setembro 27, 2024

A GRANDE PALA

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VAMOS CORRER RISCOS - Existem duas eras na Gulbenkian: antes e depois do Centro de Arte Moderna. Criado por iniciativa de Sommer Ribeiro apoiado por Madalena Perdigão, inaugurado em 1983, o CAM veio trazer uma lufada de ar fresco a uma instituição que bem precisava dela. A Gulbenkian abriu ao público em Outubro de 1959 e até 1974 desempenhou o papel de um Ministério da Cultura que era inexistente. A sua importância para a cultura portuguesa nessa época - e nos primeiros anos a seguir ao 25 de Abril - foi grande. Mas, como muitas vezes acontece, ao longo dos tempos, foi-se acomodando. Madalena Perdigão criou um sobressalto com o CAM, cujo programa se resumia numa das suas frases preferidas: “Vamos correr riscos”. E assim foi até ao seu desaparecimento precoce, em dezembro de 1989. Na década de 90 muita coisa mudou,  desde logo com a preparação da Europália 91, que decorreu em Bruxelas, e impulsionou uma recuperação dos museus nacionais. Logo a seguir,  com a inauguração do CCB e Culturgest em 1993, a Gulbenkian deixou de ser a monopolista bem instalada na corte do poder e da cultura. A década de 90, mais tarde com Lisboa Capital Cultural Europeia em 94, a Expo em 98 e os novos equipamentos culturais da cidade, transformou completamente o panorama e deixou a Gulbenkian numa encruzilhada, a perder público e notoriedade. Foi assim que entrou no século XXI, progressivamente perdendo relevância e sem uma estratégia clara visível. O CAM fechou em Agosto de 2020 e esteve em obras desde 2021 até este ano. O edifício original foi substancialmente alterado pelo projecto do arquitecto japonês Kengo Kuma e foi ampliada a área exterior com um novo jardim desenhado por Vladimir Djurovi. A gigantesca pala, com mais de 100 metros de comprimento, de inspiração japonesa, é a peça mais polémica da obra - a estrutura parece opressiva, sobretudo na zona mais baixa, a imagem que se tem do exterior, nomeadamente da rua Marquês Sá da Bandeira, não é agradável (na imagem). Só o tempo mostrará como vai ser o funcionamento do novo CAM, o rumo da sua Direcção, a capacidade de fazer uma programação que consiga atrair públicos e fazer a ligação com a Colecção da Gulbenkian, articulando se possível a do fundador e a contemporânea. O edifício original do CAM foi bastante modificado, tem agora mais 900 m2 de área expositiva e algumas novidades: é possível o acesso à área de reservas, numa sala visitável para ver obras da colecção, há zonas fixas e móveis preparadas para apresentar obras em suportes digitais de imagem e som e uma nova área, a Galeria da Colecção, onde serão mostradas obras do acervo do CAM - e esta é talvez a nova  área do edifício que levanta mais dúvidas por ser relativamente estreita e não permitir recuo às peças, sobretudo as de maiores dimensões. A Gulbenkian não tem sido particularmente feliz com o resultado das escolhas que tem feito dos directores estrangeiros que tem escolhido. Vamos ver se o actual director do CAM, Benjamin Weil, conseguirá não se deixar fechar em lobbies e manter os olhos abertos para fora da teia de influências e dos lobbies convenientes ou de conveniência. Para já, o programa inaugural não é auspicioso, à excepção de Gabriel Abrantes e de “Linha da Maré”, na Galeria da Colecção, com peças importantes, embora se note a falta de algumas das obras mais emblemáticas do acervo que mereciam estar em destaque na reabertura do CAM e não escondidas nas reservas. Infelizmente a exposição “O Calígrafo Ocidental”, sobre a obra de Fernando Lemos e a sua relação com o Japão, podia ser um marco, mas tem uma montagem confusa que desmerece o artista. De resto nada mais a salientar. Daqui a uns meses perceberemos melhor se o novo edifício e a sua direcção são, ou não, uma oportunidade perdida. Até lá, como dizia Madalena Perdigão, vamos correr riscos.


 


SEMANADA - A carga fiscal na primeira metade deste ano foi de 36% do PIB, 1,6% acima do valor registado em igual período do ano passado; segundo o Eurostat, cada português desperdiça 336 euros em comida por ano, o que representa quase 11% do orçamento familiar em alimentação e o valor total desperdiçado anualmente pelos portugueses é de  mais de 3,3 mil milhões de euros; no século XIX  apenas 7% do território português era ocupado por floresta e hoje ela  cobre 36% do território nacional; os incêndios da semana passada consumiram 135 000 hectares e a área total ardida este ano chega quase a 147 000 hectares, a terceira maior da década; registam-se anualmente cerca de 6000 crimes de fogo posto e o número de presos condenados por esse crime quase duplicou na última década; comprar casa em Lisboa é 70% mais caro que no resto do país; o filme “Divertida-mente 2” da Disney Pixar foi visto em Portugal por cerca de 1,3 milhões de espectadores e gerou uma receita bruta de bilheteira de 7,7 milhões de euros, a maior de sempre registada no país; o Ministro da Educação reconheceu que há ainda “mais de 200 mil alunos” sem todos os professores; nos últimos quatro anos o  número de estudantes que reportaram problemas de saúde mental duplicou e transtorno de ansiedade e depressão são os problemas mais reportados; há mais de uma centena de leis por regulamentar desde 2003; até Julho Portugal importou 443 milhões de euros em paineis solares chineses.


 


O ARCO DA VELHA - A lista de espera para tratamentos de fertilidade no SNS indica que por falta de dadores cerca de mil mulheres aguardam por espermatozóides e 426 por ovócitos e o tempo de espera ultrapassa os três anos.


 


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A ENERGIA DAS FLORESJorge Galindo é um pintor espanhol que divide o seu tempo entre Borox, perto de Toledo, e Gaia, onde também tem casa. Com forte influência de Julian Schnabel, com quem estudou,  a obra de Jorge Galindo faz uso de uma ampla variedade de materiais, em superfícies exuberantes e coloridas. A sua nova exposição “Flama” está patente na Galeria Fernando Santos, no Porto, até 9 de Novembro (Rua Miguel Bombarda 526). Bernardo Pinto de Almeida, historiador e crítico de arte, afirma no texto que escreveu para a exposição que o título é uma “explícita alusão a esse fogo que parece consumir, desde sempre, as suas imagens”. A exposição apresenta um conjunto de obras de grandes dimensões, acompanhadas por uma série de pequenas obras executadas sobre livros abertos, colocados sobre estantes de orquestra para pautas musicais. O tema central das obras é a forma como Galindo vê e observa flores. Para Bernardo Pinto de Almeida o artista arriscou levar mais longe o seu processo de trabalho  “nestas novas flores selvagens, que uma vez mais ampliam as que apareciam já nas séries anteriores, ao deixar cada vez mais  fluentes e mesmo cada vez mais abstractos os gestos, a presença das colagens, as expressões da cor e do “ataque” do corpo na sua luta com a tela”. A Galeria Fernando Santos apresenta também a exposição de fotografia “25 Palavras ou Menos” de Luís Palma e uma exposição de novos trabalhos de pintura de Avelino Sá, "Eclipse" todas igualmente até 9 de Novembro.


 


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O SURREALISMO E O SILÊNCIO - No Centro de Arte Manuel de Brito (Campo Grande 113) continua até 4 de Outubro a exposição “Os Artistas Surrealistas na Colecção Manuel de Brito” com obras de António Pedro, António Dacosta, Mário Cesariny, Paula Rego, Marcelino Vespeira e Mário Botas (na imagem), entre outros. Na galeria Vera Cortês Carlos Bunga apresenta novas obras em “Silêncio”, até 31 de Outubro (Rua João Saraiva 16 -1º). Carlos Bunga nasceu no Porto, estudou na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha e actualmente vive e trabalha perto de Barcelona. Bunga, que é um dos artistas portugueses com maior número de exposições realizadas no estrangeiro nos últimos anos, repetiu a sua presença na Bienal de S. Paulo em 2023. Outra exposição a reter é “Anton's Hand is made of Guilt. No Muscle or Bone. He has a Gung-ho Finger and a Grief-stricken Thumb”, um  trabalho documental multimedia de Edgar Martins, que evoca a morte de um amigo próximo na guerra do Líbano em 2011,  acompanhado por um photobook, que ficará até 16 de Novembro na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80).  Na Amadora, Galeria Municipal Artur Bual, decorre até 6 de Outubro uma exposição baseada na obra gráfica de Maria Helena Vieira da Silva, integrada no programa de itinerâncias da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, com mais de 50 trabalhos da artista feitos entre 1954 e 1988.


 


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ADUBO PARA O PENSAMENTO - Em 1977 Jorge Luis Borges proferiu um conjunto de palestras no teatro Coliseo de Buenos Aires. Essas conferências foram gravadas e um jornal argentino publicou-as numa versão cheia de erros de transcrição, omissões e cortes arbitrários. Depois de, ao longo de dois anos, se ter recusado até mesmo a ouvir as gravações, Borges concordou em compilar as sete conferências, exigindo revê-las uma a uma. É o resultado desse trabalho que pode ser lido em "Sete Noites", o título que evoca as sete palestras: “A Divina Comédia”, “O pesadelo”, “as Mil e Uma Noites”, “O budismo”, “A poesia”, “A cabala” e “A Cegueira”. Num destes textos, “A poesia”, citando Emerson, Borges diz que “uma biblioteca é um gabinete mágico em que há muitos espíritos enfeitiçados. Atrevo-me a dizer que este livro é um bom exemplo disso, dá-nos que ler, para depois pensarmos. Roberto Bolaño, o poeta e escritor chileno já desaparecido, tem uma frase que define tudo: “Eu poderia viver debaixo de uma mesa a ler Borges.” Edição Quetzal.


 


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WEEKEND -  O festival Encontros da Imagem vai na sua 34ª edição. Com origem em Braga e extensões ao Porto, Guimarães,  Barcelos e Vila Nova de Gaia apresenta  mais de quatro dezenas de exposições. Pode ver todo o programa em encontrosdaimagem.com . Uma sugestão musical é o novo álbum dos Tindersticks, “Soft Tissue”, cuja capa aqui se reproduz, um regresso em grande forma da banda de Stuart Staples, já disponível nas plataformas de streaming. “Para finalizar, no próximo sábado e domingo, entre as 11H e as 18H, o Museu Bordalo Pinheiro, ao fundo do Campo Grande realiza a “Paródia no Bordalo”, com um conjunto de actividades desde uma feira do livro a oficinas artísticas, visitas guiadas e uma sessão de curtas metragens de animação, tudo com entrada livre.


