julho 25, 2025

QUE PAÍS É ESTE?

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A PAISAGEM PORTUGUESA - A realidade é esta: apesar de haver uma grande falta de habitação muito do que se constrói em Portugal não é feito a pensar nos portugueses, mas em quem nos visita. Já sei da importância económica do turismo, da influência que tem tido na recuperação de património imobiliário que estava em ruína no centro das principais cidades, ou na quantidade de empregos que cria. Mas também sei que tem favorecido a construção desenfreada em zonas do litoral, sobretudo a sul do Tejo, que deviam ter sido protegidas, que há abusos na interdição de passagem para praias, que há uma especulação enorme nos preços nas zonas mais turísticas, que a especulação no mercado imobiliário ultrapassa tudo o que se pensava possível, que nalgumas cidades o número de veículos turísticos e TVDEs é superior ao número de veículos dos residentes em circulação, que muita gente foi levada a sair de Lisboa devido ao aumento dos preços e que o encerramento forçado de lojas históricas e comércio tradicional de proximidade alteram os hábitos sociais. E também sei que as vantagens fiscais concedidas a estrangeiros são negadas aos sobrecarregados contribuintes portugueses, criando situações de flagrante desigualdade. Olhemos pois para Lisboa, uma cidade que deixou de ser para os lisboetas, uma cidade refeita para visitantes e turistas ocasionais. António Costa e Fernando Medina lançaram os alicerces do parque temático para turistas em que Lisboa se transformou, mas Carlos Moedas pôs a feira a bombar ao som de Tony Carreira. Aviões nos céus a toda a hora, congestionamento cada vez maior num trânsito invadido por tuk-tuks e congéneres, lixo abundante nas ruas e descaracterização cada vez mais acentuada são marcas contemporâneas da capital. Aos seus subúrbios regressaram as barracas que se julgavam erradicadas, onde sobrevivem muitos dos que trabalham na grande cidade, enquanto que noutros locais surgem empreendimentos a preços milionários, muitas vezes adquiridos por estrangeiros que nem os habitam nem usam e querem ignorar a lei do país, estabelecendo manigâncias para interdição de acessos a zonas públicas, como praias. A Ministra Graça Carvalho esteve bem ao lançar uma campanha para garantir que todos os acessos ao litoral devem ser livres e sem restrições. Olhou para os portugueses. Uma raridade na política hoje em dia.


 


SEMANADA - Segundo o Eurostat Portugal foi o país da União Europeia que em média mais despendeu em alimentação, com uma despesa real per capita de 3300 euros por ano, uma subida de 43,5% face aos níveis de 2020; o preço da habitação aumentou 18,7% no primeiro trimestre; em Portugal há 115 reclusos por cada 100 mil habitantes, uma taxa de encarceramento superior à média europeia, de 105 por 100 mil; em Portugal existem em circulação 1,6 milhões de carros com mais de 20 anos; no primeiro semestre deste ano registaram-se mais acidentes, mais mortos e mais feridos nas estradas portuguesas do que há dez anos: de acordo com dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, desde 1 de janeiro até 15 de julho registaram-se  70.817 acidentes, mais 3490 do que no mesmo período de 2016 e em quatro anos registaram-se 2300 mortes na estrada; segundo o INE, a região do Algarve e o concelho de Albufeira em particular são os territórios com as taxas de criminalidade mais elevadas do País; Portugal é o país da UE com menos alunos do secundário a aprender duas línguas estrangeiras; segundo o Eurostat, Portugal é o segundo país da UE com a maior proporção de famílias com apenas um filho, ficando somente atrás da Eslováquia; em junho o número de pessoas sem médico de família atingiu novo recorde, com um total de 1.669.695,  mais 24 886 do que em maio e mais 64.738 do que há um ano; há 4721 casais em que ambos os membros estão desempregados.


 


O ARCO DA VELHA - Um total de 847 óbitos fetais e neonatais ocorreram em Portugal continental em 2023 e 2024, representando 0,52% dos nascimentos, com a Grande Lisboa a registar 0,70%, a percentagem mais alta entre as regiões do país.


 


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A HISTÓRIA DO MARQUÊS - Uma das figuras mais fascinantes da História de Portugal é o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo. Personagem controversa, foi secretário de Estado do Reino durante o reinado de D. José I no século XVIII, tendo sido o responsável pelo plano de reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755, além de ter lançado importantes reformas económicas, sociais e políticas. Ficou também conhecido pelo reforço do poder do Rei, diminuindo o poder da nobreza e do Clero, tendo nomeadamente confiscado os bens da Companhia de Jesus, que expulsou de Portugal. Pombal foi apelidado como o primeiro-ministro de D. José I, de quem era o homem-forte, com uma enorme influência. Esta “Primeira Biografia do Marquês de Pombal”, um conjunto de manuscritos que agora foram editados pela primeira vez em forma de livro, é baseado na obra escrita ainda em vida do Marquês, no final do século XVIII, por D. José de Mendonça, que foi Reitor da Universidade de Coimbra e, mais tarde, nomeado Cardeal Patriarca de Lisboa em 1786. É um extenso volume que retrata não só a figura do Marquês, mas também os acontecimentos ocorridos no reinado de D. José I, nomeadamente as reformas empreendidas.  A esse nível é um guia precioso para compreender a História de Portugal nesse período e não apenas a figura do Marquês de Pombal. O livro é fruto do trabalho de um grupo de investigadores, entre os quais se destacam Alícia Duhá Lose e Rafael Magalhães. No prefácio, de Pedro Calafate, Viriato Soromenho-Marques e José Eduardo Franco é sublinhado: “Pombal não foi um estadista amado, foi sobretudo um estadista temido, conquistando o poder com pulso firme, aproveitando as circunstâncias, por vezes trágicas, do mundo em que viveu, e capaz de eliminar impiedosamente os muitos obstáculos com que se debateu, em ordem à reforma profunda do país.” . Edição Temas e Debates.


 


 


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ARTE EM ELVAS - Em Elvas, até 19 de Outubro, a exposição “Um Silabário por Reconstruir” proporciona a rara oportunidade de ver uma selecção de obras de quatro dezenas de artistas contemporâneos, oriundas de três origens: a Colecção de Arte Contemporânea do Estado que está em depósito em Coimbra, a colecção da Caixa Geral de Depósitos e a Colecção António Cachola.  O Museu de Arte Contemporâneo de Elvas, MACE, onde decorre a exposição, alberga a colecção constituída ao longo dos anos por António Cachola, está localizado no centro de Elvas, na rua da Cadeia, foi inaugurado em 2007 e nasceu da recuperação do edifício de um antigo Hospital. Para esta exposição o MACE chamou como curador José Maçãs de Carvalho, que além de ser ele próprio artista com obra no campo da fotografia e do vídeo, é Professor no Colégio das Artes de Coimbra e curador do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra - e nessa qualidade conhece bem a colecção do Estado. No caso desta exposição chamou para trabalhar consigo um dos seus alunos, Tiago Candeias. Ambos selecionaram obras de 38 artistas como Alberto Carneiro, Ana Jotta, Cristina Ataíde (na imagem o desenho “Todas as Montanhas do Mundo”, de 2010), Ilda David, José Loureiro, José Pedro Croft, Lourdes de Castro, Luísa Cunha, Pedro Cabrita Reis, Pedro Proença e Rui Chafes, entre outros. Na apresentação da exposição é indicado que o projecto curatorial é pensado a partir do universo literário, por um lado procurando as relações entre a imagem e a palavra e, por outro, pela criação de uma narrativa que pretende estabelecer um fio condutor entre as obras apresentadas.


 


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ROTEIRO - Esta semana destaco no Museu Arpad-Szenes- Vieira da Silva a exposição “Notas Sobre a Melodia das Coisas”, o quarto capítulo do projeto expositivo “331 Amoreiras em Metamorfose” concebido por Nuno Faria, que passou a dirigir o espaço no ano passado, para assinalar o 30.º aniversário da abertura do museu. O título, “Notas Sobre a Melodia das Coisas” é inspirado num livro do  poeta  Rainer Maria Rilke, e a exposição acompanha o processo criativo dos artistas e “o fascínio que a vida silenciosa dos objectos sempre suscitou nos poetas e nos pintores.” Para além de dar a descobrir, ou a redescobrir, um conjunto de obras de Vieira e Arpad (na imagem), menos vistas ou conhecidas, como ensaios sobre o tema da natureza-morta, experiências cromáticas ou composições de espaços interiores, a exposição integra trabalhos de artistas próximos do casal como Manuel Cargaleiro, Jorge Martins, Carlos Botelho, Costa Pinheiro e René Bertholo. Integra, ainda, um conjunto de pinturas de Bruno Pacheco, também sobre histórias de metamorfoses narradas por Ovídio, assim como pinturas de Eugénia Mussa e peças em cerâmica de Bela Silva. Outras sugestões: em Serralves poderá ver uma exposição dedicada à obra de arquitectura e design do finlandês Alvar Aalto e das duas mulheres com quem casou, Aino e Elissa, que com ele trabalharam num grande número de projectos. E na Casa Museu Manoel de Oliveira, também no espaço do jardim de Serralves, está patente uma exposição sobre a obra de Luís Miguel Cintra, “Pequeno Teatro do Mundo”. Para finalizar duas exposições de fotografia: em Vila Franca de Xira, no celeiro da Patriarcal, Alfredo Cunha apresenta  até 12 de Outubro a exposição “Rock” uma seleção antológica de fotografias captadas pelo autor desde 1970 até à atualidade, centradas no universo do rock em Portugal; e na Narrativa, em Lisboa, até 9 de Agosto, pode ver uma exposição da fotógrafa francesa Chloé Jafé, “Sakasa”, que documenta  a vida das mulheres da máfia japonesa, a Yakuza, onde o amor muitas vezes se cruza com violência.


 


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MÚSICA ARGENTINA - A sugestão da semana é o cruzamento entre o bandoneon (uma espécie de concertina) do argentino Dino Saluzzi com as guitarra acústica do seu filho José María Saluzzi e a guitarra eléctrica do norueguês Jacob Young, no álbum “El Viejo Caminante”. O disco inclui 12 temas instrumentais, entre os  quais alguns inéditos, outros clássicos da música argentina que  evocam o tango, mas também temas de jazz e a versão de uma  canção da norueguesa Karin Krog. Edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “Tem graça, mas cansa: quando estão no poder, PSD e PS só vêem o que corre bem; quando não estão no poder só vêem o que corre mal” - Bárbara Reis, no “Público”.


 


BACK TO BASICS -  “Vivemos com o que ganhamos, mas o que deixamos da vida é aquilo que conseguimos fazer” - Sir Winston Churchill


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS






julho 19, 2025

POR ONDE PASSEIA O OLHAR?

