
A POLÍTICA E A CULTURA - Com três eleições à porta, no espaço de um ano, seria interessante que os vários protagonistas dissessem aquilo que pensam sobre política cultural, um assunto de que fogem como o diabo da cruz ou, sobre o qual, na melhor das hipóteses, se limitam a dizer generalidades, banalidades e a tecer promessas sobre a percentagem do Orçamento de Estado atribuído à cultura, promessas que as mais das vezes não são cumpridas. E, no entanto, neste tempo em que tanto se debate a importância da tecnologia, a Inteligência Artificial e a liberdade de expressão e de criação, um debate sério sobre qual o papel do Estado na cultura é mais importante que nunca. Por exemplo, há políticos, mais vocacionados para a tecnologia, que elaboram discursos sobre startups e unicórnios, mas depois desprezam a criatividade artística e menorizam o valor do património, da preservação e dinamização de arquivos que permitam estudar precisamente o processo criativo. Alguns desses políticos refugiam-se num discurso que elaboram em rejeição do elitismo e vão cair no populismo, io que é bem diferente da cultura popular. Estes políticos, sobretudo a nível autárquico, e infelizmente Lisboa é disso agora um exemplo, preferem promover festas e festinhas e o patrocínio de plagiadores, em detrimento do desenvolvimento de outras actividades, sob o argumento de que assim são aclamados pelo público - porque, é claro, trazem votos. Ao contrário do que alguns querem fazer crer, os gostos discutem-se, sobretudo quando se reflectem nas políticas desenvolvidas e são pagos por dinheiros públicos. Utilizar fundos públicos para programações requentadas de muito discutível qualidade é abandonar o desenvolvimento de novos talentos e da criatividade - e é o inverso do que devia acontecer por parte de uma entidade pública. É importante que exista a compreensão e uma maior consciência por parte dos nossos políticos, autarcas e governos, de que a cultura é necessária para o desenvolvimento da sociedade e a defesa da democracia, e de que o sector público é, também no contexto de política cultural, fundamental para manter a igualdade de oportunidades.
SEMANADA - A subida no preço da habitação ultrapassou os 9% em 2024; no ano passado foram transaccionadas 156.325 habitações por um valor total de 33,8 mil milhões de euros, o maior valor anual de sempre; a emigração americana para Portugal em 2024 aumentou mais de 50%; existem 10.125 casas municipais ocupadas de forma ilegal em Lisboa; o número de crianças em risco e sem casa digna duplicou em 2023; a um ano do fim do PRR só foram entregues 7,7% das casas prometidas para 2026; em 2024 as receitas do turismo em Portugal atingiram 27,6 mil milhões de euros, o valor mais alto de sempre; há mais 37 mil utentes do SNS sem médico de família do que há um ano atrás; os pedidos de patentes portuguesas subiram quase 40% entre 2020 e 2024 e no ano passado registou-se um recorde de 347 pedidos; a tecnologia informática e tecnologia médica são os principais setores, representando um quarto dos pedidos de patentes de Portugal no mercado europeu; mais de 40 mil pessoas trabalham nas 380 empresas portuguesas do sector das indústrias de defesa, que facturam em conjunto cerca de cinco mil milhões de euros; segundo o Relatório Anual de Segurança Interna existem casos identificados pelos serviços secretos e Polícia Judiciária de crianças e jovens portugueses a serem aliciados em grupos online internacionais por neonazis e também por radicais islâmicos; o mesmo relatório indica que estão referenciados grupos de WhatsApp criados por crianças entre os 10 e 13 anos em que se partilham conteúdos multimédia de pornografia e de violência extrema.
O ARCO DA VELHA - Um grupo de jovens armados entrou na escola secundária Padre António Vieira, em Alvalade,com o objectivo de se vingar de um grupo de alunos daquele estabelecimento de ensino.

SOBRE A LIBERDADE - Aqui está um livro para os tempos em que vivemos: “Da Liberdade”, de Timothy Snyder, um historiador norte.americano, professor na Universidade de Yale, especializado na História da Europa Central e Oriental. Snyder escreveu este livro tendo como pano de fundo os acontecimentos na Ucrânia, que visitou em 2023, já depois da invasão Russa. O autor sublinha que a liberdade não se dá, não é uma herança: “No momento em que acreditamos que a liberdade é dada, ela esfuma-se”, acentua e relembra que liberdade e segurança são coisas que funcionam em conjunto. Snyder escreve que existem cinco pilares da liberdade: soberania, a capacidade adquirida de fazer escolhas; imprevisibilidade, o poder de alterar a nossa forma de agir com base no que conhecemos; mobilidade, a capacidade de circular no espaço e no tempo; factualidade, a possibilidade de ter consciência da realidade para a poder mudar; e solidariedade, o reconhecimento do que a liberdade é para todos. O autor recorda como a liberdade é o grande compromisso ocidental, cujo significado foi perdido de vista: “Demasiados de nós olham para a liberdade como a ausência de poder do Estado: pensamos que somos livres se pudermos fazer e dizer o que quisermos, e se nos protegermos da ação do Governo” - afirma. E conclui: “No entanto, a verdadeira liberdade não é tanto a "liberdade de", mas a "liberdade para" — liberdade para prosperar, liberdade para correr riscos com vista a futuros escolhidos por nós se trabalharmos em conjunto por eles”. Edição Bertrand.

UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR - Francisco Vidal é um dos mais interessantes artistas da sua geração. Nasceu em Lisboa em 1978, é português, angolano e cabo-verdiano e vive entre Luanda e Lisboa, começou a expor com regularidade a partir de 2005. Estudou Artes Plásticas e Artes Visuais nas Caldas da Rainha e em Lisboa e tem um Master em Fine Arts da School of Visual Arts da Columbia University, em Nova Iorque. Até 8 de Junho apresenta a exposição “Escola Utópica de Lisboa”, no Pavilhão Branco, localizado nos jardins do Palácio Pimenta no Campo Grande, um espaço que integra as Galerias Municipais de Lisboa. A exposição apresenta trabalhos feitos com jovens das comunidades locais em Luanda, Angola, e em Amares, no norte de Portugal, e dá seguimento ao seu projecto Escola Utópica, que pretende levar a escola para dentro do museu. Mas apresenta também numerosos trabalhos de Francisco Vidal, em diversos suportes, com diversas técnicas, criando um conjunto visualmente invulgar e com impacto. Segundo Francisco Vidal, tendo como uma das inspirações o livro de Pepetela “A Geração da Utopia”, concebeu uma mostra juntando instalações e performance, procurando criar “um espaço de partilha, de pensamento e de poesia, onde as pessoas têm tempo para si próprias” . A exposição sublinha o poder do desenho e da pintura, assim como “a importância do encontro e da troca, da empatia e da humanidade” e tem curadoria de Miguel von Hafe Pérez.

ROTEIRO - Durante o tempo em que o MUDE esteve encerrado para obras, o Museu organizou uma série de exposições fora de portas um pouco por todo o país. Uma delas foi “Portugal Pop - A moda em português, 1970-2020”, que foi apresentada em 2022 na Casa do Design, em Matosinhos. Agora a exposição (na imagem, fotografia de Luísa Ferreira) é apresentada no Museu do Design, em Lisboa (Rua Augusta 24), até 12 de Outubro. Como sublinha o MUDE, a exposição apresenta a cultura de moda em Portugal, as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos e a forma como as tradições culturais e as memórias coletivas influenciaram os vários autores representados, permitindo uma perspetiva sobre a moda nacional desde as vésperas da Revolução de 1974 até à atualidade. Bárbara Coutinho, directora do MUDE e curadora da exposição, partiu das técnicas oficinais e os saberes, e, conciliando-as “com ideias como território, portugalidade, pertença e memória, procura mostrar como elas se reflectem no trabalho dos mais de 30 designers de moda representados e a forma como são projetados para a contemporaneidade.” A exposição mostra também o papel de relevo que muitos artistas portugueses têm dado à construção das suas imagens, sendo mostradas peças de oito figuras da nossa cultura: Amália Rodrigues, António Variações, Heróis do Mar, Teresa Salgueiro/Madredeus, Mísia, Sónia Tavares/The Gift, Joana Vasconcelos e Conan Osiris. Deixo para o fim uma exposição invulgar, numa livraria. Graças a um coleccionador que quis ficar anónimo a Livraria Bucholz (Rua Duque de Palmela 4) apresenta, por ocasião da morte do escritor Herberto Hélder, uma exposição com toda a sua obra e numerosas primeiras edições, há muito esgotadas.

ALMANAQUE - Incluída no Festival Literário de Macau está uma exposição de fotografia de Alfredo Cunha, “Novas Independências“ que explora o processo de independência dos países africanos de expressão portuguesa para assinalar os 50 anos desse momento histórico. Organizada em torno de cinco temas, a exposição inclui 52 fotografias e tem curadoria de João Miguel Barros. Também no Festival Literário de Macau está patente uma outra exposição de um importante fotógrafo chinês da Mongólia, Wang Zhengping. No próximo ano João Miguel Barros, um advogado, fotógrafo e curador que vive em Macau, conta apresentar ali um projecto especial no qual as fotografias de Alfredo Cunha estarão em diálogo com um grande fotógrafo chinês, estando prevista a edição de um livro. Segundo João Miguel Barros, “a apresentação enriquece o festival através da fotografia, promovendo um diálogo sobre identidade cultural e memória histórica, sem se limitar às palavras.” e “proporciona uma plataforma única para a reflexão sobre a literatura e a cultura, e cada vez mais, a poesia que se encontra nos contrastes da fotografia.”
IDEIAS FORTES - “A política que nos servem, hoje, é grandemente populista. E os líderes a concurso são esta espécie de caixas de ressonância, plagiando os sentimentos das massas para melhor as conquistarem. Dizer a verdade ao povo – sobre os desafios militares que a Europa enfrenta, o estado do Estado, as reformas que tardam e que não se fazem sem sacrifício – seria um desvio intolerável a esta cartilha. Quem quer liderar quando é mais fácil seguir os humores da turba?” - João Pereira Coutinho
DIXIT - “A transparência não pode ser servida a conta gotas” - João Miguel Tavares
BACK TO BASICS - “É preciso que tudo mude para que tudo se mantenha” - Giuseppe Tomasi di Lampedusa em Il Gattopardo.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS




































