outubro 10, 2005

DIREITA
A direita ganhou e a esquerda perdeu. O resto é conversa. Mesmo nos centros urbanos de grande dimensão, não foi a esquerda a ganhar. Isso é bom. Espero que façam bom uso do poder quer agora receberam dos eleitores.

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DIREITA
A direita ganhou e a esquerda perdeu. O resto é conversa. Mesmo nos centros urbanos de grande dimensão, não foi a esquerda a ganhar. Isso é bom. Espero que façam bom uso do poder quer agora receberam dos eleitores.

outubro 09, 2005

MANUAL DO PRÍNCIPE
Manuel Maria Carrilho, João Soares e Francisco Assis perderam as eleições. Menos três para importunar Sócrates. Pelo caminho Jorge Coelho ficou em xeque, apesar de recusar a evidência da derrota. Assim se vê por onde vai o PS... Maquiavel não teria feito melhor.

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MANUAL DO PRÍNCIPE
Manuel Maria Carrilho, João Soares e Francisco Assis perderam as eleições. Menos três para importunar Sócrates. Pelo caminho Jorge Coelho ficou em xeque, apesar de recusar a evidência da derrota. Assim se vê por onde vai o PS... Maquiavel não teria feito melhor.
ANTES DOS RESULTADOS
Os fins não justificam os meios
O ALICERCE

CONSTRUÇÃO – Sabem quem é o alicerce deste regime? Basta olhar para o sector da construção. Todos os eleitos, das mais pequenas autarquias até ao Governo, sonham em fazer obra, em construir, em mudar. Poucos pensam em melhorar o que está, em aperfeiçoar, em rentabilizar. Deitar abaixo e fazer de novo é o lema de Portugal desde há décadas e é uma das razões porque o país chegou onde chegou. Por alguma razão se misturam os interesses de grandes empresas de construção e de obras públicas com a política e os partidos. São estas empresas que de facto dominam o regime - e como se verá neste fim de semana, qualquer que seja o vencedor em cada autarquia, lá estará uma obrazinha para fazer, seja um túnel, um estádio, um aeroporto ou um parque de estacionamento.

VIZINHOS – Aqui ao lado, em Espanha, o Ministério da Economia e Finanças e o Ministério da Cultura estão em fase avançada de negociações para que qualquer empresa que invista na produção de cinema espanhol possa ter um benefício fiscal de 20 por cento, valor a que até agora só os produtores têm acesso. A actual desagravação para o sector é de cinco por cento, o que significa aumentar em 15% o benefício concedido. A Ministra da Cultura de Espanha, Carmen Calvo, mostrou-se optimista quanto à evolução das negociações e sublinhou que o objectivo é «canalizar mais investimento privado para produzir cinema em Espanha». Curioso – tão perto, e, no entanto, tão longe – não é?

TELEMÓVEIS – O operador de telemóveis britânico Orange lançou esta semana um canal exclusivo para telemóveis, inteiramente consagrado à transmissão directa de jogos de cricket de uma das mais célebres competições mundiais da modalidade, a ICC Super Series. Neste momento a Orange disponibiliza já 16 canais diferentes, um deles desenvolvido para a Orange pela Endemol e que apresenta apenas reality shows.

COMER – Hoje, um petisco, no bairro lisboeta que oferece maior escolha de cafés. Pois então dirijam-se a Campo de Ourique, à histórica Rua de Infantaria 16, procurem o nº62-B e encontrarão «O Meu Café». Está aberto até às 11 da noite: O petisco que vos proponho é a especialidade da casa: as merendas mistas são feitas em fornadas contínuas ao longo do dia e resolvem bem qualquer ataque de apetite. Tem esplanada, simpática.

VER – Durante alguns dias o Fórum Lisboa (antigo Cinema Roma) é o palco de acolhimento da sexta edição da Festa do Cinema Francês. Consultem o site www.festadocinemafrances.com para saberem todos os detalhes da programação e fiquem avisados que este fim de semana há boas razões para maratonas cinematográficas. Termina dia 16 de Outubro.

DESCOBRIR – Deste sábado até dia 11, o espectáculo Metamorphis, no CCB, integrado no Festival Temps d’Images. Concepção de Alberto Lopes.

OUVIR – Uma das melhores vozes femininas dos últimos anos é de Fiona Apple. Pianista e cantora, ela assume integralmente a autoria das suas canções no novo «Extraordinary Machine» e fez o mais maduro e marcante dos seus três
discos editados até à data. O álbum é empolgante e canções como «Red Red Red» e «Window» vão seguramente tornar-se referências na sua obra. Fiona não editava desde o álbum «Magnolia» , de 1999 e este «Extraordinary Machine» é mesmo surpreendente.