 


DIXIT - “Nas fotografias mais institucionais, cerimónias do Estado Novo, o que mais impressiona é a pompa, as poses e a coreografia estereotipada” - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “Os meus pais ensinaram-me a ouvir o que os outros dizem antes de tomar uma decisão. Quando sabemos ouvir, aprendemos sempre” - Steven Spielberg


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




setembro 20, 2024

PANORAMA RADIOFÓNICO, FOTOGRAFIA UNIVERSAL, UM LIVRO ESPECIAL E OUTRAS SUGESTÕES AVULSAS

 


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COMO VÃO AS AUDIÊNCIAS DA RÁDIO? - O rastreio das audiências de rádio é feito pela Marktest e dele resulta o Bareme Rádio que permite medir o alcance de cada estação, a audiência de véspera e o share de ouvintes e ainda o total dos que ouvem rádio. Os números mais recentes, relativos ao final de Junho, indicam que o grupo Bauer Media (Ex Media Capital Rádios, que engloba a Rádio Comercial, M80, Cidade FM, Smooth e Batida) tem um share global de 43,8% e lidera o mercado. Em segundo lugar vem o Grupo Renascença, com 26,3% de share global nas suas três estações: RFM, RR e Mega Hitz. O grupo RTP (Antena 1, Antena 2 e Antena 3) tem 7,4% de share. Por estações a mais ouvida é a Rádio Comercial, com um share de 25,7%, seguida pela RFM com 17,1% e a M80 com 10,1%. A Antena 1 tem 5,4% de share, a TSF 2,4% e a Rádio Observador 2%. Hoje em dia o consumo de programas de rádio faz-se não só nos aparelhos de telefonia, mas também em streaming. E segundo o Bareme Marktest mais recente,  cerca de 3,5 milhões de pessoas afirmaram ouvir rádio pela internet. Este estudo da Marktest analisou ainda o perfil dos indivíduos que costumam ouvir rádio online: os ouvintes entre os 25 e os 54 anos são cinco vezes mais que os ouvintes com mais de 64 anos. E em termos de classes sociais nas classes alta e média alta há 62.2% que ouvem rádio online e apenas 16,7% da classe baixa. Por último, também segundo a Marktest, há cerca de 2,4 milhões de pessoas que dizem ouvir podcasts, a maioria entre os 15 e os 24 anos e de classe alta.





SEMANADA - Em 2023 estiveram sob escuta 10553 telefones; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que mais de metade dos portugueses considera que o combate à corrupção é totalmente ineficaz; segundo o mesmo estudo nove em cada dez pessoas consideram que a corrupção é um problema grave e que os clubes de futebol, partidos, câmaras e governos são os casos mais referidos; o custo médio de habitação por metro quadrado em Lisboa é 25% mais caro que em Madrid; em julho passaram pelo aeroporto de Lisboa 3,32 milhões de passageiros, o número mais elevado de sempre; o Estado tem 300 casas para guardas prisionais desocupadas;  em seis anos mais do que duplicou o número de estrangeiros legais em Portugal, passando de 480.300 em 2017, para mais de um milhão no ano passado; 14% dos alunos dos ensinos básico e secundário são de origem estrangeira; hoje já há 140 mil alunos migrantes, de 187 nacionalidades diferentes; os chumbos a matemática aumentaram e 29% dos alunos do nono ano não passaram nessa disciplina; matemática, inglês e português foram as disciplinas em que as negativas no oitavo e nono ano mais subiram; um terço das escolas já abandonou o uso de manuais digitais; o consumo anual per capita de peixe dos portugueses é de 59,9 kgs, mais do dobro da média europeia, e Portugal importa dois terços do peixe que consome.


 


O ARCO DA VELHA - Apesar de a Lei da Paridade de 2019 exigir que 40% dos candidatos a quaisquer eleições sejam do sexo feminino, o número de mulheres eleitas para a Assembleia da República, presidência de autarquias e Parlamento Europeu tem vindo a diminuir.


 


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A FOTOGRAFIA - William Klein é um dos mais importantes nomes da fotografia e a sua obra, que se estende do fotojornalismo à moda, caracteriza-se por  uma observação irónica da realidade. Os  trabalhos para revistas de moda como a Vogue ou as suas reportagens em grandes cidades de todo o mundo trouxeram-lhe notoriedade. Não se ficou na fotografia: realizou filmes de ficção e documentários e até anúncios de televisão. O MAAT apresenta agora sob o título “O Mundo Inteiro É Um Palco”, a exposição originalmente organizada por David Campany para o International Center of Photography, de Nova Iorque, em 2022, sob o título “YES: Photographs, Paintings, Films 1948-2013”. Klein, que morreu aos 96 anos em Setembro de 22, ainda acompanhou o nascer desta exposição e trabalhou com o curador da exposição, David Company, daí resultando um livro-catálogo de que o MAAT edita uma versão portuguesa, em simultâneo com a apresentação da exposição. Ao todo são mostradas cerca de 200 obras das várias áreas que tocou: fotografia de rua, moda, cinema, produção editorial, mostrando a sua visão sobre cidades como Nova Iorque, Paris, Roma, Moscovo e Tóquio. Na imagem uma fotografia efectuada em Moscovo em 1959. As imagens fotográficas de Klein são o eixo dorsal desta exposição organizada em cinco secções: Olhar para trás, Gestos materiais, Tóquio, Filmes e Juntos. A exposição de William Klein estará patente no MAAT Central Tejo até ao início de Fevereiro. Esta semana o MAAT inaugurou outras duas exposições: “Black Ancient Futures”  que reúne obras de 11 artistas da diáspora africana, alguns apresentados pela primeira vez em Portugal, e “Inverted On Us” de Catarina Dias.


 


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ROTEIRO - O destaque desta semana vai para a exposição “Ninfas e Faunos” de Ana Mata, que está na Galeria 111 (Rua Dr. João Soares 5B, no Campo Grande). A exposição, a primeira da artista nesta galeria, reúne pinturas e gravuras feitas entre 2021 e 2024 (na imagem). Em paralelo foi também lançado em parceria com a galeria, um livro de artista, “Carta de Florença”. A 6ª edição do Festival Imago Lisboa está a decorrer com o tema central “Action For A Green Future”. O Festival, que decorre até Dezembro, tem uma extensa programação em diversos locais de Lisboa e todas as informações estão em imagolisboa.pt . Na galeria 3+1 (Largo Hintze Ribeiro 2, Lisboa) Carlos Noronha Feio expõe os seus novos trabalhos na exposição “Milk and “Honey”. Na galeria  No-No (Rua de Santo António à Estrela 39A) Pedro Pascoinho apresenta “RES”. Na Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A) inaugura dia 21 a exposição “Telúricos” de Manuel Aja Espil. E no Atelier Museu Júlio Pomar (Rua do Vale 7)  continua até 24 de Novembro a exposição “Revoluções 1960-1975” que mostra um período particularmente importante da obra de Pomar.


 


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UM LIVRO ESPECIAL - Em1961 Jorge de Sena havia juntado vários dos seus escritos numa colectânea a que deu o título “O Reino da Estupidez”. Mais de década e meia depois, em 1978, já sem censura, Jorge de Sena compilou “O Reino da Estupidez II” que reúne um conjunto de textos que antes do 25 de Abril de 1974 não poderiam ter sido publicados e que satirizam situações ou problemas portugueses, brasileiros ou americanos, denunciando «contradições ridiculamente significativas, para glória e ilustração da estupidez sempre reinante». Esta notável selecção de textos teve agora nova vida graças à colecção “Novas Edições de Jorge de Sena”, que a editora Guerra & Paz tem vindo a fazer. Na maioria dos casos, o autor discorre sobre temas não-literários, excepção feita em «O Fantasma de Camões», um texto onde Sena dialoga com o poeta defunto e lhe fala «do muito que dele há sido escrito». São 16 escritos que, segundo o próprio Jorge de Sena, constituem uma colecção «amplamente instrutiva e divertida, de ensaios e outros textos de notabilíssima qualidade cultural, altíssimo valor educativo e palpitantíssima actualidade, interessando igualmente a homens, mulheres, soldados e crianças (...) de todos os partidos e inteiros em mais de um país “. O meu capítulo preferido é “O festival da besteira”, onde Jorge de Sena escreve que a cultura portuguesa é cheia de colarinhos de goma, faces emaciadamente encaracoladas, cabelos rigidamente penteados”.


 


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ELECTRO BARROCOMax Richter é um compositor alemão naturalizado britânico, que estudou composição e piano na Universidade de Edimburgo. “In a  Landscape” , o novo disco é o nono da sua carreira. O primeiro disco, “The Blue Notebooks”, foi lançado há cerca de 20 anos e ao longo destas duas décadas Richter tem feito discos a solo e composto bandas sonoras para séries de televisão e filmes, bailados, performances artísticas, exposições e até passagens de modelos. Neste novo trabalho, “In A Landscape”, Richter conjuga a electrónica com instrumentos acústicos. A sua música é tensa, por vezes a acentuar o dramatismo da observação que fez do mundo à sua volta, e este disco é bem o retrato da evolução de um músico que reflecte sobre as grandes questões da vida. O desespero que se ouve em algumas das 19 faixas do disco bem poderia ser a banda sonora perfeita para a novela das negociações do Orçamento de Estado. Aliás a primeira faixa, “They Will Shade Us With Their Wings”, é perfeito para acompanhar o ballet dançado à nossa frente por Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro. Mas regressemos a “In A Landscape” - o álbum foi sendo construído ao longo do tempo, muito em torno de uma peça em cinco andamentos que é a marca deste trabalho- “Life Study”. Um quinteto de cordas, um piano de concerto, um orgão Hammond, um MiniMoog, e diversos instrumentos e aparelhos electrónicos (vocorder, sistemas de delay e reverb) foram utilizados. O trabalho de Richter começa sempre por frases musicais simples que vão criando melodias e evoluindo a ritmos diferentes. Sob um mesmo pano de fundo sonoro, as composições crescem diversas, mas numa mesma linha comum, às vezes evocando sonoridades barrocas num trabalho que ganha outra vida graças aos sons electrónicos. 


 


LÁ FORA - Uma sugestão para o ex-Primeiro Ministro António Costa, para os nossos deputados no Parlamento Europeu e para os portugueses em Bruxelas: no Wiels Contemporary Art Centre a artista portuguesa Ana Jotta expõe até 5 de janeiro uma série de desenhos pinturas e obras em diversos suportes sob o título genérico “On peut…on peut encore”. Se estiver em Londres não perca na National Gallery, até 19 de Janeiro,  “Van Gogh:Poets And Lovers”, que o Guardian considera já ser a exposição do ano na capital britânica. E para terminar, em Madrid, no Museu do Prado, pode ver uma das grandes obras de Caravaggio, o quadro “Ecce Homo”, que estará em exibição até Fevereiro de 2025.


 


DIXIT - ”Em nome do bom senso e da racionalidade e com negociação ou sem negociação, o PS deve aprovar o OE 2025. Não obterá nada de palpável em termos políticos. Também nada terá a perder, mas ganha seguramente a credibilidade e o respeito que os portugueses mais moderados e sensatos estão desejosos de ver na política portuguesa.” - Eduardo Marçal Grilo


 


BACK TO BASICS - “A competição é só civilizadora enquanto estímulo; como pretexto de abater a concorrência, é uma contribuição para a barbárie” - Agustina Bessa-Luís.


