outubro 27, 2023

GUTERRES, O PATRONO DOS TERRORISTAS

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O PANTANOSO - Quando António Guterres se demitiu de Primeiro-Ministro, depois de uma estrondosa derrota autárquica, afirmou que se tinha criado um pântano político sob o seu Governo. Cá para mim ele deve gostar de pântanos porque acabou de criar um novo esta semana com as suas declarações sobre o ataque do Hamas a Israel. O discurso de abertura proferido por Guterres, enquanto Secretário Geral da ONU no Conselho de Segurança da organização, afirmou, preto no branco, que o ataque terrorista do Hamas e Israel a 7 de Outubro “não nasceu do nada”, associando-o à situação vivida pelos palestinianos. Ou seja procurou encontrar justificações para um massacre. Alguém acredita que o Hamas não sabia que Israel iria reagir de forma dura depois do ataque que sofreu? Este foi apenas o mais recente de tantos ataques que  aconteceram ao longo dos anos, como a situação que em 1967 deu origem à Guerra dos Seis Dias ou à guerra do Yom Kippur em 1973. Israel é atacada desde o dia em que nasceu, em 1948. O Hamas é um grupo considerado terrorista por grande parte da comunidade ocidental, e, se falamos do que acontece à população civil , é bom não esquecer que desde há muitos anos o Hamas utiliza os civis palestinianos como escudo humano. Para mim é impensável justificar as atrocidades do Hamas em nome da defesa do povo palestiniano. Guterres acabou de se auto-excluir da possibilidade de ser o negociador da paz para se colocar como justificador da guerra.  Teresa de Sousa  escreveu numa newsletter do “Público” algo com que estou completamente de acordo: “uma certa esquerda europeia tenta apagar ou ignorar as atrocidades sem nome cometidas pelo Hamas no dia 7 de Outubro, justificando-as com a defesa do povo palestiniano, sempre contra um Ocidente democrático que nunca hesitam em culpar por todos os males existentes à face da Terra.” 


 


SEMANADA - O número de pessoas sem abrigo aumentou 78% em quatro anos; há 1,7 milhões de portugueses em situação de pobreza, com um rendimento mensal que não chega aos 600 euros mensais; Portugal terá recebido quase 121 mil imigrantes em 2022, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o valor mais elevado dos últimos nove anos, quatro vezes mais do que o registado em 2014; os portugueses gastam 4,4 milhões de euros por dia em apostas desportivas; o investimento público em Portugal previsto no orçamento para 2024 é o terceiro mais baixo entre os países da zona euro; em 2028 a economia portuguesa não deve ir além da 11ª posição entre os 20 países da zona euro e da posição 138 entre 190 países a nível global; segundo o director da Faculdade de Economia do Porto, Óscar Afonso, ficaram por executar quase 6 mil milhões de euros do investimento público previsto para o período de 2016 a 2023, o que se traduz numa deterioração cada vez maior dos serviços públicos, com graves prejuízos para cidadãos e empresas; um em cada quatro portugueses pede a reforma antecipada, na maior parte dos casos no final do subsidio de desemprego; as previsões apontam para que nesta década se reformem cinbco mil médicos em Portugal; de 1996 a 2022 nunca a taxa de execução de investimentos na saúde chegou sequer aos 60% e em 2022 ficou apenas em 37%; metade da frota automóvel do Estado tem mais de 16 anos; os carros que são abatidos em Portugal tem em média 24 anos; as novas regras do IUC abrangem três milhões de veículos; nos primeiros seis meses deste ano o consumo de combustível para veículos foi o mais elevado desde 2010; o preço dos combustíveis já subiu 7% desde o início do ano.


 


O ARCO DA VELHA -Segundo a Pordata, o Estado recebeu em média 8759 euros por pessoa no ano passado em impostos e contribuições incluindo IRS, IVA, descontos para a Segurança Social e demais impostos e contribuições sociais.


 


04_Ramones, Boston, Massachusetts, 1981 © Michael


PARA ALÉM DO PUNK - Michael Grecco é um fotógrafo norte-americano que entre o final dos anos 70 e o início dos anos 90 acompanhou o nascimento do punk e as alterações e ramificações que foi tendo no campo da música. Registou imagens dos Clash, Johnny Rotten (dos Sex Pistols), Ramones (na fotografia aqui reproduzida), Wendy O. (dos Plasmatics), Dead Kennedys, Siouxsie and the Banshees, Adam Ant, Billy Idol, lene Lovich, David Byrne (dos Talking Heads) ou Aimee Mann, entre muitos outros. São mais de uma centena de fotografias do universo rock , feitas em Nova Iorque e Boston. A exposição “Days Of Punk” é uma iniciativa da Fundação D. Luís e estará patente até 28 de Janeiro no Centro Cultural de Cascais,. Para além das fotografias a exposição inclui ainda objectos da colecção pessoal de Grecco além de uma componente de vídeo com imagem de arquivo também captadas por Grecco e que inclui alguns depoimentos de músicos e outros personagens da cena musical da época. Michael Grecco é o autor do  livro “Punk, Post Punk, New Wave: Onstage, Backstage, In Your Face 1978-1991”, que agrupa as imagens expostas e que está à venda na loja do Centro Cultural de Cascais. Outro destaque da semana vai para “Zonas de Transição”, que reúne 150 obras da colecção da sociedade de advogados PLMJ, iniciada em 2001 e que é já um dos mais importantes acervos de arte contemporânea, abrangendo 40 anos de produção de artistística do universo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e mais de mil obras. A  seleção apresentada nesta exposição integra 90 artistas de gerações diferentes, de diversos países, de núcleos da coleção que incluem pintura, desenho, livro de artista, escultura, instalação, fotografia e vídeo. Comissariada por João Silvério, que é o curador actual da colecção, co-organizada com a EGEAC, “Zonas de Transição” fica até 7 de Janeiro no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional. Termino sugerindo uma visita à Sociedade Nacional de Belas Artes, onde de 25 a 29 decorre a sexta edição da Drawing Room Lisboa, uma feira de arte dedicada ao desenho contemporâneo e que conta com obras de 65 artistas, apresentadas por 23 galerias.


 


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O REGRESSO DO ROCK - Se me dissessem nos anos 70 que, quase a meio da segunda década do século XXI, os Rolling Stones gravariam um novo disco de originais acharia que alguém estava a delirar. Mas a verdade é que 61 anos depois de terem começado a sua carreira em Londres, os Rolling Stones continuam vivos a fazer rock e já venderam mais de 200 milhões de discos ao longo da sua carreira. Mick Jagger tem 80 anos, Keith Richards 79 e Ron Wood 76. O quarto Rolling Stone, o baterista Charlie Watts, morreu em 2021 e Steve Jordan, cuja colaboração com os Stones já vem de longe, tem sido o seu substituto. É neste cenário que nasce “Hackney Diamonds”, o primeiro disco de gravações originais dos Stones em 18 anos. E desta vez trouxeram convidados como  Lady Gaga, Stevie Wonder, Paul McCartney, Elton John e também o regresso de Bill Wyman à banda, três décadas depois de ter saído. São 12 temas, 50 minutos de música. Várias publicações da área musical não hesitam em dizer que “Hackney Diamonds” é o melhor disco dos Stones desde “Some Girls”, de 1978. É muito engraçado perceber que a colaboração de Paul McCartney surge em “Bite My Head Off”, uma enérgica canção rock em que o ex - Beatle toca baixo. O disco começou a ser preparado em 2020, foi interrompido pela pandemia e retomado em 2022, tendo as gravações decorrido até Janeiro de 2023. Foram gravados 23 temas , o que deixa a possibilidade de os 11 temas não incluídos em “Hackney Diamond” ainda serem utilizados num futuro disco. A derradeira faixa do álbum é a única que não foi escrita pelos Stones, trata-se de um original de Muddy Waters, “Rolling Stones Blues”, que, reza a lenda, esteve na origem da relação entre Jagger e Richards e o nascimento do grupo. É também uma homenagem a Charlie Watts, o baterista que cruzava o rock, os blues e o jazz e que Jagger tem evocado constantemente desde a sua morte. O mais curioso de “Hackney Diamonds” é o facto de ser um disco puramente de rock and roll, contemporâneo na produção de Andrew Watt, sem ser revivalista, mas mantendo vivas as origens e a tradição musical da banda. Mais interessante ainda é a qualidade das canções, num equilíbrio entre ritmo, energia e serenidade. Muitos serão os cépticos, mas não custa nada pegarem numa das plataformas de streaming e ouvirem este “Hackney Diamonds” e, depois , tirarem as próprias conclusões. Eu, por mim, sou dos que considera que há muito tempo os Rolling Stones não faziam um disco tão bom.


 


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PARA NÃO ESQUECER A HISTÓRIA - Nestes tempos de revisionismo histórico e de querer confundir o que foi o progresso e a descoberta com perseguição e destruição, vale a pena regressar a uma das mais importantes obras da literatura portuguesa: “Peregrinação”, de Fernando Mendes Pinto. Considerado por nomes como António José Saraiva e Óscar Lopes como “o maior tesouro imaginário da literatura portuguesa”, este livro é uma aventura por mares nunca dantes navegados. "Peregrinação" é, um dos grandes clássicos da literatura de viagens. Editada originalmente em 1614, tornou-se logo num sucesso editorial e, ainda hoje, é um dos livros portugueses mais traduzidos no mundo. Só no século XVII, terão circulado pela Europa, em diversos idiomas, dezanove edições. Este é  também um documento histórico para se conhecer a vida e os costumes dos povos orientais no século XVI, bem como os meandros da presença portuguesa na Ásia, descrita sem condescendências por Fernão Mendes Pinto. A presente edição da Assírio & Alvim, celebra os 480 anos da chegada dos portugueses ao Japão e tem introdução, fixação do texto e notas de Sérgio Guimarães de Sousa. O autor de “Peregrinação”, Fernão Mendes Pinto nasceu em Montemor-o-Velho, em data incerta entre 1509 e 1514, e faleceu perto de Almada a 8 de julho de 1583. Tinha um forte espírito aventureiro que em 1537 o levou a embarcar numa armada composta por cinco naus e capitaneada por D. Pedro da Silva, rumo à Índia. Foi assim que começaram as suas aventuras, cheias de de peripécias, por geografias diversas. Ao longo dessa viagem foi um pouco de tudo: soldado, escravo, corsário, etnólogo à medida do seu tempo e até  diplomata. Regressou definitivamente a Portugal em setembro de 1558 e, na década de 60, estabeleceu-se numa quinta em Almada, onde redigiu as suas memórias sob o título Peregrinação, publicadas postumamente.


 


DIXIT - “Um sistema com círculos uninominais de candidaturas e um círculo nacional de compensação iria ajudar a diminuir a abstenção” - Eduardo Ferro Rodrigues sobre a revisão do sistema eleitoral.