LER – Está escrito como uma história deliciosa e aventureira, e é-o de facto: «Barings, A História do Banco Britânico Que Salvou Portugal» é uma viagem pelos meandros de uma instituição financeira que durante um século acudiu aos governos portugueses cada vez que a ruína espreitava. Da autoria de dois jornalistas (Fernando Sobral deste «Jornal de Negócios» e Paula Alexandre Cordeiro do «Diário Económico»), o livro lê-se com o entusiasmo e vontade que se dedicam às boas histórias bem contadas.

PERGUNTA – Só ao fim de dez anos de mandato é que Jorge Sampaio se lembrou de que há corrupção e fugas aos impostos, que o país está um caos e que os políticos são um grupo com má reputação? Ou será que ele acha que durante os seus dois mandatos as coisas pioraram a olhos vistos e não se quis ir embora sem antes o reconhecer?

DESABAFO – O voto útil é o que de pior se podia ter inventado para a democracia.

BACK TO BASICS – Um político é julgado pela animosidade que suscita nos seus opositores, Sir Winston Churchill.

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ANTES DOS RESULTADOS
Os fins não justificam os meios

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O ALICERCE

CONSTRUÇÃO – Sabem quem é o alicerce deste regime? Basta olhar para o sector da construção. Todos os eleitos, das mais pequenas autarquias até ao Governo, sonham em fazer obra, em construir, em mudar. Poucos pensam em melhorar o que está, em aperfeiçoar, em rentabilizar. Deitar abaixo e fazer de novo é o lema de Portugal desde há décadas e é uma das razões porque o país chegou onde chegou. Por alguma razão se misturam os interesses de grandes empresas de construção e de obras públicas com a política e os partidos. São estas empresas que de facto dominam o regime - e como se verá neste fim de semana, qualquer que seja o vencedor em cada autarquia, lá estará uma obrazinha para fazer, seja um túnel, um estádio, um aeroporto ou um parque de estacionamento.

VIZINHOS – Aqui ao lado, em Espanha, o Ministério da Economia e Finanças e o Ministério da Cultura estão em fase avançada de negociações para que qualquer empresa que invista na produção de cinema espanhol possa ter um benefício fiscal de 20 por cento, valor a que até agora só os produtores têm acesso. A actual desagravação para o sector é de cinco por cento, o que significa aumentar em 15% o benefício concedido. A Ministra da Cultura de Espanha, Carmen Calvo, mostrou-se optimista quanto à evolução das negociações e sublinhou que o objectivo é «canalizar mais investimento privado para produzir cinema em Espanha». Curioso – tão perto, e, no entanto, tão longe – não é?

TELEMÓVEIS – O operador de telemóveis britânico Orange lançou esta semana um canal exclusivo para telemóveis, inteiramente consagrado à transmissão directa de jogos de cricket de uma das mais célebres competições mundiais da modalidade, a ICC Super Series. Neste momento a Orange disponibiliza já 16 canais diferentes, um deles desenvolvido para a Orange pela Endemol e que apresenta apenas reality shows.

COMER – Hoje, um petisco, no bairro lisboeta que oferece maior escolha de cafés. Pois então dirijam-se a Campo de Ourique, à histórica Rua de Infantaria 16, procurem o nº62-B e encontrarão «O Meu Café». Está aberto até às 11 da noite: O petisco que vos proponho é a especialidade da casa: as merendas mistas são feitas em fornadas contínuas ao longo do dia e resolvem bem qualquer ataque de apetite. Tem esplanada, simpática.

VER – Durante alguns dias o Fórum Lisboa (antigo Cinema Roma) é o palco de acolhimento da sexta edição da Festa do Cinema Francês. Consultem o site www.festadocinemafrances.com para saberem todos os detalhes da programação e fiquem avisados que este fim de semana há boas razões para maratonas cinematográficas. Termina dia 16 de Outubro.

DESCOBRIR – Deste sábado até dia 11, o espectáculo Metamorphis, no CCB, integrado no Festival Temps d’Images. Concepção de Alberto Lopes.

OUVIR – Uma das melhores vozes femininas dos últimos anos é de Fiona Apple. Pianista e cantora, ela assume integralmente a autoria das suas canções no novo «Extraordinary Machine» e fez o mais maduro e marcante dos seus três
discos editados até à data. O álbum é empolgante e canções como «Red Red Red» e «Window» vão seguramente tornar-se referências na sua obra. Fiona não editava desde o álbum «Magnolia» , de 1999 e este «Extraordinary Machine» é mesmo surpreendente.

