dezembro 07, 2005

UM FADO ESPANHOL?

Não tenho nada, mas mesmo nada, contra a intensificação das relações com Espanha e até acho que todos teríamos a ganhar se elas fossem alargadas. Mas entendo que esse alargamento, desejável, deve ser alicerçado na defesa das respectivas identidades culturais e não num pot-pourri ibérico. Em Espanha, aliás, cada uma das regiões soube bem impôr a savaguarda das suas culturas. O caminho para uma união livre passa por estabelecer princípios claros.

Vem isto a propósito de o novo vereador da Cultura de Lisboa ter feito uma inesperada apologia de um velho projecto de encomendar ao realizador espanhol Carlos Saura um filme sobre o Fado. A história é antiga: Carlos do Carmo teria ficado seduzido pela forma como Saura conseguiu filmar o flamenco e achou, enquanto membro da Comissão para a classificação do fado Como Património Artístico da Humanidade, que devia ser ele a fazer o filme promocional da candidatura. Eu sempre achei que isto era uma daquelas ideias pacóvias, falsamente cosmopolitas, e que falhava no básico: Saura filmou bem o flamenco porque o sente; pela mesmíssima razão devia procurar-se um realizador português que sentisse o Fado – sem ser nostálgico, capaz de uma visão universal, capaz de dar alma ao filme. As escolhas possíveis são muitas e tenho na cabeça meia dúzia de nomes que garantidamente fariam muito bom serviço. O facto de a Câmara Municipal de Lisboa se propôr ser co-produtora de um filme (na realidade pouco mais que um curto documentário...) sobre o fado, realizado por Carlos Saura não augura nada de bom. E é um insulto aos realizadores portugueses.

Na mesma entrevista onde se revela apologista de Saura, o mesmo vereador diz muito contente que vai comprar a célebre colecção de discos de fado de um editor britânico especialista em fazer edições de registos que já caíram em domínio público, o senhor Bruce Bastin. Estive ligado em tempos a este processo e fiquei com três certezas: a colecção não é nem de perto tão boa como os seus vendedores apregoam; o preço que pediam era exageradíssimo e fora dos valores do mercado internacional para estas operações (o que se está a comprar é apenas um suporte físico, parte dele degradado, e todo ele arcaico e analógico que nada garante não esteja já duplicado digitalmente algures); e existiam contornos estranhos no negócio, que levavam a que o dinheiro dos contribuintes eventualmente usado na compra do espólio viesse a servir para financiar actividades privadas, pior ainda fora do controlo de entidades oficiais. Aguardemos para ver o que acontece: se tudo é claro, transparente, e na defesa do interesse público.

Finalmente não resisto a comentar uma outra intenção da mesma entrevista, à «Actual», do Expresso. Ficámos a saber que o Vereador da Cultura, José Manuel Amaral Lopes, aposta numa rêde de salas de cinema digitais e até na produção de cinema. Estou mesmo a ver mais um saco de subsídios a nascer, mais um desbaratar improdutivo de dinheiros públicos. Não é com mais subsídios que se resolvem os problemas, é procurando novos investimentos. Se em vez destas medidas avançasse com uma Film Commission para Lisboa, à semelhança do que existe em Madrid ou Paris? Por outro lado, antes de começar a fazer coisas novas – e de prioridade duvidosa – mais valia garantir que as que existem possam funcionar: esse é o maior problema que existe na área de Cultura da autarquia lisboeta.

E agora uma coisa boa: uma grande companhia para as noites deste Dezembro é o DVD «The Ultimate Collection» da grande Billie Holiday. Nesta época em que abundam vozes delico-doces e desinteressantes no chamado soft-vocal jazz, vale a pena ir direito à origem das coisas e ouvir a grande senhora dos Blues, Billie Holiday, desaparecida há 45 anos. Estas gravações, extraídas de programas de televisão e de filmes de finais dos anos 50, incluem grandes interpretações de temas como «Saddest Tale» (no filme homónimo com Duke Ellington), «I Cover The Waterfront», «Fine And Mellow» (com Lester Young) e «My Man». O DVD inclui ainda gravações feitas para programas de rádio, assim como algumas raras entrevistas radiofónicas da grande senhora dos Blues. Um DVD Verve, distribuído pela Universal.

Back To Basics – É melhor copiar o que é bom, do que inventar mal.

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UM FADO ESPANHOL?

Não tenho nada, mas mesmo nada, contra a intensificação das relações com Espanha e até acho que todos teríamos a ganhar se elas fossem alargadas. Mas entendo que esse alargamento, desejável, deve ser alicerçado na defesa das respectivas identidades culturais e não num pot-pourri ibérico. Em Espanha, aliás, cada uma das regiões soube bem impôr a savaguarda das suas culturas. O caminho para uma união livre passa por estabelecer princípios claros.

Vem isto a propósito de o novo vereador da Cultura de Lisboa ter feito uma inesperada apologia de um velho projecto de encomendar ao realizador espanhol Carlos Saura um filme sobre o Fado. A história é antiga: Carlos do Carmo teria ficado seduzido pela forma como Saura conseguiu filmar o flamenco e achou, enquanto membro da Comissão para a classificação do fado Como Património Artístico da Humanidade, que devia ser ele a fazer o filme promocional da candidatura. Eu sempre achei que isto era uma daquelas ideias pacóvias, falsamente cosmopolitas, e que falhava no básico: Saura filmou bem o flamenco porque o sente; pela mesmíssima razão devia procurar-se um realizador português que sentisse o Fado – sem ser nostálgico, capaz de uma visão universal, capaz de dar alma ao filme. As escolhas possíveis são muitas e tenho na cabeça meia dúzia de nomes que garantidamente fariam muito bom serviço. O facto de a Câmara Municipal de Lisboa se propôr ser co-produtora de um filme (na realidade pouco mais que um curto documentário...) sobre o fado, realizado por Carlos Saura não augura nada de bom. E é um insulto aos realizadores portugueses.

Na mesma entrevista onde se revela apologista de Saura, o mesmo vereador diz muito contente que vai comprar a célebre colecção de discos de fado de um editor britânico especialista em fazer edições de registos que já caíram em domínio público, o senhor Bruce Bastin. Estive ligado em tempos a este processo e fiquei com três certezas: a colecção não é nem de perto tão boa como os seus vendedores apregoam; o preço que pediam era exageradíssimo e fora dos valores do mercado internacional para estas operações (o que se está a comprar é apenas um suporte físico, parte dele degradado, e todo ele arcaico e analógico que nada garante não esteja já duplicado digitalmente algures); e existiam contornos estranhos no negócio, que levavam a que o dinheiro dos contribuintes eventualmente usado na compra do espólio viesse a servir para financiar actividades privadas, pior ainda fora do controlo de entidades oficiais. Aguardemos para ver o que acontece: se tudo é claro, transparente, e na defesa do interesse público.

Finalmente não resisto a comentar uma outra intenção da mesma entrevista, à «Actual», do Expresso. Ficámos a saber que o Vereador da Cultura, José Manuel Amaral Lopes, aposta numa rêde de salas de cinema digitais e até na produção de cinema. Estou mesmo a ver mais um saco de subsídios a nascer, mais um desbaratar improdutivo de dinheiros públicos. Não é com mais subsídios que se resolvem os problemas, é procurando novos investimentos. Se em vez destas medidas avançasse com uma Film Commission para Lisboa, à semelhança do que existe em Madrid ou Paris? Por outro lado, antes de começar a fazer coisas novas – e de prioridade duvidosa – mais valia garantir que as que existem possam funcionar: esse é o maior problema que existe na área de Cultura da autarquia lisboeta.