 


BACK TO BASICS - “A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação” - Eça de Queiroz




outubro 20, 2023

A FALTA DE JEITO É TERRÍVEL EM POLÍTICA

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ILUSIONISMO - Uma simples recolha de números - e cito um artigo de João Duque -  explica de forma clara a situação em que estamos: em 2015, quando tínhamos acabado de sair das imposições da troika, o total da despesa prevista no Orçamento do Estado para esse ano era de €63.167 milhões e representava 35,1% do PIB. Agora, para 2024 o peso económico do Orçamento do Estado será de €124.334 milhões, representando 45,5% do PIB. Ou seja, enquanto o peso do Estado duplicou, crescendo à taxa anual de 8,8%, o PIB (a preços correntes) apenas cresceu à taxa anual de 5,4%. Há portanto aqui qualquer coisa que não bate certo. Os oito anos de Governo de António Costa caracterizam-se por  cada vez mais impostos, taxas, multas e outras cobranças que no final resultam na maior carga fiscal de sempre para garantir uma presença cada vez maior do Estado. E qual o resultado disso? A resposta é conhecida de todos: os serviços que recebemos desse Estado são cada vez piores:  degradação na área da Saúde, problemas cada vez maiores na Educação, crise na justiça, deterioração da classe média, aumento da emigração dos portugueses mais preparados, piores transportes públicos e uma crise terrível na habitação. O Estado tira-nos cada vez mais rendimento mas não melhora o seu funcionamento. O Orçamento é um exercício de prestidigitação: diminui alguns impostos directos, aumenta os indirectos, proporciona alguns aumentos salariais mas logo a seguir faz crescer o custo de vida. O que dá de um lado, tira-se do outro basta olhar para a diminuição de portagens rodoviárias e o aumento do IUC. O mais espantoso é que a oposição, apesar de ter conseguido uma vitória política com a redução do IRS que ela própria propôs, depois analisa o orçamento com uma graçola de mau gosto, classificando-o de “pipi, bem apresentadinho e muito betinho “. É espantosa a falta de jeito de Montenegro.


 


SEMANADA - O Orçamento de Estado prevê uma receita adicional de IVA de dois mil milhões em relação ao ano anterior; o aumento dos impostos indirectos compensa cerca de dois terços do alívio nos impostos directos; a subida do IUC pode valer o dobro dos cortes nas portagens do interior; 63% dos veículos automóveis que estão a circular têm Mais de dez anos e 26% tê, mais que 20 anos; dois terços das novas matrículas automóveis de 2022 foram de veículos usados importados que em média têm sete anos de idade; há mais de dois mil professores que depois de darem aulas durante anos a contrato, terão que fazer agora uma espécie de estágio para entrarem nos quadros; desde abril de 2022 que não há ligação ferroviária entre Coimbra e Vilar Formoso, a Linha da Beira Alta continua fechada e não é apontada data para o fim dos trabalhos; no Instituto Português de Oncologia médicos, enfermeiros e farmacêuticos queixam-se da falta de meios; um quinto dos farmacêuticos dos hospitais do SNS pediram escusa de responsabilidade devido à crescente falta de recursos e de condições dos serviços; o investimento público na ciência está estagnado desde 2011 e actualmente situa-se ao nível de 1991; em percentagem de PIB os fundos do Estado alocados à Ciência atingiram o valor mais baixo dos últimos 30 anos; a falta de material básico nas unidades de saúde familiar nunca foi tão grande, segundo responsáveis do sector; cerca de 9% dos juízes admitem  recorrer a substâncias ilícitas para lidar com o stress; segundo a Pordata1,7 milhões de portugueses vivem com menos de 551 euros por mês; mais de 200 famílias, a maioria com crianças menores, estão a receber apoio da Refood no Algarve para conseguirem sobreviver.


 


O ARCO DA VELHA - Os dois anos iniciais da execução do PRR deverão terminar com uma diferença negativa superior a 2,7 mil milhões de euros face às metas de investimento público. 


 


Piquenique Vertical, 2023 óleo s tela 200x133cm.j


A FORÇA DA COR - Na sua primeira exposição individual na Galeria das Salgadeiras, Martinho Costa apresenta um conjunto de sete pinturas onde as cores intensas servem para reforçar a sua interpretação pessoal de cenas e paisagens aparentemente banais.Essas sete pinturas estão montadas de forma a permitir que os visitantes tenham quase a sensação de que se trata de uma mesma obra composta por sete momentos diferentes que constroem uma narrativa. Martinho Costa trabalha frequentemente com recurso a imagens prévias que servem de modelos à sua pintura, com algumas referências a obras clássicas, como acontece na imagem aqui reproduzida, “Piquenique Vertical”, um óleo sobre tela de 200x130 cm. O preço das obras desta exposição, que se mantém até 18 de Novembro, varia entre 6000€ das quatro grandes telas e os 2000€ das três de 60x90cm. A Galeria das Salgadeiras fica na Rua da Atalaia 12. Outros destaques: na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 13), João Onofre apresenta até 18 de Novembro os seus mais recentes trabalhos que trabalham as relações e as possibilidades de cruzamento do som com a imagem. Na Fundação Carmona e Costa (Rua Soeiro Pereira Gomes 1-6ºandar) está patente até Janeiro a segunda parte da exposição “Álbum de Família”, uma continuação da mostra patente no MAAT - Central Tejo e que apresenta pela primeira vez obras da colecção formada ao longo dos anos por Maria da Graça Carmona e Costa.


 


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JAZZ - Joshua Redman é um brilhante saxofonista tenor, com uma forma de tocar muito própria e uma enorme versatilidade. É, além disso, um criativo compositor que também se aventura por reinterpretações de canções bem conhecidas de outros autores. “Where Are We” é o seu primeiro trabalho para a Blue Note e é um disco empenhado. O primeiro tema “After Minneapolis (Face toward mo(u)ring” é uma evocação da morte de George Floyd às mão de um polícia da cidade. O tema começa com umas notas de “This Land Is Our Land”, de Woody Guthrie e o sonoro lamento do seu saxofone é acompanhado pela voz de Gabrielle Cavassa, uma jovem cantora que o acompanha neste disco em nove dos 13 temas, cantando por vezes letras escritas pelo próprio Redman. Ouçam a versão “bluesy” de “The Streets Of Philadelphia”, de Bruce Springsteen ou os arranjos que Redman fez para temas como “Going To Chicago”, a partir de um original de Duke Ellington e também “By The Time I Get To Phoenix” ,  “I Left My Heart In San Francisco” ou  “Alabama”, de John Coltrane, com a voz de Gabrielle Cavassa a deixar a sua marca. Neste disco Redman faz-se acompanhar de músicos de eleição como os guitarristas Kurt Rosenwinkel e Peter Bernstein,,  o vibrafonista Joel Ross, o trompetista Nicholas Payton, a que se juntam aos músicos que normalmente acompanham Redman: Aaron Parks no piano, Brian Blade na bateria e  Joe Sanders no baixo. A revista “Downbeat” diz que este “Where Are We” é o melhor trabalho de sempre de Joshua Redman. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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A NOVA DITADURA  - “A Religião Woke” é um ensaio sobre a cultura woke, esse movimento baseado na cultura do cancelamento, na censura, no condicionamento do pensamento, na reescrita da História e na tentativa de imposição de um pensamento único em nome daquilo que os seus defensores consideram politicamente correcto. O autor, Jean-François Braunstein procura esclarecer a origem, motivação e finalidade desse movimento. No livro, Braunstein afirma que o movimento não é, ao contrário do que se pensa, do foro da racionalidade política, mas do foro religioso. Esta é, acrescenta, uma «religião sem perdão» que tem como destruir a liberdade em nome da «justiça social».  Segundo Jean-François Braunstein, um historiador do pensamento, o movimento woke configura «a primeira religião nascida nas universidades», propagada por académicos, intitulados «guerreiros da justiça social». E porquê uma religião? Tendo tomado de empréstimo um termo da cultura popular negra dos Estados Unidos da América, este movimento baseia-se numa premissa: «a razão deve, em dado momento, abrir espaço à fé para compreender as verdades mais profundas». O movimento woke está a «desconstruir» todo o património cultural e científico, impondo uma censura social, comumente intitulada «cancelamento», e policiando a linguagem e as opiniões dissonantes com o objectivo de instaurar uma ditadura em nome do «bem» e da «justiça social», querendo impor um pensamento único. Entre os dogmas que o wokismo tem propagandeado em nome da luta contra a discriminação está a «teoria de género», que “professa que o sexo e o corpo não existem e que a consciência é que importa”. Edição Guerra & Paz, com tradução de Ana Pinto Mendes, colecção “Os Livros Não Se Rendem”.


 


REPROVADO - Eu já devia saber que não é boa ideia frequentar restaurantes com conceito O Cícero Bistrot, apresenta-se assim:   “A ementa do Cícero Bistrot aborda a relação do célebre pintor Cícero Dias com as cidades onde viveu, Paris-Lisboa-Recife, e traz um diálogo entre a culinária de autor e os ingredientes luso-brasileiros”. Este é um restaurante de contrastes: o empratamento tem um visual aliciante e o serviço é bom. Onde a coisa falha é na confecção, algo banal, por vezes formalmente cuidada mas gustativamente subalternizada. A entrada escolhida, anunciado como um carpaccio de polvo, com amêndoas torradas em canela, sobre rúcula e vinagrete de romã, é um bom exemplo de contraste entre um bonito empratamento e uma desilusão gustativa, um carpaccio com pouca graça, uma rúcula que já tinha sido mais viçosa. O lírio, um peixe gordo com uma textura compacta e macia, foi talvez maltratado, vinha cozido demais e com uma consistência diferente da esperada. Era acompanhado de ameijoas pretas, também elas vítimas de excesso de cozedura, o que resultou numa textura borrachosa. Salvou-se o arroz de coentros, verdadeiramente a melhor coisa da refeição. Do outro lado da mesa a moqueca de palmito com cogumelos frescos e crocante de papadams também se caracterizou pela banalidade, salvando-se uma vez mais, o arroz de acompanhamento. Em resumo, a casa sabe cozinhar arroz mas do resto não deu prova. Na sobremesa o carpaccio de abacaxi com especiarias foi uma desilusão: demasiado adocicado, enjoativo mesmo, sem sabores contrastantes como a designação deixava antever. No fim a conta foi alta, o que já se esperava, e seria aceitável, se a qualidade tivesse estado no mesmo patamar. Em resumo, evite-se o Cícero Bistrot.


 


DIXIT -  “Este orçamento, o que dá com uma mão, tira com a outra” - Joaquim Miranda Sarmento


 


BACK TO BASICS - “Os homens mais admirados publicamente são os que mentem sem parar e os que menos simpatia geram são aqueles que tentam dizer a verdade” - H.L Mencken





outubro 13, 2023

COMO ASSINALAR O 25 DE NOVEMBRO? COM INFORMAÇÃO OU ARRAIAL?

