agosto 26, 2022

ADOPTAR POLÍTICAS DE RUPTURA

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SEM REFORMAS NÃO HÁ PROGRESSO - Na semana passada a SEDES, uma associação que tem reflectido de forma exemplar sobre a nossa sociedade, e que tem repetidamente apresentado sugestões, desde o funcionamento do sistema político até à necessidade da reforma da Lei Eleitoral, passando pelo diagnóstico da economia portuguesa, anunciou que no dia 1 de Setembro apresentará um livro com um estudo intitulado “Ambição: Duplicar o PIB em 20 anos. O estudo preconiza menos impostos, mercado de trabalho mais liberalizado e uma profunda reforma do Estado. A SEDES reúne personalidades de diferentes sensibilidades políticas e é actualmente presidida por Álvaro Beleza, membro da Comissão Política do PS, médico, antigo membro do secretariado na direcção de António José Seguro, que foi um dos coordenadores da obra. Abel Mateus, o outro coordenador do livro, avisa logo que não vai ser fácil e admite  a necessidade de “alguns sacrifícios”: “Para se poder levar a economia de uma trajectória de quase estagnação a um crescimento médio de 3,5% ao ano, é essencial um período de transição, em que teremos de fazer alguns sacrifícios e adoptar políticas de ruptura que só fruirão totalmente no médio e longo prazo.” - sublinha. No fundo este estudo mostra mais uma vez a imperiosa necessidade de o Governo desenvolver políticas reformistas como única solução para o nosso crescimento. Mas, como infelizmente bem sabemos, António Costa prefere usar a maioria absoluta para calar opositores em vez de desenvolver políticas que permitam mudar a estagnação em que nos encontramos. Fazia bem em tomar atenção ao que a SEDES recomenda e em aprender o significado da palavra reforma.


 


SEMANADA - Um em cada três desempregados está sem trabalho há mais de dois anos; durante a pandemia as penhoras subiram 15%; até ao mês de julho já tinham sido atribuídos 135 vistos gold a cidadãos dos Estados Unidos; até ao final de 2021 viviam em Portugal quase sete mil norte-americanos; segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras actualmente vivem em Portugal cerca de 256 mil brasileiros; no primeiro semestre de  2021 emigraram para o Reino Unido, apesar do brexit, cerca de seis mil portugueses, tantos como durante todo o ano de 2020; mais de 6500 enfermeiros  já apresentaram escusas de responsabilidade invocando falta de condições de trabalho; segundo o Eurostat, Portugal regista, no segundo trimestre deste ano, o quinto pior desempenho da Europa face ao final de 2019, com base nos indicadores do produto interno bruto (PIB) real (a preços constantes);  em 2021os portugueses ficaram em casa dos pais, em média, até aos 33,6 anos, enquanto a média da União Europeia é sair de casa aos 26,5 anos;  segundo a Pordata Portugal é o país da União Europeia onde o indíce de envelhecimento tem aumentado com maior rapidez; em 2022 a Polícia Judiciária já apreendeu 14 toneladas de cocaína; desde o início do ano já ocorreram 62 mortes em acidentes de trabalho, a maioria no setor da construção; a secretária de estado dos incêndios, Patrícia Gaspar, considerou um êxito que a enorme área ardida este ano estivesse abaixo de previsões feitas com recurso a um algoritmo que assim deu pretexto a transformar o péssimo em bom.


 


O ARCO DA VELHA - Cerca de cinco mil e quatrocentos milhões de euros foi quanto os contribuintes portugueses pagaram a mais de impostos no primeiro semestre de 2022, face a igual período de 2021, um crescimento de mais de 30% . Em 2021 Portugal registou a carga fiscal mais elevada de sempre.


 


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MISTÉRIOS - Não tenho época especial para ler romances policiais, mas reconheço que os dias de férias no verão são um excelente momento para tentar resolver mistérios. Este ano dediquei-me a dois: “O caso Alaska Sanders” do suíço Joel Dicker, e “Campo de Lava” da norueguesa Yrsa Sigurdardóttir. De Dicker já tinha lido “O enigma do quarto 622” e “O livro dos Baltimore”. Comecei a ler “O caso Alaska Sanders” com bastantes expectativas. Mas depressa as fui perdendo à medida que ía avançando na leitura. Joel Dicker fala demasiado de si próprio, e acaba por ser a personagem central do livro, um misto de investigador, detective e filósofo de pacotilha. Em resumo, anda a repetir a mesma fórmula, neste até com mais uns quantos pormenores pessoais, sentimentais, que tornam toda a investigação um enfado. Apesar do mistério do desaparecimento de Alaska Sanders ser um bom ponto de partida o livro torna-se aborrecido e demasiado extenso, com muita escrita supérflua. Já “Campo de Lava” é bem diferente. Da autora já tinha lido “A Absolvição” e “Lisboa-Reykjavik” e o novo “Campo de Lava” foi a confirmação do seu talento como escritora - não apenas como contadora de mistérios. Yrsa Sigurdardóttir  vive em Reykjavik, é directora de uma das maiores empresas de engenharia da Islândia e este é o quarto livro da série DNA, que tem por protagonistas o detetive Huldar e a psicóloga infantil Freyja. Num antigo lugar destinado a execuções é encontrado um jovem e abastado investidor enforcado. Quando o corpo é trazido para o chão, constata-se que não se trata de um suicídio: tem um prego enterrado no peito, onde estava uma mensagem, entretanto desaparecida. Enquanto decorre a investigação um grupo de amigos da vítima recebe um vídeo que, num primeiro momento, parece uma brincadeira de mau gosto, mas que depois os vai inquietar cada vez mais. Está dado o tiro de partida. O livro, editado pela Quetzal, cativa da primeira à última página, num retrato perturbante da Islândia de hoje, numa história onde violência doméstica se cruza com pornografia, dark web e vingança.


 


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ARTES CRUZADAS -  No meio do parque de Serralves vive um tesouro chamado Casa do Cinema Manoel de Oliveira, bem guiada pelo seu Director, António Preto. Aí sucedem-se exposições sobre a obra, o trabalho e a vida de Manoel de Oliveira e também sobre outros nomes grandes do cinema. É o caso de “Luz e Sombra”, uma exposição dedicada a Agnés Varda que poderá ser vista até 22 de Janeiro. A belga Agnés Varda viveu entre 1928 e 2019 e ao longo da sua vida foi fotógrafa, depois cineasta (onde ganhou fama) e finalmente artista plástica. A exposição mostra essas diferentes fases e testemunha o modo como a sua produção artística se desenvolveu em diálogo com a sua obra cinematográfica. O contraste entre luz e sombra é o ponto de partida para visitar o trabalho da artista, e a exposição inclui duas instalações, “Une cabane de cinéma: la serre du bonheur” de 2018 e Patatutopia , de 2003. Foi também editado um belíssimo catálogo profusamente ilustrado, onde se destaca um texto do historiador de arte Hans Ulrich Obrist. Em 2009 Varda já tinha estado em Serralves e teve a oportunidade de se encontrar com Manoel de Oliveira, momento que a própria registou com a câmara de vídeo que sempre carregava consigo. Nessa sequência vemos os dois cineastas a imitarem Chaplin enquanto se filmam um ao outro, e são essas imagens que servem de preâmbulo a esta exposição: um encontro em que de forma divertida partilham as suas preocupações quanto ao cinema e à vida.


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SILVER JAZZ - Hoje proponho revisitar gravações feitas pelo grupo do pianista Horace Silver em Nova Iorque, durante actuações em vários clubes de jazz locais, em 1964, 1965 e 1966. “Horace Silver Quintet - Live New York revisited” é o CD que reúne algumas dessas gravações em novas remasterizações. Um dos factos interessantes deste disco é que os músicos não são sempre os mesmos, permitindo notar pequenas diferenças, mas sempre com uma vibração muito particular na forma como tocam. O disco tem cinco temas, dois deles apresentados em duas versões diferentes (“Que Pasa” e “African Queen”). O primeiro é do muito aclamado LP “Song For My Father”, de 1964. Nestas gravações ao vivo surgem os mesmos músicos que tocaram no disco original: Horace Silver no piano, Joe Henderson no sax tenor, Carmell Jones no trompete, Teddy Smith no baixo e Roger Humphries na bateria. São também eles que tocam mais duas faixas deste disco, “Song For My Father" e “The Natives Are Restless Tonight”. “African Queen” é de um curioso disco de 1965, “Cape Verdean Blues” (cuja escuta recomendo) e mostra Woody Shaw no trompete e Larry Ridley no baixo. O outro tema é “Señor Blues” do álbum “6 Pieces Of Silver”, de 1957. O papel de Horace Silver no jazz é muitas vezes injustamente subestimado mas a revisitação de discos como este permite perceber a verdadeira importância que ele teve e a sua enorme energia em palco, que transmitia a quem com ele tocava. O disco está disponível nas plataformas de streaming.





TAPEAR - Uma das coisas que me fascina quando estou em Espanha é a forma como as pessoas gostam de estar na rua, ao fim da tarde, sentados em esplanadas, a beber um copo, a falar. Os espanhóis gostam de viver na rua, um enorme contraste com o que se passa na maior parte dos casos em Portugal. A mais antiga rede social é um grupo de pessoas sentadas à volta de uma mesa a falarem umas com as outras. Outra das coisas boas em Espanha (e em Itália também, já agora) , é o hábito de servirem alguma coisa com a bebida. Em Portugal isso geralmente não se passa e  até os tremoços parecem uma espécie ameaçada. O que é simpático em Espanha e Itália é as bebidas serem servidas com umas tapas ou mesmo algum generoso petisco, desde os sítios mais simples aos mais sofisticados. Neste particular as conservas ocupam um papel especial nos nuestros hermanos: um lombo de cavala ou um filete de anchova em cima de um pedaço de pão é coisa barata mas que vale milhões com um copo de branco bem fresco ou uma imperial bem tirada. Dirão que por isso é que um copo de cerveja do lado de lá da fronteira é mais caro que em Portugal - é verdade, mas há um acolhimento diferente, uma partilha que deixa saudades. E temos também muitas e boas fábricas conserveiras à espera de poderem ser matéria prima para bons petiscos de fim de tarde.


 


DIXIT- “Se as cidades estão apostadas em que se possa circular de forma segura com bicicletas, porque é que não asseguram segurança aos peões e penalizam a circulação e o parqueamento de trotinetes nos passeios?” - ouvido na rua.





BACK TO BASICS - “A Democracia constrói-se no direito à divergência e à diferença, no direito das pessoas a terem posições opostas umas das outras” - Ben Okri, poeta nigeriano.





