março 31, 2023

SOBRE OS BENEFÍCIOS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA O GOVERNO

 


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NUNCA DIGAS NUNCA- Esta semana ouvi uma das melhores sugestões dos últimos tempos. Numa conversa sobre o pacote de medidas para a habitação, voz sábia alvitrou assim: mais valia terem entregue ao ChatGPT a incumbência de fazer uma proposta, de certeza que seria melhor que a confusão que o Governo apresentou. A certeira observação fez-me pensar na forma como algumas coisas são apresentadas pelo executivo - revelam muitas vezes desconhecimento, precipitação, enviesamento político na abordagem, muitas vezes incompreensíveis atrasos e frequentemente uma redacção confusa e até com pontos contraditórios. Mesmo sem recurso à Inteligência Artificial, se os senhores governantes fossem mais diligentes talvez grande parte dos problemas pudesse ser ultrapassado. No reino da utopia o Governo devia estar à frente dos problemas, a delinear o desenvolvimento futuro; na realidade lusitana o Governo corre sempre atrás do prejuízo, a tentar encontrar formas de remendar os problemas. Veja-se o que se passou esta semana: depois de juras de Costa e Medina, várias vezes repetidas, de que nunca existiria IVA zero para produtos alimentares, eis que ele foi anunciado com pompa e circunstância. Se olharmos bem para as coisas vemos que os resultados que o Governo apresenta de redução do défice são possíveis porque a cobrança de impostos aumentou. E a cobrança cresceu, e muito, porque os aumentos de preços provocaram um aumento da receita fiscal. O Estado não está a gerir melhor os recursos, não está mais eficiente - está a beneficiar de cobrar mais aos cidadãos. Na realidade, quando o Estado finalmente admite o IVA zero nalguns produtos a única coisa que acontece é o que José Manuel Fernandes esta semana escreveu: “trata-se de devolver só uma parte do que tem cobrado a mais”.


 


SEMANADA -  Segundo o Eurostat Portugal está agora agora no 21º lugar no ranking do PIB per capita na UE, fomos ultrapassados pela Hungria, estamos empatados com a Roménia e atrás de nós apenas estão cinco países: Letónia, Croácia, Grécia, Eslováquia e Bulgária; segundo o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social mais de 50% dos trabalhadores receberam salários inferiores a mil euros em 2022, uma percentagem que sobe para os 65% quando falamos de jovens com menos de 30 anos; o número de trabalhadores com mais de 65 anos aumentou 88% nos últimos dez anos; 28,9% é a proporção de trabalhadores em regime de teletrabalho em Lisboa, a única região acima da média nacional que é de 14,4%; as greves dos oficiais de justiça já provocaram 20.874 adiamentos de julgamentos em todo o país; um estudo do SNS indica que nos primeiros 11 meses do ano passado 44,5% dos 5,7 milhões de atendimentos nas urgências hospitalares eram casos considerados pouco ou não urgentes; há 26 mil pedidos de habitações municipais em Lisboa e Porto mas há apenas 700 casas disponíveis;a idade média dos navios da frota da Marinha portuguesa é de 29 anos; nos três primeiros meses do ano já se suicidaram cinco agentes da PSP.


 


O ARCO DA VELHA - A faculdade de Belas Artes de Lisboa tem tectos a ruir, de onde já caíram esqueletos  e dejectos de pombos para cima de alunos.


 


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OUTRAS ARTES - No MAAT está patente até 11 de Setembro uma nova série de exposições e o destaque vai para “Da Calma Se Fez o Vento”, (na imagem) da açoreana Sandra Rocha, com curadoria de João Pinharanda, que está na Galeria 2. O trabalho de Sandra Rocha, que utiliza imagens fixas e em movimento, é baseado na fotografia e na exploração de encontros entre dois territórios: o do corpo e o da paisagem, em diferentes dimensões, que proporcionam várias leituras. São algumas dezenas de fotografias, agrupadas em núcleos que desenvolvem narrativas complementares. Também com curadoria de João Pinharanda esta série de três novas exposições do MAAT tem outro ponto alto em  “Leaky Abstraction", de Ana Cardoso, que está na sala Cinzeiro 8 do edifício da Central Tejo. Ana Cardoso foi finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2017, e esta exposição parte da investigação que a artista desenvolve em torno da pintura, explorando suportes e técnicas diversas, numa interessante evolução da sua carreira. A trilogia das novas exposições completa-se, na sala oval, com  “Archipelago Hervé di Rosa” que apresenta obras do MIAM - Musée International des Arts Modeste, criado por  Di Rosa em 2000 em Sète, França. Com curadoria de Noelig Le Roux esta enorme seleção de obras da coleção do MIAM mostra desde objectos de todo o género a banda desenhada. Uma outra exposição patente no MAAT é “Plástico- Reconstruir o Nosso Mundo”, criada pelo Vitra Design Museum e o Victoria & Albert. A exposição combina uma viagem pela utilização do plástico ao longo dos tempos com uma importante parte dedicada à reciclagem e à economia circular. 


 


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A NOVA CENSURA - Jorge Soley, economista espanhol é o autor de “Manual do Bom Cidadão, o Livro dos Cancelados”, um livro para compreender e resistir à cultura do cancelamento que está a pretender dominar as redes sociais e a nossa sociedade em nome de premissas apresentadas como politicamente correctas e que pretende cancelar ou alterar o que está escrito em livros, na História, ou obras de arte. O livro gira em torno desta questão: O que fazer perante o crescimento da política “woke”? São de Jorge Soley estas palavras:“É muito provável que não tenhamos vontade de nos vermos imersos num processo público de cancelamento, mas também é crescente a probabilidade de que, sem o desejarmos, tenhamos de enfrentar uma situação em que devemos escolher entre dizer a verdade e assumir as consequências, ou mentir, moldarmo‑nos ao politicamente correto e passarmos despercebidos (...) Mas a neutralidade já não é uma opção”. Todos os dias surgem novos exemplos da cultura do cancelamento, essa perigosíssima forma de censura - desde punir quem mostra a estátua de David, feita por Miguel Ângelo, até quem pretende reescrever livros ou impedir a divulgação de filmes de Walt Disney. Segundo Foley a controvérsia suscitada por esta cultura do cancelamento deriva e entronca no aumento da desinformação, usada inclusive por governos e movimentos políticos e ideológicos e que leva a que se considere normal a censura de certas mensagens. E Jorge Soley sublinha: “A desinformação sempre existiu, sempre houve propaganda. Mas sempre pensámos que as pessoas são suficientemente maduras para distinguir a informação viável da falsa”. Edição Leya/D.Quixote


 


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FRASES SOLTAS - Nas canções do novo disco de Lana Del Rey Lana surgem desabafos, frases soltas como se fossem pedaços de uma carta nunca concluída, notas soltas que espelham estados de alma transformados em canções. “ Did You Know That There’s a Tunnel Under Ocean Blvd” é o nono álbum de originais da cantora, pontuado por frases duras, mais duras ainda do que é habitual nas suas canções. São 78 minutos divididos por 16 canções, onde o piano é musicalmente dominante, pontuado por uma secção de cordas e vozes variadas que complementam a de Del Rey, como na faixa de abertura “The Grants” - e Grant é o verdadeiro nome de família de Lana Del Rey. Numa dessas canções há esta frase: “I wrote you a note, but I didn’t send it”, a descrição do ambiente da música que ela nos oferece neste disco. Numa das faixas mais marcantes do disco, “A&W” ela canta “This is the experience of being an American whore”, depois de, logo na segunda faixa, a que dá o título ao álbum, ter proclamado  “Fuck me to death, love me till I love myself”. Musicalmente o ambiente criado entre piano e secção de cordas contrasta com as palavras cruas cantadas de forma marcante por Lana Del Rey, que atravessa temas como o amor e a morte, a existência de um Deus, a eternidade para além da vida, o destino ou a vida familiar. Em “Fingertips” as suas preocupações ficam bem desenhadas com esta frase: “God, if you’re near me, send me three white butterflies.”  Estas 16 canções são outras tantas crónicas sobre a forma como Lana Del Rey encara o mundo e a sua própria vida. Não deixa de ser curioso que neste disco, com as canções cuidadosamente alinhadas em sequência, a derradeira seja uma revisitação do seu velho tema “Venice Beach” com o recurso a percussões e a um ambiente que a transformam no “Taco Truck X VB” onde deixa o recado: “Blood on my feet, on the street I'm dancin' crazy”.  “ Did You Know That There’s a Tunnel Under Ocean Blvd” está disponível nas plataformas de streaming.



ARROZADA -  O consumo per capita de arroz em Portugal é de 16 kgs por ano, quatro vezes a média da União Europeia. Há boas razões para isto:desde o arroz com ovo e atum ao arroz de lampreia, passando pelo arroz de garoupa, arroz de marisco, arroz de pato, arroz de ervilhas, arroz de pimentos, e tantos por aí fora que são petiscos sempre bem acolhidos. Para a confecção, eu prefiro o arroz carolino nacional, é o que ganha mais sabor quando cozinhado com outros produtos. Na tradição portuguesa o arroz pode ser prato principal, acompanhamento ou essa incontornável sobremesa que é o arroz doce. No prato principal a minha preferência vai para o arroz de pato à antiga, bem pingado da gordura do marreco. No acompanhamento não há melhor que um arroz refogado em couve, linguiça e pimentos, que acompanha muito bem , por exemplo, uns pastéis de massa tenra. No terreno das memórias de infância poucas coisas sabem melhor que um frugal arroz com galinha desfiada, pincelado de gema de ovo por cima e que vai ao forno, no fim, a tostar. E já nem falo de um arroz de tomate, não muito caldoso, a acompanhar uns pastéis de bacalhau ou uns croquetes, autêntico menu todo o terreno, que suporta bem o transporte e conforta a existência. A gastronomia portuguesa tem muito por onde explorar em matéria de arroz, desde a incontornável cabidela até ao arroz de lascas de bacalhau e coentros ou o arroz de polvo. É verdade que os italianos têm muita variedade de risotos, mas não é menos verdade que aqui na península, desde a paella a um dos vários arrozes acima referidos, há um grande terreno para degustar.


 


BOM - Os desenhos da série “Ontem Vi O Futuro”, de António Jorge Gonçalves, nos painéis que rodeiam o que será o novo jardim da Gulbenkian, em Lisboa.  


 


MAU - A criminalidade violenta e grave teve um aumento de 14,4% em 2022 e a polícia registou 924 crimes por dia.