E agora uma coisa boa: uma grande companhia para as noites deste Dezembro é o DVD «The Ultimate Collection» da grande Billie Holiday. Nesta época em que abundam vozes delico-doces e desinteressantes no chamado soft-vocal jazz, vale a pena ir direito à origem das coisas e ouvir a grande senhora dos Blues, Billie Holiday, desaparecida há 45 anos. Estas gravações, extraídas de programas de televisão e de filmes de finais dos anos 50, incluem grandes interpretações de temas como «Saddest Tale» (no filme homónimo com Duke Ellington), «I Cover The Waterfront», «Fine And Mellow» (com Lester Young) e «My Man». O DVD inclui ainda gravações feitas para programas de rádio, assim como algumas raras entrevistas radiofónicas da grande senhora dos Blues. Um DVD Verve, distribuído pela Universal.

Back To Basics – É melhor copiar o que é bom, do que inventar mal.
PRÉ CAMPANHA
Mais emotiva que racional, o retrato da pré campanha das presidenciais resume-se a um jogo entre duas equipas, uma com quatro jogadores, outra com um apenas. Enquanto se persistir em olhar para o passado e discutir termos tão genéricos como esquerda e direita, sem concretizar propostas e programas, o que acontece é que se deixa de falar no futuro. O regime em que vivemos - este regime de descrédito de políticos e partidos - foi criado e formatado por um dos candidatos, Soares. A pré-campanha é a réplica do formato cabotino em que o país caíu. Não havia necessidade nenhuma de isto continuar a ser assim.

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PRÉ CAMPANHA
Mais emotiva que racional, o retrato da pré campanha das presidenciais resume-se a um jogo entre duas equipas, uma com quatro jogadores, outra com um apenas. Enquanto se persistir em olhar para o passado e discutir termos tão genéricos como esquerda e direita, sem concretizar propostas e programas, o que acontece é que se deixa de falar no futuro. O regime em que vivemos - este regime de descrédito de políticos e partidos - foi criado e formatado por um dos candidatos, Soares. A pré-campanha é a réplica do formato cabotino em que o país caíu. Não havia necessidade nenhuma de isto continuar a ser assim.

dezembro 02, 2005

A CONFUSÃO NACIONAL

Em grande parte das democracias da União Europeia o espectro partidário é marcado por um grande partido à direita e um grande partido à esquerda. Com o triunfo de algumas ideias liberais alguns dos partidos à esquerda têm-se reposicionado no centro – como é o caso dos Trabalhistas britânicos e, alguns partidos de direita, têm adoptado políticas sociais, fazendo o mesmo caminho em sentido inverso. Este é o quadro-resumo da tendência política na Europa e a recente união na acção entre a CDU e o SPD na Alemanha consubstancia um pouco a tendência que parece dominante – acaba por ser mais um pacto de regime do que uma coligação no sentido tradicional do termo.
A situação em Portugal – que ainda hoje é o retrato emergente do 25 de Novembro de há 30 anos atrás – é a de um partido socialista que de facto é social-democrata, de um Partido Social-Democrata que foi sempre confuso do ponto de vista ideológico e de um CDS/PP que foi quase sempre mais conservador do que liberal. No fundo temos dois partidos que se tocam e confundem (PS e PSD) e outro que oscila.
Mais marcados pelos seus fundadores e dirigentes – no fundo por personalidades – do que por um ideário e posicionamento claros, os partidos portugueses entraram num período de total confusão – e o resto do sistema político claro que os segue dedicadamente. No fundo o que se está a passar na falta de debate das eleições presidenciais é prova disso mesmo. Cada candidato deve ter um programa em que todos possamos perceber aquilo que cada um pretende estimular, e aquilo que quer contrariar. Para isto não é preciso revisão de poderes presidenciais, apenas frontalidade e clareza. De uma forma ou de outra, todos os presidentes estimulam e contrariam. Mais vale que saibamos antes qual o rumo concreto de cada um.

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A CONFUSÃO NACIONAL

Em grande parte das democracias da União Europeia o espectro partidário é marcado por um grande partido à direita e um grande partido à esquerda. Com o triunfo de algumas ideias liberais alguns dos partidos à esquerda têm-se reposicionado no centro – como é o caso dos Trabalhistas britânicos e, alguns partidos de direita, têm adoptado políticas sociais, fazendo o mesmo caminho em sentido inverso. Este é o quadro-resumo da tendência política na Europa e a recente união na acção entre a CDU e o SPD na Alemanha consubstancia um pouco a tendência que parece dominante – acaba por ser mais um pacto de regime do que uma coligação no sentido tradicional do termo.
A situação em Portugal – que ainda hoje é o retrato emergente do 25 de Novembro de há 30 anos atrás – é a de um partido socialista que de facto é social-democrata, de um Partido Social-Democrata que foi sempre confuso do ponto de vista ideológico e de um CDS/PP que foi quase sempre mais conservador do que liberal. No fundo temos dois partidos que se tocam e confundem (PS e PSD) e outro que oscila.
Mais marcados pelos seus fundadores e dirigentes – no fundo por personalidades – do que por um ideário e posicionamento claros, os partidos portugueses entraram num período de total confusão – e o resto do sistema político claro que os segue dedicadamente. No fundo o que se está a passar na falta de debate das eleições presidenciais é prova disso mesmo. Cada candidato deve ter um programa em que todos possamos perceber aquilo que cada um pretende estimular, e aquilo que quer contrariar. Para isto não é preciso revisão de poderes presidenciais, apenas frontalidade e clareza. De uma forma ou de outra, todos os presidentes estimulam e contrariam. Mais vale que saibamos antes qual o rumo concreto de cada um.
DESCOBERTAS INESPERADAS

Nos Estados Unidos até os bandidos têm direito a ter uma revista. Chama-se «Don Diva», existe desde 1999, e foi fundada pela mulher de um ex-presidiário. É apresentada como uma revista de bandidos e para bandidos, tem um completo manual sobre regras de boa conduta e sobrevivência em prisões, o seu site (http://www.dondivamag.com) oferece muito merchandising e informações complementares. Os temas abordados vão desde o acompanhamento da produção legislativa penal, até conselhos sobre como contornar a lei, denúncias de maus tratos em prisões ou de monopólios de fornecimento de serviços aos detidos.
Os estúdios Walt Disney vão utilizar downloadas para iPods e PCs para a promoção do novo filme «The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and The Wardrobe». Os utilizadores recebem clips do filme e cenas de bastidores, assim como entrevistas. O material pode ser obtido no site do filme. Esta decisão de marketing segue-se ao êxito dos downloads pagos para iPods de produtos da Disney como a série «Desperate Housewives».
A última moda no Reino Unido é uma daquelas empresas que propõe programas fascinantes de aventura e que se especializou em concretizar fantasias sexuais por encomenda. Chama-se «French Letter Days» e foi fundada por Emma Soyle, de 27 anos, que depois de um percurso em empresas de comunicação na área financeira da City londrina percebeu que havia mercado para fomentar outros tipos de comunicação. Daí ao «French Letter Days» foi um salto (desde um elevador para jogos amorosos até ao rapto simulado da namorada, ela trata de tudo), que já inclui o «Cake Club», um local onde as damas se podem divertir à custa dos rapazes e um ciclo de festas temáticas, mensais, «Killing Kittens» que na imprensa britânica já são consideradas «orgias de referência». Se por cá a moda pega ainda vemos os responsáveis de «A Vida É Bela» a mudarem de ramo.