 





agosto 19, 2022

O CASO DOS ABUSOS DA MAIORIA

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A QUEM DEVEM SERVIR OS GOVERNANTES? - Uma maioria absoluta pode ser um factor de estabilidade, mas pode também ser uma fonte de instabilidade. Tudo depende do grau de civilização e da convicção democrática de quem a tem. Uma maioria absoluta, rezam os manuais, devia servir como alavanca de transformação e progresso do país, e não como mecanismo de travão da oposição. Infelizmente alguns acontecimentos dos últimos tempos não são tranquilizadores. Desde a forma como António Costa evita responder no Parlamento a perguntas da oposição, até ao caso das represálias contra a Endesa por causa de uma opinião veiculada pelo seu responsável em Portugal, passando pela desfaçatez da Ministra da Agricultura ao querer marginalizar a CAP por causa das posições que tomou nas mais recentes eleições legislativas, acumulam-se os sinais que fazem pensar que está a criar-se um padrão de comportamento que penaliza e combate quem não está com o PS. É triste que um partido fundador da democracia a torpedeie quando tem uma maioria absoluta no parlamento um comportamento que começa a mostrar ser autoritário e persecutório. No fundo todos estes casos fazem levantar uma pergunta: os membros do Governo, do Primeiro-ministro aos secretários de Estado, estão ao serviço do PS ou do país? Pensam em melhorar Portugal ou em beneficiar o seu partido? A maioria absoluta pode ser uma janela aberta ao futuro ou uma grade para evocar o passado. Nas últimas semanas a janela tem sido cada vez mais fechada. E vislumbram-se nas palavras de alguns, o secreto desejo de construir grades.


 


SEMANADA - As trotinetes eléctricas causaram 445 acidentes em três anos, a maior parte por negligência na condução; a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal alertou para o perigo e a insegurança que as trotinetes provocam nos invisuais, dizendo mesmo que já há entre eles quem evite sair de casa com receio de ser atropelado num passeio; o Parque Natural da Serra da Estrela tem 88.850 hectares, dos quais já arderam 73.282 desde 2017; só este ano já lá arderam 23 mil hectares e apesar da gravidade da situação a Protecção Civil diminuíu o dispositivo no fim de semana sem consolidar o rescaldo o que facilitou novos reacendimentos;  a inflação na alimentação já chegou aos 13,9%; em julho as vendas no retalho alimentar cresceram 12,9%, o maior acréscimo desde o início do ano, empurradas por uma inflação de 9,1%; no retalho alimentar as marcas brancas cresceram 22,1% contra os 7,5% das marcas dos fabricantes; segundo a Marktest cerca de um quarto dos lares portugueses consome pratos confeccionados congelados ou refrigerados; dois mil médicos das urgências já apresentaram pedido de escusa de responsabilidades; a dívida total do Serviço Nacional de Saúde a fornecedores externos está no valor mais alto dos últimos oito anos e atinge os 2,3 mil milhões - António Costa é Primeiro Ministro desde Novembro de 2015; 87% das vagas de emprego abertas no retalho continuam por preencher devido à falta de interessados face às condições oferecidas; segundo o Instituto Nacional de Estatística mais de metade dos desempregados permaneceram sem trabalho entre o primeiro e o segundo trimestre; em Junho e Julho registaram-se 3054 assaltos a residências, cerca de 50 por dia.


 


O ARCO DA VELHA  - Segundo um inquérito recente um quarto dos juízes portugueses crê que há corrupção na justiça e que há magistrados que receberam subornos.


 


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A VIAGEM A UM MUNDO ABANDONADO - Há um livro, de 2013, em que Paul Theroux fala das experiências por que passou em Angola, a decepção com a decadência, a omnipresença da corrupção e da pobreza, a perda da comunhão dos povos com a natureza. Depois da grande narrativa de “Viagem por África”, que o levou do Cairo à Cidade do Cabo, Paul Theroux quis percorrer a «margem ocidental» do grande continente até ao Norte de África. O que viu em Angola mudou-lhe os planos. Viajando sozinho, como sempre, atravessando a África do Sul e a Namíbia, chegou a Angola para encontrar um mundo cada vez mais distante das esperanças originais pós-independência. Viveu desilusões, tristeza, desapontamento, amargura e irritação. Na realidade, Angola sai maltratada do derradeiro livro de Paul Theroux sobre África, “O Último Comboio Para a Zona Verde”. Escreve Theroux: “Sou um homem de 70 anos a viajar como um mochileiro no meio de Angola, e os únicos estrangeiros que vejo - uns seis ou oito - são homens de negócios que se esforçam por fazer lucro com os recursos do país. Talvez eu seja um deles, outra espécie de homem de negócios, outro género de vendedor ambulante, alguém que espera ganhar a vida estando aqui e tomando nota do que vê”. O livro,”O Último Comboio Para a Zona Verde”, agora editado pela Quetzal, com um boa tradução de Maria Filomena Duarte, tem por subtítulo, “O meu último safari africano”. Francisco José Viegas, que editou o livro e lhe escreveu um prefácio intitulado “Um escritor é assim”, conta como a ideia de ir a Angola nasceu num almoço, em Matosinhos, que juntou Luandino Vieira e Paul Theroux. Viegas classifica este livro como uma extraordinária reportagem sobre África, “um mundo abandonado”. 


 


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ROOFTOP DESIGN - Proponho um rooftop de vista extraordinária que está paredes meias com uma exposição de design gráfico absolutamente imperdível. Tudo isto se conjuga no antigo edifício Entreposto, na Praça José Queiroz 1, agora designado por IDB Lisbon (Innovation & Design Building). Este é o cenário para a mais recente exposição promovida pelo Museu do Design e da Moda, MUDE, e que mostra pela primeira vez a colecção de design gráfico Carlos da Rocha. Intitulada “O Mundo Vai Continuar A Ser Como Não Era”, a exposição permite viajar pelos últimos 100 anos de publicidade em Portugal, através da intensa actividade do atelier de Carlos Rocha, que trabalhou marcas portuguesas e estrangeiras, desde a Grunding até às farinhas Nacional, passando pelos gelados Rajá, bebidas como a Mosca ou várias marcas de conservas. São 100 anos de design. Ainda em vida, Carlos Rocha (1943-2016) doou o seu acervo ao MUDE e manifestou o desejo de se fazer uma exposição que apresentasse o seu trabalho à frente da Agência Marca e da LETRA Design, e que mostrasse também o trabalho de seu pai, Carlos Rocha Pereira (1912-1992) e o trabalho de seu tio, José Rocha (1907-1982), na ETP – Estúdio Técnico de Publicidade. Nesta genealogia familiar, vê-se a força do design gráfico e a sua importância na comunicação de Estado e na publicidade comercial e industrial em Portugal. Estes três designers conceberam marcas, imagens e publicidade para os vários sectores de produção nacional e através da exposição “O mundo vai continuar a não ser como era!” podemos seguir  as grandes mudanças da vida quotidiana em Portugal e os diferentes contextos políticos e socioeconómicos do nosso país, desde a década de 1930, até ao início do século XXI. E quando terminarem de ver a exposição podem ir, no mesmo edifício, ao terraço com vista panorâmica, onde há um bar, para um copo ao fim da tarde. A exposição, de entrada gratuita, está aberta de terça a domingo, entre as 11 e as 18 até dia 25 de Novembro.


 


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JAZZ BRASIL - Antonio Adolfo Maurity Sabóia de seu nome completo é um pianista brasileiro que testemunhou os primórdios da Bossa Nova e depois se aventurou pelo jazz. Nascido em 1947, aos 16 anos já tocava com os pioneiros do novo som do Rio de Janeiro. Tem uma longa carreira musical, que passa por discos em nome próprio, uma intensa actividade didáctica e muitas colaborações com outros músicos. É um daqueles nomes menos conhecidos da música brasileira mas que tem uma carreira rica e criativa. Tocou e compôs para Maysa, acompanhou Elis Regina numa tournée europeia, estudou e trabalhou nos Estados Unidos com Sérgio Mendes, e agora, aos 75 anos, lança novo disco, “Octet & Originals”. Os dez temas do disco foram todos compostos por António Adolfo ao longo da sua carreira e alguns ganharam fama nas interpretações de nomes como Stevie Wonder, Herp Albert (“Pretty World”), Dionne Warwick (“Heart Of Brazil”) e êxitos que obteve no Brasil como “Teletema” , “Cascavel”, “Feito em Casa” ou “Toada Moderna”, dos anos 60, uma homenagem sua a Bill Evans. Aqui todas as versões são instrumentais, com novos arranjos compostos para o octeto que gravou o disco e que reúne músicos de eleição: Jessé Sadoc (trompete), Danilo Sinna (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor e flauta), Rafael Rocha (trombone), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria e percussão), e Ricardo Silveira (guitarra), além do próprio António Adolfo no piano. Sempre com referências bem brasileiras, nomeadamente à Bossa Nova e ao samba, os arranjos são muito marcados pelo trabalho de todos estes músicos no jazz. O resultado é um disco surpreendente que consegue dar nova alma a temas que nalguns casos têm seis décadas. Disponível nas plataformas de streaming.


 


UM PETISCO MARÍTIMO - Um destes dias fui brindado em casa de bons amigos, perto de Setúbal, com um petisco inesquecível e de uma enorme simplicidade. O que contou para o êxito do petisco foi a frescura e qualidade dos ingredientes - umas postas de pescada e amêijoas. A pescada fresca não tem comparação com o que normalmente aparece por aí, e que chega ao prato depois de sofrer as agruras da congelação. Estas postas, quando aterraram no prato, soltavam-se em lascas perfeitas, com sabor e a consistência ideal. Claro que o talento da cozinheira tem uma importante quota parte no sucesso e aqui deixo o meu obrigado. Vamos pois ao relato que ela fez: as amêijoas foram compradas fresquíssimas num viveiro, eram de bom tamanho, e a pescada, em postas gordas,  veio do mercado de Setúbal, o célebre Mercado do Livramento. Primeiro as amêijoas foram abertas ao vapor e deixadas a repousar enquanto a pescada cozia num molho à Bolhão Pato, com azeite, alho com fartura, vinho branco e um pouco de sumo de limão, tudo com abundante quantidade de coentros picados. Quando o molho levantou fervura entrou a pescada, rigorosamente vigiada para ficar na consistência ideal. E já no fim entraram as amêijoas abertas. Desligado o lume acrescentou-se mais um ramo de coentros, tapou-se a panela e levou-se à mesa onde o festim foi muito apreciado - sendo impossível não ensopar pão naquele molho. A acompanhar esteve um branco da região, muito cumpridor.