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O 25 DE NOVEMBRO  - Vai para aí um grande sururu por causa do 25 de Novembro e o que a data significa. E o seu significado é simples: numa escala diferente, o 25 de Abril e o 25 de Novembro são datas que se complementam e ambas significam liberdade. A primeira porque restituíu a liberdade e abriu caminho à democracia após 48 anos de ditadura; a segunda porque evitou que essa mesma liberdade se perdesse nas mãos de uma pretensa revolução. Sendo ambas importantes têm uma relevância diferente. Se Abril foi uma festa, Novembro foi uma resistência, felizmente vitoriosa, de onde devemos tirar lições. A melhor maneira de evocar o 25 de Novembro é explicar às gerações mais novas o que aconteceu no Verão de 75, a importância do comício da Alameda em que Mário Soares deu os primeiros passos dessa resistência, o papel decisivo dos militares moderados do Grupo dos Nove, a efectiva tentativa de golpe desencadeada pelo sector mais à esquerda das Forças Armadas e que envolveu a ocupação da RTP e de quartéis. Ramalho Eanes, mais tarde Presidente da República, foi um dos militares incumbidos de travar a tentativa de golpe. Saíu vitorioso e são suas estas sensatas palavras:  “Momentos fracturantes não se comemoram, recordam-se”. Por isso, em 2024, no programa das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, faz sentido recordar tudo o que se passou no 25 de Novembro, não numa festa, mas num momento de reflexão, por forma a deixar testemunho para quem não viveu essa época. Um bom exemplo de uma maneira de mostrar o que se passou parte de uma iniciativa do Instituto +Liberdade: a exposição “Memória-Totalitarismo na Europa”, patente na Biblioteca Municipal de Sintra até 6 de Novembro, e que bem podia depois ser mostrada em Lisboa, para recordar a luta contra todo o tipo de extremismos. A exposição é uma homenagem às vítimas do nazismo, comunismo e fascismo. E é a melhor forma de agora recordar o 25 de Novembro e preparar a sua evocação nas comemorações do próximo ano. De preferência sem actos de variedades.



SEMANADA - Em 2016 António Costa anunciou 1400 milhões de euros para resolver a crise da habitação e prometeu construir 7500 casas mas ainda não há nem uma para mostrar; o Estado continua sem saber ao certo quantos imóveis devolutos tem e quantos podiam ser recuperados para habitação; o número de jovens com casa própria caíu para metade nas duas ultimas décadas;  a oferta de casas para venda caíu quase 40% numa década; em 66 concelhos os preços da habitação subiram mais de 50% no espaço de cinco anos; o poder de compra da classe média em Portugal é dos mais baixos da União Europeia e um estudo recente diz que o nível de vida em Portugal é igual ao dos países de leste; um estudo da Faculdade de Economia do Porto lançou esta semana uma questão relevante: a Roménia já terá em 2022 ultrapassado Portugal no PIB per capita, quando há 20 anos era um terço do nosso; segundo a DECO proteste marcar uma colonoscopia na maioria das entidades convencionadas com o SNS pode demorar mais de quatro meses; nove hospitais já fecharam serviços por falta de clínicos; até Agosto os médicos do SNS já tinham feito mais de 4,3 milhões de horas extraordinárias; as tentativas de homicídio subiram 45% em cinco anos; um em cada cinco homicídios acontece entre gangs.


 


O ARCO DA VELHA - Apesar da crise que por aí vai  Portugal será um dos seis co-organizadores do Mundial de Futebol , ao lado da Espanha, Marrocos, Uruguai, Argentina e Paraguai. Como sugeriu Pedro Norton é uma boa altura para ler a auditoria que o Tribunal de Contas fez ao Euro 2004 em Portugal. 


 


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DUAS EXPOSIÇÕES A NÃO PERDER - Há duas razões para ir ao MAAT e à  Central Tejo:  ver a exposição “Álbum de Família”, que mostra a extensa colecção criada por Maria da Graça Carmona e Costa na Fundação com o seu nome; e ver a exposição ”Castelo Surrealista”, que assinala o centenário do nascimento de Mário Cesariny. Estas duas exposições justificam por si só, mais que qualquer outra, uma ida ao edifício da Central Tejo e do MAAT. A exposição “Álbum de Família”, comissariada por Manuel Costa Cabral e João Pinharanda, mostra a enorme colecção de obras  que inclui  grande parte dos artistas contemporâneos portugueses, muitas vezes com trabalhos feitos em diversas épocas das suas carreiras. É de facto um álbum que permite ver a arte portuguesa das últimas décadas num conjunto que dificilmente pode ser comparado com qualquer outro. Há uma predominância do desenho, que a coleccionadora sempre seguiu com atenção e, ao mesmo tempo, um intenso programa editorial paralelo às exposições que foi organizando ao longo dos anos. “Sobre a Transformação das Nuvens” é o grande painel de entrada na exposição, criado por Pedro Calapez  precisamente com base nos catálogos e outras obras publicadas pela Fundação Carmona e Costa. A imagem que acompanha esta nota é precisamente desse painel, com um quadro, ao fundo, de Julião Sarmento, que abre a exposição (a fotografia é de Bruno Lopes, cortesia da Fundação EDP/MAAT). “Álbum de Família” fica exposto até 1 de Abril do próximo ano. No edifício do MAAT, “Castelo Surrealista” assinala simultaneamente o centenário do nascimento de Mário Cesariny e também o centenário da publicação do primeiro “Manifesto do Surrealismo”, de André Breton. “O Castelo Surrealista” nome desta exposição, inspirou-se no título de um livro que Cesariny escreveu entre Lisboa, Paris e Londres em homenagem à vida e obra de Maria Helena Vieira da Silva e Árpád Szenes. A exposição inclui obras de Cesariny  e daqueles que afectivamente elegeu para companhia ideal, apresentadas numa cenografia muito simples. O percurso recria de certa forma uma galeria imaginada, onde Cesariny expõe a coleção de obras dos que tomou como mestres ou pares, e evoca  também o próprio ambiente em que Cesariny vivia. Até 19 de Fevereiro do próximo ano, 


 


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O ENCANTO DO PIANO  - Tenho para mim que Carlos Maria Trindade é, além de músico, um escultor de sons e um arquitecto de discos. É longo o seu percurso enquanto músico e produtor.  Tocou órgão e teclas em grupos como Corpo Diplomático, Heróis do Mar, Madredeus e No Data. Foi produtor de nomes como Delfins, Rádio Macau, Xutos e Pontapés, António Variações e Santos e Pecadores, entre outros. Trabalhou com Nuno Canavarro, foi responsável pelo catálogo nacional da Polygram/Universal, onde lançou artistas como Paulo Bragança, Pedro Abrunhosa, Quinta do Bill ou Repórter Estrábico, além de ter feito vários discos a solo. Começou por estudar piano clássico e as teclas marcam todo o seu percurso. Agora regressa às origens com “Vitral Submerso”, trabalho que vem desenvolvendo em piano solo desde 2018, quando recuperou para o seu estúdio o piano Grotrian-Steinweg quarto de cauda, fabricado em 1920 e comprado para ele pelo pai quando tinha apenas 5 anos. Carlos Maria Trindade recorda que desde o dia em que recuperou o seu piano, começou a compor para ele, depois de décadas de teclados electrónicos e sintetizadores, numa espécie de regresso às origens. “O resultado dessa aventura solitária - afirma o músico - está no som destas peças, que vagueiam numa espécie de neoclassicismo assumido, fruto de sentimentos variados e de uma vida musical já bastante longa.” O disco, disponível em CD, LP e em streaming, tem nove composições de Carlos Maria Trindade, todas em piano solo e é uma boa surpresa. Dia 21 de Novembro vai apresentá-lo, ao vivo, no Teatro de S. Luiz, no Misty Festival. 


 


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O AMOR - Todas as estações do ano são boas para amar mas cá para mim o outono é bom para fazer crescer uma paixão. Há muitos livros sobre o Amor e o seu mistério mas um dos mais arrebatadores  é a “Arte de Amar”, de Ovídio, nascido 43 anos antes de Cristo, em Itália. Uma nova edição deste clássico foi agora lançada, em versão bilingue, latim e português, traduzida e preparada por Carlos Ascenso André,um professor de línguas e literaturas clássicas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na introdução que escreveu para esta edição, Carlos Ascenso André sublinha que para os poetas do Amor dos anos finais da República, em Roma, o amor era a “incarnação verdadeira da espontaneidade mais genuína”. Ovídio, contemporâneo de Virgílio e Horácio, foi um dos fundadores da tradição poética ocidental. Assume-se como  mestre experimentado no amor e, por isso mesmo, senhor de especiais competências para industriar nas suas lides. “Arte de Amar” é um conjunto de poemas (três livros, os dois primeiros dirigidos aos homens e o terceiro às mulheres) sobre como seduzir e manter a amada ou como conquistar e atrair os homens, tratando também do amor extraconjugal, da beleza, da dominação e da liberdade do prazer e do pudor, da lascívia e da obscenidade do amor. E Ovídio deixa uma advertência: «Não existe uma receita universal nem um só método serve para todas.» Edição Quetzal.


 


OVAS - “Ó senhor Fonseca, então como estavam as lulas? “ pergunta a dona de casa ao patrão do marido, convidado para jantar em sua casa. E ele responde: ”um Pitéu!”. Este diálogo é saído de uma das mais divertidas campanhas de publicidade portuguesa no início da televisão e, claro , propagandeava a qualidade das lulas recheadas da marca Pitéu, que ainda hoje existem. Mas não é de lulas que vou aqui falar hoje e sim de conservas algo diferentes do habitual. Conservas de ovas. Não confundam por favor com patés e outros derivados. Estou a falar mesmo de conservas de ovas de várias espécies de peixe, cozidas e depois enlatadas em azeite de qualidade. A Nevis é uma marca algarvia que trabalha bem este segmento da indústria conserveira. As suas latas de ovas de bacalhau e de ovas de cavala são produtos de muito boa qualidade. As de bacalhau são uma boa base para uma salada, já as de cavala puxam uma fatia de pão  suculento num lanche. E deixo para o fim as melhores de todas, ovas de sardinha. Experimentem-nas em torradas de bom pão, em fatias finas, e acompanhem-nas por um espumante bruto. Não se vão arrepender. E não se surpreendam que o preço de cada lata seja bem acima das conservas vulgares: já imaginaram o trabalho que dá encher uma lata com ovas de cavala ou de sardinha? Bom apetite.


 


DIXIT - “O que os socialistas estão fazendo é inaceitável. Eles querem separar o que sabem ser contínuo. O 25 de Abril iniciou, o 25 de Novembro salvou e as eleições fundaram” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Não abandone as suas ilusões. Quando elas desaparecerem pode ainda existir, mas na realidade deixou de viver” - Mark Twain.





outubro 06, 2023

GOVERNO VENDE AS CARAVELAS DE COSTA

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AFECTIVIDADES - Na semana passada meio país andou a falar sobre a privatização da TAP, uns a favor, outros contra, outros ainda na típica posição de “vamos ver”. E não faltou quem aparecesse a criticar a privatização em nome da afetividade à companhia. Pois eu, que às vezes tenho que voar na TAP, tenho cada vez menos afetividade por ela e isso é basicamente porque a TAP não mostra nenhuma afetividade para com os passageiros. Já nem falo dos atrasos, mas falo da forma como os passageiros são tratados, tantas vezes sem manga à saída ou chegada a Lisboa e com um serviço de bordo no mínimo pouco simpático. Mesmo quando achávamos que a coisa não podia piorar, eis o que me aconteceu num recente voo de Valência para Lisboa, ao que parece operado por uma tripulação búlgara num avião com as cores da TAP. Para além do costumeiro atraso este vôo teve uma particularidade: nenhum dos membros da tripulação dirigiu palavra aos passageiros. Passeavam, mudos e vigorosos, no corredor, a ver se os cintos estavam apertados. Não surgiu nem um copo de água - que teria sido bem vindo depois de todo o atraso. Cereja no topo do bolo: o comandante não dirigiu uma única palavra tão pouco, não pediu desculpas pelo atraso, não falou durante todo o voo, nem na aproximação a Lisboa, com as habituais informações que se dão nestas circunstâncias. Foi um vôo sui generis, o preço do bilhete não foi nada barato mas a TAP comportou-se pior que uma low cost. Assim sendo, a minha afetividade pela companhia é nula. António Costa nacionalizou a TAP com juras de amor eterno e até a comparou às caravelas portuguesas que partiram a descobrir mundo. Agora já está disposto a vendê-la até na totalidade, se necessário fôr. É mais uma manifestação da sua incoerência e da sua habilidade no ilusionismo político. Nada de novo, portanto.


