julho 11, 2006

O ESTADO E O MEU BOLSO


Quando comecei a trabalhar, já lá vão praticamente 30 anos, o Estado propôs-me um contrato: todos os meses me retirava um tanto do meu ordenado para impostos e outro tanto para a Segurança Social. Era um contrato um bocado forçado – não tinha forma de lhe fugir. Vivendo exclusivamente do meu trabalho, não tenho por onde fazer fintas, não posso domiciliar-me na Holanda, nem praticar truques diversos que permitem a algumas entidades, legitimamente aliás, serem menos espoliadas pelo Estado.

Acontece que em contrapartida pelo que eu lhe pago, o Estado prometia assegurar algumas questões básicas – serviços de saúde, educação, e as pensões correspondentes ao retorno do meu investimento. No fundo o Estado queria funcionar como um gestor de fundos que cobra coercivamente – e nessa base nós somos todos estimados clientes. Ora o Estado trata muito mal os seus clientes – na verdade não tem respeito por eles. Anos de más governações criaram um monstro que devora recursos, proporciona serviços entre o mau e o sofrível, e ignora os seus compromissos. Mais, muda as regras quando lhe apetece, não informa os seus clientes das alterações, aumenta os preços e diminui os serviços, enfim um mau exemplo de relação fornecedor-cliente.

Eu acho muito bem todos os esforços no sentido de tornar o Estado mais eficaz e menos perdulário – desde que isso se reflicta de forma positiva nos cidadãos. O que se começa a ver é que, uma vez mais, os cidadãos são a derradeira das preocupações do Estado. Há um efectivo e continuado desprezo por quem desconta, para proteger serviços, privilégios, situações instaladas. O monstro público devora recursos e penaliza os clientes cumpridores – que são os primeiros a quem o Estado quer agora racionalizar à força.

Quando se fala em mudar as regras, apetece dizer que o Estado devia começar por interiorizar ele próprio uma mudança necessária: começar a tratar bem os seus estimados clientes, começar a respeitar os contribuintes, começar a considerar que as pessoas não são malfeitoras. Na verdade, se aqui existem malfeitorias, elas vêm por via de regra do Estado e de quem o gere.

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O ESTADO E O MEU BOLSO


Quando comecei a trabalhar, já lá vão praticamente 30 anos, o Estado propôs-me um contrato: todos os meses me retirava um tanto do meu ordenado para impostos e outro tanto para a Segurança Social. Era um contrato um bocado forçado – não tinha forma de lhe fugir. Vivendo exclusivamente do meu trabalho, não tenho por onde fazer fintas, não posso domiciliar-me na Holanda, nem praticar truques diversos que permitem a algumas entidades, legitimamente aliás, serem menos espoliadas pelo Estado.

Acontece que em contrapartida pelo que eu lhe pago, o Estado prometia assegurar algumas questões básicas – serviços de saúde, educação, e as pensões correspondentes ao retorno do meu investimento. No fundo o Estado queria funcionar como um gestor de fundos que cobra coercivamente – e nessa base nós somos todos estimados clientes. Ora o Estado trata muito mal os seus clientes – na verdade não tem respeito por eles. Anos de más governações criaram um monstro que devora recursos, proporciona serviços entre o mau e o sofrível, e ignora os seus compromissos. Mais, muda as regras quando lhe apetece, não informa os seus clientes das alterações, aumenta os preços e diminui os serviços, enfim um mau exemplo de relação fornecedor-cliente.

Eu acho muito bem todos os esforços no sentido de tornar o Estado mais eficaz e menos perdulário – desde que isso se reflicta de forma positiva nos cidadãos. O que se começa a ver é que, uma vez mais, os cidadãos são a derradeira das preocupações do Estado. Há um efectivo e continuado desprezo por quem desconta, para proteger serviços, privilégios, situações instaladas. O monstro público devora recursos e penaliza os clientes cumpridores – que são os primeiros a quem o Estado quer agora racionalizar à força.

Quando se fala em mudar as regras, apetece dizer que o Estado devia começar por interiorizar ele próprio uma mudança necessária: começar a tratar bem os seus estimados clientes, começar a respeitar os contribuintes, começar a considerar que as pessoas não são malfeitoras. Na verdade, se aqui existem malfeitorias, elas vêm por via de regra do Estado e de quem o gere.

julho 03, 2006

CURIOSO – No Canadá, o Governo Federal impõe desde 2003 uma legislação que obriga a que organismos públicos, entidades de capital público e concessionários de serviço público só possam recorrer a fornecedores na área da publicidade desde que o seu capital social seja detido, pelo menos a 80 por cento, por canadianos. Isto aplica-se a todas as áreas, desde a criatividade, passando pelo planeamento, até à compra de media. Desta forma a actividade das multinacionais do sector, que tradicionalmente esmagam as empresas locais e dificultam o seu desenvolvimento, fica fortemente condicionada. É engraçado ver o que se passa em Portugal e comparar – por aqui a mentalidade e a prática é exactamente a contrária, a começar pelos detentores de concessões de serviço público, que objectivamente dão mais vantagens aos grandes grupos multinacionais do sector que às empresas locais. Aqui está um tema para um dia destes aprofundar.

AGENDA – O mais antigo festival de Jazz que se realiza em Portugal, herdeiro directo do Cascais Jazz, regressa já a partir de dia 7 de Julho e prolonga-se até dia 16. O cartaz da edição deste ano do Estoril Jazz é tentador e inclui nomes como Tim Hagans, Dena de Rose, Pat Martino e Kenny Barron entre outros. Como sempre o Festival decorre no Parque Palmela e é dirigido por Duarte Mendonça, há mais de 30 anos a jazzar por aí.

OUVIR – Arturo Benedetti Michelangeli foi um dos grandes maestros e pianistas do século XX. Discreto, vivendo quase em reclusão, com contínuos problemas de saúde, o seu nome nunca foi muito popular, mas a sua técnica e a força das suas interpretações criaram uma lenda, um culto de fiéis. Isso explica talvez porque há relativamente poucas edições suas, desde que morreu em 1995. Mão muito amiga trouxe-me um miminho de recente viagem: um disco feito de gravações de emissões radiofónicas de um concerto para piano de Mozart (gravado em Estugarda em 1967) e da sonata no.3 de Beethoven, gravada na Sala Pleyel, em Paris, em 1975. É uma memória fortíssima de um talento que merece ser descoberto. CD Music & Arts.

VER – Quadros intensos que exploram o cruzamento entre a emoção e o impacto da cor com a obsessão geométrica do detalhe compõem a exposição «Grafos III», do catalão Eduard Arbós. Nas salas da galeria descobrem-se evocações de arquitectura e de desenho industrial, que desordenam a simplicidade original da cor e a transportam a outra dimensão. É das mais perturbantes –e marcantes- exposições que vi este ano. Galeria VPFCREAM Arte, Rua da Boavista 84, 2º, Lisboa. Até 9 de Setembro.