LER – Está escrito como uma história deliciosa e aventureira, e é-o de facto: «Barings, A História do Banco Britânico Que Salvou Portugal» é uma viagem pelos meandros de uma instituição financeira que durante um século acudiu aos governos portugueses cada vez que a ruína espreitava. Da autoria de dois jornalistas (Fernando Sobral deste «Jornal de Negócios» e Paula Alexandre Cordeiro do «Diário Económico»), o livro lê-se com o entusiasmo e vontade que se dedicam às boas histórias bem contadas.

PERGUNTA – Só ao fim de dez anos de mandato é que Jorge Sampaio se lembrou de que há corrupção e fugas aos impostos, que o país está um caos e que os políticos são um grupo com má reputação? Ou será que ele acha que durante os seus dois mandatos as coisas pioraram a olhos vistos e não se quis ir embora sem antes o reconhecer?

DESABAFO – O voto útil é o que de pior se podia ter inventado para a democracia.

BACK TO BASICS – Um político é julgado pela animosidade que suscita nos seus opositores, Sir Winston Churchill.

outubro 07, 2005

A UTILIDADE DO VOTO
(hoje, em «O Independente»)

Como em qualquer outra eleição, estes últimos dias são passados em torno do apelo ao voto útil. Estes apelos vêm sobretudo dos grandes partidos, nomeadamente dos pilares do bloco central, responsáveis de facto pelo estado do país. Acontece que o apelo ao voto útil é o pior serviço que se pode prestar à liberdade de opinião e de expressão e ao funcionamento da democracia.
A ideia bondosa das eleições, embora já estejamos longe dela, é certo, é propôr e debater programas diferentes, oferecer várias propostas e, de entre elas, escolher uma que conjunturalmente nos agrade mais. Num mundo ideal os partidos não deviam promover a fidelidade clubista mas sim o debate de ideias. O apelo ao voto útil visa o contrário disto: deixem de expressar as vossas convicções e adaptem-se ao mal menor, mas a um que efectivamente possa ter poder.
Não gosto do mundo a preto e branco, não gosto das coisas automaticamente divididas entre o bem e o mal – acho que vale a pena ter o máximo de opinião e de correntes representadas a todos os níveis de poder. E acho que os pequenos partidos são essenciais para que de facto exista democracia, para que novos temas sejam introduzidos na agenda política. Em geral tenho tendência a evitar a teoria do mal menor.
Durante muito tempo estive hesitante sobre o meu sentido de voto em Lisboa. Devia manter alguma fidelidade, mesmo que não me revisse no programa? Ou devia procurar contribuir para ter mais vozes na autarquia? As eleições fizeram-se para permitir que mais vozes se ouçam, e gosto do que tenho ouvido de Maria José Nogueira Pinto. Sobretudo agrada-me a ideia de melhorar o que existe, em vez de passar a vida a fazer tudo de novo. É nela que vou votar. E estou certo que é o voto mais útil que podia ter.

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A UTILIDADE DO VOTO
(hoje, em «O Independente»)

Como em qualquer outra eleição, estes últimos dias são passados em torno do apelo ao voto útil. Estes apelos vêm sobretudo dos grandes partidos, nomeadamente dos pilares do bloco central, responsáveis de facto pelo estado do país. Acontece que o apelo ao voto útil é o pior serviço que se pode prestar à liberdade de opinião e de expressão e ao funcionamento da democracia.
A ideia bondosa das eleições, embora já estejamos longe dela, é certo, é propôr e debater programas diferentes, oferecer várias propostas e, de entre elas, escolher uma que conjunturalmente nos agrade mais. Num mundo ideal os partidos não deviam promover a fidelidade clubista mas sim o debate de ideias. O apelo ao voto útil visa o contrário disto: deixem de expressar as vossas convicções e adaptem-se ao mal menor, mas a um que efectivamente possa ter poder.
Não gosto do mundo a preto e branco, não gosto das coisas automaticamente divididas entre o bem e o mal – acho que vale a pena ter o máximo de opinião e de correntes representadas a todos os níveis de poder. E acho que os pequenos partidos são essenciais para que de facto exista democracia, para que novos temas sejam introduzidos na agenda política. Em geral tenho tendência a evitar a teoria do mal menor.
Durante muito tempo estive hesitante sobre o meu sentido de voto em Lisboa. Devia manter alguma fidelidade, mesmo que não me revisse no programa? Ou devia procurar contribuir para ter mais vozes na autarquia? As eleições fizeram-se para permitir que mais vozes se ouçam, e gosto do que tenho ouvido de Maria José Nogueira Pinto. Sobretudo agrada-me a ideia de melhorar o que existe, em vez de passar a vida a fazer tudo de novo. É nela que vou votar. E estou certo que é o voto mais útil que podia ter.
VOTO ÚTIL
O voto mais útil é aquele em que mais acreditamos, não é o que dá mais jeito a arranjinhos de poder. Gostava de ter na Câmara Municipal de Lisboa alguém que tenha uma visão regenerativa da cidade. Domingo vou votar Maria José Nogueira Pinto.

