julho 01, 2022

O PARADOXO: QUANDO UMA MINORIA DETURPA A ESCOLHA DA MAIORIA

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UM PAÍS, DOIS SISTEMAS - Não, não estou a falar da China. Refiro-me a este rectângulo à beira-mar plantado. Aqui coexistem dois sistemas: um, que regula as eleições legislativas, garante que cabe ao líder do partido mais votado formar um Governo constituído pelas pessoas que entender escolher; e outro, nas autarquias, onde o candidato mais votado tem que coexistir no órgão de governo local, a vereação, com pessoas que não escolheu, dos outros partidos - ou seja, não pode escolher uma equipa executiva que governe. Nas duas situações existe uma Assembleia - o Parlamento e a Assembleia Municipal (e a de freguesia) - que acolhem representantes dos partidos que concorreram, proporcionalmente aos resultados obtidos. E é nessas assembleias que se tomam as decisões sobre as grandes questões - desde logo o orçamento, mas também as medidas de fundo de quem governa. Temos assim, no caso das autarquias, um duplo filtro - na vereação e na respectiva assembleia - que permitem, em última análise, que o Presidente da Câmara eleito não possa aplicar o seu programa e tenha que aplicar o dos candidatos derrotados. É isso exactamente que se está a passar na Câmara Municipal de Lisboa onde o Presidente eleito, Carlos Moedas, se vê confrontado com a aprovação pela vereação de medidas que vão contra o seu programa eleitoral - foi o que aconteceu com a iniciativa do Livre que, sem estudos e por puro fundamentalismo, decidiu impôr limites de velocidade na circulação na cidade. O que isto significa é que uma minoria pode, no sistema actual, impôr a sua vontade ao representante escolhido pela maioria dos eleitores. Não se trata de pôr em causa o respeito pelas minorias, trata-se de respeitar que a vontade democrática da maioria não seja deturpada por minorias - porque é isso mesmo que está a acontecer. Ao fim de quase meio século vai sendo tempo de melhorar as leis eleitorais e adequá-las às mudanças técnicas, comportamentais e sociológicas da sociedade. A defesa da democracia também passa por aí.


 


SEMANADA - Segundo o jornal  “El País” para ir de Madrid a Lisboa de comboio são precisas quatro mudanças de composição e onze horas - nunca a viagem foi tão má desde que em 1881 foi inaugurada uma ligação directa entre as duas cidades; em Espanha o iva da electricidade vai baixar de 10 para 5%; em Portugal o consumo cresceu três vezes acima dos rendimentos nos primeiros três meses de 1922; mais de 30% dos utentes do SNS esperam por médico de família há dois anos; nos primeiros cinco meses do ano foram atribuídos mais de dois milhões de baixas médicas por doença, um aumento de 82% em relação ao mesmo período de 2021; a venda de casas a estrangeiros aumentou mais de 70% e os preços das habitações em Portugal subiram quase 13% nos primeiros três meses deste ano; a população de estrangeiros residente em Portugal aumentou em 2021 pelo sexto ano consecutivo, contabilizando agora cerca de 700 mil pessoas, mais 5,6% que no ano anterior; quase 800 mil portugueses fazem apostas on line e nos primeiros três meses do ano apostaram, 2,2 mil milhões de euros em casinos online e 370 milhões em apostas desportivas; a taxa de produtividade em Portugal é de 71,7% comparada com a média europeia; em 2021 aumentou em 60% o número de crianças em situação de risco que tiveram o seu direito à educação comprometido. 


 


O ARCO DA VELHA - Apesar de Portugal ter a terceira maior área marítima protegida da União Europeia as pescas e a aquicultura representam menos de  0,2% do nosso PIB. 


 


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O ENCANTO DA PEDRA - Para que serve a pedra? Entre outras coisas para deleite dos nossos sentidos - essa é a conclusão que se tem quando se visita a exposição”Primeira Pedra/First Stone”, que abriu na semana passada no Museu dos Coches,  em Lisboa, onde ficará até final de Setembro. Tudo nasceu em 2016 com o intuito de promover a pedra portuguesa, por iniciativa da Experimenta Design e da Assimagra, a Associação Portuguesa da Indústria dos Recursos Minerais. Guta Moura Guedes, que comissariou toda a iniciativa e esta exposição, convidou nomes nacionais e internacionais na área do design, arquitectura e artes visuais. Como sublinham os organizadores, a “Primeira Pedra juntou a produção à criatividade através do desenvolvimento de utilizações inovadoras deste material singular”. A exposição inclui 74 obras de 36 autores, com nomes como Álvaro Siza, Amanda Levete, Carla Juaçaba, Carsten Holler, Ai Weiwei, Eduardo Souto Moura, Julião Sarmento, Marina Abramovic, Carrilho da Graça, Michel Rojkind,  Fernanda Fragateiro, Vhils, Jorge Silva, Manuel Aires Mateus. Miguel Vieira Baptista, Pedro Falcão, Peter Saville e Philippe Starck, entre outros. A exposição desenvolve-se entre os jardins do museu, em todo o espaço exterior no piso térreo e, depois, no primeiro andar, convivendo com os coches do museu, como nesta Conversadeira, a peça de Eduardo Souto Moura que está na imagem.


 


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LÁ VOU EU DE VESPA  -  Em 1952 o filme “Férias em Roma” mostrava Audrey Hepburn e Gregory Peck numa scooter Vespa e a scooter ganhou estatuto de estrela. Por cá a Vespa chegou em 1947, no ano a seguir à sua apresentação em Itália. Fabricada pela Piaggio, o nome evoca o zumbido do seu motor original a dois tempos. A Vespa foi o modo de transporte de gerações. Tive a minha primeira Vespa, uma 150 S, quando entrei para a faculdade no início dos anos 70 e mantive-a durante muito tempo. E hoje em dia é ainda com uma outra Piaggio que me desloco na cidade. Tudo isto vem a propósito do novo livro de Pedro Pinto - “Vespa em Portugal, a beleza em duas rodas”, editado pela Quetzal e que esta semana chega às livrarias. Pedro Pinto é autor de outros livros, como  As Motos da Nossa Vida,  Motos Antigas em Portugal e Motorizadas 50cc Portuguesas. Foi membro fundador da Federação Nacional de Motociclismo e organizou a exposição As Motos do Século, o Século das Motos e o respetivo catálogo para a Expo 98. Neste novo livro conta como a história da Vespa ao longo de 70 anos está marcada pelo cosmopolitismo, pela inovação do design e por uma cultura romântica e urbana. Neste  livro Pedro Pinto conta a história das scooters Vespa em Portugal, desde o início da sua importação, até aos anos de ouro em que foi representada pela Sociedade Comercial Guérin e, depois, as  outras empresas que se lhe seguiram a importar a marca. O livro percorre os pioneiros da Vespa em Portugal, como a história fantástica de Orquídea Graça, uma vendedora do stand da Vespa na avenida da Liberdade em meados dos anos 50 - a história de uma mulher à frente do seu tempo. Mas fala também dos rallies e passeios - alguns além fronteiras - assim como da fundação do Vespa Clube de Lisboa ou do encontro internacional Eurovespa que Lisboa acolheu em 2004. O livro foi claramente escrito com paixão e reproduz numerosa documentação fotográfica e de imagens publicitárias da marca.


 


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A VOZ DA EMOÇÃO - Descobri a voz de Elizabeth Fraser nos Cocteau Twins e, depois, nos This Mortal Coil. A sua forma de cantar era emocionante e conseguia imprimir às palavras que entoava um sentimento que ainda não tinha ouvido antes. A versão que fez, com os This Mortal Coil, para “Song To The Siren”, de Tim Buckley, excede o original, transportando-o para uma nova dimensão. Agora, depois de ter passado anos sem ouvir falar de Fraser, descubro que editou um EP com Damon Reece, seu companheiro de vida, ex baterista dos Massive Attack, utilizando o nome Sun’s Signature, a designação que o duo escolheu para esta aventura. Os Cocteau Twins terminaram há 25 anos e durante este período Elisabeth Fraser manteve-se longe da ribalta durante a maior parte do tempo, tendo apenas editado dois discos. Sun’s Signature é o seu primeiro projecto em 13 anos e quando se ouvem estas canções percebe-se que a voz de Fraser mantém a magia que deixava no ar há décadas. Agora, aos 58 anos, Fraser canta de uma forma ainda mais intensa, estimulada talvez pelos arranjos envolventes que Reece fez com a participação de músicos com quem colaborou ao longo da vida, como Steve Hackett, que foi guitarrista dos Genesis. O som que sai deste EP relembra a sonoridade típica dos discos da editora 4AD, onde estavam os Cocteau Twins, os This Mortal Coil e Dead Can Dance, por exemplo. A primeira faixa, das cinco que integra este EP, chama-se “Underwater” e mostra como a voz de Fraser continua misteriosa. “Golden Air”, a segunda faixa, mostra Elizabeth Fraser a cantar sobre arranjos elaborados, num crescendo que se acentua na segunda metade do tema. Mas a minha preferida é “Apple”, intimista, tranquila, em que ao longo de sete minutos a voz de Fraser vai-se afirmando em todo o seu esplendor. Estes três temas já estão disponíveis em streaming. A edição original do EP, em vinil, inclui dois outros temas,  “Bluedusk” e “Make Lovely The Day”, bem diversas entre si. Estes dois temas estarão brevemente também disponíveis nas plataformas de streaming. Mas os 20 minutos das três faixas já disponibilizadas são uma inesperada lufada de ar fresco neste início de verão.


 


UM ALMOÇO NO CHIADO - Almoçar confortavelmente no Chiado, a preço razoável,  conseguindo escapar à fast food, não é tarefa fácil. Primeiro lembrei-me de ir à Cervejaria Trindade, mas está em obras. Depois espreitei o Bairro do Avillez mas a esplanada era dominada pela confusão e o mau cheiro de uns contentores de lixo inexplicavelmente próximos. De maneira que decidi ir à histórica Pastelaria Bénard e ver o que se passava. Pois passou-se uma boa surpresa. No interior havia sossego e um empregado simpático. Na parede um cartaz anunciava que a casa só utilizava produtos naturais e frescos, não recorrendo a pré-preparados. O balcão estava repleto de tentações. Os pratos do dia eram clássicos: pescada frita com salada russa e caldo verde. Além disso há as chamadas sopas residentes, emblemas da casa, que são a sopa de peixe e a canja de galinha. O menu tem muitas outras sugestões, do bitoque nas carnes aos filetes no peixe, passando por diversas saladas, além de uma grande variedade de salgados e de sanduíches, a que se podem acrescentar guloseimas como um excelente pastel de nata, quer no tamanho normal, quer em miniatura. Na primeira sala pode sentar-se e pedir o que lhe apetecer - por exemplo uma sopa e uma bela napolitana, esse mágico folhado com fiambre, queijo e alface. Fiz uma boa escolha - a sala da Bénard é um oásis no meio da confusão do Chiado. Fica na Rua Garrett, 104.



DIXIT - “A pior coisa que pode acontecer é adoecer ou ter acidentes em Agosto” - Graça Freitas, directora-geral da Saúde


 


BACK TO BASICS - “A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é um absurdo” - Voltaire





junho 24, 2022

UM CARGO EUROPEU: O CADA VEZ MAIS EVIDENTE DESEJO DE COSTA

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PELA ESTRADA FORA - Enquanto se multiplica em contactos no estrangeiro António Costa semeia promessas para o mercado interno: 20 % de aumento de salários num dia, “aumento histórico de pensões” em 2023  e crescimento nunca visto graças ao PRR noutro. Nos últimos dois meses António Costa visitou sete países europeus e enquanto procura aumentar a sua influência no exterior deixou a inércia instalar-se no Governo, como se verificou na questão da degradação do SNS. Mas Costa é hábil e nunca desanima: aos obstáculos responde com promessas, às dificuldades contrapõe miragens. Não fala das reformas que a sua maioria absoluta poderia permitir na justiça, saúde, educação e prefere fazer variações calculistas sobre a integração da Ucrânia na União Europeia, passando do mais acabado cepticismo para o mais entusiástico apoio, tudo seguindo naturalmente a  posição dos países que lhe poderão ser úteis caso se decida a tentar algum cargo europeu - coisa que parece cada vez mais ser o motor da sua actividade, por muito que o próprio desminta e o Presidente da República negue. O tempo o dirá, mas os seus actos estão à vista. O calendário eleitoral dos próximos anos é intenso: em 2024 eleições para o Parlamento Europeu, em 2025 eleições autárquicas, em 2026 eleições legislativas e presidenciais. Em nenhum momento se ouve Costa falar de revisão da Lei Eleitoral, sinal de que pelos vistos se sente confortável com a abstenção galopante e com o desperdício de votos que existe no actual sistema, e de que o seu partido é um dos principais beneficiários. Enquanto Costa prepara o seu próximo futuro, as promessas de benesses orçamentais que vai espalhando parecem ser um fato à medida da indicação de Fernando Medina, agora Ministro das Finanças, como seu sucessor. A sucessão de Costa no PS promete ser um romance  com todos os condimentos. Costa está lançado pelas estradas da Europa. E em que estado irá ficar Portugal no fim deste passeio?


