dezembro 05, 2004

NOTAS DA CRISE

CURIOSO – Repararam nos apelos ao regresso do Bloco Central, à constituição de governos de iniciativa presidencial, que apareceram de repente na imprensa vindo de insuspeitos empresários?

ELEIÇÕES – E se do próximo acto eleitoral não sair uma maioria clara que proporcione um Governo estável? Reza a Constituição que nos primeiros seis meses de vida um Governo não pode ser demitido pelo Presidente e nos seis seguintes Sampaio já terá chegado à fase do mandato em que não pode dissolver a Assembleia. Num cenário de maioria pouco clara a crise promete arrastar-se até meados de 2006.

POR ACASO – Na verdade a degradação da classe política e do sistema político não é só de agora – vem de há muito, muito tempo. Por exemplo, do tempo das manobras do «Grupo da Sueca», do tempo do orçamento do queijo Limiano... Os males do país não são nada recentes.

SEBASTIANISMO – Uma das piores coisas da sociedade portuguesa é o constante remeter de soluções para um qualquer apelo messiânico. Em cada crise aparece um «desejado», o mito do regresso d’El Rei D. Sebastião continua a ser um dos expedientes mais utilizados como definição de estratégia política em Portugal. Na sociedade e dentro dos partidos. Mudar esta maneira de funcionar devia ser uma prioridade nacional.

REFORMAS – Da Lei das Rendas ao Código da Estrada, passando pelas portagens nas SCUDs, tudo vai ficar agora em águas de bacalhau. A dissolução afecta bem mais do que só o Parlamento e o Governo.

MISTÉRIO- Para além das aparências como se chegou aqui? Que coincidências se somaram, que vozes conversaram, que diálogos se travaram longe do público, como surgiram artigos e cartas, como se precipitaram crises? Há semanas que nas redacções dos media corriam rumores de que em Belém se estudavam os cenários para a dissolução do Parlamento.

BACK TO BASICS – Não é só a competência que conta, são também as ideias políticas que devem ser avaliadas.

A PERGUNTA DA SEMANA – Que quereria Marcelo Rebelo de Sousa dizer quando afirmou, há duas semanas, que o seu futuro seria conhecido em meados de Dezembro?

LEITURAS – Desde que o Presidente da República anunciou a intenção de dissolução a blogosfera tem sido o local ideal para medir sensibilidades e avaliar as ideias e os rumores. Blogs de leitura indispensável: www.ablasfemia.blogspot.com, www.causa-nossa.blogspot.com, www.aviz.blogspot.com, www.bloguitica.blogspot.com, www.abrupto.blogspot.com, www.oacidental.blogspot.com , www.aba-da-causa.blogspot.com, www.jaquinzinhos.blogspot.com.

SUGESTÃO – No Palácio de Belém e no Palácio de S.Bento o disco que todos deviam ouvir é «How To Dismantle An Atomic Bomb» dos U2 . A música é boa e pelo menos o título pode estimular o pensamento – já se viu que andam necessitados de estímulos.

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NOTAS DA CRISE



CURIOSO – Repararam nos apelos ao regresso do Bloco Central, à constituição de governos de iniciativa presidencial, que apareceram de repente na imprensa vindo de insuspeitos empresários?



ELEIÇÕES – E se do próximo acto eleitoral não sair uma maioria clara que proporcione um Governo estável? Reza a Constituição que nos primeiros seis meses de vida um Governo não pode ser demitido pelo Presidente e nos seis seguintes Sampaio já terá chegado à fase do mandato em que não pode dissolver a Assembleia. Num cenário de maioria pouco clara a crise promete arrastar-se até meados de 2006.



POR ACASO – Na verdade a degradação da classe política e do sistema político não é só de agora – vem de há muito, muito tempo. Por exemplo, do tempo das manobras do «Grupo da Sueca», do tempo do orçamento do queijo Limiano... Os males do país não são nada recentes.



SEBASTIANISMO – Uma das piores coisas da sociedade portuguesa é o constante remeter de soluções para um qualquer apelo messiânico. Em cada crise aparece um «desejado», o mito do regresso d’El Rei D. Sebastião continua a ser um dos expedientes mais utilizados como definição de estratégia política em Portugal. Na sociedade e dentro dos partidos. Mudar esta maneira de funcionar devia ser uma prioridade nacional.



REFORMAS – Da Lei das Rendas ao Código da Estrada, passando pelas portagens nas SCUDs, tudo vai ficar agora em águas de bacalhau. A dissolução afecta bem mais do que só o Parlamento e o Governo.



MISTÉRIO- Para além das aparências como se chegou aqui? Que coincidências se somaram, que vozes conversaram, que diálogos se travaram longe do público, como surgiram artigos e cartas, como se precipitaram crises? Há semanas que nas redacções dos media corriam rumores de que em Belém se estudavam os cenários para a dissolução do Parlamento.



BACK TO BASICS – Não é só a competência que conta, são também as ideias políticas que devem ser avaliadas.



A PERGUNTA DA SEMANA – Que quereria Marcelo Rebelo de Sousa dizer quando afirmou, há duas semanas, que o seu futuro seria conhecido em meados de Dezembro?



LEITURAS – Desde que o Presidente da República anunciou a intenção de dissolução a blogosfera tem sido o local ideal para medir sensibilidades e avaliar as ideias e os rumores. Blogs de leitura indispensável: www.ablasfemia.blogspot.com, www.causa-nossa.blogspot.com, www.aviz.blogspot.com, www.bloguitica.blogspot.com, www.abrupto.blogspot.com, www.oacidental.blogspot.com , www.aba-da-causa.blogspot.com, www.jaquinzinhos.blogspot.com.



SUGESTÃO – No Palácio de Belém e no Palácio de S.Bento o disco que todos deviam ouvir é «How To Dismantle An Atomic Bomb» dos U2 . A música é boa e pelo menos o título pode estimular o pensamento – já se viu que andam necessitados de estímulos.

novembro 28, 2004

O TÚNEL

ACÇÃO CÍVICA – Não me cansarei de dizer como acho que a participação cívica dos cidadãos não se esgota nos partidos e, muito provavelmente, é mais importante fora deles do que dentro. Mas tal como dentro dos partidos, na sociedade civil, volta e meia aparecem uns «chico espertos» a querer ganhar fama à custa dos outros. O caso do túnel do Marquês é um bom exemplo disto e deve fazer-nos reflectir. Se o advogado José Sá Fernandes pretendesse de facto contribuir para melhorar alguma coisa tinha mais formas de actuar possíveis do que ter encravado a vida a milhares de pessoas durante mais de seis meses. A sua apetência de se travestir de Robin Hood dos dias de hoje incorre num erro básico: trabalha para si próprio e para a comunicação, não pensa um segundo que seja como as suas acções podem afectar os outros. Ele argumentará que faz isto a bem da sociedade, mas os efeitos práticos são o que são. O preconceito político é mau conselheiro e aparentemente é isso, junto com o impacto mediático que muito preza, que faz mover o advogado.

IMAGINAÇÃO - Com aquela maneira desprendida que tinha de falar das coisas, Albert Einstein dizia que «a imaginação é mais importante do que o conhecimento». Fora do contexto a frase parece deslocada, mas de facto é a imaginação que pode levar à descoberta e à criação de novo conhecimento. O processo de criação vive da imaginação, da capacidade de ver para além do que se sabe, de surpreender. Uma sociedade que aposta sobretudo na conservação e que vai desprezando a criação está a desproteger o futuro, está a comprometer o património das próximas gerações. Nestes tempos que correm vivemos demasiado de coisas efémeras e corriqueiras, e mesmo as políticas culturais, nacionais ou locais, têm uma estranha tendência a privilegiar o previsível e o desinteressante – alguma razão há-de haver para que em tantos domínios se esteja a reduzir a existência de coisas novas e interessantes. Quando a imaginação não é fomentada, estimulada, vai definhando. Acaba congelada.

DAR – Um interessante artigo na «Spectator» desta semana apela ao Governo inglês que introduza benefícios fiscais que permitam voltar a tornar interessante contribuir para a sociedade, financiar instituições culturais, benefícios que estimulem o simples acto de dar. O artigo tem origem na constatação de que muitas obras de arte importantes estão a fugir do país, em grande parte por falta de estimulos para que as pessoas possam contibuir para a sua aquisição e sejam recompesadas por isso. O que o artigo defende é que através das contribuições individuais ou colectivas instituições como os museus poderão adquirir novas peças, desenvolver colecções: «A criação e a manutenção de colecções públicas de arte deve ser um motivo de orgulho nacional, já para não falar de uma fonte de entretenimento e de prazer para os cidadãos», sublinha a revista, conhecida pelo seu posicionamento liberal e a favor da economia de mercado.

JULGAMENTO – A avaliar pelos primeiros momentos teme-se o pior da forma como os media vão seguir o julgamento do processo Casa Pia. Os directos intermináveis, os comentários a encher o tempo, a procura das reacções populares, a falta de rigôr, de síntese, de distanciamento marcaram a primeira manhã. É certo que o que se vai passar no Tribunal da Boa-Hora é um teste ao sistema judicial português e ao funcionamento da justiça; mas é também um sério teste para os media e para os jornalistas.


BACK TO BASICS – Citando Otto Von Bismarck: «A política é a arte do possível»

O MELHOR DA SEMANA – A decisão judicial que permite reiniciar as obras do Túnel das Amoreiras;

O PIOR DA SEMANA – A reacção do advogado José Sá Fernandes à referida decisão, considerando que fez «bom trabalho» ao provocar a paragem da obra durante meses.