O novo disco dos escoceses Franz Ferdinand, lançado em Outubro passado, pode facilmente passar por um dos momentos marcantes na música editada este ano. Canções como «The Fallen», «Walk Aaway» ou «You Could Have It So Much Better» mostram como depois de um grande album de estreia («Franz Ferdinand», Fevereiro de 2004), se consegue cerca de ano e meio depois continuar com energia, continuar a surpreender e mostrar uma invejável boa disposição. O disco é mesmo contagiante, e depois de o ouvir fiquei a pensar se não teria sido ao seu som que Pedro Cabrita Reis pintou as suas novas obras em papel, inesperadamente coloridas.

Há uma revista editada no Porto e que nem parece portuguesa. Chama-se «Attitude», tem o subtítulo «Atmosferas», aborda interiores, arte, arquitectura e design. Vende-se em vários países europeus, a equipa que a faz é internacional, sai seis vezes por anos, geralmente monotemática, fica muito apropriadamente instalada no Passeio das Virtudes. O Director é Carlos Cezanne, a edição é de Iris Abromivici Tevet. Muito bom grafismo, boa fotografia, informações mesmo úteis. E, além disso, uma boa onda geral que dá gosto.Contacto attitude@attitude-mag.com .

Uma das coisas boas que temos em Portugal é o azeite. Com bastante razão o azeite de Trás-Os Montes é afamado. Pois em Mirandela, na Quinta do Romeu, produz-se um dos nossos melhores azeites, daquele que até dá gosto para molhar o pãozinho, premiado internacionalmente, o Romeu. O olival tem 150 hectares, há muita informação interessante em www.quintadoromeu.com e para os lisboetas é possível encontrar a preciosidade no Corte Inglés. Já agora fiquem a saber que na povoação de Romeu, ao lado da Quinta, há um restaurante que é dos mesmos donos e se dedica à gastronomia tradicional da região. Chama-se Restaurante Maria Rita e o telefone é o 278 939 134. Da sopa seca à feijoada à transmontana as propostas são variadas.

Registo: A cantora brasileira Daniela Mercury, católica praticante, que havia sido convidada para participar no habitual concerto de Natal no Vaticano, foi desconvidada e vetada sumariamente quando as autoridades papais descobriram que ela tinha participado, no Brasil, numa campanha a favor da utilização de preservativo como forma de combate à propagação da SIDA. Os gestos ficam com quem os pratica, não é?

Back To Basics – A TV é pastilha elástica para os olhos (Frank Lloyd Wright).

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DESCOBERTAS INESPERADAS

Nos Estados Unidos até os bandidos têm direito a ter uma revista. Chama-se «Don Diva», existe desde 1999, e foi fundada pela mulher de um ex-presidiário. É apresentada como uma revista de bandidos e para bandidos, tem um completo manual sobre regras de boa conduta e sobrevivência em prisões, o seu site (http://www.dondivamag.com) oferece muito merchandising e informações complementares. Os temas abordados vão desde o acompanhamento da produção legislativa penal, até conselhos sobre como contornar a lei, denúncias de maus tratos em prisões ou de monopólios de fornecimento de serviços aos detidos.
Os estúdios Walt Disney vão utilizar downloadas para iPods e PCs para a promoção do novo filme «The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and The Wardrobe». Os utilizadores recebem clips do filme e cenas de bastidores, assim como entrevistas. O material pode ser obtido no site do filme. Esta decisão de marketing segue-se ao êxito dos downloads pagos para iPods de produtos da Disney como a série «Desperate Housewives».
A última moda no Reino Unido é uma daquelas empresas que propõe programas fascinantes de aventura e que se especializou em concretizar fantasias sexuais por encomenda. Chama-se «French Letter Days» e foi fundada por Emma Soyle, de 27 anos, que depois de um percurso em empresas de comunicação na área financeira da City londrina percebeu que havia mercado para fomentar outros tipos de comunicação. Daí ao «French Letter Days» foi um salto (desde um elevador para jogos amorosos até ao rapto simulado da namorada, ela trata de tudo), que já inclui o «Cake Club», um local onde as damas se podem divertir à custa dos rapazes e um ciclo de festas temáticas, mensais, «Killing Kittens» que na imprensa britânica já são consideradas «orgias de referência». Se por cá a moda pega ainda vemos os responsáveis de «A Vida É Bela» a mudarem de ramo.

O novo disco dos escoceses Franz Ferdinand, lançado em Outubro passado, pode facilmente passar por um dos momentos marcantes na música editada este ano. Canções como «The Fallen», «Walk Aaway» ou «You Could Have It So Much Better» mostram como depois de um grande album de estreia («Franz Ferdinand», Fevereiro de 2004), se consegue cerca de ano e meio depois continuar com energia, continuar a surpreender e mostrar uma invejável boa disposição. O disco é mesmo contagiante, e depois de o ouvir fiquei a pensar se não teria sido ao seu som que Pedro Cabrita Reis pintou as suas novas obras em papel, inesperadamente coloridas.

Há uma revista editada no Porto e que nem parece portuguesa. Chama-se «Attitude», tem o subtítulo «Atmosferas», aborda interiores, arte, arquitectura e design. Vende-se em vários países europeus, a equipa que a faz é internacional, sai seis vezes por anos, geralmente monotemática, fica muito apropriadamente instalada no Passeio das Virtudes. O Director é Carlos Cezanne, a edição é de Iris Abromivici Tevet. Muito bom grafismo, boa fotografia, informações mesmo úteis. E, além disso, uma boa onda geral que dá gosto.Contacto attitude@attitude-mag.com .

Uma das coisas boas que temos em Portugal é o azeite. Com bastante razão o azeite de Trás-Os Montes é afamado. Pois em Mirandela, na Quinta do Romeu, produz-se um dos nossos melhores azeites, daquele que até dá gosto para molhar o pãozinho, premiado internacionalmente, o Romeu. O olival tem 150 hectares, há muita informação interessante em www.quintadoromeu.com e para os lisboetas é possível encontrar a preciosidade no Corte Inglés. Já agora fiquem a saber que na povoação de Romeu, ao lado da Quinta, há um restaurante que é dos mesmos donos e se dedica à gastronomia tradicional da região. Chama-se Restaurante Maria Rita e o telefone é o 278 939 134. Da sopa seca à feijoada à transmontana as propostas são variadas.

Registo: A cantora brasileira Daniela Mercury, católica praticante, que havia sido convidada para participar no habitual concerto de Natal no Vaticano, foi desconvidada e vetada sumariamente quando as autoridades papais descobriram que ela tinha participado, no Brasil, numa campanha a favor da utilização de preservativo como forma de combate à propagação da SIDA. Os gestos ficam com quem os pratica, não é?

Back To Basics – A TV é pastilha elástica para os olhos (Frank Lloyd Wright).

novembro 28, 2005

O PARADOXO DOS NÚMEROS

As sondagens surgem contraditórias: quinta-feira as capas do «Público» e a do «DN» não podiam ser mais diferentes. As sondagens não são eleições, são indicadores que merecem ser estudados. Por isso mesmo faz sentido aprendermos a olhar para elas de uma outra forma, sobretudo aprendermos a lê-las, nomeadamente para que elas não se fiquem por parecer um paradioxo numérico. Se visitarem o blog «Margens de Erro» (http://www.margensdeerro.blogspot.com) poderão ter boas supresas – que desde logo passam pela análise entre as sondagens pré eleitorais das presidencias de 96 e 2001, comparadas com os respectivos resultyados finais. O autor, Pedro Magalhães, é o responsável pelas sondagens da Católica mas reconheça-se que analisa as sondagens disponíevis no mercado com rigor e isenção. Até aos dias das eleições este blog é de visita regular obrigatória.