 


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setembro 13, 2024

COMO VAI A IMPRENSA PORTUGUESA?

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E OS JORNAIS,  COMO VÃO INDO? - A entrada em cena do digital na área da informação, há quase três décadas alterou por completo os hábitos de leitura, de compra de publicações e o seu modelo de negócio. Entre nós a melhor forma de aferirmos o que se passa é através dos dados recolhidos pela Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens (APCT) sobre as publicações que se dispõem a ser efectivamente auditadas.  Segundo a APCT, no final do segundo trimestre deste ano, o jornal que vendeu maior número de exemplares em papel foi o Correio da Manhã, com 38653 exemplares diários, seguido pelo Expresso com 36878 exemplares semanais, o Jornal de Notícias com 17721 exemplares diários, a revista Sábado com 15478 exemplares semanais, o Record com 13582 exemplares diários,  o Público com 10058 exemplares diários, o Jogo com 6319 exemplares diários e o Diário de Notícias com 1124. Na imprensa económica o líder é o Jornal de Negócios com 1656 exemplares diários vendidos e nos regionais o líder é o Diário de Coimbra, com 6017 exemplares vendidos. Passemos agora à circulação digital - o número de assinaturas válidas. Aí o Público vai à frente com 52656 assinaturas, seguido do Expresso com 48719 assinaturas. Depois vem o Observador, que não é auditado pela APCT mas reivindica cerca de 30 mil, o Jornal de Negócios com 5466 assinaturas digitais, a Sábado com 5049 , o Record com 4466, o Jornal de Notícias com 4073, o Correio da Manhã com 2680 e o Diário de Notícias com 1175. Deixo aqui alguns números comparativos, para que possam ter uma ideia da importância da dimensão na economia dos media e, infelizmente, da pequenez do nosso mercado: o New York Times tem quase 300 mil exemplares em papel e cerca de 10 milhões de assinantes digitais em todo o mundo. O Guardian tem 104 mil exemplares em papel e 1,4 milhões de assinantes digitais. E em Espanha, aqui ao lado, o El Pais tem uma média diária de 56 mil exemplares em circulação e 300 mil assinantes digitais. 


 


SEMANADA - Lisboa é  a quinta cidade da UE com mais poluição provocada por barcos de cruzeiro; Amesterdão proibiu a construção de novos hotéis no centro da cidade, limitou horários de funcionamento e impôs restrições à venda de canábis; Barcelona quer acabar com o Alojamento Local até ao final de 2028; Veneza proibiu os megafones utilizados pelos guias turísticos e limitou os grupos a 25 pessoas no centro histórico e em ilhas como Murano ou Burano; depois de Paris, Madrid anunciou que vai proibir já a partir do próximo mês o aluguer de trotinetas eléctricas; entretanto a Irlanda tem uma situação sem paralelo na UE, regista um excedente orçamental de 8,6 mil milhões de euros e uma economia a acelerar muito mais do que o previsto;  só 24% das verbas previstas nos financiamentos do PRR para lançamento de novas empresas chegaram até agora às startups para onde eram destinadas; a concessão de vistos para imigrantes procurarem trabalho baixou 24% desde junho; a média de idade dos automóveis que foram para abate nos primeiros seis meses de 2024 fixou-se em 24,7 anos, agravando-se de novo face aos últimos anos; o plano de risco sísmico em Lisboa não é revisto há 15 anos; um estudo recente indica que no segmento residencial de luxo o preço das casas subiu 4,2% em Lisboa no primeiro semestre do ano, valor que fica acima dos registados em cidades do Sul da Europa, como Madrid e Atenas, com aumentos acima dos 3%, ou do Dubai (2,9%); Portugal é o país europeu onde os preços das casas mais aumentaram na última década; a poucos dias do início do ano lectivo há mais de 30% de alunos com professores em falta.


 


O ARCO DA VELHA - O Metropolitano de Lisboa executou apenas cerca 565 mil euros do PRR no ano passado, o que representa menos de 1% dos 66,2 milhões que tinha orçamentado.


 


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IMAGENS FORTES - A exposição da semana é“Scarbo”, de Jorge Molder, na Galeria Miguel Nabinho. Molder apresenta 32 fotografias, todas de grande formato, todas elas concebidas expressamente para esta exposição. Jorge Molder conta que a ideia inicial que tinha para a exposição era outra, mas de repente decidiu mudar de rumo e enveredou por este “Scargo” - “foi um acidente”, confessa. O nome evoca uma das paixões musicais de Molder, o terceiro e último movimento da peça “Gaspard de La Nuit”, uma suíte para piano de Maurice Ravel, composta em 1908 inspirada na poesia de Aloysius Bertrand. “Esta é uma música que sempre me acompanhou”, diz Jorge Molder, revelando a razão do título e da atmosfera da sua nova exposição. “Scargo” de Ravel é uma composição inquieta, que vive dos sobressaltos de um diabo que corre velozmente e assume diversas formas. Foi esta a música que desencadeou o processo criativo da nova exposição. Ao longo dos últimos meses Molder fez centenas de fotografias  e escolheu 32 delas para apresentar. Mais uma vez Molder trabalha sobre o corpo humano - nunca o corpo integral, mas segmentos, muitas vezes do seu próprio corpo, por vezes de outros. E, no entanto, estas novas fotografias são diferentes de trabalhos anteriores. Todas as fotografias são apresentadas de igual forma, ampliações de 96x96cm, impressão digital pigmentada em papel Arches de algodão de 640 gramas. Na imagem uma das fotografias de “Scargo”, em exposição na Galeria Miguel Nabinho até 2 de Novembro, Rua Tenente Ferreira Durão 18, em Campo de Ourique.


 


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ROTEIRO - Esta semana começam a surgir novas exposições nas galerias lisboetas e aguarda-se com expectativa a abertura do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian no dia 21.  “Perceptual Phenomena, Color Spaces, Structural Honesty” é a nova exposição individual de Felipe Pantone, um artista de origem argentina que tem vivido em Espanha, e exibe na galeria Underdogs (Rua Fernando Palha 56) dez obras criadas com recurso a tecnologia digital aplicada às variações possíveis da cor (na imagem). No Museu Nacional de História Natural e da Ciência, na sala do Laboratório de Química Analítica (Rua da Escola Politécnica 46), a artista brasileira Renata Padovan apresenta até 29 de setembro “Irreversível”, uma exposição com curadoria de Sofia Marçal, que se debruça sobre a floresta amazónica, tentando uma reflexão sobre ética e interferência do homem na natureza.“Visível, Invisível” é a nova exposição do escultor Rui Matos patente na  Galeria Diferença (Rua São Filipe Neri 42).  Em Lisboa, na Galeria Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147), Pedro Besugo apresenta até final de setembro a exposição “Circumetric”, com trabalhos feitos a partir de  uma teia de desenho abstrato, pintura, colagem e tinta. E na galeria Narrativa, dedicada à fotografia (Rua Dr Gama Barros 60), a programação foi retomada com a exposição “Sıhhalter Olsun” (Boa Sorte), da fotógrafa turca Asli Özçelik. A exposição, resulta de um livro de fotografia que conta a história da mãe da autora, uma jovem oriunda de uma pequena aldeia no nordeste da Turquia, que emigrou para a Alemanha aos 20 anos. 


 


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SOBRE A GUERRA - Gilles Kepel, um cientista político especializado em assuntos árabes e do médio oriente, apresenta no seu livro "Holocaustos, Israel, Gaza e a Guerra contra o Ocidente" o que considera os quatro eixos fundamentais do conflito: as lógicas do pogrom do Hamas, as contradições de Israel ao invadir e bombardear Gaza, as tensões extremadas do contexto regional em torno do 'eixo de resistência' conduzido a partir de Teerão, e a nova guerra mundial contra o Ocidente combatida na frente dos valores morais e da demografia política . “No epílogo interrogo-me acerca da construção doutrinária desses messianismos libertadores do planeta, arvorados por países que, na sua maioria, são dirigidos por regimes autoritários, contra um 'Norte' que é estigmatizado como sendo colonialista, imperialista, racista, 'islamofóbico', mas que funciona segundo as regras do Estado de direito e dos princípios democráticos", escreve Gilles Kepel. O confronto agrava as tensões regionais e tem repercussões globais. Está a tomar a forma de uma guerra global contra o Ocidente e os seus valores, opondo o apartheid à Shoah. Ao redefinir a própria noção de «genocídio», alguns Estados e organizações afirmam fazer parte de um «Sul Global» que luta contra um «Norte» estigmatizado como colonialista e «islamofóbico». Este livro foi descrito já como "o melhor guia possível através do assustador labirinto do Islão militante".  Edição D. Quixote.


 


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O CAMINHO DA DOR - Nick Cave fez o seu 18º álbum, “Wild God”, agora editado, com um fundo ainda mais sentimental e dramático que obras anteriores. O disco percorre as zonas mais sombrias da vida recente de Cave - a morte de dois filhos, Arthur e Jethro, e da sua companheira de vida e colaboradora Anita Lane. Os Bad Seeds que o acompanham têm já pouco a ver com a sonoridade dos originais e encaixaram no registo actual do músico. Também Cave surge de forma diferente - mais como um contador de histórias, tristes é certo, de redenção por vezes, do que como um cantor de baladas. Há epopeias narradas como “Final Rescue Attempt”, e os arranjos surgem pontuados por côros que por vezes parecem excessivos, como no tema “Joy”. As dez canções deste novo álbum são um relato de obsessões e experiências individuais, mas é inevitável que se sinta que esta é a sua história pessoal,  por vezes parecendo algo desligada do mundo actual,  talvez com a excepção da faixa título “Wild God”. A faixa de abertura, “Song Of The Lake” é o exemplo do seu novo cânone musical, mais uma vez empolgado em sintetizadores e côros. Poucos artistas contemporâneos conseguem lidar com a dor pessoal desta maneira, partilhando-a de uma forma tão aberta que por vezes pode parecer excessiva. Mas não há novidades nesta matéria: explorar sentimentos foi sempre o forte de Nick Cave. “Wild God” está disponível em streaming.


 


PARA O FIM DE SEMANA - O Museu de Lisboa - Palácio Pimenta reabriu e volta a apresentar a sua exposição permanente, aumentada com novas peças. Foram renovadas 11 salas e volta a ser possível descobrir neste magnífico edifício ao fundo do Campo Grande a história da cidade de Lisboa, mostrando a sua evolução urbanística, social e cultural. E não deixe de passear no seu magnífico jardim.


 


DIXIT - “Lê-se o relatório da Inspecção Geral de Finanças (sobre a TAP) e fica-se com aquela sensação de vulnerabilidade que torna Portugal um país patusco, fácil de endrominar por espertalhões” - Manuel Carvalho


 


BACK TO BASICS - “No fim lembramo-nos não das palavras dos nossos inimigos mas sim do silêncio dos nossos amigos” - Martin Luther King.