 


SEMANADA - Os pedidos para bolsas de estudo no ensino superior já totalizam 90 mil, mais dez mil que no ano passado; o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens está a aumentar desde 2015 e quase 40% dos jovens de 18 anos admitem terem-se embriagado severamente no último ano pelo menos uma vez; apenas 60% dos alunos inscritos concluem os cursos de mestrado; no âmbito de investigações sobre  corrupção há 29 inspecções a decorrer no Ministério da Defesa;  este ano já foram abertos 220 processos crime a lares por “condições indignas e cruéis de tratamento” de idosos e por propriação indevida dos seus bens; a esperança de vida em Portugal dos homens é 78,05 anos e a das mulheres é 82, 52 anos; entre Janeiro e Outubro reformaram-se 705 médicos do Serviço Nacional de Saúde e espera-se a reforma de mais uma centena até final do ano; segundo a Ordem dos Médios há duas dezenas e meia de hospitais sem meios para tratar os doentes em áreas como a medicina interna, pediatria, cuidados intensivos, ginecologia, obstetrícia e cardiologia; a recusa de médicos a mais horas extra fechou as urgências em seis hospitais; em 2021 74% da população portuguesa dizia-se satisfeita com o SNS mas esse valor desceu agora para 53% e três em cada cinco pessoas afirmam ter reduzido os gastos com a saúde por razões económicas; a avaliação bancária na habitação teve uma subida de 8,8% no período de um ano, fixando-se em agosto nos 1538 euros por metro quadrado; os novos radares quadruplicaram as multas por excesso de velocidade em apenas um mês.


 


O ARCO DA VELHA - Em vésperas do início do debate sobre o Orçamento de Estado constata-se que a maioria dos estudos, grupos de trabalho e avaliações propostos pelos partidos da oposição na sequência da discussão do anterior orçamento não saíram do papel e não se efectuaram.


 


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O ENCANTO DA PINTURA - A pintura ocupa um lugar à parte nos meus gostos pessoais em matéria de artes plásticas. Está a par com a fotografia e, ambas, um pouco acima da escultura. Entre estes três mundos - pintura, fotografia e escultura - podia bem passar os meus dias a lavar a vista e a estimular o pensamento. Vem isto a propósito do trabalho que Pedro Cabrita Reis apresentou na passada semana em Lisboa, na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). É um conjunto de oito quadros com o título comum “Flores”, pintados em 2020 os mais pequenos e em 2023 os de maiores dimensões. Para Pedro Cabrita Reis “estas flores são francamente flores, não são flores disfarçadas, digamos, nem de arte abstrata nem conceptual”. O artista confessa a sua admiração pela pintura de Giorgio Morandi (1890-1964) e admite a sua influência: “A Morandi vou buscar os vasos das plantas e, a mim próprio, estas flores impossíveis que não existem.”,   Na imagem está “Flower Pot 6”, uma das oito pinturas da exposição , cujos preços oscilam entre os 150.000 euros e os 25.000 e que ficarão expostas até 25 de Novembro. Um dia antes da inauguração de Lisboa, Pedro Cabrita Reis esteve em Londres para a inauguração da sua exposição “insomnia” numa das mais prestigiadas galerias locais, a Sprovieri, onde apresenta cinco obras até 24 de Novembro. No texto que escreveu para esta exposição londrina, João Pinharanda recorda a importância das referências à história da arte na obra do artista e sublinha: “Insomnia” é um programa ideológico: refere o estado de permanente vigilância em que Pedro Cabrita Reis se encontra, revela-nos como ele dá continuidade discursiva à corrente de testemunhos culturais que nos definem transformado-os em obra pessoal — através dessa obra o artista refere-se ao mundo e a si mesmo mantendo-nos despertos para a realidade“.


 


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O ESPÍRITO DO TEMPO - The Legendary Tigerman, aliás Paulo Furtado, tem um novo disco que é uma surpresa irresistível. O disco chama-se “Zeitgeist” e vai buscar o seu nome a um termo alemão cuja tradução significa "espírito do tempo". O zeitgeist é, no fundo,  um conceito que abarca o clima intelectual, sociológico e cultural de uma certa época da história, ou as características de um determinado período de tempo. E é isso mesmo que este disco faz. Longe vão os tempos em que The Legendary Tigerman era um one man band com sonoridades tradicionais. “Zeitgeist” é o resultado de um trabalho de composição que demorou o seu tempo, um tempo de recolhimento, de pesquisa, de ensaio de sonoridades. A electrónica é aqui dominante, a par com um conjunto de vozes marcantes que dão outra consistência ao projecto, sem abafar a composição e o experimentalismo sonoro que ele tem. Há em “Zeitgeist” uma síntese entre a música e a palavra num território que The Legendary Tigerman desbravou em dez temas ao lado de nomes como Ana Prior, Sean Riley, Ray, Ed Rocha Gonçalves, Asia Argento, Jehnny Beth, Delila Paz, Best Youth, Catarina Salinas, Calcutá ou Sarah Rebecca,. É o testemunho de uma geração que não faz música óbvia, que trabalha para além das canções como se estivesse a fazer uma banda sonora do mundo que nos rodeia agora, uma geração de músicos que aposta na diferença e criatividade. Num universo musical estagnado onde quase tudo é corriqueiro, este disco faz a diferença e volta a mostrar o talento e a solidez de Paulo Furtado. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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UM LIVRO POLÉMICO - Michel Houellebecq, uma das estrelas da actual literatura francesa, é também um dos seus mais controversos escritores. Colecciona prémios, entre os quais o Goncourt, com o romance “ O Mapa E O Território”. Boa parte da sua obra está publicada em Portugal e agora surge o seu mais recente e polémico livro: "Alguns meses na minha vida, outubro de 2022 a março de 2023". Em circunstâncias ainda hoje em dia confusas, Houellebecq assinou contrato com um realizador holandês, Stefan Ruitenbeek, para protagonizar um filme pornográfico. Houellebecq conta que desejava fazer videos pornográficos com a sua mulher e reconhece que para o fazer “a única solução realmente eficaz consiste no recurso a uma terceira pessoa”. O resultado foi o filme “Kirac 27”. O escritor afirma que tinha dito não querer ser reconhecível no filme e o realizador, ele próprio também uma figura polémica, garante que não foi isso o acordado. O resultado de toda esta polémica é este "Alguns meses na minha vida, outubro de 2022 a março de 2023"”, que relata a visão do escritor sobre a sua participação em “Kirac 27”. Ao longo de cerca de 120 páginas, fala sobre esta sua experiência de forma confessional e até inesperada, neste tempo em que proliferam os caçadores de bruxas. Pelo meio, Houellebecq processou o realizador, e o filme, que tinha distribuição em streaming, foi retirado. "Pela primeira vez na minha vida, senti-me tratado, absolutamente, como o tema de um documentário sobre a vida selvagem; é difícil para mim esquecer aquele momento" - escreveu Houellebecq na contracapa do livro. O editor português do livro, Manuel S. Fonseca, sublinha: “o meu desejo por este livro vem da candura, inocência e franqueza com que o autor o escreve”. Edição Guerra & Paz.


 


SIGA A MARINHA - É nos restaurantes mais simples que por vezes surgem as melhores surpresas. Foi o que me aconteceu numa das estivais noites deste início de Outono na Praça da Armada. Não se apoquentam que não foi no restaurante com o mesmo nome do local, mas sim num outro, bem mais simpático. Falo do Zanzibar, situado numa das extremidades do largo. A sala é confortável e a esplanada é agradável nestas noites. A simpatia e eficácia do serviço está a par com a qualidade da comida. Na circunstância a escolha recaiu num rosbife, que pedi sem o molho que podia acompanhar, pedindo para o substituir por mostarda. Assim aconteceu, o rosbife estava no ponto, fatiado fino e em boa quantidade. Veio acompanhado por batatas fritas bem fritas, aos palitos, estaladiças. Do outro lado da mesa a opção foi filetes de peixe galo com arroz de berbigão e um toque de tomate. Os filetes estavam impecáveis, o arroz guloso e sem estar a afogar-se em malandrice. Para quem gosta, a casa tem frequentemente ovos verdes e peixinhos da horta cuja prova ficou guardada para próxima oportunidade. O restaurante aposta na comida tradicional portuguesa e desde a língua estufada à alheira, passando por rabo de boi ou moelas e croquetes, há várias opções. Os preços são sensatos, quer na comida quer na lista de vinhos, curta mas bem escolhida. O Zanzibar fica na Praça da Armada 36 e o telefone é o 216 050 908.


 


DIXIT - “Parece que a Europa encontra satisfação na sua vocação de parque temático e de atracção turística. A sua força é o seu passado. Não o seu futuro” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Não é a mesma coisa ser-se uma boa pessoa ou ser um bom cidadão” - Aristóteles


 





setembro 30, 2023

O QUE TEM MUDADO NO CONSUMO DOS MÍDIA?

Televisão antiga


Vamos lá a ver como estão hábitos de internet, as audiências de TV e o investimento publicitário. Começo pelo digital, que continua a ser um mundo em permanente transformação. De acordo com os dados do Bareme Internet de 2023 da Marktest, há 6 milhões e 286 mil portugueses que utilizam regularmente  redes sociais, um número que corresponde a 73.2% dos portugueses com mais de 15 anos. As maiores diferenças no acesso a redes sociais observam-se entre os vários grupos etários, com os jovens dos 15 aos 24 anos a registarem quase o pleno (99.3%) e taxas de penetração bastante acima da média junto dos indivíduos até aos 54 anos. Também entre as classes sociais há diferenças, com taxas mais elevadas junto das classes mais altas. De notar ainda que a penetração de redes sociais cresceu sobretudo entre a população mais idosa, com os indivíduos com mais de 64 anos a apresentarem em 2022 uma taxa de uso de redes sociais 40% acima do observado no ano anterior. Permanecendo no mundo digital, e abandonando as redes sociais, de acordo com o mesmo estudo da Marktest os sites de informação são os mais procurados pelos portugueses e, no seu conjunto, captam cerca de 17 milhões de visitas por semana. Os sites das estações de televisão surgem a seguir, na segunda posição, com 11 milhões, seguidos pelos sites de desporto e de automóveis com 10,7 milhões de visitas semanais.


E como acedem os portugueses à internet?  O telemóvel mantém a liderança e 80,4% da população utiliza-o para estar online, enquanto o  computador é utilizado por 63,5%, o tablet por  22,4% e as consolas de jogos por 9,8%. Um dado novo revelado pelo mesmo estudo da Marktest é o número de pessoas que acedem à internet através de um aparelho de Smart TV de tal forma que o televisor foi o suporte tecnológico cuja utilização para aceder à Internet mais cresceu nos últimos anos. As pessoas que em Portugal acedem à Internet através do televisor mais do que duplicou nos últimos quatro anos, coincidindo esta "explosão"’ com o período de pandemia e pós pandemia de Covid-19 e com o aumento de smart-tvs e connected tvs no mercado nacional. Em  2019, apenas 18,6% dos utilizadores de Internet em Portugal estavam online via televisor. Na primeira vaga de 2023 deste estudo, no entanto, esse registo situa-se já nos 49,2%. 


