
UMA ENTREVISTA INCONTORNÁVEL - No meio do imenso ruído dos comentários e da ocupação do espaço mediático a entrevista de António Barreto ao “Diário Notícias”, na semana passada, passou quase despercebida. E no entanto é das mais importantes e lúcidas análises do estado da sociedade, do funcionamento das instituições e do comportamento dos partidos. Barreto recorda alguns dados importantes sobre eleições recentes e os valores da abstenção, que já atingiram 45% nas autárquicas, 50% nas legislativas e 60% nas presidenciais, e sublinha que, nestas condições, é uma minoria de cidadãos e uma minoria de eleitores quem governa e decide sobre o país, enquanto a maioria dos cidadãos se desinteressa da política e democracia. Por outro lado, sublinha António Barreto, “os partidos, tal como os conhecemos há décadas, estão desajustados. Parecem ser apenas apreciados pelos seus membros. Quanto ao resto da população, são vistos como parasitas. Convém não esquecer que mais de 90% dos cidadãos e dos eleitores não são membros de partidos. As imagens e as percepções são eloquentes. Antes, eram as vanguardas ou as elites. Hoje são os oportunistas, os que não querem trabalhar, os que vivem à custa dos contribuintes.” Sobre as próximas eleições, António Barreto defende um governo de coligação nacional, com os dois maiores partidos, com um programa escrito, assinado e com validade para quatro anos“ e admite que gostaria “que aumentasse a força eleitoral da Iniciativa Liberal. Termino, citando o que António Barreto disse nessa entrevista sobre a justiça: “A legislação sobre a justiça é malfeita, complicada, obscura, pensada para agradar ora uns corpos profissionais, ora outros. Mas não tenhamos dúvidas: as culpas do mau estado em que se encontra a Justiça pertencem a ambos os lados, aos seus profissionais e aos políticos e legisladores. Tem-se a impressão de que a Justiça portuguesa evitou e resistiu à democracia.”
SEMANADA - O jogo ilegal online lesa o Estado em quase 250 milhões de euros; as apostas desportivas dão apoio de 70 mihões de euros ao desporto e as federações que mais recebem são as do futebol, ténis, basquetebol e desportos de inverno; no ano passado 28 recém-nascidos ficaram retidos na maternidade Alfredo da Costa em Lisboa por não terem casa para onde ir; em quatro distritos do interior uma em cada três escolas públicas do primeiro ciclo tem menos de 20 crianças; o preço das rendas de casa aumentou em 93% dos concelhos nacionais, subiu mais de 20% em 30 municípios e teve um aumento médio de 10,5% em todo o país; no ano passado foram reportados 543 crimes de violação, numero que compara com 494 em 2023; quase 9% dos arguidos por violação na última década são menores; em 2024 verificou-se um aumento de 30% no número de candidatos às Forças Armadas; depois de um recuo em 2023, a carga fiscal em Portugal registou durante o ano passado uma subida para 35,7% do PIB; os impostos directos, que incluem o IRS e o IRC, cresceram 3,5%, tendo os impostos indirectos, que incluem impostos como o IVA ou o ISP, subiram 7,2%, acima do ritmo de crescimento da economia; 40% dos desempregados não recebem subsídio.
O ARCO DA VELHA - Um homem criou um perfil falso no Tinder e marcava encontros com várias pessoas, sempre no mesmo café, e desmarcava os encontros quando as pessoas lá estavam há uma hora e já tinham consumido. Depois de recebida a desmarcação, pagavam e iam embora. O homem era o dono do café, algures no norte de Portugal, reportou a CMTV.

UMA GUERRA DIFERENTE - Esta é a história de um homem que ajudou a vencer uma guerra e que perdeu um combate pelo seu direito a viver como queria. Trata-se da história de Alan Turing – o famoso criptologista que decifrou o código da Máquina Enigma e, com isso, permitiu descodificar as mensagens dos alemães e conduziu os Aliados à vitória no final da Segunda Guerra. Apesar de ter contribuído de forma ativa para o desfecho da guerra na Europa, Alan Turing foi perseguido pela sua homossexualidade, submetido a castração química e inúmeras sessões de psiquiatria que o conduziram a grandes transformações físicas e mentais e à sua morte prematura, com pouco mais de quarenta anos, apontada como provável suicídio. É esta a história que o britânico Will Eaves nos conta no livro “Murmúrio”. Escrito em forma de diário e de cartas, “Murmúrio” relata, na primeira pessoa, o período que se seguiu à prisão, julgamento e condenação do célebre matemático, precursor da revolução tecnológica e da inteligência artificial. Alec Pryor, protagonista e narrador, inspirado na figura de Alan Turing nas cartas à amiga June ou nas anotações pessoais que redige, conduz-nos através do pensamento do matemático e da análise que faz da natureza da consciência humana, com considerações também sobre a inteligência artificial. O livro é uma viagem aos bastidores do seu castigo e o caminho de vergonha e exclusão que percorre, com enorme dignidade e aceitação. Edição Quetzal.

SILHUETAS DE PRAIA - “Entre Dois Grãos de Areia” é o título da nova exposição de José Luís Neto, patente da Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B), até 24 de Maio. José Luís Neto estudou fotografia no ARCO e depois no Royal College of Art, de Londres e, como refere na sua biografia,tem desenvolvido um trabalho de investigação sobre a apropriação da imagem e os processos e dispositivos de registo da imagem fotográfica. Começou a expôr no início dos anos 90 e ao longo da sua carreira tem explorado a investigação da linguagem e natureza da fotografia. O seu trabalho baseia-se frequentemente na manipulação de imagens de arquivos fotográficos e até de fotografias que encontra na rua. Por vezes manipula as imagens, alterando cores e formas, prefere modificar a realidade a reproduzi-la. Nesta exposição “entre dois grãos de areia”, uma frase de Clarice Lispector, expõe 14 fotografias feitas ao longo de um período alargado de tempo e que têm em comum seram imagens de pessoas fotografadas em praias, transformadas em silhuetas anónimas que por vezes pouco mais são que manchas da forma humana. Como o texto de Filipe Pinto que acompanha a exposição sublinha, as silhuetas são uma interrupção na paisagem e situam-se no estreito limiar entre o que é conhecido e o que é irreconhecível. No YouTube está uma conversa de 15 minutos com o galerista Miguel Nabinho precisamente sobre esta exposição - pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=biTyTP3XfL4 .

ROTEIRO - O primeiro destaque da semana vai para a exposição de Sebastião Casanova na Galeria Pedro Oliveira (Calçada de Monchique 3, Porto). Esta exposição, “Ma mort sera petite, comme moi” (na imagem), é apresentada como uma celebração da vida, do desejo, do prazer. Oscar Faria, que comissariou a exposição, afirma que a pintura de Sebastião Casanova é um alimento para o espírito e sublinha que o artista serve refeições visuais ao espectador. Em Lisboa, na Underdogs (Rua Fernando Palha, Armazém 56), o artista português Vhils convidou o artista francês JR e do convite resultou a exposição “Through My Window”, que mostra 36 litografias de grande formato e estará patente até 19 de Abril. Na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho) quatro fotógrafos (Fernando Penin Redondo, Fernando Ricardo, Francisco Prata e Marc Sarkis Gulbenkian ) expõem até 3 de Maio imagens de África. Na SNBA (Rua Barata Salgueiro 36) , até 26 de Abril Kenton Thatcher apresenta até 26 de Abril retratos feitos ao longo dos últimos 30 anos de artistas, escritores, personalidades desportivas e políticos. Por último na Galeria Imago (Rua do Vale de Santo António 50C), está até 3 de Maio a exposição “Fragmentos de Mim - ou a visibilidade do fotógrafo”, uma colectiva com trabalhos de 22 fotógrafos (entre os quais eu próprio, aviso já) que abordam a auto-representação, num desafio feito pela Associação Cultural CC11 e António Pedrosa, que seleccionou os trabalhos.

O REGRESSO DE BRYAN FERRY - Já se passaram 53 anos desde que os Roxy Music fizeram o seu revolucionário disco de estreia e que o seu vocalista, Bryan Ferry, se tornou notado. Ferry, quase com 80 anos, seguiu uma longa carreira a solo mas há 11 anos que não editava nenhum disco até surgir este “Loose Talk”, agora publicado. Trata-se de um disco feito em conjunto com Amelia Barratt, uma artista plástica, escritora e performer. É a primeira vez que Ferry faz música para palavras escritas por outra pessoa e o projecto começou quando Ferry e Barratt se encontraram na inauguração de uma exposição e decidiram trabalhar em conjunto. Ferry foi ao seu arquivo buscar composições instrumentais, inéditas, que foi fazendo ao longo dos anos e voltou a estúdio para as trabalhar, em colaboração com Paul Thompson, que foi baterista dos Roxy Music e com quem trabalhou ao longo dos anos. Amelia Barratt foi recebendo os temas musicais e escreveu onze histórias ficcionadas, na realidade pequenos contos, micro-ficções. Barratt diz essas histórias com uma voz neutra. Tudo é minimalista - a composição, os arranjos, a colocação da voz como se fossem monólogos em dueto. Disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - A Albuquerque Foundation abriu as portas perto de Sintra em Fevereiro deste ano e alberga a importante colecção de cerâmica imperial chinesa do coleccionador brasileiro Renato de Albuquerque e é dirigida pela sua neta, Mariana Teixeira de Carvalho. A programação conjuga mostras de longa duração das peças da Coleção Albuquerque de Cerâmica Chinesa e exposições de artistas contemporâneos que atuam no campo da cerâmica. A Albuquerque Foundation fica localizada na antiga Quinta de São João, que foi recuperada e ampliada para acolher o conjunto de atividades e que conta com uma biblioteca especializada, o acervo da Coleção Albuquerque, uma loja que expõe e comercializa obras de ceramistas portugueses, e um café com terraço com uma vista para a paisagem de Sintra. Rua António dos Reis 189, aberto de terça a domingo entre as 10 e as 18h.
DIXIT - “O voto no PSD muda caras, mas não muda mais nada. Por vezes, mudar caras é suficiente. Mas Portugal está numa situação em que precisa de um pouco mais e em que até pode ter um pouco mais.” - Rui Ramos
BACK TO BASICS - “O sistema eleitoral português é construído não a partir das necessidades do sistema democrático, mas foi feito pelas necessidades dos próprios partidos” - Marcelo Rebelo de Sousa, na sua tese de doutoramento.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS




