PROVAR – Petiscos variados num restaurante que herda a tradição de um dos bons locais de Campo de Ourique, o velho Tico Tico, que ficava precisamente na Rua de Campo de Ourique. A mesma cozinha é proposta desde há algum tempo no Cataplana & Companhia. Destaque para os mariscos e o peixe e para a qualidade das carnes. Uma solução para os jantares de Domingo, onde quase tudo o que vale a pena está fechado. Este é um porto seguro. Rua Ferreira Borges 193-A, Tel. 213 865 269.

LER – Na edição desta semana da «Newsweek», o artigo dedicado ao que a revista considera as «hottest cities» contemporâneas. A saber: Las Vegas nos Estados Unidos, Fukuoka no Japão, Munique na Alemanha, Londres no Reino Unido, Toulouse em França, Nanchang na China, Moscovo na Rússia, Ghaziabad na Índia, Goyang na Coreia do Sul, Florianopolis no Brasil. Na mesma edição é absolutamente imperdível o artigo de Richard Florida, já aqui citado nesta coluna várias vezes, sobre «As Novas Megalopolis» e com base nesta ideia: «o nosso enfoque nas grandes cidades tradicionais está errado – o crescimento e a inovação vêm de novos corredores urbanos, complexos cruzamentos de cidades e subúrbios, vastas zonas que são as novas Megalopolis». Bom artigo para esta altura do ano: pode ser uma ideia para viagens que fujam aos rituais das praias e ao frenesim da ponte aérea futebolística.

MODERNICE – O operador digital por satélite britânico Sky lançou um novo serviço que permite aos seus clientes programarem por telemóvel as caixas descodificadoras Sky Plus.

BACK TO BASICS – O problema com as anedotas políticas é que frequentemente acabam por ser eleitos. (Henry Cate).

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CURIOSO – No Canadá, o Governo Federal impõe desde 2003 uma legislação que obriga a que organismos públicos, entidades de capital público e concessionários de serviço público só possam recorrer a fornecedores na área da publicidade desde que o seu capital social seja detido, pelo menos a 80 por cento, por canadianos. Isto aplica-se a todas as áreas, desde a criatividade, passando pelo planeamento, até à compra de media. Desta forma a actividade das multinacionais do sector, que tradicionalmente esmagam as empresas locais e dificultam o seu desenvolvimento, fica fortemente condicionada. É engraçado ver o que se passa em Portugal e comparar – por aqui a mentalidade e a prática é exactamente a contrária, a começar pelos detentores de concessões de serviço público, que objectivamente dão mais vantagens aos grandes grupos multinacionais do sector que às empresas locais. Aqui está um tema para um dia destes aprofundar.

AGENDA – O mais antigo festival de Jazz que se realiza em Portugal, herdeiro directo do Cascais Jazz, regressa já a partir de dia 7 de Julho e prolonga-se até dia 16. O cartaz da edição deste ano do Estoril Jazz é tentador e inclui nomes como Tim Hagans, Dena de Rose, Pat Martino e Kenny Barron entre outros. Como sempre o Festival decorre no Parque Palmela e é dirigido por Duarte Mendonça, há mais de 30 anos a jazzar por aí.

OUVIR – Arturo Benedetti Michelangeli foi um dos grandes maestros e pianistas do século XX. Discreto, vivendo quase em reclusão, com contínuos problemas de saúde, o seu nome nunca foi muito popular, mas a sua técnica e a força das suas interpretações criaram uma lenda, um culto de fiéis. Isso explica talvez porque há relativamente poucas edições suas, desde que morreu em 1995. Mão muito amiga trouxe-me um miminho de recente viagem: um disco feito de gravações de emissões radiofónicas de um concerto para piano de Mozart (gravado em Estugarda em 1967) e da sonata no.3 de Beethoven, gravada na Sala Pleyel, em Paris, em 1975. É uma memória fortíssima de um talento que merece ser descoberto. CD Music & Arts.

VER – Quadros intensos que exploram o cruzamento entre a emoção e o impacto da cor com a obsessão geométrica do detalhe compõem a exposição «Grafos III», do catalão Eduard Arbós. Nas salas da galeria descobrem-se evocações de arquitectura e de desenho industrial, que desordenam a simplicidade original da cor e a transportam a outra dimensão. É das mais perturbantes –e marcantes- exposições que vi este ano. Galeria VPFCREAM Arte, Rua da Boavista 84, 2º, Lisboa. Até 9 de Setembro.

PROVAR – Petiscos variados num restaurante que herda a tradição de um dos bons locais de Campo de Ourique, o velho Tico Tico, que ficava precisamente na Rua de Campo de Ourique. A mesma cozinha é proposta desde há algum tempo no Cataplana & Companhia. Destaque para os mariscos e o peixe e para a qualidade das carnes. Uma solução para os jantares de Domingo, onde quase tudo o que vale a pena está fechado. Este é um porto seguro. Rua Ferreira Borges 193-A, Tel. 213 865 269.

LER – Na edição desta semana da «Newsweek», o artigo dedicado ao que a revista considera as «hottest cities» contemporâneas. A saber: Las Vegas nos Estados Unidos, Fukuoka no Japão, Munique na Alemanha, Londres no Reino Unido, Toulouse em França, Nanchang na China, Moscovo na Rússia, Ghaziabad na Índia, Goyang na Coreia do Sul, Florianopolis no Brasil. Na mesma edição é absolutamente imperdível o artigo de Richard Florida, já aqui citado nesta coluna várias vezes, sobre «As Novas Megalopolis» e com base nesta ideia: «o nosso enfoque nas grandes cidades tradicionais está errado – o crescimento e a inovação vêm de novos corredores urbanos, complexos cruzamentos de cidades e subúrbios, vastas zonas que são as novas Megalopolis». Bom artigo para esta altura do ano: pode ser uma ideia para viagens que fujam aos rituais das praias e ao frenesim da ponte aérea futebolística.

MODERNICE – O operador digital por satélite britânico Sky lançou um novo serviço que permite aos seus clientes programarem por telemóvel as caixas descodificadoras Sky Plus.

BACK TO BASICS – O problema com as anedotas políticas é que frequentemente acabam por ser eleitos. (Henry Cate).
CRÓNICA SOCIAL


Na semana passada foi inaugurada a primeira exposição da colecção da Fundação Ellipse, nas suas instalações próprias, no Alcoitão. Esta Fundação, integralmente privada, não recebeu –nem pedinchou – apoios do Estado. Reúne um grupo de investidores, que decidiram criar uma colecção representativa da arte contemporânea, com compras feitas segundo um critério que não teme em procurar momentos de ruptura e clivagem na criação artística actual. Ao mesmo tempo os responsáveis da colecção têm consagrado uma parte importante dos seus recursos a aquisições de artistas portugueses, o que vai sendo uma raridade até nas colecções oficiais ou em outras colecções nacionais mais dadas ao encantamento provinciano por um cosmopolitismo sintético.