É chegada a altura de falarmos de como tem evoluído a audiência de televisão neste ano. A SIC continua a liderar, seguida pela TVI e depois pela RTP1. De notar, no entanto, que o share médio semanal da SIC anda nos 15% , o da TVI nos 14,5%, e o da RTP1 nos 11,1%, bem longe de valores na casa dos 20% do canal líder, obtido há uns anos atrás. No cabo a liderança pertence à CMTV com 5,2%, seguida da CNN com 3,1% e da SIC Notícias e Fox, cada uma com 2,1%. Mas o conjunto dos canais de cabo tem somado cerca de 42% do total de espectadores de TV e as plataformas de streaming andam na casa dos 16% - o que significa que entre os espectadores que seguem o cabo e os que utilizam as plataformas de streaming está cerca de 58% da audiência, o que deixa para os canais generalistas apenas 42% dessa mesma audiência.


Tudo isto tem reflexos directos no investimento publicitário. Os números mais recentes deste ano apontam para um aumento global do investimento realizado até final de Agosto, mas com variações significativas nas parcelas destinadas a cada meio. Assim , percentualmente, o investimento em televisão generalista está a cair em relação ao ano passado, significando agora cerca de 35% do total e o investimento publicitário no cabo está subir e situa-se nos 12,4%. Mas a maior variação positiva em termos percentuais verifica-se na publicidade exterior, os cartazes de outdoors, que já captam quase 15% do total do investimento publicitário, tendo estado a subir nos dois últimos anos. O investimento em meios digitais anda na casa dos 30%, a rádio um pouco acima dos 5% e a imprensa ligeiramente abaixo dos 2%. Este é o melhor espelho da alteração dos hábitos de consumo de mídia dos portugueses.


Publicado na edição do NOVO de 30 de Setembro de 2023)

setembro 29, 2023

O QUE VALE MAIS: PROPOSTAS OU PROTESTOS?

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SOBRE AS ELEIÇÕES - O resultado das eleições na Madeira não é nenhuma surpresa. O que surpreende é que após 47 anos ininterruptos no poder o PSD tenha conseguido ficar tão próximo da maioria absoluta. Esta permanência longa num governo regional não é caso único na Europa, mas quase. É um sinal da estreita ligação que a nível regional um partido consegue construir, atravessando diversas situações da História e uma sucessão de crises políticas e económicas a nível nacional. Não é uma vitória qualquer - a lista da coligação PSD-CDS ganhou nos 11 concelhos da Madeira e em 52 das suas 54 freguesias. Novidade é a queda do PS, embora se deva mais a problemas locais do que a um descontentamento face ao Governo central. No entanto há um dado que tem dimensão nacional - o Chega continua a subir e teve na Madeira um resultado alinhado com o que as sondagens indicam a nível nacional. Toda a acção política do Chega se centra no protesto - é um partido do contra e esse é o terreno onde se alimenta e cresce. É aliás curioso ver como este posicionamento contrasta com o da Iniciativa Liberal, um partido mais apostado em propostas de transformação do país que em acções de protesto. E, como acontece por essa Europa fora, as posições radicais de protesto contra o aparelho político estabelecido rendem mais eleitoralmente do que propostas construtivas para mudar a  sociedade - na extrema esquerda e na extrema direita. Esse é um dos grandes problemas com que as sociedades democráticas se batem hoje em dia - como conseguir que propostas valham mais que protestos. Os próximos ciclos eleitorais, das europeias, legislativas e autárquicas, poderão trazer surpresas. Montenegro bem quis cavalgar a vitória de Miguel Albuquerque, de forma aliás desajeitada, mas o seu desejo de alcançar números como os que o PSD obteve na Madeira são uma perigosa ilusão, nefasta até para o seu partido.


 


SEMANADA - Os docentes que agora são integrados no quadro vão ganhar menos do que quando estavam a contrato e os professores que vincularam com 50 anos ou mais também terão de trabalhar mais horas que os seus colegas; a viatura de emergência médica de Portalegre esteve inoperacional mais de 700 horas num ano, ou seja cerca de 30 dias; em três anos o peso dos professores de ensino superior em situação precária subiu de 39% para 43%; mais de 74 mil estrangeiros, descendentes de judeus sefarditas, pediram a nacionalidade portuguesa desde Setembro de 2022; segundo Pacheco Pereira é maior a probabilidade de alguém ser multado por mau estacionamento do que uma trotineta ser multada por andar nos passeios pedonais ou atravessar sinais vermelhos; há zonas de Lisboa onde a maioria dos veículos em circulação são TVDE; no final de julho 17,9% dos alunos inscritos no 1º ciclo eram crianças estrangeiras e no ano lectivo 2020/2021 a média nacional era 8%, menos de metade; 151 dias depois dos relatos dos incidentes no Ministério das Infraestruturas, a investigação do que nesse dia aconteceu no gabinete de Galamba com o ex adjunto Frederico Costa está parada; segundo José Miguel Júdice Marcelo Rebelo de Sousa abdicou e “desitiu de fazer seja o que for”; Pedro Santana Lopes apresentou um extenso programa de evocação do centenário de Mário Soares, que decorrerá na Figueira da Foz ao longo de 2024; o pagamento a dinheiro em estabelecimentos comerciais caiu 18% desde 2017, substituído por pagamentos electrónicos ; em 2022 Portugal produziu 2,7 milhões de bicicletas, 18% da produção total na Europa.


 


O ARCO DA VELHA - Há  quartéis à míngua de efectivos e o Estado Maior do Exército confirmou que faltam 5745 militares para suprir as necessidades de funcionamento. 


 


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VER POMAR - A exposição da semana é “A Mão É Que Vê. E Manda!”, na Galeria S. Roque, em Lisboa, que reúne cerca de 130 obras, feitas por Júlio Pomar entre 1946 e 2017, década a década. São obras que o pintor conservou e se mantiveram sempre no espólio da família. A exposição, que abriu dia 27 e se prolonga até 17 de Janeiro, coloca no mercado um grande número de obras inéditas de Pomar, maioritariamente desenho a carvão, tinta da china, marcador, lápis de cera e esferográfica, ao lado de quadros em técnica mista ou acrílico sobre tela e pastel, óleo sobre madeira, apresentando ainda peças de cerâmica pintada e assemblages. O magnífico catálogo da exposição sublinha que foram oito décadas “de uma dedicação plena à criação visual, e também à escrita, de facto, sem se deixar prender em fórmulas ou receitas, investigando sucessivamente diferentes linguagens plásticas, renovando interesses e assuntos.” A Galeria de São Roque fica na Rua de S. Bento 269. Na imagem está a obra inédita “Abutre”, feita em Paris em 1963. Por estes dias duas importantes galerias assinalam aniversários importantes. No Porto a Galeria Fernando Santos assinala os seus 30 anos de existência com uma exposição colectiva de artistas que representa. E em Lisboa a Galeria Carlos Carvalho assinala os seus 35 anos de vida também com uma colectiva que se prolonga até final do ano. Finalmente destaque fotográfico para os Encontros da Imagem em Braga e para o Imago Lisboa Photo Festival que decorre até final de Outubro em diversos locais da cidade. E já que estamos na fotografia, vale a pena ir ao Panteão Nacional, polémicas sobre Eça de Queiroz à parte, para ver a exposição de Jorge Rodrigues, “Natureza Morta”, que mostra a profunda transformação da paisagem alentejana devido a práticas agrícolas que afectaram o património cultural da região.


 


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OUVIR POMAR - Além da sua actividade como artista plástico, Júlio Pomar tinha uma paixão pela escrita, nomeadamente de poesia. Pegando em alguns dos seus poemas, o Museu do Fado em Lisboa produziu um disco que parte de nove poemas de Pomar e de um de António Lobo Antunes, entregando-os a sete vozes e vários músicos. Comecemos pelas vozes, que vão de Carminho a Camané, passando por Aldina Duarte, Cristina Branco, Ana Sofia Varela, Ricardo Ribeiro e Carlos do Carmo. O acompanhamento musical é maioritariamente assegurado por José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na Viola de Fado e Daniel Pinto no Baixo. Mas há outras participações - António Vitorino de Almeida interpreta um fado que compôs, “Sobretudo no Verão”, Pedro Jóia toca também uma composição sua, “Liberdade”, e há um tema instrumental, “Balada da Oliveira”, interpretado por Pedro Caldeira Cabral na guitarra portuguesa e Duncan Fox, no contrabaixo. Rui Vieira Nery escreveu para este disco um texto intitulado “Com A Vida Por Amante”, onde afirma: A relação de Júlio Pomar com o Fado é tudo menos linear, e pode até considerar-se uma história de amor mal agourado que, quase só no fim, vai desembocar num final feliz”. Nery recorda que num dos murais que Pomar pintou para o Cinema Batalha está presente a guitarra portuguesa, juntamente com a viola e o acordeão, mostrando “ uma espécie de empatia afetiva entre o pintor e aquilo que há de uma pureza essencial e de energia elementar no canto e na dança populares ali representados”. Depois do disco com letras de Júlio Pomar aguarda-se, mais para o final do ano, uma recolha da sua poesia, que será editada pela Assírio & Alvim.


 


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DINHEIRO ACONSELHADO - Rob Dix é hoje um dos peritos financeiros mais respeitados do Reino Unido, conhecido pelo seu  “The Property Podcast” ou pela  coluna semanal que publica no “The Sunday Times”. O foco de Rob Dix é querer ensinar ao mundo o modo como o dinheiro, a economia e os investimentos funcionam realmente. No seu novo livro, “O Preço do Dinheiro”, Rob Dix aborda o que mudou nos últimos cinquenta anos e a situação actual, escreve sobre o que é a inflação e porque afeta diariamente as nossas vidas, mas também o que faz aumentar as taxas de juro que pagamos pelos empréstimos que contraímos. De forma simples explica conceitos de que ouvimos falar constantemente, como espiral inflacionista, estagflação, défice e dívida pública. E, ao mesmo tempo, pode ficar  a conhecer as origens do dinheiro e o que lhe confere valor. “Se não houver com quem o trocar, o dinheiro não tem qualquer utilidade”, escreve Rob Dix e dá um exemplo: se um milionário for parar a uma ilha remota onde uma tribo primitiva usa conchas como moeda de troca, ele bem pode mostrar-lhe resmas de papéis com a imagem de Benjamin Franklin impressa que isso não lhe valeria de nada. O livro começa por responder a uma pergunta básica: o que é o dinheiro? e depois aborda temas como o aumento de preços, as relações entre o dinheiro e o poder, como se chegou a uma situação em que o mundo está alicerçado na dívida e finalmente como é que que cada pessoa pode melhorar na forma como utiliza o seu dinheiro. E o posfácio tem um título sedutor: Sete maneiras de prosperar seja qual for o clima económico. A edição é da Ideias de Ler.