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 

setembro 06, 2024

MUDANÇAS, OS MÍDIA, FOTOGRAFIA JAPONESA, MARIONETAS, MÚSICA AVIADORA, LIVRO DELICIOSO

Esta Esquina, que desde o início abordou quase sempre a política deste pequeno rectângulo que é Portugal, vai deixar de o fazer tão regularmente como até aqui. O estado do país e das instituições degradou-se, o sistema eleitoral continua viciado porque os grandes partidos não querem mudá-lo. Portugal podia ser um belo país, foi-se estragando, sem remédio, sobretudo nos últimos 20 anos. A Esquina passará pois a falar de outras coisas. E há muito que dizer...


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COMO VAMOS DE PUBLICIDADE? - Os  números dos investimentos de publicidade são um bom retrato da evolução dos hábitos de consumo dos media e da forma como os anunciantes os encaram em  termos de alcance e eficácia junto dos públicos que querem atingir. Se olharmos para os números do primeiro semestre deste ano vemos que a televisão continua a ter a fatia de leão do mercado, com 47,5% do investimento total, sendo que 34,1% foram para os canais generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) e 13,4% para os canais de cabo. Nos últimos anos verifica-se uma progressiva diminuição da fatia que os anunciantes gastam nos canais generalistas e um aumento do investimento nos canais de cabo. E a fatia total da televisão, que há dez anos significava mais de 56% , caíu quase dez pontos percentuais nesse período. Mas quem teve a maior queda foi a imprensa, que no início do século era o segundo meio mais procurado pelos anunciantes, e agora capta apenas 1,7% do total do investimento - há dez anos já estava em queda mas mesmo assim significava mais de 12%. A rádio tem conseguido resistir e no primeiro semestre deste ano captou 6,4% do investimento publicitário, que compara com 7% há dez anos. Um meio que cresceu de forma significativa foi o outdoor, a publicidade de rua, que subiu de 12,3% em 2014 para 14,8% no final de Junho. E, claro, a estrela da companhia é o investimento em digital, que passou de 15,3% em 2014 para 29,3% no primeiro semestre deste ano, e que inclui não só todo o universo de redes sociais e Google, mas também a publicidade nas edições digitais dos diversos meios de informação - televisão, rádio, imprensa. E tudo isto se passa numa situação de crescimento do mercado publicitário e de recuperação da queda ocorrida durante a pandemia. Comparando com 2014, e tendo por base os números finais de 2023, o crescimento registado foi ligeiramente superior a 28% e este ano deverá subir ainda mais. A paisagem mediática mudou muito nos últimos dez anos e analisar as alterações ocorridas ajuda a fazer um retrato das mudanças ocorridas na sociedade.





SEMANADA - Nos cinco primeiros meses deste ano verificaram-se mais mortes em acidentes rodoviários que no mesmo período de há dez anos; em dez anos morreram 45 pessoas e 30 ficaram feridas com gravidade em 56 acidentes com aeronaves em Portugal; desde 1986 há mais mulheres do que homens inscritos no Ensino superior e actualmente as mulheres representam 54% do total; em quatro anos  o estado cobrou mais de três milhões de euros de multas por violações à lei do tabaco; 1,6 milhões de utentes do SNS não têm médico de família e há mais de 300 mil com registos incompletos que se arriscam a ser retirados das listas; no passado domingo o Serviço Nacional de Saúde tinha 17 urgências fechadas em todo o país; há mais de 30 consultórios dentários parados no SNS; no alojamento estudantil, o preço médio por quarto aumentou 12,5% este ano, o valor médio do quarto é hoje de 397€ e em Lisboa atinge 480€ ; o custo da habitação é hoje 23% mais cara em Portugal que em Espanha e Lisboa e Porto têm preços por metro quadrado mais altos que Madrid, sendo que em Lisboa, a diferença é de 60% mais; se olharmos para os rendimentos nos dois países, o salário mínimo português é 28% inferior ao espanhol e o salário médio está 16% abaixo.


 


O ARCO DA VELHA - Quando o edifício da secretaria geral do Ministério da Administração Interna, que tutela as polícias, foi assaltado na madrugada de quarta feira da semana passada, as câmaras de videovigilância estavam desligadas ou avariadas.


 


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UM OLHAR DIFERENTE - Ochre Space, perto do Palácio da Ajuda, é um lugar dedicado à fotografia que existe graças à paixão de João Miguel Barros, que ali acolhe exposições, instalou a sua extensa biblioteca de photo books e promove workshops como os que a agência Magnum lá fez em duas ocasiões.  Advogado baseado em Macau, com incursões por Lisboa, fotógrafo por esse mundo fora, apaixonado pelo trabalho de fotógrafos chineses e japoneses que conhece como poucos, João Miguel Barros apresentou esta semana na Ochre Space a primeira exposição com dezena e meia de fotografias, provas de época de início dos anos 70, do japonês Shoko Hashimoto. A exposição é baseada no seu livro “Goze”, um ensaio fotográfico no qual Shoko Hashimoto fotografou, desde finais dos anos 60 e na primeira metade dos anos 70, as mulheres cegas, chamadas “Goze”, que faziam digressões e atuavam nas zonas rurais ao longo do Mar do Japão. Durante dois anos Hashimoto seguiu três dessas mulheres e as imagens então obtidas constituem o pilar deste trabalho. A opção criativa de Hashimoto nestas fotografias  foi acentuar os contrastes, sem cinzentos, de forma a que os rostos, os corpos, as sombras das árvores ou as casas sugissem como acentuadas manchas de preto e branco que criam um ambiente quase surreal. Nascido em 1939, Hashimoto viu este  trabalho premiado não só no Japão, como em outros países. A exposição pode apenas ser vista nos dias úteis, só até dia 11, das 15h30 às 18h30 e vale mesmo a pena uma deslocação até à Ajuda, Rua da Bica do Marquês 31, a morada do Ochre Space. Para o próximo ano, João Miguel Barros prepara uma exposição do mais importante fotógrafo japonês, Eikoh Hosoe.





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ROTEIRO - No Museu da Marioneta pode ver até 20 de Outubro uma notável exposição, “A Revolução das Marionetas 1970-1980” que mostra peças pouco conhecidas, grande parte delas recuperadas para esta mostra, com montagem de António Viana, e que reúne um conjunto de bonecos dos mais importantes marionetistas dos anos 70 e 80 representativos das grandes transformações na arte da marioneta e na sua apresentação a novos públicos. Na imagem, os bonecos de Cunhal, Soares e Eanes, feitos por Maria Emílio Perestrelo, numa fotografia publicada por Alexandre Pomar.  O Museu da Marioneta fica no Convento das Bernardas, Rua da Esperança, n° 146 e está aberto de terça a domingo entre as 10 e as 18H. Outra sugestão é a exposição “Void”,  do artista australiano James Bonnici, que reúne retratos e paisagem em pinturas e desenhos que usam a distorção e a manipulação de imagens como forma de trabalho -até 8 de Outubro no Espaço Exibicionista, Rua Dona Estefânia 157C. E em Viseu, até 9 de Novembro, na CAOS - Casa de Artes e Ofícios, em Viseu, pode ver “Quotidiano em Narração”, com obras de Ana Pérez-Quiroga. A CAOS fica no centro histórico de Viseu, Largo de S. Teotónio 30. 


 


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ENREDOS DA ARTE - No meio da pandemia, por um acaso do destino, um entregador de encomendas online, Jay, encontra uma antiga namorada, Alice, que não via há muitos anos. Nessa época já distante Jay era um promissor artista plástico, ela vivia dividida entre ele e um amigo próximo, Rob, também artista, menos idealista e mais comercial. Quando Alice o deixa e vai viver com Rob,  Jay entra fase de grande criatividade, o seu talento é reconhecido, mas depois desaparece numa viagem sem destino, sem que ninguém saiba dele durante anos. Alice e Rob, entretanto casados, vão viver para os Estados Unidos, onde ele ganha notoriedade e se torna notado pelos coleccionadores. Na pandemia Alice, Rob e o seu galerista estão refugiados numa mansão perto de Nova Iorque quando o destino leva Jay à sua porta - um Jay que desistira de ser artista e trabalhava no que aparecesse, como entregar encomendas. Jago, o galerista de Rob, que também está na mansão, fica fascinado pela presença de Jay e confessa-se fã do seu trabalho passado. Quando Jay conta porque desapareceu e o que andou a fazer, Jago percebe que podia ali ter oportunidade de criar um mito em torno do regresso do artista desaparecido, uma reacção bem diferente da de Rob, temeroso que ele tivesse voltado para se vingar de ter perdido Alice. Até aqui o romance pode parecer um triângulo amoroso vulgar, mas o que torna “Ruína Azul” diferente é o papel de Jago, que em sucessivas conversas com Jay, quer levá-lo a criar e assumir uma obra de arte multimedia sobre o que aconteceu nos anos em que andou desaparecido. As diferenças artísticas entre Jay e Rob acentuam-se e o desenrolar da história de “A Ruína Azul” é uma viagem aos paradoxos do modelo de negócio da arte contemporânea, das relações entre artistas, os seus assistentes de estúdio, os curadores e galeristas. Este é um livro fascinante e Hari Kunzru, o autor, com uma dezena de obras publicadas, cria, com elegância, uma viagem aos bastidores dos conflitos que se desenvolvem no mundo da arte contemporânea, entre o idealismo, os excessos e o cinismo. “A Ruína Azul” é escrito de forma fascinante, tem edição da Quetzal com uma tradução exemplar de Salvato Teles de Menezes.


 


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A AVIADORA - O novo disco de Laurie Anderson, “Amelia” é dedicado à pioneira da aviação Amelia Earhart cujo avião desapareceu no meio do oceano pacífico, a 2 de Julho de 1937, quando estava quase a conseguir ser a primeira mulher a fazer, sózinha, uma viagem de avião à volta da Terra. Neste novo disco de Laurie Anderson, o primeiro desde o brilhante “Landfall”, de 2018, o som do motor do avião de Amelia é criado a partir da manipulação de solos de guitarra de Lou Reed, que era o marido da artista. Anderson gravou a sua parte instrumental no aparatamento onde vive em Nova Iorque. “Amelia” tem 36 minutos de duração e 22 faixas. Não é um disco vulgar, é quase uma performance, uma narrativa, construída a partir de um ciclo de canções, que surgem como uma evocação do teatro radiofónico e que musicalmente se assemelha a um requiem. Anderson é acompanhada por uma orquestra de cordas, muita electrónica que ela própria executou e uma secção rítmica que evoca o jazz. São sons e canções que quase se conseguem ver, e não só ouvir. Disponível em streaming.


 


WEEKEND - A exposição permanente do Museu do Fado é um tributo ao Fado e aos seus cultores, divulgando a sua história desde a sua génese, na Lisboa oitocentista, até à atualidade. Ali podem descobrir o papel do Fado no teatro, no cinema, na televisão, a evolução da guitarra portuguesa,  ambiente das casas de fado e as grandes vozes que o cantaram. O Museu do Fado pode ser visitado de terça a domingo, entre as 10 e as 18H e fica no Largo do Chafariz de Dentro nº1, em Alfama. 