Tenho uma simpatia especial pelos candidatos fora do sistema. Constato que as pessoas mais arrumadinhas que eu também se deixam seduzir – veja-se o posicionamento de Manuel Alegre: tenho para mim que ele recolhe tantas intenções de voto porque exprime o descontentamento com um sistema político falso, velho, baseado na mentira e na guerra palaciana. Mas devo reconhecer que a campanha que mais me agrada, mais imaginativa, com um recurso criativo maior à Net, é a do candidato Vieira – que sugere brigadas Vieira que colem autocolantes, que lança uma campanha de angariação de assinaturas dinâmica e que nos obriga a pensar sobre o significado real das eleições neste sistema. Como seria de esperar Manuel João Vieira apresenta a sua conferência de imprensa num local marcante: o velho Maxime, da Praça da Alegria. E, já agora, como ele é também um pintor de talento visitem a sua mais recente exposição que está até dia 3 de Dezembro na Galeria Arqué, Avenida Manuel Bombarda 120 A (de segunda a s´sbado das 11h00 às 21h00).

Por falar em exposições, em Sines o novo Centro de Artes estreia-se com uma inesperada mostra de inéditos de Graça Morais. A história é assim: a convite da Cãmara Municipal local, entre Julho e Outubro, Graça Morais improvisou um atelier no Castelo de Sines. O objectivo era preparar uma exposição que inaugurasse o novo Centro. Às vinte telas que resultaram desta residência castelar chamou-lhe «Os Olhos Azuis do Mar» e é inesperada face à obra anterior da artista. Graça Morais juntou-lhes uns desenhos e desafiou Augusto Brázio a escolher algumas das fotografias que lhe fez - a ver e a pintar - e que vinham no «DNA» de sexta-feira passada. «Os Olhos Azuis do Mar» será também um livro das edições ASA.

Harry Connick Jr. ganhou fama a cantar, acompanhando-se a ele próprio ao piano. Foi dos primeiros vocalistas da nova geração do jazz cantado – mas cedo se percebeu que era também um pianista de talento. Exactamente por isso Connick fez há uns anos um primeiro disco apenas ao piano, sem voz, e agora reincide com «Occasion, Connick On Piano, 2». Para o acompanhar fez uma escolha fantástica: o saxofone de Branford Marsalis. O resultado é simplesmente incontornável, o diálogo entre o piano e o saxofone é mágico, e palavra de honra que não estou a exagerar. São 13 temas (11 de Connick e 2 de Branford) cheios de encanto e com muito swing.

Deixem de lado os preconceitos e peguem no mais recente romance histórico de Fernando Campos, «O Cavaleiro da Águia». Francisco José Viegas não hesita: «poucas vezes um romance histórico português usa uma linguagem tão comovente, se perde e se deixa seduzir pela poesia. Campos é um mestre do romance histórico que passa em silêncio, sem muito ruído». Esta nova obra remonta aos primórdios da nacionalidade e está centrado na história de Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, e das histórias à sua volta. Lê-se um fôlego e sabe a pouco no fim.

Em matéria de restauração começou recentemente a desenvolver-se um novo pólo que merece atenção, a partir da Avenida da Liberdade. De repente ali estão o «Ad Lib» (Hotel Sofitel, tel. 21 322 83 50), o indiano Tamarindo (Calçada da Glória 43, tel. 21 346 60 80), a emparelhar com propostas mais leves, já aqui referidas, como o Café Três e o Luca, ou ainda um antigo e injustamente pouco prezado local, o restaurante do Tivoli Jardim.

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O PARADOXO DOS NÚMEROS

As sondagens surgem contraditórias: quinta-feira as capas do «Público» e a do «DN» não podiam ser mais diferentes. As sondagens não são eleições, são indicadores que merecem ser estudados. Por isso mesmo faz sentido aprendermos a olhar para elas de uma outra forma, sobretudo aprendermos a lê-las, nomeadamente para que elas não se fiquem por parecer um paradioxo numérico. Se visitarem o blog «Margens de Erro» (http://www.margensdeerro.blogspot.com) poderão ter boas supresas – que desde logo passam pela análise entre as sondagens pré eleitorais das presidencias de 96 e 2001, comparadas com os respectivos resultyados finais. O autor, Pedro Magalhães, é o responsável pelas sondagens da Católica mas reconheça-se que analisa as sondagens disponíevis no mercado com rigor e isenção. Até aos dias das eleições este blog é de visita regular obrigatória.

Tenho uma simpatia especial pelos candidatos fora do sistema. Constato que as pessoas mais arrumadinhas que eu também se deixam seduzir – veja-se o posicionamento de Manuel Alegre: tenho para mim que ele recolhe tantas intenções de voto porque exprime o descontentamento com um sistema político falso, velho, baseado na mentira e na guerra palaciana. Mas devo reconhecer que a campanha que mais me agrada, mais imaginativa, com um recurso criativo maior à Net, é a do candidato Vieira – que sugere brigadas Vieira que colem autocolantes, que lança uma campanha de angariação de assinaturas dinâmica e que nos obriga a pensar sobre o significado real das eleições neste sistema. Como seria de esperar Manuel João Vieira apresenta a sua conferência de imprensa num local marcante: o velho Maxime, da Praça da Alegria. E, já agora, como ele é também um pintor de talento visitem a sua mais recente exposição que está até dia 3 de Dezembro na Galeria Arqué, Avenida Manuel Bombarda 120 A (de segunda a s´sbado das 11h00 às 21h00).

Por falar em exposições, em Sines o novo Centro de Artes estreia-se com uma inesperada mostra de inéditos de Graça Morais. A história é assim: a convite da Cãmara Municipal local, entre Julho e Outubro, Graça Morais improvisou um atelier no Castelo de Sines. O objectivo era preparar uma exposição que inaugurasse o novo Centro. Às vinte telas que resultaram desta residência castelar chamou-lhe «Os Olhos Azuis do Mar» e é inesperada face à obra anterior da artista. Graça Morais juntou-lhes uns desenhos e desafiou Augusto Brázio a escolher algumas das fotografias que lhe fez - a ver e a pintar - e que vinham no «DNA» de sexta-feira passada. «Os Olhos Azuis do Mar» será também um livro das edições ASA.

Harry Connick Jr. ganhou fama a cantar, acompanhando-se a ele próprio ao piano. Foi dos primeiros vocalistas da nova geração do jazz cantado – mas cedo se percebeu que era também um pianista de talento. Exactamente por isso Connick fez há uns anos um primeiro disco apenas ao piano, sem voz, e agora reincide com «Occasion, Connick On Piano, 2». Para o acompanhar fez uma escolha fantástica: o saxofone de Branford Marsalis. O resultado é simplesmente incontornável, o diálogo entre o piano e o saxofone é mágico, e palavra de honra que não estou a exagerar. São 13 temas (11 de Connick e 2 de Branford) cheios de encanto e com muito swing.

Deixem de lado os preconceitos e peguem no mais recente romance histórico de Fernando Campos, «O Cavaleiro da Águia». Francisco José Viegas não hesita: «poucas vezes um romance histórico português usa uma linguagem tão comovente, se perde e se deixa seduzir pela poesia. Campos é um mestre do romance histórico que passa em silêncio, sem muito ruído». Esta nova obra remonta aos primórdios da nacionalidade e está centrado na história de Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, e das histórias à sua volta. Lê-se um fôlego e sabe a pouco no fim.