 


DIXIT- “A escola deve ser democrática, mas não impingir a democracia “ - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Dizem que o tempo muda as coisas, mas na realidade somos nós que temos de as fazer mudar” - Andy Warhol




agosto 12, 2022

UMA NOVELA INSPIRADORA

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PÔR DO SOL-  O verão é uma estação muito curiosa: não sei se pelas temperaturas atingidas, se por qualquer outra razão, tomam-se decisões extraordinárias e assiste-se a transtornos que só podem nascer quando as meninges começam a fritar. Às vezes olho à volta do que se passa no país e penso que estou a ver um episódio da genial série da RTP “Pôr do Sol”,  que esta semana estreou nova temporada. Alguns factos da governação são tão absurdos que poderiam caber direitinhos nas fantasias da família Bourbon de Linhaça, o clã que está no epicentro da narrativa. Há momentos em que olho para António Costa a esquivar-se a dar respostas no Parlamento às perguntas da oposição e vejo-o a cantar sempre o mesmo refrão independentemente do tema em discussão, como se inspirado pelas aparições do músico e cantor Toy nessa série quando entoa, de várias formas, sempre as mesmas palavras, para criar momentos de distracção quando a narrativa quer mudar de rumo. Depois, olho para as personagens de “Pôr do Sol” e imagino qual assentaria que nem uma luva a Pedro Nuno Santos, quem calharia a Mariana Vieira da Silva, como Fernando Medina ficaria bem a tratar do cerejal, que é a fonte de riqueza dos Bourbon de Linhaça,  e imagino o musical Pedro Adão e Silva como vocalista emergente cantando para um Santos Silva embevecido. Enfim, são os meus devaneios proporcionados pela série de televisão que é um perfeito retrato do país. Se não conhecem revejam a primeira temporada na RTP Play ou na Netflix e sigam a segunda, que começou esta semana na RTP1.


 


SEMANADA - Em apenas quatro meses o PS inviabilizou cinco audições parlamentares a ministros; de entre os membros da OCDE Portugal é dos países onde as despesas com a saúde mais pesam no orçamento das famílias; desde o início da pandemia o número de investidores de fundos Plano Poupança Reforma subiu 38% para um total de 450 mil; o ex-ministro Manuel Pinho solicitou um aumento do raio de acção da pulseira electrónica para poder tratar da horta de subsistência na quinta onde reside em Braga; este ano já foram celebrados cerca de 105 mil contratos públicos, dos quais 60% foram por ajuste directo; de 1 de Janeiro a 31 de Julho foram registados 7517 incêndios rurais, que afectaram 58.354 hectares, área apenas ultrapassada em 2012; desde Outubro do ano passado choveu metade do que seria normal e, nos últimos anos, só em 2004 a situação de seca foi mais grave; desde 1980 a economia portuguesa perdeu 4% devido a eventos climáticos extremos, número que compara com a média da UE, que no mesmo período registou perdas de 3%; no primeiro semestre deste ano foram importados mais 51% de carros usados de outros países europeus que em, igual período do ano passado; a Porsche foi a marca desportiva com maior número de veículos importados, 481; os passageiros com mobilidade reduzida têm de avisar a CP com seis horas de antecedência se quiserem fazer uma viagem de comboio; a mortalidade materna atingiu em 2020 o valor mais alto dos últimos 38 anos; Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que se tornou conhecido por ter roubado um gravador a um jornalista que o entrevistava e fez uma pergunta incómoda, é agora Presidente da Câmara de Vila Franca do Campo, nos Açores, e foi acusado de abuso de poder por ter concessionado a exploração de um restaurante a um irmão e ao marido de uma vereadora também do PS.


 


O ARCO DA VELHA - O Banco de Fomento, anunciado como crucial para a execução do PRR, viveu mais de 500 dias sem gestão de topo e há mais de meio ano que tem 33 candidaturas de PME’s à capitalização por analisar e que continuam sem resposta.


 


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MUITO PARA VER PELO PAÍS - Em época estival deixo algumas algumas sugestões fora de Lisboa. Começo por Coimbra. No Centro de Arte Contemporânea da cidade decorre, até 28 de Agosto, a exposição “Chegar à Boca da Noite”, título extraído de um verso do poema “Velas da memória”, de Ruy Belo. A exposição integra trabalhos de Aino Kannisto, Álvaro Lapa, Carlos Correia, Filipe Romão, Hugo Canoilas, João Jacinto, Jorge Queiroz, Rui Chafes e Sarah Jones, entre outros. A curadoria é de José Maçãs de Carvalho, a partir de obras da colecção de arte contemporânea do município coimbrão, da colecção de arte contemporânea do Estado e da colecção de fotografia do Novo Banco. Na imagem está uma peça de Rui Chafes, “Áspero Nobre Suicidário III”. De Coimbra um curto salto até à Figueira da Foz onde Luísa Ferreira regressa com novas fotografias, que surgem na continuidade do trabalho que ela fez há 20 anos, para a inauguração do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira, e a que então deu o título de “Luz para as Abadias”. Agora Luísa Ferreira fez uma nova série de imagens a que chamou “Luz para as Abadias 20 anos depois”, que está patente até 28 de Agosto,  retomando o território e as gentes da Figueira. Por último, e até 15 de Agosto, em Elvas, prossegue a exposição que celebra os 15 anos do Museu de Arte Contemporânea de Elvas. “Quem nos salva” é o título da exposição central, com obras da colecção António Cachola, mas há diversas outras exposições feitas em colaboração com dezenas de coleccionadores e galerias privadas de arte contemporânea, sob o título genérico “Aqui Somos Rede”. E finalmente, continuando fora de Lisboa, no Museu das Artes de Sintra, no Espaço Pedro Cabrita Reis, pode ver uma uma sala dedicada à obra do artista, dominada por um poderoso tríptico que evoca a paisagem de Sintra, intitulado “Uma Nuvem Negra”, concebido expressamente para o local, e que é acompanhado por duas outras pinturas que Cabrita ofereceu à colecção de arte do município.


 


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PERSISTÊNCIA - Por estes dias regressei a um livro que havia lido há muito, “Bartleby, O Escrivão”, de Herman Melville, o autor de “Moby Dick”. Mas este pequeno conto é bem diferente dessa epopeia da luta entre o homem e a natureza retratada em “Moby Dick”. “Bartleby, O Escrivão - Uma História de Wall Street”, de seu nome completo, é um conto que foi publicado anonimamente em 1853, em duas partes, na revista”Putnam’s Magazine”. Este texto é considerado por vários autores como uma das grandes obras da literatura mundial e é um claro exemplo do talento de Melville, que Harold Bloom considerou como um dos escritores mais importantes da língua inglesa,  “o mais shakespeariano dos nossos autores”. Bartleby, a personagem do conto, é um jovem com um ar triste que, inicialmente, ao ser contratado por um advogado como copista, realizava uma enorme quantidade de trabalho, ao ponto de viver no escritório, situação descoberta por acaso. Pouco depois há um dia em que recusa um pedido do patrão, afirmando, de forma suave, mas firme, que "preferia não o fazer” - frase que se torna a sua resposta a todas as questões que lhe são colocadas. A irredutível posição de Bartleby leva o patrão a mudar a localização do escritório, deixando-o sozinho no espaço, de onde se recusa a sair e de onde acaba por ser levado preso. Ainda hoje o conto surpreende e encanta, o seu final é inesperado, a narrativa é surpreendente. Não é por acaso que uma das mais famosas colunas regulares da revista "The Economist" tem por título “Bartleby”. Esta obra de Melville é  um tratado sobre como nos relacionamos, como nos encaramos uns aos outros e como procuramos afirmar a nossa existência.


 


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GUITARRA E PERCUSSÃO -  Steve Tibbets é um guitarrista de jazz norte-americano que tem a particularidade de fazer uma ligação entre a guitarra e a percussão verdadeiramente invulgar. Aliás um dos músicos mais presentes ao seu lado durante toda a carreira, ao vivo e em disco, é o percussionista Marc Anderson. E Tibbets, ele próprio, não hesita em assegurar também a percussão quando necessário. Ele costuma dizer que o seu trabalho está algures entre o jazz e a world music e essa é uma boa descrição. Entre 1981 e 2017 Tibbets gravou uma dezena de discos para a ECM e “Hellbound Train” é um duplo álbum que reúne trabalhos desses registos. “The best Steve could do” é como ele classifica a selecção de 28 temas que fez para esta colectânea. Os dois discos estão claramente divididos entre o lado electrónico e o lado acústico e contam com a participação de um leque alargado de mais de uma dezena de músicos. Além da grande sensibilidade rítmica, a técnica de guitarra de Steve Tibbets é também invulgar e ajuda a criar um ambiente musical único. “Hellbound Train” , uma bela introdução à música de Tibbets para quem a não conhecer, está disponível nas plataformas de streaming.


 


A BELA COURGETTE - Costumo ouvir dizer que o primeiro dia de Agosto é o primeiro do Inverno e este ano, salvaguardando o exagero, confirma-se a teoria de que o mês em que estamos é mais fresco. Por isso arrisco -me hoje a propôr um prato feito no forno, instrumento fatal no verão para cozinhas pequenas. A base de tudo isto está na courgette. Não vou falar de quantidades porque aqui o tamanho conta: uma courgette grande dará para várias pessoas, uma média para duas e uma pequena será um solitário exercício de prazer. Em qualquer das dimensões o primeiro passo é cortar a courgette ao meio, escavar o centro de forma a formar uma cratera que levará o recheio e, uma vez feito este trabalho manual, salgá-la para largar água e deixar a repousar pelo menos meia hora, levando-a ao forno de seguida durante um quarto de hora para que fique mais tenra. Retire-a e reserve, passado esse tempo. Entretanto pode cozinhar o molho, que levará pasta de tomate, gengibre ralado, pimenta, oregãos, cominhos em pó e alcaparras. Deixe cozinhar uns dez minutos em lume brando, adicione a carne picada (conte com uns 100 gramas por pessoa) e mantenha o lume brando durante mais 15 minutos, mexendo bem para a carne ficar envolvida no molho. Entretanto volte a aquecer o forno a 200 graus. Coloque este molho de carne nas cavidades abertas nas courgettes, polvilhe com queijo parmesão ralado na altura e leve de novo ao forno durante quinze a vinte minutos minutos. Acompanha com um vinho rosé para os impuros e tinto para os fundamentalistas.


 


DIXIT - “Quando olhamos para as enormes melhorias que a democracia portuguesa conseguiu no sector cultural, é difícil não ver nos museus um enorme falhanço” - Joaquim Oliveira Caetano, Director do Museu Nacional de Arte Antiga.


 


BACK TO BASICS - “Um segredo pode ser guardado por três pessoas desde que duas delas estejam mortas” - Benjamin Franklin.


 





agosto 05, 2022

LEITURAS POLÍTICAS, EXPOSIÇÕES DIVERSAS, ESTRANHAS FIGURAS

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VAI SER UMA BELA RENTRÉE - Nestes dias tenho encontrado em várias publicações inquéritos a políticos da nossa praça sobre as leituras que pensam fazer em férias. Analisadas as respostas concluí que vamos ter uma rentrée animada com retórica eloquente, pensamentos profundos, muito conhecimento adquirido. Praticamente todos os inquiridos anunciaram que em férias, para aliviar dos trabalhos parlamentares e partidários, vão estudar: filosofia, economia, gestão, religião, história e mais algumas coisas de que certamente me estou a esquecer. Poucos foram os que admitiram ler algo mais leve - Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, foi a única a confessar que estava com vontade de ler um bom policial. Não partilhamos as mesmas ideias, mas pelos vistos partilhamos os mesmos gostos. E confesso que gostei desta franqueza da líder bloquista que não se armou em devotada fã de manuais e reconheceu aquela coisa básica: férias é tempo para sair dos hábitos de trabalho, espairecer a cabeça, procurar outros interesses. Acredito pouco em quem diz levar calhamaços teóricos para o areal. E tenho alguma dificuldade em perceber porque é que responsáveis políticos se querem distanciar das pessoas com as listas de leituras que dizem ir fazer e que, sinceramente, duvido muito que concretizem. Nesse inquérito alguns diziam que levariam na bagagem meia dúzia de livros de alguma complexidade e dimensão. Imagino que terão umas férias bastante grandes para conseguirem ler tudo o que dizem ir colocar na mala. Mas lá vou aguardar pelo reinício dos trabalhos parlamentares para perceber o que as meninges dos nossos políticos apreenderam no seu tempo de descanso.