 


DIXIT - “Cavaco lançou medidas para resolver problemas difíceis e apresentar-se como um governante reformista. Montenegro contenta-se com tácticas à espera que o tempo lhe resolva a incapacidade de governar” - André Abrantes Amaral.


 


BACK TO BASICS - “Saber que não se sabe constitui, talvez, o mais difícil e delicado saber” - Jose Ortega Y Gasset


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agosto 30, 2024

DIZ-ME COM QUEm ANDAS, DIR-TE-EI QUEM ÉS....

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A DIFICULDADE DA ESCOLHA Na semana passada o secretário-geral do PSD e seu líder parlamentar, Hugo Soares, afirmou numa entrevista que, se fosse eleitor nos Estados Unidos, teria muita dificuldade em escolher entre Trump ou a candidata do Partido Democrata. Apesar de dizer que discorda da forma de estar e de fazer política de Donald Trump este destacado dirigente do PSD deixa implícito que admitiria poder votar nele. Ou seja, o homem que gere o PSD e dirige a sua actuação no Parlamento, admite poder considerar votar num político que fomentou uma tentativa de subverter os resultados eleitorais e de não aceitar a sua derrota nas urnas, um político sem escrúpulos que impulsionou a invasão do Capitólio e que tem acusações graves contra si na vida empresarial e política. Mudemos a linha de observação para a América do Sul, para a Venezuela, dirigida por Nicolas Maduro, um político que, tal como Trump, entende que é seu direito manipular as eleições e destratar os seus opositores políticos. Quando o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, como há poucos dias aconteceu, defende calorosamente Maduro, as pessoas que acreditam que a democracia não deve ser uma farsa, indignam-se com razão. São muitas as vozes a criticar o que se passou nas eleições venezuelanas e a forma como o Maduro actua. Mas não ouvi ninguém do PSD, ou do seu  aliado CDS, indignar-se com a tolerância trumpista de Hugo Soares, que creio não ter sido apenas um lapso, mas resultado da boçalidade e indigência mental que grassa em boa parte da classe política portuguesa. Ficamos assim a saber que há dois secretários-gerais de partidos portugueses, no PCP e no PSD, que toleram políticos que fazem da democracia uma triste farsa e que entendem que fazer batota eleitoral, mentir despudoradamente e insultar quem se lhes opõe, é admissível. No fundo acham que Maduro e Trump são seres politicamente toleráveis. É por estas e por outras que muita gente tem dificuldade em aceitar a bondade das intenções do PSD. Hugo Soares apenas resolveu ser ele o porta estandarte do pior que o actual PSD tem para oferecer. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…


 


SEMANADA - Após a insolvência da Inapa o Ministério das Finanças afastou a administração da Parpública invocando falta de prestação de  informação atempada à tutela; em dois anos o peso dos juros na prestação da casa mais que triplicou; este ano, em 2024, até final de Julho, já se registaram 75 mortes por afogamento em Portugal continental, o número mais elevado dos ultimos cinco anos, e a maioria das vítimas são homens entre os 20 e os 24 anos; mais de três mil pessoas mudaram de sexo no registo civil desde 2011; Lisboa é a terceira cidade da Europa que vai abrir mais hotéis, estando previstas 36 novas unidades com um total de 4425 quartos; nas últimas duas semanas houve mais 115 voos nocturnos que o permitido; no mês de Julho registaram-se 13 partos em ambulâncias; nos últimos dois anos e meio a GNR registou mais de 5200 crimes de violência contra idosos; este ano a GNR recebeu 32 queixas e identificou 39 pessoas por agressões a professores, quase o dobro do ano passado; o Estado Central tem 645 entidades: 172 empresas públicas, 223 institutos, fundações e fundos autónomos, 134 comissões e unidades técnicas, 70 órgãos consultivos e equipas de missão e 46 direções gerais; a reforma do sistema eleitoral é considerada por 95% dos jovens, inquiridos num estudo do ISCSP, como a medida fundamental para combater a abstenção entre os mais novos.


 


O ARCO DA VELHA - As listas de espera do SNS para cirurgia tinham, em Julho, mais 16 990 doentes que no mesmo período do ano passado, 74 mil doentes estão à espera de cirurgia acima do tempo previsto por lei e há quase 8000 doentes oncológicos à espera de uma cirurgia.


 


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TRADIÇÕES - Na Travessa do Rosário nº16 fica  o espaço Made In Situ que se tem dedicado a mostrar peças contemporâneas baseadas na tradição portuguesa e em materiais nacionais, interpretadas pelo fundador da galeria, o designer Noé Duchaufour-Lawrance. A arte de talhar madeira para as máscaras dos Caretos transmontanos é a proposta que actualmente pode ser lá vista. As máscaras foram a base de inspiração para que Noé Duchaufour-Lawrance, tenha, em conjunto com artesãos locais, criado sete bancos decorativos que evocam as máscaras dos caretos. Os bancos coexistem no espaço da In Situ com as fotografias feitas por Charles Féger sobre a tradição dos Caretos, inserida na sua série Wilder Mann. Pode também ser visto um curto filme sobre a celebração dos Caretos, uma festividade tradicional de Trás-Os-Montes que tem nas aldeias de Vila Boa de Ousilhão, Lazarim e Podence os locais onde subsistem com maior força. Anteriormente Noé Duchaufour-Lawrance, já criou projectos baseados na tradição do barro negro de Soenga , na cortiça e em azulejos portugueses. A exposição “Caretos” na In Situ  pode ser vista até 28 de Setembro, de segunda a sexta, entre as 10 e as 18H.


 


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ROTEIRO -  Esta semana proponho algumas exposições que estão nos Museus Nacionais. Começo pelo Porto, no Museu Soares dos Reis onde, até dia 30, ainda pode ver a exposição “Entre a Luz e a Escuridão. A luta pela Liberdade”, com trabalhos fotográficos dos ucranianos Kostiantyn, Vlada Liberov (na imagem) e Yurko Dyachyshyn.  As fotografias foram publicadas em diversos meios, como The New York Times, Los Angeles Times, The Wall Street Journal, The Insider e The Independent. Uma das fotografias da dupla Kostiantyn - Vlada Liberov foi selecionada pela revista Time como uma das 100 melhores fotografias de 2022. Um pouco mais acima, em Lamego, o Museu local, no âmbito da Bienal de fotografia de Lamego e Vale do Varosa, apresenta até 28 de Outubro os trabalhos de José Zagallo Ilharco, nascido em 1860 e falecido em 1910. Com o título “Paisagem”, a mostra apresenta uma selecção dos seus melhores trabalhos que foram reunidos, a título póstumo, pelo filho em dois volumes editados em 1947  com cerca de duas centenas de fotografias. Zilharco dedicou-se especialmente à fotografia de paisagem, com enfoque em Matosinhos, Leça da Palmeira, Porto, Lamego, Guarda e Penafiel.  E em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga, até 19 de Setembro,  poderá ver a exposição “Camões e os Românticos”. Com curadoria de Alexandra Markl e Raquel Henriques da Silva a exposição agrupa um conjunto de obras que consagram o arranque do romantismo na arte portuguesa e recorda como Vieira Portuense em composições  para uma edição dos Lusíadas,  Domingos Bomtempo na música, Almeida Garrett num poema e Domingos Sequeira em pintura marcaram o arranque do romantismo na arte portuguesa.


 


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A HISTÓRIA DO MARQUÊS - Nesta semana, que se iniciou com com um sismo, trago um romance que começa com a descrição do dia do grande terramoto de Lisboa, que ocorreu a 1 de Novembro de 1755. O livro, cuja acção começa nesse dia, conta a história da vida do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, até à sua morte, “de moléstia e muitos trabalhos”, em Maio de 1782. “El-rei, Nosso Senhor, Sebastião José” é o título deste romance histórico de Ana Cristina Silva e, ao longo das suas páginas, revela as intenções e motivações pessoais e políticas deste homem que, 242 anos após a sua morte, permanece uma figura polémica e rodeada de enigmas. Na realidade, quantas vezes se tem a oportunidade de mudar um país e ao mesmo tempo derrubar os inimigos? Amado por uns, odiado por outros, considerado um visionário que transformou Lisboa e o Reino pelos que admiram a sua obra e um cruel carrasco pelos que perseguiu, o Marquês do Pombal foi protagonista de um jogo político de alto nível numa das mais importantes épocas da história portuguesa. O romance relata as memórias e as humilhações de Sebastião José antes e depois da sua ascensão ao poder, a forma como enfrentou os inimigos e os venceu, mas também o casamento, o nascimento dos seus filhos, sem esquecer os gritos suplicantes dos condenados pela ambição ou capricho do Marquês. Esta é uma história de vontade de vencer, paixão e traição desde a glória da vitória até à decadência do fim, ancorada nos factos históricos estabelecidos. A autora, Ana Cristina Silva é professora universitária no ISPA e já publicou 16 romances e um livro de contos. O novo livro, “El-rei, Nosso Senhor, Sebastião José” foi agora publicado pela Bertrand Editora.


 


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UM QUASE QUARTETO - O novo disco do pianista italiano de jazz Giovanni Guidi tem uma novidade: em quatro das sete faixas surge a presença de um quarto músico que se junta ao trio que há mais de uma década trabalha em conjunto - Guidi no piano, Thomas Gordon no baixo e João Lobo na bateria. O quarto elemento é o saxofonista James Brandon Lewis. O trio de Guidi estreou-se em 2013 com o disco “City Of Broken Dreams” mas não é a primeira vez que Guidi traz mais músicos para o acompanhar. Em 2019, no álbum “Avec Le Temps” convidou o saxofonista Francesco Bearzatti e o guitarrista Roberto Cecchetto. Giovanni Guidi vai assim, com base na formação original, procurando expandir o seu território sonoro e neste disco isso é bem audível. As faixas que têm a participação do saxofone de Lewis mostram um caminho diferente das que o trio interpreta na sua forma mais contida. Dos sete temas apenas um não é um original de Guidi - trata-se de uma versão, irresistível aliás, de “My Funny Valentine”, o clássico da dupla Rodgers & Hart. E o ponto alto da participação de Lewis é em "Luigi (The Boy Who Lost His Name)". "New Day" está disponível nas plataformas de streaming.


 


WEEKEND - Qualquer altura é boa para ir ao Cinema Ideal, perto do Camões, a minha sala preferida, obviamente sem pipocas, com boa distância entre cadeiras e sempre óptimos filmes. O Ideal faz dez anos e para assinalar a data estreia o documentário “Verdade ou Consequência”, de Sofia Marques com Luís Miguel Cintra. Se for a Madrid pode ver até 20 de Outubro, no Centro de Cultura Contemporânea Condeduque, a exposição “Madrid, Chica Almodóvar,” sobre a ligação do cineasta à cidade. E se forem ao Reino Unido e passarem por Liverpool não deixem de ir à Catedral ver um conjunto de trabalhos de Anish Kapoor que ali são mostrados até 15 de Setembro.