 


ITALIANANDO - Restaurantes italianos e pizzarias há muitas mais a maioria não tem grande história. Há excepções, claro, e quando aparecem vale a pena falar delas - é o caso do Bozollo, situado perto do Hospital dos Lusíadas. O restaurante fica junto a uma praceta arejada numa urbanização recente, tem uma boa esplanada e a sala interior é agradável. O menu apresenta diversas propostas de saladas mas não é aí que as coisas começam a  entusiasmar. Já com o carpaccio di lombata o caso muda de figura, assim como com a bruschetta com mozzarella de búfala. Nas pastas ouvi elogiar o tagliatelle gamberi e a mesa apreciou um risotto de cogumelos com tomate seco e queijo parmegiano. O Bozzolo aposta forte nas pizzas e o segredo está na massa e no seu preparo: massa leve, bem fermentada ao longo de 48 horas, bem cozinhada, pasta de tomate saborosa. Há 18 propostas de pizza, incluindo a que leva o nome da casa e que incorpora tomate, mozzarella, pancetta, rúcula e pecorino e que é uma boa escolha.Outra possibilidade, para uma próxima oportunidade será a que, além de tomate e mozzarella, leva salame de Nápoles, azeitonas e oregãos. Nas sobremesas há uma mousse de chocolate com flor de sal e azeite, que é um dos emblemas da casa em matéria de doçaria. Carta de vinhos simpática com algumas propostas inesperadas. Muito bom serviço, bom ambiente. Bozzolo, Rua Mário de Azevedo Gomes 3C, tel . 21 586 3562.



DIXIT - “Para mim, a desobediência equivale à liberdade, à coragem, à independência, à originalidade e à imaginação, ao hedonismo e ao espírito artístico” - Miguel Esteves Cardoso


 


BACK TO BASICS - “De vez em quando convém parar e pensar naquilo que estamos a fazer” - Audrey Giorgi





setembro 22, 2023

OITO ANOS DE ESCORREGA

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A AMBIÇÃO - O destaque político da semana vai para a observação do corpo humano. Passo a explicar: os casos que movimentaram maior rebuliço mediático foram o decote comentado pelo Presidente da República e a eventual remoção da estátua de Camilo Castelo Branco envolvido por um corpo desnudo. Isto por si só dá conta do estado da nação. Soube, por um artigo de António Barreto, que existem mais de uma centena de observatórios no país que são supostos seguir e aconselhar nas mais diversas áreas. Depois desta semana proponho que se crie mais um: o observatório da nudez. E já que estamos nisto, talvez não seja pior criar outro observatório dedicado a inventariar os subsídios e gratuidades que se vão estabelecendo para dar a impressão que os políticos se preocupam com as pessoas e tomam medidas. Claro que com estes dinheiros que vão espalhando faz-se propaganda, pescam-se talvez uns votos, mas sobretudo esta política assistencialista evita aquela maçada que é tomar medidas de fundo que vão à raiz dos problemas,  fazer reformas e definir estratégias para que o país saia da cauda da Europa. Oito anos de Governos liderados por António Costa e há tanta coisa a funcionar mal que vale a pena perguntar quem está mal - o país ou quem manda nele? Acabo a citar João Miguel Tavares que esta semana recordou que a única ocasião em que o PS cultivou uma ambição transformadora para Portugal foi com Mário Soares. Com Costa essa ambição esfumou-se. E assim fomos deslizando para a cauda da Europa. Um escorrega que leva já oito anos,  entretidos que estamos com decotes e estátuas de nus.


 


SEMANADA - Os norte-americanos são já a terceira nacionalidade mais relevante do turismo em Portugal; os proveitos totais do turismo cresceram 31,8% no primeiro semestre, para um total de 2,5 mil milhões de euros;  desde o início do ano, foram registadas no Portal da Queixa 2.690 reclamações relacionadas com o sector da saúde, um aumento de 27%, face ao ano passado; obstetrícia e pediatria são as especialidades com o maior volume de reclamações;  no verão deste ano as maternidades da região de Lisboa fecharam quatro vezes mais dias que no mesmo período do ano passado; o preço dos quartos para estudantes aumentou mais de cem euros por mês em 11 concelhos; no final da primeira semana de aulas ainda existiam 85 mil alunos sem professor a pelo menos uma disciplina; um estudo da Universidade do Minho indica que há cerca de cem mil adultos em Portugal com comportamentos problemáticos com raspadinhas, dos quais cerca de 30.000 apresentam perturbação de jogo patológico;  Portugal é o país com maior gasto per capita em lotaria instantânea, dez vezes mais do que os espanhóis, mais do dobro da média europeia; um estudo divulgado esta semana indica que Portugal é o terceiro país europeu que perdeu mais ferrovia; a rede ferroviária portuguesa diminuiu 18% entre 1995 e 2018, o terceiro maior declínio entre um grupo de países que inclui a União Europeia a 27, o Reino Unido, Noruega e a Suíça; no sector agrícola há mais de 1200 taxas; a subida das taxas Euribor em agosto elevou a taxa de juro dos novos empréstimos à habitação para o valor mais elevado em mais de 11 anos e actualmente, 57% da prestação da casa são juros; segundo o INE  o indicador de actividade económica em agosto caiu para o nível mais baixo desde o final de 2022. 


 


O ARCO DA VELHA - A modernização da linha ferroviária da Beira Baixa, entre Pampilhosa e Vilar Formoso, principal via férrea de ligação à Europa, já dura há 50 meses e está a demorar mais tempo a ficar pronta que a sua construção no final do século XIX, que levou 46 meses.


 


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IMAGENS DE GUERRA - Quase 600 dias depois da invasão da Ucrânia pela Rússia a exposição que a galeria Narrativa inaugurou é um testemunho da brutalidade desta guerra e uma homenagem à resistência. Intitulada “Ucrânia: Um Crime de Guerra”, esta exposição mostra o trabalho de alguns dos melhores fotojornalistas mundiais, vários deles ucranianos, que aparecem em destaque. A exposição parte do livro homónimo publicado pela editora  FotoEvidence, uma obra que reúne o trabalho de 93 fotojornalistas de 29 países, e que está disponível para venda na Narrativa (Rua Dr. Gama Barros, 60 - de quarta a sexta entre as 14 e 19h e sábados entre as 14 e as 17h ), onde a exposição fica patente até 28 de Outubro. Daniel Berehulak, Fabio Bucciarelli, Ron Haviv, Eric Bouvet, David Guttenfelder, Finbarr O'Reilly, vencedores de múltiplos World Press Photo, são alguns dos autores com fotografias patentes na exposição, destacando-se ainda o trabalho de Carol Guzy, vencedora de quatro prémios Pulitzer, e de Evgeniy Maloletka, fotojornalista ucraniano vencedor da fotografia do ano do World Press Photo e do Prémio Pulitzer de 2023 (na imagem) e que é exposta pela primeira vez em Portugal. A Narrativa é uma galeria dinamizada por Mário Cruz, fotojornalista, e que tem tido um assinalável papel na fotografia em Portugal nos últimos anos. Outra exposição de fotografia a não perder está na galeria Bruno Múrias, “Guiné-Bissau 1990”, de António Júlio Duarte, que ficará até 11 de Novembro (Rua Capitão Leitão 10). Também esta exposição é acompanhada de um livro, com o mesmo título, editado pela Pierre Von Kleist.


 


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OUVIR DE NOVO  - Editado originalmente em 1977, “Pharoah” é um dos discos marcantes da carreira do saxofonista Pharoah Sanders e foi editado originalmente numa pequena editora independente, India Navigation. Embora tivesse tido pouco impacto quando foi lançado, “Pharoah” tornou-se uma espécie de objecto de culto entre os apreciadores de jazz. A sua reedição, que agora surge, é apresentada numa magnífica caixa, com um pequeno livro com ensaios sobre a obra do músico e fotografias e é uma oportunidade para redescobrir o trabalho - disponível também nas plataformas de streaming. A reedição actual é da Luaka Bop, a editora fundada por David Byrne, e respeita o formato original do disco que tinha apenas três composições, todas originais de Sanders. O lado A do LP era preenchido integralmente pelo tema “Harvest Time”, ao longo de cerca de 20 minutos, e no lado B do vinil estavam dois temas, “Love Will Find A Way” e “Memories of Edith Johnson”. A reedição respeita  o som original, um obra crua e simples que parece gravada em casa - na realidade a gravação foi feita no edifício de uma antiga fábrica onde Bob Cummins, um advogado que foi o fundador da India Navigation, vivia com a sua família. Esta gravação quase amadora acaba por ser bem adequada, em ambiente e atmosfera, ao que Pharoah na altura queria fazer. A seu lado, em Harvest Time, tocaram o guitarrista Tisziji Muñoz e o baixista Steve Neil. A faixa seguinte, “Love Will Find  a Way” é  um tema a que Pharoah voltaria várias vezes ao longo da sua carreira e tem a particularidade de mostrar Sanders a cantar, de uma forma completamente descontraída, mas emocional. É aqui também que entram pela primeira vez no disco percussões. Finalmente a terceira faixa, “Memories Of Edith Johnson”, inclui o som marcante de um teclado e é uma homenagem à tia do músico, que teve um papel na sua educação musical e cuja forma de cantar ele admirava.


 


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A TOLERÂNCIA - Esta semana, com as peripécias que se conhecem, não encontro melhor leitura para sugerir que um estudo sobre a perseguição à liberdade de espírito. Trata-se de “Castélio Contra Calvino - ou uma consciência crítica contra a violência”, numa obra de Stefan Zweig, editada originalmente em 1936 e que agora conhece a sua primeira edição em Portugal pela mão da Assírio & Alvim. O livro narra a história de Sebastião Castélio, que alimentou uma das grandes polémicas do século XVI, quando se opôs a João Calvino e o acusou de fanatismo e homicídio. Trata-se de um louvor à tolerância e uma crítica directa à guerra. Sebastião Castélio interpôs-se no caminho de João Calvino e na sua tentativa de educar os cidadãos de Genebra pela lei da força. Partindo das lutas entre protestantes no século XVI, Stefan Zweig reflete sobre os perigos dos nacionalismos e o terror desencadeado por um homem só. A tradutora, Sara Seruya, sublinha que este é um «grande ensaio contra o fanatismo e o totalitarismo, o qual relata episódios sangrentos relacionados com lutas intestinas entre facções dos adeptos da Reforma protestante desencadeada por Martinho Lutero». Stefan Zweig nasceu a 28 de novembro de 1881 em Viena e é um dos mais importantes autores europeus da primeira metade do século XX. Dedicou-se a quase todas as atividades literárias: foi poeta, ensaísta, dramaturgo, novelista, contista, historiador e biógrafo. De ascendência judaica, empreendeu em 1934 um exílio voluntário da Áustria e viveu na Inglaterra, nos Estados Unidos da América e no Brasil, onde viria a morrer em 1942. São dele, e deste livro, estas palavras:  “os verdadeiros heróis da humanidade não são os que edificam os seus reinos efémeros sobre milhões de sepulturas e existências destroçadas, mas sim, precisamente, aqueles que, opositores da violência, a ela sucumbem”.