 


SEMANADA - A inflação em Portugal voltou a acelerar e ultrapassou os 9% em Junho; o preço dos bens alimentares essenciais subiu 13% nos últimos 12 meses; um estudo divulgado esta semana indica que cada família gastou em média 1069 euros em alimentação nos primeiros seis meses, mais 77 euros do que no mesmo período antes da pandemia; a venda de vinho do Porto no mercado nacional aumentou 50% no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado; no primeiro semestre deste ano as vendas de vinho de mesa no mercado nacional cresceram 14.3% em volume e 52,8% em valor e a restauração foi o sector que mais cresceu; nos últimos cinco anos a colecta do IMT, o imposto municipal sobre transacções de imóveis, disparou quase 60% e em 2021 o Estado arrecadou 1428 milhões de euros; em 2021 mais de um milhão de pessoas vive em casas sobrelotadas, um número acima do verificado nos três anos anteriores; a emigração portuguesa para o Canadá em 2021 foi a mais alta deste século; os automóveis híbridos e eléctricos já significam 38% do total das vendas de carros em Portugal; no primeiro semestre deste ano o número de espectadores nas salas de cinema esteve 39% abaixo dos valores de 2019, antes da pandemia; quase seis mil lisboetas com mais de 65 anos aderiram ao passe de transportes gratuito na primeira semana do seu lançamento.


 


O ARCO DA VELHA - Segundo o Tribunal de Contas um em cada três computadores e sistemas de ligação à internet entregues às escolas continuam guardados, por distribuir.


 


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VISÕES DE AGOSTO - Com grande parte das galerias privadas encerradas em Agosto a atenção vira-se para museus e galerias públicas. E não falta oferta. Começo por Algés, no Palácio Anjos. “Amor Veneris” combina a componente científica com a artística e propõe-se promover “uma experiência pedagógica, provocadora e irreverente que questiona e mobiliza para a importância do prazer sexual feminino e de assuntos fundamentais para o seu entendimento, como o consentimento e não consentimento, violência sexual sobre as mulheres e a resposta sexual feminina”. Os dois núcleos - “Com Consentimento” e “Sem Consentimento” proporcionam o enquadramento para a apresentação de obras de três dezenas de artistas plásticos e de alguns criadores de conteúdos audiovisuais. Entre os artistas contam-se nomes como Ana Pérez-Quiroga (com uma obra inédita), Clara Menéres, Ernesto de Sousa, Fernanda Fragateiro, Julião Sarmento, Laure Prouvost, Louise Bourgeois, Lourdes Castro, Maria Beatriz, Noé Sendas, Paula Rego e Sara Maia (na imagem), entre outros. “Amor Veneris” está no Palácio Anjos até 30 de Dezembro, tem  curadoria de Marta Crawford e Fabrícia Valente e foi concebida com rigor científico e uma criteriosa escolha artística. A outra sugestão que hoje deixo é “Europa Oxalá”. Até 22 de Agosto e integrada na temporada Portugal-França, é apresentado na Fundação Gulbenkian o trabalho de 21 artistas afrodescendentes de segunda e terceira geração que reflectem sobre o racismo, a descolonização das artes, o estatuto da mulher na sociedade contemporânea ou ainda a desconstrução do pensamento colonial. A curadoria é de António Pinto Ribeiro, Katia Kameli e Aimé Mpane, e “Europa Oxalá” testemunha o poder criativo da diversidade cultural europeia contemporânea, ao mesmo tempo que  abre novas perspetivas à própria noção de Europa.


 


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FOTOGRAFIAS DE UMA VIDA - Uma das mais interessantes exposições de fotografia que podem ser vistas neste momento está no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa (Rua da Palma 246). Trata-se de uma mostra representativa do trabalho de Guilherme Silva ao longo dos anos - as fotografias mais antigas datam de meados do início dos anos 70 e as mais recentes são de 2015. “No Planeta Onde Vivo” é o título da exposição deste fotógrafo que realizou ensaios fotográficos sobre diversos temas - desde um hospital psiquiátrico e uma unidade industrial. Com um rigor de enquadramento obsessivo, uma técnica apurada e um cuidado extremo no processo de revelação e ampliação, que ele próprio executou ao longo dos anos, Guilherme Silva é um nome pouco conhecido do grande público mas é indiscutivelmente uma referência na fotografia portuguesa do último quarto do século passado. Trabalhando como free-lancer na maior parte do tempo para publicações nacionais e estrangeiras,  Guilherme Silva tem também uma componente de autor de photobooks, antes de estes se tornarem uma forma corrente de divulgação da fotografia. Nesta exposição, para além das imagens, podemos testemunhar o processo de trabalho de Guilherme Silva, na selecção das fotografias a ampliar, na concepção dos livros, na planificação da forma como avança para fotografar um tema e , depois, para o editar. Guilherme Silva é, como esta exposição demonstra, uma referência importante na mediação entre a reportagem, o ensaio e o projecto fotográfico - numa época em que raros eram os que se dedicavam a estas áreas em conjunto. A exposição evoca as grandes influências de Guilherme Silva - Robert Doisneau e Robert Frank -  mostra uma fábrica de cimento da CIMPOR em Alhandra, o trabalho “Seres de Palha”, feito sob encomenda do Museu Zoológico da Universidade de Coimbra, uma viagem com pescadores portugueses à Mauritânia e ao sul de Marrocos, uma série de imagens sobre Fátima feitas ao longo dos anos e que depois deram um livro, um ensaio fotográfico sobre o Hospital Psiquiátrico do Lorvão, e uma série de retratos a músicos, e actores, como José Viana, que aqui se mostra.


 


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UMA LEITURA INVULGAR - Fátima Mariano é uma historiadora que se dedica a escrever sobre factos, episódios e pessoas menos conhecidas da nossa História. Depois de ter publicado em 2019 “Grandes Mistérios da História de Portugal”, Fátima Mariano regressa agora com “Grandes Figuras Excêntricas da História de Portugal”.  Neste novo livro, ficamos a conhecer algumas das figuras mais excêntricas e bizarras que viveram no final do século XIX e início do século XX e que foram alvo de grande atenção da imprensa da época, a grande fonte consultada pela autora nas dez personagens que destacou - desde pessoas com malformações até outras com profissões invulgares. Gigantes, pessoas com anomalias anatómicas e aspecto invulgar eram muitas vezes exibidas em feiras e assim ganhavam a vida. Um dos casos que relata é o de um homem que ficou conhecido como a tripeça humana: tinha três pernas, quatro pés, dois pénis e dois ânus, era considerado  muito activo sexualmente desde a adolescência, e uma das suas parceiras foi uma mulher de nacionalidade francesa que tinha três pernas, quatro mamas , duas vulvas e duas vaginas. Outra das figuras é o comilão de Almada que ganhou uma aposta ao ingerir, do nascer ao pôr do sol, quinze quilos de batatas, dois quilos de bacalhau e três pães, tudo ensopado em cinco litros de vinho. Fátima Mariano conta também a história de Luciano das ratas, que tinha como profissão ser caçador de ratos - havendo quem lhe atribua a proeza de,  em sete anos, ter morto mais de cem mil roedores, livrando Lisboa de uma praga e contribuindo para combater a peste bubónica. Outra figura era o Rei do Lixo,  responsável pela recolha de lixos em Lisboa no início do século XX e que assim fez fortuna, que depois aplicou em outros negócios, nomeadamente como fornecedor de carne aos talhos da capital. O livro alia um grande rigor histórico com uma narrativa que quase se assemelha a uma ficção. A edição é da Contraponto.



UMA ESPÉCIE DE AÇORDA, MAS ITALIANA - Chama-se Panzanella e é uma receita da Toscana. A base é o pão, como a açorda e o azeite também é chamado à festa. Mas a semelhança acaba aí porque nesta receita o forno tem um papel fulcral. Primeiro corte algum tomate maduro aos pedaços e leve ao forno aquecido, polvilhado de sal, durante uns dez minutos - tire e reserve. A seguir coloque no forno um tabuleiro com o pão de véspera, de boa qualidade, cortado grosseiramente aos pedaços, regue com um fio de azeite e leve ao forno até ficar um pouco tostado - outros dez minutos. Retire, deixe arrefecer. Enquanto isso numa taça grande coloque uma chalota pequena cortada muito fina, tempere com azeite e vinagre de vinho tinto, misture tudo bem. Adicione o tomate, o pão, uma lata pequena de anchovas cortadas em pedaços, folhas de manjericão, uma dúzia de azeitonas pretas às rodelas, envolva tudo muito bem e no fim coloque por cima mais umas folhas de manjericão. E pronto - aí tem um prato de verão cheio de côr e sabor.


 


DIXIT - “O Governo revela cansaço de ideias e vacuidade de projectos. Anda à procura de segundo fôlego quando nem sequer mostrou o primeiro” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “A verdade pode ser a anedota mais divertida que existe”- George Bernard Shaw




julho 29, 2022

A ARTE DA PROPAGANDA

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POLÍTICA & COMUNICAÇÃO - O debate sobre o estado da Nação, realizado na semana passada, veio colocar a capacidade de comunicação em primeiro plano. Há que reconhecer que o debate não correu bem ao novo líder parlamentar do PSD, Joaquim Miranda Sarmento, mas foi ele o autor da frase mais lapidar desse dia:  “Se o PS fosse tão bom a governar como a fazer propaganda, Portugal era o país mais rico do mundo”. Na realidade António Costa é exímio a comunicar e o PS tem a sua máquina bem montada, melhor que os outros partidos. Repare-se que o primeiro-ministro foi o primeiro a reconhecer que existem problemas na governação: “O que nos divide não é reconhecer se há ou não problemas. Claro que há. A grande diferença é que, perante os problemas a oposição fala em caos e o governo vê desafios”. Como João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, afirmou nessa ocasião,  “nem a habilidade do Primeiro-Ministro consegue esconder o caos em que estão os serviços públicos em Portugal”. Estas trocas de galhardetes parlamentares evidenciam uma coisa: a comunicação em política é baseada no uso de meias verdades e isto varre todo o espectro partidário, sem excepção. Mas a comunicação enganosa que resulta melhor é a que tem um fundo de verdade - cria confiança, aproxima das pessoas. E, além de tudo o mais, Costa é simpático, está sempre sorridente (às vezes até quando as circunstâncias, dramáticas, não o recomendariam). Mas cativa as pessoas e é exímio a apresentar promessas como se fossem soluções para os problemas, em deixar de falar das promessas que não cumpriu, das soluções que não se concretizaram, ou em reescrever a história como o PS faz quando fala da troika e da austeridade nascida quando o governo de Sócrates levou o país quase à bancarrota. Durante anos Rui Rio, porventura o mais inábil político em termos de comunicação que o país conheceu, deixou essa narrativa vingar. Adão e Silva, premiado por Costa para fazer o fecho do debate parlamentar, depois de o primeiro-ministro ter olimpicamente recusado responder a perguntas da oposição, saíu-se com esta afirmação: “não confundimos o mandato que temos para governar, com um governo enclausurado na sua própria maioria”. Querem melhor exemplo de ilusão?


