliás ver que as estações de rádio de serviço público não têm publicidade e que crescentemente as estações de televisão de serviço público de diversos países têm abandonado a venda de espaço publicitário, exactamente para evitar a concorrência com os privados e ajudar a manter a diversidade dos órgãos de informação.


 


Em termos de publicidade a questão é simples: actualmente a oferta de mercado é de 30 minutos por hora nos três canais (12 minutos na TVI e outros tantos na SIC e seis na RTP). Com a alienação de um canal, ele terá acesso aos 12 minutos que os outros privados também têm – e o lógico seria a RTP abandonar o mercado. Mas com a anunciada intenção de continuar com os seis minutos, a oferta total de espaço publicitário em canais de sinal aberto cresce dos actuais 30 minutos para 42, ou seja, um aumento de oferta de 40%. Não é preciso ser génio para perceber que quando a oferta aumenta desta maneira, o preço inevitavelmente cai. Acontece que o preço da publicidade de TV em sinal aberto já está tão baixo que a diferença em relação a outros Media, como a imprensa e a rádio, é menor que na generalidade dos mercados europeus – o que quer dizer que os canais portugueses de sinal aberto, que já captam 50% do total do investimento publicitário (o valor mais elevado da Europa), irão tendencialmente aumentar a sua quota de captação do investimento publicitário - mas paradoxalmente sem aumentar as suas receitas, já que o preço baixará (e já nem falo que muito provavelmente nem serão ocupados os 42 minutos disponíveis, porque na maior parte deste ano nem os 30 actuais têm sido integralmente utilizados). Convém aqui recordar que o investimento publicitário está a cair de forma acentuada há três anos seguidos, o que só por si deveria fazer pensar os responsáveis governamentais por estas medidas.


 


Tudo isto tem duas consequências – menos dinheiro nas estações para investir em conteúdos, que são a base de captação de audiências - o que provocará menor  eficácia das campanhas publicitárias e iniciará uma espiral de degradação de consequências imprevisíveis; e um desvio ainda mais acentuado do investimento publicitário da imprensa para a televisão, o que terá consequências na sobrevivência de uma série de títulos e na qualidade e diversidade dos títulos que ficarem. Por isso mesmo é que Francisco Balsemão se referia esta semana aos efeitos nefastos que esta medida, a ser cumprida, poderá ter em termos do pluralismo da informação e da qualidade da nossa democracia. Mas com um panorama destes também os anunciantes ficarão pior servidos – com queda de qualidade de conteúdos, a saída dos públicos dos media tradicionais para outros acentuar-se-à e nenhum, no imediato, lhes dará a cobertura e eficácia que as televisões de sinal aberto proporcionam quando têm boas audiências (qualitativas e quantitativas).


 


Aliás é o próprio Guilherme Costa, Presidente da RTP, quem faz um retrato certeiro do futuro ao admitir que, com o cenário de reestruturação do grupo RTP que anunciou, o impacte nas receitas de publicidade atingirá os 50% - e eu acho que este é um cenário optimista.


Só para sabermos do que estamos a falar, o total do investimento publicitário em Portugal deverá cair este ano na casa dos 10%, depois de ter caído 3% no ano passado e cerca de 15% em 2009. Mas este ano as televisões de sinal aberto já vão, nesta altura, a perder 11,5% e a imprensa vai a perder 15% .


 


Por tudo isto as decisões parecem ter sido tomadas à pressa, com pouca preparação e reflexão, apenas para fechar mais um dossier e, talvez, favorecer algum grupo interessado em entrar no mercado mesmo com os riscos que isso comporta. Será que o Governo está a levar ao colo algum potencial comprador?


 


Mas existe um outro aspecto do plano de reestruturação que é também, a outro nível, bastante inquietante. Daquilo que já foi revelado, o potencial comprador do canal da RTP que for alienado, terá que utilizar meios de produção da própria RTP, ficando mesmo obrigado a ser sócio de uma unidade autónoma que será criada para o efeito. Esta situação ataca directamente os produtores independentes de audiovisuais, que assim verão o mercado limitado – é um pouco paradoxal que o Governo utilize o argumento da concorrência nuns casos e que em outros o meta na gaveta. De qualquer forma, a confirmar-se esta situação, existirá um eventual incumprimento das normas europeias sobre as percentagens de produção independente que devem existir no mercado de produção audiovisual. A questão da produção independente é relevante porque ela já está a ser comprimida face aos cortes no investimento em conteúdos das televisões, e com este modelo de negócio previsto para a RTP e o eventual novo operador, o seu mercado ficará ainda mais limitado. Recordo apenas que a produção independente de audiovisual é fundamental para o crescimento de uma industria multimédia, a única forma de garantir que o português continue uma língua viva no novo mundo digital e que a nossa História e Cultura sejam salvaguardadas. Eu acho que o Governo nunca pensa nestas coisas – mas faz mal e vai deixar uma péssima herança se continuar nesta via.


 


SEMANADA – Business as usual:  Cavaco atacou as medidas do Governo; Cavaco reuniu o Conselho de Estado e de lá saiu um esfíngico comunicado a apelar ao diálogo; o PS entendeu logo isto como um puxão de orelhas ao Governo e elogiou Cavaco; Merkel vetou mais algumas propostas; Teixeira dos Santos anunciou que no início de 2010 esteve prestes a demitir-se; descobriu-se que há roupa de hospitais a ser vendida em feiras.


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, o deputado que roubou gravadores a jornalistas da “Sábado” quando foi confrontado com perguntas que não lhe agradavam, e que está por isso acusado, foi o escolhido pelo PS para seu representante no Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários. Quem diz que o crime não compensa?


 


VER – No Museu Berardo, CCB, a exposição “A Arte da Guerra”, que apresenta uma extraordinária colecção de cartazes e outras formas de propaganda, criadas em vários países durante a segunda guerra mundial. Como se recorda no catálogo, as obras ali expostas “cumprem com o objectivo de qualquer outra obra de arte: provocar emoções nas pessoas e mudar o mundo”.


 


OUVIR – “Biophilia”, o novo disco da islandesa Bjork, é um trabalho multidisciplinar, onde o CD convive com uma aplicação (fabulosa, aliás) para iPad. É um trabalho inesperado, ousado por um lado, complexo por outro, mas delicado e encantador no final. Há algum tempo que Bjork não mostrava de forma tão clara como consegue combinar sensibilidade com inovação.


 


PROVAR – As delícias da Castella do Paulo, uma casa de chá luso-japonesa, na Rua da Alfandega 120 em Lisboa, que também serve almoços. A sugestão é roubada ao  magnífico blogue Mesa Marcada que recomenda o Kare-paan, um salgado de brioche crocante recheado com caril japonês de vaca e legumes. O telefone é  218880019.


 


BACK TO BASICS – Com o tempo descobrirão que o Estado é o tipo de organização que, para além de fazer disparates nos grandes assuntos, também faz erros sucessivos nas mais pequenas coisas – John Kenneth Galbraith.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Outubro)