Em matéria de restauração começou recentemente a desenvolver-se um novo pólo que merece atenção, a partir da Avenida da Liberdade. De repente ali estão o «Ad Lib» (Hotel Sofitel, tel. 21 322 83 50), o indiano Tamarindo (Calçada da Glória 43, tel. 21 346 60 80), a emparelhar com propostas mais leves, já aqui referidas, como o Café Três e o Luca, ou ainda um antigo e injustamente pouco prezado local, o restaurante do Tivoli Jardim.
DITOS E DESMENTIDOS

Três figuras de primeiro plano do Partido Socialista estão envolvidas num debate sobre quem fala verdade e sobre quem mente. O assunto é a forma como terá sido escolhido o candidato socialista às presidenciais. Sócrates e Soares têm mantido uma versão, Manuel Alegre outra. As versões não são apenas ligeiramente diferentes, são radicalmente opostas. Numa situação destas apenas há uma certeza: alguém mente.
Já se sabe que a mentira é um expediente cada vez mais vulgar da política, mas quando a coisa envolve em suspeita dois candidatos presidenciais e um Primeiro Ministro em exercício, o assunto começa a ser preocupante.
Na essência está o processo de escolha e decisão da Direcção do PS sobre quem deveria ser o candidato. É uma questão que releva dos princípios democráticos de qualquer partido, mas também de uma noção de ética política.
A um observador externo parece que o Dr. Mário Soares, a certa altura, se decidiu a enfrentar Cavaco Silva e avisou dessa sua intenção o partido que fundou, impondo-a na prática. Talvez os dirigentes desse partido tenham preferido recuar nas hipóteses que começavam a colocar em cima da mesa, para não contrariarem o fundador. Psicanalistas e psicólogos poderão explicar este caso de relacionamento do PS e da sua direcção com o Dr. Soares.
O que me parece certo é que, ao contrário do que os seus cartazes dizem, Soares surgiu como um factor claro de divisão – e, quem nem sequer consegue unir os militantes do seu próprio partido, deveria ter pudor em se apresentar como o candidato ideal para unir os portugueses
Na essência ficará sempre no ar uma dúvida: quem mente? E quem ajuda à mentira?
Confesso que tenho alguma dificuldade, com os dados que existem, em achar que a mentira venha de Manuel Alegre.

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DITOS E DESMENTIDOS

Três figuras de primeiro plano do Partido Socialista estão envolvidas num debate sobre quem fala verdade e sobre quem mente. O assunto é a forma como terá sido escolhido o candidato socialista às presidenciais. Sócrates e Soares têm mantido uma versão, Manuel Alegre outra. As versões não são apenas ligeiramente diferentes, são radicalmente opostas. Numa situação destas apenas há uma certeza: alguém mente.
Já se sabe que a mentira é um expediente cada vez mais vulgar da política, mas quando a coisa envolve em suspeita dois candidatos presidenciais e um Primeiro Ministro em exercício, o assunto começa a ser preocupante.
Na essência está o processo de escolha e decisão da Direcção do PS sobre quem deveria ser o candidato. É uma questão que releva dos princípios democráticos de qualquer partido, mas também de uma noção de ética política.
A um observador externo parece que o Dr. Mário Soares, a certa altura, se decidiu a enfrentar Cavaco Silva e avisou dessa sua intenção o partido que fundou, impondo-a na prática. Talvez os dirigentes desse partido tenham preferido recuar nas hipóteses que começavam a colocar em cima da mesa, para não contrariarem o fundador. Psicanalistas e psicólogos poderão explicar este caso de relacionamento do PS e da sua direcção com o Dr. Soares.
O que me parece certo é que, ao contrário do que os seus cartazes dizem, Soares surgiu como um factor claro de divisão – e, quem nem sequer consegue unir os militantes do seu próprio partido, deveria ter pudor em se apresentar como o candidato ideal para unir os portugueses
Na essência ficará sempre no ar uma dúvida: quem mente? E quem ajuda à mentira?
Confesso que tenho alguma dificuldade, com os dados que existem, em achar que a mentira venha de Manuel Alegre.

novembro 20, 2005

A SICIALIZAÇÃO DO PAÍS

Há uma semelhança entre o cinema e a política. Para se conseguir sucesso tem que se ter um argumento credível e bons protagonistas. Um mau argumento pode dar cabo de uma boa história, erro na escolha das figuras principais pode demolir um projecto que parecia bom. Digam lá se o caso português não está cheio de situações destas, quer no Governo, quer na oposição?

Do lider da oposição esperar-se-ía que já tivesse perguntado ao Presidente da Republica se não acha que as tensões na área da justiça, da polícia, das forças armadas, dos professores e na Função Pública em geral não o preocupam. Está a fazer um ano que o PR resolveu dissolver o Parlamento depois de uma conversa com meia dúzia de banqueiros e financeiros, mas agora é que existe um clima de conflitualidade social como há muitos anos se não via, acompanhado de uma ainda maior degradação dos principais indices económicos e do agravamento do desemprego. Do líder da oposição esperar-se-ia apenas uma pergunta: «E agora, Senhor Presidente?».

As «Noites à Direita- Um Projecto Liberal» de quinta-feira passada foram dedicadas à economia, com uma bela conversa entre António Borges e Daniel Bessa e ambos coincidiram num retrato, semelhante, do país: dificuldade em fazer mudança, pouco debate ideológico, pouca abertura à inovação, elevado proteccionismo, pouca dinâmica social. Daniel Bessa, que curiosamente se classificou como um mero «consumidor de política» chegou a dizer que Portugal caminhava no sentido de se tornar semelhante à Sicília. Feito o diagnóstico, bem feito, diga-se, fica inevitavelmente uma pergunta: no actual quadro político-partidário será possível alterar as coisas? Os partidos que existem e o modo de funcionamento do regime não são eles próprios os pilares desta sicialização?

A AOL e a Warner anunciaram um novo serviço de Internet, In2TV, que permitirá aos utilizadores verem episódios inteiros de séries de televisão em «qualidade próxima da do DVD». O arranque do serviço está previsto para o início de 2006 e terá seis canais temáticos diferentes, acessíveis em banda larga normal com um software especial desenvolvido pela AOL e que para já será seu exclusivo. Quer dizer, está a nascer o novo universo dos canais exclusivamente pensados e programados para banda larga, sem necessidades de redes de emissão ou dos distribuidores de cabo pelo meio. A televisão, na realidade, está a deixar de ser o que era. E até por cá, mais dia menos dia, se há-de dar por isso.

VER – A próxima semana promete muita animação visual. Dia 23 inaugura mais uma edição da Arte Lisboa – Feira de Arte Contemporânea, que fica na FIL até dia 28 e integra as principais galerias nacionais e algumas espanholas. Entretanto na Estufa Fria, em Lisboa, já está a Anteciparte, que apresenta até dia 27 uma selecção da mais jovem expressão artística nacional.

DEVORAR – Misto de ler e de comer com os olhos, o livro «Na Roça Com Os Tachos» de João Carlos Silva, que, a partir de São Tomé e Principe, se tornou num caso raro de comunicação na televisão. As fotografias são de Adriana Freire, as receitas vão dos petiscos aos doces. Para as cozinhas, e em força!