 


SEMANADA - Nos últimos 40 anos os incêndios consumiram o equivalente a metade da área de Portugal continental; em sete meses a GNR já deteve mais suspeitos de incêndios do quem, todo o ano de 2021; Lisboa, Porto, Sintra e Gaia são os concelhos com maior número de desempregados; Lisboa concentra 22% de toda a habitação social portuguesa; um estudo da OCDE indica que os portugueses precisam do equivalente a 11,4 anos de salários para conseguir comprar uma casa com 100 metros quadrados; os lucros da Galp subiram 153% no primeiro semestre, face a igual período de 2021, para 420 milhões de euros; o crescimento da receita fiscal dos impostos indirectos levou a que o total previsto para este ano tivesse já sido alcançado em Maio; a receita fiscal do Estado aumentou 29,7% até junho face ao mesmo período do ano passado; a operação de manutenção da TAP no Brasil, anunciada como grande negócio pelos gestores brasileiros que levaram a TAP ao buraco onde está, perdeu quase 600 milhões de euros desde 2008; segundo a Pordata em 2021 estavam detidas 11.588  pessoas, das quais 10.774 eram do sexo masculino e 814 eram do sexo feminino e as prisões tinham uma ocupação de 91,8% da sua capacidade; o Instituto Nacional de Reabilitação recebe uma média de três queixas por dia de discriminação de pessoas com alguma deficiência; o Tribunal de Contas detectou que entre setembro de 2020 e agosto de 2021 o Estado pagou 1,3 milhões de euros por ligações à internet, destinadas a escolas e alunos, que não foram utilizadas.


 


O ARCO DA VELHA - Um pirómano que havia sido detido em Outubro passado pela Judiciária, e que então foi libertado pelo Tribunal, já ateou este ano seis fogos florestais na zona de Arruda dos Vinhos.


 


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CHAFES INVADE SERRALVES  - “Chegar sem partir” é o título da exposição de Rui Chafes em Serralves, que se estende do interior do edifício aos jardins exteriores. Cobrindo mais de três décadas de atividade, a exposição inclui trabalhos da fase inicial da sua produção escultórica e um conjunto de obras especificamente pensadas para o Museu e Parque de Serralves. No interior do edifício, “Sudário”, uma escultura de 2018, é a peça que primeiro recebe os visitantes, suspensa no corredor. A exposição apresenta um conjunto de obras significativas no percurso de Rui Chafes, algumas reconstituídas para esta ocasião como as instalações  “Medo não medo” (1988/98) — refeita e adaptada ao longo corredor desenhado por Álvaro Siza — e “A não ser que te amem”, (1987). Há peças novas, como “Sem nascer nem morrer” e outras mais antigas como “Burning in a forbidden sea”(2011), que é acompanhada por uma composição sonora e texto da artista irlandesa Orla Barry. O desenho, que Chafes raramente traz para a esfera pública, surge pela primeira vez ao lado das esculturas, como um fio condutor, da exposição. No hall do Museu, está uma sequência de mais de vinte esculturas pertencentes à série “Balthazar”  e a exposição prossegue nos jardins de Serralves, onde Chafes apresenta esculturas de diferentes períodos e outras criadas especificamente para este contexto — como é o caso de “Chegar sem partir” (na imagem), a escultura de 6 metros que dá título à exposição e que está logo na entrada do parque. A exposição inclui também uma obra que ficará permanentemente em Serralves, uma escultura subterrânea intitulada “Travessia”, um túnel escuro que termina numa câmara central iluminada por raios de luz natural, que são até ali conduzidos por um óculo, e revelam uma escultura de formas orgânicas que evocam um casulo em metamorfose. “Chegar sem partir” fica em Serralves até 26 de Fevereiro do próximo ano.


 


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GUIA PARA IR À PRAIA - Faz bem ir à praia? Os  banhos de mar são benéficos?, Não serão perigosos? Em 1876 estas perguntas andavam na boca do mundo e ir à praia não era coisa que agradasse a muita gente. Foi nessa altura que Ramalho Ortigão escreveu e publicou “As Praias de Portugal - Guia do Banhista e do Viajante”, agora editado na magnífica colecção “Terra Incógnita” da Quetzal. Ramalho Ortigão enaltece as vantagens e os benefícios biológicos e culturais da água do mar, do oceano e dos banhos de água fria: “Pelo simples facto da residência à beira-mar, como numa localidade muito elevada, o apetite aumenta, a digestão opera-se mais regularmente e mais rapidamente, a respiração exerce-se com mais actividade, o sistema nervoso sobre-excita-se: tais são, pelo menos, os fenómenos mais manifestos e mais gerais que se observam, e fazem com que o ar do mar seja tão salutar”. O escritor deixou em “ Praias de Portugal” um mapa da época balnear do final do século XIX, um clássico da literatura de viagem em Portugal. Ramalho Ortigão fala da Foz, de Leça e de Matosinhos, de Pedrouços e da Póvoa do Varzim, da Granja, de Cascais, de Vila do Conde, mas também de Espinho, Ericeira, Nazaré ou Figueira da Foz e ainda de Setúbal. Há também um capítulo sobre aquilo a que chama “as praias obscuras”, que inclui S. Pedro de Moel, S. Martinho do Porto, a Costa Nova ou Porto Brandão, entre outras.


 


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O ELOGIO DA SIMPLICIDADE  - O disco que mais ouvi esta semana é “Shifting Sands” do trio do baixista Avishai Cohen, com Elchin Shirinova no piano e Roni Kaspi na bateria. Cohen tornou-se notado quando tocou em 1997 com Chick Corea. Nos dez temas deste disco ele mostra bem a sua versatilidade como músico e como compositor, juntando influências que vão dos standards do jazz norte americano até  ao funk, passando pela música latina e  temas do folclore de Israel, o seu país natal. “Shifting Sands” é um exemplo de um trabalho colectivo, de um diálogo solto e criativo entre os músicos, com o piano de Shirinova a ser muitas vezes o pólo condutor que dá entrada ao diálogo entre o baixo e a bateria. A faixa título é um exemplo perfeito desta articulação - tanto mais curiosa quanto o baterista, com 21 anos, recém saído de Berklee, é uma revelação que integra  este novo trio de forma magnífica. Noutros temas, como em “Dvash”, o piano e o baixo, por si sós, estabelecem uma sonoridade marcante e outras faixas que merecem destaque são “The Window” e “Joy”. Há momentos em que Cohen quase desaparece, deixando o palco para o pianista e o baterista, como em "Intertwined",  a faixa de abertura. O mais impressionante é a simplicidade de tudo isto e a forma como o trio usa essa simplicidade para fazer grande música. Não tenho dúvidas em dizer que este é um dos melhores discos de jazz que ouvi este ano. “Shifting Sands” está disponível em streaming.



ESPLANADA SETUBALENSE  - Vou falar do Peixoco, em Setúbal, bela localização, frente à foz do Sado. As muitas notícias publicadas na imprensa criaram expectativa, e lá fomos nós. O sítio é simpático,  está bem arranjado e o serviço é atento. Apesar de tudo isto a realidade da comida fica parcialmente  abaixo da expectativa criada. Vamos lá a ver - não se pode dizer que uma experiência no Peixoco seja má, o problema é que se esperava mais, a começar por  maior criatividade na lista. Indo por partes: as ostras eram boas mas isso em Setúbal é obrigação. Uma boa surpresa foi a beringela assada, com tomate confitado e alcaparras, ingredientes bem combinados e confeccionados, tempero certo. Mas o tártaro de atum estava muitos pontos abaixo do que se podia esperar. Uma das apregoadas especialidades da casa, a salsicha de peixe com puré de batata doce, desiludiu na salsicha mas cumpriu no puré. O problema é que a tal salsicha estava seca, demasiado passada e francamente com um sabor indistinto. O local convida à partilha petisqueira, mais do que à escolha do formato tradicional de entrada e prato principal. Em resumo 50% da expectativa foi cumprida. é melhor que nada mas é pouco para o que o restaurante vem anunciando. A rematar uma boa surpresa:  um vinho da região, o sauvignon blanc de Aldeia de Irmãos, revelou-se uma boa escolha que fez atenuar os aspectos menos bons da refeição. Já me esquecia: a manteiga de algas do couvert é bem boa e é a melhor parte do dito. Telefone 265 105 268.


 


DIXIT - “Não rejeito nada” - Augusto Santos Silva


 


BACK TO BASICS - “A raça humana tem dificuldade em enfrentar a realidade” - T.S. Eliot





 





julho 22, 2022

UM PAÍS EM PONTO MORTO

 


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ESTADO OU GOVERNO? -  Nesta semana os deputados cumpriram o ritual do debate do Estado da Nação. Em geral a coisa resume-se a isto: quem Governa diz que está tudo bem e que mesmo as falhas eventuais serão corrigidas; e quem se opõe diz que o Governo não governa. O maior problema é termos um Estado que é desprezado pelo Governo. Explico melhor: a quem é governo interessa ter poder e perpetuar esse poder o máximo de tempo que puder. Portanto não governa para resolver problemas estruturais, que podem sempre implicar decisões desagradáveis para o eleitorado, e em vez disso decide de forma a poder manter, e se possível ganhar, votos nas eleições seguintes. Assim governa-se para manter o poder e não para melhorar o Estado. Creio aliás ser essa a razão pela qual o PS tem negligenciado a capacidade reformista que a maioria absoluta em teoria lhe dá. Um exemplo: o Primeiro Ministro queixa-se da falta de cadastro das propriedades rurais que dificulta a gestão florestal. Mas depois não toma medidas para que o cadastro seja mais fácil. Esta semana, por causa dos incêndios, muitas pessoas vieram relatar o calvário - e a despesa - que é conseguir actualizar os registos. O problema não é das pessoas, é do Governo que não coloca o Estado a funcionar para servir os cidadãos. Proliferam organismos redundantes, taxas e taxinhas que desmoralizam qualquer um. Enquanto isso, no Parlamento discute-se o acessório e esquece-se o essencial, que faria a diferença: as mudanças e reformas que é necessário introduzir. Sem isso o país não vai sair da cepa torta.