 


DIXIT - “Na melhor tradição republicana, o PSD e o PS estão a arranjar lenha para se queimar. Alimentam populismos e protestos. Estão a ajudar a crise em vez de tratar dela” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A virtude é sufocada pela ambição - William Shakespeare.


 


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agosto 23, 2024

A DIFÍCIL COEXISTÊNCIA DO TURISMO MASSIFICADO COM OS HABITANTES DAS CIDADES

 


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ALOJAMENTOS LOCAIS - José Luis Sanz é o alcaide de Sevilha, eleito pelo Partido Popular. Recentemente ameaçou cortar a água aos alojamentos locais que pisem o risco e não obedeçam às estritas regulamentações da autarquia. Este alcaide do Partido Popular, politicamente próximo do PSD, bem podia ter servido de exemplo a Luís Montenegro: o Primeiro Ministro, em vez de tentar minorar os problemas dos alojamentos locais, decidiu dificultar a vida aos condomínios e residentes habituais cuja vida é perturbada por eles. Se os planos do Governo forem avante, os alojamentos locais em prédios residenciais ficam fora da alçada dos moradores, que ficam sem possibilidade de solicitar o seu encerramento sem percorrerem um calvário burocrático. Os protestos contra os inconvenientes da massificação do turismo surgem num número cada vez maior de cidades. Todos percebemos já que os alojamentos locais e plataformas como o Airbnb tiraram turistas dos hotéis e trouxeram-nos para áreas residenciais. Este movimento causou um aumento do preço da habitação, gentrificação de zonas das cidades, excesso de ruído nocturno e comportamentos anti-sociais que incomodam o descanso dos habitantes habituais. O equilíbrio entre os fluxos turísticos e a vida regular das cidades é difícil e é justo reconhecer que nalguns casos as reconversões promoveram uma reabilitação de edifícios. Mas os problemas que estão agora a surgir são enormes e mexem com a vida das pessoas que vivem todo o ano no centro das cidades. Se não existir bom senso a situação vai ficar explosiva, as cidades perdem os seus encantos naturais e transformam-se num mero parque de diversões. Daí a perderem o encanto que os turistas procuram vai apenas um pequeno passo. E acaba-se a galinha dos ovos de ouro.


 


SEMANADA - Segundo o INE Lisboa recebe 12 hóspedes por habitante, o que compara com dez hóspedes por habitante em Amsterdão e nove por habitante em Barcelona; os municípios que cobram taxa turística mais que duplicaram no espaço de um ano; um estudo do Eurobarómetro revela que, para 78% dos portugueses, os últimos três anos tiveram um aumento do nível de corrupção e 96% da população considera que a corrupção  é comum no país; no final de Junho o Estado empregava 749.678 pessoas, o número mais alto desde 2011; Portugal é o 5.º pior país em matéria de desemprego jovem dentro da UE; segundo o INE nos últimos 30 anos, o número de crianças e jovens até aos 24 anos diminuiu na generalidade dos concelhos do país; no total, o país perdeu desde 1991 cerca de 990 mil crianças e jovens até aos 24 anos; a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) está a receber 55 pedidos de ajuda por dia, mais que no ano passado; o número de condenados por violência doméstica triplicou numa década e totaliza agora 1011 pessoas que estão a cumprir pena, o que significa 11% da população prisional; os portugueses pediram emprestados cerca de sete milhões de euros por dia, nos primeiros seis meses do ano, para comprar carro, num montante total superior a mil milhões de euros e mais de 80% dos ligeiros de passageiros financiados eram usados.


 


O ARCO DA VELHA - Quase metade dos doentes referenciados no ano passado para unidades de cuidados paliativos contratualizadas com o setor privado ou social morreram antes de ter vaga.


 


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SANTO ANTÓNIO E O BRASIL -  O nosso Santo António de Lisboa tem uma grande devoção em terras do Brasil, onde é considerado um dos santos mais amados e seguidos, venerado em diversos estados. Para comprovar esta devoção, o Museu de Santo António, em Lisboa, junto à Sé, apresenta uma exposição sobre a universalidade do culto a Santo António, “Diálogos de fogo: Exu, Ogun e Xangô. Santo António na mitologia afro-brasileira”,  que explora a relação entre três orixás e o santo. Organizada em parceria com a Ayô - Associação de Arte e Cultura Brasileira, a exposição decorre até 30 de Setembro e assinala também o aniversário do nascimento do Santo. A equipa do Museu de Lisboa, um equipamento da EGEAC, fomentou o diálogo entre os representantes do candomblé, incluindo Pais de Santo, e os frades da igreja de Santo António: em Setembro haverá um encontro em que estarão Pais de Santo e  Frei Jorge na mesma mesa de debate.  Aline Silva, que faz parte da Ayô sublinha que Santo António é um dos santos mais amados e cultivados no Brasil, independentemente da sua origem ou status social, venerado em diversos estados. O museu de Santo António inaugurado em 2014, resulta da transformação do anterior Museu Antoniano (criado em 1962),  e existe em duas tipologias de edifícios: o espaço original, que se pensa ter sido parte integrante da Real-Casa de Santo António, e o novo espaço, inserido num típico edifício de rendimento pombalino.  A Igreja-Casa de Santo António foi, de 1326 a 1741, a Casa Consistorial, onde se celebravam os atos de governo da cidade, onde se reunia o Senado e onde estavam guardados os cofres da Câmara. Fica no Largo de Santo António da Sé, 22 e está aberto de terça a domingo, das 10 às 18.


 


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ROTEIRO - No Porto, no Centro Português de Fotografia, pode ver a exposição “Despojos de Guerra”, de Leonel de Castro, até 20 de Outubro (na imagem). Apresentado como um ensaio de fotografia documental, este ensaio fotográfico resulta do trabalho que o fotojornalista desenvolveu com a Associação dos Deficientes das Forças Armadas e com militares portugueses e africanos que combateram em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique  nos três teatros da guerra colonial, entre 1961 e 1974. São imagens duras apresentadas de uma forma que acentua o dramatismo. Uma das melhores exposições de fotografia portuguesa do ano. Também no Porto, mas em Serralves, a exposição “Pré/Pós - Declinações Visuais do 25 de Abril” . Com curadoria de Miguel Von Hafe Pérez, a exposição apresenta cerca de 300 trabalhos de meios tão variados como a pintura, a escultura, a fotografia, o filme, a gravura, a instalação, o cartaz e a edição de livros e revistas criados entre 1970 e 1977, mostrando a obra de um conjunto de artistas que marcam a época: Francisco Relógio,  José Escada,  Eduardo Batarda, Gracinda Candeias,  Mário Botas,  Luísa Correia Pereira, João Vieira, Sérgio Pombo e Jasmim, entre outros. Em Coimbra, no antigo refeitório do Museu de Santa Cruz, decorre até 26 de Outubro uma exposição organizada pela Underdogs, que apresenta obras de onze artistas convidados que apresentam trabalhos em torno da comida e das refeições. Finalmente em Faro, na antiga Fábrica da Cerveja decorre até final de Agosto uma mostra de fotografia que inclui dezena e meia de exposições, numa iniciativa da Associação CC11 todos os dias das seis da tarde até à meia noite.


 


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UM ROMANCE  DESAFIANTE - “Eles não sabem, mas estou bem aqui, com a horta e os cães, os atalhos e as minhas pernas. A cancela está sempre aberta. Não tenho medo deles. Cochicham. Sabem que escondo uma espingarda na tulha, uma velha Sarasqueta de calibre 12. Acham que sou louca porque frequento o cemitério, falo em voz alta diante da campa da minha mãe, bebo, rio sozinha e quase não me dou com ninguém. Também não corto o cabelo desde que a minha velha morreu. Estou mal da cabeça, dizem. No máximo estou louca de sanidade. Conheço a minha sombra e a minha verdade” . Estas são as primeiras linhas de “A Forasteira”, de Olga Merino, uma das escritoras mais relevantes do panorama literário espanhol. Distinguida com o Prémio Vargas Llosa, Olga Merino conta a história de Angie, que  vive retirada numa remota aldeia do Sul de Espanha, na antiga casa da família, numa encruzilhada entre o presente e o passado, dividida entre os seus fantasmas e a memória de um amor vivido com um artista inglês na Londres de há décadas. A descoberta do corpo do mais poderoso proprietário de terras da região leva Angie a desenterrar velhos segredos de família e a descobrir as ligações, cumplicidade e silêncios que unem todos os habitantes da aldeia. Mais não conto, mas deixo a ideia de que esta é uma história tensa e emocionante sobre a liberdade e a capacidade de os seres humanos resistirem ao tempo. Edição Quetzal, tradução de  Margarida Amado Acosta.





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MAIS UM PIANO NÓRDICO - Soren Bebe é um pianista dinamarquês que nos últimos anos tem ganho destaque através das actuações e gravações com o seu trio, que integra o baixista Kasper Tagel e o baterista Anders Mogensen nalgumas faixas e Knut Finsrud noutras.  Com sete álbuns já na carteira, este ano  o trio adicionou-lhe mais um, “First Song”. Na realidade trata-se de uma compilação de 10 temas publicados como singles digitais ao longo dos últimos nove anos, a maioria da autoria de Soren Bebe, um composto por todos os elementos do trio, outro, a faixa-título, que é uma versão de “First Song” de Charlie Haden e outro ainda baseado numa composição de Maurice Ravel, “Pavane for a Dead Princess”. Na realidade os temas agora reunidos num álbum são provenientes das sessões de gravação dos últimos quatro álbuns de originais. A forma de tocar de Bebe é frequentemente associada a outro músico nórdico, Tord Gustavsen, mas quando se pergunta a Soren quais são as suas maiores influências ele responde que são Oscar Peterson, Keith Jarrett e Aaron Parks. A sua forma de tocar associa a simplicidade com um grande sentido de melodia, por vezes quase melancólico. Vale bem a pena procurar a música de Soren Bebe - está disponível nas plataformas de streaming.



SUGESTÕES FORA DE PORTAS - Hoje falo de exposições de fotografia. Em, Londres, na Photographer 's Gallery, pode ver o trabalho do sul-africano Ernest Cole e da mexicana Graciela Iturbide. A Galeria fica no nº18 de Ramillies Street, junto a Oxford Street. Em Paris não perca a Fondation Henri Cartier-Bresson onde poderá descobrir o trabalho de um dos mestres da fotografia do século XX. É o número 79 da Rue des Archives. Em Madrid decorre até 29 de Setembro a Photo España com um programa aliciante de 84 exposições espalhadas pela cidade sob o tema “Perpetuum Mobile” -   todas as informações em phe.es . E em Amsterdão vale a pena conhecer o FOAM, uma instituição dedicada à fotografia que, até 11 de Setembro dedica a sua exposição principal às implicações da Inteligência Artificial na fotografia - fica na Keizersgracht 609.