 


SEMANADA - Um estudo da União Europeia indica que a despesa de Portugal com os salários na Função Pública superou em 1,3 pontos percentuais a média da União Europeia em 2021;  Portugal gasta 11,8% do PIB com a Função Pública, o que compara com o valor médio de 10,5% na União; a mortalidade na primeira metade de Junho subiu 26% em relação ao período homólogo antes da pandemia; há serviços de urgências nos hospitais públicos com 80% de tarefeiros; Portugal é o terceiro país da zona euro onde o preço dos alimentos mais cresceu, logo atrás da  Letónia e Lituânia; um estudo divulgado esta semana indica que nos últimos dez anos os salários médios dos portugueses caíram e os mais qualificados foram os mais prejudicados; em 2019, o rendimento anual médio líquido (em paridade de poder de compra) em Portugal era de 13.727 euros, o sétimo mais baixo entre os países da União; em 2019 havia 13 países em que os trabalhadores com ensino superior ganhavam mais que em Portugal: Itália, Chipre, Irlanda, Finlândia, França, Malta, Bélgica, Holanda, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Áustria, Luxemburgo; há cinco países em que os trabalhadores não qualificados ganhavam mais que os portugueses com ensino superior: Finlândia, Áustria, Holanda, Dinamarca e Luxemburgo; em 2019, Portugal era o sexto país com menor produtividade, apenas acima de países como a Roménia, Polónia, Letónia, Grécia e Bulgária; nesse ano, a produtividade dos portugueses era equivalente a 66% da média da produtividade dos trabalhadores da UE; uma sondagem do Correio da Manhã e do Jornal de Negócios indica que 91,5% dos inquiridos considera que Portugal precisa de grandes reformas, sendo a saúde e a educação as áreas prioritárias; mas apesar de o PS ter obtido  a maioria absoluta, 65,8%dos inquiridos  não acreditam que o Governo faça qualquer reforma de fundo; um estudo recente defende que em Portugal há um problema de transparência ao nível do Governo.


 


O ARCO DA VELHA - A Agência para a Investigação Clínica e Inovação Biomédica foi anunciada em 2018 e foram prometidos 20 milhões de euros até 2023, mas a um ano do objectivo o investimento não chega a um milhão - está nos 750 mil euros.


 


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A RUA DAS EXPOSIÇÕES - Uma das zonas de Lisboa onde nos últimos anos se foram instalando várias galerias de arte é Marvila. Na Rua Capitão Leitão coexistem várias: a Galeria Francisco Fino, a Galeria Bruno Múrias e a Insofar Art Gallery - e todas têm actualmente exposições que vale a pena conhecer. Começo pela Insofar: sob a direcção de Inês Valle a galeria criou o programa FACHADA, que se estreou em Maio passado e onde, até 12 de Julho, podem ser vistas, precisamente na fachada da galeria, 157 esculturas de Isaque Pinheiro (na imagem) a que o artista deu o título genérico de “A Malha”. A ideia é que o projecto FACHADA se realize  uma vez por ano, como uma parte da programação da galeria dirigida ao espaço público. Em cada ano será convidado um artista a conceber uma ideia de intervenção na fachada da Insofar e, ao mesmo tempo, personalidades ligadas à arte contemporânea elaborarão  textos com a sua visão da obra - este ano coube a João Silvério e a Fábio Gomes Raposo. Ali bem perto, quase em frente, a Galeria Francisco Fino apresenta até 30 de Julho uma exposição colectiva com o título “Escola da Libertinagem” e que agrupa trabalhos de uma série de artistas, comissariada por Alexandre Melo, a partir de uma conversa tida em 2020 com Julião Sarmento, que é um dos artistas representados na exposição, ao lado de nomes como Paula Rego, Gabriel Abrantes, Ana Vidigal, José Pedro Cortes, Luisa Cunha, Rosa Carvalho e Vasco Araújo, entre outros. O nome da exposição evoca o subtítulo de uma edição portuguesa de os “120 Dias de Sodoma”, do Marquês de Sade, feita pela editora Arcádia em 1975. E, para finalizar, ainda na Rua Capitão Leitão, a Galeria Bruno Múrias apresenta até 23 de Julho uma exposição de novos trabalhos de Rui Calçada Bastos sob o título “Words Don’t Come Easy” e que explora as relações possíveis entre fotografia e escultura, construindo uma narrativa sobre a comunicação entre as pessoas.


 


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A ATRACÇÃO AFRICANA  - Ao longo de cerca de dois meses, Ernest Hemingway e a sua mulher, Pauline Pfeiffer, viajaram pela África Oriental, participando num safari pela região do Serengueti. Publicado originalmente em 1935, o romance “As Verdes Colinas de África” é o testemunho dessa aventura. Aqui, o escritor reflete sobre o fascínio da caça, o deslumbramento pela paisagem africana e o respeito do homem pela beleza e glória daquele território selvagem, permanentemente acossado por um invasor estrangeiro. Entre perseguições a leões, búfalos, rinocerontes e aos fascinantes cudos (antílopes de listas brancas que Hemingway deseja mais do que qualquer outro animal),  este é o registo de uma experiência íntima, que é também uma referência da literatura de viagens. A certa altura no romance damos com este parágrafo: “Tudo o que queria naquele momento era voltar para África. Ainda lá estávamos, mas quando eu acordasse durante a noite ficaria estendido na cama, já a sentir saudades dela”. Ernest Hemingway nasceu no Illinois, a 21 de julho de 1899, e suicidou-se no Idaho, em julho de 1961. Em 1953 ganhou o Prémio Pulitzer, com “O Velho e o Mar”, e em 1954 o Prémio Nobel de Literatura. Esta nova edição de “As Verdes Colinas de África”, integra a colecção “Dois Mundos” dos Livros do Brasil e tem tradução de Guilherme de Castilho. 


 


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PALAVRAS DE ORDEM - Lembram-se de canções como “Should I Stay Or Should I Go?”, “Rock The Casbah”, “Straight To Hell” ou  “Know Your Rights”? Sim são todas elas momentos emblemáticos da carreira dos Clash e estão incluídas no álbum “Combat Rock”, editado há 40 anos em 1982, o quinto disco da banda e o último com o guitarrista Mick Jones e  o baterista Topper Headon. Pois é, já passaram 40 anos e é tão curioso ouvi-las de novo hoje em dia… Para assinalar a efeméride foi lançado o duplo CD “Combat Rock/The People’s Hall (Special Edition)” que além das 12 faixas originais, agora remasterizadas, inclui ainda várias versões extra e lados B de singles - um total de 24 temas que se estendem ao longo de uma hora e quarenta. Este foi o álbum dos Clash que teve maior êxito e também o seu derradeiro testemunho. Os Clash, é bom recordá-lo, foram uma banda que proclamava sem rodeios a sua opinião sobre o estado do mundo e a forma como então já se adivinhava que iria evoluir. Depois de terem feito um triplo álbum menor, “Sandinista”, os Clash queriam fazer um duplo CD, mas o produtor Glyn Johns convenceu-os a deixar de fora alguns temas e a concentrarem-se apenas em 12 canções. Foi assim que nasceu a  edição original de “Combat Rock”. Em “Know Your Rights” , considerada por muitos um dos grande temas do rock, Joe Strummer canta “You have the right to free speech/As long as you’re not dumb enough to actually try it.” 40  anos depois as palavras tornaram-se de novo actuais no contexto do que se passa na Rússia, no meio da invasão ordenada por Putin à Ucrânia. Disponível nas plataformas de streaming.


 


SALADA ESTIVAL  - Estamos oficialmente no verão, o que é sinónimo de duas coisas: saladas e dias longos. Também é suposto haver um calorzinho, que tem andado instável. Mas mesmo com as temperaturas de antes do início da primavera, deixo aqui um dos meus petiscos estivais favoritos: salada de melancia com queijo feta. Como verão já de seguida a iguaria leva mais alguns ingredientes mas o essencial é mesmo dado pelo contraste da melancia com o queijo feta. Comecemos então por cortar uma boa porção de melancia em pedaços de dimensão média e o queijo feta em cubos. Misturem tudo e entretanto cortem meio pepino também em cubos e acrescentem à melancia e ao feta. Por fim adicionem azeitonas às rodelas,  folhas de hortelã-pimenta e de basílico picadas grosseiramente e um molho feito à base de azeite, com sumo de lima e pimenta. Misturem tudo muito bem e antes de ir à mesa coloquem mais folhas inteiras de hortelã e de basílico por cima. Vão ver que isto proporciona um jantar leve e fresco, para quando os dias estiverem mais quentes.


 


DIXIT - “Com quem é que o Governo quer governar a saúde? Com os médicos a quem paga mal? Com os enfermeiros que aliena? Com as Ordens que despreza? Com os privados que ameaça de morte? Com os doentes e familiares que esperam por consultas e cirurgias?” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Pode ser perigoso ter razão quando se apontam os erros do Governo” - Voltaire


 





junho 17, 2022

ESTAMOS NO REINO DA ILUSÃO

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O IMPROVISO -  Foi necessário o sobressalto causado pelo encerramento, por falta de médicos, de serviços  de obstetrícia em diversos pontos do país para o Governo aparecer, tarde, a anunciar um plano de contingência. Mas a situação não é nova, vinha a desenhar-se já há algum tempo, havia alertas, e mais uma vez se verifica como na saúde este Governo corre atrás do prejuízo, sendo incapaz de prever, planear, evitar a crise. O caso dos problemas nas urgências de ginecologia e obstetrícia é apenas a face dramaticamente mais evidente de uma situação que atinge outras especialidades, que evidencia falta de planeamento, de equipamento e de pessoal. A resposta à catástrofe da pandemia Covid-19 veio criar a ilusão de que o Ministério da Saúde estava a funcionar bem. Mas quem funcionou bem foram os profissionais de saúde - médicos, enfermeiros, auxiliares - que agiram para além do seu dever, não se poupando a esforços para salvarem vidas, apesar da descoordenação que existiu no Governo. Quando a pandemia aliviou começou a notar-se como o SNS está enfraquecido, sem alicerces. A quantidade de médicos e enfermeiros que sai do país devido à ausência de perspectivas profissionais e condições de trabalho é preocupante e há quase cem mil utentes do SNS sem médico de família.  Depois de termos recuado para a cauda da Europa em termos de evolução económica, começamos agora a estar no infeliz pelotão da frente da mortalidade associada a diversas patologias, incluindo a materno infantil. As coisas não são desligadas, o falhanço económico do Governo reflecte-se nisto também. António Costa, se estivesse em Hollywood, era um construtor de cenários de cinema, daqueles que criam a ilusão da realidade. Ele é bom a fazer promessas e a esconder o que ficou por fazer. Não tem é conseguido fazer aquilo a que se propõe. E essa incapacidade de resolver problemas é o retrato do Governo que temos, dirigido por um mestre do improviso, hábil em comunicação.