 


DIXIT - “Medina, um homem que se caracteriza por fazer rolar todas as cabeças exceto a sua, coroada pelo chefe máximo do pessoal mínimo, António Costa” - Clara Ferreira Alves


 


BACK TO BASICS - “Os sabichões falam, mas os sábios ouvem” - Jimi Hendrix


 




março 24, 2023

UM GOVERNO DE FANTASIA

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OS TENTÁCULOS - Todas as semanas surgem mais uns indícios de que o PS não gosta nada de ser contrariado. Irritam-se quando alguém discorda ou chama a atenção para a possibilidade de o Governo  estar a governar mal. O pacote sobre a habitação é o mais recente motivo de incómodos. Quem quer que tenha aparecido a dizer que o pacote era um saco vazio de conteúdo prático foi logo amaldiçoado. O exercício dos anúncios do Governo sobre a habitação é um exemplo perfeito de um plano preparado sem cuidado, sem atender à realidade, sem sequer consultar os principais interessados, que são os municípios. Nem vou falar do pendor ideológico da coisa, mas tenho a convicção de que algumas das medidas propostas têm origem no estado de espírito do Governo de António Costa e que é o “quero, posso e mando”, escudado na maioria absoluta.  Nos últimos meses o Governo tem conseguido um número apreciável de baralhadas, um aumento da contestação e tem a seu crédito ter levado sindicatos a criarem novas formas de greve que dificultam ainda mais a vida das pessoas, nos tribunais, escolas ou hospitais. O Governo oscila entre ser um polvo esfomeado cujos tentáculos agarram o que podem por onde passam, ou um lugar vazio onde ninguém toma decisões com os pés assentes na terra. Esta semana Rui Ramos descreveu a situação de forma exemplar: “Temos um Estado que nunca empregou tanta gente, cobrou tantos impostos, recebeu tantos subsídios estrangeiros, e gastou tanto dinheiro, mas onde nada parece suficiente para vigiar os mares e ensinar os jovens”


 


SEMANADA - O número de casamentos em Portugal no mês de Janeiro aumentou 44,5% face ao mesmo mês do ano anterior; em Janeiro nasceram em todo o país 7146 crianças, mais 11,8% que no mesmo mês do ano passado; a despesa do SNS com medicamentos subiu quase 10% em 2022, a maior subida dos últimos nove anos e o total ultrapassou os 1567 milhões de euros; 28,9% é a proporção de trabalhadores em regime de teletrabalho em Lisboa, a única região acima da média nacional, que é de 14,4%; o aumento médio das mensalidades dos lares em Portugal desde 2020 foi de 17%;  as autoridades detectaram uma cave na zona da Penha de França, em Lisboa, que serviu de morada fictícia para mais de 2000 imigrantes; um estudo divulgado esta semana indica que 50% das famílias portuguesas admitiram não ter dinheiro suficiente para pagar todas as contas; o salário real dos trabalhadores com ensino superior caiu 134 euros entre 2006 e 2020; na nova edição do Relatório Mundial da Felicidade Portugal caíu do 34º lugar para o 56º; em 2022 foram comunicadas 1087 greves, o maior número desde 2013; a sindicalização em Portugal caíu de 63% para 15,3% em quatro décadas; em Portugal existem 60 freguesias com mais de mil imóveis vagos; em 2022 houve 50 gestores públicos que pagaram multa para evitar ir a julgamento; os certificados de aforro captaram cinco mil milhões de euros em dois meses; o custo da nova dívida pública já duplicou este ano com o aumento das taxas de juros; apenas dois por cento das empresas em Portugal são estrangeiras, mas elas empregam 900 mil pessoas e são responsáveis por 46% das exportações; um padrão português dos descobrimentos, do século XV, está desde 2019 encaixotado num porto da Namíbia. 


 


O ARCO DA VELHA - Apenas 14 dos 98 padres suspeitos de pedofilia foram investigados pela Igreja.


 


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VER - A exposição que mais me marcou recentemente foi “Hora de Ferro”, de Rudi Brito, que está na Galeria Balcony até 13 de Maio (na imagem). Nesta série de dez pinturas Rudi recorre a linhas de enquadramento que ao mesmo tempo limitam e expandem o que quer mostrar. O uso de cores vivas é acentuado pelo facto de o artista trabalhar sobre papel preparado com uma demão de esmalte. Esta técnica retira as qualidades associadas ao papel - absorção, fragilidade e textura. E o resultado é que as superfícies onde pinta sugerem uma sensação de dureza meio-brilhante, que acentua os traços da pintura e reforça a sua textura. Rudi Brito explica como trabalha: “O mecanismo ao qual recorro para começar uma pintura sem ter uma ideia clara da sua composição final, é preencher o espaço vazio com elementos que irão interromper a percepção geral da imagem. Num caso, em “Séance” foram as hortenses azuis e as folhas escuras. Só depois imagino o que poderá existir atrás deste cenário.” A Balcony tem desenvolvido um trabalho persistente na divulgação de uma nova geração de artistas, trabalho que merece ser acompanhado. Fica na Rua Coronel Bento Roma 12A, Lisboa. Para uma exposição completamente diferente sugiro uma visita ao Centro de Arte Manuel de Brito (campo Grande 113), onde é apresentada uma mostra que assinala o centenário do nascimento de Mário-Henrique Leiria, com um enfoque especial na sua ligação ao Grupo Surrealista Português. A exposição mostra o espólio deste escritor e pintor, e inclui trabalhos dele e de outros seus contemporâneos.


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SOBRE O AMOR - Este livro foi posto, oportunamente à venda, no dia de início da Primavera. Falo de “Amor”, de Jorge de Sena, uma das figuras maiores das letras portuguesas no século XX e que tem sido injustamente esquecido. O livro recupera o ensaio “Amor”, escrito por Jorge de Sena em 1971, para o “Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária”, e esta é a primeira vez que é editado de forma autónoma. A ideia de pedir a Jorge de Sena para escrever sobre o Amor, foi do coordenador do dicionário, João José Cochofel, que acreditava, e com razão, que a erudição de Jorge de Sena lhe permitiria abordar o tema de forma transgressora, como aconteceu. O texto é uma sistemática análise da explosão do amor na literatura portuguesa, seja ele «puro» ou «impuro», «normal» ou «anormal», «santificado» ou «pecaminoso», ou proibido por tabus sociais. A editora “Guerra & Paz”, que agora iniciou a publicação da obra de Jorge de Sena, sublinha que este é “um livro delicioso, impuro e pecaminoso, cujo curtíssimo título esconde uma assombrosa viagem pela explosão do erótico e do obsceno” . Cinco décadas depois, “Amor”, um dos 37 verbetes escritos por Jorge de Sena para o referido Dicionário, inicia a série de novas edições do autor. Estas novas edições com a chancela da “Guerra & Paz” incluem outros títulos de referência como “O Físico Prodigioso”, que Jorge de Sena assumia como podendo ter aspectos autobiográficos, uma novela que ele classificava como símbolo da liberdade e do amor. E, por último, na mesma série, foi também editado “Andanças do Demónio”, a estreia de Jorge de Sena na ficção.


 


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IMPROVISAÇÕES - Ralph Alessi é um trompetista de jazz norte-americano, um virtuoso improvisador que tem tocado ao lado de nomes como Jason Moran, Steve Coleman, Fred Hersch ou Don Byron. O seu novo disco, “It’s Always Now”, é o quarto registo para a ECM e apresenta um novo quarteto que, além do próprio Alessi, integra o pianista Florian Weber, o baixista Banz Oester e o baterista Gerry Hemingway. O novo disco, agora editado mas gravado em Junho de 2021, mostra a grande cumplicidade desenvolvida entre o trompete de Alessi e o piano de Florian Weber - os dois músicos têm tocado juntos ao longo dos últimos anos em diversas formações. O disco tem um cuidadoso equilíbrio entre os temas improvisados e as composições tradicionais e nos improvisados nota-se particularmente o diálogo entre o piano e o trompete, como nos dois primeiros temas,”Hypnagogic” e “old Baby”. No terceiro tema o quarteto aparece pela primera vez, em “Migratory Party”. Oester e Hemingway formam uma secção rítmica que toca em conjunto há muito tempo, mas o primeiro encontro do baixista com Alessi deu-se no início das gravações deste disco e no tema “Diagonal Lady” percebe-se bem como os dois rapidamente se entenderam. Um dos temas mais fascinantes dos 13 que integram o disco é “His Hopes, His Fears, His Tears”, onde o diálogo entre trompete e bateria é depois acompanhado pelo piano e baixo numa rara conjugação musical. Ralph Alessi, “ It’s Always Now”, edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.


 


A VER O SADO - Uma das zonas mais bonitas perto de Lisboa é a Arrábida e, em especial, a vista da baía do Sado. Um ponto privilegiado de observação é o restaurante Vela Branca, situado no Parque Urbano de Albarquel, mesmo à saída de Setúbal em direcção à Arrábida. Ali se pode almoçar ou jantar ou beber um copo ao fim da tarde na extensa esplanada. O restaurante tem uma grande vantagem - não é daqueles sítios a armar e cheio de conceito. A arquitetura é simples e boa, a sala é cómoda , o serviço é atencioso e a cozinha não desilude. Comecemos pelo básico quando nos sentamos : bom pão e azeitonas. Nas entradas há um choco frito aos pedaços pequenos com maionese de alho e, em homenagem às conservas setubalenses Belmar, uns filetes de cavala em escabeche de maracujá sobre esmagada de batata e uns filetes de sardinha em escabeche de cebola roxa e hortelã sobre pão frito com alho. E, claro, há ostras de Setúbal. Para coisas mais sérias podem espreitar a vitrina do peixe onde desde cabeça de garoupa a pregado se encontra bom material, que é tratado com carinho na cozinha, como no caso da dourada escalada ou do robalo ao sal. Outras sugestões são a massada de garoupa para duas pessoas ou o bacalhau grelhado às lascas. Nas carnes recomenda-se o bife tártaro e a picanha black angus. A carta de vinhos é variada e tem boas propostas a preços moderados, incluindo no vinho a copo. Aqui está um sítio onde se volta com prazer. Como o local tem vindo a ganhar fama, com razão, a reserva é obrigatória, sobretudo para os dias de fim de semana - é prudente reservar com antecedência, telefonando directamente para a Vela Branca - 265 523 046. Encerra às segundas e terças.


 


BOM -  Os 75 anos do Hot Club e o trabalho desenvolvido em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa para encontrar uma nova sede para a instituição. 


 


MAU - A total paralisação dos tribunais devido à forma de greve que foi implementada pelos sindicatos dos Funcionários Judiciais  e dos Oficiais de Justiça, que decorre há um mês e não tem prazo para terminar.


 


DIXIT -  “Os bispos sabem que nós sabemos que eles sabem muita coisa” - Daniel Sampaio, membro da Comissão Independente que investigou os abusos sexuais contra menores praticados por membros da Igreja.


 


BACK TO BASICS - “Sempre que se fixa preços administrativamente as coisas não funcionam” - António Costa e Silva


 





março 17, 2023

A POLÍTICA DA MAIORIA ABSOLUTA

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VAZIO - Carlos Guimarães Pinto, fundador da Iniciativa Liberal e actualmente seu deputado, publicou no twitter dados muito curiosos. Assim, o rendimento médio bruto em Portugal é de cerca de 20 mil euros por ano, o que significa um salário mensal de 1428 euros pagos 14 vezes por ano. Com a carga fiscal existente, ou seja o total de impostos e taxas para um rendimento deste nível, que em Portugal é de 27,1%, a pessoa recebe apenas 1040 euros por mês. Em Espanha, com uma carga fiscal de 18%, receberia 1170 euros; em França, com uma carga fiscal de 14,6% receberia 1219 euros e em Itália, com uma carga fiscal de 6,9% receberia 1330 euros. (1428/14 meses). A diferença é enorme e a penalização dos salários é muito mais sentida em Portugal. Este tema é crucial quando falamos da convergência com outros países da Comunidade Europeia, nomeadamente estes do sul da Europa, que nos são próximos. Há qualquer coisa de errado no modelo português que degrada os salários e é assente num modelo económico em que no serviço público prestado pelo Estado corresponde cada vez menos aos impostos cobrados. Numa entrevista publicada esta semana, Salvador de Mello dizia que ”Falta um desígnio estratégico para sair do estado onde estamos”. Na mesma entrevista resume a situação deste modo: “o nosso modelo económico está errado. São precisas reformas profundas que permitam ao país produzir mais, atrair investimento, atrair indústria para Portugal. Claro que é muito bom o setor do turismo ter um desempenho tão positivo, mas necessitamos da capacidade de criar outra especialização, não viver apenas do turismo e dos serviços. A indústria é absolutamente crítica para o futuro de Portugal.” É disto que o Governo não fala, enredado em PRR’s com prioridades pouco claras e execuções duvidosas, escudado na impunidade que a maioria absoluta lhe proporciona.