 


SEMANADA- Duas sondagens conhecidas nos últimos dias indicam que, se houvesse hoje eleições o PS perderia maioria absoluta, meio ano depois de a ter alcançado; um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos portugueses já deseja uma remodelação governamental e que 63% considera que o estado do país está pior que há um ano; nos primeiros seis meses do ano os portugueses gastaram mais 220 milhões de euros em supermercados que em igual período de 2021; a inflação fez com que a receita fiscal do Estado em Maio já estivesse a aumentar 21%, quando o OE previa 6,7%; também até Maio a receita do IVA aumentou 25% quando a previsão era de 10,7%; e a receita do Imposto sobre Produtos Petrolíferos aumentou 12% em vez dos previstos 1,6%; o Ministro da Economia, António Costa e Silva, defende que o aumento do salário médio tem de ser acompanhado por baixa de impostos e avisou que não se pode “exigir às empresas aquilo que elas não podem pagar”; no mais recente concurso do Ministério da Saúde um terço das vagas para médicos de família ficou por ocupar; um estudo conhecido esta semana indica que a geração Z e os millennials portugueses sentem-se financeiramente ansiosos e que o custo de vida e o desemprego estão entre as suas principais preocupações; a área ardida este ano em Portugal, até à semana passada, já supera os valores totais de 2021, totalizando quase 40 mil hectares, a maior área ardida desde 2017.


 


O ARCO DA VELHA -  O Estado atribuíu a si próprio dois terços do dinheiro da bazuca do PRR e já auto-aprovou 50% dessas verbas, enquanto que o mesmo Estado aprovou menos de 6% do total das verbas destinadas às empresas privadas.


 


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UMA VIAGEM NO TEMPO - “Debaixo da Pele” é o título da exposição de Miguel Telles da Gama no Museu Berardo, uma viagem pela carreira do artista, que expôs pela primeira vez em 1990. A primeira obra desta exposição é datada de 1997 e na montagem não é seguida nenhuma ordem cronológica. Logo no início está “Azul Profundo”, de 2014,  e depois  os “70 ex-votos por uma vida sexualmente animada”, de 2021. A seguir está “Vanishing Act” de 2016, as armaduras de “Lux in Tenebris” de 2018, as imagens gráficas de  2003 e 2004, de novo a pintura de “Emotional Rescue” de 2007, para daí seguir com os Contos de Perrault, barrados a vermelho, em “Passing Through the Red”, de 2013, e, depois,  um teatro de personagens à procura de autor em “Encenações”, realizada entre 1999 e 2003. José Luís Porfírio, o curador da exposição, sublinha que esta é “uma antologia do trabalho do pintor que não pretende ser um resumo integral do seu percurso, mas antes apresentar-se como uma obra nova, construída a partir de um conjunto de fragmentos da sua obra anterior”. “Debaixo da Pele” fica no Museu Berardo até 6 de Novembro. Em Coimbra destaque para “Tale About Urban Piracy”, uma exposição que agrupa obras de 14 artistas representados na colecção da Fundação PLMJ. Integrada no 13º Festival das Artes QuebraJazz, a exposição, com curadoria de João Silvério, tem trabalhos de  Ana Janeiro, Adriana Molder, Carlos Guarita, Ilda David, Inês Botelho, Isabel Carvalho, João Pedro Vale, João Tabarra, Manuel João Vieira, Mauro Pinto, Pedro Calhau, Rosana Ricalde, Rui Chafes e Sara Bichão. Está no Museu Nacional de Coimbra, Edifício Chiado. Até 4 de Setembro.


 


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PARA ESTIMULAR O PENSAMENTO  - Ora aqui está um livro actual, um romance sobre uma mulher que desafiava convenções, era politicamente incorrecta, detestava preconceitos, falsos moralismos e ideias feitas. Esta é a história imaginada por Julian Barnes de Elizabeth Finch, uma professora que dava aulas de  Cultura e Civilização, contada por um aluno que com ela foi falando ao longo da vida. O aluno, Neil, descreve como ela se vestia, e os seus hábitos e sublinha que a professora atraia a atenção através da quietude e da voz. Era um tempo anterior aos computadores portáteis nas salas de aula e cedo Elizabeth Finch disse aos seus alunos: “não me peçam para vos ajudar, estou aqui para vos estimular a que, sozinhos, penseis, argumenteis e desenvolvais as vossas mentes”. O livro percorre a história do pensamento humano e as ideias de Finch evocam filosofias do passado e exploram acontecimentos que se reflectem no nosso presente. Por trás de tudo,  está a história de Juliano, o Apóstata, último imperador pagão de Roma, uma alma gémea da professora,  que desafiou o pensamento monoteísta institucional, que sempre ameaçou dividir a humanidade. "Monoteísmo, monomania, monogamia. monotonia - nada de bom começa assim” - diz ela aos seus alunos. Ao longo de quarenta anos Finch encontra-se regularmente com Neil, com quem tem longas conversas. Quando morre é a ele que deixa os seus papéis, os seus cadernos de notas, a sua biblioteca. Os cadernos onde registava o que lhe ía na cabeça, eram  escritos a lápis “porque todo o pensamento é provisório e pode ser apagado à borracha”. Neil estuda-os, fica ainda mais fascinado e acaba por decidir escrever a biografia de Elizabeth Finch. Este novo livro de Julian Barnes encaixa  como uma luva nos tempos que correm, tão dados à intolerância. Muito boa  tradução, de Salvato Teles de Menezes, edição da Quetzal.


 


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JAZZ AVENTUREIRO - Gard Nilssen é um baterista norueguês dado a aventuras invulgares. Em 2020 fez um disco intitulado “If You Listen Carefully The Music Is Yours” com uma formação de três bateristas e três baixistas. Nilssen tem uma actividade considerável, com participações em mais de 70 discos desde 2007, alguns com orquestras, outros com pequenas formações, nomeadamente trios. O seu novo disco é baseado num trio: Nilssen na bateria, Andre Roligheten no saxofone e clarinete e Petter Eldh no baixo, a Acoustic Unity. “Elastic Waves”, o novo disco, é de facto o quarto registo deste grupo e é uma estreia na editora ECM.  Os três músicos trabalharam em conjunto não só em estúdio, mas também na composição dos 11 temas. Há evocações de melodias tradicionais norueguesas, há improvisação, há baladas, há sons vibrantes com o saxofone tenor a assumir protagonismo como no tema “The Other Village”, há uma permanente marcação rítmica, por vezes a puxar mesmo para movimentos de dança. Os temas são curtos - os 11 em conjunto andam pelos 45 minutos, o que facilita a ideia de uma sucessão de composições que se encadeiam umas nas outras. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ESPLANADA MEXICANA - Uma ida ao cinema foi o pretexto para ir ao andar Gourmet do El Corte Ingles de Lisboa e, percorrendo o local, escolher um sítio que parecesse simpático. A escolha recaíu na Barra Cascabel, que faz parte do grupo de restaurantes orientados por José Avillez. Na realidade esta é uma parceria entre Avillez e Roberto Ruiz o chef que se tornou notado com o restaurante Punto Mx, em Madrid.  A Barra  Cascabel dedica-se à cozinha mexicana e pode-se escolher entre petiscos ou pratos mais sérios, conforme o apetite. Como aperitivo para o cinema a opção foi petiscar. Assim tudo começou com um guacamole da casa, temperado a sementes de abóbora e pickles de jalapeno, com as necessárias tiras de milho, bem frescas e estaladiças. Seguiu-se uma Tostada de Bonito, em que um molho de hortelã e pepino temperava uma salada de milho e o próprio atum. Para rematar, uns tacos Tampiquña traziam carne de vaca aos pedaços, cozinhada com bom tempero, pedaços de abacate e pico de gallo (uma mistura de tomate, cebola, coentros e limão). A acompanhar cerveja mexicana - uma Corona e uma Atlantica - esta última é mais gastronómica e acompanha melhor a comida. Mas quem quiser tem uma boa lista de cocktails, mezcal e tequilas. Quem desejar coisas menos leves tem pratos cozinhados de galinha, porco e vaca, todos na brasa, todos receitas tradicionais.


 


DIXIT - “Portugal é hoje o país europeu onde o Estado mais se demitiu da presença real no mundo rural, liquidando velhas instituições de vigilância e salvaguarda das florestas” - Viriato Soromenho Marques 



BACK TO BASICS - “Os erros são a porta de entrada para fazer descobertas” - James Joyce


 

julho 15, 2022

NÓS POR CÁ TODOS BEM?

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CARTA A UM AMIGO EMIGRADO - Perguntas-me no teu mais recente e-mail como estamos nós por cá. Para te responder podia citar o título de um filme, “Nós Por Cá Todos Bem”, do Fernando Lopes, lembras-te? Mas a coisa termina no nome do filme. Se queres saber, este rectângulo à beira mar plantado continua a ser disputado por estrangeiros que aqui procuram sol e pechinchas. Mas nós, que gostosamente aqui andamos há uma vida, não vemos grande razão para sorrisos. Recordas-te da nossa velha conversa, da última vez que aqui estiveste, sobre a necessidade de mudar, de fazer reformas? Pois não tenho novidades. Nem mudanças nem reformas, nada. A localização do novo aeroporto continua emperrada e a CP aconselhou as pessoas a não viajar de comboio nestes dias de calor, as urgências dos hospitais vão fechando, as notas de matemática vão descendo e as greves vão aumentando desde que a geringonça gripou. Como te recordarás, quando António Costa chegou a primeiro-ministro, prometeu mudanças. E, como saberás, escolheu para parceiros os dois partidos que menos mudanças querem para desenvolver o país e a economia: o Bloco e o PCP. O resultado dos quatro anos desse ménage à trois foi que nada se fez, a não ser recuar nos indicadores comparativos da União Europeia. Não é de admirar - as geringonças têm tendência para andar para trás, são primas dos caranguejos. Depois, este ano, quando o Costa ganhou com maioria absoluta, houve quem pensasse que agora é que ía ser - livre dos seus sócios anteriores, alguma coisa iria mudar. A coisa que mais mudou é que ele agora passa mais tempo no estrangeiro - está como tu, meu amigo. Quem cá fica é que anda pior. Não há sítio onde surja um sinalzinho de mudança - nem na justiça, nem na carga fiscal, nem na lei eleitoral. A coisa que mais muda nesta terra é o preço dos combustíveis e até já há quem tenha saudades de um litro de gasolina ser a dois euros. Não te maço mais. O rectângulo continua firme à beira mar. Imutável. E com a dívida a crescer. Esperemos que não afunde outra vez, como com o Sócrates.





SEMANADA - Em 2021 foram realizadas menos 700 mil cirurgias em comparação com o ano anterior e verificou-se um redução de 18,5% nos internamentos hospitalares; os hospitais privados pesam apenas 4% na despesa do Serviço Nacional de Saúde; até Maio foram comunicados 452 pré avisos de greve, valor semelhante ao que foi atingido em 2015; mais de metade dos alunos do 9º ano teve negativa no exame de matemática; o Fisco só ganha 23% dos processos que são julgados com recurso à arbitragem fiscal; o actual executivo já nomeou mais de 800 pessoas para os gabinetes dos vários membros do Governo;  o Estado tem mais de 400 organismos consultivos, alguns redundantes e outros sem actividade; segundo a Pordata a percentagem de pessoas em risco de pobreza aumentou de 16,2% para 18,4% entre 2019 e 2020; em 2020 um terço das famílias perdeu 25% do seu rendimento anterior; segundo a Marktest o número de portugueses que encomendam refeições por telefone ou aplicações quase triplicou desde 2018 e o MB Way é o método de pagamento mais utilizado em compras online; o Novo Banco vendeu casas a um preço tão abaixo do mercado que algumas delas valorizaram 200% no dia seguinte; 75% dos portugueses consideram que o Estado devia investir mais na cultura, revela um estudo promovido pela plataforma Gerador.