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VOTO ÚTIL
O voto mais útil é aquele em que mais acreditamos, não é o que dá mais jeito a arranjinhos de poder. Gostava de ter na Câmara Municipal de Lisboa alguém que tenha uma visão regenerativa da cidade. Domingo vou votar Maria José Nogueira Pinto.

outubro 03, 2005

TODO O MUNDO É UM PALCO

DIGITAL – Uma das razões porque às vezes as coisas funcionam bem reside na velha planificação. A mudança de televisão analógica para digital, que em toda a União Europeia deve ocorrer até 2012, vai necessitar – para além de equipamentos de transmissão e recepção diferentes – de toda uma infra-estrutura de distribuição de sinal adequada às novas especificidades técnicas. Pois na Grã-Bretanha foi apresentado um Guia de Boas Práticas para o sector da construção, imobiliário e renovação urbana, com todos os detalhes sobre o que deve ser feito e o que deve ser evitado. Na introdução o Ministro do Broadcasting, James Purnell, sublinha que «é preciso começar a preparar agora o que terá de se iniciar daqui a três anos» (já que o início do switchover digital na Grã Bretanha está previsto para 2008). A publicação, do Chartered Institute of Housing dirige-se quer a senhorios quer a inquilinos e tem uma única preocupação: ajudar o consumidor. Curioso, não é?.

NÚMEROS – Na Grã Bretanha a organização não desportiva que tem maior número de filiados não é nenhum partido político – é a Royal Society For The Protection Of The Birds com 1.049.392 inscritos. Os pássaros revelam-se assim muito mais gratificantes que a política: os Conservadores apresentam 300.000 inscritos, os Trabalhistas 200.000 e os Liberais 70.000.

REFEIÇÃO – Apenas o jantar, aviso já. Os mais velhos poderão lembrar-se do Angelus a caminho de Sesimbra, onde há uns anos se fazia o fondue de referência; anos mais tarde a mesma equipa estava na Porta Branca (Bairro Alto), onde entre as várias iguarias se propunha tubarão. Pois quer o fondue, quer o tubarão, quer algumas outras iguarias estão de volta, desta vez a Brejos de Azeitão, no «Anxel». É escusado dizer que a carne do fondue é especialíssima, muito tenra, com um corte invulgar, bem temperada. A sala é simpática, a garrafeira razoável e moderada em preços. As reservas podem ser feitas para o 917040963. A mesma equipa tem em Lisboa o restaurante «Mãe de Água», na Rua das Amoreiras 10, telefone 21 388 28 20.

VER – Na Plataforma Revólver, Rua da Boavista 84-3º (em Lisboa, a Santos) a exposição «Travel», uma colectiva de oito novos artistas provenientes dos países africanos de expressão portuguesa que apresentam trabalhos propondo novas formas de abordagem à tradição plástica africana não só nas áreas mais tradicionais (como a escultura, tapeçaria e pintura), mas também em novos suportes artísticos como o vídeo. A descobrir, num fim de tarde.

OUVIR – Charlie Haden continua militante e delicioso. O seu disco mais recente, gravado na Europa, vai buscar o título a uma organização cívica norte-americana criada para combater a participação norte-americana na Guerra do Iraque, chamada «Not In Our Name». A organização aliás também teve um papel importante na campanha contra a reeleição de Bush, mas como se sabe falhou. Neste disco o baixista Charlie Haden aparece com uma nova formação que vai buscar o nome de um dos seus grupos de referência, a «Liberation Music Orchestra», que em 1968 fez disco contra a guerra no Vietname. Tal como no disco inicial, aqui também Carla Bley está ao lado de Haden ao piano e assegura os arranjos – muito bons e surpreendentes. A Libaration Band tem uma predominância de metais, que proporcionam uma sonoridade bem característica, muito marcada pelos trompetes de Michael Rodriguez e Séneca Black. O álbum foi gravado em Roma no final da digressão europeia da banda em 2004 e inclui versões de temas como «This Is Not America» de Pat Metheny e David Bowie, «America The Beautifulk», um clássico de Samuel Ward, «Skies Of America» de Ornette Coleman, o tradicional «Amazing Grace» ou uma versão muito própria baseada na sinfonia do Novo Mundo de Dvorak, «Going Home». Sobretudo pela qualidade dos arranjos e da interpretação criativa de velhos temas, este é um disco a descobrir. CD editado por Verve/Gitanes, distribuído por Universal Music.