SOBREMESA - Uma das melhores sobremesas que me podem oferecer nesta altura do ano é um prato de uvas moscatel, acompanhadas por queijo bem curado, de preferência queijo da ilha cortado em fatias finas ou, melhor ainda, um Serpa bem duro, em lascas. A conjugação do doce da uva com o salgado do queijo é uma sensação especial. Queijos curados funcionam bem neste registo de contraste de sabores e consistências. Outra possibilidade, a que recorro fora do tempo das vindimas, é combinar o queijo com marmelada fresca. Esta conjugação nem deve ser acompanhada por pão - que não vem aqui acrescentar nada. Há quem use, em vez de marmelada, a goiabada brasileira - e admito que também é uma boa combinação. Para rematar estas coisas há sempre mais uma incontornável combinação: requeijão do sério, acompanhado por doce de abóbora. É espantoso como a simplicidade destas combinações pode proporcionar um final de refeição que é uma explosão de sabores - mais ainda se for acompanhado de um Vinho do Porto Tawny de 20 anos. Recomendação final: nunca ousem acompanhar o queijo por bolacha tipo cream craker. Quanto muito, se tiver que ser, um pão de mistura bem cozido, cortado em fatias muito finas.





DIXIT - “Em Portugal, a atividade mais entusiástica entre os políticos e a sociedade em geral é o impasse. Há sempre um factor impeditivo, e é um alívio quando pára tudo” - André Jordan.


 


BACK TO BASICS - “Para uma empresa, a marca é como a reputação para uma pessoa. E a reputação constrói-se a procurar fazer bem as coisas” - Jeff Bezos







setembro 15, 2023

O SILENCIOSO PANTANAL

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UM BRINCALHÃO - Durante alguns anos tive esperança de que poderia surgir em Portugal uma nova geração de políticos mais abertos ao mundo, menos manobristas e oportunistas, mais apostados em novas formas colaborativas para além das barreiras ideológicas e, sobretudo, mais interessados em melhorar o funcionamento do país, aumentar a riqueza da economia portuguesa e melhorar as condições de vida das pessoas. Imaginei que políticos assim poderiam estar menos presos às máquinas partidárias,  interessados em fazer reformas no país, na área da justiça, no sistema eleitoral, melhorando a educação e a saúde. Durante anos disseram-me que sem uma maioria absoluta era difícil mudar o estado das coisas. Temos agora uma maioria absoluta, António Costa é Primeiro Ministro há quase oito anos e desde as mais recentes eleições legislativas governa em maioria absoluta. A maior demonstração da forma como encara o País, o Estado e os Portugueses foi dada pela sua atitude no mais recente Conselho de Estado. Confrontado com críticas e reparos ao desempenho do seu Governo, remeteu-se ao silêncio. Não quis falar, não quis responder, não quis debater, não quis criar pontes, encontrar soluções. Mas criou um problema: a prova de que a sua maioria absoluta usa o silêncio para justificar a inação e esconder a falta de ideias sobre como melhorar o país. A Costa sobra-lhe em táticas manhosas o que lhe falta em estratégia e vontade de mudança.  O silêncio de António Costa, maquilhado pelo sorriso sempre igual em todas as ocasiões, é o retrato de uma geração onde deixou de haver estadistas para só haver brincalhões que acham que as suas agendas pessoais valem mais que os interesses nacionais. Imaginei políticos que quisessem um Portugal melhor mas já desisti de os procurar - não compareceram à chamada. E aos poucos este rectângulo à beira-mar plantado vai-se transformando num pantanal.


 


SEMANADA - As exportações portuguesas registaram em Julho uma quebra de 10,6% face ao mesmo mês do ano passado e as vendas para Espanha e Reino Unido foram as que mais caíram; a tarifa social da internet só chegou a 510 das 800 mil famílias que a ela podiam aceder; 632 euros é o valor que as famílias portuguesas esperam gastar, em média, com o regresso às aulas, mais 107 euros que no ano passado; 44% dos portugueses compram produtos de marca branca nos supermercados; o retrato da execução dos fundos comunitários tem um problema estrutural de atrasos sucessivos:  o programa Portugal 2020 começou em 2014, está a 4 meses do seu fim e ainda tem 2.6 mil milhões de euros por executar e sua taxa de execução é de 90,2%; quanto ao PRR já passou 36% do seu tempo de vigência mas ainda só está executado a 15,6% tendo apenas sido atribuídos 2,6 mil milhões de euros da dotação inicial de de 16,6 mil milhões; já o Portugal 2030 praticamente ainda não atribuíu verbas e só 4% da sua dotação já está em concurso; nos últimos 11 anos as escolas públicas e privadas perderam mais de 300 mil alunos dos ensinos básico e secundário; na semana passada estavam cerca de mil horários escolares por preencher, o que implicava que mais de 90 mil alunos teriam professores em falta se as aulas começassem naquela altura; uma professora que lecciona há 50 anos só agora, aos 68 anos, entrou para os quadros; entre 2015 e 2022 os salários reais dos professores caíram 1% em Portugal mas subiram 6% nos outros  países da OCDE; segundo o Eurostat 1,7 milhões de portugueses não conseguem aquecer convenientemente a sua casa no Inverno e a situação portuguesa só encontra paralelo na Lituânia, Bulgária, Chipre e Grécia; há 600 médicos em falta em 16 hospitais e 23 centros de saúde; na quarta feira passada ocorreram, em simultâneo, greves de professores, médicos e funcionários judiciais.


 


O ARCO DA VELHA - A freguesia de Santo Amaro, na ilha do Pico, Açores, tem mais camas turísticas que residentes - 264 camas em unidades hoteleiras ou alojamentos locais e 255 habitantes.


 


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RETRATO DE UMA LUTADORA -  “Memórias de Uma Menina Bem-Comportada”, de Simone de Beauvoir, regressa às livrarias, de onde estava ausente há muitos anos, pela mão de uma nova edição da Quetzal, com tradução de Maria João Remy Freire. O diário francês Le Monde, na altura da sua publicação original, em 1959, escreveu que este livro «podia ter como subtítulo História de Uma Libertação - A revolta da menina bem-comportada tem como objetivo essencial a conquista do espaço em redor para pensar à sua maneira.» Neste primeiro dos volumes de memórias que Simone de Beauvoir escreveu, publicado originalmente dez anos após o controverso “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir narra a infância, a adolescência e a juventude – as suas primeiras duas décadas, no seio de uma família burguesa, sem dinheiro ou posição. Aqui se reencontra Zaza, a sua melhor amiga durante a adolescência e a primeira idade adulta, figura central do romance autobiográfico “As Inseparáveis”, figura determinante para o seu desenvolvimento. “Memórias de Uma Menina Bem-Comportada”  é um bom retrato de Simone de Beauvoir, onde vemos surgir os traços de personalidade e os interesses da pessoa em que a escritora se veio a transformar: a mulher anticonformista, ambiciosa, lutadora  e socialmente empenhada. Simone de Beauvoir nasceu em Paris, em 1908,  estudou Filosofia na Sorbonne, onde conheceu Sartre, companheiro de toda a vida e com quem viveu uma relação célebre pelos seus padrões de abertura e honestidade. Foi ativista no movimento francês de emancipação das mulheres, nos anos de 1970, e serviu de modelo e de influência aos movimentos feministas posteriores. Morreu em Paris, em 1986. 


 


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IMAGENS FOTOGRÁFICAS - A primeira das exposições do Imago Photo Festival já abriu e merece ser vista na Sociedade Nacional de Belas Artes. Enquanto o resto das exposições do Imago abre no fim do mês, na SNBA já se pode ver “Rethinking Identities”, que apresentam trabalhos de Maria Gruzdeva, Lois Cid Ma e Lara Jacinto. Maria Gruzdeva mostra “O Território”,  um trabalho sobre como se estabelece a ligação entre os cientistas que estudam diversas disciplinas em reservas naturais de áreas remotas, no caso situadas na Rússia, focando a forma de coexistência entre o ser humano e o mundo natural. Já Lois Cid Ma, observa em “Estruturas de Fusion”, espaços em construção, fotografando-os “como se fossem um jazigo arqueológico para analisar os resíduos que ficam depois do levantamento de um edifício, relacionando-os com os entulhos gerados pelo derrubamento de antigos prédios”.  Lara Jacinto apresenta “O Paraíso”, uma observação atenta que mostra os bastidores de locais que são atracções turísticas, no caso, no concelho de Lagoa, no Algarve (na imagem). A fotógrafa mostra como pessoas que vivem e trabalham nessas zonas balneares, vindas de outras partes do mundo, mantêm a sua identidade, enquanto buscam um outro futuro. Outra sugestão é “Outro Jardim Interior”, uma exposição de Luísa Ferreira e António Faria que fica até final de Setembro na Galeria de Santa Maria Maior, prosseguindo o bom trabalho que este espaço tem vindo a desenvolver na área da fotografia. Por último, Nuno Cunha, apresenta na Galeria Sá da Costa uma série de desenhos a grafite e tinta da china sob o título genérico “So Far” .


 


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BEPOP & SWING - George Shearing foi um talentoso pianista e compositor de jazz londrino que depois de ganhar notoriedade no Reino Unido desenvolveu uma extensa carreira nos Estados Unidos, sendo o autor de temas como “Lullaby Of Birdland” e “Conception”, por exemplo. Agora , em sua honra, foi editado o disco “Shear Brass: celebrating Sir George Shearing”. A Shear Brass é um agrupamento que junta alguns dos melhores instrumentistas de jazz britânicos, dirigido por um sobrinho neto de Shearing, o baterista Carl Gorham. Para este disco James McDermid escreveu onze arranjos novos de composições de Shearing , interpretados por ele próprio e por Chris Storr (trompete), Pete Long (clarinete, e saxofone), Alistair White (trombone), James Pearson e Simon Wallace (piano), Anthony Kerr (vibrafone), Alec Dankworth e Arnie Somogyi (baixo), Carl Gorham (bateria), Satin Singh (percussão) e  Sarah Moule, Louise Marshall e Romy Sipek (vozes). Os novos arranjos de McDermid mostram a forma como Shearing apreciava o bebop e a forma como tocava piano, cheio de swing. Ouçam as versões de “Let There Be Love” (o único dos temas que não foi composto por Shearing) ou “Lullaby Of Birdland” na voz de Romy Sipek. As sonoridades do bebop estão bem presentes em “Conception” e é curioso o contraste com um tema escrito um ano antes, “The Fourth Deuce”. Outros destaques vão para “Children’s Waltz”e a balada “Midnight Mood”, cantada por Sarah Moule. Disponível nas plataformas de streaming.


 


A ARTE DA TOSTA CASEIRA - Por acaso já apanharam grandes irritações numa tostadeira, com o pão a colar-se às placas e o queijo espalhado por todo o lado? Pois graças ao admirável mundo digital descobri a solução para o problema e é a coisa mais simples do mundo. Basta ter à mão um pedaço de papel vegetal, daquele que se usa para ir ao forno. Corta-se à medida das duas placas abertas da tostadeira e dobra-se ao meio. Quando quiser fazer uma tosta basta colocar o pão por cima do vegetal e cobri-lo com a outra metade, fechando a tostadeira. Assim nada cola nem nada fica a deixar restos pelas placas. Agora que já aprendeu o truque, mãos à obra: corte duas fatias de pão de forma de Rio Maior, com cerca de um centímetro de espessura cada uma. Barre cada uma delas com chutney de manga, corte várias lascas finas de queijo da ilha para fazer duas camadas, uma por cima de cada fatia de pão, e, numa delas, rodelas finas de pepino fresco por cima do queijo. Fecha-se a sanduíche, coloca-se na tostadeira já quente, com uma folha de papel vegetal por baixo e outra por cima, fecha-se e deixa-se ficar dois a três minutos, conforme o gosto de cada um. Vai ver que no fim tudo é mais fácil quando levar a tosta para um prato e a cortar ao meio na oblíqua, de canto a canto, sem se queimar nem ver a tostadeira toda suja. Bom apetite.