SEMANADA - Um quinto dos 800 técnicos superiores colocados em 2019 em diversos serviços, com o objectivo de rejuvenescer e modernizar o Estado, já desistiu da função pública; em 2009 os técnicos superiores entravam a ganhar 167% acima do salário mínimo, agora a diferença é de apenas 72,5%; daqui a dois anos 26 mil funcionários públicos atingem a idade da reforma; até 2030 pelo menos 39% dos professores actualmente em funções irão reformar-se; no final de Março a administração pública portuguesa empregava 741.288 trabalhadores, o número mais alto dos últimos 17 anos, um pouco mais que 15% da população empregada; os médicos com mais de 65 anos representam 24% do total; na gasolina, o peso fiscal em Portugal é de 46% e em Espanha é de 40%; 30% das terras das zonas rurais têm dono por definir; nos últimos quatro anos 2712 negócios imobiliários foram pagos em notas, num total de 38 milhões de euros em dinheiro vivo; os CTT foram alvo de 79 queixas por dia dos seus utentes devido a problemas de funcionamento; a venda de automóveis eléctricos cresceu quase 78% nos primeiros cinco meses deste ano; o preço da gasolina normal aumentou já 50 cêntimos desde o início deste ano; os vistos gold estão parados há mais de cinco meses por falta de regulamentação. 


 


O ARCO DA VELHA - O Estado só conseguiu atribuir 3,3% dos 750 milhões de euros previstos no Orçamento de 2021 para as micro e pequenas empresas.


 


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GRADES RASGADAS - A minha sugestão para hoje é que passem pelo MAAT e olhem bem para o antigo depósito de nafta, um cilindro gigante, que fica junto do edifício da Central Tejo. Aí poderão ver o trabalho que 48 artistas plásticos fizeram no passado dia 10 de Junho, numa evocação de um painel colectivo feito na mesma data em 1974 - e que infelizmente ficou destruído num incêndio que devorou a Galeria de Arte Moderna do antigo Mercado da Primavera, em Belém, o local onde foi feito. Nesta recuperação estiveram presentes alguns dos autores sobreviventes do mural original, vários dos mais conhecidos artistas portugueses contemporâneos e uma nova geração de artistas. Em 1974 celebrava-se o fim de 48 anos de ditadura, em 2022 celebram-se 48 anos de democracia - e o número de artistas é a chave comum. Ao longo de todo o passado dia 10 os 48 artistas trabalharam nos retângulos iguais da parede do antigo depósito de nafta, espaços que lhes foram atribuídos por sorteio. Ao longo do dia foi possível ver diversos processos de trabalho, a forma como vários artistas prepararam as suas obras, que agora ficarão à vista de todos durante dois anos, até ao 50ª aniversário do 25 de Abril de 1974. Para além dos sobreviventes de 1974 e dos que foram convidados por João Pinharanda, que comissariou esta iniciativa, estão também os que foram designados pelo Interferências- Culturas Urbanas Emergentes, um projecto desenvolvido por Vhils, António Brito Guterres e Carla Cardoso. Pedro Cabrita Reis, um dos artistas presentes (na foto) pintou uma grade rasgada. E, por feliz acaso ditado pelo sorteio, logo por baixo, está a obra de Francisco Vidal, um dos talentos da nova geração de artistas, onde se lê “Still Free”. 


 


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UMA HISTÓRIA APAIXONANTE - Há livros que são difíceis de largar, uma vez iniciados. É o caso de “O Fim É O Princípio”, um thriller cuja ação se desenrola entre uma pequena cidade na costa da Califórnia, antigo paraíso com vista para o Oceano, agora em processo de gentrificação, com elevada procura e a correspondente especulação imobiliária. A história gira à volta de Duchess, uma jovem de treze anos que se autointitula «fora da lei», e Walk, chefe de esquadra da polícia de Cape Haven, um homem que se defronta com fantasmas do passado e que  nunca saíu da pequena cidade. Duchess diz que as regras são para os outros, e desde cedo se fez protetora feroz do irmão mais novo, Robin, e figura adulta na vida de Star, a sua mãe solteira, incapaz de cuidar de si própria ou de velar pelos interesses dos dois filhos.  Walk pelo seu lado faz tudo para proteger Duchess e Robin, mas vive dominado pela necessidade de sarar uma ferida antiga, a de ter sido o seu testemunho a enviar Vincent para a cadeia, o seu melhor amigo, condenado pelo homicídio da irmã de Star. Culpado ou inocente, volvidos trinta anos, Vincent sai da prisão uma vez cumprida a pena e é Walk quem o vai buscar e traz para Cape Haven. No regresso Vincent começa a reparar a casa dos seus pais, abandonada desde que foi preso e não lhe faltam ofertas milionárias para a vender a um construtor local e dono de um bar, que arrasta um caso com Star. The Guardian descreveu “O Fim É O Princípio” como «um romance notável e comovente acerca de um crime e da vingança, do amor e da redenção.». O britânico Chris Whitaker escreveu um épico americano com uma galeria de personagens, cenários e situações marcantes. O livro, o terceiro do autor, originalmente editado em 2020,  foi considerado o melhor thriller desse  ano pela Crime Writers Association e a Bertrand Editora acabou de o lançar no mercado português.


 


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GRANDES CANÇÕES - Os Wilco levam três décadas de vida e são um dos nomes incontornáveis da música norte-americana destas décadas. Jeff Tweedy, o fundador da banda, tem na country music uma das suas fontes de inspiração mas os Wilco não são propriamente conhecidos por esse género musical. Por isso mesmo o novo álbum, “Cruel Country”, um duplo com 21 canções, gravado ao vivo em estúdio, é duplamente interessante: faz um retrato duro da América e musicalmente inspira-se na country - desde a forma como as canções estão estruturadas até às letras. O disco está cheio de observações sobre a realidade à volta da banda, descrição de sensações e enigmas que ficam a pairar no ar, em momentos em que só existe a música e as palavras quase desaparecem. É verdade que a melhor música country sempre foi a que conta histórias, e “Cruel Country” é um exemplo disso mesmo: as canções seguem uma narrativa e fazem sentido. Tweedy aborda de tudo: a história recente, a política e Trump, a mortalidade e até a utilidade - ou futilidade - da arte na América do no século 21. As palavras não deixam lugar a dúvidas. Na canção que dá o nome ao álbum Tweedy canta assim “I love my country like a little boy/Red, white and blue,” para depois rematar:  “I love my country, stupid and cruel.”  Neste “Cruel Country” não faltam canções marcantes como “Falling Apart (Right Now)”, “Please Be Wrong” ou “A Lifetime To Find”. Para terminar sugiro que ouçam os quase oito minutos do tema “Many Worlds'' onde todo o talento musical dos Wilco e de Jeff Tweedy se evidenciam. Disponível nas plataformas de streaming.





PETISCO SINTRENSE - Por um daqueles acasos inesperados fui parar a Sintra, num jantar de amigos, ao restaurante Taberna Criativa. Fica no centro da vila, perto do Museu de Artes de Sintra. É pequeno e acolhedor e tem uma equipa que funciona bem - na cozinha e na sala, sob a supervisão do chef Vitor Rocha. São dele as criações que chegam à mesa. Comecemos portanto pelo couvert - que inclui uma manteiga batida com algas que é um caso sério, acompanhada por bom pão. Nas entradas destaco um escalope salteado de foie gras caseiro, que vem com um pão de ló de chá verde ou uma madalena de abóbora, e com um toque de uma emulsão de moscatel, numa boa combinação de sabores. Outra possibilidade em matéria de entradas é um escabeche de codorniz no ponto certo de tempero. Como pratos de substância a lista propõe um risotto de lavagante com algas e, para os carnívoros, um belo entrecôte, no ponto, acompanhado por batatinhas e grelos salteados - ou então um magret de pato com cenouras e legumes. A lista de vinhos é bastante diversificada e com propostas sensatas em vários escalões de preço - e algumas boas surpresas de pequenas produções. Não hesitem em pedir ao chef uma sugestão de vinho, ele sabe o que escolheu para as prateleiras do seu restaurante. Entre as várias sobremesas possíveis destaco uma bem portuguesa e simplicissima: queijo da ilha, de nove meses de cura, acompanhado por um belo doce de abóbora e pedaços de noz. O Taberna Criativa fica na avenida Heliodoro Salgado 26 e a reserva é aconselhável pelo 21 018 6147.





DIXIT - “O primeiro-ministro não dá ponto sem nó, mas como vamos lá chegar, não sei” - António Costa e Silva sobre a promessa de aumento de 20% dos salários feito pelo Primeiro Ministro





BACK TO BASICS - “Pode-se enganar algumas pessoas durante muito tempo, pode-se enganar toda a gente por algum tempo, mas não se consegue enganar toda a gente sempre” - Abraham Lincoln


 


 





junho 09, 2022

O GOVERNO DAS REIVINDICAÇÕES SALARIAIS

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COMO TORNAR REALIDADE UM DESEJO? - A semana começou com o Primeiro Ministro a apelar às empresas para que façam aumentos de salários, pedindo  “um acordo de médio prazo, no horizonte desta legislatura, sobre a perspectiva da evolução dos rendimentos.” António Costa estabeleceu um objectivo: aumentar o salário médio em 20% nos próximos quatro anos. O mais curioso disto é que este apelo não foi acompanhado por nenhuma indicação sobre uma reforma que permita às empresas considerar esses aumentos, nomeadamente uma redução da TSU e do IRC. Traduzindo: o Governo entende que as empresas devem aumentar salários, mas não deixou abertura para reduzir impostos e taxas. Ora como a matemática não é uma coisa mística, se os custos aumentam de um lado, têm que diminuir de outro. Na anterior legislatura, sob o diktat de Centeno, o Governo promoveu uma austeridade escondida, mas dura, e persistentemente atacou a classe média. Parece que agora o PS quer dar a ideia de que pretende tratar do assunto. O começo do caminho é relativamente simples: que propõe esta maioria absoluta para compensar o aumento dos salários? Que oferece o Governo às empresas que fizerem esses aumentos? Que pode também o Governo fazer para diminuir a carga fiscal, directa e indirecta, sobre os assalariados por conta de outrem? Há outras coisas fundamentais que podem aliviar custos às empresas - por exemplo uma reforma da justiça que permita que tudo ande mais rápido e com menor despesa. Se a maioria absoluta servisse para fazer reformas duradouras em vez de discursos sobre as questões fracturantes da moda tudo seria mais fácil. Estará Costa disposto a isso para conseguir os aumentos que diz desejar?


 


SEMANADA - Um estudo recente indica que ​​Portugal é dos países com um dos maiores níveis de incumprimento das regras orçamentais europeias desde que a Zona Euro foi criada; Cavaco Silva regressou às lides para ironizar com António Costa e arrasar Rui Rio; os motores a diesel já valem menos de 20% do total das vendas de novos carros; um estudo recente indica que o apoio europeu à competitividade das PME foi pouco ou nada eficaz; o funcionamento da Assembleia da República, incluindo subvenções aos partidos políticos e grupos parlamentares, custa 24 milhões de euros por ano; em 2020 foram produzidos 5,3 milhões de resíduos urbanos; cada português produz em média 1,4 kgs de lixo por dia, ou seja 513 kgs por ano; o salário médio dos trabalhadores por conta de outrem foi de 1237 euros em Março passado, com Lisboa a ter o valor mais alto, 1506 euros e Beja o mais baixo, 990 euros; o tempo de espera para aceder a uma junta médica chega a ser de dois anos; em 2021 a PSP reguistou 810 crimes cometidos por menores de 16 anos, uma subida significativa da criminalidade juvenil em relação a anos anteriores; a dívida publica portuguesa aumentou três mil milhões de euros em Abril e atingiu o seu maior valor de sempre, 279 mil milhões de euros; desde 2018 registaram-se 55 acidentes e 13 feridos graves com trotinetes em Lisboa; um estudo de uma empresa imobiliária divulgado esta semana indica que fazer obras de remodelação em Lisboa é mais caro que em Madrid ou Barcelona.


 


O ARCO DA VELHA - O Centro Universitário Hospitalar de Coimbra enganou-se na entrega à família de uma doente que tinha tido alta e levou para casa em Arganil, uma outra mulher. O erro foi detectado pelo marido que encontrou na cama uma mulher que não era a sua.