OUVIR – Duas maneiras de ouvir uma nova e elogiada versão de «La Traviatta», dirigida por Carlo Rizzi à frente da Filarmónica de Viena e com as participações de Anna Trebenko como Violetta, Rolando Villazón como Alfredo e Thomas Hampson como Germont. Estreada em Salzburgo, esta nova versão da obra de Verdi tem sido elogiada. A Deustche Grammophon teve uma ideia editorial interessante: de um lado a edição da integral desta «La Traviatta», num CD duplo; do outro, e sob o título «Violetta», um CD que reúne as árias e duetos mais populares que percorrem a história de Violetta, com a voz de Anna Trebenko em particular destaque. Distribuição Universal Music.

BACK TO BASICS – Quando se aumenta o fosso entre as elites e as massas está a comprar-se um problema. Bem grande – basta ver o que se passa em França.

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A SICIALIZAÇÃO DO PAÍS

Há uma semelhança entre o cinema e a política. Para se conseguir sucesso tem que se ter um argumento credível e bons protagonistas. Um mau argumento pode dar cabo de uma boa história, erro na escolha das figuras principais pode demolir um projecto que parecia bom. Digam lá se o caso português não está cheio de situações destas, quer no Governo, quer na oposição?

Do lider da oposição esperar-se-ía que já tivesse perguntado ao Presidente da Republica se não acha que as tensões na área da justiça, da polícia, das forças armadas, dos professores e na Função Pública em geral não o preocupam. Está a fazer um ano que o PR resolveu dissolver o Parlamento depois de uma conversa com meia dúzia de banqueiros e financeiros, mas agora é que existe um clima de conflitualidade social como há muitos anos se não via, acompanhado de uma ainda maior degradação dos principais indices económicos e do agravamento do desemprego. Do líder da oposição esperar-se-ia apenas uma pergunta: «E agora, Senhor Presidente?».

As «Noites à Direita- Um Projecto Liberal» de quinta-feira passada foram dedicadas à economia, com uma bela conversa entre António Borges e Daniel Bessa e ambos coincidiram num retrato, semelhante, do país: dificuldade em fazer mudança, pouco debate ideológico, pouca abertura à inovação, elevado proteccionismo, pouca dinâmica social. Daniel Bessa, que curiosamente se classificou como um mero «consumidor de política» chegou a dizer que Portugal caminhava no sentido de se tornar semelhante à Sicília. Feito o diagnóstico, bem feito, diga-se, fica inevitavelmente uma pergunta: no actual quadro político-partidário será possível alterar as coisas? Os partidos que existem e o modo de funcionamento do regime não são eles próprios os pilares desta sicialização?

A AOL e a Warner anunciaram um novo serviço de Internet, In2TV, que permitirá aos utilizadores verem episódios inteiros de séries de televisão em «qualidade próxima da do DVD». O arranque do serviço está previsto para o início de 2006 e terá seis canais temáticos diferentes, acessíveis em banda larga normal com um software especial desenvolvido pela AOL e que para já será seu exclusivo. Quer dizer, está a nascer o novo universo dos canais exclusivamente pensados e programados para banda larga, sem necessidades de redes de emissão ou dos distribuidores de cabo pelo meio. A televisão, na realidade, está a deixar de ser o que era. E até por cá, mais dia menos dia, se há-de dar por isso.

VER – A próxima semana promete muita animação visual. Dia 23 inaugura mais uma edição da Arte Lisboa – Feira de Arte Contemporânea, que fica na FIL até dia 28 e integra as principais galerias nacionais e algumas espanholas. Entretanto na Estufa Fria, em Lisboa, já está a Anteciparte, que apresenta até dia 27 uma selecção da mais jovem expressão artística nacional.

DEVORAR – Misto de ler e de comer com os olhos, o livro «Na Roça Com Os Tachos» de João Carlos Silva, que, a partir de São Tomé e Principe, se tornou num caso raro de comunicação na televisão. As fotografias são de Adriana Freire, as receitas vão dos petiscos aos doces. Para as cozinhas, e em força!

OUVIR – Duas maneiras de ouvir uma nova e elogiada versão de «La Traviatta», dirigida por Carlo Rizzi à frente da Filarmónica de Viena e com as participações de Anna Trebenko como Violetta, Rolando Villazón como Alfredo e Thomas Hampson como Germont. Estreada em Salzburgo, esta nova versão da obra de Verdi tem sido elogiada. A Deustche Grammophon teve uma ideia editorial interessante: de um lado a edição da integral desta «La Traviatta», num CD duplo; do outro, e sob o título «Violetta», um CD que reúne as árias e duetos mais populares que percorrem a história de Violetta, com a voz de Anna Trebenko em particular destaque. Distribuição Universal Music.

BACK TO BASICS – Quando se aumenta o fosso entre as elites e as massas está a comprar-se um problema. Bem grande – basta ver o que se passa em França.
O CCB

A mais elementar justiça deve levar a recordar que o actual estado das coisas no CCB – que de repente se tornou preocupação nacional – vem do extraordinário Dr. Manuel Maria Carrilho, enquanto Ministro da Cultura. Foi ele quem nomeou o actual Presidente e quem fez alterações no modelo de funcionamento anteriormente existente.
Ao longo destes anos acentuou-se o afunilamento dos critérios de programação, ao mesmo tempo que se esvaziaram as parcerias criativas que garantiram muita da imagem de diversidade, hoje elogiada, que era a marca fundadora do CCB. No início da década de 90 assegurei o lançamento do Centro de Espectáculos, de que fui Director. Sei do que falo, dos planos que existiam, recordo-me bem dos autores dos planos e do que foi feito. E, do que não foi.
A partir da segunda metade da década de 90, a Administração do Centro começou a esvaziar as Direcções de conteúdos, chamou a si a decisão executiva, baseada em programadores as mais das vezes sectários e desligados da realidade da gestão de espaços daquela natureza e que curto-circuitavam as Direcções. Demorou uns anos, mas o resultado da inversão do caminho que estava a ser percorrido está agora à vista de todos. E, não é bonito de se ver. É nestas alturas que convém exercitar a memória e procurar a razão das coisas. A propósito, vale a pena ler o belo artigo de Alexandre Pomar na «Actual» do «Expresso» de sábado passado.
O CCB é um equipamento único. A crise em que vive neste momento devia levar a que o seu posicionamento, missão, estratégia e organização fossem repensados. Sem uma mudança profunda o CCB vai viver a chorar-se da crise orçamental e definhará aos poucos. Talvez possa ainda ser evitado.