 


DIXIT - “Quando vejo esta gente querer julgar a História pelos dias de hoje, vendo apenas o mal e não também o fantástico, dá-me vontade de lhes perguntar porque não experimentam embarcar numa coisa parecida com aquilo a que então chamavam naus e tentarem chegar vivos às Berlengas” - Miguel Sousa Tavares


 


BACK TO BASICS - “Quem não sabe nada de ciência não devia intervir na política” - Richard Roberts, Prémio Nobel da Medicina




setembro 08, 2023

CENTENO RUIDOSO, COSTA SILENCIOSO

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O GRANDE ENGANO - Há dias, por acaso antes da reunião do Conselho de Estado onde se iria debater a situação económica, o Governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, abandonou o princípio de independência que devia nortear as suas funções e veio vestir a camisola de ex -governante a mando do PS, clamando que o país registou fortes progressos nos últimos anos. Acontece que não é isso que o país sente. As palavras de Mário Centeno não chegam para esconder que os dados europeus mostram que Portugal está na cauda da Europa e o silêncio de Costa no Conselho de Estado, face às críticas sobre a política do Governo, são o exemplo da auto-suficiência e arrogância que tem caracterizado o comportamento da maioria absoluta. Temos o sexto mais baixo PIB per capita da Zona Euro,  a par da Roménia e da Hungria. Em Portugal faltam professores, juízes, enfermeiros, médicos e militares. Em sectores que vão da contrução à agricultura, passando pela restauração e hotelaria, faltam pessoas. E no país faltam casas para as pessoas que cá vivem. A verdade de que Centeno não fala é que, depois de décadas a recebermos fundos de Bruxelas, os números totais da emigração são superiores aos da década de 60. Conseguimos educar uma geração mas não conseguimos dar-lhe condições para poder trabalhar e realizar-se pessoal e profissionalmente em Portugal. António Costa é Primeiro-Ministro há quase oito anos, período durante o qual se assistiu à progressiva deterioração da classe média e ao aumento da carga fiscal, sem reformas em nenhuma área fundamental. O mais curioso de tudo isto é que os propagandistas do PS, face à revelação das evidências e dos dados reais, vêm dizer que quem afirma que o país está pior é arauto de André Ventura. O Papão Ventura é um balão insuflado pelo PS e pelos seus estrategas, que querem reduzir toda a oposição a aliados do Chega, da mesma forma que Salazar quis fazer crer que todos os que lutavam contra a ditadura eram do PCP. É uma infeliz, mas real coincidência.


 


SEMANADA -  70% da população portuguesa afirma ter o poder de compra fortemente afectado pela inflação; a taxa de juro média dos novos depósitos concedidos em julho fixou-se em 1,66%, uma tímida subida face aos 1,58% registados no mês anterior; de acordo com os mais recentes dados do  Banco Central Europeu (BCE), a fraca taxa de juro dos depósitos em Portugal só é ultrapassada pelas baixas taxas pagas pela Eslovénia, Chipre, Croácia e Grécia; em sentido inverso, França oferece 3,51% em juros aos clientes bancários para aplicarem depósitos a um ano, a Estónia paga 3,39% e Itália 3,29% e em Espanha, país de onde são oriundos os acionistas de grandes bancos portugueses (Santander e BPI), a média é de 2,36%; aumentou o número de famílias em sobrecarga financeira com o crédito da casa e cerca de 70 mil agregados familiares estão em vias de gastar mais de metade do rendimento no empréstimo; em 2022 a Justiça arrecadou mais de 382 milhões de euros em custas judiciais e taxas de registos, um aumento de 22,21% face ao ano anterior; as empresas portuguesas estão a pagar quase 6% para conseguirem obter novos empréstimos junto da banca portuguesa, um valor mais alto que a média europeia; 92,2% das famílias têm acesso a internet de banda larga fixa; mais de metade das medidas anti-fraude ficaram na gaveta e não são aplicadas; Marques Mendes já ganha a Marcelo nas audiências de TV - o espaço de comentário de Luís Marques Mendes na noite de domingo na SIC teve mais 242 mil espectadores do que a entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, que passou ao mesmo tempo.


 


O ARCO DA VELHA - Cerca de  metade da receita do Estado vem dos impostos pagos pelos quase cinco mil grandes contribuintes. 


 


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VER FOTOJORNALISMO - Esta é uma semana cheia de fotografia e começo pela exposição do fotojornalista Fernando Ricardo na Casa da Imprensa, “Momentos”, que pode ser vista até 6 de Outubro. A exposição apresenta cerca de meia centena de imagens feitas desde os anos 70 até agora. Fernando Ricardo tem uma longa carreira, sendo um dos fotojornalistas portugueses com maior actividade a nível internacional. Trabalhou em agências como a Associated Press e a Gamma, fez reportagens em cenário de guerra em África (na imagem) e no médio oriente. Além do “Expresso” e da “Visão”, publicou em jornais e revistas como o International Herald Tribune, New York Times,Washington Post, Boston Globe, Time, Newsweek, Stern, Der Spiegel, Paris Match, L’Express, Figaro, Times of London, Sunday Times e El País, entre outros e realizou várias exposições em Portugal e no estrangeiro. António Sánchez Barriga, o fotógrafo espanhol que escreveu o texto que acompanha esta mostra, afirma que as imagens apresentadas são “o ensino da vida numa só exposição.” Casa da Imprensa,  Lisboa (Rua da Horta Seca 20, ao Largo de Camões). Outra exposição que destaca o papel do fotojornalismo é CASA, uma mostra coletiva de 27 fotógrafos, integrada na MFA – Mostra de Fotografia de Arroios, patente no Quartel do Largo do Cabeço de Bola, Arroios, em Lisboa, até 15 de setembro. São nove exposições colectivas e individuais, de fotojornalistas e fotógrafos documentais portugueses e estrangeiros, que abordam questões sociais e ambientais. A organização é das associações C11 e Largo Residências nas instalações de um antigo quartel da GNR no Largo Cabeço da Bola. Há ainda visitas comentadas às exposições, a projeção de 'slideshows' de autores emergentes e consagrados, a exibição de documentários, a apresentação de livros e revistas, e conferências e debates, "que abordam temas da fotografia e do jornalismo". Além disso, aos fins de semana decorre o Mercado do Autor, com uma larga seleção de livros e fotografias para venda e oficinas "em várias áreas da fotografia e processos fotográficos". Pode consultar a programação completa nas contas da associação CC11 nas redes sociais Instagram e Facebook.


 


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UMA AVENTURA GELADA - Gosto de ler relatos das aventuras dos grandes exploradores e tenho um fascínio especial por aqueles que se lançaram à descoberta do Pólo Sul. Um desses homens foi Henry Worsley, admirador de Ernest Shackleton, o explorador do século XIX que tentou ser o primeiro a chegar sozinho ao Polo Sul, e que nunca conseguiu completar a sua viagem. Worsley, que viveu entre 1960 e 2016, sentiu um grande fascínio por essas expedições à Antártida e em 2018 fez a sua primeira viagem, na companhia de mais dois aventureiros, um deles um descendente de Shackleton. Depois disso, quis voltar à Antártida  sem qualquer companhia e é a história dessa aventura que David Grann, um jornalista da revista The New Yorker, escreveu.  O resultado é “A Escuridão Branca”, um livro que parece um thriller no qual o suspense se desenvolve no cenário da Antártida. A aventura começou a 13 de Novembro de 2015, tinha Henry Worsley 55 anos. Sozinho, com foco e dedicação, o então já aposentado oficial do exército britânico deixou o mundo em suspenso enquanto tentava vencer onde os seus antecessores tinham falhado. Andou mais de mil quinhentos e cinquenta quilómetros, durante sessenta e dois dias, em condições adversas,  mas foi obrigado a desistir a duzentos quilómetros do destino final. Esta é uma história de superação que não é obscurecida pela derrota. O livro está editado na bela colecção “Terra Incógnita”, da Quetzal e tem tradução de Vasco Teles de Menezes.


 


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ALÉM DO JAZZ - Sugiro que vão direitos a uma das plataformas de streaming e procurem o disco “Flowers In The Dark”, assinado por Kofi Flexxx, personagem enigmático que tem estabelecido relações criativas com algumas das mais importantes figuras da música britânica contemporânea. O novo disco baseia-se num ensemble que agrupa alguns desses músicos, orientado pela batuta de Shabaka Hutchings, outro nome sonante da cena musical londrina, que percorre à vontade os territórios do jazz e do hip-hop e que é a figura principal do grupo The Sons Of Kemet. O disco foi editado pela Native Rebel, que acolhe as produções e explorações das várias personalidades musicais de Shabaka Hutchings. O seu trabalho anda sempre na fronteira entre sonoridades do jazz improvisado, cruzando-o com outros géneros musicais. No disco colaboram nomes como o poeta Anthony Joseph, o pianista Alex Hawkins, o flautista Ross Harris, o rapper Billy Woods, o baterista Jas Kayser, o baixista Daisy George e mais algumas contribuições - o resultado é um disco que é  mais que a soma das partes ao longo dos seus nove temas.  Disponível nas plataformas de streaming.


 


UMA BOA SURPRESA PERTO DE PALMELA - Na estrada entre Azeitão e Palmela, à saída da Quinta do Anjo, no Espaço Fortuna- Artes e Ofícios, fica o Flavors. É um restaurante inesperado naquele local, que foge da tentação do óbvio regionalista, evitando grelhados de peixe ou choco frito e procurando uma lista alternativa em relação à oferta local. Logo nas entradas somos surpreendidos pela proposta de gyosas, o primeiro indício de elementos da cozinha asiática na lista. Nos pratos principais as propostas têm uma alheira de caça de Mirandela e bochechas de porco estufadas, a coexistirem  com caril verde tailandês ou caril goês, ambos de frango e com arroz basmati. Mais abaixo observa-se uma inesperada alheira de bacalhau, a abrir caminho para um caril goês de lulas e camarão e um caril vermelho tailandês de vieiras e camarão ou ainda umas lulas recheadas. Dos acompanhamentos consta. além do arroz basmati batatas doces fritas aos palitos de se lhes tirar o chapéu. A mesa provou um ceviche peruano de vieiras e o caril goês de camarão e lulas e ambos passaram com distinção. A cerveja de pressão é a alemã Franziskaner e a de garrafa é a belga Stella Artois. Nos vinhos há boas ofertas da região como os vinhos da Quinta do Piloto e de Venâncio da Costa Lima. A cozinha é dirigida por Pedro Castelo Branco, o serviço de sala é irrepreensível, o espaço é confortável e foi um belo jantar- é o que vos tenho a dizer. Para reservas, recomendadas sobretudo ao fim de semana, o telefone é o 917 263 116.


 


DIXIT - “Com uma dívida pública colossal e preconceitos que o PS alimentou, mas que outros países venceram há décadas, a diferença entre o nível de vida em Portugal e na Europa tornou-se impossível de ignorar” - André Abrantes do Amaral.


 


BACK TO BASICS - “Uma lufada de vento é capaz de mover uma árvore, mas não uma pedra” - Robert Walser