A PERGUNTA DA SEMANA – Quem paga os prejuízos causados pela paragem da obra ? Ninguém é responsabilizado por todos os enormes transtornos causados?

RESTAURANTE – Café Três, Tivoli Fórum

LEITURA – O livro «Cruz das Almas», de Patrícia Reis.

TENTAÇÃO – A galeria VPF Cream Arte, na Rua da Boavista 84, 2º, ao Cais do Sodré, em
Lisboa. Um novo conceito na arte contemporânea.

SUGESTÃO – Festival Super 8, uma projecção de curtas metragens em Super 8, dia 27 às 21h30 no Fórum Roma.

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O TÚNEL



ACÇÃO CÍVICA – Não me cansarei de dizer como acho que a participação cívica dos cidadãos não se esgota nos partidos e, muito provavelmente, é mais importante fora deles do que dentro. Mas tal como dentro dos partidos, na sociedade civil, volta e meia aparecem uns «chico espertos» a querer ganhar fama à custa dos outros. O caso do túnel do Marquês é um bom exemplo disto e deve fazer-nos reflectir. Se o advogado José Sá Fernandes pretendesse de facto contribuir para melhorar alguma coisa tinha mais formas de actuar possíveis do que ter encravado a vida a milhares de pessoas durante mais de seis meses. A sua apetência de se travestir de Robin Hood dos dias de hoje incorre num erro básico: trabalha para si próprio e para a comunicação, não pensa um segundo que seja como as suas acções podem afectar os outros. Ele argumentará que faz isto a bem da sociedade, mas os efeitos práticos são o que são. O preconceito político é mau conselheiro e aparentemente é isso, junto com o impacto mediático que muito preza, que faz mover o advogado.



IMAGINAÇÃO - Com aquela maneira desprendida que tinha de falar das coisas, Albert Einstein dizia que «a imaginação é mais importante do que o conhecimento». Fora do contexto a frase parece deslocada, mas de facto é a imaginação que pode levar à descoberta e à criação de novo conhecimento. O processo de criação vive da imaginação, da capacidade de ver para além do que se sabe, de surpreender. Uma sociedade que aposta sobretudo na conservação e que vai desprezando a criação está a desproteger o futuro, está a comprometer o património das próximas gerações. Nestes tempos que correm vivemos demasiado de coisas efémeras e corriqueiras, e mesmo as políticas culturais, nacionais ou locais, têm uma estranha tendência a privilegiar o previsível e o desinteressante – alguma razão há-de haver para que em tantos domínios se esteja a reduzir a existência de coisas novas e interessantes. Quando a imaginação não é fomentada, estimulada, vai definhando. Acaba congelada.



DAR – Um interessante artigo na «Spectator» desta semana apela ao Governo inglês que introduza benefícios fiscais que permitam voltar a tornar interessante contribuir para a sociedade, financiar instituições culturais, benefícios que estimulem o simples acto de dar. O artigo tem origem na constatação de que muitas obras de arte importantes estão a fugir do país, em grande parte por falta de estimulos para que as pessoas possam contibuir para a sua aquisição e sejam recompesadas por isso. O que o artigo defende é que através das contribuições individuais ou colectivas instituições como os museus poderão adquirir novas peças, desenvolver colecções: «A criação e a manutenção de colecções públicas de arte deve ser um motivo de orgulho nacional, já para não falar de uma fonte de entretenimento e de prazer para os cidadãos», sublinha a revista, conhecida pelo seu posicionamento liberal e a favor da economia de mercado.



JULGAMENTO – A avaliar pelos primeiros momentos teme-se o pior da forma como os media vão seguir o julgamento do processo Casa Pia. Os directos intermináveis, os comentários a encher o tempo, a procura das reacções populares, a falta de rigôr, de síntese, de distanciamento marcaram a primeira manhã. É certo que o que se vai passar no Tribunal da Boa-Hora é um teste ao sistema judicial português e ao funcionamento da justiça; mas é também um sério teste para os media e para os jornalistas.





BACK TO BASICS – Citando Otto Von Bismarck: «A política é a arte do possível»



O MELHOR DA SEMANA – A decisão judicial que permite reiniciar as obras do Túnel das Amoreiras;



O PIOR DA SEMANA – A reacção do advogado José Sá Fernandes à referida decisão, considerando que fez «bom trabalho» ao provocar a paragem da obra durante meses.



A PERGUNTA DA SEMANA – Quem paga os prejuízos causados pela paragem da obra ? Ninguém é responsabilizado por todos os enormes transtornos causados?



RESTAURANTE – Café Três, Tivoli Fórum



LEITURA – O livro «Cruz das Almas», de Patrícia Reis.



TENTAÇÃO – A galeria VPF Cream Arte, na Rua da Boavista 84, 2º, ao Cais do Sodré, em

Lisboa. Um novo conceito na arte contemporânea.



SUGESTÃO – Festival Super 8, uma projecção de curtas metragens em Super 8, dia 27 às 21h30 no Fórum Roma.

novembro 22, 2004

UMA VIDA A DOIS

Os três discursos de Pedro Santana Lopes foram o melhor do Congresso do PSD mas também foram, quase, a única coisa. De facto Pedro Santana Lopes aproveitou o Congresso para falar ao país e pelo meio resolveu pormenores internos de organização do pessoal político. Não conseguiu, no entanto, evitar que a imagem que saíu do Congresso fosse a das reticências à continuação da coligação com o PP.
A força dos discursos de Pedro Santana Lopes mostrou, em contraste, as fraquezas do Congresso e, também, do partido. A única divergência palpável centra-se na política de alianças do PSD, ou seja, na coligação com o PP. Na realidade, neste congresso, ficou-se com a sensação de que uma parte audível do PSD preferiria soluções tipo «queijo limiano», do que alianças estáveis e negociadas que permitam traçar estratégias de médio-longo prazo.
Tenho para mim que esta dificuldade de aceitação de coligações tem origem no vazio ideológico em que o PSD foi mergulhando ao longo dos anos (e que no caso do PP, por exemplo, é muito menos sensível). Na inexistência de referências ideológicas claras, na ausência de inovação e discussão políticas, sem noção clara do lugar que quer ocupar no espectro político (centro? centro-esquerda? centro-direita?) o PSD teme, inconscientemente, ser subalternizado, perder espaço próprio.
Habituado desde há décadas a gerir conjunturas, o PSD tem enorme sentido táctico mas dificuldade em encontrar rumo estratégico e em inovar. Daí nascem muitos dos seus incómodos actuais. Viver a dois é um exercício de permanente imaginação e um desafio constante. Acontece que, se a direita quiser cumprir o seu programa e concretizar reformas, é forçoso manter esta união de facto. Sob pena de a pensão de alimentos ser caríssima.

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UMA VIDA A DOIS



Os três discursos de Pedro Santana Lopes foram o melhor do Congresso do PSD mas também foram, quase, a única coisa. De facto Pedro Santana Lopes aproveitou o Congresso para falar ao país e pelo meio resolveu pormenores internos de organização do pessoal político. Não conseguiu, no entanto, evitar que a imagem que saíu do Congresso fosse a das reticências à continuação da coligação com o PP.

A força dos discursos de Pedro Santana Lopes mostrou, em contraste, as fraquezas do Congresso e, também, do partido. A única divergência palpável centra-se na política de alianças do PSD, ou seja, na coligação com o PP. Na realidade, neste congresso, ficou-se com a sensação de que uma parte audível do PSD preferiria soluções tipo «queijo limiano», do que alianças estáveis e negociadas que permitam traçar estratégias de médio-longo prazo.

Tenho para mim que esta dificuldade de aceitação de coligações tem origem no vazio ideológico em que o PSD foi mergulhando ao longo dos anos (e que no caso do PP, por exemplo, é muito menos sensível). Na inexistência de referências ideológicas claras, na ausência de inovação e discussão políticas, sem noção clara do lugar que quer ocupar no espectro político (centro? centro-esquerda? centro-direita?) o PSD teme, inconscientemente, ser subalternizado, perder espaço próprio.

Habituado desde há décadas a gerir conjunturas, o PSD tem enorme sentido táctico mas dificuldade em encontrar rumo estratégico e em inovar. Daí nascem muitos dos seus incómodos actuais. Viver a dois é um exercício de permanente imaginação e um desafio constante. Acontece que, se a direita quiser cumprir o seu programa e concretizar reformas, é forçoso manter esta união de facto. Sob pena de a pensão de alimentos ser caríssima.

SEM ILUSÕES

MUDANÇAS – Olhando para o que se passa à nossa volta sou levado a seguir este pensamento, que me chegou por mão amiga: nenhuma sociedade ou civilização se esgota e morre, sobretudo de morte total, por um ataque de dúvida; é mais fácil que o definhar venha pela razão inversa, isto é, por causa da petrificação ou arterioesclerose das crenças. Talvez valha a pena estender este raciocínio e levá-lo mais além. Começa a ser evidente que o sistema político e partidário tem uma lógica interna que não permite que surjam verdadeiras mudanças, que evita transformações. Por isso, provavelmente, faz sentido pensar em novas formas de intervenção, faz sentido colocar dúvidas, debater novas formulações que só surgirão de rupturas e, muito provavelmente, nunca de evoluções a partir do modelo actual. Na verdade os apelos à democratização interna dos partidos e a uma maior preocupação dos políticos pelos cidadãos significaria a subversão total do esquema que está instalado. Não me parece que os políticos vão cometer suicídio colectivo e iniciar um processo de auto-destruição do sistema que lhes assegura o poder.

INVENÇÃO – Uma das maiores multinacionais, a Unilever decidiu há uns anos impulsionar a criatividade como factor de mudança da cultura da empresa. De facto o objectivo inicial era procurar um toque mágico na maneira como se imagina a produto, como se pensa no consumidor,
como se comunica, como se faz publciidade. Em 1999, na sede de Londres da companhia, iniciou-se o programa Catalyst, baseado no princípio de trazer para dentro da lógica empresarial o sistema de inovação da criação artística. Instrumentalmente o programa Catalyst começou por intervir na decoração da empresa e, depois, em fórmulas de entretenimento para os funcionários. Mas rapidamente se estabeleceu como um processo estratégico de transformação pessoal e organizacional. Do teatro ao cinema, passando pela poesia, a música ou as artes plásticas o Catalyst tem intervido na transformação da cultura da empresa, em estimular o surgimento do potencial criativo dos quadros, em aumentar a partilha de descobertas com os colegas. De facto, ao apostar na arte contemporânea, o Catalyst estimulou a descoberta, a dúvida, o pensamento e as interrogações sobre uma visão mais ampla da sociedade. Tudo isto foi relatado na semana passada em Serralves numa interessante conferência intitulada «Arte e Empresa, uma aliança criativa». O Presidente da Fundação, António Gomes de Pinho, na sua intervenção inicial, deixou um desafio aos gestores portugueses: « sejam criativos, imaginativos, intuitivos, visionários». É um apelo que devia percorrer toda a sociedade, e não apenas as empresas.

LUCIDEZ – O ex-Presidente da República do Brasil, Fernando Henriques Cardoso, passou esta semana por Lisboa e no meio da intervenção que proferiu a convite da Fundação Luso-Brasileira, fez uma afirmação de uma enorme actualidade: «A lucidez, em política, só aumenta a angústia».

BACK TO BASICS – Citando Charles De Gaulle, «a política é um assunto demasiado sério para ser deixado só aos políticos».

RESTAURANTE – Xanti, comida indiana, na Casa de Goa, Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. Tel. 21 393 01 71. Um grande espaço, uma cozinha surpreendente.
LEITURA – O artigo sobre a tecnologia e o método utilizados pelo arquitecto Frank Gehry no seu processo criativo, na revista «Wired», edição de Novembro, também disponível em www.wired.com
TENTAÇÃO – A mostra Mundo Mix, Tivoli Forum, Avenida da Liberdade, dias 20, 21,27 e 28 de Novembro.
SUGESTÃO – A Arte Lisboa no Pavilhão 4 da FIL do Parque das Nações, até às 20h00 de segunda-feira.

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SEM ILUSÕES



MUDANÇAS – Olhando para o que se passa à nossa volta sou levado a seguir este pensamento, que me chegou por mão amiga: nenhuma sociedade ou civilização se esgota e morre, sobretudo de morte total, por um ataque de dúvida; é mais fácil que o definhar venha pela razão inversa, isto é, por causa da petrificação ou arterioesclerose das crenças. Talvez valha a pena estender este raciocínio e levá-lo mais além. Começa a ser evidente que o sistema político e partidário tem uma lógica interna que não permite que surjam verdadeiras mudanças, que evita transformações. Por isso, provavelmente, faz sentido pensar em novas formas de intervenção, faz sentido colocar dúvidas, debater novas formulações que só surgirão de rupturas e, muito provavelmente, nunca de evoluções a partir do modelo actual. Na verdade os apelos à democratização interna dos partidos e a uma maior preocupação dos políticos pelos cidadãos significaria a subversão total do esquema que está instalado. Não me parece que os políticos vão cometer suicídio colectivo e iniciar um processo de auto-destruição do sistema que lhes assegura o poder.



INVENÇÃO – Uma das maiores multinacionais, a Unilever decidiu há uns anos impulsionar a criatividade como factor de mudança da cultura da empresa. De facto o objectivo inicial era procurar um toque mágico na maneira como se imagina a produto, como se pensa no consumidor,

como se comunica, como se faz publciidade. Em 1999, na sede de Londres da companhia, iniciou-se o programa Catalyst, baseado no princípio de trazer para dentro da lógica empresarial o sistema de inovação da criação artística. Instrumentalmente o programa Catalyst começou por intervir na decoração da empresa e, depois, em fórmulas de entretenimento para os funcionários. Mas rapidamente se estabeleceu como um processo estratégico de transformação pessoal e organizacional. Do teatro ao cinema, passando pela poesia, a música ou as artes plásticas o Catalyst tem intervido na transformação da cultura da empresa, em estimular o surgimento do potencial criativo dos quadros, em aumentar a partilha de descobertas com os colegas. De facto, ao apostar na arte contemporânea, o Catalyst estimulou a descoberta, a dúvida, o pensamento e as interrogações sobre uma visão mais ampla da sociedade. Tudo isto foi relatado na semana passada em Serralves numa interessante conferência intitulada «Arte e Empresa, uma aliança criativa». O Presidente da Fundação, António Gomes de Pinho, na sua intervenção inicial, deixou um desafio aos gestores portugueses: « sejam criativos, imaginativos, intuitivos, visionários». É um apelo que devia percorrer toda a sociedade, e não apenas as empresas.



LUCIDEZ – O ex-Presidente da República do Brasil, Fernando Henriques Cardoso, passou esta semana por Lisboa e no meio da intervenção que proferiu a convite da Fundação Luso-Brasileira, fez uma afirmação de uma enorme actualidade: «A lucidez, em política, só aumenta a angústia».



BACK TO BASICS – Citando Charles De Gaulle, «a política é um assunto demasiado sério para ser deixado só aos políticos».



RESTAURANTE – Xanti, comida indiana, na Casa de Goa, Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. Tel. 21 393 01 71. Um grande espaço, uma cozinha surpreendente.

LEITURA – O artigo sobre a tecnologia e o método utilizados pelo arquitecto Frank Gehry no seu processo criativo, na revista «Wired», edição de Novembro, também disponível em www.wired.com

TENTAÇÃO – A mostra Mundo Mix, Tivoli Forum, Avenida da Liberdade, dias 20, 21,27 e 28 de Novembro.

SUGESTÃO – A Arte Lisboa no Pavilhão 4 da FIL do Parque das Nações, até às 20h00 de segunda-feira.

novembro 15, 2004

SOBRE A POLÍTICA
PROFISSIONAIS – Pela primeira vez desde 1974 temos os partidos entregues a uma geração de políticos profissionais, criada em democracia. Em quase todos os países isto é assim há muito – existe um núcleo duro de políticos profissionais que assegura o funcionamento dos partidos, de algumas instituições (como o Parlamento), que se vai treinando para o exercício do poder. É claro que há falhas- à excepção do Primeiro-Ministro, que foi militante e dirigente partidário, deputado, membro do Governo e autarca, a esta geração de políticos falta uma verdadeira carreira política e profissional fora do estrito círculo partidário. O percurso do dirigente partidário (juvenil, concelhio, distrital, nacional), normalmente é seguido de eleição parlamentar e daí, eventualmente, o salto para o Governo. Faltam os degraus do efectivo exercício executivo do poder a muitos destes políticos e também ao círculo que lhes é próximo. E isso nota-se. Muito.
SENSIBILIDADE – Um dos problemas de termos uma classe política com demasiados políticos profissionais é que corre-se o risco, grande, de eles perderem contacto com a realidade. Ver o país e os cidadãos através dos filtros dos aparelhos partidários é garantia de ter uma noção distorcida. Na política fazem sempre falta profissionais de outras áreas, cidadãos comuns que estejam empenhados no progresso e na participação cívica e os não alinhados são os que mais falta fazem para que ideias novas possam surgir. Uma das razões porque a reforma dos sistema tarda e porque ninguém quer mexer nas remunerações dos cargos políticos é que, se isso acontecesse, mais gente se poderia interessar e a cotação do tráfico de influências arriscava-se a descer. Seria o suicídio dos que vêem o exercício do poder apenas como um trampolim para outros vôos ou para a viabilização de outros interesses. Seria o fim dos assessores desqualificados, dos moços de recados, dos seguidistas.
PARTIDOS – Não é preciso fazer uma sondagem para perceber que os cidadãos desconfiam dos partidos, dos seus dirigentes e não se revêem no funcionamento actual do sistema político. Basta olhar para o aumento continuado da abstenção; basta ver a forma como ao longo destes trinta anos os partidos se foram enquistando; basta ver a falta de novidade ideológica e teórica que sai dos vários Congressos; basta ver como eles se foram progressivamente transformando apenas em rituais mediáticos da consagração do poder; basta ver a reduzida renovação da própria classe política. Se os partidos mantivessem laços estreitos com o pulsar dos vários grupos sociais não estariam sempre tão atrás do senso comum, seriam mais criativos. A forma de organização leninista dos partidos políticos – que a todos contaminou no leque partidário – acabou com os iconoclastas, estabeleceu a obediência cega às hierarquias, marginalizou os divergentes e aniquilou o desenvolvimento de pensamentos alternativos. Ou seja, matou a participação política, o debate, a criação teórica, o pensamento estratégico alternativo. Era bom os Congressos voltassem a servir para separar as águas, para clarificar, para romper e não para consagrar.

BACK TO BASICS – Só da discussão nasce a luz.
O MELHOR DA SEMANA – O plano de trabalho para os próximos dois anos apresentado pela UMIC.
O PIOR DA SEMANA – As informações contraditórias sobre as mudanças no IRS.
A PERGUNTA – No fim de semana, no Congresso do PSD, vai haver clarificação? Surgirá alguma novidade?
SUGESTÃO – O livro «Abrigos», de António Pinto Ribeiro, sobre a influência crescente das cidades e da sua política cultural no mundo em que vivemos.


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SOBRE A POLÍTICA

PROFISSIONAIS – Pela primeira vez desde 1974 temos os partidos entregues a uma geração de políticos profissionais, criada em democracia. Em quase todos os países isto é assim há muito – existe um núcleo duro de políticos profissionais que assegura o funcionamento dos partidos, de algumas instituições (como o Parlamento), que se vai treinando para o exercício do poder. É claro que há falhas- à excepção do Primeiro-Ministro, que foi militante e dirigente partidário, deputado, membro do Governo e autarca, a esta geração de políticos falta uma verdadeira carreira política e profissional fora do estrito círculo partidário. O percurso do dirigente partidário (juvenil, concelhio, distrital, nacional), normalmente é seguido de eleição parlamentar e daí, eventualmente, o salto para o Governo. Faltam os degraus do efectivo exercício executivo do poder a muitos destes políticos e também ao círculo que lhes é próximo. E isso nota-se. Muito.

SENSIBILIDADE – Um dos problemas de termos uma classe política com demasiados políticos profissionais é que corre-se o risco, grande, de eles perderem contacto com a realidade. Ver o país e os cidadãos através dos filtros dos aparelhos partidários é garantia de ter uma noção distorcida. Na política fazem sempre falta profissionais de outras áreas, cidadãos comuns que estejam empenhados no progresso e na participação cívica e os não alinhados são os que mais falta fazem para que ideias novas possam surgir. Uma das razões porque a reforma dos sistema tarda e porque ninguém quer mexer nas remunerações dos cargos políticos é que, se isso acontecesse, mais gente se poderia interessar e a cotação do tráfico de influências arriscava-se a descer. Seria o suicídio dos que vêem o exercício do poder apenas como um trampolim para outros vôos ou para a viabilização de outros interesses. Seria o fim dos assessores desqualificados, dos moços de recados, dos seguidistas.

PARTIDOS – Não é preciso fazer uma sondagem para perceber que os cidadãos desconfiam dos partidos, dos seus dirigentes e não se revêem no funcionamento actual do sistema político. Basta olhar para o aumento continuado da abstenção; basta ver a forma como ao longo destes trinta anos os partidos se foram enquistando; basta ver a falta de novidade ideológica e teórica que sai dos vários Congressos; basta ver como eles se foram progressivamente transformando apenas em rituais mediáticos da consagração do poder; basta ver a reduzida renovação da própria classe política. Se os partidos mantivessem laços estreitos com o pulsar dos vários grupos sociais não estariam sempre tão atrás do senso comum, seriam mais criativos. A forma de organização leninista dos partidos políticos – que a todos contaminou no leque partidário – acabou com os iconoclastas, estabeleceu a obediência cega às hierarquias, marginalizou os divergentes e aniquilou o desenvolvimento de pensamentos alternativos. Ou seja, matou a participação política, o debate, a criação teórica, o pensamento estratégico alternativo. Era bom os Congressos voltassem a servir para separar as águas, para clarificar, para romper e não para consagrar.



BACK TO BASICS – Só da discussão nasce a luz.

O MELHOR DA SEMANA – O plano de trabalho para os próximos dois anos apresentado pela UMIC.

O PIOR DA SEMANA – As informações contraditórias sobre as mudanças no IRS.

A PERGUNTA – No fim de semana, no Congresso do PSD, vai haver clarificação? Surgirá alguma novidade?

SUGESTÃO – O livro «Abrigos», de António Pinto Ribeiro, sobre a influência crescente das cidades e da sua política cultural no mundo em que vivemos.





novembro 07, 2004

SER DO CONTRA

BLOGS – Estas foram as primeiras eleições que viveram sob o constante foco dos blogs. Desde a angariação de fundos até à organização de voluntários para as campanhas, de tudo se passou nos blogs. Penso não ser exagero dizer que os democratas e Kerry eram maioritários na blogosfera. Mas, como se vai comprovando, os Blogs são um novo e extraordinário meio de expressão, mas são ainda um instrumento de minorias e de elites. Não se pode ver o mundo através dos seus olhos, senão começa a haver uma distorção. A multiplicação de vozes pró-Kerry na blogosfera ajudou a dar a ideia de que a opinião pública queria maioritariamente afastar Bush. Afinal não foi nada disso que se verificiou. Há coisas para aprender aqui. Continuando a ver e fazer blogs, claro.

NEGATIVO – Uma campanha eleitoral toda feita contra alguma coisa não é o suficiente para acabar com ela. A prova está aí: provavelmente o maior erro de Kerry foi ser tão obsessivamente do contra, ter dado mais realce às suas opiniões contra Bush do que em mostrar aquilo em que acreditava, em falar das suas propostas e de como as queria concretizar. Como tudo o resto, a política tem que ser feita pela positiva. Falar só pela negativa é uma perca de capacidade de comunicação e de mobilização. As eleições ganham-se a anunciar o que se quer fazer, não o que se quer desfazer.

FLOP – Michael Moore deve estar à beira de um ataque de nervos. O autor de «Fahrenheit-911» bem se esforçou por manipular a opinião pública, mas o efeito prático da forma apalhaçada com que faz uns filmes (que quer fazer passar por documentários) foi afinal bem reduzido – o objectivo confesso do filme (derrubar Bush) – não foi afinal conseguido. Quando se quer mascarar a propaganda como arte, as pessoas acabam por perceber. Pode demorar tempo, mas percebe-se.

POR CÁ – O sindroma do contra é endémico na sociedade portuguesa - e alimentou a figura do Velho do Restelo. Por cá fica sempre bem ser do contra, é sempre mais difícil ser a favor de alguma coisa. A oposição só gosta de dizer aquilo em que está contra o que o Governo faz. Os media gostam sempre de publicar temas contra o Governo e os seus membros. Na Assembleia os deputados falam mais frequentemente das coisas contra as quais entendem manifestar-se, do que daquilo de que são a favor. As opiniões do contra são melhor acolhidas que as opiniões a favor. Ser do contra é bom, ser a favor é mau.

ABSTRACÇÃO – Vamos por um instante imaginar que o Primeiro Ministro não era Pedro Santana Lopes e que o Governo tinha tomado exactamente as mesmas medidas que já tomou. Acham que se assim fosse o número de vozes contra seria maior ou menor? Exercício curioso, não é? – dá que pensar sobre os efeitos de uma coisa que varre a sociedade portuguesa: preconceito.

TABUS – Citado, com a devida vénia, do artigo de capa da edição desta semana da revista britânica «The Spectator»: « Os tabus existem não somente porque são um reflexo de coisas que a opinião geral considera serem más, mas existem também porque contribuem para dar um sentido de unidade e coerência, real ou imaginário, à sociedade. É certo que os tabus não necessitam de ser sujeitos a um mecanismo de avaliação democrática da maioria que os suporta. Geralmente basta que um número suficiente de fazedores de opinião,as grandes organisações de meios de comunicação e a classe política os definam e logo toga a gente se lhes submete.»

BACK TO BASICS – Nunca tomar os desejos por realidades.

O MELHOR DA SEMANA – A maneira como correram as eleições americanas.

O PIOR DA SEMANA – O atraso de Kerry no reconhecimento da derrota.

A PERGUNTA – Que se passará na cabeça de George Soros depois de ter investido mais de 20 milhões de dolares numa campanha anti-Bush?

SUGESTÃO – A edição norte-americana da revista «Esquire» de Novembro, o clássico «The Women We Love Issue», com Angelina Jolie na capa e, lá dentro, a lista dos melhores novos restaurantes dos Estados Unidos.

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SER DO CONTRA



BLOGS – Estas foram as primeiras eleições que viveram sob o constante foco dos blogs. Desde a angariação de fundos até à organização de voluntários para as campanhas, de tudo se passou nos blogs. Penso não ser exagero dizer que os democratas e Kerry eram maioritários na blogosfera. Mas, como se vai comprovando, os Blogs são um novo e extraordinário meio de expressão, mas são ainda um instrumento de minorias e de elites. Não se pode ver o mundo através dos seus olhos, senão começa a haver uma distorção. A multiplicação de vozes pró-Kerry na blogosfera ajudou a dar a ideia de que a opinião pública queria maioritariamente afastar Bush. Afinal não foi nada disso que se verificiou. Há coisas para aprender aqui. Continuando a ver e fazer blogs, claro.



NEGATIVO – Uma campanha eleitoral toda feita contra alguma coisa não é o suficiente para acabar com ela. A prova está aí: provavelmente o maior erro de Kerry foi ser tão obsessivamente do contra, ter dado mais realce às suas opiniões contra Bush do que em mostrar aquilo em que acreditava, em falar das suas propostas e de como as queria concretizar. Como tudo o resto, a política tem que ser feita pela positiva. Falar só pela negativa é uma perca de capacidade de comunicação e de mobilização. As eleições ganham-se a anunciar o que se quer fazer, não o que se quer desfazer.



FLOP – Michael Moore deve estar à beira de um ataque de nervos. O autor de «Fahrenheit-911» bem se esforçou por manipular a opinião pública, mas o efeito prático da forma apalhaçada com que faz uns filmes (que quer fazer passar por documentários) foi afinal bem reduzido – o objectivo confesso do filme (derrubar Bush) – não foi afinal conseguido. Quando se quer mascarar a propaganda como arte, as pessoas acabam por perceber. Pode demorar tempo, mas percebe-se.



POR CÁ – O sindroma do contra é endémico na sociedade portuguesa - e alimentou a figura do Velho do Restelo. Por cá fica sempre bem ser do contra, é sempre mais difícil ser a favor de alguma coisa. A oposição só gosta de dizer aquilo em que está contra o que o Governo faz. Os media gostam sempre de publicar temas contra o Governo e os seus membros. Na Assembleia os deputados falam mais frequentemente das coisas contra as quais entendem manifestar-se, do que daquilo de que são a favor. As opiniões do contra são melhor acolhidas que as opiniões a favor. Ser do contra é bom, ser a favor é mau.



ABSTRACÇÃO – Vamos por um instante imaginar que o Primeiro Ministro não era Pedro Santana Lopes e que o Governo tinha tomado exactamente as mesmas medidas que já tomou. Acham que se assim fosse o número de vozes contra seria maior ou menor? Exercício curioso, não é? – dá que pensar sobre os efeitos de uma coisa que varre a sociedade portuguesa: preconceito.



TABUS – Citado, com a devida vénia, do artigo de capa da edição desta semana da revista britânica «The Spectator»: « Os tabus existem não somente porque são um reflexo de coisas que a opinião geral considera serem más, mas existem também porque contribuem para dar um sentido de unidade e coerência, real ou imaginário, à sociedade. É certo que os tabus não necessitam de ser sujeitos a um mecanismo de avaliação democrática da maioria que os suporta. Geralmente basta que um número suficiente de fazedores de opinião,as grandes organisações de meios de comunicação e a classe política os definam e logo toga a gente se lhes submete.»



BACK TO BASICS – Nunca tomar os desejos por realidades.



O MELHOR DA SEMANA – A maneira como correram as eleições americanas.



O PIOR DA SEMANA – O atraso de Kerry no reconhecimento da derrota.



A PERGUNTA – Que se passará na cabeça de George Soros depois de ter investido mais de 20 milhões de dolares numa campanha anti-Bush?



SUGESTÃO – A edição norte-americana da revista «Esquire» de Novembro, o clássico «The Women We Love Issue», com Angelina Jolie na capa e, lá dentro, a lista dos melhores novos restaurantes dos Estados Unidos.

novembro 05, 2004

Manual da Manipulação
(In «Independências»)

Ingredientes: uma ideia para transmitir, uma fonte minimamente credível (um assessor, um deputado, um dirigente partidário, um membro do Governo), uma boa lista telefónica.
O conceito funciona desta forma: a ideia a transmitir não deve ser uma notícia, mas deve conter a sugestão de que se está por dentro de uma coisa que poderá vir a ser notícia. A fonte escolhe o difusor da ideia, e aqui há duas opções possíveis: ou um influente semanário que nunca investigue os dados que lhe são soprados ao telefone ou à mesa do restaurante, ou então um jornal de segunda linha. No primeiro caso a «dica» poderá ser apenas uma entre muitas «inconfidências», o destaque que tiver depende da competição entre as várias pistas largadas na tarde de sexta-feira para os diligentes transmissores e analistas; no segundo caso, pode ser encarada de forma suficientemente relevante para ser paginada com destaque.
O passo seguinte é sempre o mesmo: o que interessa é conseguir publicar a primeira «dica», a partir daí o processo gira sózinho – essa «dica» vai entrar na agenda das outras redacções e a partir daí os outros media vão trabalhá-la. Isto quer dizer que vão procurar reacções – essa terrível forma de manipular a informação que se tornou uma rotina. A «dica» passa a ter estatuto de verdade incontestada e desde os seus hipotéticos apoiantes até aos seus eventuais opositores todos falam dela como se de facto consumado se tratasse. Com sorte até um «opinio-maker» escreve sobre o assunto. A isto chama-se «fazer a agenda».. Em muitos mais casos do que se imagina criam-se factos artificiais a partir de um simples rumor. Às vezes, assim, impede-se que alguma coisa aconteça. Ou faz-se acontecer o que antes era improvável.

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Manual da Manipulação

(In «Independências»)



Ingredientes: uma ideia para transmitir, uma fonte minimamente credível (um assessor, um deputado, um dirigente partidário, um membro do Governo), uma boa lista telefónica.

O conceito funciona desta forma: a ideia a transmitir não deve ser uma notícia, mas deve conter a sugestão de que se está por dentro de uma coisa que poderá vir a ser notícia. A fonte escolhe o difusor da ideia, e aqui há duas opções possíveis: ou um influente semanário que nunca investigue os dados que lhe são soprados ao telefone ou à mesa do restaurante, ou então um jornal de segunda linha. No primeiro caso a «dica» poderá ser apenas uma entre muitas «inconfidências», o destaque que tiver depende da competição entre as várias pistas largadas na tarde de sexta-feira para os diligentes transmissores e analistas; no segundo caso, pode ser encarada de forma suficientemente relevante para ser paginada com destaque.

O passo seguinte é sempre o mesmo: o que interessa é conseguir publicar a primeira «dica», a partir daí o processo gira sózinho – essa «dica» vai entrar na agenda das outras redacções e a partir daí os outros media vão trabalhá-la. Isto quer dizer que vão procurar reacções – essa terrível forma de manipular a informação que se tornou uma rotina. A «dica» passa a ter estatuto de verdade incontestada e desde os seus hipotéticos apoiantes até aos seus eventuais opositores todos falam dela como se de facto consumado se tratasse. Com sorte até um «opinio-maker» escreve sobre o assunto. A isto chama-se «fazer a agenda».. Em muitos mais casos do que se imagina criam-se factos artificiais a partir de um simples rumor. Às vezes, assim, impede-se que alguma coisa aconteça. Ou faz-se acontecer o que antes era improvável.

outubro 31, 2004

HIPOCRISIA – Em toda a discussão sobre esta questão da liberdade de expressão há duas ou três coisas que merecem ser ditas, que é para não passarmos todos por hipócritas. Em primeiro lugar todos os proprietários de meios de comunicação, aqui e em qualquer país, têm ideias claras sobre o posicionamento editorial que pretendem que seja seguido – as mais das vezes sobre o que não desejam que seja feito – a coisa é mesmo assim; em segundo lugar a independência de jornais, jornalistas ou comentadores é um mito hipócrita – todos têm as suas opções, todos são influenciados a partir do posicionamento que têm; em terceiro lugar o grande problema que existe em Portugal é a falta da saudável transparência dos media anglo-saxónicos que não hesitam em assumir partido e – mais que tomar posição – dizer quem apoiam. A grande hipocrisia está em pensar que agentes políticos possam fazer comentários inocentes ou independentes – na verdade a coisa tem pouco a ver com liberdade de expressão e mais a ver com ética e conflito de interesses.

POLÍTICA – Nesta história alguém mente e talvez convenha revisitar o passado para ver quem tem mais tradições, digamos, de dizer inverdades: se Miguel Paes do Amaral, se Marcelo Rebelo de Sousa. Sem ser demasiado cínico acho que qualquer observador mediano da sociedade portuguesa tem algumas razões para desconfiar da bondade das intenções de Marcelo e sobretudo da sua ingenuidade. Uma frase não muito sublinhada da resposta de Miguel Paes do Amaral a Marcelo, na noite de quarta-feira, revelava tudo. O Presidente da Media Capital disse, preto no branco, que Marcelo tinha agido para poder fazer um aproveitamento político de uma situação. Dias antes tinha afirmado que dentro de alguns meses tudo se perceberia melhor. Que Marcelo conseguiu aproveitamento político neguem duvida. Continuo a achar que a história ainda está por contar e que daqui a algum tempo talvez tudo se esclareça. Por isso me aflige que os juízos sejam feitos na base de presunções.

IMPASSE – As mais recentes sondagens sobre as eleições norte-americanas da próxima terça-feira apontam para uma probabilidade de empate. Estas eleições destinam-se a encontrar os 538 membros do Colégio Eleitoral, que depois hão-de votar o nome do futuro presidente dos EUA. Muitos comentadores apontam para a possibilidade de, mais uma vez, como aconteceu em 2000, o candidato ganhador no voto popular acabe por ter menos apoiantes no colégio eleitoral. Em 2000 votaram 110 milhões de norte-americanos, todos os esforços vão no sentido de diminuir a abstenção e conseguir mais eleitores.

TÁCTICA – Durão Barroso conseguiu dar a volta ao impasse que estava em vias de ser criado no Parlamento Europeu, em relação à votação sobre os nomes dos novos Comissários. Boa gestão de informação e uma actuação táctica com um timing bem preciso proporcionaram um defecho elogiado pela generalidade dos comentadores dos principais jornais europeus. O próprio Buttiglione, o homem no centro de toda a polémica, admitia na imprensa italiana de quinta-feira que talvez já não lhe interessasse ser Comissário.

DIGITAL – A Apple anunciou a edição em finais de Novembro da primeira compilação musical exclusivamente feita para formato de download digital legal. Através da sua I Tunes Music Store, que vende downloads para o leitor I Pod, a Apple, em colaboração com os U2, vai lançar um conjunto de 400 canções do grupo, «The Complete U2», incluindo alguns inéditos e o novo álbum «How To Dismantle An Atomic Bomb» que vai ter a sua edição no formato CD pela mesma altura.


A PERGUNTA DA SEMANA – Quem fala verdade?

BACK TO BASICS – O tempo acaba por esclarecer tudo.

O MELHOR DA SEMANA – As primeiras imagens de Titã, a lua de Saturno que está a ser explorada pela sonda Cassini, da Nasa.

O PIOR DA SEMANA – A morte de John Peel, um dos mais influentes DJ’s da rádio de todo o mundo, que fez a sua carreira na BBC a revelar talentos. Um exemplo de atenção permanente à inovação.

RECOMENDAÇÃO – A revista «Tabacaria», editada em Lisboa pela Casa Fernanda Pessoa, com direcção de arte de João Francisco Vilhena. É um exemplo raro de elegância editorial.

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HIPOCRISIA – Em toda a discussão sobre esta questão da liberdade de expressão há duas ou três coisas que merecem ser ditas, que é para não passarmos todos por hipócritas. Em primeiro lugar todos os proprietários de meios de comunicação, aqui e em qualquer país, têm ideias claras sobre o posicionamento editorial que pretendem que seja seguido – as mais das vezes sobre o que não desejam que seja feito – a coisa é mesmo assim; em segundo lugar a independência de jornais, jornalistas ou comentadores é um mito hipócrita – todos têm as suas opções, todos são influenciados a partir do posicionamento que têm; em terceiro lugar o grande problema que existe em Portugal é a falta da saudável transparência dos media anglo-saxónicos que não hesitam em assumir partido e – mais que tomar posição – dizer quem apoiam. A grande hipocrisia está em pensar que agentes políticos possam fazer comentários inocentes ou independentes – na verdade a coisa tem pouco a ver com liberdade de expressão e mais a ver com ética e conflito de interesses.



POLÍTICA – Nesta história alguém mente e talvez convenha revisitar o passado para ver quem tem mais tradições, digamos, de dizer inverdades: se Miguel Paes do Amaral, se Marcelo Rebelo de Sousa. Sem ser demasiado cínico acho que qualquer observador mediano da sociedade portuguesa tem algumas razões para desconfiar da bondade das intenções de Marcelo e sobretudo da sua ingenuidade. Uma frase não muito sublinhada da resposta de Miguel Paes do Amaral a Marcelo, na noite de quarta-feira, revelava tudo. O Presidente da Media Capital disse, preto no branco, que Marcelo tinha agido para poder fazer um aproveitamento político de uma situação. Dias antes tinha afirmado que dentro de alguns meses tudo se perceberia melhor. Que Marcelo conseguiu aproveitamento político neguem duvida. Continuo a achar que a história ainda está por contar e que daqui a algum tempo talvez tudo se esclareça. Por isso me aflige que os juízos sejam feitos na base de presunções.



IMPASSE – As mais recentes sondagens sobre as eleições norte-americanas da próxima terça-feira apontam para uma probabilidade de empate. Estas eleições destinam-se a encontrar os 538 membros do Colégio Eleitoral, que depois hão-de votar o nome do futuro presidente dos EUA. Muitos comentadores apontam para a possibilidade de, mais uma vez, como aconteceu em 2000, o candidato ganhador no voto popular acabe por ter menos apoiantes no colégio eleitoral. Em 2000 votaram 110 milhões de norte-americanos, todos os esforços vão no sentido de diminuir a abstenção e conseguir mais eleitores.



TÁCTICA – Durão Barroso conseguiu dar a volta ao impasse que estava em vias de ser criado no Parlamento Europeu, em relação à votação sobre os nomes dos novos Comissários. Boa gestão de informação e uma actuação táctica com um timing bem preciso proporcionaram um defecho elogiado pela generalidade dos comentadores dos principais jornais europeus. O próprio Buttiglione, o homem no centro de toda a polémica, admitia na imprensa italiana de quinta-feira que talvez já não lhe interessasse ser Comissário.



DIGITAL – A Apple anunciou a edição em finais de Novembro da primeira compilação musical exclusivamente feita para formato de download digital legal. Através da sua I Tunes Music Store, que vende downloads para o leitor I Pod, a Apple, em colaboração com os U2, vai lançar um conjunto de 400 canções do grupo, «The Complete U2», incluindo alguns inéditos e o novo álbum «How To Dismantle An Atomic Bomb» que vai ter a sua edição no formato CD pela mesma altura.





A PERGUNTA DA SEMANA – Quem fala verdade?



BACK TO BASICS – O tempo acaba por esclarecer tudo.



O MELHOR DA SEMANA – As primeiras imagens de Titã, a lua de Saturno que está a ser explorada pela sonda Cassini, da Nasa.



O PIOR DA SEMANA – A morte de John Peel, um dos mais influentes DJ’s da rádio de todo o mundo, que fez a sua carreira na BBC a revelar talentos. Um exemplo de atenção permanente à inovação.



RECOMENDAÇÃO – A revista «Tabacaria», editada em Lisboa pela Casa Fernanda Pessoa, com direcção de arte de João Francisco Vilhena. É um exemplo raro de elegância editorial.



outubro 27, 2004

PARA ALÉM DOS CEM DIAS
(publicado no dia 26 de Outubro no «Jornal de Negócios»)

1. Cada projecto tem o seu tempo. A saída de Durão Barroso acelerou o fim do seu projecto e apressou mais que uma simples remodelação ou sucessão. Provocou uma mudança. O novo executivo, tendo a mesma base, não é de facto o mesmo Governo - é diferente, no estilo, na substância e na forma. O dia-a-dia não é o mesmo. Reintroduziu no vocabulário político o verbo «mudar», as reformas regressaram – da Lei do Arrendamento, à revisão do financiamento das auto-estradas, passando pelas modificações no sistema de saúde. E, claro, há mudanças na maneira de encarar a política económica e financeira. Lembram-se do côro que no tempo de Manuela Ferreira Leite clamava por mais maleabilidade nas finanças, que pedia incentivos à economia? Não aconteceu uma ruptura, mas, se olharmos seis meses para trás, vê-se como algumas das questões que andavam paradas começaram a dar sinais de vida. Desde há muitos anos este parece ser o executivo mais reformista.

2. Em meados do primeiro semestre deste ano existia, um pouco por todo o lado, uma sensação de paralisia. O Governo tinha perdido o ímpeto reformista dos primeiros meses, a única estratégia conhecida era a da inflexível restrição orçamental. Em sectores económicos, políticos, sociais e culturais dizia-se à boca cheia que estava tudo parado. A oposição, é certo, não existia, estava ela própria paralisada. No ar sentia-se o peculiar cheiro da paz pôdre. O país estava adiado e ainda não tinha dado por isso.
O Governo de Durão Barroso arrancou enérgico mas perdeu velocidade em cada compromisso que fazia. Em vez de remover os escolhos foi contornando-os, sempre pelo caminho mais longo. Na prática, tinha deixado de governar e falava-se à boca cheia da necessidade de uma remodelação – recordam-se?

3. Este Governo tomou posse porque tem uma legitimidade eleitoral que ninguém conseguiu desmentir, porque tem uma base de apoio parlamentar que o Presidente da República teve que admitir e porque o PS nem tinha sequer na altura condições para tentar organizar qualquer espécie de alternativa. Mas para um número significativo de observadores, tomou posse porque não existia outra solução – e isto é que os irrita, terem sido apanhados tão distraídos. Para algumas elites foi uma enorme indigestão: perdoem-me a expressão mas, para muitos bem pensantes, foi como se os descamisados tivessem chegado ao poder. Nunca tinham previsto esta hipótese. Julgavam o assunto confinado e controlado. Enganaram-se porque pensaram mais neles próprios do que no desconforto que percorria o país. Uma boa parte do PSD estava confortavelmente sentada na cadeira do poder sem muitos incómodos, à espera que a legislatura decorresse confortável e sem demasiadas mudanças ou rupturas. Por uns anos, parecia, a vida estava tratada.

4. Por tudo isto, este Governo começou debaixo de uma razoável dose de desconfiança – oposição interna e aberta dentro do PSD, oposição ideológica aguerrida do Bloco de Esquerda e contemplação distante do PS, nesse tempo ainda ocupado a procurar uma solução de sucessão interna. Este Governo ainda não tinha feito nada e já estava a ser criticado, nem tinha apresentado Programa e já tinha declarações antecipadas de voto contra. Nunca, em tempos recentes, um executivo começou a funcionar sob tão permanente observação ao microscópio. Este Governo nunca viveu sob Estado de Graça, teve tolerância zero – em boa parte porque a sua liderança suscita tudo menos indiferença. Para a maioria dos críticos o problema deste Governo reside em Santana Lopes, no seu estilo, na sua forma. A fulanização da política regressou em força. Pelo menos a coisa teve o mérito de provocar uma separação das águas.

5. Nesta semana começaram a publicar-se os habituais balanços dos cem dias do executivo. Cem dias são três meses – quase nada num ciclo de Governo, mesmo que este tenha menos de dois anos de horizonte. Vamos olhar bem de frente: em cem dias já se fez alguma coisa, que a bem dizer estava parada há pelo menos doze meses. Mas não é isso o fundamental: é claro que houve erros, é claro que aconteceram precipitações, é claro que às vezes a táctica foi mais valorizada que a estratégia. Isso é tudo verdade – mas também é verdade que se começou a agir, que a máquina voltou a andar – e o que aconteceu na educação é um dramático sinal da paralisia que existia.

6. Gostava de fazer aqui uma comparação com a música: há seis meses ninguém diria que isto tinha acontecido – juntaram-se na mesma banda músicos que não contavam estar juntos em cima do palco, ainda por cima com um solista que estava a pensar noutras canções. O resultado foi igual ao de qualquer boa «jam-session» – de início demora-se tempo a encontrar o compasso certo, o ritmo desejado, a conjugar harmonias. A seu tempo as peças juntam-se. Eu acho que já se sente que isso está a acontecer e é o receio de que daqui saia, afinal, alguma música que faça sentido que preocupa tanto, tanta gente. É claro que pelo meio convém que os músicos se ouçam uns aos outros e percebam quem está a desafinar. A surdez, nestas coisas, é fatal.

7. Qualquer projecto demora algum tempo a conseguir encontrar o seu rumo. Peguemos num novo jornal que nasce – quantas vezes os primeiros meses são desesperantes, quando tudo parece correr ao contrário do que queríamos e tínhamos imaginado? Nestas alturas o que há a fazer é ver bem o que se passa e ir corrigindo, ir acertando, ir procurando. Quem lança novos projectos sabe que a culpa dos problemas nunca é dos outros, como também nunca é dos observadores e, em última análise, dos eleitores e muito menos dos detractores e da concorrência. A culpa do que não corre bem é sempre nossa e a chave do êxito é descobrir o que não vai bem e corrigi-lo.

8. O pior que pode acontecer ao poder é tornar-se dono de todas as certezas e ficar cinzento. Tem que existir a capacidade de ouvir e a de pôr em causa o que se fez. Da mesma forma, todo o poder que perca a capacidade de se rir de si próprio está destinado a dias difíceis. Há uma velha máxima que eu gosto sempre de recordar: quando estamos muito envolvidos num projecto, convém saltar para fora dele e observá-lo de longe. Ouvir os outros, sentir o humor e ver a realidade é meio caminho andado para uma boa imagem. A outra metade vive da articulação de duas coisas fundamentais: quando a estratégia parece confusa, a táctica tem de ser clara; e mais vale apresentar obra feita, do que anunciar o que não se sabe quando será concretizado. A forma é importante no exercício do poder – e retomando a nossa «jam session» - há momentos em que mais vale diminuir o som dos amplificadores, só assim o cantor pode ganhar espaço para a sua voz.

9. A forma de exercer o poder condiciou Barroso, no seu permanente jogo de equilíbrios e de consensos que é a sua forma de agir, bem revelada agora na Comissão Europeia. É a recusa da forma convencionada de utilização do poder que está prejudicar Santana. O poder tem rituais – uns que vale a pena cumprir, outros nem por isso – mas o sistema não tolera os iconoclastas. Não sou adepto da teoria das cabalas, mas olho à minha volta e sei que existe preconceito, despeito, má vontade generalizada: desde as nossas fracas e muito oportunistas elites até aos nossos media que, vezes demais, continuam a ter dificuldade em separar informação de opinião, em separar a notícia do comentário, em separar a verdade do preconceito.
Recordam-se das acusações de populismo de há três meses? Foram esquecidas rapidamente, quando as reformas começaram pela parte mais difícil, com mais custos de opinião pública, quando em vez de medidas eleiçoeiras foram tomadas decisões difíceis.

10. Na semana passada li duas entrevistas de George Soros, nas quais ele explicava porque gastou para cima de 20 milhões de dolares da sua fortuna pessoal em campanhas contra Bush. Confessando-se um centrista nato diz que o seu principal objectivo é conseguir fazer mover o centro da posição demasiado à direita para onde Bush o levou, trazendo-o de novo para o seu lugar original, no centro. É uma reflexão curiosa. Mas Soros preconiza sobretudo mudanças sensíveis no funcionamento do sistema político, apela à existência de «think tanks» que sirvam de consciência crítica permanente do poder, a uma melhor articulação e relação com os media, e à criação de grupos de acção cívica que encontrem formas de mobilizar os jovens e levá-los a participar no governo da sociedade. São coisas evidentes. Mas de tão evidentes serem, convém tê-las sempre presentes, sobretudo quando é mesmo preciso mudar o sistema.










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PARA ALÉM DOS CEM DIAS

(publicado no dia 26 de Outubro no «Jornal de Negócios»)



1. Cada projecto tem o seu tempo. A saída de Durão Barroso acelerou o fim do seu projecto e apressou mais que uma simples remodelação ou sucessão. Provocou uma mudança. O novo executivo, tendo a mesma base, não é de facto o mesmo Governo - é diferente, no estilo, na substância e na forma. O dia-a-dia não é o mesmo. Reintroduziu no vocabulário político o verbo «mudar», as reformas regressaram – da Lei do Arrendamento, à revisão do financiamento das auto-estradas, passando pelas modificações no sistema de saúde. E, claro, há mudanças na maneira de encarar a política económica e financeira. Lembram-se do côro que no tempo de Manuela Ferreira Leite clamava por mais maleabilidade nas finanças, que pedia incentivos à economia? Não aconteceu uma ruptura, mas, se olharmos seis meses para trás, vê-se como algumas das questões que andavam paradas começaram a dar sinais de vida. Desde há muitos anos este parece ser o executivo mais reformista.



2. Em meados do primeiro semestre deste ano existia, um pouco por todo o lado, uma sensação de paralisia. O Governo tinha perdido o ímpeto reformista dos primeiros meses, a única estratégia conhecida era a da inflexível restrição orçamental. Em sectores económicos, políticos, sociais e culturais dizia-se à boca cheia que estava tudo parado. A oposição, é certo, não existia, estava ela própria paralisada. No ar sentia-se o peculiar cheiro da paz pôdre. O país estava adiado e ainda não tinha dado por isso.

O Governo de Durão Barroso arrancou enérgico mas perdeu velocidade em cada compromisso que fazia. Em vez de remover os escolhos foi contornando-os, sempre pelo caminho mais longo. Na prática, tinha deixado de governar e falava-se à boca cheia da necessidade de uma remodelação – recordam-se?



3. Este Governo tomou posse porque tem uma legitimidade eleitoral que ninguém conseguiu desmentir, porque tem uma base de apoio parlamentar que o Presidente da República teve que admitir e porque o PS nem tinha sequer na altura condições para tentar organizar qualquer espécie de alternativa. Mas para um número significativo de observadores, tomou posse porque não existia outra solução – e isto é que os irrita, terem sido apanhados tão distraídos. Para algumas elites foi uma enorme indigestão: perdoem-me a expressão mas, para muitos bem pensantes, foi como se os descamisados tivessem chegado ao poder. Nunca tinham previsto esta hipótese. Julgavam o assunto confinado e controlado. Enganaram-se porque pensaram mais neles próprios do que no desconforto que percorria o país. Uma boa parte do PSD estava confortavelmente sentada na cadeira do poder sem muitos incómodos, à espera que a legislatura decorresse confortável e sem demasiadas mudanças ou rupturas. Por uns anos, parecia, a vida estava tratada.



4. Por tudo isto, este Governo começou debaixo de uma razoável dose de desconfiança – oposição interna e aberta dentro do PSD, oposição ideológica aguerrida do Bloco de Esquerda e contemplação distante do PS, nesse tempo ainda ocupado a procurar uma solução de sucessão interna. Este Governo ainda não tinha feito nada e já estava a ser criticado, nem tinha apresentado Programa e já tinha declarações antecipadas de voto contra. Nunca, em tempos recentes, um executivo começou a funcionar sob tão permanente observação ao microscópio. Este Governo nunca viveu sob Estado de Graça, teve tolerância zero – em boa parte porque a sua liderança suscita tudo menos indiferença. Para a maioria dos críticos o problema deste Governo reside em Santana Lopes, no seu estilo, na sua forma. A fulanização da política regressou em força. Pelo menos a coisa teve o mérito de provocar uma separação das águas.



5. Nesta semana começaram a publicar-se os habituais balanços dos cem dias do executivo. Cem dias são três meses – quase nada num ciclo de Governo, mesmo que este tenha menos de dois anos de horizonte. Vamos olhar bem de frente: em cem dias já se fez alguma coisa, que a bem dizer estava parada há pelo menos doze meses. Mas não é isso o fundamental: é claro que houve erros, é claro que aconteceram precipitações, é claro que às vezes a táctica foi mais valorizada que a estratégia. Isso é tudo verdade – mas também é verdade que se começou a agir, que a máquina voltou a andar – e o que aconteceu na educação é um dramático sinal da paralisia que existia.



6. Gostava de fazer aqui uma comparação com a música: há seis meses ninguém diria que isto tinha acontecido – juntaram-se na mesma banda músicos que não contavam estar juntos em cima do palco, ainda por cima com um solista que estava a pensar noutras canções. O resultado foi igual ao de qualquer boa «jam-session» – de início demora-se tempo a encontrar o compasso certo, o ritmo desejado, a conjugar harmonias. A seu tempo as peças juntam-se. Eu acho que já se sente que isso está a acontecer e é o receio de que daqui saia, afinal, alguma música que faça sentido que preocupa tanto, tanta gente. É claro que pelo meio convém que os músicos se ouçam uns aos outros e percebam quem está a desafinar. A surdez, nestas coisas, é fatal.



7. Qualquer projecto demora algum tempo a conseguir encontrar o seu rumo. Peguemos num novo jornal que nasce – quantas vezes os primeiros meses são desesperantes, quando tudo parece correr ao contrário do que queríamos e tínhamos imaginado? Nestas alturas o que há a fazer é ver bem o que se passa e ir corrigindo, ir acertando, ir procurando. Quem lança novos projectos sabe que a culpa dos problemas nunca é dos outros, como também nunca é dos observadores e, em última análise, dos eleitores e muito menos dos detractores e da concorrência. A culpa do que não corre bem é sempre nossa e a chave do êxito é descobrir o que não vai bem e corrigi-lo.



8. O pior que pode acontecer ao poder é tornar-se dono de todas as certezas e ficar cinzento. Tem que existir a capacidade de ouvir e a de pôr em causa o que se fez. Da mesma forma, todo o poder que perca a capacidade de se rir de si próprio está destinado a dias difíceis. Há uma velha máxima que eu gosto sempre de recordar: quando estamos muito envolvidos num projecto, convém saltar para fora dele e observá-lo de longe. Ouvir os outros, sentir o humor e ver a realidade é meio caminho andado para uma boa imagem. A outra metade vive da articulação de duas coisas fundamentais: quando a estratégia parece confusa, a táctica tem de ser clara; e mais vale apresentar obra feita, do que anunciar o que não se sabe quando será concretizado. A forma é importante no exercício do poder – e retomando a nossa «jam session» - há momentos em que mais vale diminuir o som dos amplificadores, só assim o cantor pode ganhar espaço para a sua voz.