 


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DESENHOS DE SENSAÇÕES - Entra-se na sala da galeria e vemos rostos na parede - mas não são retratos. São emoções que Adriana Molder interpretou. As figuras na parede são mais que pessoas, são imagens de  estados de espírito, expressões. Em comum têm o facto de serem todos desenhos feitos a tinta da china sobre papel esquisso, com a leve transparência a servir de pano de fundo. E pelo meio grandes desenhos, eles próprios a mostrar a impressão dos rostos. Há um rosto de mulher sobre o qual se cruzam ramos de uma árvore, na parede em frente um retrato cheio de pormenores que sugerem um mundo de fantasia e, nas paredes laterais, uma série de 21 desenhos que são mais que retratos, antes mapas de sensações. A dar o título à exposição está um desenho circular com o rosto da própria autora: um espelho, portanto, que mostra Adriana Molder a contemplar as suas outras obras. “Espelho” é a exposição de desenho de Adriana Molder, com obras feitas de 2020 a 2022 e que até 3 de Setembro está na Galeria 111, Rua Dr. João Soares 5B, ao Campo Grande. Também de desenho é a outra exposição que destaco esta semana, “Wasteland”, de Rui Sanches, que agrupa um conjunto de 25 originais de 2016, a grafite, barra de óleo e tinta de esmalte sobre papel. Destes 25 desenhos foram feitas impressões a jacto de tinta e cada uma das 25 séries foi reunida numa caixa, com todas as provas numeradas e assinadas. Cada caixa inclui um desenho original, também numerado e assinado - todos os desenhos foram inspirados pelo poema “The Waste Land” de T.S. Eliot. Cada caixa é vendida por 2900 euros. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão 18B.


 


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UMA INTRODUÇÃO À LITERATURA DE VIAGEM - Bruce Chatwin é o autor de um livro que foi o meu passaporte de entrada na literatura de viagens - “Na Patagónia”. Chatwin morreu cedo, aos 48 anos, doze anos apenas depois de ter publicado o relato da sua descoberta da Patagónia. Publicou nove livros entre 1980 e a sua morte precoce. O penúltimo foi a colectânea “Anatomia da Errância - Textos Escolhidos”, originalmente editado em 1989 e agora lançado em Portugal na colecção Terra Incógnita, da Quetzal. É uma excelente introdução ao génio de Chatwin e uma boa maneira de descobrir os encantos da literatura de viagens. Chatwin era antropólogo, historiador de arte, jornalista e repórter, crítico literário, e escritor de viagens. “Anatomia da Errância” reúne os vários géneros que escrevia: ensaios, artigos de jornal, pequenos contos, relatos de viagem. O livro está dividido em quatro partes: “Horreur du domicile” ou a vontade de partir à descoberta, “Histórias” que são episódios ocorridos enquanto viajava, contados com humor e espírito observador, “A alternativa nómada” que fala da sua procura de destinos pouco conhecidos, “Crítica literária” que é o que o nome indica, com alguns exercícios livres, “A arte e o destruidor de imagens” , onde descreve uma galeria de personagens extravagantes e fala da decadência da arte ocidental - uma espécie de manifesto de estética pessoal. Este “Anatomia da Errância” é a minha melhor sugestão para este início da época de férias. Viajem se puderem mas leiam este livro primeiro. Ou então levem-no convosco nas vossas errâncias.


 


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O INESPERADO COUNTRY  - Angel Olsen é uma cantora norte-americana com um posicionamento invulgar - entre o rock independente e o country, com tonalidades pop. O resultado, ao longo da meia dúzia de discos que fez, é dos mais interessantes que hoje se podem encontrar. As suas canções são crónicas de vida, a voz é intensa mas solta, vai bem com uma interpretação sem brilharetes mas emotiva. “Big Time”, o seu sexto álbum de originais desde o disco de estreia, de 2012, é  um disco surpreendente, com emoções e descobertas. São dez canções, intimistas na maior parte, gravado no ano passado numa época conturbada da sua vida, depois da morte dos seus pais e de ter tido uma relação com outra mulher durante a pandemia. Embora o disco não fale de situações concretas, é impossível não perceber os sentimentos que canções como “Big Time” ou “Go Home” transmitem. Gravado na Califórnia, com o produtor Jonathan Wilson, o disco mostra como Olsen continua a fazer da voz o instrumento principal da sua música, bem mais marcante que a guitarra Gibson de 1979, que é a sua preferida. Olsen é uma personagem relevante da música americana - trabalhou com nomes como os Wilco, Tim Kinsella ou Leroy Bach. Ao contrário de discos anteriores, mais carregados de uma sonoridade rock, este “Big Time”  é  o mais claro dos seus trabalhos, onde melhor expõe os seus sentimentos e coloca em destaque as influências country, na voz e guitarra, que em outros discos se sentiam mas eram menos presentes. A derradeira canção “Chasing The Sun” tem um humor como raramente lhe sentimos - Olsen relata como mandou à sua companheira uma mensagem, de outra sala da casa, com estas palavras: “I’m just writing to say that I can’t find my clothes/If you’re looking for something to do.” Disponível nas plataformas de streaming.


 


HORA MARCADA - Uma das coisas mais irritantes que acontece em alguns restaurantes é forçarem um hora marcada para a saída dos clientes, uma duração máxima da refeição. O raciocínio é este: queremos que venham cá jantar e deixar o vosso dinheirinho, mas queremos que se vão embora rápido para pormos outras pessoas na mesa. Vem isto a propósito de uma recente ida ao Forno D’Oro, que descaradamente se apresenta como a melhor pizzaria de Lisboa. Não é - talvez em tempos tenha sido, mas agora é mais um local sem grande história. Não me interpretem mal - o seu dono e fundador, Tanka Sapkota, é uma pessoa simpática e afável que, ainda por cima, tem uma história engraçada. Nepalês, apaixonou-se pela gastronomia italiana, e veio para Portugal onde tem estado ligado a vários restaurantes, entre eles um italiano de referência, que é o Come Prima, e o excelente Casa Nepalesa. E perto do Forno D’Oro tem Il Mercato, que tem, digamos, uma vida irregular. Além de Tanka Sapkota ser uma pessoa simpática, o serviço nos seus restaurantes é igualmente simpático. O pior, no caso do Forno D’Oro é que quando se reserva leva-se logo o anúncio de que tem que sair até às tantas horas e a hora de entrada tem ela própria limites. E, importante, as pizzas já foram melhores, sobretudo na massa. Assim sendo mais vale ir a outra pizzaria onde estas manias não existam. Este fenómeno do horário é típico dos restaurantes que não trabalham para reter a clientela, mas para rodar comensais à máxima velocidade possível.Tanka Sapkota não está sózinho - esse paraíso da pretensão e montra de exibicionistas que é o JNcQuoi pratica a mesma filosofia e numa reserva telefónica estabelece duas horas como duração máxima do jantar. Tem a agravante de o acolhimento e o serviço serem menos simpáticos. Não dá vontade nenhuma ir a sítios destes.


 


DIXIT - “A maior debilidade da nossa vida colectiva reside na justiça. A maior ameaça contra a democracia é a fragilidade da justiça” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “A criatividade exige a coragem de deixar as certezas de lado” - Erich Fromm


 





junho 03, 2022

O ESTADO COLECCIONADOR

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NUNCA É TARDE PARA CORRIGIR ERROS  - A decisão anunciada pelo Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, de denunciar o acordo relativo à Colecção Berardo ajuda a clarificar a situação existente, e permitirá que o Centro de Exposições do CCB retome o que era o seu percurso original, desta vez com um acervo sólido, baseado numa importante colecção que, é preciso reconhecê-lo, Joe Berardo criou antes de ser levado a meter-se nas aventuras pelo controlo do BCP, sugeridas por amigos de Sócrates durante o seu reinado. Deixo aqui esta nota para que se recorde que o PS não está isento de culpas na situação criada. Mas para além da decisão sobre a colecção Berardo, Adão e Silva decidiu também assumir a colecção Ellipse, lançada por João Rendeiro no Banco Privado Português, que aparentemente ficará também entregue no futuro à mesma equipa que tem feito um excelente trabalho em torno da colecção Berardo. Se nos recordarmos que o Governo, há uns anos, absorveu também a menos interessante colecção Miró, do Banco Português de Negócios, entretanto depositada em Serralves, constatamos que o Estado Português na última década absorveu três colecções de arte privadas e, portanto, assumiu a responsabilidade de assegurar a sua fruição pelos portugueses. Este somatório de património artístico cria deveres em relação aos equipamentos que as acolhem e devia fazer com que o Ministério da Cultura pensasse em questões como a sua circulação pelo país, e também a articulação com o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. De facto a boa decisão de Pedro Adão e Silva tem também alguns efeitos colaterais: não deveria ser esta a boa a altura para repensar se não será mais produtivo fomentar a colaboração entre Serralves e o CBB do que manter o acordo de conveniência e contra natura que pretende deixar o MAAT na dependência de Serralves? É nestas alturas, quando as situações se alteram, que vale a pena abrir janelas e deixar entrar ar fresco, sem preconceitos. Nunca é tarde para corrigir os erros.





SEMANADA - O observatório fiscal da União Europeia Identificou 819 imóveis detidos por portugueses no Dubai; em Portugal estão identificadas 8209 pessoas na situação de sem abrigo, a maior parte em Lisboa e no Porto; os crimes de tráfico de pessoas registados pelas polícias portuguesas duplicaram em 2021; segundo o INE os alojamentos turísticos nacionais receberam 2,4 milhões de hóspedes em abril, um aumento de 424,6% face ao mesmo mês de 2021; um relatório publicado esta semana indica que a TAP tem a pior comportamento ambiental entre as sete maiores companhias aéreas europeias; uma sondagem da Aximage divulgada na semana passada indica que mais de metade dos portugueses são contra o fim de uso das máscaras; o Covid-19 foi a quarta causa de morte em 2021, representando 5,9% do total de óbitos registados em Portugal nesse ano; segundo a Netsonda, 75%  portugueses sabem pouco sobre os ingredientes que consomem fora de casa; as autoridades detectaram em sete dias mais de 14.000 infrações de condução, das quais mais de 1100 por uso indevido do telemóvel durante a condução; o valor em contratos celebrados entre entidades estatais e empresas afundou mais de 40% no primeiro trimestre deste ano face a 2021;  o valor dos impostos cobrados de Janeiro a Abril é o mais alto dos últimos 10 anos e face a igual período do ano passado as receitas do fisco cresceram 19,8%.


 


PERGUNTA DA SEMANA  - A ciclovia da Almirante Reis foi sujeita a consulta pública antes de ser construída?


 


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UMA CIDADE DE ESCULTURAS - “Respiração Boca A Boca” é o título da exposição que Cristina Ataíde concebeu para o Museu Internacional de Escultura Contemporânea, de Santo Tirso, e que ali ficará patente até 18 de Setembro. A artista reuniu 58 peças, de várias fases da sua carreira, desde as suas primeiras esculturas em ferro e pedra dos anos 80, até às mais recentes onde a evocação da natureza e a utilização primária de materiais naturais foram ganhando peso. Várias peças de há alguns anos foram revisitadas e recriadas, cruzando-se com as mais recentes opções de Cristina Ataíde e com a permanente referência à descoberta e à viagem. Um dos momentos a reter é a obra criada para o longo corredor de 70 metros (na imagem) onde se combinam algumas das vertentes que têm marcado o trabalho recente da artista. A exposição inclui também alguns desenhos e pinturas, alguns inéditos, em diálogo com as esculturas. “Respiração Boca A Boca” mostra o singular percurso de Cristina Ataíde e merece uma visita atenta. É curiosa a história do envolvimento de Santo Tirso com a escultura: no início dos anos 90 o escultor Alberto Carneiro desafiou o Município  a criar um programa de actuação em torno da escultura contemporânea. Ao longo dos anos a autarquia foi adquirindo obras que agora estão implantadas por toda a cidade, num museu a céu aberto que já tem meia centena de esculturas. Mais tarde a autarquia decidiu construir um edifício destinado a alojar o Museu Internacional de Escultura Contemporânea, com um projecto de Álvaro Siza Vieira, concluído em 2015, e que desde então tem acolhido diversas exposições, como esta que agora Cristina Ataíde apresenta. 