O Centro de Artes da Fundação foi colocado numa zona industrial, num armazém transformado, e como sublinham os seus responsáveis, procurou-se encontrar uma solução eficaz e não faraónica nem de ostentação, que mantivesse em níveis de razoabilidade o investimento na sede, para libertar o máximo de recursos para a colecção propriamente dita.

Resumindo: bom senso, iniciativa privada, exemplo de uma dinâmica apreciável da sociedade civil na área da cultura – tudo motivos de alegria e contentamento. Seria pois de esperar que os poderes instituídos, a começar pelo funesto Ministério da Cultura, aplaudissem a iniciativa e dela fizessem exemplo.

Pois bem, na inauguração da exposição, sexta feira passada, carinhas do poder central – nem, vê-las. A intrigante Ministra da Cultura não esteve, nem nenhum dos seus ajudantes. Mas ela por acaso na sua apertada agenda encontrou espaço para poder estar numa espécie de arraial, em Azeitão, patrocinado por Joe Berardo. Há escolhas que mostram muito do carácter de uma pessoa: depois de ter andado a empatar a resolução da colecção Berardo, lá executou as ordens do Primeiro-Ministro, e agora surge obediente e conformada nos actos públicos a ele ligados.

Na realidade não é estranho – o poder não gosta de ser criticado e muito menos aprecia quem se atreve a revelar a sua nudez. Se quiserem ler a entrevista que o impulsionador da Fundação Ellipse, João Rendeiro, deu à revista virtual ArteCapital (www.artecapital.net) , poderão perceber um pouco do que está em jogo.

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CRÓNICA SOCIAL


Na semana passada foi inaugurada a primeira exposição da colecção da Fundação Ellipse, nas suas instalações próprias, no Alcoitão. Esta Fundação, integralmente privada, não recebeu –nem pedinchou – apoios do Estado. Reúne um grupo de investidores, que decidiram criar uma colecção representativa da arte contemporânea, com compras feitas segundo um critério que não teme em procurar momentos de ruptura e clivagem na criação artística actual. Ao mesmo tempo os responsáveis da colecção têm consagrado uma parte importante dos seus recursos a aquisições de artistas portugueses, o que vai sendo uma raridade até nas colecções oficiais ou em outras colecções nacionais mais dadas ao encantamento provinciano por um cosmopolitismo sintético.

O Centro de Artes da Fundação foi colocado numa zona industrial, num armazém transformado, e como sublinham os seus responsáveis, procurou-se encontrar uma solução eficaz e não faraónica nem de ostentação, que mantivesse em níveis de razoabilidade o investimento na sede, para libertar o máximo de recursos para a colecção propriamente dita.

Resumindo: bom senso, iniciativa privada, exemplo de uma dinâmica apreciável da sociedade civil na área da cultura – tudo motivos de alegria e contentamento. Seria pois de esperar que os poderes instituídos, a começar pelo funesto Ministério da Cultura, aplaudissem a iniciativa e dela fizessem exemplo.

Pois bem, na inauguração da exposição, sexta feira passada, carinhas do poder central – nem, vê-las. A intrigante Ministra da Cultura não esteve, nem nenhum dos seus ajudantes. Mas ela por acaso na sua apertada agenda encontrou espaço para poder estar numa espécie de arraial, em Azeitão, patrocinado por Joe Berardo. Há escolhas que mostram muito do carácter de uma pessoa: depois de ter andado a empatar a resolução da colecção Berardo, lá executou as ordens do Primeiro-Ministro, e agora surge obediente e conformada nos actos públicos a ele ligados.

Na realidade não é estranho – o poder não gosta de ser criticado e muito menos aprecia quem se atreve a revelar a sua nudez. Se quiserem ler a entrevista que o impulsionador da Fundação Ellipse, João Rendeiro, deu à revista virtual ArteCapital (www.artecapital.net) , poderão perceber um pouco do que está em jogo.

junho 25, 2006

COMEÇOU O BAILE…


Dois barulhentos avisos vieram esta semana perturbar o estado de graça do Governo: declarações do eurodeputado socialista Manuel dos Santos e do deputado socialista João Cravinho, ambas colocando directamente em causa a acção do primeiro-ministro. O primeiro criticou as políticas sociais e algumas reformas do Governo, o segundo pôs em causa que fosse possível inverter o processo de decisão que leva a General Motors a querer encerrar a sua fábrica na Azambuja.

É cedo, muito cedo, para perceber se as políticas anunciadas pelo Governo se transformam em reformas efectivas ou se ficam, uma vez mais, na categoria das declarações de intenções e anúncios pomposos não concretizados. Até agora, a verdade, é que as reformas mais visíveis se dirigem contra os que têm mais dificuldade em reagir. – na saúde e na segurança social por exemplo. O fisco persegue o óbvio (o trabalhador por conta de outrem e o consumidor de IVA), mas não molesta na mesma proporção a grande evasão – da mesma forma que o Governo não legisla no sentido de tornar mais apetecível o investimento em Portugal – para os portugueses nomeadameente - com uma política fiscal mais atraente. Na realidade a política fiscal continua opaca na reforma e costumeira nos hábitos – vai atrás do fácil.

As declarações de Manuel dos Santos mostram o descontentamento pela ausência de sensibilidade social de algumas medidas do Governo – e mesmo que essas declarações tenham uma base de demagogia para consumo da oposição interna, a verdade é que elas têm um fundo de verdade, o suficiente para serem ouvidas e darem que falar.

Já o caso de Cravinho é diferente, e mais sério. O que Cravinho vem dizer – e bem – é que os centros de decisão das grandes indústrias estão fora de Portugal e, a menos que se ofereçam vantagens que aos locais não se proporcionam, é difícil inverter o ciclo de procura de novas paragens. Cravinho coloca o problema de fundo: falta uma estratégia nacional, falta uma política de desenvolvimento sustentada. É certo que a falta não é de agora – mas o caso da General Motors veio dramaticamente colocá-la na ordem do dia.

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COMEÇOU O BAILE…


Dois barulhentos avisos vieram esta semana perturbar o estado de graça do Governo: declarações do eurodeputado socialista Manuel dos Santos e do deputado socialista João Cravinho, ambas colocando directamente em causa a acção do primeiro-ministro. O primeiro criticou as políticas sociais e algumas reformas do Governo, o segundo pôs em causa que fosse possível inverter o processo de decisão que leva a General Motors a querer encerrar a sua fábrica na Azambuja.

É cedo, muito cedo, para perceber se as políticas anunciadas pelo Governo se transformam em reformas efectivas ou se ficam, uma vez mais, na categoria das declarações de intenções e anúncios pomposos não concretizados. Até agora, a verdade, é que as reformas mais visíveis se dirigem contra os que têm mais dificuldade em reagir. – na saúde e na segurança social por exemplo. O fisco persegue o óbvio (o trabalhador por conta de outrem e o consumidor de IVA), mas não molesta na mesma proporção a grande evasão – da mesma forma que o Governo não legisla no sentido de tornar mais apetecível o investimento em Portugal – para os portugueses nomeadameente - com uma política fiscal mais atraente. Na realidade a política fiscal continua opaca na reforma e costumeira nos hábitos – vai atrás do fácil.

As declarações de Manuel dos Santos mostram o descontentamento pela ausência de sensibilidade social de algumas medidas do Governo – e mesmo que essas declarações tenham uma base de demagogia para consumo da oposição interna, a verdade é que elas têm um fundo de verdade, o suficiente para serem ouvidas e darem que falar.

Já o caso de Cravinho é diferente, e mais sério. O que Cravinho vem dizer – e bem – é que os centros de decisão das grandes indústrias estão fora de Portugal e, a menos que se ofereçam vantagens que aos locais não se proporcionam, é difícil inverter o ciclo de procura de novas paragens. Cravinho coloca o problema de fundo: falta uma estratégia nacional, falta uma política de desenvolvimento sustentada. É certo que a falta não é de agora – mas o caso da General Motors veio dramaticamente colocá-la na ordem do dia.
VALOR – Um relatório da PricewaterhouseCoopers divulgado esta semana prevê que as receitas globais da indústria de media e de entretenimento vão subir a um ritmo anual de 6,6% até 2010, ano em que atingirão o valor de 1.8 três mil milhões de dólares. O PricewaterhouseCoopers' Global Entertainment and Media Outlook: 2006-2010 sublinha que muito deste crescimento vai ser proporcionado pela banda larga e dispositivos móveis. A facturação global online e em dispositivos wireless e móveis atingiu 19 mil milhões de dólares em 2005 e deve aumentar até 67 mil milhões em 2010. O volume de publicidade vai aumentar a um ritmo anual de 6,2% durante o período estudado, passando dos 521 mil milhões de dólares de 2005 para 385 mil milhões em 2010. A Internet vai continuar a ser o suporte publicitário com maior crescimento, a um ritmo anual de 18,1%, atingindo o valor global de 52 mil milhões em 2010. A Internet representará cerca de 10% do total dos investimentos globais em publicidade, comparados com menos de 3 por cento em 2002.

LER – A imprescindível edição de Junho da revista «Wired», que traz a tradicional lista dos Rave Awards que a revista publica anualmente. Na lista de premiados deste ano estão Steve Jobs, George Clooney, a banda-revelação Clap Your Hands And Say Yeah. Como a revista gosta de afirmar, são 20 páginas com histórias de sonhadores, rebeldes e revolucionários. O futuro passa por aqui, algures – não lhe percam a pista.

OUVIR – Os Massive Attack são uma das mais inovadoras e influentes bandas britânicas dos últimos 20 anos. Um pouco de história: originários de Bristol, podem detectar-se as primeiras actividades musicais públicas de alguns dos seus membros nos anos 80 com o colectivo Wild Bunch, que agrupava rappers, compositores e DJ’s. Daddy G, o decano do grupo, ganha notoriedade quando integra os Soul II Soul e quando, depois, produz o primeiro disco de Bjork. Em Outubro de 90 surge o primeiro single, «Daydreaming» assinado por Massive Attack. A formação incluía, para além de Daddy G, Mushroom, 3-D, um rapper ainda desconhecido, Tricky, e a cantora Shara Nelson. O primeiro êxito vem meses mais tarde com «Unfinished Sympathy» e a carreira da banda começa a dar que falar a partir daí. Na colectânea editada este ano, «The Best Of Massive Attack» esse é exactamente o tema mais antigo que aparece. A história desenrola-se por faixas como «teradrop», «Protection», «Karmacoma»,«Angel» até ao bem recente «Live With Me». Ao todo 14 temas que retratam bem a carreira de um dos mais interessantes grupos dos últimos anos. CD EMI.

VER – O Centro de Artes da Fundação Ellipse, no Alcoitão, inaugura hoje a sua primeira exposição, com peças da sua colecção de arte contemporânea. Localizado num armazém industrial reconvertido (Rua das Fisgas, perto da Makro), a Fundação tem vindo a fazer aquisições importantes e há um mês atrás apresentou as suas instalações. Esta é a primeira exposição de uma colecção que no seu já vasto património (300 peças) inclui obras de Rui Chafes, José Pedro Croft, Stan Douglas, Jimmie Durham, Olafur Eliasson, Douglas Gordon, John Baldessari, Richard Prince, Cabrita Reis, Julião Sarmento, Thomas Schutte, Cindy Sherman, Felix Gonzalez-Torres e João Tabarra, entre outros. As instalações da Fundação têm 3500 m2, 1600 dos quais para exposições.



PROVAR – Vale a pena experimentar a comida que Leo Guzman e Erik Hervik fazem no restaurante do Clube de Jornalistas, sobretudo agora com este tempo, onde se pode ficar na esplanada do jardim interior. O restaurante é aberto a toda a gente (e não apenas aos membros do Clube) e fica na Rua das Trinas 129 r/c. Tel 213 977 138.~

SUGESTÃO – Aproveitem Frank Gehry para reconverter o mamarracho em ruínas do Pavilhão dos Desportos do Parque Eduardo VII e dêem-lhe aquele sítio bem visível da cidade para fazer um auditório de música, que é das coisas que ele melhor sabe fazer.

REGISTO – O Estado tem um contrato com os cidadãos. Todos nós descontámos ao longo dos anos com uma expectativa de retorno do investimento que fomos fazendo desde que cada um começou a trabalhar. O Estado quer agora alterar as regras, retroactivamente. Chama-se a isto enganar. Como bem notou Fernando Sobral neste jornal, Portugal está a ficar sem Lei.

BACK TO BASICS – Se fosse intenção de Deus que os homens votassem, Ele teria também criado candidatos – Jay Leno.

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VALOR – Um relatório da PricewaterhouseCoopers divulgado esta semana prevê que as receitas globais da indústria de media e de entretenimento vão subir a um ritmo anual de 6,6% até 2010, ano em que atingirão o valor de 1.8 três mil milhões de dólares. O PricewaterhouseCoopers' Global Entertainment and Media Outlook: 2006-2010 sublinha que muito deste crescimento vai ser proporcionado pela banda larga e dispositivos móveis. A facturação global online e em dispositivos wireless e móveis atingiu 19 mil milhões de dólares em 2005 e deve aumentar até 67 mil milhões em 2010. O volume de publicidade vai aumentar a um ritmo anual de 6,2% durante o período estudado, passando dos 521 mil milhões de dólares de 2005 para 385 mil milhões em 2010. A Internet vai continuar a ser o suporte publicitário com maior crescimento, a um ritmo anual de 18,1%, atingindo o valor global de 52 mil milhões em 2010. A Internet representará cerca de 10% do total dos investimentos globais em publicidade, comparados com menos de 3 por cento em 2002.

LER – A imprescindível edição de Junho da revista «Wired», que traz a tradicional lista dos Rave Awards que a revista publica anualmente. Na lista de premiados deste ano estão Steve Jobs, George Clooney, a banda-revelação Clap Your Hands And Say Yeah. Como a revista gosta de afirmar, são 20 páginas com histórias de sonhadores, rebeldes e revolucionários. O futuro passa por aqui, algures – não lhe percam a pista.

OUVIR – Os Massive Attack são uma das mais inovadoras e influentes bandas britânicas dos últimos 20 anos. Um pouco de história: originários de Bristol, podem detectar-se as primeiras actividades musicais públicas de alguns dos seus membros nos anos 80 com o colectivo Wild Bunch, que agrupava rappers, compositores e DJ’s. Daddy G, o decano do grupo, ganha notoriedade quando integra os Soul II Soul e quando, depois, produz o primeiro disco de Bjork. Em Outubro de 90 surge o primeiro single, «Daydreaming» assinado por Massive Attack. A formação incluía, para além de Daddy G, Mushroom, 3-D, um rapper ainda desconhecido, Tricky, e a cantora Shara Nelson. O primeiro êxito vem meses mais tarde com «Unfinished Sympathy» e a carreira da banda começa a dar que falar a partir daí. Na colectânea editada este ano, «The Best Of Massive Attack» esse é exactamente o tema mais antigo que aparece. A história desenrola-se por faixas como «teradrop», «Protection», «Karmacoma»,«Angel» até ao bem recente «Live With Me». Ao todo 14 temas que retratam bem a carreira de um dos mais interessantes grupos dos últimos anos. CD EMI.

VER – O Centro de Artes da Fundação Ellipse, no Alcoitão, inaugura hoje a sua primeira exposição, com peças da sua colecção de arte contemporânea. Localizado num armazém industrial reconvertido (Rua das Fisgas, perto da Makro), a Fundação tem vindo a fazer aquisições importantes e há um mês atrás apresentou as suas instalações. Esta é a primeira exposição de uma colecção que no seu já vasto património (300 peças) inclui obras de Rui Chafes, José Pedro Croft, Stan Douglas, Jimmie Durham, Olafur Eliasson, Douglas Gordon, John Baldessari, Richard Prince, Cabrita Reis, Julião Sarmento, Thomas Schutte, Cindy Sherman, Felix Gonzalez-Torres e João Tabarra, entre outros. As instalações da Fundação têm 3500 m2, 1600 dos quais para exposições.



PROVAR – Vale a pena experimentar a comida que Leo Guzman e Erik Hervik fazem no restaurante do Clube de Jornalistas, sobretudo agora com este tempo, onde se pode ficar na esplanada do jardim interior. O restaurante é aberto a toda a gente (e não apenas aos membros do Clube) e fica na Rua das Trinas 129 r/c. Tel 213 977 138.~

SUGESTÃO – Aproveitem Frank Gehry para reconverter o mamarracho em ruínas do Pavilhão dos Desportos do Parque Eduardo VII e dêem-lhe aquele sítio bem visível da cidade para fazer um auditório de música, que é das coisas que ele melhor sabe fazer.

REGISTO – O Estado tem um contrato com os cidadãos. Todos nós descontámos ao longo dos anos com uma expectativa de retorno do investimento que fomos fazendo desde que cada um começou a trabalhar. O Estado quer agora alterar as regras, retroactivamente. Chama-se a isto enganar. Como bem notou Fernando Sobral neste jornal, Portugal está a ficar sem Lei.

BACK TO BASICS – Se fosse intenção de Deus que os homens votassem, Ele teria também criado candidatos – Jay Leno.

junho 19, 2006

O SENHOR SILVA


Se vivesse em Holywood o Sr. Jaime Silva seria candidato a papéis de
galã fora de moda em filmes de série B; nem para «soap-operas»
televisivas serviria. Aqui é Ministro da Agricultura e, para mal dos
nossos pecados, é o exemplo acabado do que é um burocrata formado na
escola da trapalhice e arrogância da Comunidade Europeia.

Existem neste Governo algumas figuras que pensam que faz parte da sua
função hostilizar as pessoas das áreas de que são responsáveis.
Misturam arrogância com insensibilidade, uma receita explosiva. São um
género perigoso – acham-se cruzados, donos da verdade, querem fazer
justiça pelas suas mãos e procuram culpados em todo o lado. Em comum
têm o facto de serem peritos em arranjar problemas, mas absolutamente
inábeis em encontrar soluções, em resolver questões de fundo. Ficam-se
sempre pelo superficial, gostam de fazer declarações pomposas, à falta
de conseguirem mostrar obra que se veja.

O Sr. Jaime Silva encaixa que nem uma luva nesta descrição – não é o
único mas é dos mais evidentes. Dá tanto nas vistas que até o
Presidente da República já o expôs. Por muitas culpas que os
agricultores tenham, uma coisa é certa: ninguém resiste a falta de
estratégia, a zigue-zagues constantes, a medidas contraditórias que
seguem os ventos de Bruxelas e da PAC em vez de olharem para as nossas
realidades. Existem áreas em que Portugal é demasiado servil a
Bruxelas, desde há anos – basta olhar aqui para o lado, para Espanha,
para se perceber que não se tem que fazer apenas o que satisfaz os
apetites dos agricultores franceses. Prisioneiro da lógica da Política
Agrícola Comum, o Sr. Silva é apenas um aprendiz de cómico. Não é
disto que a Agricultura precisa.

Os Ministros e Directores Gerais não são Zorros predestinados, são
servidores públicos de quem se espera bom-senso, humildade, equidade –
bens escassos neste Governo e nesta Administração. Fazer reformas não
é governar contra as pessoas – sobretudo quando se começa a tornar
evidente que as reformas às vezes são apenas contra algumas pessoas.
Já se percebe que o Governo não trata todos por igual – há uns que são
mais iguais que outros. Todos os dias isto está a ficar mais claro.

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O SENHOR SILVA


Se vivesse em Holywood o Sr. Jaime Silva seria candidato a papéis de
galã fora de moda em filmes de série B; nem para «soap-operas»
televisivas serviria. Aqui é Ministro da Agricultura e, para mal dos
nossos pecados, é o exemplo acabado do que é um burocrata formado na
escola da trapalhice e arrogância da Comunidade Europeia.

Existem neste Governo algumas figuras que pensam que faz parte da sua
função hostilizar as pessoas das áreas de que são responsáveis.
Misturam arrogância com insensibilidade, uma receita explosiva. São um
género perigoso – acham-se cruzados, donos da verdade, querem fazer
justiça pelas suas mãos e procuram culpados em todo o lado. Em comum
têm o facto de serem peritos em arranjar problemas, mas absolutamente
inábeis em encontrar soluções, em resolver questões de fundo. Ficam-se
sempre pelo superficial, gostam de fazer declarações pomposas, à falta
de conseguirem mostrar obra que se veja.

O Sr. Jaime Silva encaixa que nem uma luva nesta descrição – não é o
único mas é dos mais evidentes. Dá tanto nas vistas que até o
Presidente da República já o expôs. Por muitas culpas que os
agricultores tenham, uma coisa é certa: ninguém resiste a falta de
estratégia, a zigue-zagues constantes, a medidas contraditórias que
seguem os ventos de Bruxelas e da PAC em vez de olharem para as nossas
realidades. Existem áreas em que Portugal é demasiado servil a
Bruxelas, desde há anos – basta olhar aqui para o lado, para Espanha,
para se perceber que não se tem que fazer apenas o que satisfaz os
apetites dos agricultores franceses. Prisioneiro da lógica da Política
Agrícola Comum, o Sr. Silva é apenas um aprendiz de cómico. Não é
disto que a Agricultura precisa.

Os Ministros e Directores Gerais não são Zorros predestinados, são
servidores públicos de quem se espera bom-senso, humildade, equidade –
bens escassos neste Governo e nesta Administração. Fazer reformas não
é governar contra as pessoas – sobretudo quando se começa a tornar
evidente que as reformas às vezes são apenas contra algumas pessoas.
Já se percebe que o Governo não trata todos por igual – há uns que são
mais iguais que outros. Todos os dias isto está a ficar mais claro.
REGISTAR – Uma bela e esclarecedora entrevista de João Rendeiro à revista on-line www.artecapital.net onde aborda temas como a a Fundação Ellipse e o acordo entre o Estado português e Joe Berardo. Excerto, sobre os termos desse acordo: «O ponto mais frágil do acordo é a contribuição anual de 500 mil euros que o Estado faz para compras, no quadro daquela colecção. Acho que esse é o ponto mais frágil, no sentido em que, se o Estado não comprar a Colecção Berardo, as compras entretanto feitas - que, num horizonte de dez anos, ainda são 5 milhões de euros, o que é uma verba significativa do ponto de vista do montante que o Estado gasta anualmente em aquisições em Portugal - ficam sem lógica do ponto de vista da sua aquisição.»

VER – Até dia 18 de Junho ainda pode descobrir no Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea uma exposição antológica sobre a produção artística portuguesa das décadas de 40 e 50, que fazem parte da colecção do Museu. Foi uma época marcada pela guerra e pelo consolidar de poder de Salazar, pela Exposição do Mundo Português. Aqui pode ver obras de Almada Negreiros, Nadir Afonso, Querubim Lapa, Júlio Pomar, Jorge Vieira, Manuel d’Assumpção, Vespeira, Jorge Oliveira ou Vieira da Silva, entre outros. Esta exposição é uma forma de revisitar o que foram aqueles anos, entre o neo-realismo e a explosão surrealista. Rua Serpa Pinto 4, de terça a Domingo entre as 10h00 e as 18h00 – crónico problema dos museus, estão abertos só para quem não trabalha.

LER – Gosto muito de ler Alberto Gonçalves, um sociólogo que escreve regularmente no «Correio da Manhã» e na «Sábado» e que é, na minha opinião, um dos mais lúcidos observadores da sociedade portuguesa. «Selecção Nacional» é uma colectânea dos seus textos publicados entre 1999 e 2006 e pode ser adquirida nas bancas de jornais, juntamente com a «Sábado» ou o «CM». Alberto Gonçalves também pode ser seguido através do blog www.homem-a-dias.blogspot.com .

OUVIR – O mundo está cheio de grandes vozes que não sabem cantar, de jovens prodígios de timbre cristalino e zero de emoção. Felizmente há excepções e Erin Boheme, com apenas 19 anos, fez um disco que junta composições origianis que ela escreveu, com interpretações de clássicos como «Let’s Do It» de Cole Porter, «I Love Being Here With You» de Peggy Lee ou «Teach Me Tonight» de Sammy Cahn, um tema popularizado por Frank Sinatra. Uma das canções originais deste álbum de estreia de Erin Boheme é precisamente dedicada a Sinatra, «A Night With Frank». Para além da surpreendente maturidade de interpretação e de escrita de Boheme, o seu disco destaca-se pela qualidade da produção e do leque de músicos que com ela trabalharam e que fizeram desta gravação um dos discos de jazz vocal mais curiosos que ouvi nos últimos tempos. CD Concord, distribuído por Universal Music.

COMER – Gosto muito de peixe fresco, bem cozinhado – o que na maior parte das vezes quer dizer bem grelhado – uma operação aparentemente simples, mas de uma rara complexidade e que muito frequentemente é mal feita. O peixe fresco ganha todo o seu esplendor com um pouco de sal e umas brasas no ponto certo. Isto tanto se aplica aos injustamente esquecidos carapaus, como aos mais saborosos linguados. E aplica-se também a outros peixes mais raros – já que grande parte dos restaurantes anda permanentemente reduzido às espécies mais comerciais – robalo, garoupa, etc. De lado ficam coisas magníficas como o imperador, um peixe saborosíssimo e que nem sempre é fácil de encontrar em restaurantes. Um dos sítios onde ainda se consegue comer bom peixe, a preços aceitáveis, bem cozinhado e em boa variedade, é a região de Setúbal. Há poucos dias experimentei um pequeno e discreto restaurante-marisqueira em Brejos de Azeitão, apropriadamente chamado «O Pescador». Casa simples mas bem arranjada, serviço simpático, qualidade excelente, preço honesto. Para a mesa vieram amêijoas (à Bulhão Pato, que estavam excelentes), linguado e imperador. Estava tudo muito bom e o jantar não podia ter corrido melhor. A casa é dos mesmos proprietário de «O Arpão», na Quinta do Conde, mas eu prefiro francamente este «Pescador», mais simples, menos barulhento e mais simpático. «O Pescador» fica na Rua São Gonçalo, Lote 31, Loja 4 e tem o telefone 212191843, Brejos de Azeitão.

BACK TO BASICS – Começar bem alguma coisa é meio caminho andado para ela ficar feita – Aristóteles.

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REGISTAR – Uma bela e esclarecedora entrevista de João Rendeiro à revista on-line www.artecapital.net onde aborda temas como a a Fundação Ellipse e o acordo entre o Estado português e Joe Berardo. Excerto, sobre os termos desse acordo: «O ponto mais frágil do acordo é a contribuição anual de 500 mil euros que o Estado faz para compras, no quadro daquela colecção. Acho que esse é o ponto mais frágil, no sentido em que, se o Estado não comprar a Colecção Berardo, as compras entretanto feitas - que, num horizonte de dez anos, ainda são 5 milhões de euros, o que é uma verba significativa do ponto de vista do montante que o Estado gasta anualmente em aquisições em Portugal - ficam sem lógica do ponto de vista da sua aquisição.»