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O CCB

A mais elementar justiça deve levar a recordar que o actual estado das coisas no CCB – que de repente se tornou preocupação nacional – vem do extraordinário Dr. Manuel Maria Carrilho, enquanto Ministro da Cultura. Foi ele quem nomeou o actual Presidente e quem fez alterações no modelo de funcionamento anteriormente existente.
Ao longo destes anos acentuou-se o afunilamento dos critérios de programação, ao mesmo tempo que se esvaziaram as parcerias criativas que garantiram muita da imagem de diversidade, hoje elogiada, que era a marca fundadora do CCB. No início da década de 90 assegurei o lançamento do Centro de Espectáculos, de que fui Director. Sei do que falo, dos planos que existiam, recordo-me bem dos autores dos planos e do que foi feito. E, do que não foi.
A partir da segunda metade da década de 90, a Administração do Centro começou a esvaziar as Direcções de conteúdos, chamou a si a decisão executiva, baseada em programadores as mais das vezes sectários e desligados da realidade da gestão de espaços daquela natureza e que curto-circuitavam as Direcções. Demorou uns anos, mas o resultado da inversão do caminho que estava a ser percorrido está agora à vista de todos. E, não é bonito de se ver. É nestas alturas que convém exercitar a memória e procurar a razão das coisas. A propósito, vale a pena ler o belo artigo de Alexandre Pomar na «Actual» do «Expresso» de sábado passado.
O CCB é um equipamento único. A crise em que vive neste momento devia levar a que o seu posicionamento, missão, estratégia e organização fossem repensados. Sem uma mudança profunda o CCB vai viver a chorar-se da crise orçamental e definhará aos poucos. Talvez possa ainda ser evitado.

novembro 18, 2005

TODO O MUNDO É COMPOSTO DE MUDANÇA


Há pouco menos de três anos, desafiado pelo Luís Marques, Administrador da RTP, comecei a trabalhar no projecto de lançamento de um canal de televisão em sinal aberto, feito em parceria com a sociedade civil, que sucedesse à RTP 2. Foi um projecto empolgante, assumido pela Administração da RTP, que estava incluído nas conclusões do relatório do grupo de trabalho sobre o serviço público de televisão, grupo esse que eu integrei em Junho de 2002. Mas, acima de tudo, foi a concretização de uma ideia provocatória e quase utópica lançada pela Presidente desse grupo, a Helena Vaz da Silva, a quem aqui desejo deixar uma palavra de recordação e saudade.

O projecto arrancou há dois anos, a 4 de Janeiro de 2004, depois de quase um ano de preparação. Foram – sem exagero - tempos fantásticos em que aprendi muitíssimo. Este não foi um projecto pessoal, foi um trabalho de equipa e aí reside a minha convicção de que tem condições para continuar, independentemente de quem o lidera mais directamente.

Quando aceitei este desafio tive claro que, em termos da minha vida profissional, ele devia ter um prazo, suficiente para que o projecto pudesse implantar-se, mas limitado no tempo. Acho o que sempre achei: na vida há muito poucas coisas definitivas. Não sou dos quadros da RTP, vim para aqui numa comissão de serviço que encarei como uma missão, nas exactas condições que tinha anteriormente. Essa missão, para mim, terminou. Fiz o melhor que sabia e devo aqui reconhecer publicamente o apoio que sempre tive do Conselho de Administração desta casa, mesmo nos momentos mais difíceis.

Não há projectos perfeitos e este não é excepção certamente. A equipa que tem trabalhado na 2: procurou, dentro dos meios de que dispunha, garantir o máximo de participação das 75 entidades da sociedade civil que estabeleceram protocolos de parceria connosco, procurou obedecer às directrizes do Contrato de Concessão Especial, nomeadamente na participação efectiva da sociedade civil, centrando a emissão na divulgação do conhecimento, numa programação singular para públicos infantis, cuidada e diversificada, na divulgação das expressões culturais e artísticas nacionais, com particular atenção aos cidadãos com dificuldades acrescidas de comunicação, apostando em ser complementar à RTP 1, o principal canal do serviço público de televisão. Produzimos nestes dois anos cerca de 20 documentários e gravámos uma dezena de óperas, concertos, recitais e bailados produzidos em Portugal. Trabalhámos quase exclusivamente com a produção independente.
Seleccionámos e programámos algumas das melhores séries de ficção e documentários da produção internacional que foram exibidas em Portugal neste período. Não fizemos mais que cumprir a nossa obrigação, dentro das condições orçamentais de que dispunhamos e que aceitámos.

Isto foi possível, nomeadamente, porque a Concessão Especial de Serviço Público permitia uma razoável dose de autonomia e abria um horizonte de evolução a médio prazo. É inteiramente legítimo que o accionista, que é o Estado, pretenda alterar o regime de Concessão existente, integrando a 2: na concessão geral de serviço público e limitando a possibilidade dessa evolução. Acontece, no entanto, que não foi nesse contexto que eu vim trabalhar para este projecto. Não faço juízos de valor, não quero fazer disto um drama, mas também não iludo a questão. Acho que chegou a altura de fazer o balanço e sair, abrindo a possibilidade a que outros desenvolvam o caminho, dentro do novo enquadramento e das novas regras que dentro de meses serão estabelecidas, de acordo com o programa do Governo e com as declarações dos seus responsáveis.

Quando a 2: arrancou obteve pouco mais de 3% de share no primeiro mês. Chegámos ao fim de 2004 com 4,4% de share, uma décima abaixo do objectivo que considerava razoável. Tudo indica que concluiremos este ano por volta dos 5% de share – e isto num horizonte de crescimento da penetração do Cabo. Estamos portanto acima dos objectivos traçados, em linha com o orçamento acordado, e sem alterações na tipologia de programação. Temos uma grelha estável, clara, segmentada por públicos, diversificada, mas arrumada e a cumprir horários. Um estudo divulgado esta semana mostra que a 2: foi o canal de sinal aberto que mais aumentou o tempo médio de visionamento e também o que conseguiu bons índices de fidelização de espectadores.

O meu tempo aqui está a chegar ao fim e isso, sinceramente, faz sentido. Projectos destes – de ruptura – precisam de ideias novas e de pessoas que contribuam permanentemente para alargar o que está feito. O meu sincero desejo é que isso aconteça.

Eu regressarei ao que sempre fiz ao longo dos anos, trabalhar em equipas que desenvolvem projectos – mas não é este nem o tempo nem o lugar para falar desse assunto. Para que não existam inquietações, no entanto, desejo deixar claro que a minha intenção de saída foi comunicada à Administração no dia 30 de Setembro, depois de ter aceite um projecto, que não é de televisão nem de produção audiovisual, e ao qual me dedicarei a partir de Janeiro de 2006.

Na 2: o orçamento para 2006 e respectivo plano de actividades ficaram prontos dentro das orientações decorrentes do plano de reestruturação económica e financeira da RTP, a grelha para 2006 ficou desenhada na totalidade e ficou alinhada para o primeiro trimestre do ano. Estão escolhidas e propostas as aquisições internacionais nas áreas infantis, de documentário e ficção, assim como se encontram em fase de elaboração de contrato as produções nacionais existentes e que continuam, assim como alguns novos documentários.

Uma palavra para o Jorge Wemans, que vai continuar o projecto, nestes dois anos trabalhámos nos projectos de parceria da Fundação Gulbenkian com a 2:. Desejo-lhe as maiores felicidades.


Três notas finais:
Um agradecimento especial às entidades com quem tive a honra e o privilégio de trabalhar ao longo destes três anos e que demonstraram que afinal alguma sociedade civil havia em Portugal. Permitam-me que personalize este agradecimento nos dois Presidentes do Conselho de Acompanhamento – o anterior, Dr. António Gomes de Pinho, e o actual, Dr. Guilherme de Oliveira Martins.

Uma palavra muito sentida de agradecimento às áreas da RTP, auxiliares da programação, das auto-promoções à sonoplastia, do grafismo às compras internacionais, dos estudos de audiências às relações institucionais. Se me esqueci de alguém as minhas desculpas. Uma palavra especial para a Antena 2 da RDP, com quem cedo começámos a fazer coisas em conjunto – ainda ontem isso aconteceu na gravação de um recital do pianista Domingos António.

E a minha última palavra – os últimos são sempre os primeiros - vai para a equipa da 2:, a grelha e preparação de emissão, o marketing, os parceiros e os conteúdos partilhados, os infantis, os musicais, as curtas metragens, a produção e o secretariado. Todos aceitaram vir para este projecto contra ventos e marés, sem benesses nem recompensas – antes pelo contrário por vezes – e todos trabalharam de forma entusiástica nesta ideia. Sem eles e elas, nada disto teria sido feito. Muito obrigado a todos. Conheci aqui bons amigos e levo boas recordações. É tempo de mudar, até porque, citando Camões, todo o mundo é composto de mudança.