DESABAFO – O que me faz mais impressão em Manuel Alegre é a solidão em que o deixaram, mesmo os que lhe eram mais próximos. Não é normal, nem decente.

BACK TO BASICS – Dedicado às campanhas autárquicas e aos políticos que temos: O Mundo inteiro nada mais é que um palco – William Shakespeare.

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TODO O MUNDO É UM PALCO

DIGITAL – Uma das razões porque às vezes as coisas funcionam bem reside na velha planificação. A mudança de televisão analógica para digital, que em toda a União Europeia deve ocorrer até 2012, vai necessitar – para além de equipamentos de transmissão e recepção diferentes – de toda uma infra-estrutura de distribuição de sinal adequada às novas especificidades técnicas. Pois na Grã-Bretanha foi apresentado um Guia de Boas Práticas para o sector da construção, imobiliário e renovação urbana, com todos os detalhes sobre o que deve ser feito e o que deve ser evitado. Na introdução o Ministro do Broadcasting, James Purnell, sublinha que «é preciso começar a preparar agora o que terá de se iniciar daqui a três anos» (já que o início do switchover digital na Grã Bretanha está previsto para 2008). A publicação, do Chartered Institute of Housing dirige-se quer a senhorios quer a inquilinos e tem uma única preocupação: ajudar o consumidor. Curioso, não é?.

NÚMEROS – Na Grã Bretanha a organização não desportiva que tem maior número de filiados não é nenhum partido político – é a Royal Society For The Protection Of The Birds com 1.049.392 inscritos. Os pássaros revelam-se assim muito mais gratificantes que a política: os Conservadores apresentam 300.000 inscritos, os Trabalhistas 200.000 e os Liberais 70.000.

REFEIÇÃO – Apenas o jantar, aviso já. Os mais velhos poderão lembrar-se do Angelus a caminho de Sesimbra, onde há uns anos se fazia o fondue de referência; anos mais tarde a mesma equipa estava na Porta Branca (Bairro Alto), onde entre as várias iguarias se propunha tubarão. Pois quer o fondue, quer o tubarão, quer algumas outras iguarias estão de volta, desta vez a Brejos de Azeitão, no «Anxel». É escusado dizer que a carne do fondue é especialíssima, muito tenra, com um corte invulgar, bem temperada. A sala é simpática, a garrafeira razoável e moderada em preços. As reservas podem ser feitas para o 917040963. A mesma equipa tem em Lisboa o restaurante «Mãe de Água», na Rua das Amoreiras 10, telefone 21 388 28 20.

VER – Na Plataforma Revólver, Rua da Boavista 84-3º (em Lisboa, a Santos) a exposição «Travel», uma colectiva de oito novos artistas provenientes dos países africanos de expressão portuguesa que apresentam trabalhos propondo novas formas de abordagem à tradição plástica africana não só nas áreas mais tradicionais (como a escultura, tapeçaria e pintura), mas também em novos suportes artísticos como o vídeo. A descobrir, num fim de tarde.

OUVIR – Charlie Haden continua militante e delicioso. O seu disco mais recente, gravado na Europa, vai buscar o título a uma organização cívica norte-americana criada para combater a participação norte-americana na Guerra do Iraque, chamada «Not In Our Name». A organização aliás também teve um papel importante na campanha contra a reeleição de Bush, mas como se sabe falhou. Neste disco o baixista Charlie Haden aparece com uma nova formação que vai buscar o nome de um dos seus grupos de referência, a «Liberation Music Orchestra», que em 1968 fez disco contra a guerra no Vietname. Tal como no disco inicial, aqui também Carla Bley está ao lado de Haden ao piano e assegura os arranjos – muito bons e surpreendentes. A Libaration Band tem uma predominância de metais, que proporcionam uma sonoridade bem característica, muito marcada pelos trompetes de Michael Rodriguez e Séneca Black. O álbum foi gravado em Roma no final da digressão europeia da banda em 2004 e inclui versões de temas como «This Is Not America» de Pat Metheny e David Bowie, «America The Beautifulk», um clássico de Samuel Ward, «Skies Of America» de Ornette Coleman, o tradicional «Amazing Grace» ou uma versão muito própria baseada na sinfonia do Novo Mundo de Dvorak, «Going Home». Sobretudo pela qualidade dos arranjos e da interpretação criativa de velhos temas, este é um disco a descobrir. CD editado por Verve/Gitanes, distribuído por Universal Music.

DESABAFO – O que me faz mais impressão em Manuel Alegre é a solidão em que o deixaram, mesmo os que lhe eram mais próximos. Não é normal, nem decente.

BACK TO BASICS – Dedicado às campanhas autárquicas e aos políticos que temos: O Mundo inteiro nada mais é que um palco – William Shakespeare.

setembro 28, 2005

IRRA!
Mais de metade das obras que se fazem ou/e propõem para Lisboa são para benefício dos que vêm de fora, dos que por aqui passam, mas não são para dar mais conforto, saúde e segurança aos que cá sempre viveram. Quem gosta de viver num estaleiro de obras?

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IRRA!
Mais de metade das obras que se fazem ou/e propõem para Lisboa são para benefício dos que vêm de fora, dos que por aqui passam, mas não são para dar mais conforto, saúde e segurança aos que cá sempre viveram. Quem gosta de viver num estaleiro de obras?

setembro 26, 2005

ÉTICA – Por mais voltas que se dê ao texto, aquilo que mais falta faz na política é a ética. Uma ética que não utilize casas de banho nem má educação, uma ética que valorize a acção e não as promessas, uma ética que sublinhe as diferenças e não iluda as aparências. Não é impossível, nem é tarde, mas vai ser difícil.

VOYEURISMO - É ficar a ver a declaração em 17 pontos de Fátima Felgueiras dada em directo, e tornar em facto político do dia o regresso de uma furagida à justiça, exactamente a tempo de se tornar estrela de uma campanha eleitoral.

O FOSSO – A comunicação política está afundada num fosso. Os políticos atiram coisas lá para dentro e há quem fique a ver. São muito poucos a atirar lixo para o fosso e não são assim tantos a olhar lá para dentro. Mas fazem tanto barulho, que parecem decisivos. Funcionam em círculo fechado: o fosso alimenta-se de quem o enche e de quem o espreita. Como qualquer fosso, faz um eco terrível, uma barulheira enorme. O fosso é um amplificador dos espectáculos degradantes que enxameiam a vida pública.

LISBOA – O candidato que ganhar Lisboa devia prometer que não faz mais obras, que não abre mais buracos, que não faz mais túneis, que proíbe o estacionamento em dupla fila, que deixa os lisboetas viverem e circularem na cidade, que permite que gozem a circulação que o imposto respectivo devia garantir. Por acaso não vejo ninguém a fazer promessas nesta matéria. Porque será?

DEBATES – Poucas ideias, muito poucas ideias, apesar de estarmos a poucos dias do arranque efectivo da campanha eleitoral. Nestas eleições, que deviam ser de proximidade, aposta-se sobretudo na maquilhagem dos candidatos. Uma fantasia, portanto. É a táctica do reality-show aplicado à política.

POIS – Repararam que a capa desta semana da revista «The Economist» tinha por título «How the internet killed the phone business»? Se têm dúvidas sobre as grandes companhias telefónicas leiam o artigo.

TV- E quando os programas de televisão deixarem de dar na televisão? Paradoxo? – Nem por isso. Consultem o último número da revista «Wired» (infelizmente não disponível em Portugal devido ao problema da importação de revistas norte-americanas). De qualquer forma uma visita a www.wired.com permite ler o tema de capa, «Reinventando a Televisão», e sobretudo o magnífico artigo «ESPN Thinks Outside The Box», onde se explica como um dos grandes canais de desporto ultrapassou a dimensão do receptor de televisão e diversificou de forma calma mas constante para outras plataformas de distribuição e criou um modelo de negócio viável.

COMIDINHA- Faltam restaurantes bons e populares, no sentido de animados sem a necessidade de figuras de revistas ou do poder. De restaurantes onde se coma bem e se paguem preços honestos, onde o vinho da casa seja bom. Como emn tantas outras áreas, na restauração portuguesa falta a camada do meio – há tascas óptimas, bons restaurantes de gama alta, mas quase não há restaurantes de gama média e bons. Eu gosto de restaurantes populares, mas com bom serviço? Será um paradoxo? Só se for aqui…

VER – A exposição «O Fado Por Stuart de Carvalhais», desenhos e ilustrações publicados em revistas e partituras da época. Em paralelo mostram-se trabalhos relacionados por outros artistas contemporâneos de Carvalhais, como Almada ou Botelho. No Museu do Fado, frente ao Largo do Chafariz de Baixo, Alfama.