 


O ARCO DA VELHA - Em 23 meses o  Banco de Fomento, que ainda mal funciona, fez 73 contratos de aquisição de bens e serviços por ajuste directo, num total de cerca de seis milhões de euros, 47% dos quais a uma mesma entidade.


 


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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - A minha sugestão desta semana é uma ida ao Museu Gulbenkian para visitar a exposição  “To Go To”, que coloca em confronto o trabalho do português Jorge Queiroz e do arménio Arshile Gorky. Jorge Queiroz concebeu a exposição como um cenário que permite o diálogo entre os trabalhos dos dois artistas. Gorky morreu em 1948, Queiroz nasceu em 1966. Claramente são de tempos diferentes e, como Jorge Queiroz refere, Gorky partiu da figuração e desejou a abstração, enquanto ele próprio passou da abstracção para a figuração. A forma como “To Go To” está montada e o cuidado posto no diálogo entre as obras dos dois artistas tornam-na numa exposição invulgar. A ideia desta mostra nasceu porque a Fundação Gulbenkian detém um depósito de 57 obras de Arshile Gorky, propriedade da Diocese da Igreja Arménia de Nova Iorque, e ainda três obras no acervo do Centro de Arte Moderna. Foi a partir deste conjunto que Queiroz selecionou as pinturas e desenhos de Gorky apresentados na exposição, todos pertencentes ao último período da sua obra, da década de 1940, considerada a sua melhor fase. A este conjunto veio ainda juntar-se o empréstimo de uma pintura excepcional, proveniente do Museo Thyssen-Bornemisza. Intitulada Last Painting (The Black Monk), inspirada pelo conto homónimo de Tchekov, esta obra é e datada de 1948, e é provavelmente a última pintura de Gorky, uma vez que foi encontrada no cavalete do estúdio quando o artista se suicidou. Em “To Go To” Jorge Queiroz mostra cinco telas realizadas para a exposição, nas quais pintou sobre linhas serigrafadas, como se fossem papel de carta, evocando a leitura que fez da extensa correspondência de Gorky recentemente publicada. A exposição inclui ainda três outras pinturas e um vídeo de Queiroz, expressamente realizados para este projeto, além de vários seus trabalhos anteriores, sobre tela e sobre papel. A curadoria é de Ana Vasconcelos e a exposição fica patente até 17 de Outubro. 


 


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ENTRE A VIAGEM E A AVENTURA  - Gosto muito de livros que relatam viagens e os policiais e livros de mistério também figuram nas minhas leituras preferidas. Por isso, à medida que fui avançando na leitura de “Nas Montanhas da Loucura”, percebi como o seu autor, H. P. Lovecraft, conseguia relatar uma expedição à Antárctida, escrevendo-a como um romance de terror. Devo dizer que o resultado é fascinante.  Stephen King considera  Lovecraft como o melhor escritor de romances de terror do século XX e  Jorge Luis Borges dizia de Lovecraft que “as imagens que cria são horrendas, mas as sensações que provocam não o são”. O romance e a obra de Lovecraft combinam a fantasia com a ficção científica e com elementos cósmicos, tendo como pano de fundo a fragilidade e a efemeridade do ser humano. Howard Philips Lovecraft morreu cedo, em 1937, com menos de 50 anos. “Nas Montanhas da Loucura”, publicado originalmente em 1931, é uma das suas obras mais importantes. Na expedição, cujos preparativos são descritos minuciosamente no romance, os cientistas, que procuram fósseis pré-históricos numa viagem atribulada, começam a testemunhar factos estranhos. A partir daí o livro cria um clima de mistério e suspense que se vai adensando, no meio do clima desafiante da Antárctida e das suas paisagens avassaladoras. “Nas Montanhas da Loucura” integra a nova colecção "Admirável Mundo do Romance” e foi agora editado pela Guerra & Paz, com tradução de Sónia Amaro.


 


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O JAZZ DO HOMEM DOS WEEKND - Benny Bock tem trabalhado com os Weeknd, compondo algumas das suas canções e, sobretudo, assegurando a produção de vários dos seus álbuns. A novidade é que Bock iniciou agora uma carreira a solo com o álbum “Vanishing Act” onde mostra a sua proximidade ao jazz, assumindo a referência do jazz ambiental. Bock teve a ajudá-lo Pete Min, um reputado engenheiro de som que trabalhou com nomes como Diana Ross ou The Strokes. “Vanishing Act” desenvolve-se a partir de sessões de improvisação onde Benny Bock tocou seguindo as indicações de Min, ambos explorando sonoridades. A primeira faixa do disco”Erwins Garden” é uma homenagem de Bock ao pianista de jazz Erwin Helfer, que foi seu  professor de música. O piano assume neste tema e em vários outros do álbum o papel principal, mas cedo se mistura com sons de electrónica. Em “Dynamo”, o tema seguinte, uma batida repetida estabelece o padrão sobre o qual se desenvolve o piano e também o trabalho dos teclados electrónicos, num contraste entre sonoridades clássicas e o improviso que percorre caminhos inesperados. Estes dois temas iniciais estabelecem o padrão que se vai desenrolando ao longo dos restantes oito que constituem este álbum, sempre avançando um pouco na direcção de ambientes que bem podiam fazer parte de uma banda sonora de filme,  de tal maneira cada um dos temas deixa no ar sugestões de imagens. No tema título, “Vanishing Act”, um baixo eléctrico surge de forma marcante e em “Eight Below Zero” um steel pedal sugere universos musicais alternativos ao pano de fundo do jazz ambiental que foi escolhido por Bock.  Disponível em streaming.



A SARDINHA SETUBALENSE  - Um amigo que vive há muitos anos em Setúbal desafiou para umas sardinhas na sua terra. Não indicou nenhum dos restaurantes mais conhecidos, disse apenas que era um sítio onde ele gostava de ir, mais frequentado por locais que por turistas. Durante o almoço, e enquanto as sardinhas estavam nas brasas, ele lá contou as transformações sofridas por Setúbal nos últimos anos e disse uma coisa que para mim foi novidade completa: Setúbal é um dos destinos portugueses mais procurados por norte-americanos de classe média para aí comprarem uma casa e, actualmente, essa é uma comunidade de estrangeiros que está a crescer e que por este andar será a que lidera a nacionalidade dos novos proprietários de Setúbal. Alguns dos americanos que compraram casa decidiram uns tempos depois abrir um negócio, que vai desde lojas diversas até uma livraria que já está em preparação. Voltando à mesa, com um piscar de olhos, o meu amigo explica que, para comer boa sardinha em Setúbal, o truque é não ir ao fim de semana e evitar os restaurantes de primeira linha junto ao rio ou na avenida Luísa Todi. É nas ruas mais interiores que há os melhores restaurantes, com as melhores grelhas e peixe de confiança. Na esplanada que ele escolheu as sardinhas, já de Julho, estavam aprimoradas no tamanho, na frescura e no preparo, a salada era abundante e a fatia de pão para embeber o rasto deixado pelas sardinhas recomendava-se. Até tenho medo de referir o nome do sítio, mas aqui fica: Tasca Xico da Cana, Travessa do Seixal 10, tel 265 233 255 ou 915 420 976.


 


DIXIT - “Na democracia portuguesa os partidos só estão preparados para a competição política e não para a cooperação” - Paulo Trigo Pereira


 


BACK TO BASICS - “Quem em tudo quer parecer maior, não é grande”  - Padre António Vieira


 





julho 08, 2022

O PS TEM UM PROBLEMA DA FALTA DE MEMÓRIA

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HERANÇAS POLÍTICAS - Cada vez que o PSD dá um ar da sua graça vem logo alguém do PS recordar, em tom acusatório, os tempos de Passos Coelho. Esquecem-se sempre de referir que Passos Coelho recebeu um país à beira da falência, após anos de governo do PS, protagonizados por José Sócrates. Esquecem que quem chamou a troika foi o Dr Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças de Sócrates, perante a iminência de o país colapsar. Mas esta é uma verdade que o PS e seus aliados geringôncicos preferem não recordar. A bitola de avaliação do PS em relação a dirigentes do PSD é a de rastrear se eram próximos de Passos Coelho. Imaginemos agora que o mesmo exercício se aplica ao PS. Para citar só dois casos relevantes tenhamos em conta que o actual Primeiro Ministro António Costa integrou um Governo de José Sócrates e o actual Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, idem. Pois apesar disto o actual Presidente do PS, sempre muito assertivo, veio comentar o Congresso do PSD  proclamando que  o novo líder do PSD, Luís Montenegro, é “uma espécie de “heterónimo político de Passos Coelho”. Este é o mesmo Carlos César que em Maio de 2018, em declarações ao “Observador”, lembrou a “marca muito positiva” que José Sócrates deixou no país como primeiro-ministro. Enquanto a política fôr feita assim o descrédito dos eleitores perante os políticos só terá tendência a crescer. Em matéria de heranças políticas vale a pena recordar que nos últimos 27 anos o PSD governou apenas sete, quatro dos quais para tirar o país da fossa em que o PS o deixou. Recordem-se disto nas próximas eleições.


 


SEMANADA - Dos 3300 milhões de euros do PRR já pagos por Bruxelas chegaram às famílias 51 milhões e às empresas apenas quatro milhões; 113 dos 308 municípios ainda não conseguiram concluir a estratégia local de habitação que lhes permitira concorrer aos fundos do PRR, o que poderá agravar as desigualdades no acesso à habitação; os pedidos de licenciamentos para reabilitação de casas caíram 45% nos primeirtos meses do ano face ao mesmo período do ano passado; a inflação provocará em 2023  o maior aumento de actualização automática das rendas de casa desde os anos 90 do século passado; o Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda, recebeu cerca de 15 mil visitantes no primeiro mês em que esteve aberto; a venda de automóveis novos caíu 9,4% no primeiro semestre deste ano; no primeiro mês de funcionamento os novos radares de Lisboa apanharam 1239 condutores em excesso de velocidade por dia; a Provedoria de Justiça recebeu no ano passado mais de 12 mil queixas de cidadãos e o maior número de reclamações tem a ver com a Segurança Social; a violência doméstica já provocou no primeiro semestre a morte de 16 mulheres, tantas quanto em todo o ano passado; a dívida pública portuguesa está a crescer ao ritmo de 42 milhões de euros por dia e atinge agora mais de 280 mil milhões, o maior valor de sempre; nos primeiros cinco meses deste ano a cobrança de impostos teve um valor médio de 117 milhões de euros por dia; um estudo da SEDES indica que os baixos salários, a corrupção e a situação na saúde são os motivos que levam portugueses que emigraram nos últimos anos a não quererem voltar ao país.