9. A forma de exercer o poder condiciou Barroso, no seu permanente jogo de equilíbrios e de consensos que é a sua forma de agir, bem revelada agora na Comissão Europeia. É a recusa da forma convencionada de utilização do poder que está prejudicar Santana. O poder tem rituais – uns que vale a pena cumprir, outros nem por isso – mas o sistema não tolera os iconoclastas. Não sou adepto da teoria das cabalas, mas olho à minha volta e sei que existe preconceito, despeito, má vontade generalizada: desde as nossas fracas e muito oportunistas elites até aos nossos media que, vezes demais, continuam a ter dificuldade em separar informação de opinião, em separar a notícia do comentário, em separar a verdade do preconceito.

Recordam-se das acusações de populismo de há três meses? Foram esquecidas rapidamente, quando as reformas começaram pela parte mais difícil, com mais custos de opinião pública, quando em vez de medidas eleiçoeiras foram tomadas decisões difíceis.



10. Na semana passada li duas entrevistas de George Soros, nas quais ele explicava porque gastou para cima de 20 milhões de dolares da sua fortuna pessoal em campanhas contra Bush. Confessando-se um centrista nato diz que o seu principal objectivo é conseguir fazer mover o centro da posição demasiado à direita para onde Bush o levou, trazendo-o de novo para o seu lugar original, no centro. É uma reflexão curiosa. Mas Soros preconiza sobretudo mudanças sensíveis no funcionamento do sistema político, apela à existência de «think tanks» que sirvam de consciência crítica permanente do poder, a uma melhor articulação e relação com os media, e à criação de grupos de acção cívica que encontrem formas de mobilizar os jovens e levá-los a participar no governo da sociedade. São coisas evidentes. Mas de tão evidentes serem, convém tê-las sempre presentes, sobretudo quando é mesmo preciso mudar o sistema.





















outubro 25, 2004

AS FLORES – Era muito mais cómodo escrever sobre flores nesta semana que fechou. Há quem escreva sobre a outonal queda das folhas, há quem disserte sobre a Turquia, há quem se refugie no futebol. Deixemos o interlúdio. Há muita coisa que não vai bem, e o melhor seria encarar os assuntos de frente. O autismo, nos círculos do poder, pode revestir a forma de uma epidemia mortífera.

A MÁSCARA – Há poucos dias o advogado José Sá Fernandes deixou cair a máscara: depois de provocar a interrupção das obras do túnel do Marquês, e a escasssas semanas de existir uma decisão sobre o assunto, veio requerer que fosse restabelecido o pavimento. Prova-se assim que o seu objectivo não tem a bondade que sugere, mas apenas o de evitar, de facto, a concretização de obras públicas, desde que isso lhe dê exposição. Depois de meses sem se preocupar com os incómodos e prejuízos que causou, deu-lhe um súbito acesso de bondade? Mais curioso é o facto de ter feito constar nas redacções dos jornais que o requerimento sobre o assunto estava entregue, antes mesmo de ele dar entrada nos serviços da Câmara Municipal. Afinal que pretende: impacto mediático ou acção concreta? Que triste figura...

A POLÉMICA – Continuo a achar que a memória é o nosso melhor arquivo, um dos nossos bons instrumentos de trabalho que nunca devemos desprezar. Anda tudo numa roda viva sobre a liberdade de imprensa, sobre a independência dos órgãos de comunicação do Estado, mas ninguém se lembra como, há uns anos atrás, surgiram os nomes de Joaquim Vieira e Joaquim Furtado para a Direcção da RTP, e, mais tarde de Emídio Rangel? Basta uma consulta detalhada à imprensa da época para se ver quem, dentro do Governo da época, eram os impulsionadores dessas nomeações. Nas redacções deve haver quem se recorde do que as fontes contavam por essa época. Na altura não houve o actual coro de protestos, apesar de terem existido de facto decisões, em vez de um curioso debate sobre a regulação, que é o que agora existiu. Pode ser que se tenham apagado muitas diferenças entre a esquerda e a direita, mas continuam a existir preconceitos, até entre os mais insuspeitos. Vista a frio, a coisa é assim: nas redacções continua a seguir-se o lema de que quando a esquerda actua se deve ser complacente, quando a direita sugere se deve ser implacável; a esquerda é vestida para aparecer como criativa, a direita como manipuladora. Este livro de estilo dos justiceiros é o que de pior existe no jornalismo português – e que tem origens, causas e métodos bem conhecidos. Não vale a pena sermos hipócritas: em matéria de condicionamento político da comunicação social este Governo é um menino de côro, comparado com as diatribes do Dr. Jorge Coelho. Embora encoberta e não publicada em «Diário da República», a central de informação do Governo era bem mais eficaz e notória nessa época – será que já não anda por aí ninguém que estivesse nas redacções nessa época?

BACK TO BASICS – Só se devem publicar correcções ou desmentidos referentes a factos que tenhamos reportado, e não em relação ao que foi reportado por terceiros (do livro de estilo da Associated Press, citado de memória).

O MELHOR DA SEMANA – A nova agenda cultural da Câmara Municipal de Lisboa, a «Agenda Lx». Jorge Silva voltou a acertar no alvo com um grafismo claro, elegante e moderno – três características que, em geral, muita falta fazem.

O PIOR DA SEMANA – A carga policial de quarta-feira na Universidade de Coimbra. Os anos passam, a forma de agir da polícia não muda – e não presta.

A PERGUNTA DA SEMANA – Numa semana tão barulhenta como é que ninguém falou do ruído?

RECOMENDAÇÃO –A banda sonora do filme De-Lovely, baseado em canções de Cole Porter, com Sheryl Crow, Elvis Costello, Diana Krall, Ashley Judd, Robbie Williams e Alanis Morissette, entre outros.

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AS FLORES – Era muito mais cómodo escrever sobre flores nesta semana que fechou. Há quem escreva sobre a outonal queda das folhas, há quem disserte sobre a Turquia, há quem se refugie no futebol. Deixemos o interlúdio. Há muita coisa que não vai bem, e o melhor seria encarar os assuntos de frente. O autismo, nos círculos do poder, pode revestir a forma de uma epidemia mortífera.



A MÁSCARA – Há poucos dias o advogado José Sá Fernandes deixou cair a máscara: depois de provocar a interrupção das obras do túnel do Marquês, e a escasssas semanas de existir uma decisão sobre o assunto, veio requerer que fosse restabelecido o pavimento. Prova-se assim que o seu objectivo não tem a bondade que sugere, mas apenas o de evitar, de facto, a concretização de obras públicas, desde que isso lhe dê exposição. Depois de meses sem se preocupar com os incómodos e prejuízos que causou, deu-lhe um súbito acesso de bondade? Mais curioso é o facto de ter feito constar nas redacções dos jornais que o requerimento sobre o assunto estava entregue, antes mesmo de ele dar entrada nos serviços da Câmara Municipal. Afinal que pretende: impacto mediático ou acção concreta? Que triste figura...



A POLÉMICA – Continuo a achar que a memória é o nosso melhor arquivo, um dos nossos bons instrumentos de trabalho que nunca devemos desprezar. Anda tudo numa roda viva sobre a liberdade de imprensa, sobre a independência dos órgãos de comunicação do Estado, mas ninguém se lembra como, há uns anos atrás, surgiram os nomes de Joaquim Vieira e Joaquim Furtado para a Direcção da RTP, e, mais tarde de Emídio Rangel? Basta uma consulta detalhada à imprensa da época para se ver quem, dentro do Governo da época, eram os impulsionadores dessas nomeações. Nas redacções deve haver quem se recorde do que as fontes contavam por essa época. Na altura não houve o actual coro de protestos, apesar de terem existido de facto decisões, em vez de um curioso debate sobre a regulação, que é o que agora existiu. Pode ser que se tenham apagado muitas diferenças entre a esquerda e a direita, mas continuam a existir preconceitos, até entre os mais insuspeitos. Vista a frio, a coisa é assim: nas redacções continua a seguir-se o lema de que quando a esquerda actua se deve ser complacente, quando a direita sugere se deve ser implacável; a esquerda é vestida para aparecer como criativa, a direita como manipuladora. Este livro de estilo dos justiceiros é o que de pior existe no jornalismo português – e que tem origens, causas e métodos bem conhecidos. Não vale a pena sermos hipócritas: em matéria de condicionamento político da comunicação social este Governo é um menino de côro, comparado com as diatribes do Dr. Jorge Coelho. Embora encoberta e não publicada em «Diário da República», a central de informação do Governo era bem mais eficaz e notória nessa época – será que já não anda por aí ninguém que estivesse nas redacções nessa época?



BACK TO BASICS – Só se devem publicar correcções ou desmentidos referentes a factos que tenhamos reportado, e não em relação ao que foi reportado por terceiros (do livro de estilo da Associated Press, citado de memória).



O MELHOR DA SEMANA – A nova agenda cultural da Câmara Municipal de Lisboa, a «Agenda Lx». Jorge Silva voltou a acertar no alvo com um grafismo claro, elegante e moderno – três características que, em geral, muita falta fazem.



O PIOR DA SEMANA – A carga policial de quarta-feira na Universidade de Coimbra. Os anos passam, a forma de agir da polícia não muda – e não presta.



A PERGUNTA DA SEMANA – Numa semana tão barulhenta como é que ninguém falou do ruído?



RECOMENDAÇÃO –A banda sonora do filme De-Lovely, baseado em canções de Cole Porter, com Sheryl Crow, Elvis Costello, Diana Krall, Ashley Judd, Robbie Williams e Alanis Morissette, entre outros.