VER – Até dia 18 de Junho ainda pode descobrir no Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea uma exposição antológica sobre a produção artística portuguesa das décadas de 40 e 50, que fazem parte da colecção do Museu. Foi uma época marcada pela guerra e pelo consolidar de poder de Salazar, pela Exposição do Mundo Português. Aqui pode ver obras de Almada Negreiros, Nadir Afonso, Querubim Lapa, Júlio Pomar, Jorge Vieira, Manuel d’Assumpção, Vespeira, Jorge Oliveira ou Vieira da Silva, entre outros. Esta exposição é uma forma de revisitar o que foram aqueles anos, entre o neo-realismo e a explosão surrealista. Rua Serpa Pinto 4, de terça a Domingo entre as 10h00 e as 18h00 – crónico problema dos museus, estão abertos só para quem não trabalha.

LER – Gosto muito de ler Alberto Gonçalves, um sociólogo que escreve regularmente no «Correio da Manhã» e na «Sábado» e que é, na minha opinião, um dos mais lúcidos observadores da sociedade portuguesa. «Selecção Nacional» é uma colectânea dos seus textos publicados entre 1999 e 2006 e pode ser adquirida nas bancas de jornais, juntamente com a «Sábado» ou o «CM». Alberto Gonçalves também pode ser seguido através do blog www.homem-a-dias.blogspot.com .

OUVIR – O mundo está cheio de grandes vozes que não sabem cantar, de jovens prodígios de timbre cristalino e zero de emoção. Felizmente há excepções e Erin Boheme, com apenas 19 anos, fez um disco que junta composições origianis que ela escreveu, com interpretações de clássicos como «Let’s Do It» de Cole Porter, «I Love Being Here With You» de Peggy Lee ou «Teach Me Tonight» de Sammy Cahn, um tema popularizado por Frank Sinatra. Uma das canções originais deste álbum de estreia de Erin Boheme é precisamente dedicada a Sinatra, «A Night With Frank». Para além da surpreendente maturidade de interpretação e de escrita de Boheme, o seu disco destaca-se pela qualidade da produção e do leque de músicos que com ela trabalharam e que fizeram desta gravação um dos discos de jazz vocal mais curiosos que ouvi nos últimos tempos. CD Concord, distribuído por Universal Music.

COMER – Gosto muito de peixe fresco, bem cozinhado – o que na maior parte das vezes quer dizer bem grelhado – uma operação aparentemente simples, mas de uma rara complexidade e que muito frequentemente é mal feita. O peixe fresco ganha todo o seu esplendor com um pouco de sal e umas brasas no ponto certo. Isto tanto se aplica aos injustamente esquecidos carapaus, como aos mais saborosos linguados. E aplica-se também a outros peixes mais raros – já que grande parte dos restaurantes anda permanentemente reduzido às espécies mais comerciais – robalo, garoupa, etc. De lado ficam coisas magníficas como o imperador, um peixe saborosíssimo e que nem sempre é fácil de encontrar em restaurantes. Um dos sítios onde ainda se consegue comer bom peixe, a preços aceitáveis, bem cozinhado e em boa variedade, é a região de Setúbal. Há poucos dias experimentei um pequeno e discreto restaurante-marisqueira em Brejos de Azeitão, apropriadamente chamado «O Pescador». Casa simples mas bem arranjada, serviço simpático, qualidade excelente, preço honesto. Para a mesa vieram amêijoas (à Bulhão Pato, que estavam excelentes), linguado e imperador. Estava tudo muito bom e o jantar não podia ter corrido melhor. A casa é dos mesmos proprietário de «O Arpão», na Quinta do Conde, mas eu prefiro francamente este «Pescador», mais simples, menos barulhento e mais simpático. «O Pescador» fica na Rua São Gonçalo, Lote 31, Loja 4 e tem o telefone 212191843, Brejos de Azeitão.

BACK TO BASICS – Começar bem alguma coisa é meio caminho andado para ela ficar feita – Aristóteles.

junho 15, 2006

E SE O SERVIÇO PÚBLICO NÃO TIVESSE PUBLICIDADE?


Três, talvez quatro, canais comerciais em sinal aberto, segmentados para públicos diferentes, mais canais com conteúdos portugueses ou programação pensada para Portugal no cabo, maior actividade da produção independente, maior transparência no estabelecimento de preços, entrada de novos operadores – a vida podia ser assim, mas a realidade é que muito dificilmente lá chegaremos enquanto o serviço público de televisão competir comercialmente com os canais privados, quer no espaço hertziano, quer no cabo.

A vida podia ser bem diferente no reino da televisão se o canal público não estivesse sujeito à guerra das audiências, em função da possibilidade que tem de vender espaço publicitário – embora limitado. As diferenças existiriam em dois sentidos – numa vida diferente para os operadores privados (que seriam mais e com maior concorrência entre si), e numa tipologia de produção substancialmente diferente para o serviço público.

A falta de coragem em assumir o custo social de ter um serviço público de televisão arrasa com qualquer tentativa séria e coerente de fazer uma programação cuidada e de referência, por maior que seja a vontade e empenho dos seus responsáveis. Na realidade inviabiliza que o serviço público se torne instrumental na definição de uma paisagem audiovisual diferente, mais completa e dinâmica. Os responsáveis do serviço público vivem a disputar lideranças de audiências para melhorarem o valor dos seus espaços comerciais.

A situação tem laivos de algum maquiavelismo: o Estado gosta de ter um Serviço Público com audiências fortes, porque assim ele é mais influente – o facto de, dessa forma, limitar a possibilidade de maturação de um sector privado competitivo no audiovisual, é de somenos importância e tem sido uma característica de quase todos os Governos, com muito poucas excepções. O actual executivo tem aliás agido no sentido de reforçar a ligação ao Estado de todo o universo do serviço público e de incentivar até a sua concorrência ao sector privado. Ao mesmo tempo que estimula esta luta desigual, cria sucessivos mecanismos regulatórios, baseados em taxas e mais taxas, e vai diminuindo o relevo que nos anos mais recentes tinha sido dado à auto-regulação. O Estado quer mais poder de controlo, ao mesmo tempo que é ele próprio parte interessada – na realidade o objectivo do Estado é que a RTP tenha o máximo de receitas publicitárias possíveis e isso, em larga medida, não é compatível com uma definição de serviço público que se baseie na complementaridade de conteúdos e na apresentação de uma oferta alternativa à das televisões privadas. Sem publicidade o serviço público de televisão seria diferente, não necessariamente pior e certamente mais justo para com o mercado.

(publicado na edição especial do «Diário Económico» titulada «E se Portugal»....)

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E SE O SERVIÇO PÚBLICO NÃO TIVESSE PUBLICIDADE?