 


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Além de comer e conversar, o que se pode fazer num restaurante? Olhar em frente é enfadonho, espreitar um espelho é possível mas pouco entusiasmante. Acho que o mais fascinante é coleccionar vistas dos tectos. Gosto de ir sozinho a restaurantes, de ficar a olhar para o que está à minha volta, pensar quem escolheu o que está nas paredes, imaginar o que cada empregado, cada vez mais temporários, acha do espaço onde passa os dias até encontrar nova ocupação. Quando gosto de um sítio, volto lá com frequência e, hoje em dia, percebo as diferenças ao fim de pouco tempo - sei logo quando há um empregado novo, o que mudou na lista e, por vezes pior ainda, o que mudou na confecção. Lisboa é hoje uma terra de mil paladares, de descobertas sem fim. Há cozinhas de todo o mundo, ingredientes e temperos até há pouco praticamente ignorados por cá. Caminhando por algumas zonas da cidade pode percorrer-se o paladar de vários continentes. Há bairros, ruas, pracetas, onde parece que estamos numa reunião da sociedade das nações. Antes de chegar a lista e a comida que encomendamos,  poucas coisas dão mais a imagem da diversidade do que aquilo que está nas paredes e pendurado dos tectos. Quando olho para cima e vejo luzes como estas sinto-me como se olhasse para um mapa ou folheasse um livro de viagens. Em vez de neons crus ou focos todos iguais uns aos outros, esta explosão de cor contribui para melhorar qualquer refeição. As cozinhas dos orientes  explodiram em Lisboa e são acompanhadas por estas cores fantásticas que nos animam a imaginação e aguçam o paladar. E nos fazem usar o olhar para além dos ecrãs dos telemóveis.




julho 18, 2025

NOITES EM CLARO

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O SONO  - Ao contrário do que o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz,  prometeu em novembro do ano passado, e apesar da aprovação pelo Governo, em Março,  de uma portaria que proibiria os voos no aeroporto de Lisboa entre a uma e as cinco da manhã, a verdade é que nada se alterou e o número de voos nocturnos aumentou mais uma vez. A situação é esta, segundo a associação ambientalista Zero: no período entre as zero e as seis da manhã registam-se o dobro dos vôos legalmente permitidos e, entre a uma e as cinco da manhã, em junho passado,  o número de aviões que sobrevoou os concelhos de Almada, Lisboa, Loures e Vila Franca de Xira entre a 1:00 e as 5:00 passou de uma  média de cerca de 30 por semana para cerca de 60, o que contraria os objetivos anunciados pelo governo. O excesso de ruído nocturno pelos vistos diz pouco ao Governo e, já agora, também aos autarcas envolvidos. Apesar de Câmara de Lisboa ter  aprovado por unanimidade, em Setembro do ano passado, uma moção em que defende a redução do número de movimentos por hora no Aeroporto Humberto Delgado, não se ouve a voz do seu Presidente, muito vocal noutras questões, a exigir o cumprimento da Lei e a defender o direito ao descanso dos lisboetas. Nem Pinto Luz cumpriu o que promete, nem o Governo força o cumprimento da Lei, nem Carlos Moedas toma uma posição de força sobre o que se está a passar, apesar de o aeroporto de Lisboa ter 51% do tráfego aéreo e ter crescido no primeiro semestre face a 2024. O que eu sei é que em vez de contar carneiros e adormecer tranquilo, passo noites a contar aviões e a ficar acordado. Fala-se muito da importância económica do turismo em Lisboa, mas vale a pena recordar que o grupo de trabalho para o estudo e avaliação do tráfego noturno no aeroporto Humberto Delgado, constituído em 2020 por despacho governamental, já tinha calculado que os custos do excesso de ruído entre as 23h00 e as 7h00 se tinham situado em 2019 nos 206 milhões de euros em termos económicos, além dos impactos negativos na saúde dos 400 mil residentes das áreas mais afectadas pelo ruído dos aviões. Nas próximas eleições autárquicas aqui está mais um ponto a ter em atenção quando for a hora de votar.


 


SEMANADA - Em cinco anos foram sinalizados 554 casos de negligência de bebés; desde 2013 realizaram-se 220 greves de guardas prisionais, uma média de 18 por ano; a Infraestruturas de Portugal perdeu 995 milhões de euros de fundos europeus para o projecto de linhas ferroviárias de alta velocidade; segundo a OCDE Portugal pode perder nos próximos 35 anos cerca de 23% da sua força laboral devido ao envelhecimento da população; faltam 12.475 vagas no pré-escolar a nível nacional; há 600 escolas a necessitar de obras urgentes; 40% dos estudantes do ensino secundário frequentam o ensino profissional; mais de 70% dos alunos do ensino profissional têm emprego dois anos após terminarem o curso; o imposto sobre as bebidas adicionadas de açúcar contribuiu com 472 milhões de euros para o SNS em sete anos; em cinco anos  os portugueses consumiram menos 7400 toneladas de açúcar; comprar ou arrendar casa implica taxa de esforço superior a 50% em mais de 75 municípios; dois terços dos concelhos possuem menos de dez agências bancárias; as exportações de alta tecnologia são apenas 5,2% do total das exportações portuguesas, número que compara com os 17,3% de média da União Europeia; voltou a aumentar o número de utentes sem médico de família, em junho havia 1.669.680 utentes sem médico, mais 24.873 do que no mês anterior e a região de Lisboa e Vale do Tejo continua a ser a mais crítica; Portugal é o país que mais depende de fundos europeus e por cada dez euros gastos pelo sector público, nove são suportados por verbas de Bruxelas. 


 


O ARCO DA VELHA - Foram detidos cinco inspectores da Autoridade Tributária sob acusação de serem os cabecilhas de um grupo de funcionários suspeitos de deixar passar várias toneladas de cocaína pelos portos de Setúbal, Sines ou Lisboa, a soldo de vários grupos criminosos internacionais entre eles a MoccroMafia e o Primeiro Comando da Capital (PCC), a multinacional do crime da América do Sul.


 


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AS FRASES - “Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer” - esta citação, de Bernardo Soares, é uma das que se podem ler em “Como Viver (ou não) em 777 Frases de Fernando Pessoa”, uma recolha organizada por Richard Zenith em 2014 e que tem agora nova edição. Zenith, radicado em Portugal há mais de trinta anos, é escritor, tradutor, investigador e um dos mais destacados especialistas da vida e obra pessoanas. É o autor de  “Pessoa, Uma Biografia”, finalista do Prémio Pulitzer em 2022 na categoria de Biografia e galardoado em 2012 com o Prémio Pessoa. Disposto em sete secções temáticas, “Como Viver (ou não) em 777 Frases de Fernando Pessoa” é um conjunto de reflexões e conselhos úteis para, nas palavras de Zenith,“viver, ou não - sendo o não viver uma das estratégias que Pessoa nos propõe para lidar com o misterioso e nem sempre cómodo facto de existirmos”.  Zenith, que descreve Fernando Pessoa como um fingidor inveterado, sublinha: “apresentada isoladamente, uma frase arrebatadora - tal como uma jóia preciosa - pode ganhar mais brilho e ter um sentido luminoso, mais forte”. Ao longo da sua vida Fernando Pessoa escreveu milhares de páginas em diversos géneros, sobre todos os assuntos imagináveis e com muitos nomes diferentes, e cultivou ao longo da vida  frases capazes de impor-se graças à originalidade da sua expressão e à grande capacidade de síntese, como por exemplo nesta outra citação: “Não ensines nada, pois ainda tens tudo que aprender”.  E, mais esta: “Contra argumentos não há factos.” Edição Quetzal.


 


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AGUARELAS -   “The Analysis of Beauty” é o título da nova exposição de Pedro Proença, que decorre até 30 de Agosto no Museu de História Natural e da Ciência. A exposição consiste numa série de 60 aguarelas sobre papel que Proença tem vindo a fazer desde há 5 anos, inspiradas em temas naturais, e com referência à rica tradição da ilustração científica, sobretudo do século XVII ao início do século XIX. Como sublinha a curadora, Sofia Marçal, “Pedro Proença através dos seus desenhos de uma representação metafórica e simbólica, exalta o Universo, enquanto poética, enquanto linguagem figurada, metáfora para uma literalidade crua delicada sem artifício, despojada”. E prossegue: “ o virtuosismo deste artista não nos deixa indiferente. Num contexto de expansão da temporalidade e da espacialidade a exposição habita a sala, em movimento, com gestos, pinceladas repetidos infinitivamente até à exaustão. ”  Outras obras partem de catálogos pessoais de morfologias (que Pedro Proença metodicamente faz e coleciona), para depois criar variações livres com base nessas ilustrações. O Museu de História Natural e da Ciência fica na Rua da Escola Politécnica 56, em Lisboa.


 


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ROTEIRO - Esta semana destaco a exposição “Vernissage”, de Pedro O Novo,  na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A) até 6 de Setembro (na imagem). São dez pinturas, que mostram um universo onde a fantasia se cruza com o rigor geométrico do fascínio do autor pela arquitectura e uma imaginação delirante que utiliza o cenário do interior das casas que cria. No MUDE, em Lisboa, até 12 de Outubro pode ser vista a retrospectiva da obra de João Machado, um dos mais importantes nomes do design gráfico português, a partir da colecção doada pelo próprio ao Museu. No Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado Noé Sendas junta obras da sua autoria com uma selecção de peças da colecção do MNAC, numa exposição com o título “...On Thin Ice”, com curadoria de João Silvério, até 25 de Setembro. Em Reguengos de Monsaraz, Pedro Cabrita Reis apresenta até 5 de Outubro uma exposição com duas dezenas de obras recentes de pinturas e esculturas de parede executadas com materiais encontrados, da série “Natura Morta”. A exposição decorre na Igreja de Santiago, em Monsaraz e na Biblioteca Municipal de Reguengos de Monsaraz e tem por título “Pedro Cabrita Reis, Paisagem, Figura e Natureza Morta”. Nos Açores, em Ponta Delgada, a Galeria Fonseca Macedo apresenta  até 13 de  Setembro a exposição "Celebração e Resiliência"  com obras de João Miguel Ramos, Maria Ana Vasco Costa e Pedro Cabrita Reis.