SEMANADA - A transferência do Governo para a sede do CGD, até 2026, vai custar cerca de 40 milhões de euros; as dioceses de Lisboa e Porto optaram por manter no activo os alegados padres abusadores; o Presidente da República classificou como “uma desiluão” a posição da Conferência Episcopal sobre os abusos praticados por membros da Igreja”; no último trimestre de 2022 fecharam em Portugal 14 restaurantes por dia; segundo o Hospital da Estefânia as tentativas de suicídio de adolescentes duplicaram nos últimos quatro anos; a direcção executiva do Serviço Nacional de Saúde anunciou que  quatro urgências pediátricas de Lisboa e Vale do Tejo vão ficar fechadas à noite a partir de Abril; os nove sindicatos que representam os professores anunciaram uma greve às avaliações no final do ano lectivo;  os pré-avisos de greve triplicaram no arranque de 2023, em comparação com o mesmo período do ano passado; os resultados líquidos da Impresa caíram 91% em 2022; o Plano de Poupança Reforma do Estado sofreu em 2022 a sua maior quebra de rentabilidade, de 15,28% face a 2021; segundo a DECO Proteste o aumento verificado no espaço de um ano num conjunto de 63 alimentos básicos foi de 25,66%; Portugal é um dos países da União Europeia onde o preço dos ovos mais subiu; as prestações do crédito à habitação sobem até 88,5% no espaço de dois anos; segundo a DECO três quartos das famílias portuguesas enfrentam mensalmente dificuldades financeiras.


O ARCO DA VELHA - O responsável pelo Gabinete do Cibercrime afirmou que o acordão que estabeleceu a invalidade dos metadados já destruíu e levou ao arquivamento dezenas de casos de roubo, pornografia infantil e até homicídio.


 


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FANTASIA  - Gregory Crewdson é um fotógrafo norte-americano cujo trabalho se caracteriza pela completa encenação das imagens que produz. Trabalha com uma equipa numerosa de entre 20 a 40 pessoas, que inclui cenógrafos, figurinistas, directores de iluminação e até um director de fotografia, Rick Sands. Crewdson, que lecciona fotografia na Universidade de Yale, cuja School of Art frequentou, actua face à fotografia como um realizador faz em relação a um filme. Ele cria a história, escolhe os actores, prepara minuciosamente cada imagem. O seu trabalho esbate a fronteira entre a ficção e a realidade e prefere cenários que evoquem a vida suburbana. Em Outubro de 2009 a série “Dream House”, foi adquirida para a colecção de fotografia do então BES e está agora integrada na colecção de fotografia do Novo Banco. A série, realizada em 2002, tem 12 imagens, todas produzidas no interior e exterior de uma casa desabitada numa cidade do estado de Vermont. Nas imagens aparecem, no papel de figurantes de uma família imaginária, nomes do cinema, como Gwyneth Paltrow, Tilda Swinton,  Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Dylan Baker, William H. Macy e Becky Ann Baker. Gregory Crewdson cita como suas influências Diane Arbus, Edward Hopper e Steven Spielberg e confessa que tem particular interesse pelo universo visual da Interpretação dos Sonhos, de Freud. Não por acaso o seu pai era psicanalista. Esta série “Dream House” tem curadoria de Alexandra Conde e pode ser vista nas instalações da Colecção de Fotografia do Novo Banco, Praça Marquês do Pombal 3A. A imagem que apresentamos é uma das fotografias de Gregory Crewdson, cortesia da colecção de Fotografia do Novo Banco.


 


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A NOITE - Na semana passada visitei duas exposições de fotografia de autores portugueses que olham para a noite e a luz e vêem coisas diferentes. Augusto Brázio expõe na galeria das Salgadeiras a série “Visível Corpo” e detalha observações que regista iluminando fragmentos da realidade, por vezes de forma crua, como a imagem que aqui se publica. A outra exposição é de Duarte Amaral Netto e está na Galeria Belo-Galsterer, sob o título “Cratera”. O autor conta que estas fotografias foram feitas numa fase recente da sua vida em que só conseguia fotografar à noite, o que o levou a explorar formas de iluminação diferentes das que habitualmente usa e o obrigou a reflectir sobre o significado que a escuridão impõe às imagens. Também na Belo-Galsterer pode ser vista a exposição “Ringue”, de Ana Velez. Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais e integradas no ciclo “a vida apesar dela”, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, estão duas novas exposições - “Now, Here, Nowhere”, de Victor Torpedo e “Escuro”, de Luís Palma. Em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Contemporânea está patente a exposição sobre os 50 anos do Ar.Co, com seis dezenas de obras de artistas de alguma forma ligados à história do Centro de Artes Visuais ou cujas obras integram a sua colecção. E finalmente, em Abrantes, no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte inaugurou uma nova exposição baseada na Colecção Figueiredo Ribeiro, intitulada “do arquivo do acervo”, com curadoria de João Silvério, e que ali ficará até meados de Novembro.


 


 


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SOBRE O ENSINO SUPERIOR - Allan Bloom foi um filósofo e professor norte-americano que ensinou nas universidades de Yale, Cornell, Toronto, Telavive e Paris. Profundo conhecedor dos grandes clássicos foi tradutor e editor da República de Platão, do Emílio de Rousseau e autor de obras como  Shakespeare’s Politics e de A Destruição do Espírito Americano ,  que na altura da sua edição original esteve mais de dez semanas na lista dos livros mais vendidos compilada pelo New York Times.  A Destruição do Espírito Americano tem como subtítulo “como o ensino superior defraudou a democracia e empobreceu os espíritos dos alunos de hoje”. O livro foi agora editado em Portugal e é aquilo que se pode classificar, nos tempos que correm, como uma obra muito politicamente incorrecta. No prólogo Saul Bellow sublinha que Bloom “ao escrever sobre o ensino superior nos Estados Unidos não respeita as formas, os costumes e as cerimónias da (auto-intitulada) comunidade académica”. Este livro nasce de um ensaio publicado por Bloom na National Review e que era uma crítica ao sistema de ensino nos Estados Unidos. Publicado originalmente em 1987 o livro, visionário na época em que foi escrito, continua a ser um diagnóstico certeiro das transformações culturais das últimas décadas Hoje, com o wokismo a ganhar terreno nas universidade americanas compreendemos ainda melhor aquilo que Allan Bloom viu e antecipou. Num texto publicado esta semana, José Manuel Fernandes, ao falar desta obra, salienta que “Bloom atribui muita da responsabilidade pelo fechamento dos espíritos dos estudantes americanos à pouca atenção que é dada aos clássicos da literatura e do pensamento ocidentais” e recorda que “já não se aprende a escrever ou a pensar lendo o que de melhor  a nossa tradição produziu, antes tendo aulas de escrita sobre o último êxito de Hollywood ou sobre teoria queer.” Edição Guerra & Paz, tradução de Maria José Batista.


 


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GUITARRADAS - Em “Popular Jugular” Tó Trips dá nova vida à sua guitarra e faz um disco mais introspectivo, ensaiando aqui e ali novas sonoridades, o que tem muito a ver com os músicos convidados: António Quintino (Dead Combo / Cassete Pirata) no contrabaixo, Sandra Baptista (Sitiados) no acordeão, Gonçalo Prazeres (Club Makumba) no saxofone, e Helena Espvall no violoncelo. São eles que tocam com António Manuel Antunes, aliás Tó Trips, criador dos Dead Combo com o já desaparecido Pedro Gonçalves, e instigador dos Clube Makumba. Este “Popular Jugular" é o começo de uma nova vida agora sem a companhia fundamental de Gonçalves. Podia ser um exercício falhado, ainda bem que não aconteceu assim. Nos 13 temas, 45 minutos de música onde a guitarra está sempre em primeiro plano, destaco Napoli Blue Dreams, O Deus do Vento, Ginga, Ínfimas Coisas, Transpraia, LA Chet ou Península dos Índios. Por aqui passam ritmos ousados e melodias intimistas, a história da vida de um homem que marca uma geração da música portuguesa desde os anos 80 com passagens por bandas como os Santa Maria Gasolina em Teu Ventre ou Lulu Blind. “Popular Jugular” tem edição em vinil e está disponível nas plataformas de streaming.


BOM - Os sindicatos da TAP sugerem que o montante devolvido da indemnização de Alexandra Reis seja aplicado no infantário da empresa.


MAU - Graças ao aumento dos preços o Governo está a ter uma receita fiscal acrescida, mas não baixa o IVA na alimentação.


DIXIT - “O primeiro-ministro e eu temos leituras um bocadinho diferentes da realidade. O primeiro-ministro olha para o lado cheio do copo, eu olho para o lado vazio do copo” - Marcelo Rebelo de Sousa


BACK TO BASICS - “Tenho a certeza que existem demasiadas certezas no Mundo” - Michael Crichton




março 10, 2023

ISTO ESTÁ NEGRO

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A BRIGADA - Esta semana soubemos que estamos salvos: António Costa tem uma equipa de choque de propaganda, constituída por 15 pessoas que estão no seu gabinete para convencerem o povo de que tudo está bem. Pouco interessa que o horizonte esteja negro, que a TAP se tenha confirmado como uma filme de terror pago pelos contribuintes a peso de ouro. Há meses que vemos o caos a crescer. Esta semana li este resumo do que se passa e não podia concordar mais: “O PS veio requalificar a ferrovia e agora não há comboios. Veio salvar o SNS e os directores das urgências demitem-se em bloco. Veio apaixonar-se pela educação e há alunos sem aulas. Veio apostar na habitação e há cada vez mais pessoas sem casa! Se o PS se lembra de querer salvar o País isto afunda de vez!”. E já nem se fala da justiça, do custo de vida, do dia-a-dia. Todos os dias há novas greves e além disso novas formas de greve, como na educação e na justiça ou nos transportes, que tornam a vida de todos num inferno. Portugal tornou-se numa entidade que não sai da cepa torta. Há semanas estive em Espanha e a diferença entre os dois países é cada vez mais gritante. Do lado de lá da fronteira sente-se movimento, animação, preocupação pela economia das pessoas e das empresas. Aqui não é isso que se passa e o Governo já nem se preocupa com o estado social. Esta semana Carlos Moedas escreveu um artigo sobre os falhanços do Estado e recorda que na Lisboa que conquistou está a desenvolver um plano de acção anti-inflação, a reforçar o Fundo de Emergência Social em quase 50%, a implementar um plano de saúde para as pessoas com mais de 65 anos, a possibilitar transportes gratuitos para os mais velhos e mais novos, a disponibilizar os equipamentos culturais da cidade de forma gratuita aos lisboetas. Comparem o que se passa em Lisboa com o que se passa no resto do país. Em vez de brigadas de propaganda o que era necessário era medidas concretas que melhorem a vida das pessoas.


 


SEMANADA - As obras de modernização da linha ferroviária do Oeste estão paradas há dez meses e correm o risco de perder financiamento comunitário; apenas 1% dos empréstimos à habitação estão a ser renegociados pelos principais bancos; o sector do turismo perdeu 45 mil trabalhadores durante a pandemia e debate-se com dificuldades em contratar pesoal; vão abrir 65 hotéis em Portugal em 2023; 15 anos depois de promulgada a Lei que determina a inventariação do seu património imobiliário, o Estado continua sem saber quantos terrenos ou edificios possui e também não sabe quantos dos edificios estão devolutos e poderiam ser colocados no mercado de arrendamento; a greve na Justiça já causou 8 mil adiamentos; oito urgências pediátricas vão fechar na zona de Lisboa; em Portugal os alimentos básicos já são mais caros que em Espanha e quase ao mesmo preço de França; um inquérito recente indica que, no conjunto dos países da União Europeia, a média de trabalhadores satisfeitos com a sua actividade profissional é de 43,8%, mas em Portugal o mesmo inquérito indica que apenas 21,6% dos trabalhadores se dizem muito satisfeitos com o seu emprego; nos últimos sete anos morreram mais soldados nos  quartéis em Portugal do que em 20 anos de missões no estrangeiro; o Bispo de Beja sugeriu perdão para os padres abusadores.


 


O ARCO DA VELHA - Uma investigação no âmbito de um mestrado apurou que existem inquéritos para investigar casos de corrupção que se arrastam durante nove anos sem terem um desfecho.