 


DIXIT - “O que nos interessa é um mercado de turismo que dê valor à nossa identidade e não de low cost” - Augusto Mateus


 


BACK TO BASICS - “A forma de criar algo de novo é deixar de falar e começar a fazer coisas” - Walt Disney





A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




agosto 16, 2024

A PARTIDARIZAÇÃO DO ESTADO - UM ESTIGMA DE TODOS OS PARTIDOS QUE PASSARAM PELO PODER

Antes de mais deixem-me registar que esta é a Esquina do Rio número 1000, sempre no Jornal de Negócios.


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AS PESSOAS DE CONFIANÇA - Já que estamos nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974 vale a pena falar de um dos problemas que se tem acentuado na sociedade portuguesa: o controlo do aparelho de Estado por facções partidárias. Cada vez que muda o Governo começa um rol de mudanças de dirigentes de vários escalões. Muito raramente é feita uma análise do trabalho efectuado com base em critérios objetivos. Muda-se para que entre alguém do partido vencedor ou lá próximo, o anterior sai e na máquina ficam incontáveis casos de pessoas que foram entrando ao longo de anos, uns de uma facção a puxar para um lado, outros de outra facção obviamente a puxar para o outro lado. Claro que há excepções mas creio que esta é uma das causas da ineficácia da máquina administrativa, da incapacidade em cumprir prazos e objetivos e, pior ainda, da ausência de qualquer perspectiva estratégica continuada. Tudo é conjuntural e efémero, dependendo de quem está no poder, que por definição numa democracia é transitório. No aparelho de Estado não existe aquilo a que se chama “accountability”, o hábito dos responsáveis prestarem contas, responsabilizar-se pelas suas acções, mostrarem compromisso com os resultados e terem uma visão estratégica. Em vez disso procuram-se culpados quando alguma coisa corre mal ou, pior ainda, nem sequer se olha para os resultados e responsabilidades e despacha-se o incumbente para colocar alguém “de confiança”. Temo bem que o que se passou no Ministério da Saúde, com a demissão de Fernando Araújo da Direcção Executiva do SNS, que estava a iniciar uma reorganização crucial para servir melhor os utentes, seja o pior exemplo desta situação nos últimos anos. O resultado está à vista.


 


SEMANADA -  Segundo o advogado Garcia Pereira actualmente realizam-se em Portugal mais escutas telefónicas que na Alemanha, que tem oito vezes mais habitantes; entre 1977 e 2023 houve 641 multas aplicadas pelo Tribunal Constitucional aos partidos políticos, num total de 5,7 milhões de euros, dos quais ainda falta pagar 1,2 milhões; nos dois últimos anos duplicaram os inquéritos  sobre branqueamento de capitais, que passaram de 524 para 920 em 2023; o Conselho Superior do Ministério Público suspendeu sete procuradores em 2023; um estudo da Universidade do Algarve indica que os jovens portugueses entre os 16 e os 32 anos passam em média 141 minutos por dia nas redes sociais; em Portugal há 4,7 milhões de pessoas que subscrevem pacotes de telecomunicações;  4346 milhões de euros é o montante de crédito ao consumo atribuído nos seis primeiros meses do ano, mais 17% que no período homólogo; a Polícia Judiciária abriu cerca de três mil inquéritos relacionados com criptomoedas desde 2022; em 2023 a fatia orçamental do Governo para a ciência recuou a valores de 2014; a PSP registou  9285 infrações na época passada em estádios e pavilhões desportivos, mais 22,5% face a 2022/23 e indica que foram expulsos 300 adeptos e 129 ficaram impedidos de assistir a eventos. 


 


O ARCO DA VELHA - Existem cerca de 400 órgãos consultivos na esfera do Estado e dois anos depois de o Conselho Económico e Social ter recomendado a sua redução para cortar despesas e evitar redundâncias nada foi feito nesse sentido.


 


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DE BRAÇO DADO COM A MODA - Já aqui escrevi sobre a exposição de moda de Coco Chanel, no Centro Cultural de Cascais. Hoje volto à exposição, pegando no seu nome - “Além da Moda”. De facto, a exposição, que está no Centro Cultural de Cascais até 3 de Novembro, com curadoria de Maria Toral, vai muito  além das roupas, sapatos e acessórios concebidos por Coco Chanel. Mostra outros lados do seu trabalho, como criadora do guarda roupa de várias produções em palco, mas sobretudo permite ver a sua relação com artistas seus contemporâneos, de Picasso a Jean Cocteau, passando por Man Ray - a imagem que ilustra esta nota é precisamente um retrato de Pablo Picasso feito por Man Ray. Só pelas fotografias de Man Ray vale a pena visitar a exposição: além deste retrato de Picasso, há outros, da própria Coco Chanel, mas também de Salvador Dali, Óscar Dominguez e de Marcel Duchamp. Além das fotos de Man Ray há um retrato de um notável grupo de membros do Dadaísmo feito por Alfred Stieglitz  e uma série de fotografias de François Kollar que mostram Coco Channel no seu apartamento do Ritz, em Paris. Podem ainda ser vistos os figurinos desenhados por Chanel para uma produção dos ballets Russes idealizada por Salvador Dali - o único artista de quem ela possuía um quadro. Outra relação nascida no palco foi a produção do ballet “Le Train Bleu”, também dos Ballets Russes, com cortina e cenários de Picasso e figurinos de Coco Chanel. Foi uma época de ouro em que tantos talentos se aproximaram e completaram. Na exposição estão também vários estudos e desenhos de Picasso, de quem é aliás a citação com que termino: “O objectivo da arte é tirar o pó da vida diária das nossas almas”.


 


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ROTEIRO -  A exposição “PoPalolo” de António Palolo, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, pode ser vista no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, até dia 15 de setembro. A exposição está aberta de  terça a domingo, entre as 14 e as 19h e tem entrada gratuita (na imagem). Palolo, precocemente desaparecido em 2000, com 54 anos, começou a expôr em 1964. Influenciado por múltiplas correntes da arte contemporânea, nomeadamente a Pop, António Palolo é um nome incontornável da arte portuguesa. Em Coimbra Miguel von Hafe Pérez, organizou uma mostra antológica que inclui 43 trabalhos, de pintura, desenho e colagem e que permite a quem desconhece a obra de Palolo ter uma boa visão do seu trabalho. Um pouco mais acima destaque para a XXIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, que decorre até 30 de Dezembro. Esta edição apresenta 160 obras de 120 artistas de 20 países. O tema central desta Bienal é a Liberdade e além das exposições decorre um ciclo de debates e conferências. A direcção artística desta edição da Bienal de Cerveira é de Helena Mendes Pereira e Mafalda Santos. A sul, no Convento dos Capuchos, em Almada, pode ser vista até 14 de Setembro a exposição “Quando soubermos ouvir as árvores”, de Ilda David.


 


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A AVENTURA DAS ÍNDIAS - Este ano completam-se 500 anos sobre a morte de Vasco da Gama e é uma boa altura para descobrir “A Última Cruzada”, um livro do historiador britânico Nigel Cliff que relata as viagens do  navegador português. Cliff aborda as pioneiras explorações portuguesas como o ponto de viragem na luta entre a cristandade e o Islão. O livro conta como a 8 de Julho de 1497 um jovem capitão de 28 anos navegou de Portugal, circum-navegou África, atravessou o oceano Índico e descobriu o caminho marítimo para a Índia e, com isso, o acesso à riqueza do Oriente. Foi a mais longa e perigosa viagem da História dessa época - 317 dias e 24 mil milhas náuticas. Em duas viagens num período de seis anos, Vasco da Gama travou uma batalha que viria a mudar o destino de três continentes no meio de uma história de espiões, intrigas e traições. Nigel Cliff assina um épico histórico que se estende ao longo dos tempos e recorre a diários inéditos de alguns marinheiros e, sobretudo,  a uma série de cartas – até agora desconhecidas – trocadas entre Vasco da Gama e um rei de Kerala. Cliff  considera que os exploradores portugueses tinham um objectivo verdadeiramente profético: estabelecer laços com os cristãos orientais, desferir o golpe de misericórdia no poder do Islão e preparar terreno para a conquista de Jerusalém aos infiéis naquela que seria um ponto de viragem na luta entre Cristandade e Islão. A “cruzada” foi tão importante que criou uma linha divisória entre as eras históricas dos muçulmanos e dos cristãos – conhecidas, no Ocidente, como as eras medieval e moderna. Agora que o mundo olha mais uma vez para leste, “A Última Cruzada” oferece uma chave para compreender rivalidades culturais e religiosas com séculos de existência. Edição D. Quixote.


 


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UMA SURPRESA - O novo disco do brasileiro  Milton Nascimento, que ele considera a sua derradeira gravação, é uma deliciosa surpresa feito a meias com a contrabaixista e cantora de jazz norte-americana Esperanza Spalding. Milton vai fazer 82 anos daqui a poucas semanas e pouco tempo depois Esperanza fará 40 anos. “Milton + Esperanza”, o nome do novo disco, é o resultado de 15 anos de amizade e admiração recíprocas. O ponto em comum entre os dois, que os uniu inicialmente, é a música de Wayne Shorter, com quem ambos trabalharam e admiram. O disco, com 16 temas, apresenta novas versões de composições anteriormente gravadas por Milton Nascimento, mas também versões de temas dos Beatles, Wayne Shorter, Michael Jackson, além de novos temas de Spalding, que canta em quase todas as faixas e produziu o disco. No álbum colaboram ainda Paul Simon, a cantora de jazz Dianne Reeves, Lianne La Havas, Maria Gadú, Tim Bernardes e o saxofonista e flautista de jazz Shabaka Hutchings, entre outros. O álbum inclui também “Um Vento Passou (para Paul Simon)” uma canção inédita composta por Milton, em que ele canta com Esperanza. Ao longo da sua carreira Milton Nascimento lançou mais de 50 discos, entre os quais “Clube da Esquina”, o seu registo de 1972 que é considerado como a sua obra prima. Milton Nascimento colaborou com nomes como Elis Regina, Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque, James Taylor ou Cat Stevens e, claro, Wayne Shorter com quem gravou no álbum “Native Dancer” de 1974. “Milton + Esperanza” está disponível nas plataformas de streaming.


 


IDEIAS AVULSAS -  Três sugestões. A primeira é procurar no Spotify, ou numa das outras plataformas de streaming, as playlist que David Byrne vai publicando regularmente na sua “David Byrne Radio”. A mais recente chama-se “Classic Fun For Summer” e tem-me acompanhado nos últimos dias. A segunda sugestão, para quem se interessa por botânica, é o livro “Eu vi uma flor selvagem”, o herbário do astrofísico Hubert Reeves. E a terceira é uma boa surpresa que me fizeram: uma salada fria de favas, com queijo feta aos bocados, tomate seco em pedaços, cubos de bacon frito, tudo temperado com poejo, azeite, vinagre balsâmico, sal e pimenta. Acompanha com um pedaço de pão de centeio e um rosé.