OUVIR – Na primeira década do século XVIII a ópera esteve proibida em Roma graças a uma sucessão de factos: desde o Jubileu de 1700, a guerras, epidemias e até um tremor de terra. De facto o teatro era considerado o expoente da decadência, as mulheres proibidas de o pisar (daí a invasão de castrati na ópera italiana…). Mas claro que apesar das proibições os compositores continuaram a compor. Cecília Bartoli, acompanhada pelos Musiciens du Louvre dirigidos por Marc Minkowski, mostra alguns desses trabalhos proibidos de Handel, Scarlatti e Caldara num disco emocionante. «Opera Proibita», CD Decca, distribuição Universal Music.

PERGUNTA - O que vai acontecer se em alguns concelhos os partidos políticos forem derrotados por movimentos independentes?

FRASE DA SEMANA – «O Dr. Mário Soares é confiável» , Jorge Coelho em «A Quadartura do Círculo».

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ÉTICA – Por mais voltas que se dê ao texto, aquilo que mais falta faz na política é a ética. Uma ética que não utilize casas de banho nem má educação, uma ética que valorize a acção e não as promessas, uma ética que sublinhe as diferenças e não iluda as aparências. Não é impossível, nem é tarde, mas vai ser difícil.

VOYEURISMO - É ficar a ver a declaração em 17 pontos de Fátima Felgueiras dada em directo, e tornar em facto político do dia o regresso de uma furagida à justiça, exactamente a tempo de se tornar estrela de uma campanha eleitoral.

O FOSSO – A comunicação política está afundada num fosso. Os políticos atiram coisas lá para dentro e há quem fique a ver. São muito poucos a atirar lixo para o fosso e não são assim tantos a olhar lá para dentro. Mas fazem tanto barulho, que parecem decisivos. Funcionam em círculo fechado: o fosso alimenta-se de quem o enche e de quem o espreita. Como qualquer fosso, faz um eco terrível, uma barulheira enorme. O fosso é um amplificador dos espectáculos degradantes que enxameiam a vida pública.

LISBOA – O candidato que ganhar Lisboa devia prometer que não faz mais obras, que não abre mais buracos, que não faz mais túneis, que proíbe o estacionamento em dupla fila, que deixa os lisboetas viverem e circularem na cidade, que permite que gozem a circulação que o imposto respectivo devia garantir. Por acaso não vejo ninguém a fazer promessas nesta matéria. Porque será?

DEBATES – Poucas ideias, muito poucas ideias, apesar de estarmos a poucos dias do arranque efectivo da campanha eleitoral. Nestas eleições, que deviam ser de proximidade, aposta-se sobretudo na maquilhagem dos candidatos. Uma fantasia, portanto. É a táctica do reality-show aplicado à política.

POIS – Repararam que a capa desta semana da revista «The Economist» tinha por título «How the internet killed the phone business»? Se têm dúvidas sobre as grandes companhias telefónicas leiam o artigo.

TV- E quando os programas de televisão deixarem de dar na televisão? Paradoxo? – Nem por isso. Consultem o último número da revista «Wired» (infelizmente não disponível em Portugal devido ao problema da importação de revistas norte-americanas). De qualquer forma uma visita a www.wired.com permite ler o tema de capa, «Reinventando a Televisão», e sobretudo o magnífico artigo «ESPN Thinks Outside The Box», onde se explica como um dos grandes canais de desporto ultrapassou a dimensão do receptor de televisão e diversificou de forma calma mas constante para outras plataformas de distribuição e criou um modelo de negócio viável.

COMIDINHA- Faltam restaurantes bons e populares, no sentido de animados sem a necessidade de figuras de revistas ou do poder. De restaurantes onde se coma bem e se paguem preços honestos, onde o vinho da casa seja bom. Como emn tantas outras áreas, na restauração portuguesa falta a camada do meio – há tascas óptimas, bons restaurantes de gama alta, mas quase não há restaurantes de gama média e bons. Eu gosto de restaurantes populares, mas com bom serviço? Será um paradoxo? Só se for aqui…

VER – A exposição «O Fado Por Stuart de Carvalhais», desenhos e ilustrações publicados em revistas e partituras da época. Em paralelo mostram-se trabalhos relacionados por outros artistas contemporâneos de Carvalhais, como Almada ou Botelho. No Museu do Fado, frente ao Largo do Chafariz de Baixo, Alfama.

OUVIR – Na primeira década do século XVIII a ópera esteve proibida em Roma graças a uma sucessão de factos: desde o Jubileu de 1700, a guerras, epidemias e até um tremor de terra. De facto o teatro era considerado o expoente da decadência, as mulheres proibidas de o pisar (daí a invasão de castrati na ópera italiana…). Mas claro que apesar das proibições os compositores continuaram a compor. Cecília Bartoli, acompanhada pelos Musiciens du Louvre dirigidos por Marc Minkowski, mostra alguns desses trabalhos proibidos de Handel, Scarlatti e Caldara num disco emocionante. «Opera Proibita», CD Decca, distribuição Universal Music.

PERGUNTA - O que vai acontecer se em alguns concelhos os partidos políticos forem derrotados por movimentos independentes?

FRASE DA SEMANA – «O Dr. Mário Soares é confiável» , Jorge Coelho em «A Quadartura do Círculo».

setembro 24, 2005

QUEM SERÁ O PRINCÌPE?

Começo hoje por duas citações da célebre obra de Nicolau Maquiavel, «O Princípe», editada em Florença em 1531:
«É necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade (...) Um príncipe sábio não pode, pois, nem deve, manter-se fiel às suas promessas quando, extinta a causa que o levou a fazê-las, o cumprimento delas lhe traz prejuízo.»
Dito isto passo a contar uma fábula:
Era uma vez um país onde o novo príncipe vivia atormentado pelos fantasmas do passado. Com o apoio do seu escudeiro desenhou um plano fantástico: lançar os seus inimigos para o meio de um turbilhão. Ao mais velho de todos, e com maior influência, levou-o a querer disputar difíceis eleições; com este desafio acabou por colocar a única pessoa que lhe disputou a liderança do partido, um dos outros notáveis da velha guarda, num beco sem saída; ao filho do patriarca colocou-o a disputar uma Câmara onde não seria fácil alcançar vitória; a um seu rival da mesma geração lançou-o para uma campanha eleitoral, sendo certo que a disputa seria grande e que de antemão se sabia que por ali havia uma certa falta de jeito para as andanças que uma campanha exige.
Todas as sondagens davam como provável a derrota dos candidatos que deixou avançar mas isso não o preocupou demais. Os que fossem derrotados dificilmente se levantariam de novo, e ele poderia sempre dizer que lhes deu a oportunidade que eles não souberam aproveitar. Não deixaria até de lhes louvar o sacrifício. E assim, de duas penadas, se livraria dos seus tormentos. Restava-lhe o escudeiro – e ao escudeiro restava o princípe. Mas o fim desta história só mais para a frente se saberá.

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QUEM SERÁ O PRINCÌPE?

Começo hoje por duas citações da célebre obra de Nicolau Maquiavel, «O Princípe», editada em Florença em 1531:
«É necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade (...) Um príncipe sábio não pode, pois, nem deve, manter-se fiel às suas promessas quando, extinta a causa que o levou a fazê-las, o cumprimento delas lhe traz prejuízo.»
Dito isto passo a contar uma fábula:
Era uma vez um país onde o novo príncipe vivia atormentado pelos fantasmas do passado. Com o apoio do seu escudeiro desenhou um plano fantástico: lançar os seus inimigos para o meio de um turbilhão. Ao mais velho de todos, e com maior influência, levou-o a querer disputar difíceis eleições; com este desafio acabou por colocar a única pessoa que lhe disputou a liderança do partido, um dos outros notáveis da velha guarda, num beco sem saída; ao filho do patriarca colocou-o a disputar uma Câmara onde não seria fácil alcançar vitória; a um seu rival da mesma geração lançou-o para uma campanha eleitoral, sendo certo que a disputa seria grande e que de antemão se sabia que por ali havia uma certa falta de jeito para as andanças que uma campanha exige.
Todas as sondagens davam como provável a derrota dos candidatos que deixou avançar mas isso não o preocupou demais. Os que fossem derrotados dificilmente se levantariam de novo, e ele poderia sempre dizer que lhes deu a oportunidade que eles não souberam aproveitar. Não deixaria até de lhes louvar o sacrifício. E assim, de duas penadas, se livraria dos seus tormentos. Restava-lhe o escudeiro – e ao escudeiro restava o princípe. Mas o fim desta história só mais para a frente se saberá.