 


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DESENHOS AMPLIFICADOS - Chama-se “Baixo Eléctrico” a nova exposição de João Jacinto na Galeria 111, que ali ficará até 29 de Abril. Trata-se de um conjunto de novos trabalhos sobre papel feitos em 2022 e já este ano, com um traço marcante onde o desenho é peça fundamental (na imagem). João Jacinto começou a expor em 1986 e a sua obra está representada em diversas colecções nacionais e internacionais.Ao contrário de outras obras anteriores onde a forma de utilização das tintas produz volumes que se incorporam na imagem e criam uma perspectiva por vezes quase tridimensional, nesta exposição é o traço e o desenho que surgem em primeiro plano. A Galeria 111 fica na  R. Dr. João Soares 5B, e pode ser visitada de terça a sábado entre as 10 e as 19 horas. Outros destaques: em Coimbra vale a pena visitar a nova exposição do Centro de Arte Contemporânea, “Pose”, que reúne até 28 de Maio trabalhos de nomes como Amadeo de Souza-Cardoso, Andy Denzler, Andy Warhol, Paula Rego, Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis e Vhils, entre outros. Destaque ainda para a exposição  #Slow #Stop... #Think #Move Território #2, com curadoria de Ana Anacleto, agrupando um conjunto heterogéneo de obras, e que está até 5 de Maio na Fidelidade Arte, Largo do Chiado 8. Finalmente na Galeria Francisco Fino está a primeira exposição individual de Nuno Ramos, “Opening”, onde o artista  apresenta um novo conjunto de instalações, com recurso a som, escultura e fotografia. Rua Capitão Leitão 26, até 11 de Março.


 


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HISTÓRIAS DE CRISES - “Há cerca de uma década que venho assistindo a um deplorável declínio não só dos negócios no nosso país mas também no espírito das suas pessoas. Onde outrora morava a perseverança e a iniciativa, arrasta-se agora a apatia e o desespero”. Esta frase podia fazer parte do pensamento de muitos portugueses. Mas não é o caso. Trata-se de uma afirmação de Andrew Bevel, o protagonista da segunda história de “Confiança”, o livro de Hernán Diaz que foi vencedor do prémio Kirkus de 2022 é seleccionado no mesmo ano para o prémio Booker. É fascinante este livro, uma sucessão de histórias que se completam e se cruzam, umas encaixadas nas outras, todas girando em torno do mundo financeiro de Nova Iorque desde 1920, O relatório do prémio Kirkus frisa que “Confiança” é “Uma história complexa sobre poder, amor e a natureza da verdade”. A tradução, de Francisco Agarez, é excelente e esta história está a ser adaptada para uma série da HBO, produzida e interpretada por Kate Winslet.  Hernán Diaz nasceu na Argentina, cresceu na Suécia e vive hoje nos Estados Unidos da América. Publicou em 2017 o seu primeiro romance, “Ao Longe”, com o qual venceu o Prémio William Saroyan e foi finalista do Pulitzer e do PEN/Faulkner. O livro atravessa várias épocas, inclui diversas personagens, quase como se a história que é contada se fosse recriando ao longo dos tempos. Estes são os quatro momentos do livro: “Obrigações” é protagonizada por Harold Vanner, “A Minha Vida” tem como personagem central Andrew Bevel, em  “Memórias Relembradas” surge Ida Partenza e, a terminar, em “Futuros” é Mildred Bevel que recorda que “um sino, numa redoma, não toca”.


 


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A LISBOETA -  “Portuguesa” é o nome que Carminho escolheu para o novo disco, o seu sexto álbum, num ano em que tem em agenda uma série considerável de concertos em várias grandes salas europeias, com passagens por Espanha, Bélgica, Holanda, Reino Unido, Alemanha, Noruega ou Finlândia. Esta clara identificação com o seu país, é realçada pelo grafismo da capa e pela fotografia.  Numa muito interessante entrevista a Nuno Crespo, Carminho sublinha que “o fado nasce com os nossos grandes poetas para dizer os grandes feitos dos portugueses”, sublinhando que “procuramos muito as ideias de identidade e pertença, mas depois acabamos a fazer coisas que não dizem nada sobre nós”. Sendo portuguesa, este disco de Carminho é também um retrato de uma lisboeta, que pega na música de Alfredo Marceneiro ou Frederico de Brito ou ainda na Marcha de Alcântara, o seu bairro. É  um disco de poetas, de Manuel Alegre a Sophia de Mello Breyner, passando por David Mourão-Ferreira. Mas não é um disco saudosista, é um trabalho que cruza a tradição com colaborações com Luísa Sobral (num magnífico “Sentas-te A Meu Lado”), no “Ficar”, de Joana Espadinha, no “Simplesmente Ser” de Rita Vian,  ou no “Levo o meu barco no mar”, de Marcelo Camelo. E há também originais de Carminho, como “As Flores" ou “Praias Desertas”. São ao todo 14 temas de um disco marcante, produzido pela própria Carminho e com arranjos desafiadores baseados no trabalho de músicos como André Dias na guitarra portuguesa, Flávio César Cardoso na viola de fado ou o baixo acústico de Tiago Maia, mas também nas sonoridades da guitarra eléctrica e a lap steel de Pedro Geraldes, o mellotron e o sintetizador de João Pimenta Gomes, a braguinha e o ukulele eléctrico de André Santos  ou um teclado Rhodes, tocado pela própria Carminho. “Portuguesa”, edição Warner em CD e disponível nas plataformas de streaming.


 


PEIXES VEGETARIANOS - Num belo almoço de cozido, que juntou um grupo alargado de amigos, uma das convivas perguntou que alternativas poderiam existir já que era vegetariana e não poderia deliciar-se com os sabores dos enchidos e das carnes que perfumavam o arroz e os legumes que se tinham, todos, juntado na panela. A alternativa proposta pelo restaurante pareceu-me um genial ovo de colombo - peixinhos da horta acompanhados por arroz de coentros. Acontece que o restaurante onde isto se passou era o Papa Açorda, conhecido aliás pela categoria dos seus peixinhos da horta, essa invenção portuguesa de transformar feijão verde num petisco. Normalmente servido como aperitivo, o feijão verde envolto em polme e frito  a alta temperatura, para ficar seco e estaladiço, leva-nos para uma das nossas mais antigas exportações gastronómicas, no caso para o Japão, onde se desenvolveram tempuras (frituras) de variadíssimas coisas. Mas regressamos aos peixinhos da horta - a sua combinação com o arroz de coentros resulta bem e constitui um petisco inesperado. A solução vegetariana proposta em dia de cozido revela imaginação e um bom improviso. Recentemente tive ocasião de experimentar uns outros peixinhos da horta muito bons, no Chiringuito, em Lisboa, um belo local de Campo de Ourique onde regressarei numa destas semanas.


 


BOM - O episódio de estreia de “Motel Valquíria”,  na RTP1 - bom som, boa fotografia, bons actores, boa realização, boa edição - uma conjugação que nem sempre aparece nas produções portuguesas.


 


MAU - As respostas e a posição do cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, sobre os casos de abuso sexual praticados por membros da Igreja em Portugal.


 


DIXIT - “A crítica principal (à resposta da Igreja) é a de que as vítimas não estiveram no centro do discurso. Foi o que decepcionou mais “ - Daniel Sampaio


 


BACK TO BASICS - “Há dois pecados capitais de onde derivam todos os outros: impaciência e preguiça” - Franz Kafka







março 03, 2023

O INTOCÁVEL ESTADO

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DESIGUALDADES - Se um vulgar cidadão se atrasa a cumprir as suas obrigações para com o Estado tem tolerância zero, salta-lhe a máquina burocrática em cima, sem apelo nem agravo, sem recursos, sem decisões judiciais. Mas há uma excepção: o Estado é muitíssimo tolerante consigo próprio. Desculpa-se pelos atrasos, esquece-se do que devia fazer, deixa as coisas correr quando lhe dá jeito. Vou dar um exemplo, que está relacionado com um dos maiores escândalos da justiça portuguesa na última década. O caso é o que envolve José Sócrates, o exemplo é a Lei que regulamenta o sorteio de juízes para, diziam, tentar melhorar a transparência na distribuição dos processos em tribunal. A lei entrou em vigor em Outubro de 2021, o Governo estava obrigado a regulamentá-la no prazo de 30 dias para que ela pudesse começar a ser aplicada. Até hoje não foi regulamentada, apesar de ter passado ano e meio, continua pois sem poder ser aplicada. E assim os juízes continuam a ser designados pelo método antigo, o do sorteio. O que é que isto tem a ver com Sócrates? -  os seus advogados aproveitam a vantajosa ausência de regulamentação para, de cada vez que é sorteado um juiz para apreciar um recurso do processo do ex-Primeiro Ministro e líder do PS, apresentarem novo recurso a pedir o afastamento do juiz designado por a distribuição ter sido feita através de um sorteio que já não está previsto na lei em vigor. Recapitulemos: José Sócrates foi detido há mais de oito anos, em Novembro de 2014, foi acusado em Outubro de 2017 e pronunciado em Abril de 2021. De então para cá há  uma teia de recursos a bloquear o processo e as primeiras prescrições - o objectivo de todos estes expedientes - acontecem já em 2024. Data de julgamento é coisa que não existe. Ninguém me convencerá que estes atrasos de regulamentação são ingénuos ou casuais. 


 


SEMANADA - A idade média da população portuguesa é agora de  46,8 anos, um aumento de 4,7 anos em relação a 2012, o que constitui a maior subida registada em igual período na União Europeia; o preço dos alimentos está a aumentar mais em Portugal na zona euro e produtos como ovos, leite fresco e comida de bebé são aqueles onde se regista maior desvio; nos produtos alimentares não transformados o aumento verificado em Fevereiro em relação ao mesmo mês do ano passado é de 20,11%;  a Lei que prevê a divulgação dos contratos dos gestores públicos foi aprovada há mais de uma ano, mas ainda não foi publicado nenhum contrato; uma sondagem recente mostra que os três principais problemas indicados pelos portugueses são a inflação, o estado da governação e a corrupção; o endividamento da economia portuguesa aumentou 19,1 mil milhões de euros em 22, para um total de 793,8 mil milhões; em 2022 foram criadas mais de 48 mil empresas em Portugal, mais 14% que em 2021; uma consulta de psiquiatria infantil chega a ter um prazo de 200 dias de lista de espera em alguns hospitais públicos; em Janeiro o total dos depósitos de particulares em bancos diminuíu 2,5 mil milhões de euros face a Dezembro de 2022 e as subscrições líquidas de certificados de aforro aumentaram 2,9 mil milhões de euros no mesmo período; um em cada quatro médicos tem mais de 65 anos e cinco mil vão aposentar-se até 2030.


 


O ARCO DA VELHA - O Ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, anunciou a presença de Lula da Silva na cerimónia do 25 de Abril no Parlamento, a fazer um discurso, sem que isso tenha sido discutido e decidido na própria Assembleia da República.


 


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UMA COLECÇÃO IMPERDÍVEL  - Desde quarta-feira e até 8 de Abril poderão ver na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa,  uma parte da colecção de arte moderna e contemporânea de Norlinda e José Lima, apresentada sob o título “Uma terna (e política) contemplação do que vive”. Empresário e industrial da área do calçado,  José Lima, e a sua mulher, Norlinda, professora de profissão,  adquiriram ao longo dos anos uma vasta e importante colecção com mais de 1300 obras de arte, contabilizando cerca de 250 artistas portugueses e 230 internacionais, colocada em depósito no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira, sua terra natal e onde o casal vive. Numa entrevista de 2021 José Lima considerou-se “ um colecionador invulgar porque não estudou e tudo o que aprendeu foi por si, lendo os livros, visitando museus, exposições e ateliês, falando com curadores, galeristas e artistas”. Na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 26) estes coleccionadores apresentam 120 das suas obras, de autores como, entre muitos outros, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Paula Rego, Rui Chafes, Ana Jotta, Pedro Chorão, Jorge Queiroz, Anish Kapoor, Andy Warhol, Christo, Joseph Beuys, Damien Hirst, Pistoletto ou Sol Lewitt (na imagem). “A abordagem deste projeto é focada no ponto de vista dos colecionadores, procurando expor o maior número de artistas possível, num ângulo que nos permita viajar com os públicos pela História da Arte Contemporânea”, afirma Helena Mendes Pereira, diretora da zet gallery, de Braga, que assegurou a curadoria desta exposição. 