 


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BALADAS IMPROVISADAS- O novo disco do saxofonista Joshua Redman, “Words Fall Short”, inclui oito temas originais compostos por ele próprio, um dos quais com a participação de Gabrielle Cavassa na voz, no último tema do disco, uma balada emocionante intitulada”Era’s End”. Outras participações dignas de nota são da saxofonista chilena Melissa Aldana  e do trompetista Skylar Tang que participam em alguns temas ao lado dos restantes membros da banda que acompanha Redman, o pianista Paul Cornish, o baixista Philip Norris e o percussionista Nazir Ebo. Depois de um álbum anterior essencialmente vocal, este “Words Fall Short” mostra o regresso de Redman àquilo que faz melhor - a construção de temas onde o seu saxofone se articula com os outros membros da banda, em sucessivos diálogos e improvisações, como se pode ouvir logo no tema de abertura, “A Message To Unsend”, o diálogo entre os saxofones de Redman e Melissa Aldana em “So It Goes” ou a forma como o saxofone de Joshua Redman se articula com o baixo de Phil Norris na balada “Borrowed Eyes”. Álbum Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - E que tal um passeio na Avenida da Liberdade? Até 27 de Julho decorre a segunda edição do Arte  In Avenida, que decorre em vários espaços como lojas, hotéis e escritórios da Avenida da Liberdade, onde estão expostos originais de pintura, fotografia e escultura, da autoria de artistas da Sociedade Nacional de Belas Artes, responsável pela curadoria e organização da iniciativa. E no sábado 19  decorre o Passeio da Estrela, entre as 15 e as 19 horas, que propõe um percurso entre oito galerias da zona da Estrela e Rato, como 3+1 Arte Contemporânea, Cristina Guerra Contemporary Art, Encounter, Jahn und Jahn, Madragoa, Monitor, No- No e Pedro Cera. Mais informações nos sites destas galerias.


 


DIXIT - “A escola tem de ser democrática, não tem de impingir a doutrina democrática “ - António Barreto 


 


BACK TO BASICS -  “Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito” - Bernardo Soares


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 




julho 12, 2025

SOBRE O DESEJO

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Passeio por uma feira e de repente sou surpreendido por esta imagem:  um vestido desabitado à procura de alguém que o leve. É um vestido justo, exuberante, decotado, quase provocante. Chama a atenção, é impossível escapar-lhe. É fácil imaginá-lo a ser vestido por  alguém, a sair daquele terreno de feira para um corpo, ganhando outra vida, longe do carrossel. Irá para um salão de baile? Em que festa poderá ser usado? Quem o vestir de que música gosta? Vai ser usado mais vezes à noite ou durante o dia? Irá ajudar à vaidade de quem o vestir? Este é um vestido que levanta perguntas e desassossega a imaginação, cumpre na perfeição o papel de agente provocador. Roupa assim vistosa como este vestido vive em feiras de todo o mundo, com um carrossel por fundo e passeantes que circulam sem sequer o olharem. E, no entanto, ele é como um cartaz de propaganda, a pedir: “levem-me daqui!”. Nada se compara com esta realidade, palpável, que se desenrola à frente dos olhos. Um vestido assim não teria nenhum impacto num catálogo, não pode viver dentro de uma caixa de papelão de uma empresa de comércio electrónico. Precisa de espaço, de ser tocado, apreciado, desejado. Funciona na banca de uma feira, não funciona num catálogo de compras online. Fica na cabeça de quem por ali passa, talvez alguém volte para o resgatar do terreiro da feira e lhe dê um corpo para passear. Gosto de imaginar qual terá sido a sua vida e que ilusão deu a quem o usou. Por um dia, foi a feira das vaidades de alguém.




julho 11, 2025

GANHAR ELEIÇÕES SEM PODER GOVERNAR?

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AS AUTÁRQUICAS - Faltam cerca de três meses para as eleições autárquicas de 12 de Outubro. Vão ser três meses de intensa campanha eleitoral, que muitas vezes se vai confundir com as festas de verão que se realizam por todo o país. É inevitável surgirem grandes alterações, já que um número elevado de autarcas atingiu o limite de mandatos e terão que ser substituídos e também porque o leque partidário mudou. O Chega teve uma grande subida nas legislativas, mas nas anteriores autárquicas não conquistou nenhum concelho e agora apresenta 21 dos seus 60 deputados como candidatos a câmaras importantes. Acresce que é nestas eleições  que surge um número elevado de candidatos independentes, fora do sistema partidário existente, o que também pode provocar surpresas. Nas autárquicas todos os candidatos, no entanto, se defrontam com uma situação bizarra, que não acontece noutras eleições: mesmo que ganhem podem ter que dividir a governação do município ou freguesia com pessoas que não são da sua confiança, e frequentemente são levados a acordos pouco naturais. Uma das queixas recorrentes dos autarcas nessa situação é a dificuldade em aplicar um programa e cumprir promessas quando, tendo vencido as eleições, a maioria dos vereadores é da oposição. A Lei Eleitoral Autárquica de 1976 criou, fruto da época e das contingências da então jovem democracia, executivos autárquicos onde coexistem vencedores e vencidos. Isto, apesar de a diversidade política e partidária se encontrar garantida nas Assembleias Municipais e de Freguesia, que têm importantes competências, nomeadamente em termos da aprovação dos orçamentos anuais. As sucessivas alterações à Lei Eleitoral de 1976 não mexeram nesta situação. Na minha opinião o candidato vencedor nas eleições autárquicas devia poder formar um executivo da sua escolha, tal como o Primeiro-Ministro escolhe os seus Ministros. As Assembleias Municipais ou de Freguesia seriam o órgão fiscalizador, com capacidade para votar algumas questões estruturais, tal como acontece entre Governo e Assembleia da República. Uma tarefa urgente e necessária em próxima revisão de leis eleitorais seria corrigir esta anomalia, devolvendo aos eleitores a concretização cabal das suas escolhas. Se assim não for fica difícil verificar se os vencedores, que tiveram bloqueios da oposição, conseguiram cumprir o que prometeram nas campanhas eleitorais. E assim se cria mais desconfiança no sistema e nos políticos.


 


SEMANADA - O Governo retirou a promoção da ética e responsabilidade na vida pública do seu novo código de conduta; o constitucionalista Jorge Miranda considera que a proposta de nova lei da nacionalidade do Governo contém várias inconstitucionalidades; dados da OCDE mostram que sem imigrantes, a população activa em Portugal diminuiria e aquela organização defende que é preciso continuar a atrair estrangeiros, sobretudo para áreas menos qualificadas; existem actualmente 515 mil pessoas com pedidos de nacionalidade pendentes, dez vezes mais que há uma década; apenas 25% das naturalizações são de migrantes residentes em Portugal há seis anos; 60% dos “novos portugueses” vivem fora do país; 21% dos comboios da CP sofreram atrasos em 2024, o valor mais elevado em 11 anos; o Alfa Pendular regista o pior desempenho, com atrasos em 66% das viagens; em Lisboa foi criada uma plataforma de associações cívicas que pretende diminuir o ruído nocturno e o consumo de bebidas alcoólicas na via pública; o número de agentes da Polícia Municipal de Lisboa está no valor mais baixo dos últimos anos e apenas estão instaladas 64 das 216 câmeras de videovigilância cujo licenciamento está efectuado há quase quatro anos; a proibição de voos nocturnos entre a uma e as cinco da madrugada, anunciada há sete meses, ainda não se concretizou e o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, desculpa-se dizendo que a medida “ demora um tempo a ser implementada”; o Aeroporto de Lisboa, o oitavo com maior número de passageiros na União Europeia,  registou 1137 voos noturnos nos últimos 14 dias de junho.


 


O ARCO DA VELHA - O transporte de emergência durante a noite conta com apenas um helicóptero para todo o território nacional e a empresa à qual o Governo entregou o helitransporte de emergência médica durante os próximos cinco anos não tem aeronaves nem pilotos e anda agora a tentar arranjá-los.


 


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A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES  -  Jason Roberts é um jornalista norte-americano que tem escrito ficção e sobre temas científicos. Já ganhou vários prémios, entre os quais um Pulitzer, pelo livro “A Invenção da Biologia - Linnaeus, Buffon e Todos os Seres Vivos”, publicado originalmente em 2024 e agora editado em Portugal. O livro, escrito como um relato de aventuras, traça as origens do darwinismo no século XVIII, ou seja antes do próprio Darwin. Roberts investigou durante uma década as vidas e os legados científicos de dois grandes pioneiros: Carl Linnaeus e Georges-Louis de Buffon. Nesse século XVIII ambos tinham a mesma idade mas personalidades totalmente opostas. E ambos dedicaram as suas vidas a identificar e descrever todas as formas de vida na Terra. Carl Linnaeus, um médico sueco muito devoto e com dotes de comerciante, considerava que a classificação devia corresponder a categorias ordenadas e estáticas. Pelo contrário, Georges-Louis de Buffon, aristocrata, polímata e diretor do Jardin du Roi de França, via a vida como um turbilhão dinâmico e complexo. O livro de Roberts narra de forma envolvente as vidas destes sábios e acaba por traçar, a partir dos trabalhos originais, um arco de descoberta e conhecimento que se estende depois por três séculos. Edição Temas & Debates.


 


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UMA CASA PROVOCADORA  -   O destaque da semana vai para a nova exposição de Serralves, “Sussurro”, que mostra 26 obras do artista italiano Maurizio Cattelan e que poderá ser visitada até 11 de Janeiro. A exposição está montada na Casa de Serralves, um edifício Art Deco dos anos 30, e que se situa no extenso parque da Fundação de Serralves. As 26 obras estão distribuídas pelos dois andares da casa e pelo seu parque e foi concebida e desenvolvida para esta localização, com curadoria de Philippe Vergne, director do Museu de Serralves. Ali podem ser vistas algumas das peças mais conhecidas de Cattelan, como a imagem do Papa caído, dois homens dormindo num estreito leito, um cavalo suspenso (na fotografia, de NV Studio) e várias outras, como como Him, L.O.V.E., Comedian, La Nona Ora, Breath e Daddy Daddy, que  são apresentadas pela primeira vez em Portugal. A obra de Cattelan, polémica, provocante, com um sentido de humor especial, é apresentada como uma reflexão sobre a história do nosso tempo e nas palavras de Philippe Vergne “demonstram o interesse de Maurizio Cattelan pela História: mudanças históricas, traumas históricos e ícones históricos (...) O instante suspenso e fugidio entre a infância e a idade adulta, entre a vida e a morte, entre eras históricas, entre o riso e o choro, é a origem da sua iconografia. Ele transforma esses momentos em ícones”


 


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ROTEIRO - Por estes dias, se forem visitar a magnífica exposição de Miriam Cahn no MAAT Central não deixem de ver, no mesmo local, a exposição “lápis de pintar dias cinzentos - obras da colecção de arte da Fundação EDP”. Inspirada num título de um projecto de Carlos Nogueira, a exposição inclui obras de nomes como Ângelo de Sousa, Carlos Nogueira,Eduardo Batarda, Eduardo Gageiro, Helena Almeida, Jorge Martins, José Loureiro, Luísa Cunha, Maria Beatriz, Maria José Oliveira e René Bertholo na imagem), entre outros. Para apresentar esta exposição, com curadoria de Margarida Almeida Chantre, o MAAT remodelou o espaço Cinzeiro 8, no rés do chão do edifício Central, criando divisões que permitem uma nova forma, muito bem conseguida,  de expôr e ver. “lápis de pintar dias cinzentos” fica até 27 de Outubro. Outras sugestões: na Sociedade Nacional de Belas Artes o fotojornalista Luiz Carvalho apresenta uma selecção de imagens que fez logo nos primeiros dias de liberdade com o título “50 de 25”, um documento importante de uma época. Também em Lisboa, no MUDE, pode ser vista até 12 de Outubro a retrospectiva da  obra de João Machado, um dos mais importantes e influentes nomes do design gráfico português, a partir da colecção doada pelo próprio. E para finalizar  no Museu Berardo Estremoz, focado na azulejaria, pode ver novas aquisições, com destaque para o  conjunto de azulejos provenientes do Paço Ducal de Vila Viçosa que revestiam as salas mais requintadas deste palácio. Estes azulejos fizeram parte da uma encomenda do Duque D. Teodósio às oficinas de Antuérpia e é considerado um verdadeiro tesouro nacional, por se tratar do primeiro programa azulejar renascentista do país. O Museu está localizado no Palácio Tocha.


 


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JAZZ PORTUGUÊS - O  Indra  Trio é uma das formações de jazz portuguesas que tem mantido uma actividade mais constante. O seu novo disco, “Brahma”, o terceiro de originais, continua a contar com a participação de Luís Barrigas na composição e piano, Jorge Moniz na bateria e João Custódio no contrabaixo, mas acrescenta a participação do saxofonista alemão Uli Kempendorff. O disco continua no caminho da combinação dos ambientes do jazz europeu contemporâneo, com influências do folclore português, como em “Mondadeira Alentejana”, um dos nove temas do álbum. O Indra Trio procura agora a internacionalização e o concerto de apresentação vai ter lugar dia 16 de Julho no Zig Zag Jazz Club, em Berlim. Disponível em CD e nas plataformas de streaming.


 


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ALMANAQUE - Desta vez a recomendação do Almanaque mistura comida com Arte. Para celebrar os seus 25 anos de existência, a pizzaria Casanova (na Bica do Sapato, junto ao Lux) convidou Pedro Calapez a criar duas obras que estão na parede de entrada e criam um novo ambiente no espaço, agora também remodelado e ampliado do restaurante. As pizzas continuam boas, a esplanada pede um Campari e, se lhe apetecer outra coisa, a lista vai além das pizzas.


 


DIXIT - “Voto em (...) quem demonstre que está realmente interessado nos serviços municipais, no espaço público, na beleza das cidades, no conforto dos cidadãos, na paz e no sossego das pessoas, no descanso de quem trabalha, na alegria de viver em comunidade” - António Barreto


 


BACK TO BASICS -  “Tenho a teoria de que a verdade nunca é dita em funções oficiais” - Hunter S. Thompson


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 




julho 05, 2025

OS DIAS DA BRASA

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O calor era imenso. Todos o sentimos nestes dias. O sol escaldava desde bem cedo e, mesmo quem gosta de calor, sentia-se incomodado. Pessoalmente creio que, mais que o frio ou o vento, é o calor o que mais perturba. Tolhe o raciocínio, corta-nos os movimentos, faz-nos parecer pasmados. Há no entanto três coisas que nos podem animar no tempo quente: aquele momento do dia em que a luz começa a desaparecer e sopra uma brisa, as árvores que nos abrigam e água no horizonte. O fim da tarde à beira de um rio é nestas alturas a melhor coisa que pode acontecer. A luz muda de figura, desenham-se as sombras e os meios tons, atenua-se o contraste da luz dura e brilhante, o rio é um espelho que reflecte as margens. E é nestas alturas que me vem à memória, cada vez mais nestes dias, estas palavras de Bertolt Brecht:  “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento/ mas ninguém diz violentas as/ margens que o comprimem”. Nestes dias da brasa, de calor intenso e em que o mundo salta de confusão em convulsão, lembro-me sempre do poema de onde estes versos são tirados, “Sobre a Violência”, escrito no final dos anos 30 do século passado quando o mundo começava a sentir a agitação que levaria a uma guerra mundial. Fico a pensar nisto enquanto olho para esta paisagem, que descobri nas Portas de Ródão, onde o Tejo se mostra e vence as margens. 




julho 04, 2025

OS PROBLEMAS DA RTP


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A VACA SAGRADA- Na semana passada subiram aos céus vozes indignadas pelo anúncio de mudanças na RTP.  Para um sector da opinião pública, mas sobretudo da opinião política, a RTP é uma espécie de vaca sagrada intocável à qual tudo se deve permitir. As mudanças agora anunciadas foram justificadas pela perda de audiências, que é real em todos os canais de televisão do grupo, mas não é o seu problema fundamental. Há muito tempo que o conceito de serviço público se foi desvanecendo e a maior parte das recentes mexidas já devia ter sido feita, mas este CA da RTP tem uma inércia considerável. A reestruturação agora anunciada tem coisas positivas como a remodelação da área da informação e alterações na direcção de canais da rádio e televisão. Mas é insuficiente,  continua a faltar coragem para diminuir o número de canais como, por exemplo,  fazer um só canal internacional e, sobretudo, definir com clareza o papel de cada um sem criar ghettos. O maior equívoco, no entanto, é considerar que a perda de audiências é o grande problema da RTP, quando, na realidade, o seu grande problema é a irrelevância de conteúdos, em termos de serviço público, quer na programação, quer na informação. A RTP funciona por quintas, entre direcções de canais das diversas áreas, o que provoca uma clara falta de coerência de actuação aos mais diversos níveis. A solução para isto seria seguir o modelo, existente em tantos grupos de mídia,  ter um Director-Geral que garantisse a coordenação de acordo com os perfis de cada canal e os alvos de público que pretende fixar, alguém que supervisionasse  e harmonizasse a programação e a informação dos vários canais e, sobretudo,  os enquadrasse dentro do espírito de serviço público, complementar e não concorrencial aos canais privados. Por exemplo, a RTP gasta uma verba importante do seu orçamento nos direitos de transmissão dos jogos da selecção portuguesa, da Taça de Portugal e de outros jogos, aos quais acrescem os custos técnicos e humanos da operação, que não são pequenos. Esta tradição vem do tempo em que não havia outros canais para os emitir e justificava-se para garantir o acesso do público à transmissão dessas provas desportivas em sinal aberto. Hoje essa razão não existe, os canais privados teriam aliás interesse em ser eles a fazer essa transmissão, mas a RTP assume como serviço público uma coisa que de facto já não é. Do meu ponto de vista questões como o reforço da informação regional, a produção de programação infantil, a criação de mais documentários  e séries de ficção nacionais são de facto áreas onde faz sentido o serviço público investir meios.  Na informação a RTP preocupa-se mais com as guerras em S. Bento, Belém e nas sedes dos partidos do que o que se passa no resto do país. Os debates que promove são maioritariamente sobre tricas da capital política, através de comentadores que são eles próprios políticos, meros megafones das posições partidárias. Protegida por um CGI que teoricamente seria um Conselho Geral Independente mas que é, na verdade, um colégio de comissários políticos que bem merecem o nome de Conselho Geral Inútil, a RTP tornou-se maioritariamente um serviço dispensável, dando assim razão aos que não percebem, ou não querem perceber, como é importante existir um serviço público audiovisual. Já agora, comissários políticos por comissários políticos, mais valia extinguir o CGI e voltar a colocar a RTP nas mãos da Assembleia da República. Ganhava-se transparência.



SEMANADA - Cerca de 30% dos trabalhadores e 22% das empresas estão no distrito de Lisboa e a diferença salarial aumentou em 10 anos, sendo que a capital paga mais 335 euros que o Porto, 534 que Braga e 643 que Bragança; nos primeiros seis meses deste ano já se verificaram 17 homicídios em contexto de violência doméstica; um estudo recente revela que em Portugal existem actualmente mais de 4.300 impostos e taxas cobrados pelo Estado a vários níveis, sublinha que existe falta de transparência na sua aplicação assim como dificuldade em identificar a base legal aplicável; no ano passado, 24,3% da população tinha 65 ou mais anos e a faixa etária até aos 14 anos não chegava a 13% do total, o número mais baixo desde 1970;  em 2023, registaram-se 518 óbitos por ingestão de água contaminada e falta de higiene, 57% dos quais em maiores de 85 anos; três mil pessoas sofreram quedas em hospitais nos últimos cinco anos; fogo posto esteve na origem de 82% da área ardida no ano passado e as perdas na floresta foram estimadas em 67 milhões de euros; dos 1500 edifícios públicos que deviam ser intervencionados para melhoria das acessibilidades das pessoas com deficiência, apenas dez têm as obras concluídas e os prazos de execução desta intervenção financiada ao abrigo do PRR terminam já no final deste ano; só 30% dos alunos concluem o mestrado nos dois anos previstos e nas licenciaturas de três anos pouco menos de metade (45,6%) acaba no tempo esperado.


 


O ARCO DA VELHA -Uma dermatologista do hospital de Santa Maria teve registadas em seu nome a realização de cirurgias enquanto se encontrava fora do país.


 


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O NOVO MUNDO  - Bruno Maçães foi Secretário de Estado para os Assuntos Europeus durante a crise da Zona Euro¸ é consultor nas áreas da geopolítica e tecnologia, e também colunista na New Statesman. No seu novo livro, agora lançado,  “Construtores de Mundos- a Tecnologia e a Nova Geopolítica” defende que, tendo a política mundial mudado, a geopolítica deixou de ser simplesmente uma competição pelo controlo territorial, mas também pela adopção de novas tecnologias. Bruno Maçães enquadra nesta  «construção do mundo» os acontecimentos mais importantes dos nossos tempos, que assim surgem subitamente ligados , como as guerras tecnológicas entre a China e os Estados Unidos, a pandemia, a guerra na Ucrânia e a transição energética. No livro Maçães considera um futuro mais distante, em que o metaverso e a inteligência artificial  transformam o mundo.  «Num livro original e ricamente documentado, Bruno Maçães afirma que a revolução tecnológica está a transformar o significado de “geo” na palavra “geopolítica”. É um argumento sofisticado e muitíssimo estimulante, que fará refletir todos os interessados em questões internacionais, afirma o historiador Timothy Garton Ash, autor de “Pátrias: Uma História Pessoal da Europa” . Edição Temas e Debates.


 


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VER OS CORPOS -    Uma das melhores exposições que pode ser vista em Lisboa é “Miriam Cahn - O que nos olha”,  até 27 de Outubro no MAAT Central. Com curadoria de João Pinharanda e Sérgio Mah, esta é a primeira exposição individual da artista suíça em Portugal e incide maioritariamente na sua produção recente, embora o conjunto de quase 160 obras que o MAAT apresenta inclua alguns trabalhos das décadas de 70, 80 e 90 do século XX.  Miriam Cahn é uma das mais importantes artistas contemporâneas europeias, com destaque para a pintura e o desenho, mas  também a escultura, a instalação, o vídeo e a fotografia. Tem explorado tópicos sociais relacionados com a sua objeção a todas as formas de opressão e abordado questões políticas da atualidade, incluindo a violência de género, os conflitos migratórios e os conflitos armados. Na sua obra é frequente a utilização de figuras humanas, caras, uma presença constante do corpo, como acontece nesta obra aqui reproduzida, “unser fruhling”, “a nossa primavera”.


 


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ROTEIRO - Na semana passada abriu uma nova galeria em Lisboa, a "Ilha" na Praça das Flores 48. A exposição inaugural chama-se ¨Raízes, Narrativas Brutas do Brasil¨ e apresenta obras de diversos autores que, nas palavras do curador, “evidenciam as fronteiras entre a técnica e a criação intuitiva, mostrando as diferentes linguagens visuais baseadas nas experiências pessoais e em formas de expressão originais desenvolvidas fora das instituições académicas“. Na exposição estão trabalhos de Amadeu Luciano Lorenzato (na imagem), Chico da Silva, Leda Catunda, Paulo Monteiro, Miriam Inez da Silva, Mestre Didi, Odoterres Ricardo de OZIAS, Markus Avelino Sales e Tarsila do Amaral. Até 11 de Julho pode ver na Galeria Fundação Amélia de Mello, no edifício da Biblioteca da Universidade Católica de Lisboa, a exposição “Civilization and It Poisoned Me“,  com obras de Ana Jotta, Carlos Bunga,Cecília Costa, Clara Menéres, Hugo Canoilas, João Louro, Jorge Queiroz,Kiluanji Kia Henda,Maria Capelo, Sara Bichão e Sara Sadik. Finalmente, na Casa da Imprensa, pode ser vista uma exposição sobre a obra do cartoonista Vasco, organizada pela CC11, com desenhos originais, capas de jornais que desenhou, livros e revistas, além de um excerto de um filme do cineasta Rui Simões. 


 


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O SPRINGSTEEN ESCONDIDO - Aos 75 anos Bruce Springsteen acabou de lançar um conjunto de sete discos, sob o título “Tracks II- The Lost Albuns“, com 83 canções, 74 das quais nunca tinham sido editadas. Para este conjunto de gravações, que no total tem cinco horas e 20 minutos de duração, Springsteen e Ron Ângelo, o produtor e músico multi-instrumentista que tem trabalhado com ele desde 2010, optimizaram a qualidade das misturas e adicionaram algumas novas partes instrumentais, sem no entanto alterar nada à gravação original da voz. Os sete álbuns foram gravados ao longo dos anos, desenvolvidos como projectos que Springsteen elaborou no seu próprio estúdio, e seis deles incorporam estilos que vão desde a country à low-fi, passando pela Ranchera Mexicana à retro-pop. O sétimo, “Perfect World“, é uma compilação de canções rock que Springsteen gravou desde os anos 90 até 2010 e uma delas, “Rain In The River” já é considerada uma das suas criações mais fortes, uma balada onde faz uma das suas melhores interpretações vocais de sempre. Os registos mais antigos datam de 1983, há uma série de gravações da épooca do álbum “Western Stars” de 2019, um outro disco tem temas escritos e gravados em 2005 para a banda sonora de um western e que nunca foram utilizados. É curioso seguir a evolução da voz de Springsteen ao longo dos anos, ver como continua a contar sob a forma de canções a história de pessoas, como utiliza arranjos simples e como é tão confessional sobre o que vai sentindo. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT - “A Defesa e a Nacionalidade são coisas sérias. Com elas não se brinca. Nem se faz política  barata.“ - António Barreto, no “Público“.


 


BACK TO BASICS -   “Se Deus tivesse pensado em eleições ter-nos-ia dado candidatos“ - Jay Leno


 


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junho 28, 2025

A JANELA DAS AVENTURAS

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Olhar para esta janela é entrar num mundo de fantasia onde figuras de super heróis convivem com figuras  de animais. É um ecrã duplo - para quem passa na rua fica a pensar no que se passa lá dentro e quem está lá dentro, depois de abrir as portadas fica a imaginar as aventuras que dali podem nascer. A quadrícula desta janela, por outro lado, faz lembrar um livro de banda desenhada onde o super homem encontra o universo da selva que Tarzan habitou. Todas as interpretações são possíveis e a imaginação pode navegar solta enquanto o olhar se fixa, de repente, neste horizonte urbano. Acho fascinante passear nas ruas de uma cidade e deparar-me com surpresas como esta janela assim composta. Quando vejo e fotografo algo assim sinto que ganhei o dia. Quando andamos de carro não vemos estes detalhes. É preciso andar a pé para fazer descobertas - as surpresas não estão escondidas, até estão à vista, como esta janela de aventuras. Mas para ver mesmo o que é evidente é preciso olhar, ter curiosidade, não andar de passo apressado, não olhar em frente e sim para todos os lados. Há quem goste de passear nas ruas a olhar para as montras das lojas. Eu gosto de olhar para os prédios, para as suas paredes, para as portas e para as janelas. Estes super heróis e estes animais são os guardiões de alguém que os reencontra ao chegar a casa e ao abrir as portadas da janela os vê, vigilantes, no seu horizonte. Coisas assim tornam as ruas melhores  e estabelecem cumplicidades com quem passa. Esta janela é como que uma exposição de memórias partilhadas com desconhecidos. No fundo, é uma generosidade. 


 


 

junho 27, 2025

TRÂNSITO CADA VEZ MAIS DIFÍCIL

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MANOBRAS PERIGOSAS - O que é feito da legislação sobre utilização de telemóvel enquanto se conduz? Aqui há uma dezena de anos fui (bem) multado por ir a conduzir com o telemóvel encostado ao ouvido. Hoje muitos veículos têm dispositivos de alta voz que permitem que se fale sem ter uma mão a pegar no aparelho e isso facilita as coisas. Mas vejo cada vez maior número de pessoas a ler e enviar mensagens pelo telemóvel e tenho a sensação que um número considerável de acidentes ocorrem porque há quem se distraia a ler ou escrever e acabe por bater no carro da frente quando este trava ou reduz a velocidade. Mas outro caso igualmente grave ocorre com as aplicações usadas pelos motoristas de TVDE - que enquanto conduzem as manuseiam, quer a procurar chamadas de clientes, quer a procurar direcções. Estar a conduzir ao mesmo tempo que se olha e manuseia o ecrã do smartphone não me parece uma boa ideia e tenho curiosidade de saber se a legislação sobre a utilização de telemóvel enquanto se conduz permite este tipo de manobras. Neste fim de semana em Lisboa constatei que mais de metade dos carros em circulação no percurso pelo centro da cidade que tive de efetuar eram TVDE’s, que contribuem muito para o congestionamento de trânsito. Não sei o que se passa hoje nas escolas de condução e nos exames de motoristas de TVDE’s - não os ensinam a fazer piscas quando querem mudar de direcção? Não sabem que inverter o sentido no meio de um traço contínuo é uma manobra perigosa? Alguém tem que pôr cobro a isto - quer na eventual utilização ilegal de telemóveis durante a condução, quer na falta de cumprimento de normas básicas do código de estrada. Assim não é de admirar o elevado grau de sinistralidade rodoviária que temos.


 


SEMANADA - Segundo o jornal “The Portugal News”, no concelho de Vila do Bispo 44% dos votos nas recentes eleições foram de estrangeiro residentes, mas Albufeira, Lagos, Aljezur, Loulé e Tavira registaram também uma percentagem superior a 30%; segundo o INE Portugal registou no ano passado um crescimento efetivo de população para um total de 10 749 635 pessoas, mais 110 mil, no sexto ano consecutivo de aumento de residentes feito à custa da imigração;  um inquérito realizado a 2300 estudantes conclui que um elevado número se sente triste e 40% consome psicotrópicos; há mais estudantes no Ensino Superior que também trabalham e no ano letivo 2023-2024 ultrapassavam já os 41 mil, representando 9,2% do total de inscritos, a percentagem mais alta dos últimos dez anos de trabalhadores-estudantes; três em cada quatro utilizadores de bicicletas e trotinetas não usam capacete, um número significativo deles passa sinais vermelhos, anda em cima de passeio e não faz sinais de mudança de direcção; a GNR deteve, em apenas quatro horas na madrugada de 13 de junho, 50 condutores nas principais vias de acesso à Área Metropolitana de Lisboa, a maioria por conduzir sob o efeito de álcool; quase 31% dos portuguess possuem ou beneficiam de seguro de saúde; em maio havia 1.644.807 utentes sem médico de família, mais 42.230 que no mesmo mês de 2024; o concurso nacional para a colocação de médicos recém-formados em medicina geral e familiar voltou a ficar aquém das necessidades: das 5685 vagas abertas apenas  231 foram preenchidas, ou seja,  só 39% tiveram interessados; o concelho da Azambuja só tem um médico do SNS para quase 19 mil utentes.


 


O ARCO DA VELHA - Na lista das duas dezenas de pessoas sinalizadas como pertencendo à milícia neonazi pelo menos quatro são agentes da PSP e um deles fazia a avaliação do uso de armas pelos candidatos a entrar na organização.


 


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UM AVISO - Na semana passada, a conselho de voz amiga, fui ler “Desconhecido Nesta Morada”, da escritora norte-americana Katherine Kressman Taylor, editado recentemente em Portugal. Este curto romance foi publicado em 1938 e assume a forma de uma troca de cartas entre dois amigos que fundaram uma galeria de arte em São Francisco. Um deles, Martin, decide em 1932 voltar para a Alemanha, que era a sua terra natal, enquanto Max, de origem judia, fica nos Estados Unidos a gerir a galeria. O romance - melhor dizendo a troca de cartas - espelha a época do nascimento e crescimento do partido nacional-socialista até tomar o poder, segue a transformação ocorrida em Martin, que procura justificar as perseguições e culmina no progressivo afastamento dos dois amigos - ao ponto de Martin se recusar a auxiliar uma irmã de Max, que acabou por ser morta por nazis que perseguiam judeus. Martin, defensor da nova ordem, descrevia Hitler como “uma espada desembainhada” e relatava que  “a Alemanha levanta a cabeça bem alto entre as nações do mundo” e “segue o seu Glorioso Chefe rumo ao triunfo”.  O livro foi banido pelos nazis, tornou-se um êxito internacional, foi traduzido para mais de 20 línguas e lido por milhões de pessoas em todo o mundo. Numa das cartas, Max escreve a Martin: “Esta censura, esta perseguição aos espíritos livres, o incêndio de bibliotecas e a degradação das universidades haveriam de merecer a tua indignação, mesmo que ninguém tivesse levantado a mão contra os da minha raça”.  É uma das derradeiras cartas, até que, algum tempo depois, Max recebe devolvida uma nova missiva que tinha enviado a Martin, com o carimbo “Desconhecido nesta morada”, o sinal de que o seu amigo tinha desaparecido, também ele vítima de um regime que defendia. Na semana em que se soube dos planos de milícias de extrema direita para atacar o parlamento português e em que se assiste de forma cada vez mais frequente a tentativas de condicionar, calar e punir a liberdade de opinião, este é um livro a não perder. Edição Livros do Brasil Colecção Dois Mundos.


 


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OS AMBIENTES DE CASQUEIRO -   “Daltónica” é o titulo da nova exposição de Pedro Casqueiro na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18, a Campo de Ourique). Casqueiro, que fez o Curso de Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa na primeira metade dos anos 80, expõe regularmente desde 1981 e a sua obra foi apresentada em instituições como a Fundação Gulbenkian, o Museu de Serralves, a Fundação EDP, a Fundação PLMJ  ou a Colecção Berardo e também em museus internacionais em Espanha, Bélgica Alemanha e Estados Unidos. Partindo de uma base de desenho, Casqueiro tanto pode avançar em evocações arquitetónicas como em abstracções, misturando referências a banda desenhada com ambientes que evocam imagens pop. As 13 obras expostas, sob o título genérico “Daltónica”, têm diferentes dimensões, desde os 50x50cm até 200x130cm, com preços que vão desde os 3700 euros até aos 21.500. Há também formatos muito diferentes, alguns que fogem às formas mais usuais, no que é também, afirma o artista, um caminho que quer explorar no futuro. Nestas novas obras há uma utilização diferente de combinações de cores e Pedro Casqueiro afirma que uma boa parte do seu processo criativo se baseia na exploração do equilíbrio de cores. Algumas das obras retomam ideias existentes em obras anteriores, desenvolvendo-as, outras baseiam-se em desenhos e ilustrações que consulta, como um livro de patentes, e até em músicas que ouve enquanto trabalha. A exposição pode ser vista até 6 de Setembro.


 


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ROTEIRO - Começo por recomendar uma visita ao Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa (Rua da Palma 246), onde Eurico Lino do Vale apresenta até final de Setembro a exposição “do TEATRO ao RETRATO”. A exposição apresenta uma  visão da produção fotográfica do autor, realçando a componente cenográfica que tem sido constante no seu trabalho. Com curadoria de António Pedro Mendes e Sofia Castro, são mostradas fotografias tiradas em diversas épocas e situações, com predominância para retratos nos quais os ambientes são preparados e os fotografados são dirigidos como protagonistas de uma encenação (na imagem). É apresentada, pela primeira vez, a série “Fotografias Num Contexto de Moda”, em que o próprio Eurico Lino do Vale é o protagonista. Também são inéditas  imagens de um projecto ainda em curso, “Adolescentes do século XXI”. Esta é uma das mais interessantes exposições de fotografia de autores portugueses já apresentadas este ano. Mas esta semana há mais para ver: a  Galeria da Avenida da Índia reabre vocacionada para acolher a colecção de arte contemporânea que a autarquia lisboeta vem adquirindo desde 2016. Nesta exposição, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, sob o título “WHO WHERE / QUEM ONDE” figuram sete dezenas de obras de uma colecção que já vai em 200 peças. Na exposição estão nomes como Ana Cardoso, Ana Jotta, Ana Vidigal, André Cepeda, Ângela Ferreira, António Júlio Duarte, Gabriel Abrantes, Inês d’Orey, Jorge Queiroz, Jorge Molder, Luisa Cunha, Manuel Rosa, Paulo Brighenti, Paulo Nozolino, Patrícia Garrido, Rita Gaspar Vieira e Rui Chafes, entre outros. 


 


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JAZZ À GUITARRA  - Colocar a guitarra no centro de um conjunto de músicos de jazz é sempre um desafio. A norte-americana Mary Halvorson, compositora e guitarrista, sai-se bem. O seu novo disco, “About Ghosts”  mantém ao lado da guitarrista o trompetista Adam O’Farrill, o trombonista Jacob Garchik, a vibrafonista Patricia Brennan, Nick Dunston no baixo e Tomas Fujiwara na  bateria, no fundo o mesmo grupo do disco anterior, “Cloudward”, considerado um dos melhores de 2024. Entre a improvisação e melodias muito rítmicas, os oito temas deste disco mostram uma grande diversidade, que vai desde a energia de “Full Of Neon”, a faixa inicial, até “Eventidal”, um deliciosa balada baseada na guitarra e vibrafone e outras faixas, como “Absinthian” e “Amaranthine” evocam sonoridades do bebop. O disco está disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - O Centro Pompidou, inaugurado em 1977, vai entrar em obras até 2030 e enquanto os trabalhos não começam apresenta no espaço da Biblioteca Pública de Informação, até 22 de Setembro, uma ambiciosa exposição do artista alemão Wolfgang Tillmans intitulada “Nothing could have prepared us – Everything could have prepared us”, que ocupa uma área de seis mil metros quadrados. A exposição percorre 35 anos da carreira de Tillmans e mostra a sua fotografia da arquitectura ao retrato, passando por naturezas mortas, trabalhos documentais e abstracção. 


 


DIXIT - "Sentar uma piada no banco dos réus é uma ideia bizarra" - Ricardo Araújo Pereira


 


BACK TO BASICS -  “As melhores piadas são perigosas e são perigosas precisamente porque mostram a verdade” - Kurt Vonnegut





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junho 21, 2025

A JANELA INDISCRETA

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Quando ando por essas ruas fora gosto de  olhar para os prédios, a ver como estão as suas fachadas, que é como se fossem as suas caras. Tenho a convicção de que as janelas são os olhos dos edifícios. E nessas caras as janelas são  olhos com dois sentidos: quem está dentro pode ver o que se passa fora e quem está na rua imagina o que se passará lá dentro. Se não fosse assim, como teria nascido esse fantástico filme que é “A Janela Indiscreta”? Ao contrário de alguns países, em Portugal as janelas são muitas vezes tapadas - desde portadas opacas a pesados cortinados, passando por estores de várias formas -  tudo serve para quebrar o encanto de uma janela aberta. Há cidades, sobretudo no norte da Europa, onde passeio pelas ruas à noite e sinto a luz que vem das janelas, prova de vida dessas casas. Por aqui é raro, a janela portuguesa funciona como uma porta que se fecha. Nalguns sítios ainda há quem coloque flores no parapeito e faça pequenos jardins nas suas janelas e nas varandas que escaparam à fúria das marquises fechadas. Nessas janelas sorridentes, em vez de cortinados, há sardinheiras coloridas e outras flores e plantas que são um sinal de vida. Noutras, sobretudo nas cidades, a natureza é substituída por novelos de cabos das mais variadas origens e gerações que se espalham pelas fachadas como teias de aranha. Mais valia que fossem usados para fazer crescer trepadeiras em torno deles, a conjugação da função electrónica com uma nova paisagem urbana. Já imaginaram como todas as ruas seriam melhores se houvesse mais flores e as janelas fossem mais abertas e sorridentes?




junho 20, 2025

MANUAL DE COMO POUCOS PREJUDICAM MUITOS

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QUEM ESTEVE, AFINAL, NO PLENÁRIO DO METRO? - A noite de Santo António é considerada a noite mais longa de Lisboa. As festas da cidade, os arraiais nos bairros, os pequenos concertos por todo o lado levam milhares de lisboetas e pessoas dos arredores da cidade à rua. Por causa de tudo isto há naturalmente fortes condicionantes ao trânsito automóvel e a opção, para quem quiser andar por essas ruas do centro da cidade e dos bairros antigos, é utilizar os transportes públicos. Melhor dizendo, a solução seria de facto utilizar os transportes públicos, mas este ano isso não foi possível porque a Carris culminou uma semana de paralisações parciais com greve em todo o dia de Santo António, logo com começo às zero horas. Por uma daquelas engraçadas coincidências sindicais, o metropolitano também não circulou nessa noite porque, imagine-se, foi convocado um plenário geral dos seus trabalhadores que convenientemente agendaram a sua reunião para as 21h15,  prolongando-se até às 02h30, o que obrigou ao encerramento de todas as estações a partir das 20h00. Portanto, transportes públicos inexistentes. Procurei por todo o lado notícia sobre a participação nesse plenário. No meio da habitual grandiloquência do comunicado da Fectrans (Federação dos Sindicatos de Transportes e Telecomunicações), era reivindicada uma grande presença dos trabalhadores no referido plenário. A única fotografia que consegui encontrar dessa reunião está no Facebook da Fectrans e mostra cerca de uma centena de pessoas. Ou seja, os lisboetas viram-se privados de metropolitano porque algumas dezenas de pessoas resolveram que a mobilidade, a segurança e o conforto dos lisboetas não interessa para nada. Cada vez mais reduzido, do ponto de vista sindical, à administração pública e aos transportes, o PCP e os sindicatos que controla não hesitam em penalizar os cidadãos com ações de paralisação que muitas vezes coincidem convenientemente com “pontes” entre feriados e fins de semana . A sucessiva perda de peso eleitoral e de relevância política do PCP é também fruto destas táticas contra os utentes dos serviços que manipula. Por isso mesmo o Governo faz bem em querer melhorar a Lei da Greve, porque, da maneira que está, ela é um novelo em que as reivindicações dos trabalhadores se enrolam no dia-a-dia dos utentes de vários serviços, prejudicando-os. É uma situação que não interessa a ninguém - até porque desacredita os sindicatos e hostiliza os cidadãos.


 


SEMANADA - 40 anos após a assinatura do Tratado de Adesão à UE,  o poder de compra dos portugueses ainda é inferior em quase 20% à média europeia; segundo o INE a inflação em Maio atingiu os 2,3%, um aumento em relação ao mês anterior; os aeroportos portugueses movimentarem em abril 6,5 milhões de passageiros, mais 8,1% do que no mesmo mês do ano passado; a entrega do relatório sobre a expansão do aeroporto de Lisboa foi adiada três meses para o final de Julho; a violência doméstica foi o crime contra idosos mais denunciado à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, entre 2021 e 2024; entre 6 e 12 de Junho, em operações de fiscalização rodoviária, a GNR efetuou 526 detenções e registou mais de oito mil infracções; nessa operação a GNR detectou 249 situações de condução sob efeito de álcoo, 125 de condução sem habilitação legal, 31 por tráfico de estupefacientes, 13 por furto e roubo e 11 por posse de armas proibidas; em 2024 foram registadas pela GNR e PSP 8294 queixas devido ao ruído, uma média de 22 casos por dia; no ano passado, o INEM registou 3230 ocorrências devido a sinistros que envolveram bicicletas e trotinetas, um aumento de 278% face aos números de 2019;  segundo o IMT os Condutores de TVDE já são quase o dobro dos taxistas e em Maio houve 38.339 motoristas de TVDE em actividade, o que compara com 20.317 taxistas registados; 30% das consultas realizadas em hospitais do SNS ultrapassam os tempos máximos de Resposta Garantidos; em Portugal há 16 milhões de telemóveis usados que já não são utilizados.





O ARCO DA VELHA - No Porto duas voluntárias de uma equipa de ajuda alimentar a pessoas sem abrigo foram insultadas e agredidas por dois homens que fizeram a saudação nazi e as acusaram de ajudaram imigrantes.


 


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UM MISTÉRIO - Confesso devorador de policiais fiquei bem surpreendido ao ler “Morte nas Caves”, o novo livro de Lourenço Seruya, um actor que também ensina escrita criativa e que, antes deste, já tinha publicado outros quatro livros. Nas investigações que relata há um personagem recorrente, na melhor tradição dos policiais e que é o inspector Bruno Saraiva, recém chegado à cidade do Porto, depois de ter estado baseado em Coimbra. Na Judiciária do Porto faz parelha com o inspector Gil Cabecinha e ambos são chamados a investigar um crime ocorrido numa das casas mais importantes de Vinho do Porto, identificada no livro como Caves Ferreira. Empresa familiar é governada com mão férrea pela mãe e co-gerida pelos seus três filhos, um homem e duas mulheres - algo que evoca a história da mítica Ferreirinha. A investigação desenvolve-se em volta do assassinato de Rodrigo Bessa Alves, o filho, candidato a futuro responsável das Caves, ocorrida após uma festa da empresa. Ao longo do livro assistimos ao desenrolar da investigação, conhecemos os conflitos familiares, as pequenas intrigas e invejas, tudo o que poderia levar alguém a matar o futuro responsável das Caves Ferreira. A forma como Lourenço Seruya faz desenvolver a acção confronta o leitor com vários suspeitos e fá-los entrar na forma como os dois inspectores vão investigando. Como mandam as boas regras dos policiais, o culpado só é revelado no fim e não era nenhum dos suspeitos iniciais. A escrita de Lourenço Seruya é escorreita, com boa construção de personagens e é uma escrita que cria um clima de permanente mistério. Aqui está um bom policial para levar de férias. Edição Porto Editora.


 


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A MODA DE WESTWOOD -  Até 12 de Outubro poderá ver no renovado MUDE (Museu do Design, Rua Augusta 24)  mais de 50 peças criadas pela designer de moda Vivienne Westwood na exposição “O Salto da Tigresa”. A mostra, com curadoria de Anabela Becho, celebra a obra de Westwood, que se celebrizou nos anos 80 e esteve ligada, no início, ao movimento punk britânico, tornando-se uma das mais influentes estilistas dessa época - trabalhou de perto com o músico e produtor discográfico Malcolm McLaren, com quem esteve casada, que lançou os Sex Pistols.  Na exposição podemos observar o diálogo entre a meia centena de peças desenhadas por Westwood, que incluem  vestuário, acessórios, ilustração, fotografia e livros, mostrando como a estilista foi influenciada pela história do Reino Unido. Vivienne Westwood utilizava de forma inesperada elementos emblemáticos da cultura britânica (como o tartan e os tweeds) e fazia a sua própria reinterpretação da alfaiataria tradicional. A exposição também mostra como Westwood interpretou e reinventou elementos tradicionais do traje, como a crinolina ou o corpete, propondo silhuetas esculturais, e utilizando, como a curadora sublinha, “uma exímia técnica na construção do vestuário”.  As peças expostas são da Coleção Francisco Capelo pertencente ao acervo do MUDE e de coleções institucionais e privadas. Na fotografia está um sapato da colecção primavera/verão de 2020 em seda brocada e pele, aqui fotografado por Luísa Ferreira.


 


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ROTEIRO - Até 28 de junho a Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101)  apresenta a nova exposição individual de Carlos de Medeiros, intitulada “Turdus Merula: du ciel silencieux” (na imagem). As 21 fotografias desta exposição são inspiradas num texto dos “Contes Cruels” de Octave Mirbeau, Les Corneilles (Os Corvos) e correspondem a outras tantas frases desse texto. Coimbra acolhe agora a terceira obra do projeto “Outdoor ’25”, uma iniciativa da associação P28 que transforma painéis publicitários em suportes de arte contemporânea. Depois de Pedro Valdez Cardoso e de Luísa Cunha, é a vez de José Maçãs de Carvalho, curador do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, expor a sua obra na fachada lateral norte do Convento São Francisco, na Avenida da Guarda Inglesa, em Coimbra. Em Lisboa, na Casa Ásia- Colecção Francisco Capelo (Largo Trindade Coelho 22),  pode ser vista até 31 de Agosto uma exposição feita em parceria com o Museu Bordalo Pinheiro que aborda a influência do Japonismo na obra artística de Bordalo. Além de duas cerâmicas, mostram-se trabalhos gráficos, na sua maioria para os jornais e almanaques, através dos quais se exploram três vias: Bordalo protagonista japonês; À moda do Japão e Japonesices na caricatura. 


 


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REDESCOBERTAS - Chet Baker Re:Imagined” é uma colecção de 15 novas versões de outros tantos clássicos de Chet Baker. Com arranjos feitos propositadamente para esta edição, os produtores foram buscar um lote de intérpretes de várias áreas musicais próximas do jazz, da pop e da música soul. De entre os temas do disco destaque para “That Old Feeling” por Eloise, “There Wil Never Be Another You” por  Matilda Mann, “I Fall In Love” por Stacey Ryan, “ I Fall In Love Too Easily” por Mxmtoon, “My Funny Valentine” por Matt Maltese, “Old Devil Moon” por Dodie ou a inesperada reinterpretação de “Speak Low” por Ife Ogunjobi. Se ouvirem o disco no Spotify poderão comparar as reinterpretações com os originais de Chet Baker, que aparecem a seguir a cada uma das novas versões, autênticas redescobertas.


 


ALMANAQUE - Badajoz fica aqui mesmo ao lado e  Ana Vidigal apresenta até 5 de Outubro a sua exposição “Histórias de Família” no  Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC), fruto da transformação da antiga prisão de Badajoz, um edificio de origem militar construído no século XVII. A exposição retoma o trabalho que Vidigal apresentou na Fundação Eugénio de Almeida no início deste ano, com curadoria de Patrícia Reis. Aqui estão cerca de 50 obras com várias séries do trabalho da artista, nomeadamente as que foram propositadamente feitas para a exposição da Fundação Eugénio de Almeida a partir de placas de cortiça. Ana Vidigal regressará a Badajoz no primeiro trimestre de 2026, desta vez com trabalhos novos, na Igreja de Santa Catalina.





DIXIT - “O excesso de passado apenas serve para manipular politicamente o presente” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS -  “A paciência tem os seus limites; quando é levada demasiado longe confunde-se com covardia” - George Jackson


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




junho 14, 2025

O PRAZER DO OLHAR

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Nos últimos tempos dou comigo a gostar mais de ir ver as exposições depois das inaugurações. O dia da inauguração tem quase sempre demasiada gente, não se consegue ver bem o que se quer. Fala-se mais do que se vê. A melhor parte de visitar uma exposição é descobrir pormenores, sobretudo na pintura. Os grandes artistas não procuram o acaso, trabalham persistentemente para transformar as ideias em obras de arte, estão constantemente a desafiar-se a si próprios. Recentemente li uma frase de Van Gogh em que ele dizia que insistia em fazer o que ainda não fazia como queria, de maneira a aprender a fazê-lo como deve ser. É esta persistência que me encanta e que vejo em muitos dos artistas que tenho a sorte de conhecer e com quem vou falando. Também  sinto que cada vez mais me desafio a olhar para uma exposição como deve ser, ir para além da impressão imediata. Esta fotografia que hoje partilho foi efectuada na Fundação Gulbenkian, numa recente exposição sobre pinturas de mestres venezianos que se chamava “Veneza em Festa”. Enquanto percorria devagar a exposição dei com esta senhora a contemplar uma obra, o perfeito exemplo de quem se encanta com o que está a ver e quer fazer perdurar esse prazer. Segui-a durante um pouco e, frente a vários quadros, repetiu esta mesma posição:  sentada num dos pequenos bancos portáteis do Museu, a ver com atenção o quadro que estava à sua frente. Cada vez mais, nesta época acelerada onde tudo parece ser instantâneo, prezo mais o luxo de poder ter tempo, de ficar a olhar, apenas a ver, saborear a descoberta. Ficar a olhar e ver bem o que temos à frente é o desafio que muita gente evita. Contemplar é uma das melhores formas de entender o que se passa à nossa volta.




junho 13, 2025

A PROPÓSITO DOS CRUZADOS ANTI ELITISTAS

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SOBRE A CULTURA   - Mais importante que o lugar ocupado no Governo, o que interessa é a forma como o poder vê a questão da política cultural. Nesta matéria estou sobretudo interessado em observar o comportamento de quem manda no Governo ou autarquias. De forma umas vezes subreptícia, de outras ostensiva, políticos de vários quadrantes proclamam de maneira destacada, mais do que medidas a tomar, a ideia de que a política cultural não deve privilegiar as elites. A afirmação pode à primeira vista parecer razoável, mas serve apenas para justificar aquilo a que se tem assistido - um ganhar de terreno, não da cultura popular, mas de uma amálgama que é equivalente, no espectáculo e na produção artística, ao populismo conservador e retrógrado, avesso à criatividade e ao talento. A situação cria paradoxos. Por exemplo, algumas destas figuras, como Carlos Moedas, gabam-se de apostar em startups e novas tecnologias, ao mesmo tempo que atribuem medalhas de mérito cultural a plagiadores confessos, desprovidos de talento ou criatividade como Tony Carreira, também por acaso um artista do agrado de Luís Montenegro, outro político ultimamente muito virado para a inovação, pelo menos em palavras. Existe uma clara contradição entre o que dizem na área económica e tecnológica e o que praticam na área das artes e cultura, como se as coisas se pudessem separar e devessem ser antagónicas. As políticas culturais, além da defesa do património, são o alicerce da preservação para as futuras gerações da criatividade artística dos dias de hoje e do testemunho do estado da sociedade. E se é importante em qualquer arte conseguir comunicar e estabelecer ligações com os públicos, também é importante explorar e desbravar novos caminhos, alargando o conhecimento, reforçando a cidadania, estimulando a reflexão e o espírito crítico. O mais paradoxal  nestes cruzados anti elitistas é que, nomeadamente nas autarquias,  subvertem as leis do mercado ao canalizar contratos e apoios para quem tem actividades comerciais rentáveis e promovendo concertos gratuitos que fazem concorrência a produtores privados. O oportunismo, de braço dado com a boçalidade, tornaram-se linhas de pensamento e ação na actividade cultural do governo e autarquias e isso é um péssimo sinal. O papel do Estado, em vários casos, mas também na política cultural, deve ser o de complementar o que os privados não fazem e não concorrer com eles. Uma das tarefas que o Estado cumpre mal é promover o talento português no exterior, não fomentando a internacionalização de artistas das diversas áreas, o mesmo é dizer apostar na presença da língua e cultura portuguesa no mundo, sabendo usar a cultura como uma arma da diplomacia para reforçar a imagem de Portugal e não para a apoucar. Como alguém me dizia no dia em que se conheceu o novo governo, agora o desafio é conseguir manter as coisas, porque melhorar vai ser difícil.


 


SEMANADA - Dois terços dos fundos europeus do PRR estão em risco a um ano do fim do programa; apenas quatro por cento dos lugares previstos no PRR para creches, lares e apoio domiciliário estão concluídos; os 133 mil lugares no programa Creche Feliz só chegam para 53% das cerca de 250 mil crianças até aos três anos com direito a beneficiar da medida; um estudo da OCDE indica que 15% dos jovens portugueses ficam nervosos ou ansiosos quando estão sem telemóvel; o Portal da Queixa revela um aumento expressivo nas reclamações dirigidas à Carris e nos primeiros cinco meses de 2025, o número de queixas contra a empresa subiu mais de 70%, face a 2024;  atrasos e incumprimento de horários representam 38% dos problemas denunciados pelos consumidores; na Área Metropolitana de Lisboa existem atualmente 27 bairros de barracas, vários criados de raiz nos últimos três anos e estima-se que em conjunto albergam cerca de 3 mil famílias;  em 2024 as reservas de ouro do Banco de Portugal valorizaram 8.000.000.000 de euros; mais de um terço dos activos bancários em Portugal são de investidores estrangeiros; desde 3020 foram apreendidas nos aeroportos portugueses  mais de sete toneladas de cocaína proveniente da América do Sul num valor estimado de 175 milhões de euros; Entre 2023 e 2024, registaram-se 2851 casos de violência contra profissionais de saúde, mais cerca de 230 face ao ano anterior.


 


O ARCO DA VELHA -Portugal tornou-se num importante ponto de entrada de cocaína na Europa, tendo sido apreendidas 22 toneladas desta droga em 2023.


 


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UM GUIA PARA  A MUDANÇA - Logo na capa deste livro surge uma frase, como que um subtítulo, que resume o que depois se pode ler lá dentro: “O modelo económico europeu está obsoleto e tem de ser reinventado”. O autor é António Costa Silva, que foi Ministro da Economia e do Mar, depois de uma longa carreira no sector privado. O livro, agora editado, chama-se "Portugal na Europa e com a Europa: que futuro?”. O autor, ao longo de cerca de 180 páginas sublinha a importância de a Europa fazer mudanças futuras sob pena de se transformar num museu, aborda a questão energética e a dependência do gás russo, as crises da defesa e segurança, a perda de competitividade e os desafios que se colocam a Portugal e à Europa,  depois de sublinhar que a rigidez e ortodoxia de alguns responsáveis europeus minam a capacidade de enfrentar problemas e fazer as mudanças necessárias. “O que temos hoje é uma Europa perdida num mundo que viu a geopolítica pura e dura, do confronto de poder, do uso dos recursos, da tecnologia, do comércio, das próprias cadeias logísticas e de abastecimento como armas de competição estratégica entre as grandes potências, em particular entre os Estados Unidos e a China”, sublinha Costa e Silva. Ao longo do livro surgem várias referências ao relatório Draghi, que preconiza mudanças importantes na Europa e defende a necessidade de renovação do projecto político europeu. O autor indica mudanças que Portugal deveria concretizar para aumentar a sua competitividade, num contexto europeu mas também mais global. O livro inclui já os efeitos da política de Trump e a escalada do conflito provocado pela Rússia na Ucrânia e que faz com que estejamos “ a viver o momento mais perigoso da História depois da Segunda Guerra Mundial”. Um livro que dirigentes partidários e membros do Governo deviam ler sem preconceitos Edição Guerra & Paz.


 


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AMBIENTES MUSICAIS- Brian Eno, que nos últimos anos se tem dedicado sobretudo à produção e às artes plásticas, surge com um duplo disco, muito ambiental, com baladas em que o músico é acompanhado pela voz de Beatie Wolfe. Os dois conheceram-se primeiro através do trabalho que ambos apresentaram em galerias de arte e a colaboração musical nasceu daí. De facto Eno e Wolfe fizeram dois discos, agora editados:  “Luminal” tem 11 canções e é apresentado como “Dream Music”; já  “Lateral”, apresentado como “Space Music”,  apresenta oito variações sobre um mesmo tema. Estes trabalhos constituem uma surpresa e já estão disponíveis nas plataformas de streaming.


 


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ARTE E VIDA  - Ao longo da vida Julião Sarmento (1948-2021), que foi um dos mais importantes artistas plásticos portugueses e com maior projecção internacional, reuniu uma colecção de obras de outros artistas, portugueses e estrangeiros, umas vezes provenientes de trocas entre pares, outras compradas pelo próprio ou que lhe foram oferecidas. Essa colecção, com cerca de 1500 obras, está agora no Pavilhão Julião Sarmento, inaugurado há poucos dias na zona de Belém. O edifício resulta de uma transformação do anterior Pavilhão Azul, bem projectada pelo arquitecto Carrilho da Graça, para acolher o novo museu que ostenta o nome de Julião Sarmento. Nesta primeira exposição, comissariada por Isabel Carlos, que dirige o equipamento, estão quase uma centena de obras da colecção, numa escolha que permite ter uma visão de proximidade do universo pessoal, estético e afectivo de Julião Sarmento. O objectivo deste equipamento não é expôr obras do próprio Julião Sarmento, mas sim partilhar com o público obras de uma colecção única em Portugal que ele construíu ao longo da vida. “TAKE 1 – A Coleção do Artista Julião Sarmento” é o título desta exposição inaugural, centrada em duas áreas: “Arte e Vida” dedicada à  amizade, amor, partilha e celebração entre artistas, e “Espaço e Arquitetura”, revelando como Julião Sarmento tinha, nas palavras da curadora,  “o fascínio pelo habitar, pela construção do desenho arquitetónico e pela materialidade”. Nesta exposição podem ser vistas até Abril de 2026 obras de Andy Warhol,  Joseph Beuys, Marina Abramovic, Ernesto Neto, Robert Morris, Juan Muñoz, Cristina Iglesias, Rui Chafes, Richard Long, Lawrence Weiner, Ângela Ferreira, John Baldessari e  Rita McBride, entre outros. O Pavilhão Julião Sarmento fica na Avenida da Índia 126.


 


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ROTEIRO -  De 11 de Junho a 30 de Setembro está patente na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de S. Roque, em Lisboa, a exposição “Casar!”, que reúne centenas de fotografias do arquivo Ephemera, provenientes de álbuns familiares e espólios diversos e que abarca um arco temporal que percorre todo o século XX (na imagem). A exposição, além das fotografias, inclui quatro vestidos de noiva de épocas e origens bem diversas, ementas de copos de água, um vídeo com numerosas imagens, e uma adaptação original da Marcha Nupcial de Mendelssohn, da autoria de Fast Eddie Nelson. Na exposição é possível observar as diferenças sociais patentes nas cerimónias de casamento realizadas quer nas grandes cidades e vilas, quer no interior do país, em casamentos ricos e pobres, em igrejas ou até em Las Vegas. Outra exposição de fotografia a merecer atenção decorre no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa e revisita o trabalho que António Pedro Ferreira fez em Paris entre 1982 e 1984 com comunidades de emigrantes portugueses na capital francesa. São quatro dezenas de imagens reunidas sob o título “Allez Paris”, numa exposição com curadoria de Sofia Castro Até 20 de Setembro, na Rua da Palma 246. 


 


ALMANAQUE - A Colecção Pinault no edifício da Bourse du Commerce, em Paris, recuperado pelo arquitecto japonês Tadao Ando, apresenta a exposição “Corps et Âmes” com obras, entre outros, de Gideon Appah, Ali Cherri, Deanna Lawson, Philip Guston, Duane Hanson, Marlene Dumas, Miriam Cahn , Latoya Ruby Frazier, Robert Frank, Irving Penn, Michael Armitage e, a finalizar, “Avignon” de Georg Baselitz. 


 


DIXIT - “A preparação, a sensatez e a integridade não têm grandes hipóteses contra o cálculo, a resiliência, a ambição e a desfaçatez.”- Sérgio Sousa Pinto 


 


BACK TO BASICS -  “Os livros, a realidade e a arte são a mesma coisa para mim”- Van Gogh






junho 07, 2025

O ESTRANHO CASO DA MÃO ESTENDIDA

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Admiro a imaginação das pessoas que assim de repente colocam uma mão plástica no meio de um arbusto. Isto é criatividade pura, uma mão às riscas, preta e branca, que salta no meio do verde, como se nos estivesse a pedir alguma coisa. Qual seria a intenção de quem ali plantou esta mão, na sebe de um largo muito bem arranjado, a contrastar de tal forma com o que está à sua volta que inevitavelmente chama a atenção de quem passa? É como se alguém assim fizesse um manifesto. Esta mão grita:”Olhem para mim!”. E eu fiquei ali a olhar, sem saber se a mão pertencia a algum putativo candidato presidencial, se era uma mensagem subliminar para as próximas autárquicas ou se era um gesto a anunciar que tudo está a mudar e nada vai ser como era. É que antes não saíam mãos dos arbustos, muito menos às riscas e com um buraco no meio. Esta é uma mão surrealista, uma intervenção deliciosamente provocatória. Agora imaginem que esta mão artificial era uma dessas plantas invasoras que se multiplicam na natureza. Já pensaram o que seria um bosque cheio de mãos assim, despudoradamente acenando para quem passa? Levo o pensamento mais longe. Fecho os olhos, imagino o hemiciclo de S.Bento todo coberto de densos arbustos verdes, com mãos destas saltando por todo o lado. Os ecologistas claro que ficariam todos contentes, os defensores dos animais iriam certamente proteger as mãos não fossem elas ter algum ser vivo por trás, os grandes partidos entrariam em crise profunda, tecendo suspeitas de tenebrosas conspirações. E algum tribuno com vivos dotes oratórios faria um discurso exacerbado sobre a necessidade de regular a existência destas estranhas mãos que surgem em arbustos. Já vi coisas piores no Parlamento.