Três, talvez quatro, canais comerciais em sinal aberto, segmentados para públicos diferentes, mais canais com conteúdos portugueses ou programação pensada para Portugal no cabo, maior actividade da produção independente, maior transparência no estabelecimento de preços, entrada de novos operadores – a vida podia ser assim, mas a realidade é que muito dificilmente lá chegaremos enquanto o serviço público de televisão competir comercialmente com os canais privados, quer no espaço hertziano, quer no cabo.

A vida podia ser bem diferente no reino da televisão se o canal público não estivesse sujeito à guerra das audiências, em função da possibilidade que tem de vender espaço publicitário – embora limitado. As diferenças existiriam em dois sentidos – numa vida diferente para os operadores privados (que seriam mais e com maior concorrência entre si), e numa tipologia de produção substancialmente diferente para o serviço público.

A falta de coragem em assumir o custo social de ter um serviço público de televisão arrasa com qualquer tentativa séria e coerente de fazer uma programação cuidada e de referência, por maior que seja a vontade e empenho dos seus responsáveis. Na realidade inviabiliza que o serviço público se torne instrumental na definição de uma paisagem audiovisual diferente, mais completa e dinâmica. Os responsáveis do serviço público vivem a disputar lideranças de audiências para melhorarem o valor dos seus espaços comerciais.

A situação tem laivos de algum maquiavelismo: o Estado gosta de ter um Serviço Público com audiências fortes, porque assim ele é mais influente – o facto de, dessa forma, limitar a possibilidade de maturação de um sector privado competitivo no audiovisual, é de somenos importância e tem sido uma característica de quase todos os Governos, com muito poucas excepções. O actual executivo tem aliás agido no sentido de reforçar a ligação ao Estado de todo o universo do serviço público e de incentivar até a sua concorrência ao sector privado. Ao mesmo tempo que estimula esta luta desigual, cria sucessivos mecanismos regulatórios, baseados em taxas e mais taxas, e vai diminuindo o relevo que nos anos mais recentes tinha sido dado à auto-regulação. O Estado quer mais poder de controlo, ao mesmo tempo que é ele próprio parte interessada – na realidade o objectivo do Estado é que a RTP tenha o máximo de receitas publicitárias possíveis e isso, em larga medida, não é compatível com uma definição de serviço público que se baseie na complementaridade de conteúdos e na apresentação de uma oferta alternativa à das televisões privadas. Sem publicidade o serviço público de televisão seria diferente, não necessariamente pior e certamente mais justo para com o mercado.

(publicado na edição especial do «Diário Económico» titulada «E se Portugal»....)

junho 12, 2006

GLOBALIZAÇÃO...
O seleccionador de Angola fala melhor português que o seleccionador de Portugal. Será isto a globalização?

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GLOBALIZAÇÃO...
O seleccionador de Angola fala melhor português que o seleccionador de Portugal. Será isto a globalização?
ESTADÃO


Às vezes acho que o país virou esquizofrénico. Explico: de um lado vemos o Governo a anunciar incentivos para reduzir o número de funcionários públicos e até a incentivar que passem para a iniciativa privada (vá-se lá saber como ou porquê…); do outro, vemos o Governo a criar novos organismos. O verniz liberal que o Primeiro Ministro gosta de usar dilui-se na acetona da fúria regulamentadora do Governo. Há cada vez mais entidades, autoridades, sumidades e banalidades que se proclamam reguladores. Têm duas coisas em comum: nascem de arranjinhos parlamentares onde a falta de pudor é a norma; e vivem de novas taxas que, em última análise são pagas pelos consumidores, por todos nós cidadãos.

Em boa parte dos casos há uma origem comum: o Ministro dos Assuntos Parlamentares, que distribui lugares, faz negociatas políticas nos corredores de S.Bento e garante a perpetuidade e prosperidade do Estadão, esse ponto de convergência de apetites partidários por lugares pagos pelo erário público.

Primeiro foram as empresas de comunicação a serem taxadas, de seguida querem fazer o mesmo às publicitárias, que fazem parte da cadeia de valor do mercado de informação e conteúdos. À falta de poder controlar ainda mais editorialmente a informação e os empresários do sector, aplicam-se taxas, criam-se limites artificiais, instala-se a ameaça. Este Governo resolveu acabar com os mecanismos que começavam a existir de auto-regulação e assumiu para o Estado o papel de fiscal todo-poderoso.

Para regulamentar a publicidade o Governo tem em mira cobrar 0,5% de um mercado de 5,4 mil milhões de euros - o alvo é sacar muitos milhões de euros em taxas aos anunciantes. Quem perde com isto? – Os consumidores que vão ver esta valor reflectido nos preços dos produtos que compram.

O Ministro Santos Silva pode continuar a fazer os seus joguinhos de corredor em S. Bento para comprar consciências. Mas para a História o que fica é uma nódoa no livre funcionamento da sociedade. Santos Silva é o retrato acabado do Estadão, ineficaz e perdulário por código genético. Longe do simplex e de vernizes liberais.

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ESTADÃO


Às vezes acho que o país virou esquizofrénico. Explico: de um lado vemos o Governo a anunciar incentivos para reduzir o número de funcionários públicos e até a incentivar que passem para a iniciativa privada (vá-se lá saber como ou porquê…); do outro, vemos o Governo a criar novos organismos. O verniz liberal que o Primeiro Ministro gosta de usar dilui-se na acetona da fúria regulamentadora do Governo. Há cada vez mais entidades, autoridades, sumidades e banalidades que se proclamam reguladores. Têm duas coisas em comum: nascem de arranjinhos parlamentares onde a falta de pudor é a norma; e vivem de novas taxas que, em última análise são pagas pelos consumidores, por todos nós cidadãos.

Em boa parte dos casos há uma origem comum: o Ministro dos Assuntos Parlamentares, que distribui lugares, faz negociatas políticas nos corredores de S.Bento e garante a perpetuidade e prosperidade do Estadão, esse ponto de convergência de apetites partidários por lugares pagos pelo erário público.

Primeiro foram as empresas de comunicação a serem taxadas, de seguida querem fazer o mesmo às publicitárias, que fazem parte da cadeia de valor do mercado de informação e conteúdos. À falta de poder controlar ainda mais editorialmente a informação e os empresários do sector, aplicam-se taxas, criam-se limites artificiais, instala-se a ameaça. Este Governo resolveu acabar com os mecanismos que começavam a existir de auto-regulação e assumiu para o Estado o papel de fiscal todo-poderoso.

Para regulamentar a publicidade o Governo tem em mira cobrar 0,5% de um mercado de 5,4 mil milhões de euros - o alvo é sacar muitos milhões de euros em taxas aos anunciantes. Quem perde com isto? – Os consumidores que vão ver esta valor reflectido nos preços dos produtos que compram.

O Ministro Santos Silva pode continuar a fazer os seus joguinhos de corredor em S. Bento para comprar consciências. Mas para a História o que fica é uma nódoa no livre funcionamento da sociedade. Santos Silva é o retrato acabado do Estadão, ineficaz e perdulário por código genético. Longe do simplex e de vernizes liberais.