 


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A VERDADE RUSSA - Nesta altura em que o comportamento dos dirigentes russos é causa de indignação vale a pena ler “Eclipse do Sol”, o livro que Arthur Koestler escreveu em 1940 e que mostra como o regime russo não hesita em matar e torturar, tradição que, como agora se comprova, se mantém. Originalmente publicado  em Portugal sob o título “O Zero E O Infinito” há cerca de 40 anos, este romance é pela primeira vez editado entre nós na sua versão integral, baseada em textos do autor encontrados em 2018. A tradução é da responsabilidade de Teresa Seruya e Sara Seruya, a partir dos manuscritos originais do autor. Arthur Koestler nasceu em Budapeste, na Hungria, em 1905, no seio de uma família judaica. Foi escritor, jornalista e ativista político, tendo passado pela Palestina, pela União Soviética e por Espanha, onde lutou na Guerra Civil. Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, radicou-se em Londres e cortou com o Partido Comunista após as purgas estalinistas. O romance, considerado por George Orwell um dos poucos livros que poderão mudar a História,  conta como durante as purgas estalinistas, Rubachov, um velho revolucionário, foi apanhado na confusão dos pseudo julgamentos de Moscovo dos finais dos anos 1930, em pleno estalinismo. Ele é preso e torturado pelo partido a que havia devotado a sua vida e submetido a enorme pressão para confessar crimes que não cometeu. “Eclipse Ao Sol” aborda as purgas estalinistas que marcaram a União Soviética nos anos de 1930 e  permite uma reflexão sobre a história de uma região do mundo que hoje, pelas piores razões, está na ordem do dia.


 


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JAZZ FORA DA CAIXA - O pianista Tigran Hamasyan tem-se dedicado a recriar,  com versões ousadas, as suas interpretações de standards do jazz. A formação base é um trio, que conta com a participação do baixista Matt Brewer e do baterista Justin Brown mas no seu novo disco, “StandArt”, convidou outros músicos como o trompetista Ambrose Akinmusire e os saxofonistas Joshua Redman e Mark Turner. Desde temas da Broadway até clássicos da fase bebop, Hamasyan percorre nove composições, que vão de clássicos do bebop, como “De-Dah” ou “Big Foot”, uma composição de Charlie Parker onde entra em cena o saxofone de Joshua Redman. Entre os temas estão também êxitos clássicos como “All the Things You Are” que tem a participação do saxofonista Mark Turner. Uma das reinterpretações mais radicais e surpreendentes é dada pela participação do trompetista Ambrose Akinmusire em “I Should Care”, um tema popularizado por Chet Baker. Uma das minha faixas preferidas, que é executada apenas pelo trio, é ‘I Didn’t Know What Time it Was’, um tema que ganha uma nova vida e mostra as capacidades de Tigran Hamasyan, utilizando influências da soul e do hip-hop uma composição clássica do jazz norte-americano. A capacidade de inovar, arriscar e surpreender é aquilo que torna este disco diferente e que proporciona que em cada nova audição se descubra mais alguma coisa. Disponível nas plataformas de streaming.


 


JÁ EXPERIMENTARAM FRITAR ALCAPARRAS? - Há uns anos comprei um livro do grande chef de cozinha catalão Ferran Adrià, criador do famoso restaurante El Bulli. O livro, The Family Meal, tem as receitas que eram utilizadas pelo pessoal do restaurante nas suas próprias refeições. Ali há de tudo e, frequentemente, quando não sei o que fazer, começo a folheá-lo e encontro sempre alguma coisa que me agrada. É o caso desta receita. Os ingredientes são simples: massa orecchiette, pasta de tomate, alcaparras, anchovas,  tomates cherry, queijo parmesão, azeite, sal, malaguetas e um pouco de manjericão. Comece por cozer a massa em água abundante, durante um pouco menos de tempo do que o indicado no pacote, e guarde um copo da água de cozedura. Escorra e reserve. E vamos ao fundamental, que é preparar o molho que vai envolver a massa. O primeiro passo é saltear em azeite duas colheres de sopa escorridas de alcaparras, antes bem secas em papel de cozinha. Coloque-as depois com um pouco de azeite no tacho onde vai cozinhar e, quando começarem a ficar estaladiças, tire-as, seque-as de novo em papel absorvente e reserve. Chegou a altura de deitar duas colheres de sopa de pasta de tomate e alho cortado em fatias finas - se não quiser usar alho, use gengibre fresco cortado de igual forma, que é o que eu faço. Por cima disto deite uns 300 gramas de tomate cherry cortado em metades e dois ou três filetes de anchova desfeitos com o garfo - guarde os restantes filetes da lata para colocar em tostas por cima de rodelas finas de pepino ou de rabanete e terá uma entrada bem boa. É nesta altura que pode deitar para o tacho um pouco de manjericão picado, duas malaguetas secas desfeitas e as alcaparras. Deixe tudo ferver uns quatro-cinco minutos, se preciso acrescente um pouco de água de cozer a massa que guardou  e, no fim, misture bem no molho os orecchiette que entretanto já estão cozidos e escorridos. Envolva bem a massa no molho, em lume brando, durante dois minutos, no fim polvilhe com parmesão e enfeite com folhas inteiras de manjericão. Bom apetite.


 


DIXIT - “Os fanáticos e os tolos estão cheios de certezas. Os sábios estão cheios de dúvidas” - Alexandre Quintanilha 


 


BACK TO BASICS - “Uma grande parte da intelligentsia parece completamente desprovida de inteligência” - G.K. Chesterton


 





maio 27, 2022

UMA ELEIÇÃO ENTRE FRASES VAZIAS E FALTA DE IDEIAS

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ROAD TO NOWHERE - O PSD vai a votos este fim de semana para escolher o futuro líder e, no início de Julho, fará um Congresso para discutir a estratégia a seguir. Trocado por miúdos a proposta do PSD  é que se escolha o seu líder sem saber a estratégia que irá seguir e as políticas de fundo que defenderá. A campanha interna entre Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva tem sido um deserto de ideias e uma abundância de proclamações gerais. Ao fim de 11 eleições directas o PSD perdeu relevância eleitoral, afastou-se do país, perdeu eleitorado mais jovem. 48 anos depois da sua fundação o PSD está cansado, desactualizado, e parece desorientado - dividido entre satisfazer clientelas internas ou procurar um rumo para conseguir sair para fora do seu círculo, cada vez mais fechado. Aos olhos de muitos portugueses o PSD é um partido de constantes lutas internas onde se procura mais satisfazer interesses sectoriais e particulares que procurar reformar o que está mal na sociedade portuguesa- esta é a herança deixada por Rui Rio. A actual campanha para as directas é uma luta interna entre facções do aparelho, na prática não interessa a quem está de fora, nenhum dos candidatos consegue restabelecer a ligação emocional com o eleitorado com as frases vazias que usa e a confrangedora falta de ideias que exibe. O PSD actual é como que uma rocha, demasiado pesada para se mover, e que, a seguir este rumo, se irá afundando até ficar debaixo de água, a caminho de se tornar irrelevante. O caminho que percorre, citando os Talking Heads, é uma “road to nowhere”.


 


SEMANADA - O número de novas empresas de alojamento turístico e restauração subiu 45% nos primeiros quatro meses do ano; mais de 12% das pessoas residentes em Portugal, entre os 16 e os 74 anos, quase um milhão, é de origem imigrante e um terço nasceu nos PALOP; um desconto de 20% na electricidade para agricultores, medida aprovada em 2021 na Assembleia da República, continua sem ser aplicada por falta de um despacho do Ministério das Finanças; só dez funcionários públicos aceitaram ir trabalhar para o interior do país; segundo a Comissão Europeia Portugal gasta 11,8% do PIB com a folha salarial da função pública, um valor acima da média europeia; nos últimos dez anos o preço das casas cresceu três vezes mais que o rendimento das famílias; um inquérito do Ministério da Educação indica que um terço dos alunos tem sinais de sofrimento psicológico e que mais de metade dos professores sente-se triste e irritada; a morte de mulheres no parto em 2020 atingiu o nível mais alto dos últimos 38 anos; segundo um estudo da Marktest, 3,5 milhões de portugueses gostariam de um dia ter o seu próprio negócio e esta ambição  é tanto maior quanto mais jovens são os inquiridos, atingindo os 62.7% entre os jovens dos 15 aos 24 anos; 95% dos engenheiros web que saem das universidades portugueseas não ficam cá por causa das baixas remunerações e da falta de incentivos; 85% das amostras de peras e 58% das de maçãs cultivadas no país apresentavam resíduos de pesticidas nocivos que já deviam ter sido retirados de circulação; em 2021 a APAV registou 84 homicídios, 33 dos quais em contexto de violência doméstica.


 


O ARCO DA VELHA  - Um juiz de casos de família e de menores é acusado de violência doméstica pela mulher, também juíza no Tribunal de Viseu.


 


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O OLHAR FOTOGRÁFICO - A colecção Ph., editada desde 2017 pela Imprensa Nacional, por iniciativa de Cláudio Garrudo, está a criar uma série de monografias dedicadas a fotógrafos portugueses contemporâneos, iniciada com Jorge Molder e que agora, no seu oitavo volume,  pública Daniel Blaufuks. Maria Filomena Molder, que fez um texto magnífico  de enquadramento da obra, começa por falar dos autorretratos de Daniel Blaufuks presentes no livro e sublinha que “a fotografia é parente do espectro, do fantasma que o corpo lança, enquanto vai caminhando para a morte”. Neste volume Ph.08 surgem várias imagens presentes em livros anteriores de Blaufuks o que suscita também uma interpretação de Maria Filomena Molder:” Se compararmos as fotografias que estão reproduzidas em Ph.08 com as mesmas imagens reproduzidas noutros livros, percebemos de imediato a autoexpressividade - o diferencial- a engendrar-se, pois, na verdade, as fotografias já não são as mesmas, o que é provocado pelo arrancar do contexto anterior”. Aqui a filósofa toca num ponto que torna este Ph.08 bastante diferente de edições anteriores da mesma colecção - e que é a forma como Blaufuks dispôs as fotografias ao longo do livro, de uma forma mais conceptualizada e criativa que edições precedentes da Ph. Daniel Blaufuks aliás já referiu em tempos que acha mais estimulante fazer livros que exposições e isso sente-se neste Ph. Blaufuks tem construído séries, que por vezes percorre ao longo de vários anos, e recorrentemente produz visões diferentes do mesmo espaço - como o livro tão bem mostra. Estas séries, pessoalíssimas em vários casos, são uma das imagens de marca de Blaufuks e mostram a diversidade do seu olhar. A maneira como estão aqui apresentadas cabe dentro de uma frase de Maria Filomena Molder: “Baudelaire associou a fotografia ao poder de rememorar e arquivar, retendo aquilo que está à beira de ser destruído”.


 


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COMBINAÇÕES INESPERADAS  - “The Time Before”, de Melik Ohanian, é uma curiosa exposição que pode ser vista na Galeria Cristina Guerra até 25 de Junho (Rua de Santo António à Estrela 33). Ohanian é de origem arménia, nasceu em França em 1969 e tem trabalhado em Paris, onde é representado pela galeria Chantal Crousel.  Já expôs no Centre Pompidou e no Palais de Tokyo, foi o representante da Arménia na 56ª, Bienal de Veneza, em 2015 e participou nas bienais de São Paulo, Berlim e Sidney. Melik Ohanian começou a expôr em 1995 e está representado em numerosas colecções institucionais e privadas, sendo esta a sua primeira exposição em Portugal. Em “The Time Before” Melik Ohanian mostra vinte peças, todas elas já expostas noutros lugares, que na Galeria Cristina Guerra se apresentam de uma forma dupla - quer como peças individuais num espaço próprio, quer na relação que estabelecem com outras das obras ali apresentadas(na imagem). Outra exposição que vale a pena visitar em Lisboa está na Galeria Zé dos Bois (Rua da Barroca 59) e mostra até 31 de Julho 80 imagens inéditas do espólio do fotógrafo brasileiro Mauro Restiffe, comissariada por João Maria Gusmão e Natxo Checa. Trata-se da primeira grande exposição em Portugal do trabalho de Restiffe. São instantâneos da vida no Brasil, muito centradas na envolvente pessoal, familiar e social do fotógrafo e que constituem um bom retrato do que observou entre a segunda metade dos anos 90 e a segunda década do século XXI. Duas sugestões mais: Nuno Viegas na galeria Zaratan (Rua de S. Bento 432) e Joh, Jorge Humberto, na Trama (rua do Mirante 12).


 


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CANÇÕES DE ESPANHA - Luz Casal começou a ser conhecida internacionalmente quando cantou “Piensa en Mi” no filme “Tacones Lejanos”, de 1991, realizado por Pedro Almodóvar. Nascida na Corunha, foi em Madrid, nos anos da Movida, que Luz Casal alcançou fama e consolidou a sua reputação como uma das novas vozes do pop-rock espanhol de então, tendo gravado dezena e meia de álbuns. Agora com 63 anos decidiu fazer pela primeira vez um disco ao vivo, gravado com a sua própria banda e a Real Filarmonia de Galicia, em Julho do ano passado. Intitulado “Solo Esta Noche”, o álbum foi agora editado e inclui 15 dos seus temas mais conhecidos, gravados num concerto de duas horas  na Plaza del Obradoiro, no cenário imponente da Catedral de Santiago de Compostela.  Entre os temas que Luz Casal interpretou estão “Entre Mis Recuerdos”, o clássico “Historia de Un Amor”, “Besaré El Suelo”,  “Entre Mis Memorias”, “Te Dejé Marchar”, “No Me Importa Nada”, além do incontornável “Piensa En Mi” e uma extraordinária versão de “Negra Sombra”. Os discos ao vivo são sempre uma opção delicada e nem sempre correm bem. Mas este registo, com a opção tomada de incluir arranjos para orquestra, mantendo no entanto a formação que usualmente acompanha Casal nos seus espectáculos, proporciona novas sonoridades a temas conhecidos, que interpreta com uma grande intensidade. O disco encerra precisamente com “Negra Sombra”, um poema da escritora Rosalia Castro, de Santiago de Compostela, que Luz Casal cantou em galego. “Solo Esta Noche” está disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCOS ARGENTINOS - Quis o acaso que logo a seguir a ter passado um dia a ouvir Astor Piazzolla e as suas versões de tangos, fosse desafiado por um amigo argentino a conhecer um novo restaurante do seu país, em Lisboa. Chama-se Tinto & Brasa e fica junto ao jardim das Amoreiras, na Rua João Penha 30, frente às escadinhas que levam ao histórico Procópio. A lista é variada, baseada nas afamadas carnes argentinas, com os cortes tradicionais do país. Além disso há enchidos, semelhantes aos nossos mas com tempero e consistência diferente, como o chorizo  e a morcilla - mais suave que a nossa morcela preta, mais adocicada, uma boa supresa. Estes enchidos podem ser uma entrada, mas há outras como croquetas tinto & brasa com molho de alho, empanada criolla de carne, creme de abóbora com queijo azul e amêndoas fritas e até umas molejas na brasa servidas com sumo de limão e molho crioulo. Há também petiscos como escalopes de vitela panados, empadão argentino e várias sanduíches. Nos pratos principais reinam os cortes de carne argentina já referidos, sempre com molho chimichurri. Os acompanhamentos podem ser batata frita, vegetais de época assados ou salada. Ao almoço há um menu especial com prato do dia. A lista de sobremesas oferece também especialidades argentinas, entre elas  panquecas com doce de leite e, com sorte, um doce embalado, delicioso, o alfajor da marca Havanna que é um ícone do país - massa assada recheada e coberta de chocolate. Uma delícia. A selecção de vinhos também é boa - com destaque para o argentino Norton Clássico, da região de Mendoza. A sala é agradável e de dimensão média, convém reservar:  Tinto & Brasa, tel. 213 870 939.


 


DIXIT - “É uma ideia estúpida e o lugar dela é no cesto dos papéis” - Sérgio Sousa Pinto sobre a proposta de limitação de velocidade em Lisboa aprovada pelo PS e PAN.


 


BACK TO BASICS - “As pessoas sábias conseguem encontrar mais oportunidades que aquelas que lhe são oferecidas” - Sir Francis Bacon


 





maio 20, 2022

QUAL O PESO DA ARTE CONTEMPORÂNEA E DAS GALERIAS NA ECONOMIA?

 


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O PESO DA ARTE NA ECONOMIA - Até Domingo 22 decorrem em Lisboa duas feiras dedicadas à Arte Contemporânea - a ARCO Lisboa e a JUSTLX. Os dois eventos não são concorrentes entre si, antes complementares - e por acaso ambos nascem de organizadores espanhóis. A ARCO Lisboa, que assinala o seu quinto aniversário, é organizada pelos mesmos promotores da ARCO Madrid, uma das mais prestigiadas feiras de arte europeia, e a JUSTLX , na sua terceira edição, é promovida pela entidade que em Madrid criou a JUSTMAD. A ARCO Lisboa decorre na Cordoaria, engloba 65 galerias de 14 países, tem uma secção dedicada a novas galerias e outra à arte africana, além de um espaço de divulgação e venda de edições sobre arte. A JUST LX, na sua terceira edição, realiza-se no Centro de Congressos de Lisboa, em Belém (antiga FIL) e tem a presença de 28 expositores de vários países. Com estes dois eventos em paralelo e uma série de exposições relevantes em museus e galerias privadas, Lisboa tem uma semana dedicada às artes. E qual o peso da arte contemporânea e das galerias na economia? Por ocasião da LAAF (Lisbon Art and Antiques Fair), que decorreu recentemente, foi divulgado um estudo sobre o mercado de arte em Portugal, realizado sob a direcção de Adelaide Duarte, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O estudo aponta para a existência de mais de 70 galerias de arte em Portugal, a maioria dedicada à arte contemporânea, que no seu conjunto realizam mais de 250 exposições por ano com vendas totais estimadas de cerca de 47 milhões de euros e com um crescimento acentuado nos últimos anos de vendas online. Interrogadas sobre as principais medidas que gostariam de ver implementadas, as galerias inquiridas estabeleceram estes pontos como principais: promover incentivos fiscais para colecionadores, deduzindo aquisições em sede de IRS e IRC, melhorar a Lei do Mecenato, permitindo que a Arte possa ser um investimento para as empresas, promover políticas públicas de incentivo à compra de obras de arte, motivar o coleccionismo privado e institucional, aumentar o orçamento para museus no domínio da aquisição de obras de arte e da programação, criar uma rede intermunicipal de organização de exposições, investir na cultura e na educação, intensificar parcerias entre instituições museológicas com colecções privadas a fim de colmatar lapsos existentes nas colecções públicas, divulgar conteúdos ligados à arte contemporânea na RTP1, promover visitas a museus e a galerias, promover o gosto e o interesse pela arte e, em suma, democratizar o acesso à arte. Como vêem, não pedem subsídios, reivindicam apenas que o Ministério da Cultura tenha uma política que facilite e não dificulte o crescimento de hábitos culturais - uma raridade, como se sabe. Talvez o novo Ministro possa ter força política suficiente para convencer o seu colega nas Finanças de que uma política fiscal adequada pode ser fundamental para desenvolver sectores da economia, também na área da Cultura. Será que Pedro Adão e Silva vai conseguir fazer com Medina o que nenhum dos seus antecessores conseguiu?





SEMANADA - Dos quase 90 mil militantes inscritos no PSD apenas cerca de 45 mil têm as quotas em dia para poderem escolher o futuro líder do partido, entre Montenegro e Moreira da Silva; o cancro do pulmão é o que mais mata em Portugal e em 2020 foram diagnosticados 5415 novos casos; 80% das construtoras não conseguem preencher vagas para as obras e os baixos salários associados à exigência de qualificações são as principais razões para a situação existente; em dez anos o Estado não conseguiu vender uma única propriedade da Bolsa das Terras, criada para combater o abandono agrícola; a Lei dos metadados é ilegal desde 2009 e existem 163 mil pedidos de dados pessoais das tribunais às operadoras de telecomunicações feitos com base nessa lei; as bases de metadados das operadoras de telecomunicações estão sem fiscalização há cinco anos; no primeiro trimestre deste ano verificou-se uma perda média de poder de compra de 2,5%; os acidentes vasculares cerebrais foram em 2021 a primeira causa de morte em Portugal com cerca de 11.439 casos, seguido das mortes por Covid-19, com 7.125 óbitos; o Estado emprega agora 741.288 pessoas, mais 15.821 que no primeiro trimestre do ano passado, com um salário médio mensal de 1815,60 euros; no ano passado, deram entrada na Polícia Judiciária 705 novos processos de suspeitas de corrupção, um aumento de 42% em relação ao ano anterior; com o número de casos de COVID-19 a subir a linha SMS 24 atendeu mais chamadas até Maio do que em todo o ano de 2021; em média a Google acede aos dados de cada seu utilizador português 65 vezes por dia.





O ARCO DA VELHA - António Almeida Costa, membro do Conselho Superior do Ministério Público, e putativo candidato a juiz do Tribunal Constitucional, escreveu um texto contra o aborto em que apelida as experiências nazis de “investigações médicas”.


 


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O CONTRASTE ENTRE DOIS ARTISTAS - Uma das novas exposições que podem ser vistas em Lisboa está na Galeria Belo Galsterer (Rua Castilho 71 RC) e mostra o trabalho de dois artistas: Pedro Quintas  com um conjunto de acrílicos sobre tela com o título genérico “Vinco”, e Gwendolyn van der Velden, uma holandesa que vive e trabalha em Portugal há vários anos e que apresenta “Faces of Others”, um conjunto de retratos a aguarela de grandes dimensões. Bem diferentes entre si, estas duas exposições mostram a diversidade de estilos e propósitos dos dois artistas. Pedro Quintas explora formas geométricas compostas por linhas, riscos e vincos, com uma técnica nascida de trabalho e paciência, em diversos formatos - e para mim, de entre os dez trabalhos que Pedro Quintas expôs, os de menor dimensão são os mais aliciantes porque apelam a uma observação mais detalhada e obrigam a ser vistos de perto (como o da imagem). Já Gwendolyn van der Velden faz da força das expressões que transmite nos retratos o seu principal argumento, introduzindo um dramatismo intrigante. Pedro Quintas estudou no Arco, tem exposto regularmente desde 2002 e está representado em diversas colecções. Gwendolyn estudou na Academia de Belas Artes na Holanda, e trabalha e expõe em Lisboa desde 2009, explorando sobretudo o desenho sobre papel - estas aguarelas são claramente fruto da sua prática de desenho. Outras exposições a descobrir: Suzanne Themlitz na Galeria Vera Cortês, David Graham na Galeria Filomena Soares, Rui Calçada Bastos na Galeria Bruno Múrias, Isaque Pinheiro na galeria Insofar.


 


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MEMÓRIAS DO NOSSO TEMPO - No princípio deste livro está uma citação de Francisco Salgado Zenha: “Ninguém sabe o que é a Justiça, mas todos sabem o que é a injustiça”. O livro em causa é “Justiça, Política e Comunicação Social”, onde Daniel Proença de Carvalho relata as suas memórias enquanto advogado. A sua vida profissional é um cruzamento constante entre o  trabalho enquanto advogado e os cargos que desempenhou no sector da comunicação: director do Jornal Novo, presidente da RTP e do Global Media Group, fundador do “Semanário”, proponente no início da década de 90 de um  dos concorrentes à concessão de canais privados de televisão e ainda Ministro da Comunicação Social, anos antes, no IV Governo Constitucional. Ao longo de cerca de 370 páginas, Daniel Proença de Carvalho recorda ainda alguns dos casos a que esteve ligado enquanto advogado: a herança Sommer e António Champalimaud e os processos em que defendeu Manuel Rui Nabeiro, Leonor Beleza e Roberto Carneiro, entre outros. Mas escreve também sobre a relação que manteve com outros advogados que admirou, como Manuel João da Palma Carlos ou Salgado Zenha, “um homem de uma cultura superior” que “escrevia à primeira, sem precisar de corrigir”. O livro relata também os tempos que se seguiram em, 1974 e 1975, ao 25 de Abril e a intervenção que teve em diversos casos. Já no final Proença de Carvalho recorda o seu último combate político, contra a regionalização na altura do referendo de 1998. E, a terminar, relata o conflito que teve com o Procurador Geral da República, Cunha Rodrigues. O livro proporciona uma viagem, na escolha de temas e nas palavras do próprio, por períodos marcantes da nossa história recente- na justiça, na comunicação, na política. O texto final, “E o futuro?” bem pode ser lido como um programa para que Portugal progrida. Edição Bertrand.


 


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O TANGO  - Astor Piazzolla nasceu na Argentina em 1921, filho de pais italianos que foram viver para Nova Iorque, tinha ele quatro anos. Com apenas oito anos teve o seu primeiro bandonéon, oferecido pelo pai, e foi nos Estados Unidos que estudou música. Foi também em Nova Iorque que conheceu Carlos Gardel, o grande nome do Tango, quando Piazzolla, ainda miúdo, desempenhou o papel de um ardina que levava jornais a Gardel no filme “El Dia Que Me Quieras”. Piazzolla, que faleceu em Buenos Aires em 1992, é considerado o  compositor de tango mais importante da segunda metade do século XX mas, quando começou a fazer inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia, foi muito criticado pelos tradicionalistas. Em 1986 Astor Piazzolla aceitou o desafio de Hip Hanrahan, fundador da editora American Clavé, e gravou em Nova Iorque três discos com o Quarteto Tango Nuevo - onde o seu bandóneon era acompanhado por um baixo, violino, piano e guitarra. “Tango: Zero Hour” foi o primeiro desses três álbuns, os outros foram “The Solitude of Passionate Provocation” e “The Rough Dancer and the Cyclical Night (Tango Apasionado)”, este último construído como banda sonora para uma peça teatral baseada em textos de Jorge Luis Borges. Os três constituem a sua discografia na American Clavé. A Nonesuch, que herdou esse catálogo, reuniu agora os três discos numa edição especial onde se pode ouvir toda essa obra, um total de 28 temas, cerca de duas horas e meia de grande música - The American Clavé Recordings. Quer ouvidos de forma separada ou em conjunto estas três obras mostram bem a dimensão da revolução musical protagonizada por Astor Piazzolla. Disponível nas plataformas de streaming.


 


DIXIT -  "Na nossa elite política, ninguém acredita que a cultura e o conhecimento continuam a ser importantes para a sociedade em geral e para se perceber a política global" - Fernando Sobral


 


BACK TO BASICS - “Um quadro exposto nas paredes de um museu é alvo de mais opiniões ridículas que qualquer outra coisa no mundo” - Edmond de Goncourt


 


 


 

maio 13, 2022

O NOSSO GRANDE PROBLEMA

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GERAÇÃO DESPERDIÇADA - Nos últimos anos tem sido feito um enorme esforço em aumentar a qualificação de toda uma geração. Temos mais e melhores profissionais de diversas áreas fundamentais, por exemplo na saúde, na engenharia e na inovação. Mas muitos dos novos profissionais começam a trabalhar com remunerações objectivamente abaixo das qualificações que têm. Olham para a frente e não vislumbram perspectiva de progressão na carreira de forma estruturada e compensatória. Para muitos jovens portugueses qualificados, alcançar uma qualidade de vida semelhante à das pessoas da sua idade e formação noutros países é uma miragem. Estivemos anos a formar bons profissionais, ao mesmo tempo que nada fizemos para os incentivar a sentirem-se recompensados pelo trabalho que são chamados a desempenhar. O resultado é que muitos partem para outros países onde sentem que o esforço, o saber e a competência são recompensados. Este é talvez o maior problema que Portugal tem pela frente: está a desperdiçar uma geração que podia dar um contributo para a transformação do país. Todas as estatísticas indicam que o fosso salarial existente entre Portugal e outros países da União Europeia aumenta em vez de diminuir. A diferença entre o salário mínimo nacional e o salário dos que entram, qualificados, no mercado de trabalho reduz-se cada vez mais. A parte do salário mínimo aumentar é positiva, a parte de o salário inicial de profissionais qualificados não ter alterações sensíveis nem um progressão expectável é muito negativa. De que serve qualificar se não temos como beneficiar quem se qualificou? 


 


SEMANADA - Segundo a Ordem dos Médicos o número de queixas contra profissionais que realizam procedimentos estéticos tem vindo a aumentar desde 2021; o aumento do preço dos combustíveis não levou ao aumento da procura de bicicletas e comerciantes do sector dizem que as vendas estão abaixo do ano passado; a CP transportou o dobro dos passageiros no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano passado; em 2021 as viaturas médicas de emergência e reanimação do INEM estiveram inoperacionais quase sete mil horas devido à falta de tripulação; o preço do calçado deverá aumentar mais de 8% nos próximos meses, afirmam os industriais do sector; o Parlamento tem o mesmo número de deputados abaixo dos 35 anos e acima dos 65; dos 130 deputados, 75 são formados na área do Direito; escassas semanas depois do fim da obrigatoriedade das máscaras registam-se 27 vezes mais casos de covid-19 que há um ano; as queixas de atrasos no abono de família aumentaram 133%; no hospital de Seia quem  pretende ir a uma consulta de dermatologia tem de esperar 1301 dias; no hospital da Guarda quem pretende ser visto por um dermatologista terá de esperar 1041 dias; a TAP pesou 57% nos prejuízos de todo o sector empresarial do Estado em 2020; 33 empresas públicas têm capital próprio negativo e estão em falência técnica, entre as quais o Metro do Porto,  a TAP, a CP, e a STCP; apesar de Portugal ter a nona maior área de vinha do mundo, de ser o 10º produtor mundial de vinho, e ter o maior consumo per capita de vinho do mundo,  é o país que mais vinho a granel importa; no primeiro mês depois da invasão da Ucrânia, Portugal importou mercadorias da Rússia no valor de 153 milhões de euros, dos quais mais de 100 foram de produtos petrolíferos. 





O ARCO DA VELHA -  No caso da fuga de João Rendeiro o Conselho Superior da Magistratura isentou de responsabilidades os juízes, apesar deles  terem atrasado o início do julgamento e de o mandato de captura ter demorado  28 meses a ser emitido.


 


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JULIÃO  - “Abstracto, Branco, Tóxico e Volátil” é o título da primeira grande exposição de trabalhos de Julião Sarmento que se realiza após a morte do artista, ocorrida em 2021. O Museu Berardo recebe a partir desta semana e até ao fim do ano 121 obras de Julião Sarmento, distribuídas por 18 das salas do Museu, numa exposição com curadoria de Catherine David. A peça que dá o título à mostra,  “Abstracto, Branco, Tóxico e Volátil” (na imagem), é datada de 1997. Julião Sarmento trabalhou ainda com Catherine David nesta exposição, empenhando-se muito na sua concepção. O layout desta exposição e a disposição das obras nas salas foram finalizados dois meses antes da sua morte. É bom sublinhar que,  para Julião Sarmento, a instalação dos seus trabalhos no espaço era parte integrante das obras que expunha, pois considerava de capital importância a relação que se estabelece entre o trabalho, o espaço que o envolve e o espectador. Rita Lougares, directora artística do Museu Berardo, sublinha que Julião Sarmento “ foi um dos artistas portugueses com uma carreira internacional mais solidamente firmada, tendo construído um percurso artístico de enorme coerência, riqueza e intensidade”. E, destaca: “O artista foi muito influenciado pela cultura anglo-saxónica e pelos temas e imagens da literatura e do cinema, muito presentes nas suas obras através de citações e montagens. Em permanente renovação e em estreita ligação com as práticas artísticas da sua época, que vão do pós-pop até à atualidade, utilizou uma grande diversidade de meios e técnicas, como fotografia, pintura, colagem, desenho, escultura, performance e filme, para implantar um vocabulário conciso de imagens ambíguas”.


 


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UMA INVESTIGAÇÃO EM BARCELONA  - No início da pandemia deliciei-me com um policial espanhol, “Terra Alta”, que em 2019 valeu ao seu autor, Javier Cercas, o Prémio Planeta. No centro do livro está Melchor Marin, um polícia que em Barcelona  desmantelou uma rede terrorista islâmica e que, para sua própria segurança, foi colocado na Catalunha profunda, numa vila sem história chamada Gandesa. A pacatez do lugar foi sacudida por um assassinato, envolvido numa história de corrupção que tocava a própria polícia. Melchor deslindou o crime mas, pelo caminho, a sua mulher, Olga, morreu. “Independência- Terra Alta II”, é o seguimento dessa história, agora publicado em Portugal. Com a morte da mulher a solidão de Melchor nos confins da Catalunha acentuou-se. Pensou em mudar de vida, em deixar de ser polícia, em ser bibliotecário, que era a profissão de Olga. Foi no meio destes pensamentos que um dia adormeceu a ler um livro do nosso Eça de Queiroz, “A Ilustre Casa de Ramires” . Na manhã seguinte decidiu alterar os seus planos, não resistindo ao desafio de voltar a Barcelona para investigar um caso de chantagem: a Presidente da Câmara estava a ser ameaçada com a divulgação de um vídeo de teor sexual. Quem a ameaçava não queria dinheiro, queria poder manejar o poder. Esta investigação é sobre os círculos de poder, sobre as manobras de bastidores, sobre o que está em jogo numa cidade como Barcelona e numa zona tão rica como a Catalunha. A história envolve droga, grandes empresas, moedas virtuais e corrupção abundante. A escrita de Javier Cercas é dura, a construção da narrativa é envolvente e irresistível. Um policial excelente. A tradução é de Helena Pitta, para a Porto Editora.


 


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GUITARRADA - Aos 70 anos o guitarrista John Scofield editou agora o seu primeiro disco a solo. Com uma longa carreira ao lado dos melhores músicos de jazz, Scofield consolidou a sua reputação como um dos melhores guitarristas. Ao longo da sua carreira tem cruzado estilos musicais, do jazz ao rock, passando pelos blues e pela soul. Tocou com Miles Davis, Joe Henderson, George Duke, Herbie Hancock e com outros guitarristas como Pat Metheny ou Bill Frisell. Mas também tocou com os Grateful Dead, Mavis Staples, Dr. John ou John Mayer. Participou em mais de uma centena de álbuns com outros músicos mas este é o seu primeiro aĺbum a solo - um desafio quando falamos de um guitarrista que está habituado a tocar nota a nota, tendo alguém a acompanhá-lo. Scofield resolveu essa questão fazendo ele próprio overdubs que surgem em pano de fundo. Pessoalmente gosto de discos de guitarra a solo, e este é uma bela surpresa. Ao longo de quase uma hora Scofield interpreta 13 temas, a maioria versões, mas inclui dois originais seus. Alguns temas já tinham sido gravados antes por Scofield, mas surgem aqui em novas versões, como “Honest I Do” ou “Mrs Scofield’s Waltz”, “There Will Be Never Another You” e “Since You Asked”. Outros temas são clássicos, como “It Could Happen To You”, uma evocação dos seus tempos com Miles Davis, “My Old Flame” que antes tocou com Charlie Haden, “Danny Boy” , “Not Fade Away”, uma canção de Buddy Holly que Scofield tocou muitas vezes com os Grateful Dead, “You Win Again” de Hank Williams ou “My Old Flame”. Os dois temas originais são “Elder Dance” e “Trance du Hour”, uma homenagem a Coltrane onde surge a evocação de “A Love Supreme” na melodia.





TEMPO DE SALADAS - Tenho umas manias em matérias de saladas. Por exemplo, entre aquelas que vêm lavadas e embaladas, só suporto as de rúcula, que com tomate cherry cortado em metades pode ser uma possibilidade. Claro que esta rúcula está mesmo a pedir um salmão fumado cortado às tiras, bem temperado de sumo de limão e com um punhado de alcaparras por cima.  Mas experimentem acompanhar muxama de atum, cortada fina, com esta salada. Ou, mais simples ainda,  coloquem-na a namorar uma conserva de lombo de atum em azeite da marca Tenório.  Deixemos a rúcula e passemos para a tão maltratada alface. Devo desde já dizer que,  no que toca à salada de alface, prefiro-a natural, sem ser pré-preparada. Gosto dela cortada, em pedaços de média dimensão, salpicada por umas  rodelas de cebola roxa crua, temperada de forma generosa com sal, azeite e vinagre de vinho branco. Assim preparada, quanto mais fresca e estaladiça, melhor. É a salada ideal para acompanhar fritos - sejam filetes de pescada, sejam bifinhos panados cortados bem finos E para o fim deixo uma das minhas saladas preferidas - pepino cortado em rodelas muito finas, acompanhado por pedaçoss de tomate maduro, umas azeitonas sem caroço e cebolinhas de conserva, tudo temperado com um pouco de sal, azeite e vinagre- acompanha muito bem um peito de frango grelhado e fatiado e que no fim leva por cima um molho feito com sumo de limão, mel e pimenta preta. Bom apetite, o Verão é um desafio.