 


DIXIT - “PS e PSD (...) também têm de comum uma enorme ineficácia e um estranho hábito de uso e abuso do poder político” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Ser discreto no que dizemos é melhor que ser eloquente” - Sir Francis Bacon



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agosto 09, 2024

ISTO NÃO ESTÁ NADA FÁCIL

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O TURISMO - Uma coisa que me deixa sempre espantado é o facto de muitos políticos em geral, e vários autarcas em particular, não serem capazes de ver a realidade do que se passa à sua volta. Nas últimas semanas tem crescido o desagrado contra a invasão desregulada de turistas e tudo o que arrastam atrás de si:  especulação imobiliária, sobrecarga nos transportes e serviços públicos, descaracterização dos locais, falta de limpeza nas ruas e incómodos para os residentes habituais, além de excesso de tuk tuks e TVDEs, provocando o caos no trânsito. Os responsáveis do Porto, Lisboa e Sintra só acordaram para o problema e anunciaram querer tomar medidas depois de um crescendo de protestos. Agora falam, finalmente e com atraso, em limitar o acesso a certas zonas das cidades e regulamentar algumas actividades. Sinceramente não percebo como não viram o que estava à frente dos seus olhos e porque não actuaram antes de os protestos os incomodarem. O que se passou em Sintra é exemplar: um grupo de cidadãos organizou-se, pagou do seu bolso a impressão de materiais visíveis por toda a cidade em português e inglês e conseguiu atenção mediática. Num recente artigo o economista Ricardo Paes Mamede recorda que o anterior Presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, dizia não saber “o que é ter turistas a mais” - pensamento que infelizmente continua a ser seguido por muita gente que devia ter outra sensibilidade. Centrar uma cidade no turismo equivale a só ter em conta o presente e esquecer o futuro, equivale a não ter uma estratégia de bem estar para os residentes, e ter apenas como objectivo a cobrança de impostos, taxas e taxinhas. Termino com a pergunta que é o título do artigo de Ricardo Paes Mamede: Quando vamos assumir que o turismo se tornou um problema?


 


SEMANADA - As queixas sobre comunicações eletrónicas e serviços postais cresceram 39% no primeiro semestre do ano; a dívida dos bingos ao Estado já ultrapassou os 6,1 milhões de euros; numa década o número de doutorados em Portugal cresceu 73% e existem agora mais de 43.000; mais de 16% dos professores querem a reforma antecipada;  as queixas por violência doméstica apresentadas à PSP no primeiro semestre totalizando 7706 casos, dos quais mais de três mil foram de homens; este ano já morreram vítimas de violência doméstica 10 mulheres e dois homens; o lucro semestral das empresas cotadas na Bolsa portuguesa é o maior de sempre; o número de trabalhadores em lay-off  em Junho deste ano aumentou 63% face ao mesmo mês do ano passado; segundo o INE o rendimento líquido médio do contribuinte português é de cerca de 890 euros por mês; o custo do arrendamento de uma casa em Lisboa e Porto já é superior ao de Madrid; 665 médicos reformados estão a trabalhar no SNS; em dois meses o SNS já transferiu 42 grávidas para unidades privadas; as grávidas de Leiria têm que fazer 200 kms até ao Potto para terem assistência ao parto num hospital público;  no início da semana o Hospital das Caldas da Rainha tinha a urgência fechada e uma grávida que sofreu aborto espontâneo e tinha uma hemorragia teve de esperar à porta pelos bombeiros, já que o hospital não a queria admitir.


 


O ARCO DA VELHA - Até final de 2025 cerca de 1500 edifícios públicos deviam ter obras para garantir a acessibilidade de pessoas com deficiências ou incapacidade, estão inscritos 53 milhões de euros do PRR para esta acção, mas os trabalhos foram concluídos até agora em apenas seis edifícios.


 


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UMA VISITA À GULBENKIAN - Com grande parte das galerias privadas de arte contemporânea encerradas em Agosto esta é uma boa oportunidade para visitar a Gulbenkian, enquanto não abre o novo jardim e o remodelado Centro de Arte Moderna.. Mas no edifício principal há muito para ver, a começar pela colecção privada de Calouste Gulbenkian que abrange pintura, escultura e artes decorativas, desde o Antigo Egito até à Arte Nova. Na Galeria de exposições temporárias continua até 26 de agosto “Siza”, uma exposição dedicada à obra de um dos grandes nomes vivos da arquitetura e urbanismo mundiais, Álvaro Siza Vieira, que reúne material original dos seus arquivos, bem como uma série de obras de referência para o seu trabalho. Outra exposição mostra obras de autores representados na sua coleção de livros europeus, centrada em dois pioneiros do Humanismo italiano: Francesco Petrarca e Giovanni Boccaccio. Apresentada em duas vitrinas do Museu, esta exposição constitui-se como uma ocasião para refletir sobre a forma como as obras de Petrarca e Boccaccio foram consideradas e ilustradas em dois períodos históricos: no Renascimento, época de transição do manuscrito iluminado para o livro impresso; e no século XVIII, marcado pelo imaginário da libertinagem e da festa galante (na imagem) . E até 9 de Setembro poderá ainda ver  o retrato de Filipe IV, por Diego Velázquez, cedido pela Frick Collection de Nova Iorque.


 


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ROTEIRO -  Na galeria This Is Not A White Cube ( Rua da Emenda 72) Susana Cereja apresenta até 14 de Setembro  17 obras, na maior parte inéditas, sob o título “Matriz” (na imagem). Até 6 de outubro o Centro Cultural de Cascais, em parceria com a zet gallery de braga, apresenta a exposição “A Geography of Mysteries”, dedicada à obra de Volker Schnüttgen artista alemão radicado em Portugal desde a década de 1990.  Em Coimbra, no antigo refeitório do Museu de Santa Cruz, decorre até 26 de Outubro uma exposição organizada pela Underdogs, que apresenta obras de onze artistas convidados que apresentam trabalhos em torno da comida e das refeições. Em Serralves, com curadoria de Inês Grosso, Sara Bichão apresenta até 3 de Novembro a exposição Lightless (quando não há luz). A exposição reúne um grupo de trabalhos produzidos durante uma série de residências realizadas ao longo de mais de um ano e a artista, com o apoio da equipa do museu e do parque, transformou uma pequena sala localizada na quinta da Fundação de Serralves num atelier onde mostra como se  adaptou ao ambiente do museu e às mudanças sazonais que marcam o  quotidiano da natureza.


 


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O ESTOICISMO  - Este tempo estival é bom para descobrir a História. Talvez seja boa ocasião para descobrir o mundo do imperador romando Marco Aurélio e a filosofia estóica que o inspirou. Marco Aurélio governou o Império Romano de 161 a 180 D.C, mas foi pelo seu caderno de notas pessoais, escrito para si mesmo, que ficou conhecido. Esse caderno tornou-se um clássico sob o nome “Meditações”, e reúne um conjunto de ensinamentos baseados na filosofia estóica, que defende a necessidade de «viver em acordo com a Natureza», isto é, de viver racionalmente e que pode ser um exemplo para os nossos tempos. Para o imperador, o Estoicismo, uma corrente filosófica com origem na Grécia que se tornou muito popular em Roma, não era apenas um interesse intelectual, mas uma forma de estar, que influenciava todos os aspetos da sua vida, incluindo o seu papel enquanto chefe máximo do maior império do Ocidente. Donald J. Robertson é um psicoterapeuta cognitivo-comportamental, autor de “Stoicism And The Art of  Happiness” e o seu mais recente livro,  “Marco Aurélio - O Imperador Estóico”, editado originalmente este ano pela Yale University Press, parte da leitura de “Meditações” para se desenvolver como  uma novela biográfica do imperador, baseada em fontes antigas, como a História Romana, de Dião Cássio, e as cartas trocadas entre o governante e o seu tutor de retórica, Marco Cornélio Frontão, para revelar «Marco Aurélio, o homem» e mostrar como este aplicou a filosofia estóica que familiares e tutores lhe ensinaram aos desafios que teve de enfrentar enquanto imperador. Edição Temas e Debates.


 


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O DISCO ESQUECIDO  - Em 1985 Nina Simone atravessava uma fase complicada da sua carreira. Apesar de ter nessa altura quase 30 álbuns editados, de tocar em todo o mundo sempre com grande audiência, no seu próprio país ainda não tinha alcançado um disco de ouro e as vendas dos seus álbuns eram reduzidas. Desde o início dos anos 50, quando deixou de ser apenas uma pianista de jazz e se assumiu como cantora, Nina teve uma carreira com várias fases, passou por numerosas editoras e a partir de meados dos anos 70 viveu fora dos Estados Unidos e em diversos países até estabilizar em França, onde morreu em 2003. A edição original de “Nina’s Back” tinha na capa uma fotografia sua tirada junto a um lago, fotografada de costas. O álbum, gravado em 1985 com o produtor Eddie Singleton, tem 8 temas, num total de  35 minutos, e foi agora reeditado com uma nova capa, mas mantendo o alinhamento original. Mostra uma Nina Simone disposta a conquistar uma audiência mais alargada, adoptando o estilo musical da época, com arranjos baseados na soul e nos R&B. No disco Nina Simone tocou piano e cantou, os coros foram da Waters Family, e a acompanhá-la estavam o guitarrista de blues Arthur Adams, o percussionista Luke Metoyer e um trio de metais com Ray Brown no trompete, Alan Barnes no saxofone e George Bohanon no trombone. Na época o álbum teve pouca divulgação e passou quase despercebido. Agora a Verve resolveu reeditar esta preciosidade,  que inclui novas versões de temas anteriormente gravados, como “I Sing Just To Know That I’m Alive”, “Fodder On Her Wings” ou um notável “For A While”. A nível vocal há também diferenças e a sua forma de cantar em “You Must Have Another Lover”, a faixa final, abre novos caminhos que ela foi seguindo. Disponível nas plataformas de streaming.


 


WEEKEND - Eis o romance policial deste  verão, o novo livro  da islandesa Yrsa Sigurdardóttir, “A Consequência”, já editado pela Quetzal. Vale a pena o novo disco do guitarrista Pat Metheny, a solo, “Moon Dial”,  uma mistura de temas originais e de versões de canções de nomes como Chick Corea, Lennon e McCartney e uma incursão em West Side Story, disponível em streaming. A terminar, um petisco: tomate do bom em rodelas grossas, temperado com azeite e sal marinho e com anchovas e boquerones por cima, mais umas azeitonas verdes das bem gordas. Acompanha com o melhor pão que conseguirem encontrar e um verde branco - pode ser o alvarinho Deu La Deu, que nunca desilude.


 


DIXIT - “O turismo pode desempenhar um papel fundamental na promoção do desenvolvimento económico, mas os seus impactos são muitas vezes económica, social e ambientalmente desequilibrados, e os benefícios nem sempre revertem a favor das comunidades locais” - relatório da OCDE


 


BACK TO BASICS - “Aqueles que são eleitos para governar cidades e vilas não se deviam esquecer que os votos das eleições locais vêm dos residentes e não dos visitantes” - anónimo