 


O ARCO DA VELHA - Desde que, em 1969, foi criado o Gabinete do Novo Aeroporto já foram  realizados estudos para 17 localizações diferentes do novo aeroporto de Lisboa. Em anos diferentes, foram aprovadas formalmente em Conselho de Ministros duas localizações: Ota em 1999  e Alcochete em 2008. Mas tudo continua por fazer.


 


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MUITO PARA VER - No espaço Gabinete, na Central Tejo, o MAAT, apresenta até 29 de Agosto as novas aquisições de obras de arte efetuadas em 2021 e 2022 pela Fundação EDP. As novas obras, bastante diversificadas em termos de origens, autores e data, são de nomes como Fernando Calhau, João Vieira, Miguel Branco, Ana Jotta (na imagem), Luísa Cunha, Jorge Naisbitt e João Gabriel. A exposição, de dezena e meia das novas obras da colecção, procura criar diálogos entre o trabalho dos autores representados. Mas há muito para ver. Neste momento em Lisboa o difícil é escolher o que se poderá querer ver já que a oferta é grande. Alguns destaques: Catarina Pinto Leite expõe na Galeria Diferença,  até 30 de Julho, um conjunto de obras sob o título “Rua de Mão Única”, o título de um livro de Walter Benjamim que em parte inspirou o trabalho da artista, feito em papel japonês, criando uma instalação pensada para o espaço da galeria. O espaço é moldado pelo papel japonês, suspenso, no qual se vislumbram transparências de desenhos, em confronto com pequenos quadros dispostos na parede e que desenham um outro percurso. A curadoria é de João Silvério. Outra sugestão é a mostra Poster Marvila, já na sua sétima edição. Até final de Agosto as ruas de Marvila acolhem posters de artistas como Paula Rego, Cristiano Mangovo, Graça Paz, o fotógrafo Mário Cruz, o humorista Hugo Van der Ding ou o músico Noiserv, entre outros, num total de 20 artistas convidados. Para terminar, na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), até 10 de Setembro, Inês d’Orey expõe uma série fotográfica realizada durante uma residência artística em Belgrado, em 2021, “Beograd Concrete”, que mostra a visão da fotógrafa sobre a cidade, especialmente na mistura de estilos e referências arquitectónicas, mostrando como edifícios públicos, construídos entre 1946 e 1980 se intersectam com outros edifícios datados durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Jugoslávia foi formada.


 


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UMA HISTÓRIA IMAGINADA - Este livro de que vos vou falar  começa com o relato da parte final de uma viagem que leva um jovem lisboeta a descobrir  a geografia original da sua família por força de um acaso. É a descrição de uma estrada, no Alentejo, da passagem por Monsaraz (um encanto) e Mourão (uma desilusão), até chegar ao destino prometido, a terra dos avós, uma aldeia ao lado de um riacho e que dá pelo nome de Gorda-e-Feia. É aí que o protagonista vai descobrindo pormenores do quotidiano que ignorava, tradições que estão esgotadas, maneiras de falar que desconhecia. O livro de que falo chama-se “Baiôa Sem Data Para Morrer” e é a primeira obra de Rui Couceiro. O autor  tem uma escrita surpreendente, cheia de detalhes, recheada de episódios, misto de observação e de sensação. O livro é na realidade a história da descoberta de uma outra vida fora da cidade, uma narrativa quase em jeito de diário, contando as experiências vividas pelo imaginado protagonista na companhia de uma mão-cheia de personagens castiças, tragicómicas, quase impossíveis. Nota-se o encanto pelos nomes invulgares, pelas situações até então desconhecidas, pela forma de falar e de viver de gentes para quem a cidade pouco significa, pelos episódios de vida e de morte que acontecem longe de tudo, no meio da planície. Há momentos em que se fica na dúvida se tudo é fruto de imaginação ou se existe algum assomo de realidade nas páginas que lemos, tão grande é a mistura entre dados objetivos e pensamentos dispersos. Construído como relato de pequenas histórias, à medida que o romance avança percebemos que elas se juntam num puzzle que se revela no final.  “Baiôa Sem Data Para Morrer” foi agora lançado pela Porto Editora.


 


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UM DISCO CERIMONIAL - O novo álbum de Nick Cave tem menos de 24 minutos de emoção pura com recurso exclusivo a voz, sintetizadores e piano. Estas são sete canções que não o são. São, sim, pensamentos falados, narrativas difusas mas intensas, onde se cruzam temas como o amor e a morte. À primeira vista pode parecer um exercício vazio, mas este novo “Seven Psalms” de Nick Cave é um trabalho de uma enorme sensibilidade e força perante o qual é muito difícil ficar indiferente. Totalmente desligado de modas ou de um estilo musical definido, Nick Cave vai progressivamente afastando-se do rock e aproximando-se de uma religiosidade sem religião definida. O disco consta de sete temas falados, com menos de dois minutos cada, em que as palavras têm um acompanhamento musical minimalista de Nick Cave e do seu colaborador de muitas aventuras Warren Ellis. Os sete temas culminam num longo instrumental que decorre das paisagens sonoras construídas ao longo do resto do disco. Os títulos dos sete salmos assim ditos por Nick Cave dizem tudo: “How Long Have I Waited?”, “Have Mercy On Me”,”I Have Trembled My Way Deep”, “I Have Wandered All My Unending Days”, “Splendour, Glorious Splendour”, “Such Things Should Never Happen” e, a terminar, “I Come Alone and to You”. Num disco anterior, “Carnage”, Cave já tinha trabalhado sobre o conceito de spoken word. Mas aqui leva a experiência mais longe e as palavras são o elemento essencial do álbum, mais que a própria música, palavras ditas de forma sóbria e solene com Cave a assumir-se como um narrador e não como um cantor. Disponível nas plataformas de streaming.


 


SANDUÍCHE INESPERADA - Já há pêssegos bons - esta semana tive a confirmação disso mesmo. Um carrinho de fruta frente à entrada principal das Amoreiras, que tem sempre fruta de muito boa qualidade, proporcionou-me essa experiência. Provar uns pêssegos em grande forma, a transpirar sabor, aconteceu ao mesmo tempo que vi uma receita que me intrigou e que resolvi experimentar. Trata-se de uma sanduíche. Que tem isso a ver com pêssegos? - perguntarão. É  uma sanduíche de pêssego, queijo e presunto. O segredo está em cortar o pêssego em fatias e temperá-las num prato largo com vinagre de cidra e flocos de peperoncino seco, a gosto. O vinagre e o peperoncino acrescentam sabores inesperados ao pêssego, marinado no molho do sumo que vai largando. Depois é tostar numa chapa uma baguette estaladiça, cortada ao meio no sentido do comprimento e aquecê-la apenas do lado do miolo. Uma vez retirado da chapa colocar fatias de queijo da ilha nas duas metades, a seguir adicionar dos dois lados, de forma generosa, fatias do pêssego já temperado, folhas de basílico também dos dois lados e, no meio, a rematar, uma boa quantidade de presunto cortado finíssimo. Feche a sanduíche e prepare-se para uma explosão de sabor num pão estaladiço. Não há razão para não sermos inventivos ...


 


DIXIT - “O que parece ser um gesto estouvado de um ministro presunçoso acaba por revelar toda a amplitude de um Governo menor e de um Estado fraco” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “O conhecimento é a melhor das coisas e a ignorância é a mais terrível” - Sócrates, o filósofo grego, não o outro…


 


 





julho 06, 2022

A polémica sobre a nova Feira Popular faz sentido?

Confesso que me espantei com a forma tão veemente como o Bloco de Esquerda veio criticar o anunciado abandono, por parte do actual executivo autárquico, do  projecto da nova Feira Popular em Carnide. Vamos a factos: a Feira Popular em Entrecampos encerrou em 2003 e apenas em 2015 Fernando Medina, então Presidente da Câmara de Lisboa, autarquia que estava nas mãos do PS desde 2007, anunciou  a construção de um novo Luna Park em Carnide, orçado, na época, em 70 milhões de euros. Passaram-se quase 20 anos desde o fecho da Feira Popular e sete desde que o novo parque de diversões foi prometido. À excepção de umas terraplanagens em 2016, nada foi feito. Não existe plano, nem caderno de encargos nem abertura de concurso de concessão, Medina esteve na Câmara até final de 2021 e durante seis anos não deu um passo para concretizar o que anunciara. Carlos Moedas anunciou que o projecto teria que ser repensado, o que faz todo o sentido - tendo até em vista o seu programa eleitoral que dava prioridade a criar pólos de proximidade em detrimento de  grandes estruturas de difícil gestão. Que o Bloco de Esquerda e o PS andem de mãos dadas, neste caso, ainda  sob a benção do espectro do vereador Zé, não me causa espanto. Mas, na minha grande ingenuidade, pensava que no Bloco ainda eram lidas as reflexões de Guy Debord sobre “A Sociedade do Espectáculo”, “essa droga para escravos” que empobrece a verdadeira qualidade de vida:  o que existia na proposta de Medina era uma mega estrutura de espectáculo e aliás aquilo que o Bloco continua a reclamar é um grande equipamento de divertimento e entretenimento. Contradições, enfim… Mas deixemos Guy Debord de lado e passemos à realidade. O actual presidente da junta de Carnide, Fábio Sousa,  da CDU, afirmou, com lógica e razão, estar preocupado com o estado em que os terrenos do anunciado Luna Park se encontram: Segundo ele , “está tudo parado e os terrenos ao abandono”,  invadidos por mato, constituindo um perigo. E, nas mesmas declarações, afirmou-se mais interessado em que ali seja criado um parque verde.


Cancelar o que foi abandonado, rever as promessas falhadas e encarar novas soluções é um acto que revela coragem e um pensamento virado para o futuro. A  antiga Feira Popular, que frequentei desde miúdo, vivendo em Entrecampos,  era uma estrutura que funcionava em poucos meses do ano. Na maior parte do ano estava fechada, à excepção de alguns poucos restaurantes. A minha convicção é que os lisboetas ficariam melhor servidos com alguns parques de menor dimensão, sobretudo com equipamentos para os mais novos, distribuídos pela cidade. E com um ou dois pólos maiores que pudessem oferecer ofertas diferentes. Este ano no Rock In Rio existia uma roda gigante e diversos equipamentos de diversão que ajudavam à festa de quem ia ouvir música. O local onde decorre o Rock In Rio, o Parque da Belavista,  está infraestruturado e é utilizado  apenas durante um mês e meio, de dois em dois anos. Não seria de considerar que algumas das estruturas que são montadas possam ser mais perenes, complementando a oferta dos parques mais pequenos espalhados pela cidade? 


O cancelamento do projecto megalómano de um Luna Park em Carnide não é um problema, é uma oportunidade para repensar a cidade, promovendo alternativas de proximidade. Não valerá mais  a pena pensar desta forma em vez de ficar agarrado ao passado? 


(Publicado no Diário de Notícias de 6 de Julho)