 


DIXIT - “Não são precisos mais milhões no Orçamento de Estado da Saúde. O que é preciso é saber gerir adequadamente” - Pedro Pita Barros, professor de Economia da Saúde na Universidade Nova


 


BACK TO BASICS - “Quem está sempre a falar, no fundo não quer ouvir os outros e não quer conversar” - ouvido num restaurante.


 





maio 06, 2022

HÁ QUEM ACHE QUE O IMPÉRIO SOVIÉTICO DEVE VOLTAR A EXISTIR

ESQUINA 874 - 6 MAIO 2022


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OS RUSSOS DE SETÚBAL  - O caso do acolhimento de refugiados ucranianos por activistas russos pró Putin na Câmara de Setúbal evidencia que ainda há quem considere  haver legitimidade para os russos controlarem os ucranianos, como se a Rússia tivesse ainda direitos e autoridade sobre a Ucrânia. Esta é a realidade: para a Câmara de Setúbal,  dominada pelo PCP, é natural que sejam servidores russos a organizar refugiados fugidos de um país que a Rússia reivindica como seu. O desejo de reconstituição do império soviético sobrepõe-se ao bom senso. Muita gente ainda encara como natural que membros destacados e influentes da Federação Russa, como Igor Khashin,  possam representar cidadãos de países que se libertaram do regime soviético e se tornaram independentes. Vai-se sabendo que o caso de Setúbal, gritante pelos dislates cometidos, é uma gota de água no oceano. Já nem vou buscar o triste episódio das denúncias da Câmara de Lisboa, na altura  dirigida por Fernando Medina, que passou nomes de opositores a Putin para a embaixada da Federação Russa. Mas recordo que o Alto Comissariado para as Migrações incluía em 2021, entre as associações que podem representar a comunidade ucraniana em Portugal, a Associação dos Imigrantes dos Países de Leste (EDINSTVO), dirigida por Igor Khashin que se gaba das suas boas relações com o Kremlin e com a embaixada da Federação Russa em Portugal. A associação Edinstvo, responsável pelo acolhimento de refugiados ucranianos em Setúbal, está envolvida numa outra polémica. Durante, pelo menos, cinco anos terá tido acesso à base de dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) através de um protocolo assinado com o Governo português. O que a Câmara de Setúbal fez resume-se a isto: vêm de Leste? Fogem da Operação Militar Especial? Queixam-se de terem sido invadidos? - então os camaradas do Kremlin têm que saber quem são, de onde vêm e o que fazem. Este é o triste raciocínio. E não é falta de bom senso ou ignorância. É apenas subserviência face a ditadores como Putin. Bem podem dar loas a Abril, mas na prática desconhecem o significado de Liberdade.


 


SEMANADA - No primeiro trimestre do ano foram controlados em Portugal 156 500 vôos, um aumento de 208% em comparação com o mesmo período do ano passado; 6057 pessoas morreram afogadas em Portugal nas últimas três décadas, das quais 38% tinham mais de 65 anos; as mulheres representam 7% do total de reclusos nas prisões portuguesas; mais de 2500 médicos e enfermeiros saíram do SNS nos anos da pandemia; só no ano passado emigraram 88 médicos, a maioria para países nórdicos; há mais utentes do SNS sem médico de família hoje do que quando o Governo tomou posse em 2015; só 11% das autarquias assumiram competências na área da saúde; a manterem-se os planos actuais a península de Tróia vai ter mais de 15 mil camas turísticas e residenciais; no primeiro trimestre do ano o fisco arrecadou por dia 123 milhões de euros em impostos; as tentativas de fraude informática aumentaram nove vezes em 2021; entre os 30 maiores beneficiários de fundos europeus relativos ao quadro comunitário do Portugal 2020 há 28 públicos e apenas dois privados; o programa Chave na Mão, que se destinava a incentivar e dar facilidades de alojamento a quem se mudasse do Litoral para um dos 165 concelhos de baixa densidade populacional, teve zero adesões; a idade média dos membros do novo Conselho de Estado é de 72 anos; Costa dixit: “Sócrates aldrabou-nos”.


 


O ARCO DA VELHA - A Entidade fiscalizadora do Segredo de Estado continua a funcionar em instalações sem condições de segurança física nem capacidade para informatizar os segredos de Estado, com apenas dois membros, e sem assessor jurídico.


 


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CLÁSSICOS REVISITADOS - Uma das exposições incontornáveis que neste momento podem ver em Lisboa está no Atelier Museu Júlio Pomar. Sob o título “Pintura de Histórias” a exposição tem 40 obras, maioritariamente pinturas, e mostra a forma como Júlio Pomar, desde a década de 80, deu mais atenção aos temas literários e trabalhou na exploração de histórias e figuras da mitologia clássica,  que fazem parte do património universal. Neste conjunto de trabalhos Pomar conseguiu com a sua pintura transformar as grandes histórias da humanidade em versões próprias, onde a visão das personagens se faz de acordo com a sua criatividade, com um forte cunho pessoal, com humor e irreverência. Com curadoria de Alexandre Pomar e Sara Antónia Matos, a exposição ficará patente no Atelier Museu até 2 de Outubro - Rua do Vale 7, Lisboa, de terça a domingo, entre as 10 e as 18. (Na imagem uma das obras fotografada por António Jorge Silva). A norte há também uma reinterpretação da antiguidade clássica -  Ana Jotta apresenta de novo em  Serralves as onze máscaras que fez no início deste século sob o título colectivo  “Mirmidão da Tragédia”. Estas onze peças são a interpretação que Ana Jotta fez de máscaras usadas na tragédia grega - os mirmidões foram soldados tessálicos que acompanharam Aquiles à Guerra de Tróia. As máscaras de Mirmidão da Tragédia tinham já sido mostradas em Serralves em 2005 na exposição retrospectiva “Rua Ana Jotta” e a nova exposição pode ser vista até 25 de Setembro. E para terminar, regresso a Lisboa, ao Museu Natural de História Natural e da Ciência onde Jorge Barreto Xavier expõe até 31 de Julho “Alice”, um ensaio fotográfico que se debruça sobre a pele, esse envelope do corpo.


 


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UMA AVENTURA NO MUNDO DO XADREZ - A “Diagonal Alekhine” é um daqueles livros que não se larga quando se começa a ler. A história começa a meio do Atlântico, no paquete Miracle, em 1940, quando Alexandre Alexandrovitch Alekhine, campeão do mundo de xadrez na época, vinha de Buenos Aires para Lisboa. Toda a história se baseia nos últimos anos de vida de Alekhine, nascido em Moscovo em 1892, falecido no Estoril em 1946, e que teve o título de campeão mundial de xadrez durante 17 anos. Conhecido pela sua forma de jogar agressiva, privilegiando o ataque, Alekhine, venceu o seu primeiro torneio aos 17 anos em São Petersburgo e ao longo da sua vida desenvolveu várias aberturas e jogadas que ficaram como referências do xadrez. A 24 de Março de 1946, numa manhã de domingo, Alekhine, foi encontrado morto no quarto 43 do Hotel do Parque, no Estoril, junto a um tabuleiro de xadrez com as peças na posição inicial. Tinha 53 anos e a sua morte continua ainda envolvida em mistério. Tinha uma personalidade irascível, fez muitos inimigos. “A Diagonal Alekhine,”, um livro agora editado relata os seus últimos dias e foca-se nos sete derradeiros anos da sua vida, não esquecendo as polémicas em que se envolveu e a sua rivalidade com outro mestre do Xadrez, o cubano Capablanca. Não é uma biografia, é uma aventura que segue a vida de um aventureiro. O seu autor, Arthur Larrue, professor de literatura francesa, expulso há poucos anos da Rússia pelas suas relações com intelectuais dissidentes, vive actualmente em Lisboa. O romance decorre com a intensidade de uma disputada partida de xadrez, joga a jogada, com todos os ingredientes de uma personagem consagrada pelo czar, perseguida por Estaline, chantageada por Goebbels e odiada por muitos praticantes do jogo. Uma leitura apaixonante. Edição Quetzal, tradução de Antonio Sabler.


 


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BLUES CLÁSSICOS  - Se gostam de blues, corram a descobrir este disco onde se reúnem dois grandes nomes da música da América, Taj Mahal e Ry Cooder, juntos numa homenagem a dois grandes bluesmen, Sonny Terry e Brownie McGhee. Há mais de 50 anos que Mahal e Cooder não gravavam juntos - em 1968 Ry Cooder foi o guitarrista convidado para o álbum de estreia de Taj Mahal. Apesar da amizade entre os dois e das numerosas colaborações que tiveram ao longo dos anos, só voltaram a encontrar-se num estúdio em 2021, com o objectivo confesso de homenagearem as duas figuras históricas dos blues que são uma referência incontornável para eles. Em “Get on Board: The Songs of Sonny Terry & Brownie McGhee” , Taj Mahal e Ry Cooder gravaram onze temas, repescados de discos e de gravações de actuações de Terry, na harmónica , e McGhee, na guitarra, Neste disco coube a Mahal a harmónica, a guitarra e o piano, e Cooder ficou com a guitarra e o banjo. O filho de Ry, Joachim Cooder, assegurou o baixo e a percussão. Ao longo das 11 canções que compõem o álbum é evidente o prazer e a alegria de Mahal e Cooder em fazerem as suas versões destes temas que conhecem desde a adolescência. Aqui podemos revisitar clássicos de blues como “Midnight Special”, “Deep Sea River”, “Pawn Shop Blues”, “I Shall Not Be Moved” ou ainda os deliciosos “My Baby Done Changed the Lock on the Door” ou “Drinkin’ Wine Spo-Dee-O-Dee”. Irresistível - e disponível nas plataformas de streaming.


 


PETISCO ALEMÃO - Meia dúzia de mesas no interior, uma no passeio, ao ar livre. Uma cozinha pequena onde um cozinheiro alemão, Ralf, confecciona todos os dias petiscos da sua terra, com respeito pela tradição. E na pequena sala, sempre atenta, Josiany explica o que esperar dos pratos com nomes germânicos e avança umas sugestões.  É o “Bistro Café do Alemão”, abre cedo para os pequenos almoços e depois começa a preparar o menu do almoço, que vai variando todos os dias. Ralph confecciona os seus próprios doces e salgados e ainda os diversos petiscos da refeição principal. No menu todos os dias há uma das variedades das deliciosas salsichas alemãs, com diversos acompanhamentos, desde puré de batata até cebola caramelizada, couve lombarda, ou couve roxa salteada. Nalguns dias da semana há o tradicional schnitzel, os escalopes de lombo de porco finos e bem fritos,  com batatas fritas ou batatas salteadas. Todos os dias há uma opção vegetariana, além das sopas, cremosas, de legumes, e das saladas que podem ser um prato principal. Nas sobremesas há um bolo de queijo alemão, um Apfeltaschen (massa folhada com recheio de maçã) ou um Creme de Canela com Ameixas em calda de Vinho Tinto. Há uma boa escolha de cervejas alemãs, a casa aceita encomendas para take away e encerra todos os dias às 16h30. Este é um daqueles sítios meio escondidos, com qualidade mas despretensiosos, que vale a pena conhecer. O “Bistro Café do Alemão” fica na Rua Artilharia Um, nº 98A e tem o telefone 211 347 808.


 


DIXIT - “Tenho grandes dúvidas sobre a importância de uma regionalização nesta altura. Entendo que há que mobilizar o país e não dividi-lo” - Ramalho Eanes


 


BACK TO BASICS - “Se o crime não compensasse, não havia criminosos” - G. Gordon Liddy