 


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O TESTEMUNHO DE UMA VIDA - Manuel S. Fonseca é um homem de sete instrumentos - uns foi tocando ao longo da sua vida profissional, outros toca agora com belas orquestrações. O Manuel é um homem com a vida marcada pelo cinema, a escrita, a música, suas paixões confessas apenas suplantadas pela forma como fala da Luanda e de Angola, onde foi menino e cresceu. Este livro, é uma colectânea de escritos, ditos, crónicas de jornal, posts de blogues, reunidos ao longo de uma dúzia de anos. São recordações de paixões e declarações de fidelidade a muitas coisas que viveu, que fez, que sentiu. Há momentos em que é um livro de aventuras, umas tão ternas como aquela pescaria de caranguejos, feita com o seu pai, pelo areal fora, em que os crustáceos se iam escapando do saco que o Manuel menino deixou entreaberto, para que todos fugissem de novo para o mar  -  tudo culminou com pai e filho a comprarem caranguejos a pescadores locais para não chegarem a casa de mãos a abanar. Mas é também a recordação dos momentos em que Angola começou a traçar o seu próprio caminho, os dias de Fevereiro de 1961, o clima vivido, os medos sentidos. Livro de observações, divide-se entre as recordações de infância, as aventuras de adolescência, os dias da independência e a declaração de amor ao Liceu Salvador Correia, que o fez homem e é o manifesto que encerra este livro que fala de filmes de nomes como Godard, de canções de Aretha Franklin e de Bob Dylan, das marcas dos tempos que viveu. Aqui se cruzam memórias de Angola e episódios de vida - “Este é o meu livro de África”, diz o Manuel aos seus amigos, sorrindo com os olhos, como costuma fazer. A edição, não podia deixar de ser, é da sua “Guerra & Paz”, que fundou e é agora a sua vida.


 


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DISCOS ARTIFICIAIS - Foi há 22 anos que os Gorillaz lançaram o seu primeiro disco e agora têm o seu oitavo álbum de originais,  “Cracker Island”. The Guardian já escreveu que era um dos seus melhores trabalhos de sempre e parece-me que tem razão. Os Gorillaz, convém recordar, são uma banda virtual, anónima, que vive deliberadamente sem caras em palco, apenas imagens de avatars de inspiração BD, que protagonizam os músicos. Na origem da coisa esteve Damon Albarn, dos Blur, e o seu amigo Jamie Hewlett, que desenhou os bonecos. Nos Gorillaz Damon Albarn fez aquilo que não conseguia nos Blur - explorou outras sonoridades, andou por territórios fora do pop formatadinha. Banda virtual, os Gorillaz têm nomes imaginados: 2D canta e está nas teclas, Murdoc Niccals está no baixo, Noodle na guitarra e Russel Hobbs na bateria. Em palco estão projecções dos bonecos, não há musicos à vista, e mesmo assim os concertos são um acontecimento. Ao longo destas mais de duas décadas passaram pelos Gorillaz muitos músicos convidados e Albarn é o único membro permanente. Os cruzamentos musicais que Albarn consegue entre músicos de diversos géneros são talvez a razão de ser da notoriedade que a banda conseguiu. “Cracker Island “ é um disco pop que parece programado a IA para satisfazer os consumidores de música em streaming - mas isso é uma vantagem. Aqui estão colaborações tão diversas de nomes como Stevie Nicks, Thundercat, Tame Impala e Bootie Brown, Bad Bunny, Beck ou e La Soul entre outros. O resultado é que não há duas canções iguais e que a maioria delas são mesmo bem apanhadas. Nada como ouvir para confirmar. “Cracker Island" foi feito para as plataformas  de streaming e é lá que o podem encontrar.


 


ARROZ DE FUNGOS - Este é o tempo dos cogumelos, portanto é aproveitar. No mercado existem muitas variedades de cogumelos, uns deliciosos fungos que são uma óptima matéria prima para um arroz que fará uma bela refeição - será o dia ideal para convidar aquele amigo vegetariano que fica sempre subalternizado numa mesa. O primeiro conselho é que escolham umas duas ou três variedades de cogumelos (shitake, portobello, shimaji), lavando-os bem em água corrente. Uma vez feita a lavagem e depois de escorridos, cortem-nos em pedaços não demasiado pequenos e reservem. Num tacho largo coloquem azeite e meia dúzia de fatias finas de cebola roxa e deixem refogar em lume brando até ficar translúcida. Depois adicionem os cogumelos, temperem com sal e um pouco de vinho branco seco, tapem o tacho e deixem em lume baixo durante dez minutos. Ao fim desse tempo adicionem arroz carolino e envolvam bem, adicionando a água na quantidade normal devida para a quantidade de arroz que usaram. Mexam tudo muito bem de novo, voltem a tapar e deixem em lume brando até o arroz estar cozido. Rectifiquem o tempero com um pouco de pimenta preta moída na altura, e uma generosa colher de sopa de manteiga, mexam tudo de novo muito bem, voltem a tapar e deixem a repousar uns cinco minutos. Podem servir, bom apetite. 


 


BOM - O Urso de Prata do Festival de Cinema de Berlim, o prémio do Júri, foi para João Canijo e o seu filme “Mal Viver”, uma consagração mais que merecida.


 


MAU - Como diz António Barreto, “as políticos e as práticas seguidas actualmente por Portugal (em relação à imigração) são incentivos à clandestinidade, ao tráfico de mão de obra, ao abuso dos trabalhadores e a novas formas de racismo”.


 


DIXIT - “Não podemos delegar responsabilidades e ficar à espera que a Igreja resolva sozinha os desmandos. Seria tornarmo-nos cúmplices desta vergonha” - Pedro Norton


 


BACK TO BASICS - “Não chega ter uma boa cabeça, o fundamental é usá-la bem” - Descartes


 




fevereiro 24, 2023

PRR - PROGRAMA DE RESISTÊNCIA ÀS REFORMAS NECESSÁRIAS

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DOIS PAÍSES? - António Costa parece uma vestal pura, incapaz de pecado. Quem o ouvir por estes dias não acredita que ele esteve anos à frente da Câmara Municipal de Lisboa e, depois, anos no Governo, até agora. Se quem o ouve tiver acabado de aterrar vindo de Marte, achará que António Costa chegou agora ao poder, cheio de boas ideias e imbuído de um avassalador ímpeto reformista. Só que não. Anda por cá há muito e fez pouco, embora tenha a arte de querer mostrar ter feito muito. Ele é um mágico, um ilusionista. Se fosse personagem de banda desenhada seria Mandrake. Vem isto a propósito dos exercícios de contorcionismo de António Costa frente ao Presidente da República, a propósito da execução do PRR. Relatos surgidos na imprensa sobre o interrogatório a que Costa foi submetido por Marcelo e por assessores da Presidência são elucidativos do cepticismo que começa a espalhar-se, muito para além de Belém, sobre o que de facto se está a passar com as verbas do PRR. Já em tempos o Ministro da Economia, António Costa e Silva, reconheceu que a administração pública está mais vocacionada para dar pareceres do que em executar os planos que a política define. Na reunião de Belém houve especialistas que disseram conhecer candidaturas ao PRR que demoraram 300 dias a ser respondidas e tornou-se evidente que há uma baixíssima percentagem de fundos executados em áreas críticas como a habitação ou a agricultura. Na reunião de Belém, Marcelo terá dito uma frase lapidar: “senhor primeiro-ministro, de cada vez que falamos deste assunto parece que vemos dois países diferentes”.  


 


SEMANADA - Um inquérito efectuado em Portugal para o European Social Survey mostra que os portugueses estão desiludidos com o funcionamento da democracia e que o mau funcionamento da justiça é o problema maior; o cabaz de alimentos subiu 45 euros num ano, um aumento de 24,5% e entre 63 bens essenciais 53 estão mais caros; as receitas para as autarquias, últimos dez anos, com o Imposto Municipal sobre Transmissões imobiliárias cresceram 340% e o IMI cresceu 20%; em 2021 os preços das casas subiram na maioria das capitais de distrito e em metade dos casos o aumento ultrapassou os 10%; o aumento dos preços está a levar os estudantes a recorrerem mais às cantinas, como a "Cantina Velha" da Universidade de Lisboa, que servia cerca de 400 refeições diárias e agora serve quase 1600; segundo um estudo da Entidade Reguladora da Saúde, o número de psicólogos nos Cuidados de Saúde Primários deveria ser o dobro dos que agora existem; segundo o Censos 2021 há mais de um milhão de pessoas a viverem sózinhas em Portugal; em Janeiro o desemprego cresceu pelo sexto mês consecutivo; a segurança social atrasou-se a pagar o bónus de meia pensão aos reformados que se aposentaram em Setembro e Outubro; os subsídios de doença aumentaram 59,2% em janeiro face ao mês anterior e 12,7% comparando com o período homólogo, alcançando o número mais alto desde 2010.


 


O ARCO DA VELHA - No relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa descrevem-se casos de promiscuidade entre as autoridades militares, civis e eclesiásticas no encobrimento das acções praticadas.


 


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OBRAS IMERSAS  - Como todos os artistas que o são, Pedro Calapez tem um estilo próprio, uma marca de autor, que percorre a sua obra. Não se trata de olhar sempre da mesma forma, é sobretudo interpretar coerentemente o que vê e, também, o que imagina. Muitas vezes Calapez introduz variantes, quer através dos suportes utilizados, quer na combinação de vários suportes ou na forma como as peças se juntam para criar uma única obra. “Estado de Imersão”, a sua mais recente exposição, estará até 8 de Abril na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B, Lisboa) e mostra 14 obras, a maioria feitas entre 2020 e 2023, diferentes na concepção, formatos e suportes utilizados - cinco são pinturas a acrílico sobre alumínio, sete são pinturas em papel (e nestas estão as seis da série “Volta A Casa”, de 2022, particularmente reveladoras de novas formas de ver do artista) e duas a acrílico sobre tela. Na imagem Pedro Calapez aparece frente a uma das obras mais marcantes da exposição, “Bartleby disse”, uma montagem de duas peças, ambas com base de alumínio, uma a acrílico e outra a óleo. No site da galeria podem ver um vídeo onde o artista fala sobre a sua obra. E esta semana decorre até domingo em Madrid mais uma edição da feira de arte ARCO (que em Maio terá a sua edição lisboeta). Em Madrid estão, nas várias secções, 17 galerias portuguesas e também uma representação institucional de Lisboa, a cargo da EGEAC, que apresenta uma obra do artista Paulo Brighenti.


 


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O ESCRITOR MALDITO - Conheci Luiz Pacheco por acaso, num snack bar que existia por baixo do edifício que albergou o jornal “República” e, mais tarde, o “Portugal Hoje”. Era eu então um jovem jornalista que ali ía ao fim da tarde ouvir os mais velhos e experientes jornalistas que andavam pelo Bairro Alto onde então estavam redacções de vários jornais. E nesse snack bar volta e meia aparecia Luiz Pacheco, esperançado, e com razão,  que alguém lhe pagaria alguma coisa para entreter o estômago enquanto bebesse um copo, também oferecido. Mesmo numa época em que o dinheiro não abundava nos bolsos dos jornalistas nunca ouvi ninguém recusar um copo ao Pacheco, a troco de o ouvir e poder discutir alguma coisa com ele, o que era sempre épico. Luiz Pacheco nasceu em 1945 e foi como editor, na Contraponto, que fundou, que se destacou. Aí editou autores como José Cardoso Pires, Natália Correia, Mário Cesariny ou Herberto Hélder. Tinha um sarcasmo vivo e amargo, gostava de uma boa discussão  com quem lhe desse luta, era inconformista e cultivou a imagem de um espírito incómodo. Escreveu ensaios como “Crítica de Circunstância”, manifestos como “O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, O Seu Esplendor”, fez livros com textos seus ilustrados por nomes como Martim Avilez, Manuel João Ramos ou Alice Geirinhas. Foi o que se chama um escritor maldito, morreu em 2008, passou a vida a lutar por ser livre e a sua vida teve um lado escabroso, viveu na solidão e no alcoolismo, conheceu a prisão.  “O Firmamento É Negro e Não Azul” é a biografia de Luiz Pacheco, escrita por António Cândido Franco, de forma rigorosa e sem preconceitos de linguagem. António Cândido Franco é autor de vários estudos sobre literatura e cultura portuguesas, nomeadamente biografias de Agostinho da Silva e Mário Cesariny. “O Firmamento É Negro E Não Azul” é uma edição da Quetzal.


 


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UMA BOA EXPERIÊNCIA - Em 2012 Lex Blondin, um parisiense a viver em Londres, decidiu criar num armazém na zona de Hackney o Total Refreshment Centre, que incorporava um estúdio de gravação, uma sala para concertos e uma zona para workshops de artistas. A comunidade de criadores de diversas áreas, mas predominantemente de músicos, que ali se juntou, tornou-se no epicentro de uma explosão de talentos de jazz, como Moses Boyd ou The Comet Is Coming que depressa ganharam notoriedade e reconhecimento internacionais e que contribuíram também colocar o Total Refreshment Centre (TRC) na vanguarda da música que então se produzia na Europa. A valência da sala de espectáculos foi entretanto abandonada, mas o estúdio e a área de ensaios, workshops e de convívio entre várias expressões artísticas intensificou-se. Foi isto que levou a histórica etiqueta discográfica Blue Note a decidir dar palco à música que dali saía e assim nasceu o álbum “Transmissions From Total Refreshment Centre”. O disco mostra o trabalho de sete músicos e grupos que têm estado associados ao TRC. Alguns dos temas foram lá gravados, outros foram registados noutras localizações o que torna o álbum uma demonstração da estética envolvida pela comunidade que se desenvolveu no TRC. Nas notas de capa do disco Emma Warren, que escreveu um livro sobre o Total Refreshment Centre intitulado “Make Some Space”, sublinha que muito do espírito do local vem da influência de “Jazzmatazz”, o álbum que o rapper Guru gravou em 1993 e que juntava músicos de influências diversas como Donald Byrd ou Roy Ayers. E foi a esses cruzamentos de estilos e influências que a comunidade musical do TRC foi beber inspiração - basta ouvir a faixa 5 e ver como Miryam Solomon canta a acompanhar os Matters Unknown numa  interpretação muito pessoal da bossa nova. Transmissions from Total Refreshment Centre inclui sete temas de outros tantos artistas e está disponível nas plataformas de  streaming.


 


A SOPA  - Diz a Wikipedia que a sopa é o alimento mais antigo do mundo, percorre civilizações, tem interpretações diferentes conforme as geografias onde é cozinhada, mas baseia-se sempre no mesmo princípio: uma comida de conforto, que prepara o estômago e garante alguns nutrientes básicos. No Oriente as sopas com noodles, vegetais e diversas proteínas recorrem a temperos como o gengibre, o cardamomo e o tamarindo, a ocidente preferem os legumes que vão da abóbora às couves de bruxelas e recorrem muitas vezes a carnes fumadas e a queijo. Podem ser quentes, como o nosso caldo verde ou a minestrone italiana, ou frias, como o gaspacho espanhol. Podem ser mais complexas, como a sopa rica de peixe, ou inesperadas como a canja de arroz, que em vez de galinha leva amêijoas. E já nem falo de duas criações bem portuguesas - a deliciosa sopa de beldroegas ou a lendária sopa de pedra, que mostra como com imaginação e descaramento se pode, a partir de uma pedra e contando com a boa vontade alheia, fazer um autêntica sopa de cozido. Seja como fôr, há poucas coisas que substituem uma boa sopa, que muitas vezes pode ser uma refeição completa. E a maior parte das sopas é de baixo custo, de confecção simples e de fácil digestão. Aqui podem espreitar as receitas das 20 mais famosas sopas do mundo - https://foodandroad.com/pt-br/melhores-sopas-do-mundo/





BOM - A prescrição de medicamentos genéricos permitiu poupar mais de 509 milhões de euros em 2022.


 


MAU -  O Presidente da República manifestou baixas expectativas sobre a execução dos fundos do PRR


 


DIXIT - “Olhando para o pacote (de medidas sobre a habitação) não é possível ter uma ideia do que está lá dentro. O povo costuma dizer que só se sabe se o melão é bom depois de o abrir. É preciso abrir o melão” - Marcelo Rebelo de Sousa.


 


BACK TO BASICS - "É uma lástima que os loucos não tenham o direito de falar sensatamente das loucuras das pessoas sensatas” - William Shakespeare


 





fevereiro 17, 2023

AS REFORMAS NUNCA CUMPRIDAS

 


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INJUSTIÇA - Um dos maiores problemas que existe em Portugal é termos um sistema de injustiça, em vez de termos um sistema de justiça. Isto é particularmente verdade quando de um lado está o Estado, em processos administrativos ou fiscais, por exemplo, mas acaba por atingir toda a acção dos tribunais e da administração da justiça. Tudo se atrasa, os processos por mais simples que sejam são demorados. Quem está a braços com alguma questão desespera pelo tempo que passa sem nada se resolver, umas vezes porque os tribunais são lentos e queixam-se de falta de recursos humanos e técnicos, outras porque há  mil maneiras de adiar o andamento dos processos e protelar as decisões. Num recente artigo a ex-Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, defendeu a reforma profunda do processo penal, elegendo o ataque às manobras dilatórias e à litigância de má-fé como prioritária. Mas acontece que a palavra “reforma” em Portugal tem uma peculiar maldição: é muito prometida mas quase nunca cumprida.  Ainda por cima todos se queixam da lentidão da justiça mas no meio da situação em que se vive ela não é elencada como prioridade. Há razões evidentes para as pessoas se preocuparem com a quebra do poder de compra, com a degradação do ensino público, com a situação dos professores, com a falta de meios do Serviço Nacional de Saúde. Com estas preocupações a crescerem, a situação da justiça passa para segundo plano. Além disso, este sistema de falta de justiça serve às mil maravilhas para deixar campo aberto para muita coisa. Recordo esta frase de António Barreto, num artigo que publicou na semana passada: “Há em Portugal um clima de cortar à faca, aquele em que se sente a corrupção, em que se vive da cunha, em que se julga que  a democracia é o poder discricionário de quem tem os votos” . Tudo isto convive às mil maravilhas com o caos da justiça.


 


SEMANADA - Segundo o INE, o sector onde actuam Uber Eats e Glovo, entre outros, movimentou 852 milhões de euros em 2021, um aumento de 31,6% em relação ao ano anterior; o Ministério da Habitação só utilizou 3% dos fundos do PRR; um quarto das lojas da Baixa lisboeta fechadas no início da pandemia não voltou a abrir; em 2022 o poder de compra dos portugueses caíu para os níveis de 2018 e segundo o INE o ordenado bruto médio caiu 4%; a direcção do SNS, criada há quatro meses, continua sem regras de funcionamento; o Estado deve 9,6 milhões de euros a artistas, devido ao atraso no pagamento dos apoios do programa Garantir Cultura, aprovado durante a pandemia; 9,9% da população portuguesa vive sózinha; o custo da publicidade emitida no intervalo do Super Bowl equivale a 75% do investimento publicitário total anual do mercado português; só 1,1% das águas residuais tratadas são reutilizadas, o que compara com o objectivo estabelecido de 20% de reutilização estabelecido pelo Governo para 2030; há cerca de 40.000 brasileiros a frequentarem escolas portuguesas e quase 19 mil em universidades; numa década as escolas perderam um quinto dos seus alunos, passando de dois milhões de alunos do pré escolar ao ensino secundário para pouco mais de 1,5 milhões; no relatório sobre os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja católica estão referenciadas pelo menos 4815 crianças que foram vítimas e a idade média que  tinham no primeiro abuso que sofreram é de 11,2 anos.


 


O ARCO DA VELHA - Inês Franco Alexandre, assessora da Ministra do Trabalho, propôs, num programa de rádio, ocupar o tabuleiro da ponte 25 de Abril com tendas, numa acção de protesto contra os problemas da habitação em Portugal. O Governo justificou a sua contratação pela sua experiência em inovação social.


 


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AUTO-COLECÇÃO  - Até 21 de Maio o Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, apresenta “Os NikiaΣ do Nikias”, uma exposição que reúne 80 das suas obras que fazem parte do acervo pessoal que deixou, entre elas esta Mulher Leopardo aqui reproduzida . Nikias Ribeiro Skapinakis, nascido em Lisboa, de ascendência grega,  começou por estudar arquitectura, depois optou pela pintura e expôs pela primeira vez em 1948. Ao longo da sua vida foi sobretudo pintor, mas igualmente desenhador, fez ilustração de livros, litografia e serigrafia. E foi, também, autor de “Os Críticos”, um dos painéis da Brasileira, do Chiado.  Como refere o MNAC, “a surpresa da exposição (...) residirá na seleção particular de obras que vamos encontrar e que, de acordo com critérios muito próprios, Nikias escolheu para integrarem o seu espaço privado”.  Todos os textos que acompanham a exposição são da autoria do artista e, apesar de ter defendido que a pintura não precisa de explicações, Nikias é autor de uma relevante reflexão sobre a própria obra. A exposição tem curadoria de Helena Skapinakis e Maria de Aires Silveira. Outros destaques: só tem mais alguns dias, até 18 de Fevereiro, para visitar a Retrospectiva de Pintura de João Abel Manta, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), com curadoria de João Paulo Queiroz.  E na Galeria 111 (R. Dr. João Soares, 5B, Lisboa), até 25 de Fevereiro ainda pode ver a nova exposição de Fátima Mendonça “Em Diário – Dias Incertos”.  Fátima Mendonça conta que a quarentena a levou a fazer desenhos que depois punha na sua página do Facebook como forma de comunicar e assim aos poucos foi-se criando um diário gráfico. Finalmente na Galeria Diferença ( Rua S. Filipe Nery 42), Graça Pereira Coutinho apresenta novos trabalhos na exposição “Life”.





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A BIBLIOTECA - Para quem gosta de livros existe sempre um fascínio em saber como outras pessoas criam uma biblioteca. Por isso mesmo “Biblioteca Pessoal” é um fascinante livro de Jorge Luis Borges, ele que foi bibliotecário durante muitos anos, vivendo essa profissão como a de um «guardião dos tesouros». Em 1985 pediram-lhe que  escolhesse cem livros para a publicação de uma «biblioteca pessoal». Morreu em 1986, antes de poder concluir esse projeto; no entanto, deixou uma lista de obras que refletia as suas preocupações e gostos literários, bem como os prólogos dos primeiros setenta e quatro títulos da série. É essa escolha pessoalíssima que este “Biblioteca Pessoal” mostra. No prólogo do livro Borges escreveu: «Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor. […] Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências». No livro Borges fala de autores como Franz Kafka, Henrik Ibsen, André Gide, Fedor Dostoiévski, Herman Melville, Voltaire, Edgar Allen  Poe, ou Robert Louis Stevenson, entre outros. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899 e publicou em 1923 o seu primeiro livro, “Fervor de Buenos Aires”. Escreveu poesia e ficção, crítica e ensaio e distinguiu-se com os seus contos e narrativas breves. Viveu em vários países e, na sua Argentina natal, foi professor de literatura e dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires. “Biblioteca Pessoal” foi , com tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, foi editado pela Quetzal.


 


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UMA HISTÓRIA PARA BATERIA E PIANO - Como será um disco em que a música é totalmente interpretada apenas por uma bateria e um piano? Sugiro que experimentem ouvir “A Short Diary”, do baterista Sebastian Rochford e do pianista Kit Downes. Este é um diário especial, um retrato musical das emoções de Rochford depois da morte do seu pai. É um trabalho duplamente interessante porque combina o talento de Rochford enquanto compositor, com o seu virtuosismo e criatividade enquanto baterista. Por outro lado, a forma como Kit Downes toca piano contribui para mostrar a beleza das composições destes oito temas. Na realidade Downes permite que cada tema se desenvolva e crie espaço para que Rochford exprima os seus sentimentos com a bateria de uma forma subtil - e destaco por isso “Silver Light” e “Even Now I Think Of Her”. E existem outros temas em que o piano diz tudo, como em “Our Time Is Still” ou “Night Of Quiet”. Este é um disco fascinante, de uma enorme sensibilidade, onde a melancolia se cruza com a recordação de boas memórias, como se fosse uma história contada em música. Edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.


 


MASSA HEREGE - Enquanto aguardo pela estreia da lampreia da época - raridade este ano pelo que vou percebendo - relato um improviso recente, com heresias na utilização de matérias primas. Trata-se de um prato à base de massa, um dos meus ingredientes favoritos. A massa é misturada com camarão - a heresia começa aqui, já que em vez de camarão fresco que descasquei utilizei camarão congelado, de bom calibre, que deixei a descongelar de véspera. A massa escolhida foi tagliatelli, que na minha opinião é das que melhor absorve os sabores - a segunda heresia é partir ao meio o molho de tagliatelli que se vai usar e, só depois, colocá-lo em abundante água a ferver salgada. Enquanto a massa cozia, menos uns minutos do que o recomendado, fiz um refogado de alho picado com alho francês às rodelas finas, sobre azeite a que juntei uma generosa colher de manteiga - o resultado da mistura da manteiga com o azeite é uma coisa que devem experimentar. Ao fim de alguns momentos juntei os camarões, que fui salteando, dois minutos de cada lado sensivelmente. Ao fim desse tempo retirem os camarões e reservem, adicionem um pouco de vinho branco e sumo de um limão ao refogado, e deitem a massa lá para dentro, mexendo bem. Adicionem mais um pouco de manteiga, cebolinho fresco, uns salpicos de peperoncino  e juntem os camarões a seguir. Envolvam bem tudo mais dois minutos com lume brando, juntem um pouco da água da cozedura da massa que terão entretanto guardado, e assim os tagliatelli ficarão soltos. Acompanhe com um vinho branco frutado - o Altano que está à venda nesta altura é uma boa opção.


 


BOM - As palavras do Bispo D. Américo Aguiar, na sequência do relatório  da Comissão Independente sobre os abusos sexuais: «Qualquer pessoa que tenha vivido o flagelo de um crime destes tem um sofrimento que não se compara com qualquer quebra de notoriedade ou prejuízo colateral que a Igreja possa ter», 


 


MAU - A Comissão Parlamentar de inquérito `TAP foi aprovada a 3 de Fevereiro mas ainda não está a funcionar, presa na burocracia parlamentar.


 


DIXIT - “A TAP já fez muitas vítimas. A próxima, no entanto, é sempre a mesma. Chama-se contribuinte” - Luís Marques.


 


BACK TO BASICS - “A realidade é a oposição mais agressiva que o PS tem” - Carlos Guimarães Pinto.







fevereiro 10, 2023

UMA CANÇÃO QUE CONTINUA ACTUAL

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UM PAíS ADIADO - Meio século atrás havia uma canção, de Sérgio Godinho, que tinha como refrão as palavras pão, paz, habitação, saúde e educação, os pontos que reivindicava como condição para que, de facto, as pessoas fossem livres. Se olharmos para os meses mais recentes vemos que existem sinais de diminuição do consumo de produtos básicos de uma alimentação saudável devido ao aumento dos preços, sabemos que a paz é um desejo permanentemente ameaçado, sentimos os problemas graves que existem no sistema nacional de saúde, estamos no meio de um turbilhão na educação e a habitação é um sério problema, quer pelo aumento dos preços das casas, quer pelo aumento dos custos de financiamento, quer ainda pelo inflacionado e anémico​​ mercado de arrendamento. Bem vistas as coisas, em meio século, estes indicadores básicos não foram cumpridos. Olhemos para a habitação. Um relatório recente do Banco de Portugal revela que, desde outubro do ano passado, o custo financeiro de comprar casa em Portugal superou o custo na média dos países do euro: em dezembro, a taxa de juro média dos novos créditos à habitação em Portugal era 36 pontos base superior à taxa cobrada pelos bancos da Zona Euro e, em 2022, a taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação mais do que triplicou em relação a 2021. Outros estudos indicam que em 2022 o preço médio das casas subiu 9,7%. Nas grandes cidades cada vez mais pessoas, sobretudo idosos com contratos de arrendamento antigos, são forçados a sair das suas habitações. Os mais novos, no início da sua vida profissional, têm sérias dificuldades em suportar os custos de habitação. O país prometido não se cumpriu, os Governos não fazem reformas estruturais, passeiam-se apenas pelo poder, adiando sempre o principal.


 


SEMANADA - No primeiro ano de maioria absoluta do atual governo, os serviços públicos foram alvo de quase 14 mil reclamações dos portugueses. O IMT, a Segurança Social, o SEF, o SNS e a AT lideram a tabela das reclamações, a maior parte das quais relacionadas com o mau atendimento das entidades, entre janeiro e dezembro de 2022, chegaram ao Portal da Queixa 1788 reclamações relacionadas com problemas nos serviços de entrega de refeições ao domicílio e atrasos nas entregas é uma das principais causas; os estabelecimentos de cabeleireiro perderam 20% de faturação em 2022; a renegociação de empréstimos à habitação duplicou em três meses; em três anos o preço da habitação disparou 38%; em 2022 13 casas em Lisboa e no Algarve foram compradas com criptomoedas; um estudo divulgado esta semana indica que os adolescentes começam a actividade sexual mais tarde e fazem-no cada vez mais sem protecção; o Parlamento recebeu 163 pedidos para repor freguesias que foram extintas em 2013; mais de um terço dos cheques-dentista emitidos não foram utilizados; segundo a Marktest entre janeiro e dezembro de 2022 os programas regulares de informação da RTP1, SIC e TVI emitiram 79 705 notícias; os serviços de noticiário destes canais generalistas  tiveram uma duração total de 2 971 horas, uma média diária de 2 horas e 42 minutos por canal; um estudo da Universidade Nova Indica que o uso mais intenso de lareiras agravou a poluição no norte do país.


 


O ARCO DA VELHA - A direcção do Bloco de Esquerda é acusada pela oposição interna de perpetuação no poder, ausência de democracia interna, de esvaziamento dos princípios e de impedir a diversidade dentro do partido.


 


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CONVERSA EXPOSTA - Em Elvas, no Museu de Arqueologia e Etnografia, está patente uma exposição de obras de Pedro Calapez e Rui Sanches que integram a colecção António Cachola, a maioria feitas nos anos 90 e na primeira década deste século. Ao todo são cerca de duas dezenas de obras - pintura e desenho no caso de Pedro Calapez e escultura e desenho no caso de Rui Sanches. Sob o título “Conversa”, os dois artistas fazem, como sublinha Rui Sanches na folha de sala, um dueto. E Calapez esclarece: “aparecemos em diferentes momentos nesta colecção, que desde há quinze anos é a coleção António Cachola-Mace, e teremos eventualmente sido dos primeiros artistas em que o seu olhar pousou e fez juntar as obras que fazíamos ao seu tesouro.” A exposição completa-se com duas peças que não fazem parte da colecção, uma de Calapez que está exposta no Paiol de Elvas e outra de Rui Sanches que será mostrada em Junho, na Cisterna. Ao mesmo tempo, no MACE (Museu de Arte Contemporânea de Elvas”, abriu também a primeira parte da exposição “A fotografia na colecção António Cachola”, com mais de duas dezenas de autores como Jorge Molder, António Júlio Duarte, Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, José Maçãs de Carvalho, Luís Campos, Nuno Cera, Patrícia Garrido e Pedro Barateiro, entre outros. Permanecendo na fotografia mas mudando de local, destaco “New Lisbon”, o trabalho de Gonçalo Fonseca, exposto na Galeria Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147). è um impressionante retrato da crise habitacional que se vive em Lisboa e que começou antes da pandemia. Gonçalo Fonseca faz um exemplar trabalho documental em três dezenas de fotografias, que são também outras tantas histórias, com imagens realizadas em 2019 e 2020. Por último a Incubator Photo Gallery e o Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano 63) apresentam “Selfie?”, 24 autorretratos de Pedro Cabrita Reis, em Polaroids.


 


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MANUAL POLÍTICO - O título é logo uma provocação, bem ao jeito do seu autor:”Como perder uma eleição” - uma compilação de pensamentos que Luís Paixão Martins aperfeiçoou ao longo das várias campanhas eleitorais em que participou como conselheiro de comunicação, e que por sinal venceu. Entre histórias e reflexões, com recurso a princípios básicos que foi estudando ao longo dos anos, o livro é um manual de boas práticas de comunicação que os políticos deviam adoptar, não só em eleições, como ao longo do exercício do poder., quando as ganham. Entre não querer agradar a todos e combater a ambição de mudar o mundo em dois meses, a leitura das sondagens e o elementar bom senso de ouvir o que se diz, o livro é um bom exercício e dá que pensar.  Como o autor sublinha, “na relação com os media, nós entramos no jogo, não criamos as regras”. Mais que relatar o que lá está, deixo aqui algumas citações, extraídas com a devida vénia. Ora vamos a isso: “Fora das eleições a política não faz parte dos interesses da generalidade dos portugueses”; “a política não é o futebol. No futebol, são os resultados que fazem os fãs. Na política são os fãs que fazem os resultados”; “numa campanha eleitoral, os media vencem os políticos, com larga vantagem, na captação do interesse dos eleitores. Percebe-se porquê: porque os media são ao mesmo tempo canal e protagonista, e os políticos, coitados, são meros protagonistas à procura de atrair o canal”. E talvez a melhor de todas:  “A outra condicionante da relação com os media durante o curto período da campanha é a gestão do menu de conteúdos. Cada candidato tem a sua própria lista de temas que gostaria de agendar - os favoráveis para si, os embaraçosos para os adversários. É fácil identificar esses temas: são os que não interessam aos jornalistas”.  “Como perder uma eleição” é edição Zigurate.


 


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TRIO HARMONIA  - Costumo dizer que o mundo está cheio de boas vozes, mas não está cheio de grandes cantores. Para cantar não basta ter boa voz, é preciso saber sentir e interpretar o que está nas palavras - e isso é o que infelizmente falta a muita gente que diz cantar. Felizmente não é esse o caso de Melissa Stylianou, uma canadiana que veio do teatro musical para o jazz e se apaixonou por alguns dos grandes clássicos. O recente álbum “Dream Dancing” é um exemplo do seu talento e uma prova dessa sua paixão pelos standards, aquilo a que se convencionou chamar The Great American Songbook. Mas o disco não tem só versões, inclui um original da própria Melissa dedicado a Chet Baker. Há uma razão para este “For Chet”: para além da voz de Melissa é justo dizer-se que o disco tem encantos adicionais na forma como Gene Bertoncini toca guitarra acústica e Ike Sturm toca contrabaixo e Gene era uma dos músicos que tocava com Chet Baker. Na realidade “Dream Dancing” não é o disco de uma vocalista, mas de um trio de voz, guitarra e baixo, num perfeito e raro entendimento. Entre os clássicos estão uma versão arrebatadora de “Perdido”,  um “Corcovado” cantado em português e inglês, e versões de temas como  “It Could Happen To You”, “Sweet And Lovely”, “My One And  Only Love” e “It Might As Well Be Spring”. Disponível nas plataformas de streaming.


 


CANTINA ITALIANA - Marcello Di Salvatore é um italiano que vive há uma dúzia de anos em Portugal onde criou a sua Cantina Italiana, a que chamou Bella Ciao. Natural de Abruzzo, no centro de Itália, apostou em fazer uma cozinha familiar, com receitas tradicionais. Depois de duas localizações na baixa, o Bella Ciao mudou há pouco tempo para a zona de Alcântara, na Rua do Costa, junto ao largo ao fundo da Rua Maria Pia. Este espaço é bem maior que os anteriores, a decoração continua a ter a marca de Itália, desde as toalhas aos quadrados das mesas aos cartazes que decoram as paredes. A lista tem entradas como vitello tonnato e nos pratos principais há um simples esparguete com azeite, alho e peperoncino, orecchiette com brócolos e queijo Grana Padano, uns clássicos penne all'arrabbiata, pappardelle con funghi porcini e, acima de tudo, um spaguetti carbonara, tradicional e sério, com esparguete de bom calibre, sem o pecado habitual das natas e com a tradicional receita que apenas leva gema de ovo e queijo, além de pancetta. E, claro, há boas pizzas. Nas sobremesas o Tiramisú recomenda-se e há uma muito procurada mousse de Nutella. Rua do Conde 10, telefone 210 935 708.


 


BOM - O catálogo da exposição “Sombras do Império”, que esteve no Padrão dos Descobrimentos, é um exemplar trabalho de investigação sobre  os sucessivos planos urbanísticos e projectos de arquitectura da Praça do Império.


 


MAU - José Sá Fernandes, o coordenador das Jornadas da Juventude nomeado pelo Governo, ainda não deu a conhecer o plano de mobilidade para o evento que deve envolver milhão e meio de pessoas.


 


DIXIT - “Pretender controlar a linguagem, proibir posições e atitudes, exigir “direitos” que são identitários-corporativos, é a pior maneira de criar igualdade e tolerância" - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “Os que andam à caça dos outros devem lembrar-se que também podem ser caçados” - Esopo





fevereiro 03, 2023

ANTÓNIO COSTA E O HÁBITO DA INSTABILIDADE

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A RODA LIVRE - Razão tinham aqueles que, há um ano, lançaram alertas sobre os perigos de uma maioria absoluta. Não se enganaram nem um bocadinho. Em vez da estabilidade anunciada, conhecemos a instabilidade, traduzida em 13 substituições de membros do Governo. Em vez de um gabinete coeso tivemos compadrios, indícios de corrupção, sordidez, desnorte, problemas éticos. Em vez de reformas que melhorem o país tivemos imobilismo, mais problemas na justiça, saúde e, sobretudo, educação. Em vez de aproveitarmos os recursos, temos de novo uma emigração portuguesa para o estraneiro, da geração em que o país mais investiu na formação, que é em termos absolutos, próxima do que se passou na década de 60 com, nessa altura, mão de obra desqualificada. Uma maioria absoluta, um ano de instabilidade. Perdeu-se tempo. Perdem-se recursos. Não se começou a resolver os maiores problemas. Esta semana, numa entrevista colocada no canal de serviço público de televisão, e que teve 770 mil espectadores, António Costa, garantiu que a legislatura é para chegar ao fim e até brincou:  “O meu médico diz-me que estou bem”. O problema, na realidade, não é a saúde de Costa, que todos desejamos que continue em boa forma, mas a adesão das suas afirmações à realidade. O problema é a sua capacidade de fazer coisas em vez de fazer habilidades. António Costa é uma pessoa divertida e um político habilidoso. Mas não é um fazedor. É um equilibrista, um trapezista da política. E quando se viu com maioria absoluta achou que já não precisava de ter a rede de segurança que a geringonça lhe deu. E entrou em roda livre, que é o actual estado da nação.


 


SEMANADA - Portugal tem cerca de quatro milhões de pessoas com idade igual ou superior a 55 anos; 2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 euros por mês; em dezembro a taxa de inflação homóloga na zona euro foi de 9,2%, menos nove décimas que no mês anterior; 9,6% foi a inflação em Portugal em Dezembro, mais três décimas que no mês anterior; PS, PSD e Chega chumbaram a desclassificação de documentos militares da Guerra  Colonial; em 2022 registaram-se 103 escalas de cruzeiros no Porto de Lisboa, um aumento de 43% face a 2019; um estudo da Universidade Católica indica que sete em cada dez jovens discutem política mas preferem modos de participação sociais e cívicos em vez de modos formais; nove em cada dez jovens já votaram pelo menos uma vez, sendo as eleições legislativas aquelas que lhes suscitam maior participação; o Portal da Queixa identificou uma subida de 57% no número de reclamações dirigidas aos serviços de entrega de refeições ao domicílio, comparativamente com 2019 e a Uber Eats é a marca que recebe mais queixas dos consumidores; segundo a OCDE quase um quinto do dinheiro que sai do Estado em financiamentos e apoios volta ao Estado sob a forma de impostos e taxas; segundo o INE o alojamento turístico registou 26,5 milhões de hóspedes e 69,5 milhões de dormidas, em 2022, que correspondem a aumentos homólogos de 83,3% e 86,3%, respectivamente; a taxa de desemprego em Portugal subiu para 6,7% em dezembro, segundo o INE; um estudo da Marktest indica que o número dos portugueses que bebem café fora de casa está a cair e atingiu o valor mais baixo dos últimos dez anos.


 


O ARCO DA VELHA - No caos da educação contabilizam-se 40 ministros do sector , mas apenas um constante interlocutor, o português que mais vezes se sentou com governantes  - Mário Nogueira. 


 


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OS CÍRCULOS - A nova exposição da semana é, sem dúvida, “Et Sic in infinitum" de José Pedro Croft, que pode ser vista na Fundação Arpad Szenes -Vieira da Silva até 28 de Maio próximo. Incorporando a sua experiência de escultura, desenho e pintura, José Pedro Croft desenvolve o seu trabalho a partir de variações entre grafismo e geometria, muitas vezes desafiando noções de espaço. Se em momentos anteriores as linhas rectas e as formas lineares tinham uma presença recorrente, nestes seus trabalhos mais recentes o que ele ensaia é a exploração das possibilidades do círculo, das linhas curvas. Os trabalhos expostos foram feitos nos últimos dois anos, com excepção de duas obras, uma gravura de 1996 e uma escultura em calcário negro e ardósia, de 1987. O curador desta exposição, Sérgio Mah, faz notar que o título “Et sic in infinitum” é uma citação da frase que consta em cada um dos lados de um desenho do físico e cosmologista Robert Fludd, reconhecido como uma das primeiras representações da criação do universo. É também de Sérgio Mah esta síntese da exposição: “Em geral, estas obras distinguem-se pela sua sobriedade e elegância formal. Contudo, é importante frisá-lo, essas qualidades não visam o deleite formalista ou o mero conforto contemplativo. Pelo contrário, são atributos que estimulam a indeterminação, o carácter problemático e enigmático das obras, que espicaçam a perplexidade de quem as defronta”. Na semana passada, na Casa Atelier Vieira da Silva, foi inaugurada a exposição de novos trabalhos de  Catarina Pinto Leite, “O Grau Zero de todas as coisas”. Outros destaques: na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Kirtsch apresenta “Take Me To The Dawn” até 18 de Fevereiro. E, também até 18 de Fevereiro, há uma exposição retrospectiva da obra em pintura de João Abel Manta, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Rua Barata Salgueiro, em Lisboa.


 


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LIBERDADE - Isaiah Berlin foi um filósofo, historiador de ideias e teórico político. Defendeu o liberalismo contra o extremismo político e o fanatismo intelectual. Em 2002 uma série dos seus ensaios foi reunida sob o título genérico “Liberty”. E foi a partir dessa edição que agora se edita em Portugal “Esperança e Medo, Dois Conceitos de Liberdade”, com tradução de Jorge Pereirinha Pires e Maria José Batista. Os textos levantam questões essenciais, tantas vezes incompreendidas por quem detém o poder: «Porque é que eu devo obedecer a outrem?» «Porque é que não hei‑de viver como quero?» «Tenho de obedecer?» «Se eu desobedecer, posso ser coagido?». Berlin foi claro quando escreveu: «Liberdade é um termo cujo sentido é tão poroso que existem poucas interpretações a que este pareça capaz de resistir. Não proponho discutir a história desta palavra proteiforme nem os mais de duzentos sentidos registados para a mesma pelos historiadores de ideias. Proponho examiná‑la em não mais do que dois desses sentidos, que considero serem os sentidos centrais e que têm atrás de si uma grande parte da história humana e, atrevo‑me a dizê‑lo, a história ainda por vir.». E esses dois sentidos são o negativo (ausência de coacção) e o positivo (o direito de se ser senhor de si mesmo). O livro aborda temas que vão desde a democracia liberal e dimensão e papel do Estado, até à esfera e limites da liberdade individual. Como disse John Gray, um filósofo político inglês,  «num mundo em que a liberdade humana se espalhou mais lentamente do que a democracia, os escritos de Berlin sobre liberdade e decência básica são mais instrutivos e úteis do que nunca». Edição Guerra & Paz.


 


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MÚSICA AVENTUREIRA - John Cale, aos 80 anos, surpreende mais que muitos músicos actuais cheios de espalhafato, mas vazios de ideias. Só para situar John Cale foi um dos pilares dos Velvet Underground na segunda metade dos anos 60, e, mais tarde, o produtor responsável por alguns dos melhores trabalhos dos Stooges, Patti Smith, Nico ou Modern Lovers. Ao mesmo tempo foi desenvolvendo a sua própria obra e ainda encontrou ocasião para meter a mão no tema “Hallelujah”, responsável por dar notoriedade a um Leonard Cohen, até aí pouco conhecido. John Cale lançou-se agora a um novo trabalho, “Mercy”, o seu 17º álbum de originais. Há temas que evocam e homenageiam amigos seus, como David Bowie e Nico, mas na maioria das canções ele assume frontalmente abordar o presente, como acontece em “ The Legal Status Of Ice”, enquanto chama para o seu lado uma geração de novos talentos, como a voz de  Weyes Blood, os provocadores Fat White Family ou os experimentalistas Animal Collective, a cantora colombiana Tei Shi, o duo de pop electrónico Sylvan Esso ou Laurel Halo, que já ganhou o título de álbum do ano da revista The Wire. É esta abertura de espírito e desejo de descobrir novos caminhos que torna o trabalho de John Cale fascinante. É como se em vez de lermos o relato de viagem de um explorador do início do século XX, estivéssemos a ouvir as descobertas sonoras possíveis neste século XXI, através de um aventureiro musical. “Mercy” e os seus 12 temas, uns instrumentais, outros cantados, estão disponíveis nas plataformas de streaming.


 


COMIDA CONCEPTUAL - Aqui há uns dias, ainda a noite era uma criança e a fome apertava, fui seduzido por umas luzes num pátio frente à Assembleia da República, onde surgiu a palavra “O Jardim”. Fui tentado a ver se a coisa funcionava, ou seja, se o que eu via, de mesas e cadeiras, correspondia à ideia de um restaurante. Uma vez entrados e simpaticamente sentados, eis que, quando analisámos a lista e fizemos o pedido,  o empregado, com um olhar inquisidor, perguntou-nos: “Explicaram-vos o conceito?”. Foi nesse momento que percebi que tinha caído num terrível equívoco. “O Jardim” não é um restaurante, é apenas um conceito. Eu, confesso, não gosto de conceitos em vez de restaurantes. É uma mania minha. O local tem imenso conceito, quantidades inversamente proporcionais, qualidades medianas e preços muito pouco conceptuais e bastante materiais. No fundo, ir lá é um tempo perdido. E se quiserem ir à casa de banho, cuidem-se que a sinalização é conceptual, daquelas onde não se percebe bem o género. Uma coisa meio woke, portanto - aliás, o local quer afirmar-se pela contemporaneidade, nada mais que outro conceito. Não percam tempo - o local assemelha-se em inutilidade gastronómica aos piores momentos dos debates que decorrem lá em frente, na Assembleia da República. 


 


BOM - “A Nova Paródia- Comédia Portuguesa”, criada por Hugo van der Ding para o Museu Bordalo Pinheiro, 16 deliciosas páginas, à venda no Museu.


 


MAU - A falta de coragem do PSD em se demarcar de acordos com o Chega


 


DIXIT - “Portugal tem um problema de corrupção grave” - Fernanda de Almeida Pinheiro, bastonária da Ordem dos Advogados


 


BACK TO BASICS - “Os homens são tão simplórios e obedecem de tal forma às necessidades presentes, que aquele que engana encontrará sempre quem se deixe enganar.” - Nicolau