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TODO O MUNDO É COMPOSTO DE MUDANÇA


Há pouco menos de três anos, desafiado pelo Luís Marques, Administrador da RTP, comecei a trabalhar no projecto de lançamento de um canal de televisão em sinal aberto, feito em parceria com a sociedade civil, que sucedesse à RTP 2. Foi um projecto empolgante, assumido pela Administração da RTP, que estava incluído nas conclusões do relatório do grupo de trabalho sobre o serviço público de televisão, grupo esse que eu integrei em Junho de 2002. Mas, acima de tudo, foi a concretização de uma ideia provocatória e quase utópica lançada pela Presidente desse grupo, a Helena Vaz da Silva, a quem aqui desejo deixar uma palavra de recordação e saudade.

O projecto arrancou há dois anos, a 4 de Janeiro de 2004, depois de quase um ano de preparação. Foram – sem exagero - tempos fantásticos em que aprendi muitíssimo. Este não foi um projecto pessoal, foi um trabalho de equipa e aí reside a minha convicção de que tem condições para continuar, independentemente de quem o lidera mais directamente.

Quando aceitei este desafio tive claro que, em termos da minha vida profissional, ele devia ter um prazo, suficiente para que o projecto pudesse implantar-se, mas limitado no tempo. Acho o que sempre achei: na vida há muito poucas coisas definitivas. Não sou dos quadros da RTP, vim para aqui numa comissão de serviço que encarei como uma missão, nas exactas condições que tinha anteriormente. Essa missão, para mim, terminou. Fiz o melhor que sabia e devo aqui reconhecer publicamente o apoio que sempre tive do Conselho de Administração desta casa, mesmo nos momentos mais difíceis.

Não há projectos perfeitos e este não é excepção certamente. A equipa que tem trabalhado na 2: procurou, dentro dos meios de que dispunha, garantir o máximo de participação das 75 entidades da sociedade civil que estabeleceram protocolos de parceria connosco, procurou obedecer às directrizes do Contrato de Concessão Especial, nomeadamente na participação efectiva da sociedade civil, centrando a emissão na divulgação do conhecimento, numa programação singular para públicos infantis, cuidada e diversificada, na divulgação das expressões culturais e artísticas nacionais, com particular atenção aos cidadãos com dificuldades acrescidas de comunicação, apostando em ser complementar à RTP 1, o principal canal do serviço público de televisão. Produzimos nestes dois anos cerca de 20 documentários e gravámos uma dezena de óperas, concertos, recitais e bailados produzidos em Portugal. Trabalhámos quase exclusivamente com a produção independente.
Seleccionámos e programámos algumas das melhores séries de ficção e documentários da produção internacional que foram exibidas em Portugal neste período. Não fizemos mais que cumprir a nossa obrigação, dentro das condições orçamentais de que dispunhamos e que aceitámos.

Isto foi possível, nomeadamente, porque a Concessão Especial de Serviço Público permitia uma razoável dose de autonomia e abria um horizonte de evolução a médio prazo. É inteiramente legítimo que o accionista, que é o Estado, pretenda alterar o regime de Concessão existente, integrando a 2: na concessão geral de serviço público e limitando a possibilidade dessa evolução. Acontece, no entanto, que não foi nesse contexto que eu vim trabalhar para este projecto. Não faço juízos de valor, não quero fazer disto um drama, mas também não iludo a questão. Acho que chegou a altura de fazer o balanço e sair, abrindo a possibilidade a que outros desenvolvam o caminho, dentro do novo enquadramento e das novas regras que dentro de meses serão estabelecidas, de acordo com o programa do Governo e com as declarações dos seus responsáveis.

Quando a 2: arrancou obteve pouco mais de 3% de share no primeiro mês. Chegámos ao fim de 2004 com 4,4% de share, uma décima abaixo do objectivo que considerava razoável. Tudo indica que concluiremos este ano por volta dos 5% de share – e isto num horizonte de crescimento da penetração do Cabo. Estamos portanto acima dos objectivos traçados, em linha com o orçamento acordado, e sem alterações na tipologia de programação. Temos uma grelha estável, clara, segmentada por públicos, diversificada, mas arrumada e a cumprir horários. Um estudo divulgado esta semana mostra que a 2: foi o canal de sinal aberto que mais aumentou o tempo médio de visionamento e também o que conseguiu bons índices de fidelização de espectadores.

O meu tempo aqui está a chegar ao fim e isso, sinceramente, faz sentido. Projectos destes – de ruptura – precisam de ideias novas e de pessoas que contribuam permanentemente para alargar o que está feito. O meu sincero desejo é que isso aconteça.

Eu regressarei ao que sempre fiz ao longo dos anos, trabalhar em equipas que desenvolvem projectos – mas não é este nem o tempo nem o lugar para falar desse assunto. Para que não existam inquietações, no entanto, desejo deixar claro que a minha intenção de saída foi comunicada à Administração no dia 30 de Setembro, depois de ter aceite um projecto, que não é de televisão nem de produção audiovisual, e ao qual me dedicarei a partir de Janeiro de 2006.

Na 2: o orçamento para 2006 e respectivo plano de actividades ficaram prontos dentro das orientações decorrentes do plano de reestruturação económica e financeira da RTP, a grelha para 2006 ficou desenhada na totalidade e ficou alinhada para o primeiro trimestre do ano. Estão escolhidas e propostas as aquisições internacionais nas áreas infantis, de documentário e ficção, assim como se encontram em fase de elaboração de contrato as produções nacionais existentes e que continuam, assim como alguns novos documentários.

Uma palavra para o Jorge Wemans, que vai continuar o projecto, nestes dois anos trabalhámos nos projectos de parceria da Fundação Gulbenkian com a 2:. Desejo-lhe as maiores felicidades.


Três notas finais:
Um agradecimento especial às entidades com quem tive a honra e o privilégio de trabalhar ao longo destes três anos e que demonstraram que afinal alguma sociedade civil havia em Portugal. Permitam-me que personalize este agradecimento nos dois Presidentes do Conselho de Acompanhamento – o anterior, Dr. António Gomes de Pinho, e o actual, Dr. Guilherme de Oliveira Martins.

Uma palavra muito sentida de agradecimento às áreas da RTP, auxiliares da programação, das auto-promoções à sonoplastia, do grafismo às compras internacionais, dos estudos de audiências às relações institucionais. Se me esqueci de alguém as minhas desculpas. Uma palavra especial para a Antena 2 da RDP, com quem cedo começámos a fazer coisas em conjunto – ainda ontem isso aconteceu na gravação de um recital do pianista Domingos António.

E a minha última palavra – os últimos são sempre os primeiros - vai para a equipa da 2:, a grelha e preparação de emissão, o marketing, os parceiros e os conteúdos partilhados, os infantis, os musicais, as curtas metragens, a produção e o secretariado. Todos aceitaram vir para este projecto contra ventos e marés, sem benesses nem recompensas – antes pelo contrário por vezes – e todos trabalharam de forma entusiástica nesta ideia. Sem eles e elas, nada disto teria sido feito. Muito obrigado a todos. Conheci aqui bons amigos e levo boas recordações. É tempo de mudar, até porque, citando Camões, todo o mundo é composto de mudança.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões